Eu, a refeição.

Ao passar, hoje de manhã, um pouco antes do almoço, pelas bordas da feira, à praça da Liberdade, nas proximidades do Mercado Municipal, a carregar duas sacolas, minutos após retirar-me do banco, onde eu pagara quatro boletos, ouvi, de um homem de estatura mediana, um pouco mais baixo do que eu, rosto de pele morena, curtida de sol, acobreada – não digo que era marrom, cor de terra -, de, presumo, uns cinquenta anos, uma sentença – que ele dirigiu a todos os que se encontravam no raio de sua possante voz -, que me assustou, obrigando-me a voltar para ele a atenção, e nele detê-la, o que fiz durante alguns segundos, poucos, e logo tratei, célere, de me afastar, confuso, e perplexo, e assustado, e preocupado; e ao chegar à esquina, olhei para trás, à procura – meus olhos esgazeados, acredito – daquele homem de quem trato nesta crônica, que é curta, e não o encontrando, segui meu caminho, pensativo. Anunciava o homem temperos, que ele carregava, seis deles, acondicionados em saquinhos transparentes, de plástico, dispostos sobre uma bandeja de plástico, branca, que ele carregava com a destreza de um equilibrista. Em quatro dos pequenos sacos havia pó, em um, verde, em outro, preto, em outro, amarelo, em outro, branco, e nos outros dois havia, em um, grãos, não me lembro de que cor, e no outro, folhas picotadas. Eram temperos, segundo o personagem que os anunciava à venda. Temperos. E há mal em se anunciar, em praça pública, temperos, para um público numeroso? Não. Não há. O que aquele homem disse, e no tom em que ele disse o que disse, sim, vi um mal, mas me pergunto, agora, na minha casa, calmo, à escrivaninha, lapiseira à mão, a escrever estas palavras, se entendi o que ele disse, se ouvi o que pensei ter ouvido, se a minha imaginação, excitada, me fez dele ouvir palavras que ele não disse, melhor, me fez ouvir as palavras que ele disse e emprestar-lhes significados que não possuíam.

Naquele personagem, que é o principal desta minha crônica, vi, ao observá-lo de uma certa perspectiva, um botocudo, e dos mais ferozes, com os seus singulares paramentos, e de outra, um aimoré indomável, de olhar petrificante, e de outra, um tupinambá pronto para avançar sobre Hans Staden. Parecia-me ele o Boaventura da Costa, personagem de um conto de Aluísio Azevedo, mas diferente dele, que aos olhos de uns era um ancião que já havia recebido a extrema-unção, e aos de outros um recém-nascido no instante em que levava do obstetra um tapinha inofensivo, eu via, no meu personagem, índios, melhor, silvícolas ameríndios, nativos da América, aqueles homens asselvajados que, à chegada dos portugueses, ainda viviam na idade da pedra – não sei se da polida, se da lascada -, a cobrirem-lhes as vergonhas as vestes que a natureza lhes deu, a manejarem instrumentos de caça e com a desenvoltura de matadores profissionais; nele eu vi antropófagos, monstros canibalescos, criaturas dos pesadelos que atormentam os seres humanos desde o nascer do universo.

Mas o que, afinal, pergunta-me o leitor, aquele homem disse que me fez ver, nele, um tipo humano que me provocou reação tão negativa. Três palavras, paciente leitor, apenas três palavras, e nenhuma outra além delas. E assustaram-me e intrigaram-me tais palavras. Quais palavras, insiste o leitor em conhecê-las. Digo: estas: “vamos”, “temperar”, “gente”. E ao recordar tal episódio da minha vida de um homem que está às portas da segunda casa dos “enta”, pergunto-me, repetindo pensamento que apresentei em alguma linha acima desta, se ouvi o que ouvi, o que, melhor, pensei ter ouvido. Peguei uma pulga, e a sentei atrás da minha orelha, e pedi-lhe que me ajudasse a pensar acerca de tão intrigante episódio. Disse aquele homem, ao anunciar os produtos que oferecia à venda, “Vamos temperar gente.”, ou “Vamos temperar, gente!”? Se é a interpretação correta das palavras dele a segunda opção, então, obrigo-me a concluir que ele dizia às pessoas que, se o desejassem, lhe comprassem temperos, para condimentar suas refeições. Se é a primeira, então ele se preparava para deliciar-se com uma refeição, que, penso, seria digna dos deuses, dos deuses ameríndios, obviamente; resta-me saber se ele já havia preparado a carne para receber o tempero, ou se estava à caça de uma que lhe atendesse ao paladar – eu, que não pretendia saber qual era a resposta correta, tratei, e logo, instintivamente, de passar sebo nas canelas, e dele afastar-me o mais rapidamente que podia. Fiz bem, acredito.

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