Vídeos caseiros

– Ontem, no ônibus, vi uma gata de parar o trânsito! Ela não usava sutiã; usava um vestido decotado! Meu Deus! Que mulher! Filmei-a com o telefone celular. Mário, a gata não percebeu que a filmei. Você quer assistir ao vídeo? Filmei uma gata de parar o trânsito! Você quer vê-la?

– Quero. Deixe-me vê-la, Adriano. Ligue o computador. Quero ver a gata. Quero vê-la.

– Acalme-se. Controle-se. Controle-se. Tenho de ligar o computador.

– Ligue-o, Adriano. Ligue-o. Quero ver a gata. Ligue o computador.

– Você verá a maior gata da cidade. Um avião! Violão! Morena! Deliciosa! Uma sereia. Esqueça as mulheres das revistas que você tem na sua casa. Esqueça-as. Comparadas com a morena que filmei, elas são bruxas com uma verruga horripilante na ponta do narigão. A gata que vi, hoje, põe no chinelo todas as mulheres famosas que aparecem nas fotos das revistas. Elas são mulheres fotochopadas, falsificadas. A gata que filmei, não. Ela é mulher de carne e osso. Você irá babar de desejo ao assistir ao vídeo.

– Pare de falar, e ligue o computador.

Mário e Adriano, na casa de Adriano, no quarto dele, diante do computador, sentados, cada um em uma cadeira giratória, olhavam para o monitor que o pai de Adriano comprara no Natal.

Dos quinhentos gigabytes do disco rígido, cento e oitenta e cinco armazenavam vídeos caseiros que Adriano, Mário e os seus amigos gravaram, nos dois anos anteriores, com câmeras de telefones celulares e com filmadoras.

Computador ligado, Adriano clicou sobre o ícone da pasta dos seus vídeos caseiros, e digitou a senha. Apareceram centenas de ícones de arquivos de vídeos.

Clicou, duas vezes, rapidamente, sobre o ícone que trazia a data do dia anterior. No monitor apareceu uma morena voluptuosa de vestido verde, que lhe modelava o corpo, realçando-lhe os atrativos. Ela se destacava num oceano de mulheres desprovidas de beleza.

Mário, embasbacado, arregalou os olhos e escancarou a boca. A morena era uma mulher cuja beleza superava a de todas as mulheres que ele já havia visto e imaginado. Adriano provocava-o, dava-lhe cotoveladas no ombro, dizia-lhe que o melhor estava por vir, exortava-o a parafusar o queixo, que se desprenderia da cabeça e cairia no chão, se ele não tomasse tal providência.

Em diversos trechos do vídeo aparecia o asfalto, os pisos da calçada, carros, pessoas que passavam por Adriano. Em outros, o vídeo escurecia, e nada se via. Mário protestava, insultava Adriano, que, defendendo-se, explicava-lhe o que ocorreu em certos momentos durante os quais gravava o vídeo. Mário, que não queria ouvir explicações, queria admirar a deusa dos trópicos, aquele pedaço de mal caminho, esbravejava, e desferia tapas na nuca de Adriano e encaixava-lhe socos no ombro, e ele revidava – a escaramuça assemelhava-se às cenas de pastelão do cinema mudo. Estapearam-se, até que atraíram-lhe a atenção imagens nítidas da morena de vestido verde.

Embora houvesse se deparado com dificuldades imensuráveis, Adriano filmara, durante, aproximadamente, trinta minutos, a estonteante morena de vestido verde, de cujo corpo obtivera imagens nítidas, reveladoras; as mais excitantes ele as obtivera a partir do momento em que ela parou em um ponto de ônibus. A partir deste trecho os olhares dos dois jovens convergiram para o monitor. Sentados, curvaram-se, fincaram os cotovelos nos joelhos, e sustentaram o queixo, Mário, com as palmas das mãos abertas e os dedos cobrindo o rosto, Adriano, com os dedos entrelaçados.

Passou despercebida da morena de vestido verde a atitude de Adriano, que, parado ao lado dela, o telefone celular à mão, fingindo procurar o número de um telefone, filmava-lhe o belo rosto e o decote revelador. Quando ela se curvou para a frente, e coçou o joelho direito, Adriano dela registrou imagens dos peitos quase inteiramente nus. Mário, estupefato, levou, automaticamente, as mãos, espalmadas, à testa, puxou os cabelos para trás, encostou-se ao encosto da cadeira, desencostou-se, curvou-se, fincou os cotovelos nas coxas e com as mãos cobriu a boca. Adriano divertia-se com a atitude dele. Ria, zombava dele. Mário deu-lhe um tapa na nuca, desfazendo-lhe o penteado, que Adriano, rindo, ajeitou.

Além de Adriano e da morena de vestido verde, havia duas pessoas no ponto de ônibus: um homem avançado em idade, concentrado na leitura de um catálogo de loja de eletrodomésticos, e uma garotinha de uns dez anos que cantava uma canção infantil. Após uns três minutos registrando, com intervalos, imagens do busto da morena de vestido verde, Adriano recuou alguns passos, posicionou-se atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, filmou o que a morena escondia sob o vestido verde, cuja franja mal descia-lhe à metade das coxas, e revelou a calcinha que cobria o espaço estreito entre as nádegas bem esculpidas. Agitaram-se os dois garotos. Moviam as pernas para os lados, para cima e para baixo. Mário levava as mãos à cabeça, cobria, com as mãos, a boca, e mordia, ora o lábio inferior, ora o lábio superior. Adriano ria da atitude de Mário, que o mandava calar-se.

Um ônibus parou no ponto de ônibus. A menina subiu no ônibus; em seguida, o homem, que até então lia o catálogo de loja de eletrodomésticos, subiu; após ele, a morena de vestido verde. Adriano, atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, e dela revelou, com maior nitidez, a parte inferior do corpo. Como o ônibus estava lotado, a morena de vestido verde teve de deter-se assim que pousou os pés no primeiro degrau. Adriano, aproveitando das facilidades que a situação oferecia-lhe, gravou imagens reveladoras das formas bem arredondadas e firmes das nádegas e do tecido fino que cobria o espaço entre elas. Vibraram de volúpia os dois garotos.

Os passageiros apertavam-se dentro do ônibus.

Para conseguir entrar no ônibus, Adriano pôs-se ao lado da morena de vestido verde, e dela gravou imagens do rosto e do decote. Temia que alguém o surpreendesse filmando-a, e, com indiscrição, revelasse, para todas as pessoas presentes no ônibus, o que ele fazia.

O ônibus pôs-se a andar. Sacolejava ao passar por ruas esburacadas.

Saíram do ônibus várias pessoas; entraram quatro.

Adriano, assim que o ônibus retomou a viagem, telefone celular na mão, registrou imagens do corpo da morena de vestido verde. Ao parar no ponto de ônibus seguinte, o ônibus recebeu mais cinco passageiros, e mais de dez passageiros desceram. Os passageiros que estavam em pé puderam se deslocar pelos estreitos espaços vazios. A morena de vestido verde andou uns dois metros, abrindo espaço entre os passageiros em pé. A sua beleza irradiante e o seu porte exuberante atraíram a atenção dos homens, que, libidinosos, a devoravam com o olhar, cobiçando-a. Adriano seguiu-a, cuidadoso; receava – notou os olhares dos homens convergindo para a estonteante morena de vestido verde – que alguém o flagrasse filmando-a. A morena de vestido verde deteve-se, e do banco mais próximo a mulher que o ocupava levantou-se, e pediu-lhe licença. Carregava ao colo uma caixa e a tiracolo uma sacola branca com o nome fantasia de uma loja de calçados. A morena de vestido verde cedeu-lhe passagem. A mulher deslocou-se, desajeitadamente, pedindo licença; os passageiros abriam-lhe passagem, espremendo-se uns nos outros. A morena de vestido verde sentou-se no banco desocupado, ajeitou o vestido, passeou as mãos pelos cabelos, puxou-os por sobre o ombro direito, e os soltou. Esparramaram-se-lhe pelo busto e pelo ombro os cabelos sedosos. Adriano, em pé, ao lado dela, fitava-a, mordia os lábios quando ela, com movimentos suaves, para ajeitar os cabelos, ou o vestido, revelava uma pequena parte a mais dos peitos e das coxas. Filmava-a. Pensava que agia com discrição ímpar. Duas mulheres, sentadas no banco atrás do qual a morena de vestido verde estava sentada, entenderam o que Adriano fazia, entreolharam-se, e sorriram, maliciosas; e à direita de Adriano um homem, que olhava para a morena de vestido verde, sorriu ao ver a imagem dela na tela do telefone celular na mão de Adriano.

A viagem durou um pouco mais de vinte minutos. O ônibus parou na rodoviária. A morena de vestido verde levantou-se. Adriano permitiu que ela lhe passasse à frente, e filmou-a de trás, por baixo do vestido.

Todos os passageiros desceram do ônibus. Adriano seguiu a morena de vestido verde, à distância de cinco metros, durante uns cinco minutos, até uma casa, cujo portão ela abriu, e entrou.

As imagens excitaram os dois garotos, que teciam os comentários mais obscenos que a imaginação inspirou-lhes.

Mário, eufórico, ao fim do vídeo, perguntou para Adriano:

– Que tal ir até à casa da morena?

– Não é má idéia – comentou Adriano, eufórico. – Não é má idéia. Se ela mora naquela casa, e acho que ela mora lá… Vamos lá. Quem sabe, se dermos sorte…

– Que beleza, Adriano! Gata! Mulherão! Cara! A gata é um pedaço de mal caminho!

– Eu disse para você que ela é uma gata. Você não me quis acreditar.

– Vamos assistir ao vídeo mais uma vez, mais duas vezes, mais três vezes, mais mil vezes.

– Espere um pouco. Vou lançar o vídeo na internet. Quero que todos vejam a maravilhosa morena de vestido verde. O mundo tem de conhecê-la.

– Vamos assistir ao vídeo.

– Assim que eu lançar o vídeo no Youtube, o assistiremos mais mil vezes.

Mário e Adriano assistiram ao vídeo duas vezes.

*

Nas duas semanas seguintes, Mário e Adriano procuraram pela morena de vestido verde. Não a encontraram – mas eles não perdiam a viagem. Tiveram a felicidade de encontrar outras mulheres bonitas as quais ou trajavam calças justas, ou saias, ou minissaias, ou vestidos, e usavam decotes profundos – e gravaram vídeos revelando delas as roupas íntimas, as que as usavam. Mário e Adriano, embasbacados, assistiram aos vídeos várias vezes. Deleitavam-se. Divertiam-se gravando vídeos. Enfrentaram alguns dissabores enquanto os gravavam: Uma mulher, ao virar-se bruscamente, viu Adriano com o telefone celular na mão, desconfiou do que ele fazia, e exigiu-lhe explicações, Adriano desconversou, ela enfureceu-se, e ele deu meia-volta, e dela afastou-se, antes que as obscenidades que ela cuspia chamassem a atenção de muita gente; um grandalhão enfureceu-se ao ver Mário atrás de uma loira, filmando-a com o telefone celular, e encaixou-lhe um murro no nariz, e Mário, ao recompôr-se, sangue se lhe escorrendo em profusão do nariz, correu como nunca havia corrido, e, ao encontrar-se com Adriano, exibiu-lhe o nariz quebrado como se exibisse um troféu.

Mário e Adriano diziam que a profissão de videoamador era muito arriscada, muito perigosa, mais perigosa e mais arriscada, até, do que a de correspondente de guerra e a de jornalista investigativo. Diziam, gracejando, que poderiam, inadvertidamente, vir a se deparar com uma filha de dom Corleone, ou com a de um mafioso russo ou a de um membro da yakusá.

Transcorreram-se dois meses. Mário e Adriano não encontraram a morena de vestido verde. Esqueceram-na, depois de tantos dias sem vê-la.

*

– Adriano! Mário! – exclamou Gilberto, entusiasmado. – Vocês não vão acreditar. Vi um mulherão de derrubar o queixo! Enviei o vídeo para o seu computador, Mário. Vocês não vão acreditar! Meu Deus! Mário, vá à sua casa, e acesse o arquivo *¢. Tá lá, o vídeo da loiraça! Meu Deus! Loiraça de parar o trânsito e fechar o comércio! Loira usando camisa decotada e shortinho agarradinho! Imaginem a loiraça. Vocês não podem imaginá-la. Que melões! Não são limõezinhos, como os da Paola; nem laranjas, como os da Cláudia; nem ovos fritos, como os da Fabiana, que de bom só tem a bunda; nem melancias, como os da Samantha. Melões! Melões! Adriano, você, que gosta de peitos, vai se deliciar! Vocês não vão acreditar! Não perca tempo, Mário. Vá à sua casa, ligue o computador, e acesse o arquivo *¢. Vá com o Mário, Adriano. Você não perderá a viagem.

Ao chegarem à casa de Mário, Adriano e Mário, mal conseguindo conter o ânimo que as palavras de Gilberto atiçaram correram ao quarto. Mário ligou o computador. Acessou o arquivo *¢. Mário e Adriano esfregaram as mãos. O monitor exibiu o vídeo. No início, apareceram imagens desfocadas. Gilberto proferia obscenidades e filmava o próprio rosto. Corria, afobado. Ia, dizia ele, atrás de uma loira de bicicleta. Tropeçou. Desequilibrou-se. Caiu. Recompôs-se rapidamente. Mário e Adriano gargalharam.

– Palerma! – exclamou Mário. – Bicho desengonçado! Bizarro! Aberração da natureza!

– Smeágol! – gargalhou Adriano.

No vídeo, cenas caóticas. Pessoas, carros, bicicletas. Ouvia-se a voz de Gilberto; era impossível compreender a maior parte do que ele dizia, e a parte que se compreendia era quase toda composta de palavrões e comentários sobre os atrativos da loira de bicicleta.

Mário e Adriano ficaram na expectativa. Ao virar a esquina, Gilberto, filmando a si mesmo, disse, eufórico, que a loira estava a poucos metros dele. Parou de correr. Estava com o rosto vermelho; suava copiosamente. Estava exausto. Disse que a loira, que havia descido da bicicleta, estava em frente de um supermercado. Gilberto desacelerou os passos. Filmou a loira. As imagens não eram nítidas. A loira estava um pouco distante. Dela notava-se apenas o short amarelo, as pernas compridas, a camisa branca de manga curta e os cabelos loiros compridos. Mário e Adriano quase nada conseguiam ver. Protestaram. Gilberto aproximava-se da loira. Focalizou-a. Nas imagens apareceram, nítidas, as bem torneadas pernas dela. Depois, apareceram, para satisfação de Mário e Adriano, as nádegas dela, cobertas pelo short amarelo, uma película. Boquiabriram-se Adriano e Mário. A loira do guidão da bicicleta tirou uma corrente com cadeado, abriu o cadeado, ajeitou a bicicleta ao poste de ferro, e curvou-se para a frente. Mário e Adriano levaram as mãos à cabeça. Gilberto passou, andando devagar, pela loira, dela não desviando a câmera do telefone celular. Mário e Adriano, excitadíssimos, viram um busto extraordinariamente deslumbrante. Lamberam os beiços.

Após passar a tranca na bicicleta, a loira caminhou até o supermercado. De repente, escureceram-se as imagens; viam-se apenas manchas e riscos dançando no monitor. Adriano e Mário esbravejaram. Mário, irritado, ofendeu até a quinta geração de Gilberto, e deu duas pancadas no monitor. Poucos minutos depois, apareceu o busto da loira, que, curvada para a frente, mexia na corrente que unia a bicicleta ao poste de ferro.

Ao remover a corrente, a loira, com um movimento brusco, ergueu a cabeça, e olhou para a câmera.

Adriano saltou da cadeira, arremessou-a para trás, e deu um berro misto de surpresa e espanto:

– Diabos! É a minha irmã!

O Reino de Ouro e o Reino de Cobre

Havia, há milhares de anos, dois reinos, o Reino de Ouro, e era seu rei o Sábio, e o Reino de Cobre, e era seu rei o Estúpido. Um dia um camponês encontrou, num recanto do Reino de Ouro, um ovo de dragão, e no Reino de Cobre um caçador encontrou, numa região distante, um ovo de dragão. E aos reis dos dois reinos deram a notícia das descobertas, o camponês ao rei Sábio, e o caçador ao rei Estúpido. E o rei Sábio deu a ordem aos seus súditos: “Destruam o ovo”, e eles o destruíram. E o rei Estúpido disse, desdenhoso, imprevidente, aos seus súditos: “Não se preocupem. É só um ovo”, e o ovo foi deixado intacto. E sucederam-se os dias, e eclodiu o ovo de dragão que o rei Estúpido não permitiu que destruíssem, e do seu interior saiu um pequeno e inofensivo dragão, que, no decorrer de trinta anos, cresceu, encorpou-se, e tornou-se um dragão adulto, poderoso. E chegou o dia em que o dragão atacou o Reino de Cobre e dizimou a sua população.

Sábio, rei do Reino de Ouro, ciente de que o rei do Reino de Cobre era um estúpido, informado de que ele não deu aos súditos dele ordem para destruírem o ovo de dragão, e certo de que os dragões não respeitam as fronteiras territoriais convencionadas entre os reinos, construiu, no decurso dos trinta anos que se seguiram às descobertas dos ovos de dragões, mecanismos para a defesa do Reino de Ouro e para a guerra, que seria encarniçada, contra o dragão.

E o dragão, após destruir o Reino de Cobre, rumou para o Reino de Ouro, e não o destruiu, pois encontrou um reino preparado para enfrentá-lo.

A guerra entre o Reino de Ouro e o dragão estendeu-se por muitos anos, até que, enfim, dela saiu vitorioso o Reino de Ouro, e morto o dragão.

A ciumenta

– Você, Roberto, olha para todas as mulheres, na rua; delas não tira os olhos.

– Eu não olho para outra mulher além de você, Ju. Eu tenho olhos só para você. Não seja ciumenta. Você acha que eu olho para todas as mulheres e me trata como se eu fosse um homem vadio, que nunca viu um rabo-de-saia.

– E você não olha para as outras mulheres, não? Você não arregala os olhos quando vê uma bonitona?

– Não. Não olho, não. Não arregalo os olhos, não.

– E hoje à tarde, hein!?

– O que aconteceu hoje à tarde? E onde?

– Na frente da loja ***.

– O que aconteceu lá? Não olhei para nenhuma mulher.

– Não?

– Não. Olhei para alguma mulher? Que eu saiba, não.

– E a bonitona?

– Que bonitona?

– A de bicicleta.

– Que bonitona de bicicleta? Você está se referindo àquele pedaço de mal caminho, a loira de um metro e oitenta, de camiseta branca com estampa da Scarlet Johansson, short azul marinho bem agarrado com estampas de personagens de desenhos animados japoneses, chinelos-de-dedos azuis com adornos em forma de flores e pulseiras multicoloridas iridescentes nos dois braços? Àquela loira de pés pequenos, coxas grossas, com uma cicatriz na coxa esquerda e duas manchas pequenas, uma, na ilharga esquerda, uma, na coxa direita, e de lábios realçados com batom vermelho fosco, cabelos compridos presos com uma tiara preta, unhas esmaltadas de vermelho framboesa, e com uma tatuagem no ombro esquerdo, atrás, de uma borboleta azul, vermelha, amarela e verde, e um piercing na sobrancelha esquerda?

– É. É a ela que estou me referindo.

– Confesso, querida: Eu a vi. Olhei para ela, mas nela não prestei atenção.

– Não prestou atenção nela!? Você não prestou atenção, canalha, naquela mulher!?

– Não, ciumenta. Nela eu não prestei atenção. Eu apenas atentei para o short que ela usava. Que mal há em olhar para um short? Eu queria ver quais personagens estavam estampados no short. Você sabe que eu gosto de personagens de desenhos animados japoneses, não sabe? Então… Deixe de ser ciumenta.

Em lados opostos

– Você não me acreditará, Feliciano. Você irá me chamar de mentiroso. A Jaqueline está no papo. A gata é minha. Fez-se de difícil, a maldita, mas caiu na lábia do garanhão. Feri-lhe o ego. Mulher vaidosa, ela não suportou ser passada para trás, e cedeu aos meus desejos. Que mulher! Nunca tive em meus braços mulher tão bela! Eu e ela principiamos o namoro na sexta-feira. Ela pensava que não cairia em meus braços. A felina recolheu as garras. Eu a terei em meus braços sempre que a desejar. Ela irá satisfazer todos os meus desejos e todas as minhas fantasias. Eu disse para você que eu conquistaria a Jaqueline. Aquela gata não poderia me escapar, e não me escaparia, e não me escapou. Ela é minha. No domingo, eu e ela fomos pra Ubatuba. Você tinha de ver como os marmanjos olhavam pra ela. Babavam de desejo. Você tinha de ver com que cara eles ficavam ao me ver passando o bronzeador e o protetor solar na Jaqueline. Eles não queriam acreditar no que viam. A Jaqueline pensou que eu não a conquistaria. Sem falsa modéstia, sou irresistível. Sei como convencer uma bela mulher a ceder aos meus desejos. Tenho as minhas artimanhas. Nenhuma mulher que desejei resistiu ao meu charme. E não seria a Jaqueline que resistiria. Eu convidava a Jaqueline para jantar, e ela, soberba, nariz empinado, rejeitava os convites. Eu a convidava para almoçar; ela rejeitava os convites. Eu a convidava para um passeio; ela recusava os convites; não os recusava, rejeitava-os, e tratava-me como capacho. Ela, uma vez, me humilhou diante da Vilma. Foi constrangedor. O sorriso da Jaqueline… Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Aquele sorriso… Veneno de uma víbora. O sorrisinho da Jaqueline, e o da Vilma… Não desisti. Eu tinha de fazer jus à minha masculinidade. Convidei a Jaqueline para ir ao teatro, ao cinema, ao zoológico, à praia, e para almoçar, lanchar, jantar; mas ela, soberba, rejeitou todos os convites que lhe fiz. Ora, o ditado não diz que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Portanto, insisti, e insisti, e insisti. Demorei para me convencer de que, ou a pedra era dura demais, ou o ditado está errado. Foi aí que vi que os ditados são inúteis e reconheci que a minha estratégia de conquista estava errada. A abordagem direta era inútil. Eu teria de usar outra abordagem. Matutei. Inspirado pelos prazeres que eu prelibava… Gostou desta? Poético, não? Eu, inspirado pelo desejo da carne, criei outra estratégia: Abordagem indireta. Eu sitiaria a Jaqueline. Eu iria ferir a vaidade dela. As mulheres bonitas são vaidosas, você sabe. Elas querem que os homens as reverenciem. Jaqueline ficava, é certo, orgulhosa, cheia de si, quando eu me derretia por ela. Ela se considerava a mulher mais desejável do mundo. Eu mostraria pra ela que ela não é a mulher mais importante do mundo. Eu não a convidaria mais. Eu a esnobaria. Eu a ignoraria solenemente, nem olharia pra ela; se ela estivesse próxima de mim, mas não conversando comigo, e eu conversasse com outra pessoa, eu elogiaria a beleza, os encantos, os atrativos de outras mulheres. Eu tinha casos com a Adriana, com a Cinira e com a Andressa. Usei-as pra provocar a Jaqueline. Eu as beijava gulosamente sempre que a Jaqueline olhava pra mim. Eu elogiava todas elas, principalmente a Andressa, que é uma gata; não tão bonita quanto a Jaqueline, mas uma gata… A Jaqueline, eu via nos olhos dela, ficava fula, mordia a língua. Ela sentiu, na carne, a dor do desprezo; e a vaidade falou mais alto. Ela começou a se insinuar pra mim. Eu fingia que não percebia, que não era comigo. Eu a ignorava solenemente. Ela me abordava, contendo-se, e perguntava-me se eu tinha compromisso, ou na hora do almoço, ou à noite, ou no final de semana, mas nunca me dizia porque me fazia tal pergunta. Eu sempre lhe dizia que sim, que, ou tinha um compromisso, ou um encontro. Eu sabia que a fortaleza enfraquecia-se, e que, com uma investida certeira, eu a destruiria, e teria acesso a prazeres indescritíveis… Era tudo uma questão de tempo. Quando eu menos esperasse, e sem que a Jaqueline desconfiasse que eu lhe manipulava os sentimentos e a induzia a fazer o que eu desejava que ela fizesse, ela se lançaria aos meus braços, e se me ofereceria, e eu usufruiria dos prazeres mais sensacionais que eu jamais poderia imaginar. A Jaqueline abordava-me, insinuava-se, e eu a rejeitava, e dava-lhe a entender que eu preferia outra mulher. Eu ia à balada com a Natália, com a Úrsula, com a Arlete. Quando a Jaqueline estava por perto, eu elogiava a Natália, a Arlete, a Úrsula, a Andressa, a Adriana, a Cinira. Eu declarava que não conhecia mulheres tão bonitas quanto elas, e a minha voz chegava aos ouvidos da Jaqueline. Dentre elas, Natália era a que eu mais elogiava. Natália! Que loirinha! Eu sabia que ela e a Jaqueline não se bicam. Elas se detestam. O mundo é pequeno demais para as duas. A Jaqueline irritava-se sempre que me via com a Natália. A Natália é bonita, atraente, desejável. Todavia, não se compara com a Jaqueline; eu, no entanto, dava a entender o contrário. E a Jaqueline mordia-se de raiva! Na sexta-feira, os episódios desta novela sucederam-se num ritmo vertiginoso. Eu estava na minha casa, sozinho, quando a campainha soou. Você é capaz de adivinhar quem premiu a campainha? Abri a porta. O tempo parou. Meu queixo caiu. A Jaqueline, vestida para matar, aproximou-se de mim, abraçou-me, e beijou-me. Foi uma noite maravilhosa. O início do meu namoro com a Jaqueline, auspicioso. A Jaqueline é minha, inteiramente minha, exclusivamente minha. Não quero mais saber de outra mulher. Quero a Jaqueline, apenas a Jaqueline. Não preciso de outra mulher. A Jaqueline satisfaz-me em todos os sentidos e todos os meus sentidos. Não preciso de outra mulher. Sou apaixonado pela Jaqueline. Meu coração é dela, e o dela é meu. Conquistei a Jaqueline. Conquistei a mulher dos meus sonhos. Ela é minha. Inteiramente minha. Exclusivamente minha. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

*

– Daiane, os homens são patéticos. Eles acreditam que sempre estão por cima; que são os conquistadores; que são espertos. Eles acreditam que são mais espertos do que as mulheres, as controlam e as obrigam a satisfazer-lhes todos os desejos. Eles vivem no mundo da fantasia! Eles se recusam a entender que o mundo pertence às mulheres e que a eles cabe o papel de coadjuvantes. Esqueça Casanova e Dom Juan, dois gabolas mentirosos. Você acredita nas histórias que eles escreveram? Eles são famosos, mas qual deles foi poderoso? Pompadour e Cleópatra foram poderosas. Casanova e Dom Juan eram conquistadores baratos. E a Marilyn Monroe, que conquistou os Kennedys e um escritor famoso, cujo nome não lembro. E um escritor americano escreveu uma biografia dela. Não a li. Um escritor americano… Não foi o Roth, nem o Vidal. Li cinco livros dele. O nome dele estava na ponta da minha língua; de repente, desapareceu, como num passe de mágica. Uma graça, a Marilyn, você não acha? Ela é mais bonita e mais cheia de graça do que a Bardot e a Sophia. Cá entre nós, ela parecia uma bonequinha de luxo. Lembrei-me: Norman Mailer. Sou fã da Marilyn. Tenho todos os filmes dela. Como eu dizia, Casanova e Dom Juan, gabolas ridículos, desprezíveis, diziam, com os exageros de praxe, aos quatro cantos do mundo, que iam para a cama com todas as mulheres. Fie-se nas histórias que eles contaram e que deles contam! A Pompadour e a Cleópatra ficaram poderosas. Eles, não. As mulheres são mais sutis, astutas e espertas do que os homens, e sabem usar as suas armas, aquelas que as têm, muito melhor do que os homens usam as deles. Uma delas é a beleza; a outra, a sensibilidade; a outra, a inteligência. Os homens recusam-se a entender que não podem resistir, mesmo se o desejarem, aos ataques das mulheres que possuem essas três armas. Raras as possuem. Eu as possuo. O que eu disse pode soar arrogante aos seus ouvidos, mas não é. Sou bonita. Sou inteligente. Sou sensível. Não quero me gabar: possuo as três mais poderosas armas femininas. E sei usá-las. Usando-as, conquistei o Leandro. Ele é um gato. Ele me abordou, em diversas ocasiões, mas eu, que tenho o meu orgulho, me fiz de difícil. Eu não queria ser mais uma mulher na lista dele. Eu sabia que ele, indiscreto, contava, com todos os pormenores, para o Feliciano, o confidente dele, tudo o que se sucedia sob os lençóis, e o Feliciano anunciava, em rede nacional, tudo o que o Leandro lhe relatava. Discreto ele, né? Eu soube que o Leandro ficava, um dia, com a Cinira, no outro, com a Andressa, no outro, com a Natália, e com outras mulheres. A lista é extensa. Eu não permitiria que o Leandro me reduzisse a um nome na agenda dele. Eu sabia que ele me desejava. Ao contrário das outras mulheres, eu o desprezei. Ele me convidou para almoçar, jantar, ir ao cinema, ao zoológico, ao parque, à praia. Recusei todos os convites. Fui, reconheço, malvada com ele. Arrependi-me de dispensar-lhe tal tratamento… Eu o via com aquele olhar… Eu pensava em parar com o meu joguinho, e ceder ao Leandro… Eu o desejava. Ele é um gato. Ele é inteligente. Ele é elegante. Ele é charmoso. E aquele sorriso derrete-me. Aquele olhar… Minhas pernas tremiam sempre que o Leandro aproximava-se de mim. Meu corpo ardia de prazer, mas eu tinha de conter o desejo que me assaltava sempre que ele, tão perto e tão longe… Você não imagina como foi difícil resistir às abordagens do Leandro… Eu desejava dizer sim a todos os convites que ele me fazia. Eu o desejava, mas eu não queria ser reduzida a um nome na agenda dele. Meu nome seria o único nome de mulher na agenda do Leandro. O Leandro, esnobado, desprezado, provocava-me. Para me provocar, ele ficava com a Úrsula, com a Andressa, e com a Natália, aquela… Sei que ele sabia que eu e a Natália não nos gostamos uma da outra. O bobo pensou que me provocava. Ele, sempre que eu estava perto dele, e ele conversava ou com o Feliciano, ou com o Milton, ou com o Adriano, ou com o Arthur, ou com o César, falava da Natália e a elogiava. O propósito dele: provocar-me ciúme. A Natália é bonita, reconheço, mas ela não é tão bonita como o Leandro falava que ela é. Ora, não sou cega. Quando vejo uma mulher bonita, admiro-lhe a beleza, e até a invejo. A Tábata, por exemplo. Ela é linda. Eu gostaria de ter os olhos azuis dela, e as maçãs do rosto também. A cinturinha… Nossa! Nunca vi outra mulher com tal cinturinha! A Tábata é a mulher mais bonita que já vi. Tem um corpo perfeito. Ela é mais bonita do que eu, reconheço. A Natália… Ela não é mais bonita do que eu. Ela não é inteligente, nem espirituosa. Não digo isso por despeito. Digo isso porque é a verdade. Se quiser confirmar o que digo, converse com ela por alguns minutos. Bastam alguns minutos de conversa com ela para você se convencer de que digo a verdade. E sucederam-se os capítulos desta novela. Percebi que o Leandro estava desesperado. Ora, se ele saía com a Natália, minha desafeta, minha arquiinimiga, para me provocar, era porque ele estava desesperado, e apaixonado, apaixonado por mim, obviamente. E o que fiz? Eu o abordei. Eu me insinuava. Eu me aproximava dele e me fazia presente e atenciosa, mas dele conservava distância respeitosa. Eu lhe provava, assim, que eu não era como as outras mulheres, e o meu nome não seria mais um nome na agenda dele, e a minha foto não figuraria no álbum de fotos dele ao lado das fotos de dezenas de outras mulheres. Notei uma mudança, imperceptível, no comportamento do Leandro: Ele raramente saía de casa, ia às baladas uma vez ou outra, afastou-se das outras mulheres, desmanchou o namoro com a Natália. Vamos dizer a verdade: não era namoro; era apenas um caso. O Leandro usava a Natália para me provocar. Eu… Cheguei numa encruzilhada. Na sexta-feira, ao anoitecer, fui à casa do Leandro. Apertei a campainha, e o esperei. Assim que ele abriu a porta, eu o beijei na boca. Ele não resistiu. Eu o conquistei. O gato é meu. Falei para ele: “Jogue no lixo a agenda com os números dos telefones de todas as mulheres que você já conheceu e as fotos de todas elas. Agora só há uma mulher na sua vida: Eu.” Ele jogou a agenda e as fotos de todas as mulheres no lixo. Em seguida, dei-lhe uma agenda nova, entreguei-lhe uma caneta, e disse-lhe para escrever o meu nome e o número do meu telefone. Ele os escreveu. Dei-lhe uma foto minha, e ele a colou na agenda. O meu nome é o único nome na agenda do Leandro. A minha foto é a única foto na agenda dele. O Leandro é meu, exclusivamente meu, inteiramente meu. O coração dele me pertence. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

Quem com ferro fere com ferro será ferido

Certo domingo, estávamos, na praça Emílio Ribas, conversando, eu, Marcelo, Paulo e João. Os filhos de Paulo, Cláudio e Rodrigo brincavam de pega-pega. Não eram dez horas da manhã. Havíamos nos retirado da Igreja de Santa Teresinha vinte minutos antes. E na praça nos detivemos. De repente, ouvimos alguém gritar:

– Olha o gordo!

Voltamos a nossa atenção para a direção da qual a exclamação chegou-nos. Era Mauro, que, do outro lado da rua, gritava, apontava João, e gargalhava.

Mauro tem um metro e sessenta e cinco centímetros de altura. Branco – não de todo; e loiro – não totalmente. Magro – não direi magro; nem esbelto é. Não é bonito; e nem feio é. Não agrada as mulheres, e não lhes inspira repulsa. Para muita gente ele é irritante, intragável; mas há gente que com ele se simpatiza.

– Esse gordo é muito gordo – prosseguiu Mauro, apontando João. – Gordo! Bolo fofo! Rolha de poço! Precisam de você, na represa, para tampar a rachadura. Bolo fofo! Elefantinho da mamãe.

João, furioso, exibiu um gesto obsceno para Mauro. Paulo, eu e Marcelo pedimos-lhe que não se deixasse levar pelas provocações, mas ele, ignorando-nos, afastou-se de nós, andou na direção de Mauro, exibindo-lhe gestos obscenos e acenando-lhe para que ele se detivesse, que lhe daria boas lições. Mauro provocava-o. Paulo, eu e Marcelo pedimos, em vão, a João que ignorasse Mauro. João dele aproximou-se. Preparou-lhe um soco. Mauro esquivou-se, agachando-se, sorrindo, e afastou-se, passos acelerados, de João; dele distava uns três metros quando pôs-se a gargalhar, e a provocá-lo.

– Quando eu pegar você, Mauro – ameaçou João -, quebrarei seu nariz.

– Pegar-me? – desafiou-o Mauro. – Pegar-me, barril de banha? Você é mais lento do que uma lesma obesa, reservatório estratégico de gordura. Venha me pegar, pança de panda.

E afastava-se Mauro, sorrindo, de João, que o fitava, cenho franzido, furioso, contendo-se. João, ao olhar para a sua direita, viu uma pedra, pegou-a, e voltou-se para Mauro, que, passos apressados, dele afastou-se, zombando. João largou a pedra na calçada, e foi, extremamente irritado, até Paulo, Marcelo e eu.

Permanecemos, na praça Emilio Ribas, durante mais quinze minutos, e rumamos, cada um de nós para a sua casa.

Naquele mesmo domingo, no bar do Gonzaga, um pouco depois das quatro horas da tarde, assistíamos ao jogo de futebol entre o Corinthians e o São Paulo. Eram mais de vinte os homens dentro daquele pequeno bar, todos a olhar, vidrados, para a tela da televisão, e a esbravejar, e a disparar obscenidades contra o árbitro, os jogadores, os técnicos, os bandeirinhas e os gandulas. Alguns dentre nós éramos corinthianos; outros, sãopaulinos.

Ouvimos, em certo momento, um grito:

– Maranhão!

E olhamos, todos os que estávamos no bar, para a porta, e deparamo-nos com Mauro. Houve aqueles que, previdentes, desafetos de Mauro, retiraram-se do bar, por uma porta, enquanto no bar Mauro entrava por outra porta e encostava-se ao balcão. Maranhão, cujo nome é Vitoriano, estava na outra extremidade do balcão, distante de Mauro quatro metros. Fitou-o, olhar seco, de poucos amigos. Entreolhamo-nos muitos dentre nós. E Gonzaga solicitou a Mauro que não provocasse Vitoriano. Antevi a briga. Vitoriano é oriundo do estado do Maranhão, daí o seu apelido. Quase todos os que o conhecemos o chamávamos por tal alcunha; codnome, diz o Gonzaga, de agente secreto. Vitoriano é robusto, de pele áspera curtida de sol, atarracado, mãos calosas enormes de dedos grossos e nodosos, e braços de musculatura pétrea.

Enquanto assistíamos ao jogo de futebol, em clima de flaflu, Mauro zombava de Vitoriano, do seu tipo físico, da sua calvície precoce e pronunciada, da sua estatura baixa, da sua pele, do seu sotaque, do formato da sua cabeça. Para surpresa de todos nós, Vitoriano conservou-se, no banco, sentado, ao balcão, degustando da loirinha gelada e dos petiscos de palitinho. Mauro ridicularizava-o, e o silêncio de Vitoriano fê-lo intensificar as chacotas. Pedimos a Mauro que cessasse as provocações. Ele, no entanto, ouvidos moucos, seguia com elas, até que disse as palavras que desencadearam a fúria de Vitoriano:

– Como você nasceu, Maranhão? Quando você nasceu, a sua mãe olhou para você, e gritou: “Meu Deus! Padim Ciço, proteja-me! Que horror! Como essa criatura monstruosa entrou em mim? Não é meu filho. Eu estava bêbada quando o pai dele o fez em mim.”

Uma garrafa riscou, como um míssil, os quatro metros que separavam Vitoriano de Mauro, e estilhaçou-se na parede. Mauro, que mal teve tempo de se mexer, deslocou-se alguns centímetros para a direita, o suficiente para sair da trajetória da garrafa. Vitoriano abriu passagem, como um touro, por entre nós, deslocando-nos com os braços, indo em direção a Mauro, que tratou de girar sobre os calcanhares, e passar sebo nas canelas. Correu Mauro uns dez metros, e voltou-se para trás, para ver, à porta do bar, Vitoriano, parado, fitando-o, e acenou-lhe, debochando.

Vitoriano prometeu, para si mesmo, que um dia agarraria Mauro pelo pescoço, e fender-lhe-ia o ventre com uma peixeira.

Encontrei-me com Mauro, na fila do banco C…, na segunda-feira, e falei-lhe da promessa que João e Vitoriano fizeram. Mauro deu de ombros.

– Eles só ameaçam – disse Mauro, a sorrir. – São idiotas, aqueles dois. O João é gordo; o Maranhão é nordestino. Ambos são mais burros do que uma porta. Não vou esquentar a minha cabeça com aqueles dois imbecis fracassados.

Uma semana depois, no Clube Esportivo São Benedito, Mauro aproximou-se de um grupo de homens, saudou-os – muitos dentre eles o saudaram de má-vontade -, e deteve-se em Guilherme, de estatura um pouco maior do que a dele, magro, na altura dos trinta anos, cabelos repartidos ao meio, de óculos de lentes grossas. Mauro, sorrindo, fitava-o como se o examinasse. Guilherme fez que não o viu, e não interrompeu a sua conversa com Vinicius, que se sentiu incomodado com a atitude provocativa de Mauro.

– Pelo amor de Deus. – exclamou Mauro, fitando Guilherme, que não se voltou para ele. – De qual planeta você veio? – perguntou-lhe, tocando-o no ombro, e só então Guilherme e Vinicius interromperam a conversa, e Guilherme voltou-se para Mauro. – Você parece um alienígena com esses óculos, Guilherme. E esses cabelos! Que penteado horroroso! Cruz credo! Você não nasceu! Você foi cuspido! – e gargalhou, dobrando-se sobre si mesmo.

Guilherme, para surpresa de Mauro, disse-lhe, com voz calma, em tom firme:

– Você já se olhou no espelho? Você parece um rebento do cruzamento de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, com o Sméagol, o monstrinho do Senhor dos Anéis.

Mauro, de imediato, disparou-lhe um soco; Guilherme aparou-o, e encaixou-lhe um soco no peito, e se pôs de modo a dissuadi-lo de querer uma briga. Mauro, ciente de que não poderia sobrepujar Guilherme, mão direita a massagear o tórax no ponto que Guilherme lho atingira, afastou-se dele, esbravejando:

– Idiota! Imbecil! Idiota! Nunca mais zombe de mim! Vá para o inferno, vagabundo! Vá para o inferno!

E Mauro abriu espaço pela multidão, e retirou-se do clube.

O homem que tinha boa memória

– Hoje aconteceu-me uma coisa muito interessante, Gustavo. Fui à farmácia comprar um remédio. Ao balcão, a mocinha, uma loirinha simpática, que me atendeu, perguntou-me o que eu desejava. Pensei em dizer-lhe o que, naquele momento, eu desejava, mas, como eu sou um cavalheiro, disse-lhe eu que eu desejava um remédio. E ela perguntou-me: “Qual remédio?”. “Qual remédio!?”, indaguei-lhe, no meu tom de voz habitual, mais para mim do que para ela. “É um comprimido”, disse-lhe eu, gracejando, tentando lembrar-me o nome do maldito remédio. E a loirinha perguntou-me, com aqueles olhos tão doces a olharem-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Aquela loirinha era uma gracinha ao falar específico. Nunca vi uma mulher falar específico com tanta graça. E disse-lhe eu: “Posso. O nome do remédio começa com a letra R”. A loirinha sorriu, e perguntou-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Que graça ela falar específico! “Mais específico do que estou sendo, impossível”, respondi-lhe, e ela sorriu. E eu, que havia me esquecido o nome do maldito remédio, disse à loirinha que eu iria telefonar para a minha esposa. E a loirinha, a educação e a simpatia em pessoa, esperou-me, pacientemente, completar a conversa com a Samantha, e dizer-lhe à ela, a loirinha que me atendeu, o nome do remédio. Disse-lho eu, e desliguei o telefone. E a loirinha providenciou-me o remédio, e paguei por ele, no caixa, e retirei-me da farmácia, e fui para casa o mais rápido que pude, e entreguei o remédio para a Samantha – e após uma curta pausa, para beber da cerveja, prosseguiu: – Sabe o que é mais interessante nesta história, Gustavo? A minha boa memória. Quando, ao telefone, a Samantha disse-me o nome do remédio que ela me pedira que eu lho comprasse, dele lembrei-me de imediato. Incrível, não? Que boa memória a minha!