Olimpíadas 2.052: O Último Atleta Atlético.

Notícia do Jornal Paraíso do Universo Novo, edição vespertina: A Humanidade Livrou-se da Última Quimera.

Realizou-se, hoje, às oito da manhã, no estádio A…, a mais aguardada prova do atletismo global, a dos cem metros rasos, da qual participaram três atletas de beleza mesmerizante e um exemplar de uma era que exala os seus últimos suspiros, de uma era que, para a felicidade dos humanos, está nos estertores da morte. Neste memorável dia, em todos os cantos do mundo, bilhões de pessoas assistiram a tão desejado espetáculo esportivo, evento grandioso que, além de apresentar ao mundo três esportistas excepcionais, os maiores que a civilização humana jamais conheceu, exibiu uma anomalia da natureza, um ser bizarro, comum na era incivil e bárbara, bruta e estúpida, que se esvai rapidamente, e está próxima a sua extinção, Tlob Niasu, um homem dotado da nefasta masculinidade tóxica. É Tlob Niasu um ser monstruoso, disforme. Tem um metro e oitenta e cinco centímetros de altura, e pesa oitenta e oito quilos; seu corpo, horrivelmente ossudo; sua figura, hedionda, de provocar asco em todas as pessoas. É ele uma criatura horripilante, de braços e pernas recortadas de músculos monstruosamente definidos, músculos a constituírem uma grotesca estátua de carne, e de um tronco desprovido da flacidez das belas e formosas pessoas do nosso tempo. É Tlob Niasu um espécime de tipos humanos de uma era que os humanos desejamos esquecer; é ele de uma era fadada à extinção – para a felicidade e a harmonia universais. É ele o último exemplar do tempo de irracionais bípides implumes. Os outros três competidores são atletas notáveis, donos de invejáveis talentos atléticos e intelectuais, e psicológicos e espirituais. São eles 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8. São os três modelos perfeitos de beleza física. Tem 0/21/32-3 um metro e sessenta e cinco centímetros de altura; seu corpo é composto de uma espessa camada de gordura de uma beleza ímpar a formar dobras excepcionalmente belas; tão forte, tão poderoso, de uma força descomunal, carrega os duzentos e quarenta e seis quilos de seu corpo com a destreza do deus da velocidade; nas suas coxas poderosas, as camadas sobrepostas de rica gordura sob pele de textura macia cobrem suavemente os joelhos. 6/33-3, homem de corpo esférico, desprovido de pescoço, é de uma robustez e poder titânicos de embasbacar todo ser mortal; os seus duzentos e sete quilos compactados num corpo de um metro e cinquenta e quatro centímetros de altura dão-lhe uma consistência invejável. E o terceiro dos formosos atletas, 0-0/6-30/8, dos três o mais atraente, carrega um corpanzil extraordinariamente gracioso e bem torneado, de um metro e sessenta centímetros de altura e duzentos e sessenta quilos, adornado com um ventre bojudo, extraordinariamente saliente, belamente arredondado, como que esculpido pelo mais talentoso dos escultores. A beleza destes três maravilhosos e belos atletas contrastam com a feiúra apolínea de Tlob Niasu, um tipo repugnante, tipo que, felizmente, é o último espécime de uma era bárbara, a de nossos mais próximos ancestrais, seres inferiores, que muitos defeitos nos legaram, defeitos dos quais estamos a nos livrar, para o bem da humanidade.

Na pista de corrida, os três formosos e elegantes atletas e o bárbaro desgracioso, que exalava a sua monstruosa masculinidade tóxica da era patriarcal, que desconhecia a verdadeira essência da humanidade. Na arquibancada, multidão alvoroçada a ovacionar os três atletas e a apupar o bizarro bípede que insistia em exibir seu corpo seminu, desgracioso, repulsivo, de causar engulhos aos humanos. Exercitavam-se os quatro competidores, Tlob Niasu a erguer acima da cabeça os braços esquálidos e defeituosos, e a entrelaçar os dedos da mão direita com os da mão esquerda, e a mover o corpo esguio, desgracioso, de um lado para o outro, exibindo a flexibilidade corporal desavergonhada, e a estender as pernas, ora a direita, ora a esquerda, inclinando-se para a frente, e a segurar a ponta do tênis com as duas mãos, numa grotesca, asquerosa exibição de movimentos corporais, que lhe destacavam os músculos disformes do corpo esquálido. E 0/21/32-3 massageava, lentamente, com gestos suaves e elegantes, suas bochechas rechonchudas e rosadas e emitia, com sua bela voz de tenor, argentina, um canto melífluo; e 6/33-3, deitado, girava-se de um lado para o outro, compenetrado em bater, com a palma da mão direita a costa da mão esquerda, e com a palma da mão esquerda a costa da mão direita; e 0-0/6-30/8 careteava maravilhosamente e massageava, com movimentos circulares das mãos, as duas em sentido ora horário, ora anti-horário, ora cada uma seguindo um sentido, alternadamente, seu ventre formoso.

O árbitro da partida pediu aos quatro corredores que se aproximassem da linha de início, e Tlob Niasu, celeremente, numa postura deselegante, condenável, recompôs-se, correu até o ponto que lhe estava reservado, e, enquanto esperava os três atletas ajeitarem-se cada qual ao seu local de direito, saltitava, grosseiramente, a balançar, repulsivamente, seus músculos repugnantes. Vaiou-o a multidão presente. E ele, espécime bizarro de uma era bárbara, não se constrangeu; arrogante, persistiu em exibir sua grosseira agilidade e sua flexibilidade corporal desgraciosa. E os quatro competidores posicionaram-se cada qual no lugar que lhe estava reservado. E o árbitro da corrida disse-lhes que se praparassem para o início da prova, que se daria assim que o lenço branco, que ele segurava com a mão direita – e que ele soltaria – atingisse o chão. E o estúpido Tlob Niasu uma vez mais revelou-se um tipo desprezível, o que não surpreendeu ninguém; curvou-se para a frente, estendeu os braços, e pousou os dedos, as mãos abertas, os dedos distantes uns dos outros, no chão, sem no chão encostar as palmas das mãos, e estendeu a perna esquerda e dobrou a direita, preparando-se para correr. E o árbitro soltou o lenço; e o lenço atingiu o chão. E em menos de dez segundos, Tlob Niasu cobriu os cem metros, e rompeu a faixa vermelha que indicava a linha de chegada. Apuparam-lo todos os humanos presentes no estádio. Ridícula, patética, a atitude do bárbaro pretensioso. Ele ergueu os braços e sorriu, feliz, a cantar vitória, imerecida vitória. Os três atletas, numa postura digna e louvável, soltaram-se, elegantemente, no chão, e serenamente esbravejaram e esgoelaram-se, num misto de raiva e indignação, e liberaram de seus olhos belos lágrimas cristalinas, que reluziram ao sol. Dos organizadores da prova o público exigiu regras justas. Os organizadores da prova num erro imperdoável ao estabelecer regras que favoreciam, criminosamente, o monstruoso, disforme Tlob Niasu. Ao confabularem durante cinco minutos, reconheceram que outra corrida os quatro corredores teriam de realizar, agora sob regras justas, e desculparam-se com o público, num tom de voz que deles transparecia constrangimento. Ponderaram: 0/21/32-3 correra cinco metros e sessenta centímetros, e 6/33-3 cinco metros e setenta centímetros, e 0-0/6-30/8 cinco metros e sessenta e oito centímetros, no mesmo tempo que o desprezível portador de masculinidade tóxica, Tlob Niasu, cobrira os cem metros; a prova nova, portanto, atendendo aos princípios elementares da justiça, contaria com regras que não favoreceriam Tlob Niasu: assim que o árbitro soltasse o lenço, e o lenço atingisse o chão, os três exímios e talentosos atletas, 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8 correriam com toda a velocidade que suas poderosas e formosas pernas lhes permitiriam, e assim que atingisse, o primeiro deles, os noventa e cinco metros, o árbitro daria sinal para Tlob Niasu correr. E assim foi feito. E o bárbaro, desprezível Tlob Niasu, numa exibição asquerosa de sua masculinidade tóxica, ultrapassou os três heróicos atletas, e rompeu, antes deles, a faixa vermelha que indicava os cem metros. E os três atletas, com a elegância de movimentos que lhes fizeram a fama, soltaram-se, no chão, indignados, enfurecidos, e justamente indignados e enfurecidos, e gesticularam bravamente, os olhos marejados de lágrimas de descontentamente com a injustiça que os vitimou, e clamaram, heroicamente, por condições competitivas mais justas. E o público vaiou Tlob Niasu, que comemorava a vitória imerecida, vitória que obtivera sob regras injustas. A sua alegria não durou muito tempo; logo foi ele obrigado a suprimir do rosto o repulsivo, deselegante sorriso. Reuniram-se os organizadores da prova uma vez mais para deliberarem novas regras competitivas. Ao encerramento da palestra, ele anunciaram as novas regras, estabelecidas após reconhecerem que não haviam, ao definirem as regras da segunda corrida, um detalhe, que não consideraram na equação: os três ágeis atletas se esgotariam durante o esforço de correrem os noventa e cinco metros, perderiam fôlego, desacelerariam o avanço rumo à vitória, e não correriam os cinco últimos metros da prova em tempo que lhes permitisse sobrepujar, em condições de equivalência competitiva, o adversário horrível e inescrupuloso, Tlob Niasu, resquício horripilante de uma era bárbara, incivil.

Agora, estabelecia-se a regra justa: 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8 principiariam a corrida, após o lenço que o árbitro soltaria, atingir o chão, na linha que indicava noventa e nove metros da pista, um metro antes da linha de chegada, enquanto o desprezível Tlob Niasu principiaria a sua jornada rumo à humilhação pública no ponto inicial. O público vibrou de emoção, eufórico. Assobiaram, felizes, alegres, contentes, as pessoas presentes na arquibancada. Elas reconheceram a justeza das regras. Aplaudiram, estrondosamente, os organizadores da prova, homens que, enfim, dever cívico incontornável a iluminar-lhes a mente, elaboraram regras justas, humanitárias. E deu-se a largada. E os três fenomenais, excepcionais atletas sobrepujaram, com incrível, impressionante facilidade, o desgracioso Tlob Niasu, homem desprezível, dele exibindo para todo o mundo a ausência de talento para o exercício de esporte tão nobre.

Foi premiado com a medalha de ouro 0-0/6-30/8, com a de prata 0/21/32-3 e com a de bronze 6/33-3. Ovacionou-o o público alvoroçado, eufórico. E Tlob Niasu, de cabeça baixa, semblante entristecido, de um homem inferior, de um tipo desprezível, retirou-se do estádio, sob vaias tempestuosas da multidão, que aplaudia os três heróis do atletismo global.

Minutos após o encerramento do grandioso espetáculo esportivo, Tlob Niasu reapareceu em público, exibiu sua carcaça putrefata, de homem incivil, horrível e repulsiva, de uma esqualidez cadavérica, repugnante, pálida, de olhos fundos, sem vida, e anunciou a sua aposentadoria. Disse, num tom de indisfarçado orgulho ferido, ególatra que é, que se recolheria à sua casa, e dela jamais se retiraria, e o fez num tom que dava a entender que os humanos, e não ele, perderíamos com tal decisão. E recolheu-se o ilustre ser das trevas aos bastidores. Oxalá ele jamais se exiba ao público! Os humanos não desejamos ter diante dos olhos a figura dele, figura disforme, anômala, que nos fere em nossa sensibilidade superior. O mundo estará melhor sem ele, e sem ele poderá progredir até atingir a perfeição à qual está predestinada.

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