Caiu na rede. É peixe.

Para: Valério.

De: Edson.

Assunto: Traição.

Tratante! Você me apunhalou pelas costas. O Ygor contou-me que você abordou a Paula, com insistência suspeita, durante os dias em que estive em Manaus. Ainda não tive oportunidade de conversar com a Paula. A mãe dela, a convalescer de uma grave doença, está na Santa Casa de Misericórdia. Paula a está velando. Estive na casa dela, ontem, à noite. Pensei em falar-lhe a respeito do que contou-me o Ygor, mas contive-me ao ver-lhe os olhos fundos e o rosto, que transparecia exaustão. Mordi a língua. Não quis atormentar a Paula com as suspeitas a respeito da fidelidade dela. Depois, passei na sua casa, Valério. Eu queria pôr tudo em pratos limpos. Quero ouvir de você a história. Quero ouvi-la da sua boca, Valério. Seu pai disse-me que você e a Felícia foram ao cinema. Divertiram-se? A Felícia sabe que você, na minha ausência, abordou a Paula com propostas indecentes? É assim que você age com os amigos, Valério? Apunhala-nos pelas costas? Você, na minha ausência, foi à casa da Paula, e… Se a Paula, ontem, não estivesse tão cansada, tão preocupada, eu a teria interrogado. Eu a jogaria contra a parede, e a espremeria até ela me contar tudo. Valério… Quem diria! Disse-me o Ygor que logo após a minha partida você foi visitar a Paula; depois, assim que dona Marilda adoeceu, você foi consolar a Paula… Que espécie de homem você é? Por que não cantou a Paula na minha frente? Quero conversar com você. Ao contrário de você, não fujo da raia. Não quero que a nossa conversa se resuma a e-mails. Quero falar com você. Vou me encontrar com você. Você terá de me explicar o que fez, durante a minha ausência, com a Paula. O que você foi fazer na casa dela? Você terá de me dizer o que foi fazer lá. Valério, irei à sua casa amanhã cedo. Até amanhã.

Para: Edson.

De: Valério.

Assunto: Boatos.

Edson, você quer saber por que fui à casa da Paula? Fui ajudar a Paula a levar roupas, comida, remédios, revistas e brinquedos para a dona Marilda. Você não me encontrou, domingo, na minha casa, caso tenha ido lá. Você perdeu a viagem. Mas não pense que fugi de você. Não fugi. As suas ameaças não passam de bravatas de um homem que perdeu a lucidez em decorrência do ciúme que o aflige. Você foi deselegante, no e-mail que me enviou. Eu não estava na minha casa, no domingo. Não estou lá, agora. Estou em São Paulo, em um hotel. Participo de um congresso de psicólogos. Quero atualizar os meus conhecimentos. A psicologia é uma arte, uma arte nobre. E eu, que não desejo perder o trem da história, tenho de me manter atualizado.

Vamos à resposta ao seu insultuoso e-mail. Conclui a leitura há dois minutos. Você me ofende, Edson. Você é injusto comigo. Você fez insinuações maldosas sobre o meu caráter. O que mais me surpreende é saber que você dá atenção ao que o Ygor diz. Pelo amor de Deus, Edson! Pense, meu amigo. Use o seu cérebro. O que você tem na cabeça? Você, no e-mail, ofendeu-me. Você está com ciúme. Vou levar isso em consideração. Sei que você gosta da Paula e está um pouco inseguro. Sei que, nos últimos meses, você e ela se desentenderam seriamente. A notícia da discussão de vocês dois, na churrascaria O Gaúcho, espalhou-se por toda a cidade. Que escândalo! Saiba, Edson, que, em nenhum momento, ao contrário do que você pensa, esfaqueei você pelas costas. Eu jamais faria isso. Você é meu amigo, amigo do peito. Você está com ciúme. Chateia-me saber que você dá mais valor ao que o Ygor diz para você do que à nossa amizade. Chateia-me saber que você desconfia de mim. Eu preferiria não saber disso, mas sei. Ainda bem que você não disse para a Paula tudo o que pensou em dizer-lhe. Se dissesse, ela jamais perdoaria você. Você sabe disso. Converse com o Ygor. Exija-lhe explicações. Diga-lhe que desminto tudo o que ele disse para você. Edson, você esqueceu o que o Ygor disse da Carla? O pai dela a expulsou de casa após o Ygor dizer-lhe que a Carla traficava drogas, prostituía-se, e tinha um caso com o chefe dela. O Ygor detesta a humanidade, e não se entende com quem não se curva aos desejos dele. Ele havia pedido a Carla em namoro. Como ela o rejeitou, ele, maligno como todos os psicopatas, arquitetou a destruição dela. Coitado do seu Pedro. Como ele sofreu ao saber que havia sido tão injusto com a Carla. Arrependido, ele pediu-lhe desculpas. A Carla a aceitou, e o perdoou. E o Ygor… O seu Pedro não o moeu de pancadas porque a Carla pediu-lhe que esquecesse a história. O seu Pedro prometeu-lhe que a esqueceria. Mas… Um passarinho contou-me que ele foi ao confessionário… confessar um pecado que ainda não cometeu. Esta história não nos diz respeito. Vamos voltar à nossa história. Edson, você sabe tanto quanto eu que o Ygor é vingativo e rancoroso. Procure saber se ele tem algo contra você ou contra eu. Certamente, tem, e contra nós dois. O Ygor não tem amigos; tem cúmplices. Tenha cuidado, Edson. O Ygor é traiçoeiro. Ele quer nos jogar um contra o outro. Você está caindo, como um patinho, no jogo dele. Refresque a cabeça, Edson. Esteja certo de uma coisa: O Ygor é um mentiroso descarado.

Saudações.

Dê um abraço, um beijo e um pedaço de queijo pra Paula.

Para: Edson.

De: Valério.

Assunto: Está na hora de você tirar a máscara!!!

Você se faz de santo e de vítima. Só se for de santo do pau oco e vítima das suas armações, como o Cebolinha o é dos planos infalíveis dele. Quer dizer, então, que você se faz de vítima, ofende-me, insinua que tenho um caso com a Paula e que estou apunhalando você pelas costas, para desviar a minha atenção das suas verdadeiras intenções? Você sabe do que estou falando. O Carlos contou-me.

Regressei de São Paulo. O congresso me foi de grande valor. Aprendi muitas coisas interessantes, surpreendentes, sobre a condição humana.

Aqui, em casa, eu, feliz, muito feliz…

Contou-me o Carlos que você, além de romper o namoro com a Paula, foi, para se vingar de mim, até a Felícia, insinuou-se para ela, e disse-lhe que tenho um caso com a Paula. A Felícia, contou-me o Carlos, induzida por você, com intenção de se vingar de mim, correspondeu ao seu assédio, e traiu-me. Eu disse para você não dar ouvidos ao Ygor. E o que você fez? Você preferiu acreditar nele do que em mim e na Paula. Idiota! O que você conseguiu com isso? Você perdeu a Paula. Eu soube, contou-me o Carlos, que ela não quer mais saber de você. Imbecil! Ela tem todas as razões do mundo para não querer mais saber de você. E você perdeu a minha amizade. Depois que o Carlos retirou-se da minha casa, fui à casa da Felícia. Eu e a Felícia discutimos. E rompemos o namoro. Você acabou com o meu namoro com a Felícia, um namoro de um ano e meio. Eu e ela pensávamos em noivar e nos casar dentro de um ano. Obrigado, amigão! Obrigado! Você acabou com a minha felicidade! Obrigado! Você sabe o que farei daqui a pouco? Irei ao bar do Chicão, e encherei a cara de pinga, cachaça, caipirinha e vodka. Beberei toda bebida que eu encontrar no bar. Afogarei as minhas mágoas. Traíram-me a minha namorada e o meu amigo, o meu melhor amigo, aliás, meu ex-melhor amigo. Que vida! Esqueça que existo, imbecil!

Para: Valério.

De: Edson.

Assunto: Inocência.

Eu, um tolo, briguei com a Paula. Sou um imbecil, reconheço. Eu devia ter dado ouvidos aos seus conselhos, Valério. Falei para a Paula da história que o Ygor contou-me. A Paula ficou fula da vida. E com razão. Ela me disse que não quer mais olhar para mim. Ainda não me encontrei com o Ygor. Assim que eu o encontrar, ele terá de me dar explicações. Por que acreditei nele!? Por quê? A Paula, coitada, não parece a Paula. A dona Marilda piorou. Coitada! Falei um punhado de asneiras para a Paula. Se eu pudesse voltar no tempo, eu não diria o que eu disse. Vivi num inferno, nos últimos dias. Espero que a Paula me perdoe. Ela ficou muito chateada. Esse problema é meu. Agora, cá entre nós, Valério, você é um idiota! Um grandessíssimo idiota! Você pensa que é o tal, mas não passa de um idiota com PhD em Harvard! Você pensa que, por ter estudado psicologia e conhecer as mais recentes teorias de laboratório – que só dão certo em ratos – dos seguidores de Freud, Jung e outros analistas de Bagé, entende de pessoas. Você, no último e-mail que me enviou, chamou-me de imbecil. Saiba que o imbecil é você! Também sou imbecil, é verdade, mas você é mais imbecil do que eu porque é mais esclarecido e se considera mais esperto do que eu. E é diplomado. E ostenta, orgulhoso, o seu respeitável título de psicólogo. O Ygor me fez de bobo? Sim. E o Carlos fez você de bobo! Ele disse para você que eu e a Felícia… Não vejo a Felícia há um mês, ou dois meses. Não sei por onde ela anda. O Carlos disse pra você que eu e ela… Que absurdo! A Felícia é para mim a irmã mais velha que não tenho. Você acreditou no que o Carlos disse pra você!? Você é otário! Para o seu conhecimento: Eu e a Felícia não traímos você. Repito: Eu e a Felícia não traímos você. Você quer que eu repita? Repito: Eu e a Felícia não traímos você. Não vejo a Felícia há mais de um mês. Repito: Não vejo a Felícia há mais de um mês. Você quer que eu repita? Não é necessário. Você já entendeu a mensagem. Você fez uma grande burrada! Imbecil! Você discutiu com a Felícia. Vocês romperam o namoro. Não ponha a culpa em mim, imbecil! A culpa é sua, inteiramente sua. Vá ao bar do Chicão. Vá! Está esperando o quê!? Encha a cara, por você e por mim. Você acreditou no que o Carlos disse pra você! Imbecil! O Carlos é mentiroso e traiçoeiro. Ele é pior do que o Ygor! Você se lembra dos boatos que ele espalhou a respeito do Frederico? Não preciso entrar nos detalhes. Você conhece a história melhor do que eu. O Frederico foi demitido, e está desempregado há oito meses. Valério, vá para o inferno! Esqueça que existo. Vá encher a cara, pinguço imbecil! Otário! Livre-se do seu complexo de… Sei lá de quê! Uma coisa é certa, Valério: nesta história, você fez o papel do idiota esclarecido.

Para: Edson.

De: Valério.

Assunto: Notícia surpreendente.

Vi, ontem, na Praça Joaquim Nabuco, a Paula e o Ygor. Beijavam-se apaixonadamente.

Para: Valério.

De: Edson.

Assunto: Sente-se. Depois, leia este e-mail.

Vi, assim que saí do banco, dois pombinhos apaixonados, agarradinhos, na loja Pés Livres: a Felícia e o Carlos.

Para: Carlos.

De: Ygor.

Assunto: Operação Otelo.

Missão Cumprida. Sucesso Absoluto.

Para: Ygor.

De: Carlos.

Assunto: Operação Otelo.

Estou preparado para o que der e vier. Qual será a próxima missão?

 

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O pedido de desculpas

– Tu podes ouvir-me, Ivan? Quero conversar contigo. Estás ocupado? Ivan, se tu soubesses… Eu… Como eu poderia saber, Ivan, que era mentirosa a história que me contaram e contaram para meu pai, para minha mãe e para meu irmão? Ivan, por favor, ouça-me… Por favor, Ivan… Se tu soubesses… Estou tão arrependida… Julguei-te, sei… Eu não… Meu pai, ao saber da verdade… Ivan, nunca o vi tão desanimado, tão desorientado, tão… angustiado, desiludido… E minha mãe? Ela emudeceu ao saber… Ivan, minha mãe jamais imaginaria… Ao saber, ela, sentada, lamentou… Mãos à cabeça, a cobrir o rosto, a pensar, arrependida… E meu irmão não disse uma palavra. A expressão dele… Ele sentiu-se mal, muito mal, afinal ele te acertou um soco, e quebrou-te o nariz. Ivan, namoramos durante dois anos. Noivamos… Íamos nos casar. Tivemos altos e baixos… Desentendemo-nos, e não raras vezes, e por ninharias, tolices, enciumados, ou não… por uma migalha, uma bagatela, uma bobagem qualquer, um boato que ouvimos aqui, outro que ouvimos ali, outro que ouvimos acolá, por implicarmos um com o outro, sem razão, incomodados com qualquer coisa… E nos divertimos tanto! Tanto! Quantos momentos felizes… As festas… As aventuras, nas montanhas… nas praias… Lembra-te da tua vitória na corrida, em São José dos Campos? E da notícia da minha classificação no vestibular da universidade? E da nossa viagem de balão, lembra-te? E da nossa romaria até a Basílica de Aparecida? Exaustiva. E percorremos mais de cem quilômetros de mãos dadas… E quantos outros momentos posso evocar? São tantos… Na alegria e na tristeza… Na saúde e na doença… Lembra-te das nossas conversas? O que dizíamos um para o outro… Palavras que partiam da alma. Foram os dois melhores anos da minha vida. Sei que soa piegas…. Parecem palavras de mulheres apaixonadas dos romances açucarados e das novelas. Digo-te a verdade, Ivan. Tu foste o meu primeiro namorado, e o único. Há dois meses brigamos, e rompemos… Ivan, pensei em ti o em todos esses dias… As histórias que me contaram, e contaram ao meu pai, à minha mãe, ao meu irmão… Histórias… cabeludas. E mostraram-nos fotos. Como poderíamos saber que eram montagens as fotos!? Eu poderia ter confiado em ti… Sei que errei em não confiar em ti. Meu pai não confiou em ti. Minha mãe não confiou em ti. Meu irmão não confiou em ti. Era tanta a minha raiva quando vi as fotos! Tu não imaginas… Ferveu-me o sangue. Subi pelas paredes, de raiva. Como eu poderia saber que eram fotos manipuladas por computador que a Lúcia… Lúcia… Aquela sirigaita… Como eu poderia saber que ela chegaria a tal ponto para te conquistar? Nunca imaginei que alguém pudesse ir tão baixo, descer tanto. Sei que, depois que tu e eu brigamos; que meu pai e minha mãe te expulsaram de casa, a Lúcia te abordou e tu rejeitaste-a. Eu sei. Contaram-me. Depois, dias depois, soubemos eu, meu pai, minha mãe, meu irmão, da verdadeira história. Ivan, por favor, desculpe-me, e desculpe meu pai, e minha mãe, e meu irmão… Desculpe-nos, Ivan. Podemos reatar o namoro… Nosso noivado… Gosto muito de ti… Se tu soubesses como estou arrependida… Ivan, amo-te. Naquela hora… As fotos… Eram quantas as fotos? Trinta? Quarenta… Não sei… Tu estás com raiva de mim… Entendo… No teu lugar, eu também ficaria com raiva de mim, com muita raiva… Sabes, Ivan, quando vi aquelas fotos, que te mostravam aos beijos com aquela mulher… aquela sirigaita… aquela megera… aquela vadia… O que me aconteceu… Se tu puderes imaginar o que senti. Não sei dizer o que senti… Um sentimento que eu nunca havia sentido. Não sei explicar… Joguei meu pai, minha mãe e meu irmão contra ti, Ivan… Eu não pensava direito… Eu não sei no que eu pensava. Lembro-me como se tivesse acontecido ontem… Eu chorava… Eu… Eu… Ivan, eu estava fora de mim. Mostrei as fotos para meu pai, para minha mãe e para meu irmão… Desejei-te a morte, Ivan… A raiva era tanta, tanta, que pensei em coisas que eu jamais imaginei que eu fosse capaz de pensar… Depois, senti-me tão mal… Como pude pensar o que pensei!? Todos, irritados, nervosos… Um mês antes do casamento, e a notícia de que tu traías-me… Nervosos, eu, meu pai, minha mãe, meu irmão… Irritados… Assim que tu chegaste em casa… Explodimos, e fomos para cima de ti. Desculpai-me, Ivan. Desculpai-nos. Estamos arrependidos. Ivan, não te esqueci… Como eu te esqueceria, Ivan? Tu me fizeste, durante dois anos, a mulher mais feliz do mundo. Os finais de semanas, na praia, os passeios ao zoológico, o nosso passeio ao Pantanal… Nunca diverti-me tanto… Tu me fizeste feliz, Ivan. Dois anos maravilhosos… Lembras-te do dia em que me pediste em namoro? Lembra-te? Eu jamais me esqueceria daquele dia… Ivan, não quero tomar-te o teu tempo. Sei que estás ocupado… Sei que estás com raiva de mim… e com razão… e não apenas de mim, mas, também, de meu pai, de minha mãe e de meu irmão… Vim pedir-te perdão, Ivan… Amei-te… Amo-te… Por favor, Ivan, não me olhes… Sei que estás com raiva de mim. Sei que não esqueceste dos insultos que te cuspi na cara… Não me olhes assim, Ivan, por favor… Se tu soubeste como estou arrependida… Se tu soubeste que penso em ti, todas as noites… Se tu soubeste, Ivan, como eu gostaria de voltar no tempo, pegar aquelas fotos, e rasgá-las, e queimá-las… Se tu soubeste, Ivan, como te desejo… Ivan, se tu soubeste o quanto sofro… Ivan, se…

Ivan, surpreendendo-a, atraiu-a para si, estreitou-a em seus braços, envolveu-lhe o corpo, e beijou-a apaixonadamente.

As surpresas que o amor reserva – parte 5 de 5

Na sua casa, durante o almoço, Paulo, calado, fitava Gislaine, que estava alheada. O silêncio dela constrangia-o. Gislaine não se interessava pelo que ele lhe dizia; estava ocupada com os seus pensamentos; curvada para a frente, olhava para o prato em cuja comida mal tocara. Por duas vezes, lentamente, sem vontade, enfiou o garfo no prato, e puxou, para a boca, um pouco de arroz e de feijão. Paulo falava-lhe, e a estudava. O rosto dela, inexpressivo, intrigava-o. Também intrigava-o o ar dela, pensativo, de uma pessoa ocupada com pensamentos difusos.

Enfim, Paulo perguntou para Gislaine:

– Vamos marcar a data do nosso casamento?

Gislaine não o ouviu. Paulo chamou-a. Ela não tomou conhecimento do que ele lhe disse.

Paulo degustou da comida. Gislaine raras vezes se dignou dirigir-lhe a palavra. Paulo perguntou-lhe o que a incomodava. Ela lhe disse que estava cansada e que certas coisas no emprego a desgostavam. E ele disse-lhe que ela era muito bem remunerada, e pediu-lhe que contasse o que se sucedia na empresa. Gislaine nada lhe disse.

A atitude de Gislaine atormentava Paulo, que, por duas vezes, iniciou a narração do que sucedera naquele fatídico dia em que soube que ela era uma das prostitutas da Prazer Virtual. Falou da moça de bicicleta, dos entes noctívagos que perambulavam pelas ruas; não lhe deu, no entanto, a localização das ruas; e encerrou o relato ao vê-la calada – não sabia se lhe contava o que era de seu conhecimento, e pedia-lhe explicações. Coçou a cabeça, sem saber o que lhe dizer. Queria cobrar-lhe explicações, queria que ela lhe dissesse a verdade, mas calou-se a respeito. Diante do silêncio dela, imergiu nos próprios pensamentos, e assim se conservou até o fim do almoço.

Nas semanas subseqüentes, Gislaine, não raras vezes, dizia que recebeu aumento de salário, pois, vendedora persuasiva, vendia produtos caríssimos para clientes americanos, alemães, árabes, japoneses, brasileiros e indianos, todos eles milionários. Paulo a ouvia, atentamente, e mordia a língua para não lhe revelar que sabia da verdadeira ‘profissão’ dela e dos ‘serviços’ que ela prestava aos clientes. Certa vez, Paulo e Gislaine passeavam pelo jardim da Praça Oswaldo Cruz. Ao ouvi-la falar do seu desempenho no trabalho e dos clientes que gostavam dela, Paulo sentiu os pêlos crisparem-se-lhe e os músculos contraírem-se-lhe; segurava a mão esquerda de Gislaine; apertou-lha, involuntariamente. Gislaine puxou a mão, não se livrando da de Paulo, e perguntou a Paulo se ele não conhecia modo mais gentil de expressar alegria. Paulo sorriu, e felicitou-a. Gislaine deu-lhe um beijo no rosto. Nos finais de semanas subseqüentes, passearam, pelos parques, e foram ao zoológico, e dançaram nos festivais de músicas populares, e assistiram, no teatro, à representações de peças de Arthur Azevedo, Martins Pena e Shakespeare. Divertiram-se com a Comédia dos Erros; apreciaram-na tanto que, uma semana depois, no penúltimo dia de exibição da peça, assistiram-na segunda vez. Visitaram exposições de esculturas e pinturas modernas – ambos saíam do museu de arte com a sensação de que foram ludibriados, convictos de que tais obras corroíam-lhe a sensibilidade estética e delas nenhuma lembrança preservariam vinte e quatro horas depois, em decorrência da inexistência de quaisquer sentimentos pelas obras inspirados; as obras ‘de arte’, diziam, não os faziam evocar episódios da própria vida, ou capítulos da história da civilização; tais obras ‘de arte’ não estavam associadas a nenhum sentimento; elas os arremessaram no limbo existencial; não lhes provocaram transpiração de sentimentos além dos relacionados aos objetos, não lhes inspiravam sentimentos que os fizessem transcender o corpo; ao contrário, tolheram-lhes o sentimento de maravilhamento. Não pretendiam visitar, mesmo que lhe pagassem, outra exposição de arte moderna – não se disporiam a ver objetos e pinturas destituídas de beleza estética e moral. Tais pinturas e tais esculturas reproduzem eventos históricos? Não. Reproduzem personalidades religiosas, artísticas, literárias, políticas? Não. Reproduzem entidades bíblicas, ou homéricas, ou babilônicas, ou presentes em outro livro sagrado? Não. Representam cenas de batalhas? Não. Reproduzem personagens literários? Não. Cenas famosas dos clássicos da literatura? Não. O que tais esculturas e pinturas reproduzem, então? Nem o vazio reproduzem. Nem o nada reproduzem. Tais pinturas e tais esculturas provocaram-lhe indefinível sensação de desconforto.

Nos passeios, Paulo estreitava Gislaine em amplexos calorosos. Beijava-a, apaixonadamente, no seu vão esforço de esquecer o que dela sabia. Infrutíferos, os artifícios que usou para suprimir da memória as informações concernentes à atividade de Gislaine. Não pretendia submeter-se à lobotomia, tampouco à lavagem cerebral. Teria de viver com o que sabia.

Paulo falou, em outra ocasião, de casamento para Gislaine, com o coração descompassado, perguntando-se porque não lhe contava o que sabia a respeito dela e não dava um fim ao namoro. Gislaine tergiversou, disse que desejava conhecê-lo melhor, apresentou justificativas estapafúrdias para não se casarem, disse-lhe que ainda não chegou o momento para assumirem tal compromisso. Paulo insistiu. Para persuadi-la, disse-lhe que pensava em ter um filho e uma filha, e concebeu, em imaginação, com relatos entusiasmados, para despertar-lhe o instinto maternal, cenas protagonizadas pelas duas crianças imaginárias. Riram. Sorriram. Entreolharam-se. Paulo engasgou, encabulado, após certo tempo. Ao mesmo tempo que descreveu para Gislaine o futuro imaginado, repudiou as próprias palavras e recriminou-se e teve ganas de se golpear com socos, até moer-se. Acreditava, ou queria acreditar, que Gislaine não o traía, que ela apenas executava as tarefas de uma “profissional”, e que ela pretendia amealhar fortuna considerável, e tão logo a conseguisse, abandonaria a prostituição, e se casaria com ele. Incomodava-o, no entanto, a postura dela, distante, conquanto ela se esforçasse para dele ocultá-la.

*

Nas semanas seguintes, Paulo atentou para a conduta arredia de Renato e Gustavo. Evasivos, eles, pareceu-lhe, evitavam-no. Intrigava-o a conduta deles. Nas conversas, eles, ou eram lacônicos, ou tratavam de assuntos referentes ao noticiário televisivo, ao futebol, aos vídeos que assistiram na internet, e, sempre que Paulo referia-se a Gislaine, mudavam de assunto, de um modo tão brusco, que lhe punham uma pulga atrás da orelha.

*

Num dos quartos da Prazer Virtual, abraçados, Gislaine e o seu cliente mascarado conversavam, deitados, na cama. Ela, nua; ele, com a máscara do Batman. Gislaine, nesta noite, reservava-lhe uma surpresa, que o deixaria embasbacado:

– Tenho uma coisa para te dizer, meu herói: Estou apaixonada por ti – as impressões que tal confissão provocou no homem mascarado não passaram despercebidas de Gislaine, que notou a mudança, imperceptível, dos batimentos cardíacos dele, e a dilatação da pupila, e a respiração em suspenso, que ele logo liberou, num movimento lento, que, notou Gislaine, ele se esforçou por controlar.

Assim que ele se recompôs, disse-lhe Gislaine:

– Tu pensas que sou louca. Eu, uma prostituta, apaixonada por um homem que não conheço.

– Não – disse o mascarado. – Não pensei isso. É que… É tão inusitado…

– É loucura…

– Não. Não te envergonhes dos teus sentimentos… Tu me surpreendeste, Diana – disse, gaguejando, quase sem voz. Diante do silêncio de Gislaine, prosseguiu: – Tu és belíssima. Teu corpo, maravilhoso… Sou casado… O sacramento não me impediu de vir aqui, várias vezes…

– Contratar-me…

– Espere, Diana. Não penses mal de mim, tampouco de ti… Tu és uma pessoa maravilhosa.

– Sou uma prostituta.

– Diana…

– Sei o que sou. Sei o que faço. Sei que… – lágrimas encheram-lhe os olhos. – Sei que tu me usas… O que sou para ti? Uma prostituta… – os lábios se lhe tremeram; pousou a mão esquerda na máscara dele, e puxou-a, tímida, hesitante, para removê-la.

– Não! – disse o mascarado. – Não, Diana. Não me tires a máscara.

– Por que não, Bruce? – perguntou Gislaine, aos soluços. – Por que não queres que eu te veja?

– Não quero que me reconheçam…

– Eu te conheço?

– Tu me chamaste de Bruce. Banner ou Wayne?

– Lee – disse Gislaine, e sorriu. Lágrimas escorreram-lhe dos olhos. O mascarado removeu-lhas, carinhosamente, e atraiu a cabeça de Gislaine para si, e Gislaine deitou-a sobre o tórax.

Conservaram-se em silêncio durante alguns minutos. Paulo o rompeu com um comentário:

– Esta máscara te causou forte impacto. De pavor, estou certo.

– De paixão, Bruce. De paixão – disse Gislaine, em tom baixo, como se estivesse encabulada – Estou apaixonada por ti, Bruce…

– Conversarei a respeito com a Mulher-Gato… – e o mascarado sorriu.

A partir deste momento, Gislaine e o mascarado não souberam o que falar um para o outro. Gislaine temia fazer-lhe exigências, as quais, assustando-o, o afugentassem. O mascarado temia feri-la com comentários depreciativos, mesmo que não alimentasse tal propósito, pois ela poderia emprestar às palavras dele significados os quais ele não pensou. Num acordo tácito, ficaram em silêncio. O mascarado despediu-se de Gislaine, às cinco da manhã. Na despedida, os olhares eram repositórios de pensamentos e sentimentos ocultos que leram um nos olhos do outro.

*

Na casa de Paulo, domingo, Gislaine e Paulo, às onze horas da noite, jantaram à luz de velas. Ao fim do jantar, à mesa, Paulo enfiou a mão direita no bolso da camisa, fitou Gislaine nos olhos, e perguntou-lhe, num tom suave:

– Gislaine, queres casar comigo? – pegou-lhe da mão, para pôr-lhe no dedo a aliança. Gislaine recolheu o braço, abaixou a cabeça, ergueu-a logo em seguida, passeou a mão pelo nariz, olhou para o teto, e soltou um suspiro. Paulo recuou, recostou-se no encosto da cadeira, e fitou Gislaine, que lhe disse:

– Paulo – e desviou o olhar, tão logo seus olhos encontraram-se com os dele, e fitou o vazio à sua direita, e suspirou.

– A tua voz e o teu olhar, Gislaine… Desconfio que tu não tens uma boa notícia para me dar.

– Não é uma boa notícia, Paulo – disse Gislaine, evitando o olhar de Paulo. – Não é uma boa notícia… Paulo… Conheci um homem…

– O quê? Gislaine!

– Deixe-me explicar, Paulo. Deixe-me explicar… Por favor, Paulo…

– Gislaine! Namoramos há dois anos. Agora, que te peço… que te peço em casamento…

– Paulo… Por favor… Escute-me…

– Não me diga que… Gislaine…

– Paulo, escute-me… Ouça-me… Eu queria te falar… Não te amo, Paulo…

– Não… Não me ama…

– Paulo, escute-me… Ouça-me… Ouça-me… Eu te amava… Conheci… Conheci outro homem… Estou apaixonada por ele…

– Gislaine, por favor… Nada mais me digas…

– Paulo, escute-me… Paulo… Não quero que fiques com raiva de mim… Não olhes pra mim… Por favor, não olhes…

– Gislaine… Gislaine… Se não queres… Não sinto raiva de ti… Não posso te impedir de viver a tua vida… Vá embora…

– Paulo…

– Gislaine, por favor… Sou eu que… Por favor… Dois anos maravilhosos, Gislaine… Preciso descansar…

– Paulo…

– Por favor, Gislaine…

– Não fiques com raiva de mim…

– Não estou… Tenho a minha vida; tu tens a tua…

– Paulo… Não fiques bravo comigo…

– Pensei que… Tudo bem, Gislaine… Por favor, deixe-me sozinho… Por favor… Tchau, Gislaine…

– Tchau, Paulo… Perdoa-me…

– Tchau, Gislaine…

*

Cabisbaixo, lágrimas se lhe escorrendo dos olhos, com as mãos no bolso da blusa, Paulo andava pela calçada da rua Emílio Ribas. Gritaram-lhe o nome. Eram Gustavo, Renato, e Roberto, este um amigo, com quem Paulo estudou no colegial e havia três anos não o via. Saudaram-se. Roberto pediu-lhe notícias dos familiares; Paulo pediu-lhe dos dele. Entraram numa pizzaria. Degustaram de uma pizza saborosa, e beberam, Gustavo, refrigerante de limão, Roberto, de laranja, Paulo e Renato, de guaraná. Não era meia-noite quando retiraram-se da pizzaria. Roberto foi-se embora, no seu carro. Renato ofereceu carona para Paulo e Gustavo. Eles a aceitaram.

– Paulo, tu estiveste – comentou Renato – cabisbaixo, calado, o tempo todo. O que aconteceu? – perguntou, diante da casa de Paulo, assim que se retiraram do carro. – Não quero ser inconveniente…

Paulo disse, após coçar a cabeça e o nariz:

– Eu e a Gislaine desmanchamos o namoro.

E reinou silêncio opressivo. Entreolharam-se Renato e Gustavo. Paulo desviou o olhar e disse-lhes que entraria na casa. Renato e Gustavo desejaram-lhe uma boa noite, e foram-se embora, cada qual ocupado com os seus pensamentos.

*

Três horas da madrugada. Na cama, num dos quartos da Prazer Virtual, deitados, Gislaine e o mascarado. Gislaine cortou o silêncio:

– Bruce Wayne – sorriu, tímida. – Rompi o namoro com o Paulo… – beijou-o na boca. Pôs-se a remover-lhe a máscara; o mascarado não a impediu de removê-la. – Estou loucamente apaixonada por ti, meu herói misterioso. Tu és adorável, Bruce Wayne – e removeu-lhe, com um puxão, a máscara.

– Paulo! Tu!

As surpresas que o amor reserva – parte 4 de 5

– Diana, a cada dia que passa, tu conquistas novos admiradores – disse-lhe Ronaldo, proprietário da Prazer Virtual, homem de cabelos grisalhos, na altura dos seus sessenta anos, esbelto e charmoso. A sua pele não indicava a sua idade. – Tu és a rainha da casa. És a imperatriz. Um príncipe já viveu uma noite contigo…

– Um príncipe que não era encantado – respondeu Gislaine. – Um príncipe desencantado. Ele é feio, e não cheira bem. Ele é um sapo, Ronaldo.

– É um sapo, mas não deixa de ser um príncipe. O porte dele, imperial. Não… Principesco.

– Não se parece com os príncipes dos filmes.

– Quem tu querias? Hollywood, quando quer enaltecer a realeza, contrata um galã para representar o príncipe. O galã nem sempre é bonitão como diz a fama… Isso não vem ao caso. São galãs, para todos os efeitos. E põem-se efeitos… especiais. Não podemos nos esquecer, Diana, que o príncipe, que é um sapo, desembolsou uma fortuna por ti. Em ouro. Convertido em moeda sonante… um milhão de reais. Nenhuma outra das minhas princesas ganhou tanto. Nem a Barbie; nem a Mata-Hari.

– Ronaldo, ou eu me engano… Se te conheço bem, tu queres falar-me de outra coisa…

– Sim, Diana, sim. É que… É tão engraçado…

– Conte-me a piada.

– Não é uma piada. Neste mundo há tanta gente estranha, que me pergunto se os humanos padecemos de insanidade crônica.

– Estou esperando pela notícia.

– Notícia que não está no gibi. Ou está? É surreal, Diana. Já vi coisas mais estranhas; engraçada, não.

– Estou esperando…

– Imagines… Sabes da novidade? Um ricaço esteve aqui, esta noite, e consultou os nossos arquivos. Te viste, e se apaixonou por ti. Não foi o primeiro; e não será o último a sucumbir à tua beleza. Ele te quer. Tu realizarás a fantasia dele.

– Ele não é sádico, nem masoquista, é?

– Não. Ele é… Como direi? Excêntrico.

– Excêntrico!?

– Não te preocupes. Ele joga no time dos mocinhos. Ele nos pediu discrição. É casado, tem dois filhos, ama a esposa, segundo ele… Ele não quer se expor. Se a aventura dele alcançar os ouvidos da esposa, ela entrará com o processo de divórcio e reduzir-lhe-á o patrimônio à metade. Honorários advocatícios… Tu sabes… Aquela papelada. Resumindo, para não me estender… Não faz sentido o que eu disse. O nosso homem, Diana, teu admirador, casado, com a cumplicidade do motorista, que não abrirá o bico, nem sob tortura, pois não quer perder a boquinha, veio à nossa casa de bons costumes, apaixonou-se por ti, e agendou uma noite contigo. Esta noite. Ele te surpreenderá.

– Quanto mistério. Sinto-me a protagonista de um filme de suspense.

– O nosso homem…

– Aceitas um conselho, Ronaldo: Pare de dizer ‘o nosso homem’. Dá a entender que…

– Tu sabes em que time jogo. O nosso homem está no teu quarto, esperando por ti. Ele é o paladino da justiça, o vingador da noite, o defensor dos fracos e dos oprimidos, aguerrido noctívago, que saltou das páginas dos gibis para passar horas de prazer contigo: Ele é um super-herói.

– O quê? – perguntou Gislaine, gargalhando. – Que brincadeira…

– Não é brincadeira, não. O nosso super-herói está, no quarto, à tua espera, Lois Lane.

– E quem é o meu super-herói? Espere. Se eu sou a Lois Lane, ele é o único sobrevivente de Krypton.

– Ele não é o Superman. Ele é o Batman, o homem-morcego, o cavaleiro das trevas, o cavalheiro das trevas, o playboy perdulário, o filantropo…

– Batman! – Gislaine gargalhou. – É uma piada.

– Ele me disse que o super-herói predileto dele é o Superman, mas, como o filho de Jor-El não usa máscara, ele assumiu a persona do Batman, o temido cavaleiro das trevas, super-herói hematófago.

– Mas… Ronaldo, a máscara do Batman não cobre os lábios e o queixo.

– Tu és perspicaz. Não sei que modelo de máscara ele vai usar. Talvez seja uma daquelas máscaras que cobrem todo o corpo, dos pés à cabeça.

– Tu lhe perguntaste por que ele não se fantasiou de Homem-Aranha, ou de outro super-herói.

– Perguntei-lhe, sim, Diana. Tu aprecias essas… esses detalhes, essas informações… Falei-lhe do Homem-Aranha… Spiderman, dizem os jovens… e do Fantasma. Mas o nosso homem prefere o Batman, que é misterioso. E ele não dispensou nem a capa, nem o cinto de utilidades. Imagines o que há no cinto de utilidades… Diana, o nosso super-herói desembolsou uma nota preta… Cinquenta mil reais por duas horas. Duas horas é o tempo que tu tens para sugar-lhe as energias vinte vezes. Agrade-o, e ele retornará, com os bolsos cheios de dinheiro. Ah! Esquecia-me. Vê essa caixa… Pegue-a.

– O que tem aqui? – perguntou Gislaine, excitada pela curiosidade.

– A tua fantasia.

– A minha fantasia!?

– O nosso super-herói nos fez uma exigência: Quer que tu uses a fantasia que está nessa caixa: a da Mulher-Maravilha.

– Ufa! Eu estava preocupada… Pensei que fosse uma fantasia do Robin – comentou Gislaine. Ela e Ronaldo gargalharam.

– E ele quer que tu lhe faças um strip-tease, e o enlace com o cordão… Como ele me disse? Cordão da sinceridade. Da verdade. Não sei. E comece o strip-tease pelas botas. Ah! Não tires a máscara do teu super-herói. O nosso homem misterioso não quer que tu lha removas.

Gislaine meneou a cabeça, e sorriu. Ela e Ronaldo gargalharam.

– Agrade-o. Ele disse que virá, se tu agradá-lo, em outros finais de semana, e pagará cinquenta mil reais por hora.

– Na cama, comando a festa – disse Gislaine, que pegou a caixa com a fantasia da Mulher-Maravilha, deu meia-volta e foi preparar-se para a diversão com o seu super-herói.

Durante duas horas, Mulher-Maravilha e Batman digladiaram-se até exaurirem-se as energias, e sucumbirem, exaustos. Batman, um reles humano, não foi páreo para a deusa grega, que lhe sugou toda a energia. O super-herói prometeu visitá-la em outro final de semana; elogiou-lhe a beleza, despediu-se dela, e foi-se embora, renovando os elogios e a promessa de outras aventuras. Gislaine, sob o chuveiro, banhou-se; e enquanto preparava-se para receber outro cliente, perguntava-se quem era o homem sob a máscara.

*

Paulo evitou Gislaine o quanto pôde. Inventou compromissos para os raros minutos durante os quais as horas de folga deles coincidiam, à manhã e à tarde. Falavam-se apenas ao telefone. Paulo não sabia o que lhe diria se com ela se encontrasse. Amava-a; mas a perdoaria? Nos dias seguintes, apático, cabisbaixo, executou, mecanicamente, o seu trabalho.

Além de se ocupar de pensamentos relacionados a Gislaine, atormentou-se com outros pensamentos: diziam respeito ao comportamento de Gustavo e Renato. Não ignorava os olhares cobiçosos deles desde o dia que lhes apresentou Gislaine, que, formosa, morena de pele acetinada, pródiga de atrativos, atraiu-lhes a atenção; agora, ambos estão descompromissados. Renato divorciou-se de Juliana; Gustavo rompeu o namoro com Camila. Ambos sabem que Gislaine é uma das ‘meninas’ da Prazer Virtual. Gustavo, após o rompimento do namoro com Camila, mergulhou, de cabeça, na promiscuidade e no desregramento, e contratou serviços de prostitutas. Agora, sabedor da profissão de Gislaine, ele foi até a Prazer Virtual? E Renato, divorciado, certo de que poderia contratar os serviços de Gislaine, foi à Prazer Virtual? Ambos sabiam que Gislaine jamais falaria a respeito. Paulo remoeu tais pensamentos. Renato e Gustavo o traíram, ou o trairiam? Renato, ciente de que Paulo sofria, foi, ou iria, à Prazer Virtual? Renato era extrovertido, nunca lhe faltara com o respeito. E Gustavo, que rompeu o namoro com Camila? Ele vivia na promiscuidade, no desregramento, numa vida de dissipação. Atraiçoaria Paulo? Renato e Gustavo talvez sopesassem os seus desejos e a amizade de Paulo. Satisfariam o prazer, que Gislaine poderia lhes oferecer, ou respeitariam Paulo? Paulo acreditava que Renato e Gustavo viviam tal dilema. Eles, perguntava-se Paulo, faltar-lhe-iam com o respeito, para satisfazerem desejo irrefreável?

O que diria para Gislaine, ao se encontrar com ela? Não poderia evitá-la, todos os dias. Teria de falar com ela, algum dia. A raiva arrasava-o sempre que pensava em Gislaine. Desejava matá-la. Primeiro, iria surrá-la. Meneava a cabeça, sustentava-a com as mãos. Tais pensamentos, recorrentes, devastavam-no.

Paulo não podia evitar Gislaine, indefinidamente. Naquele dia, na empresa, dela recebeu um telefonema:

– Tu já almoçaste? – perguntou-lhe Gislaine.

– Não.

– Ótimo. Estou, aqui, no Garfo de Ouro. Espero por ti.

O coração de Paulo bateu acelerado. Paulo emudeceu.

– Paulo, tu me ouves?

– Sim.

– Espero por ti. Que horas sairás daí?

– Daqui a pouco.

– Queres que eu peça para ti o teu almoço?

– Não. Eu… Eu… Estarei aí daqui a pouco, e pedirei… Não estou com fome…

– Mas terás fome assim que chegares aqui. Espero por ti, querido. Um beijo.

Encerrada a ligação telefônica, Paulo sentiu os pés enraizados no chão, o corpo petrificado e a respiração suspensa. Sabia que não poderia evitar o encontro com Gislaine. Teria de olhá-la nos olhos. O que lhe diria? As pernas bambearam ao se levantar. Sentou-se. Fincou os cotovelos na mesa, curvou-se, e a cabeça pendeu como um bloco sobre as palmas das mãos abertas. Respirou profundamente. Soltou, com força, o ar dos pulmões. Massageou o rosto. Empinou-se. Ao encosto da cadeira, fincou o cotovelo direito no braço da cadeira, inclinou-se para a direita, com a mão sustentou a cabeça, e cerrou as pálpebras.

– Paulo, sente-te bem? – perguntou-lhe Gisele, uma funcionária, que entrou, naquele momento, na sala.

– Sim – disse Paulo ao erguer a cabeça e descerrar as pálpebras. – Sim. Eu pensava com os meus botões.

– Tu estás pálido. O que houve?

– Preocupações. Assuntos familiares.

– A família sempre nos dá preocupações – sentenciou Gisele, que se afastou, pontilhando os passos com o salto alto.

Com as pálpebras cerradas, Paulo encheu de ar os pulmões, e esvaziou-os pelo nariz. Entrelaçou os dedos das mãos, e estendeu os braços para o alto, mantendo a cabeça entre eles, espreguiçou-se e empinou o corpo. Na sequência, fincou os cotovelos na mesa, abaixou a cabeça, passou as mãos pelo rosto, encheu os pulmões de ar com um forte hausto, e expirou. Descerrou as pálpebras. Levantou-se. Empurrou a cadeira para trás. Com fisionomia carregada, andou até o elevador. Desceu ao térreo. Em completo silêncio, andou pelo saguão, atravessou a rua, e, com o coração aos pinotes, entrou no restaurante. Relanceou o olhar. Vislumbrou Gislaine, à mesa, levando à boca um copo de líquido transparente. Coçou o queixo, mordeu o lábio superior, coçou a testa, passeou as mãos pelo rosto, e andou na direção de Gislaine. Seu coração estrondejava. Sua mente, um turbilhão de pensamentos, que o avassalavam. Estava a dois passos de Gislaine quando ela se virou na direção dele. Ela sorriu. Paulo emudeceu. Gislaine trajava um vestido azul claro deslumbrante. O penteado dela sublimava-lhe a beleza dos cabelos; os lábios carnudos estavam realçados com batons escarlates.

– Feliz aniversário, querido.

Aniversário? Paulo esquecera-se do seu aniversário natalício.

Gislaine pousou-lhe no rosto as mãos e beijou-o nos lábios.

– Esqueceste que hoje é o teu aniversário?

O rosto de Paulo respondeu-lhe à pergunta.

– Esqueceste do teu aniversário – disse Gislaine, sorrindo. – Tonto. Senta-te. Almoçaremos… Como não poderemos nos encontrar à noite, fiz esta surpresa para ti. Há dias que quero almoçar contigo, mas tu estavas muito ocupado. Passou-me pela cabeça que tu me evitaste. Tu esqueceste do teu aniversário… Senta-te, Paulo. O que tu esperas? Queres que eu te empurre para a cadeira? Senta-te, tonto.

Paulo sentou-se à mesa. Sorria, confuso. Fitou Gislaine, fascinado. Pensou em lhe falar a respeito do que soubera, mas as palavras engasgaram-se-lhe no esôfago.

O almoço prolongou-se por duas horas. Paulo e Gislaine falaram do trabalho. Gislaine falou-lhe dos clientes indianos que atendera, dos produtos que vendera, da grosseria de alguns clientes, da simpatia de outros, de como era fácil agradar alguns clientes, e difícil agradar outros. As suas palavras assumiam, aos ouvidos de Paulo, um sentido diferente daquele que ela pretendia lhes emprestar. Ela empregou um expediente eficaz: falar dos clientes; todos os clientes são, uns, exigentes, outros, simpáticos, outros, ranzinzas, outros, extrovertidos, outros sugestionáveis. Gislaine não recuou ante nenhuma pergunta que Paulo lhe fez. As respostas saíam-lhe da boca, fáceis demais, pensava Paulo, enquanto a ouvia. Paulo procurava, na conversa, por uma brecha pela qual inserir o relato que, em pensamento, contava e recontava para si, mas não a encontrava, ou a encontrava, e contornava-a, em sua incerteza, incapaz de se decidir se falava para Gislaine a respeito da ‘profissão’ dela, ou se se calava a respeito. Calou-se.

Encerrado o almoço, à porta do restaurante, despediram-se. Gislaine desejou uma ótima tarde de trabalho a Paulo e pediu-lhe que ele lha desejasse uma ótima tarde de sono. Ele a desejou. Beijaram-se, apaixonadamente. No beijo, Paulo identificou um sabor indefinível, indescritível, que jamais havia experimentado.

Gislaine afastou-se, andando por entre a multidão. Muitos homens a fitaram. Paulo cerrou as pálpebras, meneou a cabeça, os braços ladeando o corpo, o tronco caído. Lágrimas se lhe afloraram aos olhos. Os lábios e o queixo se lhe tremeram. Cerrou os punhos. Rilhou os dentes. Franziu a testa. Comprimiu as pálpebras. Descerrou as pálpebras. Atravessou a rua. Foi ao prédio da Global Indústria e Comércio. Subiu até o 7º andar, de elevador, e mergulhou, de cabeça, no trabalho, para afugentar de si os pensamentos incômodos.

*

À frente da casa de Paulo, Gustavo convidou Paulo para um jogo de futebol, a se realizar dali duas semanas, no Campo do Quebra-Canela. Paulo ia recusar o convite; preparava as desculpas, quando Gislaine apareceu em seu campo de visão. Fitou-a. Ela lhe acenou. Gustavo voltou-se para ela. Boquiabriu-se ao vê-la. Seu coração vibrou, descompassado. Mordeu o lábio superior e desviou o olhar para, logo em seguida, olhar para Paulo. Entreolharam-se Paulo e Gustavo.

– Oi, querido – e Gislaine ofereceu seus lábios a Paulo, que os beijou, sob o olhar de Gustavo. Em seguida, ofereceu a face direita a Gustavo, que a beijou. – A respeito do que os meninos conversavam?

– Vim convidar o Paulo para um jogo de futebol, mas ele, parece-me, não aceitará o convite.

– Vá com ele, Paulo – disse-lhe Gislaine.

– O jogo não será hoje – respondeu Gustavo, antecipando-se a Paulo. – Será daqui duas semanas. Tenho de formar o time com uma semana de antecedência. O Carlos, o Denílson, o Wanderley, o Edson, o Rodrigo e o Renato aceitaram o convite.

– Com o Paulo, oito – disse Gislaine, ao enlaçar Paulo pela cintura, e beijá-lo no rosto. – Paulo, tu precisas se distrair – disse-lhe, fitando-o. – Tu trabalhas demais. Estás desanimado, triste – neste momento, Paulo e Gustavo entreolharam-se; voltando-se para Gustavo, Gislaine disse-lhe. – Ele está triste, não está, Gustavo? – e voltou-se para Paulo. – Olha o rostinho dele. Tão tristezinho – enlaçou-o pelo pescoço, e beijou-o nos lábios.

Gislaine disse-lhes que ia beber um copo de café-com-leite e comer algumas bolachinhas, pediu-lhes licença, e entrou na casa. Paulo e Gustavo permaneceram à porta. Paulo pediu-lhe que entrasse. Gustavo aceitou o convite. Estavam na varanda quando ouviram a voz de Renato. Estacaram.

– Caros colegas – saudou-os Renato. – Que dia maravilhoso. Realizei, hoje, um dos meus sonhos da juventude: Comprei uma bicicleta.

– Agora tu és um agente preservacionista, não-poluidor, um ecologista, e não quer poluir a Terra… – comentou Gustavo, sorrindo, mas Renato o interrompeu.

– Que papo furado, Gustavo – disse Renato. – Comprei a bicicleta porque a Juliana é a dona do carro. O carro é dela. Além disso, preciso perder as gordurinhas da barriga; elas são obscenas. Um pouco de malhação não faz mal a ninguém.

– E a Terra? – perguntou-lhe Gustavo. – Pensei que tu tivesses consciência ecológica. Pedalar uma bike e não poluir…

– A produção de bicicletas é uma atividade poluidora – sentenciou Renato. – As fábricas de bicicletas poluem a atmosfera e os rios. Quem foi que disse que as bicicletas são o melhor meio de locomoção? Monte uma bike e vá daqui até Brasília. Não precisa ir tão longe. Vá daqui até São Paulo. Ao chegar lá, a bicicleta estará em pandarecos, e tu, se estiver sobre ela, terás perdido cinquenta quilos e se transformado num esqueleto. O mais provável é que, ao chegar lá, se chegar lá, tu estejas carregando a bicicleta nas costas. E as peças de reposição? A produção delas não é uma atividade poluidora? As borrachas dos pneus, fragmentando-se, não poluem rios e lagos? E os esqueletos de bicicletas jogadas por aí…

– Tu não queres que a Terra viva – comentou Gustavo. – A Terra é a mãe Gaia, generosa e protetora.

– Se não te conhecesse, eu acreditaria que tu acreditas nessas baboseiras – disse Renato. – Gaia generosa e protetora! Asneira das grossas! Diga isso para um coelho que está nas garras de uma águia, ou para um rato que está na goela de uma serpente, ou para um gnu que está sendo trucidado por um leão, ou para um pingüim que foi abocanhado por uma baleia. Gaia protetora! Gaia generosa! Tu não és tão idiota quanto pensas que és.

Enquanto conversavam, entravam na casa Renato deixou a bicicleta – a magrela, nas palavras dele – na garagem, ao lado do carro de Paulo. Na casa, Renato saudou Gislaine, com um beijo no rosto. Quando Gislaine disse-lhe que não o via há dias, disse-lhe:

– Tu não me viste, mas eu te vi, dias atrás – e entraram a falar de eventos dos dias anteriores.

Paulo ficou intrigado com as palavras de Renato; notou que ele tratava Gislaine com desembaraço incomum; com ela Renato sempre agira com reserva; a beleza de Gislaine o intimidava; agora, ele, atrevido, gracejava, e assumia liberdade que, no trato com Gislaine, jamais tinha assumido. Intrigado, estudou-os; não deixou escapar de si nenhum dos movimentos deles, tampouco os de Gustavo, cujo comportamento contrastava com o de Renato. O olhar de Gustavo ia de Renato para Gislaine, de Gislaine para Renato; aos olhos de Paulo, Gustavo não apreciava a intimidade que Renato e Gislaine exibiam.

Beberam do café que Gislaine ofereceu-lhes. Como Paulo estava calado e Gustavo ensimesmado, Renato conduziu a conversa para a direção que quis.

Gislaine perguntou para Paulo se ele queria ir a um restaurante – ele disse-lhe que sim. E convidou Renato e Gustavo, e ambos declinaram do convite. Gislaine renovou-o. Eles, irredutíveis, disseram-lhe que tinham outro compromisso.

Renato e Gustavo despediram-se de Paulo e Gislaine.

A cem metros da casa de Paulo, Gustavo perguntou para Renato:

– O que há entre tu e a Gislaine?

– Entre eu e a Gislaine?

– Tu e ela conversaram, tão animados, tão felizes.

– Não há nada entre eu e ela.

– Tu não viste o Paulo, calado, triste…

– Vi. Eu quis animar, alegrar…

– Quanto mais tu e a Gislaine falavam, mais o Paulo afundava-se.

– Percebi que o Paulo está triste. Admira-me ele não haver dado um chute na Gislaine…

– É isso o que tu queres, não é?

– O que tu queres que eu queira? A Gislaine é uma das ‘meninas’ da Prazer Virtual. Ela mente, descaradamente, para o Paulo, que se definha a olhos vistos. Estou preocupado com ele.

– Queres que ele dispense a Gislaine, para tu a agarrares.

– O quê? Que tolice, Gustavo.

– Tolice, vi o jeito que tu olhaste para ela. Desconfio que tu nem esperaste o Paulo dar fim ao namoro, e foste até a Prazer Virtual…

– O quê! Não completes a frase. Não se julga um amigo com tal leviandade.

– Tu e a Gislaine pareceram-me muito íntimos, e também aos olhos do Paulo.

– Paulo e eu somos amigos. Estou feliz, hoje. Acordei com o pé direito, e quero extravasar a minha felicidade. O Paulo está triste, calado, taciturno. Tu, sorumbático. A única pessoa alegre, além de mim, lá, na casa do Paulo, era a Gislaine. Daí nos entendermos, hoje. Como eu disse, não entendo o que o Paulo pensa a respeito do namoro dele com a Gislaine. Se ele não o deu por encerrado… Teve um bom motivo. Qual motivo? Se ele não falou para a Gislaine, e não falou, estou certo, a respeito do que descobriu, ele está… Não sei o que ele está pensando. Desejo que ele tome a decisão certa.

– Que é mandar a Gislaine ir-se embora, escafeder-se.

– Sim. É a melhor decisão a se tomar; todavia, como eu disse, não sei o que se passa na cabeça do Paulo. Espero que ele não cometa nenhum crime.

– Matar a Gislaine?

– Nesta altura do campeonato…

– Diga-me, Renato…

– Ouça-me, Gustavo. Não sei o que se passa pela tua cabeça. Não preciso recapitular a tua vida nos últimos meses. A tua conduta, tu sabes, e melhor do que eu, é reprovável, e tu, sou sincero, perdeste certos escrúpulos; além disso, hoje, na casa do Paulo, tu te conservaste calado, provoquei-te, para ver se tu abandonavas o teu mutismo, que me dava nos nervos. Tu me olhavas como se me desejasse dilacerar. Incomodou-me a tua atitude. Pareceu-me, até, que tu estavas enciumado, e ainda está. Faço, para ti, a pergunta que tu me fizeste. Tu foste à Prazer Virtual? Ora, Gustavo, nós sabemos que sentimos atração pela Gislaine, mas, dar uma facada no Paulo pelas costas…

Gustavo abaixou a cabeça, desviou o olhar, e despediu-se, com rispidez, de Renato, que, com o olhar, acompanhou-o afastando-se de si e, assim que ele dobrou a esquina, montou na bicicleta, e pedalou até a sua casa.

Nos quatro meses seguintes, em alguns finais de semana, ou em qualquer outro dia da semana, Gislaine, Mulher-Maravilha personificada, acolheu, aos seus braços, o cliente que personificava o Batman. Tal cliente, que exigia Diana, sempre, e recusava as outras ‘meninas’, excitou a curiosidade de Ronaldo e a de Gislaine. Por que ele fazia questão de ficar com ela e recusava as outras ‘meninas’? perguntavam-se. Foram-lhe oferecidas Barbie, Mata-Hari, Marilyn, Brigite, Cleópatra. Ele as recusou. Ele, obcecado pela Diana, poderia vir a causar problemas para a casa e para Gislaine? Investigaram-no, durante alguns dias. Como ele se comportava com lucidez, e agia com urbanidade, e tratava Gislaine com carinho incomum, e foi compreensivo com ela nas duas ocasiões em que ela, exausta, não se desincumbiu, com a desenvoltura habitual, das suas tarefas, sendo que numa delas ela dormiu durante três horas, e ele não falara a respeito com Ronaldo, que tomou conhecimento do caso pela boca de Gislaine, ficaram cismados, mas não preocupados, convenceram-se de que ele não representava ameaças, embora houvesse uma pulga atrás da orelha de Ronaldo.

Certa noite, o cliente mascarado desembolsou cento e cinqüenta mil reais pelos serviços de Gislaine, por cinco horas – da meia-noite às cinco da manhã. Gislaine desdobrou-se com desenvoltura incomum até mesmo para ela. Divertiu-se. Usufruiu de prazer singular, prazer que ela jamais experimentara. A partir desta noite os seus sentimentos a atormentaram. Ela se via neles imersa, em todos os momentos. Gislaine ofereceu ao seu cliente mascarado três horas de diversão, na casa dela, mas lhe fez uma exigência: que ele não usasse a máscara. Ele recusou o convite; disse-lhe que sua esposa, que já suspeitava das suas atividades noturnas, poderia descobrir o que ele fazia durante as ‘reuniões’. Gislaine não insistiu, afinal, não desejava perder um cliente que lhe enchia as burras de dólares e euros, além de reais – ficou, entretanto, intrigada. Se ele a desejava, e apenas a ela, porque não queria ir à casa dela? Seria ele um homem excêntrico que sentia prazer apenas quando pagava pelos “serviços” de uma mulher? Ele, desde a juventude, à noite, na cama, dormindo, ou acordado, sonhava com a Mulher-Maravilha, e protagonizava, na sua fértil imaginação juvenil, o papel de Batman? E agora ele, homem maduro, realizava o sonho daquele garoto, satisfazendo-o? Gislaine ficou feliz ao se persuadir, durante as suas reflexões, de que não lhe satisfazia apenas aos prazeres do corpo, mas também aos do espírito. Perguntava-se o que se passava consigo e por que via os outros clientes com o rosto do Batman. E por que o seu cliente mascarado recusou o convite que ela lhe fizera? Ele lhe dissera que era casado. Seria um homem que ela conhecia, e temia que ela o reconhecesse? Ele era casado, ou mentia a respeito do seu estado civil, para afastar dela quaisquer suspeitas? Mergulhava nessas cogitações e nelas permanecia imersa por muito tempo, até que outras tarefas lhe absorvessem os pensamentos.

As surpresas que o amor reserva – parte 3 de 5

Não eram dez da noite. Na rua Juscelino Kubitschek, Paulo, exausto, ao volante do carro prateado com o qual Gislaine o presenteara no aniversário, passou em frente a Mercado Branco Empréstimos & Investimentos. Os seus olhos estavam fundos, as pálpebras, caídas sobre os olhos entreabertos. A primeira semana de trabalho na Global Indústria e Comércio consumiu-lhe as energias. Estava feliz com o novo emprego, desafiador – e o salário era ótimo.

Ao retirar-se da empresa, decidira ir à loja É luxo só! para comprar um vestido para Gislaine, um vestido, como ela dizia, escandindo as sílabas, maravilhoso.

Guiado pelo GPS, que se pronunciava com voz feminina, ria, a curtos intervalos.

Na rua Juscelino Kubitschek, esburacada, mal iluminada, sob as árvores homens e mulheres conversavam. Naquele bairro mal-afamado, freqüentado, à noite, por prostitutas, cafetões, traficantes de drogas, maconheiros e cocainômanos, em frente ao Mercado Branco Empréstimos & Investimentos, surpreendeu Paulo uma jovem, montada numa bicicleta vermelha, que lhe apareceu, na contramão, à frente do carro. Paulo pisou no freio. A moça, jovem de dezesseis, ou dezessete, anos de idade, fitou-o com olhos arregalados e pousou a mão direita sobre o capô do carro. Paulo desvencilhou-se do cinto de segurança, retirou-se do carro, e foi até a jovem, que, pálida, fitava-o e massageava a perna direita.

– Tu estás bem? – perguntou-lhe Paulo. – Te machucaste?

A jovem, com voz abafada, disse-lhe que não se machucara. De Paulo não passou despercebido o olhar assustado dela, tampouco o contrair dos músculos da face.

– E a tua perna? – perguntou-lhe Paulo, preocupado, ao vê-la massagear a perna direita.

– Não me machuquei.

Curiosos acompanharam o desenrolar dos eventos. Motoristas desviavam-se do carro de Paulo, a maioria, calado, outros, reclamando, exigindo de Paulo a remoção do carro do meio da rua, e uns, em tom desdenhoso, a remoção daquela lata velha, outros, esgoelando-se, perguntaram-lhe se ele era um cafetão, e a jovem, a sua mocinha de estimação. Tais palavras constrangeram Paulo, e a jovem, que sentia olhares reprovadores e lúbricos convergindo para si. Paulo, para poupar-lhe constrangimentos, exortou a jovem à prudência, decidiu encerrar a conversa, e voltou para o carro. A jovem, constrangida, disse-lhe que seria mais cuidadosa dali em diante, e afastou-se, pedalando a bicicleta.

Ao volante do carro, Paulo, com a atenção redobrada, atentou para os ciclistas e os pedestres. Não desejava que o surpreendesse outra ciclista imprudente, tampouco um pedestre.

Dobrou a esquina. Entrou à rua Juó Bananeri. Vislumbrou uma silhueta inconfundível, a cinquenta metros de distância: a de Gislaine. Arregalou os olhos, surpreso, estupefato. Debruçou-se sobre o volante. Indagou-se se seus olhos não se divertiam consigo, se já caíra no sono, e, naquele momento, na cama, sob o lençol, dormia profundamente, e sonhava com Gislaine, ou se protagonizava um pesadelo, ou se o incidente envolvendo-o e à jovem de bicicleta danificara-lhe os neurônios. Não era Gislaine aquela moça, naquele bairro mal-afamado… Paulo, como se despertasse de um transe hipnótico, esfregou os olhos com os nós dos dedos, e focalizou Gislaine. Assim que ela se voltou, como se esperasse por alguém, na direção de Paulo, mas sem vê-lo, ele teve a certeza de que ela era a Gislaine. O que ela fazia lá? Paulo estacionou o carro, com o auxílio de um flanelinha, que o saudou e disse-lhe, para tranqüilizá-lo, que o carro estava em boas mãos e que ele poderia se divertir até o Sol raiar. Paulo retirou-se do carro. O flanelinha deu-lhe um tapinha amigável no ombro esquerdo e renovou a sua promessa de zelar pelo carro – que estava em boas mãos, insistiu. Paulo fez-lhe um sinal de assentimento com a mão direita, o polegar destacado para cima e todos os outros quatro dedos encolhidos, fechou o carro, do qual acionou o alarme, e, fitando Gislaine, andou, passos apressados, entre os carros estacionados e os que passavam, na direção dela. Aproximou-se dela uns vinte metros. Ela andou no mesmo sentido que ele, desviando-se das pessoas que enxameavam a calçada. Para não a perder de vista, Paulo acelerou os passos, pôs-se na ponta dos pés, para distinguir a cabeça de Gislaine naquele mar de gente, e dela aproximava-se.

Gislaine deteve-se à frente de uma casa noturna, a Prazer Virtual. Paulo pôs as mãos, em concha, à boca, e preparou-se para gritar-lhe o nome, mas conteve-se ao vê-la saudar, com dois beijos no rosto, um homem de terno e gravata, e abaixou as mãos, e seu coração cessou as vibrações. Excluiu do seu campo visual todas as outras pessoas. O homem de terno e gravata e Gislaine abraçaram-se calorosamente. Paulo fitou-os, emudecido, embasbacado, boquiaberto. O homem e Gislaine entraram na Prazer Virtual, que, sabia Paulo, era uma casa de prostituição. Com a mente vazia, Paulo conservou-se, braços caídos justapostos ao corpo, olhos fitos na fachada da Prazer Virtual, indiferente ao que se sucedia ao redor, até que um homem, montado numa moto, com a viseira do capacete erguida, passando por entre os carros estacionados e os que se deslocavam, após frear, bruscamente, atrás de Paulo, que lhe obstruía a passagem, buzinou. Paulo deu passos, e ficou entre dois carros estacionados. O motoqueiro, esbravejando e exibindo gestos obscenos, afastou-se. Paulo, assim que retomou consciência de si, inclinou a cabeça para trás, cerrou as pálpebras, fitou as estrelas, inclinou a cabeça para a frente, massageou as pálpebras com as extremidades dos dedos indicadores, e, ao erguer a cabeça e fitar a fachada da casa noturna, tomou uma decisão: entraria na casa noturna, procuraria por Gislaine, e, ao encontrá-la, de lá a retiraria, e dela exigiria explicações. Ansioso, tenso, inseguro, o coração a vibrar descompassado, os passos incertos, foi em direção à Prazer Virtual. Detinha-se a cada metro percorrido, no temor de se deparar com Gislaine. Se a encontrasse, o que lhe diria? Não seria melhor dar meia-volta e ir-se embora? Esbarrou em algumas pessoas; pediu-lhes desculpas, e elas lhes pediram desculpas, outras, indiferentes a ele, ao nele se esbarrarem, continuaram a andar. Deteve-se Paulo à frente da Prazer Virtual. Indeciso, conservou-se, lá, observando as pessoas que nela entravam e as que dela saíam. Irresoluto, ajeitou os cabelos com as mãos, massageou o nariz, e enfiou as mãos nos bolsos anteriores da calça. Temia que alguém de sua família e de seu círculo de amizades o visse. Se algum familiar ou amigo dele viu Gislaine… Pensou em ir-se embora. Temia encontrar-se com Gislaine. Se fosse embora, depois, ao encontrar-se com ela, dir-lhe-ia que a viu na Prazer Virtual, na companhia de um homem? Paulo perguntou-se porque decidira passar por aquele bairro. Por que ouvira as orientações do GPS, aquela máquina diabólica, que lhe suprimia a faculdade de orientação pelas labirínticas ruas da cidade? Os seus pensamentos, tolices em estado bruto. Perguntou-se porque pensava tais tolices, tolices que jamais lhe aflorariam à mente se não houvesse sido privado da consciência. Talvez, pensou, fosse melhor ir-se embora, e esquecer o que viu. Mas tinha de entrar na casa noturna, e conhecer a verdade. Não podia se recusar a fazê-lo. Com as pernas trêmulas, foi até a portaria, enfiou a mão direita no bolso da calça, retirou a carteira, da carteira tirou uma nota de cem reais, e pagou pela entrada. Enfiou a carteira no bolso da calça, e encaminhou-se à porta. O segurança, um homenzarrão hercúleo de nariz achatado, cabelos rentes à cabeça, sobrancelhas debruçadas sobre os olhos, transmitia, com a força de sua expressão impassível, poder, como se fosse dotado de força capaz de trucidar um exército empunhando, unicamente, um osso de um javali.

Paulo entrou na casa noturna, misturou-se à multidão, esquadrinhou o salão. Do teto lâmpadas caleidoscópicas preenchiam, com a luz multicolorida, o salão repleto de gente eufórica, que dançava, ou ensaiava uma dança. Andou, vagarosamente, entre as pessoas, observando-as, avaliando-as. Havia pessoas de aspecto repulsivo, outras, atraente. Dentre as mulheres, muitas vergavam roupas provocantes, que lhes sublimavam a formosura, a exuberância do porte, salientavam-lhe os atrativos, e remexiam-se, voluptuosamente, atraindo os olhares e despertando o interesse dos faunos. Procurou por Gislaine durante quase uma hora. Mulheres abordaram-no, e propuseram-lhe uma noite de aventuras inesquecíveis. Esfregaram-se-lhe ao corpo as mais desinibidas. Certo de que Gislaine não se encontrava no salão, Paulo desistiu de procurá-la, transpôs o mar de gente, e foi ao balcão, que servia de parapeito para duas mulheres exuberantes, uma branca, loira, outra, negra, ambas espécimes femininas humanas esplendorosas as quais uma horda de faunos vorazes cobiçava. Chamou pelo balconista, que atendia a um homem engravatado, à direita das duas mulheres. Assim que o homem e as duas mulheres retiraram-se, ele enlaçando-as pela cintura, o balconista foi até Paulo.

– Aquele homem – comentou o balconista, apontando o homem e as duas mulheres – é um sujeito de sorte e gosta de aventuras radicais. Espero que ele sobreviva à esta noite, para nos dar lucro. Não temos interesse na morte dele – gargalhou, saudou Paulo, e perguntou-lhe o que desejava.

– Uma belíssima mulher – respondeu Paulo, simulando desinibição. Conteve-se no seu desejo de perguntar por Gislaine e dela apresentar-lhe uma descrição minuciosa caso ele dissesse que não a conhecia. – Aquelas duas mulheres trabalham aqui?

– Sim. A loira é a Barbie. A negra é a Cleópatra, a maravilha de ébano. Ela veio do Egito. Os homens a adoram.

– Elas estarão disponíveis, hoje…

– Não. Hoje, não. O nosso amigo, tu vistes, irá se divertir com elas durante esta noite, se elas não lhe extraírem a energia em vinte minutos. Não sei se ele tem energia para brincar com as duas bonecas até o galo anunciar o dia de amanhã. Talvez ele use uma pílula azul, ou duas, se lhe faltar energia. A Barbie e a Cléo estarão ocupadas durante esta noite… Queres agendar, para outra noite…

– Não. Não. Há muitas mulheres bonitas, como aquelas, para esta noite?

– Para esta noite, não sei se há alguma disponível. As meninas estão realizando as fantasias dos nossos clientes, que são muito criativos. Leram muito Aretino, Sade. Assistiram Tinto Brass.

– Quero uma morena – disse Paulo, cortando-lhe a palavra, com voz amistosa. – Gosto de morenas. Não dispenso as loiras, nem as negras, nem as orientais. Tu poderias verificar, no computador, se há morenas à disposição?

– Como eu te disse, acho que todas as meninas estão trabalhando… É o trabalho delas, tu sabes… E elas são bem remuneradas… Eu, para ganhar o que elas ganham em uma noite, tenho de trabalhar dez anos. Refiro-me às mais requisitadas pelos nossos clientes, que são exigentes e adoram o que de melhor a vida pode oferecer – enquanto falava, acessava os arquivos do computador; assim que concluiu a verificação, voltou-se para Paulo. – Todas as meninas estão trabalhando, hoje. A casa está cheia, como podes ver. Aqui aportam milionários, bilionários e trilionários de todos os quadrantes do universo. Americanos, europeus, japoneses, árabes, africanos. Muitos deles, providos de gostos exóticos (exóticos, segundo eles), exigem a mulher brasileira típica, isto é, provida de um arsenal de deixar todos os marmanjos de queixo caído. Preferência nacional. As morenas são as mais requisitadas. Tu tens de ver como os gringos olham para as meninas. Eles não acreditam no que os olhos lhes mostram. Beliscam-se, os nababos.

– Tu me disseste que poderei agendar…

– Sim. Com a menina que desejares. Como já viste, há a Cleópatra e a Barbie. Há, também, a Brigite, a Marylin, a Mata Hari, que é letal, e a Drunna, a Betty Boop, a Jéssica Rabbit, a Mary Jane, a Joana d’Arc, a Semíramis, a Marquesa dos Santos, a Capitu, a Rainha Vitória, a Gioconda, a Dama das Camélias, a Diana, a Iracema, a Sinhá Moça, a Sophia, e outras meninas, todas capazes de te conduzir para o sétimo céu.

– Eu gostaria de agendar, com uma morena…

– Morena… Alta? Baixa? Magra? Robusta? Há morenas para todos os gostos. Diga-me que tipo de morena preferes, e te direi quem és. Com base no que tu me disseres, com a descrição que tu me fizeres da mulher de tua preferência, consultarei o nosso banco de dados, para ver quais meninas correspondem ao teu gosto.

– Quero uma morena carnuda. Sou carnívoro, sabes? Descendente de índios antropófagos.

– Canibais…

– Exato. De silvícolas…

– Silvícolas…

– Povos das selvas…

– Navi’s?

– Naves!?

– Os azuis magricelas.

– Eles não são canibais. São criaturas idealizadas. A natureza nunca produziu, e nunca há de produzir, seres similares a eles, vivendo em simbiose com a mãe natureza.

– Obra de ficção.

– Sim. Eu me referia aos ameríndios.

– Ameríndios…

– Povos nativos das Américas.

– Américas!? Pensei que existisse apenas uma América.

– Não estamos falando o mesmo idioma.

– Sempre fui péssimo em geografia. Até hoje não sei se a Grécia fica na África ou na Ásia.

– A Grécia fica na Europa.

– Como vês… Geografia não é o meu forte.

– Se tu me apresentares uma morena de encher os olhos; que satisfaça a minha voracidade de silvícola ameríndio antropófago… Tu me entendeste…

– Canibal das florestas das Américas.

– Exatamente, se tu me apresentares uma daquelas belezuras, que me agrade, eu te darei aulas de geografia, e não te cobrarei nem um tostão, e tu jamais esquecerá que a Grécia fica na Ásia.

– Tu me disseste que a Grécia fica na Europa.

– Estás aprendendo.

– Pois, então, professor, digas-me qual é o teu desejo…

– Como eu te disse, sou antropófago. Aprecio carnes. Quanto mais carnes a mulher tem, mais suculenta ela é, e mais satisfará ao meu paladar. Não quero mulheres esqueléticas. Esqueças as que seguem a cartilha da moda. Quero carne. Sonho com uma mulher da minha altura, de olhos azuis, ou verdes. Os olhos verdes cativam-me. E ela tem de ter cabelos lisos compridíssimos, que chegam até a cintura, caídos à frente dos olhos. Gosto de mulheres de cabeleira basta. Tenho as minhas fantasias. Não sou diferente dos outros homens… Deles me distinguo nas preferências. Não sou um sujeito singular, conquanto eu seja provido de certas peculiaridades que raramente se encontram em outro homem… Gosto de mulheres de comissão de frente de bom tamanho; muito grande, não. Bolas de basquete… Não as quero. E tem de ter cintura fina, mas não muito fina; e quadris largos, mas não muito largos, e bunda avantajada, mas não muito avantajada, e lábios carnudos, mas não muito carnudos; e um bom balanceio de quadris.

Paulo fez a descrição de uma mulher que correspondia, em alguns aspectos, com a figura de Gislaine. Tomou o cuidado de não a descrever com exatidão, pois desejava não levantar suspeitas, pois, presumia, o balconista não era um paspalhão como dava a entender; havia, era certo, sido treinado para identificar policiais disfarçados, espiões de outras casas noturnas, cafetões, namorados e maridos ciumentos, pais enraivecidos, e outros promotores de contratempos incontornáveis.

Assim que Paulo encerrou a descrição da mulher que desejava, o balconista consultou o banco de dados, e disse:

– Temos oito meninas que correspondem, com dessemelhanças, à qual tu me descreveste: São morenas, de cabelos compridos, peitos firmes, olhos azuis, umas, verdes, outras… Belíssimas, todas elas. Supimpas! Vieram do paraíso. Escolha, dentre as oito maravilhas, aquela que preferires – e virou-lhe a tela do monitor, e explicou-lhe quais os procedimentos de acesso às informações a respeito das oito beldades. Na tela, as oito fotos – dispostas em duas linhas, quatro em cada uma delas, e sob cada foto, o nome artístico de cada mulher. Sob a segunda foto da segunda linha, um nome: Diana. A foto, para espanto de Paulo, era a de Gislaine. Paulo petrificou-se. Esvaiu-se-lhe a consciência. Conteve-se em seu desejo de agarrar o monitor e quebrá-lo na cabeça do balconista, saltar por sobre o balcão, e moer o balconista de pancadas. Não poderia transparecer nenhum sentimento que não o que coincidia com o de um homem à procura de prazer por uma noite. Para agir com atitude que correspondesse ao do personagem que interpretava, não clicou, de imediato, com o mouse, sobre o ícone associado ao nome Diana. Não queria despertar suspeitas.

– Para conhecer todas elas – repetiu-lhe o balconista -, basta clicar sobre as fotos. Tu acessarás páginas com fotos e vídeos das meninas.

Paulo nada comentou. Simulando seguir as instruções do balconista, clicou, no primeiro ícone, que trazia a foto de Iracema e acessou a página com vinte fotos dela e um vídeo de trinta segundos. Nas fotos, ela aprecia em poses discretas, e não revelava todo o esplendor da sua beleza. Era uma moça de uns vinte e cinco anos, de ar ingênuo – simulado, é provável, para seduzir os clientes. E Paulo assistiu ao vídeo. Iracema era uma mulher esplendorosa. Ao encerrar o exame das fotos e do vídeo de Iracema, Paulo passou para as fotos e o vídeo da segunda mulher, Gioconda; e na sequência, para os da terceira, os da quarta e os da quinta. À medida que se aproximava do ícone de Gislaine, o seu coração acelerava-se. Aos olhos do balconista, a sua atitude concentrada, seus olhos arregalados e o morder de lábios assumiram aspecto comum aos homens impressionados com o que admiravam. Ao fechar a página com as fotos e o vídeo da quinta mulher, Marquesa dos Santos, Paulo conduziu o cursor até o ícone de Diana, e hesitou. Bastaria um clique, e teria acesso a vinte fotos e ao vídeo. Mordeu o lábio inferior. Remoeu os pensamentos. Incapaz de coordená-los, clicou, hesitante, sobre o ícone. Abriu-se uma página. As fotos foram se lhe sucedendo aos olhos. Na tela do computador, vinte fotos de uma prostituta: Gislaine, nua. O que faria agora? Sabia que Gislaine encontrava-se, em um dos quartos, na companhia de um homem. Esmurraria o balconista, exigir-lhe-ia o número e a chave do quarto no qual estava Gislaine? Conteve-se, não sem esforço. Após ver todas as fotos, clicou no ícone do vídeo. Viu Gislaine insinuando-se, numas evoluções acrobáticas felinas, com o seu corpo esplendoroso, a sua graça juvenil, durante trinta segundos. Encerrado o vídeo, pensou em acessá-lo segunda vez. Não o fez, todavia. Fechou a página, e clicou sobre o ícone da sétima (terceira da segunda linha) prostituta, e o álbum de fotos passou diante de seus olhos. Paulo não atentou para nenhuma foto. Acessou o vídeo. Não o assistiu. Seus movimentos eram mecânicos, como os de um autômato. Ao final do vídeo da oitava mulher, Paulo, encerrada a pesquisa, disse que todas as mulheres eram belíssimas. O balconista perguntou-lhe qual a que mais o atraiu. Paulo fingiu olhar para as oito fotos, simulou indecisão, e, por fim, elogiando todas as oito mulheres, declarou que, de todas elas, a que mais o atraía era Diana, e teceu-lhe comentários elogiosos.

– Diana… – disse o balconista, com o olhar… apaixonado, dir-se-ia. Paulo rilhou os dentes, fuzilou-o com o olhar. – Diana… – e suspirou, olhando para o alto, para o vazio. – É uma belezura… Os clientes a adoram. Ela realiza as fantasias de todos eles. Todos eles lhe entreguem a senha da conta bancária. Ela recebe em dólares, em euros. Colares. Pulseiras. Pepitas de ouro. Anéis de diamantes, rubis e esmeraldas.

– Ela é mais bonita do que as outras moças.

– Todas as meninas são belíssimas. Eu gostaria de petiscá-las. Mas… Sou apenas o balconista. Elas cobram fortunas… Se eu tivesse uma conta bancária na Suíça…

– A Diana, tu me disseste, é adorada pelos clientes…

– Para muitos homens, que lhe devotam paixão, ela é uma deusa. Eles a reverenciam, servis. Diana tem muitos homens nas palmas das mãos. Ela estala os dedos, e os ricaços vêm, correndo, e arrojam-se, como cachorrinhos de estimação, aos seus pés, e os lambem, abanando o rabinho, os felizardos. Devotam-lhe obediência canina.

– Ela é poderosa, estou vendo.

– Poderosíssima! E de energia inesgotável. Em uma noite ela atende à três clientes; na outra, cinco. E não se cansa! Exibe, sempre, o esplendor de sua beleza majestosa. Há uns dez dias, seis empresários a contrataram. Divertiram-se com ela, das oito da noite às seis da manhã. Seis homens! Eles foram embora, satisfeitos. Prometeram voltar, e trazer amigos. Imagine o que ocorreu, no quarto. Lá há banheiro de hidromassagem, bebidas, brinquedinhos… Calígula se ruborizaria…

A raiva contida dilacerava o espírito de Paulo, que se esforçava para não transparecer os seus sentimentos.

– A Diana é poderosa – prosseguiu o balconista. – Uma mina de ouro. Uma jazida, pouco explorada, de pedras preciosas. Por hora, ela cobra dez mil reais.

– Dez mil reais?

– Sim. Por hora e por homem. Dos seis empresários, milionários todos eles, ela cobrou, por hora e por homem, trinta mil reais. Faça as contas. Os empresários desembolsaram, sem pestanejar, um milhão e oitocentos mil reais, e ainda presentearam a Diana com um colar de ouro cravejado de rubis e diamantes.

– Não acredito!

– Não acreditas? Pois acredite. Os empresários pagaram em dinheiro vivo. Aqui não entram cheques, nem cartões de crédito, e não assinamos recibo. Os empresários pagariam o dobro, o triplo, se a Diana lhes exigisse. Uma vez, vou te contar… Tu, incrédulo, não acreditas nas deusas. Uma vez, um milionário russo, proprietário de um petrolífero, ofereceu quinhentos mil dólares para a Diana brincar com ele durante uma noite, da meia-noite às seis da manhã. Sabes o que são quinhentos mil dólares? E tu pensas que não pagam o que a Diana pedir? Ela é a nossa melhor profissional. Ela e a Iracema são as melhores. As outras meninas também nos enchem as burras de ouro. Os patrões estão pensando em construir uma igreja, para agradecer a Deus pela beleza das meninas. Deus é generoso. Somos gratos a Ele… Não faremos, como os povos primitivos, sacrifícios de virgens. Não eram os astecas que sacrificavam, em holocausto, milhares de pessoas, todos os anos? Construiremos uma igreja luxuosa. A fortuna amealhada pelas meninas nos permitirá construir uma basílica maior e mais luxuosa do que a de Aparecida. Tu desejas agendar uma noite com a Diana? Ou uma hora? Ou duas horas? Vamos ao computador. A Diana é muito requisitada…

Paulo e o balconista conversaram durante um bom tempo. Paulo disse que o preço a pagar pelos serviços das ‘santinhas’ não estava ao alcance de seu bolso. O balconista, jocoso, disse-lhe que ele poderia abater no imposto de renda, incluir o pagamento à Diana no campo das despesas médicas, pois ela, um santo remédio, previne complicações cardíacas, respiratórias, acne e caspa, além de outros benefícios.

Paulo despediu-se do balconista.

No carro, ao volante, lágrimas encheram-lhe os olhos, e tremeram-lhe os lábios. Segurou o volante, curvou-se, nele pousou a cabeça, e cerrou as pálpebras. Lá permaneceu, até o flanelinha tocar, com o nó do dedo indicador direito, na janela do carro. Paulo, disfarçando seus gestos, removeu as lágrimas dos olhos, e desceu a janela; o flanelinha perguntou-lhe se ele não se sentia bem. Paulo disse-lhe, numa voz sussurrada, quase inaudível, que estava um pouco cansado.

– Se precisar, doutor, me chame – disse o flanelinha, solícito. – Às suas ordens…

Paulo agradeceu. O flanelinha afastou-se. Agora ele sabia como Gislaine conseguira dinheiro para comprar dois carros e uma casa. Um carro custava cinquenta mil reais, o outro, oitenta mil reais; a casa, quinhentos mil reais. Era muito o dinheiro que entrava na conta bancária de Gislaine, e em tão pouco tempo. Paulo de nada desconfiava. Como podia ser tão ingênuo! Paulo perguntou-se quantos amigos de Gislaine e quantos amigos dele eram clientes dela, e quantas amigas dela trabalhavam na Prazer Virtual, e se amigas dela – dentre as que ela lhe apresentou, Gisele, Daniela, Rosângela, Denise, Tábata, Tamíris – são prostitutas contratadas pela Prazer Virtual. Não reconheceu, nas fotos das moças que viu, nenhuma das amigas de Gislaine, mas ficou com a sensação, indefinível, de que a Barbie não lhe era desconhecida. E ela o fitou de um modo que, agora Paulo compreendia, era o de uma pessoa que o conhecia, que dele zombava, ao mesmo tempo que temia que ele encontrasse Gislaine na Prazer Virtual. Em retrospectiva, era isso o que Paulo pensou haver visto em Barbie. Cobriu os olhos com as mãos, os cotovelos fincados no volante. O que faria, agora? Espancaria Gislaine? Roia-se de ódio. No dia seguinte, assim que a encontrasse, pensou, agarrá-la-ia pelo pescoço, e a sufocaria. Agarrá-la-ia pelos braços, arrastá-la-ia até um terreno baldio, rasgar-lhe-ia as roupas, a estupraria, vingando-se, assim, dela; ou contrataria uma prostituta, e com ela manteria o intercurso carnal, na própria cama, para que Gislaine os surpreendesse; ou contrataria um homem para estuprar Gislaine, enquanto ele, Paulo, assistiria ao estupro; ou permaneceria, no carro, até Gislaine retirar-se da casa noturna, segui-la-ia até a casa dela, e, lá, dir-lhe-ia que a vira na Prazer Virtual. Sua mente estilhaçou-se em bilhões de partículas. Tremeram-lhe as pernas. Lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos, e escorreram-se-lhe pelo rosto. Os lábios se lhe tremeram. Os músculos se lhe crisparam. Rilhava os dentes. Bufava.

Ligou o carro após duas horas imerso em lucubrações, pensamentos homicidas a lhe acossarem a mente, indagando-se se enlouqueceria.

Sob orientações do flanelinha, manobrou o carro, cuidadosamente, entre os dois carros que o espremiam naquele espaço reduzido. Dirigiu até a sua casa. Deixou o carro na garagem. Entrou na casa; não fechou a porta. A debulhar-se em lágrimas, jogou-se na cama. Chorou convulsivamente. Tremia. Estava certo de que a sua vida encerrava-se naquele momento. O mundo havia se lhe desabado sobre a cabeça. Pensou em pegar de um revólver, e atirar ou na boca, ou na têmpora. O sono surpreendeu-o, estirado na cama, da qual ele se retirou, na manhã seguinte, sob o esgoelar estridente do despertador. Banhou-se. Bebeu de um copo de café. Comeu duas bolachas de maisena. E foi-se para a Global Indústria e Comércio. Na caixa de mensagens do seu telefone celular, duas mensagens de Gislaine. Não as acessou. Pensou em instalar uma câmara oculta num dos quartos da Prazer Virtual e gravar um vídeo de Gislaine, na cama, com outro homem, e, depois, exibir o vídeo para o pai e a mãe de Gislaine, ou postá-lo na internet. Meneou a cabeça. Sorriu. Não sabia se afugentava tais pensamentos de si, ou se, com o auxílio de uma das ‘profissionais’ da Prazer Virtual, executava o seu projeto. Era certo que algumas delas eram desafetas de Gislaine, e aceitariam, de bom grado, sem remuneração, uma incumbência que a prejudicasse, e a eliminasse. Se Gislaine era, como disse o balconista, tão requisitada pelos clientes, é certo que as outras ‘meninas’ cobiçavam os milionários que ela agradava. Não seria difícil persuadir uma delas a participar de tal atividade. Não teria, acreditava Paulo, nenhuma dificuldade para reunir umas dez ‘meninas’, maquinar o projeto, pô-lo em execução em poucos dias, e expor Gislaine à irrisão pública. Imaginou o constrangimento dela diante dos próprios pais, e de outros familiares, todos assistindo ao vídeo.

No almoço, no restaurante **, Paulo, cabisbaixo, sozinho, à mesa, cortava um bife de alcatra. Renato deu-lhe um tapinha nas costas; ia acertar-lhe um tapa na cabeça, mas, ao vê-lo levar, com o garfo, o pedaço de bife à boca, recuou em seu propósito. Paulo voltou-se, assim que cerrou a boca ao prender o bife entre os dentes, para ele, e saudou-o. Renato puxou uma cadeira, sentou-se, fitou Paulo, cuja figura, consumida pelo sofrimento, revelou-se-lhe aos olhos, e indagou-lhe o que lhe sucedera. Paulo abaixou a cabeça. Renato anunciou a chegada de Gustavo, e Márcio, um amigo de Gustavo. Saudaram-se. Márcio, convidado, por Renato, a sentar-se na cadeira desocupada, de frente para Paulo, recuou do convite, desejou-lhes bom apetite, disse-lhes que já se fartara, no restaurante vizinho, anunciou a sua ida até a loja de dvds. Aproveitaria os minutos que lhe restavam de descanso, e procuraria pelo filme Era uma vez no Oeste, e, para Adriana, sua filha, os desenhos animados Aladim, Toy Story e Pequena Sereia, e retirou-se.

Gustavo, à saída de Márcio, voltou a sua atenção para Paulo, cujo olhar, perdido, e cuja fisionomia, entristecida, não lhe passaram despercebidos.

Entreolharam-se Renato e Gustavo, intrigados.

O garçom aproximou-se da mesa à qual estavam Renato, Paulo e Gustavo. Com uma caneta esferográfica azul, anotou, num pequeno bloco de papel que cabia na palma de sua mão, o pedido que eles lhe fizeram. Assim que ele se retirou, reinou, àquela mesa, silêncio constrangedor. Renato rompeu o silêncio ao dirigir-se a Paulo: indagou-lhe o que lhe ocorrera, disse-lhe que a aparência dele era de causar repulsa, perguntou-lhe do namoro dele com a Gislaine, e completou:

– Seja bem-vindo ao time dos solteiros.

Seu chiste extraiu um sorriso contido de Gustavo e nenhuma reação de Paulo, que moía um pedaço de bife e remoía os pensamentos. Paulo, ensimesmado, perguntava-se se inteiraria Gustavo e Renato do sucedido na véspera. Expôr-se-lhes-ia, se lhes revelasse a sua miséria? Gustavo e Renato eram seus amigos. Gustavo lhe falara, sem reservas, do rompimento do seu namoro com Camila – não foi fiel aos eventos, como indicavam as notícias que a Paulo chegaram, mas ele não lhe ocultara o que sentia; Renato também não lhe ocultara o seu caso com Juliana. Paulo, agora, abrir-se-ia para com eles? A vergonha impedia-o de fazê-lo. O que lhes diria? Que Gislaine era uma prostituta? De cabeça abaixada, debruçado sobre o prato, conservou silêncio imperial durante um bom tempo. Renato e Gustavo, enquanto degustavam do almoço, falavam de futebol, não com a extroversão habitual; descreveram, lacônicos, numa voz monótona, algumas cenas de jogos que mais lhe atraíram a atenção. A atitude deles não passou despercebida de Paulo, que, constrangido, deu início à narrativa, repleta de reticências, recuos, cortes abruptos, dos eventos da véspera. Renato e Gustavo dedicaram-lhe, em silêncio absoluto, atenção integral.

As surpresas que o amor reserva – parte 2 de 5

– Arrumei um novo emprego, Paulo – disse Gislaine, sorridente, animada, na varanda. Estreitou Paulo ao corpo, cingiu-o, com os braços, pelo pescoço, colando seu corpo ao dele, e beijou-o. Paulo encostou-se no carro, e enlaçou-a pela cintura.

Gislaine descolou seus lábios dos lábios de Paulo, e disse-lhe:

– Consegui um novo emprego, melhor do que o anterior. Tu não me acreditarás – beijou-o, duas vezes, e prosseguiu: – Receberei, nos três primeiros meses de trabalho, o dobro do salário que recebo na Atlântico Empreendimentos Imobiliários; depois, dependendo da minha desenvoltura, o meu salário poderá quintuplicar.

– Em que empresa irás trabalhar? – perguntou-lhe Paulo.

– Na Telemarketing.com.Brazil.

– Que empresa é essa? Dela nunca ouvi falar.

– É uma empresa que presta serviços para empresas indianas…

– Tu trabalharás na Índia?

Gislaine sorriu e beijou-o, e, fitando-o, perguntou-lhe, zombeteira:

– Sabes que estamos em pleno século XXI?

Paulo simulou azedume.

– Vou recapitular os principais eventos deste início de século: o ataque terrorista que destruiu o World Trade Center; o ataque terrorista a Londres; o ataque terrorista a Barcelona; a guerra no Iraque; a guerra no Afeganistão.

– Não deboches, Gislaine.

– Tu sabias que já inventaram a internet? Já ouviste falar de telemarketing? Sabes o que é videoconferência? Já viste um telefone celular?

– Chata! És chata.

– O homem já foi à lua, sabias? Bobo, não trabalharei, na Índia, não. Bobinho. Trabalharei, aqui, no Brasil, para a nossa felicidade. Não irei para a Índia. Eu gostaria de visitar o Taj Mahal. É o meu sonho. O Taj Mahal é uma das sete maravilhas do mundo, e eu o visitarei, um dia.

– E eu irei contigo?

– Não sei… Pensarei a respeito. Tu sabes quem me falou do emprego na Telemarketing.com.Brazil? A Marilene, hoje, de manhã, um pouco antes das sete horas. Eu saía de casa; à porta, enquanto a fechava, a Marilene saudou-me, perguntou-me se eu ia para a empresa, para trabalhar, e disse-me que hoje é dia de folga dela. Ela usava uma camisa regata e uma calça de malha. Saíra para caminhar. Passaria na casa da Solange. Como o Sol, hoje, quer torrar a Terra, e assar-nos a todos nós, para satisfação de uma raça alienígena, a Marilene e a Solange combinaram de caminharem. Para benefício do coração, claro. Não reconheceriam que querem perder os pneuzinhos… Nós mulheres não somos vaidosas… Quê! Ficar bela e atraente para atrair os homens? Não. As mulheres somos independentes. Os homens nós mulheres os dispensamos. Nos embelezamos para a nossa satisfação narcísica, indiferentes ao que os homens pensam de nós. Há alguém, neste mundo de Deus, que acredita nesta bobagem?

– Perdi o fio da meada, Gislaine. Do que tu me falavas? Recapitulando: Uma raça alienígena inteligente aportou na Terra e, por meio de uma empresa de telemarketing, ensinou mitologia grega às mulheres. O mentor intelectual alienígena, Narciso, na Índia, abduziu engenheiros e arquitetos indianos em cujos cérebros implantou o conhecimento da ereção do Taj Mahal e das outras seis maravilhas, mas o Sol, antipático…

Gislaine cobriu-lhe a boca com a mão direita e a mão direita com a mão esquerda, ordenou-o que se calasse, e disse-lhe que lhe liberaria a boca se ele prometesse manter-se em silêncio e a ouvisse, sem interrompê-la, atentamente. Paulo assentiu, com o olhar e o sorriso.

– A Marilene, hoje de manhã, falou-me da empresa de telemarketing, que queria contratar uma pessoa com boa dicção, bom vocabulário, desembaraçada, e que soubesse falar, fluentemente, inglês e espanhol. Assim que cheguei na Atlântico, conversei com a Luciana a respeito; ela, com uma pulga atrás da orelha, perguntou-me se se tratava de uma empresa séria, ou uma empresa de fachada; disse-me, quando lhe fiz referências ao salário que a empresa oferecia aos operadores de telemarketing, que quando a esmola é demasiada até o santo desconfia, e aconselhou-me prudência. Telefonei para a Telemarketing, agendei a entrevista, e fui lá. Durante a entrevista, que durou duas horas, o entrevistador conversou comigo em inglês e em espanhol. Bobo, ele, né!? Coitados dos candidatos que, desconhecendo esses dois idiomas, dizem que os conhecem! Depois, ele simulou uma conversa telefônica. O entrevistador… Como é mesmo o nome dele? André, ou Adriano, ou Adrien, não me recordo. Após o encerramento da conversa telefônica, disse-me ele que apreciara o que ouvira, e perguntou-me se eu poderia começar a trabalhar, na segunda-feira, na Telemarketing. Não pensei duas vezes: eu lhe disse que sim, poderia. A partir de segunda-feira, Paulo, trabalharei pelo dobro do salário que recebo na Atlântico.

– Parabéns – disse Paulo, que lhe deu um beijo nos lábios, e mordeu-lhe o queixo assim que ela ergueu a cabeça para lhe falar:

– Trabalharei segunda-feira, à noite.

Paulo afastou-se dela a cabeça, fitou-a, surpreso, e indagou-lhe:

– À noite? Trabalharás à noite?

– Sim. À noite. A Índia, no outro lado do planeta… Já ouviste falar de um continente chamado Ásia? A Ásia é um continente imenso, e lá estão a Índia, a China, as Coréias, o Japão. Japão é uma ilha, e…

– Boba. Sei disso. Mas, à noite… Trabalharás à noite… E nós? Trabalharás à noite. Dormirás, portanto, à tarde; e eu, que durmo à noite…

– Muita coisa mudará, eu sei. Nos adaptaremos aos novos tempos. Nos encontraremos nos finais da tarde e nos dias de folga. Trabalharei em alguns finais de semana; em outros, não. Como tu, terei dias de folga. E os meus dias de folga poderão coincidir com os teus. Mudaremos alguns dos nossos hábitos. Alguns? Não. Alguns, não. Muitos. No início, será difícil, eu sei. Trocarei o dia pela noite e a noite pelo dia. Imagino como me ajeitarei nesta nova fase da minha vida. Melhor: da nossa vida. Estamos juntos, né, Paulo? Nos entenderemos um com o outro, como fazemos desde que nos conhecemos de um jeito inusitado. Lembra-se? Tu pisaste-me o pé, malvado.

– Pisei-te o pé? – perguntou Paulo, sorrindo. – Mentirosa. Não pisei-te o pé.

– Não!? Não pisaste!? Recapitulemos a história. Eu andava, calmamente, pela cidade. Tirei da bolsa a carteira, por alguma razão, da qual não me recordo, e uma valiosa moeda prateada de borda dourada cunhada por mestres moedeiros escapou-se-me das mãos, rolou pela calçada, deu cambalhotas, cabriolas, piruetas, executou manobras radicais e foi parar a alguns metros de mim, e eu, que não desejava perder tal preciosidade, agachei-me, e foi então que um ilustre desconhecido, um sapo presunçoso, que pensa ser um príncipe encantado, pisou-me… Ah! Paulo… Chato!

– Pisei-te o pé? Continues com a narração da história. Tu já pensaste em escrever um livro? Tu serias uma ótima escritora. Escreva uma estória com fidelidade aos fatos, como tu a pouco provaste ser capaz de fazer, se auto-intitular uma escritora realista, existencialista, e coisa e tal, e o sucesso estará garantido. É tiro e queda, minha princesa fofinha!

Beijaram-se. O deslize de Gislaine inspirou piadas e comentários zombeteiros de Paulo, piadas e comentários que inspiraram réplicas de Gislaine, às quais Paulo não deixou de apresentar as tréplicas. Estenderam-se em provocações; simularam irritação, até que decidiram conversar, sérios, sobre a vida deles dali em diante.

Transcorreram-se os dias. Paulo e Gislaine enfrentaram alguns incidentes indesejáveis, que geraram atritos entre eles.

Gustavo, em certa ocasião, contou para Gislaine e Paulo, que Camila o procurara, e confessara-lhe o desejo de com ele reatar o namoro, pois havia se arrependido do ato reprovável que cometera, e pediu-lhe desculpas. Gustavo relatou o episódio com tanta convicção que Paulo e Gislaine nele acreditaram. Dias depois, Paulo ouviu, de Camila, outra história: a de que Gustavo tivera um caso com uma mulher que conheceu em Ubatuba, nas férias, e que ela, Camila, e não Gustavo, rompera o namoro, e Gustavo a procurara, pedira-lhe desculpas, e dissera-lhe que desejava reatar o namoro, e ela o recusara. Paulo acreditou no que ela lhe disse. No dia seguinte, contaram-lhe outras versões da história protagonizada por Gustavo e Camila, uma novela cujo enredo era mais complexo do que os relatos de Gustavo e Camila davam a entender e envolviam outros personagens. Paulo, amigo, tanto de Gustavo quanto de Camila, conservou-se à parte da trama; não tomaria o partido de nenhum deles. Ouvia-os, sempre que eles lhe confidenciavam os sentimentos, os pensamentos, mas não assumiu uma posição favorável a nenhum deles. O que ele teria de fazer? Gustavo narrava-lhe uma história; Camila narrava-lhe outra história. Outras pessoas que lhe falavam a respeito contavam-lhe outras histórias, inseriam outras personagens, adicionavam outros capítulos, e outros motivos, para apimentar a novela, pois a realidade, presumiam, carecia de ingredientes que lhe realçassem o sabor.

Renato, certo dia, foi à casa de Paulo, e falou para Paulo da crise conjugal: Juliana pedira o divórcio. Motivo: Incompatibilidade de gênios. Paulo pensou em perguntar-lhe: “Descobriram-na após dois anos de namoro e três anos de vida conjugal?”, mas conteve-se. Ouviu-o, atentamente; exortou-o a aceitar o divórcio, e resolver, rapidamente, e sem o auxílio de um advogado, o caso, antes que as vozes dos sensatos persuadissem-no a mudar de idéia, e consultasse pessoas em quem ele confiava; dentre outros, Clóvis e Maria Elizabeth, pai e mãe de Juliana, que os ajudariam a chegar a um entendimento e, quem sabe? reatarem o casamento. Renato fitou-o com olhar reprovador. Paulo pediu-lhe desculpas. Renato disse que jamais perdoaria Juliana. O tom de sua voz e o seu olhar persuadiram Paulo de que sofria deveras. Renato amava Juliana. A separação feria-o profundamente. Se ele pudesse evitá-la, evitá-la-ia. Encerrado o assunto, falaram de Gustavo e Camila. Renato teceu os seus comentários: suspeitava que Gustavo faltava com a verdade; defendeu Camila, que não era a pervertida que Gustavo descrevia. Depois, Renato perguntou de Gislaine. Paulo falou-lhe do trabalho de operadora de telemarketing; não atentou, no início, para a tristeza que a sua felicidade infundia em Renato, que o ouvia, com o olhar perdido, vazio, o rosto a expressar a dor que o afligia, mas, assim que a notou, abreviou os elogios à Gislaine, e sem dar um corte abrupto à conversa, passou a tratar de fofocas, esportes e filmes. Renato falava, num tom pausado, medindo as palavras; corrigia-se ao perceber que empregava palavras que não reproduziam os seus pensamentos. Paulo teve de interrompê-lo inúmeras vezes para lhe pedir esclarecimentos.

Nas semanas seguintes, Paulo colheu mais informações a respeito de Gustavo e Camila. Nenhuma delas projetou luz sobre o caso; ao contrário, todas obscureceram-no. Quanto mais informações reunia, mais obscura a questão se tornava. Ficou preocupado com a conduta de Gustavo, desregrada e inconsequente. Madalena, mãe de Gustavo, e Elói, pai dele, contaram a Paulo as preocupações que a conduta de Gustavo lhes inspirava. Elói, em tom confidencial, disse-lhe que Gustavo nunca primou pelo comportamento exemplar, e evocou episódios sucedidos quatro anos antes – dos quais Paulo recordava-se. Paulo disse-lhe que Gustavo se regenerara. Elói meneou a cabeça. Gustavo, disseram Madalena, Elói, amigos e familiares, frequentava prostíbulos e, em um bar, discutiu com uma prostituta, deu-lhe um tapa, e dois homens o estapearam, e ele correu, desajeitadamente, embriagado, perdeu o equilíbrio, escalavrou os joelhos, o cotovelo, e bateu, ao cair, após tropeçar num paralelepípedo, com a testa numa raiz de uma árvore. Tal notícia entristeceu Paulo, que foi à casa de Gustavo, e passou-lhe descompostura. Não foram raras as ocasiões em que Gustavo e Paulo discutiram, e Gustavo exibiu desprezo por ele, e insultou-o com os vocábulos mais ferinos que conhecia e com insinuações maldosas a ele, Paulo, e a Gislaine. Não foram raras as vezes que Paulo virou-lhe as costas, prometendo, enfurecido, para si mesmo, que excluiria Gustavo do rol de seus amigos – tal promessa ele não a cumpriu. Sempre que Gustavo solicitava-lhe ajuda, ajudava-o; inúmeras foram as vezes que Elói e Madalena, privados de paciência, solicitaram-lhe ajuda, e Paulo os ajudou a socorrer Gustavo ou a remediar males por ele causados; certa ocasião, carregou-o ao hospital após ele sofrer convulsões em decorrência do excesso de ingestão de bebidas alcoólicas, maconha e cocaína.

As surpresas que o amor reserva – parte 1 de 5

À porta de uma lanchonete, que nos finais de semana servia pratos típicos da culinária árabe, às oito horas da noite, Gislaine agachou-se para pegar uma moeda de R$ 1,00, que, da sua carteira, havia caído no chão. Paulo, distraído, alternando a sua atenção entre as placas luminosas e as belas mulheres que passavam por ele, pisou, involuntariamente, com o pé esquerdo, a mão de Gislaine, e recuou, automaticamente, o pé. Gislaine soltou grito de dor, agudo, puxou a mão, sem a moeda, de debaixo do pé de Paulo, ergueu-se, contraídos os músculos do rosto, e fitou Paulo, que se voltara para ela e, constrangido, com voz hesitante e frases entrecortadas, desculpou-se e, sem tomar consciência dos seus atos, segurou-lhe a mão. Gislaine preparou uma ofensa, em sua explosão de raiva, a qual ela abafou ao deparar-se com o rosto de Paulo, visivelmente preocupado e constrangido. Paulo, ao mesmo que se desculpava, massageava-lhe a mão. Gislaine sorriu, divertida. Ele, constrangido, desculpava-se. E desculpava-se. E desculpava-se. Ânimo serenado, Gislaine pediu a Paulo que lhe soltasse a mão, e ele desculpou-se uma vez mais, e soltou-a. Enquanto massageava a mão e avaliava as unhas esmaltadas, disse para Paulo que derrubara uma moeda, e olhou para o chão à procura dela. Um moço imberbe de cabelos encaracolados apontou para a moeda, atrás do pé esquerdo de Paulo, que olhou para trás, agachou-se, pegou-a do chão, e entregou-a para Gislaine, que a recolheu à carteira.

Gislaine, que segurava a alça da bolsa que trazia a tiracolo, e Paulo, que olhava de um lado para o outro, sorriram, encabulados, constrangidos, em silêncio, um de frente para o outro, até ela perguntar para ele:

– Qual é o teu nome?

Paulo disse-lho, e ela lhe disse o dela. Coçou a cabeça com a mão direita, enfiou a mão esquerda no bolso posterior esquerdo da calça, depois a mão direita no bolso posterior direito, e relanceou, visivelmente constrangido, o olhar em torno de si, sentindo o rosto a ruborizar. Intimidou-o o olhar de Gislaine, que, sorrindo, perguntou-lhe qualquer coisa. Paulo ouviu-lhe a voz, mas não ouviu-lhe a pergunta, voltou-se para ela, e emitiu um “Quê?” mal pronunciado. Gislaine passeou a mão direita pelos cabelos, ajeitando-os às costas, enquanto repetiu-lhe a pergunta. Queria saber dele para onde ele iria. Paulo disse-lhe que ia para uma pizzaria. Gislaine olhou para a lanchonete, sorriu, apontou-a, como se observasse: “Veja, Paulo. Estamos diante de uma lanchonete. Convide-me”. Paulo entendeu o recado, e disse-lhe que são saborosos os lanches servidos naquela lanchonete, mas, naquela noite, estava com vontade, e tinha de satisfazê-la, de comer uma pizza. Gislaine, insinuante, ofereceu-se para acompanhá-lo até a pizzaria, surpreendendo, favoravelmente, Paulo, que abriu um largo sorriso.

– Gosto de pizza com camarão, catupiry e azeitona – disse Gislaine, sorrindo, meiga. – Não sei quais são os preços das pizzas. Trinta reais, acho. Tu pagarás pela pizza, afinal, convidaste-me depois de eu te convidar para me convidar. Para tu não pensares que sou uma mulher abusada, aproveitadora e interesseira, te ajudarei, com a moeda de um real que derrubei no chão, a pagar pela pizza.

*

O Sol, na manhã do dia seguinte, um domingo, dia quente, despontou cedo. O sono pesado propiciou sonhos inspiradores a Paulo, que evocou os eventos da véspera, seu encontro com Gislaine e a conversa, na pizzaria, que se estendeu até uma hora da madrugada. Recapitulou-a, durante o banho de meia hora. Encerrou o banho assim que a campainha estridulou quatro vezes: dois toques, um curto intervalo, e dois toques. Paulo sabia quem a premiu: Gustavo. De todas as pessoas que conhecia, ele era a única que deste modo premia a campainha. Perguntou-se porque cada pessoa aperta a campainha de um modo distinto. Essa questão daria uma tese sociológica, concluiu. O estudioso que a apresentasse com observações argutas seria laureado, é certo, com o Ignóbel, talvez com o Nobel.

Paulo se enxugou. Vestiu-se. Penteou os cabelos, e foi atender à porta. Enfiava a chave na fechadura, quando Gustavo premiu a campainha quatro vezes.

Paulo sorriu, e abriu a porta.

– Do que ris, Paulão? – perguntou-lhe Gustavo, ao fitá-lo. Paulo disse-lhe a razão do sorriso. E Gustavo comentou: – Já atentei para essa questão. Não entendo porque, até hoje, nenhum intelectual brasileiro debruçou-se sobre assunto tão instigante. Ora, com um estudo penetrante do ato de apertar campainhas um intelectual superará as obras arcaicas, que merecem o limbo, de todos os intelectuais brasileiros que já passaram pela face da Terra. As infinitas maneiras de apertar campainhas deveria ser objeto de estudos dos melhores intelectuais brasileiros. E as universidades brasileiras, sabemos, e não o ignoramos, estão repletas de gênios, daí serem as melhores universidades do mundo. O estudo do ato de apertar campainhas oferecerá meios para uma análise acurada da sociedade brasileira. Os intelectuais brasileiros, seres privilegiados, dotados de intelecto superior, após diagnosticarem o comportamento dos brasileiros e a formação histórica do Brasil, prognosticarão o seu desenvolvimento, e aviarão as receitas para sanar todas as mazelas que assolam o país. E o país entrará, definitivamente, no século XXI, e, antes dos outros países, no século XXII.

Divertiam-se com tais gracejos quando ouviram uma buzina. Do carro, do outro lado da rua, Renato gritou-lhes:

– Corinthianos dorminhocos! Não acordaram, palmeirenses? O tempo não para. Ó – e tocou, no mostrador do relógio ao pulso, o dedo indicador direito, mostrando-lhos, como se eles pudessem ver os ponteiros do relógio. – Sabem que horas são, palmeirenses corinthianos? Oito horas. Oito, não… Deixe-me ver – e avaliou os ponteiros – oito e quatro. Vocês ficarão, aí, de namorinho, dondocas? Não se embelezaram ainda, corinthianos são-paulinos?

Paulo e Gustavo exibiram-lhe gestos obscenos, exigiram-lhe que calasse a boca, e disseram-lhe que se retratasse, ou o surrariam até enviarem-lo para o inferno.

Renato retirou-se do carro, trancou-o, acionou o alarme, e foi até Paulo e Gustavo. Saudaram-se com apertos de mãos, tapas na nuca e pontapés. Entraram na casa. Na cozinha, Paulo preparou o café-da-manhã, Renato abriu a geladeira, inspecionou-a, reclamou da escassez de víveres, e declarou que, se ocorresse, naquele momento, uma catástrofe nuclear, Paulo morreria de fome; em seguida, inspecionou a despensa, e admirou-se com as prateleiras quase vazias. Reclamou. Gustavo saiu em defesa de Paulo, o que inspirou muitas insinuações maledicentes a Renato.

Retiraram-se meia hora depois de beberem, Paulo, leite, Renato, um dedo de café, como ele disse, e Gustavo, água, e comerem, Paulo, bolachas waffles de morango e uma maçã, Renato, duas bolachas de maisena, e Gustavo, duas bolachas de leite.

Rumaram para o campo de futebol, localizado à dez quilômetros de distância. Conversaram, durante o percurso. Renato perguntou para Paulo quem era a morena que o acompanhava pela avenida Dom Pedro II. Paulo falou-lhes de Gislaine.

A conversa, entrecortada por críticas à prefeitura municipal, que não consertava as sinuosas estradas esburacadas – de competência do governo estadual, observou Gustavo -, que requeriam de Renato destreza ao volante, e por impropérios e blasfêmias, estendeu-se até a chegada no campo de futebol.

– Chegamos ao Maracanã – exclamou Paulo.

– É um elogio? – perguntou-lhe Renato, zombeteiro.

Gargalharam.

Os jogadores, durante o jogo de futebol, que não foi um espetáculo digno de Copa do Mundo, ofereceram aos espectadores – cem pessoas, se muito – cenas que os célebres jogadores das seleções mundiais não oferecem: lances divertidos e inexplicáveis, irreproduzíveis pelo que tinham de cômico e grotesco. Além dos quadrúpedes, que se autodenominavam jogadores de futebol, integravam os times seres humanos do gênero masculino que sabiam distinguir um coice de mula de um lance de calcanhar e sabiam que estavam num campo de futebol, conquanto se perguntassem o que havia sido feito do gramado, e não em um octógono.

O time integrado por Gustavo, Paulo e Renato e outros oito jogadores candidatos à seleção brasileira de futebol comemorou a vitória, no campo, em um churrasco, após a turma do deixa-disso apaziguar os ânimos dos jogadores mais exaltados do time derrotado, jogadores que desejavam converter o campo de futebol em um campo de batalha. Um deles, Edmundo, embora destituído de habilidade futebolística, atribuía-se talento ímpar, e dizia que se rivalizava com Pelé e Garrincha. Desconhecia as regras básicas do futebol. Durante o jogo, ele chegara ao desplante de pôr o dedo em riste no nariz do árbitro – que não se curvou diante dele – e descarregou a sua raiva na bola, nos jogadores do time adversário e nos do próprio time, toda vez que um destes dava um passe errado, ou, ao chutar a bola para o gol, o goleiro a agarrava, ou a bola ia para fora.

A alegria foi incontível durante a comemoração, os jogadores do time vitorioso, e os do time derrotado, que chutaram a tristeza para escanteio e participaram da festa comemorativa como se vitoriosos fossem. Edmundo, é desnecessário dizer, não participou da festa. Havia se retirado do campo, resmungando, amaldiçoando os jogadores vitoriosos, prometendo vingança, exigindo uma revanche. Foi ao seu carro, trocou de roupas, na companhia de três jogadores do seu time – todos, enfezados, destilavam ódio e descarregavam obscenidade. Pouco depois, entraram no carro, e foram-se embora.

A festa comemorativa estendeu-se por três horas. Renato elogiava Paulo sempre que evocava Gislaine. Seus comentários, misto de louvores à beleza de Gislaine e obscenidades. Paulo, ligeiramente constrangido devido às licenças poéticas que Renato assumiu, não teceu comentários, e tentava desviar a conversa para outros assuntos. Falaram de futebol, de política, de filmes, de relações internacionais. Renato apresentou comentários estapafúrdios sobre os mais diversos assuntos, todos hauridos de telejornais e de sites sensacionalistas.

Na viagem de regresso, iam, Renato ao volante, Paulo, no banco do carona, e, no banco traseiro, Gustavo, Marcos e Jefferson. Renato evocou, mais uma vez, Gislaine, e exigiu de Paulo uma narrativa minuciosa das aventuras da véspera. Gustavo, Jefferson e Marcos engrossaram o coro. Paulo conservou silêncio sepulcral a respeito, apesar do assédio de que era vítima e das ameaças recorrentes de seqüestro e tortura.

Às seis horas da tarde, Paulo telefonou para Gislaine. Marcaram um encontro, às oito da noite, no restaurante Ba***. Gislaine antecedeu-se a Paulo em dez minutos. Estava deslumbrante. O seu vestido, mesclado de cores verdes e azuis de diversas tonalidades, modelava-lhe o talhe, realçava-lhe os atrativos. O decote, conquanto discreto, revelava-lhe as formas suaves do busto. Os cabelos volumosos encaichoeiravam-se-lhe pelos ombros, costas e busto; os brincos iridescentes adornavam-lhe o belo rosto. Paulo, ao entrar no restaurante, conduzido por um garçom, boquiabriu-se, embevecido, ao fitar Gislaine à mesa. Saudou-a, e elogiou-lhe a beleza. Gislaine, envaidecida, acolheu os elogios, e sorriu, encabulada.

Durante o jantar, que se estendeu das oito à meia-noite, Paulo e Gislaine degustaram de pratos saborosos e conversaram. Narraram um para o outro episódios da própria vida, felizes e tristes, contaram anedotas, e trataram de questões que estavam fora da alçada deles, a respeito das quais, entretanto, teceram alguns comentários. Riam à toa. Continham-se, para não gargalharem. Em não raras ocasiões, Gislaine surpreendeu Paulo alheado, desatento, sorridente, e perguntou-lhe se ele a ouvia, e ele disse que sim, que a ouvia, e ela lhe perguntou a respeito do que falava, e Paulo, constrangido, sorria – ou simulava constrangimento -, e ela lhe dizia que estava magoada, e fazia beicinho. E ambos riam.

Paulo conduziu Gislaine à casa dela. Na sala, beijaram-se e estreitaram-se num abraço caloroso.

*

– Te vi e a Gislaine – disse Renato -, ontem, à noite, no restaurante Ba***.

– Por que não nos foste cumprimentar? – perguntou-lhe Paulo.

– Não quis atrapalhar o jantar dos dois pombinhos – disse, jocoso, Renato.

– Que atrapalhar… – exclamou Paulo.

– Eu atrapalharia, sim. Além disso, eu estava acompanhado da Jú, e, segurando a vela, a Magali, que, por sorte, não é comilona.

– Segurando vela! – exclamou Paulo, indignado. – Não diga isso da menina. O pai dela está no hospital…

– É – sussurrou Renato, em tom compungido. – Eu e a Jú o visitamos, ontem. O sogrão melhorou. Está bem, tendo-se em vista o estado dele há uma semana… Clóvis… Por um triz… A família, de sobreaviso… Previram a morte dele… A sogrinha, que não é protagonista de piada de sogra… Não gosto de piadas de sogras. A minha mãe é sogra, sogra de uma nora e de um genro… Duas vezes sogra. Eu dizia que a sogrinha telefonou para os filhos e para as filhas, e deu-lhes a notícia. Encomendavam um caixão para o carequinha…

– O Daniel não te criticou?

– Criticar-me pelo quê? Por eu ter ido no jogo, ontem?

– É.

– Não. Não. Eu não iria ao jogo, mas a Jú, após eu lhe dizer que eu pediria para o Marcelo, irmão da Taís, a casada com o Vicente, ir no meu lugar, pois eu teria de desfalcar o nosso time, que não poderia jogar com dez jogadores, disse-me que eu fosse ao jogo. Fiquei sem graça. Ela me disse que eu precisava descansar, desanuviar a cabeça. Além de dez horas de trabalho por dia e das preocupações com o meu sogro, tive de me preocupar com a minha mãe e com o Leandrinho, maldito garoto peralta! Ele executou manobras radicais com a bicicleta, esborrachou-se no chão, e quebrou a perna, o maldito moleque!… Foi aquela correria. Passei por um aperreio que você não imagina… O Daniel, embora seja um cara intragável, e com ele não me bico, ontem, ao me encontrar, nada me disse. Não sei se ele sabe que fui ao futebol. Acredito que sabe. Ele não perde uma oportunidade de me censurar… Ele que me venha com aquele ar de besta, que lhe enfio um soco nas fuças, e o mando daqui para o cafundó-do-judas. Vamos esquecer isso. Diga-me, daí, ô bonitão, como foi o jantar com aquela belezura. Ela não é muita areia para o seu caminhãozinho, não?

Gargalharam.

– Desembuche, Paulo.

– Desembucha? O que é isso? Um interrogatório?

– Amigos não têm segredos para com os amigos.

– Sei. Tu tens uma sentença para quando queres extrair informações de alguém, ou fazer valer as tuas idéias, os teus pontos e vista, impô-los, ou desmerecer quem discorda de ti…

– Chi! – exclamou Renato, num misto de zombaria e azedume. – Tu fundirás teu cérebro, se persistires nessa lengalenga. Dá-lhe um fim, antes que tua cuca se bunfa… se funda. Basta de rodeios, Paulo. Diga-me o que aconteceu ontem. Tu e a Gislaine…

Simulando má vontade, Paulo deu-lhe um relato minucioso do ocorrido na véspera. Renato devotou-lhe toda a atenção do mundo, e disse-lhe, profético, que aquela novela se encerraria com os dois, Paulo e Gislaine, no altar, tendo, ao fundo, a Marcha Nupcial; constatou que os olhos de Paulo irradiavam, e o seu sorriso exibia, era inegável, paixão.

– Tu a apresentarás para mim e para a Jú – com essas palavras, Renato encerrou a conversa.

Na sexta-feira, à noite, Paulo e Gislaine, Renato e Juliana, Gustavo e Camila encontraram-se no restaurante X***. Renato e Gustavo admiraram Gislaine durante o jantar. Não passou despercebido de Juliana e Camila os olhares embevecidos com os quais eles a fitaram. A calça e a camisa que Gislaine vergava revelava a sua silhueta magistral. Juliana pensou em esganar Renato. Camila visualizou Gustavo com o pescoço na guilhotina. Ambas queriam decapitar Gislaine, furar-lhe os olhos, mutilá-la. Contiveram os ímpetos homicidas açulados pelo ciúme. É desnecessário dizer que houve, após o jantar, rusgas entre Camila e seu namorado e entre Juliana e seu marido. Também é desnecessário dizer que Paulo e Gislaine notaram os olhares dos seus amigos, o de Camila e o de Juliana.

O namoro de Paulo e Gislaine prosseguia. Discretos, eles não se expandiam, em público, nas exibições de carinho; se muito, um beijo rápido e abraços. Certa vez, uma amiga de Gislaine falou-lhe a respeito da discrição deles, em tom de reprovação; Gislaine disse que não protagonizavam cenas tórridas de paixão em público porque não viviam numa novela e não tinham porquê exibir, em público, com indiscrição, a paixão que nutriam um pelo outro. A sua interlocutora exibiu-lhe um sorriso de repulsa, e dela zombou, alcunhando-a quadrada, careta e antiquada.

*

– Quero casar de véu e grinalda, Paulo – disse Gislaine, ao mesmo tempo que, com as mãos espalmadas sobre o tórax de Paulo, afastava-o de si, e fitava-o nos olhos, com olhar constrangido, como que receando ferir-lhe os sentimentos.

– Gislaine – disse-lhe Paulo, medindo as palavras -, amo-te… desejo-te… Namoramos, há um mês… – as reticências decorriam da confusão de sentimentos sob ditames de duas forças polarizadas, disparadas uma contra a outra, que o impediram de pensar adequadamente: o amor que nutria por Gislaine e a raiva em ter de, mais uma vez, refrear os seus desejos. Não queria desrespeitá-la; esforçava-se por compreendê-la.

– Sei que tu me tem amor sincero. Vejo, nos teus olhos, no teu semblante…

– Tu me rejeitas…

– Não rejeito…

– Então…

– Amo-te, Paulo… Jamais senti tanto amor… Quero-te… Quero casar contigo.

– Tu sempre…

– Entenda-me, Paulo. Por favor, entenda-me. Quero ir para o altar de véu e grinalda… Pensei em deixar de lado os meus sonhos e… Paulo, entenda-me, por favor…

Paulo abaixou a cabeça, curvou-se, fincou os cotovelos nas pernas; conservou os dedos entrelaçados. Os seus pensamentos, vórtices devastadores, arrasaram-lhe o espírito. Gislaine enlaçou-o, e beijou-lhe a face esquerda. O contato daquele corpo voluptuoso inebriava-o. Paulo pensou em abandonar as suas reservas, atrair para si Gislaine, envolvê-la, estender-se em carícias, ditar-lhe palavras sedutoras, que a desguarnecessem, e ela, vulnerável, ceder-lhe-ia aos desejos, os quais ela refreava em nome de um valor para ela inegociável; conteve-se, entretanto. Gislaine passeou-lhe pelos cabelos as mãos sedosas, osculou-o no rosto e na testa, carinhosamente; com palavras cativantes, fê-lo sorrir ao descrever-lhe a vida em comum de marido e mulher felizes.

*

Renato e Gustavo, sempre que se encontravam com Paulo perguntavam-lhe a quantos quilômetros andava o namoro dele e Gislaine, e se eles já transgrediram alguma lei de trânsito por excesso de velocidade. Paulo sonegava-lhes as informações que eles, com perguntas de duplo sentido, faziam-lhe. Eles não desistiriam: De Paulo extrairiam, prometeram-se, informações reveladoras. O assédio o induziria a, involuntariamente, revelar qualquer coisa. E Renato e Gustavo redobraram os seus esforços, principalmente nos dias em que Paulo mostrava-se acessível, mas Paulo não cedeu um milímetro de sua posição.

*

Eram nove e meia da noite. Na avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso, no sentido centro-bairro, num carrinho de lanche, Rodolfo e Érica atendiam os seus cientes. Das seis da tarde até aquela hora serviram mais de vinte x-tudo, mais de dez x-salada, mais de dez x-eggs e mais de quarenta lanches de outras variedades – os quais prepararam com perícia incomum -, e mais de cem copos de refrigerantes de mais de dez sabores. Numa das mesas, sobre a calçada, uma televisão e um aparelho de DVD. Quatro clientes de Rodolfo e Érica – dois rapazes debruçados sobre uma mesa de plástico, sentados numa cadeira de plástico, com os cotovelos fincados na mesa, e um casal, ele, branco e loiro, ela, negra de cabelos compridos, sentados à uma mesa de plástico, as cadeiras justapostas, ele à esquerda dela – assistiam ao filme Transformers, fascinados com os robôs alienígenas e com os efeitos especiais. Em um certo momento, o homem perguntou para a mulher:

– Quando o Brasil produzirá um filme com efeitos especiais tão bons?

E respondeu-lhe ela:

– Quando os Estados Unidos produzirem filmes com efeitos especiais mil vezes melhores do que os que produzem.

Um carro estacionou a poucos metros do carrinho de lanches. Dele desceram Paulo e Gislaine. Ele trajava uma bermuda verde-abacate e uma camisa do Barcelona, tendo, às costas, um nome: Messi; ela, uma saia florida, que lhe descia até a metade das coxas, e uma camisa verde-claro decotada estampada de pequenas estrelas amarelo-alaranjadas. Aproximaram-se do carrinho de lanches. Saudaram Rodolfo e Érica. Sorridente, Gislaine perguntou para Érica se o sobrinho dela já nascera, e pediu-lhe detalhes. Érica disse-lhe que João Camilo, seu sobrinho, filho de Mariana, sua irmã, nasceu na quarta-feira, e forneceu-lhe outras informações a respeito dele: o tamanho, o peso, a cor dos cabelos. Enquanto Gislaine e Érica conversavam, Paulo pedia para Rodolfo dois x-tudo, e um suco de uva – “Tinto, seco ou suave?”, perguntou-lhe Rodolfo – e um suco de açaí – o de uva Gislaine o beberia; o de açaí, Paulo.

Os dois rapazes que assistiam ao filme enquanto comiam o lanche e bebiam do refrigerante, voltavam a intervalos de tempo não muito curtos, a atenção para Gislaine. À outra mesa, o homem branco e loiro olhava para Gislaine com certa insistência; ao sentir o olhar da mulher que o acompanhava projetando-se sobre si, desviava-o, e simulava interesse pelo filme.

Assim que chegaram três moças ao carrinho de lanches, Paulo e Gislaine foram até uma das mesas desocupadas, e sentaram-se, ele à direita dela. Pouco depois, Érica levou-lhes os x-tudo e os sucos. As três moças sentaram-se, cada qual em uma cadeira, formando um triângulo, e conversaram, animadas.

Os relógios não anotavam dez horas quando Gustavo desceu de uma bicicleta e acenou para Gislaine e Paulo. Saudou-a com um beijo no rosto, e Paulo, que, com as duas mãos segurava o sanduíche, com um tapinha nas costas. Paulo, a boca cheia, nada lhe disse.

Gustavo disse-lhes que compraria um x-tudo e um refrigerante, estacionou a bicicleta ao lado da mesa, e foi até o carrinho de lanches, pediu para Érica um x-tudo e um copo de refrigerante de guaraná, e retornou à mesa à qual sentavam-se Paulo e Gislaine, puxou uma cadeira para si, e nela sentou-se. Assim que esvaziou a boca, Gislaine perguntou-lhe de Camila.

– Briguei com ela – respondeu Gustavo, ríspido. – Não quero falar dela. Virei a página.

O seu tom de voz excitou a curiosidade de Paulo e Gislaine, que se entreolharam; nenhum deles, no entanto, atreveu-se a dar sequência ao assunto, e calaram-se. Gustavo, conquanto declarasse que não queria que Camila fosse o tema da conversa, poucos minutos depois tocou-lhe no nome, e, sem que Paulo e Gislaine lhe fizessem alguma pergunta, revelou-lhes o episódio da sua discussão com ela e do rompimento do namoro, definitivo, declarou. Gislaine e Paulo, vendo-o expandir-se nas confidências, extraíram-lhe, com perguntas aparentemente desinteressadas, relatos minuciosos do que ocorreu durante a semana. Paulo ficou, ao mesmo tempo, perplexo e desconfiado; perguntou-se se Gustavo dava-lhes um relato fidedigno do ocorrido, ou se criara um roteiro, no qual apresentava-se como uma vítima humilde, digna de comiseração, de uma mulher sórdida. A reputação de Camila não inspirava uma imagem tão negativa; Paulo não acreditava que ela fosse capaz de ato tão ignóbil. E Gustavo, que Paulo conhecia muito bem, não era flor que se cheirasse, sabia, e evocou o caso dele com a Denise (que Gustavo traiu, e com uma das amigas dela); sabia que não podia nele confiar. Gislaine ouviu atentamente a história narrada por Gustavo; não teceu nenhum comentário, e nenhum julgamento fez, pois mal o conhecia e mal conhecia Camila.

Ao se despedir, à meia-noite e meia, de Paulo e Gislaine, ao lado do carro de Paulo, Gustavo, montado na bicicleta, com o pé direito no pedal, estendeu a mão direita a Paulo, que lhe oferecera sua mão direita, e apertou-a; ato contínuo, deu um beijo no rosto de Gislaine, que lhe oferecera o rosto, e afundou o pé no pedal ao mesmo tempo que lhes desejava boa-noite. Não havia deles se distanciado cinco metros, voltou-se para trás, e, olhando por sobre o ombro direito, fitou Gislaine; e voltou-se para a frente; após verificar que não havia nenhum obstáculo à sua frente, olhou por sobre o ombro direito, e fitou Gislaine, e nela concentrou o seu olhar até ela entrar no carro.

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