Tipos Humanos Autenticamente Brasileiros.

É o Brasil o país da mistureba racial, fenômeno civilizatório que os sociólogos, os antropólogos, os etnólogos e os paleontólogos denominam miscigenação, que, não se sabe com exatidão porquê cargas-d’água, manifesta-se, não com exclusividade, na terra do mico-sagui e da vitória-régia, com intensidade infinitamente superior à que se vê em outros países, e desde que nas suas terras pisaram os lusitanos Pedro Álvares Cabral e Pero Vaz de Caminha – contou-me um passarinho (e estou a vender o peixe pelo preço que dele eu o comprei – a sequência de três palavras com inicial em ‘p’ não é do meu agrado, mas fica) que estes dois ilustres personagens da história da Ilha de Vera Cruz não pisaram nas terras do país do carnaval e do futebol (que naquela era imemorial eram desconhecidos por estas plagas), mas ocuparam-se, unicamente, de pisar nas areias do litoral da Bahia.

Nesta terra em que se plantando tudo dá, até foca de cabelo colorido e ser híbrido de traíra e marreco – duas quimeras a pedirem nome de batismo, científico, em latim -, germinaram inúmeros tipos humanos de características inexistentes nas outras duzentas e tantas nações que ocupam as terras emersas do planeta Terra. E eu vim a da existência deles inteirar-me após décadas de dedicação (não me agrada esta sequência de três palavras com inicial em ‘d’, mas fica) ao estudo de tão inusitado fenômeno, único, singular, em toda a longa história da espécie humana. Compulsei calhamaços pesadíssimos e alfarrábios vetustos, impressos, estes e aqueles, quando Matusalém era um bebê mimoso e rechonchudo, cujos vagidos encantavam sua progenitora, e estudei arte rupestre encontrada em dezenas de cavernas espalhadas pelos rincões do Brasil, e manuscritos com caligrafia esmerada e floreada de inextrincável emaranhado de atavios, até que, enfim, compensando todo o meu esforço e a minha dedicação – inéditos na história da humanidade, digo, sem falsa modéstia, e sem me vangloriar, e sem me vexar, pois é o que digo a mais pura verdade -, consegui – fui bem-sucedido em meu propósito – elaborar uma lista, que dou a conhecer aos interessados em tão intrigante assunto, nas linhas abaixo da que encerra este parágrado (Eu escrevi “intrigante tema”, que não fica, pois a junção da última sílaba de “intrigante” com a primeira de “tema” não me agradou, não me soou bem aos ouvidos – feriu-mos), com todos os tipos humanos autenticamente brasileiros que identifiquei em todas as obras literárias que me chegaram ao conhecimento – as gravadas em papel e as gravadas em pedras e as gravadas nas paredes e nos tetos e no chão de cavernas. Caso o leitor, se estudioso da história da civilização, jamais deixa de cumprir as suas incumbências intelectuais, notar, na lista que eu forneço a seguir, a ausência de algum tipo humano autenticamente brasileiro, que me faça a gentileza de mencioná-lo, chamando-me a atenção para a minha negligência imperdoável. Eis a prometida lista de tipos humanos autenticamente brasileiros:

1) afro-brasileiro;

2) euro-brasileiro;

3) americano-brasileiro;

4) asiático-brasileiro;

5) australopiteco-brasileiro;

6) asteca-nipônico-brasileiro;

7) etíope-viking-brasileiro;

8) boliviano-árabe-brasileiro;

9) franco-sifilítico-magiar-brasileiro;

10) eslavo-troiano-kriptoniano-brasileiro;

11) neozelândes-tártaro-shakesperiano-brasileiro;

12) aimoré-anglo-saxônico-equino-brasileiro;

13) sírio-jupiteriano-nórdico-brasileiro;

14) turco-burlesco-nudista-estóico-brasileiro;

15) lusitano-maia-hipocondríaco-saariano-brasileiro;

16) otomano-pigmeu-paquistanês-ungulado-brasileiro;

17) angolano-marsupial-albino-suburbano-brasileiro;

18) guatemalteco-sioux-achocolatado-insosso-brasileiro;

19) argelino-paraquedista-faquir-elefantino-brasileiro,

20) são-paulino-vietnamita-paraplégico-bérbere-arborícola-brasileiro;

21) helênico-gótico-frankensteiniano-cosmonauta-leporino-brasileiro;

22) moçambicano-carijó-belfo-calipígio-ovíparo-brasileiro;

23) taiwanês-neurótico-valetudinário-elegíaco-sudanês-brasileiro;

24) chileno-bielorusso-polissilábico-seráfico-caboverdiano-brasileiro;

25) argentino-iraquiano-lacônico-peripatético-prognato-brasileiro;

26) marroquino-ucraniano-anfíbio-selenita-afegão-brasileiro; e,

27) paraguaio-vulpino-rubro-negro-napoleônico-arabesco-netuniano-crocodiliano-rocambolesco-plutônico-ermitão-palmeirense-cigano-romeno-brasileiro.

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