Ração boa pra cachorro

Dirigiu-se Antonio Roberto, às dez horas da manhã, à loja de vendas de artigos para animais; assim que lá chegou, atendeu-o uma funcionária, moça de uns vinte anos, baixa, de, se muito, um metro e sessenta de altura, esbelta, que então ajeitava, com uma maria-chiquinha, os cabelos pretos, lisos, volumosos. Sorridente, ela saudou-o, exibindo-lhe sua fileira de dentes brancos: “Bom dia, senhor. O que o senhor deseja?” E Antonio Roberto respondeu: “Ração para um cachorro velho, de dentes bem fracos.” “Cachorro pequeno, ou grande?” “Médio. Um vira-lata. Ele tem, acho, uns quinze quilos.” “Temos estas duas rações.” – e mostrou-lhe os dois pacotes. “São boas para cachorros velhos de dentes fracos?”, perguntou-lhe Antonio Roberto. “Sim, senhor. São macios. Veja.” – e apertou a moça dois pacotes, um de cada tipo de ração que indicara a Antonio Roberto, sentindo a ração entre os dedos. E Antonio Roberto repetiu-lhe o gesto. “É verdade. São macios, bem macios. Vendem à granel?” “Sim, senhor. De quanto o senhor precisa?” “Das duas rações, meio quilo de cada. Darei das duas para o meu velho amigo, e verei qual delas ele come, qual não.” “É melhor, né? Assim não desperdiça ração.” E a moça pesou meio quilo de cada uma das duas rações escolhidas, e entregou a Antonio Roberto um pequeno pedaço de papel com o logotipo da empresa, no qual escrevera o preço a pagar pelas rações, e disse-lhe que pagasse no caixa e retirasse a compra no balcão. E ele seguiu-lhe as orientações. Aproximava-se Antonio Roberto do balcão, quando a moça que o atendera afastou-se para falar com outra funcionária; e chegou-se ao balcão um funcionário, que, vendo a sacola com as rações empacotadas, perguntou para Antonio Roberto: “Esta ração é para o senhor?”, e ele lhe respondeu: “Para mim, não; é para o meu cachorro.” O funcionário riu, a moça riu e pegou a sacola e entregou-a a Antonio Roberto, e agradeceu-lhe a visita à loja no mesmo instante em que ele, rindo, dizia: “Esta ração é boa pra cachorro.”

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Bons Amigos

Edson e Renato são dois bons amigos. Jovens, ambos de dezessete anos, são, dizem seus pais, unha e carne. A Dupla, referem-se a eles, assim, familiares, parentes e amigos. Edson, extrovertido, brincalhão, expansivo, de rosto rechonchudo, carrega consigo, desde que veio à luz, nariz empinado de ventas largas, queixo pontudo e sobrancelhas espessas. Não é feio; bonito também não é. É excêntrico. Renato, de um metro e setenta e cinco de altura, atlético, de boa estampa, é dono de olhos azuis que encantam as mulheres. É tímido, introvertido. Ninguém entende como os dois jovens se entendem tão bem. Saídos da escola, à hora do almoço, passaram pela frente de uma lanchonete. Ao ver, à mesa, na calçada, cinco mulheres, todas bonitas, quatro, sentadas, uma, em pé, duas, morenas, duas, loiras, uma, branca de cabelos pretos, Edson perguntou-lhes assim que delas se aproximou:

– Bom dia, princesas – e elas interromperam a conversa, e voltaram-se para ele. – Alguma de vocês deseja se casar com um homem pobre, burro e feio?

– Não – responderam, em uníssono, sérias, as cinco mulheres.


E Edson voltou-se para Renato, e disse-lhe:

– Danou-se, Natão. Você ficará pra titio.


Renato meneou, encabulado, a cabeça, e seguiu caminho. Edson, a gargalhar, ia-lhe logo atrás.

– Natão, você é bobo, mesmo. ‘tá vermelho igual pimentão!

Eu fui para Ratanabá

Fez-se um auê dos infernos em torno da misteriosa Ratanabá, cidade mística incrustada, há trezentos milhões de anos, na floresta Amazônica. Está Ratanabá no centro de uma discussão que peca pela ignorância e descompromisso com a verdade, muitos que dela participam a fazerem-se de engraçados, sem que o sejam, unicamente para ridicularizar e difamar os oponentes políticos e religiosos. É deveras frustrante ver seres supostamente inteligentes envolvendo-se em deselegantes palestras que invariavelmente culminam em palavras ofensivas e, não raro, agressões físicas. Desejassem as pessoas, se dotadas de educação que o tema exige, ir ao encontro da, e não de encontro à, verdade, demonstrariam disposição, não apenas para ouvir as anotações divergentes, mas para executar estudos sérios e, principalmente, empreender uma expedição, à Amazônia, até a região em que, numa era remota, antediluviana, uma raça superior erigiu uma cidade gigantesca.
Aqui, nestas folhas de sulfite, escrevo, com uma caneta esferográfica de ponta fina que eu comprei, ontem, na papelaria perto de casa, o testemunho de uma aventura que protagonizei, há uns três anos. Uma aventura inesquecível.
Assim começou a minha história: em um domingo, ao verificar no extrato bancário a minha caderneta de poupança, vi, para a minha alegria, que eu tinha um saldo razoavelmente elevado, que me propiciaria realizar a viagem dos meus sonhos: ir à floresta amazônica, que sempre me despertou os instintos selvagens. Os olhos brilhando tamanha era a minha emoção, agradeci aos céus a educação que de meus pais e avós recebi, educação que me fez um homem parcimonioso, de hábitos simples, de refeições frugais. À noite, dormi, com os anjos, digo, tal qual uma pedra. Tratei, no dia seguinte, de agendar a viagem para dali uma semana. E no dia anotado para embarcar no avião, compareci ao aeroporto, entrei na nave espacial, e rumei à maior floresta da Terra. Estabeleci-me, na capital baré, em um hotel simples e aconchegante. Passeei por Manaus, durante os cinco dias seguintes. E neste quinto dia de viagem, ouvi, no mercado, três homens a conversarem, reservadamente, despertando-me a curiosidade. Falavam de Ratanabá, discretamente, perceptivelmente constrangidos, esforçando-se os três para não se fazerem ouvir por nenhuma outra pessoa. Foi em vão o esforço deles, afinal eu os ouvi. Intrigado com a história que acidentalmente me chegara aos ouvidos, acheguei-me, respeitosa, e prudentemente, dos três palestrantes, receando deles receber tratamento hostil, e perguntei-lhes, minha voz a transmitir seriedade, onde se situava a cidade misteriosa de que eles falavam tão apaixonadamente. De início, entreolharam-se, desconfiados, mas a minha postura, a minha fisionomia, o meu tom de voz, as palavras que usei para expressar-me, fê-los entender que comigo poderiam falar aberta e livremente a respeito de Ratanabá.
A tertúlia, animada, franca. Deram-me aqueles homens a localização da antiga cidade, há muito tempo perdida na floresta amazônica, misteriosa e selvagem floresta. Despediram-se de mim os três homens, e eles eu nenhuma outra vez os encontrei.
Duas semanas deles, apropriadamente vestido e apetrechado e munido com um bom sortimento de alimento enlatado, embrenhei-me na floresta, sem que pelas suas entranhas me ciceroneasse um poeta, e, enveredando-lhe pelo labirinto de árvores, a avistar animais sem conta, deparei-me com mistérios insondáveis. Eu me incursionava por uma região de mata densa, quase intransponível; feri-me, não poucas vezes, em espinhos pontiagudos de arbustos cujas folhas, verde-amarelo-alaranjadas rescendiam olor para mim até então desconnecido. E as feridas que os espinhos me abriram nos braços e mãos e rosto atormentaram-me durante algumas horas, poucas. Passaram-se os dias. Um dia, não sei eu quantos dias após o início da minha expedição, vislumbrei um objeto, que me pareceu uma cabeça, a uns quatro metros de altura. Cuidadoso, lentamente, circunvagando o olhar à procura de qualquer animal e coisa que pudesse me prejudicar, fui até ele. Era, reconheci de uma certa distância, ser uma cabeça aquele objeto, uma cabeça semicoberta pela exuberante vegetação, e cuja figura encontrava-se inscrustrada de residências de insetos e de cujo olho direito escapou uma serpente fina e compridíssima, que deslizou pelos interstícios da estátua, seu ombro direito, até desaparecer sob uma espessa camada de galhos, folhas, cipós e raízes. Tinha a cabeça, que era rochosa, o triplo do tamanho da cabeça de um homem adulto; estava seu nariz desgastado; seu queixo, com dois furos, um distante do outro um centímetro, o inferior um pouco maior do que o superior. Fitei-o ao ouvir, dele originado, assobios roucos, que se me assemelharam aos ouvidos vozes humanas. Intrigado, detive-me. Não movi nem sequer um dedo; suspendi a respiração. Assim que me senti seguro, após alguns segundos – não sei quantos, pois o tempo, assim me parecia, havia cessado -, movi-me, e foi então que notei que nenhuma folha, nenhum galho, nenhum cipó de nenhuma árvore se movia e que nenhum som ecoava na floresta em cujo interior eu me encontrava. Aterrorizei-me com o silêncio reinante, agourento, tétrico. Não era o silêncio um bom sinal. Era a bonança antes da tempestade (não é a imagem a melhor que eu poderia usar neste momento, todavia, embora incorreta, ela é, entendo, apropriada – além disso, eu sei que os meus leitores, que estão dispostos a acompanhar o desenrolar desta narrativa, compreenderam o que eu quis expressar, mesmo que façam ressalvas à figura que usei).
Não era, pensei, o silêncio símbolo de um ambiente hospitaleiro. Assim que movi um dedo, o indicador da mão esquerda, para levá-lo ao nariz, e coçá-lo, a cabeça rochosa moveu-se, petrificando-me – e aqui não uso força de expressão; é a imagem literal: eu estava petrificado, transformado em pedra. Creio que Fídias não apreciaria a escultura – compreensível: não fui agraciado com a beleza de Apolo. A cabeça de pedra moveu-se em minha direção, trazendo consigo folhas, raízes, cipós, galhos, e animas peçonhentos, e insetos, e serpentes, e roedores, e um corpo de pedra, que se destacou do que me pareceu uma vetusta muralha, e deu poucos passos em minha direção, revelando-se-me por inteiro: tinha uns cinco metros de altura e estava desgastada em inúmeros pontos, todavia conservava o seu esplendor, penso, original, de dimensões majestática. Assim que se deteve a um passo de mim, ordenou-me: “Entre.” E abriu-se à direita dele um portão. Obedeci-lhe. Ao umbral, vi, diante de meus olhos, a escuridão absoluta, que me encegueceu. Iniciei jornada pelo amplo corredor, e às minhas costas fechou-se o portão. E desfez-se a escuridão que me havia envolvido. Apresentou-se-me a imensa cidadela, reluzente, aos olhos maravilhados. Prendi-me a admirá-la até o momento que senti, tocando-me a mão, uma pele fria e macia, que me chamou a atenção. Uma criatura pequena, de, se muito, meio metro de altura, de três olhos, quatro pés e seis braços, de doze mãos, dois em cada braço, e com oito dedos, de trinta centímetros cada, em cada mão, fitava-me, sorridente, a irradiar felicidade, como se esperasse por mim. Falou-me; não lhe entendi uma palavra sequer; entendi-lhe o gesto: pediu-me que lhe seguisse os passos. De todas as palavras que ela pronunciou, identifiquei apenas uma: Ratanabá. Eu estava na cidadela misteriosa, da qual há muito tempo se fala, e da qual nada se sabia a não ser lendas e mitos saídos da cachola de pessoas que não são conhecidas pela sensatez e pelo compromisso com a verdade – em outras palavras, da cabeça de pescadores.
Não me atiçou suspeitas aquela escalafobética criatura, cuja aparência, estranhamente me inspirava simpatia.
Ciceroneou-me a criatura pelas amplas avenidas de Ratanabá. Deslumbrado com a magnífica e esplendorosa arquitetura de seus grandiosos edifícios, não ocupei-me em ouvir o que o meu guia me falava – e se o ouvisse, eu nada compreenderia, pois não lhe conhecia a língua, que não sabia eu se era da Terra, de outro planeta da Via-Láctea, de outra galáxia, de outro universo, de outra dimensão. Apresentou-me o meu guia uma das maravilhas da cidadela, uma biblioteca esplendorosa, repleta de livros grandiosos, de um, dois, três metros de altura, em pé, inclinados, abertos, e ratanabenses a compulsá-los com uma vareta flexível dourada. Eram os símbolos alfabéticos maravilhosamente desenhados, com esmero. Reinava o silêncio, silêncio hierático, e de ares hieráticos era, também, a conduta de todos os indivíduos presentes. Maravilhei-me com o que vi. Saímos da magnífica biblioteca, e caminhamos por uma ampla avenida; milhares de ratanabenses iam e vinham de todas as direções e para todas as direções, numa tagarelice contagiante – embora eu nada entendia do que falavam, senti que eles falavam de temas alegres. Eu me sentia feliz, estranhamente feliz, entre eles. Visitei museus, parques de diversões, palácios reluzentes, estádios esportivos; fui ao topo de um edifício grandioso, e, circunvagando o olhar, revelou-se-me toda a extensão da cidadela.
Caminhamos meu guia e eu durante não sei quanto tempo, e chegamos a um prédio que destoava do ambiente: era tétrico, agourento, inspirava repulsa, medo, terror. A criatura que era meu guia – e nomeio-a, a partir de agora, Dédalo -, alterou sua fisionomia, que assumiu aspectos sobranceiros, indicando que aquele prédio era uma chaga da cidadela. Não precisei de muito tempo para saber da explicação para a mudança de humor de meu guia, que me pediu que eu o acompanhasse para o interior do edifício, tão tenebroso! tão assustador! que fez-me engolir em seco e suspender a respiração. Se temia tanto aquele prédio e o que, eu presumia, no interior dele havia, por que Dédalo nele iria adentrar? Eu soube, ao ver o que ele pretendia me mostrar. À porta, bafejou-me o rosto, empalicedendo-me, ar gélido. Notei, acredito, tremores percorrerem o pequeno, estranho, corpo do meu guia. Seguimos a adentrar o prédio. Entramos em um corredor, de cujos domínios exalava odor putrefato, corrosivo. Metros adiante, deteve-se Dédalo diante de uma porta. Foi então que entendi: estávamos em uma prisão, em cujas entranhas, encarcerados, os mais asquerosos e repulsivos monstros de Ratanabá. Detive-me à direita do estranho Dédalo, e voltei-me para a porta diante da qual ele se encontrava. A porta deslizou-se para a nossa esquerda, e atrás dela havia uma parede transparente de não sei quantos centímetros de espessura, a revelar-nos uma cela de não mais do que vinte metros cúbicos,e ao fundo da cela via-se uma criatura teratológica, encolhida, de uns três metros de altura e dotada de nove tentáculos; cobria-lhe a cabeça pêlame espesso, ondulado, de um tom preto-fosco cadavérico; abriu a criatura a boca, e emitiu um grunhido, roufenho, desgracioso, grotesco. Um espetáculo horripilante. Fechou-se a porta. Caminhou Dédalo mais uns vinte metros, e deteve-se diante de outra porta; eu o segui, e conservei-me à direita dele. Tão logo a porta se abriu, tal qual a da primeira cela, vimos, no interior do cubículo, uma criatura esquálida de uns dois metros de altura dotada de caixa craniana transparente em cujo interior estava o cérebro, que mais parecia uma hortaliça verde-clara de aparência inconsistente coberto de minúsculas protuberâncias pontudas. Tinha entre os olhos um apêndice rígido, desmesuradamente desproporcional à cabeça, que lhe servia de nariz e boca – assemelhava-se a um bico de pássaro. Não tinha tal criatura mãos, e eram suas pernas, duas, finas. Não me pareceu um personagem antipático, e tampouco asqueroso como o da primeira cela, o de nove tentáculos – parecia, ao contrário daquele, bem asseado. Assim que foi a porta fechada, seguido por mim, Dédalo foi até a terceira cela, cuja porta abriu-se a um comando dele. No interior de tal cela, uma criatura de aspecto desgracioso – eu não sabia dizer se macho, se fêmea. Eram seus movimentos mecânicos, robóticos; sua voz, irritantemente metálica. Despertou-me sua estrambótica figura risos silenciosos. Fechada a porta desta cela, tocou-me Dédalo, com sua testa, que, distendendo-se, assumiu a silhueta de um, assim direi, funil, a testa, e invadiram-me a mente, numa velocidade estonteante, imagens que apresentavam a ação das três criaturas que eu vi encarceradas, e então vim a saber que era a de nove tentáculos ilusionista crudelíssimo, a de caixa craniana transparente transmorfa e a terceira uma entidade cujo maior talento era controlar os fenômenos naturais, em maior escala os ventos. Eram as três, todas elas malfazejas, oriundas de outras galáxias. Na Terra, há milhões de anos, aportaram em Ratanabá, e seduziram os seus habitantes, que,encantados com elas, as idolatraram, delas fazendo entidades celestiais. Aos olhos de minha mente, vi uma cena emblemática: as três criaturas extra-terrenas a palestrarem livremente, e uma barulhenta multidão a louvá-las em alto brado, mesmerizadas, a prosternarem-se diante delas. Transmitiu-me Dédalo, em nossa conexão mental, imagens do interior do cérebro dos indivíduos ajoelhados à frente dos três extra-terrestres: o cérebro deles desfazia-se em inconsistente massa pastosa preta-amarronzada. E sempre que abriam a boca, tais indivíduos, ao pronunciarem ou não qualquer palavra, exalavam odor mefítico que empesteava o ar num raio de duzentos metros, corroendo, assim, o corpo e apodrecendo o espírito de todo indivíduo que porventura se encontrasse em tal área. Mostrou-me Dédalo que, diante dos males que aquelas três criaturas causavam aos ratanabenses, o imperador de Ratanabá decidiu trancafiá-las e conservá-las encarceradas durante todos os anos que lhes restassem de vida.
Retiramo-nos Dédalo e eu dos domínios da tétrica prisão, de dar calafrios em todo homem, de enregelar o sangue de todo homo sapiens, e passeamos pelos parques e praças, e museus e bibliotecas. Saudamos centenas, talvez milhares, de moradores de Ratanabá. E não me cansei. E em nenhum momento senti-me desconfortável, constrangido, intimidado, à presença dos ratanabenses. Quantas horas – dias, talvez – cobri toda a extensão da misteriosa cidadela perdida em algum lugar da Amazônia, não sei. Sei, apenas, que foi tal expedição, uma viagem inesquecível, o melhor capítulo da história da minha vida.
Enfim, despedi-me de meu novo amigo, Dédalo, e retirei-me de Ratanabá.
Um ano depois, consultando as minhas anotações, seguindo as coordenadas que eu havia registrado em meu bloco de anotações, empreendi segunda jornada à Ratanabá – mas, para a minha surpresa, desagradável surpresa, e para o meu desgosto, eu não a encontrei. Ratanabá não estava onde ela devia estar. Tenho certeza de que fui ao mesmo local onde um ano antes eu encontrara Ratanabá. Sei que não me perdi, que eu não me confundi. Fui, eu sei, para o local, e o local exato, respeitando as minhas anotações, onde estava Ratanabá. Todavia, lá Ratanabá não estava. Estou certo de que a minha presença na cidadela misteriosa tenha convencido os seres que a habitam a de lá se retirarem, transferirem-se para outro ponto da floresta, ou para outra região da Terra, região que os humanos jamais pisamos. Assim pensando, cientes de que eu poderia vir a divulgar as minhas descobertas – o que, ao contrário do que, acredito, tenham pensado, não fiz -, os ratanabenses decidiram, não apenas emigrarem, mas moverem toda Ratanabá para um local que os humanos ignoramos.
Este é o meu testemunho, que ora publico, que irá servir de fonte para estudos sérios, e não para os néscios fazerem um fuzuê danado acerca da misteriosa Ratanabá.

Mensagem do Barnabé Varejeira – Educando os filhos.

Ba tarde, Cérjim. Tá calor pa dedéu hoje, tá não?! Vai caí um pé-d’água antes do pôr-do-sór. Calor assim é prenúncio de pancada de chuva, dilúvio pa o Noé morrê de inveja. Armocei há pôco um bom prato de arroz, feijão, carne de vaca, verdura pa dá e vendê, e um litro de laranjada. Eu tô, aqui, pensano cos meus botão, conversano comigo mermo o que se dá co mundo hoje em dia e pruque a garotada tá tão desmiolada, tão desparafusada; parece, inté, que só tem cabeça pa juntá pioiô; parece que a bússola da garotada tá quebrada. Tá difirci, muinto difirci, entendê o que se assucede com os jóve. Eu, que fui educado pelo meu pai e pela mia mãe à moda antiga à moda antiga educo meus fio. Não tem conversa; é do jeito que tem de sê, e pronto. E ponto finar. Sem lero-lero, sem bla-bla-bla, sem conversa fiada. É do jeito que tem de sê. Meus fio educo-os eu, eu e mia muié, craro. O fio reinô, uma espada-de-são-jorge, ou uma varinha-de-marmelo, ensina pa ele quem manda na casa, e quem manda não é ele. E tem de sê assim. Muintos pai e muintas mãe não têm voz firme, e abaixa a cabeça pos fio. Vê se pode! Hoje, antes do armoço, vi, no banco, um menino de uns sete, oito, ano, debochá da mãe; ela chamava ele, e ele punha a língua pa fora da boca, e mostrava a língua pa ela, e ela, em vez de dá nele, no pé-do-ouvido, um tapa pa virá ele do avesso, ficô falano: “Meu fiinho, obedeça a mamãe, obedeça, o cê é um fiinho bonito.” Ah! Se fosse ca mia muié! Ela mandava um tapa nas fuça do moleque, tapa que o viraria do avesso, e fazia ele dá dez vorta em si mermo, antes de pará, e ele ficaria mais tonto que barata tonta. Seria um tapa pa ele nunca mais esquece, nunca mais. Co meus fio é ansim, eu mando, eles obedece; e se eles não obedece, o reio canta-lhes no lombo até tirá, deles, sangue. Não tem conversa. Eu digo o que pode e o que não pode; o que eu digo que pode pode e o que eu digo que não pode não pode, e fim de papo. E comigo sim é sim e não é não. Meu fio, quarqué um deles, faz uma reinação, me farta co respeito, e eu pégo ele de jeito, e nele descarrégo a mia autoridade: “Óia, aqui, ô fio do meu sangue. Se eu mando tá mandado; se eu não mando não tá mandado; se eu digo que não pode não pode; se pode eu digo que pode. Sê entende!? É simpres. Quando eu digo sim quero dizer sim; se quero dizer não digo não; se sim fosse não e não sim, então não não seria não e sim não seria sim. Sim é sim se não é não e não é não se não é sim. Tem de havê distinção entre sim e não de modo que não se confunda não com sim e sim com não. Prestenção! E não vô repeti a órde.” É ansim que falo cos meu fio; dexo mias idéia bem craro pa eles pa que eles não fique no escuro. Ansim meu avô educô meu pai e meus tio, e ansim meu pai educô eu e meus irmão, e ansim eu educo meus fio, e ansim meus fio vão educá os fio deles. Se não fôr ansim, a famia desanda. E ba tarde, Cérjim; não vô mais aporrinhá sua cabeça cos meu pensamento. E que Deus Nosso Senhor te proteja. Inté.

Existe, ou não existe?

Encontraram-se João e José, na Praça Monsenhor Marcondes, hoje, às onze da manhã. Após saudarem-se, desejando um ao outro um bom dia e apertarem-se as mãos, João saiu-se com uma notícia daquelas que não lhe eram incomuns, daquelas com as quais, sabiam seus familiares e parentes, e amigos e colegas de trabalho, envolvia os seus interlocutores num labirinto de perguntas e respostas cuja saída eles jamais encontravam:

– Ontem, Zé, eu vi uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre.

– Deixe de besteiras, João. Não existe tal cobra.

– Não, Zé?! Não existe!? Você já viu uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre?

– Não. É claro que não. Não existe.

– Se nunca viu uma tal cobra, como você sabe que ela não existe?

– Ora… Zé, eu… Não existe tal cobra. E pronto! Deixe de besteiras. Eu nunca vi uma cobra dessas.

– Você, Zé, já viu um vírus?

– Não.

– Mas você acredita que vírus existem.

– E o que tem uma coisa com a outra?! Você confunde alhos com bugalhos, e geringonça com onça.

– Você já viu uma bactéria?

– Não. Nunca vi uma bactéria. Deixe de pilhéria, de lérias.

– Mas você acredita que bactérias existem, não acredita?

– Ora, mas os cientistas… Aonde você quer chegar?

– Quero chegar ao banco. Estou indo pra lá. Tenho de pagar quatro contas.

– Perguntei aonde você quer chegar com tais perguntas, ô, desmiolado.

– Você me disse, Zé, que cobra de quatro asas, dois pés e um chifre não existe porque você jamais a viu.

– Não. Não. Eu disse que não existe porque não existe.

– Mas você nunca viu tal cobra.

– De fato, nunca vi.

– Mas eu vi.

– E você persiste, João?? Deixe de asneira. Vocé viu uma fantasmagórica miragem.

– Ao não ver uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre, você não prova que tal cobra não existe.

– Não existe. Não vi

– Você já viu o seu cérebro?

Não… Mas… Ora… Vá se danar, João. Você é louco, e quer me enlouquecer. Deixe de peneiras… Já nem sei o que digo. Esqueça tal assunto. O Timão ganhou, ontem, o jogo. Três a zero.

– Não ganhou, não. Eu não vi.

Durma-se com um barulho desses!

Serviço de Utilidade Pública: Em alto-mar.

Um homem prevenido vale por dois, diz o ditado. Neste ditado, o homem pode ser substituído por uma mulher, que o seu valor se conserva. A sensatez do homem é equivalente à da mulher. Ditas estas palavras, que não se sabe se são úteis, e tampouco se trazem algum bem àqueles que as lêem, prossigo, nesta prestação de serviço de utilidade pública.Se você pretende empreender uma viagem de avião, ou para a Europa, ou para a Ásia, ou para a África, ou para a Oceânia, ou para a América do Norte, providencie, antes de embarcar no avião, uma lapiseira, uma caixinha com grafites, e um bloco de anotações, e conserve-os à mão, num lugar de fácil acesso, que pode ser o bolso da camisa, ou um bolso da calça.Siga na leitura deste prospecto, que você compreenderá as razões para tomar tais providências.O avião decola da pista de decolagem do aeroporto, e ruma ao seu destino, que poderá ser um lugar qualquer em um dos continentes citados linhas acima. Caso o avião, no meio do caminho entre o Brasil e o seu destino, sofra uma pane geral, e, por alguma razão, misteriosa ou não, parta-se ao meio, mantenha a calma, e aposse-se, incontinenti, da lapiseira e do bloco de anotações, e estude a sua situação, calculando a altura que você se encontra acima da superfície do oceano Atlântico, e procure por um baleal. Calcule a distância que separa você das baleias, e, não se esqueça, mantenha a cabeça fria, e anote todas as informações imprescindíveis para o bom andamento do seu projeto de sobrevivência. Conte as baleias, estude-lhes os movimentos, calcule-lhes a velocidade de deslocamento, trace os rumos que elas seguem, verifique se elas nadam em linha reta, se em ziguezague, se em uma linha curva, anote o tempo que elas se conservam imersas, e o tempo que elas se conservam emersas; enfim, estude-as, atentamente, e não deixe que detalhes importantes escapem de suas observações, e não permita que sua atenção se desvie para algo insignificante. À medida que você vai caindo, recalcule todas as operações matemática que você fez, e mude, sempre que necessário, sem vacilar, os seus movimentos, e a direção que, durante a queda, você segue, e altere a sua velocidade, executando manobras corporais para reduzir, ou aumentar, em consonância com o seu plano, o atrito do seu corpo com o ar, mirando, sempre, uma das baleias do baleal, de preferência a maior. E assim que você estiver bem próximo da baleia, abra os braços e as pernas, ponha-se deitado, para ampliar o atrito do seu corpo com o ar. Você a atingirá, e ricocheteará, e será lançado para o alto, realizando um arco, até atingir o ápice – e estude, durante este deslocamento, os movimentos das outras baleias, mantendo, sempre, a cabeça fria, fazendo as anotações e os cálculos apropriados. Mire uma baleia. Atingindo-a, você, uma vez mais, irá ricochetear, e realizará um arco, cujo ápice alcançará uma altura inferior ao do arco que você realizou após ricochetear na primeira baleia que você atingiu; você terá, portanto, agora, menos tempo para estudar os movimentos das baleias, anotar todos os dados que irá colher das observações que deles você fizer, e fazer os cálculos apropriados, e terá de agir conservando, sempre, a tranquilidade de espírito; agindo assim, você poderá executá-los para conseguir atingir, com segurança, uma baleia, e, ao atingi-la, você irá ricochetear, e atingirá, no arco que irá, durante o deslocamento, realizar, um ápice inferior ao do arco anteriormente realizado ao atingir a segunda baleia; e assim, sucessivamente, até atingir, enfim, uma baleia, na qual você não irá ricochetear, dará apenas um pequeno salto, e nela permanecerá são e salvo. Ato contínuo, domine a baleia, e obrigue-a a carregar você até o seu destino.

Mensagem do Barnabé Varejeira – O Mané Sujão Cruz-Credo.


Bão dia, Cérjim. Bão dia, não; ba tarde. Já é tarde aqui. Se aqui, na roça, já é tarde, intão aí em Piamoangaba tamém é; se não é, devia sê. O cê já armoçô? Já!? Então, é ba tarde. Não!? Então, é bão dia. O dia, hoje, tá de rachá os miolo de todo fio de Deus. Nossa Senhora! Parece, inté, que abriro as porta da casa do cão; e o fogo das profundeza dos inferno sobe pa arriba da terra e queima os ómi de carne e osso, e as muié tamém pruque elas tamém são de carne e osso e fias de Deus. Parei um tiquinho de tempo, deitei na mia rede, que já tá um pôco escangaiada, pa lê umas notícia e ligá o uatesape e enviá mensage pos amigo; e o cê é um dos meu amigo pa quem, vira e mexe, dia sim e otro tamém, envio mensage. Hoje, Cérjim, eu conto po cê uma instória divertida, que se deu onde se deu, não muinto longe daqui, e nem muinto perto, e tamém não foi muinto longe dali, e muinto perto tamém não foi; e nem muinto longe e nem muinto perto de acolá. O cê conhece o Mané Sujão Cruz-Credo?! Não o conhece?! Tudo bem. Pa entendê a instória o cê não percisa conhecê ele. O Mané Sujão Cruz-Credo é o ómi mais sujo do praneta. E o mais fedido. E o mais porco. Um gambá de duas perna. Fedido que Deus me livre. Vive no chiquero, o porcalhão! Suíno! Leitão gambázento! Usa ropa tão fedida quanto ele. É doido de pedra, o imundo. Maluco de comê terra e achá que tá comeno filémiôn. Hoje, cedinho, não se sabe porque cargas d’água – e quem sabe o que se passa dentro da cabeça de um cabeça-de-cuia!? – ele, o doido-de-pedra, arresorveu se banhá no córgo da fazenda do Tião Saca-Rôia, que, diga-se a vredade, não cuida muinto bem do córgo, que tá bem fedido, bem sujo, mais sujo do que o trasêro do coisa-ruim. O Tião Saca-Rôia é relaxado pa dedéu, que Deus me perdõe a língua. Não quero dá ca língua nos dente: O Tião suja, e suja muinto, o córgo; no córgo ele joga muinta sujidade. Que Deus Nosso Senhor me corte a língua se eu tô falano mentira. Não falto ca vredade, não. Pois bem, Cérjim, o que fez o Mané Sujão Cruz-Credo!? Ele tirô as rôpa, e pulô no córgo da fazenda do Tião Saca-Rôia. E nem bem caiu nas águas, o córgo cuspiu ele pa fora, espaventô ele, e mandô ele í embora: “Sai daqui, gambá fedorento! Vá levá sua catinga gambázenta pos quinto dos inferno, diabos do cão! Fedido! Fedorento! Pé de porco!” E o Mané, espavorido, pálido de medo, pegô as rôpa, passô sebo nas canela, e foi pa bem longe do córgo, contô-me o Jãnjão Umbigo de Pêra, que não é ómi de contá lorota. Esta é a mensage que eu quis contá po cê, Cérjim; já contei. Fique, amigo, com o Menino Jesus, fio de José e Maria. Inté.

Faz frio, ou calor?

Era uma vez…
Samantha, moça na primavera dos seus dezoito anos, morena cor de jambo, de olhos amendoados, lábios sedutores, cintura de vespa, quadris de tanajura, cabeleira a encachoeirar-se pelos ombros estreitos, pernas bem esculpidas, de um corpo, enfim, divino – que me desculpem a ousadia.
Naquele dia, de temperatura de congelar pinguim, saiu a beldade, às oito da manhã, da sua casa. A sua indumentária, a de uma nativa pré-cabralina; não digo que ela estava nua, inteiramente nua, como a natureza a deu ao mundo, porque cobria-lhe os pés mimosos chinelos-de-dedos, o quadril uma faixa de pano que atende pelo nome de shorts, e o busto generoso uma tira de tecido diáfano, e as orelhas brincos multicoloridos. Cruzou o caminho de Beatriz, sua amiga, que, assim que deteve nela os olhos, esgazeou-os a ponto de arremessá-los para fora das órbitas e, com voz e palavras que lhe traíam a surpresa involuntária, exclamou:

– Sam, meu Deus! Você está no Saara!? Nossa! Eu, a tremer de frio, e você…

– Oi, Bia. Meu corpo não reage ao clima segundo as leis da natureza.

– Sei… Exibida.


E Samantha e Beatriz rumaram, juntas, ao mercadinho.

O Homem que se Machucava Demais.

Não tinha Valério o porte de um portentoso e atemorizante guerreiro viking, nem o tipo escultural, apolíneo, de um herói helênico do tempo de Péricles; e tampouco o de um desgracioso, minúsculo, franzino pigmeu. Não era ele um varapau esquálido, risível e desengonçado, tampouco um gigante tourino, enxundioso, pesado; era um homem comum, de nariz comum, e comuns lhe eram os lábios, e o nariz, e as orelhas, e o queixo, e o rosto desguarnecido de barba e bigode, e a testa, e as mãos, e os dedos, enfim, era ele uma figura comum, esbelta, que já contava a idade de vinte e seis anos. Mas comum não lhe era a cabeleira frondosa, espessa, que lhe ataviava a cabeça, esta comum, e elevava-se do chão um metro e setenta centímetros de altura, aumentando-lhe a estatura em uns cinco centímetros. Invejavam-lhe a cabeleira, misto de juba leonina e crina equina, homens e mulheres, estas mais do que aqueles. Não era Valério um portento de força capaz de erguer uma tora de madeira de cem quilos e carregá-la por um quilômetro, e tampouco um fracote desguarnecido de músculos que mal conseguia erguer uma pena de galinha-d’angola. Extrovertido, e brincalhão, e espirituoso, de índole cativante, que alegrava o mais casmurro dos homens e a mais resmungona das mulheres, de todos a extrair, e sem esforço, sorrisos, risos e gargalhadas, estava sempre a surpreender com suas histórias seus familiares e parentes, e seus amigos e conhecidos, e seus colegas de trabalho. Casado, havia um ano e dois meses, com Jacqueline – que fazia questão de inscrer, em seu nome, o “c” entre o “a” e o “q” – bonita moça de vinte e dois anos, pequena, de um corpo frágil, quebradiço, dir-se-ia de vidro – tal observação dá a entender ao leitor que era a consorte de Valério mulher enfermiça. Reconsideramos, portanto, as palavras que usamos para descrevê-la, e com estas palavras a apresentamos: Era Jacqueline – e não nos esqueçamos do “c” entre o “a” e o “q” – pequena, magra, de cristal, doce, meiga, de pele acetinada, sedosa, de sorriso encantador; um modelo perfeito de uma ninfa, uma sílfide, uma naiade; era ela uma sereia; seus cabelos, atavios que lhe sublimava a beleza; seus olhos, lábios, sobrancelhas, cílios, nariz, orelhas, queixo, maçãs-do-rosto, cabelos, e mãos, e pés, incomuns, raros, dir-se-ia fantásticos, irreais. Mas eram reais, verdadeiros. E hipnotizaram Valério, um dos muitos pretendentes dela; e ela, de todos os homens que a requestavam, decidiu com ele unir-se em cerimônias matrimoniais civil e religiosa, porque não lhe resistia às espirituosidade e graça autênticas, que muito a faziam rir. E invejavam Valério os amigos dele, os solteiros, à procura cada um deles de sua cara-metade, e os casados, que sempre que comparavam a figura de Jacqueline cada qual com a de sua esposa, suspiravam, uns, trangredindo o décimo mandamento, a lamentarem haver um dia decidido vestirem uma aliança no dedo anelar da mão esquerda, e diante de um padre, ou, simplesmente, de um juiz de paz.
Tem princípio a nossa história num sábado ensolarado do mês de Novembro, à tarde, segundos antes do início do crepúsculo. Conta a nossa história três capítulos da vida de seu herói, o já apresentado Valério, o felizardo marido de Jacqueline. O primeiro passa-se em um bar, o segundo em uma casa, e o terceiro em um pronto-socorro. No desejo de não trocarmos os pés pelas mãos, não nos anteciparmos aos eventos, não acelerarmos a narrativa sonegando informações ao leitor, iremos por partes, num ritmo lento, mas não demasiadamente lento, com as minúcias que achamos apropriadas.
E vamos ao bar. E não a um bar qualquer o Valério foi. Ele foi ao bar do Evandro Saraiva, o popular, naquele bairro, e nas adjacências, descendente de nativos de alguma colônia portuguesa na África e de silvícolas ameríndios que escaparam das mãos de bugreiros, Tupi Guaraná, bar distante de sua casa uns duzentos metros, no quarteirão vizinho, à direita, na esquina das ruas Damião de Góes e Manuel Antonio de Almeida. E foi a passos lentos, como que a calcular-lhes os centímetros que cada um deles cobria, e a cronometrar seus movimentos, em cada passo a gastar o mesmo tanto de segundos, a cabeça ligeiramente abaixada, a sorrir, antecipando-se à cena que, desejava, criaria, uma peça, digamos, que pretendia pregar em quem no bar estivesse. Carregava, no braço direito, gesso, que o cobria quase que por inteiro. Com os dedos da mão esquerda coçou o peito, metros antes de chegar ao seu destino; e assim que sentiu algo lhe tocando a cabeça, passou-lhe a mão esquerda ao mesmo tempo que se deteve, e olhou para cima, à procura não sabia do que. Não encontrou o que o atingira; abaixou a cabeça, olhou ao redor, esquadrinhou o chão, e viu galhos e folhas, e concluiu que algum galho, pequeno, lhe acertara a cabeça. E seguiu rumo ao bar, onde chegou pouco depois. E mal transpusera o enquadramento da porta, anunciou-se. Assim que pôs os pés no território do Evandro Saraiva, passou ao seu lado, quase lhe tocando ombro com ombro, um homem de altura que equivalia à sua, gordo, calvo, trajado com uma bermuda, que lhe estava colada às coxas, e uma camisa, que lhe deixava à mostra a metade inferior da barriga proeminente. Saudou Evandro e os dois outros homens que com ele palestravam, ao balcão, todos animados, a se pronunciarem em alto e bom som, e a gargalharem, então perdidos numa animada confabulação acerca de futebol, todos a enodoarem a progenitora do árbitro da partida. Voltaram-lhe os três a atenção, um deles, naquele momento, a levar à boca o copo americano com cerveja alemã. E mal o viram, intrigaram-se, a atenção deles a convergirem-lhe para o gesso que lhe cobria o braço direito. Eram os dois amigos-de-copo de Evandro Saraiva, um, baixote, moreno acobreado, homem de vida difícil, via-se, de rochosa musculatura, semi-calvo, Renato, também chamado, pelos amigos, Galo de Briga, o outro, robusto, moreno, de estatura mediana, de cabelos encaracolados, preto-foscos, o Lobato, assim alcunhado devido às suas espessas sobrancelhas, e cujo nome de batismo era Vicente João Serafim Ricardo.
Antecipando-se aos seus dois amigos, Evandro, curioso, perguntou, zombeteiro, a Valério:

– Quebrou a patinha, donzela?!
Riram Vicente e Renato. E Vicente espetou, com um palito-de-dentes, que tirara de dentro de um copo com cerveja até a metade, um ovo de codorna cozido, e levou-o à boca.
Valério exibiu, então, aos três homens, o braço direito coberto com gesso, com ar triunfante, como se lhes exibisse um troféu arduamente conquistado, e antes de responder à pergunta que lhe fôra feita, Evandro fez-lhe segunda pergunta:

– O que houve, Valério?!

– Ouço o que me chega aos ouvidos. – respondeu-lhe o nosso herói. – Não sou surdo, ô, cacique txucarrapai.
Gargalhou Renato, visivelmente ludibriado pela loira gelada que namorava há alguns minutos. E Vicente sorriu, a inspirarem-lhe o sorriso a pergunta que Evandro fizera a Valério, a resposta que este lhe dera e a gargalhada de Renato.

– Vá se danar, paspalho – replicou Evandro.

– Oi, Galo – saudou Valério a Renato, que foi uns dois passos em sua direção, e deu-lhe três tapas no ombro direito, e passeou-lhe a mão pelos cabelos, acariciando-os, ao mesmo tempo que lhe dizia:

– ‘tá luzidio, Valérinho. De barriga cheia. Que vida mansa, marajá.

– Luzidio, eu, garnizé?! – observou Valério. – Veja suas penas. Brilham ao sol. Penas de ouro e de prata. Que exuberância.

– Apanhou da sua mulher? – perguntou Vicente ao recém-chegado.

– Antes fosse – respondeu-lhe Valério. – Dela eu receberia, e com muito gosto, a pancadas.

– Até eu – afirmou Renato, sorrindo tolamente. – A sua muié é uma tetéia.

– Não me desrespeite, franguinho. – replicou Valério, num tom jocoso. – Olhe o mandamento.

– Respeite a mulher do Valério, Galo de Briga. – reprovou Evandro a atitude de Renato.

– Não esquenta, Valérinho – desculpou-se Renato. – Fêmea de amigo meu para mim é macho.


Valério sorriu ao vê-lo pendular-se para a direita e para a esquerda.

– Vá beijocar a loirinha, galinho. – sugeriu-lhe Valério, que, voltando-se para Evandro, perguntou-lhe: – Quantas geladas o passarinho já bebeu?
Antes que Evandro lhe respondesse à pergunta, entrou no bar, com um jornal dobrado sob a axila esquerda, um magricela branco, de cabelo curto, penteado ao meio, trajado com calça e camisa machados de tinta, Gabriel, que, tão logo viu Valério, perguntou-lhe:

– O que houve, Valério?

– Darei a você, Pé-de-Pato – respondeu-lhe Valério -, a mesma resposta que dei para o cacique Tupi Guaraná: Ouço o que me chega aos ouvidos.

– Conte-nos o que aconteceu, zé-mané – solicitou-lhe Gabriel.

– A senhora muié dele – antecipou-se Renato a Valério – sentou a vassoura no lombo dele, sugando-lhe um litro de sangue, e partindo-lhe o braço em três partes, a do meio ele a jogou pro cachorro do Tupi.

– Cacique, por gentileza – disse Valério -, não dê mais nenhuma gota de malte para a criança. – E voltando-se para Renato, aconselhou-o: – Ô, hobbit, ponha o copo, com a boca para baixo, sobre o balcão. E não ponha mais cerveja na boca, ou vai fazer xixi na cama. – E voltando-se para Evandro: – Mestre morubixaba, sábio indígena, discípulo do mestre Yoda, telefone para a mãe do pouca-sombra, e diga-lhe que venha, e já, buscar o filhotinho, que acha que já é galo, mas que ainda não saiu do ovo.
Renato divertiu-se com o que ouviu. Vicente caiu na gargalhada. E Evandro e Gabriel riram – e este pediu àquele cerveja, e ele atendeu-o prontamente.
Assim que restabeleceram conversa, Valério respondeu à pergunta que Gabriel lhe fizera:

– O que me aconteceu!? Vocês querem saber o que me aconteceu!? Contarei o que me sucedeu, tim-tim por tim-tim. Apresentarei aos senhores todas, e mais algumas, minúscias, pormenorizadamente, com detalhes incalculáveis, num relato repleto de emoção, drama, suspense, mistério, surrealista e parnasiano, e barroco e romântico, a minha enocionante aventura, cujo encerramento, que não me foi do agrado, é cômico, quase trágico, e dolorido, muito dolorido, imensamente dolorido. Estava eu, belo e formoso, a tirar da geladeira a caixa com leite, após dela tirar um pote de plástico cheio de gelatina; não era um pote, digamos a verdade; era um prato de plástico; na verdade, não era um prato, nem um pote; mas era de plástico; era uma vasilha de bordas maiores do que as de um prato e menores do que as de um pote. Mas era de plástico, e de plástico fino, frágil.

– Desembucha, matraca. Você fala mais do que a nega do leite – reprovou-o Evandro Saraiva.

– Silêncio, majestoso pajé dos cataporas – retrucou Valério.- Vamos, passo a passo, a narrar a história. Continuemos, caros aristocratas bebedores do mais puro malte: Pus, sobre a mesa, o prato, ou pote, ou vasilha, ou tapoer, sei lá eu o que era aquela porcaria, com gelatina, e, em seguida, a caixa com leite; e assim que fechei a geladeira, de repente, mais que de repente, na velocidade de um raio, entrou, e logo saiu, na cozinha, um pardal, que me atingiu, com seus pés, a cabeça, assustando-me, e desequilibrei-me, e bati com o cotovelo na mesa, e derrubei, com a mão, não me lembro se com a direita, se com a esquerda, a caixa com leite, e leite derramou-se pela mesa e pelo chão, e esparramou-se, e no meu esforço de recuperar o equilíbrio, estiquei-me, desengonçadamente, e pisei na poça de leite, e pousei a mão, na mesa, onde havia leite derramado, e escorregaram-se-me, levando-me para o chão, violentamente, os pés e as mãos, e cai-me sentado. Doeu-me as almofadas. E tratei de me levantar; e assim que me pus de pé, furibundo, enraivecido, descarreguei um soco, e bem dado, na gelatina. E quebrou-se-me o braço. Vejam, senhores cidadãos do reino tupi: meu braço engessado, obra de um tombo, que um pardal me presenteou.

– E do que era tal gelatina? – perguntou-lhe Evandro, intrigado. – De pedra?!

– Não, Saraiva, não. – respondeu-lhe Valério. – Era de limão.

– De limão azedo? – perguntou-lhe Gabriel, divertindo-se com a situação. – Eu não sabia que com limão azedo se faz gelatina tão dura.

– Que gelatina dura, o que, Pé-de-Pato – falou-lhe, Renato, pronunciando, desajeitadamente, as palavras, silabando-as, exibindo dificuldade para coordenar os pensamentos, que lhe saíam aos trancos. – Você não conhece o Valérinho, não?! Ele é uma flor. Quebrou a patinha de moça. Bilu Tetéia.

– O Valério é de porcelana – comentou Vicente, dobrando-se numa gargalhada convulsiva.

– É uma rosa – disse Renato, aproximando-se de Valério, e passeando-lhe as costas da mão esquerda no rosto e deslizando-lhe a mão pelos cabelos.

– Podem rir – disse Valério, num tom fingidamente pernóstico e irritado em meio às gargalhadas de seus três interlocutores. – Gargalhem. Gargalhem. Se vocês conhecessem o final da minha aventura, que eu ainda não contei do princípio ao fim, não iriam rir, nem gargalhar, jamais, nunca. Eu poderia me recusar a prosseguir com a narração; não o farei, todavia, entretanto, porém, no entanto; embora os senhores bebedores de malte, glutões inveterados, não mereçam de mim ouvir nem mais uma palavra, eu, ainda assim, me dignarei a contar aos senhores o que se me sucedeu. Se porventura um raio cair-me sobre a cabeça, ainda assim eu narrarei o que me comprometi a narrar, e com todos os detalhes indispensáveis, queiram os senhores, ou não, mereçam, ou não, os senhores de mim ouvir tão emocionante relato.

– Deixa de lero-lero, e desembucha – reprovou-o Renato.

– Dê-me silêncio, galinho. – pediu-lhe Valério. – Vá cacarejar em outra freguesia. Antes de mais nada, digo: são de aço, e não de porcelana, meus braços. Mas, vejam. Melhor: escutem, escutem atentamente: eu soquei, e com um soco bem dado, daqueles bem dados, num supetão, a gelatina, esmagando-a, pulverizando-a, esmigalhando-a. E fez-se ouvir o barulho de algo se quebrando; e não era o algo a gelatina; era o meu braço. Ora, soquei a gelatina; e infelizmente, embaixo dela estava a mesa, e não mesa qualquer, de compensado; é a mesa de madeira nobre, jacarandá, herança de meus avós. O osso aqui do braço… Como se chama?! Fêmur?! Não sei. Eu nunca fui bom em poesia. Partiu-se-me o osso em dois. Foi um deus-nos-acuda! A Jacqueline ouviu-me o berro, e correu acudir-me. E num pulo chegamos ao Pronto Socorro. E logo atenderam-me os enfermeiros. E aqui estou, na companhia de três de meus amigos, quebrado, mas inteiro,a bebericar uma geladinha.
E estrondejaram, altissonantes, as gargalhadas.
Entraram no bar outros homens. E Valério logo inteirou-os do que lhe sucedera. Narrou a história, com diferenças insignificantes, quatro vezes, Renato a interrompê-lo a curtos intervalos, infalivelmente a criar cenas hilárias e a embaraçar a todos, em uma ocasião, sendo inconveniente, a ouvir uma reprimenda de Evandro Saraiva, que não admitia em seu território toda e qualquer atitude, e, consciente de seu papel desrespeitoso, desculpou-se com todos, sinceramente constrangido, apesar de sua ligeira ebriez.
Seguiu, animada, a conversa, até as vinte e duas horas.
Encerrado o primeiro capítulo da nossa história, nosso herói, Valério já há um bom tempo recuperado, removido de seu braço direito o gesso – que, um dia antes de o médico lho tirar, estava inteiramente coberto com inúmeras garatujas, e desenhos, uns exemplarmente bem-acabados, e uma pintura de um êmulo de Michelângelo, uma réplica de um afresco que embeleza a Capela Sistina, a obra-prima do admirador do gênio renacentista ladeava a assinatura, cuidadosamente trabalhada, com esmero incomum, de Jacqueline -, damos as primeiras palavras do segundo capítulo da aventura que acompanhamos atentamente.
Transcorreram-se quatro meses do dia que Valério, no bar do Evandro Saraiva, o Tupi Guaraná, anunciou o seu acidente. Estamos, agora, no mês de Março, em um sábado quente e abafado, às dezoito horas.
Valério e Jacqueline, ambos asseados, perfumados, havia poucos minutos banhados na água quente de um chuveiro, retiraram-se de carro, ela ao volante, ele, no banco posterior à direita dela, desajeitado devido ao gesso que lhe cobria a perna direita abaixo do joelho. Para entrar no carro, a amparar-se em muleta de madeira, marrom, manchada de preto em oito pontos, auxiliara-o Jacqueline, que o ajudara a acomodar-se no banco e a livrar-se da muleta. Incomodava-se Valério, que resmungava de tempos em tempos, sempre a adicionar às queixas comentários jocosos, esforçando-se para ver graça em sua situação. Jacqueline trajava um vestido, discretamente decotado, vermelho – que lhe respeitava os contornos do corpo -, as orlas a lhe descerem até os tornozelos, e as alças, finas, a sustentá-lo. Admirou-lhe a beleza e formosura Valério, que lhe disse que ela não tinha que se embelezar tanto, pintar, com tanto cuidado, com esmalte vermelho fosco, as unhas, e tampouco fazer uso de tanto capricho no penteado dos cabelos e dos cílios e das sobrancelhas, pois ela era naturalmente bela, divina, e louvou-lhe a beleza. Jacqueline, ao mesmo tempo que dele acolheu de peito aberto os elogios, pediu-lhe que não tivesse um ataque de ciúmes tal qual o que dera uma semana antes, na festa de casamento de um casal de amigos. Valério careteou.
Iriam à casa dos avós maternos de Jacqueline, Joaquim e Isabel, para a efeméride: septuagésimo quarto aniversário natalício do mais antigo ancestral vivo de Jacqueline, o vovô Joaquim, ancião pacato, de poucas, quase nenhumas, palavras, que, havia dois meses, na mesa de cirúrgias de um hospital, foi retalhado por um cirurgião, que lhe instalara duas pontes-de-safena, às pressas, após ele sofrer uma parada cardíaca que quase lhe roubara a vida.
Na casa de Joaquim e Isabel chegaram Valério e Jacqueline vinte minutos após retirarem-se de sua casa, ela a dirigir, com cuidado extremo, o carro, por ruas esburacadas, e mal-iluminadas, algumas envoltas pela escuridão, pois estavam apagadas as lâmpadas dos postes, e ele a reclamar do sacolejar do carro, movimentos abruptos que lhe provocavam dores na perna envolta em gesso.
E retiraram-se do carro. Mal havia Valério pousado a perna esquerda na calçada, escorando-se, desajeitadamente, na muleta, e Jacqueline a ladeá-lo, e de bem perto, aproximaram-se dele, curiosos, animados, eufóricos, sorridentes, Bianca e Bruno, gêmeos, de cinco anos, sobrinhos de Jacqueline, ele vestido com uma bermuda azul e uma camisa verde, e nos pés tênis pretos amarrados com cadarços brancos, e cabelos desmanchados, ela, com uma calça amarela e camisa branca, carregando, nos pés sandálias, e trazendo, presos, com uma presilha de plástico, os cabelos longos.
E Bianca, que se antecipara a Bruno um passo, abriu os braços para abraçar Valério, que se curvou, esforçando-se para não deixar seu rosto transparecer o desconforto que tal gesto lhe inspirara, para a frente, e ofereceu-lhe o rosto direito, que ela osculou, carinhosamente, ao mesmo tempo que Jacqueline agachava-se, e punha-se de cócoras, e abraçava e beijava Bruno, que lhe saltara aos braços num pulo prodigioso quase vindo a derrubá-la para trás. E saudaram-se com abraços e beijos Jacqueline e Bianca, e com um beijo Valério e Bruno. E assim que encerraram as saudaçoes calorosas, os beijos, os abraços,e Jacqueline pôs-se de pé, Bruno voltou-se para Valério e, apontando-lhe a muleta,perguntou-lhe:

– O que é isso, tio? É uma espingarda?
E Bianca chamou a atenção de seu irmão:

– Não, né, Bruno. O tio não é soldado.

– Marcha soldado, cabeça de papel; se não marchar direito, vai preso no quartel. – cantarolou Bruno. – Não é assim, tio, que soldado canta, e canta e marcha?

– É – respondeu-lhe Valério. – É assim que soldado canta, encanta, e marcha.

– Mas o que é isso? – perguntou-lhe Bianca, apontando a muleta.
E Valério respondeu-lhe:

– O meu estepe.

– Estepe!? – indagou, curiosa, a menina.

– É uma bengala – respondeu Valério, escondendo para si o sorriso que lhe animava o espírito.

– Bengala?! – indagou-lhe Bruno, intrigado, cismado.

– Não é bengala, não – observou Bianca, séria. – Não é um pão. Bengala é pão. Isso – e apontou para a muleta – não é pão. É madeira, madeira de árvore.

– É tábua – corrigiu-a Bruno.

– É madeira – replicou Bianca.

– Não é madeira, não – retrucou Bruno. – É tábua. Tábua é feito de árvore.

– Madeira também é feito de árvore, né, bobo!? – corrigiu-o Bianca, mostrando-lhe a língua.

– Bobona – xingou-a Bruno, que logo voltou-se para Valério: – Tio, isso – e apontou a muleta – não é estepe, não. Não é, não. Isso – e mais uma vez apontou a muleta – não é um pneu de carro.
Valério e Jacqueline não conseguiram controlar o riso. Jacqueline exibiu uma fileira de dentes brilhantes de tão brancos, perfeitos, lácteos. E Valério disse para as duas crianças:

– Vocês me pegaram, danadinhos. Isto – e indicou-lhes a muleta – não é estepe, nem bengala. É um cajado mágico de um bruxo feiticeiro do castelo do rei Príncipe Leão, vossa majestade do reino encantado. Muleta é o nome deste cajado; tem o poder de me amparar; se eu não o deixo, assim, encaixado, aqui, embaixo do sovaco, caio de bumbum no chão. Ai. Ai. Ai – fez que havia caído.
A representação dramática de Valério arrancou ondas de gargalhadas de Bruno e Bianca.
Aproximou-se deles, Laura, irmã de Jacqueline, de dezessete anos, de cabelos escorridos, tão brilhantes, que chamaram a atenção de sua irmã, que não se conteve ao elogiá-la. Beijaram-se as irmãs no rosto, ambas encostando-se os rostos, sem tocarem neles os lábios, movendo-os como se se osculassem. E Jacqueline avaliou os cabelos de Laura, pegando-os, cuidadosa e carinhosamente, e deixando-os escorrerem, suavemente, por entre os dedos das mãos.
Enquanto as irmãs conversavam, e admiravam-se, entretinham-se, numa palestra animada, Bruno, Bianca, e Valério, aqueles concentrados nas palavras deste.

– O senhor está com a perna quebrada, né,tio? – perguntou Bianca a Valério.
E antes que Valério respondesse, Bruno indagou-lhe, ao mesmo tempo que coçava o nariz e ajeitava a bermuda:

– Tio, por que o senhor quebrou a perna?

– Não foi de propósito, acredite – respondeu-lhe Valério. – Sabem o que me aconteceu? Não sabem, é claro. Vou contar para vocês o que houve. Eu estava, na varanda da minha casa, que é, também, a casa da tia Jacqueline, que manda quando não estou lá, a lavar o carro, um calhambeque aristocrático, e não uma lata-velha caindo aos pedaços, com água e sabão, mais água do que sabão, e muito sabão. E eu a passar a esponja com água e sabão no carro, e no carro a esguichar água para dele remover o sabão, até o carro brilhar de tão limpo, a assumir a figura de uma pedra preciosa. Brilhava que era uma beleza o meu carro. E eu, assim que olhei perto da roda de trás, não me lembro se do lado direito, se do esquerdo, vi uma gigantesca montanha de espuma.

– Bem grande? – perguntou-lhe, curiosa, Bianca.

– Enorme. Imensa. – respondeu Valério. – Enorme de tão grande. Imensa de tão enorme. Grandiosa. Maior do que todas as montanhas que existe em todo o mundo.

– E em toda a galáxia – completou Bruno.

– Sim. – confirmou Valério. – Em toda a galáxia. E até o infinito, e além. E lá estava a montanha de espuma, bem diante de meus olhos. E eu, não sei porquê, usando todo o poder intelectual da minha massa cinzenta, o miolo que recheia minha cabeça de homem sábio, decidi, para desfazê-la, dar-lhe um pontapé, e bem dado. E dei-lhe o chute. E quebrou-se-me a perna. Ai. Ai. Ai. Doeram-me pé e perna. Era tanta, mas tanta, a dor, que, não me aguentando em pé, fui parar, no chão, a berrar igual neném que apanha no bumbum.

– Mas, tio, espuma de sabão nem é dura – observou Bruno.

– É verdade – comentou Valério. Espuma de sabão não é dura. A espuma de sabão, meu querido sobrinho, não é dura, eu sei, você sabe, tu sabes, ele sabe, e ela também, nós sabemos, vós sabeis, eles sabem, e elas também, mas a roda, roda de metal, de adamantium, que a espuma de sabão escondia, é. É duríssima. Mais dura do que a minha cabeça. Duríssima. Que dureza! Doeram-me à beça pé e perna. Chorei, até, de dor, e dor bem doída. Não sei qual fenômeno se me envolveu, que, além de quebrar ossos dos dedos do pé, quebrei o da perna direita, a… Tíbia?! Não sei. É assim que se diz?! Sei lá. Geometria não é o meu forte. Foram pras cucuias os ossos.
As duas crianças gargalharam. Durante a festa, elas, mais do que Valério e Jacqueline, encarregaram-se de espalhar a história para todos os presentes na casa de Joaquim e Isabel.
Valério ainda não havia encerrado a sua narrativa, da casa dos avós de Jacqueline saíram Joaquim, um irmão deste, Pedro, e uma filha deste, Maristela, que ficaram a ouvir as derradeiras palavras do relato de Valério, que, assim que o encerrou, saudou-os e abraçou-os. E trataram todos de entrar na casa do aniversariante.
Encerrado o segundo capítulo da aventura de Valério, chegamos, agora, ao terceiro capítulo, que é o último que aqui relatamos, para, ao seu final, darmos fim à nossa história, à qual nos dedicamos, com agrado e boa-vontade, durante alguns minutos de nossa curta existência. E este terceiro e derradeiro capítulo, já dissemos, passa-se em um pronto-socorro.
Estamos, agora, no mês de Junho, na manhã, um pouco antes das sete horas, de uma quarta-feira de frio de trincar ossos, de fazer toda pessoa bater os dentes, uma espessa neblina a cobrir toda a cidade, impedindo as pessoas de verem o que havia a um palmo à frente do nariz.
No saguão de entrada do Pronto Socorro Municipal, estava, sentado numa cadeira-de-rodas, Valério, e a empurrá-la Sócrates, seu irmão. Detiveram-se à porta, à espera do carro que os conduziria à casa de Valério. Trazia o nosso herói uma atadura na cabeça, os dois olhos quase invisíveis, o esquerdo oculto sob espessa camada de pele preta-arroxeada, circundados por hematomas, o nariz quebrado, rubro, coberto com uma gase e esparadrapo, o rosto avermelhado, o braço direito e a perna esquerda engessados, e a perna direita inchada tantos eram os machucados que a cobriam. A aparência de Valério, de dar arrepios. Mal conseguia falar com seu irmão; a voz arrastava-se-lhe pelo esôfago, e nos dentes, encontrando dificuldades, praticamente intransponíveis, para lhe saírem da boca. Sempre que desejava falar ao seu irmão, este curvava-se, ligeiramente, para a frente, e punha-lhe a orelha à boca.
Estavam, à entrada do pronto socorro havia uns vinte minutos, quando abordou-o Denilson, amigo de Valério desde o pré-primário; ambos não se viam desde o casamento de Valério com Jacqueline. Assim que se aproximou deles, Denilson exclamou, surpreso, e sem esboçar vontade de ocultar sua surpresa:

– Ó mai góde!
Voltaram-se para ele Valério, e Sócrates, que lhe estendeu a mão direita, para apertar-lhe a direita, que ele lhe oferecia. E Denilson, encostando-se em Sócrates, e saudando-o com um bom-dia, e dando-lhe tapas fraternais nas costas, perguntou a Valério:

– O que aconteceu com você, Valério?! Atropelamento?! O que aconteceu? Meu Deus, Valério. Você está um bagaço. Um caminhão passou por cima de você?
Valério não respondeu; esboçou um sorriso acanhado, que se assemelhava ao esgar repulsivo de uma quimera fabulosa, monstruosa, mitológica.
Esperou Denilson pela resposta, mas obteve de Valério apenas silêncio e um olhar desaprovador. Diante de tal cena, Sócrates informou a Denilson que Valério mal podia falar, e pediu-lhe que dele se aproximasse. Denilson, então, curvou-se, pousou as mãos nos braços da cadeira-de-rodas, e perguntou a Valério:

– Um caminhão passou por cima de você? Ou foi um trem?

– Antes fosse – respondeu-lhe Valério, ciciando. – Antes fosse, Nil. Mas o veículo que me esmagou é maior, e mil vezes mais destruidor.

– Diga-me o que aconteceu – pediu-lhe Denilson, sua curiosidade atiçada pelas palavras enigmáticas de seu amigo. – Conte-me a história do começo ao fim.

– Nos mínimos detalhes? – perguntou-lhe Valério, esboçando um sorriso grotesco.

– Sim – respondeu Denilson. – Nos mínimos detalhes, e nos máximos, também, se os houver. Não me deixe de falar todos os pormenores. Estou curioso. Nunca vi você assim; ‘tá parecendo um pântano de tão disforme. Não sei que idéia eu quis expressar com tal observação, mas tudo bem. Esqueça o que eu disse, e conte-me o que se deu contigo.

– Eu dei um tapa na cara da Jacqueline, a minha querida esposa. – respondeu Valério, com dificuldade, as palavras mal lhe saindo da boca, e obrigado a fazer curtos intervalos entre cada uma das palavras que dissera e a repetir as mais extensas.

– Quê?! – surpreendeu-se Denilson com a revelação. – Ora, Valério. Não vá me dizer que a Jacqueline fez de você um bagaço. Conte-me outra, que esta não colou. A Jacqueline, tão pequena, tão frágil, tão fraquinha, fez de você saco de pancadas?! Não acredito.

– Espere, Nil – pediu-lhe Valério, sussurrando,paciência. – Não é o que você pensa. Não se precipite. Ouça-me: Discutia-mos eu e a Jacqueline. Mais ela comigo do que eu com ela. Íamos a berrar, a xingar um o outro, não me lembro porquê, e ela me disse não me lembro o que. Não me lembro o que ela me disse. Não me lembro. Dói-me a cabeça. Ela me disse algo que me tirou do sério, e do sério eu saindo, melhor, eu sendo tirado, perdi a cabeça, a compostura, a decência; e sem pensar duas vezes, dei-lhe um tapa, de supetão, na cara, com a mão direita; a direita, sabe? a destra. Foi um tapa bem dado. E a Jacqueline levou a mão ao rosto, e olhou-me com aquele olhar, sabe? de raiva, de raiva furiosa, de fúria raivosa. E entendi, então, ao fitá-la, que ela não iria levar desaforo para casa; aliás, estávamos em casa. E ela não permitiria que o desaforo ficasse lá dentro. Denilson, eu não sei, juro, no que eu pensava, naquele momento. Eu não pensava por mim. Eu não me responsabilizava pelos meus atos, mas me responsabilizaram por eles.
Todo o relato reproduzido no parágrafo anterior, Valério o apresentou num tempo que equivalia ao triplo do que gastaria se estivesse de plena posse de seus pulmões, esôfago e boca. Embora não pronunciasse corretamente as palavras e no volume adequado para se fazer ouvir pelo seu interlocutor, fez-se por ele se entender.

– E sua esposa, Valério – indagou-lhe Denilson -, aquela mulher tão frágil, tão meiga, deu uma sova em você?! E você quer que eu acredite nesta patranha?! Que a Jacqueline tem unhas de leoa, eu sei; que ela é brava, eu também sei. Ela herdou o temperamento sanguíneo do pai dela, aquele homem abrutalhado, fruto da miscigenação de nórdicos, bretões, russos, mongóis e visigodos. Até hoje eu não entendi como de um homem tão selvagem e estúpido e chucro nasceu mulher tão meiga e bela. Juro que não entendo. E olha que ela tem os olhos e o nariz dele.

– Não, Denilson – reprovou-o Valério, falando com a mesma dificuldade que vinha enfrentando até então. – Não é o que você está pensando. A Jacqueline é inocente. Não é ela a personagem mais importante da história. Não foi ela, é claro, que me moeu. Foi o irmão dela. Lembra-se dele?! O David?! David, aquele grandalhão, aquele brutamontes, aquele bárbaro da Ciméria. Homenzarrão de três metros de altura e dois de largura. Davi pequeno é só o da Bíblia. O David, meu antagonista, é um dos monstros da mitologia. De qual mitologia, não sei. Mas que ele é um monstro, é. Um monstro boxeador, lutador de muay-tai, de karatê, e de não sei quais outras, umas cinco ou seis, artes marciais. Coisas de marciano. Reconheço, Nil: o David é um bom homem. E é um ótimo irmão, ninguém há de negar. E é meu cunhado. Meu cunhado favorito. Ai! Dói-me o corpo; dói-me todo o corpo. Dos pés à cabeça. Até as unhas. Mas só dói quando eu respiro.

Faz calor, ou frio?

Era uma vez…
João Cascudo, descendente dos neanderthais, homem de meia idade (e o que eu quero dizer ao dá-lo de meia-idade, não sei), de estatura mediana, barriga pronunciada, de poucos fios de cabelos espalhados pela cabeça razoavelmente agigantada. Num dia de sol de rachar a cabeça de todo filho de Deus, saiu à rua com indumentária típica dos esquimós. Abordou-o Paulo, seu vizinho, que, ao vê-lo, perguntou-se, divertido com a figura bizarra dele, o que lhe ia na cabeça:

– Ô, casca grossa, você está no Pólo Norte?

– Não, songomongo; estou no Pólo Sul – replicou João, sério e sorridente, carrancudo e jocoso.

– E tem pinguim aí, ô, picolé? – persistiu Paulo, zombeteiro, a rir, agora com mais liberdade, de seu amigo.

– ‘tô com frio, ô, diabos!

– Frio!? Você está doente!?

– Doente, ou não, hoje estou com frio. Não sei o que me acontece hoje. Tão logo acordei, desci da cama; ao pôr os pés no chão, tremi, e dos pés à cabeça, de frio, de frio dos infernos.

– Dos infernos!? Dos infernos!? E há frio no inferno!?

– Quem sabe?!


E João e Paulo seguiram, juntos, até a padaria.

Sangue Judeu

  • – Você tem sangue judeu?
  • Por que você me pergunta se tenho sangue judeu?
  • – Os judeus, dizem, sempre respondem uma pergunta com outra pergunta.
  • – E só o povo judeu faz isso?
  • – Não sei. Mas dizem que os judeus nunca respondem uma pergunta com uma resposta. E você é tal qual os judeus, se a lenda é verdadeira. Sempre que alguém faz uma pergunta para você, você responde com outra pergunta, e não com uma resposta.
  • – E ao perguntar, em resposta a uma pergunta que me fazem, não estou dando uma resposta?
  • – Não. Você não responde à pergunta, mas faz outra pergunta, que obriga quem faz a você uma pergunta a dar uma resposta, e aí os papéis se invertem.
  • – Você pode me dar um exemplo?
  • – Posso. Claro que posso. Perguntei para você se você tem sangue judeu, e ao invés de me dizer se tem, ou não, sangue judeu, você me perguntou porque eu perguntara para você se você tem sangue judeu, e eu, então, em resposta à pergunta que você me fizera em vez de me responder à pergunta que eu havia feito a você, disse para você que dizem que os judeus sempre respondem uma pergunta com outra pergunta e não com uma resposta. E aqui estamos nós dois, eu respondendo às perguntas que você me faz. E você ainda não me disse se você tem sangue judeu.
  • – E por que eu diria a você se tenho, ou não, sangue judeu?
  • – E você não pode me dizer se você tem sangue judeu?
  • – E por que você quer saber se eu tenho sangue judeu?
  • – E há algum mal eu querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E por que haveria algum mal em querer saber se tenho sangue judeu?
  • – E quem disse que há algum mal em querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E não foi isso que você insinuou?
  • – Eu insinuei que há mal em querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E não insinuou, não?
  • – Insinuei?
  • – Se você não insinuou que há mal em querer saber de mim se tenho sangue judeu, por que você me perguntou se há mal em querer saber se tenho sangue judeu?
  • – E eu tal pergunta fiz por que eu vejo que há mal em querer saber de você se você tem sangue judeu?
  • – E não vê mal, não?
  • – Vejo?
    … e a conversa prossegue indenifidamente.

O Homem que Inventava

Poucas pessoas compreendiam as idéias de outro mundo de Charles Albert Newton.

A história começou com Gustavo da Silva, um homem simples e sábio. Ainda criança, ele aprendeu a ler e a escrever. Leu muitos livros. Os livros que contavam a vida dos maiores cientistas do mundo eram os que ele mais gostava de ler. Cresceu. Comprou uma casa. E dentro dela construiu uma biblioteca com um acervo de mais de mil livros, em sua maioria de histórias da vida e das idéias dos mais importantes cientistas de todos os tempos. Casou-se com Rebeca. Para o seu primeiro filho, Gustavo escolheu o nome Charles Albert Newton. E por que Gustavo batizou de Charles Albert Newton? Por que não o chamou ou de José, ou de Paulo, ou de Pedro, ou de João? Porque ao batizá-lo com o nome de Charles Albert Newton, homenageou os três cientistas que mais admirava: Charles Darwin, Albert Einstein e Isaac Newton. Agora que todos já sabem porque Charles Albert Newton chamava-se Charles Albert Newton, podemos continuar a nossa história.

Charles Albert Newton era o orgulho de Gustavo e Rebeca. Crescia, vigoroso – jogava futebol e praticava natação – e muito inteligente. Lia bons livros. Antes dos vinte anos, já fazia experiências e inventava máquinas que melhoravam a vida das pessoas. Era a pessoa mais famosa da cidade em que morava. Todas as pessoas o admiravam e o achavam um pouco estranho – mas não o achavam muito estranho, pois ele gostava de dançar, assistir a jogos de futebol, e de carnaval. Mas quando ele punha-se a falar de suas idéias, de como funcionavam as suas invenções, as pessoas ficavam com cara de bobas – ninguém entendia o que ele dizia. Charles Albert Newton não era um cientista maluco – ele era muito esperto e sabia o que queria: queria que todas as pessoas vivessem bem; que ninguém passasse nem fome, nem sede; queria que todas as pessoas tivessem boas casas e boas roupas; e boa comida todos os dias, para que tivessem saúde de aço.

Era um homem dedicado às ciências, às invenções; às pessoas, que o chamavam de O Homem Que Inventava. E ele apareceu até em capa de revista! E ficou famoso! E com as suas invenções ajudava as pessoas.

Um dia, ele se recolheu à sua casa, e nada mais inventou. As pessoas estranharam.

– Por que o Charles não inventa mais coisas interessantes? – perguntou um morador da cidade.

– Levei para o Albert uma defeituosa máquina – disse outro morador -, e ele não soube consertá-la.

– Pedi ao Newton uma solução para o problema das enchentes que têm nos maltratado. Sabem o que ele me disse? Que não tem idéia para resolver o problema – disse o prefeito, entristecido e preocupado.

– Esgotaram-se as idéias do Charles? – perguntou uma senhora respeitável.

– Para mim, o Albert perdeu um parafuso – comentou, rindo, um homem brincalhão.

– Não diga bobagens – disse um homem que não gostava de brincadeiras bobas. – O Newton só está precisando de alguns dias de descanso.

Sem as brilhantes invenções e as idéias amalucadas de Charles Albert Newton, empobrecia-se a cidade.

Passaram-se os dias.Charles Albert Newton não inventou nenhuma extraordinária máquina e não pensou nenhuma idéia meio doida que ninguém entendia muito bem, mas que todo mundo adorava.

E passaram-se outros dias. E outros dias. E outros dias. E outros dias. E Charles Albert Newton não apresentou nenhuma boa idéia e nenhuma invenção brilhante.

Um dia, caminhando, a cabeça abaixada, Charles Albert Newton viu uma linda menina chorando, foi até ela, e perguntou-lhe:

– O que aconteceu, menina?

– A minha boneca… naquele buraco – disse a menina, aos soluços, gaguejando. Charles Albert Newton foi até o buraco, que era fundo.

E a menina chorava.

– Qual é seu nome? – perguntou-lhe Charles Albert Newton.

– Lúcia – respondeu a menina.

– Lúcia, vou pegar a sua boneca, está bem? – prometeu Charles Albert Newton, que logo pensou num meio de tirar a boneca de dentro do buraco, que era fundo. Olhou ao redor, e encontrou a solução.

Um homem passeava; trazia consigo um guarda-chuva. Charles Albert Newton pediu-lhe o guarda-chuva emprestado, e ele, gentil, lho emprestou. E quebrou Charles Albert Newton, de uma árvore, dois galhos compridos, e pediu para a Lúcia, que o observava sem entender o que ele fazia, as maria-chiquinhas com as quais ela prendia os cabelos; ela lhas deu. E Charles Albert Newton prendeu, com uma das duas maria-chiquinhas, uma das pontas de um galho à uma das pontas do outro galho, e, com a outra maria-chiquinha, a outra ponta deste galho à ponta do guarda-chuva. E segurando o galho que não estava preso, com uma das maria-chiquinhas, ao guarda-chuva, desceu o guarda-chuva até o fundo do buraco. Com todo o cuidado do mundo, enganchou, na alça do vestido da boneca, o cabo curvo do guarda-chuva. E puxou o galho; junto com o galho veio o outro galho e uma maria-chiquinha, e, pouco depois, a outra maria-chiquinha e o guarda-chuva, e, no cabo curvo do guarda-chuva, a boneca da Lúcia.

Lúcia deu muitos pulos de alegria, e abraçou e beijou a boneca. E abraçou e beijou o gentil homem que emprestara o guarda-chuva para Charles Albert Newton. E abraçou e beijou Charles Albert Newton.

– Charles Albert Newton, você é o meu herói – disse Lúcia, imensamente feliz.

Charles Albert Newton restituiu o guarda-chuva ao gentil homem que lho emprestara e correu para a sua casa, a cabeça cheia de idéias maravilhosas e invenções de outro mundo.

Enganou-me o vendedor de livros.

– Sérgio, comprei gato por lebre. Acreditei no Djalma, do sebo Maravilhas Em Papel, e danei-me. Cinco tijolos de ouropel, e não de ouro. Pagar-me-á caro, muito caro, aquele carequinha vendedor de livros. Deixe estar, jacaré; a lagoa há de secar. Um dia é da caça; o outro, do caçador. O mundo não para; dá voltas. Aquele pouca sombra vai ver o que é bom para a tosse e com quantos paus se fazem uma canoa. A vingança é um prato que se come frio. Peguei a mania dos anexis. Agora, cheio de suspeitas, irei à delegacia de polícia, e solicitarei ao delegado me mostre a capivara daquele aeroporto de mosquito e pintor de rodapé. O filho-da-mãe, que sabe que sou traça-de-livros e rato-de-biblioteca, telefonou-me, hoje, de manhã, um pouco antes das dez, e disse-me: “Senhor Gilberto, tenho em mãos cinco volumes de um dicionário do Laudelino Freire, novíssimos. Sei que é o autor do teu agrado. Estás interessado em adquiri-lo?” “Do Laudelino Freire!?”, perguntei-lhe, admirado, espantado com tão agradável surpresa. “Sim, senhor Gilberto. Do Laudelino, o mestre Laudelino.” “Dicionário novo, Djalma?!” “Novo, não, senhor Gilberto. Novíssimo!” “Mande-mos, imediatamente. Quero recebê-los ontem. Se é do Laudelino, é meu. Cinco volumes?” “Sim. Cinco volumes.” “São meus os cinco. O Laudelino fará companhia aos mestres Silveira Bueno e Caldas Aulete.” “Negociemos o preço.” “Diga para o boy trazer o Laudelino, Djalma. Enquanto ele vem, negociaremos o preço de tal preciosidade. Negociaremos o preço, que o valor é inestimável. Agraciaram-me os deuses, que hoje estão de boa veneta, com a fortuna! E assim que o boy chegar, pago-te no cartão.” “Sim, senhor Gilberto. Ordem dada, ordem executada. O boy já saiu daqui. Chegará na tua casa num pulo.” E assim foi, Sérgio. Assim foi. Nem bem eu e o Djalma havíamos acordado o preço do dicionário, toca-me a campainha. Era o boy com o pacote. Paguei-lhe o preço combinado com o Djalma, e entregou-me o boy o pacote, que pesava, mensurei-lhe a tonelagem assim que o tive em minhas mãos, dois mil quilos. Despedi-me do boy, fechei-lhe, com certa má educação, reconheço, a porta, antes, mesmo, de ele me haver dito ‘Tenha um bom dia, seu Gilberto”, e corri, desajeitadamente, pois era demasiado o peso dos livros, à sala-de-estar, onde, exausto, cheguei, cachoeiras de suor a escorrerem-me das têmporas, e com a língua para fora da boca, e célere pus-me a abrir o pacote. E aos meus olhos reluziram cinco livros, grossos, grandes, imensos, monumentais, grandiosos, de capa dura, marrons. Admirei-os. Temi tocá-los. Acreditei que se os tocasse, eles desapareceriam como num passe de mágica. Eu sonhava! Sonhava, maravilhado, no sétimo céu, num estado espiritual de alumbramento indescritível. Peguei o Laudelino. Acalentei-o. Embalei-o. Na lombada do volume um, eu li: Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, e o venerável nome do autor de tão prestigiada obra, Laudelino Freire. E com suavidade movi-lhe a capa; e li a edição: era a segunda; e a editora: Livraria José Olympio Editora; e… e… Sérgio, você não me acreditará o que li ao pé da página. Jamais. O ano da publicação do dicionário: 1954. Novíssimo! Novíssimo, disse-me o Djalma, aquele pé-de-soldadinho-de-chumbo! Tem o dicionário sessenta e oito anos de vida! Sessenta e oito! É quase um ancião! Novíssimo, disse-me o Djalma, aquele tratante! Pagar-me-á muito caro, com a vida, aquele anão-de-jardim! De 1954! Novíssimo!? 1954!

O neto petulante e o avô espirituoso

Petulante, o garoto abordou seu avô, que, entendia ele, era um velho gagá, e, prelibando do constrangimento que, acreditava, lhe iria impor, perguntou-lhe:

– Vovô, o senhor tem juízo?
E respondeu-lhe o avô:

-Não. Eu já transferi todos os meus bens ao seu pai, que os perdeu antes de você nascer.

 … e o homem se transformou em um animal.

Canta-me, ó, musa, o trágico destino de Ésquilo, o maior dos dramaturgos helênicos.

Foi na era de ouro dos deuses do Olimpo. Ao saber que Ésquilo escrevera Prometeu Acorrentado, obra que faria seu autor tão respeitado quanto os deuses, Zeus, enciumado, decidiu fazê-lo sofrer pelos dias que lhe restavam de vida. Chamou o deus dos deuses Baco, e deu-lhe a ordem: “Deus do vinho, desça ao mundo dos mortais. Vá à residência do petulante, presunçoso Ésquilo, e tire-lhe o assento. E diga-lhe que se ele se sentar em qualquer outro assento, eu o enviarei ao reino de Hades. Vá!”

Baco, tão veloz quanto Mercúrio, desceu à terra dos homens; mas antes de rumar à residência de Ésquilo, foi a uma taberna, da qual se retirou, pra lá de Bagdá, soluçando, zonzo, a trançar as pernas, após sorver o conteúdo de quatro tonéis de vinho. E foi cumprir a ordem que recebera do deus supremo do Olimpo. Chegou à residência do êmulo de Sófocles, e sem se anunciar nela entrou, aproximou-se dele, e removeu-lhe o acento.

… e assim Ésquilo se transformou em um esquilo.

Eu não esqueci

Assim que Roberto regressou, da casa de sua sogra, à sua casa, sua esposa, Ludmila, perguntou:

– Roberto, você trouxe os chinelos dos meninos e a jarra da Camila?

– Não.

– Não!? Mas, Roberto, eu pedi para você me trazer os chinelos e a jarra.

– Eu sei.

– Sabe!? E por que você não os trouxe?! Esqueceu?

– Não esqueci.

– Então, por que você não os trouxe?

– Eu não me lembrei de trazê-los.

Remédios e galos

Chegado à ancianidade, cabelos grisalhos, poucos, a cobrir-lhe a cabeça, João, após um colapso cerebral, à recomendação do neurologista, passou a ingerir, todo dia, dois comprimidos de um medicamento de estímulo neurológico. Um dia, no rancho da sua casa, abriu o frasco de comprimidos, e foi, copo de vidro à mão, ao filtro, encheu de água o copo, tirou do frasco dois comprimidos, e assim que ouviu dois de seus galos se lhe aproximando, de papo vazio, lembrou-lhe que não lhes dera milhos. Foi até a vasilha de plástico cheia até à boca de milho, dela tirou uma “mãozada” de milho, e arremessou-a aos galos; assim que os grãos de milho caíram no chão, notou que entre eles estavam os dois comprimidos. Bateu os pés no chão, para afugentar os galos, mas já era tarde; eles, esfoemados, além dos grãos de milho, já haviam engolido os comprimidos. “Diacho!”, exclamou João. “Peço a Deus que os galos não morram por causa dos comprimidos, que para mim são um santo remédio, mas para eles venenos, talvez.” Deus atendeu às suas preces. No dia seguinte, os dois galos, para surpresa de João, além de não morrerem, resolveram dois problemas, um de trigonometria e um de juros compostos, e durante duas longas horas lucubraram acerca da origem da vida.

Aceita um cafezinho?

Eram sete horas da manhã de um sábado. Roberto e Maria, que acordaram às seis horas, preparavam o café-da-manhã. O dia acordara nublado; o clima, ligeiramente frio. Dormiam, a sono solto, os dois filhos do casal, um menino de nove anos, e a menina, de sete. Assim que Roberto pegou o telefone para contatar seu irmão, com quem iria, às dez horas, ao hospital, visitar o pai, Vinicius, internado, havia dois dias, devido os graves ferimentos que lhe resultaram de um acidente de carro em que se envolvera, soou a campainha, suavemente, uma vez. Abandonou Roberto o telefone e foi à porta; assim que a abriu, exibiu um largo sorriso; diante de si, a figura pequena, de Teresinha, sua tia-avó, irmã de seu avô paterno, mulher nonagenária, de fibra inesgotável. Trajava a idosa venerável um vestido simples, colorido, e tinha presos os cabelos com maria-chiqunha que uma sua bisneta lhe presenteara no aniversário natalício do ano anterior. Foi Roberto saudar sua tia-avó com um caloroso abraço e beijos carinhosos e afetuosos no rosto, e convidou-a para entrar à casa. Entraram. Queria Teresinha notícias de seu sobrinho, o pai de Roberto, e este lhas deu com todas as minúcias que sabia. Entrada na cozinha, a simpática idosa saudou, com todo o carinho do mundo, a esposa de seu sobrinho-neto, e ela lhe correspondeu com carinho equivalente. Havia dez anos não se encontravam para um dedo de prosa Teresinha com Roberto e Maria, desde que estes, recém-casados, deixaram a roça para irem morar na cidade.

– Tia Teresinha – falou-lhe, amavelmente, Maria -, a senhora aceita beber café conosco?

E a nonagenária, sorridente, respondeu-lhe:

– Agradeço o convite, querida. Mas café eu não quero, não. Bebi um bom dedo do pretinho na casa da minha Elizabeth. Não é desfeita. Mas se não for demais pedir, eu aceito um pedacinho de nosco.

Roberto e Maria de imediato entenderam a confusão que a tia-avó fizera; e Maria, antecipando-se a ele, foi à prateleira, desta abriu uma de suas quatro portas, e puxou um pote de vidro, vazio, e disse à Terezinha, mostrando-lhe o pote:

– Perdoe-me, tia. Esqueci que tinha acabado… Mas temos bolachinhas, biscoitinhos e bolinhos de laranja.

– Não se acanhe, menina – disse-lhe Teresinha. – Eu aceito uns biscoitinhos. São de nata?

– Temos de nata e de leite – respondeu Maria.

– Então eu comerei um de cada. Ou mais – disse Teresinha, que sorriu, divertida.

O café-da-manhã foi recheado de lembranças.

Convalesci. Estou fora de perigo. Não se preocupem.

Adoeci. De gripe. De resfriado. De febre. Eu aproveitara a promoção, e comprara o pacote anunciado: “Levem cinco vírus pelo preço de um: combo promocional: Covid original, Covid versão Delta, Covid versão Ômicron, Influenza e H1N1. Aproveitem! Cinco vírus pelo preço de um.” Aproveitei a oferta. E eu a perderia?! Sou brasileiro; e não perco oferta nunca. Não deixei que se me escapasse por entre os dedos promoção tão generosa.
Acamado, dores de cabeça a afligir-me vinte e quatro horas por dia, febre a queimar-me, em revoltas incontíveis a fauna e a flora estomacais – tão excruciantes as dores que parecia-me que abutres removiam-me as entranhas -, a debilitar-me diarréias, a pressão arterial a gangorrear violentamente. E eu a cuspir catarros, e meus olhos a eliminarem secreção esverdeada em tal quantidade que me colaram as pálpebras, impedindo-me de ver a luz do dia. E assim vivi um dia, dois dias, três dias, quatro dias, a sonhar com a minha convalescência, o que se deu no oitavo dia de ingente sofrimento. Melhorei, a olhos vistos. Foram-se-me as dores, e a febre, e os vômitos, e as diarréias; enfim, melhorei. E piorei. E meu corpo tornou a arder em chamas, e as dores de cabeças regressaram, constantes, ininterruptas, para me atormentarem, e meus pulmões a encherem-se de catarro, que eu tinha de cuspir assim que me subiam à boca. E passaram-se os dias, a flagerarem-me dores atrozes, e pensamentos agourentos a tangenciarem-me a cabeça; e principiei a delirar; e, repentinamente, para a minha surpresa, convalesci, arrefeceu-se-me a febre, atenuaram-se-me as dores. Enfim, convalesci. Melhorei. Era inegável: Melhorei. E piorei. Tornei à cama. Voltaram-me a febre, as dores de cabeça, os vômitos, as diarréias, as oscilações violentas da pressão arterial. E pensei, durante os delírios febris, com os meus botões: “Pela segunda vez, após melhorar, piorei. Basta! Que eu não melhore mais! Nunca mais! Jamais! Quem, sem que eu melhore, eu sare!” Salutar, a auto-sugestão. O poder da mente é extraordinariamente fabuloso! E assim, sem que eu melhorasse, sarei. E sarei bem. Estou pronto para a próxima.

A Dona Morte chegou! Tranquem-se nas suas casas! A Dona Morte chegou!

Estava, naquele dia de céu azul-anil, uma ou outra nuvem a viajar, pachorrentamente, pela abóbada celeste, caminhando, a manquitolar, com a despreocupação de uma entidade imortal, a Dona Morte, andrajos pretos, felpudos, e tétricos, a cobrir-lhe a pele apergaminhada, ocultando de todos os seres vivos sua figura agourenta. Pontilhava o asfalto com a extremidade inferior de um bastão comprido, tão preto quanto as vestes que a cobriam e em cuja outra extremidade havia uma foice afiadíssima, quando, à sua direita, chegou-se um carro, desacelerando, e cujo motorista, um varapau barbudo de grossas pestanas, perguntou-lhe: “Ô, Dona Morte, o que a senhora faz por estas bandas?”, e ela, voz pausada, ciciante, sibilina, sem se dignar a virar-lhe a cabeça, e sem interromper os passos, respondeu-lhe: “Estou dirigindo-me à cidade Tal.” E o motorista pisou, incontinenti, no acelerador, a ponto de afundá-lo no chão do carro. Estava próxima a cidade Tal. Dela distava Dona Morte um quilômetro. Ia tão lentamente a lúgubre senhora, que precisou ela de seis horas e quarenta e oito minutos para entrar-lhe nos domínios; e dela retirou-se três horas depois, a caminhar, claudicante, a pontilhar o asfalto com o bastão, a foice, rubra, a gotejar sangue, e rumou à sua casa, onde chegou à meia-noite.
Na manhã seguinte, ligou Dona Morte o telefone celular, acessou uma página de notícias, e leu o título, que vinha em letras garrafais, da reportagem principal: “Dona Morte matou vinte e dois mil e seiscentos e quarenta e sete moradores da cidade Tal.”, seguido do subtítulo, em letras menores: “A pequena cidade Tal, de setenta e cinco mil habitantes, vive uma tragédia sem precedentes. O povo chora a morte de seus entes queridos.” E de imediato Dona Morte arregala os olhos, abismada, indignada: “Mentirosos! Eu não matei tanta gente assim, não. Ao chegar à cidade Tal o chão dela já estava juncado de cadáveres. Matei quatro pessoas, apenas quatro. Assumo a responsabilidade por tais mortes. Que as debitem na minha conta. Quanto às outras vinte e duas mil e seiscentas e quarenta e três, debitem-las na do Senhor Medo.”

O preço do açúcar.

Hoje de manhã, domingo, João despertou duas horas mais tarde do que a hora que, nos dias-da-semana, deixa o mundo dos sonhos. É João um filho-de-Deus. Concede-se aos domingos o prazer de estender o tempo que passa a sonhar com beldades em ilhas desertas. Espreguiçou-se. E retirou-se de sob o lençol, e desceu da cama. Banhou-se. E à cozinha foi preparar o café-da-manhã. Ao tirar da prateleira o pote de vidro transparente que usa para condicionar açúcar, viu-o vazio. Tratou de ir ao mercadinho, logo ali, a um pulo, à frente de sua casa. Quanta comodidade! Tirou da gôndola um saco de um quilo de açúcar, e foi ao caixa – melhor, à caixa -, tirou da carteira dinheiro, e pagou pelo açúcar, com um pouco de má-vontade, afinal está o preço do açúcar salgado.

O Pensador

Lá estava ele, à Rodin, sentado no banco da praça, a pensar, presumiam, e a pensar, profundamente, numa questão importante para a espécie humana. De longe, toda pessoa o confundia com uma estátua: a do Pensador. Eram idênticos o homem e a estátua. Incorporava o homem o ideal do pensador. Talvez tenha sido ele o homem que serviu de modelo para Rodin. Ele era um homem na altura dos trinta anos. Gilson era o seu nome. Gilson Alvarenga de Souza Lima. Gilson, o pensador. O seu silêncio e a sua postura davam a entender que ele era um sábio.

– Aquele moço é muito inteligente.

– Como diz o ditado: Em boca fechada não entra mosquito.

– Ele é um pensador. Ele pensa antes de falar. É sensato. É inteligente.

Eram esses os comentários que aventaram a respeito de Gilson. Mas não havia unanimidade. Havia vozes destoantes, e uma delas era a de Zulmira, mulher de sessenta anos, ativa na sociedade, forte, vigorosa, sempre a falar; uma cidadã sem papas na língua, corajosa a ponto de abordar o prefeito na rua e dizer-lhe, no rosto, olho no olho, verdades que ninguém ousava lhe dizer. Tinha fama de encrenqueira, e o era, de fato. Temiam-lhe a língua ferina. Ai daquele que lhe conquistasse a desafeição! Tinha de ter muito jogo de cintura para esquivar-se das farpas que ela disparava sem pena nem dó. Zulmira ia da vulgaridade à sutileza num piscar de olhos, surpreendendo a todos.

– Que sábio, o quê! Que pensador, o quê! Ele, parece-me, é mudo – desdenhava Zulmira, referindo-se a Gilson, ao ouvir elogios a ele. – Aquele moço… Ele deve ser mais burro do que uma porta. Está, lá, sentado, há três horas. E nem se mexe. Eu vou tirar a história a limpo.

Sob olhares de curiosos, Zulmira andou, a passos firmes, atravessou a rua, e, na praça, foi na direção de Gilson, que lhe ignorava a aproximação, se postou a um metro de distância dele, e saudou-o, tirando-o da posição que sustentava até então. E ele voltou-se para ela, e fitou-a, alheado. Após alguns segundos, Zulmira perguntou-lhe:

– Em que você estava pensando? Você está sentado, há horas, tal qual uma estátua, a mão no queixo, o cotovelo fincado na perna, a olhar para o chão. Em que você tanto pensa?

– Eu não estava pensando, minha senhora. Eu… – principiou Gilson a falar, e Zulmira logo o interrompeu:

– Você não estava pensando?

– Não.

– E o que você fazia, então, se não pensava?

– Eu olhava para as formigas que estão entrando e saindo daquele formigueiro.

O sobrinho mais velho que o tio.

Estavam, na casa dos senhores Silva, Pedro e Maria, anciãos nonagenários, comemorando o aniversário natalício do patriarca, dezenas de familiares e amigos. O ambiente, animado, contagiante. Dentre os presentes, João, irmão de Pedro, idoso octogenário, de cabeça quase que inteiramente desprovida de cabelos, sendo brancos lácteos os poucos que lhe restavam, e Renato, filho de Pedro, de cinquenta e dois anos, dono de vasta cabeleira branca. Conversavam, na companhia de outros familiares, parentes e amigos, descontraidamente. Em um momento da conversa, Renato perguntou ao seu tio João: “Tio, o senhor tem oitenta e cinco anos, ou oitenta e seis?” E respondeu-lhe seu tio: “Oitenta e cinco.” Renato, então, comentou, simulando constrangimento: “Oitenta e cinco. Puxa! Os homens da sua geração, tio, são mais bem conservados do que os da minha. Veja… Eu, por exemplo, sou vinte e três… trinta e três anos mais novo do que o senhor, e, agora, olhando para o senhor, sinto-me mais velho.” Fez uma pausa; e um bom número de par de olhos o fitaram, na expectativa, esperando, dele, a conclusão do comentário. E assim que se deu por convencido de que criara o ambiente apropriado para arremetar seu discurso, disse Renato: “É verdade, tio. Sinto-me mais velho do que o senhor. Veja bem… Olhe para a minha cabeça: Eu tenho mais cabelos brancos do que o senhor.” E todos caíram na gargalhada.

Interessante diálogo ocorrido numa farmácia

João foi à farmácia comprar remédios para seu pai, acamado há dois dias. Esperou, na fila, para ser atendido, se muito, cinco minutos. Atendeu-o uma graciosa morena de olhos amendoados, sorridente. Enquanto verificava, na tela do computador, o preço de um dos três remédios listados na receita, que João lhe entregara, aviada pelo médico, ela lhe perguntou: “Convênio?”; e João, inexpressivo, respondeu-lhe: “Sem vênio”. E ela exibiu um lindo sorriso de dentes brancos, brilhantes, que muito o agradou. Não havia se passado um minuto, ela perguntou para João: “Quem é Jeremias?”, referindo-se ao nome registrado na receita médica. Ele respondeu-lhe: “É o meu pai”. E ela deu sequência à conversa: “Qual é a doença dele?”. E João, no mesmo tom inalterado, inexpressivo, satisfez-lhe a curiosidade: “Velhice”. A resposta lacônica inspirou sorriso contido à morena que o atendia. Ela fitou-o, sem saber o que pensar; e se se soltava a gargalhada que segurava consigo a muito custo preservando-se de constrangimento. E João logo completou: “E não tem cura”. A graciosa morena passeou o seu delicado dedo indicador direito no narizinho arrebitado que lhe adornava o belo rosto, exibiu um olhar que refletia o seu estado de ânimo, divertido, achando graça do que João lhe dissera e da postura dele, reservada, o rosto dele sem confessar o que lhe ia no íntimo. Mal sabia ela que atrás do rosto impassível de João ocultava-se um outro rosto, que expressava o espírito jocoso, cômico, dele, rosto que estava a gargalhar gostosamente, divertindo-se com o embaraço e a confusão que ela exibia.

Descer para baixo e subir para cima.

– Eu, então, desci para baixo…

– Desceu para baixo!? Mas é para baixo mesmo que se desce.

– Nem sempre.

– Que!? Desce-se para cima!? Não me diga que, além de se descer para cima, sobe-se para baixo.

– Digo.

– Então diga.

– Eu, ontem, desci para baixo…

– Não precisa dizer que desceu para baixo, pois sempre que se desce desce-se para baixo.

– Ontem, deixe-me falar e preste atenção, besta, após subir, para cima, pela escada, da laje, desci, para baixo, pela escada, para o chão. Portanto, subi para cima e desci para baixo.

– Ô, João, você não…

– Cale a boca. Eu ainda não terminei. Ao subir, para cima, pela escada, da laje, eu subi, portanto, para cima, e me pus, então, embaixo do telhado. Eu, portanto, subi, pela escada, do chão, para baixo do telhado. Posso, então, dizer que subi para baixo, neste caso, de cima do chão para baixo do telhado. Entendeu? Eu, depois, ao descer, pela escada, para baixo, da laje para o chão, me pus em cima do chão. Eu, portanto, desci, pela escada, de cima da laje (ou de debaixo do telhado, tanto faz) para cima do chão. Posso, então, dizer que desci para cima, neste caso, de cima da laje (ou de debaixo do telhado) para cima do chão.

– Mas, João, você não entendeu…

– Nem mas, nem meio mais. Vá estudar Língua Portuguesa e lógica básica, e não me torre mais a paciência.

Olimpíadas 2.052: O Último Atleta Atlético.

Notícia do Jornal Paraíso do Universo Novo, edição vespertina: A Humanidade Livrou-se da Última Quimera.

Realizou-se, hoje, às oito da manhã, no estádio A…, a mais aguardada prova do atletismo global, a dos cem metros rasos, da qual participaram três atletas de beleza mesmerizante e um exemplar de uma era que exala os seus últimos suspiros, de uma era que, para a felicidade dos humanos, está nos estertores da morte. Neste memorável dia, em todos os cantos do mundo, bilhões de pessoas assistiram a tão desejado espetáculo esportivo, evento grandioso que, além de apresentar ao mundo três esportistas excepcionais, os maiores que a civilização humana jamais conheceu, exibiu uma anomalia da natureza, um ser bizarro, comum na era incivil e bárbara, bruta e estúpida, que se esvai rapidamente, e está próxima a sua extinção, Tlob Niasu, um homem dotado da nefasta masculinidade tóxica. É Tlob Niasu um ser monstruoso, disforme. Tem um metro e oitenta e cinco centímetros de altura, e pesa oitenta e oito quilos; seu corpo, horrivelmente ossudo; sua figura, hedionda, de provocar asco em todas as pessoas. É ele uma criatura horripilante, de braços e pernas recortadas de músculos monstruosamente definidos, músculos a constituírem uma grotesca estátua de carne, e de um tronco desprovido da flacidez das belas e formosas pessoas do nosso tempo. É Tlob Niasu um espécime de tipos humanos de uma era que os humanos desejamos esquecer; é ele de uma era fadada à extinção – para a felicidade e a harmonia universais. É ele o último exemplar do tempo de irracionais bípides implumes. Os outros três competidores são atletas notáveis, donos de invejáveis talentos atléticos e intelectuais, e psicológicos e espirituais. São eles 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8. São os três modelos perfeitos de beleza física. Tem 0/21/32-3 um metro e sessenta e cinco centímetros de altura; seu corpo é composto de uma espessa camada de gordura de uma beleza ímpar a formar dobras excepcionalmente belas; tão forte, tão poderoso, de uma força descomunal, carrega os duzentos e quarenta e seis quilos de seu corpo com a destreza do deus da velocidade; nas suas coxas poderosas, as camadas sobrepostas de rica gordura sob pele de textura macia cobrem suavemente os joelhos. 6/33-3, homem de corpo esférico, desprovido de pescoço, é de uma robustez e poder titânicos de embasbacar todo ser mortal; os seus duzentos e sete quilos compactados num corpo de um metro e cinquenta e quatro centímetros de altura dão-lhe uma consistência invejável. E o terceiro dos formosos atletas, 0-0/6-30/8, dos três o mais atraente, carrega um corpanzil extraordinariamente gracioso e bem torneado, de um metro e sessenta centímetros de altura e duzentos e sessenta quilos, adornado com um ventre bojudo, extraordinariamente saliente, belamente arredondado, como que esculpido pelo mais talentoso dos escultores. A beleza destes três maravilhosos e belos atletas contrastam com a feiúra apolínea de Tlob Niasu, um tipo repugnante, tipo que, felizmente, é o último espécime de uma era bárbara, a de nossos mais próximos ancestrais, seres inferiores, que muitos defeitos nos legaram, defeitos dos quais estamos a nos livrar, para o bem da humanidade.

Na pista de corrida, os três formosos e elegantes atletas e o bárbaro desgracioso, que exalava a sua monstruosa masculinidade tóxica da era patriarcal, que desconhecia a verdadeira essência da humanidade. Na arquibancada, multidão alvoroçada a ovacionar os três atletas e a apupar o bizarro bípede que insistia em exibir seu corpo seminu, desgracioso, repulsivo, de causar engulhos aos humanos. Exercitavam-se os quatro competidores, Tlob Niasu a erguer acima da cabeça os braços esquálidos e defeituosos, e a entrelaçar os dedos da mão direita com os da mão esquerda, e a mover o corpo esguio, desgracioso, de um lado para o outro, exibindo a flexibilidade corporal desavergonhada, e a estender as pernas, ora a direita, ora a esquerda, inclinando-se para a frente, e a segurar a ponta do tênis com as duas mãos, numa grotesca, asquerosa exibição de movimentos corporais, que lhe destacavam os músculos disformes do corpo esquálido. E 0/21/32-3 massageava, lentamente, com gestos suaves e elegantes, suas bochechas rechonchudas e rosadas e emitia, com sua bela voz de tenor, argentina, um canto melífluo; e 6/33-3, deitado, girava-se de um lado para o outro, compenetrado em bater, com a palma da mão direita a costa da mão esquerda, e com a palma da mão esquerda a costa da mão direita; e 0-0/6-30/8 careteava maravilhosamente e massageava, com movimentos circulares das mãos, as duas em sentido ora horário, ora anti-horário, ora cada uma seguindo um sentido, alternadamente, seu ventre formoso.

O árbitro da partida pediu aos quatro corredores que se aproximassem da linha de início, e Tlob Niasu, celeremente, numa postura deselegante, condenável, recompôs-se, correu até o ponto que lhe estava reservado, e, enquanto esperava os três atletas ajeitarem-se cada qual ao seu local de direito, saltitava, grosseiramente, a balançar, repulsivamente, seus músculos repugnantes. Vaiou-o a multidão presente. E ele, espécime bizarro de uma era bárbara, não se constrangeu; arrogante, persistiu em exibir sua grosseira agilidade e sua flexibilidade corporal desgraciosa. E os quatro competidores posicionaram-se cada qual no lugar que lhe estava reservado. E o árbitro da corrida disse-lhes que se praparassem para o início da prova, que se daria assim que o lenço branco, que ele segurava com a mão direita – e que ele soltaria – atingisse o chão. E o estúpido Tlob Niasu uma vez mais revelou-se um tipo desprezível, o que não surpreendeu ninguém; curvou-se para a frente, estendeu os braços, e pousou os dedos, as mãos abertas, os dedos distantes uns dos outros, no chão, sem no chão encostar as palmas das mãos, e estendeu a perna esquerda e dobrou a direita, preparando-se para correr. E o árbitro soltou o lenço; e o lenço atingiu o chão. E em menos de dez segundos, Tlob Niasu cobriu os cem metros, e rompeu a faixa vermelha que indicava a linha de chegada. Apuparam-lo todos os humanos presentes no estádio. Ridícula, patética, a atitude do bárbaro pretensioso. Ele ergueu os braços e sorriu, feliz, a cantar vitória, imerecida vitória. Os três atletas, numa postura digna e louvável, soltaram-se, elegantemente, no chão, e serenamente esbravejaram e esgoelaram-se, num misto de raiva e indignação, e liberaram de seus olhos belos lágrimas cristalinas, que reluziram ao sol. Dos organizadores da prova o público exigiu regras justas. Os organizadores da prova num erro imperdoável ao estabelecer regras que favoreciam, criminosamente, o monstruoso, disforme Tlob Niasu. Ao confabularem durante cinco minutos, reconheceram que outra corrida os quatro corredores teriam de realizar, agora sob regras justas, e desculparam-se com o público, num tom de voz que deles transparecia constrangimento. Ponderaram: 0/21/32-3 correra cinco metros e sessenta centímetros, e 6/33-3 cinco metros e setenta centímetros, e 0-0/6-30/8 cinco metros e sessenta e oito centímetros, no mesmo tempo que o desprezível portador de masculinidade tóxica, Tlob Niasu, cobrira os cem metros; a prova nova, portanto, atendendo aos princípios elementares da justiça, contaria com regras que não favoreceriam Tlob Niasu: assim que o árbitro soltasse o lenço, e o lenço atingisse o chão, os três exímios e talentosos atletas, 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8 correriam com toda a velocidade que suas poderosas e formosas pernas lhes permitiriam, e assim que atingisse, o primeiro deles, os noventa e cinco metros, o árbitro daria sinal para Tlob Niasu correr. E assim foi feito. E o bárbaro, desprezível Tlob Niasu, numa exibição asquerosa de sua masculinidade tóxica, ultrapassou os três heróicos atletas, e rompeu, antes deles, a faixa vermelha que indicava os cem metros. E os três atletas, com a elegância de movimentos que lhes fizeram a fama, soltaram-se, no chão, indignados, enfurecidos, e justamente indignados e enfurecidos, e gesticularam bravamente, os olhos marejados de lágrimas de descontentamente com a injustiça que os vitimou, e clamaram, heroicamente, por condições competitivas mais justas. E o público vaiou Tlob Niasu, que comemorava a vitória imerecida, vitória que obtivera sob regras injustas. A sua alegria não durou muito tempo; logo foi ele obrigado a suprimir do rosto o repulsivo, deselegante sorriso. Reuniram-se os organizadores da prova uma vez mais para deliberarem novas regras competitivas. Ao encerramento da palestra, ele anunciaram as novas regras, estabelecidas após reconhecerem que não haviam, ao definirem as regras da segunda corrida, um detalhe, que não consideraram na equação: os três ágeis atletas se esgotariam durante o esforço de correrem os noventa e cinco metros, perderiam fôlego, desacelerariam o avanço rumo à vitória, e não correriam os cinco últimos metros da prova em tempo que lhes permitisse sobrepujar, em condições de equivalência competitiva, o adversário horrível e inescrupuloso, Tlob Niasu, resquício horripilante de uma era bárbara, incivil.

Agora, estabelecia-se a regra justa: 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8 principiariam a corrida, após o lenço que o árbitro soltaria, atingir o chão, na linha que indicava noventa e nove metros da pista, um metro antes da linha de chegada, enquanto o desprezível Tlob Niasu principiaria a sua jornada rumo à humilhação pública no ponto inicial. O público vibrou de emoção, eufórico. Assobiaram, felizes, alegres, contentes, as pessoas presentes na arquibancada. Elas reconheceram a justeza das regras. Aplaudiram, estrondosamente, os organizadores da prova, homens que, enfim, dever cívico incontornável a iluminar-lhes a mente, elaboraram regras justas, humanitárias. E deu-se a largada. E os três fenomenais, excepcionais atletas sobrepujaram, com incrível, impressionante facilidade, o desgracioso Tlob Niasu, homem desprezível, dele exibindo para todo o mundo a ausência de talento para o exercício de esporte tão nobre.

Foi premiado com a medalha de ouro 0-0/6-30/8, com a de prata 0/21/32-3 e com a de bronze 6/33-3. Ovacionou-o o público alvoroçado, eufórico. E Tlob Niasu, de cabeça baixa, semblante entristecido, de um homem inferior, de um tipo desprezível, retirou-se do estádio, sob vaias tempestuosas da multidão, que aplaudia os três heróis do atletismo global.

Minutos após o encerramento do grandioso espetáculo esportivo, Tlob Niasu reapareceu em público, exibiu sua carcaça putrefata, de homem incivil, horrível e repulsiva, de uma esqualidez cadavérica, repugnante, pálida, de olhos fundos, sem vida, e anunciou a sua aposentadoria. Disse, num tom de indisfarçado orgulho ferido, ególatra que é, que se recolheria à sua casa, e dela jamais se retiraria, e o fez num tom que dava a entender que os humanos, e não ele, perderíamos com tal decisão. E recolheu-se o ilustre ser das trevas aos bastidores. Oxalá ele jamais se exiba ao público! Os humanos não desejamos ter diante dos olhos a figura dele, figura disforme, anômala, que nos fere em nossa sensibilidade superior. O mundo estará melhor sem ele, e sem ele poderá progredir até atingir a perfeição à qual está predestinada.

Aula de interpretação de texto

Na sala-de-aula.

O professor:

– Vamos analisar, garotada, esta frase que escrevi na lousa. Vejam. Interpretação de texto. Leiam a frase. Aqui está assim “Na Igreja, casaram-se João e Maria.” O que se quer dizer com tal frase? Quem sabe?

– Que o João casou com a Maria – disse Carlinho.

– Errado – disse o professor.

– Que a Maria casou com o João – disse Marcinha.

– Errado – disse o professor.

– Que o João ama a Maria e que a Maria ama o João – disse Robertinho.

– Errado – disse o professor. – Vamos, gente. Quem sabe? O que se quer dizer com esta frase “Na Igreja, casaram-se João e Maria.”?

– Que na Igreja há um padre – disse Lucinha.

– Errado – disse o professor.

– Que tem bolo de chocolate na festa – disse Paulinho.

– Errado – disse o professor.

– Que o João e a Maria querem ter filhos – disse Vicentinho.

– Errado – disse o professor. – Vamos lá, gente. É aula de interpretação de texto.

– Que João e Maria viverão felizes para sempre – disse Andreiazinha.

– Errado – disse o professor.

– Que o João e a Maria eram solteiros antes de se casarem – disse Marquinhos.

– Não. Não. Não. E não. – disse o professor, meio desanimado.

– Que o padre é homem – disse Martinha.

– Na na ni na não – disse o professor. – Hoje vocês estão muito fraquinhos. Vou explicar o que se quer dizer com tal frase. Atenção. Vivemos… Prestem atenção. Vivemos numa social opressora, e nesta sociedade, que é patriarcal, os homens oprimem as mulheres. Sociedade patriarcal que dizer que a sociedade tem um patriarca, que é homem. Os homens oprimem as mulheres. João, então, oprime a Maria, porque o João é homem e a Maria é mulher. Temos que mudar isso, temos de acabar com o patriarcalismo, que é o governo dos patriarcas, que são homens, que são opressores, que oprimem os oprimidos, e os oprimidos pelos homens são as mulheres. E para acabar com o patriarcado temos acabar com a Igreja, que sustenta o governo patriarcal, que é opressor.

– Nada disso ‘tá escrito na frase “Na Igreja, casaram-se João e Maria.” – observou Beatrizinha.

– Eu sei – disse o professor. – Não ‘tá escrito, mas ‘tá implícito. Daí a importância da interpretação de texto. É importante saber interpretar texto.

– Mas o João casou com a Maria porque ele a ama e a Maria casou com ele porque ela o ama – disse Renatinho.

– Errado – disse o professor.

– É assim que eu interpreto o texto – disse Renatinho.

– Interpretação errada – disse o professor. – Você está ideologizado. Você está oprimido pelo seu pai, que oprime sua mãe, e ambos oprimem você, que é de uma família patriarcal. E seu pai e sua mãe casaram-se numa igreja, que sustenta o patriarcalismo.

– Meu pai e minha mãe casaram-se na Igreja. E meu pai ama minha mãe, que ama meu pai. E eu tenho três irmãos. Sou o caçula. Meu pai e minha mãe estão casados há vinte e seis anos. Já têm bodas de prata – disse Ricardinho.

– Eles não se amam – corrigiu-o o professor.

– Amam-se, sim – retrucou Ricardinho. – Eles me dizem…

– Eles não se amam – replicou o professor, perdendo a compostura. – Eles fingem que se amam. São de uma família tradicional. Eu, que sou professor, tenho preparo para entender o que se passa na sua família; você, não. E eu sei interpretar texto.

– Professor, você disse, na outra aula, que cada pessoa pode interpretar o texto de um jeito e que não existe a interpretação certa, e agora… – comentou Lurdinha.

– Eu sou o professor – interrompeu-a o professor. – Eu sei qual interpretação é a correta: a minha. Eu tenho preparo. Quantos anos eu fui à faculdade estudar o assunto? Muitos. E vocês? Nenhum.

– Mas… – disse Ricardinho.

– Não me questione. Aceitem o que eu disse. Agora, atenção, outra frase. Prestem atenção. Interpretação de texto. Numa empresa, à parede, uma folha de cartolina com a frase “Contratam-se funcionários.” O que se quer dizer com tal frase?

– Que a empresa está contrando funcionários – disse Marquinhos.

– Errado – disse o professor.

– Que a empresa precisa de funcionários – disse Vicentinho.

– Errado – disse o professor.

– Que a empresa quer vender as coisas que tem, mas tem poucos funcionários para vendê-las – disse Renatinho.

– Errado – disse o professor. – Vamos, gente. Interpretação de texto.

– Que a empresa quer vender bolo de chocolate – disse Paulinho.

– Errado – disse o professor.

– Que a empresa vai pagar salário para as pessoas que ela contratar – disse Vanessinha.

– Errado – disse o professor. – Errado. Errado. Nada do que vocês disseram está certo. Vocês têm de aprender a interpretar textos. A interpretação correta da frase é: a empresa, uma instituição capitalista, é opressora, oprime os trabalhadores, que são pelos capitalistas oprimidos…

Para melhor atendê-lo – parte 6 de 6

Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota

O Governo Federal estatizou a economia nacional, eliminou a propriedade privada, e assumiu as responsabilidades inerentes aos afazeres familiares das famílias brasileiras. São justificadas todas essas medidas. Os nossos inimigos burgueses capitalistas ocidentais e os brasileiros por eles cooptados com a promessa de riqueza imediata, fazendo deles, pobres honrados, marajás gananciosos e inescrupulosos, raça que, acreditava-se, estava extinta do Brasil há décadas, intensificaram, nas últimas semanas, os bombardeios ao território nacional, com o objetivo de esfacelá-lo, e o de desvirilizar o heróico, nobre, aguerrido povo brasileiro, que bravamente defende a sua pátria amada, idolatrada, Salve! Salve!, obrigando o Governo Federal a tomar as medidas apropriadas para a conservação da paz e da ordem, e para a manutenção da integridade do Brasil.

O Governo Federal, ao estatizar a economia nacional, nacionalizar as empresas estrangeiras e eliminar a propriedade privada, libera, para o esforço de guerra, as forças do povo brasileiro, que agora não desperdiça nenhum segundo de suas vidas com preocupações mundanas de inspiração burguesa capitalista disseminadas pelos sórdidos estadunidenses. Os brasileiros, antes dessas medidas, preocupavam-se com a manutenção do emprego (em muitos casos, submissos à exploração promovida pela classe empresarial, executavam trabalhos degradantes e eram porcamente remunerados), e os desempregados perdiam muitas horas de suas vidas à procura de empregos, não logravam encontrar uma ocupação que lhes remunerassem, com justeza, as energias aplicadas em tarefas extenuantes, e debilitavam-se, deprimidos com os seus sucessivos fracassos. Além do mais, os trabalhadores, em sua ânsia de acumular fortunas hollywoodianas, faraônicas, cesarianas e elizabetanas, comparavam os salários mensais uns com os dos outros, e os pobremente remunerados, ao notarem as injustiças das quais eram as vítimas eternas, ou caíam na devassidão, ou na criminalidade, sendo, portanto, duplamente injustiçados pela sociedade, que sempre os viu como criminosos, e os agentes policiais (representantes da força opressora dos burgueses capitalistas, financiados com dinheiro público), de atalaia, prontos, sempre, para atacá-los, capturá-los, e trancafiá-los em soturnos cárceres, ou matá-los em processos sumários de justiçamento, os aterrorizavam. Agora, não. O Governo Federal criou a economia do pleno emprego, e equalizou os salários, que estão sob a sua administração. Os funcionários do Governo Federal são preparados para geri-los apropriadamente, livrando, assim, os brasileiros de preocupações concernentes à administração do orçamento familiar. O Governo Federal incumbiu-se destas responsabilidades, livrando os brasileiros de preocupações inerentes à sua vida e à vida de sua família, preocupações estas que lhes corroíam a mente, debilitavam o corpo, e eram fontes de discussões e desentendimentos entre familiares.

O Governo Federal, ao se incumbir da tarefa de educar as crianças e os jovens, o brilhante futuro do Brasil varonil, gigante pela própria natureza, elimina mais uma fonte de preocupações dos brasileiros. O Governo Federal, com a criação do Ministério da Educação Fundamental e Elementar e Avançada para Constante e Ininterrupto Aprimoramento da Consciência Política Nacional, oferece aos brasileiros os instrumentos que lhes permitem viver vida nobre, rica, com o emprego, correto, dos seus talentos e do seu vigor físico e intelectual. Os brasileiros não perderão tempo em busca de conhecimento. O Governo Federal sabe quais conhecimentos são imprescindíveis para a vida saudável, proveitosa e produtiva; e são esses conhecimentos que os brasileiros buscam, mas, despreparados, e sob ação das suas veleidades e idiossincrasias individualistas insufladas pelo capitalismo hediondo e sórdido, não sabem quais são, pois estão desprovidos dos instrumentos intelectuais que lhes propiciem os meios para corretamente avaliarem o que lhes é apresentado, permitindo-os fazer distinções entre coisas diferentes, identificar o que lhes é benéfico e o que lhes é maléfico, e lhes dê sabedoria para decidirem pelo que lhes é benéfico.

O Governo Federal sabe o que o povo brasileiro precisa saber, e é esse saber que aos brasileiros será transferido nos estabelecimentos educacionais nacionais.

O Governo Federal, justaposto a essa medida, publicará os livros que contém a sabedoria governamental e os livros com os conhecimentos adequados à formação moral e intelectual do povo brasileiro. Ao proibir a publicação de livros que não tragam as idéias que defende e, especialmente, a de livros de autores que contestam a sua infalível sabedoria, elimina a angústia sintomática na qual os brasileiros precipitar-se-iam se imergissem em elucubrações metafísicas de cunho religioso, desgastando-se física e mentalmente, o que redundaria em insegurança e confusão mental, que os impediria de concentrarem os seus esforços nos trabalhos indicados pelo Governo Federal. A angústia decorrente da colisão de idéias contrastantes exauriria a força intelectual, vigorosa, incomparável, única, do povo brasileiro. A angústia é desvirilizante, emasculadora. A leitura de livros cujo teor contraria os mais caros fundamentos da sabedoria intrínseca ao Governo Federal, além de improdutiva e desvisgoradora, exigiria, para o seu exercício, isolamento e desgaste intelectual. O vigor intelectual é recurso de uso imprescindível, pelo Governo Federal, para implementação de políticas que assegurem a conservação da paz e da ordem. O Governo Federal impedirá que o povo brasileiro caia neste poço sem fundo. Os brasileiros que se perderem nesta tarefa angustiante, isolados do mundo, num esforço infrutífero, que será baldado, de encontrarem soluções para os problemas que afligem o Brasil, além de imergirem na depressão crônica, que os arremessará num redemoinho de ilusões, alucinações e fantasmagorias extemporâneas, que lhes assaltarão a mente, lhes assacarão a sanidade mental, serão vistos, pelos brasileiros fiéis e leais ao Governo Federal (cuja sabedoria por eles é reconhecida), como indivíduos presunçosos e soberbos, pois estabelecerão uma distinção entre eles e os brasileiros leais, humildes, que acolhem, em atitude patriótica sincera e invejável, as ordens emitidas pelo Governo Federal, em sua incontestável sabedoria, deles se afastando e cavando entre eles (o povo fiel ao Governo Federal) e os indivíduos individualistas (os leitores de livros não-autorizados pelo Governo Federal) um fosso intransponível, rompendo, portanto, consequentemente, o vínculo moral, cultural, social e intelectual que os unia, provocando, nos brasileiros autênticos, reações hostis, de confronto, que culminarão na morte, indesejada, de autênticos brasileiros patriotas; além disso, os brasileiros que se recusam a acolher as ordens emitidas pelo Governo Federal influenciam brasileiros patriotas incautos, que, seduzidos por argumentos serpenteantes, envolventes, distanciar-se-ão de ações comunitárias, e romperão o vínculo com o Brasil, sua pátria, gigante por natureza, terra em que se plantando tudo dá, e debelarão os esforços do Governo Federal para a conservação da paz e da ordem e da manutenção da integridade da Nação. Dilaceram o coração generoso do Presidente da República todas as notícias de abandono, por um brasileiro, de valores patrióticos elementares decretados pelo Governo Federal. A ausência de sentimentos afins e propósitos comuns entre os brasileiros que não se associam para o trabalho de conservação da paz e da ordem entristece o Presidente da República, que, a curtos intervalos, se vê às voltas com pensamentos depressivos – mas não esmorece; reanima-se, revigora-se, restabelece o seu amor pela vida e pela Pátria, recompõe-se, e realimenta-se, conservando, e acumulando, forças para o exercício das suas tarefas patrióticas, para o contínuo esforço de conservação da paz e da ordem, e para a manutenção da integridade do território nacional.

O Governo Federal, ao se incumbir dos afazeres das famílias brasileiras, libertou os brasileiros patriotas das atribuições onerosas criadas, artificialmente, pelos burgueses capitalistas ocidentais herdeiros da cultura judeu israelita.

Os brasileiros patriotas se concentrarão no inadiável e imprescindível trabalho de manutenção da integridade do Brasil e na construção dos alicerces do Brasil do futuro, gigante pela própria natureza.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional.

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Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

O Governo Federal decreta a proibição de cultos religiosos, a disseminação das religiões, fontes de lendas anticientíficas, mitos inverossímeis, superstições ridículas, e o ensino e a disseminação da cultura dos silvícolas nativos, que, reconhece o Governo Federal, é o canto das sereias recitado pelos inimigos estrangeiros para seduzir os brasileiros para as causas defendidas pelas Pequenas Tabas e pela Grande Taba, que gozam do apoio incondicional de organizações globais. Está expressamente proibido o uso de vocábulos silvícolas nativos; os nomes das localidades para cuja inspiração se serviu da cultura e do idioma dos silvícolas nativos serão substituídos por nomes dos heróis patriotas que sacrificaram a vida para a conservação da paz e da ordem no território nacional. O Governo Federal eliminou todos os centros de resistência antipatriótica em território nacional, e encarcerou os descendentes dos burgueses capitalistas europeus ocidentais, os dos sórdidos estadunidenses imperialistas e colonizadores e os dos europeus miscigenados nos quais predominou o sangue corrompido dos europeus, fazendo, deles, trânsfugas sórdidos e traiçoeiros. Centenas de milhares de burgueses capitalistas ocidentais escaparam, clandestinamente, do território nacional. Felizmente, o Governo Federal avistou-os nas balsas precárias, com as quais eles – estúpidos antipatriotas – pretendiam empreender a travessia do oceano Atlântico, e aportarem nas terras macabras dos sórdidos estadunidenses colonizadores e imperialistas, e alvejou-os. As balsas emborcaram. Os tripulantes, estúpidos, não sabiam que embarcações tão rústicas não superam nem mesmo marolinhas inofensivas. O Governo Federal, ao eliminá-los, para melhor atender aos brasileiros e conservar a paz e a ordem, impediu-os de disseminar, no exterior, mentiras difamatórias sobre o Governo Federal, o Brasil e o seu humilde e nobre povo, e atrair a atenção da mídia internacional, que está nas mãos de burgueses capitalistas ocidentais, israelitas judeus genocidas e sórdidos estadunidenses imperialistas e colonizadores, oferecendo-lhes pretexto para defenderem, nas organizações globais, políticas hostis ao Brasil e capitalizarem campanhas bélicas contra o território nacional.

As Pequenas Tabas e a Grande Taba intensificaram os ataques ao território nacional. Devastaram cidades inteiras. Espalharam o pânico e o terror. Ceifaram a vida de um milhão de brasileiros patriotas que lutaram bravamente pela integridade do território nacional, e os seus nomes ficam gravados nos livros de História do Brasil. Para desgosto do Governo Federal, com apoio irrestrito do governo russo, do governo chinês, do governo iraniano, do governo libio e do governo egípcio, outrora nossos aliados incondicionais, e de governos de inúmeras nações africanas, os revoltosos antipatriotas, traiçoeiros, voltam-se contra os seus descendentes que vivem neste lado do oceano Atlântico, e agridem o Brasil, com o desejo de suprimi-lo do mapa. A ingratidão das Pequenas Tabas e da Grande Taba não deixa de nos surpreender, e de nos boquiabrir, e de derrubar os nossos queixos de incredulidade. Vivemos tempos apocalípticos. Milhões de cidadãos brasileiros morreram, sob ininterruptos bombardeios desfechados pelos burgueses capitalistas ocidentais e fundamentalistas cristãos. Revidamos, energicamente, aos ataques. Logramos vitórias importantíssimas. Todavia, não ganhamos a guerra, que se estenderá, prevê o visionário Governo Federal, por décadas, talvez séculos, talvez milênios, e repetirá, aqui, neste continente, mas com os papéis invertidos, o conflito entre israelenses e palestinos, que se perpetuará até o fim dos tempos.

Em decorrência da elevação das mortes imprevistas e inevitáveis, o Governo Federal, para impedir o escoamento de vida de soldados e a redução das forças militares federais, estabelece, para todo o povo brasileiro, os ‘modos de morrer’ e as ‘janelas de morte’.

A você fica proibido morrer nos campos de batalhas.

A você ficam reservados três modos de morrer:

1, Esfaqueamento pela cônjuge, que, num ímpeto de fúria ciumenta, atinge seu coração, transpassando-o (ela não poderá esfaquear você por outro motivo; se transgredir essa lei, o Governo Federal a enviará a um campo de concentração, e a submeterá, durante dez anos, a trabalhos pesados e a outros afazeres patrióticos);

2, Acidente de carro, na Via Dutra, no período da manhã, na pista sentido Rio de Janeiro-São-Paulo, numa colisão frontal com um ônibus no qual terá de, além do motorista, haver, no seu interior, trinta e cinco pessoas, sendo dezesseis mulheres e dezenove homens. Dentre as mulheres, duas terão de ser crianças recém-nascidas, uma de idade de sete anos, e três jovens com idade entre quatorze e dezessete anos; dentre os homens, quatro terão de ser brancos, loiros e de olhos azuis de qualquer idade. Na colisão, além de você, terão de morrer os quatro homens brancos, loiros e de olhos azuis. Não se admitirá a morte de nenhum outro passageiro, tampouco a do motorista – do ônibus eles terão de se retirar incólumes, lúcidos e sem arranhões; e,

3, Enforcamento involuntário, ao caminhar por uma favela paulista (permite-se a opção de este evento trágico ocorrer numa comunidade carioca fluminense), nos ‘gatos’, que se proliferaram, nos doze meses anteriores à esta data, à revelia do Governo Federal.

As ‘janelas de morte’ selecionadas para você são:

1, do dia 7 ao dia 14 de janeiro, das 9:00 às 12:00;

2, do dia 16 de fevereiro ao dia 4 de março, das 12:30 às 14:15;

3, do dia 15 ao dia 19 de julho, das 7:00 às 7:30;

4, do dia 30 de outubro ao dia 2 de novembro, das 23:00 às 23:30; e,

5, do dia 6 ao dia 10 de dezembro, das 16:00 às 18:00.

Fica a seu critério a escolha da opção que melhor for conveniente a você e atender aos seus desejos.

Antes de encerrar, o Banco informa: caso você não respeite as ‘janelas de morte’ e os ‘modos de morrer’, e morra em dias e horários e de modo não contemplados na política de salvaguarda à vida, que visa o impedimento da redução drástica da população nacional – o Governo Federal não pode produzir patriotas na medida em que eles são necessários, embora o deseje, para fazer frente aos seus numerosos inimigos -, os seus familiares, nas próximas quatro gerações, ficarão impedidas de possuírem nomes próprios.

O Banco informa, também: o Governo Federal, para a implementação das ‘janelas de morte’ e dos ‘modos de morrer’, medidas que revelam a sua prudência visionária e a sua sensatez heróica, recebeu a chancela de Organizações Globais, que acolhem, em seu generoso e nutriz seio, as nações que, em equivalentes situações nas quais o Brasil se encontra, atuam em benefício de seus povos, nobres e aguerridos, vinculados aos interesses universais de conservação da paz e da ordem.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional.

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Novíssima Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Global.

O Governo Federal, eterno mantenedor da paz e da ordem, generoso protetor e benfeitor do povo brasileiro e o seu legítimo representante, no desejo, sincero, de eliminar as injustiças e as desigualdades sociais, e distribuir para os cidadãos brasileiros a inexaurível riqueza produzida pelos brasileiros, une-se, no seu esforço de manter a paz e a ordem e responder por todas as suas atribuições constitucionais às quais assumiu como legítimo representante do povo brasileiro, à outras nações, e delega, para benefício e bem-estar do povo brasileiro, o governo do Brasil à Organização Global das Nações, única detentora do poderio político, tecnológico e militar capaz de enfrentar os inimigos do Brasil, que são, sabemos, e ninguém o ignora, os burgueses capitalistas ocidentais, que imergiram os Estados Unidos e Israel em hostis políticas isolacionistas e de confronto com as nações que, no desejo de concretizar o sonho universal de paz mundial, conceberam e idealizaram a arquitetura política global.

A Organização Global das Nações, para a conservação da paz e da ordem mundiais, concentrará todas as forças mundiais, eliminando as divergências e peculiaridades nacionais, fontes de conflitos, sofrimento e dor.

As nações mundiais transferirão os seus poderes legislativo, executivo e judiciário para a Organização Global das Nações, e adotarão a Constituição Global, aplicando, assim, as suas forças no exercício de políticas das leis globais que todos os cidadãos do globo respeitarão. E a paz mundial será alcançada. O Brasil, nesta nova era que se inicia, dedicará toda a sua energia, sob os auspícios da Organização Global das Nações, na política de solidificação do edifício global, com a peculiar gentileza e cordialidade do povo brasileiro.

A Organização Global das Nações, no uso das suas prerrogativas, representante legítimo dos cidadãos globais, criteriosa avaliadora da cultura global, estabelece, para benefício da humanidade, um padrão de cultura, em todo o globo, moderno, objetivo, realista, ao eliminar as peculiaridades culturais dos povos, as quais, desde o surgimento das civilizações embrionárias há milhares de anos antes do advento da Organização Global das Nações, produziram miséria, injustiças e desentendimentos entre os povos, que, aferrados, cada um, à sua cultura, ao seu idioma, às suas religiões, hostilizavam a cultura alheia e queriam impor aos outros povos a sua cultura – e foram as culturas tradicionais que submeteram os povos a certos parâmetros de comportamento que, ao colidirem com os de outros povos, também ciumentamente aferrados aos seus valores, produziram guerras, mortandades, genocídios, a aniquilação de povos inteiros e de civilizações. Agora, eliminadas as identidades locais, elimina-se todas as motivações que levaram as nações às guerras, a despeito da recusa dos burgueses capitalistas estadunidenses e dos israelitas judeus sionistas de integrarem a Organização Global das Nações, que, mesmo com os ataques ininterruptos dos Estados Unidos e de Israel – estas duas nações burguesas capitalistas ocidentais materialistas que de todos os expedientes criminosos lançam mão para enfraquecê-la -, fortaleceu-se, robusteceu-se, encorpou-se. Essas duas nações prestaram serviços inestimáveis à humanidade ao não se integrarem à Organização Global das Nações. Estados Unidos e Israel, orgulhosos de sua cultura materialista destituída dos mais caros valores humanos e de respeito à natureza, intoxicados pelo materialismo ocidental e pelo capitalismo burguês, isolados, não cooptarão as nações mais frágeis. Se integrassem a Organização Global das Nações, Estados Unidos e Israel ensinariam aos representantes das nações mais fracas os corrosivos valores estadunidenses e israelitas judeus sionistas, e comprar-lhes-iam a consciência com dólares imundos e promessas fantasiosas inconcretizáveis, e corromperiam os representantes legítimos das nações que acolheram as exortações da Organização Global das Nações, e transferiram-lhe a direção de seus povos, para benefício deles, concentrando, na Organização Global das Nações, os mais bem formados intelectuais do mundo, estudiosos natos e humanistas dedicados à paz mundial, no trabalho de implementação das políticas concebidas pela Organização Global das Nações e na ereção da civilização sonhada pelos humanos há milhares de anos, sonho que os cristãos e os judeus burgueses capitalistas ocidentais impediram de se concretizar. Os camaradas cidadãos globais dedicam-se à ereção deste novo mundo, pacífico, amistoso e harmonioso. Sacrificam os seus lazeres para a realização de um sonho universal.

Com a implementação das políticas globais, serão eliminadas todas as forças que impedem a paz mundial e a harmonia entre os povos. Todos os humanos falarão o mesmo idioma, e não se perderão em cultos supersticiosos a entes imateriais, que são as causas de todas as guerras que já assolaram a humanidade. As crenças religiosas serão apagadas da memória humana. Os humanos pensarão, com o uso da razão, as coisas do mundo. E estarão eliminadas todas as causas de conflitos entre os povos, todos, agora, irmanados num único propósito: A conservação da paz e da ordem mundiais.

De

Camarada Cidadão Missivista Oficial do Sistema Financeiro Global.

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Novíssima Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Global.

O Banco comunicou a você, camarada cidadão global, na carta de [data], as ‘janelas de morte’ e ‘os modos de morrer’.

Você não correspondeu ao que de você, que o Banco acreditava tratar-se de um camarada cidadão global confiável, o Banco esperava. Informaram ao Banco que você, ontem, transgrediu as leis globais de governança implementadas pelo Governo Federal. Você, enquanto pilotava uma moto, atingiu, com o pescoço, uma linha revestida de cerol que um garoto imberbe de quatorze anos empunhava enquanto empinava uma pipa quadriculada verde e azul; você, em sua imprudência insana, não se deteve, a linha distendeu-se e, pressionada contra seu pescoço – enquanto você avançava, em fuga doentia e injustificada, para distanciar-se dos agentes de segurança da Organização Global das Nações que iam no seu encalço -, cortou-lho, separou sua cabeça de seu corpo, e a cabeça, envolta pelo capacete, que a protegia, quicou, pelo asfalto da avenida, por mais de vinte metros, e seu corpo, sem a cabeça, sobre a moto, prosseguiu em sua insana fuga por cento e quarenta metros, atravessou o semáforo vermelho, e colidiu com um veículo oficial da Organização Global das Nações, que, na perpendicular, executava manobra para virar à direita, e seu corpo, assim que a moto perdeu o equilíbrio, em decorrência da colisão com o veículo oficial, caiu, e arrastou-se por quinze metros, manchando o asfalto de sangue.

O Banco informa: de você será subtraída, como punição, a sua Carteira de Habilitação de Motorista; e seus descendentes pagarão todas as despesas referentes à perseguição, limpeza do asfalto e conserto do carro oficial, e a Organização Global das Nações os processará, criminal e penalmente, devido ao seu ato inconsequente, que induziu um inocente jovem imberbe de quatorze anos a perpetrar, involuntariamente, um homicídio. A Organização Global das Nações pretendia punir o jovem, mas, como ele impediu a fuga de um transgressor, que conserva, clandestinamente, a propriedade ilegal de um veículo automotor movido por combustível de origem fóssil antediluviano, não o punirá; o condecorará com a Ordem do Mérito da Cidadania Global.

Esta é a derradeira missiva que o Banco envia para você.

De

Camarada Cidadão Missivista Oficial do Sistema Financeiro Global

Para melhor atendê-lo – parte 5 de 6

Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

O Banco, para melhor atendê-lo, foi transferido paras as mãos do Governo Federal, que, agora, passa a geri-lo, concentrando todos os recursos na tarefa de contenção dos movimentos hostis à política de igualdade social e à política de extinção da desigualdade social. Agora, isento da necessidade de atentar para a concorrência, das preocupações decorrentes da criação de produtos que visavam, única e exclusivamente, a obtenção de lucro, e dos gastos com propagandas mentirosas para ocultar as injustiças perpetradas pelos lucros provenientes de atividades ilícitas, o Banco, sob administração do Governo Federal, concentrará a sua atenção e os seus recursos em atividades benéficas ao povo brasileiro, e produzirá riqueza em todo o território nacional.

Para melhor atendê-lo, o Banco manterá as regras vigentes antes da sua transferência ao Governo Federal.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional

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Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

O Governo Federal, para manter a paz e a ordem, e para melhor atendê-lo, nacionalizou e estatizou todos os bancos localizados em território nacional.

O Governo Federal, para impedir o alastramento da violência perpetrada, em ondas de violência que causam pânico no cordial e gentil povo brasileiro, decidiu, por decreto, assumir o controle de todas as emissoras de televisão e de rádio, de todos os jornais e revistas, e o do sinal dos provedores da internet. Com tal medida, implementada com rigor e convicção, o Governo Federal eliminará a resistência de agentes clandestinos antipatrióticos, que se fortaleciam, às expensas do povo brasileiro, à revelia do Governo Federal. A mídia golpista, traiçoeira, antipatriótica, pretendia eliminar o democraticamente eleito Presidente da República, com suporte estrangeiro, em especial de estadunidenses e de israelitas judeus, que, por não se contentarem, os primeiros, com o Rio Missouri e o Rio Mississipi, e os segundos, com o rio Jordão, estendem os seus tentáculos gadanhudos ao Brasil, para se apossarem do rio Amazonas, com ajuda dos seus cúmplices brasileiros cooptados por míseros dólares com estampa da efígie do famigerado tio Sam.

Para conter o ímpeto beligerante dos astutos inimigos do povo brasileiro – nazistas de bigodinho pernóstico idêntico ao do mentor deles, Hitler -, o Governo Federal tomou a única decisão cabível ao momento: Criou as Nações Indígenas Independentes nos territórios das reservas florestais, em sua maioria nos estados da região norte. As Nações Indígenas Independentes, governadas por brasileiros nativos silvícolas, os verdadeiros donos destas terras milenares, relacionam-se, amistosamente, com o povo brasileiro, sob os auspícios, aplausos e ovações de organizações globais, todas admiradas com a generosidade do Governo Federal.

O Governo Federal decidiu, movido por nobres sentimentos, entregar aos povos nativos silvícolas, de vínculos estreitos com a mãe terra, quatro milhões de quilômetros quadrados do território nacional, para conservar o controle, no Brasil, da paz e da ordem. Ao transferir a incumbência da administração de tal território aos silvícolas nativos, dotados de sabedoria milenar nativa, o Governo Federal concentra a sua atenção no Brasil grande, gigante pela própria natureza; com menos território para administrar, o Governo Federal economizará grandes somas de recursos, e melhorará o aprovisionamento das três forças militares que conservam, no Brasil, a paz e a ordem. Os olhos do Presidente da República inundaram-se de lágrimas ao assinar os documentos de transferência de metade do Brasil aos nossos irmãos nativos silvícolas, que imensurável contribuição deram à ereção do Brasil varonil, gigante pela própria natureza. Foi como se cortasse a própria carne. Tal cessão, voluntária e generosa, é imprescindível para a manutenção da paz e da ordem.

As Nações Indígenas Independentes, presididas por nativos silvícolas herdeiros de cultura milenar, sob a égide e o abrigo das organizações globais, viverão em relações amistosas com o Brasil, sabe o visionário Governo Federal.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional.

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Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

Nunca, antes, em sua história, o Brasil sofreu golpes tão profundos, tão traiçoeiros, que ferissem tanto os brasileiros. O Governo Federal, que, num gesto de amor pelos brasileiros descendentes dos milenares povos nativos silvícolas deste continente, herdeiros de cultura milenar invejável, que erigiram civilizações singulares, irreproduzíveis pela civilização industrial e tecnológica, e que foram aniquilados pelos gananciosos e sórdidos burgueses capitalistas ocidentais, fascistas e hitleristas insensíveis, que devastaram o planeta, exaurindo-o, a ponto de destruí-lo (vide o aquecimento global, que recrudesce, ininterruptamente), por amor humanitário inspirado por elevados ideais de igualdade e justiça social, revogou leis e idéias nefastas – legadas ao Brasil pela monarquia brasileira, de triste memória, e pelo império português ibérico -, que agrilhoavam os legítimos donos destas terras e os encarceravam ao passado cavernoso, que se eternizava, e livrou-os da injustiça e da miséria ao entregar-lhes, num gesto de sacrifício voluntário, generosidade ímpar, metade do território nacional, recebe, como gesto de gratidão – é uma ironia -, um golpe traiçoeiro: Os nativos silvícolas associaram-se aos estadunidenses imperialistas colonizadores e aos burgueses capitalistas europeus ocidentais, e agrediram o Brasil, na diplomacia, e com ações bélicas. Nunca se viu, na história da civilização, golpe tão rasteiro, tão traiçoeiro, tão desumano, de um povo contra os seus benfeitores.

O Governo Federal entregou, generosamente, a metade do território nacional aos silvícolas nativos, como medida de compensação por todo o sofrimento deles, sofrimento decorrente de quinhentos anos de exploração desumana perpetrada pelos burgueses capitalistas europeus e seus descendentes que colonizaram e exploraram este continente, e de crimes perpetrados pelos descendentes de silvícolas nativos por cujas veias e artérias fluem sangue mesclado, inextricavelmente, no mesmo plasma, de povos silvícolas nativos, de povos negros africanos de ébano e de europeus de cultura israelita e judaica, nos quais o sangue corrompido dos bárbaros europeus preponderou e anulou as virtudes benéficas do sangue silvícola nativo e, principalmente, as do dos nativos da África e seus descendentes puros agrilhoados pelos escravocratas com o apoio dos sórdidos burgueses capitalistas europeus ocidentais e, principalmente, dos ibéricos. Felizmente, em milhões de indivíduos brasileiros miscigenados o sangue dos europeus ocidentais de cultura israelita e judaica foi absorvido e nulificado pelo nobre sangue de povos silvícolas nativos que viviam em comunhão amistosa com a natureza. Infelizmente, tal vínculo de nativos silvícolas com a natureza foi rompido em muitos indivíduos ao corroerem-se o sangue silvícola e o africano com o sangue dos europeus burgueses capitalistas ocidentais de cultura judaica e israelita. Os silvícolas nativos autênticos e os seus descendentes cujo sangue eliminou o sangue pernicioso dos burgueses capitalistas europeus contribuíram, com sangue, suor e lágrimas, para a construção e a consolidação da Pátria Brasileira.

Os silvícolas nativos, donos de um país imenso de quatro milhões de quilômetros quadrados, extensos rios volumosos, a maior bacia hidrográfica do mundo, receberam, do generoso Governo Federal, as suas terras milenares, com as suas riquezas naturais e minerais intactas, terras estas que os sórdidos burgueses capitalistas europeus haviam conquistado, na ponta das baionetas, no fio das espadas e no chumbo fundido das bombas lançadas de canhões, dos povos silvícolas nativos, quebrando, deles, o elo que os unia, num vínculo estreito, com a natureza. E os silvícolas nativos, para alegria de todo o mundo, criaram uma grande nação, as Nações Indígenas Independentes, gigante, como o Brasil, pela própria natureza. Para surpresa do Governo Federal, os silvícolas nativos mudaram o nome de sua nação para Nação Tribal Silvícola, e estabeleceram política externa inamistosa nas relações com o Brasil. Os povos silvícolas, além de não agradecerem ao povo brasileiro e ao Governo Federal, seu legítimo representante, pela generosidade concedida, agrediram o Brasil. E, para maior surpresa e espanto do Governo Federal, a Nação Tribal Silvícola fragmentou-se em dezenas de nações indígenas, que se engalfinham, para desgosto do Governo Federal, em batalhas sangrentas, e governos capitalistas burgueses ocidentais fornecem armas aos beligerantes, em alianças de ocasião, auferindo lucros imensuráveis, e os povos silvícolas nativos, em troca das armas, dão-lhes pedras raras e concessão para a exploração de pedras preciosas e de petróleo. Os burgueses capitalistas europeus, astutos como as raposas, traiçoeiros como os lobos, venenosos como as serpentes, foram, em pouco tempo, bem sucedidos na sua política de corrosão dos valores mais caros aos silvícolas nativos deste continente. Corrompidos, estes abraçam os valores que os precipitam na corrupção moral irreversível, na qual afundarão, inteiramente, até a aniquilação da civilização silvícola nativa, da qual não haverá vestígios.

O mais alarmante, abismável: a Grande Taba, nação silvícola nativa que se criou, devido à fragmentação da Nação Tribal Silvícola, no meio do território nacional, incrustada no coração do Brasil, deu início a bombardeios das regiões circunvizinhas, exigindo, do Governo Federal, a cessão de um território que lhes permita possuir uma saída para o oceano Atlântico. Repete-se, aqui, neste continente, a história milenar protagonizada por israelenses e palestinos, mas com inversão de papéis. No Oriente Médio, os reivindicadores palestinos são, há milênios, vítimas impotentes e frágeis da política genocida dos israelenses. Aqui, dá-se o oposto: os reivindicadores – os silvícolas nativos da Grande Taba – são os agressores; e os brasileiros, generosos e gentis, são os agredidos. Imperdoável, tal ato de ingratidão. O Governo Federal, com os seus aliados incondicionais, defenderá o povo brasileiro, pois é o legítimo representante das suas aspirações, sonhos e desejos.

O Brasil do futuro, gigante pela própria natureza, tem, hoje, a metade do território e o dobro do vigor.

É lamentável!, É lastimável!, que os nativos silvícolas, beneficiados pelo Governo Federal, sejam tão ingratos! O Governo Federal não se curvará. Defenderá o povo brasileiro, povo generoso e gentil. Na arena diplomática, defenderá os interesses do povo brasileiro contra o desejo dos nativos silvícolas de anexarem o território brasileiro à sua jovem nação. Os descendentes dos africanos de nacionalidade brasileira defendem, bravamente, o território nacional, no desejo de conservar a integridade territorial do Brasil, por amor à terra da qual extraem os seus víveres, a sua energia, a sua força, o seu vigor e a beleza pétrea dos seus músculos rígidos que sustentam a incomparável perfeição de seu porte físico. Os brasileiros descendentes de europeus são antipatriotas, pois servem aos burgueses capitalistas europeus ocidentais, aos burgueses capitalistas internacionais, aos imperialistas estadunidenses gananciosos, sórdidos, beligerantes cruéis e colonizadores genocidas, e aos israelitas judeus corruptores dos povos leais à mãe-natureza. O Governo Federal, visionário, prevê o recrudescimento dos conflitos entre os brasileiros descendentes de africanos –, que nutrem amor incondicional pelo Brasil, lutam pela conservação do território nacional, sacrificam a vida em defesa da pátria, rejeitam, altivos, a exortação de emigrarem para a África (sacrificam-se pela conservação da paz e da ordem, no Brasil, ao invés de usufruírem de vida prazerosa e cômoda nos pacíficos e prósperos países africanos) – e os brasileiros descendentes de europeus – que insistem em se conservar nestas terras porque sabem que, se emigrarem para a Europa, sofrerão nos decadentes países europeus; daí rejeitarem, assustados, amedrontados, acovardados, a ordem de regressarem ao continente de seus crudelíssimos e sanguinários ancestrais, que, na Casa Grande, seviciavam, com requintes de sadismo, os habitantes das senzalas.

O Banco, sob administração do Governo Federal, exige dos correntistas:

1, o comprovante de renda;

2, os documentos do seu patrimônio; e,

3, as notas fiscais de compra de produtos e as de prestações de serviços.

Os comprovantes, os documentos e as notas fiscais originais têm de ser apresentados ao Banco acompanhados de cinco vias autenticadas, que serão protocoladas.

O Governo Federal, em sua infalibilidade, não previu o ato traiçoeiro dos silvícolas nativos, e tampouco o do governo da China e o do governo da Rússia, outrora aliados do Governo Federal; servis, curvaram-se, reverentes, aos burgueses capitalistas ocidentais, aos israelitas judeus genocidas e mentirosos compulsivos, que disseminaram a mais vasta rede de corrupção moral da história da civilização, e aos sórdidos estadunidenses imperialistas e colonizadores.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional

*

Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

O Governo Federal, devido à importação clandestina de armamentos de alto calibre e de grande poder de fogo, decretou, ontem, o bloqueio das importações e das exportações. Empresários brasileiros antipatriotas gananciosos, conluiados com burgueses capitalistas ocidentais inescrupulosos, estadunidenses imperialistas e israelitas judeus genocidas, enviavam, ao exterior, em troca de armamentos, víveres e matérias-primas a preço de banana, e os estrangeiros auferiam lucros exorbitantes à custa do sangue do povo brasileiro, que morre aos milhões nos conflitos fraternais viscerais. Os armamentos eram entregues aos silvícolas nativos da Grande Taba, nação silvícola incrustada no território nacional, com o propósito de eviscerá-lo. Com a eliminação do comércio exterior, o Governo Federal conservará a paz e a ordem no Brasil, gigante pela própria natureza, cujo povo é gentil e não desiste nunca.

O Governo Federal, para o seu conhecimento, estatiza a economia e eleva a alíquota do imposto de renda para 90% para as pessoas que ganham acima de R$ 10.000,00 anuais. A renda auferida com o recolhimento do imposto de renda será distribuída aos brasileiros com renda mensal inferior a R$ 50,00, medida indispensável para a eliminação da desigualdade e injustiça sociais.

O Governo Federal, por intermédio do Banco, para melhor atendê-lo, administra, a partir de hoje, o seu dinheiro, liberando-o para o trabalho, inadiável, de atuar, em benefício do Brasil, nos campos de batalha, em território nacional, para a manutenção da paz e da ordem. O Governo Federal concentra todos os esforços e todos os recursos na manutenção da paz e da ordem, e não perderá o controle da situação. Administrando o seu dinheiro, o Governo Federal assumirá a tarefa de comprar para você todos os provimentos de sua necessidade, impedindo, assim, com tão sábia medida, que você desperdice o seu dinheiro, que, na verdade, é patrimônio do Governo Federal, que o imprime e o põe em circulação, com inutilidades burguesas capitalistas.

O Governo Federal tomou estas medidas para salvaguardar a paz e a ordem no Brasil, gigante por natureza, em decorrência da transferência de recursos para o esforço de guerra contra as dezenas de nações de silvícolas nativos que, sob influência da Grande Taba, esta nação traiçoeira e ingrata incrustada no território nacional, laceram, com facadas certeiras, o coração do Brasil, que se esvai em sangue e em espasmos de dor e angústia, unidas aos brasileiros brancos, loiros e de olhos glaucos descendentes de europeus de cultura israelita judaica.

Aflorados os instintos animalescos, insanos e brutais da sordidez burguesa capitalista ocidental européia latentes no âmago da integridade dos puros descendentes dos europeus e dos não-puros (descendentes de europeus miscigenados ou com silvícolas nativos, ou com negros africanos, ou com amarelos asiáticos, ou com árabes, nos quais prevaleceu o sangue corrompido dos europeus, que anulou a bondade e a nobreza ingênita dos outros povos), os antipatriotas brasileiros transferiram recursos incalculáveis aos inimigos do Brasil, para o aprovisionamento das suas tropas.

O Governo Federal detectou os baluartes dos antipatriotas, no território de São Paulo, e não se surpreendeu. São Paulo sempre foi fonte de ambigüidade política. Os paulistas sempre foram ladinos e traiçoeiros. Dissimulam a sua ganância em votos de amor pelo Brasil; a despeito dos votos enfáticos de amor pelo Brasil, atuam, nos bastidores, em favor dos burgueses capitalistas ocidentais, dos europeus colonizadores fascistas e hitleristas, dos israelitas judeus genocidas e mentirosos compulsivos, e, principalmente, dos estadunidenses capitalistas colonizadores e imperialistas desumanos. Os paulistas arquitetam, mais uma vez, um golpe contra o Governo Federal. Repetem, hoje, a política antipatriótica de 1932. Não triunfarão, do mesmo modo que não triunfaram naquele fatídico e malfadado ano. A sua política malsucedida, infelizmente, não serve de exortação aos novos antipatriotas.

Devido às despesas inerentes a tão vasto esforço, o Banco, agente do Governo Federal, digno e legítimo representante do povo brasileiro, debitará, automaticamente, de cada conta corrente, R$ 100,00, todo início de mês, para o esforço de guerra contra os inúmeros e incansáveis inimigos externos, cuja força humana e recursos naturais, materiais e bélicos, prevê o visionário Governo Federal, não irá se exaurir num futuro próximo, e a guerra, portanto, se perpetuará até as calendas gregas. O Governo Federal, para a conservação da paz e da ordem, e para melhor atender os trabalhadores nacionais e as suas famílias, concentra todos os recursos disponíveis no esforço de guerra contra os seus inimigos viscerais, os traiçoeiros e ingratos silvícolas nativos.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional.

Para melhor atendê-lo – parte 4 de 6

Brasília, [data]

Ao

Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Nesta carta, o Banco apresenta uma síntese esclarecedora do estado de coisas que, cotidianamente, os trabalhadores nacionais e as suas famílias têm de enfrentar em decorrência das violentas manifestações orquestradas por agentes estrangeiros beligerantes e gananciosos, que almejam a aniquilação do Governo Federal, no seu afã de conservar a desigualdade de renda e as injustiças sociais que há quinhentos anos assolam o Brasil e a América Latina, cujas veias estão abertas e cujo sangue é sugado por Nosferatu capitalistas e outras alimárias quiméricas inumanas e desumanas. O ambiente político atual degenera-se em anarquia institucionalizada. O Governo Federal, que nos três anos anteriores à esta data implementou medidas de segurança para melhor atender os trabalhadores nacionais e as suas famílias, e influencia, favoravelmente, com o seu exemplo moral, governos europeus, latino-americanos, asiáticos e africanos, depara-se com o seu mais astuto, ardiloso, traiçoeiro inimigo: brasileiros apátridas servis aos burgueses capitalistas estadunidenses. O Governo Federal exibe, com a grandiosidade das obras que brotaram destas plagas férteis e abundantes, onde o sol nasce para todos, e todas as raças se irmanam, fraternas, num vínculo universal com a mãe natureza e a Mama África, que, do outro lado do Atlântico, despejou, na terra brasilis, raças fortes e vigorosas, que viviam, num elo estreito, com a natureza, a singularidade inimitável da cultura nacional, única no mundo, invejável e admirável, e a dissemina pelo orbe terrestre, abrasileirando todas as nações decentes, fazendo do mundo um Brasil onde em se plantando tudo dá, e dá, como no Brasil, gigante por natureza, jabuticaba e pororoca, e o mundo, ao assimilar peculiaridades brasileiras, se miscigena, se cordializa, se gentiliza, arrastando, atrás do porta-estandarte e do porta-bandeiras, alegria, felicidade, amor à vida, simplicidade e amor grupal, como o mundo jamais presenciou e jamais imaginou. O Brasil é fonte de inspiração para o mundo. As políticas implementadas pelo Governo Federal seriam o pontapé inicial das transformações que conduziriam o mundo à paz universal; todavia, foram, para desgosto do Governo Federal e dos que seguiam os seus passos e alimentavam sentimentos afins, abortados pelos seus inimigos ferrenhos, audaciosos, sagazes e traiçoeiros. O sucesso do Brasil revelaria para o mundo o insucesso do modelo vigente, inspirado nos códigos capitalistas burgueses, cujo desmoronamento não ficaria oculto aos olhos dos menos informados, se as políticas implementadas pelo Governo Federal prosseguissem, e outras nações as copiassem. Os estadunidenses, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, teceram, com os seus tentáculos tenazes, na frente do Brasil, as redes, e travaram o seu avanço. As medidas de segurança implementadas pelo Governo Federal, como se diz no linguajar do nosso humilde e sofrido povo, choveram no molhado. O Governo Federal colheu insucessos devido à agressiva hostilidade canina dos burgueses capitalistas estadunidenses e seus cúmplices, os brasileiros apátridas que compõem a classe média nacional indiferente ao destino do Brasil, mas não abandonará o gentil, nobre e amável povo brasileiro. Batalhará na sua luta pela manutenção da paz e da ordem. Malgrados os seus ingentes esforços, o Governo Federal não perde o ânimo. Prossegue na sua guerra interminável, que se arrasta há quinhentos anos, contra os colonizadores imperialistas estrangeiros.

Para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco, sob os auspícios do Governo Federal, que não perdeu o foco, conquanto os inimigos do Brasil sejam inúmeros, nem todos eles identificáveis – eles, traiçoeiros, ladinos, atacam o Brasil, de todas as direções, pelos flancos e pela retaguarda -, restringirá, a partir de [data], o acesso dos correntistas às operações bancárias aos caixas localizados no interior das agências bancárias; os terminais eletrônicos ou estão inoperantes, ou desativados, devido às ações criminosas, em centenas de cidades, perpetradas por anarquistas que espalham o caos pelo Brasil. Tal medida, para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, é inadiável, e o Banco a implementa a tempo de evitar prejuízos maiores do que o que auferiu de dois meses para cá.

O Governo Federal, para evitar a quebradeira do sistema financeiro, em atendimento à solicitação do Banco, concedeu ao Banco autorização para cobrar, todo mês, dos seus correntistas, para melhor atendê-los, R$ 50,00, que serão debitados, todo dia primeiro, automaticamente, das contas correntes.

O Governo Federal também autorizou o Banco a encerrar as atividades das agências bancárias situadas nas cidades com população inferior a cem mil habitantes e nas que não possuem delegacias de polícias, e nas que a delegacia de polícia foi desativada, e os policiais, aposentados compulsoriamente; com tal medida o Governo Federal concentra o combate à violência nas capitais e nas grandes cidades.

Em decorrência da elevação do custo de manutenção do aparato policial nas cidades com menos de cem mil habitantes, que se deu devido ao avanço da criminalidade, o Governo Federal, sabiamente, nelas encerrou as atividades policiais, para não onerar ainda mais os cofres públicos. É uma medida provisória, que será revogada assim que o Governo Federal achar por bem, no seu esforço de conservar a paz e a ordem, que estão ameaçadas por terroristas estrangeiros acumpliciados com brasileiros apátridas. A concentração da polícia nas capitais e nas grandes cidades, ao contrário do que divulga a mídia dessensibilizadora, felizmente rara no Brasil, como em toda a superfície do orbe terrestre, não é um gesto ostensivo de abandono dos rincões do Brasil varonil, do campo e das pequenas cidades aos criminosos; é uma medida de contenção dos gastos, para impedir a precipitação do Brasil na anarquia. O Governo Federal tem as rédeas nas mãos. O Governo Federal está com a faca e o queijo nas mãos, e está cortando o queijo. O sucesso das políticas implementadas pelo Governo Federal não é incontestável porque brasileiros apátridas, cooptados pelos estrangeiros, desferem, no Brasil, pelas costas, traiçoeiramente, facadas letais, e transpassam os seus órgãos vitais.

O Governo Federal não recua sequer um passo, e decreta, por medida provisória, leis que conservam, para contrariedade dos inimigos do Brasil, a paz e a ordem em todas as cidades, a despeito do avanço da criminalidade.

O Governo Federal, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, também autorizou o Banco a exigir dos correntistas, para melhor atendê-los, a apresentação, à porta de quaisquer agências bancárias, além dos documentos originais e das três cópias autenticadas do RG, do CPF, do Título de Eleitor, do Certificado de Reservista, da Carteira de Habilitação de Motorista e da Certidão de Nascimento, a Ficha Criminal, a original e três cópias autenticadas.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

O Banco, para melhor atendê-lo, sob os auspícios do Governo Federal, compreensivo e responsável, restringirá, a partir de [data], o seu acesso às instalações da agência bancária situada nesta cidade e a quatro outras agências bancárias (A, B, C, D), das 12:00 às 15:00, como medida de segurança, para melhor atendê-lo. Providência esta, Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, tomada para melhor atendê-lo, para a preservação do seu bem-estar e da sua paz de espírito. Tal providência, provisória, será suspensa assim que o Governo Federal, com o seu gigantesco esforço para a manutenção da paz e da ordem, eliminar os agentes mercenários que impedem a convivência pacífica entre os brasileiros e almejam, com um golpe de estado, destituir da Presidência da República o presidente democraticamente eleito, e implantar, no Brasil, um estado de exceção, de cunho militar, ecoando vozes conservadoras nostálgicas dos anos de chumbo. Para o seu conhecimento, a política de agressão ao estado de direito e ao governo democraticamente eleito pelo povo brasileiro tem o apoio da mídia golpista financiada pelos dólares envenenados dos capitalistas burgueses estadunidenses. O Governo Federal, até o presente momento, impediu o avanço dos revoltosos antipatriotas, que desejam eliminar a paz do Brasil e aniquilar a harmonia da convivência entre as raças. Agentes estrangeiros brancos, loiros e de olhos azuis incutiram idéias antidemocráticas na mente de brasileiros gentis e cordiais. Alguns dentre eles, em sinal de desprezo pelo Governo Federal, que atua, com prudência, desde o início da atual crise, decorrente da ação deletéria de burgueses capitalistas inescrupulosos e conservadores fundamentalistas antediluvianos, na contenção do avanço dos vândalos, exibem, abertamente, o rosto, na internet, e conclamam o povo à luta, não contra os inimigos do Brasil, mas contra o Governo Federal.

O Governo Federal, para orientar o povo brasileiro, gentil, cordial e varonil, condoreiro e mestiço, sábio por natureza, povo que não desiste nunca, herdeiro da bravura dos nativos selvagens e dos negros africanos de ébano de músculos pétreos, e mantê-lo informado das ações governamentais, para a conservação da paz e da ordem, que está em vias de serem corroídas por agentes oxidantes ativados por apátridas traiçoeiros e venais acumpliciados a estrangeiros moralmente insanos e exploradores inescrupulosos, no exercício de sua obrigação moral, contratou, a peso de ouro (o que demonstra a importância que o Governo Federal dá à questão da segurança do povo brasileiro, uma das suas principais prioridades), artistas, cineastas, intelectuais, escritores, pensadores, atores e esportistas; eles gravarão mensagens de esperança e paz, as quais, a partir do dia 7 (sete) do mês corrente, todas as emissoras de televisão e emissoras de rádio veicularão. Assista às mensagens dos seus ídolos prediletos, dos atores que você admira, ouça, atentamente, as palavras sapienciais dos pensadores mais sábios do Brasil, e deixe-as inspirar a você pensamentos nobres, patrióticos, e as virtudes da paciência, da contenção, da tolerância, da compreensão, da ponderação e da reflexão, e impedir que se aflorem ao seu espírito sentimentos de ódio, raiva, egoísmo, ganância, intolerância, intransigência, atiçados peos discursos virulentos dos burgueses capitalistas inescrupulosos e animalescos, que insuflam o ego, estufando-o, com idéias nefastas, que corroem o espírito do cordial e pacífico povo brasileiro.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Para que você saiba da importância dada à segurança do povo brasileiro, a despeito de toda gritaria malsã dos golpistas, o Governo Federal elevou a alíquota de importação de armas, estatizou as empresas de segurança privada, e contratou homens de confiança, experientes, treinados pelo Governo Federal, para administrá-las, para evitar o recrudescimento da desigualdade social e da injustiça social. De modo arrogante e soberbo, os pançudos, nababescos, pingues burgueses capitalistas inescrupulosos, sórdidos agentes fascistas e hitleristas, que copiam as ações do crudelíssimo Hitler, o asqueroso bigodudo grotesco, bizarro e animalesco, rejeitam a política do Governo Federal, armazenam armas de alto calibre, e contratam seguranças particulares, a preço de ouro, e as empresas particulares capitalistas auferem, insensíveis, indiferentes ao esforço hercúleo e ao sacrifício heróico do Governo Federal, que labora na conservação da paz e da ordem, lucros que extorquem dos pobres e gentis trabalhadores nacionais, os quais o Governo Federal protege com amor e dedicação.

É inadmissível a postura de descaso e de indiferença dos burgueses capitalistas desumanos e repulsivos.

As empresas de segurança particular estatizadas, administradas, agora, por profissionais da confiança do Governo Federal, pessoas de bem, comprometidas com a paz e a ordem, vinculadas ao Governo Federal, o único e exclusivo detentor, por direito constitucional, de salvaguardas do bem-estar e da paz dos brasileiros, e do dever moral de governar o Brasil, pelo povo, para o povo, com o povo, mirando, sem perder o foco, a paz, a ordem, a liberdade, a fraternidade e a igualdade, atuam, para a manutenção da paz e da ordem, para benefício da sociedade, e não de aristocratas elitistas da burguesia capitalista, que vivem ilhados nas suas mansões hollywoodianas de marajás alheados do mundo.

O Governo Federal, o único detentor do direito natural de exercer os serviços imprescindíveis de segurança do povo brasileiro, não permitirá que sórdidos e egoístas agentes burgueses capitalistas inescrupulosos atuem em benefício próprio e em defesa dos seus interesses.

O Governo Federal elevou a alíquota do imposto de renda dos milionários para setenta por cento (70%) da renda. Com esta medida, impedirá que os milionários desperdicem dinheiro com inutilidades luxuosas e produtos supérfluos requintados de ostentação burguesa capitalista, cuja cultura está devastando a Terra, tão castigada, tão maltratada, tão seviciada. O dinheiro auferido com a cobrança da nova alíquota, fortuna incalculável – que estava nas mãos de pessoas desvinculadas da realidade nacional, pessoas que viviam com os pés na lua e a cabeça nas nuvens e desperdiçavam recursos essenciais para a melhoria do padrão de vida do povo brasileiro -, será investido nos bem-sucedidos programas sociais e na política de segurança pública nacional, para a redução do fosso que separa os ricos dos pobres. O Governo Federal construirá projetos grandiosos – como o Brasil, gigantes pela própria natureza –, que alavancarão a economia brasileira, que assumirá a dianteira do desenvolvimento mundial.

O Governo Federal, noutra decisão humanitária inédita, para estabelecer a igualdade entre os ricos e os pobres, decretou o congelamento dos preços dos alimentos, e nacionalizou a indústria farmacêutica e as farmácias, que, agora, são patrimônios do povo brasileiro, e não de burgueses capitalistas estrangeiros e brasileiros servis aos seus mentores estadunidenses. Com tal medida, o Governo Federal evitou a especulação financeira com os alimentos e os remédios, artigos de primeira necessidade do povo brasileiro.

Os burgueses capitalistas fascistas de inspiração nazista especulavam com a vida de milhões de brasileiros! Queriam fazer dos brasileiros, vigorosos e saudáveis, seres acéfalos descerebrados e alimárias famélicas esquizóides deformadas! Você, certamente, viu, em todas as cidades do Brasil varonil e gentil, muitos mendigos famintos, esfarrapados e imundos. São, todos eles, produtos da indústria burguesa capitalista desumana, que produz injustiça social às mancheias e miseráveis mendazes aos cachos.

O Governo Federal investirá na melhoria do sistema de segurança pública a fortuna que os milionários burgueses capitalistas inescrupulosos investiam, inutilmente, no consumo, para satisfação de sua vaidade egocêntrica, de produtos inúteis, e em fábricas que produziam artigos de luxo supérfluo enquanto milhões de brasileiros passam fome, e conterá o avanço dos inimigos da pátria, dentro e fora do Brasil. Tal fortuna, indispensável para o bem-estar dos brasileiros, os milionários burgueses capitalistas empregavam na compra de inutilidades luxuosas! Ao nacionalizar as farmácias e a indústria farmacêutica, o Governo Federal eliminou tudo o que desviava a atenção de milhares de trabalhadores nacionais, funcionários públicos patriotas, que, antes, no mercado de livre concorrência vigente, tinham de fiscalizar os agentes burgueses capitalistas predadores para impedi-los de auferir lucros extorsivos com a venda de remédios adulterados, maus tratos ao povo brasileiro, e a exploração de trabalhadores sem carteira assinada (política esta inerente às injustas leis de mercado que exauriam a energia do povo brasileiro, povo que os burgueses capitalistas alcunham, desrespeitosamente, de consumidores, eliminando a sua condição humana), que trabalhavam, unicamente, em benefício dos burgueses capitalistas inescrupulosos.

O Banco, para melhor atendê-lo, estabelece taxa de R$ 20,00 (vinte reais) para cada saque que você efetuar da conta e da caderneta de poupança, independentemente do valor debitado, e restringe, com autorização do Governo Federal, para melhor atendê-lo, o seu atendimento às segundas-feiras das 14:00 às 15:00, com agendamento.

O Banco mantêm as exigências anteriores quanto à documentação a apresentar, à porta da agência bancária, aos policiais que fazem a sua segurança e a de todos os trabalhadores que contrataram os serviços do Banco, e os débitos automáticos, mensais, na sua conta, consagrados anteriormente pelo Governo Federal.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Cidadão Camarada.

Para melhor atendê-lo, cidadão camarada, o Banco, com o apoio irrestrito do generoso Governo Federal, sob o abrigo do qual milhões de brasileiros encontram amor fraternal e proteção paternal e maternal, institui novas regras para o atendimento aos correntistas:

1, agendamento para atendimento de, no mínimo, setenta e duas horas de antecedência;

2, concessão de atendimento, para a sua segurança, e para melhor atendê-lo, cidadão camarada, à agência B, das 13:00 às 14:00, às segundas-feiras, quartas-feiras e sextas-feiras; e,

3, apresentação, à porta da agência, dos seus documentos e de quatro cópias autenticadas, que serão impressas no Cartório de Registro Civil, sob o olhar atento de um representante do Governo Federal, preparado para atendê-lo, com agendamento de, no mínimo, quarenta e oito horas de antecedência, agendamento que deverá ser feito, no Cartório, e registrado no Livro de Registros; para este serviço, imprescindível, cidadão camarada, à sua segurança, você pagará módicos R$ 5,00

Os documentos exigidos são os que você está consciente de ter de apresentar.

Tais expedientes, cidadão camarada, foram implementados para a sua segurança, e para o Banco melhor atendê-lo.

À porta da agência, sob o olhar escrutinador de um representante do Governo Federal, as quatro cópias autenticadas serão, por um funcionário do Banco indicado pelo Governo Federal, avaliadas, comparadas com os documentos originais, protocoladas, e arquivadas, uma, no Banco, uma, na Receita Federal, uma, na Polícia Federal, e uma será devolvida para você, e você deverá conservá-la consigo até segunda ordem.

Após a apresentação dos documentos, você, cidadão camarada, digitará:

1, a senha;

2, a senha de segurança;

3, a senha de conta;

4, a senha geral;

5, a senha de cidadão camarada.

As senhas serão fornecidas, em folha anexa (a senha anterior foi cancelada), pelo Governo Federal. E digitará, também:

6, a data do seu nascimento;

7, o número do seu RG;

8, o número do seu Título de Eleitor;

9, o número do seu CPF;

10, a data da emissão do seu RG;

11, a data da emissão do seu Título de Eleitor;

12, a data de expedição do seu CPF;

13, a data de registro da sua Certidão de Nascimento;

14, o número do seu Certificado de Reservista;

15, o número da sua Carteira de Habilitação de Motorista;

16, a data da emissão do seu Certificado de Reservista;

17, a data da emissão da sua Carteira de Habilitação de Motorista; e,

18, o número do chassi do seu carro.

Com a digitação destes dados, no instante da efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies, o atendimento a você, cidadão camarada, será mais seguro, para a sua segurança.

O Banco salienta:

O Banco cobrará, para cada operação bancária que você, cidadão camarada, efetuar, módicos R$ 80,00, que serão debitados, automaticamente, da sua conta corrente.

O Governo Federal, para evitar pânico e manter a paz e a ordem, autorizou o Banco a rejeitar toda solicitação, pelos correntistas, de cancelamento dos contratos, e o autorizou a alterar os procedimentos de atendimento, sempre e quando considerar necessário, para melhor atender os correntistas, e a elevar as tarifas e as taxas para investimento, como o Banco faz há meses, na segurança bancária, para evitar violações de contas correntes e cadernetas de poupanças, invasões às agências bancárias, e para a contratação de profissionais de segurança fortemente armados, todos treinados pelo Governo Federal, e de especialistas em informática. Como você percebeu, cidadão camarada, reduziu-se, consideravelmente, nos dois meses anteriores à esta data, as violações de contas correntes e de cadernetas de poupança, as clonagens de cartões e os assaltos às agências bancárias e aos carros fortes. As medidas implementadas pelo Governo Federal e pelos Bancos, restritivas, impediram o avanço de agentes insuflados pelos burgueses capitalistas estrangeiros inescrupulosos e os seus cúmplices nacionais antipatriotas.

Todas essas medidas são necessárias à sua segurança, cidadão camarada, pois o Governo Federal identificou agentes burgueses capitalistas astutos nas agências bancárias, e inteirou o Banco, que assumiu as suas responsabilidades na manutenção da paz e da ordem, e demitiu vinte por cento dos seus funcionários, e contratou especialistas indicados pelo Governo Federal.

De

Representante Governamental do Sistema Financeiro Nacional

Para melhor atendê-lo – parte 3 de 6

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Por meio desta, o Banco vos informa:

Em decorrência da elevação dos casos de clonagens de cartões, violações de contas correntes e cadernetas de poupança, seqüestros relâmpagos e seqüestros, o Banco solicitou ao Governo Federal autorização para intensificar o rigor do sistema de segurança bancária, para melhor atender os seus correntistas. Tendo em vista o atraso, compreensível e admissível, da implantação do novo sistema de segurança bancária nacional, é imprescindível a captação de recursos além dos originalmente considerados. Lançando mão de expedientes legais, para melhor atender aos seus correntistas, o Banco, autorizado pelo Governo Federal, irá solicitar-lhes, a partir de [data], a apresentação dos originais do RG e do CPF aos quais anexarão as respectivas cópias autenticadas (duas), no momento da efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies, no terminal eletrônico, no caixa e em quaisquer estabelecimentos comerciais autorizados. As duas cópias autenticadas serão protocoladas, na boca do caixa, pelo caixa, e, no terminal eletrônico, por um funcionário que ficará à disposição dos correntistas, e, nos estabelecimentos comerciais autorizados, milhares deles em todo o território nacional, por um funcionário indicado pelo estabelecimento, contratado, exclusivamente, para exercer esta imprescindível tarefa, uma das que compõem o conjunto de medidas que visam a melhoria do atendimento aos correntistas.

Os empresários, o Banco vos informa, esbravejaram e hostilizaram o Governo Federal, exibindo a ganância, a insensibilidade, a irresponsabilidade social e o descompromisso com o bem-estar e a segurança do povo brasileiro que os inspiram. O Governo Federal, no seu esforço de melhorar a vida do povo brasileiro, dissuadiu os empresários relutantes de rejeitarem as medidas que propõem o melhor atendimento dos bancos aos correntistas ao oferecer-lhes empréstimos para os investimentos na instalação do novo sistema de segurança bancária, inviolável, de tecnologia exclusivamente nacional, desenvolvida por brasileiros treinados pelo Governo Federal. Diante da generosa oferta do Governo Federal, os empresários relutantes abandonaram a intransigência injustificada e abraçaram a causa defendida por bancos, cartórios e representantes das leis, todos eles patriotas compromissados com o bem-estar dos brasileiros.

Damos um passo para a frente. Avançamos para o futuro antevisto pelo Governo Federal, visionário e profético.

O funcionário que vos atender, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, no momento da efetivação de quaisquer operações bancárias, protocolará as duas cópias autenticadas do RG e as duas cópias autenticadas do CPF (as cópias do RG e as do CPF deverão vir em folhas separadas), conservará uma com o Banco, e a outra ele vos entregará, cópia esta que o senhor deverás conservar convosco pelo período de cinco anos, para a vossa segurança.

Sabemos que o Brasil é, com freqüência preocupante, acossado por tragédias naturais imprevisíveis e, não é incomum, alvejado por raios, os quais têm alto poder de destruição e danificam, em muitos casos irreversivelmente, a estrutura energética nacional, desde as hidrelétricas, passando pelas redes de distribuição de energia, até o seu destino, a casa dos brasileiros, causando, sabemos, transtornos para os trabalhadores nacionais e as suas famílias; os estragos, em muitos casos, são tão numerosos e tão vastos, que o Governo Federal, mesmo com o emprego da sua gigantesca estrutura, do tamanho do Brasil, gigante por natureza, não corrige, em tempo hábil, para evitar transtornos e dissabores aos brasileiros, os danos, ou, então, ao consertar uma parte do que foi danificado, uma catástrofe natural avassaladora, ou uma sequência demolidora de raios nos dias tempestuosos – que tem recrudescido, em decorrência do aquecimento global, fenômeno cataclísmico minuciosamente documentado que culminará na destruição da Terra, se as medidas inadiáveis para evitar o apocalipse não forem implementadas por todas as nações do globo, sob ditames de leis internacionais e a égide de órgãos de abrangência global às quais todas as nações devem respeito, principalmente o Brasil, que é o detentor da maior rede de produção de energia limpa (as hidrelétricas) e da maior floresta tropical do planeta (o pulmão vital da mãe Gaia, a nossa mãe) -, ou uma saraivada de ventos devastadores, anula os esforços empreendidos pelo Governo Federal ao danificar o que foi recuperado, impedindo que se recupere o que foi danificado, danificando-o ainda mais. As conseqüências são conhecidas. O Brasil passou por contratempos similares, nos anos recentes, e outros contratempos não estão fora de cogitação. Devido à tais problemas, se faz necessária, por precaução, a conservação de cópias autenticadas protocoladas de todas as operações bancárias que o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, vier a efetivar, para a vossa segurança e para que melhor o Banco possa atendê-lo.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, assististe aos noticiários deste mês (se não assististe, o Governo Federal vos indica os noticiários A, B, C, respectivamente, das emissoras de televisão, D, E, F, e as revistas G, H, e os programas jornalísticos F, I, respectivamente, das rádios J, Y, e os sites W, Z, X, todos fontes confiáveis de informações selecionadas pelo Governo Federal, para que o senhor não despendas tempo precioso de vossa vida à procura de fontes de notícia, e possas aproveitá-la de forma produtiva, trabalhando e estudando, para fazer do Brasil, o país do futuro, gigante pela própria natureza, um país grande, e tornar o futuro presente, para gáudio dos brasileiros e inveja dos estrangeiros), e tomastes conhecimento das tragédias que se abateram sobre o Brasil, provocando devastações. O Governo Federal, com a presteza que lhe é peculiar, mensurou o custo da recuperação de toda a malha energética danificada e o da recuperação do sistema nacional de segurança bancária. Não é do agrado do Governo Federal ter de solicitar aos trabalhadores nacionais a adição de R$ 10,00 à contribuição mensal que generosamente investem, no projeto do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional, para a conservação da paz e da ordem, mas, em decorrência da elevação do custo, decorrente de catástrofes naturais, imprevisíveis e indomáveis, do projeto de segurança bancária – projeto inédito no mundo, de causar inveja aos estrangeiros -, se viu na obrigação de lhos solicitar, e avisa que os debitará, mensalmente, das contas correntes, no primeiro dia útil do mês.

Certo da vossa compreensão e colaboração, o Banco despede-se.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Nos quinze dias anteriores à esta carta, como é do teu conhecimento, sucederam-se sublevações populares, em inúmeras cidades nacionais, sendo as mais preocupantes, e as para as quais o Governo Federal tem dado mais atenção, as que se sucederam no Estado de São Paulo, e, principalmente, na cidade de São Paulo.

Como é do teu conhecimento, os paulistas, desde o fatídico ano de 1932, o da malfadada história antipatriota então promovida contra o Governo Federal de turno – que, altivo, batalhou, heroicamente, com os brasileiros patriotas sob o seu comando, pela conservação da integridade do território nacional, a partir do palácio Guanabara -, promovem política de secessão. O governante daquela era áurea, por amor ao Brasil, preferiu a morte ao destino entristecedor dos anos subseqüentes. Até hoje a figura deste grande líder da nação brasileira, que, como a nação, gigante por natureza, foi, por natureza, um gigante, é vilipendiada pelos paulistas, que, com a sua desprezível arrogância capitalista de inspiração estadunidense e a sua apologética bandeirante dos desbravadores que devastaram a Mata Atlântica e patrocinaram, com dinheiro estrangeiro, a aniquilação dos povos nativos, os únicos e verdadeiros donos destas terras, lutam pela implementação, em todo o território nacional, da cultura paulista da irreflexão, da dessensibilização capitalista, com a conseqüente eliminação das culturas regionais, agressão esta que se sucede há quinhentos anos e à qual os políticos nordestinos – pejorativamente alcunhados coronéis – resistiram bravamente, em benefício dos brasileiros herdeiros das ancestrais culturas nativas pré-colombianas e pré-cabralinas, dois substantivos inapropriados, pois com eles não se considera a diversidade cultural dos povos nativos, que é rica, imensurável, incomparável – infelizmente a sua maior parte foi destruída por espanhóis, portugueses, britânicos, holandeses e franceses, povos sórdidos que, após devastarem a Europa, devastaram a Ásia, a África e o continente o qual, numa demonstração de profundo desprezo pelos donos destas terras, destruíram, eliminando a harmonia existente entre eles e a natureza abundante, generosa, mantenedora da vida. Muitos povos – irmanados com a natureza, que lhes legou a sabedoria, pura, intocada pela civilização, sabedoria, tão excelsa, milenar, embebida na pureza natural, que os homens civilizados estão impossibilitados de conceber – foram dizimados pelos embrutecidos, cruéis e sórdidos europeus, que, incapazes de apreenderem o real valor da sabedoria natural, que lhes exige intelecto do qual são desprovidos, enraivecidos, invejando os povos nativos, os exterminaram. Sobreviveram unicamente os povos que se refugiaram no coração da floresta e conservaram, bravamente, opondo-se à política européia de extermínio dos povos nativos silvícolas, a cultura milenar nativa.

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, esta introdução é imprescindível para a correta compreensão dos eventos que se sucedem, à revelia do Governo Federal, no Brasil, com mais intensidade no Estado de São Paulo, que concentra a maior parte do movimento orquestrado por partidos conservadores fundamentalistas, fervorosos, arbitrários e intransigentes defensores da cultura capitalista de cunho genocida de inspiração européia que muitos males e sofrimentos produziu em todo o orbe terrestre. São estes os agentes da destruição que pululam Brasil adentro, mancomunados com agentes estrangeiros infiltrados no Brasil, e manipulam os brasileiros, induzindo-os a atacarem o Governo Federal. Não procede o teor da notícia, saiba, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, disseminada pela mídia nacional, que, sabemos, está nas mãos de conservadores fundamentalistas, como tu tão bem sabes, de que agentes comunistas, financiados pelo Governo Federal, infiltraram-se nas revoltas mais agressivas, e vociferaram, belicistas, palavras de ordem, exibiram desprezo pela autoridade governamental e brandiram bandeiras conservadoras com o propósito de imputar aos conservadores crimes perpetrados pelo Governo Federal. Tal é a estratégia política dos conservadores fundamentalistas, inimigos do Governo Federal, que está atento para a ação dos inimigos do Brasil. No seu esforço de preservar os programas sociais, conservar a paz e a ordem, conter a violência conservadora, o Governo Federal, a contragosto, despende somas incalculáveis – que não estavam consideradas no orçamento nacional -, com o propósito de impedir o recrudescimento da violência e a elevação da força dos revoltosos, e transfere, para enfrentar a onda de violência perpetrada pelos conservadores fundamentalistas, recursos destinados à criação do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional à política de segurança pública e à ampliação e aperfeiçoamento do sistema de segurança nacional, objetivando a manutenção do aparato policial, para fazer frente ao trabalho, incontornável e inadiável, de matar, no nascedouro, o movimento radical hostil à justiça social e ao bem-estar dos nordestinos, povos que os conservadores fundamentalistas tanto desprezam. O Governo Federal contratará trabalhadores nacionais capacitados e convocará um exército de agentes civis, todos eles treinados pelo Governo Federal, para quebrar a espinha dorsal dos inimigos do Brasil e cortar o mal pela raiz, como salientou, enfático, o Excelentíssimo Presidente da República. O Governo Federal, visionário, ao acolher o resultado dos estudos de especialistas gabaritados e com experiência comprovada pelo rigoroso, justo e infalível processo de avaliação criado por especialistas de renome nacional contratados pelo Governo Federal, decidiu solicitar a elevação da contribuição mensal dos brasileiros para o esforço de manutenção da paz e da ordem. R$ 50,00 serão, automaticamente, debitados da conta corrente de cada trabalhador brasileiro, todo mês, no dia cinco. O Governo Federal prescindiu da consulta aos trabalhadores brasileiros devido à urgência do estado de coisas. O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, responsável cidadão brasileiro, reconheces a urgência da medida, e, como patriota exemplar, acolhes, consciente, a ordem presidencial, numa postura digna, correta e corajosa, em respeito às medidas que salvaguardam a paz nacional. Infelizmente, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, milhões de brasileiros desprovidos de consciência e responsabilidade patrióticas equivalente à tua, rejeitaram, terminantemente, a solicitação do Governo Federal à contribuição provisória compulsória de recursos, e hostilizam os trabalhadores nacionais investidos em causa tão justa e finalidade tão nobre. Eles não sabem os males que a rejeição deles à política do Governo Federal produzirão no Brasil.

Com autorização do Governo Federal, tendo em vista os prejuízos decorrentes da destruição de agências bancárias pelos revoltosos conservadores, do avanço da violência contra os seguranças contratados pelo Banco, da violação das contas correntes e da invasão dos computadores do Banco por hackers e assaltantes virtuais, o Banco, autorizado pelo Governo Federal, debitará, para melhor atendê-lo, da tua conta corrente, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, a taxa mensal de R$ 35,00, para investimento no Sistema de Segurança Bancária.

O Banco despede-se, sob votos de felicidade e gratidão.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

As recentes medidas adotadas pelo Governo Federal e pelo Banco, como o Banco te informou, a despeito do seu inegável sucesso, não coibiram, todavia, a ação dos mais exaltados burgueses inescrupulosos, sórdidos agentes do imperialismo ianque, sobrinhos do famigerado tio Sam, que, com a sua insanidade esquizofrênica, implementaram na nação estadunidense a secessão, cortando o país ao meio.

O Governo Federal, carente de recursos, e preocupado com o bem-estar do povo brasileiro, povo gentil, cordial, o melhor povo que já surgiu na face externa do orbe terrestre, decidiu não acolher em seu seio generoso e benevolente, a despeito da insistência de organizações internacionais, que desejam ver o nobre povo brasileiro famélico, desvigorado, emasculado, arrastando-se, débil, pelo chão, espojando-se nos lixões produzidos pela burguesia capitalista, as exortações dos capitalistas estrangeiros, as quais, se acolhidas, encareceriam, enormemente, a vida do gentil povo brasileiro, o povo mais trabalhador de que se tem notícia, pois teria de, obrigatoriamente, realocar recursos destinados aos projetos sociais, ambientais, educacionais e culturais para projetos de contenção dos meliantes, e elevar as alíquotas de impostos, que já são elevadíssimas (a elevação das alíquotas de impostos enfraqueceria as indústrias nacionais e diminuiria o poder de compra dos trabalhadores nacionais e de suas famílias). O Governo Federal não hesitou: rejeitou, altivo, nobre, como é de seu feitio, esta proposta nefasta para a pátria, e decidiu implementar medidas que não prejudicam os brasileiros e inspiram-lhes ações favoráveis à participação espontânea no esforço hercúleo de conservação da paz e da ordem neste país tropical, belo por natureza, em que todas as raças se irmanam, amistosamente, neste Éden paradisíaco, e não repetem o ódio visceral fraternal de Caim e Abel, pois, aqui, no Brasil, a natureza é farta, e nutre, com o seu úbere apojado de proteínas e vitaminas, os descendentes de povos oriundos de todos os continentes.

O Banco te informa, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas: o Governo Federal, para obter os recursos imprescindíveis para conservar a paz e a ordem e impedir a repetição do episódio lamentável – que os brasileiros da gema, honestos, decentes e trabalhadores, têm, obrigatoriamente, de deplorar -, que se sucedeu, anteontem [data], no estado de São Paulo, cuja população, descendente de bandeirantes asquerosos, herdeiros de imundos desbravadores genocidas, repete, em pleno século XXI, a malfadada e antipatriótica política de 1932, aumentará a quantidade de dinheiro à disposição do gentil povo brasileiro. As impressoras do Governo Federal estão a todo vapor. O Governo Federal produz riqueza como nunca se produziu na história da civilização.

Para encerrar:

O Governo Federal autorizou o Banco a, para melhor atendê-lo, solicitar-te, encarecidamente, que, para melhor atendê-lo, salientamos, toda vez que tu efetuares uma operação bancária, em quaisquer terminais eletrônicos e caixas em quaisquer agências bancárias, ou nas lojas credenciadas e nas casas lotéricas, além de digitares os dados os quais o senhor estás habituado a fornecer (listamo-los: 1, a senha; 2, o número do teu CPF; 3, o número correspondente ao mês do teu nascimento; 4, o ano do teu nascimento; 5, o número do teu RG; 6, o número do teu Título de Eleitor; 7, o número do teu Certificado de Reservista; 8, o número da tua Carteira de Habilitação de Motorista) e apresentar os documentos originais (Certidão de Nascimento, RG, CPF, Título de Eleitor, Certificado de Reservista e Carteira de Habilitação de Motorista), apresentará três cópias autenticadas de cada documento (RG, CPF, Título de Eleitor, Certificado de Reservista e Carteira de Habilitação de Motorista), que serão protocoladas, e uma cópia o Banco recolherá e arquivará, e uma cópia o Banco enviará ao Governo Federal, e uma cópia o Banco te devolverá, e tu a arquivarás, e conservarás contigo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, para a tua segurança, por um período de cinco anos. Caso o senhor não sejas detentor do Certificado de Reservista e da Carteira de Habilitação, o Banco solicita-te providenciar declaração, de próprio punho, na presença de oficial de justiça, autenticada e com reconhecimento de firma; caso o senhor já tenhas tomado tal providência, conforme solicitado na carta de [data], e redigido, de próprio punho, tal declaração, desconsidere-a, pois o Banco, autorizado pelo Governo Federal, para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, invalidou-a, e a destruirá; a destruição da declaração será executada no Fórum Municipal (para a sua destruição, o senhor terá de pagar módicos R$ 5,00), evitando, assim, que o senhor, nesta vida atribulada, esqueças de tomar tal providência, e o documento, caindo em mãos erradas, que são numerosas nos dias atuais, seja utilizado para realização de crimes contra a tua pessoa. Para a tua segurança, para o Banco melhor atendê-lo, o senhor terá de redigir nova declaração, de próprio punho, autenticá-la, no Cartório de Registro Civil, na presença de um Oficial de Justiça, e terá de apresentá-la, sempre que desejar entrar em uma agência bancária, ao segurança, que te dará acesso aos domínios da agência.

O Banco despede-se de ti, sob votos de felicidade e alegria.

De

Gerente Personalizado

Para melhor atendê-lo – parte 2 de 6

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Senhor, o Banco vos informa:

Na reunião, em [data], da qual participaram economistas e matemáticos do Governo Federal, após ponderados estudos, revisão de cálculos do investimento para a substituição do sistema de segurança bancária atual para o moderno, desenvolvido por técnicos nacionais altamente capacitados, ficou decidido, para atender às novas exigências de segurança bancária para melhor atender os correntistas:

1, elevação de 20% (vinte por cento) dos custos do investimento.

O Governo Federal tomou medidas apropriadas para proteger os correntistas brasileiros da sanha hedionda dos gananciosos exploradores internacionais, que impingem aos brasileiros custos onerosos associados a serviços de qualidade duvidosa e de má qualidade, certos de concentrarem, nas suas mãos, os recursos naturais, dádivas que os brasileiros herdamos da mãe natureza, generosa e benevolente, benquista por todos. O novo sistema de segurança bancária foi desenvolvido por especialistas nacionais, preparados, em instituições nacionais, por especialistas nacionais, para não assimilarem idéias estrangeiras. Com tal medida, o Governo Federal salvaguarda a riqueza cultural nacional, para cuja dilapidação especuladores estrangeiros trabalham, com o objetivo, sórdido, de dissolver o elo que conserva o Brasil uno e indivisível. Se os estrangeiros triunfarem em sua política colonizadora, transferirão, para paraísos fiscais, as riquezas nacionais, que pertencem, por natureza e destino, ao povo brasileiro. Para impedir que isso se dê, o Governo Federal decidiu:

1, elevar a alíquota de importação de máquinas estrangeiras;

Objetivo: impedir a devastação do parque industrial nacional e a apropriação indevida de capital nacional por estrangeiros.

2, investir na capacitação de profissionais nacionais;

Objetivo: impedir o domínio do mercado nacional por profissionais estrangeiros, que, se dominá-lo, chantagearão o Brasil, e exigirão, extorquindo o Brasil, remuneração excessiva.

3, proibir a contratação de profissionais estrangeiros por empresas nacionais; e,

4, controlar a imigração, que, sabemos, é parte do projeto de dominação estrangeira.

Objetivo: Promover justiça social. Se, no Brasil, maior for o número de trabalhadores estrangeiros, menor será o de trabalhadores brasileiros. As conseqüências são óbvias: O empobrecimento do povo brasileiro; o aumento da desigualdade de renda; e a concentração da riqueza nas mãos dos estrangeiros, que são enviados para o Brasil para eliminar a concorrência nacional, pois, sabem os estrangeiros, os brasileiros são bem treinados, talentosos, produtivos, dotados de peculiaridades únicas, invejadas pelos estrangeiros, que sabem que os brasileiros lhes representam ameaças incontornáveis.

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, vós aprendeste, com a vossa vasta experiência, quais são os perigos que pairam sobre as nossas cabeças e os que nos rondam, ameaçadoramente. Os estrangeiros, vós sabeis, sitiam-nos, e estão na iminência de desfechar um ataque devastador contra o Brasil. Com as medidas acima elencadas, o Governo Federal visa a defesa da riqueza nacional. O Governo Federal, nosso mantenedor e benfeitor, vos põem a par, como a milhões de brasileiros cientes de suas responsabilidades e atribuições de patriotas, das ameaças à segurança nacional.

Certo de que o senhor compreendeste as motivações do Governo Federal na implementação das medidas, justas, favoráveis ao bem-estar dos brasileiros, o Banco passa à parte subseqüente da carta, longa, e para cuja leitura o senhor despenderás, no entanto, poucos minutos do vosso precioso tempo de brasileiro trabalhador.

No seu esforço de construção, no Brasil, de uma indústria de avançada tecnologia de sistema de segurança bancária, melhor do que a existente no exterior, para evitar a bancarrota da incipiente indústria nacional neste setor, que, embora incipiente, avoluma-se, atrai a atenção dos estrangeiros, que admiram os brios e a competência dos profissionais nacionais preparados pelo Governo Federal (daí o desejo, alimentado pelos estrangeiros, de destruírem-na), o Governo Federal estabeleceu as medidas das quais o senhor está a par, e com as quais o senhor, brasileiro patriota que sois, ciente de vossas responsabilidades, concorda. O Governo Federal, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, certo de que o senhor o apoiarás no esforço, incontornável, premente, inadiável, de implantar sistema de segurança bancária de qualidade superior aos que há no exterior, vos solicita, para proteger o Brasil, a contribuição mensal, que será debitada da vossa conta corrente, de R$ 5,00.

Para que os encargos, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, não vos sobrecarreguem, o Governo Federal, ciente do vosso sacrifício espontâneo, cancela a contribuição provisória anteriormente estabelecida, como o Banco vos informou em carta de [data], cumprindo, assim, o compromisso que com o senhor assumiu, dando provas de ser merecedor da confiança que o senhor depositaste no Banco e no Governo Federal.

O Governo Federal, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco enfatiza, numa elevada postura moral admirável, não vos pedirá que participes deste esforço com duas contribuições, a atual, de R$ 2,00, e a de R$ 5,00 estabelecida na reunião, em [data], dos economistas e matemáticos do Governo Federal e de institutos de estudos econométricos financiados pelo Governo Federal. Assim, para não sobrecarregar-vos, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Governo Federal, que bem vos quer, a partir de [data], encerrará o débito, da vossa conta corrente, da contribuição de R$ 2,00, e a partir de então debitará, de vossa conta, R$ 5,00, todo início de mês.

O Governo Federal está seguro de que o senhor participarás deste esforço, pois o senhor, sob a guarda protetora do Governo Federal, serás um dos beneficiados. Os resultados, positivos, favoráveis, serão do vosso conhecimento antes do que imaginais.

O Banco e o Governo Federal contam com a vossa colaboração.

O Banco despede-se com sinceros votos de felicidade e bem-estar.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Senhor, o Banco vos informa:

Conquanto eficientes as últimas medidas tomadas pelo Governo Federal instituídas em [data], como o Banco vos informou na carta precedente, o Banco não alcançou o seu propósito: proteger os seus correntistas, evitando-lhes dissabores. O novo sistema de segurança bancária implementado pelo Banco, sob orientações do Governo Federal, melhor do que o antecedente, mostrou-se, todavia, aquém das expectativas.

Com o aumento do número de casos de violações de contas correntes e de clonagens de cartões, o Banco solicitou ao Governo Federal permissão, para melhorar o sistema de segurança bancária, e melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, para solicitar-vos, senhor, e a todos os seus correntistas, informações que coibirão a ação dos meliantes, e a obteve. Tais informações os correntistas terão de fornecer, para que o Banco melhor possa atendê-los. O senhor, a partir de [data], além de digitardes, para a efetivação de quaisquer operações bancárias, a senha, o número do vosso CPF, o número correspondente ao mês do vosso nascimento, o ano do vosso nascimento e o número do vosso RG, digitarás, na sequência:

1, o número do vosso Título de Eleitor;

2, o número do vosso Certificado de Reservista; e,

3, o número da vossa Carteira de Habilitação de Motorista.

Se o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, não sois detentor de Certificado de Reservista e Carteira de Habilitação de Motorista, redijas uma declaração, de próprio punho, em duas vias, reconheças firma num cartório de registro civil, autentiques as vias, e envie-as ao Banco.

Com tal providência, o Banco melhor irá atendê-lo sempre que o senhor efetuares operações bancárias de quaisquer espécies, não vindo o senhor a ser, portanto, constrangido a vos retirardes do Banco sem efetuares as operações bancárias que sejam do vosso desejo. Evitai transtornos, dissabores, constrangimentos.

Procurai-me – estarei à vossa disposição, para orientar-vos, caso necessário, se for do vosso agrado.

Não tardes a tomar as providências nesta carta elencadas.

Ajudes o Banco a melhor atendê-lo.

Vós sabeis que, nos vinte meses anteriores à esta carta, atuando em parceria com o Governo Federal, o Banco concentrou os seus esforços no exaustivo trabalho de implementação do grandioso sistema de segurança bancária que vos oferece segurança e comodidade, para melhor atendê-lo, oferecendo-vos tranquilidade.

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco conta com a vossa inestimável e imprescindível contribuição.

Certo da vossa compreensão, o Banco despede-se sob votos de amizade.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Mais uma vez, para melhor atendê-lo, o Banco vos solícita, encarecidamente, a vossa contribuição, certo de que o senhor participarás do projeto do Governo Federal. Na reunião, em [data], o Governo Federal, para vosso benefício, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, deliberou, certo de vossa anuência, erigir uma organização de segurança que visa o vosso bem-estar, para melhor atendê-lo.

À guisa de esclarecimentos, o Banco vos informa:

Para a ereção da organização de segurança, imprescindível para o correto e eficiente funcionamento do sistema de segurança bancária, para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Governo Federal teria de transferir recursos de projetos sociais, educacionais, culturais e ambientais para o de segurança bancária, mas não o fará, pois os brasileiros, gentis e patriotas, o apoiarão na implementação do sistema de segurança bancária. Se o Governo Federal reduzisse os recursos destinados às áreas educacional, social, cultural e ambiental, e elevasse o de segurança bancária, prejudicaria, o senhor estás ciente, cidadão responsável que sois, milhões de brasileiros das classes sociais desprivilegiadas, que mal adquirem, todo mês, o salário adequado para a aquisição de provimentos indispensáveis para uma vida saudável.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, sois um brasileiro patriota exemplar. Não desejas, sabe o Governo Federal, ver os vossos patrícios espojando-se na imundície para obter o feijão e o arroz diários. O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, referenderás, como milhões de brasileiros patriotas conscientes de suas responsabilidades, na íntegra, a decisão do Governo Federal. O senhor apoiarás o Governo Federal nesta política, que redundará em vosso benefício, e o Banco melhor irá atendê-lo.

A criação do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional exigirá esforços inauditos do Governo Federal e dos bancos. A contratação de trabalhadores – todos de nacionalidade brasileira – é uma das medidas tomadas pelo Governo Federal. O projeto, gigantesco – como o Brasil, gigante pela própria natureza -, para sustentar o país do futuro, será concebido e desenvolvido por brasileiros treinados pelo Governo Federal, que valoriza, enormemente, como é do vosso conhecimento, o talento irrivalizado dos brasileiros. O projeto, de dimensões gigantes, é essencial para atender o gigante adormecido, que desperta, e atrai o mundo, após o sono prolongado de décadas perdidas em decorrência da entrega das riquezas pátrias para os estrangeiros, que há quinhentos anos exploram o Brasil e mantêm os brasileiros na miséria.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, contribuirás, para tão inaudito esforço, com módicos R$ 10,00 mensais, que serão, automaticamente, debitados da vossa conta corrente. Essa contribuição, que será cobrada de todo brasileiro patriota, permitirá ao Governo Federal conservar os programas sociais, educacionais, culturais e ambientais, para benefício de centenas de milhões de brasileiros, que viveriam à míngua sem o auxílio do Governo Federal.

Certo de contar com a vossa colaboração e compreensão, e certo de que o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, participarás, com o senso de dignidade patriótica que vos anima, entusiasmado, deste projeto, o Banco despede-se sob votos de felicidade e alegria.

Viva o Brasil Grande.

De

Gerente Personalizado

PS.: A contribuição de R$ 5,00 mensais estabelecida, pelo Governo Federal, em [data], será mantida. O senhor compreendes que o Governo Federal não pode prescindir deste recurso, que o senhor tão gentil e generosamente lhe entregas, para não onerar os cofres públicos e não prejudicar centenas de milhões de brasileiros explorados, há quinhentos anos, por estrangeiros gananciosos.

*

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

O Banco, por meio desta, vos dá notícias, para vossa alegria e felicidade, concernentes ao bem-sucedido Sistema de Segurança Bancária criado pelo Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional. O trabalho vai, de vento em popa, a todo o vapor. O cronograma prossegue como o planejado. O Governo Federal contratou cinco mil trabalhadores nacionais. Todos os trabalhadores, treinados pelo Governo Federal, têm carteira assinada. Com a contratação deles, o Governo Federal melhorou os índices sociais nacionais, que agora equiparam-se aos dos países ricos.

Os empreendimentos patrocinados pelo Governo Federal exigiram recursos inimagináveis.

Um prédio gigantesco, do tamanho do Brasil, está sendo erguido, em Brasília, Capital Federal, que foi sonhada por Juscelino Kubitschek de Oliveira, presidente que presenteou o Brasil com a magistral obra concebida por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, gênios nacionais visionários, irrivalizados.

O Governo Federal treinou centenas de milhares de trabalhadores nacionais, que empreenderão o trabalho que obra tão vasta exige.

Todos os trabalhadores, registrados com carteira assinada, salientamos, são brasileiros, e recebem rendimentos superiores aos oferecidos pelas empresas capitalistas, e escalam as camadas sociais, e integram, agora, a classe média nacional – mas conserva a sua cultura impoluta de brasileiros patriotas -, que, antes da concepção do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional, era de acesso restrito aos privilegiados descendentes de estrangeiros, que, há quinhentos anos, usufruem das riquezas proporcionadas pela sua aliança com os capitalistas estrangeiros, os quais, agora, com a atitude altiva do Governo Federal, esbravejam tendo em mira a conservação dos privilégios dos quais gozavam com exclusividade e os quais não desejam perder. Todos os ataques que os privilegiados desfecham – em associação com os estrangeiros – contra as medidas do Governo Federal, que protege o trabalhador nacional, não surtiram o efeito por eles desejado porque se depararam com um governo altivo, poderoso, que não se curva aos exploradores estrangeiros inescrupulosos, arrogantes, soberbos, insensíveis capitalistas multibilionários, e não é servil às multinacionais e aos governos que as sustentam. O Governo Federal resistiu, heroicamente, ao assédio dos capitalistas estrangeiros, colonizadores e imperialistas gananciosos.

O Governo Federal vos informa:

Com os seus projetos grandiosos (o Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional é um deles), o Governo Federal erigirá o Brasil grande – o país do futuro, gigante pela própria natureza, terra em que se plantando tudo dá, e onde canta o sabiá -, que foi negligenciado pelos governantes brasileiros (todos eles servis aos capitalistas estrangeiros) antecessores ao Governo Federal. Os projetos nacionais, tão grandiosos, foram erguidos a partir do nada, exclusivamente com o talento nacional, que põem aos estrangeiros admirados, invejosos do vigor intelectual e físico irrivalizados do Governo Federal e do patriótico povo brasileiro.

O Governo Federal encarrega-se de tarefas de alcance inédito na história da civilização: o do pleno emprego e o da eliminação das desigualdades sociais. Em nenhum outro país e em nenhuma outra época empreenderam-se projetos tão grandiosos, nem sequer conceberam-se projetos similares.

Os dados reunidos até o presente momento apontam para o progresso irreversível dos projetos do Governo Federal e a necessidade de alocação de recursos para a execução de tão grandioso empreendimento (o Banco refere-se, aqui, ao Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional). O encerramento da construção se dará antes da data aprazada. Não é do desejo do Governo Federal o adiamento indefinido da data de encerramento das obras. Se o Governo Federal não cumprisse com a sua obrigação, concluir o projeto até a data aprazada, escancararia, aos olhos dos brasileiros, a incompetência de um governo descompromissado com o dinheiro público. Não é este o caso do Governo Federal, que nunca tolerará, como nunca admitirá, a elevação de tarifas de impostos, já demasiadamente altos, como o senhor tão bem sabes.

Comunicadas estas notícias, todas do vosso agrado, o Banco, agora, trata de questões de vosso interesse.

Faz-se urgente, como vós sabeis, para a efetiva realização do projeto do Governo Federal, alocação de recursos de montante elevado, muito além do que se previu inicialmente. O Governo Federal, como informado, nesta carta, no parágrafo anterior ao anterior, é categórico na rejeição de elevação de tarifas de impostos e, mais ainda, na da criação de tarifas de impostos, as quais, se criadas, encareceriam o padrão de vida dos trabalhadores nacionais, e, como conseqüência imediata e lógica, reduziriam o seu padrão de vida à miséria. O Governo Federal, para cumprir os contratos assinados com inúmeras empresas nacionais de capital nacional, nos meses anteriores à esta data, para fazer jus à confiança dos trabalhadores nacionais, imprimiu dinheiro para honrar com os seus compromissos, pois, para o Governo Federal, é inadmissível o descumprimento dos contratos, algo que jamais irá fazer, nem mesmo quando estiver acuado pelos megacapitalistas estrangeiros; mesmo em circunstância tão desvantajosa, o Governo Federal lutará, com todas as suas forças – e as suas forças são do tamanho do Brasil, gigante pela própria natureza -, para impedir os trabalhadores nacionais e as suas famílias de carecerem de víveres indispensáveis à vida saudável e tranquila e terem desrespeitados os seus direitos fundamentais inegociáveis. O Governo Federal defenderá os trabalhadores nacionais e as suas famílias da ganância e da frieza dos insensíveis, descompromissados e egoístas capitalistas estrangeiros e dos seus cúmplices brasileiros apátridas e antipatriotas burgueses inescrupulosos.

Para evitar estado de coisas indesejado, tanto pelo Governo Federal, quanto pelos trabalhadores nacionais, o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, com a boa vontade que vos é peculiar, a partir do próximo mês, contribuirás, para a ereção e manutenção do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional, mensalmente, com R$ 20,00, que serão, automaticamente, debitados da vossa conta corrente, e transferidos para as organizações contratadas pelo Governo Federal – o débito se dará no dia subseqüente ao crédito de vosso salário na vossa conta corrente. Com tal providência, o Governo Federal evitará que o saldo da vossa conta corrente fique no vermelho. O débito de R$ 20,00 após o crédito de vosso salário é uma providência de responsabilidade e justiça social implementada pelo Governo Federal, uma prova da consciência social dos governantes nacionais, que lutam, arduamente, para fazer do Brasil um país grande, uma potência mundial, que, sabe o visionário Governo Federal, desbancará, dentro de dez anos, os Estados Unidos – o império romano extemporâneo que personifica a hedionda inescrupulosidade capitalista burguesa -, o Japão – o império oriental em franca decadência – e a Europa – a vilã milenar que explorou as Américas, a África e a Ásia, promoveu a extinção de espécies da flora e da fauna, devastou continentes inteiros, dizimou povos silvícolas nativos, e produziu miséria em todo lugar, e inculcou, na mente dos inocentes nativos, que viviam sob a eterna lei da mãe Gaia, lei irrevogável (mas os europeus, arrogantes, sob a égide da sordidez capitalista, quiseram revogá-la), as idéias nefastas, religiosas e filosóficas oriundas do lamaçal judeu israelita e cristão, as quais os povos europeus, decadentes, herdaram dos antigos hebreus obscurantistas e fundamentalistas supersticiosos, e com as quais querem fazer lavagem cerebral nos brasileiros, induzindo-os a renegar a valiosa cultura que herdaram dos povos nativos da África e da América. O Brasil, sabe o Governo Federal, ao desancar os promotores de misérias e injustiças, dá início à uma nova era, sob os auspícios do Governo Federal, que, com a sua autoridade moral, irá se impor ao mundo, e todos os povos atualmente explorados pelos capitalistas estrangeiros do primeiro mundo se irmanarão, sob a liderança do Governo Federal, e rumarão, de braços dados, para o futuro, brilhante, reservado ao Brasil e aos países cujos povos são puros como o povo brasileiro.

Dito isso, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco vos informa que, para melhor atendê-lo, o senhor, a partir de [data], além de digitar, no caixa e no terminal eletrônico, no momento da efetivação de quaisquer operações bancárias, os dados os quais o senhor já estás habituado a digitar, apresentarás, no caixa de quaisquer de nossas agências, o vosso RG e o vosso CPF, e, no terminal eletrônico, exibi-los-ás para um dispositivo de vídeo instalado na sua parte superior.

Sem mais para o momento, o Banco despede-se com abraços fraternais.

De

Gerente Personalizado

PS.: O Governo Federal suspende a exigência de contribuição de R$ 5,00 e de R$ 10,00 a partir do mês subseqüente ao envio desta carta. Com tal providência, o Governo Federal demonstra respeito pelos brasileiros e reconhece o seu esforço e a sua boa-vontade.

O homem que não mentia

– Contarei para você um caso que me aconteceu hoje. E você não me acreditará. Eu fui abduzido por um alienígena. É verdade. E conto a história desde o começo. Acordei às sete, sobressaltado, e pulei da cama, o coração a escoicear-me o peito. E quase bati com a cabeça no teto. De repente, um clarão iluminou o quarto, enceguecendo-me, obrigando-me a proteger com as mãos os olhos e a voltar-me para trás. E as trevas reassumiram o governo do quarto. E fez-se a escuridão. Assim que me aprumei, apareceu, a um palmo de meu nariz, uma criatura bizarra: esquálida, de quatro olhos, cinco fossas nasais, três orelhas, duas bocas, sete sobrancelhas, seis queixos, três braços, uma perna; e em cada braço duas mãos, em cada mão dois dedos, em cada dedo duas unhas; e na perna, três dedos sem unhas. Falou-me, e eu nada entendi das palavras que me chegaram aos ouvidos. De repente, envolveu-nos uma bolha azul fosforescente, que nos teletransportou para um planeta situado em uma galáxia localizada em um universo paralelo de outra dimensão, planeta habitado por criaturas horripilantes. Não sei durante quanto tempo a criatura, meu guia em tal viagem interdimensional, ocupou-se em apresentar o seu planeta. Enfim, uma bolha vermelha fosforescente envolveu-me, e, quando dei por mim, vi-me no meu quarto, são e salvo, belo e formoso.
– Que história sem pé, nem cabeça. Você teve um pesadelo.
– Que pesadelo! Um alienígena me abduziu. Foi tal aventura a mais extraordinária da minha vida.
– Você não é pescador; seu pai não é pescador; seus avós não são pescadores… Não há sangue de pescador correndo em suas veias. Por que você mente, então?
– Eu não menti.
– Não, cara-de-pau?! Não?!
– Não. Não menti. Eu disse que eu contaria para você um caso que me aconteceu e que você não me acreditaria. Contei o caso. E você não me acreditou. Menti?

Para melhor atendê-lo – parte 1 de 6

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Por meio desta, o Banco vos comunica da medida, estabelecida para melhor atendê-lo, que o Governo Federal tomou, na resolução [número], publicada em [data], no Diário Oficial, para impedir a supressão, que pode prejudicar-vos sobremaneira, da vossa conta corrente e da vossa caderneta de poupança, de valores consideráveis.

O cumprimento, a contento, da medida abaixo apresentada oferecer-vos-á, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, segurança e tranquilidade. Cumprindo-a, o senhor oferecerás ao Banco instrumentos para melhor atendê-lo.

O procedimento atual, que consiste na digitação da senha, para efetivação de operações bancárias, em quaisquer terminais eletrônicos localizados em território nacional e nos caixas e em terminais eletrônicos de quaisquer agências bancárias, no Brasil e no exterior, devido à ação deletéria de ladrões virtuais, não permite que o Banco vos ofereça a segurança que o senhor mereces, e o Banco deseja vos oferecer, para privar-vos de aborrecimentos e preocupações enervantes. Nos doze meses anteriores à esta carta, o Banco vos informa, para inteirar-vos do estado de coisas atual, os crimes virtuais e as violações de contas correntes e cadernetas de poupança aumentaram a níveis intoleráveis. Tais modalidades criminosas popularizaram-se e engendraram medo e insegurança. Para coibir a ação dos criminosos, o Governo Federal, além da medida que o Banco vos anuncia nesta carta, prepara outras medidas de segurança, para a melhoria do sistema bancário nacional.

Tendo em vista a segurança dos correntistas, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco, em respeito à medida do Governo Federal, e para melhor atendê-lo, a partir de [data], exigirá dos correntistas a digitação, nos caixas e nos terminais eletrônicos, para a execução de operações bancárias de quaisquer espécies:

1, dos dois últimos números do CPF.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, ao digitares, após digitares a vossa senha, os dois últimos números do vosso CPF, darás a vossa contribuição, imprescindível, para o trabalho que o Banco executa com o propósito de garantir a vossa segurança, proporcionandoao Banco os meios para melhor atendê-lo. Tal medida é imprescindível para a tarefa que o senhor confiaste ao Banco: a de guardião do patrimônio que o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, amealhaste, com o suor do vosso rosto, no transcurso dos vossos vinte e cinco anos de vida profissional com carteira assinada.

O Banco conta com a vossa compreensão, certo de que o senhor contas com o seu valioso trabalho.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Em respeito à resolução do Governo Federal, o Banco informa:

Em decorrência da elevação dos casos de violação das contas correntes e cadernetas de poupança por ladrões virtuais e do aumento preocupante dos casos de seqüestros e seqüestros relâmpagos, o Governo Federal estabelece:

Os correntistas, de posse do cartão magnético, no ato da efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies, nas agências bancárias localizadas no território nacional e no território de quaisquer outros países, e nos terminais eletrônicos, além de digitarem a senha e os dois últimos números do CPF, digitarão, a partir de [data]:

1, o número correspondente ao mês de nascimento.

O Banco, certo de que pode contar com a vossa compreensão, para que melhor possa atendê-lo, vos deseja um ótimo dia.

Felicidades.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Por meio desta, o Banco vos comunica a norma bancária [número] estabelecida, pelo Governo Federal, com o propósito de obrigar o Banco a melhor atendê-lo, e que visa o vosso benefício, a vossa segurança, o vosso bem-estar, a vossa tranquilidade e a preservação do vosso dinheiro. O Governo Federal, tendo em vista a elevação dos casos de violência contra a integridade da pessoa humana, no Brasil, e os casos de violações das contas bancárias dos brasileiros, estabelece:

1, os bancos têm, obrigatoriamente, de exigir dos correntistas:

a, após a digitação da senha, dos dois últimos números do CPF e do número correspondente ao mês de nascimento, a digitação, nos painéis dos terminais eletrônicos e no caixa, do ano do nascimento.

O Banco conta com a vossa compreensão e a vossa colaboração, para melhor atendê-lo.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

O Banco vos envia esta carta, para vos inteirar da resolução, decidida em [data], do Governo Federal, estabelecida para o vosso bem-estar e a vossa segurança. O Banco melhor irá atendê-lo ao aprimorar o seu sistema de segurança bancária, que se aproxima da perfeição de um sistema inviolável.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, tomaste conhecimento, pelos jornais, revistas, telejornais e blogs, da elevação considerável, nos dois meses anteriores à esta carta, dos casos de violações de contas correntes e cadernetas de poupança e da multiplicação de seqüestros e seqüestros relâmpagos, que são corriqueiros. O Governo Federal, ciente desta preocupante realidade, promoveu uma reunião ministerial para debater, com representantes do sistema bancário nacional, propostas de aprimoramento do sistema de segurança bancária oferecida aos correntistas pelos bancos nacionais. O Governo Federal reconhece que revelaram-se infrutíferas as providências tomadas, nos doze meses anteriores à esta carta, para o aperfeiçoamento do sistema de segurança dos bancos nacionais. Os meliantes souberam criar expedientes, não previstos pelos especialistas nacionais em segurança bancária, para violarem contas correntes e cadernetas de poupança, e suprimirem dinheiro dos correntistas. Os esforços do Governo Federal não foram de todo baldados; todavia, contrariando a expectativa do Governo Federal, que, no seu empenho de oferecer segurança aos brasileiros, implementou normas de segurança bancária concebidas por especialistas nacionais em segurança bancária, os casos de violações de contas correntes e cadernetas de poupança e os de seqüestros e seqüestros relâmpagos aumentaram consideravelmente, como o Banco vos informou acima – e enfatiza tal informação.

Os especialistas em sistema de segurança bancária do Sistema Bancário Nacional do Governo Federal frustraram-se ao se inteirarem do resultado, indesejado, imprevisto, obtido; mas os esforços não foram de todo em vão.

Na semana anterior à esta, em [data], o Governo Federal, com o apoio incondicional dos bancos, tomou a seguinte resolução:

1, A modificação da sequência dos dados que os correntistas têm de, obrigatoriamente, informar aos bancos, ao digitar, ou nos terminais eletrônicos, ou no caixa, para a efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies.

Para que não persista nenhuma duvida, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco elenca os procedimentos para a efetivação de operações bancárias:

Até o presente momento, a digitação, na sequência:

1, da senha;

2, dos dois últimos números do CPF;

3, do número correspondente ao mês do nascimento; e,

4, do ano do nascimento.

Agora, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, segue a sequência estabelecida pelo Governo Federal para melhor atendê-lo:

A digitação:

1, do ano do nascimento;

2, do número correspondente ao mês do nascimento;

3, dos dois últimos números do CPF; e,

4, da senha.

Com tal alteração, o Governo Federal almeja coibir a ação dos meliantes.

O Banco conta com a vossa colaboração, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Para a vossa segurança, executes as digitações na sequência solicitada pelo Governo Federal, para que o Banco possa melhor atendê-lo.

O Banco despede-se com abraços fraternais.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o senhor há de se lembrar que o Banco, na carta anterior que vos enviou, vos inteirou da resolução, tomada pelo Governo Federal, que vigorou a partir de [data]. O senhor correspondeu à expectativa do Banco, agiu com presteza e correção, digitando, conforme o solicitado, as informações, e na sequência pedida, como cidadão pacato, digno e responsável que sois.

A reputação do Banco faz jus à vossa postura.

O Banco é grato pela compreensão que o senhor tem demonstrado, desde o princípio, ao atender às medidas para melhor atendê-lo.

Vós sois um valioso cliente do Banco e prestimoso cidadão brasileiro.

Nesta carta, o Banco vos informa:

O Governo Federal, para conceder ao Banco instrumentos para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, pensando no vosso bem-estar e no da vossa família, estabelece novas regras para a efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies. As medidas de segurança bancária instituídas pelo Governo Federal – das quais o senhor tomaste conhecimento, na carta de [data] que o Banco vos enviou -, para surpresa dos especialistas do Sistema Bancário Nacional do Governo Federal, não surtiram o efeito desejado: a redução da violência contra os correntistas. Os casos de seqüestros e seqüestros relâmpagos, duas modalidades criminosas que, à revelia do Governo Federal, e apesar de todos os seus esforços para coibir os criminosos à prática de nefandos atos de violência contra a integridade da pessoa humana, cresceram, no Brasil, desde a implementação das novas regras de segurança para melhoria dos serviços bancários, e são, diuturnamente, divulgados pela imprensa, e espalham-se por todo o território nacional, como tumores cancerígenos. O Governo Federal, diante da triste realidade, na reunião, em [data], com especialistas em segurança bancária, tomou, após discussão exaustiva acalorada, providências para inibir os criminosos e defender as pessoas de bem, como o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas. O Banco apoiou, incondicionalmente, o Governo Federal, em suas novas medidas de segurança, ao reconhecê-las apropriadas para melhor atendê-lo. O Governo Federal e o Banco decidiram revogar as regras, informadas ao senhor na carta anterior, para digitação, no momento da efetivação de quaisquer operações bancárias, nos caixas e nos terminais eletrônicos, como o senhor, desde então, realizaste.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, a partir de [data], digitarás, na sequência (Elencamos os dados, para que o senhor não vos confundis ao executardes as operações bancárias; e não vos preocupais, se vos atrapalhardes: funcionários, treinados pelo Banco, estarão à vossa disposição, para melhor atendê-lo):

1, a senha;

2, os dois últimos números do vosso CPF;

3, o número correspondente ao mês do vosso nascimento; e,

4, o ano do vosso nascimento.

O Banco vos informa que, após estes dados, o senhor, para o Banco melhor atendê-lo, em respeito às novas resoluções do Governo Federal, instituídas em [data], digitarás:

1, o número do vosso RG.

Antes de encerrar esta carta, o Banco vos informa:

Com autorização do Governo Federal, o Banco debitará, da vossa conta corrente, todo mês, no dia subseqüente ao recebimento, pelo senhor, do vosso salário, para o custeio da instalação do novo sistema de segurança bancária, sofisticado e seguro, a quantia, módica, de R$ 1,00, que é uma contribuição provisória indispensável para a maturação do novo sistema, e que o senhor gentilmente ofereces ao Banco, que, com a instalação do novo sistema, melhor irá atendê-lo.

O Banco conta, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, com a vossa cooperação e compreensão.

O Banco, certo de que o senhor corresponderás às suas expectativas, ciente de tratar com um cidadão brasileiro exemplar que encarna as virtudes, louváveis, do povo desta pátria sagrada por natureza, despede-se com votos de felicidade.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

O Banco, em respeito à resolução [número] do Governo Federal, oficializada após análise minuciosa dos dados referentes aos casos de violações de contas bancárias, clonagens de cartões de crédito e cartões de débito, substituirá, num prazo de três meses, a partir da data da promulgação da resolução, os cartões em mãos dos correntistas por cartões providos de tecnologia inovadora desenvolvida, em território nacional, por profissionais nacionais, para efetivação de quaisquer operações bancárias, nos terminais eletrônicos, nos caixas e em terminais localizados em lotéricas, supermercados, lojas, postos de combustíveis e outros estabelecimentos comerciais.

Para relembrar-vos, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, a sequência da digitação:

1, a senha;

2, os dois últimos números do vosso CPF;

3, o número correspondente ao mês do vosso nascimento;

4, o ano do vosso nascimento; e,

5, o número do vosso RG.

O Banco, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, em favor dos correntistas, estabelece uma modificação num dos dados que os correntistas têm de digitar, para que o Banco melhor possa atendê-lo, a partir de [data]:

1, como indicado no item 2, os correntistas digitam os dois últimos números do CPF; a partir de [data], terão de digitar o número do CPF.

A sequência dos cinco dados a digitar se mantêm.

Após inteirá-lo desta informação, o Banco recorda:

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, contribuis, provisoriamente, todo início de mês, com o módico valor de R$ 1,00 para a instalação do novo sistema de segurança bancária.

Agora, o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, para a instalação do novo sistema de segurança bancária e a substituição do cartão que está em vossas mãos pelo novo cartão de tecnologia avançada criada e desenvolvida por profissionais nacionais, os quais, enfim, são agraciados com reconhecimento e respeito pelo Governo Federal, contribuirás, todo mês, com módicos R$ 2,00. A contribuição, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, é provisória. O senhor contribuirás, todo mês, até a maturação do novo sistema, o que se dará dentro de seis meses, quando atingirá a obsolescência, e o Banco dele prescindirá, como os especialistas da área tecnológica prevêem.

O Banco conta com a vossa colaboração, e vos tem em alta estima, certo de que o senhor compreendes as motivações do Governo Federal, que, em seu ingente esforço, trabalha, para vos beneficiar, oferecendo ao Banco instrumentos para melhor atendê-lo, e, cidadão responsável e patriótico que sois, acatarás a resolução governamental, ciente de que se trata de medida apropriada para a melhoria do atendimento bancário aos correntistas.

Da vossa participação, redundará, para vosso benefício e o de todos os correntistas, a melhoria dos serviços que o Banco vos prestará, salvaguardando a vossa liberdade, a vossa segurança, o poder aquisitivo do vosso dinheiro e a conservação do vosso patrimônio.

O Banco despede-se, sob votos de felicidade e alegria.

Um abraço.

De

Gerente Personalizado

O Filho que Viaja Demais

De São Paulo, capital, à noite, o filho telefona para seu pai, em Pindamonhangaba:

– Pai, a benção.

– Deus te abençoe.

– Estou em São Paulo. Daqui a pouco, no aeroporto, embarcarei no avião. Irei para o Sul, para perto do Uruguai.

– Embarcar num avião? Não seria num barco?

– Já estou atrasado, pai. Tenho de correr, ou perderei o avião. A benção.

– Deus te abençoe, filho. Chegando lá, no Sul, avise-me. Vá com Deus.


Na manhã seguinte, telefona o filho para seu pai:

– Pai, a benção.

– Deus te abençoe.

– Já cheguei em Pernambuco.

– Quê!? Pernambuco!? Pernambuco!? Filho, Pernambuco fica, no Sul, perto do Uruguai?!

– E eu sei!? Dormi durante a viagem.

Mensagem do Barnabé Varejeira – Ô povo fraco!

Bão dia, Cérjim. Já é seis hora. O galo já cantô o sór raiá. E o sór raiô. E eu já ordeei as vaca, e já recoí os ovo das galinha, ovos bão, batuta de nutritivo, de deixá todos os meu fio forte inguar tôro, e já peguei do pomar frutas, e, com a graça de Deus, que espaventô a desgraça do diabo, na compania da muié que me acompanha desde o casório na Igreja de Nosso Senhor e dos fio meus querido, bebi café-com-leite, comi pão com mantêga que nóis preparâmo, e muintas, muintas fruta. Agorinha, mermo, me adespedi da muié e dos fio, pa í trabaiá. Finquei pé, aqui, uns minuto, pa dá um bão dia pa famia, pôs parente e pôs amigo. E pa enviá esta mensage po cê, Cérjim, mensage importante. Sei que as coisa não tão nada bem, e pá muita gente vai de mal a pió, e não sobra pão pá ninguém, mas querditando em Deus fica mió. Rimô, inté. Bem, ninguém; pió, mió. Não é de poesia que eu quero falá po cê. Quero dá po cê mensage de animação. Tô veno muintos ómi e muintas muié preocupado demais. Tá certo! Os político tão abusano da sorte. Inventáro esta instória de mocorongovírus só pá martratá as pessoa. Eu não sô bobo. Não naci ônti. Cê acha, Cérjim, que o mocorongovírus matô todo esse mundaréu de gente que dizem por aí que ele matô? Matô, nada. É instória da carochinha, da mamãe gansa, do arco-da-véia, conversa pa boi dormí. Mas, pensa, aqui, comigo, Cérjim, ca sua cabeça, e não ca mia: Se o mocorongovírus matô muinta tanta gente, que sóbe pa mais de um mião, o pobrema não tá no mocorongovírus; tá nas pessoa, que tão muinto fraca. Não engulo, e de jeito maneira, a instória do pãodemônio do mocorongovírus. É instória do arco-da-véia mais véia do que o arco, que é do tempo do Matusalém. Pior, inté, pruque as instória do arco-véia têm, lá, a sua graça, e a do mocorongovírus é bestice de gente da cidade grande. E aí em Piamoangaba tá cheio de bobão que querdita no que político e cientista e médico, todos mentiroso, conta. Não todos, é vredade que se diga. A vida de ôceis da cidade tá difícil, sei eu. Mas a curpa é dos ómi dipromado, bando de gente besta, fiótinhos de cruz-credo. E digo uma coisa, Cérjim: Não se percupe muinto, não, com os pobrema atuar, pois vai piorá; dêxe pa se percupar mais tarde; se o cê esquentá, em demasiado, a cabeça, o cê vai fritá o seu cérbero, o se vai torrá o seu cérbero, e quando vié os maior pobrema, o cê não vai tê força pá agi. Percupe-se só o necessário, e guarde energia pá quano vié coisa mais séria. Ou o cê acha que os político vão dá sossego pa os ómi de bem!? Não vão, não. Eles quer dominá toda as gente do universo. Então, Cérjim, esta é a mensage que eu queria enviá po cê; já enviei, então posso terminá a mensage. Por hoje são esta as palavra que tenho pa dizê. Que Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, fio de José e Maria, abençoe o cê, e não dêxe o cê caí nas lábia do demônio. Inté.

O homem que traiu – sem querer – a sua esposa

Encontraram-se, num sábado, às dez horas da noite, na praça Dom João VI, José do Carmo, que retirara-se, dez minutos antes, do bar Nabé, e duas amigas suas, Carmem e Carmelita. Assim que saudaram-se com beijos no rosto, Carmem perguntou para José do Carmo:

– Está bem a Solange?

– Que Solange? – perguntou, intrigado, José do Carmo.

– A Solange – respondeu Carmem, enquanto Carmelita conservou-se, em silêncio, fitando José do Carmo, na expectativa, um sorriso escarninho a se lhe esboçar no rosto.

Carmo, surpreso com resposta tão enigmática, sorriu, olhou de Carmem para Carmelita, e de Carmelita para Carmem, e para esta perguntou, sorrindo:

– Que Solange, Carmem? Conheço quatro Solange: A prima do Renato, gerente do banco A*; a mãe da Márcia, que trabalha comigo; a irmã da Susana, cabeleireira, que tem um salão de beleza (freqüentado só por mulheres feias) perto da minha casa; e a diretora da escola B*.

– Você enlouqueceu, Zé? – perguntou Carmem.

– Que eu saiba, não – respondeu José do Carmo, gracejando. – Além disso, se eu tivesse enlouquecido, eu não saberia que enlouqueci.

– Você enlouqueceu, Zé, não me resta dúvidas – disse Carmem. – Refiro-me à Solange, a sua esposa.

– A minha esposa! – exclamou José do Carmo, surpreso com a revelação. – A minha esposa chama-se Solange?

Entreolharam-se José do Carmo, Carmem e Carmelita, todos surpresos, cada um por uma razão.

– Ela é loira – perguntou José do Carmo, referindo-se à sua esposa -, e de um metro e oitenta de altura?

– Não – respondeu Carmem, de imediato. – Ela é morena e da altura de um metro e sessenta.

– Meu Deus! – exclamou José do Carmo, ao mesmo tempo em que se aplicou um tapa na própria testa. – Então… Então… Diabos! Então eu fiz uma grande besteira.

Um escritor e seus lápis

Tenho, sobre a minha escrivaninha, vinte e três lápis, todos devidamente apontados, prontos para o uso.

Hoje, após o café-da-manhã, sentei-me à escrivaninha, para escrever um conto. Peguei um lápis dos vinte e três que tenho à mão, e mirei a folha de sulfite em branco. E menhuma idéia me veio à cabeça. Após meia hora de inércia, desiludido comigo mesmo, abandonei o lápis sobre a escrivaninha. E levantei-me da cadeira. E sai de casa. E todos os meus vinte e três lápis ficaram desapontados.

Em busca de sabedoria, o brasileiro foi à Grécia.

Ao alvorecer do século XX, um brasileiro, Tobias Alvarenga Ramos de Souza Lima e Silva, homem amargurado, após ouvir a sensata exortação de um amigo que muito bem lhe queria, Paulo Pires de Campos Peixoto, rumou, na primeira oportunidade que se lhe apresentou, oito dias depois, de navio, à Grécia, onde, dissera-lhe o amigo, ele poderia conversar com homens sábios. Logo no dia seguinte ao seu desembarque em Atenas, ouviu de um venerável octogenário de ares sapienciais, edificantes palavras de sabedoria. Satisfeito com o que ouvira, no dia seguinte regressou ao Brasil. Como Tobias Alvarenga Ramos de Souza Lima e Silva do idioma grego não sabia patavinas, ele não entendeu, é óbvio, o que o sábio grego lhe dissera, e para mim, que registro este capítulo da sua biografia, não pôde transmitir o que dele ouvira – e tampouco para outro filho de Deus. E aqui deixo registrada esta interessante aventura de um brasileiro que foi à Grécia em busca de sabedoria.

Qomolangma Feng, China

Qomolangma Feng, Qogir Feng, Kangchenjunga, Makalu, Cho Oyu, Ohaulagiri, Manaslu, Nanga Parbat, Annapurna, Gasherbrum, Xixabangma Feng.

Acima, os nomes das onze montanhas mais elevadas do mundo, situadas no território compreendido pela China, pelo Nepal e pela Índia. Todas de mais de oito mil metros de altura. Daquelas montanhas chegou-nos a lenda de uma criatura estranhíssima. Ouvimos falar de Ieti, o abominável homem das neves, que vive naquelas regiões, parente distante do Pé Grande, que habita as mais elevadas montanhas norte-americanas e canadenses; entretanto, poucos sabem, Ieti não é a única criatura que vive, segundo a lenda, no Himalaia. Há outra, e há pouco tempo os ocidentais dela ouviram falar. Aventureiros chineses, indianos, norte-americanos, brasileiros, irlandeses, argentinos, nepaleses, nigerianos e japoneses, em busca do controverso Ieti, ouviram relatos sobre uma criatura a respeito da qual jamais tinham ouvido uma palavra. Tratava-se de Keqyshadi, cuja existência era um mistério, maior, até, do que o de Ieti e o do Pé Grande – e, também, o do monstro do lago Ness.

Vários estudiosos e aventureiros, em 1993, ouviram inúmeras histórias acerca de Keqyshadi, e empreenderam uma expedição à procura dele. Ele vivia no Himalaia. Algumas pessoas declararam que ele vivia no topo de Qomolangma Feng, o topo do mundo, acima das nuvens. Keqyshadi é parente distante de Ieti e parente ainda mais distante do Pé Grande, disseram algumas pessoas; outras disseram que, como o Pé Grande e o Ieti, Keqyshadi é apenas uma lenda. Houve quem discordasse de tal afirmação; afinal, nem Ieti, nem Pé Grande, tampouco Keqyshadi, jamais foram vistos pelos homens, portanto, não se pode afirmar que eles não existem. Muitas coisas que os homens jamais viram existem, argumentou um dos integrantes da equipe, com uma lógica irrefutável. Em território indiano, os expedicionários colheram muitas informações a respeito de Keqyshadi, esta criatura que, na opinião de muita gente, era mais fascinante do que o Ieti.

No ano de 2003, seis dos doze integrantes da equipe que empreendeu a expedição de 1993 resolveram empreender outra expedição ao Himalaia; os outros seis lançaram-se a outros projetos, para eles mais realistas. Não havia sentido, disseram alguns destes, quando fizeram-lhe o convite para empreenderem nova expedição ao Himalaia à procura de Keqyshadi, despender tempo e dinheiro em empreitada irrealista, e tentaram dissuadir de realizá-la os que haviam confirmado a sua participação na expedição. Um dos aventureiros convidados que recusaram o convite (ele se lançaria, pouco tempo depois, numa expedição à floresta amazônica) disse, polido, aos expedicionários que iriam ao Himalaia à procura de Keqyshadi, que eles estavam obcecados por ele, uma criatura lendária que habita, supostamente, aquelas gélidas e desoladas montanhas.

Os seis aventureiros, convictos de que encontrariam a fabulosa criatura, gracejando, disseram que poderiam, ao procurarem Keqyshadi, encontrar, acidentalmente, o Ieti.

Eis os nomes dos seis aventureiros da Expedição Qomolangma Feng e as suas respectivas nacionalidades: Valmiki, indiano; Li Po, chinês; Thomas Smith, americano; José da Silva, brasileiro; Arthur Doyle, irlandês; e Akira Kurosawa, japonês.

Planejaram, minuciosamente, a viagem. A escalada impor-lhes-ia inúmeras dificuldades. Enfrentariam o frio rigoroso, o ar rarefeito, a solidão, a fadiga.

O mais novo deles, Li Po, de trinta e quatro anos, conhecia, como poucos, o Himalaia; já o havia palmilhado inúmeras vezes, e escalado quatro vezes o Qomolangma Feng, ou, como é conhecido no ocidente, Everest, e o Qogir Feng, que no ocidente é chamado de K-2.

Reuniram-se, em Pequim, os aventureiros. O dia, frio. José da Silva encontrou dificuldades para enfrentar o frio enregelante da região; ele, que vivia no Rio de Janeiro e tomava banho de Sol quase todos os dias durante seu período de férias voluntárias entre duas aventuras arrojadas, a temperatura acima de trinta e cinco graus célsius, não suportava a temperatura abaixo de zero graus célsius em Pequim.

Os outros cinco integrantes da expedição moravam em regiões frias; pouca dificuldade tiveram para se adaptarem ao frio da capital chinesa, de trincar os ossos.

Hospedaram-se os aventureiros no apartamento de um amigo, escocês, aventureiro também, que realizava uma viagem ao Pólo Sul, e que lhes cedera o apartamento no qual eles passaram a última noite antes de principiarem a jornada ao Qomolangma Feng.

Na manhã do dia seguinte, prepararam-se para o início da aventura. Cada um deles carregando trinta quilos de apetrechos, retiraram-se do apartamento, e iniciaram jornada rumo a maior cadeia montanhosa do mundo.

Andaram pelas movimentadas ruas de Pequim, pelas quais circulavam muitos veículos automotores e uma quantidade incalculável de bicicletas. Os chineses, curiosos, fitavam aquelas seis figuras exóticas.

Saíram do perímetro de Pequim. Na avenida, encontraram-se com um amigo, que os aguardava. Ele era o motorista do ônibus que os conduziria até a cidade de ***, e dali em diante os aventureiros jornadeariam com raros contatos com a civilização.

Quase um dia depois, chegaram ao ponto marcado. Estavam a mais de dois mil metros de altura acima do nível dos oceanos. Dali em diante, cruzariam com algumas vilas; depois, o Himalaia. Os habitantes dos povoados mais isolados disseram-lhes que já haviam visto Keqyshadi, e declararam que ele, monstruoso, tinha mais de quatro metros de altura. A descrição que de Keqyshadi deram os habitantes da região aos aventureiros correspondia ao que estes ouviram, em povoados e vilas, na China, na Índia, no Nepal e no Butão. Keqyshadi era o Keqyshadi em todos os povoados. O Ieti, por sua vez, era descrito, em cada povoado, com uma aparência; em um povoado descreviam-no como um anão peludo e minúsculo; em outro, como um feroz gigante descomunal de mais de dez metros de altura; em outro, como uma criatura pacífica que ajudava as pessoas e com elas relacionava-se amigavelmente.

Findava o primeiro dia da expedição. O Sol desaparecia atrás das montanhas. Os aventureiros armaram barracas, e nelas ajeitaram-se.

Thomas Smith e Valmiki ficaram em uma barraca. Valmiki, excelente contador de estórias, contou uma dúzia das de seu vastíssimo repertório, mas seu ouvinte ouviu apenas as duas primeiras que ele narrou, pois na metade da terceira, adormeceu profundamente, mas Valmiki não se deu conta de que os seus relatos de As mil e uma noites ele não os apreciava, e só cessou a narração quando o sono o dominou.

José da Silva e Li Po ficaram em outra barraca. Traçaram alguns planos para o dia seguinte, e adormeceram.

Arthur Doyle e Akira, exaustos, assim que deitaram, dormiram.

Na manhã seguinte, Valmiki despertou antes de todos os outros aventureiros, e preparou a refeição, da qual os comensais partilharam; era pitoresca, e estava saborosa.

Os apetrechos arrumados, caminharam os aventureiros, galgando a montanha pelas estradas estreitas que a recortavam, e cruzaram, a longos intervalos, o caminho de algum aldeão, que falava um idioma que apenas Valmiki e Li Po conheciam. Uma família de aldeães hospitaleiros convidou os seis aventureiros para uma refeição. Eles não se fizeram de rogados.

O início da jornada, isento de dificuldades além das comuns em aventuras do gênero. Interromperam-na os aventureiros ao crepúsculo.

*

Nos dez primeiros dias de jornada com nenhuma criatura depararam-se os aventureiros, nem com um lobo das neves, nem com outros animais comuns na região. Conquanto monótonos estes dias, não desistiram do propósito que os impeliram até lá. Valmiki contou muitas estórias, algumas de sua lavra, outras que ouvira de contadores de estórias populares, e outras de suas leituras. Se houvesse, dentre eles, um escritor de talento, ele redigiria um volume adicional às Mil e uma noites.

O frio, à medida que escalavam a montanha, intensificava-se.

Transcorreram-se os dias. Estavam os aventureiros há mais de cinco mil metros acima do nível dos oceanos. Keqyshadi morava nas mais elevadas montanhas, diziam os habitantes daquela desolada região.

*

Os aventureiros palmilharam vasta extensão do Himalaia. Não encontraram vestígios de Keqyshadi, criatura que, como o Ieti, o Pé Grande, o Monstro do Lago Ness, o Boitatá, era dotado de capacidade extraordinária de ocultar-se dos olhos humanos.

Aproximavam-se das mais altas montanhas. A partir de certo ponto não havia mais povoados humanos, nem estradas, nada que lembrasse a civilização. Agora, eram a natureza e os seis homens que a desbravavam.

A camada de neve atingia, em alguns pontos, os joelhos de Akira Kurosawa, o mais baixo dentre os seis aventureiros. Embrulhados nos seus agasalhos apropriados para o frio rigoroso, os aventureiros tremiam. À noite, ouviam ruídos horripilantes. Eram os ventos que cortavam o ar e golpeavam as barracas. Pareciam-lhes assobios de uma criatura espectral, sinistra, que desejava bani-los daquele reino, que não era o deles. Calafrio percorreu a espinha dos seis aventureiros. Valmiki narrava estórias maravilhosas, agora alimentadas pelo ambiente, e espantava o medo que os atingia. Quando não contava estórias, meditava, contemplava a região e recitava trechos do Mahabarata e do Ramayana.

Transcorreram-se os dias. Nenhum sinal de Keqyshadi. Os aventureiros continuariam a percorrer o Himalaia, segundo o plano traçado de antemão, até encontrarem o Keqyshadi, ou provas de que ele existia.

Enfim, chegou o momento de enfrentar Qomolangma Feng. Ousaram desafiá-lo. Invadiriam o reinado de Keqyshadi. Iriam ao pico de Qomolangma Feng. Keqyshadi lá vivia, acreditavam, em uma caverna escondida por espessa camada de neve.

Antes de principiarem a escalada de Qomolangma Feng, descansaram. O Sol ainda não havia se posto. Armaram as barracas, e, aquecidos pelas vestimentas, no interior das barracas dormiram. Acordaram, no dia seguinte, minutos antes do meio dia, recompostos, decididos a escalar a montanha.

Valmiki encabeçava a fila. Seguiam-lo José da Silva, Thomas Smith, Li Po, Arthur Doyle e Akira Kurosawa, nessa ordem. Eram cuidadosos. E redobraram a atenção.

Quase esgotados de forças, escalaram um dos trechos mais íngremes do Qomolangma Feng. Dos seis, Thomas Smith era o que mais havia se desgastado; no entanto, ele não parou para descansar. O frio poderia matá-lo, se ele perdesse a consciência, ou adormecesse.

Os ventos sopravam mais fortes. Não havia sinal de animais. Li Po, dentre os expedicionários o de ouvidos mais apurados, distinguiu um ruído, que destoava do ambiente. Arrepiou-se de imediato dentro da vestimenta, que o protegia do frio enregelante. Acenou para os outros companheiros, que cessaram a escalada.

Nuvem espessa começava a cobrir a região, impedindo os aventureiros de verem o que estava logo à frente deles. Da direção da qual Li Po acreditava que lhe chegara o ruído que lhe atraíra a atenção, chegou-lhe uma série de ruídos. Fixou o olhar, no horizonte, para distinguir qualquer coisa, no tapete branco que cobria a montanha. Nada encontrou. José da Silva disse-lhe que ele se enganara, iludido pelo cansaço e pela fome. Era uma alucinação. Valmiki e Arthur Doyle secundaram-lo. Mudaram de opinião quando ouviram um ruído estranho. Arregalaram os olhos e perguntaram-se que ruído era aquele. Li Po sorriu, vitorioso.

E pela terceira vez Li Po ouviu o estranho e indefinível ruído. Era a voz de Keqyshadi? Valmiki e Li Po disseram que o ruído era a voz de alguma fera, de uma fera, salientaram, que não existia. Valmiki explicou o que desejava dizer com tais palavras. E Li Po as acentuou. Era a voz de um animal. Não era, concluíram, som produzido pelos ventos. Era o som de alguma fera desconhecida dos humanos. Talvez o rugido de Keqyshadi. Ou de outra fera desconhecida dos humanos.

Se encontrassem pegadas na neve! Seguiram na direção da qual chegou-lhes o ruído. Entusiasmados, negligenciaram cuidado. Thomas Smith afundou-se, em um trecho, na neve, que o encobriu, e ele quase foi carregado encosta abaixo. Valmiki, atento, segurou-o. E os expedicionários conseguiram, com muito esforço, erguê-lo e salvá-lo.

No princípio da noite, os ventos sopravam mais intensos. Os aventureiros encontraram um ponto, na encosta, que lhes oferecia segurança, e nele montaram as barracas, fixando-as no solo. Nenhum deles conseguiu dormir, pois imaginavam Keqyshadi a rondar as barracas. Temiam que ele os atacasse.

Na manhã seguinte, Valmiki, ao sair da barraca, viu um vulto imenso em meio à nuvem que cobria a região. Assustado, gritou para os seus companheiros, que se retiraram, imediatamente, das barracas, e olharam para a direção que Valmiki apontava. Valmiki disse que vira uma criatura de mais de três metros de altura. Os outros aventureiros recolheram as barracas, e caminharam na direção que Valmiki apontava. Ouviram uma voz estranha. Todos eles a ouviram ao mesmo tempo. Havia, lá, uma criatura. Inclinaram-se a acreditar que se tratava de Keqyshadi. Akira aventou a hipótese de tratar-se de Ieti, e Valmiki perguntou-lhe porque encontrariam o Ieti, se procuravam o Keqyshadi, e por que não encontraram o Ieti quando o procuraram. Akira não lhe deu resposta.

Andaram, cautelosamente, na direção da qual chegou-lhes a voz estranha. Os fortes ventos e a impossibilidade de ver um metro diante dos olhos os obrigavam a prosseguir em velocidade reduzida. Além dos assobios dos ventos, nada mais ouviam.

Deslocaram-se poucos metros. Ruídos atraíram-lhes a atenção. Pareceu-lhes que a criatura que estava nas proximidades tinha o cuidado de não se lhes revelar; movia-se com cautela.

Akira, que estava atrás de todos os aventureiros, rumou à direção da qual a voz lhes chegara aos ouvidos. Olhava, apavorado, de um lado para o outro. De repente, sentiu, nas costas, uma forte pancada, que o arremessou contra José da Silva, logo à sua frente, e os dois esbarraram em Li Po. Caíram os três. Li Po escorregou pela encosta suave; Valmiki agarrou-o. Thomas e Arthur o ergueram. Refeitos do susto, perguntaram para Akira o que lhe acontecera. Mal conseguindo articular as palavras, ele lhes disse que lhe atingiu-o as costas forte pancada. Alguma criatura – inteligente, presumiram – os tocaiava. Acreditaram que Keqyshadi anunciara-se – nenhum deles o viu, mas não lhes restava dúvida: Keqyshadi estava próximo deles.

Vasculharam a região que a visão alcançava. Desnorteados, desorientados, perderam a noção de direção e de espaço.

Valmiki, olhos apurados, viu um vulto aproximando-se de si. Boquiaberto, apontou-o. José da Silva perguntou-lhe o que ele via, e viu o vulto, grande, a poucos metros de si, e correu, imprudentemente, em direção a ele. Valmiki agarrou José da Silva pela gola da jaqueta, que se lhe escapou. E José da Silva correu no encalço do vulto. Thomas, Arthur e Akira gritaram-lhe que não fosse na direção da criatura. José da Silva desapareceu.

Transtornados, os cinco aventureiros não sabiam o que fazer. Permaneceram, não se sabe por quanto tempo, imóveis, irresolutos.

Estavam nas proximidades de uma encosta. Poucos metros depois deles, um declive. Retiraram-se de lá, e buscaram proteção. Armaram as barracas. Não dormiram. Esperavam que José da Silva regressasse. Akira teve uma previsão funesta: José da Silva morreu na montanha. Qomolangma Feng era o seu túmulo.

Na manhã seguinte, eles não desarmaram as barracas. Permaneceriam lá, durante dois dias, à espera do regresso de José da Silva.

Escasseavam os provimentos. Os aventureiros não poderiam esperar, indefinidamente, por José da Silva, ou todos eles morreriam.

Thomas disse que teriam de principiar a descida. Valmiki sugeriu que esperassem por José da Silva mais um dia. Decidiram esperá-lo.

Poucas horas depois, ouviram uma voz abafada pelo assobio dos ventos. Reconheceu-a Li Po. Era a voz de José da Silva.

Logo depois, José da Silva apareceu diante deles, entusiasmado. Dizia, ofegante, mal articulando as palavras, que viu Keqyshadi à boca de uma caverna a pouco mais de cem metros de onde eles se encontravam. Thomas esqueceu do seu desejo de surrar José da Silva, e perguntou-lhe se ele poderia conduzi-los até a caverna.

Tomando a dianteira da fila indiana, José da Silva conduziu-os até a caverna na qual dissera haver encontrado o Keqyshadi. À boca da caverna, acionaram as lanternas, iluminando-lhe o interior. E cautelosos, e preparados para qualquer eventualidade, na caverna entraram. E nada encontraram. Nenhum sinal de Keqyshadi. Nem pegadas que indicassem a existência dele. O silêncio, absoluto.

Ouviram, enfim, um ruído. Olharam para a boca da caverna. Os ventos assopravam fortes. Ouviram um assobio estridente. À boca da caverna, um vulto. Abismados, olhos arregalados, fitaram-lo os aventureiros.

O vulto desapareceu do mesmo modo que surgira. Os ventos assopravam, intensos. Os assobios, altissonantes. Uma voz invadiu a caverna na qual estavam os seis aventureiros. Os ventos, cada vez mais fortes. Lá fora, furioso, o clima. Os ventos, mais fortes. De repente, apagaram-se as lanternas, e a escuridão reinou na caverna. E enfraquecia-se a respiração dos seis aventureiros.

E o silêncio reinou absoluto em Qomolangma Feng.

Parafraseando o Barão de Itararé

Todos sabemos: o Barão de Itararé é, dentre todos os vultos da nossa história – refiro-me, ao dizer ‘nossa história’, à história do Brasil -, o maior – se não o maior, um dos maiores -; e o Visconde de Sabugosa e o Marquês de Rabicó são os dois únicos vultos da nossa história que com ele se rivalizam.

Certo dia, disse-me o insigne Barão, mestre dos anexins sapienciais, representante máximo da aristocracia brasileira, erudito invejável, e aventureiro audaz, ainda em vida:

– Amigo meu, contar-te-ei uma aventura, que merece ser inserida, nos anais da história pátria. Contou-ma um amigo meu, cuja esposa, um dragão, daqueles de cuspir fogo, cuspia fogo, além de atormentá-lo dia e noite, e noite e dia. Se eu fosse o Rui Barbosa, codnominado Águia de Haia, genial macrocéfalo esquálido, eu diria que a esposa do amigo meu era um dragão flamívomo, isto é, um dragão que cospe fogo. Mas vá lá. A mulher do amigo meu era um dragão. Morreu; portanto, ela não é um dragão. Foi ontem, na casa do meu amigo. Ele, ligeiramente embriagado, compungido – e em seu semblante distingui um sorrisinho de satisfação à comissura dos lábios, não estou certo se à da direita, se à da esquerda, pois sou canhoto, e, na ocasião, eu me barbeava, e mirava-me ao espelho do banheiro da minha casa – contou-me o que lhe sucedeu; e tal história, simultaneamente trágica e cômica, portanto, tragicômica, eu a contarei a ti. Ei-la: “Barão, tu não me acreditarás ao ouvir-me contar-te o que me aconteceu, ontem, não sei a que horas; sei que foi ontem. Como tu sabes, gosto de uísque, e quando eu digo que gosto de uísque eu quero dizer que gosto de uísque. A minha mulher, Barão, ontem, disse-me o que me disse ontem, a rosnar, como de costume: “Rubens, jogue o uísque na pia, ou pedirei o divórcio, e farei questão de ficar com o carro. Debilóide! Mongolóide! Asteróide! Inútil! Fútil! Inconsútil! Preguiçoso! Rancoroso! Tinhoso! Maldoso! Gotoso! Teimoso! Majestoso! Mexa-te, asno!, ou expulso-te desta casa!”. E o que fiz? Joguei as garrafas de uísque na pia. “Idiota – reprovou-me a minha mulher, aquela jararaca -, eu não te disse para jogares as garrafas na pia. Eu te disse, anta, para despejares o uísque na pia. Dê fim ao uísque”. Calei-me, e obedeci-lhe, prontamente. A jararaca retirou-se do banheiro, e eu, então, tratei de despejar, e logo, na pia, o uísque. Peguei a primeira garrafa de uísque, aliás, a garrafa era de vidro, e uísque era o seu conteúdo, e desarrolhei-a, e despejei o uísque na pia, mas não todo o uísque, pois separei, em um copo, quatro dedos de uísque, e emborquei o copo, e bebi o uísque. Bebido os quatro dedos de uísque, desarrolhei a segunda garrafa, despejei, em um copo, cinco dedos de uísque, bebi o uísque, e despejei, da garrafa, na pia, o restante de uísque. Ato contínuo, bebi, de um copo, a terceira rolha, e despejei a pia na garrafa. Assim feito, logo a seguir, abri a quarta pia, olhei pelo buraco da fechadura, para espiar se a minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma jibóia, não estava nas proximidades, bebi a rolha, e joguei o copo, com o uísque, através da janela. E não perdi tempo. Desatarraxei o quinto frasco de perfume, nele enfiei a rolha, tampei-o, atarraxei o copo, esvaziei a garrafa de uísque, e bebi água da torneira misturada com desodorante. Olhei de um lado para o outro. Vi que a minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma cascavel, não estava por perto, peguei o sexto frasco de loção pós-barba, barbeei-me com a rolha, enchi o copo com pasta de dente, bebi a pia, e joguei a garrafa de uísque através da janela, que estava aberta, evitando, assim, de quebrá-la. Como eu estava com sorte, pois não quebrei a garrafa, enfiei as mãos na sétima privada, bebi um litro de água-que-passarinho-não-bebe, peguei a vassoura, e com ela tampei a casa, e com a rolha fechei a fechadura da porta. Como era delicioso o uísque, comi a oitava rolha, quebrei a janela com o rodo, joguei o frasco de desodorante na privada, e acendi a lâmpada, que estourou assim que eu a acertei com o meu sapato do pé esquerdo. Assustado com o barulho, olhei de um lado para o outro, e para cima e para baixo, à procura da minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma caninana, e, ao ver que ela não me via, bebi, para me acalmar, da nona garrafa, tirei a rolha da pia, e desentupi, com um desentupidor de pias, minhas orelhas, e, com a outra extremidade do desentupidor de pias, minhas narinas, e acertei, com a testa, a parede, com força, muita força. E logo, sem pensar duas vezes, aliás, nem sequer uma vez pensei, peguei da décima lâmina de barbear, cortei a porta, desatarraxei o teto, abri um buraco no chão, cavando, joguei no buraco meus cabelos, enfiei minha cabeça na pia, abri a torneira, e molhei meus pés. Devido ao frio, peguei a décima primeira unha que cortei das minhas mãos, joguei-a na privada, apertei a descarga, que ficou entupida, transbordou, e pedi, com o telefone celular, que me enviassem uma faca para eu fatiar a gelatina de morango que eu havia preparado dois dias antes, e pretendia levar ao forno, para assá-la. E logo em seguida, ou um pouco depois, sem mais tardar e sem delongas, entontecido e desnorteado, voltei-me para trás, e olhei para a frente, e voltei-me para a frente, e olhei para trás, e voltei-me para cima, e olhei para baixo, e voltei-me para baixo, e olhei para cima, à procura da minha mulher, aquela caninana, que, além de caninana, era uma jararaca, e, ao não a encontrar, olhei para a pia, vi que ela ainda estava inteira, mandei um e-mail para o décimo segundo apóstolo, perguntei-lhe da minha mulher, aquela cascavel, que, além de cascavel, era uma jararaca, e dela ele não me deu notícias, e quebrei a pia, e, para a minha surpresa, nesse mesmo instante, entrou no banheiro a minha mulher, aquela jibóia, que, além de jibóia, era uma jararaca, e eu quebrei-lhe, com um pedaço da pia, a cabeça, cortei-lhe, com a lâmina de barbear, o pescoço, e tampei-lhe, com a rolha da garrafa de uísque, o fiofó. Desejo, do fundo de meu coração de marido amável, que ela não telefone para a delegacia de polícia, e não me denunciei por homicídio”.

Meu irmão morreu – Uma história do tempo do coronavírus

Encontraram-se, às onze horas da manhã de hoje, nas proximidades da igreja Nossa Senhora de Fátima, no entroncamento das avenidas José Bonifácio e Joaquim Nabuco, na calçada à frente de uma loja de cosméticos, João Carlos e Roberto Carlos, colegas de trabalho que há alguns dias não se viam. João Carlos gozava, havia dez dias, de férias. Retirara-se havia um minuto da igreja Nossa Senhora de Fátima, e caminhava, lentamente, cabisbaixo. Roberto Carlos saíra do escritório minutos antes, e rumava para um restaurante, distante uns cem metros de onde ele e João Carlos encontravam-se. Saudaram-se. E Roberto Carlos não precisou de mais de um segundo para notar a tristeza estampada nos olhos do seu colega.

– O que se passa contigo, João?! – perguntou-lhe. – As férias não te fazem bem?! Por que a cara tristonha?! O que houve?! Que bicho te mordeu, homem?!
João Carlos não lhe respondeu de imediato; tremeram-lhe os lábios. Fitou Roberto Carlos, que estava ciente de que dele não ouviria boa notícia. E respondeu-lhe:

– Saímos da igreja há pouco meus pais, minha irmã e eu. Eles foram para a casa deles. Eu lhes disse que eu iria caminhar um pouco. Assistimos à missa de sétimo dia da morte de meu irmão.

– Meu Deus! – exclamou Roberto Carlos, sinceramente condoído. – Aceite meus pêsames, João. Seu irmão é mais uma vítima do covid, este maldito vírus.

– Covid!? Não. Meu irmão não morreu de covid.

– Não!? De que mais ele poderia morrer?! – perguntou Roberto Carlos, visivelmente surpreso. As suas palavras incomodaram João Carlos, que tratou de lhe responder.

– Ele não morreu de covid. Ele foi assassinado. Dois ladrões invadiram-lhe a casa. Renderam-lo. Amarraram-lo. Espancaram-lo. Cortaram-lhe, à faca, as mãos e os pés, e a língua, e as orelhas; e esmigalharam-lhe, à marreta, os joelhos, e a cabeça. Mataram-lo.

– Assassinado!? Ele foi assassinado!? Ufa! Que alívio! Alegro-me saber que ele não morreu de covid.

Em 2.030, na escola…

Era o primeiro dia de aula na Escola Princesa Isabel, de ensino infantil. As crianças a invadiram em vagalhões destruidores, que não poderiam ser contidos nem por todo o maquinário construído pelo homem para a contenção de fenômenos naturais devastadores. A algazarra das crianças traduzia o ânimo delas, criaturas de almas angelicais. Abraçaram-se, espontâneas, expansivas; falaram-se; gargalharam. Sempre em alto e bom som, com toda a força de seus pequenos pulmões, que emitiam sons altissonantes, de fazer tremer o Everest. No rosto delas, o sorriso aberto; nos olhos, o brilho da inocência, da ínfrene alegria. Dominaram da escola o pátio e os corredores. Algumas, acompanhadas de seu pai, ou de sua mãe, logo das mãos deles, assim que viam um amigo, se desvencilhavam e iam alimentar a multidão turbilhonante que tomara conta do território escolar. O caos presente ocultava a ordem existente. Ao soar do sinal que indicou o início das aulas, as crianças rumaram cada uma delas para a sala-de-aula que frequentaria durante o ano letivo. E esvaziou-se o pátio, de onde saía o ruído do silêncio, e nada mais. Em uma das salas-de-aula, a de número 7, da quarta-série, além de vinte e oito crianças, entrou a professora Ludmila, mulher de trinta e dois anos, professora desde os vinte. De estatura mediana, cabelos pretos, lisos e compridos, esbelta, simpática, de espírito cativante, era querida por seus alunos.

Após alguns minutos de conversa descontraída com seus alunos, e assim que eles se silenciaram, disse a professora Ludmila:

– Vamos à chamada.

– Vamos – replicaram algumas crianças; e todas riram.

– Prestem atenção – pediu a professora Ludmila. – Álcoolgeorge.

– Presente.

– Álcoolgerson.

– Estou aqui no fundo.

E gargalhadas dominaram a sala.

– Engraçadinho – censurou-o a professora Ludmila, sorrindo. – Atenção! Álcoolgilson.

– Presente.

– Cloroquiniano.

– Presente.

– Covidiano.

– Presente.

– Distanciamentónio.

– Presente.

– Professora, a ponta do meu lápis ‘tá quebrada – disse uma aluna.

– Você tem apontador? – perguntou-lhe a professora Ludmila.

– Não – respondeu a aluna. – Eu o esqueci, na minha casa, em cima da minha cama.

– Quem pode emprestar um apontador para ela? – perguntou a professora Ludmila a todos os alunos.

E três alunos oferecem à aluna um apontador, e ela pegou o que lhe ofereceu um aluno sentado à sua direita, e pôs-se a apontar o lápis.

– Vamos retomar a chamada – anunciou a professora Ludmila.

– Sim, professora – exclamaram os alunos.

– Imunidadenilson.

– Presente.

– Infecsálvio.

– Eu esqueci o presente, professora.

Os alunos riram. E a professora Ludmila pediu-lhes silêncio, e prosseguiu com a chamada:

– Isolamentobias.

– Presente, professora.

– Isolamentônio.

– Presente.

– Ivermectiago.

– Presente.

– Lockdowniel.

– Presente. Posso ir embora, professora? Ontem, eu não terminei a terceira fase do Game of Virus.

– Não!? – exclamou um aluno, surpreso. – Eu já. E estou na sexta fase.

– Legal! – exclamou outro aluno.

– Meninos, silêncio – censurou-os a professora Ludmila. – No recreio, vocês poderão falar do jogo; aqui na sala, não. Lockdowniel, você não pode ir embora. E comportem-se todos vocês. Atenção à chamada. Lockdownson.

– Presente.

– Pandemilton.

– Presente.

– Quarentênio.

– Presente, professora.

– Recuperadouglas.

– Presente.

– Vacinelson.

– Ele não veio, professora – disse Pandemilton. – Ele mora perto da minha casa. Ontem, ele e a mãe dele, a dona Amélia, que é muito chata, e muito, muito feia, disseram para a minha mãe que hoje ele iria ao médico.

– Tudo bem – disse a professora Ludmila. – À chamada. Vacinicius.

– Presente.

– Azitromisílvia.

– Presente.

– Cloroquiniana.

– Presente, professora.

– Coronádia.

– Presente, professora.

– Coronavilma.

– Presente.

– A Coronavilma é muito chata – disse Cloroquiniano.

– Chato é você! Bobão! – replicou Coronavilma.

– Silêncio, por favor – reprovou-os a professora Ludmila. – Atenção à chamada. Covidiana.

– Presente.

– Infecsílvia.

– Não veio – disse Lockdownson.

– Isolamentónia.

– Presente.

– Quarentenina.

– Presente.

– A Quarentenina também é chata – disse Cloroquiniano.

– E você é bobo – retrucou Quarentenina.

– Bobo e bocó – completou Coronavilma.

– A conversa não chegou no chiqueiro, nariz de porquinha – respondeu Cloroquiniano, dirigindo-se à Coronavilma.

– Professora, a senhora ouviu… – perguntava Coronavilma à professora Ludmila.

– Sim, Coronavilma, ouvi – respondeu-lhe a professora Ludmila antes que ela completasse a frase. – Silêncio, todos vocês. E você, Cloroquiniano, não me interrompa. E seja educado com as suas colegas.

– Sim, senhora – respondeu Cloroquiniano.

– Professora, mande o Cloroquiniano para a diretoria – sugeriu Coronavilma.

– À chamada – disse a professora Ludmila. – Eu ainda não a terminei. Quarentenívia.

– Presente, professora.

– Vacinúbia.

– Presente.

– Zincarla.

– Presente.

– Zincátia.

– Presente, professora.

– Agora – disse a professora Ludmila -, encerrada a chamada, à aula.

O Julgamento – Uma história do tempo do coronavírus

João Fulano da Silva invadiu uma casa, e estuprou e matou mãe e filha. E policiais o capturaram e o prenderam.
No tribunal, perguntou-lhe o juiz, educadamente:

– João Fulano da Silva, o senhor já tomou a vacina contra o coronavírus?

– Tomei, sim, senhor doutor. Tomei – respondeu-lhe, humildemente, João.

E seguiu-se a conversa:

– E o senhor – perguntou o juiz -, senhor João, usava máscara enquanto estuprava e matava aquelas duas mulheres?

– Sim, senhor, eu usava máscara, e uma de três camadas.

– O senhor é um homem de responsabilidade social. Respeita a saúde pública. Tem empatia coletiva. Pelos poderes a mim conferidos pelas leis deste mundo, concedo ao senhor João Fulano da Silva a liberdade.

– Posso, senhor doutor, fazer uma pergunta?

– À vontade.

– Posso estuprar e matar outras mulheres e também matar e estuprar mulheres?

– Matar, e depois estuprar?! – perguntou o juiz, intrigado.

– Sim. Eu gosto de…

– Entendi. Não preciso dos detalhes. Você, um cidadão responsável, exemplar, comprometido com a saúde coletiva, tem o direito de viver a sua vida como bem entenda, desde que não se esqueça de usar máscara.

– Não esquecerei, não, senhor doutor. E eu uso máscara de três camadas.

– Então, vá. Você é um homem livre. Divirta-se. E não se esqueça da máscara.

– Obrigado, senhor doutor. Obrigado. Até breve.

Dom Quixote e os Pernilongos

Vinícius é um leitor voraz. Dedica-se à leitura de obras clássicas da literatura universal, todos os dias, nos seus momentos de lazer e em todos os momentos livres do dia – e quando não tem um momento livre, ele dá um jeito de encontrar um. Não é incomum surpreendê-lo, à mesa, durante o café-da-manhã, com um livro à mão, esquecido do que se passa ao seu redor, sua atenção presa mas peripécias de Odisseu, o herói mítico da guerra de Tróia, nas ações misteriosas de Sherlock Holmes pelas ruelas de Londres, nas aventuras disparatadas de Dom Quixote de la Mancha e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, pelas terras espanholas, nas aventuras um tanto rocambolescas de D’Artagnan, Athos, Portos e Aramis, nas viagens marítimas do Capitão Nemo, à bordo do Nautilus, nas fantásticas aventuras de Aladin e do gênio da lâmpada, na caçada que Acab empreende à baleia branca. E assim que conclui o almoço, e também a janta, recolhe-se à biblioteca de sua casa, deita-se no sofá, em cujo um de seus braços apoia um travesseiro sobre o qual pousa a cabeça, e dedica-se à leitura dos mais fantásticas relatos jamais concebidos pela imaginação, fértil imaginação, humana, enquanto seus três filhos assistem, à televisão, a um desenho animado, ou a um filme, ou entretêm-se com um jogo de videogame, e Verônica, sua esposa dedica-se, atarefada, à limpeza da casa , ou desdobra-se para impedir que seus filhos se engalfinhem em lutas fratricidas.

A dedicação de Vinícius à leitura lhe era natural, atendia ao seu temperamento pacato, retraído, introspectivo, avesso, dir-se-ia hostil, à agitação do dia-a-dia, à multidão. Recolhe-se ao seu mundo, e deste mundo parte em viagens para outros mundos, mundos, estes, imaginados por outros seres de sua espécie, e nele permanece por horas a fio.

Nos primeiros anos após unir laços matrimoniais com Verônica, ela enervava-se sempre que o via à margem do que ocorria na casa, e o descompunha, atrabiliária, sobranceira, sob uma torrente de censuras; e ele, contrariado, era obrigado a abandonar a leitura e a executar as tarefas caseiras, para ele monótonas e entediantes, que dele sua consorte exigia. Transcorridos alguns anos, convencida de que seu marido era um leitor incorrigível, que, durante violentas tempestades, que destelhavam a casa – e não é força de expressão: tal se deu duas vezes – infalivelmente conservava-se, tranquilo, a ler livros, e habituando-se a vê-lo com a leitura entretido, e compreendendo-o, com ele nunca mais se irritou, e nunca mais o descompôs. Deixava-o ocupar-se com a leitura, para evitar desgastes que poderiam vir a culminar num rompimento que nenhum deles desejava. Podia o mundo desabar à sua volta e o inferno subir à terra, que Vinícius não interrompia a leitura, principalmente quando estava a ler Dom Qiixote de la Mancha, de todos os livros do universo o que ele mais gostava de ler. Não havia cristão capaz de tirar-lhe o livro de diante dos olhos. Não custa repetir: De todos os livros que Vinícius leu, a obra-prima de Miguel de Cervantes Saavedra é o de sua predileção. Nenhum outro livro o emulava aos olhos de Vinicíus. Nenhum. Nem os de William Shakespeare; nem os de Homero; nem os de Melville. Nem as Mil e Uma Noites. Era Dom Quixote de la Mancha seu herói.

No decurso de seus trinta e dois anos de vida, Vinícius seguiu o herói da Mancha e seu fiel escudeiro quatorze vezes, nas peripécias trágicas, cômicas, dramáticas, heróicas, épicas, pelas terras da Espanha. Sabia de cor e salteado todos os capítulos das aventuras picarescas do herói espanhol. E sempre que se dedicava à leitura da obra-prima de Cervantes surpreendia-se, fascinado, alumbrado com os hilários episódios saídos da mente do mais genial de todos os escritores espanhóis, como se a lesse pela primeira vez.

Ao crepúsculo de um domingo ensolarado de Outubro, após regressar de um passeio, com sua esposa e seus filhos, ao parque, e banhar-se, e, enquanto sua esposa preparava o jantar e os filhos entretinham-se com um quebra-cabeças de quinhentas peças, Vinícius, na biblioteca, tirou da estante o Dom Quixote de la Mancha, e deitou-se no sofá. Iniciaria a décima quinta leitura das peripécias de Dom Quixote e Sancho Pança. Sorriu, ao evocar algumas das cenas para ele as mais engraçadas, prelibando prazer indescritível. E tão logo ajeitou-se no sofá, a cabeça confortavelmente aninhada no travesseiro, iniciou a leitura – e que o mundo ruísse.

Transcorreram-se os minutos. A curtos intervalos de tempo, estampava-se no rosto de Vinícius um sorriso, que contagiaria quem o surpreendesse e lhe excitaria a curiosidade. Uma hora depois, entrou na biblioteca Verônica, que não se admirou ao ver seu marido, deitado no sofá, a ler Dom Quixote.

– Vinícius, há muitos pernilongos, aqui. Meu Deus! Os pernilongos não estão mordendo você, não? – perguntou-lhe Verônica, um sorriso divertido a enfeitar-lhe o belo, simpático rosto.

– Não – respondeu-lhe Vinícius, mecanicamente, os olhos a seguirem as andanças de Dom Quixote e Sancho Pança.

– Vinícius, olhe para seus pés.

– Por quê?

– Olhe.

– Está bem – e Vinícius abaixou, tranquilamente, os braços, o livro, aberto, à mão direita, mal moveu a cabeça, e fitou seus pés. – O que têm meus pés, Verônica?

– O que têm seus pés?! – perguntou Verônica, surpresa, incrédula. – O que têm?! Vinícius, você… Pelo amor de Deus! O que têm?! Você não está vendo os pernilongos em seus pés? Meu Deus! Vinícius! Não acredito! Em cada pé seu há uns vinte pernilongos; alguns deles, de tão gulosos, têm a barriga cheia de sangue. Vinte?! Mais. Uns trinta em cada pé.

– Não se preocupe – respondeu Vinícius, com a tranquilidade habitual, ao mesmo tempo que restituía sua cabeça à posição original, trazia o livro para diante de seus olhos e retomava a leitura.

– Não me preocupar!? E os pernilongos?

– Deixe-os em paz. Não os amole. Daqui a pouco, eles, enjoados de tanto engolir sangue, arrebentam-se, e vão-se embora.

– Quê!? Deixá-los em paz! Não os… Quando eles irão embora, Vinícius? Quando eles drenarem todo o seu sangue?

– Não sei. Entenda-se com eles.

Incrédula com a resposta que ouviu, Verônica meneou a cabeça, apalermada.

– Multidão de pernilongos a morderem-lhe os pés, e o príncipe encantado não ‘tá nem aí – ciciou Verônica para si mesma, um tanto atarantada com a indiferença de seu marido, cujos pés pernilongos devoravam.

Conquanto acostumada com os hábitos de leitor de Vinícius e com os atos, inusitados, que ele prodigalizava durante a leitura de livros, ele ainda a surpreendia, boquiabrindo-a.

Verônica pegou, de sobre a mesa, uma flanela, e com ela afugentou todos os pernilongos – muitos deles de barriga cheia, estufada, vermelhuda – que se banqueteavam com o farto sortimento de sangue que Vinícius lhes oferecia.

– O jantar já ‘tá na mesa – anunciou, recomposta, fleumática, Verônica, que restituiu a flanela à mesa e retirou-se da biblioteca.

E montado no Rocinante, Vinícius errava por terras da Espanha…

O Desaparecimento do Contador de Estórias

– O Belisário sumiu! – gritou Joaquim Espalha-Brasa, o menino mais peralta da cidade, o mais peralta e o mais mentiroso. Ninguém acreditou nele, mas desta vez ele dizia a verdade. Belisário, o contador de estórias, havia desaparecido.

Todos os dias, às cinco horas da tarde, Belisário ia à Praça Central, onde crianças, jovens, adultos e velhos o ouviam contar estórias maravilhosas que apenas ele sabia contar. Mas neste dia ele não tinha, às cinco horas da tarde, ido à Praça Central. O que lhe havia acontecido?

– O Belisário nunca se atrasou – comentou um morador, que nunca deixava de ouvir Belisário contar estórias magníficas.

Ninguém soube explicar o sumiço de Belisário. Todos voltaram a atenção para a maior autoridade da cidade: o prefeito Raimundo, que se viu em apuros, pois não soube explicar o atraso de Belisário.

– Que raio de prefeito você é, Raimundo? – reclamou Godofredo, o farmacêutico, o homem mais ranzinza da cidade.

– Não falte com o respeito, doutor – retrucou Raimundo, o prefeito, contrariado e irritado. – Não me venha com desaforos. Sou o prefeito. Não sei de tudo, ora bolas! Se querem saber o que aconteceu com o Belisário, perguntem ao Leonardo, do jornal. Ele está sempre por dentro das notícias.

E todos foram ter com Leonardo, o jornalista.

Leonardo não soube dizer porque Belisário não havia ido à Praça Central.

– Desta vez, o Joaquim Espalha-Brasa disse a verdade – disse um morador. – Milagre. Hoje São Pedro nos mandará uma tempestade daquelas.

Passaram-se as horas. O relógio marcou oito horas da noite. As pessoas, desanimadas e entristecidas, até então aglomeradas na Praça Central, foram embora, cabisbaixas. Iriam dormir sem ouvir nenhuma estória de Belisário, o contador de estórias.

Ninguém dormiu naquela noite. Ninguém. Todos passaram a noite em claro, se perguntando porque Belisário, o contador de estórias, não tinha ido à Praça Central.

Na manhã seguinte, o desaparecimento de Belisário foi o assunto de todas as conversas. Ninguém quis saber de futebol, nem de novelas, tampouco de desenhos animados; ninguém quis saber de outro assunto que não fosse o desaparecimento de Belisário, o contador de estórias.

Os moradores da cidade iam à Praça Central, todos os dias, às cinco horas da tarde. E Belisário não aparecia.

Passaram-se os dias. E Belisário não aparecia. O que havia acontecido com Belisário? O prefeito conversou com o delegado, que mandou os policiais procurarem por Belisário. Não o encontraram. E entristeciam-se todos os moradores, que iam, todos os dias, às cinco da tarde, à Praça Central, para ouvir Belisário contar-lhes fascinantes estórias, mas na praça ele não aparecia. Enfim, cansados, não foram mais à praça.

O que havia acontecido com Belisário, o contador de estórias? Ninguém sabia.

Sem as estórias que Belisário contava, entristeceram-se os moradores da cidade. As crianças, os jovens, os adultos e os velhos não conseguiam mais sonhar. À noite, todos dormiam, e ninguém sonhava. Perderam a vontade de trabalhar, e a de estudar. Até o apetite perderam. Todos viviam tristes porque não ouviam mais nenhuma estória encantada que apenas Belisário, o contador estórias, sabia contar.

Onde estava Belisário, o contador de estórias? Todos queriam saber.

Passaram-se os dias.

Passaram-se os meses.

– O Belisário voltou! O Belisário voltou! – gritou Joaquim Espalha-Brasa, animado, entusiasmado; ele pedalava a bicicleta velha, que ele chamava de Bike Magrela, com toda a força de seus pés. – O Belisário voltou!

– Joaquim, o Belisário voltou? – perguntou Godofredo, o farmacêutico, o homem mais ranzinza da cidade, sorrindo.

– O Belisário voltou! – berrou Joaquim. – O Belisário voltou, cambada! Vamos à praça!

E todos os moradores da cidade foram à Praça Central. Lá, sorridente, Belisário, o contador de estórias, contaria estórias fantásticas, que tinham heróis, dragões, frutos mágicos, cobras de gelo, passarinhos de quatro asas, mulheres de corpo de leoa, flechas enfeitiçadas, coroas de diamantes, castelos assombrados, gigantes, mulheres de cabelo de ouro, rios com peixes que falavam, árvores que voavam, crianças invisíveis.

Acercaram-se de Belisário, o contador de estórias, Raimundo, o prefeito; Godofredo, o farmacêutico; Leonardo, o jornalista, Joaquim Espalha-Brasa, o menino mais peralta, mais peralta e mais mentiroso da cidade; e todos os outros moradores da cidade. Ninguém perguntou-lhe por onde ele tinha andado durante todos aqueles meses. Todos queriam ouvir-lhe as estórias. E Belisário contou-lhes estórias maravilhosas.

Naquela noite, todos sonharam lindos sonhos.

No dia seguinte, às cinco horas da tarde, a Praça Central estava cheia de gente que foram ouvir Belisário, o contador de estórias, contar as mais belas estórias do mundo.

E a felicidade voltou à cidade. E os seus moradores trabalhavam e estudavam com mais vontade. E sonhavam belos sonhos, afinal Belisário, o contador de estórias, contava-lhes estórias belíssimas, fantásticas, as mais fascinantes estórias do mundo.

A luta de boxe sem lutadores – escrito por Alessandro Cassarrato – publicado no Zeca Quinha Nius

O município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, localidade situada num aprazível recanto do nosso imenso Brasil, terra em que se plantando tudo dá, banana, côco e fubá, foi palco de um evento esportivo inédito, cujos ingredientes foram, em doses cavalares, emoção, suspense e aventura, e que hipnotizou milhões de indivíduos da espécie bípede alcunhada, pelos romanos, num latim crônico e anacrônico (crônico, porque está nas crônicas romanas; anacrônico, porque é extemporâneo, superado, obsoleto), de homo sapiens: A luta de boxe sem lutadores; a primeira do gênero; sucesso de público e de popularidade; e cujas ressonâncias políticas e sociais são de valor incalculável. Foram os lutadores deste inusitado e extraordinário evento esportivo Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, duas personagens imaginárias, concebidas, em imaginação, pelos seus criadores, homens criativos, imaginosos, engenhosos, de invejável espírito esportivo, e cujos nomes, não revelados, não são conhecidos pelo grande público, tampouco pelo pequeno público. Tião Soconopeito tem um metro e noventa de altura e cento e dez quilos; e Ditinho Murronacara, um metro e oitenta de altura e cento e um quilos. Dos dois boxeadores estas foram as únicas informações passadas ao público pelos organizadores do evento, informações indispensáveis para que cada pessoa que se dignou a dedicar uma hora de sua vida para assistir ao espetáculo marcial, que foi de doer e que entrou para a história para dela jamais sair, pudesse imaginá-los.

Realizou-se a luta no ringue do estádio municipal de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, edifício grandioso, majestoso, palco de eventos esportivos que atraem numeroso público todo fim de semana. Ao estádio convergiram cento e cinquenta mil pessoas – cada uma delas ocupou uma cadeira à ela reservada no momento da compra, por míseros R$ 150,00, do ingresso; e à televisão, para testemunharem o esmurramento mútuo e recíproco entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, segundo cálculos de confiáveis fontes de informações, mais de três bilhões de pares de olhos de pessoas da espécie humana de todo o orbe terrestre, o planeta azul que habitamos e que chamamos, incorretamente, de Terra. O sucesso, estrondo. Aconchegados às cadeiras da arquibancada do estádio, todas as cadeiras ocupadas, cada uma delas por um ocupante, o narrador esportivo principiou o início da sua narrativa com estas palavras: “Meu adorável público, apresento os dois maiores lutadores do século, bravos e destemidos gladiadores modernos. À direita, Tião Soconopeito. À esquerda, Ditinho Murronacara.” Neste momento, dois focos de luz surgiram, no teto, e ambos criaram, cada um deles um, um cone de luz, cada um projetado num ponto do estádio, num corredor entre as cadeiras. E todos os espectadores puderam imaginar, no cone de luz à direita do narrador, Tião Soconopeito, e no à esquerda, Ditinho Murronacara. E o público foi ao delírio. Aplaudiu e ovacionou, estrondosamente, os dois gladiadores modernos. Tremeram os alicerces do estádio. Enquanto os boxeadores rumavam ao ringue no ritmo do deslocamento dos dois cones de luz, do ponto em que estes surgiram originalmente, até o ringue, o público imaginava-os andando, altivos, sobranceiros, confiantes. E um juiz-de-luta desceu, por uma corda, ao centro do ringue. Enfim, detiveram-se os dois cones de luz próximos do juiz-de-luta, que, gesticulando, listou as regras da luta, para que todos pudessem ouvi-las. E apagaram-se os cones de luz. E o juiz-de-luta apitou o início da luta. E ia de um canto ao outro do ringue. E apartava os dois boxeadores, que se agarravam. E iniciava a contagem regressiva, e logo a encerrava antes de completar os dez segundos. Executava todos os seus movimentos com a desenvoltura de um mímico experimentado; e tão bem os executava que o público, acompanhando-o em sua evolução felina, um espetáculo à parte, sem perder, dele, sequer um ínfimo detalhe, concebia, em imaginação, os movimentos de Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, os dois boxeadores selecionados à mão para empreenderem o confronto inaugural da mais criativa e original modalidade esportiva criada, pelos seres humanos, nos últimos cem anos. E encerrou-se o primeiro assalto. E encerrou-se o segundo assalto. E encerrou-se o terceiro. E o quarto. E o quinto. E a luta prosseguia, indefinida. E o público acompanhava todos os movimentos do juiz-de-luta, podendo, assim, criar, em imaginação, os movimentos dos dois boxeadores, que se socavam e se esmurravam. E encerrou-se o sexto assalto. E o sétimo assalto. E o oitavo. E o nono. E o décimo, encerrando-se a luta sem que nenhum dos dois boxeadores, nocauteado pelo oponente, beijasse a lona. Ambos resistiram aos golpes um os do outro, e bravamente, e heroicamente, até o encerramento da luta. E o narrador, animado desde o princípio do embate entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, anunciou o vencedor, que superou o seu oponente em dois pontos: Ditinho Murronacara.

E, aqui, o silêncio sepulcral de alguns torcedores, abismados, supresos, boquiabertos, de olhos arregalados; e a euforia contagiante de outros, que se expandiram em ínfrene e incontinente alegria despudorada. Os eufóricos haviam imaginado vitorioso o boxeador anunciado, pelo narrador, como vitorioso, Ditinho Murronacara; os boquiabertos de indignação, contrariados, Tião Soconopeito. E nem bem haviam se recomposto da surpresa, desagradável surpresa, estes avançaram, aos berros altissonantes, indignados, contra o juiz-da-luta, que tratou, e logo, de escalar a corda, que haviam descido para que nela ele se agarrasse e lhe escalasse os vinte metros, até uma cabine, que o protegeria dos golpes que lhe pretendiam encaixar os ensandecidos torcedores que traziam os nervos à flor da pele. E principiou o confronto, bárbaro e selvagem confronto, entre os que deram, em imaginação, a vitória a Tião Soconopeito e os que a deram a Ditinho Murronacara. E intensificou-se o confronto. Cadeiras voaram, iguais mísseis teleguiados, pelo estádio. E as cento e cinquenta mil pessoas retiraram-se, iguais vagalhões que arrasam o litoral do Império do Sol Nascente, que é, também, o do Sol Morrente, e o do Sol Sobente (porque o Sol sobe) e o do Sol Descente (porque o Sol desce), do estádio por cujos arredores adjacentes à vizinhança espalharam-se, prosseguindo, em seu exterior, a guerra que dentro dele haviam principiado.

Espalhou-se a arruaça, nas ruas e nas avenidas e nas calçadas, a quebradeira, o quebra-quebra, o quebra-pau. O prefeito do município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste recorreu ao governador do Estado estadual, solicitando-lhe forças, que se revelariam fracas, da política militar; e o governador enviou mil policiais ao município arrasado pelos brutos e asselvajados seres bípedes que haviam se retirado, aos trambolhões, do estádio. Fraca, de fato, a força policial. E o governador recorreu ao governo federal, solicitando-lhe, urgentemente, o envio de tropas federais à cidade, que também é um município, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, que se via convertida num sangrento campo de batalha, sangrento e sanguinolento. O tempo urgia. E o presidente não se fez de rogado. Invocou a Constituição Federal. Decretou Estado de Sítio, de Fazenda e de Chácara no município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, e para lá enviou o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, e a torcida do Flamengo e a do Corinthians. E muita gente se perguntou, encasquetada, porque o presidente enviou a Marinha, se Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, não sendo uma cidade litorânea, não tem mar. E as Forças Armadas, secundadas pelas torcidas do Flamengo e do Corinthians, contiveram, em quatro dias consecutivos, os arruaceiros. Foi um espetáculo de doer, e que entrará para a história – e dela jamais irá sair. Ao fim deste capítulo da história terráquea, Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara estavam ilesos. O espetáculo, de doer, promovido pelas pessoas, que, perdendo as estribeiras e a compostura, sanguinolentas e temperamentais, atracaram-se e socaram-se e esmurraram-se, tal qual a luta entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, entrou para a história, e dela jamais irá sair.

O Mentiroso

– Foi o que aconteceu – esbravejou Rodolfo, visivelmente irritado.

– Não foi, não, Rodolfo – retrucou Renato. – Lembra-se do que você contou para todo mundo?

– Contei o que aconteceu.

– Você contou uma história bem conveniente.

– O que você está querendo me dizer?!

– Que você mentiu.

– Menti?!

– Mentiu.

– Não menti.

– Mentiu. Você mentiu.

– Menti?! Lembro-me, e muito bem, do que eu fiz e disse. Não menti.

– Mentiu. Você é um mentiroso profissional. Você contou mais uma das suas infinitas mentiras.

– Você me ofende. Que outras mentiras contei?!

– Que outras mentiras!? Ora, Rodolfo. Perdi a conta de quantas mentiras você já contou. Perdi a conta. Você mente, e mente, e mente, e mente… E mente. Até a respeito do seu nome você mente.

– Quê!?

– Para a Lucinha você disse chamar-se Leandro; para a Mariângela, Luciano; para a Gorete, Vinicius. E mentiu sobre os seus pais e a respeito da cidade em que nasceu…

– Não acredito no que você me diz.

– Se você acredita ou não, o que você fez já está feito, e não vai fazer com que você deixe de ser o mentiroso que você é, e as pessoas não deixarão de saber que você é um mentiroso incorrigível. Todos sabemos que você nada mais é do que um mentiroso. Sorte sua que hoje em dia não há um Gepeto perambulando por aí.

-Quem é Gepeto?

– Você nunca ouviu falar do Collodi?

– Não.

– E do Pinóquio?

– Já. Quem nunca ouviu falar dele?! O que o Pinóquio tem a ver com o tal de Gepeto e com o tal do outro que você mencionou?

– Collodi é o autor do livro que conta a estória do Pinóquio e Gepeto é o personagem que, na estória, dá vida ao Pinóquio.

– E o que os três têm a ver com o que aconteceu ontem?

– Para certas coisas você é esperto, esperto até demais; para outras, asnaticamente burro.

– Você me ofende.

– Se eu digo que não existe nenhum Gepeto por aí e que ele deu vida ao Pinóquio, o que você entende?

– É uma indireta?

– Enfim, você despertou de um sono profundo.

– Você está me dizendo que eu sou tão mentiroso quanto o Pinóquio?!

– Não. Estou dizendo que você é mais mentiroso do que ele. Muito mais.

– Grande amigo você é.

– Já livrei você de muitas enrascadas nas quais você se enroscou por causa das suas mentiras. Desta vez, você que se entenda com a Adriana. Eu não direi para ela que eu e você fomos, ontem, ao campo de futebol.

– Mas você e eu fomos ao campo de futebol.

– O quê!? Onde você está com a cabeça!?

– Não fomos ao campo de futebol, ontem, não?!

– O quê!? Do que você está falando? Não fomos ao campo de futebol, ontem. Eu e a Andressa fomos ao cinema. E você e a Beatriz, ao motel.

– Não fui ao motel.

– Foi.

– Não fui.

– Pois eu digo que foi. E digo com todas as letras: Você traiu a Adriana. E não foi a primeira vez. E não será a última, com certeza. Faça-me um favor, Rodolfo: Não me envolva mais em seus problemas. Eu vou embora.

– Espere um pouco, Renato. Não me deixe na mão. Estou confuso. Não me lembro de ter ido com a Beatriz ao motel. Que Beatriz!? E eu traí a Adriana!? Eu sou incapaz de traí-la. Eu, trair a minha cara-metade!? Jamais! Traição é crime imperdoável. Eu amo a Adriana. Ela é a paixão da minha vida. Meu docinho de coco. Casei-me com ela porque eu a amo. Sou incapaz, incapaz, entendeu!? de traí-la. Eu e você fomos, ontem, ao campo de futebol. Eu sei que fomos ao campo de futebol, Renato. Eu sei.

– Com toda a sinceridade, Rodolfo: Você está muito estranho ultimamente. Até você acredita nas suas mentiras. É o cúmulo dos absurdos.
*
Uma semana depois:
Casa de Rodolfo e Adriana.
Domingo.
Uma e quarenta e cinco da madrugada.
À escuridão da sala, Adriana, sentada no confortável sofá, trajando, unicamente, uma camisola; com as pernas cruzadas, a direita por sobre a esquerda, movia o pé direito – percebia-se-lhe sinais de irritação e impaciência; semi-adormecida, quase sucumbindo ao sono, aguardava Rodolfo.
E Rodolfo entrou em sua casa. Seus passos, lentos, cuidadosos, silenciosos.

– Por que você demorou tanto, querido? – perguntou-lhe Adriana assim que ele, ao apertar o interruptor, acendeu as duas lâmpadas da sala.

– Querida. O que você faz, aqui, no escuro?! Por que você está, aqui, no escuro?! E de camisola?!

– Eu estava esperando você.

– Esperando-me!?

– Sim. Eu estava esperando você. Você demorou. Faz tempo que estou esperando você.

– Desculpe-me, querida. Você sabe como é a minha vida atribulada. Nos finais de semana, eu vou, você sabe, com os amigos jogar futebol no campo de futebol perto da cada do Renato, ou no perto da casa do pai dele, ou no perto da Igreja São Benedito.

– Querido…

– O Renato convidou-me para ir lá, hoje, jogar uma pelada e beber umas loiras geladas. Fui. E não vi a hora passar. Desculpe-me. Peço desculpas, Adriana. A hora passou. Nossa! Duas horas! Já!? Pelo amor de Deus! Como o tempo passa depressa!

– Querido…

– E eu pensando que eram, ainda, umas dez da noite, e nem um segundo a mais. E já são duas da madrugada! Pelo amor de Deus! O que aconteceu com os ponteiros do relógio!? Como o tempo passa depressa! Nossa Senhora! E eu pensando que era cedo ainda. Modo de falar, né, querida. Força de expressão. Eu não imaginei que fiquei tanto tempo lá no campo, com o Renato, o Vinicius, o Pedro, o Carlos, o Ricardo, o Paulo, o Roberto, e outros camaradas meus, jogando futebol, desde… Desde que horas? Desde às seis… desde às cinco… Não me recordo. Depois de um dia de trabalho cansativo, muito cansativo, você sabe, né, querida! preciso de uma partidinha de futebol com os amigos, para espairecer, queimar as calorias, gastar as energias, e renovar as energias, gastando-as. É um paradoxo. Um paradoxo. Gasta-se energia, para renová-la.

– Querido, do que você está falando?! Assim que chegamos, eu da casa de mamãe e você da casa de seu irmão, principiamos conversa, que os latidos do Golias interromperam. E você foi ao quintal saber porque o Golias latia tanto, e eu fui banhar-me. E assim que saí do banho, sentei-me, aqui, e fiquei à sua espera. E já faz quase duas horas que você foi ao quintal. Por que você demorou tanto tempo?! Por que o Golias latia tanto? E que história é essa de terem ido jogar futebol você, o Renato, o Vinicius, o Pedro, o Roberto?! Você não saiu daqui de casa depois que regressamos, você, da casa de seu irmão, eu, da de mamãe.

– Golias!? Latidos!? Mamãe!? Meu irmão!? Querida, eu vim do campo de futebol, não vim!?

A Denúncia – Uma história do tempo do coronavírus

Eram vinte e duas horas de um sábado.
Em sua casa, na varanda, sentado numa cadeira de plástico, branca, Joaquim, máscara multicolorida a cobrir-lhe o rosto desde o nariz até o queixo, olhava à rua, sem se deter em nenhum ponto; sempre que uma pessoa se lhe passava diante dos olhos, ele, cidadão consciente e responsável, verificava se ela trazia, no rosto, uma máscara ajeitada, corretamente, a cobrir-lhe nariz e boca, e acompanhava-a com o olhar até ela sair-lhe do campo de visão. Havia duas horas, só, exercia a sua tarefa, a de policiar a conduta das pessoas que à rua saíam de suas casas. Sacrificava, pelo bem comum, de sua vida, muitas horas por dia, dedicado que era à coletividade.
Não haviam transcorrido quinze minutos após as vinte e duas horas, aos seus olhos surgiram três pessoas, dois homens e uma mulher. A mulher trazia, cobrindo-lhe nariz e boca, máscara cor-de-rosa. Um dos homens tinha uma máscara preta a ocultar de olhos alheios nariz e boca; e o outro, sem máscara, tinha, desnudo, o rosto. Joaquim arregalou os olhos, e levantou-se da cadeira. O homem sem máscara, indo da direita para a esquerda, passou pela mulher, e pelo outro homem, que a seguia, a poucos metros de distância. Estavam distantes do homem sem máscara o homem e a mulher mascarados uns vinte metros quando este homem, o mascarado, acelerou os passos – ao mesmo tempo que retirou do bolso da calça um canivete, que abriu, dele exibindo a lâmina afiada, que brilhou à luz da lâmpada do poste – na direção da mulher, que lhe ignorava a presença, e, numa sequência de movimentos rápidos, com a mão esquerda cobriu-lhe a boca, impedindo-a de emitir qualquer gemido, e enfiou-lhe, na ilharga direita, o canivete, e retirou-o de dentro dela, e enfiou-lho no pescoço. Caíram a mulher e o homem que a esfaqueva, ele por sobre ela.
Joaquim, aterrorizado, alternava a sua atenção entre as duas cenas: a que lhe exibia o homem sem máscara e a que lhe revelava o homem e a mulher, ambos de máscaras, ele a matá-la com um canivete. Com as mãos trêmulas, tirou do bolso na camisa o telefone celular, e, sem pensar duas vezes, discou para a delegacia de polícia; assim que uma policial atendeu-o, disse-lhe, rapidamente, imensamente assustado:

– Mandem, e logo, uma viatura policial para cá, rua George Orwell. Imediatamente! É urgente! Mandem dois policiais, e rápido. Rápido! Há, aqui, na rua, um homem. Ele está sem máscara! Venham logo, antes que ele fuja! Mandem dois policiais! É urgente! Urgente! Urgente! Antes que ele fuja!