Triste notícia

Manhã de sábado. Às nove horas, um pouco depois do café-da-manhã, Natália despediu-se de Alfredo, e foi, de carro, ao supermercado; depois, iria à farmácia e à feira. Alfredo esperaria, na sua casa, Roberto, seu irmão, e com ele iria para Taubaté à lojas de materiais de construção pesquisar preços de tijolos, cimento, areia, ripas de madeira, outros materiais e utensílios de pedreiro. Enquanto o esperava, trocou a água da vasilha dos cachorros (dois pastores, um alemão, Thor, e um belga, Aquiles. Alfredo diz que o belga é ortodoxo, mas é o alemão que mete medo) e a da vasilha do gato. Certa vez, perguntaram-lhe porque ele escolhia para os seus cachorros (Alfredo tivera dois vira-latas, Odin e Odisseu – Odisseu era o mais astuto; Odin, o manda-chuva – e três cadelas – uma rotweiller, Medusa, e não havia cristão que não se petrificava ao se deparar com ela; uma dálmata, Deméter; e uma colie, Afrodite) nomes de heróis, deuses e semideuses da mitologia grega, romana e nórdica (Ah! Esquecia-me, o gato chamava-se Esfinge), e não nomes de personagens folclóricos e mitos indígenas brasileiros; ele não deixou tal pergunta sem resposta, que estava na ponta de sua língua:

– Cães com nomes de origem brasileira não metem medo em ninguém. Imagine um pastor alemão chamado Saci. Conceba tal monstruosidade. O pastor é manco?, perguntar-me-iam. Ou ele é trípede?, zombariam. Quem o respeitaria? Agora, imagine uma rotweiller chamada Iara. Quem a respeitaria? Ninguém. Todos a achariam bonita, elegante e charmosa, e torceriam o nariz para ela, mas não a temeriam. Não quero cães que sejam alvos de chacotas. Quero cães que metam medo em todo mundo. E o nome tem de inspirar respeito, medo. A mitologia grega e a nórdica os possuem aos punhados. A hebraica também. Imagine um cão chamado Salomão. Você imagina um cãozinho frágil de latido estridente, ou um portentoso espécime de uma raça nobre, altivo, a transpirar sapiência? Agora, imagine um cão chamado Curupira. É para rir, não é?

Quando alguém lhe expunha os aspectos ridículos da sua argumentação, ele não desconversava; para surpresa de todos, defendia, com argumentos inconsistentes, as suas preferências pelos nomes de deuses, semideuses, heróis e monstros da mitologia grega, da nórdica e da romana; na maioria das vezes, não convencia ninguém de suas razões, as quais eram sem pé nem cabeça, mas todos calavam-se, para não perderem amigo tão querido. Certa vez, um amigo, descendente de indianos, apresentou-lhe nomes de deuses, semideuses e heróis hindus, muitos deles extraídos dos poemas épicos Mahabarata e Ramayana. Alfredo rejeitou, terminantemente, as sugestões, alegando que tais nomes são impronunciáveis.

Thor e Aquiles beberam da água, sedentos. Alfredo chamou por Esfinge, que não deu as caras.

– Caiu na farra, o maldito gato, na casa do vizinho – exclamou Alfredo, a sorrir, jocoso. – Também pudera! A gatinha que há lá! Um petisco.

Alfredo distribuiu a ração dos cachorros, em partes iguais, em duas vasilhas, uma vermelha, a de Thor, e uma verde, a de Aquiles, e as manteve afastadas uma da outra uns cinco metros, como também manteve afastadas as duas vasilhas de água – e eu ia sonegando esta informação, imprescindível, acredito, não para a compreensão deste relato, mas para o conhecimento da inimizade latente entre o deus nórdico e o herói grego. Ambos, conquanto trabalhassem, unidos, na proteção dos seus mantenedores, Alfredo, Natália, e os filhos deles, Gustavo, Denise e Fabiana, desentendem-se, às vezes – mantê-los distantes um do outro durante as refeições é uma providência sensata. Alfredo não desejava oferecer-lhes pretexto para eles se engalfinharem, cravarem os dentes um no outro, e ferirem-se. Não queria gastar o seu dinheiro com consultas ao veterinário e compra de medicamentos.

Assim que Thor e Aquiles beberam da água e comeram da ração, Alfredo conduziu-os ao canil. Não é correto dizer que Alfredo os conduziu ao canil. Habituados a, todos os dias, após beberem da água e comerem da ração, encaminharem-se ao canil, nesta manhã de sábado, eles foram ao canil, antecipando-se a Alfredo, que encheu de água as duas vasilhas que estavam no canil, trancou a porta com um cadeado, pendurou a chave num prego à viga de madeira, despediu-se de Thor e Aquiles, e rumou à varanda, onde consultou o relógio. Eram quase nove e meia. Roberto estava atrasado quase trinta minutos. Alfredo se chateou. Detestava atrasos. Era pontual e exigia pontualidade das pessoas com as quais marcava horário para um compromisso. Andou pelo jardim. Avaliou as flores. Procurou por ervas daninhas. Bem-te-vis, colibris e pombas-rolas desviaram-lhe a atenção. Um colibri azul, amarelo e verde osculava bicos-de-papagaio e tamancos-judeus. Alfredo observou-o até ele voar, por sobre o muro, à casa do vizinho.

A campainha soou.

– Até que enfim! – exclamou Alfredo, que foi até à porta, certo de que Roberto premira a campainha. Ao abrir a porta, para a sua surpresa, deparou-se com Vanessa, prima de Natália. Alfredo esboçou um sorriso, que logo suprimiu do rosto ao deparar-se com o rosto doído de Vanessa e ao vê-la remover lágrimas que escorriam do olho esquerdo. Fitou-a. Aguardou a notícia; triste, previu. Vanessa, sem dizer uma palavra, abraçou Alfredo e, enquanto removia de si as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, perguntou se Natália encontrava-se na casa. Alfredo disse-lhe que ela fora à feira, ao supermercado, e perguntou-lhe por que chorava. Vanessa não lhe respondeu, de imediato; engoliu o choro; inspirou, soluçou, pigarreou, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e as que se lhe acumulou nos olhos. Alfredo observou-a, em silêncio. Enfim, Vanessa disse:

– Uma notícia triste, Alfredo.

– Entre, Vanessa. Vamos à sala.

– Não…

– Você quer beber um pouco de água?

– Não, Alfredo, obrigada. Vim falar com você e com a Natália. Notícia triste, e vou… Tenho de ir à casa do Pedro…

– Vanessa…

– Não sei como falar… Ainda bem que encontrei você… Se eu tivesse encontrado a Natália… Não sei como eu lhe contaria… Como eu lhe daria a notícia… Com você, Alfredo, posso ser direto: O tio morreu.

– Tio?

– Sim, o tio… O tio Cirilo.

– O quê? – exclamou Alfredo, estupefato, e arregalou os olhos, e boquiabriu-se, incrédulo. – Mas… Como é possível? Ontem à noite, ele e eu conversamos, tão animados… Ele estava tão bem, tão alegre…

Diante da triste notícia, Alfredo proferiu tais comentários, e não atentou para o absurdo neles contido. Ele pediu que Vanessa entrasse. Ela lhe disse que iria à casa de Pedro e à de outros familiares e amigos transmitir a triste notícia, e não entrou. Em poucas palavras, resumiu o que sucedera durante a madrugada: o telefonema desesperado de Maria José às três horas da madrugada; a correria, dela, Vanessa, e de seu marido, Paulo Roberto, à casa do tio Cirilo e tia Maria José; a chegada da ambulância; a ida ao hospital; e a notícia do falecimento do tio Cirilo; o regresso à casa de Maria José; o medo que sentiu ao ver Maria José, inconsolável, aos prantos; as providências que tomou para consolá-la e para avisar os familiares. Alfredo ouviu-a, compungido, atentamente; lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos. Assim que Vanessa encerrou o relato comovente, estreitou-a num abraço carinhoso, beijou-lhe a testa, ajeitou-lhe os cabelos que lhe caíam à testa, e removeu, com o dorso do dedo indicador direito, as lágrimas que lhe escorriam pela face esquerda. Despediram-se. Alfredo, com o olhar, acompanhou-a afastando-se de si com passos lentos. Assim que ela dobrou a esquina, ele, cabisbaixo, regressou à casa, e trancou a porta; não havia da porta se distanciado dois metros quando a campainha soou. Deu meia-volta, e foi até a porta. Abriu-a. Era Roberto.

– Você já recebeu a notícia? – perguntou Roberto, ao fitá-lo.

Alfredo confirmou com o franzir do cenho, sem piscar, e com movimentos ligeiros dos músculos da face.

– A Natália… – reticenciou Roberto.

– Ela ainda não sabe. Ela está, ou no supermercado, ou na feira…

– Quem a contou para você?

– A Vanessa.

– Como você dará a notícia para a Natália?

– Estou pensando… Entre, Roberto – assim que ambos entraram, Alfredo trancou a porta, mas deixou a chave na fechadura. – Como darei a notícia para a Natália? Não posso lhe dizer, assim, de supetão… Você sabe… A Natália é tão melindrosa… Terei de dar-lhe a notícia. Não posso me furtar a fazê-lo.

Conversaram durante uma hora. Não falaram de materiais de construção, de pesquisa de preços. Falaram de Cirilo. Ao despedirem-se, Roberto renovou os seus votos de condolências.

Sozinho na sua casa, andando de um lado para o outro, perguntava-se Alfredo como daria à Natália a notícia do falecimento do pai dela. Foi ao banheiro; à pia, abriu a torneira, e jogou um pouco de água no rosto. Enxugou-se com uma pequena toalha azul. Fechou a torneira. Abriu a torneira, e molhou, pela segunda vez, o rosto, e não o enxugou. Fechou a torneira. Passou as mãos pelo rosto, removendo a água. E retirou-se do banheiro. Ao andar pela sala, Esfinge dele se aproximou. Alfredo nada lhe disse. Esfinge esfregou-se-lhe às pernas, na calça. Alfredo ignorou-o, alheado. Sentou-se no sofá, ao canto, pousou o braço esquerdo no braço do sofá, cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda, largou-se ao encosto do sofá, cerrou as pálpebras, e esfregou-as com os nós dos dedos da mão direita. Passeou as mãos pelos olhos, e removeu as lágrimas que neles se acumulavam. Estava triste e preocupado. Como daria a notícia à Natália? Teria de ministrar-lha em doses homeopáticas. Teria de preparar Natália para receber a triste notícia, de modo a não sobressaltá-la. Mas, como fazê-lo? Desejou que ela não se encontrasse com ninguém que lhe desse a notícia. Natália, tão melindrosa, se recebesse a notícia, sofreria um ataque cardíaco fulminante. Desejou que ela chegasse em casa, e logo, antes que alguém lhe perguntasse: “Que horas será o enterro de seu falecido pai?”, ou, então: “O traslado do corpo de seu pai começará no velório, ou na casa dele?”, ou: “Quero dar ao seu falecido pai os meus votos de despedidas. Ele será velado onde? Na casa dele, ou no velório?”, ou, então, lhe fizesse comentários sobre a honra e a nobreza de caráter de Cirilo, lhe dissesse que ele era um homem generoso, trabalhador, um dos raros homens confiáveis que havia no mundo, e que não se forjam homens de tal têmpera nos fornos modernos, dos quais só saem molengas, que não enfrentam sol a pino e adoecem ao primeiro golpe de vento, jamais empunham a enxada para carpir a terra, não sabem preparar a refeição que comem e não têm pulso firme para educar os filhos.

Com os pés, Alfredo empurrou Esfinge, que se deteve e fitou-o com seus olhos enigmáticos.

– Bandido… – sussurrou Alfredo; a voz travou-se-lhe no esôfago. – Por onde você andou? Você foi à farra, malandro? – ato contínuo, levantou-se do sofá. Esfinge o seguiu. Foram até onde encontrava-se a vasilha de Esfinge. Alfredo pegou do saco de ração, abriu-o, despejou uma boa quantidade de ração na vasilha. Esfinge curvou-se sobre a vasilha, e pôs-se a comer da ração, enquanto Alfredo pegou da vasilha com água, despejou a água num canteiro de samambaias, foi à torneira, abriu-a, encheu a vasilha com água, fechou a torneira, e carregou a vasilha até Esfinge, deixando-a ao lado da vasilha com ração. Executou mecanicamente essas tarefas. Pensava em Natália. Como dar-lhe-ia a notícia do falecimento do pai dela? Em sua mente, vórtices devastadores de pensamentos entrechocavam-se a ponto de petrificá-lo. Pensou o que sucederia à Natália se lhe dissesse: “Natália, seu pai morreu”, assim, de supetão. Seria o mesmo que matá-la, concluiu. Se desejasse matá-la, dar-lhe-ia desse modo a notícia. Mas não desejava matá-la. Perguntou-se se não estava sendo insensível ao pensar, exclusivamente, em Natália, e em ignorar Cirilo, que faleceu. Concluiu, para o seu conforto, mas tal pensamento não o agradava, que tinha de se preocupar, não com os mortos, mas com os vivos: Natália, sua esposa; Denise e Fabiana, suas filhas; e Gustavo, seu filho. Denise, Fabiana e Gustavo chorariam ao ouvirem a notícia. Fabiana seria quem mais sofreria (dos três era a mais apegada ao avô, com quem apreciava manter intermináveis colóquios sobre literatura e filosofia e a quem acompanhava às tertúlias promovidas por academias). Denise talvez não sofresse, pois nunca foi muito próxima do avô, mas por ele nutria respeito e carinho. Alfredo pensou nas duas filhas e no filho, mas concentrou os seus pensamentos em Natália. Denise, Fabiana e Gustavo suportariam o impacto da triste notícia. Eram jovens, saudáveis, fortes, mas Natália, não. Ela sofria de diabetes, tinha enxaquecas, passara por um período de dois anos de depressão profunda, e implantara um marcapasso dois anos antes. Não era uma mulher na plenitude da sua saúde. Era uma mulher que requeria cuidados, melindrosa. Alfredo não sabia como lhe daria a triste notícia. Pensou em pedir para outra pessoa transmitir-lha. Abandonou esta idéia ao concluir que ele, Alfredo, marido de Natália, é quem teria de dar-lha. Mas como o faria? Como lhe daria a notícia do falecimento do querido pai? Não poderia lhe dizer: “Querida, seu pai morreu”. Era o mesmo que assinar o atestado de óbito dela, o que ele não desejava. “Que outro o assine”, pensou, e sorriu, e meneou a cabeça, para expulsar de sua mente pensamento tão reprovável. Como daria para Natália a notícia do falecimento do pai dela? Desdobrou-se, para encontrar uma resposta. Teria de encontrá-la antes que Natália regressasse. “Eu, assim que Natália chegar – pensava Alfredo consigo, andando pela varanda e entrando e saindo da sala -, a saudarei como o faço todos os dias. Ela, é certo, me pedirá que eu tire do carro as compras. Atenderei ao pedido. Assim que ela entrar no quarto para vestir roupas mais leves, como, é certo, ela irá fazer, pois está um calor de rachar os miolos hoje, entrarei no quarto, e lhe direi para sentar-se na cama, e lhe darei a notícia. Primeiro, lhe direi que não fui, com o Roberto, para Taubaté porque, minutos antes, Vanessa esteve aqui em casa, para lhe dar a ela, Natália, uma notícia importante. Assim, sem ir direto ao assunto, reticente, manterei Natália em suspenso, e despertarei a sua curiosidade. Farei uma pausa, expressarei um ar compungido, fitá-la-ei bem fundo nos olhos… Não dará certo. Ao olhar para mim, ela saberá que lhe darei uma péssima notícia. Ela desconfiará… Terei de dar-lhe a notícia. Então, no quarto, sentados, na cama, de frente um para o outro… Tem de ser no quarto? Sim. É o local mais apropriado. Darei a notícia para a Natália. Começarei assim: ‘Natália, não fui, com o Roberto, para Taubaté. Um pequeno imprevisto…’ Pequeno imprevisto!? Que tolice é esta que me vem à cabeça!? Falta-me um parafuso na cabeça. O pai da minha esposa morre, e eu digo que isso é um pequeno imprevisto! A Natália, se eu lhe disser isso, terá um ótimo motivo para pedir o divórcio. Que sensibilidade! Além disso, por que eu usaria de um tom formal? Não transmitirei uma mensagem para um estranho. Eu irei falar para a minha esposa, mãe de meu filho e minhas filhas, da morte do pai dela. E farei, assim, sem lhe expressar, ao transmitir-lhe a notícia, os meus sentimentos… O que sou? Uma máquina? Um robô? Um andróide? Um replicante? Um sintético? Até os sintéticos têm sentimentos. Sou um homem, triste, agora, com o falecimento do Cirilo, meu sogro, que, desde o instante em que o conheci, foi generoso e respeitoso comigo. Ele foi para mim meu pai… Após o falecimento de meu… Não tenho de ocultar a minha tristeza… Não tenho de esconder da Natália os meus sentimentos… Não tenho de ocultar-lhos. Estou certo que Natália, ao chegar, assim que olhar para mim, perguntar-me-á: ‘O que houve, Alfredo? Por que você está triste?’. Ela possui o sexto sentido. E o sétimo e o oitavo. Não poderei lhe ocultar a minha tristeza. Não me desgastarei tentando exibir-lhe um rosto inexpressivo. É certo que eu, ao olhá-la nos olhos, traga lágrimas aos meus olhos. Melhor, é certo que as lágrimas me venham aos olhos sem que eu as chame, e que meus lábios tremam. Não conseguirei controlar-me. Irei segurar as mãos da Natália, abaixarei a cabeça, me curvarei, e chorarei, o rosto sobre seu colo, convulsivamente. Talvez Natália, ao me ver tão triste, sofrendo tanto, condoa-se de mim, e abrace-me, e, assim que eu lhe der a notícia do falecimento de seu pai, envolva-me com um abraço caloroso, estreite-me a si, e chore. Talvez isso se dê. Estou, aqui, a pensar, preocupado, em tudo isso, certo de que saberei como agir; o mais certo, no entanto, é que os eventos se sucedam, e surpreendam-me. Talvez venha a se suceder o que agora não me passa pela cabeça. A Natália, ao ouvir a notícia, talvez não se perturbe; talvez a receba com serenidade e resignação, afinal Cirilo sofreu muito nos últimos anos, e os remédios, conquanto o conservassem lúcido e animado, como ele se mostrou ontem à noite, fizeram-no sofrer imensamente, embora ele não deixasse que o sofrimento que o afligia lhe transparecesse na fisionomia, que ele conservava animada, como se vivesse no melhor dos mundos possíveis. O testemunho de Maria José me foi revelador: Cirilo sofria muito. Os seus momentos de alegria foram interlúdios entre dois momentos de sofrimento indescritível. E ele os passava com Fabiana e Henrique. Os três adoram livros de literatura e de política; as animadas conversas faziam bem a Cirilo. E ele sofria muito. Talvez Natália se resigne. Talvez ela acolha a notícia e não sofra tanto quanto imagino que ela sofrerá. Talvez o impacto da notícia não seja tão devastador quanto eu o esteja concebendo. Mas, e depois? E depois? A Natália poderá, calada, ouvir-me dar-lhe a notícia, mas, e depois? A Natália me dará a entender que estará bem, não necessitará de maiores cuidados… Mas, e depois?”.

O soar da campainha interrompeu-lhe o fluxo dos pensamentos. Foi à porta. Abriu-a. Era um funcionário dos correios, que lhe entregou uma encomenda feita por Natália uma semana antes, uma caneta e um papel, no qual, num espaço reservado com indicação do nome de Natália e do seu endereço, Alfredo assinou, e escreveu o número do seu RG e o do seu CPF. Assim que os escreveu, entregou o papel e a caneta ao funcionário dos correios, despediu-se dele, desejando-lhe um bom dia de trabalho e um ótimo final de semana, e recolheu-se à casa, com a caixa, a qual deixou sobre a mesa da sala-de-estar. Ato contínuo, foi à cozinha, pegou de um copo de vidro transparente, levou-o ao filtro, encheu-o de água, bebeu da água, e deixou o copo na pia. Retirou-se da cozinha, e foi ao quarto. Sentou-se na cama. O telefone soou. Atendeu-o. Era Maria José, sua sogra. Ela lhe falou do falecimento do marido. Alfredo ouviu-a, atentamente; não lhe disse que Vanessa já lhe dera a triste notícia. Quis consolá-la, mas se convenceu, ao ouvi-la, que ela, mais do que ele, suportava a triste notícia com coragem, e era ele, e não ela, que precisava ser consolado. No tom de voz dela misturavam-se resignação e sofrimento; ela disse que havia sido feita a vontade de Deus, e que Cirilo descansaria, após muitos anos de sofrimento decorrente da doença que o acometera, e que o prostrara, na cama, durante cinco longos anos, e que o privara dos prazeres da vida. Lágrimas abundantes encheram as órbitas dos olhos de Alfredo. Maria José perguntou-lhe de Natália. Alfredo disse que ela fora ao supermercado, à feira e à farmácia. Maria José aconselhou-o a dar-lhe a notícia com cautela, para não feri-la, pois Natália era muito melindrosa; em seguida, disse-lhe que teria de desligar o telefone porque Carlos Roberto, seu irmão, a chamava. Despediram-se, e desligaram o telefone.

Sentado na cama, Alfredo pensava no que diria para Natália. Não poderia abordá-la com circunlóquios, pois, sabia, se o fizesse, despertar-lhe-ia os sentidos, indefiníveis, que ela possuía, tão agudos, tão potentes, que, de imediato, antes de ele dar-lhe a notícia, ela chegaria, ou pelo instinto, ou pela intuição, ou pela razão, ao fitá-lo, à explicação correta para a atitude dele.

Alfredo não poderia lhe dar a notícia de supetão; também não poderia abordá-la com floreios oratórios para transportar-lhe o espírito para uma região serena e tranquila, para, depois, vir com a triste notícia.

Não sabia como teria de proceder. Consultou o relógio. Eram onze e meia. Natália regressaria dali poucos minutos, pois ela ainda teria de preparar o almoço. Alfredo ficou apreensivo. Levantou-se da cama. Retirou-se do quarto. Pensou ter ouvido o barulho do portão sendo fechado. Acelerou os passos. Foi à varanda. Não viu Natália. Concluiu que o portão da casa dos vizinhos da direita, Vinicius e Úrsula, fôra fechado. Passeou as mãos pelo rosto. Um bem-te-vi distraiu-o. Pássaros, ao longe, digladiando-se em pleno vôo, prendeu-lhe a atenção durante um bom tempo. Um pássaro pequeno e um pássaro grande com o triplo do tamanho do pássaro pequeno. Pareceram a Alfredo um pardal e um sabiá-laranjeira, mas ele não estava certo disso. Talvez não fosse um pardal, mas uma noivinha, ou um colibri de penas de cores foscas, e o outro pássaro talvez fosse um bem-te-vi. Não soube dizer quais eram as espécies dos dois pássaros. Não se prendeu à essa questão. Logo mergulhou nos seus pensamentos. O que diria para Natália, que chegaria à casa antes do meio-dia? Enfiou as mãos no bolso da calça. Pensativo, andou de um lado para o outro do jardim e da varanda. Latidos de Thor e Aquiles chegaram-lhe aos ouvidos, numa série que lhe indicava que eles avançavam contra alguma pessoa ou contra algum animal. Alfredo sabia quando os cães latiam para estranhos, fossem pessoas, fossem animais. A entonação dos latidos assumia características singulares. Foi ao quintal. Não havia se aproximado do canil quando obteve a explicação para as detonações dos latidos de Aquiles e Thor. Sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia havia um homem, que mexia na antena. Alfredo não se deteve. Aproximou-se dos cães, que diminuíram a ênfase dos latidos à sua presença.

– Cachorros bravos, hein? – comentou o homem sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia; era ele magro, esquelético, de barba rapada, baixo (um metro e sessenta, se muito), e na altura dos cinquenta anos. – Eles não gostaram de mim.

Aquiles e Thor conservaram-se vigilantes.

– São dois machos? – perguntou o homem sobre o telhado, referindo-se a Aquiles e Thor. – Um pastor alemão e um pastor belga?

– São – respondeu Alfredo. – São dois machos. Um belga e um alemão. Como você pode ver, eles estão com fome.

– Não quero me servir de almoço para eles – e sorriu o homem sobre o telhado, enquanto mexia, com um alicate, no cano de sustentação da antena. – Ferozes, os dois. Treinou-os?

– Sim. Em uma escola para cães.

– Essas duas feras impõem respeito.

– Não há dúvidas.

– Esses dois cães de guarda mantêm os ladrões afastados. Há muitos ladrões na cidade. Ontem, perto da minha casa, dois ladrões… Dois ou três, ninguém sabe… Entraram na casa do Juliano, à noite… Não eram nem dez horas da noite… Entraram na casa e a depenaram. Carregaram o computador, o dvd, o rádio e a televisão. Um computador, sabe?, que parece uma pasta. Não sei como se diz. Ora, um ladrão, sozinho, não poderia fazer o serviço. Foram dois, ou três. E o engraçado: Ninguém, na vizinhança, os viu. Foram sorrateiros, os filhos-da-polícia. Entraram e saíram da casa do Juliano, e ninguém os viu.

– Eles sabiam que não haveria ninguém na casa, na hora do roubo.

– Foi o que eu disse para o Juliano. Não foram ladrões-de-galinha que assaltaram a casa dele. As portas e as janelas não foram arrombadas. Como os ladrões entraram na casa? Teletransportaram-se para dentro dela? E como eles saíram da casa? Teletransportaram-se para fora dela? A Carlinha, minha irmã, disse que os ladrões entraram na casa do Juliano pela casa da Guiomar, que dá fundos para a casa do Juliano. Mas a Guiomar disse que, à noite, naquele dia, ela, o Lindomar, marido dela, e o Neymar, filho dela com Reinaldo, o seu primeiro marido, que faleceu em um acidente de carro há dez anos, estavam, no quintal, arrumando as quinquilharia. Ferros-velhos, papéis, papelões, os quais iriam vender, no ferro-velho, hoje. Ninguém além deles estava naquela casa. E a Guiomar, mulher honesta, decente, trabalhadora, jamais mentiria. Todos os do bairro gostamos dela. A Guiomar é uma cozinheira de mão cheia, mulher forte, vigorosa, sabe? Ela não é gorda; é forte; um mulherão. Ela é baixa, tem um metro e cinquenta; e de um vozeirão que impõe respeito e mete medo até no Papa, que Deus o guarde. Quem manda, na casa dela, é ela, não o Lindomar, homem trabalhador e decente, pau para toda obra. A Guiomar, o Neymar e o Lindomar não ouviram sequer um ruído na casa do Juliano. A Luciana, minha vizinha, disse que os ladrões conhecem o Juliano. São, ela acha, amigos dele.

– Uma hipótese que não se pode descartar.

– O Juliano não a descartou.

– Ele chamou a polícia?

– Não. Não telefonou para a delegacia. Ele jamais iria telefonar para a polícia. Um passarinho contou-me que o Juliano trafica maconha. Não sei se é verdade. Eu nunca o vi fumando um cigarro. Nunca me haviam dito que ele traficava maconha. Depois que assaltaram a casa dele, começaram a espalhar esta história. Por que ele não telefonou para a polícia? Muitas pessoas procuraram uma resposta para esta pergunta. Por que o Juliano não chamou a polícia? A melhor resposta que encontraram: ele não quer os policiais dentro da casa dele porque eles, ao procurarem por evidências que os levem aos ladrões, poderiam encontrar a maconha que ele tem escondida em algum lugar da casa, muito bem escondida, mas não tão bem escondida que os policiais, à procura de evidências que os levem aos ladrões, não possam encontrar. Muita gente está contando esta história pelo bairro. Como não sei se isso é verdade, ou não, calo-me a respeito. Não quero levantar falso testemunho. Aprendi a manter a língua dentro da boca. O padre Carlos, dia destes, disse-me que um dos dez sacramentos, não sei se o quinto, se o oitavo, nos ensina a não levantarmos falso testemunho. É um dos sacramentos que Deus riscou, no monte das Oliveiras, em uma das duas tábuas que Ele entregou para Moisés. Essa história está na Bíblia, numa das primeiras páginas do Novo Testamento, que é a segunda parte da Bíblia, e foi escrito depois do Velho Testamento. E um advogado, Luciano, amigo meu, disse-me, certa vez, que ao acusador cabe o ônus da prova, e que todas as pessoas são inocentes até prova em contrário, excluindo-se, obviamente, os nossos inimigos, pois todos eles nasceram culpados.

A tagarelice do homem que estava sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia distraiu Alfredo, que, enquanto o ouvia, sorria consigo diante dos equívocos nos quais ele incorria, os quais não foram poucos. Menos de vinte minutos depois, o homem, enquanto descia do telhado, despediu-se de Alfredo, que iria à cozinha, mas deteve-se à porta ao ouvir barulho na varanda. “Natália”, pensou. Seu coração vibrou, acelerado. Imóvel, procurou controlar os seus pensamentos e conservar consigo o governo do corpo. Respirou fundo. Expeliu todo o ar dos pulmões. Andou, lentamente, controlando os passos e a respiração, até a varanda. Deteve-se ao batente da porta que dava acesso do corredor à varanda. Entreviu Natália, atrás do carro, cujo bagaceiro estava com a porta levantada.

– Querida – disse, e andou na direção dela, e dela ouviu:

– Fredo, ajude-me com as compras.

– Nossa! Quanta coisa você comprou – exclamou Alfredo, ao se deparar com o bagageiro cheio.

– No banco há mais – disse Natália, sorrindo; ao voltar-se para Alfredo, fitou-o nos olhos. – Você esqueceu que dia será amanhã? Você está ficando velho. Comprei tudo isto para a festa de aniversário de papai. Amanhã ele fará oitenta anos.

Alfredo havia se esquecido.

– Comprarei para você um quilo de cérebro de elefante, Fredo. Agora, ajude-me com esses pacotes – e, carregando duas sacolas, uma em cada mão, afastou-se do carro. – Vou tirar estes sapatos, que estão moendo meus pés, triturando meus ossos, e, depois, vou para a cozinha preparar o almoço. Já é meio-dia. Como as horas passaram rápido, hoje – e retirou-se da varanda.

Alfredo ficou imóvel atrás do carro. Coçou o queixo. Passeou as mãos pelo rosto. Encheu os pulmões de ar – com as mãos aos quadris -, e os esvaziou. Lágrimas vieram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras e abaixou a cabeça. Removeu das órbitas dos olhos as lágrimas. Atormentava-o a ausência de uma resposta para a pergunta que se fazia: “Como vou contar para ela?” – referia-se à Natália e à morte de Cirilo. Conservou-se imóvel, atrás do carro, durante um bom tempo, até que resolveu retirar as sacolas e os pacotes do bagageiro do carro. Deteve-se, na primeira vez que entrou na sala-de-estar, e deixou pacotes e sacolas sobre a mesa. Mais uma vez, lágrimas vieram-lhe aos olhos. Alfredo removeu-as. Curvou-se sobre o encosto de uma das seis cadeiras que ladeavam a mesa, e nele pousou os cotovelos. Cerrou as pálpebras. Cobriu os olhos com as mãos, e pensou: “Como contarei para a Natália?”, referindo-se à morte de Cirilo. “Direi ‘Natália, seu pai morreu’? Não! O que desejo? Desejo a morte da minha esposa? Direi ‘A Vanessa disse-me que seu pai, Natália, morreu’? Diabos! Como eu lhe falarei da morte do Cirilo? Direi ‘Querida, hoje, não fui para Taubaté com o Roberto porque, minutos antes, atendi à campainha. Era a Vanessa, sua prima, que a tocara. Ela me disse, Natália, que seu pai morreu’? No que estou pensando? Não importa o que eu diga, a notícia cairá como uma bomba. Não saberei com quais palavras dar a notícia para a Natália. Cairei aos prantos. Talvez eu não caia aos prantos. Talvez as lágrimas se me sequem, não me venham aos olhos, e eu perca a voz, e eu fique paralisado. Talvez eu perca a consciência, e, parado, comporte-me como um tolo diante da Natália, que me perguntará: ‘O que houve, Alfredo? Você quer me dizer alguma coisa?’, e eu perderei a voz, e faltar-me-ão as palavras. ‘Querida – eu direi – sente-se, por favor. Hoje, a Vanessa, sua prima, esteve aqui, e, depois, o Roberto, e há uma hora, mais ou menos, sua mãe telefonou-me. Os três disseram-me que seu pai, de madrugada, enquanto dormia, faleceu’. Como a Natália reagirá à notícia? Seria como lhe cravar uma faca no peito, e empurrá-la até transpassar-lhe o coração. Terei de lançar mão de outro expediente. Como eu lhe darei à notícia? Eu lhe direi: ‘Querida, sente-se, por favor – se ela não estiver sentada. – Quero conversar com você. Sua mãe telefonou-me há uma hora e meia, e disse-me que seu pai morreu, na noite de hoje, e…’. Não. A Natália… Oh! Inferno! Como direi à Natália?”. Neste momento recompôs-se, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, tirou um lenço do bolso esquerdo traseiro da calça, e com ele enxugou os olhos, suspirou, e andou, pelo corredor, em direção ao quarto. Deteve-se ao enquadramento da porta. Dentro do quarto, Natália, sentada na cama, retirava da orelha esquerda o brinco. Alfredo restituiu o lenço ao bolso da calça, encheu os pulmões de ar, e os esvaziou, lentamente. Com os ânimos serenos – assim ele acreditava -, entrou no quarto. Natália voltou-lhe a atenção, enquanto curvava, ligeiramente, a cabeça para a direita e removia da orelha direita o brinco, o qual guardou num porta-jóias, enquanto Alfredo sentava-se à cama.

– O que aconteceu, Alfredo? – perguntou-lhe Natália. – Você está com um olhar estranho.

Assim que Natália abaixou a tampa do porta-jóias, Alfredo, em silêncio, estendeu-lhe as mãos, com as palmas para cima, pedindo-lhe as mãos. Natália pousou sobre as mãos dele suas mãos, intrigada e expectante. Seu olhar penetrava, profundamente, os olhos de Alfredo, como se lhe sondasse a alma, como se lhe esquadrinhasse o espírito à procura de uma resposta para o estranho comportamento dele. Natália intuiu que algo de triste se sucedera, mas não atinava com as razões do olhar alheado de Alfredo. Aguçou o olhar. Ativou todos os seus neurônios à procura de uma resposta.

Alfredo quebrou o silêncio:

– Natália, não fui, hoje, para Taubaté…

Natália franziu o cenho, fez ar de quem nada compreendia. Não viu correspondência entre a atitude e as palavras de Alfredo. Algo de estranho, pensou, sucedia-se. Não havia sentido, intuiu, Alfredo fazer ar de mistério, fisionomia sofrida, manter o silêncio e dar-lhe tal notícia.

– É só isso o que você quer me dizer, Alfredo?

– Não. Não, Natália. Sua mãe telefonou, há uma hora, mais ou menos.

– O que ela queria?

– Ela queria falar com você.

– A respeito de quê?

Alfredo não deu uma resposta. Natália conservou-se calada. Esperou que ele lhe dissesse o que desejava lhe dizer.

Alfredo, enfim, após alguns minutos de silêncio opressivo, disse, com voz entrecortada:

– Natália… Querida, meu sogro morreu.

 

Anúncios

A casa dos horrores

Quarta-feira. Dia quente. Ariadne chegou, às onze e meia, na sua casa, saltitando de felicidade, lindo sorriso a sublimar-lhe a beleza do rosto de traços suaves. Queria ir ao banheiro tomar um banho revigorante e, depois, almoçar; antes, porém, contaria para sua mãe, Carmem, as boas novas: 10, em História; e 9, em Biologia. Percorreu toda a casa à procura dela; não a encontrou. Contrariada, foi ao quarto. Deixou os cadernos e os livros sobre a escrivaninha, sentou-se na cama, e descalçou os pés; descalça, foi até o guarda-roupa, de cuja gaveta inferior retirou uma calcinha e um short, e uma camisa da gaveta superior. Ato contínuo, foi ao banheiro. Não trancou a porta. Pôs as roupas que retirara do guarda-roupa sobre a tampa do vaso sanitário. Despiu-se. Pôs-se sob o chuveiro. Abriu-o. Atingiu-lhe o corpo, que pedia um pouco de refresco, a água fria. Arrepiaram-se-lhe os finos pêlos dos braços. Ao acostumar-se com a temperatura da água, deixou-se molhar, deliciada.

Durante o banho, passeava as macias mãos pelo corpo sedoso. Feliz, elogiava-se, em pensamento, pelo seu desempenho nas provas de História e Biologia.

Ariadne queria seguir carreira de oftalmologista. Pretendia, no final do ano, prestar exame vestibular nas mais conceituadas universidades brasileiras. Como todos os jovens, construía suntuosos castelos no ar. Via-se, vergando o uniforme branco, em um consultório em cuja porta lia-se, em uma plaqueta: ‘Doutora Ariadne Almeida Vargas. Oftalmologista’.

A água escorria voluptuosamente pelo corpo exuberante de Ariadne, que empinava o busto e jogava a cabeça para trás, jogando, para as costas, os longos cabelos bem cuidados, permitindo, assim, que a água lhe atingisse o belo rosto. Com as pálpebras cerradas, abria a boca e a enchia com um pouco de água, soltando-a logo em seguida. Imersa no prazer que o banho permitia-lhe desfrutar, permaneceria sob o chuveiro por mais um bom tempo. De repente, ao golpear-lhe indefinível sensação de desconforto, abandonou os seus devaneios. Não saberia explicar, se alguém lha indagasse, o que a alertara para a ameaça que dela se aproximava. Descerrou as pálpebras. Voltada para a parede, de costas para a porta do banheiro, olhou por sobre o ombro esquerdo, e viu, a poucos centímetros de si, o corpo volumoso, nu, repulsivo, coberto de pêlos, de Clodoaldo, seu pai, cujos olhos, que transbordavam lascívia animalesca, miravam-na, e cuja fisionomia estampava rictus doentio, insano, crudelíssimo. Ariadne sentiu intenso calafrio percorrer-lhe o corpo e gelar-lhe a espinha. Era indisfarçável o estado de embriaguez de Clodoaldo, que exibia rosto inchado, avermelhado. O odor que ele exalava feriu o nariz de Ariadne, que, assustada, petrificada, encarou-o, olhos arregalados; ao abaixar o olhar, ela se assustou com o que viu, e, automaticamente, adivinhou as intenções de seu pai.

Clodoaldo segurou o pênis ereto e exibiu-o para Ariadne, que começou a tremer, a balbuciar palavras desconexas. Dos olhos dela escorreram lágrimas. Clodoaldo deu um passo para a frente. Ariadne preparou um berro. Clodoaldo precipitou-se sobre ela, cobriu-lhe a boca com a sua enorme mão áspera, impedindo-a de gritar, e sussurrou-lhe obscenidades, numa voz cavernosa – e de sua boca escapava hálito putrefato. Apertou-se nela. Esfregou-se nela. Buscou, com os lábios, os lábios de Ariadne, que tentou, em vão, com as mãos, afastá-lo de si. Ele a premiu à parede, enfiou-lhe as mãos entre as coxas, para forçá-la a afastar as pernas uma da outra. Ariadne resistia, mas nada podia fazer em sua defesa. Clodoaldo era corpulento, pesado, forte. Ariadne, de um pouco mais de um metro e sessenta centímetros de altura e sessenta quilos, não podia lhe opor resistência. Clodoaldo mordeu-lhe o lábio superior, ao mesmo tempo que, com a mão direita, puxava-lhe os pêlos pubianos e, com a mão esquerda segurando o pênis ereto, forçava a penetração. Os seus músculos estavam contraídos; os vasos sanguíneos, intumescidos. Ariadne não conseguiu protestar, nem clamar por socorro. Deu início a um grito sufocado, que Clodoaldo abafou cobrindo-lhe a boca com a mão direita.

Ariadne chorava, convulsivamente.

Clodoaldo, frustrado com as suas infrutíferas tentativas de violar Ariadne, emitiu um abafado urro de raiva e, ao mesmo tempo, com as coxas esforçava-se, em vão, para afastar as pernas de Ariadne uma da outra. Contrariado, surpreso com a resistência de Ariadne, retirou-a, apertando-lhe o pescoço com a mão direita e o braço direito com a mão esquerda, de sob o chuveiro. Ariadne quis resistir, mas não pôde impor resistência a um homem dez vezes mais forte do que ela.

Ariadne sentiu dor insuportável.

Clodoaldo, nervoso, irritado, impaciente, encaixou um potente soco no ventre de Ariadne, roubando-lhe o ar dos pulmões. Ariadne chorava, aterrorizada. Clodoaldo puxou-a pelos cabelos, jogou-a no chão, de costas, deitou-se sobre ela; com os lábios ardendo de bestialidade, sugou-lhe os lábios, mordeu-os, ao mesmo tempo que com a mão direita segurava o pênis ereto e forçava-o para dentro de Ariadne – enquanto com a mão esquerda puxava os cabelos dela, infligindo-lhe dores indescritíveis. A dor que Ariadne sentiu, no exato momento da penetração, quase lhe roubou a consciência. Ela sentiu o ventre rasgando-se. Clodoaldo, ávido, lascivo, desferiu estocadas violentas, indiferente à pungente dor que lhe infligia e ao seu choro convulsivo. Enquanto ejaculava, a intensa sensação de prazer que o invadiu fê-lo mais agressivo, mais bestial, mais rude, mais grosseiro, e impeliu-o a mover-se com estocadas mais furiosas, ferindo Ariadne mais profundamente. Ao sentir-se satisfeito, de Ariadne retirou-se e conservou-se, as pernas abertas e os joelhos no chão, sobre ela, exibindo-se-lhe, e ameaçando-a:

– Você, boneca deliciosa, nada contará para sua mãe. Belezinha! Gostosinha! Entendeu, brotinho? Docinho! Se você der um pio, cabacinha, matarei você. Se você abrir o bico, matarei você, boquinha lindinha do papai. Está vendo, menininha gostosinha, o que tenho nas mãos? – e esfregou-lhe o pênis flácido no rosto. – Você já experimentou o papai, peitudinha. Esta foi a primeira vez, cabacinha. E não será a última. Entendeu? Se você contar alguma coisa para sua mãe, arrebentarei você. Você é minha filha, fofurinha do papai. Com você, faço o que bem entender. Entrarei em você sempre que eu desejar. Belezinha. Filhinha do papai. Com você, faço o que quiser. O que quiser, entendeu? Se você abrir o bico, matarei você. Ai de você, vadiazinha do papaizão, vagabundinha deliciosa, se você contar para sua mãe. Sabe o que farei, se você der com a língua nos dentes, cabacinha? Arrombarei você e enfiarei uma faca no seu coração, entendeu, cabacinha? Arrombarei você. Belezurinha, entrarei pela porta dos fundos e pela porta da frente. Se você contar para alguém, cabacinha, matarei você. Terei o seu sangue nas minhas mãos. Belezinha. Cabacinha. Se você contar para sua mãe, ou para qualquer pessoa, matarei você. Matarei você! Não estou brincando, vadiazinha, depravadazinha. Não estou brincando. Arrombarei você, matarei você, farei picadinho de você, e lamberei os seus ossos, e jogarei os seus pedaços para os vira-latas. Entendeu, cabacinha? Se você contar para alguém, matarei você. Matarei você, uma, duas, três vezes. Matarei você quantas vezes eu quiser.

Ariadne, sem forças para se levantar, conservou-se deitada, a chorar convulsivamente. Todo o seu corpo doía-lhe. Vibrava-o dores insuportáveis. Ela nunca havia se sentido tão indefesa, tão impotente, tão frágil, tão desamparada, tão abandonada, tão só.

– Levante-se, bonequinha. Cabacinha do papai. Vista-se, fofurinha vadia – gritou Clodoaldo, ao mesmo tempo que puxava Ariadne pelos cabelos e jogava-lhe as roupas em cima. – Não quero que sua mãe veja você assim, nuazinha em pêlo, cabacinha. Pare de chorar, belezinha do papai. Levante-se! Enxugue as lágrimas, garotinha mimada. Levante-se! Você quer brincar mais um pouquinho com o papaizinho? – deu-lhe dois pontapés, apertou-lhe os braços e a pôs sentada, no chão, encostada à parede. O rosto de Ariadne, deformado pelo medo e pela dor, estava irreconhecível. – Pare de chorar, vagabundazinha! O mundo não desabará porque entrei em você, belezurazinha do papai. Não faça docinho, lindinha do papai. Não faça biquinho, pitéuzinho. Para o chuveiro, cabacinha! Limpe-se! Cabacinha, tire todo esse sangue daqui. Que sujeira você fez! Vagabundazinha vadia do papai! Você sujou o banheiro, cabacinha. Nunca vi tanto sangue em minha vida! Nem no açougue do Baião há tanto sangue!

Ariadne pôs-se sob o chuveiro, sentada, as pernas encolhidas. Abraçou-as. Enfiou a cabeça por entre os joelhos, mantendo-a presa entre eles. Chorava convulsivamente. Clodoaldo perdeu a pouca paciência que lhe restava, desligou o chuveiro, arrastou Ariadne, pelo braço, machucando-o, até o quarto, jogou-a sobre a cama, voltou ao banheiro, pegou uma toalha, regressou ao quarto, e pôs-se a enxugar Ariadne; admirava-lhe o corpo bem feito, apertava-lhe os peitos, sugava-lhe os mamilos e ameaçava violá-la mais uma vez.

*

Ariadne testemunhava, diariamente, discussões violentas entre seu pai e sua mãe – discussões que, infalivelmente, degeneravam em violência física. No quarto, deitada em posição fetal, chorava convulsivamente. Os seus sentimentos, confusos, indefiníveis, perturbavam-na. Certo dia, Clodoaldo surrou Carmen com tanta violência que lhe pôs hematomas em todo o corpo e quebrou-lhe o nariz e o braço esquerdo. Em outra ocasião, Clodoaldo quebrou uma vassoura nas costas de Carmen, e espancou-a, dias depois, a ponto de roubar-lhe a consciência. Ariadne ficou apavorada no dia em que viu Clodoaldo estuprar Carmen, e recolheu-se ao quarto. Não dormiu à noite. Não conseguiu afugentar de si as imagens terríveis que presenciara e as lembranças do dia em que foi estuprada. Temia que Clodoaldo invadisse o quarto, a atacasse e a violentasse.

*

A casa estava imunda. Era um antro de criaturas repulsivas. Ratos, baratas e outros animais peçonhentos circulavam, livremente, de um lado para o outro, por toda a casa, que, meses antes, brilhava de tão limpa. Ariadne, antes, caprichosa, era quem conservava o brilho da casa, com faxina diária; agora não se incomodava com a imundície.

Num certo dia, a voz embargada, durante uma conversa com sua mãe, assim que ela lhe perguntou porque estava tão triste, disse-lhe:

– Mãe, o pai me estuprou.

Carmen alterou-se de imediato; furiosa, fungando, desferiu um tapa no rosto de Ariadne, que ficou apavorada com tal reação. Carmem esbofeteou-a, cuspiu-lhe ofensas. Ariadne não reagiu; sentiu a consciência dissipar-se. Não recuou, no início, tão surpresa com a reação de sua mãe, pois acreditara que dela ouviria palavras de consolo, afinal, ela, Carmen, era sua mãe, e, além disso, Clodoaldo a havia estuprado. Como os tapas, os socos e os insultos sucederam-se, avassaladoramente, protegeu-se com os braços e os antebraços, e impôs débil resistência. Carmem puxou-lhe os cabelos, forçou-a a curvar-se, e deu-lhe tapas nas costas e no rosto.

– Você, filha… Fala de seu pai… – repreendeu-a Carmen. – Não o calunie, filha ingrata. Ele trata tão bem você. Seu pai é um homem amoroso. Ele é seu pai, cadela. Cadela! Vagabunda! Por que você fala isso de seu pai? Por que você inventa essas histórias? Por que, ingrata? Vadia! Cachorra! Não admitirei que você calunie seu pai, filha ingrata. Ele sempre tratou tão bem você! Ele sempre foi amoroso com você! Cadela vagabunda! Por que você inventou essa história?

– Não inventei história… – defendeu-se Ariadne, aos prantos. – Eu disse a verdade; você sabe que eu disse a verdade. Ele… Ele… Eu, no banheiro… Ele… Ele entrou… Ele me agarrou… Ele me deu um murro… Ele… Ele… Mãe… Ele me jogou no chão… Deu-me um murro… Ele me forçou… Mãe, ele… Eu… Ele me ameaçou… Ele me disse… Se eu contasse… Ele me disse… Ele me mataria… Ele me disse…

– Mentirosa! Vagabunda! – berrou Carmen, que, furiosa, deu um tapa em Ariadne, arremessando-a sobre uma cadeira.

– É verdade, mãe – retrucou Ariadne, aos prantos, mal conseguindo pronunciar as palavras. – Estou falando a verdade. Por que eu mentiria? Ele… Ele… – impediam-na de falar os soluços e o choro convulsionado. – Ele… Ele me ameaçou… Ele me estuprou… Ele…

– Cale a boca, vagabunda! – berrou-lhe Carmen, ao mesmo tempo que ameaçava dar-lhe um tapa. – Seu pai é um homem amoroso.

– Amoroso? Ele… Eu… Eu o vi batendo em você… – disse Ariadne, soluçando, gaguejando. – Ele deu murros na sua barriga, mãe… Com a vassoura… Ele quebrou seu nariz… Ele deu murros em você, mãe. Eu vi… Vi… Vi, um dia… na quarta-feira… ele… ele…  – mal podia falar; tremiam-lhe os lábios, convulsivamente. – Ele… Ele… Eu o vi… – Não pôde concluir a frase.

Carmen acertou-lhe, na cabeça, uma série de cinco socos. Ariadne, que já chorava, convulsivamente, agora, encolhida em posição fetal, no canto da cozinha, espremida entre a geladeira e a parede, a vibrar em espasmos de dor e de medo, chorava copiosamente, mal conseguindo respirar.

– Mentira! Mentira! Mentira! – esgoelava-se Carmen, enfurecida, enquanto esmurrava Ariadne. – Você nunca viu… Vagabunda! Nada aconteceu, filha ingrata! Cadela vagabunda! Seu pai nunca me bateu! Vagabunda! Suma da minha frente, filha ingrata! Seu pai é um homem amoroso! Pare de inventar essas histórias, vagabunda! Cadela! Vagabunda! Cadela! Piranha! Puta! Vagabunda! Você se ofereceu para seu pai, puta! Você o seduziu, vagabunda! Você se entregou para ele, puta! Puta! Você seduziu seu pai. Você se entregou para ele. Cadela! Vagabunda! Puta, suma da minha frente!

Ariadne mal conseguiu pôr-se de pé. Carmen, furiosa, olhos cheios de ódio, ergueu-a pelos cabelos, esbofeteou-a. Ariadne retirou-se da cozinha, cambaleando. Carmen arremessou-lhe um copo, acertando-lho nas costas. O copo estilhaçou-se. Ariadne, cambaleando, aos prantos, a chorar convulsivamente, andou pelo corredor até o seu quarto. Entrou. Fechou a porta, à chave. Deixou-se cair sobre a cama. Chorou, durante as seis horas seguintes, até adormecer. Do quarto retirou-se, com o rosto inchado, os olhos avermelhados, os cabelos despenteados, trajando camisa e calça amarfanhadas, ao amanhecer. Andou, sem rumo, pela cidade. Regressou, esfomeada, exausta, imunda, noite alta, entrou no quarto, trancou-o à chave, jogou-se na cama, e dormiu.

*

No seu quarto, sentada na cama, livro e caderno sobre as pernas cruzadas, um lápis na mão direita, Ariadne estudava para a prova de Matemática, marcada para o dia seguinte. Fazia alguns cálculos, recorria às explicações do livro, mordia a ponta do lápis, concentrada, de cenho franzido, nas questões propostas pela professora.

A porta abriu-se, de repente, com um golpe violento. Ariadne, assustada, os olhos esbugalhados, voltou-se para a porta, em cujo enquadramento viu, para o seu horror, Clodoaldo, que a fitava, bufando, ameaçador. Ondas de calafrio percorreram o corpo de Ariadne, que sentiu o sangue se lhe fugindo. Ariadne largou o lápis, encostou-se à cabeceira da cama, abraçou as pernas, enfiou a cabeça no espaço entre elas, e começou a gemer, a soluçar, a chorar, antecipando os eventos subseqüentes. Tremia, apavorada. Sabia o que lhe sucederia. Clodoaldo fechou a porta atrás de si, à chave, mirando Ariadne com olhos encolerizados, fisionomia carregada; andou até ela, e, num tom áspero, ameaçador, rilhando os dentes, disse-lhe:

– Cabacinha, você contou para sua mãe…

Ariadne tremia, balbuciava qualquer coisa, amedrontada.

– Cabacinha, você contou para sua mãe… – disse Clodoaldo, que se curvou sobre Ariadne, puxou-lhe, pelos cabelos, a cabeça. Dos olhos de Ariadne escorriam lágrimas copiosas, e seus lábios tremiam convulsivamente. – Não chore, queridinha do papai. Papai avisou você, fofinha, não avisou? Papai disse para você, vadiazinha, não contar para sua mãe, não disse? Papai está triste com a filhinha queridinha. Filhinha cabacinha é desobediente. Filhinha queridinha merece castigo. – Enquanto dizia-lhe isso, desabotoava-lhe a camisa. Ariadne estava paralisada pelo terror-pânico que a avassalava. Assim que, animada por alguma força oculta, principiou um grito, Clodoaldo, furioso, deu-lhe um soco na face esquerda, com tanta força, que Ariadne caiu, desacordada, o nariz a jorrar sangue. Clodoaldo, rilhando os dentes, resmungando maldições e obscenidades, rasgou-lhe as roupas, deitou-se sobre ela, e a estuprou. Após se satisfazer, não removeu o sangue que manchava os lençóis e o que enfeava Ariadne, abandonada, lá, como uma boneca imunda.

*

– Você… – gritou Carmen, com toda a força dos pulmões – … a Ariadne?

– Não – respondeu Clodoaldo, áspero. – Por quem você me toma? Sou um homem amoroso. Por que me pergunta se estuprei a Ariadne? Sou um homem amoroso, vadia.

Clodoaldo, fora de si, enraivecido, avançou para cima de Carmen, deu-lhe um forte tapa na face esquerda. Carmen caiu no chão. Não teve tempo nem de pensar em se levantar, pois Clodoaldo pulou sobre ela, surrou-a, rasgou-lhe as roupas, a pôs de bruços, e a sodomizou.

*

A casa estava imunda. Havia meses ninguém a varria, ninguém removia o pó que cobria os móveis e nem as teias de aranhas que se acumulavam em todo canto.

As aranhas criaram várias colônias, com dezenas de indivíduos em cada uma delas, em toda a casa. No chão, havia sujeiras de rato em todo lugar.

Insuportável o cheiro que empesteava a casa.

Eugênio, irmão de Ariadne, definhava a olhos vistos. Sofria nas mãos de sua mãe e nas de seu pai. Eles o surravam com freqüência, duas, três, quatro, cinco vezes ao dia. O seu corpo franzino não suportaria por muito tempo as surras que lhe eram aplicadas. Estava esquelético, cadavérico. O seu olhar, desprovido de vida. Vivia emudecido pelos cantos. Conversava e brincava com os ratos – os seus únicos amigos -, que lhe comiam nas mãos migalhas de pão, pequenos insetos mortos, legumes e verduras podres.

Ariadne não era mais aquela moça prendada que apreciava limpar a casa e conservá-la limpa para apresentá-la aos amigos. Vestia-se com desleixo. Não se aplicava nos estudos, como antes. Nas provas bimestrais, em Matemática, tirou 3,5; em Biologia, 2; em Língua Portuguesa, 1,5; Em História, 1; em Geografia, 1,5. A sua freqüência escolar, que era de 100% das aulas, despencou para 10%. Não se interessava, nem pelos estudos, nem pelos amigos – dos quais se afastou -, e não pensava mais na sua carreira, com a qual sonhava desde tenra infância. Perdeu a vontade de viver. Eugênio, três anos mais novo do que ela, tão estragado pelos castigos e pelos sofrimentos que seu pai e sua mãe infligiam-lhe, que aparentava oitenta anos mal vividos.

Ariadne não conversava com seu pai e nem com sua mãe – para eles nem olhava. Evitava-os. Provocava-lhe calafrios a  figura de seu pai; quando ele lhe descia o olhar, Ariadne tremia, incontrolavelmente, mesmo que não olhasse para ele. Era como se a sua pele queimasse, atingida pelas labaredas infernais que os olhos de Clodoaldo disparavam.

Indiferente ao estado deplorável da sua casa, Ariadne dela entrava e saía.

Ariadne abandonou os estudos. Não se interessava pelos livros. Desistiu dos seus sonhos. A oftalmologia era um assunto que não mais lhe despertava o interesse. Estabeleceu relações com ladrões, assassinos, traficantes de drogas. Envolveu-se com tráfico de drogas, estelionato, assaltos, seqüestros, contrabando de armas e prostituição. Vendia seu corpo para qualquer homem, para sustentar os seus vícios.

*

Eugênio vivia em meio às baratas, às lacraias, aos ratos, aos escorpiões e aos percevejos que infestavam o seu quarto, no qual ninguém, além dele e de Ariadne, entrava.

À noite de um sábado, após participar de um assalto a banco, consumir maconha, cocaína e crack, embebedar-se e protagonizar uma orgia sexual durante a qual estabeleceu o intercurso sexual com quatro homens, deles realizando todas as fantasias, Ariadne, vergando um vestido amarelo manchado de sangue, sêmen, bebidas, e salpicado de pós, entorpecida, andou, entrançando as pernas, tateando as paredes, pela casa, até o quarto de Eugênio, enquanto Eugênio dormia, abriu a porta, e entrou. Não se incomodou com as criaturas asquerosas que infestavam o quarto – já havia se familiarizado com elas. Aproximou-se da cama imunda em que Eugênio dormia profundamente, tendo ao lado duas ratazanas repulsivas e sobre o corpo aranhas grotescas e escorpiões, que se digladiavam.

– Eugênio – sussurrou Ariadne, curvada ao lado da cama, os joelhos pousados no chão.

Fitaram-na as ratazanas, as aranhas e os escorpiões.

Ariadne tocou Eugênio no ombro direito. Ele não acordou. Não se notava a sua respiração. A sua aparência, a de um cadáver. Eugênio exalava odor mefítico.

– Eugênio – disse Ariadne, ao mesmo tempo que o tocava no ombro.

Eugênio despertou, e voltou-se para Ariadne, que, antes que ele pronunciasse qualquer palavra, colou seus lábios carnudos, sensuais, nos lábios dele, frios e descoloridos.

Retiraram-se da cama, escalaram a parede e acomodaram-se no teto, ao canto, as aranhas e os escorpiões.

Recolheram-se ao guarda-roupas as ratazanas.

*

– Vagabunda! Ariadne, você é uma vadia! Pervertida! – ofendeu-a Carmen, e desferiu-lhe dois tapas. Ariadne não reagiu. – Puta! Puta! Suma da minha casa, vadia. Bandida! Puta!

Duas ratazanas, exibindo dentes afiados, entraram na cozinha imunda e correram na direção de Carmen, que, ao vê-las, assustou-se, e pulou sobre uma cadeira. Ariadne exibiu, num contido sorriso de satisfação, seus lindos dentes brancos. Uma ratazana, a maior delas, deu um salto sobre a cadeira em que Carmen estava, avançou à perna de Carmen, e mordeu-a. Do ponto atingido escoou sangue em profusão. A outra ratazana, no chão, olhava, detidamente, para Carmen, sem dela tirar os olhos.

Assustada, a berrar, enlouquecida, Carmen deu um pulo, caiu sobre a cadeira, desequilibrou-se, e estatelou-se no chão. A ratazana que estava no chão pulou no rosto dela, e mordeu-o na comissura direita dos lábios. Sangue escapou do ferimento.

Ao ouvirem um agudo e quase inaudível assobio, as ratazanas afastaram-se de Carmen, e retiraram-se da cozinha. Era Eugênio, que, do seu quarto, as chamava. O olhar aterrorizado de Carmen encontrou-se com o de satisfação de Ariadne, que girou nos calcanhares, e foi para o quarto de Eugênio, no qual entrou, e trancou a porta à chave.

*

Às quatro horas da tarde de um sábado, Ariadne entrou na sua casa. Não se incomodou com a imundície. Sua mãe estava na cozinha. Entreolharam-se. Carmen leu, nos olhos de Ariadne, desprezo e superioridade. Ariadne passou por ela, e foi ao quarto de Eugênio. Entrou. Trancou a porta à chave. Retirou-se do quarto, no domingo, às nove horas da manhã, trajando um vestido que lhe realçava a formosura do corpo.

*

Enormes aranhas peludas andavam pelas paredes e pelo teto da casa. Ninguém as incomodava. Havia muito lixo acumulado no quintal onde o mato e as ervas daninhas dominavam. Havia centenas de colônias de escorpiões, ratazanas, aranhas e lacraias no quintal e dentro da casa.

Clodoaldo, embriagado, chegou em casa. A sua fisionomia, de dar arrepios. Engrolava as palavras. Resmungava, ciciando, palavras impronunciáveis, obscenidades e vitupérios. Empesteou a casa com o miasma que exalava. Na cozinha, sentou-se à mesa, e segurou a cabeça com as mãos, os cotovelos fincados na mesa. Trinta minutos depois, Ariadne chegou e deteve-se ao batente da porta que dava acesso da sala à cozinha.

Detiveram-se, e fitaram Ariadne e Clodoaldo as aranhas que passeavam pela parede.

– Cabacinha vagabunda! – berrou Clodoaldo. – Cabacinha, você não é minha filha. Vagabunda! Cabacinha, você vai se arrepender! Você não é minha filha, cabacinha! Vou fazer você engolir o seu sangue. Farei picadinho de você, vadia!

Ariadne fitou Clodoaldo com olhar de desprezo, meneou a cabeça, esboçou sorriso escarninho; com andar firme, a coluna ereta, fitando-o, imperiosa, passou por ele e entrou no quarto de Eugênio.

– Aranhas malditas! Aranhas malditas! – berrou Clodoaldo, num tom enraivecido; de sua boca escorria saliva tinta de sangue. Cuspiu sobre uma aranha, que correu, e saltou para a parede, deixando atrás de si um rastro gosmento. Uma aranha seguiu-a. E ambas desapareceram atrás da geladeira.

Clodoaldo tirou do pé direito o sapato, e jogou-o contra uma aranha, que o fitava, esmagando-a na parede. A aranha caiu no chão, em contorções espasmódicas. Clodoaldo, ao levantar-se, empurrou a cadeira para trás, derrubando-a. Furioso, agarrou-a por duas pernas, e quebrou-a contra a parede. Empunhando as duas pernas da cadeira, mirou uma aranha que andava na porta da geladeira. A aranha esquivou-se dos golpes. Do nariz de Clodoaldo escorria sangue apretejado da consistência de manteiga. Quatro aranhas pularam sobre Clodoaldo, e morderam-no, no rosto, no braço esquerdo, no pescoço, e na cabeça, próximo da orelha direita. Clodoaldo caiu, escabujando. Soltou sangue pela boca, pelas narinas, pelas orelhas e pelos olhos. Pousou as mãos sobre o peito esquerdo, apertando-o num esforço para manter o coração dentro do peito. Seu corpo assumiu consistência rochosa. Carmen ouviu os gritos abafados de Clodoaldo, e correu a acudi-lo; dele afastou as aranhas. Estava transtornada, estupefata. Não acreditava no que via: o seu marido a escabujar, a expelir sangue por todos os orifícios do corpo, a cuspir jorros de sangue apretejado com saliva amarelo-esverdeada, a balbuciar palavras inaudíveis. Debruçou-se sobre ele, e pousou-lhe as mãos no rosto.

– Marido amoroso – sussurrou-lhe, apavorada.

Ariadne e Eugênio, no quarto de Eugênio, fingiam que nada ouviam. Extraíam prazer um do outro. E quanto mais elevados os lamentos de Carmen, mais prazer eles desfrutavam.

Os lamentos de Carmen e os gemidos de Clodoaldo eram afrodisíacos para Ariadne e Eugênio.

*

Clodoaldo ficou dois meses internado no hospital. Extraíram-lhe o veneno que as aranhas lhe haviam inoculado.

– Não entendo – disse o médico. – Não entendo, dona Carmen. As aranhas injetaram no seu marido veneno suficiente para matar vinte homens do tamanho dele. Não entendo. É estranho. O seu marido esteve em vias de partir desta para a melhor. Mas… Não sei o que dizer para a senhora… Confesso: este caso merece mais atenção; não posso explicá-lo. Todos os médicos os quais consultei ficaram, do mesmo modo que eu, estarrecidos; alguns deles, impressionados, embora habituados com fatos inexplicáveis, incrédulos, desconfiados, perguntaram-me se eu lhes pregava uma peça. Na mente deles associaram-se, para atormentá-los, a incredulidade e o fascínio. Não sei se me expresso com as palavras apropriadas. Peço desculpas, dona Carmen, se não me explico com clareza… Bem, dona Carmen, o seu marido convalesce. A senhora poderá levá-lo para casa… A senhora acredita em milagres? Na ausência de explicações… Não entendo… Não há explicações científicas para o caso do seu marido, dona Carmen. É inexplicável. Foi um milagre, posso dizer. Foi um milagre…

Carmen ouviu-o, em silêncio, mas não prestou atenção ao que ele lhe disse, pois olhava para uma minúscula aranha, que, do teto, a fitava, atentamente.

*

Assim que regressou à sua casa imunda infestada de criaturas repulsivas, que passeavam, livremente, pelo chão, pelo teto, pelas paredes, Carmen dirigiu-se ao seu quarto, no qual, embora imundo, nenhuma criatura entrava. Ela sabia que, se não incomodasse Ariadne e Eugênio, nenhum escorpião, nenhuma aranha, nenhuma ratazana, nenhuma lacraia a atacaria. Deitou-se na cama imunda. Exausta, o sono a surpreendeu. Berros ensurdecedores despertaram-na dez minutos depois. Sobressaltada, ouviu as obscenidades cuspidas por um homem. Sonolenta, a mente entorpecida pelo sono bruscamente interrompido, apurou os ouvidos. Chegaram-lhe aos ouvidos a voz cavernosa de um homem e a voz atrevida e provocadora de uma mulher, Ariadne.

O homem, um sujeito de má catadura, facínora, que atendia pela alcunha de Tigre, cuspia obscenidades, e empunhava uma faca cuja extremidade, afiadíssima, encostava à ilharga direita de Ariadne, ferindo-a. Tigre não atentou para a imundície e as criaturas repulsivas que infestavam a casa. Lambeu a orelha direita de Ariadne. Apalpou-lhe a nádega esquerda, apertou-a e nela cravou as grossas unhas sujas. Mordeu-lhe o lóbulo da orelha direita, puxando-o, ao mesmo tempo que lhe passeou, por entre as nádegas, o índex e o médio, e enfiou-lhe, na ilharga, a faca, extraindo-lhe sangue, que lhe escorreu pelo corpo e manchou-lhe o vestido. Ameaçou violentá-la e matá-la.

No seu quarto, Carmen ouvia o que se passava entre Ariadne e Tigre. Percorreram-lhe o corpo ondas de calafrio. A porta do quarto estava entreaberta. Carmen viu Tigre desferir, com o dorso da mão esquerda, um tapa no rosto de Ariadne, e, com as duas mãos e o peso do próprio corpo, empurrá-la sobre o sofá. Apavorada, recolheu-se ao canto do quarto, e conservou-se em completo silêncio.

Tigre esmagou, involuntariamente, dois escorpiões.

Aranhas, escorpiões, lacraias, baratas, ratazanas, acompanharam, atentamente, todos os movimentos de Tigre e Ariadne. Prepararam-se para saltar sobre Tigre, que esbofeteava Ariadne, cuspia-lhe obscenidades e ameaçava matá-la, se ela resistisse. Com Ariadne de costas para si, Tigre mordeu-lhe o pescoço; com a mão esquerda, ergueu-lhe o vestido, e, com a direita, apertou-lhe o peito. Ariadne não reagiu. Havia visto as criaturas repulsivas na sala; sabia que, bastaria um sinal seu, que todas elas saltariam sobre Tigre.

Tigre desafivelou o cinto, desceu o zíper, e abaixou a calça e a cueca.

Ariadne cerrou as pálpebras.

Dez escorpiões saltaram às pernas de Tigre, que se empinou, olhou para baixo, e os viu. Antes que pudesse emitir um grito de pavor, um escorpião cravou-lhe o ferrão no pênis. Tigre afastou-se de Ariadne. Quis gritar. Não conseguiu, tão insuportável lhe era a dor. Brandiu a faca, e soltou-a no chão. Movia-se com gestos bruscos. Soltava saliva gosmenta pela boca escancarada. Urinou sangue. Defecou fezes inconsistentes, que lhe borraram as pernas peludas. Ariadne recompôs-se. Aranhas cobriram-lhe o ferimento, estancando-lhe o sangue. Ratazanas lamberam-lhe o sangue que escorria pelas pernas e o que lhe manchava o vestido. Um escorpião feriu a mão direita de Tigre. Outro saltou-lhe à perna, escalou-a, e forçou-se para dentro do ânus dele. Tigre, imóvel, a boca escancarada, circunvagou os olhos pela sala; viu centenas de escorpiões, aranhas, ratazanas, lacraias e serpentes avançando em sua direção. Ariadne, serena, impassível, deliciava-se com o cenário, lambia os beiços, a desfrutar de prazer inconcebível.

Aranhas atiraram teias sobre Tigre, que se debatia. Escorpiões o escalaram. Ratazanas, lacraias, baratas e serpentes morderam-lhe as pernas. Aranhas pularam sobre Tigre. Serpentes enrodilharam-se-lhe às pernas, e afastaram uma da outra. Tigre perdeu o equilíbrio. Ratazanas atacaram-no e morderam-lhe o rosto, os braços, as pernas, as nádegas, a barriga. Tigre caiu. As criaturas repulsivas cobriram-no e abafaram-lhe os berros. Penetraram-lhe o corpo por todos os orifícios, e começaram a devorar-lhe a língua, os lábios, os olhos, os pés e as mãos.

Ariadne, inexpressiva, assistiu ao horripilante espetáculo.

As criaturas devoraram Tigre, de quem não sobrou nem os ossos, em menos de dez minutos, e retiraram-se da sala.

Escorpiões carregaram o revólver, a faca, a fivela da cinta, os dois anéis de ouro que Tigre trazia no dedo médio da mão direita e a pulseira reluzente até Ariadne, que os pegou, e, duas horas depois, deles se desfez por um bom preço.

Ninguém nunca mais ouviu falar de Tigre. As pessoas que o viram entrando na casa de Ariadne e não o viram de lá se retirar nada disseram a respeito.

*

Carmen perdeu a sanidade. Errava pelas ruas. Esbravejava. Relatava histórias absurdas – muitas delas verdadeiras. Falava da sua casa, de sua filha, de seu filho, do seu marido, dos ratos, escorpiões, baratas e aranhas que infestavam a sua casa. Relatou, com pormenores, o ataque das aranhas a Clodoaldo e a morte de Tigre. As pessoas que a ouviram não lhe deram atenção. Para elas, Carmem era uma louca e tinha de ser internada num hospício. Dela zombavam, ridicularizavam-na; dela espalharam histórias estapafúrdias. Certo dia, Carmen desapareceu, e dela ninguém nunca mais ouviu uma notícia.

*

Clodoaldo regressou à sua casa. Com passos pesados, cenho carregado, foi até a cozinha, onde Ariadne e Eugênio, à mesa, conversavam, animadamente, e deteve-se a dois metros de Ariadne, estupidificado com o que viu: Sobre a mesa, três ratazanas; nas paredes e no teto, escorpiões e aranhas a caminhar livremente; no chão, centenas de baratas e lacraias; ao colo de Ariadne, uma aranha peluda, e Ariadne a acariciá-la e a osculá-la carinhosamente; ratazanas grotescas nos braços e nos ombros de Eugênio e na sua cabeça cadavérica de olhos projetados para fora das órbitas.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo. Ariadne ignorou-o.

Um escorpião escalou as costas de Ariadne, e subiu-lhe à cabeça. Clodoaldo arregalou os olhos.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, enraivecido, fitando-a com olhos sinistros.

Ariadne não lhe deu atenção; ignorou-o como se não o visse, como se não o ouvisse. Gargalhava. Brincava com as aranhas, que a acariciavam.

Clodoaldo deu dois passos na direção de Ariadne. Puxou-lhe o vestido de tecido fino, que não resistiu ao puxão, e rasgou-se. A aranha que estava nas mãos de Ariadne atirou teia sobre a mão direita de Clodoaldo. As ratazanas que brincavam com Eugênio e o escorpião que se encontrava sobre a cabeça de Ariadne encararam Clodoaldo. Eugênio rilhou os dentes e, com seus olhos sinistros, fitou Clodoaldo, que não lhe deu atenção.

– Você é surda, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, aos berros, para Ariadne. – Cabacinha, perguntei onde está sua mãe – e puxou-lhe o vestido. Ariadne levantou-se, altiva. Clodoaldo puxou-lhe, novamente, o vestido, desnudando-a, e agarrou-a pelo pescoço, com a mão direita, enquanto apertava-lhe, com a mão esquerda, o peito esquerdo. – Você não quer me contar, cabacinha vadia, onde está sua mãe? Vagabunda, você não quer me contar onde está sua mãe? Então, vou arrancar as suas entranhas – e empurrou-a sobre a mesa, e debruçou-se sobre ela. De seus olhos chispavam labaredas de ódio; de sua boca escapavam perdigotos, que queimavam o corpo de Ariadne, ao atingi-lo. Clodoaldo assemelhava-se a mitológicos monstros flamívomos que aterrorizavam os povos antigos.

Milhares de escorpiões, aranhas, baratas, lacraias e ratazanas pularam sobre Clodoaldo, o cobriram, e, antes de ele esboçar um protesto, o devoraram.

*

Ariadne e Eugênio viviam com os escorpiões, as aranhas, as lacraias, as ratazanas e as baratas.

Na casa imperava a imundície.

*

No teto do quarto de Ariadne, ao canto, uma imensa bola de teia de aranha. No chão da cozinha, um enorme ninho de rato.

Numa noite de frio rigoroso, Ariadne rompeu o envoltório de teia e, nua, desceu do teto para o chão.

Na cozinha, Eugênio despertou e, nu, saiu, guinchando, do ninho.

Ariadne foi até Eugênio, envolveu-o com uma bola de teia e, com voracidade, o devorou.

De Eugênio não sobrou nem uma gota de sangue.

 

Os nomes

O enlace matrimonial se deu na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso, na manhã de um domingo radiante, que antecipava um dia ensolarado, que louvava a união de Renato e Célia, ele, na idade de vinte e dois anos, ela, de vinte e dois anos de idade, ele, natural de São José dos Campos, ela, de Taubaté, ele, de uma família de palmeirenses, ela, de uma família de corinthianos, ele, canhoto, ela, destra, ele, branco, ela, negra, ele, de inteligência curta e escassa leitura, ela, de inteligência igualmente curta e equivalente escassez de leitura. Amavam-se Renato e Célia. Conheceram-se, no carnaval, dois anos antes. Foi amor à primeira vista. Foi atração à primeira vista. Ele, forte, espadaúdo, de queixo quadrado, tórax amplo e bíceps de pedra, atraiu a atenção dela. Ela, de corpo escultural, de esplendorosa comissão de frente e deslumbrante bateria, atraiu os olhares dele. Travaram conhecimento um do outro. E encerrou-se no altar o relacionamento que principiou com o desejo carnal. Amavam-se. O semblante deles, na Igreja, durante a cerimônia matrimonial, de felicidade contagiante. Nos dois anos de namoro, tiveram as suas escaramuças, e atravessaram os sete círculos do inferno. Singraram todo o espaço, extenso e tortuoso, que levava ao céu. E no céu estavam naquele domingo alvissareiro.

Transcorreram-se os dias.

No consultório médico, souberam Renato e Célia que seriam pais de trigêmeos. Sorriram, consigo, extraordinariamente felizes. Trigêmeos! Trigêmeos! Eram os primeiros trigêmeos da família. Paulo, tio de Renato, e sua esposa, Marcela, são pais dos gêmeos Vicente e Mateus. José Carlos, irmão de Célia, e sua esposa, Rafaela, são pais das gêmeas Valéria e Larissa. João e Adriana, vizinhos de Renato e Célia, são pais de Cláudio e Cláudia. Há gêmeos na família; trigêmeos não há. Haverá. Nasceriam os três meninos dali quatro meses, fortes, robustos, belos, formosos, de nariz igual ao da mãe e focinho igual ao do pai.

Nos dias seguintes, sorridentes, Renato e Célia deram a notícia para os familiares e para os amigos. Não se continham. Renato seria pai de trigêmeos! Célia seria mãe de trigêmeos. Trigêmeos! Trigêmeos! Antecipavam as alegrias e as preocupações, as noites que passariam em branco, os choros; e viam os trigêmeos dez anos no futuro, meninos buliçosos, traquinas, espevitados, e os imaginavam na idade de vinte anos, fortes, altos, audazes, e em pensamento viajando através do tempo, via-os aos quarenta anos, de escassos cabelos brancos e pretos, casados, e pai, ou de três filhos, ou de dois, ou de quatro. Já se imaginavam avós. E perguntavam-se que nomes dariam aos meninos. Eram três meninos. Teriam de escolher um nome para cada um deles. Precisariam de três nomes. Quais seriam os nomes? Na casa dos pais de Célia, reunidos os familiares em festa, em certo momento, falando de nomes para as crianças, e ninguém se negou a fornecer as suas sugestões, Lidiane, prima de Célia, propôs:

– Três nomes com finais iguais.

– Não entendi – disse Célia, e os olhares de todos indicavam que ninguém entendera o que dissera Lidiane, que tratou de explicar:

– Escolher para os três meninos nomes cujas últimas sílabas sejam as mesmas. Sugestões: Roberto, Norberto e Heriberto.

– Cruz-credo! – exclamou Célia. – Que nomes horríveis!

– Horríveis? – perguntou o pai de Célia. – Horríveis, filha? Você esqueceu-se do meu nome? Meu nome é horrível, é?

Todos riram; todos gargalharam.

– Não, pai. Norberto é um nome horrível. Heriberto é um nome horrível. O seu, não. O seu é o mais bonito dos nomes.

– Filha. Filha – disse Roberto, em tom de censura amigável. – Você esqueceu-se do nome de seu avô, meu pai?

E todos, mais uma vez, gargalharam.

– A emenda saiu pior do que o soneto, filha – comentou Margarida, mãe de Célia. – Seu pai, Roberto; seu avô, pai de seu pai, Norberto; seu bisavô, pai de minha mãe, Heriberto.

De tão estrondosas e ensurdecedoras as gargalhadas que se seguiram, que a estrutura da casa tremeu.

E sugeriram outros nomes.

Eis as sugestões de Marcos, irmão de Renato:

– Juvenal, Lourival e Durval.

Gargalharam todos.

– Que nomes horríveis! – foi unânime a rejeição.

– E não combinam – observou Lidiane. – “Nal” de Juvenal não combina com “val” de Lourival e Durval.

E Laura, prima de Renato, sugeriu:

– Bartolomeu, Romeu e Tadeu.

– Não combinam – observou Célia. – A última sílaba de Tadeu é ‘deu’, e não ‘meu’ como a de Bartolomeu e de Romeu. Além disso, os três nomes são feios.

– Feios? – perguntou, indignada, Madalena, tia de Renato. – Tadeu é o nome de meu pai, que é avô, portanto, de Renato, seu marido.

E todos gargalharam.

– Pense antes de falar, Célia – aconselhou-a Renato.

– Então – sugeriu Márcia, tia de Renato -, que seja Irineu.

– A última sílaba de Irineu é ‘neu’ – observou Roberto.

– É verdade – comentou Márcia, censurando-se.

– Que sejam os seus filhos – sugeriu Roberto – batizados com nomes da terra de meus ancestrais: Albertino, Severino e Balduíno.

E uma onda de gargalhadas arrasou a casa, como um tsunami.

– E não ria, filha – censurou-a Roberto. – E não diga que tais nomes são feios. Um de meus tataravôs chamava-se Albertino, e um outro, Balduíno, e um outro, Severino.

E seguiram-se as gargalhadas.

– Josias e Jeremias! – exclamou Pedro, ou Pedrinho, irmão caçula de Renato. – Na minha escola, são meus amigos o Josias e o Jeremias.

– Jeremias e Josias são dois nomes – observou Célia. – Tem de ser três nomes.

– Escolhe estes dois – sugeriu Pedro. – O terceiro nome o acharemos em outro dia.

Riram à solução do menino.

– Tobias pode completar o trio – disse Roberto.

Célia e Renato não gostaram dos nomes.

– Tenho uma proposta – disse Neusa, vizinha. – Adriano, Mariano, Fabiano e Feliciano.

– Quatro nomes – observou Madalena. – Precisam Renato e Célia de três nomes, e não de quatro.

– Faltou um nome para o Pedrinho – comentou Roberto – e sobrou um nome para a Neusa. Vocês nunca estudaram aritmética?

E todos riram. E todos gargalharam.

– Que tal João, Carlão e Tonhão? – sugeriu Roberto.

E riram. E gargalharam.

E encerradas as gargalhadas, seguiram-se outras sugestões.

– Adroaldo, Osvaldo e Ricardo – sugeriu Vinicius, irmão de Célia.

– O quê? – perguntou Maristela, prima de Renato. – Não combinam.

– A última sílaba dos três nomes é ‘do’ – defendeu a sua sugestão Vinicius.

– Mas não combinam – replicou Maristela. – ‘aldo’ de Adroaldo, ‘aldo’ de Osvaldo, e ‘ardo’ de Ricardo…

– Essa ardeu em meus ouvidos – interrompeu-a Roberto.

– Então – disse Vinicius -, que sejam Adroaldo, Osvaldo e Ariovaldo.

– Ou Geraldo, Rivaldo e Nivaldo – sugeriu Cecília, irmã de Célia.

– Já sei – clamou Pedro, chamando a atenção de todos para si. – Já sei os nomes dos meus primos.

– Dos seus primos, não – corrigiu-o Renato. – Dos seus sobrinhos.

– Você será tio deles, Pedrinho – informou-o Roberto.

– Já sei qual será os nomes deles: José, Josué e André.

– São diferentes… – principiou Célia, e interrompeu-a Pedro:

– Todos os nomes terminam com ‘é’.

– Sim – concordou Mário, primo de Renato, para, em seguida, completar: – Mas a última sílaba de cada nome é diferente umas das outras: ‘zé’, ‘é’ e ‘dré’.

– Conheço vários nomes com a mesma última sílaba – disse Ricardo, primo de Renato, até então em silêncio. – São… – e fez ar de quem contava, em pensamento. – São dez nomes: Denílson, Edson, Edmilson, Adilson, Gerson, Gilson, Jackson, Jéferson, Nilson e Nelson.

E discutiram qual era o melhor trio:

– Gostei de Gilson, Denílson e Nilson – disse Roberto.

– Eu, de Nelson, Jéferson e Edmilson – disse Vinicius.

– Prefiro Adilson, Jackson e Edson – disse Renato.

– Adilson, Gerson e Jéferson são mais bonitos – disse Madalena.

E apresentaram dezenas de outros trios, até que Ricardo apresentou uma lista com sete nomes: Daniel, Rafael, Manoel, Gabriel, Miguel, Israel e Natanael, e acalorou-se o debate.

Quais seriam os nomes dos trigêmeos de Renato e Célia? Daniel, Miguel e Israel? Denílson, Gerson e Nelson? Albertino, Severino e Balduíno? Juvenal, Lourival e Durval? Adroaldo, Osvaldo e Rivaldo? Rafael, Manoel e Natanael? Gilson, Nilson e Adilson? Fabiano, Mariano e Feliciano? Jéferson, Jackson e Edson? Nivaldo, Geraldo e Ariovaldo? Eram tantas as opções, que discutiram durante uma hora, até que, enfim, Renato e Célia optaram pelos nomes que mais os agradavam: Daniel, Rafael e Gabriel. E esses os nomes que os três meninos receberam à pia batismal.

Decorridos dois anos e quatro meses dos eventos até aqui narrados, Renato e Célia, ela em nova gestação, receberam, no consultório médico, a notícia, que os surpreendeu enormemente: Célia está grávida de trigêmeas.

– E dizem que dois raios não caem no mesmo lugar! – sentenciou Roberto, ao receber a notícia.

E reuniu-se a família.

E selecionaram os nomes para as meninas.

E as três meninas teriam nomes com a mesma última sílaba.

Apresentaram dezenas de sugestões, e Célia por nenhuma delas se decidiu, por uma razão: Queria que uma das meninas se chamasse Beatriz, em homenagem à avó de Célia, a sua madrinha de batismo, falecida havia cinco anos. E ninguém conhecia outro nome de mulher com última sílaba em ‘triz’.

– Renato – disse Célia, no dia seguinte -, ninguém, na casa de meus pais, soube dizer outro nome, além de Beatriz, com última sílaba em ‘triz’. Vamos consultar o pai dos burros à procura de nomes que nos agradem.

E mãos à obra… no dia seguinte.

No transcurso dos dias, compulsaram Renato e Célia vários tomos de repositórios do idioma vernáculo. Alguns pesavam toneladas.

– Este pai dos burros – comentou Renato enquanto folheava um tomo de quase duas mil páginas impresso em 1940 – está velho e obeso. Deus me livre! Que peso!

– Este pai dos burros – comentou Célia, certo dia, na Biblioteca Municipal, tendo à mão um fino Pequeno Dicionário Escolar da Língua Portuguesa de não mais do que cem páginas – está tão magrinho, coitado! Desnutrido, o bendito!

– Este pai dos burros – disse Renato, em outra ocasião, um minidicionário à mão – é tão nanico, tão nanico, que, se tentar escalar um pé de alface, dele não chegará à metade.

– Este pai dos burros – comentou Célia, avaliando um dicionário de bolso – está esbelto. É um pouco baixo, mas de bom tamanho.

E sucederam-se os dias.

E encontraram Renato e Célia os dois nomes que rimavam com Beatriz.

E nasceram as trigêmeas.

E Renato e Célia, no Cartório de Registro Civil, registraram os nomes de suas filhas: Beatriz, Diretriz e Meretriz.

A travessia

Era uma segunda-feira do mês de fevereiro. E na loja de materiais de construções Moreira & Moreira, José Luiz desincumbiu-se das suas tarefas não sem dificuldades; para o exercício de algumas delas não pôde dispensar o auxílio de outros funcionários.

Não foi um dia de trabalho muito proveitoso. O proprietário da loja, Roberto Moreira, nervoso – raros, nele, o nervosismo e, dizia José Luiz, a brabeza -, distribuiu broncas para todos os funcionários. Muitos dentre eles desejavam que ele os esquecesse, ou que deles não se lembrasse, mas ele conhecia-os todos, chamava-os pelos nomes, e sabia qual era a função de cada um deles. Os funcionários perguntavam-se a razão do nervosismo, da braveza, da rudeza no trato, da sequidão da voz, que não admitia réplicas, do olhar compenetrado, da fisionomia carregada, rígida, pétrea, de Roberto Moreira. Aventaram inúmeras hipóteses; algumas, sérias; outras, jocosas; raras as maledicentes – estas as aventaram os desafetos de Roberto Moreira, os que o detestavam. José Luiz, que conhecia Marcelo, um dos filhos de Roberto Moreira, soubera, contou-lhe Marcelo, que, no domingo, Cláudia, tia dele, irmã de Roberto, fora atropelada, e essa seria, estava certo, declarou José Luiz, a razão da brabeza do chefe, como a Roberto Moreira referiam-se os funcionários da Moreira & Moreira. Discordou Amauri, que, conhecedor da história do atropelamento de Cláudia, disse que ela passava bem, dissera-lhe Vinicius, marido dela. A razão da postura taciturna e carrancuda de Roberto Moreira e da sua rudeza no trato devia-se, portanto, a outro motivo, que não o aventado por José Luiz.

O trabalho, desgastante. Foi um dia incomum. José Luiz não se recordava de, em outro dia, desde que começou a trabalhar naquela loja, um ano e sete meses antes, haver tantos clientes a comprar materiais de construções. Desdobrou-se para executar todas as tarefas para as quais o encarregavam. Desgastou-se de manhã, durante quatro horas ininterruptas de trabalho, sob sol inclemente – atenuou o desgaste com um copo de água a cada hora. No momento em que cessou o seu trabalho, para almoçar de uma marmita e de um copo de refrigerante que a loja forneceu-lhe, suava, em bicas, a camisa encharcada de suor. Ele dela despiu-se, e abandonou-a sobre os tijolos, para secá-la. A marmita continha uma boa porção de arroz e feijão, bife e batatas, verduras e legumes. Era um almoço reforçado. Encerrado o almoço, José Luiz deitou-se sob um caminhão, e puxou uma palha durante vinte minutos – a soneca foi-lhe salutar. Levantou-se. À pia próxima do monte de areia lavou o rosto, para despertar de vez; vestiu a camisa, e tornou ao batente.

No período da tarde, o trabalho foi mais estafante do que no período da manhã. O sol exauriu-lhe as forças. Se José Luiz não fosse dotado de vontade férrea, músculos resistentes e organismo apropriado para as tarefas que lhe exigia Roberto Moreira, sucumbiria ao esforço. Desempenhava as suas incumbências com desenvoltura; ao final de um dia de expediente a carregar tijolos, vigas, telhas, areia, pedras, sem cessar, ia para a sua casa, banhava-se, degustava de alguns minutos na companhia de Camila, sua esposa, grávida de seis meses, e Paulo Renato, seu filho, menino de dois anos, que, diziam os familiares e os amigos, tinha a cara da mãe e o focinho do pai; e antes das dezenove horas, rumava para a Escola Técnica Nikola Tesla, para assistir às aulas do curso de eletroeletrônica; e regressava à sua casa as onze horas e trinta minutos da noite. E acordava, na manhã seguinte, as cinco horas.

Naquela segunda-feira de fevereiro, José Luiz desgastou-se além do habitual, e, uma hora antes de encerrado o expediente, acreditava, não conseguiria prosseguir com o trabalho até dali uma hora, ao crepúsculo, às dezoito horas, mas agüentou o tranco, disse, assim que se retirou da loja, exausto, mas em pé, e disposto a enfrentar quatro horas de aula, na Escola Técnica Nikola Tesla. Despediu-se dos seus colegas de trabalho. Na companhia de Gustavo, o Gordo, de Maurício, o Pernambuco, de Nelson, o Lagarto, e de Daniel, o Dejota, foi até o cruzamento das ruas José de Anchieta e Dom João VI, onde deles despediu-se, e seguiu, só, rumo à sua casa, distante da loja três quilômetros. Intensificava-se o trânsito. Veículos iam e veículos vinham, rápidos, apressados os motoristas, ou José Luiz tinha a sensação de que todos eles estavam apressados, e também os ciclistas, e os pedestres, menos ele, que seguia no ritmo habitual. E um caminhão a descarregar fumaça apretejada obrigou José Luiz a tampar o nariz com os dedos indicador e polegar da mão esquerda, prender a respiração, cerrar as pálpebras, e mover a cabeça para o lado oposto ao pelo qual passou o caminhão. Em pensamento praguejou José Luiz, e desacelerou os passos. Segundos depois, recomposto, retomou o seu passo na velocidade que lhe era habitual, para, logo em seguida, cobrir os olhos com a mão esquerda em pala, protegendo-os do reflexo dos raios solares, que lhos feriam, no vidro posterior de um carro estacionado poucos metros à sua frente. Ao passar pelo carro, abaixou o braço. Contornou a esquina à direita, e seguiu por cem metros; deteve-se em frente da casa lotérica, e preparou-se, sobre a calçada, parado, a olhar de um lado para o outro, aguardando os carros passarem, para atravessar a rua. Era a hora do rush. Passou um carro. E outro carro. E uma caminhonete. E outro carro. E uma moto. E outra moto. E um caminhão. E um carro. E outro carro. Todos iam no sentido bairro-centro – enquanto, na pista contrária nenhum veículo passava. Assim que viu que na faixa sentido bairro-centro apenas um veículo, um carro, aproximava-se, José Luiz pôs o pé esquerdo na rua, e logo da rua o retirou assim que viu uma fileira de carros se lhe aproximando no sentido centro-bairro, em velocidade considerável – setenta quilômetros por hora, mensurou José Luiz. Um carro passou por ele. Vermelho. E outro carro passou por ele. Prateado. E outro carro prateado. E outro carro prateado. E passou por ele uma caminhonete. E outra caminhonete. E três motos – a primeira, preta; a segunda, azul; e verde, a terceira. E outro carro. Alaranjado. E aproximaram-se dele duas motos, ambas pretas, e atrás delas nenhum veículo. José Luiz desceu o pé esquerdo na rua, e olhou para à sua esquerda, para a faixa sentido bairro-centro, e viu próximo de si, e deslocando-se rapidamente, uma fileira de veículos, e recuou o pé esquerdo, e afastou-se do paralelepípedo à aproximação de um caminhão branco, imenso, que, pareceu-lhe, iria engoli-lo. O caminhão passou por ele, e seguiam-no, como que atraídos pela sua força gravitacional, dezenas de veículos, entre carros e motos. E agora as duas faixas da rua estavam tomadas por veículos. E José Luiz resmungou, e esbravejou, discretamente. Pressionou as mandíbulas uma contra a outra, e cerrou o punho esquerdo, dobrando o cotovelo, como que ameaçando esmurrar alguém, e executou gestos involuntários que dele revelavam a irritação. Olhou de um lado para o outro. E viu carros e mais carros, caminhões e mais caminhões. E ônibus. E caminhonetes, e mais caminhonetes. E motos, muitas motos. E um tanque-de-guerra, que rumava, acreditava José Luiz, do Batalhão Borba Gato para o Batalhão de Engenharia e Combate. E a terra tremeu-lhe sob os pés à passagem do encouraçado, um rinoceronte de metal, como aos tanques-de-guerra referiam-se José Luiz e os soldados que com ele conviveram durante um ano de serviço militar – conquanto a conscrição fosse obrigatória, José Luis e muitos outros recrutas alistaram-se por vontade própria, no desejo, sincero, de prestar uma contribuição ao Brasil, e sacrificar-se pelo país, se necessário.

Há mais de cinco minutos parado na calçada, José Luiz, preparado para atravessar a rua, sempre que nela punha um pé, certo de que poderia atravessá-la, veículos aproximavam-se dele, em alta velocidade, e até bicicletas, de todas as direções, impedindo-o de atravessá-la, irritando-o. Cerrava os punhos, tensionava todos os músculos do corpo, abria os braços num gesto de impaciência. Em certo momento, os veículos como que havendo desaparecidos por encanto, preparou-se José Luiz para atravessar a rua; desceu o pé esquerdo na rua; e ao pôr, nela, o pé direito, ouviu uma buzina, e recuou. Era a buzina de uma cadeira-de-rodas motorizada. Pilotava-a Tião Pé-de-Cabra, encastelado no assento de couro, e um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça achatada, e cujas sobrancelhas – de coruja, diziam – de tão espessas podiam ser entrevistas a um quilômetro de distância.

– Tarde, seu menino – Tião Pé-de-Cabra saudou José Luiz. – Mande um abraço meu para o senhor vosso pai, o velho Moreno, e acenda uma vela pela alma de vosso avô, o velho Marcondes – e seguiu o seu caminho, sem se deter.

José Luiz acenou-lhe, e prometeu-lhe dar o recado para o destinatário dele e acender a vela.

E sorriu José Luiz, atenuada a sua irritação, e relaxados seus músculos. E abanou a cabeça. E olhou de um lado para o outro. Carros, motos, caminhonetes, caminhões e ônibus passavam, em ambos os sentidos da rua. Mordeu José Luiz a língua, para não amaldiçoar Tião Pé-de-Cabra.

José Luiz, pouco tempo depois, certo de que nenhum carro aproximava-se de si, olhou para a direita, e, ao pôr o pé esquerdo na rua, viu, para a sua surpresa, um carro, em alta velocidade, indo em sua direção, e recuou, para a calçada, abrindo os braços, as mãos espalmadas, e as bateu nas coxas, com força, ao mesmo tempo que proferiu uma obscenidade. Contrariado, esperou o carro passar, após o qual passaram duas motos e um ônibus. Quando da sua direita nenhum carro ia em sua direção, olhou para a esquerda, pôs um dos pés na rua, preparou-se para atravessá-la, e recuou ao ver um carro a aproximar-se de si.

Impacientava-se José Luiz. Levantava os braços, irritado, todas as vezes que lhe frustravam a tentativa de atravessar a rua. Irritava-se. Executava movimentos bruscos com os braços, e, as mãos espalmadas, batia-as, enraivecido, nas coxas. E evocava a figura inconfundível de Tião Pé-de-Cabra e a sua cadeira-de-rodas, e o amaldiçoava. Antes não tivesse recuado à calçada quando ele buzinou. Parecia-lhe a ele, José Luiz, que, transcorrendo o tempo, mais difícil tornava-se atravessar a rua. Da direita e da esquerda iam os veículos, dezenas deles. Não havia intervalo de tempo entre dois veículos que lhe permitisse atravessar a rua. José Luiz punha um pé, ou os dois pés, na rua, certo de que poderia atravessá-la, e recuava, logo em seguida, ao ouvir o soar de uma buzina, ou um grito, e tornava à calçada, irritado, contrariado.

E passavam-se os minutos. E José Luiz consultava o relógio no mostrador do telefone celular. E praguejava. Se não atravessasse, e logo, a rua, se atrasaria para as aulas do curso de eletroeletrônica.

Sob o sol, que já ia se pondo, José Luiz viu, há cinquenta metros de distância, na mesma calçada, da sua direita, indo em sua direção, um homem, que – José Luiz concluiu ao atentar para os gestos e os passos dele, vacilantes – estava bêbado. O homem, tipo acaboclado, baixo, troncudo, barrigudo, as pálpebras semi-cerradas, de roupas amarfanhadas, imundas, cabelos desgrenhados, barba por fazer, olhos avermelhados, fundos, órbitas dos olhos apretejadas, pés embrulhados em sapatos surrados – o esquerdo com uma falha que lhe deixava expostos três dedos -, a coçar, incessantemente, a cabeça, andava trançando as pernas e arrastando-se pelas paredes, e ora detinha-se, perdido, a olhar de um lado para o outro, e para o céu, e para o chão à sua frente, e quase ia ao chão; para surpresa de todas as pessoas que assistiam a espetáculo tão deplorável, antecipando, em pensamento, a queda do ébrio, e preparando a gargalhada, que explodiria tão logo ele desse com o nariz no chão, ele não caia, indo contra todas as leis da natureza; conservou-se ele, contra todos os prognósticos, em pé, tão firme quanto um prego fincado na areia – incrédulos, os curiosos não acreditavam que ele conseguia em pé manter-se por muito tempo. E ele não caia, para frustração daqueles que o acompanhavam com os olhos. Ele perdia o equilíbrio, mas não caia. Tinha-se a impressão de que ele cairia, mas ele não caía; ora ele encostava-se à parede de alguma casa, para manter-se em pé; ora ele detinha-se, e, não se sabe como, dava um passo, ou para a frente, ou para trás, ou para a direita, ou para a esquerda, e conservava-se em pé. O seu estado, deplorável. José Luiz lamentava-o. O bêbado ia em direção de José Luiz. Resmungou qualquer coisa ao perder o equilíbrio, e bater com a cabeça na parede. No outro lado da rua, dois garotos, ambos de bicicleta, cada um deles em uma bicicleta, gritaram-lhe, provocando-o. Conheciam-no. E ele esbravejou. Proferiu maldições e obscenidades de ruborizar até o diabo. Incompreensível o que ele disse assim que abaixou o tom de voz. Engrolava as palavras. José Luiz dividia a sua atenção entre o trânsito e o bêbado, esperando que ele de si não se aproximasse. José Luiz detestava bêbados. Os bêbados irritavam-no; havia um alcoólatra na sua família, seu tio, Mauro, irmão de seu pai. Mauro, sóbrio, era gentil, amigável, bem-humorado, espirituoso, cativante; ébrio, era indiscreto, inconveniente, inconsequente, e dele José Luiz não se aproximava; evitava-o; dele fugia como o diabo foge da cruz.

O bêbado não foi até José Luiz, como que lhe atendendo as preces. Deteve-se, de repente, próximo do paralelepípedo, para alívio de José Luiz, a trinta metros de distância dele, e com gestos de mãos caóticos, alheio à realidade, acenou para os motoristas dos veículos que passavam pela rua, e na rua desceu, quase vindo a cair – para surpresa de todos, conservou-se em pé -, e, passo após passo, empreendia a travessia da rua. José Luiz anteviu o atropelamento. Algum veículo atropelaria o bêbado. Para a surpresa de José Luiz, os carros, as motos, os caminhões, as caminhonetes, os ônibus, ou paravam, e deixavam o bêbado passar, ou desviavam-se dele. E ele, com passos incertos, indo e vindo, dois passos para a frente, mas não em linha reta, e um passo para trás, seguia rumo à calçada oposta à da qual partira. E os carros, e as motos, e os caminhões, e os outros veículos, e um tanque-de-guerra, que seguia, do Batalhão de Engenharia e Combate para o Batalhão Borba Gato, e Tião Pé-de-Cabra, a cederem-lhe passagem. E o bêbado, enfim, chegou, são e salvo, ao outro lado da rua.

José Luiz, boquiaberto e queixocaído, olhos arregalados, dedos a coçarem-lhe a cabeça, perguntava-se… Na verdade, incrédulo, nenhuma pergunta se fazia; limitava-se a fitar o bêbado, que, no outro lado da rua, rumava… Para onde? E José Luiz, na calçada, a querer atravessar a rua. Pensou em simular embriaguez. Afugentou de si tal pensamento. Sóbrio, não poderia ignorar o perigo que os veículos representavam-lhe. E o bêbado, no outro lado da rua; e José Luiz, irritado, vendo passarem diante de seus olhos carros, motos, ônibus, caminhonetes, bicicletas e caminhões. E um tanque-de-guerra. E Tião Pé-de-Cabra.

O pedaço de bolo de chocolate

Uma história do Joãozinho

Era um domingo como outro domingo qualquer. Nem quente, nem frio.

Na casa de número 3443 da Rua das Caraminholas, que com a Rua das Caravelas, a Rua das Caravanas, a Rua das Carapaças e a Rua dos Caranguejos faz intersecções, no Bairro dos Caraminguás, vizinho, ao leste, do Bairro das Carambolas, ao oeste, do Bairro dos Caramujos, ao norte, do Bairro do Caramanchão, ao sul, do Bairro das Carantonhas, vive uma família de quatro pessoas: os genitores, ele, pai de Joãozinho, ela, mãe de Joãozinho, e os seus filhos, ele, o primogênito, Joãozinho, ela, irmã de Joãozinho. Às seis horas da manhã, retiraram-se da casa a mãe e sua filha, que rumaram para a casa dos avós maternos de Joãozinho, situada na cidade vizinha, no número 4334 da Rua dos Carrapichos, que com a Rua dos Carrapatos e a Rua dos Carrascos faz intersecções, no Bairro do Carajé, vizinho, ao leste, do Bairro do Caramelo, ao oeste, do Bairro da Carraspana, ao norte, do Bairro do Caramuru, ao sul, do Bairro dos Caraíbas. E o pai e seu filho acordariam, o primeiro, às oito horas, o segundo, às dez. E o pai de Joãozinho, banho tomado, dentes escovados, leite de um copo de vidro bebido e um bolinho de caramelo degustado, preparou, na cozinha, na mesa, as refeições matinais, a sua e a de seu filho. Joãozinho, banho tomado e dentes escovados, foi à cozinha. E à mesa sentaram-se pai e filho. Este, ao ver sobre a mesa um bolo de chocolate e um pedaço de bolo de chocolate e à mão de seu pai uma faca, e ele preparando-se para cortar o bolo, disse-lhe, detendo-o:

– Não quero o bolo.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Não – respondeu Joãozinho.

– E o que você vai comer? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande esse pedaço de bolo.

– Não é, não.

– Vou cortar… – e inclinou-se o pai de Joãozinho para o bolo, a faca na mão direita, preparando-se para cortá-lo, mas não o cortou. Impediu-o Joãozinho.

– Não pode cortar o bolo de chocolate – disse Joãozinho.

– Mas o pedaço de bolo é grande.

– Eu quero o pedaço inteiro.

– O quê?

– Eu quero o pedaço inteiro.

– Pedaço inteiro!?

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande. – comentou o pai de Joãozinho.

– Não é, não.

– Vou cortar um pedaço deste bolo… – disse o pai de Joãozinho, que não completou a frase porque impediu-o Joãozinho.

– Não quero um pedaço de bolo de chocolate – disse, firme, sério, Joãozinho. – Quero o pedaço inteiro.

– Mas, filho…

– Quero um pedaço inteiro; não quero um pedaço cortado.

– Pedaço inteiro? Pedaço cortado?

– Este é o pedaço inteiro – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– E o pedaço cortado?

– É um pedaço cortado.

O pai de Joãozinho encasquetou com a distinção que seu filho fazia de pedaço inteiro e pedaço cortado; considerando divertido e intrigante o que ele dizia, decidiu dar sequência à conversa para de Joãozinho extrair definições claras do que ele queria dizer com pedaço inteiro e pedaço cortado.

– Filho, cortarei um pedaço deste bolo…

– Não quero um pedaço cortado.

– Filho…

– Quero o pedaço inteiro.

– Cortarei do bolo um pedaço do mesmo tamanho do…

– Não quero um pedaço cortado de bolo.

– O pedaço cortado do bolo de chocolate terá o tamanho desse pedaço inteiro – apontou o pai Joãozinho para o pedaço de bolo.

– Não quero um pedaço cortado; quero o pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado do bolo de chocolate do mesmo tamanho do pedaço inteiro é igual ao pedaço inteiro.

– Não é, não.

– Então, eu cortarei do bolo um pedaço maior do que o pedaço inteiro; sendo maior, é melhor.

– Não é, não. Pedaço cortado é pedaço cortado; e pedaço inteiro é pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado e um pedaço inteiro são iguais se ambos tiverem o mesmo tamanho.

– Não são, não.

– Ambos os pedaços, o inteiro e o cortado, são gostosos.

– Não são, não.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho, intrigado.

– Não – respondeu Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

– Mas, sendo o pedaço inteiro e o pedaço cortado do mesmo tamanho, iguais eles são, e, portanto, terão o mesmo gosto. Ambos os pedaços serão gostosos.

– Não. Não. E não. Eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado.

– Por quê? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo.

– Por que o pedaço inteiro não é um pedaço cortado. E eu, que gosto de pedaço inteiro, e não gosto de pedaço cortado, quero o pedaço inteiro, e não um pedaço cortado.

– Não entendi – comentou o pai de Joãozinho, rindo consigo. – O pedaço inteiro do bolo de chocolate é de chocolate. O bolo, aqui – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – é de chocolate. Se eu cortar deste bolo um pedaço do mesmo tamanho do pedaço inteiro – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro e terá o mesmo gosto dele.

– Não terá o mesmo gosto, não – replicou Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que um pedaço cortado. O pedaço inteiro não é um pedaço cortado. O pedaço cortado não é um pedaço inteiro. O pedaço inteiro é o pedaço inteiro. Um pedaço cortado é um pedaço cortado. E eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado. O bolo é de chocolate. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. O pedaço cortado de bolo de chocolate é de chocolate. Mas o pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não é um pedaço cortado de bolo de chocolate, e, sendo um pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não um pedaço cortado de bolo de chocolate, tem gosto de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e um pedaço cortado de bolo de chocolate tem gosto de pedaço cortado de bolo de chocolate, e de pedaço cortado de bolo de chocolate eu não gosto.

Mais confuso do que no início, o pai de Joãozinho perguntou-se se foi uma idéia sensata insistir na conversa com o propósito de extrair de seu filho esclarecimentos sobre as distinções que ele fazia entre pedaço inteiro e pedaço cortado. Contrariando a si mesmo, melhor, a metade de si que desejava encerrar o assunto e tratar de outro tema, e atendendo à metade de si curiosa por saber o que seu filho entendia por pedaço inteiro de bolo de chocolate e pedaço cortado de bolo de chocolate, disse:

– Filho, o bolo é de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. Se eu cortar do bolo de chocolate um pedaço, o pedaço cortado será, como o bolo de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate, de chocolate. Chocolate é chocolate. O bolo é de chocolate, e todos os seus pedaços cortados são de chocolate. Se eu cortar o bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – em cinco pedaços, todos do tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, todos os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate serão iguais ao pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não diferentes. Serão do mesmo tamanho. O pedaço inteiro de bolo de chocolate e os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate terão o mesmo gosto, e todos os seis pedaços serão de chocolate. Tanto faz comer ou o pedaço inteiro de bolo de chocolate ou um dos cinco pedaços cortados de bolo de chocolate, filho. Você gostará de qualquer um deles.

Joãozinho meneou a cabeça, desconsolado.

– Ai. Ai – suspirou Joãozinho.

– O que eu disse não está certo? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo. A sua expressão impassível não transparecia a hilaridade que lhe animava os pensamentos. Queria emprestar traços sérios, respeitáveis à sua fisionomia, e receava trair-se.

– Não – respondeu-lhe Joãozinho, seco. – Não está certo, não.

– Quero entender, filho, o que você me disse. Então, proponho para você uma brincadeira: Você cobrirá, com as mãos, os olhos, e eu cortarei um pedaço do bolo de chocolate, e o deixarei ao lado do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e os misturarei, e avisarei você, e você descobrirá os olhos, e pegará um pedaço de bolo de chocolate sem saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– O senhor não pode fazer isso, papai – resmungou Joãozinho.

– Por que não?

– Por que eu tenho que ver o senhor cortando o bolo para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate; se eu não ver qual foi o pedaço que o senhor cortou e pôs perto do pedaço inteiro de bolo de chocolate, eu, ao pegar um dos dois pedaços, poderei pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu não quero o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– Mas você, filho, não vendo qual pedaço cortei, não saberá qual é o pedaço cortado e qual é o pedaço inteiro.

– Se eu pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, que eu não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero, comerei o pedaço cortado de bolo de chocolate, que é o que não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero.

– Se você não souber qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, o pedaço que você pegar, ou o inteiro ou o cortado, e comer, será de chocolate, e gostará dele, portanto, filho, você, não sabendo qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, poderá comer qualquer um dos pedaços, e dele gostará.

Joãozinho olhou, com ar desconsolado, para o alto, e suspirou.

– Ai. Ai.

– O que eu disse não está certo?

– Não, né – respondeu Joãozinho, irritado. – Papai, o senhor não entendeu o que eu disse. Se eu cobrir, com as mãos, os olhos, e o senhor cortar o bolo de chocolate em pedaços iguais, todos do mesmo tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu, ao escolher um pedaço de bolo para comê-lo, em vez do pedaço inteiro, que é o que eu gosto, pegar o pedaço cortado, e comê-lo, e gostar dele, eu gostarei do pedaço cortado de bolo, e não do pedaço inteiro, isto é, eu gostarei do pedaço que eu não gosto; se eu não gosto de pedaço cortado, de pedaço cortado não posso gostar; eu tenho de gostar do pedaço que eu gosto, que é o pedaço inteiro, e não do pedaço que eu não gosto, que é o pedaço cortado. Então, entendeu pai, eu tenho de ver o senhor cortar o bolo de chocolate para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu gosto de pedaço inteiro, e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate, e eu não gosto de pedaço cortado. O pedaço inteiro e o pedaço cortado não são a mesma coisa.

– São, sim.

– Não são, não.

– Se eu cortar um pedaço deste bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro.

– Não será, não, papai. O pedaço inteiro é o pedaço que estava em cima da mesa; e o pedaço cortado é o pedaço que o senhor cortará do bolo. Quando eu cheguei aqui, vi, em cima da mesa, um bolo de chocolate e um pedaço inteiro de bolo de chocolate.

– Mas este pedaço inteiro é um pedaço de um bolo de chocolate que, ou eu, ou sua mãe, cortou; portanto, o pedaço que você diz ser pedaço inteiro é, na verdade, um pedaço cortado, porque, ou eu, ou sua mãe, o cortou de um bolo de chocolate. Se eu cortar, deste bolo – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, um pedaço igual ao pedaço inteiro de bolo – e tocou, com a ponta da face, o pedaço de bolo de chocolate -, ambos os pedaços serão iguais.

– Não serão, não – replicou Joãozinho, visivelmente irritado. – O pedaço de bolo de chocolate que está na mesa é um pedaço inteiro. Quando eu cheguei aqui, o pedaço já estava aqui, e estava inteiro; ninguém o cortou; eu não o cortei; o senhor não o cortou; ninguém o cortou; o pedaço, agora, está inteiro como inteiro estava quando eu o vi quando cheguei e sentei-me nesta cadeira. O bolo de chocolate está inteiro, e se o senhor o cortar em pedaços, os pedaços serão cortados, e pedaços cortados não são pedaços inteiros; são pedaços cortados. Eu verei o senhor, papai, cortando o bolo de chocolate, e do bolo de chocolate tirando um pedaço, pedaço este que o senhor me dará, e este pedaço será um pedaço cortado, porque vi o senhor cortando o bolo em pedaços, e todos os pedaços que do bolo o senhor cortar serão pedaços cortados, e não pedaços inteiros. O pedaço inteiro é o pedaço que já estava aqui na mesa quando eu cheguei, e não vi ninguém o cortando, então, este pedaço é um pedaço inteiro, e não um pedaço cortado. Não vi ninguém cortando um bolo, e do bolo tirando este pedaço – e apontou para o pedaço de bolo de chocolate. – Eu vi este pedaço, que estava inteiro quando eu o vi, e não vi ninguém cortá-lo de um bolo, então é um pedaço inteiro este pedaço de bolo de chocolate. Se o senhor cortar o bolo em pedaços, os pedaços serão cortados, e o pedaço que o senhor me der será um pedaço cortado, e não um pedaço inteiro. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro que eu vi quando cheguei aqui na cozinha; e o pedaço cortado de bolo de chocolate será o pedaço que o senhor cortará do bolo. Entendeu, papai?

A pergunta Joãozinho a fez num tom atrevido, que denotava impaciência e desconsolo. O pai de Joãozinho ria-se consigo, olhos fitos em seu filho, tentando entender como funcionava aquele cérebro infantil. Com o que dele ouviu, não pôde avaliar… Aliás, não pôde avaliar o que ouviu. Decidiu, então, encerrar a conversa, contrariando a metade de si que desejava dar-lhe sequência.

– Entendi, filho. Você gosta de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não gosta de pedaço cortado de bolo de chocolate, porque o pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

Joãozinho abriu um largo sorriso, da orelha direita à orelha esquerda, como a dizer: “Papai é inteligente. Ele entendeu o que eu disse.”, o rosto a transparecer a felicidade que o animava.

– Filho – disse o pai de Joãozinho -, coma o pedaço inteiro de bolo de chocolate. É tão gostoso…

O Pólo Norte

Uma história do Joãozinho

Estavam, na casa do avô do Joãozinho, na biblioteca, Joãozinho, a irmã do Joãozinho e o avô do Joãozinho. O avô do Joãozinho era professor de Geografia. Na biblioteca, que o avô do Joãozinho chamava de O Esconderijo, além de livros, havia mapas e um globo do tamanho de uma bola de futebol.

E conversavam o avô do Joãozinho e a irmã do Joãozinho, quando Joãozinho, atraído pelo globo, tirou-o do suporte, olhou de um lado para o outro, e, vendo que ninguém olhava para ele, pôs-se a fazer embaixadinhas.

Em um determinado momento da conversa, o avô do Joãozinho disse para a irmã do Joãozinho que no Pólo Sul há pinguins, e no Pólo Norte não, e que no Pólo Sul há um continente, Antártida, e no Pólo Norte não há um continente. Curiosa, a irmã do Joãozinho perguntou ao seu avô:

– Vovô, o que há no Pólo Norte?

– Veja no globo – disse-lhe o avô; ele sabia a resposta, claro, mas queria que sua neta se acostumasse a consultar o globo sempre que desejasse saber algo sobre Geografia.

A irmã do Joãozinho virou-se, viu Joãozinho a fazer embaixadinhas com o globo, voltou-se para seu avô, e disse-lhe que Joãozinho estava jogando futebol com o globo. E o avô do Joãozinho, sem se levantar da cadeira, disse para Joãozinho:

– Joãozinho, pare de brincar com o globo. O globo não é bola de futebol. E diga para sua irmã o que há no Pólo Norte.

– O que é o Pólo Norte, vovô? – perguntou Joãozinho, sem parar de fazer embaixadinhas com o globo.

– A parte de cima da Terra – respondeu-lhe o avô. – Como o globo é a representação da Terra em miniatura, então, o Pólo Norte é a parte de cima do globo.

– A parte de cima, vovô? – perguntou Joãozinho, enquanto fazia embaixadinhas com o globo.

– Sim – respondeu o avô. – Pare de chutar o globo, que não é uma bola de futebol, e veja o que há no Pólo Norte, Joãozinho.

– O Pólo Norte é a parte de cima, né, vovô? – perguntou Joãozinho.

– É, Joãozinho. É – respondeu-lhe o avô. – Diga para sua irmã o que há no Pólo Norte.

Joãozinho parou com as embaixadinhas, e segurou, firmemente, com as duas mãos, o globo, olhou para a parte de cima dele, e disse:

– Austrália.

Memórias de um desmemoriado

Anotações para uma autobiografia

Nasci no dia… Em que dia nasci? Que nasci em um dia sei que nasci, afinal, estou vivo. Quando nasci, todavia, não me recordo, mas sei que nasci, e há um bom tempo, pois a minha aparência é a de um homem de uns trinta anos, ou de um pouco menos de quarenta, ou de um pouco mais de vinte. Mais de quarenta não tenho. Menos de vinte também não. A minha aparência, se não me revela, com exatidão, a minha idade, dá-me elementos que me permitem avaliá-la aproximadamente. Então, digo, neste início do registro das minhas memórias, que nasci há trinta anos, aproximadamente.

Nasci, não sei em que dia, nem em que mês, e tampouco em que ano. Sei que nasci num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer. São meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Eu poderia telefonar para eles para lhes perguntar o nome deles, e aproveitar a ocasião e perguntar-lhes a data do meu nascimento, mas não me lembro onde deixei o telefone, e nem onde guardei a agenda telefônica com o número do telefone deles. Eu tenho telefone? Não sei. Devo ter algum telefone guardado em algum lugar desta casa. Se tenho um telefone, onde eu o guardei, caso eu o tenha guardado em algum lugar? Ou eu o esqueci em algum lugar? Não me recordo. Assim que eu me lembrar se tenho, ou não, um telefone, eu o pegarei, e telefonarei para meu pai, ou para minha mãe, e solicitar-lhe-ei as informações, que estou a procurar, para redigir estas minhas memórias, que serão memoráveis.

Prossigo, então, com o registro de episódios da minha vida, vida de um homem de trinta anos de idade, aproximadamente, como me indica a minha aparência.

Foi na cidade… na cidade de… Em qual cidade nasci? Minha mãe me deu à luz, é certo, em alguma cidade, pois não há lugar no mundo que não pertence à uma cidade. Nasci, sei, em alguma cidade. De cesariana, ou de parto normal?

Esquecia-me: Não sei se sou o primogênito de meus pais, ou o segundogênito. Tenho irmãos? Tenho irmãs? Quantos irmãos? Quantas irmãs? E onde eles estão? E onde estão meus pais? Há quanto tempo não falo com eles? Espere um pouco… Meus pais estão vivos? Ou eles morreram? Se morreram, qual foi a causa da morte deles?

Recapitulando o que escrevi até aqui… O que já escrevi? Esqueci. Vou ler o que escrevi até este ponto para poder dar sequência à redação destas minhas memórias, que serão o princípio da minha autobiografia.

*

Li o que já registrei para estas minhas memórias, e chamou-me a atenção, intrigando-me, a ausência de informações acerca da minha vida. Como eu pude registrar um relato tão vago? Não é apropriado, sou obrigado a reconhecer, registrar memórias desprovidas de informações sobre a vida do memorialista. Sou eu o memorialista a escrever a minha autobiografia… Humor involuntário. Apenas eu, é claro, posso escrever a minha autobiografia. E… Espere um pouco. Eu já escrevi, em algum outro dia, a minha autobiografia? Esta é a primeira vez que me ponho a redigir as minhas memórias, ou eu já as escrevi em outro dia? Se as escrevi, quando as escrevi? Falha-me a memória, neste ponto. Tenho de reconstituir a minha infância para que estes meus registros tenham razão de ser.

*

Evoco, a partir de agora, alguns episódios da minha vida de um homem que se encontra na idade de trinta anos, aproximadamente, como indica-me a minha aparência.

Nasci não sei em que dia, nem em que cidade, se de parto normal, se de cesariana. Não me recordo de meus pais, e não sei se eles estão vivo, e não me lembro se tenho irmãos. Mesmo não me recordando destas informações, posso reconstituir a minha história com fidelidade, pois algumas informações, se imprescindíveis, podem ser negligenciadas, afinal, são apenas informações, e nada além de informações, e mesmo que não estejam no corpo da redação das minhas memórias nelas podem ser inseridas por suposição – não há viva alma que, em sã consciência, ignore que uma pessoa, para existir, tem de nascer em algum dia, de genitores; portanto, todas as pessoas que tomarem conhecimento destas memórias sabem que tenho pais, mesmo que eles estejam mortos, e que nasci, no passado, em algum dia, em algum mês, em algum ano, em algum lugar.

*

Meu nascimento, não sei se de parto normal, se de cesariana, deu-se num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer, há, aproximadamente, quarenta anos, indica-me a minha aparência, que é a de um homem de um pouco mais de quarenta anos, ou um pouco menos de quarenta anos – de mais de cinquenta anos não é, e de menos de trinta também não.

Sei que meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Tenho certeza que meu pai e minha mãe têm nomes. Meus pais estão vivos? Meu pai morreu de acidente de carro, não morreu? Ou foi o pai de um amigo meu, de cujo nome minha memória não lembra, que morreu num acidente de carro? E a minha mãe está viva?

Estas são as primeiras palavras das minhas memórias, que eu as escreverei, fornecendo minúcias acerca da minha vida. Eu… Eu… Qual é o meu nome?

*

Inspirado, decidi, hoje, escrever as minhas memórias. Tal desejo excitou-me a imaginação. Eu, escrever as minhas memórias! Que interessante! Eu, escrever a minha autobiografia! Que interessante! Eu, que nunca escrevi as minhas idéias, decidi, hoje, escrevê-las, e escrever, também, a história da minha vida. Para escrevê-la, tenho de registrar o meu nome, o nome de meus pais, os de meus irmãos, os de minhas irmãs, a minha data de nascimento, e as dos meus familiares.

Aqui, no meu quarto, tenho, à mão, os documentos de todas as pessoas da minha família. Não sei porque eu peguei esta caixa com tais documentos e tais fotos – milhares delas, nas quais estou retratado, e nas quais estão retratadas muitas pessoas que nunca vi. Quem são elas? Não sei. Algumas delas estão abraçadas comigo. Por que elas estão abraçadas comigo, se não as conheço?

Consultando estes documentos e estas fotos, escrevo um rascunho das minhas memórias, para, num futuro próximo, redigir a minha autobiografia – e apenas eu posso escrever a minha autobiografia. Humor involuntário.

Meu nome é Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Sou filho de Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e de Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. Por que nomes tão extensos, meu Deus!?

Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às cinco e quarenta e cinco da manhã.

Sou o primogênito de meus pais.

São meus irmãos Paulo Ricardo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Vicente Antonio de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Márcia Luiza de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, e Fabiana Larissa de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

Nestes papéis, que tiro desta caixa de sapatos, há relatos, cujos autores não estão registrados. Leio-os, e venho a saber que, no dia dezesseis de setembro de 1999, faleceu meu avô paterno Josué de Almeida Prado, alvejado, na têmpora esquerda, por um projétil, disparado por um homem de nome João Romão e codnome Lagarto Albino. Não sei quem escreveu estas linhas. As caligrafias (identifiquei quatro), parece-me, são de mulheres, pois os homens jamais escreveriam com tanto esmero.

Nesta outra folha há o relato, de autoria de Vicente Antonio, meu irmão, de uma viagem que todos da família empreendemos aos Estados Unidos. Passeamos pelo Grand Canyon, visitamos Washington, e fomos à Disneylândia.

Assisti à vídeos de gravações de brincadeiras, na escola, com os amigos, e em festas da família.

*

Acordei, hoje, com o desejo de registrar, em vídeo, a história da minha vida. Mas não me lembro de nenhum dos seus episódios. E nem me lembro do meu nome. E não tenho à mão nenhum documento, nenhuma foto, nenhum registro em vídeo, nem escritos em papel, nem digitados em computador, para servir-me de fonte de dados acerca de mim mesmo.

*

Ao limpar o meu guarda-roupa, encontrei fitas-cassetes e dvds com gravações de festas de aniversários, do casamento de meu irmão Paulo Ricardo com a Susana, e do nascimento do primogênito deles, sobrinho meu, o Emílio, e do nascimento de Vanessa, filha dos meus amigos Carlos José e Neide.

*

Anima-me a vontade de escrever as minhas memórias. Não me lembro, no entanto, de nada da minha vida. Como poderei, então, escrever as minhas memórias, se da minha vida nada me recordo?

*

Peguei da caneta, debrucei-me sobre a folha de sulfite, e perguntei-me qual é o meu nome. Qual é o meu nome? Eu o esqueci.

*

Hoje, um dia daqueles em que fico, no ócio, a matutar, e a imaginar coisas, e a conceber idéias, tive uma idéia brilhante: Escrever as minhas memórias, a minha autobiografia. Mas o que há de interessante na minha vida que merece ser contado para as pessoas? A minha vida é interessante? E por que não seria? É interessante, sim.

O que me aconteceu durante a minha vida de não sei quantos anos? Para escrever as minhas memórias tenho de puxar pela memória acontecimentos da minha vida. Quais? De nenhum me recordo.

*

Aconteceu-me algo muito engraçado, hoje, mas esqueci do que se trata. Sei, todavia, que foi engraçado, afinal estou rindo, estou gargalhando.

*

Pergunto-me: Por que não escrevo as minhas memórias? Por que não escrevo a minha autobiografia? Humor involuntário.

*

Encontrei uma folha de sulfite, que traz, em uma das suas faces, um registro de um desejo meu: O de escrever as minhas memórias. Sentei-me à escrivaninha, e abri uma gaveta, na qual havia uma caixa com a minha Certidão de Nascimento. Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às 5:45. São meus pais Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. É o meu nome Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

E deixo esta folha sobre a escrivaninha, para procurar outros documentos, que me dêem notícias da minha vida e da vida de meus familiares, parentes e amigos.

Fiz bem em deixar sobre a escrivaninha esta folha com as minhas anotações e a minha Certidão de Nascimento, pois sei que esqueço, em poucos minutos, o que faço, e às vezes esqueço que esqueço. Fui previdente ao tomar a providência de manter esta folha de sulfite e a minha Certidão de Nascimento sobre a escrivaninha, pois, agora, destes álbuns de fotos e de dois dvds, tiro, do fundo do baú, dir-se-ia – mas não foi no fundo de um baú que os achei (e onde os encontrei, não me lembro) -, algumas notas acerca da minha vida e da minha família e da meus amigos.

São meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa. Eu sou o primogênito, e a Fabiana Larissa é a caçula. Paulo Ricardo nasceu no dia 16 de maio de 1986; Vicente Antonio, no dia 7 de agosto de 1987; Márcia Luiza, no dia 14 de dezembro de 1988; e Fabiana Larissa, no dia 5 de janeiro de 1991.

*

Encontrei um álbum de fotos, e dentro dele uma Certidão de Batismo, a minha, suspeitei; e confirmei as minhas suspeitas após do álbum remover uma foto, em cuja face anterior há uma criança, pequenina e fofinha, que, eu vim a saber, é eu, ao colo de uma linda mulher de uns vinte anos, que, eu soube, é minha mãe, e em cuja face posterior há anotações. Além de vir a saber que a criança é eu, e a mulher, minha mãe, eu soube que o homem à direita de minha mãe é meu pai, e o à direita de meu pai é o pai dele, meu avô e meu padrinho de batismo, Josué de Almeida Prado, todos a irradiar felicidade.

Em outras fotos há várias pessoas, muitas delas eu as desconheço. E não sei em que local tais fotos foram tiradas. Não reconheço os móveis, tampouco os prédios que aparecem ao fundo, e muito menos a paisagem. Em algumas fotos há a indicação, no verso, de que a família estava em viagem ao Rio Grande do Sul, em outras ao Pantanal, e em outras à Flórida; algumas indicam o aniversário natalício de Vicente Antonio, outras o de Fabiana Larissa; outras o de Carlos Ermenegildo, eu; outras, o casamento de Paulo Ricardo e Susana; e outras o de Marcos Roberto e Ana Carolina, meus genitores. São muitas as fotos, e muitas são as pessoas retratadas, e muitas delas eu as desconheço. E eu apareço em várias fotos, principalmente nas mais recentes.

*

Escrevo enquanto assisto ao vídeo que registra a festa de meu aniversário natalício. A minha memória evanescente não me permitiria registrar estas minhas lembranças sem o auxílio do vídeo, e das fotos, que me auxiliam na identificação das pessoas que aparecem no vídeo. É um vídeo da minha festa de aniversário de 18 anos, indicam as velas. O homem que me cumprimenta, no início, é meu pai. E vários familiares eu os identifico com a ajuda de fotos, em cuja face posterior há o nome dos fotografados – comparando-os com as pessoas que aparecem no vídeo, pude identificá-los: Meu pai, minha mãe, meu avô materno, Marco Antonio, minha avó materna, Maria Elizabeth, minha avó paterna, Maria da Conceição, meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa, meus tios Pedro, Sergio, Carla, Madalena, Vinicius, Bruna, Daniel, Tadeu, meus primos Valéria, Roberto, Hélio, Gilberto, Gabriela, Edson, Renato, Rodrigo, André, Jorge, Janaína, Jaqueline, Jéssica, Getúlio, Fábio, Ísis, Leandro, e os meus amigos Adriano, Adriana, Bianca, Márcio, Murilo, Natália, Osvaldo, Paula, Úrsula, Ulisses, Vera, Laura, Ligiane. Estas foram as pessoas que pude identificar. E há inúmeras outras, cujos nomes desconheço, e não sei se há relação de parentesco entre elas e eu, ou se são apenas meus amigos, ou se conhecidos.

*

Tomei, hoje, uma decisão: Escreverei as minhas memórias.

Escrevi estas palavras, para não me esquecer do meu propósito, e saí à procura de vídeos, documentos e álbuns de fotos que me auxiliem em minha empreitada, e encontrei, na segunda gaveta desta escrivaninha, um Atestado de Óbito com a data do falecimento, 16 de outubro de 2015, de Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Quem é ele? Eu o conheço? Por que o Atestado de Óbito dele estava guardado dentro da minha escrivaninha?