O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli; e, Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa

O livro de Henrique A. Orciuoli, dos dois aqui tratados o primeiro que li, está vazado numa prosa poética, que reproduz a simplicidade da poesia do biografado, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, infelizmente hoje em dia pouco lido e lamentavelmente difamado pelos seres que, além de desprovidos de talento poético, adoradores de imundícies escatológicas, odeiam o que há de melhor, mais valioso, mais belo, na cultura brasileira. A prosa do autor é em si mesma uma homenagem a Olavo Bilac. Conta-nos Henrique A. Orciuoli, numa prosa poética acessível a qualquer pessoa minimamente ilustrada, a angústia de Olavo Bilac, seu amor por Amélia, irmã de outro herói da poesia brasileira, Alberto de Oliveira, que, do mesmo modo que o autor de O Caçador de Esmeraldas, é ignorado pelos incultos e vilipendiado pelos que tiveram sua formação intelectual feita pelo que há de pior do que não sei se é certo chamar de literatura moderna. Olavo Bilac amava, apaixonada e doentiamente, Amélia, seu eterno amor. Noivaram o poeta e sua amada, também poetisa, e irmã de poetas, mas não chegaram ao enlace matrimonial por obra de Juca, irmão mais velho de Amélia, e da mãe dos Oliveiras, a viúva Dona Saninha. Os dissabores do poeta são angustiantes. Dói-se o coração de Bilac, alma sensível e imaginosa; e o poeta sofre até no leito de morte, Amélia a mover-se em sua imaginação, a agitar seu coração.

Além de falar da paixão de Olavo Bilac e Amélia, da hostilidade inexplicável de Juca, que não queria o casamento de sua irmã com o autor de Via-Láctea, Henrique A. Orciuoli reproduz poemas de Bilac e de Amélia, e dá notícia do embrião da Academia Brasileira de Letras, a casa dos Oliveiras, a “Engenhoca”, local privilegiado frequentado pela nata da cultura de então.

Resume a biografia, de um pouco mais de cem páginas, ao amor entre Bilac e Amélia, dedicando poucas palavras a outras atividades do Príncipe dos Poetas Brasileiro. Lê-se o livro como se lê um romance; aliás, é o livro um romance, um romance de personagens reais que enriquecem a história do Brasil.

Tem o livro de Osmar Barbosa, Olavo Bilac: Vida e Obra, dimensões, em páginas, próximas das do livro de Henrique A. Orciuoli, e, ao contrário do deste, não se prende ao romance de Bilac e Amélia. Apresenta um panorama mais amplo da vida do Príncipe dos Poetas Brasileiros. Dá notícia do nascimento dele, em ano em que se desenrolava a Guerra do Paraguai; e do seu tirocínio com o Padre Belmonte, e de seus estudos no Colégio Vitório; fala-lhe, rapidamente, da mãe, D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac, e do pai, Dr. Brás Martins dos Guimarães Bilac, que o queria médico e que dele se afasta devido à reprovável vida errônea e boêmia que ele, Bilac, prodigalizava na companhia de amigos. Fala, também, o autor do abandono, por Olavo Bilac, do curso de medicina, e de seu ingresso na Faculdade de Direito; e de sua amizade com Alberto de Oliveira, José do Patrocínio, Raul Pompéia, Artur Azevedo, Paula Nei, Emílio de Menezes, Coelho Neto; e da sua paixão por Amélia; e da sua admiração por Gonçalves Dias; e de suas viagens à Europa; e do seu encontro com Eça de Queirós; e de seu trabalho de inspetor escolar; e da sua participação na fundação da Academia Brasileira de Letras; e de suas conferências a favor do escotismo, do serviço militar obrigatório, da abolição dos escravos; e das adversidades enfrentadas porque desprovido de recurso pecuniários para se manter; e de suas prisões; e do seu envolvimento em duelos literários, em defesa de Gonçalves Dias, contra Lúcio de Mendonça, e na guerra entre parnasianos e simbolistas; e de sua ação a favor de José do Patrocínio e contra o Marechal Floriano Peixoto; e de seu reencontro, em 1910, na casa do Professor Hemetério dos Santos, que aniversariava, com sua amada Amélia de Oliveira, vinte e dois anos após o encontro anterior. E adiciona brindes ao leitor o autor Osmar Barbosa: algumas anedotas da vida do autor de Via-Láctea, a reprodução de uma crônica que o maior dos poetas parnasianos brasileiros escreveu acerca de seu encontro com Eça de Queirós, e um conto infantil, O Velho Rei, de autoria de Bilac.Os dois livros são de pessoas que admiravam Olavo Bilac.

Enquanto Henrique A. Orciuoli ocupa-se do amor, eterno amor, do Príncipe dos Poetas Brasileiros por Amélia, Osmar Barbosa fala de outras questões que lhe enriquecem a biografia. O primeiro foi bem-sucedido em seu objetivo ao concentrar-se no mundo do maior poeta parnasiano brasileiro, o mundo em que Amélia ocupava a mente e o coração do poeta; e o segundo, de escopo mais amplo, fez o tema do amor de Bilac por Amélia secundário. Ambos escritores de boa, bem cuidada, prosa, seduzem o leitor; transcrevem poesias de Bilac, e ensinam uma inestimável lição aos leitores: é impossível entender as poesias se não se conhecer a vida dos poetas. A poesia de Olavo Bilac é melhor compreendida se se conhecer suas atividades, e muito de sua obra poética alude à Amélia, sua Beatriz.

São O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli, e Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa, dois livros simples, que abrem aos amantes da literatura as portas que dão acesso à vida, ao coração do Príncipe dos Poetas Brasileiros. 

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