Prostituição Já!

Há poucos dias, uma bela atriz afirmou que, em decorrência das políticas culturais do governo Bolsonaro, restaria às atrizes a prostituição. Tal declaração é uma confissão, conquanto se queira com ela dar a entender o contrário, de que há tempos amealham os artistas fortuna, arrancando-se do bolso dos brasileiros um bom punhado de moedas, com trabalhos medíocres, e muitos deles destituídos de valor, que os brasileiros não compram; fosse diferente, os artistas promover-se-iam em atividades culturais privadas, aos brasileiros venderiam cada qual o seu peixe, e encheriam as burras de ouro; mas não é o que se vê; vivem de dinheiro público, que sai, sem controle, dos cofres públicos, pelo ladrão. Que o mecenato seja atividade louvável, ninguém há de negar, mas o que se discute é a distribuição de recursos públicos, que são escassos, aos artistas; sabe-se que quase toda a verba pública destinada à cultura escoa pelo ralo e vai desaguar nas contas bancárias de artistas milionários, e não nas mãos dos que, vivendo na rua da armagura, pedem um arrimo para alavancarem a carreira, que se encontra em seu estágio inicial.

A declaração da bela atriz me fez evocar um assunto que provocou, há um bom tempo, animada celeuma: a legalização dos serviços das mulheres de vida fácil, as que praticam a profissão mais antiga da civilização: a prostituição. Houve quem defendesse a legalização de tal serviço recebendo as rivais de Pompadour o direito a registro trabalhista, pois elas fazem a felicidade de garotos imberbes e de marmanjos barbudos, solteiros, uns, casados, outros, muitos dos quais, além de alguns poucos minutos, ou muitas horas, de ínfrene atividade lúdica, obtêm da contratada orientações psicológicas e espirituais e aconselhamentos conjugais, muitos varões, influenciados pelas carinhosas e maviosas palavras que delas ouvem, no himeneu clandestino, a renovarem seu amor pela esposa tão negligenciada. Pensando com os meus botões, pergunto-me como se daria a relação das beldades que fazem a felicidade dos homens carentes de afeto com o fisco, com a legislação trabalhista, com a Receita Federal, com os seus clientes e com os seus patrões. É um tema sério, demasiadamente sério, que desperta risos, comentários jocosos, e maldosos, e irônicos, e sarcásticos. É extraordinariamente complexo. Penso, agora, na relação das mulheres que exercem a mesma atividade de uma que recebeu, de Nosso Senhor Jesus Cristo, o perdão, com seus patrões, os cafetões. Imagino um ma cena: Uma mulher de vida fácil e o seu senhor, à mesa, a discutirem direitos trabalhistas: salário-hora, horas extras, adicional noturno, adicional periculosidade, décimo terceiro, filiação sindical, direito à greve, férias remuneradas, aposentadoria, e outras coisinhas mais. E ao fim da negociação vai o cafetão aos órgãos públicos competentes, federais, estaduais e municipais, registrar a sua empresa, obter o CNPJ e o alvará de funcionamento do estabelecimento comercial, localizado, este, em bairro nobre, numa rua de fácil acesso, e a contratar serviços de empresa de marketing e a divulgar sua empresa em revistas, jornais, emissoras de televisão e de rádio, e em sites. Agora, ao imaginar a relação de uma atraente e exuberante prestadora de serviços espirituais em negociação com seu cliente, vem-me à cabeça: a dedicada e responsável profissional apresenta-lhe documentos que lhe provam que ela não possui doenças venéreas, e compromete-se a, encerrado o serviço, emitir nota fiscal – com o valor que dele recebeu para ele abatê-lo do imposto de renda – de serviços de orientação psicológica, ou de aconselhamento conjugal, ou de terapia espiritual, ou de medicina ayurvédica, ou de serviços de massagem. Se o seu cliente é casado, assim ela insisite em fazer, mesmo que ele não o queira – afinal está ela a pensar, preocupada, no bem-estar físico, espiritual e psicológico dele – para que ele não se veja em maus lençóis, sob o risco de ter de se aborrecer com uma batalha judicial com sua querida e adorada consorte, que dele desejará arrancar a metade do patrimônio que ele arduamente acumulou.

E não me escapa à sagaz inteligência o direito que os clientes das formosas beldades têm de recorrer ao Procon caso a contratada – ou as contratadas – não execute à perfeição o serviço combinado. Ensina-nos o ditado: O combinado não é roubado. Cabe às prestadoras de serviços respeitar o estabelecido em contrato e entregar aos seus clientes o prometido.

Pergunto-me se os cafetões e as Messalinas irão se dispor a percorrer a via-crucis burocrática para legalizar seus empreendimentos comerciais.

Não sei o que o futuro reserva para as atrizes que hoje lamentam a indiferença do presidente Jair Messias Bolsonaro, que, dizem, está a destruir a digna e valiosa cultura – cujas obras mais significativas são Macaquinhos e Golden Shower – que herdou dos que, antes dele, nos últimos quarenta anos, carregaram a faixa presidencial, mas, tendo-se aos olhos da minha imaginação a bela estampa de muitas delas, de fome, sei, elas não morrerão.

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