Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail – 1975) – direção: Terry Gilliam e Terry Jones

A cavalgarem cavalos imaginários, que trotavam ao som de batidas de duas metades de casca de côco, Rei Arthur (Graham Chapman), secundado pelo seu servo Patsy (Terry Gilliam), chega ao castelo cujo dono é sabe-se lá quem. E numa retórica sofística elevada à enésima potência o rei bretão e um guardião do castelo palestram, o guardião no topo do muro, o rei, do lado de fora do castelo, ambos a exibirem oratória de grande fôlego, acerca de cavalos, côcos e andorinhas migratórias. E não demora muito, o rei de Camelot depara-se com camponeses mal-ajambrados, um deles a exercitar seu conhecimento político anacrônico, de luta de classes e sindicalismo e cooperativismo anárquico, ou coisa que o valha, e o faz com tal segurança, que se revela digno ancestral dos revolucionários que puseram a civilização, a partir do século XIX, de pernas para o ar – ele teria registrado seu nome na história das revoluções se algum historiador houvesse se dignado a registrar-lhe os pensamentos e se ele contasse com um razoavelmente bem aquinhoado padrinho que lhe patrocinasse as aventuras intelectuais.

E não muitos passos depois, o rei Arthur testemunha uma sofisticada disputa filosófica envolvendo Sir Bedevere (Terry Jones) e súditos do rei, andrajosos e mal-cheirosos, e cujo tema era o estatuto ontológico de uma bela jovem, que, para os que a acusavam de bruxaria, era uma bruxa, daí desejarem eles queimá-la viva, torrá-la ao fogo de uma fogueira, mas que para Sir Bedevere, dono de inexcedível talento lógico, de embasbacar e queixocair todo bípede implume, usando de filigranas silogísticas tão sutis que escapam ao comum dos homens, talvez não fosse o que diziam os acusadores dela o que eles diziam que ela era, mas era ela um pato de madeira que flutuava à superfície das águas porque tal qual uma bruxa podia queimar se lhe ateassem fogo – se entendi corretamente o raciocínio de Sir Bedevere, que fez o papel de um Sócrates redivivo, a usar com desenvoltura invejável a maiêutica que o ilustre sábio grego criara com a sua oracular ignorância, virtude do mais sábio dos homens, segundo a pitonisa de Delfos – infelizmente, os bretões, no século do Rei Arthur, não contavam com o gênio de Platão para registrar capítulo tão emblemático da história da civilização; felizmente, todavia, contavam com o Monty Python, que, sem se fazer de rogado, se encarregou de registrá-lo, e o fez com a seriedade dos historiadores clássicos. Se não entendi a substância do embate filosófico conduzido com maestria por Sir Bedevere, e é provável que eu não a tenha entendido, Sir Bedevere, no seu confronto dialético, lógico e metafísico e silogístico com os que lhe apresentaram a suposta bruxa, fê-los concluir que ela era bruxa porque, sendo o pato de madeira, suscetível de, exposto ao fogo, queimar, flutuava tal qual as mulheres, ou, então, estou a aventar outra explicação para a cristalina exposição lógica peripatética, socrática e escolástica de Sir Bedevere, são os patos bruxas porque a mulher, de madeira, além de flutuar, queima; ou, então, a mulher, de peso equivalente ao do pato de madeira, flutua, portanto, queima tal qual uma bruxa; ou, então, a madeira, que flutua, e queima, e pode ser usada na construção de pontes, que também podem ser de pedra, tem peso correspondente ao do pato, que, sendo mulher, é uma bruxa.

O leitor, ao ler as palavras do parágrafo anterior, que antece as deste que ora lê, concluiu, eu sei, que me deparei com tão sofisticada e complexa questão filosófica que sou incapaz de reproduzi-la em sua essência.

E depois de o Rei Arthur, e Patsy, seu servo, e Sir Bedevere, e os cavaleiros, que se juntaram à trupe de Camelot não sei quando, Sir Lancelot (John Cleese), Sir Robin (Eric Idle) e Sir Galahad (Michael Palin), enfrentarem, à boca de uma caverna, um coelho demoníaco, e depararem-se com os Cavaleiros que Dizem Ni, e encontrarem o feiticeiro Tim, e construírem um Coelho de Tróia, e chegarem ao castelo Aarrgh, e confrontarem o Cavaleiro de Três Cabeças – não necessariamente nesta ordem -, e superarem outros obstáculos intransponíveis, encerra-se o filme.

“E o Cálice Sagrado?!”, pergunta-me o leitor. “O Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda encontraram o cobiçado Cálice Sagrado?” Que fim levou o Cálice Sagrado tão desejado pelo rei bretão e seus fiéis cavaleiros, eu sei; melhor, acredito que sei.

É Monty Python em Busca do Cálice Sagrado iconoclasta, irreverente, disparatado, anárquico. Uma aula de história da Grã-Bretanha da era o Rei Arthur, acredite o leitor.

Ah! Esquecia-me. Se as andorinhas migram, então elas são africanas, e não européias, desde que carreguem côcos.

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