O Homem que Inventava

Poucas pessoas compreendiam as idéias de outro mundo de Charles Albert Newton.

A história começou com Gustavo da Silva, um homem simples e sábio. Ainda criança, ele aprendeu a ler e a escrever. Leu muitos livros. Os livros que contavam a vida dos maiores cientistas do mundo eram os que ele mais gostava de ler. Cresceu. Comprou uma casa. E dentro dela construiu uma biblioteca com um acervo de mais de mil livros, em sua maioria de histórias da vida e das idéias dos mais importantes cientistas de todos os tempos. Casou-se com Rebeca. Para o seu primeiro filho, Gustavo escolheu o nome Charles Albert Newton. E por que Gustavo batizou de Charles Albert Newton? Por que não o chamou ou de José, ou de Paulo, ou de Pedro, ou de João? Porque ao batizá-lo com o nome de Charles Albert Newton, homenageou os três cientistas que mais admirava: Charles Darwin, Albert Einstein e Isaac Newton. Agora que todos já sabem porque Charles Albert Newton chamava-se Charles Albert Newton, podemos continuar a nossa história.

Charles Albert Newton era o orgulho de Gustavo e Rebeca. Crescia, vigoroso – jogava futebol e praticava natação – e muito inteligente. Lia bons livros. Antes dos vinte anos, já fazia experiências e inventava máquinas que melhoravam a vida das pessoas. Era a pessoa mais famosa da cidade em que morava. Todas as pessoas o admiravam e o achavam um pouco estranho – mas não o achavam muito estranho, pois ele gostava de dançar, assistir a jogos de futebol, e de carnaval. Mas quando ele punha-se a falar de suas idéias, de como funcionavam as suas invenções, as pessoas ficavam com cara de bobas – ninguém entendia o que ele dizia. Charles Albert Newton não era um cientista maluco – ele era muito esperto e sabia o que queria: queria que todas as pessoas vivessem bem; que ninguém passasse nem fome, nem sede; queria que todas as pessoas tivessem boas casas e boas roupas; e boa comida todos os dias, para que tivessem saúde de aço.

Era um homem dedicado às ciências, às invenções; às pessoas, que o chamavam de O Homem Que Inventava. E ele apareceu até em capa de revista! E ficou famoso! E com as suas invenções ajudava as pessoas.

Um dia, ele se recolheu à sua casa, e nada mais inventou. As pessoas estranharam.

– Por que o Charles não inventa mais coisas interessantes? – perguntou um morador da cidade.

– Levei para o Albert uma defeituosa máquina – disse outro morador -, e ele não soube consertá-la.

– Pedi ao Newton uma solução para o problema das enchentes que têm nos maltratado. Sabem o que ele me disse? Que não tem idéia para resolver o problema – disse o prefeito, entristecido e preocupado.

– Esgotaram-se as idéias do Charles? – perguntou uma senhora respeitável.

– Para mim, o Albert perdeu um parafuso – comentou, rindo, um homem brincalhão.

– Não diga bobagens – disse um homem que não gostava de brincadeiras bobas. – O Newton só está precisando de alguns dias de descanso.

Sem as brilhantes invenções e as idéias amalucadas de Charles Albert Newton, empobrecia-se a cidade.

Passaram-se os dias.Charles Albert Newton não inventou nenhuma extraordinária máquina e não pensou nenhuma idéia meio doida que ninguém entendia muito bem, mas que todo mundo adorava.

E passaram-se outros dias. E outros dias. E outros dias. E outros dias. E Charles Albert Newton não apresentou nenhuma boa idéia e nenhuma invenção brilhante.

Um dia, caminhando, a cabeça abaixada, Charles Albert Newton viu uma linda menina chorando, foi até ela, e perguntou-lhe:

– O que aconteceu, menina?

– A minha boneca… naquele buraco – disse a menina, aos soluços, gaguejando. Charles Albert Newton foi até o buraco, que era fundo.

E a menina chorava.

– Qual é seu nome? – perguntou-lhe Charles Albert Newton.

– Lúcia – respondeu a menina.

– Lúcia, vou pegar a sua boneca, está bem? – prometeu Charles Albert Newton, que logo pensou num meio de tirar a boneca de dentro do buraco, que era fundo. Olhou ao redor, e encontrou a solução.

Um homem passeava; trazia consigo um guarda-chuva. Charles Albert Newton pediu-lhe o guarda-chuva emprestado, e ele, gentil, lho emprestou. E quebrou Charles Albert Newton, de uma árvore, dois galhos compridos, e pediu para a Lúcia, que o observava sem entender o que ele fazia, as maria-chiquinhas com as quais ela prendia os cabelos; ela lhas deu. E Charles Albert Newton prendeu, com uma das duas maria-chiquinhas, uma das pontas de um galho à uma das pontas do outro galho, e, com a outra maria-chiquinha, a outra ponta deste galho à ponta do guarda-chuva. E segurando o galho que não estava preso, com uma das maria-chiquinhas, ao guarda-chuva, desceu o guarda-chuva até o fundo do buraco. Com todo o cuidado do mundo, enganchou, na alça do vestido da boneca, o cabo curvo do guarda-chuva. E puxou o galho; junto com o galho veio o outro galho e uma maria-chiquinha, e, pouco depois, a outra maria-chiquinha e o guarda-chuva, e, no cabo curvo do guarda-chuva, a boneca da Lúcia.

Lúcia deu muitos pulos de alegria, e abraçou e beijou a boneca. E abraçou e beijou o gentil homem que emprestara o guarda-chuva para Charles Albert Newton. E abraçou e beijou Charles Albert Newton.

– Charles Albert Newton, você é o meu herói – disse Lúcia, imensamente feliz.

Charles Albert Newton restituiu o guarda-chuva ao gentil homem que lho emprestara e correu para a sua casa, a cabeça cheia de idéias maravilhosas e invenções de outro mundo.

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