Paçoca de Amendoim e Pamonha de Milho

Confesso que não sei se o que eu envio para dentro de meu estômago voraz – glutão é meu estômago, e não eu – é o que eu acredito que seja. Não sou de acreditar na veracidade das informações inscritas nos rótulos dos produtos alimentares dos quais retiro substâncias, que não sei quais são, que me servem de energia para manter o corpo a funcionar a pleno vapor; aliás, eu sequer leio os rótulos; dos poucos que eu li, conclui que as informações que trazem coisa nenhuma me esclarecem, e de nada me servem; lendo-os, não venho a saber se são os produtos amargos, azedos, agridoces, se atendem ao gosto do meu paladar; sei, apenas, que são os produtos compostos de coisas, que eu não tenho a mínima idéia do que sejam, de nomes impronunciáveis umas, outras de nomes copiados dos de personagens de desenhos animados.
Há um mês comprei paçoca, e, assim que cheguei em casa, comi, dela (da paçoca, e não da minha casa), um bom bocado – estou a me perguntar desde então se os ingredientes dela eram amendoim, sal e açúcar, ou serragem, pó de carvão e fumaça de pedregulho. De amendoim sequer o cheiro eu senti. Que havia sal naquele pó, havia, acredito, mas não estou certo se era sal, mesmo, ou minúsculos cacos de vidro, do tamanho de grãos de areia. E se a pamonha que eu comi não sei há quantos dias era de milho, não sei. Pareceu-me aquela massa massa de modelar amarela – dessas com as quais as crianças do jardim-de-infância brincam – banhada em chá de inhame e batata, e os pedaços de queijo que a recheavam, poucos, giz encharcado. Esquecia-me: a mais famosa pamonha é a de Piracicaba. E o pão de leite que eu comi dia destes não continha leite, nem um pingo sequer, acredito. Eram os seus ingredientes, suspeito, cal, terra, pó de grafite e folhas de sulfite brancas desfeitas em água. E há não muitos dias comi um pedaço de rapadura, que era, assim penso, lama prensada, que se me tornou digerível após eu lhe adicionar uma boa quantidade de açúcar de cana, cana-de-açúcar, uma das riquezas brasileiras. E hoje mandei para dentro de meu estômago uma goiabada cujos ingredientes eram, presumo, chuchu – ou é com “x”? – berinjela – com “j” ou com “g”, não sei -, casca de banana nanica, espiga de milho e fígado de boi (ou de vaca, sei lá).
Com o propósito de documentar para a posteridade aspectos da saudável culinária dos tempos modernos, registro, com a seriedade que me é habitual, as palavras que o leitor leu, com a atenção que o assunto pede, nas linhas acima desta. É este meu texto um documento de valor histórico, valioso, inestimável. E não posso encerrá-lo sem dizer o seguinte: Aquela coxinha de frango que na semana passada eu comi tinha jeito de ser uma perna de sapo.

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