O Capitão dos Andes (História Pitoresca de um Caudilho) – de Raymundo Magalhães Júnior

Prendeu-me este livro a atenção, e desde a primeira página. E com a leitura, interrompida poucas vezes para a execução de algumas atividades, e para dormir uma noite, aumentava o meu apreço pelo livro, que me surpreendeu favoravelmente, e pelo autor, que se me revelou um escritor primoroso, dotado de recursos literários que lhe permitem o controle da narrativa, a correta exposição da trama, e a exibição das personagens, que se revelam em sua integridade. Pediu-me, melhor, exigiu-me, o livro leitura dedicada, atenta, o que nenhum esforço me custou, afinal, além de escrito com esmero, não descarrega informações que em nada o enriquecem. E não moveu o autor a pretensão de escrever uma obra imorredoura; ele se limitou a romancear um fato histórico sucedido, em meados do século XIX, na Bolívia.

É O Capitão dos Andes (Histórica Pitoresca de um Caudilho) um romance histórico. É pitoresca, e patética, ridícula, tragicômica, a história de Dom Manuel Mariano Melgarejo, que é identificado ora como Dom Mariano, ora como General Melgarejo. A aventura se deu em meados do século XIX, o Brasil então sob o Império de Dom Pedro II. Político aventureiro, de mentalidade totalitária, bate-se Dom Manuel Mariano Melgarejo, numa guerra caudilhista, com Isidoro Belzu e é por ele derrotado. Seu inimigo não era flor que se cheirasse. E Dom Manuel Mariano Melgarejo não se lhe sobressaía em virtudes. Embora suplantado em combate pelo seu rival, acaba por eliminá-lo numa ação arriscada, temerária, surpreendentemente bem-sucedida: o da invasão do Palácio do Governo, em La Paz, empregando artifícios grosseiros que se lhe revelaram favoráveis.

Após assumir o poder na Bolívia, Dom Manuel Mariano Melgarejo empreende ações que lhe satisfazem as ambicões totalitárias. Conhece Juanita Sanchez, moça de atrativos que o seduzem, e ele, mesmerizado pela beleza de tal moça, pobre, órfã de pai, vivendo com a mãe, na companhia de um irmão e uma irmã, e que vivia da pouca renda que auferia de um botequim, adota-a como a sua preferida, convertendo-a na Dona Juanita Sanchez, a única pessoa que tem o poder de lhe impor a vontade e impeli-lo a reconsiderar algumas de suas ações assassinas. Não demora muito tempo, enfrenta sedições, que nascem da urdidura conspiratória de Castro Arguedas (e de outros aventureiros), que o confronta em batalha sangrenta, e o derrota.

À medida que amplia-se o seu poder com a eliminação de seus adversários e com a subjugação da aristocracia de La Paz, Dom Manuel Mariano Melgarejo intensifica a política plenipotenciária, massacra os dissidentes, rouba aos nativos suas terras, deporta os insubmissos, dissipa os recursos públicos, humilha o povo; todavia, na mesma proporção do seu ganho de poder aumenta o descontentamento da população, que deseja alijá-lo do Palácio do Governo, mas que, sem os meios para empreender a ação que resultará em tal ato, resigna-se. E sucedem-se as expropriações de propriedades e de terras, sob a responsabilidade do General Antezana, que, na sua caça aos índios, invade território peruano, criando um incidente diplomático com o governo peruano. No uso da força, conquista Dom Manuel Mariano Melgarejo a lealdade da imprensa. E seguem-se as orgias, as bebedeiras, no Palácio do Governo. E para agradar Dona Juanita Sanchez, que deseja brilhar na alta sociedade, aritocrática, de La Paz e comprar-lhe jóias e vestidos suntuosos, confisca propriedades e arquiteta uma tama, que consiste numa falsa acusação de conspiração contra os aristocratas de La Paz que não se lhe haviam curvado, submissos. E tão bem urdida, que os subjuga. Após ameaçar matá-los, finge atender às súplicas das esposas deles, e liberta-os.

Tem, agora, Dom Manuel Mariano Melgarejo, os aristocratas sob sua vontade, todos a se genuflexionarem diante dele, reverentes e amedrontados, e de Dona Juanita Sanchez, que passa a ser admirada pelas aristocratas, que antes a desdenhavam. E seguem-se as deportações dos inimigos do governo. E os massacres. E os fuzilamentos.

Ao mesmo tempo que se dedica às negociações com o Conselheiro Lopes Neto, representante do Império do Brasil, acerca das demarcações fronteiriças entre a Bolívia e o Brasil, Dom Manuel Mariano Melgarejo, antes de convocar uma Assembléia Constituinte e votar nova constituição (que perderia validade logo após promulgada, pois ele considerava-a um empecilho à sua ambição de exercer plenos poderes), eliminou da vida pública, com exílio ao Chile e ao Peru, e à morte, seus adversários. Promulgada a Nova Constituição, que ele revogou após um louco atacá-lo, aproveitou, sem titubear, do incidente, e gritou aos quatro ventos que havia contra seu governo uma conspiração, que ele cuidou abortá-la em seu nascedouro. E seguiram-se massacres, fuzilamentos, expropriações de terras. E sublevações de índios. E sedições.

O povo, massacrado, humilhado, na iminência de ser dizimado, encontra forças, que se acreditava inexistentes, para reagir contra Dom Manuel Mariano Melgarejo, o homem que o maltratava com crueldade diabólica e de quem a imprensa local escrevia hagiografias.

A história do caudilho boliviano revela o que há de mais tétrico, de mais asqueroso, de mais repulsivo, de mais condenável, de mais insano, de mais doentio, na alma dos homens dotados de mentalidade revolucionária, totalitária. Narra a vida de um homem que, na presunção de entender-se um ser superior, uma entidade privilegiada provida de poderes divinos, dotado do poder de governar o mundo, revela-se, não o ser supremo que ele pensa ser, mas um sujeito reles, minúsculo, desprezível, patético, ridículo, o suprassumo da animalidade humana. É Dom Manuel Mariano Melgarejo um emblema do caudilho e de todos os homens que almejam o poder absoluto.

Merece O Capitão dos Andes (História Pitoresca de um Caudilho), de Raymundo Magalhães Júnior, leitura atenta e divulgação. É livro de escritor consciencioso. De leitura agradável. E instrutivo.

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