Porcos e porcarias

Renato saiu da sua casa, e rumou, em linha reta, até o açougue, distante uns trezentos metros, e nem bem havia posto um pé dentro do estabelecimento, anunciou-se, em alto brado, chamando para si a atenção de Rafael, o açougueiro:

– Ô, corinthiano, hoje tem você porcaria para me vender?

– Não me falte com o respeito, palmeirense. Aqui não é a casa-da-mãe-joana. Vendemos carne de primeira, suína, de porco engordado com filé mignon e caviar.

O neto

Na Prefeitura, sentou-se José Roberto Vasconcelos Liechchenstein Neto, à mesa, diante da funcionária, que lhe perguntou, após saudá-lo com um amigável bom-dia e dele receber resposta e ouvir o nome completo:

– Senhor José Roberto, o senhor é neto do seu avô?

– Sou.

– Ah! Foi o que conclui ao ouvir o senhor dizer-me o seu nome.

Pudim de Caramelo

João e José Carlos, seu filho, foram à doçaria. O filho pediu ao seu pai que comprasse um pudim de caramelo. E ele lhe atendeu ao pedido. O pudim às suas mãos, José Carlos virou-se para seu pai, e disse-lhe: “Pai, lá em casa o senhor corta o pudim pela metade e dá o pedaço maior pra mim.”

Meu filho está bem, obrigado por perguntar

– Eu soube, Biel, que seu filho envolveu-se num acidente de carro.

– Não se preocupe, Beto. Ele está bem. Quebrou as duas pernas, um braço e só quatro costelas.

– E você diz que ele está bem!?

– E não ‘tá, não?! Um braço dele ‘tá inteiro. E vinte e nove costelas dele não sofreram nenhum arranhão.

Não entendi o que o chinês me disse

 Abordou-me, hoje, à Praça Monsenhor Marcondes, um chinês, que me falou, e me falou, e me falou, e me falou… E eu nada entendi do que ele me disse, pois, para mim, chinês é grego.

Barnabé e Juvenal. Ou: Dois Nomes e Seus Donos.

Sempre que penso no nome Barnabé, imagino um caipira. E sempre que penso num caipira, imagino-o com o nome de Barnabé. Para mim, não há caipira que não se chame Barnabé e nem Barnabé que não seja um caipira. E o único Barnabé que eu conheço é médico e mora em São Paulo, cidade, e de caipira não tem sequer um arranhão.
Sempre que penso no nome Juvenal, imagino um homem amalucado. E sempre que penso num homem amalucado, imagino-o com o nome de Juvenal. Para mim, não há homem amalucado que não se chame Juvenal e nem Juvenal que não seja um homem amalucado. E o único Juvenal que eu conheço é, sem tirar nem pôr, um homem amalucado.

Meu pai está bem, obrigado por perguntar

– Bom dia, Zé.

– Bom dia, Tião.

– E seu pai, melhorou?

– Ele está bem. Quebrou só duas pernas.

– E ele tem quatro pernas!?

– Ele dá coice em muita gente, até nos filhos e na esposa. Se dá coice, ele é um cavalo; se é cavalo, é quadrúpede; se é quadrúpede, tem quatro pernas.

– Estimo melhoras para seu pai.

Tolerância e intolerância

Tolero quem desmata a Amazônia. Tolero quem é a favor da quarentena. Tolero quem diz que o Maradona é melhor do que o Pelé. Tolero quem vota em políticos do PT. Tolero quem acredita que a Terra é plana. Tolero vegetarianos e veganos. Tolero testemunhas de Jeová. Mas não tolero quem não gosta de fubá.

Dever de Casa – Uma História de Joãozinho

– Joãozinho, você já fez o dever de casa?
– Comecei de começar.
Duas horas depois:
– Joãozinho, você já fez o dever de casa?
– Acabei de acabar.

Algumas Palavras de Barnabé Varejeira

Um trecho do texto do meu amigo Barnabé Cerejeira: “Cérjim, sem querê sê desrespeitoso, e já o seno, digo: Deus tem minhoca na cabeça. E sabe pru quê? Pru que ele deu o Paraíso pro Adão, aquele bestalhão, sem que ele tivesse trabaiado pra merecê-lo. Deus devia tê falado pr’ele trabaiá, e lhe dado enxada, pá, e mandado êli roçá a terra, e plantá árvre, criá órta, pomar, e caçá alguns bicho pra tê o que comê todo santo dia; do contrário, que dexásse aquele vagabundo morrê de fome. E dispois, se Adão trabáiasse, todo dia, de segunda à segunda, enfrentano chuva e sór, e sór e chuva, comeno o pão que o coisa-ruim amassô, acordano antes de o galo cantá e dromino dispois de o sór se pôr por detrás das montanha, aí, sim, Deus daria de presente pr’ele o Paraíso, Adão fazeno por merecê. Deus fez bestêra das grossa ao dá pro Adão o Paraíso, assim, de mão bejada, pois Adão nada fez pra merecê. E deu no que deu. E inté hoje as criatura de Deus estamos pagano caro pelos pecado daquele desgramado, que só queria sabê de sombra e água fresca.

Quantas doses?

“Você já tomou a primeira dose?” “Já.” “Você já tomou a segunda dose?” “Já.” “Você já tomou a terceira dose?” “Já” “E você vai tomar a quarta dose?” “Vou.” “E por que você, após tomar três doses, e disposto a tomar a quarta, está jururu, cabisbaixo?” “Porque eu não sei qual caminho devo seguir para ir até a minha casa. Minha cabeça ‘tá um porre!”

Uma santinha de vida fácil

Uma santinha, profissional de uma casa de bons costumes, disse-me que dormiu, numa noite de sábado para domingo, das 22 horas às 8 horas, com doze homens. Que mocinha dorminhoca. Agora eu entendi porque dizem que ela é mulher de vida fácil.

Comprando alpiste – Mensagem do Barnabé Varejeira

Cérjim, depois da chuvarada dos úrtimo dia, hoje, ansim que o galo cantô, o sór despertô, e com vontade, muinta vontade. E tá de rachá a cabeça de todo fio de Deus, e até cabeça de tatu. E tatu tamém é fio de Deus, ora bolas! Tá um sór bonito, que só veno. A chuvarada troce vento (ou os vento troce a chuvarada, não sei), que derrubô duas arvre, e das grande. Sorte que não caíro as árvre em arriba da casa de ninguém; uma delas atingiu a casa dos cupim, mas casa de cupim, forte, aguentô a pancada.

Saí hoje cedo, bem cedo, pá í à cidade. Antes de saí de sob o teto que me guarda à noite enquanto gozo do sono dos justo, com a mia consorte ao meu lado, e os meu fio nos otro quarto, bebi do leite com café que a patroa me preparô com todo o carinho do mundo e comi de um pedaço de bengala, que tava uma gostosura. Com o meu primo Bernardo, fui à cidade, de carro. Meu primo dirigiu a geringonça, que tá caino aos pedaço. Eu já falei, inúmeras veiz, pa ele trocá de carro, mas ele não qué nem pensá em tar idéia; ele me disse inúmeras veiz que há de morrê com aquela geringonça, vái levá ela po túmulo. Que ansim seja. A decisão é dele; minha não. Ele é que vai gastá uma dinheirama pá fazê um caixão que caiba ele e o tatu-gasolina. Eu, por mim, dava fim àquele calhambeque; mas o Bernardo é quem decide; o carro é dele.

E fomos, então, meu primo e eu à cidade comprá lâmpa, e, pô trator, óio díser. Távamos meu primo e eu passano à frente dum açogue quando me alembrei de que não tinha eu em casa arpiste pô canarinho, canarinho-da-terra. “Eu tô na cidade, mermo, então vô aproveitá a oportunidade e comprá arpiste.”, pensei comigo. E entrei no açogue. Acheguei-me ao ómi que tava atendeno as pessoa, e preguntei pa ele: “Moço, quar é o preço do arpiste?” Ele me oiô com óios de quem não entendeu o que eu lhe disse, meio arregalado e meio fechado, e me disse: “Senhor, nós não vendemo arpiste.” Senti uma ponta de desdém na voz dele, mas não fiz caso, e preguntei pá ele: “Não preguntei po cê se oceis vende arpiste. Preguntei quar é o preço do arpiste.”, e insisti: “Quar é o preço do arpiste?” “Senhor, aqui é um açougue.”, disse-me ele. Aí, Cérjim, me enfezei, virei bicho do mato. “Só pruque sô véio, o ómi da cidade me destrata. Ele vai vê o que é bão pa tosse.”, pensei cos meu grilo, controlano meus nervo. O cê não imagina, Cérjim, a quentura do meu sangue que corre nas minha veia. Tava ferveno; se eu não controlasse meus nervo, eu ia dá uma sova naquele azêmola. E eu retruquei: “Sei que aqui é um açogue. Eu não preguntei se aqui é um açogue. Preguntei quar é o preço do arpiste. O cê sabe quar é o preço do arpiste?” E aí o ómi me arrespondeu, de mal humor: “Dez real o quilo.” E eu, mais enfezado um poco, retruquei, oiano paquele paquiderme desmiolado que tava me tirano dos nervo: “Ô, fio de Deus, eu não preguntei quar é o preço do arpiste. Preguntei se o cê sabe quar é o preço do arpiste.” E o cê sabe, Cérjim, o que aquele gambá fez? Ele riu, e riu de mim, e na mia cara. Enfezei-me de vez. E espaventei o bichano, que recuô uns três passo, fugino do meu punho, que pus bem no meio do nariz dele. E então veio me atendê otro ómi, que pediu pa o que falava comigo í pá dentro. Fez bem a criatura sumi da frente dos meu óio. Eu não quis mais conversa, e saí do açogue. Cérjim, com toda a siceridade, o ceis da cidade são uns desmiolado; não sabe arrespondê às pregunta que a gente faz, e separa todas as coisa, cada coisa em uma loja. Aí na cidade, açogue, me disse meu primo Bernardo, vende carne, e carne, só carne. Aqui, não; aqui, o Seu Tóinho, que já pesa oitenta e dois ano de vida bem e mal vivida, vende, no açogue dele, carne, sorvete, manteiga, bolacha, pneu, rapadura, relójo, pé-de-moleque, pipa, pião e arpiste, e otras coisa. E as pessoa da cidade, repito, Cérjim, não sabe arrespondê às pregunta.

Preguntei po ómi do açogue quar é o preço do arpiste, e ele me disse que não vende arpiste; mas eu, Cérjim, não lhe preguntara se ele vendia arpiste; preguntara-lhe o preço do arpiste. Em seguida, preguntei pa ele, de novo e uma vez mais, quar é o preço do arpiste; e ele, raios! me disse que lá era um açogue. Bolas! Eu sabia que era um açogue. Diabos! Mas eu não lhe preguntara se era um açogue; prerguntara-lhe quar era o preço do arpiste. Depois, preguntei pa ele se ele sabia quar é o preço do arpiste. E o que aquele bestaião me arrespondeu?Que um quilo de arpiste custa dez barão. Que diacho! Eu lhe preguntara se ele sabia o preço do arpiste, e não quar era o preço do arpiste. Quano eu lhe preguntara quar era o preço do arpiste, ele não me dissera; agora, quano eu lhe perguntara se ele sabia quar era o preço do arpiste, ele me diz o preço do arpiste. O cêis da cidade têm os miolo desparafusado.

O lado bom desta instória, Cérjim, é que o canarinho não ficô sem arpiste, que eu comprei no açogue do Seu Tóinho, por oito barão o quilo. Saí no lucro.

Té mais, Cérjim. Que Deus te abençoe, e tamém a sua famia.

Inté.

Ministério da Educação, incentivo à leitura e pornografia

Do Ministério da Educação, campanha de incentivo à leitura.
Sempre que você for assistir a um filme pornográfico, faça a opção por um que seja legendado; e enquanto estiver assistindo ao filme, leia, atentamente, as legendas, para que você possa entender a história.

Mensagem do meu amigo Barnabé Varejeira – O Dodó Doido

Cérjim, meu amigo, ôje conto p’ocê uma instória do Dodó Doido. Ocê asselembra dele? O Dodó Doido é aquele doido-varrido que vive de caçá sapo no cemitério. E agora, Cérjim, alembrôusse dele? Pois saiba que agora aquele doido-de-pedra, além de caçá sapo, deu-se na cachola, e no bestunto, a mania de caçar rã. Ônte ele correu pelas rua do bairro, de um lado pr’ôtro, berrando, como um endoidecido: “Achei rã que voa! Achei rã que voa! Achei rã que voa!” Só fartava anunciá a notícia no jornal. E ele carregava com ele um bicho, bicho que ele mostrava pá todo mundo. E eu, o Gumercindo, o Tião e o Mané Marreco ‘tava na praça, jogando truco, e veio até nós cuatro o Dodó Doido, que, enquanto nos exibia, pá nós vê, o bicho que tinha consigo, berrava, ferindo-nos os tímpano: “Achei rã que voa! Achei rã que voa! Achei rã que voa!” Olhamos bem po bicho, po bicho, que fique bem entendido, que o Dodó Doido trazia nas mão, e não po Dodó Doido, que também é um bicho, um bicho bem doido; então, prossigo, olhamos po bicho, e olhamos bem, e não ficamos espantado com o que vimos; e olhamos nós cuatro cada um de nós pá os ôtro três, mas pá cada um dos ôtro três de cada vez e não pá os três de uma vez só, e sorrimos. E falamos todos de uma vez, como se fosse combinado de antemão, po Dodó: “Dodó, esse bicho nas sua mão não é uma rã; é um morcego.” E o Dodó Doido, doido que só ele, saiu como quem não qué nada e quem nada tinha ovido, com o refrão: “Achei a rã que voa! Achei a rã que voa! Achei a rã que voa!” E o Mané Marreco observô: “Daqui a pôco o Dodó vai cacá perereca, pegá uma, e dizê que é um tamanduá.” Pois é, Cérjim, o Dodó ‘tá cada dia mais doido. Vãmo rezá p’alma dele.

Os homens são superiores às mulheres. Ou: Discussão entre pai e filha. Ou ainda: Machismo versus feminismo.

O pai: “Os homens são melhores do que as mulheres.”

A filha: “Deixe de bobagem.”

O pai: “Não é bobagem. E eu digo, certo de que o que eu digo é certo: as mulheres são insensatas; os homens, sensatos.”

A filha: “Vou fingir que acredito.”

O pai: “E provo a certeza do que digo.”

A filha: “Prove, então.”

O pai: “Eu, um homem, portanto ser humano sensato por natureza, casei-me com sua mãe; e sua mãe, uma mulher, portanto por natureza ser humano insensato, casou-se comigo.”

No velório, João Miolo Mole

João Miolo Molo era um sujeito irresistivelmente engraçado. Não batia bem dos pinos, o que lhe conferia singulares dons histriônicos e incomum graça ao falar. Certa feita, no velório do pai de um amigo seu, disse tantos despautérios, e ilustrou as suas narrativas amalucadas com mímica tão graciosamente hilária, que o defunto, esquecendo-se que estava morto, dobrou-se de tanto rir.

Vacina? Não vacina? Tem efeitos colaterais? Não tem efeitos colaterais?

Quem foi o tolo que disse que a vacina contra o Covid-19 causa efeitos colaterais? Quem?! Tomei a vacina há uma semana, e sinto-me otimamente bem. Ontem, por exemplo, ouvi a Dilma Roussef falar do álcool-em-gel, e entendi o que ela disse. ‘ta’í a prova de que a vacina não me afetou, não prejudicou meu cérebro.
É ou não é para se comemorar!?

Piolhos-de-cobra

Estou apavorado. Nas duas últimas horas, encontrei, na minha casa, cinco pequenos animais dotados de não sei quantas pernas: piolhos-de-cobra. Piolhos-de-cobra! E cinco. Encontrei cinco piolhos-de-cobra! Cinco! E tratei, o mais rapidamente possível de arremessá-los para fora da minha casa. Estou apavorado, muito, muito apavorado. Eu ainda não achei a cobra de cuja cabeça aqueles cinco parentes da centopéia caíram. E se for a cobra uma sucuri!?

Um elogio e um contratempo. Ou: Não se pode mais elogiar as mulheres.

 – Que bundão!

Com tal exclamação, João elogiou os perfeitamente bem confeccionados pandeiros de uma bela morena cor de jambo que desfilava no outro lado da rua. E recebeu um soco de um homem que, passando ao seu lado, pensou que ele o chamava de covarde.

Robert Pattinson, o novo Batman

Robert Pattinson (o vampiro de um filme de lobisomens) será o Batman em um novo filme da D.C. Agradou-me a idéia. Robert Pattinson é feio pra caramba e tem cara de cadáver. Encaixa-se, à perfeição, no papel do filho mais famoso de Gotham.

Mensagem do Barnabé Varejeira – Quase matei o meu filho

“Cérjim, meu amigão. Ocê não sabe em que aperto me vi, ônti à noite. Foi di arrepiá os cabelo das perna. E por causa do furdunço do tal do mocorongovírus, esta peste dos inferno! Quem foi o fio do diabo que dêxo os chinêis trazê este bicho desgramado pro Brasil?! Se eu pego ele com as minhas mãos que Deus me deu, mãos forte, de ómi trabaiadô, e não de muiézinha, eu corto-lhe o pescoço com uma faca mais afiada que a língua da minha sogra. Mas vâmo deixá de conversa fiada. Ônti, à noite, eu ovi um baruio na portêra da xácra, peguei a Filomena, a minha garrucha de instimação, e fui até dois metro da mia casa. Vi quatro pessoa, todos ómi, todos de máscra, pulando a portêra. Não pensei duas vez. Armei a Filomena, e disparei um tiro na direção daqueles ómi. E ovi um grito: “Ô, pai, sô eu, seu fio varão. O senhor tá quereno ficar órfão do seu fio, pai?!” E eu, meio assustado, meio preocupado e meio perdido, lhe falei pra ele: “Ô, fio que Deus me deu, ocê é um só e aí tem quatro.” “São meus amigo, pai. O Tónho, o Tônho e o Tóinho, os três fio do seu Tónhão, esposo da dona Tóninha e pai da Tóinha.” “Tá bão, então, fio. Adentre na xácra de seu pai e de sua mãe. E traga pra cá os seus amigo.” E eles quatro entraro na mia casa. Ufa! Quase, Cérjim. Quase matei um fio meu, e o varão, com a Filomena. Sorte que errei o tiro. Mas tamém! que diacho! Tá todo mundo, neste furdunço dos inferno, usano máscra, que eu nem sei mais separá os bandido dos ómi de bem. Até quando vai esta locura, meu Deus do sér?! Até quando?! Até eu ficar órfão de um fio meu?!”

Quarentena e Lockdown

Substituíram quarentena por Lockdown porque Quarentena lembra Curupira, Saci e Boitatá. E brasileiro não teme personagens folclóricos tupiniquins tão inofensivos, de aparência simpática e espírito amigável. Já Lockdown lembra os deuses nórdicos, dos bárbaros, asselvajados vikings. E ao pensar neles vem à mente o Ragnarok, o fim de Midgard. Agora a coisa é séria.

Não votei

Neste ano de 2.020, eu tive duas razões para não ir votar:
1) Nenhum candidato a prefeito se chama Epaminondas; e,
2) Nenhum candidato a vereador se chama Teodorico.
Explico-me: Desiludo com os candidatos a prefeito e a vereador nos quais votei nas eleições passadas, vendo-os eleitos, testemunhando-lhes, na condução da coisa pública, atos reprováveis, que provavam que eles não tinham honra, ao se revelarem por inteiro em sua iniquidade e seus mau-caratismo e descompromisso com o bom uso do dinheiro público, pensei, na véspera das eleições deste ano, em me conduzir até a urna eleitoral, e votar em algum candidato, mas não em candidatos que com aqueles que me desiludiram tivessem alguma semelhança, alguma afinidade. Pensei, remoí os meus pensamentos, e lembrei-me de um detalhe que até então havia me passado despercebido: Todos os candidatos nos quais votei nas eleições anteriores tinham nomes comuns: José, João, Maria, Renata, Paulo, Pedro, Madalena, Cláudia. Então, se candidatos com nomes comuns revelaram-se verdadeiros pulhas, pensei com os meus botões, vigilantes e perspicazes: Candidatos com nomes incomuns são confiáveis. Dei tratos à bola, e não durou muito veio-me os nomes de Epaminondas e Teodorico. Embora eu nenhum Epaminondas conheça, e tampouco um Teodorico, sei que tais nomes existem. Eu já os encontrei em livros – se não me falha a memória, de autores gregos de quinhentos anos antes de Cristo e de autores lusitanos da era medieval. Então estava decidido: Eu iria votar em um candidato a prefeito que se chamasse Epaminondas e num candidato a vereador que se chamasse Teodorico. Consultei as listas de candidatos. Na de candidatos a prefeito, nenhum Epaminondas; na de a vereadores, nenhum Teodorico. Frustrado, desiludido, contrariado, sem poder satisfazer a minha vontade de cumprir um dever cívico, o de votar, tive de me conservar em casa, deprimido, angustiado, durante as vinte e quatro horas do último domingo. Fosse eu um cidadão descompromissado, daria uma razão qualquer, bem disparatada, para justificar a minha decisão de não ir votar.
Onde já se viu eleições sem candidatos chamados Epamimondas e Teodorico! E tem gente que acredita que o Brasil é uma democracia! Tolos!

O barrigudinho

– Você está barrigudinho. Precisa perder essa barriguinha – comentou, zombeteiro, o nota de rodapé a reboque de uma tromba de elefante.

– E onde eu deixarei o meu estômago!? – indagou-lhe o alvo da zombaria, indiferente.

A Horta e a Chuva

A chuva que o céu descarregou em Pindamonhangaba desde sexta-feira impediu-me de aguar a horta, que recebeu um derramamento de água de deixar Noé com inveja. Hoje, segunda-feira, o dia amanhece nublado. Peço a Deus que não chova, para que eu possa aguar a horta, que tá precisando de uma boa chuveirada de regador.

Mensagem do Barnabé Varejeira – Furdunço do mocorongovírus

“Cérjim, que furdunço o mocorongovírus tá fazeno, né não? Dos inferno. Quando vai acabá a peste que tá arrbentano co Brasil de Deus!? Peste que veio da China, terra dos ómi de zóio puxado. São parente dos japoneis. Óia bem, Cérjim, antes de acomeçá esta lambança de mocorongovírus eu não tava entendeno nada. Mesmo que eu usasse toda a mia massa cinzenta, eu não entendia o que Deus nos preparô. Eu já sabia, intão que era uma peste inguar as do Egito. Mas não era do Egito; era da China. E só isso eu sabia; e eu não entendia o que eu não tava entendeno. Agora, adispois de dois mês de põe máscra e não põe máscra, de tira máscra e não tira máscra, de tranca as pessoa dentro da casa e tranca as pessoa fora da casa, de fica na rua e não fica na rua, adescobri que não tô entendeno o que eu não entendia e que eu também não tô entendendo nadinha de nada do que tá aconteno. É de deixá todo mundo doido.

Obituário – publicado no Zeca Quinha Nius

João Melão nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1980 e morreu, ontem, dia 25 de Setembro de 2020. Viveu vinte e oito anos, que correspondem aos quarenta anos de sua vida oficial substraídos os doze anos que ele passou na escola.

O poderoso João Furtado

João Furtado era um homem tão forte que certa vez desceu um porrete, com tanta força, na cabeça do Crispim do Açougue que lhe empurrou os miolos para o dedão do pé.

Um dia, meus queridos leitores, a vocês eu contarei tal história com todos os seus pormenores e pormaiores.

Qual é o valor da nota de R$ 200,00? Ou: Não brinque com o seu chefe.

– Chefe, eu tenho uma proposta para o senhor.
– Por favor, diga-me qual é. Quero ouvi-la.
– É a respeito do meu pagamento.
– Fique à vontade.
– Eu não quero, chefe, que o senhor aumente o meu salário.
– O quê!? Você enlouqueceu?! Não entendi. Explique-se.
– O senhor soube que o Bolsonaro criou a nota de R$ 200,00, não soube?
– Ouvi falar.
– Então, chefe… Todo mês o senhor me paga o salário com doze notas de R$ 100,00, certo?
– Certo.
– Eu estava pensando, chefe, com os meus botões… Eu ia pedir ao senhor um aumento de salário, mas não quero que o senhor o aumente, não.
– Você enlouqueceu?!
– Deixe-me explicar. Todo mês o senhor me paga o salário com doze notas de R$ 100,00. E eu não quero receber mais do que recebo todo mês, as doze notas que o senhor me dá. Mas, chefe, assim que o Bolsonaro soltar as notas de R$ 200,00, o senhor poderá me pagar, todo mês, o meu salário com doze, e só doze, notas, mas das de R$ 200,00, e não com as de R$ 100,00 costumeiras?
– Estou pensando em reestruturar a empresa, e reduzir custos com a folha de pagamentos…
– Foi só uma brincadeira, chefe. Já ‘tou indo trabalhar.

A invenção maravilhosa

– Eu inventei um aparelho, mas não sei para o que ele serve.

– Você já o usou para abrir gavetas?

– Já. Mas não consegui abri-las.

– Você já o usou para derreter gelos?

– Já. Mas não consegui derretê-los.

– Você já o usou para descascar cebolas?

– Já. Mas não consegui descascá-las.

– Você já o usou para quebrar tijolos?

– Já. Mas não consegui quebrá-los.

– Você já o usou para produzir bolhas de sabão?

– Já. Mas não consegui produzi-las.

– Você já o usou para arrancar dentes?

– Já. Mas não consegui arrancá-los.

– Você já o usou para abrir portas de carros?

– Já. Mas não consegui abri-las.

– Para o que serve o aparelho que você inventou, afinal?!

– É o que eu quero descobrir.

– Tenho de ir ao médico. Amanhã, retomaremos a nossa conversa, e conversaremos até sabermos que fim dar à sua invenção.

No hospício, um diálogo

No Hospício Cérebro Sadio, dois internos, Dã e Dãã, mantêm, no refeitório, durante o café-da-manhã, o seguinte diálogo:

– Dã?

– Dãã.

– Dã. Dã!

– Dãã, dãã, dãã.

– Dã dã dã. Dã? Dã!

– Dãã…

– Dã, dã dã.

– Dãã? Dãã dãã? Dãã dãã; dãã dãã. Dãã. Dãã! Dãã! Dãã!

– Dã, dã, dã dã?

– Dãã dãã. Dãã; dãã.

– Dã…

– Dãã. Dãã… Dãã dãã; dãã dãã.

– Dã.

– Dãã.
*
Nota de rodapé 1: O leitor não é capaz de conceber as quase insuperáveis dificuldades que encontrei para transcrever tal diálogo.
Nota de rodapé 2: Segundos depois de encerrado o diálogo, eu, preparando-me para me retirar do refeitório, detive-me ao ver outros dois internos, Dããã e Dãããã, aproximando-se de Dã e Dãã. Os quatro internos logo principiaram uma conversa animada, cujas primeiras palavras me demoveram do meu propósito de transcrevê-la assim que, ao ouvi-las, me persuadi de que tal empresa me exigiria forças que estão muito além da minha capacidade. E retirei-me, incontinenti, do refeitório.

Eu tenho boa memória

Uma vez, não me lembro quando, em algum lugar, não me lembro onde, uma pessoa, não me lembro quem, falou-me, não me lembro o que, a respeito não me lembro do que. Lembro-me apenas que tal pessoa, ou uma outra pessoa, naquele mesmo dia, ou em outro dia, disse-me que eu tenho memória fraca. Besteira. Se eu tivesse memória fraca eu não me lembraria que tal pessoa, seja ela quem for, disse-me que eu tenho memória fraca.

Um caso inusitado. O cadáver.

Hoje, no pronto-socorro, abordou-me um homem que eu nunca tinha visto mais gordo; descontraído, ele puxou conversa comigo. Criou-me intimidade; desembaraçado, sem cuidar das palavras que usava, disse-me: “A polícia encontrou um cadáver morto lá perto do Piracuama; foi investigar de quem era aquele corpo, e deecobriu que não era um cadáver; era um defunto”.

A quarentena está me enlouquecendo

– A quarentena ‘tá me deixando louco. Juro que, há uns cinco minutos, eu vi um pardal voando.
– Quê!? Pardal… Ora, mas pardal voa, mesmo.
– Voa!?
– Mas é claro que voa. Pardal é pássaro. Bota ovo, tem bico e pena, e pneu nos ossos.
– Então… então eu era louco antes. Que diabos a quarentena ‘tá fazendo comigo!?

A quarentena não está me fazendo bem

Hoje de manhã, antes de me retirar de casa para ir ao supermercado, peguei uma caneta esferográfica azul e um pequeno pedaço de folha de papel sulfite, e neste rascunhei, às pressas, a lista de compras, de poucos itens. E assim que, trinta minutos depois, entrei no supermercado, consultei a lista: um quilo de bife de fígado; dois litros de leite; um quilo de farinha de mandioca; meia dúzia de laranjas serra-d’água; duzentos gramas de azeitonas sem caroço; e, por último, meio quilo de pó de cabeça.

Na quarentena, uma experiência interessante.

Hoje eu fiz uma experiência bem legal: Peguei cem gramas de farinha de mandioca, meio litro de gasolina, cinquenta gramas de pó de café e vinte gramas de cocô de cachorro. Misturei tudo. Enfiei a mistura numa garrafa pet. E arremessei a garrafa contra a lâmpada da cozinha. E a lâmpada: Bum!!! Explodiu. E o que eu aprendi ao realizar esta experiência?! Que o Cometa Halley é um peixe da família das maritacas. Legal, né!?
Observação do psiquiatra: A quarentena não está fazendo bem para o Sergio, não. Ele tá ficando doido. Assinado: Napoleão Bonaparte III, imperador da França.

Polifonia Literária

Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

divinoleitao.in

Rede pessoal de Divino Leitão.

Reflexões para os dias finais

Pensamentos, reflexões, observações sobre o mundo e o tempo.

PERSPECTIVA ONLINE

"LA PERSPECTIVA, SI ES REAL, EXIGE LA MULTIPLICIDAD" (JULIÁN MARÍAS)

Pensei e escrevi aqui

— Porque nós somos aleatórias —

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Fantasia, Faërie e J.R.R. Tolkien

DIÁRIO DE UM LINGUISTA

Um blog sobre língua e outros assuntos

Brasil de Longe

O Brasil visto do exterior

Cultus Deorum Brasil

Tudo sobre o Cultus Deorum Romanorum, a Antiga Religião Tradicional Romana.

Carlos Eduardo Novaes

Crônicas e outras literatices

Coquetel Kuleshov

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Leituras do Ano

E o que elas me fazem pensar.

Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

LER É UM VÍCIO

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Velho General

História Militar, Geopolítica, Defesa e Segurança

Espiritualidade Ortodoxa

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Entre Dois Mundos

Página dedicada ao livro Entre Dois Mundos.

Olhares do Mundo

Este blog publica reportagens produzidas por alunos de Jornalismo da Universidade Mackenzie para a disciplina "Jornalismo e a Política Internacional".

Bios Theoretikos

Rascunho de uma vida intelectual

O Recanto de Richard Foxe

Ciência, esoterismo, religião e história sem dogmas e sem censuras.

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Prosas e Cafés

(...) tudo bem acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar - Caio Fernando Abreu

OLAVO PASCUCCI

O pensamento vivo e pulsante de Olavo Pascucci

Clássicos Traduzidos

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Farofa Filosófica

Ciências Humanas em debate: conteúdo para descascar abacaxis...

Humanidade em Cena

Reflexões sobre a vida a partir do cinema e do entretenimento em geral

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Na luta contra o câncer da civilização!

História e crítica cultural

"Cada momento, vivido à vista de Deus, pode trazer uma decisão inesperada" (Dietrich Bonhoeffer)

Devaneios Irrelevantes

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Dragão Metafísico

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