Através do tempo

I

A idéia da viagem através do tempo apresenta muitos conflitos paradoxais, que não podem ser resolvidos nas tramas de enredos de literatura, filmes e quadrinhos de ficção científica que em torno dela giram; daí os autores de tais obras ignorá-los, ou, como é comum, concentrarem-se em um ou outro deles, ou em alguns deles, o qual, os quais, permite-lhes, permitem-lhes, conceber um enredo coerente, mesmo se absurdo, e, aparentemente aos olhos do público, plausível de tão convincente. Steven Spielberg e Robert Silverberg souberam tratar a idéia, emprestando-lhe um tom lúdico, divertidíssimo, o primeiro, nos três filmes da trilogia De Volta Para o Futuro, filmes extraordinariamente inventivos, engenhosos, e o segundo, no livro Correios do Tempo, engenhoso e intrigante; e há Christopher Nolan, que, no filme Interestelar, estrelado por Mathew McConaught, soube emprestar à idéia um tom mais científico, com engenhosidade incomum, despertando o interesse de quem o assiste.

II

É idéia corrente nas histórias de ficção científica cuja trama gira em torno da idéia de viagem através do tempo a alteração do curso da história pelo viajante do tempo, caso ele interfira em algum evento histórico relevante, e, principalmente, encontre-se consigo mesmo, ou se o seu eu do passado (ou do futuro) o vê. Para se conceber roteiros coerentes com tal idéia, faz-se necessário que os roteiristas de tais histórias excluam os fatores que os impedem de escrevê-los. Ora, a viagem de uma pessoa de seu tempo, o presente, para qualquer tempo no passado, por si só já altera o curso da história, pois ela, uma pessoa do tempo presente, no passado, ocupa um espaço que, na linha temporal original, não havia ocupado, alterando, portanto, o curso da história, pois a sua presença num lugar em que ela, no curso original da história, não ocupou, é o suficiente para alterá-lo, mesmo que não entre em contato com personalidades históricas relevantes, não se encontre consigo mesmo e o seu eu do passado não a veja.

III

Toda viagem através do tempo é também uma viagem através do espaço. Os livros, os quadrinhos e os filmes de ficção científica que envolvem em sua trama a viagem através do tempo ignoram este detalhe. Uma pessoa, ao viajar através do tempo, do tempo presente para um tempo situado há dez anos no passado, percorre, no tempo, o espaço que o separa do local em que a Terra está no momento presente até o local em que ela esteve dez anos antes. Ora, a Terra, um corpo celeste, move-se em torno do Sol, e, movendo-se em torno dele, e sendo por ele atraído, e sendo que ele gira em torno do centro da Via-Láctea, move-se, também, ao redor do centro da Via-Láctea. E onde estava a Terra dez anos antes do tempo presente, no momento em que o viajante do tempo iniciou a sua viagem para o passado? Nas histórias de ficção científica cuja trama envolve viagem através do tempo os autores dão a entender que o deslocamento dos viajantes do tempo deu-se unicamente através do tempo, a Terra permanecendo, imóvel, no mesmo lugar tanto no presente como no passado, o que é impossível.

IV

É possível a viagem através do tempo? Para alguns cientistas, sim, é, e eles apresentam inúmeras conjecturas em apoio a esta idéia, sustentadas, declaram, em teorias da física recheadas de fórmulas matemáticas sofisticadíssimas. E pergunto-me se em tais fórmulas matemáticas considera-se a realidade, ou tenta-se encaixar a realidade nas fórmulas matemáticas concebidas para dar sustentação às teorias que dão suporte à idéia de viagens através do tempo. Se toda a matéria que há, hoje, no universo, é a mesma que havia no seu início, no instante da sua criação, quando se deu a criação de toda matéria existente, o ovo cósmico, um ponto infinitesimal, nele concentrado, mas compondo outros corpos, sem que nenhuma outra matéria tenha sido criada, e nem destruída, mas apenas transformada, então, posso concluir, um viajante do tempo, por exemplo, ao ir do tempo presente, para um tempo no passado provoca um deslocamento de matéria (a de seu corpo e a do veículo que o transporta), durante a viagem, do presente ao passado, diminuindo, no tempo presente, a quantidade de matéria existente no universo, aumentando, no tempo passado, a quantidade de matéria existente no universo, provocando, uma anomalia no corpo do universo, com conseqüências inimagináveis, catastróficas, pois, rasgando-se o tecido do universo com o transporte de matéria de um tempo para o outro, o caos irá se instalar. A viagem através do tempo não faz sentido. Caso uma pessoa empreenda uma viagem do presente para o passado, no passado ela encontraria o nada, pois a linha temporal não retrocede; segue, sempre, para o futuro, ininterruptamente. E como poderia uma pessoa deslocar-se através do tempo ao mesmo tempo que o tempo segue o seu curso natural? É concebível a viagem através do tempo apenas pela imaginação fértil de artistas, roteiristas de filmes e de histórias em quadrinhos e de escritores de ficção científica e de cientistas, que, em detrimento das ciências, conjecturam idéias implausíveis e emprestam-lhes ares de plausibilidade, concebendo, engenhosos, fórmulas matemáticas, que se encaixam nas suas teorias, sustentando-as, atendendo, antes de tudo, a presunção de se verem como criadores de artefatos que moldam o universo, desrespeitam as leis da física, leis que eles próprios e seus antecessores no campo do conhecimento conceberam, dando a entender para si e para os outros, e gozando de inigualável prazer nesta atividade, que contestam, e desrespeitam, as leis do Criador.

V

Se viagem através do tempo é possível, se os humanos podemos ir do presente para o passado, então o nosso tempo é da linha temporal original, e se os humanos também podemos ir do presente para o futuro, o nosso tempo presente pode não ser da linha temporal original, pois, havendo o futuro, este futuro precede, no transcurso do tempo, ao nosso presente — ou não? Ou todos os tempos se misturam, todos no mesmo tempo, todos simultâneos? Se é assim que funciona o tempo, então o tempo como o entendemos inexiste, pois não há o passado, o presente e o futuro, e, portanto, a viagem através do tempo também não pode existir, pois todos os tempos já existem. Se o passado, o presente e o futuro são simultâneos, não podem existir o passado, o presente e o futuro. Se o passado, o presente e o futuro já aconteceram, melhor, já acontecem, então o que há para acontecer?

A viagem através do tempo só pode ser realizada entre o que já existe, e não entre uma coisa que existe, o presente, e uma coisa que não existe mais, o passado, e uma coisa que ainda não existe, o futuro. Ou o passado ocupa um lugar no universo? O passado não é uma coisa só, um objeto guardado numa estante. Não existe um passado, um tempo no passado. Quando se fala do passado, fala-se de qual tempo, no passado? Como se divide o tempo? Em horas, minutos, segundos, décimos de segundos, centésimos de segundos, milésimos de segundo… Qual é a menor medida de intervalo de tempo existente entre dois tempos, dois momentos, dois instantes? E como todos estes tempos, no passado, ficam registrados no universo?

A idéia de viagem através do tempo é intrigante, mas não é factível. É só uma idéia, interessante, fascinante, intrigante, extraordinária, mas só uma idéia.

E se há um tempo futuro ao nosso tempo presente, porque os homens do futuro nunca, numa viagem através do tempo, viajaram para o passado, isto é, para o nosso tempo presente, e nos deram notícia do tempo deles?

Será que algum viajante do tempo do futuro viajou para o presente, e cometeu um erro crasso, provocando um acidente, produzindo uma catástrofe de dimensões cósmicas, e nós não percebemos?

VI

O corpo de um viajante do tempo, assim que chega ao tempo, por exemplo, passado, terá de ocupar um espaço já ocupado por outros corpos, mesmo que estes corpos sejam moléculas de água em estado de vapor, e ele não os poderá deslocar, pois não se trata de uma viagem através do espaço num mesmo tempo. As partículas — corpos — que ocupam, no tempo passado, para o qual foi o viajante do tempo, um certo espaço — e este fenômeno já está registrado no livro do universo -, o mesmo espaço para o qual foi o viajante do tempo, não permitirão que o corpo do viajante do tempo o ocupe sem provocar atrito; para ocupar o espaço já ocupado por outros corpos o viajante do tempo terá de deslocá-los, mas não pode, pois os corpos — matérias — que os ocupa são do tempo passado para o qual foi o viajante do tempo, e compõem o universo daquele tempo, e sendo o viajante do tempo corpo de um universo de outro tempo, não pode preencher, no tempo passado para o qual foi, nenhum espaço, pois, no tempo do seu destino, todos os espaços estão ocupados, e ele, viajante do tempo, sendo o excesso, será expelido ao colidir com os outros corpos, pois não há, no universo, um limbo, um lugar vazio, onde o nada exista — partículas invisíveis aos olhos humanos são corpos também, e não podem ser entendidos como sendo o nada, e o lugar que eles ocupam o vazio.

VII

Não existe, no universo, um espaço vazio; não havendo, portanto, um espaço vazio, estando todos os espaços ocupados por matéria (átomo) que compõe ou algum objeto ou gases (e gases são matérias, pois compõem-se, em última análise, de átomos), não é plausível a idéia, recorrente, nos livros, filmes e quadrinhos de ficção científica, de viagem através do tempo. Cabe ao viajante do tempo o cuidado de jamais, no final de uma passagem do tempo presente, o da origem da viagem, para o tempo de destino, o momento em que aporta num outro tempo, seja no passado, seja no futuro, ir para dentro de um prédio, ou de uma montanha, ou de qualquer construção, ou de qualquer formação geológica rochosa. Ora, aqui há uma simplificação da natureza das coisas do universo, pois, em todos os lugares há átomos, uns, condensados, nos objetos sólidos, outros, esparsos, onde há apenas gases; o viajante do tempo, mesmo que, no seu destino, não vá para um local já ocupado por alguma construção, ou por um objeto, irá para onde há gases. No roteiro das histórias cuja trama giram em torno de viagem através do tempo, dá-se a entender que estão desocupados, vazios, os espaços em que há apenas gases, mas não estão, pois havendo, neles, gases, eles estão ocupados, ocupados ou por átomos de oxigênio ou de outros gases, então o corpo do viajante do tempo, ao chegar ao seu destino, algum momento no tempo passado, ou no tempo futuro, mesmo aportando numa planície onde não há construções, nem montanhas, irá colidir com os corpúsculos que ocupam, originalmente, tal espaço, provocando uma singularidade, rasgando o tecido do universo.

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Língua Portuguesa e Matemática: Essenciais.

… e o governo Temer apresentou uma reforma na Educação. Mais uma das muitas que o Brasil já viu. Desta vez, a reforma irá melhorar a educação brasileira? Não conheço os detalhes da proposta do governo; não entrarei, portanto, no mérito da questão. Limito-me a dizer que são essenciais a Língua Portuguesa e a Matemática. Se não se aprende, e bem, estas duas disciplinas, não se aprende, e bem, nenhuma outra. E das duas, a principal é a Língua Portuguesa. Não se conhecendo o Idioma Pátrio (infelizmente negligenciado nas escolas), não se pode ler, e tampouco compreender o que se lê. É impossível entender um enunciado de um problema de Matemática se se desconhece a Língua Portuguesa. Não se pode entender um texto de História, Geografia, Sociologia, Filosofia, enfim, de qualquer disciplina, se se desconhece a Língua Portuguesa. E as ciências exatas (Física, Engenharia, e outras) dependem da Matemática. E quantos professores, e bem preparados, de Língua Portuguesa e de Matemática tem o Brasil? Sabendo-se que há duas gerações a Educação brasileira desceu abaixo da linha da mediocridade, pode-se concluir que o Brasil, para reconstruí-la (diga-se a verdade, a Educação brasileira nunca foi uma das sete maravilhas do mundo), terá um trabalho hercúleo pela frente, trabalho que se estenderá pelas próximas três décadas, no mínimo, afinal, não se reergue, em pouco tempo, a Educação de um país devastado pela imoralidade, pela desfaçatez, de indolência moral, e pela idiotização e imbecilização produzidas pela instituição que deveria educar: a Escola.

Más notícias… Quem aguenta?

Ligo o telejornal (de qualquer emissora) e lá vem um tsunami de más notícias, todas desimportantes: bandido assaltou uma lojinha lá onde Judas perdeu as botas, e matou uma pessoa; um desbarrancamento, na cidade Tal, perto da cidade onde Judas perdeu as botas, matou uma pessoa; na cidade que fica perto do inferno um homem flagrou sua esposa com o Ricardão, aos beijos e amassos, mais amassos do que beijos, matou os dois, e matou-se em seguida com um tiro na testa; na cidade Qual, que fica nas proximidades de um lugar que não está no mapa, mulher matou, com três facadas, a amante do marido; e na cidade Talqual um homem, pra lá de Bagdá, matou, à pedradas, um cachorro vira-lata, que lhe tirou das mãos, com uma dentada, o pedaço de pão… E dá-lhe pormenores!!! Quem vive bem injetando, direto na veia, quero dizer, no cérebro, uma dose diária de más notícias?

Facilidades à venda

Todo vendedor de facilidades é charlatão.

Muitos candidatos a escritor querem a fórmula – que, pensam eles, é mágica – da arte literária. Em sua maioria são jovens em seus primeiros passos na arte literária, na caminhada rumo ao estrelato. Querem brilhar. Mal sabem que, para brilharem, têm de possuir luz própria, e não refratar a luz alheia, e para produzir luz, têm de entrar em combustão, e para entrar em combustão, têm de possuir elementos para queimar. E quais elementos têm para queimar?

Alguns novatos, nos seus primeiros passos na arte literária, estão imbuídos de uma consciência realista, madura, das coisas do mundo, como se delas possuíssem um conhecimento prévio, cientes de que, sem esforço, sem disciplina, sem dedicação, não irão até o objetivo almejado. Sabem que o trajeto é extenso, acidentado, e que terão de escalar montanhas alcantiladas, transpor precipícios, singrar mares procelosos, enfrentar feras reais e imaginárias, e cairão, e terão de se reerguerem, e para se reerguerem uma força intrínseca é imprescindível. São raras as pessoas com tal consciência das coisas do mundo. Poder-se-ia dizer que elas são predestinadas – se entrar por esta vereda, poderão replicar com argumentos em favor do livre-arbítrio, e a discussão estender-se-á indefinidamente.

Há pessoas que, parece, são dotadas de sabedoria, que lhes é inata. São raras tais pessoas. E elas contestam a sua época, e se impõem, e erguem-se muito acima da cultura dos seus contemporâneos, que não os compreendem, e os ignoram, e os desprezam, e os desdenham. Aristóteles não foi um representante da inteligência dos gregos de sua época; eles não o compreenderam, e de muitos dos escritos dele não tomaram conhecimento. Aristóteles foi superior à sua época. Representou a inteligência de Aristóteles, e não a dos povos helênicos. Não foi um homem do seu tempo; estava muito além dele, e só foi lido, estudado e compreendido mais de mil anos depois, e até hoje ele é objeto de estudos, de debates, e ainda não foi superado, prova da perenidade dos seus pensamentos.

São raros os gênios na filosofia, na matemática, na política, na literatura, nas ciências. E eles influenciam, profundamente, a face da cultura de um povo, e, até, da civilização, tão poderosa é a inteligência deles, e as dimensões das suas obras são inabarcáveis.

Como as pessoas que desejam ser escritores agem? Quais pensamentos as movem? Qual é o caldo cultural do qual se alimentam? A cultura da sociedade em que vivem as favorece, nos estudos, as orienta, ou as desfavorece, as desorienta, as desencaminha? Se a influência do ambiente cultural lhes é prejudicial, o que se pode fazer para reduzi-la, não sendo possível anulá-la? É possível anular as influências nocivas que prejudicam as pessoas que não têm maturidade, para que elas atuem com a conduta apropriada? Se o ambiente cultural despreza o estudo árduo, deplora a disciplina, hostiliza a inteligência, tem horror ao conhecimento, todas as pessoas que dela se alimentam definham e não aprimoram os seus talentos. E em tal ambiente cultural proliferam-se os vendedores de facilidades, charlatães todos eles; eles vendem fórmulas mágicas, que mágicas não são; ao comerciarem-las auferem fama e credibilidade, e empobrecem aqueles que as compram, e o empobrecimento não é apenas financeiro, é intelectual, cultural, artístico. Os candidatos a escritor, ao comprarem as fórmulas mágicas dos vendedores de facilidades, não aprenderão as lições que lhes permitiriam edificar uma obra literária digna de atenção.

Os gênios são raros, as suas obras perpetuam-se por toda a eternidade. Muitos escritores desprovidos de gênio literário escreveram obras significativas, de alcance elevado, que mereceram respeito, reconhecimento. Tiveram o seu mérito, que a posteridade reconheceu.

A maioria dos livros escritos há vinte e cinco séculos, há dez séculos, há cinco séculos, há dois séculos, não foram escritas por gênios da literatura. Os gênios são raros. A Grécia teve Sófocles e Ésquilo. A Itália, Dante e Boccaccio. A Espanha, Cervantes e Lope da Vega. A Inglaterra, Shakespeare e Charles Dickens. A Alemanha, Goethe e Schiller. Portugal, Camões e Fernando Pessoa. A França, Stendhal e Proust. A Rússia, Tolstói e Dostoiévski. Menciono apenas alguns homens geniais, que representam o panteão. E quantos escritores de mérito os países mencionados possuem? Centenas. E as suas obras, excelentes, engrandecem a civilização. E muitos escritores, cujas obras são objetos de leitura apaixonada ainda hoje, além de talento literário, bem instruídos tinham consciência de qual teria de ser a sua postura para que presenteassem o mundo com obras relevantes, e nem as obras dos gênios conseguiram eclipsá-las. São escritores bem reputados e respeitados, e se lhes reconhecem o mérito. Têm eles brilho próprio. O que eles fizeram para que as suas obras tivessem brilho próprio? Estudaram muito, leram muito, e bons livros – os clássicos, sempre os clássicos -, e dedicaram-se à escrita; não se deixaram ludibriar por vendedores de facilidades. Estudaram o idioma que usaram, e os clássicos, e não se prenderam à literatura de ficção; leram obras religiosas, filosóficas e científicas.

Miguel de Cervantes Saavedra, um gênio da Literatura, além dos livros de cavalaria andante, conhecia a Bíblia, a obra de Platão e a de Aristóteles. Sem o conhecimento da Bíblia e da filosofia grega, ele jamais escreveria Dom Quixote de La Mancha, pois não obteria os ingredientes que lhe permitiram conceber as suas personagens literárias, e dar-lhes consistência, e emprestar-lhes condição humana, e fazer, delas, personagens vivas, de carne e osso, de sangue e alma, que vivem entre nós, que resumem em si a condição humana, seus paradoxos, sua substância. E Cervantes escreveu a sua obra-prima, em uma cela de uma prisão, em condições precárias. Concebamos a força de vontade de Miguel de Cervantes Saavedra! Ele é um exemplo, e não é o único, de que, além de gênio, são indispensáveis aos escritores dedicação, perseverança e disciplina para se escrever obras valiosas.

E os vendedores de facilidades – charlatães todos eles – com as suas fórmulas mágicas, para atender aos anseios dos que desejam ser escritores, mas, inseguros, não sabem que passos darem e em qual direção seguir, os desencaminham, os estragam.

Em um país como o Brasil, cuja cultura não enaltece a disciplina, o estudo, o conhecimento, e sem forças para a enfrentarem, e para a abandonarem, muitas pessoas curvam-se, emasculados, perante quem lhes promete o paraíso, e engolem toda e qualquer fórmula que vem ao encontro dos seus anseios, em atendimento à sua debilidade moral e intelectual, debilidade esta, em muitos casos, decorrente do meio cultural em que vivem, e não intrínseca à elas.

Os vendedores de facilidades, à espreita, avançam, sempre, em prejuízo dos que lhes compram os conselhos.

Sem a consciência de que não havendo perseverança não há obra digna de mérito nada de valor se constrói.

As pessoas que se atêem às lições dos vendedores de facilidades já estão com a alma corroída, e a corroeu a cultura, que lhes injetou valores que lhe são prejudiciais, e que lhes nega o que elas possuem de mais valioso. Não adquirem as forças intelectual e moral essenciais para se baterem contra todas as que as prejudicam, pois já estão habituadas às comodidades, e não desejam se desgastarem com trabalho árduo. Curvam-se, desprovidas de vontade própria, diante de vendedores de facilidades – são presas fáceis deles. Os vendedores de facilidades nada lhes têm a oferecer além de maléficas fórmulas mágicas.