Aceita um cafezinho?

Eram sete horas da manhã de um sábado. Roberto e Maria, que acordaram às seis horas, preparavam o café-da-manhã. O dia acordara nublado; o clima, ligeiramente frio. Dormiam, a sono solto, os dois filhos do casal, um menino de nove anos, e a menina, de sete. Assim que Roberto pegou o telefone para contatar seu irmão, com quem iria, às dez horas, ao hospital, visitar o pai, Vinicius, internado, havia dois dias, devido os graves ferimentos que lhe resultaram de um acidente de carro em que se envolvera, soou a campainha, suavemente, uma vez. Abandonou Roberto o telefone e foi à porta; assim que a abriu, exibiu um largo sorriso; diante de si, a figura pequena, de Teresinha, sua tia-avó, irmã de seu avô paterno, mulher nonagenária, de fibra inesgotável. Trajava a idosa venerável um vestido simples, colorido, e tinha presos os cabelos com maria-chiqunha que uma sua bisneta lhe presenteara no aniversário natalício do ano anterior. Foi Roberto saudar sua tia-avó com um caloroso abraço e beijos carinhosos e afetuosos no rosto, e convidou-a para entrar à casa. Entraram. Queria Teresinha notícias de seu sobrinho, o pai de Roberto, e este lhas deu com todas as minúcias que sabia. Entrada na cozinha, a simpática idosa saudou, com todo o carinho do mundo, a esposa de seu sobrinho-neto, e ela lhe correspondeu com carinho equivalente. Havia dez anos não se encontravam para um dedo de prosa Teresinha com Roberto e Maria, desde que estes, recém-casados, deixaram a roça para irem morar na cidade.

– Tia Teresinha – falou-lhe, amavelmente, Maria -, a senhora aceita beber café conosco?

E a nonagenária, sorridente, respondeu-lhe:

– Agradeço o convite, querida. Mas café eu não quero, não. Bebi um bom dedo do pretinho na casa da minha Elizabeth. Não é desfeita. Mas se não for demais pedir, eu aceito um pedacinho de nosco.

Roberto e Maria de imediato entenderam a confusão que a tia-avó fizera; e Maria, antecipando-se a ele, foi à prateleira, desta abriu uma de suas quatro portas, e puxou um pote de vidro, vazio, e disse à Terezinha, mostrando-lhe o pote:

– Perdoe-me, tia. Esqueci que tinha acabado… Mas temos bolachinhas, biscoitinhos e bolinhos de laranja.

– Não se acanhe, menina – disse-lhe Teresinha. – Eu aceito uns biscoitinhos. São de nata?

– Temos de nata e de leite – respondeu Maria.

– Então eu comerei um de cada. Ou mais – disse Teresinha, que sorriu, divertida.

O café-da-manhã foi recheado de lembranças.

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