O Descobrimento do Brasil – uma redação do Carlinhos.

A professora de história, Tábata Jandira Marilena do Rosário, da Escola Estadual Fulano de Tal, uma semana antes, pediu aos seus educandos uma redação cujo tema é o Descobrimento do Brasil. De todas as redações que os seus vinte e nove alunos lhe entregaram, chamou-lhe a atenção uma delas, a do Carlinhos. Admirada com o teor de tal obra, falou, dela, emocionada, e apresentou-a como um modelo a ser seguido por todos os educandos, na sala-de-aula.
Abaixo do ponto final que o Carlinhos imprimiu, à mão, na folha, para dar fim à redação, a professora anotou: “Carlinhos, a sua redação é brilhante. Você se revelou pessoa humana de espírito original, criativo, insubmisso. Você deu provas de que não é um educando oprimido, que se curva diante dos detentores do grande capital e da opressora norma culta da língua portuguesa. Você tem senso crítico. Apreendeu todo o ensinamento que ensina toda pessoa a conhecer o seu universo. Parabéns. Você é um aluno exemplar. Para você, com louvor, um 10.”
Nas linhas que seguem, reproduzimos a redação do Carlinhos.

Pedro Alves Cabráu, após cair em depressão profunda, e aprofundar-se na depressão, pensou, deprimido, angustiado, deprê: “Vou me suicidar a mim mesmo.” E subiu à Torre do Tombo, que até hoje não tombou. Tem tombo a torre só no nome. Cristiano Ronaldo, o rei de Portugal – país que, além de ser um dos mais importantes países da Escandinávia, é banhado pelo estreito de Bering, que é mais estreito do que o estreito do Iraque -, que naquele momento passeava por Barceloana, viu-o, em pé, a chorar como uma cachoeira em época de cheia, e perguntou-se para si mesmo o que se passava com aquele gajo, e foi até ele. Pedro Alves Cabráu, à pergunta do rei de Portugal, respondeu: “Minha muié largô dimin, meu rei. Não tenho mais motivo pra viver, e nem onde cair morto. Vou partir desta pra melhor. Tiau, meu rei. Hasta la vista, baby.”  E o rei de Portugal logo lhe disse: “Peraí, Pedrão. Não jogue a sua vida fora, assim, sem mais nem menos; se você deseja jogá-la fora, jogue-a, mas por um bom motivo. Descubra o Brasil.” “Quê, meu rei?! Fale mais alto, para que eu possa orelhar o que vossa majestade imperial do Reino Unido de Portugal, Algarves e Real Madri, diz com vossa real boca. O que vossa alteza me disse, meu rei?” ” “Meu rei!”, “Meu rei!”. Pedrão, você é da Baia?!” “Quê!?” “Há um país para ser descoberto, Pedrão: o Brasil, que até hoje ninguém descobriu. Ofereço a você uma viagem até lá, acompanhado de um padre, o bispo cardeal Bartolomeu Dumont, filho do Papa Nicolau, e outros homens desocupados, numa canoa movida à energia limpa, renovável. E chegando ao Brasil, você, gajo, fincará a bandeira de Portugal na areia da praia de Ubatuba, e entrará para a história universal de todo o cosmos terrestre como o descobridor do maior e mais rico país da América do Sul, continente asiático situado ao sul do norte da Terra. E no Maracanã você poderá assistir a um flaflu, e com direito de ver em carne e osso o Galinho de Quintino. Aceita a proposta, Pedrão?” “Mas é claro que aceito, meu rei. Vossa majestade imperial manda, eu, vosso serviçal súdito, obedeço. Diz o ditado: Pode, quem manda e obedece.” No dia seguinte, os tripulantes da canoa Santa Maria Pinta a Nina lançaram-se ao oceano marítimo. Cansado de tanto remar, Pedro Alves Cabráu disse para os outros tripulantes: “Vamos à África pegar um escravo afrodescendente. E que ele reme até o Brasil.” Dito, e feito. Chegados ao litoral da África, viram os tripulantes da canoa mais famosa da história universal da Terra global um afrodescendente, e aproximaram-se dele. E Pedro Alves Cabráu lhe propôs: “Reme com o remo até o outro lado do oceano marítimo. E lá chegando darei a você, meu bom homem, uma garrafa de cachaça da mais pura cana que se cultiva em terras do Brasil.” “Mé! Mé!”, exclamou o afrodescendente, lambendo os beiços. “Mé! Puro malte! Vamos nos pirulitar pelo oceanis dos marisquis, e depoisis que passarmos a nós mesmos pela Atlântidis, chegar ao Brasilsis. Vamos, portuga. Vamos, Cabrauzis! Forévis!”  E o africano afrodescendente pulou dentro da canoa, tirou um remo das mãos do padre, o bispo cardeal Bartolomeu Dumont, e remou até o Brasil, onde chegaram, uma semana depois, num dia qualquer de um ano qualquer. “Terra à vista!”, exclamou, entusiasmado, Pedro Alves Cabráu, que logo tratou de enviar um zap para o rei Cristiano Ronaldo, com as seguintes palavras: “Meu rei, terra à vista.” E o rei de Portugal respondeu-lhe, também via zap: “À vista, não, Pedrão. A prazo.” E o rei de Portugal deu o calote. Não pagou nem a primeira prestação. E o Brasil se ferrou. Este é o primeiro capítulo da história do Brasil.

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