Comprando alpiste – Mensagem do Barnabé Varejeira

Cérjim, depois da chuvarada dos úrtimo dia, hoje, ansim que o galo cantô, o sór despertô, e com vontade, muinta vontade. E tá de rachá a cabeça de todo fio de Deus, e até cabeça de tatu. E tatu tamém é fio de Deus, ora bolas! Tá um sór bonito, que só veno. A chuvarada troce vento (ou os vento troce a chuvarada, não sei), que derrubô duas arvre, e das grande. Sorte que não caíro as árvre em arriba da casa de ninguém; uma delas atingiu a casa dos cupim, mas casa de cupim, forte, aguentô a pancada.

Saí hoje cedo, bem cedo, pá í à cidade. Antes de saí de sob o teto que me guarda à noite enquanto gozo do sono dos justo, com a mia consorte ao meu lado, e os meu fio nos otro quarto, bebi do leite com café que a patroa me preparô com todo o carinho do mundo e comi de um pedaço de bengala, que tava uma gostosura. Com o meu primo Bernardo, fui à cidade, de carro. Meu primo dirigiu a geringonça, que tá caino aos pedaço. Eu já falei, inúmeras veiz, pa ele trocá de carro, mas ele não qué nem pensá em tar idéia; ele me disse inúmeras veiz que há de morrê com aquela geringonça, vái levá ela po túmulo. Que ansim seja. A decisão é dele; minha não. Ele é que vai gastá uma dinheirama pá fazê um caixão que caiba ele e o tatu-gasolina. Eu, por mim, dava fim àquele calhambeque; mas o Bernardo é quem decide; o carro é dele.

E fomos, então, meu primo e eu à cidade comprá lâmpa, e, pô trator, óio díser. Távamos meu primo e eu passano à frente dum açogue quando me alembrei de que não tinha eu em casa arpiste pô canarinho, canarinho-da-terra. “Eu tô na cidade, mermo, então vô aproveitá a oportunidade e comprá arpiste.”, pensei comigo. E entrei no açogue. Acheguei-me ao ómi que tava atendeno as pessoa, e preguntei pa ele: “Moço, quar é o preço do arpiste?” Ele me oiô com óios de quem não entendeu o que eu lhe disse, meio arregalado e meio fechado, e me disse: “Senhor, nós não vendemo arpiste.” Senti uma ponta de desdém na voz dele, mas não fiz caso, e preguntei pá ele: “Não preguntei po cê se oceis vende arpiste. Preguntei quar é o preço do arpiste.”, e insisti: “Quar é o preço do arpiste?” “Senhor, aqui é um açougue.”, disse-me ele. Aí, Cérjim, me enfezei, virei bicho do mato. “Só pruque sô véio, o ómi da cidade me destrata. Ele vai vê o que é bão pa tosse.”, pensei cos meu grilo, controlano meus nervo. O cê não imagina, Cérjim, a quentura do meu sangue que corre nas minha veia. Tava ferveno; se eu não controlasse meus nervo, eu ia dá uma sova naquele azêmola. E eu retruquei: “Sei que aqui é um açogue. Eu não preguntei se aqui é um açogue. Preguntei quar é o preço do arpiste. O cê sabe quar é o preço do arpiste?” E aí o ómi me arrespondeu, de mal humor: “Dez real o quilo.” E eu, mais enfezado um poco, retruquei, oiano paquele paquiderme desmiolado que tava me tirano dos nervo: “Ô, fio de Deus, eu não preguntei quar é o preço do arpiste. Preguntei se o cê sabe quar é o preço do arpiste.” E o cê sabe, Cérjim, o que aquele gambá fez? Ele riu, e riu de mim, e na mia cara. Enfezei-me de vez. E espaventei o bichano, que recuô uns três passo, fugino do meu punho, que pus bem no meio do nariz dele. E então veio me atendê otro ómi, que pediu pa o que falava comigo í pá dentro. Fez bem a criatura sumi da frente dos meu óio. Eu não quis mais conversa, e saí do açogue. Cérjim, com toda a siceridade, o ceis da cidade são uns desmiolado; não sabe arrespondê às pregunta que a gente faz, e separa todas as coisa, cada coisa em uma loja. Aí na cidade, açogue, me disse meu primo Bernardo, vende carne, e carne, só carne. Aqui, não; aqui, o Seu Tóinho, que já pesa oitenta e dois ano de vida bem e mal vivida, vende, no açogue dele, carne, sorvete, manteiga, bolacha, pneu, rapadura, relójo, pé-de-moleque, pipa, pião e arpiste, e otras coisa. E as pessoa da cidade, repito, Cérjim, não sabe arrespondê às pregunta.

Preguntei po ómi do açogue quar é o preço do arpiste, e ele me disse que não vende arpiste; mas eu, Cérjim, não lhe preguntara se ele vendia arpiste; preguntara-lhe o preço do arpiste. Em seguida, preguntei pa ele, de novo e uma vez mais, quar é o preço do arpiste; e ele, raios! me disse que lá era um açogue. Bolas! Eu sabia que era um açogue. Diabos! Mas eu não lhe preguntara se era um açogue; prerguntara-lhe quar era o preço do arpiste. Depois, preguntei pa ele se ele sabia quar é o preço do arpiste. E o que aquele bestaião me arrespondeu?Que um quilo de arpiste custa dez barão. Que diacho! Eu lhe preguntara se ele sabia o preço do arpiste, e não quar era o preço do arpiste. Quano eu lhe preguntara quar era o preço do arpiste, ele não me dissera; agora, quano eu lhe perguntara se ele sabia quar era o preço do arpiste, ele me diz o preço do arpiste. O cêis da cidade têm os miolo desparafusado.

O lado bom desta instória, Cérjim, é que o canarinho não ficô sem arpiste, que eu comprei no açogue do Seu Tóinho, por oito barão o quilo. Saí no lucro.

Té mais, Cérjim. Que Deus te abençoe, e tamém a sua famia.

Inté.

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