O Pólo Norte

Uma história do Joãozinho

Estavam, na casa do avô do Joãozinho, na biblioteca, Joãozinho, a irmã do Joãozinho e o avô do Joãozinho. O avô do Joãozinho era professor de Geografia. Na biblioteca, que o avô do Joãozinho chamava de O Esconderijo, além de livros, havia mapas e um globo do tamanho de uma bola de futebol.

E conversavam o avô do Joãozinho e a irmã do Joãozinho, quando Joãozinho, atraído pelo globo, tirou-o do suporte, olhou de um lado para o outro, e, vendo que ninguém olhava para ele, pôs-se a fazer embaixadinhas.

Em um determinado momento da conversa, o avô do Joãozinho disse para a irmã do Joãozinho que no Pólo Sul há pinguins, e no Pólo Norte não, e que no Pólo Sul há um continente, Antártida, e no Pólo Norte não há um continente. Curiosa, a irmã do Joãozinho perguntou ao seu avô:

– Vovô, o que há no Pólo Norte?

– Veja no globo – disse-lhe o avô; ele sabia a resposta, claro, mas queria que sua neta se acostumasse a consultar o globo sempre que desejasse saber algo sobre Geografia.

A irmã do Joãozinho virou-se, viu Joãozinho a fazer embaixadinhas com o globo, voltou-se para seu avô, e disse-lhe que Joãozinho estava jogando futebol com o globo. E o avô do Joãozinho, sem se levantar da cadeira, disse para Joãozinho:

– Joãozinho, pare de brincar com o globo. O globo não é bola de futebol. E diga para sua irmã o que há no Pólo Norte.

– O que é o Pólo Norte, vovô? – perguntou Joãozinho, sem parar de fazer embaixadinhas com o globo.

– A parte de cima da Terra – respondeu-lhe o avô. – Como o globo é a representação da Terra em miniatura, então, o Pólo Norte é a parte de cima do globo.

– A parte de cima, vovô? – perguntou Joãozinho, enquanto fazia embaixadinhas com o globo.

– Sim – respondeu o avô. – Pare de chutar o globo, que não é uma bola de futebol, e veja o que há no Pólo Norte, Joãozinho.

– O Pólo Norte é a parte de cima, né, vovô? – perguntou Joãozinho.

– É, Joãozinho. É – respondeu-lhe o avô. – Diga para sua irmã o que há no Pólo Norte.

Joãozinho parou com as embaixadinhas, e segurou, firmemente, com as duas mãos, o globo, olhou para a parte de cima dele, e disse:

– Austrália.

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Memórias de um desmemoriado

Anotações para uma autobiografia

Nasci no dia… Em que dia nasci? Que nasci em um dia sei que nasci, afinal, estou vivo. Quando nasci, todavia, não me recordo, mas sei que nasci, e há um bom tempo, pois a minha aparência é a de um homem de uns trinta anos, ou de um pouco menos de quarenta, ou de um pouco mais de vinte. Mais de quarenta não tenho. Menos de vinte também não. A minha aparência, se não me revela, com exatidão, a minha idade, dá-me elementos que me permitem avaliá-la aproximadamente. Então, digo, neste início do registro das minhas memórias, que nasci há trinta anos, aproximadamente.

Nasci, não sei em que dia, nem em que mês, e tampouco em que ano. Sei que nasci num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer. São meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Eu poderia telefonar para eles para lhes perguntar o nome deles, e aproveitar a ocasião e perguntar-lhes a data do meu nascimento, mas não me lembro onde deixei o telefone, e nem onde guardei a agenda telefônica com o número do telefone deles. Eu tenho telefone? Não sei. Devo ter algum telefone guardado em algum lugar desta casa. Se tenho um telefone, onde eu o guardei, caso eu o tenha guardado em algum lugar? Ou eu o esqueci em algum lugar? Não me recordo. Assim que eu me lembrar se tenho, ou não, um telefone, eu o pegarei, e telefonarei para meu pai, ou para minha mãe, e solicitar-lhe-ei as informações, que estou a procurar, para redigir estas minhas memórias, que serão memoráveis.

Prossigo, então, com o registro de episódios da minha vida, vida de um homem de trinta anos de idade, aproximadamente, como me indica a minha aparência.

Foi na cidade… na cidade de… Em qual cidade nasci? Minha mãe me deu à luz, é certo, em alguma cidade, pois não há lugar no mundo que não pertence à uma cidade. Nasci, sei, em alguma cidade. De cesariana, ou de parto normal?

Esquecia-me: Não sei se sou o primogênito de meus pais, ou o segundogênito. Tenho irmãos? Tenho irmãs? Quantos irmãos? Quantas irmãs? E onde eles estão? E onde estão meus pais? Há quanto tempo não falo com eles? Espere um pouco… Meus pais estão vivos? Ou eles morreram? Se morreram, qual foi a causa da morte deles?

Recapitulando o que escrevi até aqui… O que já escrevi? Esqueci. Vou ler o que escrevi até este ponto para poder dar sequência à redação destas minhas memórias, que serão o princípio da minha autobiografia.

*

Li o que já registrei para estas minhas memórias, e chamou-me a atenção, intrigando-me, a ausência de informações acerca da minha vida. Como eu pude registrar um relato tão vago? Não é apropriado, sou obrigado a reconhecer, registrar memórias desprovidas de informações sobre a vida do memorialista. Sou eu o memorialista a escrever a minha autobiografia… Humor involuntário. Apenas eu, é claro, posso escrever a minha autobiografia. E… Espere um pouco. Eu já escrevi, em algum outro dia, a minha autobiografia? Esta é a primeira vez que me ponho a redigir as minhas memórias, ou eu já as escrevi em outro dia? Se as escrevi, quando as escrevi? Falha-me a memória, neste ponto. Tenho de reconstituir a minha infância para que estes meus registros tenham razão de ser.

*

Evoco, a partir de agora, alguns episódios da minha vida de um homem que se encontra na idade de trinta anos, aproximadamente, como indica-me a minha aparência.

Nasci não sei em que dia, nem em que cidade, se de parto normal, se de cesariana. Não me recordo de meus pais, e não sei se eles estão vivo, e não me lembro se tenho irmãos. Mesmo não me recordando destas informações, posso reconstituir a minha história com fidelidade, pois algumas informações, se imprescindíveis, podem ser negligenciadas, afinal, são apenas informações, e nada além de informações, e mesmo que não estejam no corpo da redação das minhas memórias nelas podem ser inseridas por suposição – não há viva alma que, em sã consciência, ignore que uma pessoa, para existir, tem de nascer em algum dia, de genitores; portanto, todas as pessoas que tomarem conhecimento destas memórias sabem que tenho pais, mesmo que eles estejam mortos, e que nasci, no passado, em algum dia, em algum mês, em algum ano, em algum lugar.

*

Meu nascimento, não sei se de parto normal, se de cesariana, deu-se num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer, há, aproximadamente, quarenta anos, indica-me a minha aparência, que é a de um homem de um pouco mais de quarenta anos, ou um pouco menos de quarenta anos – de mais de cinquenta anos não é, e de menos de trinta também não.

Sei que meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Tenho certeza que meu pai e minha mãe têm nomes. Meus pais estão vivos? Meu pai morreu de acidente de carro, não morreu? Ou foi o pai de um amigo meu, de cujo nome minha memória não lembra, que morreu num acidente de carro? E a minha mãe está viva?

Estas são as primeiras palavras das minhas memórias, que eu as escreverei, fornecendo minúcias acerca da minha vida. Eu… Eu… Qual é o meu nome?

*

Inspirado, decidi, hoje, escrever as minhas memórias. Tal desejo excitou-me a imaginação. Eu, escrever as minhas memórias! Que interessante! Eu, escrever a minha autobiografia! Que interessante! Eu, que nunca escrevi as minhas idéias, decidi, hoje, escrevê-las, e escrever, também, a história da minha vida. Para escrevê-la, tenho de registrar o meu nome, o nome de meus pais, os de meus irmãos, os de minhas irmãs, a minha data de nascimento, e as dos meus familiares.

Aqui, no meu quarto, tenho, à mão, os documentos de todas as pessoas da minha família. Não sei porque eu peguei esta caixa com tais documentos e tais fotos – milhares delas, nas quais estou retratado, e nas quais estão retratadas muitas pessoas que nunca vi. Quem são elas? Não sei. Algumas delas estão abraçadas comigo. Por que elas estão abraçadas comigo, se não as conheço?

Consultando estes documentos e estas fotos, escrevo um rascunho das minhas memórias, para, num futuro próximo, redigir a minha autobiografia – e apenas eu posso escrever a minha autobiografia. Humor involuntário.

Meu nome é Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Sou filho de Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e de Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. Por que nomes tão extensos, meu Deus!?

Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às cinco e quarenta e cinco da manhã.

Sou o primogênito de meus pais.

São meus irmãos Paulo Ricardo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Vicente Antonio de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Márcia Luiza de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, e Fabiana Larissa de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

Nestes papéis, que tiro desta caixa de sapatos, há relatos, cujos autores não estão registrados. Leio-os, e venho a saber que, no dia dezesseis de setembro de 1999, faleceu meu avô paterno Josué de Almeida Prado, alvejado, na têmpora esquerda, por um projétil, disparado por um homem de nome João Romão e codnome Lagarto Albino. Não sei quem escreveu estas linhas. As caligrafias (identifiquei quatro), parece-me, são de mulheres, pois os homens jamais escreveriam com tanto esmero.

Nesta outra folha há o relato, de autoria de Vicente Antonio, meu irmão, de uma viagem que todos da família empreendemos aos Estados Unidos. Passeamos pelo Grand Canyon, visitamos Washington, e fomos à Disneylândia.

Assisti à vídeos de gravações de brincadeiras, na escola, com os amigos, e em festas da família.

*

Acordei, hoje, com o desejo de registrar, em vídeo, a história da minha vida. Mas não me lembro de nenhum dos seus episódios. E nem me lembro do meu nome. E não tenho à mão nenhum documento, nenhuma foto, nenhum registro em vídeo, nem escritos em papel, nem digitados em computador, para servir-me de fonte de dados acerca de mim mesmo.

*

Ao limpar o meu guarda-roupa, encontrei fitas-cassetes e dvds com gravações de festas de aniversários, do casamento de meu irmão Paulo Ricardo com a Susana, e do nascimento do primogênito deles, sobrinho meu, o Emílio, e do nascimento de Vanessa, filha dos meus amigos Carlos José e Neide.

*

Anima-me a vontade de escrever as minhas memórias. Não me lembro, no entanto, de nada da minha vida. Como poderei, então, escrever as minhas memórias, se da minha vida nada me recordo?

*

Peguei da caneta, debrucei-me sobre a folha de sulfite, e perguntei-me qual é o meu nome. Qual é o meu nome? Eu o esqueci.

*

Hoje, um dia daqueles em que fico, no ócio, a matutar, e a imaginar coisas, e a conceber idéias, tive uma idéia brilhante: Escrever as minhas memórias, a minha autobiografia. Mas o que há de interessante na minha vida que merece ser contado para as pessoas? A minha vida é interessante? E por que não seria? É interessante, sim.

O que me aconteceu durante a minha vida de não sei quantos anos? Para escrever as minhas memórias tenho de puxar pela memória acontecimentos da minha vida. Quais? De nenhum me recordo.

*

Aconteceu-me algo muito engraçado, hoje, mas esqueci do que se trata. Sei, todavia, que foi engraçado, afinal estou rindo, estou gargalhando.

*

Pergunto-me: Por que não escrevo as minhas memórias? Por que não escrevo a minha autobiografia? Humor involuntário.

*

Encontrei uma folha de sulfite, que traz, em uma das suas faces, um registro de um desejo meu: O de escrever as minhas memórias. Sentei-me à escrivaninha, e abri uma gaveta, na qual havia uma caixa com a minha Certidão de Nascimento. Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às 5:45. São meus pais Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. É o meu nome Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

E deixo esta folha sobre a escrivaninha, para procurar outros documentos, que me dêem notícias da minha vida e da vida de meus familiares, parentes e amigos.

Fiz bem em deixar sobre a escrivaninha esta folha com as minhas anotações e a minha Certidão de Nascimento, pois sei que esqueço, em poucos minutos, o que faço, e às vezes esqueço que esqueço. Fui previdente ao tomar a providência de manter esta folha de sulfite e a minha Certidão de Nascimento sobre a escrivaninha, pois, agora, destes álbuns de fotos e de dois dvds, tiro, do fundo do baú, dir-se-ia – mas não foi no fundo de um baú que os achei (e onde os encontrei, não me lembro) -, algumas notas acerca da minha vida e da minha família e da meus amigos.

São meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa. Eu sou o primogênito, e a Fabiana Larissa é a caçula. Paulo Ricardo nasceu no dia 16 de maio de 1986; Vicente Antonio, no dia 7 de agosto de 1987; Márcia Luiza, no dia 14 de dezembro de 1988; e Fabiana Larissa, no dia 5 de janeiro de 1991.

*

Encontrei um álbum de fotos, e dentro dele uma Certidão de Batismo, a minha, suspeitei; e confirmei as minhas suspeitas após do álbum remover uma foto, em cuja face anterior há uma criança, pequenina e fofinha, que, eu vim a saber, é eu, ao colo de uma linda mulher de uns vinte anos, que, eu soube, é minha mãe, e em cuja face posterior há anotações. Além de vir a saber que a criança é eu, e a mulher, minha mãe, eu soube que o homem à direita de minha mãe é meu pai, e o à direita de meu pai é o pai dele, meu avô e meu padrinho de batismo, Josué de Almeida Prado, todos a irradiar felicidade.

Em outras fotos há várias pessoas, muitas delas eu as desconheço. E não sei em que local tais fotos foram tiradas. Não reconheço os móveis, tampouco os prédios que aparecem ao fundo, e muito menos a paisagem. Em algumas fotos há a indicação, no verso, de que a família estava em viagem ao Rio Grande do Sul, em outras ao Pantanal, e em outras à Flórida; algumas indicam o aniversário natalício de Vicente Antonio, outras o de Fabiana Larissa; outras o de Carlos Ermenegildo, eu; outras, o casamento de Paulo Ricardo e Susana; e outras o de Marcos Roberto e Ana Carolina, meus genitores. São muitas as fotos, e muitas são as pessoas retratadas, e muitas delas eu as desconheço. E eu apareço em várias fotos, principalmente nas mais recentes.

*

Escrevo enquanto assisto ao vídeo que registra a festa de meu aniversário natalício. A minha memória evanescente não me permitiria registrar estas minhas lembranças sem o auxílio do vídeo, e das fotos, que me auxiliam na identificação das pessoas que aparecem no vídeo. É um vídeo da minha festa de aniversário de 18 anos, indicam as velas. O homem que me cumprimenta, no início, é meu pai. E vários familiares eu os identifico com a ajuda de fotos, em cuja face posterior há o nome dos fotografados – comparando-os com as pessoas que aparecem no vídeo, pude identificá-los: Meu pai, minha mãe, meu avô materno, Marco Antonio, minha avó materna, Maria Elizabeth, minha avó paterna, Maria da Conceição, meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa, meus tios Pedro, Sergio, Carla, Madalena, Vinicius, Bruna, Daniel, Tadeu, meus primos Valéria, Roberto, Hélio, Gilberto, Gabriela, Edson, Renato, Rodrigo, André, Jorge, Janaína, Jaqueline, Jéssica, Getúlio, Fábio, Ísis, Leandro, e os meus amigos Adriano, Adriana, Bianca, Márcio, Murilo, Natália, Osvaldo, Paula, Úrsula, Ulisses, Vera, Laura, Ligiane. Estas foram as pessoas que pude identificar. E há inúmeras outras, cujos nomes desconheço, e não sei se há relação de parentesco entre elas e eu, ou se são apenas meus amigos, ou se conhecidos.

*

Tomei, hoje, uma decisão: Escreverei as minhas memórias.

Escrevi estas palavras, para não me esquecer do meu propósito, e saí à procura de vídeos, documentos e álbuns de fotos que me auxiliem em minha empreitada, e encontrei, na segunda gaveta desta escrivaninha, um Atestado de Óbito com a data do falecimento, 16 de outubro de 2015, de Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Quem é ele? Eu o conheço? Por que o Atestado de Óbito dele estava guardado dentro da minha escrivaninha?

O tiro

Testemunhei, ontem, ao entardecer, um dos mais horrendos espetáculos que a vida poderia me proporcionar. Indescritível. Inenarrável. Inominável. Não encontro as palavras adequadas para dar a dimensão das profundas impressões que o evento me deixou no espírito de homem pacato que nunca testemunhara cena tão horripilante e que não deseja testemunhar outra igual. Digo, na ausência de uma expressão que traduza melhor os meus sentimentos: carregarei para o túmulo imagens, tão impactantes, que dissolveram meu espírito. Eu gostaria de jamais haver testemunhado tão… Como eu direi? Estranho? Inusitado? Grotesco? Horripilante? Nenhum desses adjetivos dá a dimensão do que testemunhei. Eu gostaria de poder me expressar com palavras que reproduzissem com exatidão as impressões que o evento me gravou na memória, no espírito, na alma.

Por que não intervi… O que eu, assustado, impressionado, estupefato, poderia fazer? Não sou clarividente. Eu não sabia como o evento se desenrolaria, e tampouco como se encerraria. Encerramento tão… Inusitado? Imprevisível? Absurdo? Eu, um observador petrificado diante de uma cena inédita, mantive-me distante dos dois protagonistas desta história, desde o início do evento, que transcorreu num ritmo vertiginoso. Aproximei-me deles, curioso, na expectativa, sem ter consciência de que deles eu me aproximava. O que eu poderia fazer contra um homem que empunhava um revólver? Telefonei para a polícia. Naquelas circunstâncias, na companhia da Laura, a minha namorada, esta era a única providência que eu poderia tomar. Passou-me pela cabeça o desejo de bancar o herói. Tal pensamento foi-se embora tão logo se me aflorou ao cérebro. Não sou um herói. Seria uma rematada tolice interferir na discussão daqueles dois homens, que prodigalizaram um espetáculo que não está no gibi. Um deles empunhava um revólver. Eu, a Laura e não sei quantas outras pessoas assistimos à cena entorpecente. Nenhum filme nos proporciona cena tão impactante.

Após relatar o horrendo evento para o Ulisses, a Zulmira, o Júlio César, respectivamente, pai, mãe e irmão da Laura, e, depois, para a Adriana, a Zuleica, o Milton e o Osvaldo, amigos meus e da Laura, despedi-me da Laura, e vim para a minha casa. Aqui, narrei o ocorrido ao meu pai, à minha mãe e às minhas irmãs. Curiosos, ouviram-me atentamente. Prendi a atenção deles porque lhes narrei uma tragédia, gênero narrativo mesmerizante. Todas as atenções convergiram para mim durante o jantar, e depois. Meu pai não assistiu ao noticiário, e minha mãe e minhas irmãs não assistiram à novela. Sou um jovem extraordinariamente poderoso: fiz com que minha mãe e minhas irmãs perdessem um capítulo da novela. Esta é a explicação para a borrasca que despencou, ontem, em todo o estado. Pediram-me a repetição da cena derradeira. Não me fiz de rogado. Narrei-a. E a comentei. Perguntaram-me o que fiz, se fiquei nervoso, com medo. Perguntaram-me da Laura, se ela tremeu de medo (medrosa do jeito que ela é, disseram), se ela correu, e se escondeu dentro de uma loja. A Jéssica quis que eu lhe dissesse porque o protagonista deste episódio agiu como agiu, e exigiu-me explicações. Não lhas dei, obviamente. Se eu as tivesse! Ela não se satisfez com o meu silêncio a respeito. Minha mãe e meu pai vieram em meu socorro, chamando-a à razão; perguntaram-lhe como eu poderia saber o que se passava dentro da cabeça de um desmiolado. Depois de ouvir as minhas ponderações sensatas, as de papai e as de mamãe, a Jéssica insistiu em querer me extrair uma explicação plausível para a conduta do indivíduo ao qual minha mãe se referiu como um desmiolado. Não lha forneci, mas não me furtei a conjecturar algumas hipóteses – cinco ou seis, todas erradas, certamente. Não satisfiz a curiosidade intelectual de minha irmã – ela será uma psicóloga, pois tem o hábito de fazer perguntas para as quais ninguém conhece a resposta certa; melhor, ela faz perguntas para as quais não se deve perder tempo procurando por uma resposta, pois há mais entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia. Após minha mãe pôr a Jéssica para dormir, e a Tábata sair com a Luciana e a Rafaela, recolhi-me ao quarto. Pouco depois, banhei-me. Comi torradas, uma fatia de bolo de laranja, uvas, e bebi leite com baunilha em pó. Conversei com meu pai, durante uns dez minutos, sobre futebol, e despedi-me dele. Voltei para o quarto, bocejando, sonolento, exausto. Exauriram-me as energias a tensão, a apreensão e o medo de horas antes. Deitei-me, na cama. Pressionei o interruptor à cabeceira da cama – e apagou-se a luz. Fez-se a escuridão. Ajeitei o travesseiro. Aconchegado, no esforço de suprimir da mente as horrendas imagens que testemunhei, pensei na Laura, no desenho animado e nos vídeos de mulheres aos quais assisti, na internet. Nem as mulheres conseguiram afugentar de minha cabeça as cenas que testemunhei à tarde. Virei-me, na cama, de um lado para o outro. Deitei-me com o lado direito para cima. Deitei-me com o lado direito para baixo. Deitei-me de barriga para cima. Deitei-me de barriga para baixo, e enfiei a cara no travesseiro. Não consegui respirar, e ergui a cabeça. Não recomendo esta prática, para se buscar o sono, a ninguém. É sufocante. De nada me adiantou contar carneirinhos. Não sou um pastor. Muitos carneirinhos desgarraram-se do bando, e os lobos os devoraram. E a cerca por sobre a qual eles pulavam era eletrificada. Tempos modernos. Eletrificada para dissuadir ladrões, lobos e raposas de invadir a minha fazenda, mas acabou por matar, carbonizados, alguns carneirinhos. Resumindo: revirei-me na cama e não consegui pregar o olho. E para dormir não me injetei na veia a substância que Leonardo de Caprio se injeta, naquele filme do Christopher Nolan. Tentei sonhar que sonhava – para fazer isso eu teria de dormir. E quem disse que eu conseguia dormir! Morfeu não me visitou nesta noite. Não entrei no País das Maravilhas. Neste reino onírico eu entrava quando era criança, e protagonizava aventuras para lá de fantásticas. Notabilizei-me como rei e monarca e faraó e gênio nestas aventuras oníricas. Mas, nesta noite, o sono não me veio. Passei a noite em claro. As terríveis cenas que testemunhei, ontem, à tarde, repetiam-se, incessantemente, em meu cérebro. Sobrepunham-se as imagens. Intercalavam-se, entrecortadas. Imbricavam-se. Justapunham-se. Fundiam-se. Não pude afastá-las de minha mente. Era como se elas estivessem incrustadas em todos meus neurônios, dos quais não poderiam ser removidas sem que, com a remoção, não destruíssem minha mente. Agora, com a esferográfica à mão, debruçado sobre a mesa, sustentando a cabeça com a mão direita, escrevo, sonolento, bocejando a intervalos curtos, esta narrativa. As imagens afluem, incessantes, à minha mente, avassalam-me a alma, preenchem todos os interstícios de meu cérebro, este órgão de aparência tão repulsiva. Parece nozes. Mas não é comestível. Quem dirá isto para Hannibal Lecter? E as imagens afluem à minha mente, em profusão. Repetem-se. E repetem-se. Decidi relatar o evento da véspera, para que, assim, penso, registrando-o, eu o esqueça, e ele não me atormente mais, e eu possa dormir, na noite de hoje, tranquilamente, e sonhar sonhos idílicos. O impulso de escrever, irrefreável. Encerrarei a redação após narrar o horrendo episódio que testemunhei, ontem, na companhia da Laura. Até agora limitei-me a aludir ao evento, desordenadamente. Afinal, a qual evento referi-me desde o início deste manuscrito? Terei de conter-me no meu ímpeto de escrever, e organizar meus pensamentos. Principiarei do começo a narrativa, como, zombeteiramente, declaramos, antes de iniciar o relato de uma aventura que protagonizamos.

Fui à casa da Laura às quatro horas da tarde. Conversamos, não sei durante quanto tempo, com a tia da Laura, Maria Elizabeth, que viera, dois dias antes, do Rio Grande do Sul, onde mora, para visitar os familiares. Ela nos deu muitas notícias que nos alegraram e algumas entristecedoras: a morte de um primo e a de uma sobrinha, cujos nomes não me recordo. Josias e Jennifer, se não me engano. Ou Nicole? Não me recordo. Jennifer e Nicole são irmãs. Uma delas foi assassinada. Notícia entristecedora. Lágrimas vieram aos olhos de Maria Elizabeth. Os outros que a ouvíamos nos silenciamos. Não eram seis horas da tarde quando eu e a Laura nos despedimos de sua mãe e de sua tia. Não tínhamos outro objetivo além do de andar pelas calçadas do centro da cidade, olhar para as roupas, os calçados, os computadores, os chocolates, expostos nas vitrines das lojas, e, se nos desse vontade, determo-nos em uma sorveteria, para chuparmos sorvetes; picolés, não; não os aprecio, e Laura também não.

Andávamos, tranquilamente, em meio ao azáfama reinante. Crianças com uniforme escolar, acompanhadas de um adulto, e jovens sobraçando cadernos, iam de um lado para o outro. O trânsito, caótico. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de calçados. Laura apontou os calçados que desejava comprar, todos inacessíveis ao seu pai e à sua mãe. Na loja vizinha, à direita, quatro manequins exibiam vestidos deslumbrantes pelos quais Laura, disse ela, apaixonou-se. Ela também disse que pediria para sua mãe comprar-lhe um vestido; não o pediria ao seu pai, pois dona Zulmira é, nas palavras da Laura, mão aberta, e seu Ulisses, mão fechada, mão de vaca, unha de fome. O Ulisses não é mão de vaca, como diz a Laura. Ele é parcimonioso, diria meu tio Washington, sempre mergulhado nos livros, com o nariz, como diz tia Luiza, esposa dele, enfiado entre as linhas, os olhos grudados nas folhas, e os ouvidos a ouvir a voz interior enquanto decifra os indecifráveis segredos daqueles misteriosos livros de filosofia. À direita da loja de vestidos femininos, há uma loja de calçados à frente da qual detivemo-nos eu e Laura. Alguns calçados eram, direi, atraentes; outros, de um mal gosto de provocar engulhos até no diabo. E a Laura, mais uma vez, para não perder o costume, disse que pediria para sua mãe, mulher generosa, comprar-lhe este e aquele par de sapatos pelo qual se apaixonou, e não os pediria ao seu pai, porque ele não abre a mão nem para dar tchau. Andamos alguns metros. Expostas à vitrine de uma loja, roupas íntimas femininas. Arregalei os olhos. Expressei uma interjeição. Não escondi da Laura o meu interesse por aqueles sutiãs e aquelas calcinhas (obviamente, interessei-me pelas roupas íntimas femininas não para eu as usar, mas para a Laura cobrir-se com elas. Cobrir-se com roupas tão minúsculas!?). Detive-me. Laura puxou-me pela mão, a passos pesados. Esbocei resistência. Laura beliscou-me, e ameaçou dar-me um tapa. Deixei-me levar por ela, sorrindo, divertidíssimo. Laura irritou-se, franziu o cenho, disse-me que me quebraria o nariz com um soco se eu me detivesse diante daquela loja, e mandou-me suprimir o sorriso do rosto. Andamos alguns metros. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de roupas femininas. Dos quatro vestidos expostos, a Laura apaixonou-se por três; pediria, disse, para sua mãe, mulher generosa e mão aberta, comprar-lhos. Informo: O mais barato dos três vestidos estava à venda por R$ 250,00. Diante da vitrine desta loja permanecemos por mais tempo do que diante da das outras lojas. Laura amou – disse ela – os vestidos, que lhe inspiraram aventuras mais comuns aos contos de fadas do que à realidade. Disse que queria entrar na loja para ver quais outros vestidos haviam lá, mas queria vê-los ‘com as mãos’, e puxou-me pelo braço. Foi neste momento que nos chegou aos ouvidos barulho de pneus cantando no asfalto. Viramo-nos, simultaneamente, para a nossa esquerda, a tempo de assistir à colisão de dois carros, um vermelho e um prateado. Laura exclamou: “Nossa!”, arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão esquerda, e, soltando-me o braço, com a mão direita cobriu a mão esquerda. Arregalei os olhos. Vi várias pessoas, todas com o olhar convergindo para os dois carros que se envolveram no acidente. Por sorte, ambos os motoristas frearam a tempo de impedir uma colisão destruidora. Nenhum dos dois carros teve danos significativos. Do carro prateado ficou quebrado o farol dianteiro; do carro vermelho, a porta ficou amassada. Ajuntou uma pequena multidão de curiosos nas proximidades. Ninguém, no entanto, aproximou-se dos dois carros. Os curiosos, expectantes, aguardamos o desenrolar do evento. O que haveria a seguir? Os dois motoristas se insultariam, se engalfinhariam, se arrancariam sangue um do outro? Do carro vermelho retirou-se um homem robusto, de um metro e oitenta de altura, barba rapada, cabelos curtos, queixo quadrado, sobrancelhas espessas, lábios finos, descoloridos, quase indiscerníveis. Trajava uma calça jeans e uma camisa de um time espanhol de futebol. Com o olhar assustado, deteve-se; coçou a cabeça, e olhou, apalermado, para o motorista do carro prateado. A colisão roubara-lhe o governo de si. Presumo que foi a primeira vez que ele se envolveu em um acidente de carro, daí a sua imobilidade. Ele não sabia quais providências tomar, o que dizer, nem para o motorista do carro prateado, nem para si mesmo. Estava constrangido. Sorriu, acanhado. Indisfarçável, o seu constrangimento. Coçou o nariz com a ponta do dedo indicador direito, premiu as narinas, e olhou ao redor. O motorista do carro prateado, nesse meio tempo, ao desvencilhar-se do cinto de segurança, abriu a porta do carro, e do carro retirou-se, bufando de raiva, rilhando os dentes. Fitou o motorista do carro vermelho, bateu a porta do carro, fungando, furioso. Visível a raiva contida em seu rosto. Era um homem de estatura mediana. De um metro e sessenta, se muito. De trinta anos de idade, presumo. Trajava uma bermuda verde-abacate e camisa regata; nos pés, tênis azul com faixas brancas e amarelas. Era magro, mas não era desprovido de músculos salientes; os vasos sanguíneos destacavam-se. De lábios grossos, queixo pontudo. Tinha, na orelha direita, dois brincos (um, argola; o outro, uma estrela azul); na narina esquerda, um piercing; e um piercing na extremidade externa da sobranceira direita. Carregava cabelos compridos pretos, presos, num rabo-de-cabelo, com elásticos; no ombro, no braço e no antebraço esquerdos tinha uma tatuagem, ou várias tatuagens; não pude distinguir a figura (ou figuras) representada. Ele andou, a passos pesados, na direção do motorista do carro vermelho. Não o agrediu, no entanto, como, presumo, desejava fazer, pois o motorista do carro vermelho era maior e mais forte do que ele. Irritado, enraivecido, com os punhos cerrados, esbravejou e ofendeu o motorista do carro vermelho, mantendo dele a distância de dois metros. Os curiosos, expectantes, antevíamos uma briga corpo-a-corpo entre os dois motoristas. Ansiávamos por uma briga. Queríamos assistir à luta do século, ao vivo, e em cores, entre aqueles dois homens. Quais regras eles respeitariam? Nenhuma. Ninguém arbitraria a luta. Eles, previ, prodigalizariam uma luta inesquecível. O motorista do carro vermelho e o motorista do carro prateado entrariam para a história universal como os protagonistas da luta do século. Perguntei-me, em silêncio, porque o motorista do carro vermelho, com os seus um metro e oitenta de altura e punhos de aço não cerrava os punhos e não nocauteava o baixinho do carro prateado. Por que ele o ouvia, calado, constrangido, e olhava de um lado para o outro, enquanto o motorista do carro prateado intensificava os insultos, e punha-lhe o dedo indicador em riste diante do nariz? Vários curiosos atiçavam o motorista do carro vermelho contra o motorista do carro prateado; diziam-lhe que lhe quebrasse o nariz; que não levasse desaforos para casa; que o golpeasse com um soco. Exclamaram “Quebre ele!”, “Esmague o nariz dele!”, “Não deixe barato, não, cara. Arrebente ele!”. Mas o motorista do carro vermelho não lhes deu ouvidos. Ao contrário, buscou entender-se com o motorista do carro prateado, pedia-lhe que se acalmasse. Seus gestos, serenos, indicavam que ele desejava o entendimento, por meios pacíficos, mas o motorista do carro prateado queria proporcionar ao público um espetáculo inesquecível que seria narrado em prosa e verso por todas as testemunhas repetidas vezes e perpetuar-se-ia por gerações. Enquanto assistia à agressão verbal do motorista do carro prateado contra o motorista do carro vermelho, perguntei-me qual deles causara a colisão.

A multidão acercou-se dos dois motoristas, aproximou-se deles. Eu e a Laura a acompanhamos; conservamo-nos mais perto do motorista do carro prateado, dele distando três metros. Eu estava com a mão direita pousada no ombro direito da Laura, que me enlaçava, pela cintura, com o braço esquerdo, a mão esquerda na minha ilharga esquerda. Assistíamos, curiosos, expectantes, ao desenrolar do episódio. O motorista do carro prateado, olhos esbugalhados, punhos cerrados, esbravejava, esgoelando-se, insultava o motorista do carro vermelho, que, era visível, estava constrangido. Após uma sequência de obscenidades, numa série que, parecia, seria interminável, sucedeu-se o imprevisível. Eu poderia reproduzir as obscenidades que o motorista do carro prateado cuspiu sobre o motorista do carro vermelho. Todavia, não o farei. O pudor mo impede. Quero, no entanto, reproduzi-las. Não o farei, entretanto. Elas são impublicáveis. Eu as substituirei por eufemismos. Ei-los: “Imbecil! Idiota! Você é débil mental, asno retardado? Não viu o sinal vermelho, mocorongo? Idiota! Olhe para o meu carro! Olhe! Viu o que você fez, burro filho-de-uma-égua!? Viu o que você fez!? Anta! Você tem titica de galinha na cabeça, cérebro de ameba!? Você tem inteligência de lombriga! Idiota! Filho-de-uma-égua! Você tem cérebro de ameba. Quantos neurônios você tem na cabeça!? Dois. Apenas dois. Um estava com a data de validade vencida no dia que você foi concebido e um queimou-se no dia que você nasceu. Asno! Débil mental! Filho-da-polícia! Filho-de-uma-égua!” Ato contínuo, cuspiu no motorista do carro vermelho, que se enfezou, e deu dois passos firmes e decididos na sua direção. O motorista do carro prateado recuou três passos, e, para surpresa de todos, principalmente do seu antagonista, retirou, de sob a camisa e do cós da calça, um revólver calibre 38, e apontou-lho, o braço estendido, para a cabeça. O motorista do carro vermelho arregalou os olhos, escancarou a boca, e recuou. Todas as testemunhas suspendemos a respiração. Eu não quis acreditar no que meus olhos viam: Um homem, com uma arma apontada para a cabeça de outro homem, ameaçava apertar o gatilho, e estourar-lhe os miolos. Até ontem, vi cenas assim apenas nos filmes. Antevi a tragédia: O motorista do carro prateado aperta o gatilho, e o motorista do carro vermelho cai, morto, com uma bala alojada na cabeça, na testa, entre os olhos, e o cadáver do motorista do carro vermelho a esvair-se em sangue, e os curiosos, apavorados, aterrorizados, a correr, em disparada, e o caos instalado no centro da cidade. Não pensei duas vezes: tirei, com as mãos trêmulas, o meu telefone celular do bolso da minha camisa, e telefonei para a delegacia de polícia. Despi-me do medo que me avassalava. A Laura puxou-me, para nos afastarmos dos dois motoristas; eu, imóvel, não a percebi me puxar, mas senti sua mão pressionando-me o braço e o antebraço direitos. O motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu três passos – ou quatro, ou cinco, não sei – na direção do motorista do carro vermelho, que recuou. Muitos dentre os curiosos afastaram-se, muitos agacharam-se. Alguns procuraram chamar o motorista do carro prateado à razão. O motorista do carro vermelho, assustado, olhos arregalados, recuava e pedia, mãos erguidas, calma ao motorista do carro prateado, que, fora de si e surdo aos rogos dele, ameaçava matá-lo. Ao policial que me atendeu à ligação relatei, em poucas palavras, o que eu via, e dei-lhe a nossa localização, e desliguei o telefone. Não desviei do motorista do carro prateado e do do carro vermelho o meu olhar. Nem piscar, pisquei. O revólver mesmerizava-me. Prendiam-me a atenção os berros do motorista do carro prateado. A Laura rogava-me afastarmo-nos dos motoristas. Não a atendi, e aproximei-me deles. A minha curiosidade, atiçada; e eu desejava saciá-la; eu queria assistir ao desenlace da história. O motorista do carro vermelho recuou até encostar-se no seu carro, mãos espalmadas à frente de si, palmas voltadas para o motorista do carro prateado, rogando-lhe que abaixasse a mão que empunhava o revólver. Dobrou-se para trás, sobre o carro. O motorista do carro prateado renovou as ameaças, elevou a voz, que ricochetou no interior de meus ouvidos, que a amplificou, aterrorizando-me. O motorista do carro vermelho meneava a cabeça, balbuciava palavras que não ouvi; a sua fisionomia transparecia o pavor que o revólver e a voz ameaçadora do motorista do carro prateado infundiam-lhe. Aproximei-me do motorista do carro prateado. Eu queria ver-lhe o rosto. A Laura puxava-me para trás e pedia-me que eu me afastasse. Não a ouvi. E ela aplicou mais força em meu braço e antebraço direitos. E o motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu um berro ensurdecedor, que abafou todos os outros sons, todas as outras vozes, e apontou o revólver para si, encostou-o em sua têmpora, e apertou o gatilho. Ouviu-se o detonar do revólver. O motorista do carro prateado caiu, pesadamente. O seu olhar encontrou-se com o meu. Após espasmos, sob dores excruciantes, esvaiu-se-lhe a consciência, cessaram-lhe os batimentos cardíacos. Morreu.

 

A notícia

– Ontem, encontrei-me com a Cláudia. Tu sabes o que ela me disse? Ela me disse que a Ludmila e o Carlos brigaram. A discussão estendeu-se por um século. O Carlos, disse-me a Cláudia… Palavras da Cláudia: “A Ludmila e o Carlos deram o maior escândalo de todos os tempos, no restaurante Bom Garfo, ontem à noite. Conversávamos, eu, a Ludmila e o Carlos. Num dado momento, o Carlos olhou para uma loira bonita, atraente, que passou ao seu lado. Ela se deteve, voltou-se para ele. O Carlos fitou-a. E o que aconteceu em seguida? A loira, atrevida, derrubou, no chão, de propósito, um molho de chaves, e agachou-se para pegá-lo. Tu tinhas de ver. A loira, linda, maravilhosa, usava um decote… O Carlos, com cara de bobo, arregalou os olhos, com os olhos devorou a loira. A Ludmila viu o que o Carlos viu, olhou para o Carlos, e, sem pensar duas vezes, e antes que ele entendesse o que se passava, furiosa, deu-lhe um tapa na cara, virando-o para o avesso. O Carlos deu um grito que na China podiam ouvir. A loira, ao levantar-se, olhou para o Carlos, que massageava o rosto e, com olhar apalermado, indagava da Ludmila a razão do tapa; Ludmila rilhava os dentes; dos olhos dela, fixos em Carlos, chispavam labaredas de ódio. A loira sorriu. Era evidente o seu ar malicioso, simultaneamente divertido e constrangido, de pudor e de malícia. Ela ajeitou o decote, e afastou-se. Não deixou de se voltar para o Carlos e a Ludmila, e sorrir, envaidecida. Envaidecida, sim, pois ela inspirou ciúme a Ludmila, a ponto de ela desferir um tapa no Carlos. Qual mulher não se envaidece de, simultaneamente, e sem esforço, excitar o desejo de um homem e o ciúme de uma mulher, usando, unicamente, as curvas do seu corpo? A Ludmila berrou, para que todo o mundo a ouvisse: ‘Safado!’, e desferiu um tapa na cara do Carlos. ‘O que… Ludmila!’, perguntou-lhe Carlos, surpreso, atoleimado. ‘Tu não podes ver um rabo-de-saia’, censurou-o Ludmila; ‘Eu nada fiz, Ludmila’; ‘Esqueça-me, imbecil! Vá atrás da loira oxigenada! Gostaste dela? Leve-a contigo, idiota’. O Carlos abanou a cabeça, moveu os braços, emudecido, e olhou em torno de si. Curiosos fitavam-no. Sorriam à socapa, uns; gargalhavam, outros, com todos os dentes à mostra, vergando-se para trás. Um escândalo! Que escândalo! Delícia de escândalo! Eu não sabia o que dizer. O que eu diria? Calei-me. Olhei para o Carlos. Olhei para a Ludmila. Olhei, constrangida, em torno. O que eu diria? O que eu diria, e para quem? Eu nada disse. Constrangedor! A Ludmila pegou a bolsa, levantou-se; batendo o pé, foi-se embora. Que escândalo! Que maravilha de escândalo!”.

*

– Sabes da nova? Hoje, no restaurante Comidas Típicas, almocei com a Rúbia. Ela me disse que o Carlos e a Ludmila brigaram. Disse-me a Rúbia… Acompanhes a história. É hilária, e do teu interesse: “Almoçávamos, no restaurante Bom de Garfo… O almoço ia às mil maravilhas. Conversávamos. Bebíamos. Comíamos. Estávamos, lá, eu, a Cláudia, o Carlos e a Ludmila. Nos levantamos. Iríamos embora. Iríamos, eu disse. Não fomos; não naquele momento. E sabes por quê? No restaurante entrou uma loira de parar o trânsito. Uma loira belíssima. Uma deusa grega. Ela usava decote e minissaia. Todos olhamos para ela. Era impossível ignorá-la. Ela, àquele calor, se trajasse blusa de lã e calça jeans folgada, chamaria a nossa atenção, mais, até, do que chamou. De um corpo perfeito, a loira. Sabes o que aconteceu? A loira, involuntariamente, acredito, deixou cair a carteira no chão, e curvou-se para pegá-la, ignorando-nos, como se não estivéssemos lá, como se não houvesse ninguém no restaurante, como se o restaurante estivesse às moscas. Minha nossa! Os eventos sucederam-se em ondas até a cena derradeira. O Carlos… Ah! O Carlos. Ele arregalou os olhos, e boquiabriu-se. O que ele viu… Ele, que mal havia se levantado, sentou-se, e não desviou da loira os olhos arregalados, a boca aberta, o queixo caído. A Ludmila… A Ludmila, sem pensar duas vezes, beliscou o Carlos, tirando-o do estado hipnótico no qual a loira o lançou. O Carlos fitou-a. Com um movimento brusco, levou a mão ao ponto no qual a Ludmila cravou-lhe as unhas. O berro seco do Carlos atraiu a atenção da loira, que, ao se levantar, voltou-se para ele, surpresa, curiosa, intrigada, viu-o massageando o braço, e voltou-se para a Ludmila, que, furiosa, esbravejou. O Carlos encolheu-se. Recuei uns dois passos. A loira esboçou reação, mas, constrangida, ruborizada, afastou-se, sob olhar dos curiosos, com passos firmes, fincando o salto dos sapatos no piso, e foi sentar-se, de costas para nós, à mesa, na outra extremidade do restaurante. Estou certa de uma coisa: o desejo da loira era o de esbofetear a Ludmila. A Ludmila, acredito, não a sobrepujaria numa luta corpo-a-corpo. As pessoas presentes adorariam assistir a tal espetáculo; imperdível, se se sucedesse. A Ludmila escapou de uma surra. O Carlos… Ah! O Carlos! Enquanto a Ludmila vituperava a loira, ele me fitava, abismado, na expectativa, certo de que a Ludmila o repreenderia, ao estilo dela; aos berros, o insultaria, e, ele previa, desferir-lhe-ia um bofetão que lhe deformaria o rosto. Coitado! Antes mesmo de encerrar às ofensas contra a loira, a Ludmila disse para o Carlos: ‘Tu és como todos os homens. Não podes ver um rabo-de-saia. Gostaste da loira oxigenada? Vistes a celulite? É de loiras oxigenadas que tu gostas? Vistes o silicone? Carlos, esqueça-me. Suma da minha frente, vagabundo’. O Carlos, coitado, abobalhado, emudecido, levantou-se, hesitante, enquanto massageava o braço, e afastou-se; antes de transpor o enquadramento da porta, olhou, por sobre o ombro esquerdo, para a Ludmila, que, à minha frente, olhava para a loira e resmungava obscenidades. Paguei pelo almoço, e nos retiramos.” Ouviste, atentamente, a narrativa? É do teu interesse, não é?

*

– A Ludmila, a namorada do Carlos, aquela morena… O Marcelo contou-me, há uns quatro dias… Quando? Não importa. Ele me disse que a Ludmila, o Carlos, a Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom… Sabes o que ele me disse? Imaginas? Não imaginas? Tu conheces aquela figurinha carimbada. Foi na lanchonete Bem Bom, ou no restaurante Comidas Tropicais. Tu conheces o restaurante Comidas Tropicais? Ótimo restaurante. O Marcelo disse-me que a Rúbia contou-lhe que a Ludmila e o Carlos saíram no tapa lá no… Comidas Tropicais, se não me engano. Não. Não foi no Comidas Tropicais. Foi na lanchonete Bem Bom. O Marcelo e a Rúbia almoçaram, dias atrás, no restaurante Bom de Garfo. Tu conheces a Rúbia e o Marcelo. O Marcelo, tu sabes, adora manter as pessoas bem informadas. Ele capta informações no ar, via respiratória. Ele é dotado de radar potentíssimo, e sabe, também, como espalhar as notícias. Não sonega nomes, nem as minúcias dos eventos. É incomparável a sua vocação para jornalista investigativo. Pergunto-me porque ele não envia o curriculum para um tablóide britânico. Faria sucesso estrondoso nas cercanias de Stonehenge; e, no outro lado do canal da Mancha, repetiria o sucesso obtido na ilha dos bretões. Ou não? Ora, os franceses têm reputação de sisudos e racionais. Porém… Conte-lhes, aos macambúzios germanos… gauleses descendentes de Asterix, uma boa aventura… Eles perderão a compostura. Os taciturnos revelarão a verdadeira face da alma gaulesa. Basta de embromação. Basta deste chove, chove, e não molha. Basta de blábláblá. Basta de lengalenga. Vamos ao que nos interessa. O Marcelo, gozando do prazer de relatar um episódio jocoso protagonizado por dois amigos, disse-me: “A Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom, comiam, a Rúbia, um pudim de laranja, e o Cláudio, um pudim de pêssego, e bebiam, o Cláudio, suco de uva, e a Rúbia, refrigerante de limão. Conversavam, animados. Falavam de trivialidades. Chamou-lhes a atenção a voz inconfundível da Ludmila. Sabemos que ela é discreta e sabe se comportar em público. A gargalhada… Ao sentir olhares cravando-se neles, o Carlos chamou a Ludmila à razão. Ela, com sorrisinho malicioso… aquele sorriso… O que ela e o Carlos conversavam? Não sei o que eles falavam… Mas posso imaginar do que se tratava… A Ludmila… O Carlos… Conheço-os como conheço as palmas das minhas mãos. A Ludmila viu a Rúbia e o Cláudio, acenou para eles, e foi, puxando o Carlos, até eles. Saudou-os. Puxaram, cada um, uma cadeira, e sentaram-se, o Carlos à direita da Ludmila, que se sentou à direita da Rúbia. A conversa ia animada. A Ludmila e a Rúbia falavam de vestidos e sapatos, e o Cláudio e o Carlos, de futebol, carros e motos, e insinuaram comentários a uma atriz americana, aludiram aos encantos dela; dariam sequência à conversa, mas o olhar de poucas amigas da Rúbia e da Ludmila os obrigou a retomarem a conversa sobre motos, carros e futebol, três das cinco maiores paixões dos homens. Assunto ia, assunto vinha, riam, gargalhavam, tranqüilos, até que… Música de suspense. Interrompo a narrativa, para criar expectativa. Suspense. Como se dará a sequência desta aventura? Não perca os próximos capítulos desta novela cuja trama intrigante enfeixa drama, comédia, tragédia, tragicomédia, capa-e-espada, cavalaria andante, sertão nordestino, praias cariocas, favelas, planaltos, metrópoles, periferia… O que deu por encerrada a animada conversa de Ludmila, Rúbia, Carlos e Cláudio? Uma loira. Uma loira? Sim, uma loira. Uma loiraça. Não foi uma loira qualquer. Foi uma loira de parar o trânsito e provocar engarrafamento quilométrico. Esqueça os engarrafamentos em São Paulo. Diante do congestionamento que a loira pode provocar, nada significam. Então, retomemos o relato. A loira, com vestido decotado, recendendo perfume irresistível… Ela era irresistível; com o perfume ia além do irresistível. Era o suprassumo da loirice. Um esplendor da natureza! Uma das sete maravilhas do mundo. Um petisco! Ela se aproximou do Carlos, sorrindo, e, exibindo os dentes lindíssimos, os olhos o irradiar felicidade contagiante, com voz maviosa, sedutora, disse-lhe: ‘Oi, lindo, lembra-se de mim?’, e reclinou-se, para beijá-lo, no rosto. Não o beijou, entretanto. Sabes quem a impediu de beijá-lo? A Ludmila. Quem mais poderia ser? A Ludmila deslocou-a com o cotovelo, avançou ao Carlos, e desferiu-lhe um tapa, que ecoou pelo restaurante, escapou para a rua, ganhou o bairro, foi ouvido em toda cidade, cujos limites territoriais venceu, e, em ondas incontíveis, espraiou-se, após atravessar o oceano Atlântico e o oceano Pacífico, pela Europa, pela Ásia e pela América do Norte. A loira arregalou os olhos e boquiabriu-se. Desequilibrada, quase caiu. O Carlos tratou de se afastar do alcance das mãos da Ludmila. Como ela é pacífica, serena, ele não ficou com o olho roxo, ou azulado, ou avermelhado, sei lá. Uma mescla de magenta, lilás, roxo, azul e vermelho alaranjado. Sortudo, o Carlos. Todavia, ele não escapou das broncas. E a Ludmila… Ah! Ela encarou a loira. Gritou para ela: ‘Vagabunda!’. ‘Ludmila, acalme-se’, solicitou-lhe, servil, Carlos. ‘Acalmar-me, Carlos. Tu e essa loira oxigenada são dois vagabundos!’ A loira retirou-se, com o rabo por entre as pernas. E que pernas! O Carlos e a Ludmila discutiram. Um escândalo! Tu tinhas de estar lá para ver.” Eu gostaria de estar lá para ver. Eu queria ser testemunha ocular da briga. Eu queria ver a Ludmila humilhando o Carlos! Foi divertido, imagino. A Ludmila é mulher corajosa, e não teme escândalos. Ela desancou a loira e o Carlos. Falou grosso com ele. Que grosserias ele ouviu! Disse-me o Marcelo que o Carlos, a Rúbia e o Cláudio ficaram ruborizados. O Carlos adquiriu as feições de um pimentão, a fisionomia de um tomate maduro. Eu queria assistir ao espetáculo. Ah! Esquecia-me: a Ludmila e o Carlos romperam o namoro. É a minha chance de abordar a Ludmila… Ora, abordá-la, abordei, e não foram poucas as vezes. Insinuei-me. Ela me rejeitou. Agora, o caminho está livre para mim. E não perderei o meu tempo… A Ludmila não me escapará. E manterei o Carlos afastado dela. Inventarei histórias cabeludas. Para o Carlos, pintarei a Ludmila com as cores mais escuras; para a Ludmila, direi cobras e lagartos do Carlos. Não serão cobras quaisquer, e tampouco quaisquer lagartos. O Carlos nunca mais irá olhar para a Ludmila, que nunca mais irá olhar para ele. Escrevas no teu diário: O Marcos namorará a Ludmila.

*

– O Marcos disse-me que tu e o Carlos brigaram, na lanchonete Bom Apetite, dias atrás.

– Eu e o Carlos nunca fomos à lanchonete Bom Apetite.

– Não?

– Não.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo que, dias atrás, tu e o Carlos brigaram.

– Há três meses eu e o Carlos não entramos no Bom de Garfo. Quando eu e ele entramos, lá, pela última vez? Não me recordo. Faz tanto tempo, que não conservo tal episódio na memória. Reminiscências trazem-me à mente um almoço, lá, no aniversário da Paula, há quatro meses. Quando foi o aniversário da Paula? Há muito tempo. Há um século. Eu e o Carlos brigamos… Eu gostaria que me dissessem quando isso aconteceu, porque eu não soube dessa briga. Não assisto aos telejornais…

– O Marcos disse-me que, na lanchonete…

– Tu acreditas no Marcos? Ele conta cada história da carochinha… Cada lorota! Ele inventa e reinventa as histórias que lhe contam. Pergunte-lhe o que ocorreu entre eu e o Carlos, na próxima vez que o encontrar, e ele dirá que nos viu eu e o Carlos, na praia, num quiosque, bebendo, eu, água de coco, e o Carlos, cerveja, vestindo, eu, biquíni fio-dental amarelo, e o Carlos, sunga azul, e eu, que nunca subi numa prancha de surfe, surfando, e o Carlos, que nunca chutou uma bola, jogando futvôlei…

– O Marcos não inventou nenhuma história. Ele me disse que o Marcelo disse-lhe que tu e o Carlos brigaram na lanchonete Bom Apetite.

– Eu e o Carlos nunca fomos lá.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo…

– Eu e o Carlos, há meses, não vamos lá, como eu já disse.

– Então, não sei. Foi em outra lanchonete, então. Ou em outro restaurante. O Marcos disse-me que, na sexta-feira, o Marcelo, a Rúbia, tu e o Carlos…

– O Marcelo e a Rúbia, comigo e com o Carlos, num restaurante? Há mais de um mês não vejo o Marcelo. A Rúbia… Conversei com ela, pela última vez, na véspera da minha viagem, para o Rio Grande do Sul, com meu pai e minha mãe, em visita ao meu avô, que completou o nonagésimo aniversário, há vinte dias. Hoje… Que dia é hoje? Vinte e sete. O aniversário de meu avô, no dia seis, foi num domingo. Eu, meu pai e minha mãe fomos ao aeroporto, no sábado, pela manhã; na sexta-feira, à tardezinha, nos encontrávamos, eu e a Rúbia, na livraria Assis, dia quatro, portanto, há mais de vinte dias. A tua história não está bem contada.

– O Marcos falou-me da briga…

– Eu e o Carlos não brigamos. Que eu me lembre, não. Briguei com o Carlos? Briguei… E não me informaram…

– Não sejas irônica… Esta história… Se é verdade… Tu me diz que não brigou com o Carlos… Acredito… Mas o Marcos narrou-me, com detalhes constrangedores, a tua briga com o Carlos. Falou-me, e não se furtou a tecer elogios, de uma loira oxigenada…

– Ah! Sei qual história o Marcos te contou… Quero dizer, não sei qual história ele te contou. Se ele narrou uma história que culminou numa briga… Ora, ele adulterou os eventos… Briga… Eu e o Carlos não brigamos. O que eu poderia dizer… Não sei o que ele te disse… Como se diz, quem conta um conto… O Marcos ouviu um conto; ao contá-lo, aumentou… Quantos pontos? Não briguei com o Carlos, Márcia.

– Não? Mas o Marcos…

– Ora, o Marcos! Esqueça-o. Diria minha avó: ele fala mais do que a negra do leite. Não a conheço. Vovó conheceu-a, e diz que ela falava demais. Dá, a taramela, com a língua nos dentes, e não sabe manter a língua dentro da boca.

– Ele me disse com tanta convicção…

– Esclarecer-te-ei o enigma. Contar-te-ei a história, exatamente como transcorreu. No encerramento, tu não ignoras, não se dá uma briga, tampouco uma discussão envolvendo eu e o Carlos. Não se ouviu insultos, nem palavras azedas, nem interjeições viperinas. Os contadores mal-intencionados de histórias são tão convictos… Querem acreditar no que dizem… Basta de tagarelice. Não percamos o nosso tempo… Eu e o Carlos não brigamos, estejas certa. Que eu me recorde, nunca brigamos. Discutimos de vez em quando… Isto é, todos os dias. Briguinhas de namorados. Bobagens. O Carlos, tu sabes, é um pouco ciumento. Se eu uso camisa decotada, ele me repreende; se uso minissaia, ele me reprova; se me atraso para um encontro, ele me censura, e me diz que me demoro, embelezando-me. Quanto a isso, é verdade. Gosto de me reproduzir. Adoro mirar-me ao espelho. Sou maravilhosa, eu sei. Não precisa me dizer isso. O Carlos gosta e, ao mesmo tempo, não gosta, principalmente quando outros homens olham para mim… Além das discussõezinhas, nada de sério. Nos entendemos. Ele é um namorado gentil e carinhoso. O homem com que sonhei. Um príncipe encantado. Um amor. Quanto ao que aconteceu… O que aconteceu? Esqueças o que o Marcos te disse. Ele não sabe o que aconteceu. Queres saber o que aconteceu? Tu te surpreenderás. Ao encerramento, irás rir à bandeiras despregadas, diria um vetusto senhor grisalho. Ouças: eu e o Carlos não brigamos, na lanchonete Bom Apetite. Brigamos, na sorveteria Palito de Ouro. Brigamos… Direi que eu e ele brigamos. Para todos os efeitos, brigamos. E eu e a loira oxigenada nos enrolamos num arranca-rabo que foi um escândalo. Na sorveteria Palito de Ouro, num sábado, eu, o Carlos e a Cláudia passamos bons e agradáveis momentos, conversando, chupando sorvetes. Falamos de todos os assuntos que nos vinham à mente. Falamos mal das vizinhas da Cláudia, do ex-namorado dela, o Rômulo, e do… Do que mais falamos? Não me recordo. O melhor momento ainda estava por vir, e foi uma loira lindíssima que no-lo proporcionou. Tu tinhas de ver. Era sábado. Calor de derreter o cérebro. Chupei sorvete de morango, de laranja, e napolitano, se não me engano. O Carlos, um de chocolate, e… Não sei. E a Cláudia… Sei lá. Atente para este detalhe: Estávamos na sorveteria Palito de Ouro. Esqueças a lanchonete Bom Apetite e todas as outras lanchonetes. Eram quatro horas da tarde. O calor nos rachava a cabeça. O Carlos suava em bicas. Derretia-se. Eu, ele e a Cláudia degustávamos sorvetes gelados quando, na sorveteria, entrou uma loira de parar o trânsito. Uma boneca. A Barbie, sem tirar nem pôr. Pensei, até, em pedir-lhe um autógrafo. Ela usava uma camisa decotada e uma minissaia. Tão bela. Tão linda. Todos olhamos para ela. Imagines uma loira lindíssima de minissaia, camisa decotada e sapatos de saltos altos. Ela passou pelo Carlos, esbarrou-lhe a mão no braço, e o Carlos derrubou o sorvete. E a loira… Sabes o que ela fez? Pediu desculpas para o Carlos, e se abaixou para pegar o sorvete. Imagines a cena. A loira usava camisa decotada. Imagines a cara do Carlos. Olhei para a Cláudia; a Cláudia olhou para mim. Sorrimos. O Carlos ficou vermelho. A loira pediu-lhe desculpas. Ela não percebeu, é certo, constrangida que estava, que o Carlos não tirava os olhos do decote.

– Tu não brigaste com o Carlos?

– Não. Por que eu brigaria com ele? A loira esbarrou-se nele, e ele derrubou o sorvete. Por que eu brigaria com ele? Por que ele olhou para a loira? Ora, o Carlos é um homem. A loira, bonita, linda, um pedaço de mal caminho. Além do mais, foi um acidente. Um acidente engraçado. O Carlos transformou-se num pimentão. A loira foi-se embora. Fingi que estava brava com o Carlos, e dei-lhe tapas na cara. Tapinhas que não doem, e disse-lhe que eu nada queria com ele, e que ele fosse procurar a loira oxigenada. Diverti-me com o episódio. O Carlos, constrangido, não sabia o que dizer, não sabia para onde olhar. E mais uma coisa: a loira não era oxigenada. Era uma loira autêntica, bonita e atraente. Ah! Eu, brigar com o Carlos! Ele é um amor. Eu e ele nos casaremos daqui um mês. O Marcos… Ele… Se vier ter comigo, lhe baterei a porta na cara.

Vídeos caseiros

– Ontem, no ônibus, vi uma gata de parar o trânsito! Ela não usava sutiã; usava um vestido decotado! Meu Deus! Que mulher! Filmei-a com o telefone celular. Mário, a gata não percebeu que a filmei. Você quer assistir ao vídeo? Filmei uma gata de parar o trânsito! Você quer vê-la?

– Quero. Deixe-me vê-la, Adriano. Ligue o computador. Quero ver a gata. Quero vê-la.

– Acalme-se. Controle-se. Controle-se. Tenho de ligar o computador.

– Ligue-o, Adriano. Ligue-o. Quero ver a gata. Ligue o computador.

– Você verá a maior gata da cidade. Um avião! Violão! Morena! Deliciosa! Uma sereia. Esqueça as mulheres das revistas que você tem na sua casa. Esqueça-as. Comparadas com a morena que filmei, elas são bruxas com uma verruga horripilante na ponta do narigão. A gata que vi, hoje, põe no chinelo todas as mulheres famosas que aparecem nas fotos das revistas. Elas são mulheres fotochopadas, falsificadas. A gata que filmei, não. Ela é mulher de carne e osso. Você irá babar de desejo ao assistir ao vídeo.

– Pare de falar, e ligue o computador.

Mário e Adriano, na casa de Adriano, no quarto dele, diante do computador, sentados, cada um em uma cadeira giratória, olhavam para o monitor que o pai de Adriano comprara no Natal.

Dos quinhentos gigabytes do disco rígido, cento e oitenta e cinco armazenavam vídeos caseiros que Adriano, Mário e os seus amigos gravaram, nos dois anos anteriores, com câmeras de telefones celulares e com filmadoras.

Computador ligado, Adriano clicou sobre o ícone da pasta dos seus vídeos caseiros, e digitou a senha. Apareceram centenas de ícones de arquivos de vídeos.

Clicou, duas vezes, rapidamente, sobre o ícone que trazia a data do dia anterior. No monitor apareceu uma morena voluptuosa de vestido verde, que lhe modelava o corpo, realçando-lhe os atrativos. Ela se destacava num oceano de mulheres desprovidas de beleza.

Mário, embasbacado, arregalou os olhos e escancarou a boca. A morena era uma mulher cuja beleza superava a de todas as mulheres que ele já havia visto e imaginado. Adriano provocava-o, dava-lhe cotoveladas no ombro, dizia-lhe que o melhor estava por vir, exortava-o a parafusar o queixo, que se desprenderia da cabeça e cairia no chão, se ele não tomasse tal providência.

Em diversos trechos do vídeo aparecia o asfalto, os pisos da calçada, carros, pessoas que passavam por Adriano. Em outros, o vídeo escurecia, e nada se via. Mário protestava, insultava Adriano, que, defendendo-se, explicava-lhe o que ocorreu em certos momentos durante os quais gravava o vídeo. Mário, que não queria ouvir explicações, queria admirar a deusa dos trópicos, aquele pedaço de mal caminho, esbravejava, e desferia tapas na nuca de Adriano e encaixava-lhe socos no ombro, e ele revidava – a escaramuça assemelhava-se às cenas de pastelão do cinema mudo. Estapearam-se, até que atraíram-lhe a atenção imagens nítidas da morena de vestido verde.

Embora houvesse se deparado com dificuldades imensuráveis, Adriano filmara, durante, aproximadamente, trinta minutos, a estonteante morena de vestido verde, de cujo corpo obtivera imagens nítidas, reveladoras; as mais excitantes ele as obtivera a partir do momento em que ela parou em um ponto de ônibus. A partir deste trecho os olhares dos dois jovens convergiram para o monitor. Sentados, curvaram-se, fincaram os cotovelos nos joelhos, e sustentaram o queixo, Mário, com as palmas das mãos abertas e os dedos cobrindo o rosto, Adriano, com os dedos entrelaçados.

Passou despercebida da morena de vestido verde a atitude de Adriano, que, parado ao lado dela, o telefone celular à mão, fingindo procurar o número de um telefone, filmava-lhe o belo rosto e o decote revelador. Quando ela se curvou para a frente, e coçou o joelho direito, Adriano dela registrou imagens dos peitos quase inteiramente nus. Mário, estupefato, levou, automaticamente, as mãos, espalmadas, à testa, puxou os cabelos para trás, encostou-se ao encosto da cadeira, desencostou-se, curvou-se, fincou os cotovelos nas coxas e com as mãos cobriu a boca. Adriano divertia-se com a atitude dele. Ria, zombava dele. Mário deu-lhe um tapa na nuca, desfazendo-lhe o penteado, que Adriano, rindo, ajeitou.

Além de Adriano e da morena de vestido verde, havia duas pessoas no ponto de ônibus: um homem avançado em idade, concentrado na leitura de um catálogo de loja de eletrodomésticos, e uma garotinha de uns dez anos que cantava uma canção infantil. Após uns três minutos registrando, com intervalos, imagens do busto da morena de vestido verde, Adriano recuou alguns passos, posicionou-se atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, filmou o que a morena escondia sob o vestido verde, cuja franja mal descia-lhe à metade das coxas, e revelou a calcinha que cobria o espaço estreito entre as nádegas bem esculpidas. Agitaram-se os dois garotos. Moviam as pernas para os lados, para cima e para baixo. Mário levava as mãos à cabeça, cobria, com as mãos, a boca, e mordia, ora o lábio inferior, ora o lábio superior. Adriano ria da atitude de Mário, que o mandava calar-se.

Um ônibus parou no ponto de ônibus. A menina subiu no ônibus; em seguida, o homem, que até então lia o catálogo de loja de eletrodomésticos, subiu; após ele, a morena de vestido verde. Adriano, atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, e dela revelou, com maior nitidez, a parte inferior do corpo. Como o ônibus estava lotado, a morena de vestido verde teve de deter-se assim que pousou os pés no primeiro degrau. Adriano, aproveitando das facilidades que a situação oferecia-lhe, gravou imagens reveladoras das formas bem arredondadas e firmes das nádegas e do tecido fino que cobria o espaço entre elas. Vibraram de volúpia os dois garotos.

Os passageiros apertavam-se dentro do ônibus.

Para conseguir entrar no ônibus, Adriano pôs-se ao lado da morena de vestido verde, e dela gravou imagens do rosto e do decote. Temia que alguém o surpreendesse filmando-a, e, com indiscrição, revelasse, para todas as pessoas presentes no ônibus, o que ele fazia.

O ônibus pôs-se a andar. Sacolejava ao passar por ruas esburacadas.

Saíram do ônibus várias pessoas; entraram quatro.

Adriano, assim que o ônibus retomou a viagem, telefone celular na mão, registrou imagens do corpo da morena de vestido verde. Ao parar no ponto de ônibus seguinte, o ônibus recebeu mais cinco passageiros, e mais de dez passageiros desceram. Os passageiros que estavam em pé puderam se deslocar pelos estreitos espaços vazios. A morena de vestido verde andou uns dois metros, abrindo espaço entre os passageiros em pé. A sua beleza irradiante e o seu porte exuberante atraíram a atenção dos homens, que, libidinosos, a devoravam com o olhar, cobiçando-a. Adriano seguiu-a, cuidadoso; receava – notou os olhares dos homens convergindo para a estonteante morena de vestido verde – que alguém o flagrasse filmando-a. A morena de vestido verde deteve-se, e do banco mais próximo a mulher que o ocupava levantou-se, e pediu-lhe licença. Carregava ao colo uma caixa e a tiracolo uma sacola branca com o nome fantasia de uma loja de calçados. A morena de vestido verde cedeu-lhe passagem. A mulher deslocou-se, desajeitadamente, pedindo licença; os passageiros abriam-lhe passagem, espremendo-se uns nos outros. A morena de vestido verde sentou-se no banco desocupado, ajeitou o vestido, passeou as mãos pelos cabelos, puxou-os por sobre o ombro direito, e os soltou. Esparramaram-se-lhe pelo busto e pelo ombro os cabelos sedosos. Adriano, em pé, ao lado dela, fitava-a, mordia os lábios quando ela, com movimentos suaves, para ajeitar os cabelos, ou o vestido, revelava uma pequena parte a mais dos peitos e das coxas. Filmava-a. Pensava que agia com discrição ímpar. Duas mulheres, sentadas no banco atrás do qual a morena de vestido verde estava sentada, entenderam o que Adriano fazia, entreolharam-se, e sorriram, maliciosas; e à direita de Adriano um homem, que olhava para a morena de vestido verde, sorriu ao ver a imagem dela na tela do telefone celular na mão de Adriano.

A viagem durou um pouco mais de vinte minutos. O ônibus parou na rodoviária. A morena de vestido verde levantou-se. Adriano permitiu que ela lhe passasse à frente, e filmou-a de trás, por baixo do vestido.

Todos os passageiros desceram do ônibus. Adriano seguiu a morena de vestido verde, à distância de cinco metros, durante uns cinco minutos, até uma casa, cujo portão ela abriu, e entrou.

As imagens excitaram os dois garotos, que teciam os comentários mais obscenos que a imaginação inspirou-lhes.

Mário, eufórico, ao fim do vídeo, perguntou para Adriano:

– Que tal ir até à casa da morena?

– Não é má idéia – comentou Adriano, eufórico. – Não é má idéia. Se ela mora naquela casa, e acho que ela mora lá… Vamos lá. Quem sabe, se dermos sorte…

– Que beleza, Adriano! Gata! Mulherão! Cara! A gata é um pedaço de mal caminho!

– Eu disse para você que ela é uma gata. Você não me quis acreditar.

– Vamos assistir ao vídeo mais uma vez, mais duas vezes, mais três vezes, mais mil vezes.

– Espere um pouco. Vou lançar o vídeo na internet. Quero que todos vejam a maravilhosa morena de vestido verde. O mundo tem de conhecê-la.

– Vamos assistir ao vídeo.

– Assim que eu lançar o vídeo no Youtube, o assistiremos mais mil vezes.

Mário e Adriano assistiram ao vídeo duas vezes.

*

Nas duas semanas seguintes, Mário e Adriano procuraram pela morena de vestido verde. Não a encontraram – mas eles não perdiam a viagem. Tiveram a felicidade de encontrar outras mulheres bonitas as quais ou trajavam calças justas, ou saias, ou minissaias, ou vestidos, e usavam decotes profundos – e gravaram vídeos revelando delas as roupas íntimas, as que as usavam. Mário e Adriano, embasbacados, assistiram aos vídeos várias vezes. Deleitavam-se. Divertiam-se gravando vídeos. Enfrentaram alguns dissabores enquanto os gravavam: Uma mulher, ao virar-se bruscamente, viu Adriano com o telefone celular na mão, desconfiou do que ele fazia, e exigiu-lhe explicações, Adriano desconversou, ela enfureceu-se, e ele deu meia-volta, e dela afastou-se, antes que as obscenidades que ela cuspia chamassem a atenção de muita gente; um grandalhão enfureceu-se ao ver Mário atrás de uma loira, filmando-a com o telefone celular, e encaixou-lhe um murro no nariz, e Mário, ao recompôr-se, sangue se lhe escorrendo em profusão do nariz, correu como nunca havia corrido, e, ao encontrar-se com Adriano, exibiu-lhe o nariz quebrado como se exibisse um troféu.

Mário e Adriano diziam que a profissão de videoamador era muito arriscada, muito perigosa, mais perigosa e mais arriscada, até, do que a de correspondente de guerra e a de jornalista investigativo. Diziam, gracejando, que poderiam, inadvertidamente, vir a se deparar com uma filha de dom Corleone, ou com a de um mafioso russo ou a de um membro da yakusá.

Transcorreram-se dois meses. Mário e Adriano não encontraram a morena de vestido verde. Esqueceram-na, depois de tantos dias sem vê-la.

*

– Adriano! Mário! – exclamou Gilberto, entusiasmado. – Vocês não vão acreditar. Vi um mulherão de derrubar o queixo! Enviei o vídeo para o seu computador, Mário. Vocês não vão acreditar! Meu Deus! Mário, vá à sua casa, e acesse o arquivo *¢. Tá lá, o vídeo da loiraça! Meu Deus! Loiraça de parar o trânsito e fechar o comércio! Loira usando camisa decotada e shortinho agarradinho! Imaginem a loiraça. Vocês não podem imaginá-la. Que melões! Não são limõezinhos, como os da Paola; nem laranjas, como os da Cláudia; nem ovos fritos, como os da Fabiana, que de bom só tem a bunda; nem melancias, como os da Samantha. Melões! Melões! Adriano, você, que gosta de peitos, vai se deliciar! Vocês não vão acreditar! Não perca tempo, Mário. Vá à sua casa, ligue o computador, e acesse o arquivo *¢. Vá com o Mário, Adriano. Você não perderá a viagem.

Ao chegarem à casa de Mário, Adriano e Mário, mal conseguindo conter o ânimo que as palavras de Gilberto atiçaram correram ao quarto. Mário ligou o computador. Acessou o arquivo *¢. Mário e Adriano esfregaram as mãos. O monitor exibiu o vídeo. No início, apareceram imagens desfocadas. Gilberto proferia obscenidades e filmava o próprio rosto. Corria, afobado. Ia, dizia ele, atrás de uma loira de bicicleta. Tropeçou. Desequilibrou-se. Caiu. Recompôs-se rapidamente. Mário e Adriano gargalharam.

– Palerma! – exclamou Mário. – Bicho desengonçado! Bizarro! Aberração da natureza!

– Smeágol! – gargalhou Adriano.

No vídeo, cenas caóticas. Pessoas, carros, bicicletas. Ouvia-se a voz de Gilberto; era impossível compreender a maior parte do que ele dizia, e a parte que se compreendia era quase toda composta de palavrões e comentários sobre os atrativos da loira de bicicleta.

Mário e Adriano ficaram na expectativa. Ao virar a esquina, Gilberto, filmando a si mesmo, disse, eufórico, que a loira estava a poucos metros dele. Parou de correr. Estava com o rosto vermelho; suava copiosamente. Estava exausto. Disse que a loira, que havia descido da bicicleta, estava em frente de um supermercado. Gilberto desacelerou os passos. Filmou a loira. As imagens não eram nítidas. A loira estava um pouco distante. Dela notava-se apenas o short amarelo, as pernas compridas, a camisa branca de manga curta e os cabelos loiros compridos. Mário e Adriano quase nada conseguiam ver. Protestaram. Gilberto aproximava-se da loira. Focalizou-a. Nas imagens apareceram, nítidas, as bem torneadas pernas dela. Depois, apareceram, para satisfação de Mário e Adriano, as nádegas dela, cobertas pelo short amarelo, uma película. Boquiabriram-se Adriano e Mário. A loira do guidão da bicicleta tirou uma corrente com cadeado, abriu o cadeado, ajeitou a bicicleta ao poste de ferro, e curvou-se para a frente. Mário e Adriano levaram as mãos à cabeça. Gilberto passou, andando devagar, pela loira, dela não desviando a câmera do telefone celular. Mário e Adriano, excitadíssimos, viram um busto extraordinariamente deslumbrante. Lamberam os beiços.

Após passar a tranca na bicicleta, a loira caminhou até o supermercado. De repente, escureceram-se as imagens; viam-se apenas manchas e riscos dançando no monitor. Adriano e Mário esbravejaram. Mário, irritado, ofendeu até a quinta geração de Gilberto, e deu duas pancadas no monitor. Poucos minutos depois, apareceu o busto da loira, que, curvada para a frente, mexia na corrente que unia a bicicleta ao poste de ferro.

Ao remover a corrente, a loira, com um movimento brusco, ergueu a cabeça, e olhou para a câmera.

Adriano saltou da cadeira, arremessou-a para trás, e deu um berro misto de surpresa e espanto:

– Diabos! É a minha irmã!

O Reino de Ouro e o Reino de Cobre

Havia, há milhares de anos, dois reinos, o Reino de Ouro, e era seu rei o Sábio, e o Reino de Cobre, e era seu rei o Estúpido. Um dia um camponês encontrou, num recanto do Reino de Ouro, um ovo de dragão, e no Reino de Cobre um caçador encontrou, numa região distante, um ovo de dragão. E aos reis dos dois reinos deram a notícia das descobertas, o camponês ao rei Sábio, e o caçador ao rei Estúpido. E o rei Sábio deu a ordem aos seus súditos: “Destruam o ovo”, e eles o destruíram. E o rei Estúpido disse, desdenhoso, imprevidente, aos seus súditos: “Não se preocupem. É só um ovo”, e o ovo foi deixado intacto. E sucederam-se os dias, e eclodiu o ovo de dragão que o rei Estúpido não permitiu que destruíssem, e do seu interior saiu um pequeno e inofensivo dragão, que, no decorrer de trinta anos, cresceu, encorpou-se, e tornou-se um dragão adulto, poderoso. E chegou o dia em que o dragão atacou o Reino de Cobre e dizimou a sua população.

Sábio, rei do Reino de Ouro, ciente de que o rei do Reino de Cobre era um estúpido, informado de que ele não deu aos súditos dele ordem para destruírem o ovo de dragão, e certo de que os dragões não respeitam as fronteiras territoriais convencionadas entre os reinos, construiu, no decurso dos trinta anos que se seguiram às descobertas dos ovos de dragões, mecanismos para a defesa do Reino de Ouro e para a guerra, que seria encarniçada, contra o dragão.

E o dragão, após destruir o Reino de Cobre, rumou para o Reino de Ouro, e não o destruiu, pois encontrou um reino preparado para enfrentá-lo.

A guerra entre o Reino de Ouro e o dragão estendeu-se por muitos anos, até que, enfim, dela saiu vitorioso o Reino de Ouro, e morto o dragão.