A Mulher que Fugiu de Sodoma – de José Geraldo Vieira

Poucos livros agarraram-me pelo pescoço, e soltaram-me só depois de eu ler-lhe a última de suas palavras. A Mulher que Fugiu de Sodoma é um deles. Está vazado num estilo simultaneamente simples e sofisticado, de bom gosto literário. É uma narrativa cativante, o autor a retratar o seu herói com sensibilidade rara, incomum, dedicando-lhe amor e carinho paternais, severo e ao mesmo tempo meigo, a cuidar dele com desvelo, porque sabe – afinal, é-lhe o criador – que ele irá se perder, e sua onisciência fá-lo disposto a compreendê-lo, respeitá-lo, amá-lo.

Narra José Geraldo Vieira a queda do médico Mário Montemor, que se vê em apuros devido ao seu vício em jogos (de azar, para muitos; de sorte, para poucos, os escolhidos; de muita, muita sorte, para os donos da banca). Faltando à lealdade ao doutor Silva Soares, vem Mário Montemor a lhe dever uma soma impagável. Após inteirar sua esposa, Lúcia Montemor, da situação em que se pusera, ela, dedicada, sai em busca do dinheiro correspondente ao valor da dívida que ele contraíra, e teria de arrumá-lo até a data aprazada pelo credor. Recorre Lúcia Montemor à Natália Cordeiro, sua prestimosa e solícita amiga, e à sua tia Marta, que lhe dedica amor inexcedível, e, enfim, à Ana Maria, sua amiga, esposa de Nuno de Almada, empresário miliardário, magnata brasileiro, cuja riqueza se rivaliza com a dos potentados europeus. Bem-sucedida em sua empresa, livra seu marido do apuro em que ele se pusera, mas ele não se emenda. A morte do “Segundo Clichê”, menino que vendia jornais, filho de Justiniano, foi, entende Lúcia Montemor, consequência do descaso, da irresponsabilidade de Mário, de quem ela se afasta. Lúcia Montemor recorre à tia Marta, que a acolhe. Ana Maria pede à Lúcia que ela lhe seja preceptora da filha, Leonor, e ela não se faz de rogada e transfere-se para a casa dos Almada. Neste meio tempo, Mário Montemor, após vender alguns de seus pertences, e com o dinheiro da venda saldar algumas dúvidas de jogo, recorre ao seu tio Zózimo, que o repreende, exorta-o a ir à Europa estudar medicina e se compromete a sustentá-lo durante os anos de estudos. Mário aceita-lhe a oferta, e embarca para a Europa, e instala-se em Paris. No início, ele se dedica aos estudos, aprimora os seus conhecimentos; e diverte-se com a modelo Pervanche, de quem se torna amante. Mas não persiste nos estudos; logo perde-se, o jogo o excita; aposta boa soma em corridas de cavalos; contrai dívidas. E morre-lhe o tio Zózimo, que lhe enviava, mensalmente, dinheiro para o sustento. Endividado, sem rumo, reduzido, devido o seu vício do jogo, à miséria, envolve-se com criminosos; encontra moradia na rua. Adoece. Amigos o acolhem, ajudam-lo, dele cuidam. E o que lhe sucede o leitor saberá ao ler o livro.

O leitor percebeu que eu falei de Mário Montemor, mais dele do que de qualquer outro personagem, e concluiu que é ele o herói do drama que nos conta José Geraldo Vieira, e pergunta-se porque é o título do livro A Mulher que Fugiu de Sodoma. É Lúcia Montemor, esposa de Mário Montemor, a personagem que, ausente da maioria dos episódios do romance, está presente em toda a obra, da primeira à última linha, em todos os episódios, pois é a figura dela que Mário Montemor tem em seus pensamentos; ela está nos sonhos dele, nos pensamentos dele; ele a tem consigo todo o tempo. É Lúcia Montemor a personagem central do romance, seu coração, sua alma. Mulher dedicada ao marido, de alma pura, ela recusa a Sodoma que o mundo lhe oferecia, oferta que lhe redundaria, se ela a aceitasse, na perdição da alma. A cena derradeira da sua aventura ilustra a sua rejeição à Sodoma.

É o livro de José Geraldo Vieira, A Mulher que Fugiu de Sodoma, uma obra magnífica, uma obra-prima da literatura brasileira. De leitura agradável. De estilo primoroso. Anima-a personagens cativantes. Em poucas horas de leitura, segui Mário Montemor em suas desventuras dramáticas, narradas com esmero, e simpatizei-me com ele.

Apenas os mestres da literatura conhecem a fórmula mágica da criação de personagens humanos, autenticamente humanos. E José Geraldo Vieira é um deles.

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