Olimpíadas 2.052: O Último Atleta Atlético.

Notícia do Jornal Paraíso do Universo Novo, edição vespertina: A Humanidade Livrou-se da Última Quimera.

Realizou-se, hoje, às oito da manhã, no estádio A…, a mais aguardada prova do atletismo global, a dos cem metros rasos, da qual participaram três atletas de beleza mesmerizante e um exemplar de uma era que exala os seus últimos suspiros, de uma era que, para a felicidade dos humanos, está nos estertores da morte. Neste memorável dia, em todos os cantos do mundo, bilhões de pessoas assistiram a tão desejado espetáculo esportivo, evento grandioso que, além de apresentar ao mundo três esportistas excepcionais, os maiores que a civilização humana jamais conheceu, exibiu uma anomalia da natureza, um ser bizarro, comum na era incivil e bárbara, bruta e estúpida, que se esvai rapidamente, e está próxima a sua extinção, Tlob Niasu, um homem dotado da nefasta masculinidade tóxica. É Tlob Niasu um ser monstruoso, disforme. Tem um metro e oitenta e cinco centímetros de altura, e pesa oitenta e oito quilos; seu corpo, horrivelmente ossudo; sua figura, hedionda, de provocar asco em todas as pessoas. É ele uma criatura horripilante, de braços e pernas recortadas de músculos monstruosamente definidos, músculos a constituírem uma grotesca estátua de carne, e de um tronco desprovido da flacidez das belas e formosas pessoas do nosso tempo. É Tlob Niasu um espécime de tipos humanos de uma era que os humanos desejamos esquecer; é ele de uma era fadada à extinção – para a felicidade e a harmonia universais. É ele o último exemplar do tempo de irracionais bípides implumes. Os outros três competidores são atletas notáveis, donos de invejáveis talentos atléticos e intelectuais, e psicológicos e espirituais. São eles 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8. São os três modelos perfeitos de beleza física. Tem 0/21/32-3 um metro e sessenta e cinco centímetros de altura; seu corpo é composto de uma espessa camada de gordura de uma beleza ímpar a formar dobras excepcionalmente belas; tão forte, tão poderoso, de uma força descomunal, carrega os duzentos e quarenta e seis quilos de seu corpo com a destreza do deus da velocidade; nas suas coxas poderosas, as camadas sobrepostas de rica gordura sob pele de textura macia cobrem suavemente os joelhos. 6/33-3, homem de corpo esférico, desprovido de pescoço, é de uma robustez e poder titânicos de embasbacar todo ser mortal; os seus duzentos e sete quilos compactados num corpo de um metro e cinquenta e quatro centímetros de altura dão-lhe uma consistência invejável. E o terceiro dos formosos atletas, 0-0/6-30/8, dos três o mais atraente, carrega um corpanzil extraordinariamente gracioso e bem torneado, de um metro e sessenta centímetros de altura e duzentos e sessenta quilos, adornado com um ventre bojudo, extraordinariamente saliente, belamente arredondado, como que esculpido pelo mais talentoso dos escultores. A beleza destes três maravilhosos e belos atletas contrastam com a feiúra apolínea de Tlob Niasu, um tipo repugnante, tipo que, felizmente, é o último espécime de uma era bárbara, a de nossos mais próximos ancestrais, seres inferiores, que muitos defeitos nos legaram, defeitos dos quais estamos a nos livrar, para o bem da humanidade.

Na pista de corrida, os três formosos e elegantes atletas e o bárbaro desgracioso, que exalava a sua monstruosa masculinidade tóxica da era patriarcal, que desconhecia a verdadeira essência da humanidade. Na arquibancada, multidão alvoroçada a ovacionar os três atletas e a apupar o bizarro bípede que insistia em exibir seu corpo seminu, desgracioso, repulsivo, de causar engulhos aos humanos. Exercitavam-se os quatro competidores, Tlob Niasu a erguer acima da cabeça os braços esquálidos e defeituosos, e a entrelaçar os dedos da mão direita com os da mão esquerda, e a mover o corpo esguio, desgracioso, de um lado para o outro, exibindo a flexibilidade corporal desavergonhada, e a estender as pernas, ora a direita, ora a esquerda, inclinando-se para a frente, e a segurar a ponta do tênis com as duas mãos, numa grotesca, asquerosa exibição de movimentos corporais, que lhe destacavam os músculos disformes do corpo esquálido. E 0/21/32-3 massageava, lentamente, com gestos suaves e elegantes, suas bochechas rechonchudas e rosadas e emitia, com sua bela voz de tenor, argentina, um canto melífluo; e 6/33-3, deitado, girava-se de um lado para o outro, compenetrado em bater, com a palma da mão direita a costa da mão esquerda, e com a palma da mão esquerda a costa da mão direita; e 0-0/6-30/8 careteava maravilhosamente e massageava, com movimentos circulares das mãos, as duas em sentido ora horário, ora anti-horário, ora cada uma seguindo um sentido, alternadamente, seu ventre formoso.

O árbitro da partida pediu aos quatro corredores que se aproximassem da linha de início, e Tlob Niasu, celeremente, numa postura deselegante, condenável, recompôs-se, correu até o ponto que lhe estava reservado, e, enquanto esperava os três atletas ajeitarem-se cada qual ao seu local de direito, saltitava, grosseiramente, a balançar, repulsivamente, seus músculos repugnantes. Vaiou-o a multidão presente. E ele, espécime bizarro de uma era bárbara, não se constrangeu; arrogante, persistiu em exibir sua grosseira agilidade e sua flexibilidade corporal desgraciosa. E os quatro competidores posicionaram-se cada qual no lugar que lhe estava reservado. E o árbitro da corrida disse-lhes que se praparassem para o início da prova, que se daria assim que o lenço branco, que ele segurava com a mão direita – e que ele soltaria – atingisse o chão. E o estúpido Tlob Niasu uma vez mais revelou-se um tipo desprezível, o que não surpreendeu ninguém; curvou-se para a frente, estendeu os braços, e pousou os dedos, as mãos abertas, os dedos distantes uns dos outros, no chão, sem no chão encostar as palmas das mãos, e estendeu a perna esquerda e dobrou a direita, preparando-se para correr. E o árbitro soltou o lenço; e o lenço atingiu o chão. E em menos de dez segundos, Tlob Niasu cobriu os cem metros, e rompeu a faixa vermelha que indicava a linha de chegada. Apuparam-lo todos os humanos presentes no estádio. Ridícula, patética, a atitude do bárbaro pretensioso. Ele ergueu os braços e sorriu, feliz, a cantar vitória, imerecida vitória. Os três atletas, numa postura digna e louvável, soltaram-se, elegantemente, no chão, e serenamente esbravejaram e esgoelaram-se, num misto de raiva e indignação, e liberaram de seus olhos belos lágrimas cristalinas, que reluziram ao sol. Dos organizadores da prova o público exigiu regras justas. Os organizadores da prova num erro imperdoável ao estabelecer regras que favoreciam, criminosamente, o monstruoso, disforme Tlob Niasu. Ao confabularem durante cinco minutos, reconheceram que outra corrida os quatro corredores teriam de realizar, agora sob regras justas, e desculparam-se com o público, num tom de voz que deles transparecia constrangimento. Ponderaram: 0/21/32-3 correra cinco metros e sessenta centímetros, e 6/33-3 cinco metros e setenta centímetros, e 0-0/6-30/8 cinco metros e sessenta e oito centímetros, no mesmo tempo que o desprezível portador de masculinidade tóxica, Tlob Niasu, cobrira os cem metros; a prova nova, portanto, atendendo aos princípios elementares da justiça, contaria com regras que não favoreceriam Tlob Niasu: assim que o árbitro soltasse o lenço, e o lenço atingisse o chão, os três exímios e talentosos atletas, 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8 correriam com toda a velocidade que suas poderosas e formosas pernas lhes permitiriam, e assim que atingisse, o primeiro deles, os noventa e cinco metros, o árbitro daria sinal para Tlob Niasu correr. E assim foi feito. E o bárbaro, desprezível Tlob Niasu, numa exibição asquerosa de sua masculinidade tóxica, ultrapassou os três heróicos atletas, e rompeu, antes deles, a faixa vermelha que indicava os cem metros. E os três atletas, com a elegância de movimentos que lhes fizeram a fama, soltaram-se, no chão, indignados, enfurecidos, e justamente indignados e enfurecidos, e gesticularam bravamente, os olhos marejados de lágrimas de descontentamente com a injustiça que os vitimou, e clamaram, heroicamente, por condições competitivas mais justas. E o público vaiou Tlob Niasu, que comemorava a vitória imerecida, vitória que obtivera sob regras injustas. A sua alegria não durou muito tempo; logo foi ele obrigado a suprimir do rosto o repulsivo, deselegante sorriso. Reuniram-se os organizadores da prova uma vez mais para deliberarem novas regras competitivas. Ao encerramento da palestra, ele anunciaram as novas regras, estabelecidas após reconhecerem que não haviam, ao definirem as regras da segunda corrida, um detalhe, que não consideraram na equação: os três ágeis atletas se esgotariam durante o esforço de correrem os noventa e cinco metros, perderiam fôlego, desacelerariam o avanço rumo à vitória, e não correriam os cinco últimos metros da prova em tempo que lhes permitisse sobrepujar, em condições de equivalência competitiva, o adversário horrível e inescrupuloso, Tlob Niasu, resquício horripilante de uma era bárbara, incivil.

Agora, estabelecia-se a regra justa: 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8 principiariam a corrida, após o lenço que o árbitro soltaria, atingir o chão, na linha que indicava noventa e nove metros da pista, um metro antes da linha de chegada, enquanto o desprezível Tlob Niasu principiaria a sua jornada rumo à humilhação pública no ponto inicial. O público vibrou de emoção, eufórico. Assobiaram, felizes, alegres, contentes, as pessoas presentes na arquibancada. Elas reconheceram a justeza das regras. Aplaudiram, estrondosamente, os organizadores da prova, homens que, enfim, dever cívico incontornável a iluminar-lhes a mente, elaboraram regras justas, humanitárias. E deu-se a largada. E os três fenomenais, excepcionais atletas sobrepujaram, com incrível, impressionante facilidade, o desgracioso Tlob Niasu, homem desprezível, dele exibindo para todo o mundo a ausência de talento para o exercício de esporte tão nobre.

Foi premiado com a medalha de ouro 0-0/6-30/8, com a de prata 0/21/32-3 e com a de bronze 6/33-3. Ovacionou-o o público alvoroçado, eufórico. E Tlob Niasu, de cabeça baixa, semblante entristecido, de um homem inferior, de um tipo desprezível, retirou-se do estádio, sob vaias tempestuosas da multidão, que aplaudia os três heróis do atletismo global.

Minutos após o encerramento do grandioso espetáculo esportivo, Tlob Niasu reapareceu em público, exibiu sua carcaça putrefata, de homem incivil, horrível e repulsiva, de uma esqualidez cadavérica, repugnante, pálida, de olhos fundos, sem vida, e anunciou a sua aposentadoria. Disse, num tom de indisfarçado orgulho ferido, ególatra que é, que se recolheria à sua casa, e dela jamais se retiraria, e o fez num tom que dava a entender que os humanos, e não ele, perderíamos com tal decisão. E recolheu-se o ilustre ser das trevas aos bastidores. Oxalá ele jamais se exiba ao público! Os humanos não desejamos ter diante dos olhos a figura dele, figura disforme, anômala, que nos fere em nossa sensibilidade superior. O mundo estará melhor sem ele, e sem ele poderá progredir até atingir a perfeição à qual está predestinada.

Em um futuro não muito distante – parte 8 de 8

Mário acordou às dezesseis horas, e foi à biblioteca, onde, antes de outra pessoa acordar, leu um capítulo de um romance russo do século XIX. Rodolfo acordou, minutos depois, e foi à biblioteca. E saudaram-se e abraçaram-se pai e filho. E encetaram conversa. Mário pôs um marcador de página na página em que interrompera a leitura assim que seu pai assomara ao enquadramento da porta da biblioteca, e o livro ele o deixou sobre a escrivaninha. Rodolfo perguntou-lhe se ele havia recebido os jornais daquele dia, e dele ouviu resposta afirmativa. Mário pegou os jornais de sobre a mesa, e entregou-lho o exemplar do jornal A…, e conservou consigo o exemplar do jornal B… Leram algumas notícias, e as comentaram. Rodolfo leu, em voz alta, os textos a cujos autores ele atribuiu irrepreensíveis lucidez e sensatez. Mário leu uma nota curta ao canto de uma página, nota que ele considerou mais importante e interessante do que matérias de páginas inteiras que o jornal continha. E apresentaram Rodolfo e Mário os seus pontos de vista sobre o fato relatado. Abriram o caderno de cultura, e leram artigos que davam notícias de adaptações, para o cinema, de obras literárias do século XX, da apresentação de uma antiga peça hindu, do lançamento de livros de escritores renomados, e de música popular, música clássica, balé e dança. Interrompeu-lhes a leitura e a conversa Daniele, que lhes desejou um bom-dia, beijou o sogro, na face direita, e, nos lábios, o marido, e ofereceu-lhes a refeição, disse-lhes que a iria buscar, e retirou-se da biblioteca. E Mário e Rodolfo deram sequência à leitura do jornal, interrompendo-a, a curtos intervalos, para tecer alguns comentários. Rodolfo abriu o caderno de esportes, enquanto Mário lia o de economia, e leu, desalentado, sobre mais uma derrota do Atlético Mineiro, a sétima derrota consecutiva.

Daniele levou-lhes, em uma bandeja, a refeição: pães, café e biscoitos; e informou-lhes que já preparava o jantar. Mário e Rodolfo agradeceram, e ela retirou-se da biblioteca. Pouco tempo depois, Marcos Antonio e Aloísio na biblioteca entraram, Aloísio carregando, ao colo, seu sobrinho, que ria gostosamente. Saudaram-se. Mário pediu Lucas a Aloísio, que lho cedeu, e brincaram avô e neto. Rodolfo e seus netos conversaram. Marcos Antonio sentou-se ao braço direito do banco estofado ocupado pelo seu pai, pegou o jornal então sobre as pernas dele, e passou a folheá-lo em busca de alguma notícia que o interessasse. Aloísio permaneceu em pé, os braços cruzados ao peito, acompanhando, com os olhos, seu pai e seu sobrinho a se divertirem, ao mesmo tempo que falava com seu avô.

Não muito tempo depois, a biblioteca encheu-se de gente, que nela entrava e saía, incessantemente, e mexia nas revistas e nos livros com irrestrita liberdade, e falava sem cessar. A biblioteca, ampliada no ano anterior, três vezes maior do que a construída originalmente, tinha trezentos e cinquenta e seis metros quadrados. Além de livros, revistas e jornais, nela havia, no centro, uma mesa com oito metros de comprimento por um metro e meio de largura sobre a qual havia um globo terrestre, um microscópio, um telescópio e centenas de folhas rascunhadas sob um bloco de metal de um quilo. Em um canto da biblioteca havia um sarcófago egípcio (uma prateleira em cujo interior Mário guardava documentos preciosos; e ninguém, além dele, o abria); em outro canto, havia um esqueleto humano com o qual divertiam-se as crianças tocando-o no maxilar, mexendo-o, e assustando-se; as mais ousadas, pegavam-lo pelas mãos.

Na manhã seguinte, os familiares despediram-se, com votos de felicidade, de Mário, Daniele, Glória e Edson, e rumaram Rodolfo e Valquíria à África do Sul, e os outros regressaram cada qual à cidade em que moravam.

VI

Publicado o seu livro, o nome Mário Antunes Siqueira Neves Ferreira correu, uma vez mais, os quatro cantos do mundo. O livro obteve sucesso estrondoso em todos os países em que foi publicado; a respeito dele escreveram-se artigos encomiásticos. Laurearam Mário dezenas de academias literárias e institutos científicos. Mário Antunes Siqueira Neves Ferreira foi objeto de controvérsias em numerosos círculos científicos, literários, artísticos e culturais. As idéias dele estimularam debates, influenciaram o pensamento de intelectuais, pintores, músicos, cineastas, poetas e romancistas. Foi Mário, na opinião de inúmeros críticos literários, o fundador de uma nova escola literária. Muitos cientistas, críticos literários e escritores escreveram resenhas, publicadas em periódicos universitários, nas quais depreciavam o livro dele, atribuindo ao autor carência de faculdades literárias; o estilo dele era-lhes desprovido de arte; os livros dele eram, para alguns, trabalhos intelectuais medíocres de um homem que almejava, sorrateiramente, com as questões neles expostas, solapar a tradição cultural do Brasil. Nas entrelinhas de tais resenhas os leitores atentos liam despeito e inveja. O sucesso de Mário era incômodo para muita gente, afinal, nenhum livro dos escritores profissionais alcançou sucesso tão retumbante, tampouco um livro deles foi aclamado pela crítica independente e acolhido pelos leitores. Nos seis meses que se seguiram à publicação do livro de Mário, mais de cem livros, todos plágios do livro dele, foram expostos, nas prateleira das livrarias, em mais de vinte países. Mário enviou um exemplar de cada um de seus dois livros, autografado e com dedicatória, aos seus pais.

VII

Transcorreram-se os anos. Rodolfo faleceu, em uma tragédia ferroviária, um mês depois de completar o nonagésimo primeiro aniversário natalício. Valquíria viveria mais quatro anos. Samantha faleceu, no ano seguinte ao da morte de Valquíria, em uma cama de hospital, de câncer, doze dias antes de completar o centésimo aniversário. E Alceu não lhe sobreviveu muitos dias. Seis meses depois, faleceu Aloísio, em um acidente de carro. E foi nesse ano que Mário, andando pelo jardim A…, na cidade de B…, da megalópole P…, no Paraguai, enquanto conversava com um amigo, viu, ao se virar para o lado, “ele”, na calçada, no outro lado da rua.

Mário viu que “ele” estava envelhecido, e era idêntico a ele, Mário. Mário jamais conheceu irmãos gêmeos que, envelhecidos, tornaram-se velhos idênticos. A natureza, pensava, zombava dele, ria-se dele. “Ele” era um homem idêntico a ele, Mário. Idênticos os penteados, os gestos e os modos de andar de Mário e os de “ele”. Mário se perguntou se delirava, se “ele” envelhecido era “ele”, aquele homem que ele viu quarenta anos antes. Mário, que sabia para qual direção o seu amigo seguiria, disse-lhe que se lembrara de um compromisso, e teria de seguir outro rumo, e o seu amigo, desculpando-se, disse-lhe que não poderia acompanhá-lo. Era o que Mário dele desejava ouvir. Despediram-se. E Mário atravessou a rua, para ir atrás de “ele”. Afobado, acelerou os passos. Desejava alcançar “ele”. Corria, desajeitado, para alcançar “ele”, chamando a atenção de muita gente. Esbarrou em algumas pessoas, tropeçou em saliências das calçadas; andava, quase correndo, com velocidade superior à de “ele”; não o alcançava, todavia; aliás, dele ou mantinha a mesma distância, ou se afastava.

Perguntava-se se delirava. Sensação estranha, indefinível, rasgou-lhe o corpo. Suava sob o sol inclemente daquele dia tórrido. Mário enterrar-se-ia na demência? Por que, após quatro décadas, surgiu-lhe aos olhos aquele homem, que lhe havia inspirado numerosas dúvidas quanto à sua origem e transtornou-lhe o espírito? Mário, ora corria, ora andava a passos apressados, os olhos fixos em “ele”, sempre. O que devia pensar a respeito de si e de “ele”? Se tivesse indagado aos seus pais a respeito da sua origem… Mário não sabia se se arrependia, ou não.

Seguiu os passos de “ele”. Quando “ele” abeirou-se do meio-fio, e preparou-se para atravessar a rua, ouviu-se uma explosão, e ergueu-se, no céu, um cilindro de fumaça. E seguiu-se segunda explosão, mais forte do que a primeira. Um cogumelo vermelho, gigantesco, ergueu-se, e cresceu. E seguiu-se imensa labareda. Corriam, e atropelavam-se, milhares de pessoas, todas aterrorizadas. Encobriu o céu espessa nuvem de fumaça. Soavam sirenes de ambulâncias e de viaturas policiais. Afastavam-se do local da explosão pessoas, todas assustadas, cobertas de poeira, fuligem, e arranhões. Desencontradas as histórias que contavam. Onde Mário estava, mais de cinco quilômetros de distância do local das explosões, caíam pedaços de metal fundido e retorcido. As pessoas corriam para se proteger. Robôs encarregados da segurança pública pediam-lhes que se abrigassem em algum prédio, e àquelas que estavam em algum carro, que o abandonassem imediatamente e procurassem abrigo. Um bloco metálico flamejante, imenso, caiu sobre um carro, reduzindo-o a pó, matando as duas pessoas, um homem e uma mulher, que estavam no seu interior. Generalizou-se o pânico. Pessoas corriam, assustadas, apavoradas, em busca de refúgio.

Mário fitava “ele”; “ele”, parado, a olhar, ora para o céu, a verificar se nenhum destroço poderia cair-lhe na cabeça, ora para a direção das explosões. Mário queria aproximar-se de “ele”, mas a multidão, turbulenta, impedia-o de fazê-lo. Presenciara a pulverização do veículo em cujo interior havia duas pessoas, a poucos metros de si.

O calor recrudescia. Atingiam Mário ondas de ar quente. O solo tremia, e ouvia-se explosões oriundas do subsolo. Em algumas ruas, surgiram rachaduras de até vinte centímetros de largura e centenas de metros de comprimento. Estilhaçaram-se vidros das janelas de vários prédios. Muitas pessoas machucaram-se, atingidas por cacos de vidro; um pedaço de vidro, pontiagudo, varou um ancião, outro decepou a mão esquerda de um jovem. Uma mulher, atingida por centenas de estilhaços pequenos, morreu. Mário, a presenciar cenas aterradoras, não sabia se iria até “ele”, ou se se refugiaria em algum prédio. “Ele” andou até o meio da rua, onde uma mulher grávida estava caída; e desta aproximou-se outra mulher. “Ele”, achegando-se à mulher grávida, agachou-se, e ditou-lhe palavras confortadoras. Mário encontrou, enfim, acreditava, a oportunidade para encetar conversa com “ele”. Aproximava-se de “ele”. Distava dez metros de “ele”, nove metros… Oito metros o separavam de “ele”. Sete metros… Seis metros… Cinco metros… Muitas pessoas corriam, apavoradas. Muitas delas esbarravam em Mário. Olhos arregalados, suando frio naquele calor causticante, o coração a explodir, Mário aproximava-se de “ele”. Separavam-no de “ele” quatro metros. Três metros… Dois metros o separavam de “ele”… Um metro. Mário ouviu a voz de “ele”, idêntica à sua, Mário, quando “ele” dizia à gestante (que, deitada no asfalto, gritava de dor) que “ele” era médico e a ajudaria. Mário estacou. Volveu os olhos à gestante, à outra mulher que a atendia e a “ele”, que, agachado, acariciava a gestante no rosto deformado pela dor. Mário pensou na gestante aos cuidados de “ele”. Se Mário se pronunciasse, se se revelasse a “ele”, como “ele” agiria? “Ele” deixaria de atender à gestante? E as outras pessoas que se feriram? “Ele” era médico; desviar a atenção de “ele” para outras questões roubar-lhe-ia tempo, tempo que “ele” poderia ocupar socorrendo outras pessoas feridas. Intoxicavam-se as pessoas. Mário, petrificado, indeciso, poucos centímetros às costas de “ele”, poderia tocá-lo, nos ombros, que “ele”, supunha Mário, virar-se-ia, imediatamente, e tomaria conhecimento da sua, de Mário, existência. Mas, e depois? “Ele” socorreria outras vítimas da catástrofe? Mário chegou perto de se olhar para si mesmo – para “ele”. Estava paralisado, diante de si mesmo. Seu cérebro turbilhonava. Bastava um gesto… Entretanto, ele não o executou; não executou o gesto que o colocaria diante de si mesmo. Nos arredores, sirenes clamavam, anunciando-se. Aproximavam-se as ambulâncias. A mulher que auxiliava “ele” a ajudar a mulher grávida virou a cabeça para todos os lados, fitou Mário, e nele deteve os olhos, surpresa, e pediu-lhe que acenasse para uma ambulância. A gestante estava preste a dar à luz. Mário, que parecia em estado de letargia, despertou. A mulher disse que a gestante daria à luz uma criança. Mário, a cabeça latejando, afastou-se, de costas, pé ante pé, os olhos fixos em “ele”, e virou-se sobre os calcanhares, e correu até uma ambulância. Encostou a mão em um enfermeiro, que ajeitava um curativo na testa de um menino de três anos, que chorava ao colo arfante de sua mãe, e apontou para “ele”, à mulher que auxiliava “ele” e à gestante, e explicou-lhe o que ocorria. O enfermeiro, concluído o curativo, correu, célere, a atender à gestante, e chamou outros dois enfermeiros, que se prontificaram a auxiliá-lo. Um deles, dirigiu a ambulância até o local em que estava a gestante. Mário ficou a acompanhar “ele” ajudando os enfermeiros a pôr a gestante sobre a maca, e a maca na ambulância. A ambulância estrilou, e disparou. “Ele” e a mulher foram socorrer um idoso caído ao meio-fio, a perna esquerda imobilizada. Entendeu Mário, vendo “ele” socorrer outras pessoas, que a sua intervenção o atrapalharia e o impediria de atendê-las. Decidiu, então, de “ele” afastar-se antes que “ele” o visse. De “ele” afastou-se, cabisbaixo, e foi socorrer duas meninas – uma delas com um filete de sangue a escorrer-lhe pela têmpora esquerda, tendo, empapados, no alto da cabeça, os cabelos -, ambas apavoradas, paralisadas, encolhidas atrás de um carro azul. Ambas choravam convulsivamente. Muita gente corria, apavorada. Duas pessoas esbarraram em Mário, quase o arremessando ao chão. Ele se escorou em um carro, na primeira vez, e em um poste, na segunda. Uma tempestade de estilhaços caía nos arredores. Mário tirou as duas meninas de onde estavam, protegendo-as com o seu corpo, e deu início à corrida até o prédio mais próximo. Deu quatro passos. Atingiu-o, nas costas, na altura das omoplatas, um pedaço de metal incandescente. Contraiu o rosto, deformando-o, e proferiu um grito hediondo, abafado por gritos alucinados, buzinas frenéticas e estrondos ensurdecedores. As duas meninas sob a sua proteção ouviram dele o grito e os gemidos que se seguiram, e sentiram o pesado corpo dele. Mário reteve-as consigo. Um homem magro, de estatura mediana, esbaforido, procurando um refúgio para si, chocou-se, violentamente, com Mário, que foi para o chão e no chão ficou estirado de bruços, contorcendo-se e gritando de dor. O homem que o derrubara praguejou, disparou-lhe obscenidades, nele pisou, e correu. As duas meninas, imóveis, berravam, apavoradas. Um homem empurrou a que estava machucada na cabeça. Dois policiais socorreram Mário e as duas meninas. Um deles, forte, de rosto retangular, sua mão esquerda manchada de sangue, sangue de uma mulher que ele acudira poucos minutos antes, pegou Mário nos braços, enquanto o outro, também forte, pegou as duas meninas e carregou-as até o prédio mais próximo, o mesmo para o qual o outro policial carregara Mário. Minutos depois, uma ambulância levou Mário e as duas meninas para um hospital.

Mário acordou quatro horas após ter chegado, inconsciente, ao hospital. Dois representantes da Academia de T… (um deles, paraguaio, curtido de sol, descendente dos índios a…; o outro, paquistanês), daquela cidade, visitaram Mário. Alegraram-se ao vê-lo sentado, levando à boca um copo com água. E os três conversaram durante alguns minutos a respeito das explosões sucedidas no centro da cidade.

No hospital, Mário, quatro dias após a tragédia que quase lhe ceifara a vida, recebeu a visita da esposa e dos filhos. Eles, ansiosos, apreensivos, esperavam, horrorizados, deparar com Mário mutilado e irreconhecível. Que alegria ao vê-lo! Abraçaram-no, e choraram.

Transcorridos dois dias, regressaram ao Brasil Mário, sua esposa e seus filhos.

Dias depois, Mário e Daniele, na biblioteca da casa deles, conversaram a respeito do que ocorreu no dia da tragédia, antes das explosões. Ele reconstituiu o que viveu quatro décadas antes, após encontrar “ele” pela primeira vez. Amargas, tais lembranças. Mário e Daniele desejavam esquecê-las; não podiam, todavia.

Mário chorou. E Daniele ofereceu-lhe o ombro.

Transcorreram-se os anos. Mário e Daniele chegaram aos cem anos de idade. Durante as três décadas após o sucedido no Paraguai, partilharam os seus segredos, principalmente os que diziam respeito a Mário; aliás, não era um segredo, era um mistério. Setenta e dois anos os separavam do dia em que Mário viu “ele” pela primeira vez. E Daniele faleceu uma semana antes de completar o seu centésimo primeiro aniversário natalício. E Mário viveu até a idade de cento e vinte anos, cansado, triste, amargurado nos derradeiros anos da sua vida.

Em um futuro não muito distante – parte 7 de 8

Enquanto Rodolfo e Valquíria assistiam ao filme, no quarto contíguo Mário e Daniele conversavam; ele, cabisbaixo, dizia que não sabia o que pensar do que ouvira nas horas anteriores, se desconfiava de seus pais, se acreditava neles. Daniele expôs as suas opiniões. Para ela, Rodolfo e Valquíria não clonaram Mário; dele, portanto, não escondiam um segredo; conhecia-os muito bem. Mário, ríspido, disse que os conhecia melhor do que ela os conhecia, e não acreditava neles. Ouvindo-o, querendo compreendê-lo, ela atribuía as desconfianças dele à angústia que dele se apoderara; sem expressar os seus pensamentos, limitando-se a ouvi-lo desabafar, previu que ele, ao recuperar o domínio de si, não mais desconfiaria de Rodolfo e de Valquíria. Mário, confuso, abanava a cabeça, o cérebro tumultuado, dúvidas a atassalharem-lhe a alma. Não conseguiria viver com elas, disse; desejava purificar seu coração, acreditar em seus pais.

Mário não conseguiu conciliar o sono. Daniele, livre das elucubrações que perturbavam o seu marido, deitou-se, e dormiu, enquanto ele virava-se de um lado para o outro, pensava e repensava as mesmas questões e reconstituía as palavras e os gestos de seus pais. Mário ouvira o que eles haviam dito ou o que ele pensara ter-lhes ouvido? Ele não sabia no que acreditava. Temeu que alucinações se lhe apossassem da mente, mergulhando-o na demência; não divisava a perspectiva contrária aos seus temores. Sobrevindo-lhe, enfim, o sono, cerrou as pálpebras, e dormiu. Acordou, de manhã, virou-se, estendeu os braços, tateou a cama, à procura de Daniele – o lugar em que ela se deitara estava desocupado -, espreguiçou-se, bocejou, e acendeu as lâmpadas. Vestiu-se com roupas adequadas. E abriu a janela; e apagaram-se as lâmpadas. Calçou chinelos macios, e saiu do quarto, esfregando os olhos com os nós dos dedos. Chamou-lhe a atenção o silêncio reinante na casa. Olhou para o relógio, que marcava doze horas e dezessete minutos, à parede da sala. Dormira mais de oito horas. O seu estado de espírito não foi inteiramente renovado pelo sono. Desceu a escadaria, intrigado com o silêncio reinante, e na cozinha encontrou Daniele dando ordens para o robô-cozinheiro. Ao vê-lo, ela abriu um largo sorriso. E o robô saudou Mário, que retribuiu à saudação.

Mário beijou Daniele nos lábios. Exprimiu a sua surpresa com o silêncio reinante, e perguntou-lhe dos pais e dos filhos. Ela disse-lhe que eles haviam saído, para um passeio, antes das nove horas; iriam ao parque, ao museu e ao zoológico.

Mário e Daniele almoçaram e conversaram. A conversa foi regida pela prudência dela, que, antes de formular uma pergunta ou apresentar um comentário, pensava qual seria a reação dele. Cuidadosa, selecionou as perguntas que lhe faria e as palavras que empregaria. Ele deu respostas sucintas a várias perguntas, recusou-se a responder-lhe algumas, não comentou alguns comentários dela, e replicou-lhe, duas vezes, com rispidez. Ao reconhecer a sua atitude desrespeitosa e a indiferença e frieza com que lhe respondia à alguma pergunta e reagia a algum comentário, pedia-lhe desculpas, olhava para ela, penetrando-lhe nos olhos seus olhos, e, num tom de voz quase ausente, suplicava-lhe que não o julgasse mal, pois atormentavam-lo dúvidas excruciantes.

Após o almoço, Daniele foi ao consultório. E Mário, na biblioteca, escreveu as primeiras palavras do livro que só traria à luz dezenove anos depois, e, na seqüência, um artigo científico que apresentava o resultado das suas observações e das pesquisas que havia realizado semanas antes, e para uma revista popular de grande circulação, um artigo tratando das mais recentes descobertas da neurologia e do aprimoramento de robôs que carregam, alojados no cérebro artificial, uma parcela da inteligência humana, e, para uma publicação juvenil de periodicidade quinzenal, um artigo no qual expôs os princípios básicos da neurologia. Para que os leitores deste artigo assimilassem as idéias nele trabalhadas, traduziu o vocabulário científico, com o qual estava habituado, para uma linguagem acessível aos leigos. Foi este o primeiro artigo que escreveu para uma revista juvenil; inexperiente, deparou-se com obstáculos quase intransponíveis. A pensar nos verbos, advérbios, adjetivos e substantivos que empregaria na redação do artigo, manejou, com dificuldade, a caneta esferográfica, fincado o cotovelo na mesa, e a mão a cofiar uma barba imaginária e a alisar o queixo. Escrevia uma palavra, riscava-a, escrevia outra palavra, e riscava-a. Após incontáveis tentativas frustradas, obteve o resultado desejado. Sentia-se exausto, encerrada a redação do artigo. Espreguiçou-se. Levantou-se. Ligou a tela, e acessou o endereço da Academia. Conversou, durante três horas, com dois cientistas – um chinês, cuja barba, venerável como as dos antigos sábios, estendia-se por longos quarenta centímetros e terminava em ponta, amarrada com um barbante, e um brasileiro -, a respeito de um projeto em que se empenhava. E o chinês tratou da necessidade de aquisição de novos equipamentos, alguns importados, outros nacionais, para evitar o adiamento da conclusão do projeto, o que oneraria as pesquisas, podendo vir a inviabilizá-las, e o brasileiro falou dos mais recentes decretos governamentais, que restringiam as pesquisas científicas, e dos desdobramentos da robótica, da informática, da medicina, da astronáutica. Eram imprevisíveis, concordaram os três cientistas, as ressonâncias, nas ciências, dos desmandos políticos de governos retrógrados e de ministros chauvinistas, que, no Brasil e em muitos outros países, patrocinavam, nas políticas do Estado, mudanças bruscas, imprevisíveis e drásticas.

Encerrada a conversa, Mário disse-lhes que lhes enviaria os artigos que redigira, despediu-se deles, e retomou a redação do livro que só daria à luz dali dezenove anos. O robô levou-lhe uma bandeja contendo pão de milho, pão italiano, biscoito, uma laranja, quatro morangos, duas nactarinas, um pêssego, suco de laranja e suco de acerola, e retirou-se ao deixá-la, na mesa, à esquerda dele.

Tirou Mário das prateleiras duas dezenas de livros, folheou-os, febrilmente, e pô-los, abertos, uns por sobre os outros, em cima da escrivaninha. Ora tirava o livro que colocara embaixo de todos os outros, para consultá-lo, ora fechava um livro, para abri-lo, depois, noutra página, ou na mesma página. Em alguns momentos, agitava-se; noutros, recostava-se ao espaldar da cadeira, cruzava as pernas, a esquerda por sobre a direita, desleixadamente, e lia o texto rascunhado no papel, e corrigia-o, ou suprimindo, ou adicionando, palavras, frases, parágrafos, substituindo um verbo por outro verbo, um substantivo por outro substantivo, um advérbio por outro advérbio, um adjetivo por outro adjetivo, até chegar ao texto definitivo, acessível ao público leitor ao qual o destinava.

Principiava a noite. Daniele chegou, trazendo sacolas, e caixas, que continham lembranças para os sogros. Ao estacionar, na varanda, o carro, perguntou de Mário para si mesma. Não o encontrando na sala, deduziu que ele estava na biblioteca. A montanha de livros que viu, na mesa, na biblioteca, não a surpreendeu. Saudou Mário, beijou-lhe os lábios, e arrebatou-lhe das mãos as folhas de sulfite e a caneta esferográfica, sentou-se-lhe sobre as pernas, passou-lhe o braço direito pelo pescoço, cruzou os dedos da mão direita com os da mão esquerda ao ombro direito dele, beijou-lhe os lábios, e perguntou-lhe o que ele fez durante o dia. Ele enlaçou-a pela cintura, pediu-lhe outro beijo, e ela atendeu-lhe ao pedido. Disse-lhe que conversara com cientistas da Academia, pela tela, sobre os projetos aos quais dedicava-se, redigira artigos para dois periódicos populares, um, juvenil, o outro, de divulgação científica, e escrevera o rascunho de um livro. Repreendendo-o ternamente, ela lhe disse que ele precisava descansar, e parafraseou um poeta popular. Riram. Mário acolheu a exortação. Daniele beijou-o, levantou-se, segurou-lhe as mãos, e puxou-o, para tirá-lo da biblioteca, que, disse, estava cheia de velharias e repleta de traças, que se banqueteavam com as velharias que lá se amontoavam: milhares de cartapácios, opúsculos e alfarrábios do tempo dos bisavós e palimpsestos de eras antediluvianas. Foram à cozinha. Enquanto Daniele preparava a refeição, Mário falava do que pensara a respeito dos acontecimentos recentes e da conversa, na véspera, com seus pais.

Marcos Antonio e Aloísio, ambos animados, retornaram, com seus avós, do passeio, abraçaram seus pais, e, sem tomar fôlego, puseram-se a falar-lhes, esbaforidos. Mário pediu-lhes calma e disse-lhes que eles se banhassem enquanto a mãe deles preparar-lhes-ia o jantar. E eles saíram, correndo, da cozinha, rumo ao banheiro. Enquanto eles se banhavam, Rodolfo e Valquíria, ambos transparecendo fadiga, saudaram o filho e a nora, e narraram-lhes alguns dos incidentes, que lhes puseram os cabelos em pé e arrepiaram-lhes os pêlos do corpo. Marcos Antonio e Aloísio driblaram a vigilância dos avós, contou Rodolfo, divertido com a reconstituição das estripulias dos netos. Valquíria pediu licença, retirou-se da cozinha, e foi ao carro em cujo banco traseiro esquecera os doces, e regressou, pouco tempo depois, com um pacote nas mãos, do qual tirou três potes e os pôs na geladeira: eram, um, de marmelada, que Mário apreciava desde a mais tenra infância; um, de pé-de-moleque, para os netos e Daniele; um, de quebra-queixo, guloseima que Mário há muito tempo não saboreava. Mário avançou, de imediato, ao quebra-queixo, e pediu a lata de marmelada. Daniele entregou-lhe uma faca; ele tirou-lha das mãos, abriu o pote de marmelada, e cortou da marmelada um pedaço, levou-o à boca, e saboreou-o. Em seguida, quebrou o queixo. Satisfeito, guardou os doces restantes na geladeira, e agradeceu à mãe e ao pai por lembrarem-se de lhe comprarem aquelas delícias, néctar dos deuses.

Não muito tempo depois, Marcos Antonio e Aloísio regressaram à cozinha. E Daniele pediu-lhes que fossem à copa. Eles a obedeceram. Mário e Rodolfo os acompanharam. E Daniele e Valquíria, na cozinha, prepararam a refeição. Rodolfo pediu para seus netos mostrarem ao pai deles os bonecos que ele, Rodolfo, comprara-lhes – deixara-os, numa caixa, na sala, disse-lhes. Os meninos correram até a sala, retiraram das caixas os bonecos, e regressaram à copa. Eram bonecos eletrônicos comandados pela voz humana; tinham vinte centímetros de altura; humanóides, eram constituídos de dezenas de poliedros dúcteis revestidos com borracha sintética, que se assemelhava à pele humana, corpo de musculatura bem definida, tórax amplo, ombros largos, pescoço grosso, cabelos curtos e lisos, nariz empinado. O de Marcos Antonio trajava tênis esportivo, short e camisa azuis; o de Aloísio, amarelos. Mário pegou o de Marcos Antonio, e apalpou-o. Os cabelos do boneco, notou, eram verdadeiros. Marcos Antonio pediu para seu pai colocar o boneco sobre a mesa. Assim que ele atendeu-lhe ao pedido, falou ao controle remoto, e o boneco descerrou as pálpebras, e proferiu uma frase, expressando a sua incondicional obediência às ordens do amo, como o gênio da lâmpada de uma antiga história. Mário aproximou-se do boneco, para olhar-lhe nos olhos; e Marcos Antonio aplicou em seu pai uma peça: deu uma ordem ao boneco: que ele desse uma pirueta. Mário recuou a cabeça, surpreso – o boneco quase acertou-lhe o nariz. Riram todos. Aloísio acionou o seu boneco, deu-lhe algumas ordens, e ele executou piruetas e malabarismos. Os dois garotos exigiam a atenção do pai e do avô para os malabarismos que executavam com os bonecos, que pulavam sobre a mesa, corriam por sobre ela, pulavam no chão, escalavam a prateleira, a cadeira, a mesa, e, intensificada a rivalidade entre Marcos Antonio e Aloísio, batiam-se, ferozmente, engalfinhados. Mário, uma vez, repreendeu seus filhos; pediu-lhes que cessassem a luta entre os bonecos antes que alguém se machucasse. Tal comentário produziu uma onda de gargalhadas. Valquíria, chegando à copa, fitou-os, intrigada, e perguntou o que ocorria de tão engraçado. Marcos Antonio disse-lhe o que se passara, e ela abanou a cabeça, rindo, numa alternância de olhares, dirigindo-os ora ao marido, ora ao filho, ora aos netos, e regressou à cozinha, rindo. Marcos Antonio desafiou Aloísio para uma corrida de bonecos, e ele aceitou o desafio. Sugeriu que os dois fizessem os bonecos escalarem a prateleira, correrem até o final do corredor, regressarem, escalarem a cadeira, e subirem na mesa. Mário pediu-lhes que fossem cuidadosos. Os dois garotos emparelharam os dois bonecos. Marcos Antonio fez a contagem regressiva a partir de três, e, ao gritar “Já!” os bonecos puseram-se a correr. E o seu assumiu a dianteira; e Aloísio esperneou. Mário interveio na discussão entre seus filhos, declarou que faria ele, Mário, a contagem regressiva e diria o “Já!” da partida, e não Marcos Antonio. E emparelharam os garotos os bonecos. O de Aloísio, segundo Marcos Antonio, estava um pouco à frente do seu. Mário verificou a disposição dos bonecos, e viu o de Aloísio um milímetro, talvez um pouco mais de um décimo de milímetro, à frente do de Marcos Antonio. Rodolfo sorria.

Daniele arrumou a mesa e, vendo os filhos discutindo, o marido esforçando-se para acalmá-los, e o sogro rindo, riu também.

Arrefecidos os ânimos de seus filhos, Mário fez a contagem regressiva a partir de cinco; ao gritar “Já!”, os bonecos, respondendo, cada um deles, ao comando de uma voz, um, à de Aloísio, o outro, à de Marcos Antonio, deram início à corrida, saltaram à prateleira, percorreram-na ao largo, desceram pelo outro lado, com um salto, e, ao caírem no chão, encolheram-se, dobrados os joelhos, e mãos no chão, e puseram-se de pé. O boneco de Aloísio ia uma cabeça à frente do de Marcos Antonio. Marcos Antonio mordia ora o lábio inferior, ora o superior, ora punha a língua para fora e a mordia. Os bonecos chegaram ao final do corredor, o de Aloísio à frente do de Marcos Antonio. Executaram, rapidamente, o giro sobre o próprio corpo, dando meia volta, e correram, em sentido contrário, pelo corredor, atravessaram-no, e chegaram à copa, emparelhados, saltaram à cadeira vazia, e da cadeira à mesa, lado a lado. Encerrada a corrida, principiaram os dois garotos uma discussão para decidir qual boneco a ganhara. Marcos Antonio afirmava que fôra o seu. Aloísio refutava-o. Nenhum dos garotos admitiu a derrota. Desta vez, Mário e Rodolfo uniram forças para apaziguar os ânimos dos garotos. Disseram que os bonecos empataram. Os garotos não admitiram o empate. Marcos Antonio ameaçou quebrar o nariz do boneco de seu irmão. Rodolfo continha o riso. Caricatural, a escaramuça de seus netos. E Mário, enfim, conseguiu acalmar os ânimos de seus filhos.

Servida a refeição, confraternizando-se, os comensais encetaram conversas, ora sobre assuntos que todos, inclusive Marcos Antonio e Aloísio, podiam opinar, e ora dividiam-se em conversas paralelas: Daniele falando com Valquíria, Rodolfo com Mário, e Aloísio com Marcos Antonio. Uma variedade de assuntos foram postos na mesa. Marcos Antonio falou de desenhos animados; Aloísio, de carrinhos de rolimã; Mário, dos critérios definidos, pelo governo federal, para investimentos em ciência e tecnologia, que, no seu entendimento e no de outros cientistas da Academia, seriam prejudicados; e Rodolfo, a par da questão, expôs as suas opiniões a respeito; e Valquíria declarou que uma academia nigeriana e uma academia queniana contrataram ela e Rodolfo, e registrou, sublinhando a notícia, para regozijo de seu filho e de sua nora, que fariam, ela, Valquíria, e Rodolfo, parte do conselho deliberativo das duas instituições. Na sequência, trataram da miséria e das doenças que assolavam os países africanos, os países asiáticos e os mais pobres países americanos, arrasados por intempéries naturais e catástrofes políticas.

E Rodolfo contou anedotas, que fizeram a alegria de Marcos Antonio e Aloísio.

Tarde da noite, encerrado o jantar, todos dormiram.

Nos dias seguintes, Rodolfo e Valquíria passearam com os netos e visitaram Alceu e Samantha. Reviveram a infância, a juventude. Reconstituíram o casamento de seus filhos. Falaram de inúmeras coisas da vida, pequenas e agradáveis.

Rodolfo e Valquíria encontraram-se, durante aqueles dias, com Paulo, Catarina e Pâmela. Visitaram amigos, um deles, o professor Gustavo Augusto da Silva, e outro, Mário, em cuja casa evocaram, durante um dia, as reviravoltas com as quais a vida surpreendeu-os, lembranças tristes e lembranças agradáveis. Ao despedirem-se, renovaram os votos de amizade.

Enfim, chegou o dia da despedida de Rodolfo e Valquíria.

No aeroporto, ocorreu um incidente constrangedor: um homem de vinte e poucos anos aproximou-se de Rodolfo, ofendeu-o, contra ele arremessou um ovo, atingindo-o, entre os olhos, na base do nariz; as pessoas próximas deles, estupefatas, olhavam, assustadas, umas, intrigadas, outras, para o agressor e para Rodolfo; os seguranças do aeroporto agiram imediatamente; o agressor cuspiu ofensas, agressivo, desvairado e doentio; Daniele atraiu para si Marcos Antonio e Aloísio, que acompanhavam, confusos e assustados, o que se passava; dois policiais, um deles de dois metros de altura, o outro de estatura mediana, imobilizaram o agressor de Rodolfo, e deste o afastaram. Muitas pessoas assistiram ao incidente, abanaram a cabeça, repudiaram a atitude despudorada, obscena e irracional do homem ensandecido. Policiais dispersaram a multidão que se ajuntara nos arredores. Um deles pediu aos outros, em tom baixo, atenção redobrada, e disse-lhes que conhecia o homem agredido e que a investida fôra, acreditava, premeditada, e envolvia, desconfiava, outras pessoas, todas preparadas para arremeterem-se contra Rodolfo.

Rodolfo limpou o rosto com o lenço que lhe entregara uma policial. Outros policiais aproximaram-se, e perguntaram acerca do incidente.

Aloísio e Marcos Antonio foram até o avô, e o abraçaram.

Despediram-se Rodolfo e Valquíria de seu filho, de sua nora e de seus netos.

Lágrimas escorreram aos olhos de todos eles.

Rodolfo e Valquíria, o coração confrangido, davam alguns passos, voltavam-se, e acenavam para os que deles despediam-se. Voltaram-se quando começavam a subir os degraus da escadaria que levava ao avião, e agitaram os braços. Acenaram para eles o filho, a nora, os netos, e familiares e amigos.

No carro, rumando para casa, Mário soltou um longo suspiro, pensando na felicidade de seus pais e no dilema que enfrentou nos dias anteriores. Decidiu que iria compartilhar, dias depois, com Daniele, os seus pensamentos a respeito das dúvidas que tanto o atormentavam.

Silenciosa, a viagem de regresso para casa. Mário e Daniele não se surpreenderam com o silêncio dos filhos. Na casa, os garotos expressaram, com franqueza, a saudade que já sentiam de seus avós.

IV

Onze anos após o nascimento de Aloísio, Daniele presenteou o mundo com uma menina, Glória.

Mário, Daniele, Marcos Antonio, Aloísio e Glória viajaram pelo Brasil e por outros países.

Conquanto a felicidade habitasse-lhe o coração, Mário mergulhava, de tempos em tempos, em suas cismas; e incomodavam-lo sobremaneira as dúvidas acerca da sua origem. Amparava-o Daniele.

Dois anos após o nascimento de Glória, Daniele deu à luz Edson, um dia antes do trigésimo oitavo aniversário de Mário.

Transcorreram-se os anos.

Marcos Antonio ingressou na marinha.

Aloísio enfrentava, aos dezoito anos, contratempos incontornáveis.

Glória, aos sete anos, pianista talentosa, apresentava-se para platéias fascinadas com o seu virtuosismo. Desde os quatro anos de idade a dedicar-se à música, acompanhava, de ouvidos, algumas das composições mais famosas da história. Seus pais, notando-lhe a facilidade com que ela as executava, compraram-lhe um piano e contrataram-lhe um professor de música. Glória assimilou as lições com facilidade espantosa. Falecido o seu professor em um acidente aéreo, seus pais contrataram-lhe uma professora de música, que a ela dedicou-se; foi esta professora a instrutora de Glória nos primeiros concertos; e ela acompanhou-lhe a carreira até o dia em que morreu de um fulminante ataque de coração. Glória tinha, então, trinta e quatro anos de idade.

Edson, aos cinco anos, irrequieto, com as suas estripulias punha a casa de pernas para o ar.

V

Aos vinte e sete anos, Marcos Antonio já havia conquistado reputação de homem de incomparável bravura. Casara-se, dois anos antes, com Fabiana. Seu primogênito e dela, Lucas, tem um ano. E ela está grávida de uma menina, que receberá o nome de Suzana.

Aloísio, aos vinte e cinco anos, solteiro, concluiu a faculdade de informática. Inconsequente, espojou-se na vadiagem. Participou de orgias regadas a narcóticos e soporíferos; envolveu-se com tráfico de entorpecentes e cometeu pequenos delitos.

Glória, aos quatorze anos, era uma pianista célebre.

Edson, aos doze, jogava basquete; era temperamental e caprichoso.

À festa de qüinquagésimo aniversário de Mário compareceram muitos amigos dele, de Daniele, da família. Marcos Antonio, acompanhado de sua esposa e de seu filho, compareceu à casa de seus pais. Aloísio foi impedido, pelos seus pais, de praticar atos escandalosos durante a festa.

Na companhia de sua esposa, e carregando seu filho, Marcos Antonio foi, em certo momento da festa, ao seu quarto, que seus pais conservavam como um santuário, e mexeu nos seus brinquedos. As duas camas estavam conservadas com lençol e colcha do tempo da juventude de Marcos Antonio e Aloísio. Os objetos trouxeram-lhe à mente lembranças da sua infância e da sua juventude. Lucas engatinhava; com o auxílio de sua mãe, andava, desajeitadamente, e mexia em todos os objetos; como um ancinho, agarrava tudo o que se achava ao alcance de suas mãos. Os brinquedos eram, uns, de tecnologia obsoleta, outros, de tecnologia rudimentar. Os bonecos-robôs, com os quais Rodolfo havia presenteado, havia mais de quinze anos, os seus netos, eram, no ano em que ele os comprou, os brinquedos de tecnologia mais avançada que havia; agora, dizia Marcos Antonio para Fabiana, eles eram geringonças dos primórdios da civilização. Fabiana, curiosa, pediu para Marcos Antonio que ele lhe mostrasse como os bonecos-robôs funcionavam. Ele não se fez de rogado; pegou o seu boneco, e pôs-se a comandá-lo. Não executava os comandos com a precisão de antes. O boneco dava piruetas, ora caía de cabeça no piso, ora de costas, ora de joelhos, ora de peito; raras as vezes em que caiu em pé, e quando isso ocorria Marcos Antonio comemorava o bem-sucedido movimento como o fazia, na sua infância e na sua juventude. Ria estrondosamente. E Lucas ria e batia palmas. Marcos Antonio mexia em outros brinquedos quando a porta do quarto foi aberta. Fabiana ouviu os leves ruídos, e para a porta voltou-se. Encontraram-se seus olhos e os de Mário, que sorriu e à porta, a mão esquerda na maçaneta, encostado ao umbral, ficou a contemplar o filho a se divertir. Marcos Antonio pressentiu alguém a observá-lo, e voltou-se para a porta; sem pensar no que fazia, intensa corrente de emoção a correr-lhe pela espinha, foi até seu pai, e abraçou-o calorosamente. Nem sequer uma palavra eles proferiram. O abraço, mais do que as palavras poderiam vir a fazê-lo, traduziu todas as emoções que se apoderaram deles. Mário, voz embargada, disse, enfim, que os procurava, a ele, Marcos Antonio, e a Fabiana, pela casa. Conservaram-se alguns minutos no quarto. Evocaram alguns episódios da infância e da juventude de Marcos Antonio e Aloísio. Mário pegou, da cama, o boneco-robô que Marcos Antonio lá deixara, exibiu-o ao filho, e perguntou-lhe se ele se lembrava do dia em que o havia ganhado dos avós, e para Fabiana disse que Marcos Antonio e Aloísio, quando não se batiam corpo-a-corpo, faziam os bonecos brigarem um com o outro.

Mário restituiu o boneco à prateleira, e pegou Lucas ao colo. Disse que aquele quarto era o santuário dos filhos. Todos os brinquedos deles estavam lá, os que eles mais apreciavam, nas prateleiras, outros, dentro dos baús. Enfim, pediu ao filho e à nora que o acompanhassem ao salão, para entoarem o Parabéns a Você.

Sobraçando o neto com o braço esquerdo, pousou a mão direita no ombro direito de sua nora. E desceram todos a escadaria. E rumaram à sala-de-estar onde estavam reunidos familiares e amigos de Mário, todos a aguardá-lo, para saudá-lo, parabenizá-lo pelo qüinquagésimo aniversário natalício. Contagiante, a alegria do aniversariante. Em meio àquela gente desejando-lhe felicidade e saúde, bem-estar, e elogiando-o pelos sucessos já obtidos, pelas conquistas já alcançadas, Mário encabulou-se, envaidecido.

Distribuíram os doces, os salgadinhos, os refrigerantes, todos os convidados a fartarem-se com a variedade de sabores de encher de água a boca.

Mário pousou para a primeira de uma série de fotos, o neto consigo, a esposa à sua direita – o braço esquerdo dela entrelaçado ao braço direito dele -, Marcos Antonio e Aloísio à esquerda, e à direita de Daniele, Glória e Edson. Na sequência, fotografaram-no, ele sorrindo, e abraçando, pelo ombro, seu pai e sua mãe, ele à sua direita, ela à sua esquerda; ele com a sua sogra; com Daniele; com os filhos; com parentes; com amigos. Fotografaram-no centenas de vezes. Todos os convidados quiseram ser fotografados ao lado dele. Foi uma tarefa exaustiva, a de posar para as fotos, e ele a executou com disposição e alegria contagiantes.

Apagaram, enfim, as lâmpadas, para que Mário cortasse o bolo. E toda a casa imergiu na escuridão.

E acendeu-se, sobre o bolo, uma vela, que bruxuleava. E entoaram o Parabéns a Você. Cessada a cantoria, Mário, em silêncio, fez o seu pedido, e assoprou a vela, apagando-a. Ovacionaram-lo, e aplaudiram-no, estrondosamente, a ponto de fazer a casa ruir sobre os próprios alicerces. Coroaram-lo os convidados de vivas e hurras.

E acenderam-se as lâmpadas.

E choveram sobre Mário catadupas de abraços, felicitações, elogios.

Mário, enfim, pôde cortar o bolo; o primeiro pedaço do bolo ele o entregou para Daniele, e dela recebeu um tímido, acanhado, beijo nos lábios. E seguiram com a festa, Mário e Daniele, e Marcos Antonio e Aloísio, e Glória e Edson a cortarem o bolo, e a distribuírem os pedaços de bolo aos convidados.

E encerrou-se a festa pouco antes do amanhecer.

Em um futuro não muito distante – parte 6 de 8

Na manhã seguinte, Catarina, a cobri-la roupas que Daniele emprestara-lhe, fez, na companhia de sua irmã, do seu cunhado e dos seus sobrinhos, a refeição matinal após cujo encerramento despediu-se deles, e prometeu, à insistência de seus sobrinhos e aos convites reiterados de sua irmã e do seu cunhado, que um dia tornaria àquela casa, e retirou-se, e foi-se embora.

Minutos depois, Mário beijou, em despedida, sua esposa e seus filhos, e rumou para a Academia. E logo em seguida, na casa Paula chegou e para Daniele deu notícias do marido, dos filhos, e das investigações policiais acerca do crime do qual sua (de Paula) família havia sido vítima. No hospital, Rodolfo restabelecia-se. Mathias, Matheus e Thiago já haviam retornado à casa. E o delegado previa que os dois bandidos fugidos os policiais os capturariam dentro de três dias. Depois de ouvi-la, Daniele encarregou-a de algumas tarefas, despediu-se dela e dos filhos, e retirou-se da casa. Paula entreteve Marcos Antonio e Aloísio. Encerradas as brincadeiras, ligou o robô, e encarregou-o de algumas tarefas. No transcurso do dia, sufocou soluços; abatida, em alguns momentos desincumbiu-se dos seus encargos arranjando-se com lentidão e embaraço.

Sucederam-se os dias.

Mário e Daniele cancelaram, antes do Natal, a viagem que fariam naquele final de ano, e visitaram Alceu e Samantha. Durante as prolongadas conversas que mantiveram com eles, evocaram a infância, a juventude, os primeiros anos de vida conjugal e as peraltices dos filhos. Daniele, Pâmela, Catarina e Paulo, disse Samantha, convertiam a casa num circo ao qual, certa vez, quase atearam fogo.

Não visitaram Rodolfo e Valquíria, que estavam em passeio ao Japão, à Índia, à Tailândia, ao Vietnã, à China e à Mongólia.

III

Decorreram-se três anos durante os quais alancearam o ânimo de Mário dúvidas que diziam respeito à sua origem. Não suprimiu ele de sua mente o dia em que tomou conhecimento de “ele”. Não sucumbiu à angústia porque tinha, agora, amparando-o, Daniele. Nas conversas com ela, à noite, durante as quais nenhuma reserva observava, e tampouco postura afetada de impermeabilidade aos sentimentos, caía, não raras vezes, em prantos. Durante esses anos, avistou, dezenas de vezes, pessoas parecidas consigo e com “ele”. Daniele defendia-o das idéias pessimistas que o atassalhavam. Os fatos sucedidos três anos antes estavam bem armazenados na memória deles; para eles, eram insuportáveis tais lembranças. Mário entreviu “ele” em duas ocasiões, no centro da cidade, e concluiu que “ele” trabalhava em alguma empresa nas proximidades. Mas em qual? O centro da cidade era composto de centenas de arranha-céus. Havia prédios de oitocentos metros de altura, nos quais viviam mais de cem mil pessoas e havia escolas, hospitais, delegacias de polícia, delegacias de ensino, fórum, igrejas, templos, órgãos das forças militares, escritórios bancários, instituições financeiras, lojas, padarias, quadras esportivas.

Mário, um dia, após conversa com Daniele, conservou-se nas redondezas do prédio no qual, desconfiava, “ele” residia ou trabalhava, e andou pelo seu interior como um visitante qualquer. Não conseguiu encontrar ”ele”. Amaldiçoava-se, e ao destino, que para ele era um comediante sarcástico e cruel, que não lhe dava o privilégio de contatar “ele” e com ele entabular conversa.

Mário admirava sua esposa. Ela era uma entidade celestial, que ralhava com ele e governava a casa. Ele vivia para a ciência, e as suas ações traduziam-se na vontade de se refugiar em uma atividade que lhe amenizasse o sofrimento. Daniele dispensava-lhe ternura; se se abstivesse de ouvi-lo, de falar-lhe, de se ocupar dele; se o ignorasse, ou não lhe concedesse a atenção que ele requeria, ele se desligaria do mundo, e se tornaria um tormento para si mesmo, para a esposa e para os filhos.

Marcos Antonio manifestava inteligência vigorosa e era bem-sucedido nos estudos. Estudava, com regularidade metódica, a ciência matemática, não se limitando à do seu tempo; assimilava-lhe os fundamentos ao recuar à sua origem filosófica, e remexia, na biblioteca da sua casa, nos livros que seus pais compravam, livros que tratavam das teorias filosóficas dos primórdios da civilização. O seu apreço pela solidão das bibliotecas, pela sua frieza, fê-lo alvo de chacotas, e de elogios, que o enchiam de júbilo. Apreciava os exercícios intelectuais, e não negligenciava os exercícios físicos – apreciava natação e vôlei.

Aloísio era um aluno mediano. Não se destacava na escola e em nada do que fazia; nenhuma aptidão especial manifestou; o seu amadurecimento foi lento; era indeciso, medroso, subserviente, desprovido de vontade própria, e objeto de mofa de meninos e meninas.

Mário vivia sob o jugo das dúvidas que o acossavam desde o dia em que “ele” se lhe esbarrou ao braço. Durante os anos transcorridos não teve ocasião de conversar com seus pais. Ficava à expectativa da primeira oportunidade de conversar com eles, mas ela nunca se lhe ofereceu. Sobrecarregados de estudos, pesquisas e projetos, requisitados para presidirem palestras e conferências e ministrarem aulas em academias, eles viajavam pelos sete mares, pelos quatro continentes.

Dedicou-se à sua nova paixão: a astronomia. Nutria, desde a infância, paixão latente por ela; todavia, jamais havia se aprofundado nos estudos de tal ciência. Apreciava, diletante, a leitura de artigos sobre astronomia publicados em jornais e revistas. Sempre que, ao folhear uma revista, deparava-se com uma reportagem que tratava de astronomia, lia-a atentamente. Decidiu, um dia, ao ler a respeito da descoberta, por astrônomos norte-americanos e australianos, de planetas na galáxia de A…, nos quais eles identificaram ambiente propício para a existência de vida, dedicar-se ao estudo da ciência que tanto o atraía. Uma semana depois, comprou um telescópio. Admirava, durante horas a fio, o espaço sideral; os seus sonhos povoavam-se de espécies de vida extraterrenas e civilizações de outros planetas, detentoras, umas, de tecnologia superior à humana; e a devanear imaginava o contato (e os distúrbios que tais contatos provocariam) da espécie humana com outra espécie de seres inteligentes dotada de outro gênero de inteligência que não a humana. Para ele, as investigações astronômicas engendravam sonhos gloriosos para a humanidade, um futuro próspero, e promoveriam a revisão de todos os valores humanos.

Durante as horas em que contemplavam, com o telescópio, à noite, o céu condecorado de estrelas, repleto de mistérios e enigmas. Mário, Marcos Antonio e Aloísio compartilhavam do prazer de criar, em imaginação, um mundo como o desejavam. Os humanos, um dia, habitariam outro planeta? Contatariam seres de uma espécie inteligente? E mais antiga do que a humana? E com ela teria algum parentesco? Seria tal espécie belicosa? Marcos Antonio, mais do que seu pai e seu irmão, influenciado pelos filmes aos quais assistia, pelos livros e revistas em quadrinhos que lia e pelos jogos holográficos com os quais se divertia, concebeu enredos mirabolantes protagonizados por criaturas alienígenas grotescas, aberrantes, e o contato dos humanos com elas. Mário tomou conhecimento das mais recentes descobertas; desejava, sequioso, entender as leis elementares da ciência astronômica; ele, que explorava o cérebro humano e o de outras espécies ao microscópio, e via-os como um universo misterioso repleto de enigmas, desejava conhecer o universo e os seus planetas, as suas estrelas, os seus quasares, os seus buracos negros, as suas galáxias, os seus meteoros, os seus cometas, todos os astros que o compunham, todos os fenômenos que o conservavam ativo. Um dia, sonhava, ele descobriria um astro ou uma espécie de astro jamais visto por olhos humanos. Um dia o universo segredar-lhe-ia a resposta de algum enigma que a humanidade há milhares de anos esforça-se por decifrar, sonhava.

Alguns dias após a entrega dos originais dos seus dois livros à editora, Mário recebeu de seu pai uma correspondência eletrônica, informando-o que ele, Rodolfo, e Valquíria regressariam ao Brasil dentro de quatro dias, e pedia-lhe que o esperasse no aeroporto V…, na cidade de D…, da megalópole de A… E o informava, também: eles pernoitariam na casa dele, Mário, quatro dias, após os quais embarcariam para a Argentina; e da Argentina iriam ao Chile; e do Chile à Bolívia; e ao Peru; e ao Equador; e à Venezuela.

Encerrada a correspondência, Mário declarou para si, o coração a pulsar, que se aproximava o momento de uma conversa com seus pais, e invadiram-lhe a cabeça as preocupações que o acossavam após tomar conhecimento da existência de “ele”. Como abordaria, numa conversa com eles, o assunto? Quais perguntas far-lhes-ia? Falou para Daniele da correspondência. Ambos folhearam jornais e revistas, rebuscaram publicações eletrônicas em busca de histórias que envolviam a clonagem humana, e encontraram notícias acerca de processos jurídicos contra um geneticista acusado de praticá-la, e outras acerca de surtos de violência contra geneticistas, algumas sobre depredações de instituições científicas no estado de Minas Gerais, na cidade de B…, na megalópole C…, e no estado do Rio de Janeiro, na cidade de T…, na megalópole de A…, e no estado do Rio Grande do Sul, na cidade de K… e na cidade de O…, ambas na megalópole de Z… E leram notícias acerca de atentados à morte de dois geneticistas, na cidade de C… no oeste do estado de São Paulo; e reportagens sobre um crime, que se deu, na megalópole de V…, em Santa Catarina: o do seqüestro, por um grupo de terroristas, de geneticistas, que foram mantidos trancafiados, durante um mês, em cárcere imundo, até a polícia descobrir o paradeiro dos seqüestradores e o cativeiro, na cidade de S…, na megalópole de Y…, na Argentina, e libertar os desventurosos cientistas, então famintos, macérrimos, ossudos; e notícias acerca da ameaça à bomba à uma academia de geneticistas, na cidade de B…, na megalópole de B…, no estado do Amazonas. E assistiram à reportagem acerca do assassinato de uma geneticista, na cidade de J…, na megalópole de M…, no estado do Pará. Não eram raras as notícias recentes de episódios envolvendo cientistas, geneticistas principalmente, imolados em praça pública por fanáticos e terroristas. E encontraram, em uma revista impressa, uma reportagem a respeito de uma conspiração internacional que visava, destruindo todos os laboratórios de biologia existentes, destroçar os alicerces da genética. Tais notícias Mário as comentaria na conversa com seus pais. Debatê-las-ia, mostrando preocupação pelos rumos que tais fatos tomariam. Os observadores alertavam os governos de todas as nações sobre o aumento significativo de atos violentos contra cientistas, principalmente os geneticistas, especialmente aqueles que defendiam clonagem de seres humanos. Rodolfo e Valquíria, geneticistas célebres e respeitados em todo o mundo, ainda não haviam sido alvos de fanáticos, mas logo o seriam, deduzia Mário, preocupado. Os agentes hostis à genética, para atrair a atenção da imprensa e da população mundial, preferiam capturar, seqüestrar e assassinar geneticistas notórios do que qualquer pessoa. E Rodolfo e Valquíria estavam entre os mais notórios geneticistas do tempo deles.

Transcorridos quatro dias, Rodolfo e Valquíria desembarcaram, no aeroporto de V…, na cidade de D…, e Mário, Daniele, Marcos Antonio e Aloísio os recepcionaram. Os garotos abraçaram, calorosamente, seus avós. Do aeroporto, foram até um restaurante onde saborearam a refeição e sobremesas. Durante as mais de duas horas de convivência à mesa, falaram das novidades e comentaram inúmeros fatos, uns, intrigantes, outros, engraçados. Rodolfo, animado e desenvolto, em animação sobrepujando, até mesmo, seus netos, narrou histórias que havia presenciado em um país que eles não imaginavam existir.

Narrava-as com tanto entusiasmo, colorindo singularidades culturais de alguns povos com tal exagero, que seus netos persuadiram-se de que ele estava de posse de todas as suas faculdades mentais.

Marcos Antonio inteirou os avós de suas mais recentes aquisições de jogos holográficos, e falou do telescópio, e dos planetas, das estrelas, das galáxias e de outros astros siderais que observou. Animado, expôs os seus conhecimentos em astronomia. Falava com tanta avidez, sequioso por revelar aos seus progenitores as novidades, que, ora seu pai, ora seu avô, continha-o, e pedia-lhe se acalmasse, respirasse fundo, e só então lhes contasse o que desejava lhes contar. E impedia, erguendo o tom de voz, seu irmão de falar sempre que ele principiava um relato. Rodolfo e Mário tiveram, e não raras vezes, de se desdobrarem para evitar atritos entre os dois garotos.

Encerrada a refeição, retiraram-se do restaurante, foram ao carro, e seguiram rumo à casa de Mário e Daniele. Estavam no centro da megalópole, onde o tráfego era intenso, deslocando-se à velocidade reduzida, a passos de tartaruga, quando Rodolfo pediu a Mário que ele não fosse diretamente para casa. Desejava rever as ruas das cidades pelas quais, anos antes, passeava. Evocou a sua infância, a sua juventude e os anos durante os quais ministrou aulas em universidades. Ao evocar tais épocas, sua voz aveludou-se. Rodolfo apontou para um prédio construído onde situava-se a casa de um seu amigo. Valquíria disse que se lembrava dela. Descreveu, dela, os cômodos, os móveis e os ornamentos. Falou da morte dos seus proprietários e dos filhos deles em uma tragédia aérea. A casa foi tombada pelo poder público; no entanto, e a despeito da admiração que suscitava em todos aqueles que a viam, demoliram-na. Rodolfo apontou, metros depois, para um prédio de seiscentos metros de altura, localizado em um local onde havia um estádio de futebol, e disse que, em tal estádio, havia assistido a muitos jogos de futebol de campeonatos regionais, estaduais, nacionais e internacionais, e reconstituiu, com pormenores, um amistoso entre a seleção brasileira e a seleção ganense, então uma das melhores seleções de futebol do mundo. Descreveu, minucioso, os dribles dos jogadores, usando da mímica para ilustrar a narrativa, excitado pelas recordações; e a todos contagiou com a sua animação, principalmente seus netos, que, mesmerizados pelas suas palavras, vibravam de alegria. Depois, falou de um jogo, amistoso também, entre a seleção brasileira e a seleção chinesa, jogo que ele, sempre saudoso, recordava, jogo que assistiu, aos oito anos de idade, na companhia de seus pais e seus irmãos.

Rodolfo e Valquíria reconstituíram, trazendo ao presente o passado, um outro mundo, e os netos o imaginaram.

Chegaram, enfim, à casa, para cujo interior precipitaram-se Marcos Antonio e Aloísio, puxando, pelas mãos, os avós, até o quarto, onde mostraram-lhes os brinquedos que ganharam, no Natal, no aniversário e no dia das crianças: jogos holográficos, brinquedos movidos a comandos cerebrais, robôs miniaturas de animais. Os robôs-leão rugiam como os leões que habitavam a África; os robôs-peixe nadavam como os peixes; os robôs-gavião voavam como os gaviões; os robôs-cavalo escoiceavam e relinchavam como os cavalos; os robôs-macaco trepavam nas árvores como o faziam os macacos. Tiraram os garotos das caixas de brinquedos réplicas, em miniaturas, de carros, aviões, navios, foguetes, espaçonaves, submarinos, motos, tanques de guerra, porta-aviões, transatlânticos, trens e caminhões, e os manobraram, e provocaram alguns acidentes. Marcos Antonio, enquanto pilotava uma miniatura, de vinte e oito centímetros de comprimento, de jato supersônico, estilhaçou uma das janelas do quarto. E Mário cravou-lhe olhos severos, e pediu-lhe que fosse mais cuidadoso. À saída de seu pai, Marcos Antonio olhou para seu avô, e sorriu.

O dia ia animado. O robô-empregada-doméstica preparou as refeições. Rodolfo ironizava a modernidade. Comparava-a com o seu tempo de criança, repleto de incertezas, que causavam profundas mudanças no estilo de vida, na convivência entre povos, nações e indivíduos. Comparou os seus brinquedos de criança com os dos netos, a tecnologia das casas do tempo em que era menino com a atual, os conflitos aos quais levava-o a se desentender com seus pais com os atuais conflitos entre pais e filhos.

Falaram dos novos ramos da ciência, dos seus precursores, dos seus sistemas científicos e filosóficos, da aplicação das novas técnicas de cirúrgias médicas, do aprimoramento das ciências, em particular da genética. Mário falou do decreto que inviabilizava alguns projetos no campo da genética. Rodolfo falou, em um tom em que se identificava um laivo de desgosto e frustração, que havia, no Congresso Nacional, políticos lacaios de grupos radicais, e, em tom de desabafo, de projetos abandonados devido ao desvio de recursos financeiros indispensáveis à realização deles para programas inúteis, construções de estabelecimentos escolares desnecessários e a manutenção de sinecuras.

Mário, o coração acelerado, no desejo de tratar das questões que tanto o incomodavam, olhou para Daniele, suplicando-lhe auxílio. Ela notou-lhe a ansiedade, e tocou-o no braço. Após ouvir o seu sogro falar das conseqüências das mais recentes leis promulgadas pelo Congresso Nacional, ela citou eventos que vitimaram cientistas, principalmente geneticistas, e pediu a opinião dele e a de Valquíria a respeito, e perguntou-lhes como eles, cientes do ambiente conturbado, hostil aos geneticistas, que eram agredidos, na rua, ameaçados de morte, se sentiam, e fez referências aos geneticistas que viviam, trancafiados, nas suas casas, e aos que, paranóicos, eram acossados por terrível mania de perseguição, e aos assassinados por terroristas. O mundo exigia coragem dos geneticistas, comentou Rodolfo. Valquíria disse que, se eles se curvassem às ameaças, o mundo, para os cientistas, e para os geneticistas em particular, tornar-se-ia um inferno. Preocupavam-se todos eles com as ameaças, que um dia poderiam vitimá-los. Mas o que tinham de fazer? Esconderem-se? Fugirem do mundo? Abandonarem a ciência porque um bando de lunáticos a rejeitavam? O que teriam de fazer Rodolfo e Valquíria?

Calmo agora, Mário formulou comentários a respeito da clonagem humana. Na expectativa, esperou seus pais pronunciarem-se a respeito. Eles, pensou, eludiam a questão. Ora concluía que eles faltavam-lhe com a verdade, ora acredita que eles lhe eram francos; a despeito, porém, da confiança que neles depositava, deles desconfiava, recriminando-se e julgando-se um filho vil e ingrato. Seus lábios ficaram descorados; a mente, embaciada. Quis eliminar de si todos os pensamentos de desconfiança para com seus pais. Ao tratarem de genética, Rodolfo e Valquíria entraram em explicações técnicas. Falaram da vida da Terra, do seu surgimento, considerando numerosas hipóteses científicas e os mitos da criação do mundo segundo as antigas religiões. Apresentaram um mundo rico de idéias, complexo e vasto. Trataram de questões restritas aos especialistas, traduzindo o vernáculo de uma ciência não inteiramente inacessível a Mário e Daniele para um que eles compreendiam. Com a neutralidade habitual, falaram das técnicas mais recentes de reprodução humana artificial, das cirurgias e de clonagem, particularmente da clonagem humana. Mário nenhuma alteração percebeu-lhes no timbre, no tom e na inflexão de voz. Eles portaram-se como sempre o fizeram. Os gestos deles, os movimentos dos músculos, a modulação da voz, as ligeiras mudanças de ritmo, de tom, Mário percebia-os. O sorriso deles, o olhar, nada lhe escapava. Valquíria, ao expor as suas idéias, expressava-se sempre no mesmo tom, e nela Mário via uma nódoa de orgulho. Pensava Mário consigo se seus pais o clonaram, ou se clonaram outro indivíduo, de quem ele era uma cópia. Seria Mário uma cópia de outro homem? Mário pensou em lançar-lhes tal pergunta. Conteve-se, todavia. A pergunta coçava-lhe a língua. E ele pensava em arremessá-la ao rosto de seus pais. Tal pergunta eles a receberiam como uma afronta, e se levantariam, magoados, se despediriam, contrafeitos, de Mário e de Daniele, iriam embora, e nunca mais retornariam àquela casa.

Marcos Antonio e Aloísio interrompiam a conversa, a curtos intervalos, com perguntas que denotavam curiosidade e inocência. Foi Marcos Antonio quem provocou a rápida aceleração dos batimentos cardíacos de Mário. Rodolfo, Mário, Valquíria e Daniele falavam, na ocasião, de clonagem humana; Marcos Antonio e Aloísio entretinham-se com um jogo holográfico de corrida de aeronaves. Conquanto atento ao jogo, Marcos Antonio ouvia a conversa de seus pais e seus avós; e em um certo momento, arremessou à face de seu avô uma pergunta que a todos surpreendeu: “Vovô, o senhor já clonou uma pessoa?”. Mário empalideceu, e fixou o olhar em seu pai. Daniele fitou Mário, estudou-lhe a fisionomia, para sondar-lhe os pensamentos. Rodolfo abriu-se em uma gargalhada, para Mário monstruosa. Daniele, fitando Mário, notou, nele, a agitação controlada das mãos e as têmporas orvalhadas de suor. Considerou natural e espontânea a reação de Rodolfo. Acertou ao pensar que o sangue de Mário fervilhava e queimava-lhe as entranhas. Rodolfo, encerrada a gargalhada – nela Mário viu um artifício para refazer-se da investida do neto -, negou que clonara alguém. Mário viu na resposta precaução desmesurada. Queria acreditar no que via, e não no que pensava que via. Depois, pensava enquanto desenrolava-se a conversa, trataria das suas suspeitas com Daniele. Não sabia o que pensar. Sobrepunham-se umas às outras as suas idéias. Não estava certo se ouvia o que ouvia, se via o que via, se pensava o que pensava. Marcos Antonio insistiu na questão, chamando a atenção para outros aspectos do que sabia de clonagem; disse que, na escola, dois meses antes, a professora de ciências disse que, se a lei permitisse e não houvesse tanta violência contra os defensores da clonagem humana, ela, se grávida, do embrião em seu útero faria uma cópia, e, talvez, se assim o desejasse, faria dele duas cópias. Perguntou, na sequência, para sua avó, se ela desejou, um dia, fazer um clone. Ela disse – arrependida, Mário assim interpretou-lhe a conduta ao estudar-lhe o tom de voz e a fisionomia -, sem descer às minúcias, que, inteirada de que perderia o primeiro filho, pensou em cloná-lo. Não era uma questão fácil de se tratar, nem de explicar, nem de justificar, disse, voz embargada. Pensou, sim, em clonar o fruto da sua primeira gestação; Rodolfo, no entanto, dissuadiu-a de fazê-lo. Ouviram-na atentamente. Mário perscrutou-lhe a alma insondável. Vieram lágrimas aos olhos de Daniele. Marcos Antonio e Aloísio admiravam, com os olhos arregalados, a avó. Rodolfo, arqueado para a frente, os cotovelos fincados nas pernas, os antebraços na vertical, os dedos entrelaçados sob o queixo, cerradas as pálpebras, ouviu a reconstituição de episódio tão angustiante sucedido havia trinta e quatro anos. Mário, que não conhecia todo o passado de seus pais, perguntava-se o que eles pensavam. Rodolfo e Valquíria fingiam sentir uma intensa corrente de sentimentos percorrer-lhes o corpo, ou sentiam remorsos por alguma decisão equivocada, sofrendo ao recordarem uma época angustiante, que transpuseram com dificuldades? Quanto mais pensava a respeito, a fisionomia inexpressiva, estudando o comportamento de seus pais, Mário mais se enredava em pensamentos conflitantes.

Assim que seus avós negaram ter clonado um filho, ou qualquer outra pessoa, Marcos Antonio disse que, na escola, um aluno que com ele estudava, Fabrício, dissera-lhe que conhecia uma pessoa idêntica a si, tanto na aparência quanto na maneira de agir, e perguntou se Fabrício tinha um clone. Rodolfo, antecipando-se a Valquíria, disse que ele tinha um sósia, e não um clone, e que não existem clones de seres humanos; há clones apenas de alguns animais de algumas espécies. Marcos Antonio disse que nenhum mal via em clonar pessoas e que acreditava que havia um clone de seu pai, pois vira, semanas antes, no parque, um homem igual a ele. Ao ouvir tais palavras, Mário empalideceu e fitou Marcos Antonio; e Rodolfo e Valquíria disseram a Marcos Antonio que o homem que ele vira era sósia do pai dele e que conheciam sósias de si mesmos. Sósias são comuns, disseram. E Rodolfo falou de algumas ocasiões hilárias e constrangedoras em que pensou reconhecer em uma pessoa, que lhe era desconhecida, um amigo ou um familiar. E Marcos Antonio e Daniele contaram histórias parecidas que haviam se sucedido com eles. Mário nada disse, não esboçou um sorriso sequer, e, ao se recompor da surpresa inspirada pela notícia transmitida por seu filho, conservou-se quieto, imóvel, olhos a irem de um para outro de seus interlocutores, estudando-os, principalmente seus pais.

Providente a intromissão de Marcos Antonio na conversa. Ele fez aos seus avós a pergunta que Mário desejava lhes fazer. Ele, que nenhum dilema enfrentava, fê-la movido pela curiosidade, que lhe excitava o espírito, e apresentou comentários que, pensou Mário, acuaram Rodolfo e Valquíria, que souberam eludir a questão.

Invadiam Mário ansiedade e apreensão; caiu ele em prostração de ânimo, e tentou ocultá-la de seus pais. Enganou-se ao pensar que a sua palidez, a sua mudez e o seu semblante carregado deles passariam despercebidos. Valquíria perguntou-lhe se ele sentia-se bem. Mário riu, e desconversou. Daniele achegou-se a ele, passou-lhe as mãos pela testa, e perguntou-lhe se ele se sentia bem. Ele fitou-a. Ela levantou-se, e disse-lhe que lhe traria um copo de água com açúcar. Rodolfo fitou Mário, e disse-lhe que ele precisava descansar. Mário disse que se lhe acometera mal-estar passageiro, conseqüência da exaustão física e mental que o afligia, e, em um tom de voz sussurrante, que nos dois dias precedentes exigira demais de si mesmo. Seu pai disse-lhe que a fadiga emprestava-lhe aparência horrível, e pediu-lhe desculpas por não ter-lha notado até então, de tão entusiasmado sentia-se de regresso, após longa ausência, ao Brasil e ao seio da família, e Valquíria secundou-o. Daniele, que retornara com o copo com água e açúcar, e entregara-o a Mário, disse-lhes que não se preocupassem. Mário bebeu da água. Rodolfo e Valquíria disseram que se recolheriam ao quarto, e assistiriam, ou à televisão, ou ao holograma, um programa científico, ou ligariam o computador e conversariam com amigos. Mário tinha de descansar, disseram, renovaram as desculpas, e levantaram-se. Daniele pediu-lhes que se sentassem, que Mário logo se recuperaria. Mário, apoiando-se à esposa, disse que logo iria se recompor, mas não o disse com a mesma convicção dela. Rodolfo e Valquíria impuseram-se ao filho e à nora, e disseram-lhes que não pretendiam prolongar a conversa.

Marcos Antonio e Aloísio agarraram-se aos avós. Estes, carinhosos, recomendaram-lhes que fossem dormir. E eles lhes disseram que não estavam com sono. No dia seguinte, disse Rodolfo, se eles desejassem, e com o consentimento dos pais deles, passeariam no parque. Os garotos, animados, fizeram planos para o dia seguinte.

Poucos minutos depois, recolheram-se todos aos quartos.

Banhados, Valquíria e Rodolfo conversaram durante alguns minutos, e assistiram a um filme, à televisão antiga, que Mário conservava na casa em meio aos aparelhos modernos. Além da televisão, havia, no quarto, aparelhos que Rodolfo, rindo, chamou de geringonças pré-históricas, parafernálias eletrônicas do tempo das cavernas, tecnologias da idade da pedra. O filme, produzido dois anos antes, protagonizado por atores portugueses, chineses, norte-americanos e angolanos, e filmado em Portugal, na China, nos Estados Unidos e em Angola, apresentava cenários deslumbrantes, que lhes prenderam a atenção. Encerrado o filme, Rodolfo e Valquíria dormiram.

Em um futuro não muito distante – parte 5 de 8

Durante o restante da noite, Mário e Daniele conversaram. Ela pediu a ele que ele lhe contasse o que ele, à tarde, dissera que lhe contaria. Ele, porém, disse que aguardaria uma hora apropriada para dizer-lhe o que tinha para lhe dizer, pois o que tinha para lhe dizer não podia ser dito com poucas palavras; não era uma história qualquer a que tinha para lhe contar; tinha para contar-lhe uma história que envolvia questões fundamentais aos humanos. Não se tratava de uma trivialidade, mas de questões que diziam respeito a sua, de Mário, origem; e teria ele de alongar-se, por horas, talvez dias, para delas tratar. O fato em si, ocorrido há dois anos, era irrelevante, disse; poderia resumi-lo em poucas palavras; mas as ressonâncias dele, não; estas corroeram-lhe o espírito a ponto de fazer dele um homem que ele não era, como ela pôde ver, ao acompanhar, dele, a degeneração, que culminou nos eventos do dia anterior; e só agora ele principiava a se reconciliar consigo mesmo, receando, temeroso, precipitar-se no abismo do qual talvez não emergisse outra vez. Ele pretendia, disse, expor, com clareza, se possível, tudo o que pensou e sentiu, para que ela compreendesse a complexidade da questão. E Daniele compreendeu o sentido das palavras que ele proferiu com muita dificuldade.

No sofá da sala, Mário atraiu Daniele para si. E recostaram-se ambos ao encosto do móvel. Mário enlaçou-a, seu braço esquerdo por trás dela, à altura dos ombros, e pousou-lhe, no ombro esquerdo, a mão, e ela repousou, no ombro esquerdo dele, a cabeça. Iriam assistir a um filme, no monitor da parede. Mário ditou os comandos ao computador central; e ligou-se a tela, na qual apareceu uma lista com milhares de filmes. Perguntou à Daniele qual filme ela desejava assistir. Ela disse o título de um filme. E completou: o filme, produzido vinte anos antes, estrelado por atores iranianos, marcou-lhe, indelevelmente, a juventude. Ela o havia assistido aos treze anos de idade, no cinema, com seus pais, seu irmão e suas irmãs. Narrava-se, no filme, a história de uma órfã, que passou por muitas provações.

Daniele chorou durante o filme, cuja transmissão ela interrompeu duas vezes para remover lágrimas dos olhos e das faces. A exímia interpretação dos atores, principalmente a das atrizes que interpretam a protagonista – a criança, a jovem e a adulta (três atrizes talentosas) – era louvável. O filme, dirigido com destreza impar por um cineasta corajoso, reputado um dos melhores do mundo, e produzido com esmero, retratava, sem retoques, a crua realidade, e clamava a sua crença nos humanos.

Encerrado o filme, Daniele foi ao quarto, para dormir, e Mário sintonizou um canal de notícias internacionais. Intelectuais renomados, ao vivo, em um debate, trataram de atritos entre as nações. Para explicar os conflitos atuais, os debatedores avaliaram fatos e evocaram o passado remoto. Tal programa, uma raridade, cujo conteúdo todas as pessoas podiam entender, gozava de uma audiência considerável e de reputação favorável. De conflitos étnicos e religiosos, do recrudescimento de perseguição política e do cerceamento da liberdade de expressão trataram os debatedores. Concluído o debate, que se prolongou por uma hora, Mário sintonizou outro canal, e pediu notícias dos acontecimentos sucedidos naquele dia. Assistiu à avalanche na Suíça, à enchente na Índia, Bangladesh e sul da Ásia, e no sul do Brasil, à erupção de vulcões na Itália e no Chile, aos terremotos na América Central, nos Estados Unidos e no Japão. As intempéries naturais vitimaram milhares de pessoas. Irremediáveis os danos ocorridos em áreas urbanas. Trinta minutos depois, enquanto assistia a um documentário de ciências que tratava de neurologia, Mário concebeu uma idéia complexa e um tanto imprecisa acerca da qual entendeu por bem falar com uma certa cientista da Academia. Não hesitou: pediu à tela que a contatasse. Não decorreu um minuto, no monitor apareceu o rosto de uma cientista de cinquenta anos de idade, que aparentava a idade de vinte e cinco, pestanuda, de rosto de traços regulares. Seguiram-se as explicações de Mário. A cientista ouviu-o atentamente, durante um bom tempo, e fez-lhe perguntas, que o obrigaram a reelaborar muitas de suas idéias. A partir de certo momento, ela pôs-se a bocejar, seguidamente, visivelmente exausta, e a esfregar, com os nós dos dedos, os olhos, e a cerrar e descerrar as pálpebras. Os cotovelos fincados na mesa, ela afundou o queixo nas palmas das mãos. De início, Mário não lhe notou a sonolência; e riu consigo ao vê-la despertar, estremunhada, os olhos arregalados, desculpando-se por não ouvir o que ele lhe dizia, e a ruborizar-se, encabulada. Aconselhou-a descanso; e deu por encerrada a conversa. Não muito tempo depois, assistiu à gravação, reconsiderou algumas idéias, e adicionou-lhes argumentos, para comentá-los com outros neurologistas. No dia seguinte, imprimiu uma cópia da transcrição da sua conversa com a cientista, suprimiu as incoerências, preencheu as lacunas e deu consistência aos seus argumentos. Tratou, durante meses, na Academia e em outros institutos de pesquisas, das questões pertinentes às suas idéias.

Mário foi ao quarto. Daniele dormia tranquilamente. Ele contemplou-lhe o semblante. Acariciou-a, terna, e apaixonadamente, passeando-lhe as mãos pelos cabelos lisos e brilhantes, apreciando, deles, a textura macia e o aroma perfumado, que deles recendia, e os dedos pelos lábios, e a mão esquerda pela cabeça, tocando-a, com os dedos, na testa, no nariz, nas orelhas, no queixo, nas sobrancelhas e nos cílios. Não se cansou de admirá-la, embevecido. Enfim, passando-lhe o braço esquerdo sobre a cintura, abandonou-se nos braços aconchegantes do sono.

A manhã do dia seguinte estava radiosa. Na casa de Mário e Daniele imperava a balbúrdia dos endiabrados Marcos Antonio e Aloísio. Paula deu notícias alvissareiras concernentes ao estado clínico de seu marido para Daniele e Mário. Mário disse-lhe que estava convicto de que Rodolfo se reanimaria, e estaria, dentro de poucos dias, entre eles; Daniele renovou-lhe as ofertas de ajuda, declarou-lhe que a ajudariam sempre que ela deles precisasse. A ponto de chorar, Paula agradeceu-lhes a generosidade; com a voz embargada, entrecortada por soluços, manifestou-lhes, desajeitada, encabulada, gaguejando, a cabeça abaixada, os olhos encobertos com as mãos, a sua gratidão.

Partilharam da primeira refeição do dia. Paula declarara que ainda não tomara o café-da-manhã. Antes de o Sol despontar, saíra da sua casa, e fôra ao hospital. Contou que a polícia havia identificado os assaltantes mortos e descoberto a identidade dos dois remanescentes da quadrilha. Os investigadores sabiam que se tratavam os dois fugitivos de um homem e de uma mulher. Restava-lhes o trabalho, exaustivo e perigoso, de descobrir-lhes o paradeiro.

Paula ouviu de Mário e Daniele palavras reconfortantes; e provocaram-lhe risos as peraltices de Marcos Antonio e Aloísio. E Daniele disse-lhe que nas últimas duas semanas do ano até o oitavo dia de janeiro, Mário, Daniele, Marcos Antonio e Aloísio viajariam ao litoral. Se nenhum imprevisto ocorresse, empreenderiam a viagem dali duas semanas.

Mário acionou, à parede da copa uma tela transmissora de imagens. Na cadeira, um copo de café fumegante na mão esquerda, a mão direita empunhando uma colher pequena que ele mexia no interior do copo, provocando um rodamoinho no café, assistia a um desenho animado da sua predileção e da de seus filhos; estes alegraram-se assim que viram as personagens do desenho, e vibraram, eufóricos, durante os trinta minutos do episódio, que contava as proezas de um aventureiro espacial, que jornadeava pelo universo em busca de planetas habitáveis e criaturas inteligentes. O enredo, uma sequência de acontecimentos que punham em suspense os espectadores. Debruçado sobre a mesa, surpreendido pelo aparecimento repentino, num ambiente mal iluminado, de uma personagem, Marcos Antonio ergueu a cabeça, e lançou-se para trás. No desenho, não se respeitava as leis elementares da física. Num tom irreverente, no final de cada capítulo, aparecia o principal criador do desenho; ele, zombeteiro, mordaz, justificava os desrespeitos às leis da física, não as desprezando, todavia; declarava que elas, todas concebidas pela inteligência humana, eram hipóteses, que explicavam a realidade sem as explicar, pois, salientava, estavam fundamentadas, ao contrário do que dizem os cientistas, todos vaidosos e presunçosos, na inteligência, imaginação e consciência humanas. Em outros mundos, em outras galáxias, em outros universos, em outras dimensões, as leis da física – concepções humanas – não se aplicam. Invadiu Marcos Antonio uma onda de fascínio. Aloísio não compreendeu a história, mas excitou-lhe a imaginação o desenho, no qual Mário viu mais do que uma aventura espacial como tantas outras. Perspicaz, leu, nas entrelinhas, um questionamento sutil de algumas convenções sociais e das teorias científicas.

Via videofone, Daniele conversou com Catarina. Inteirou-a dos acontecimentos recentes, pediu-lhe o favor de, um dia, cuidar de Marcos Antonio e Aloísio, para que ela, Daniele, pudesse conversar com Mário, sossegada, e demoradamente. Não lhe escondeu os dissabores conjugais e as escaramuças de dias antes, e tampouco a reconciliação; disse-lhe, também, respeitando, sensata e prudentemente, a sua vida em comum com Mário, que tinha pendências a resolver com ele. A conversa estendeu-se durante um bom tempo. Enquanto conversavam, Catarina ajeitava o penteado, retocava os cosméticos que lhe coloriam as faces, e, mirando-se ao espelho, ajeitava o vestido, inspecionando-o. Interromperam, não raras vezes, o assunto que dera origem à conversa, Catarina solicitando à sua irmã comentários a respeito dos trajes, e ela apresentando-lhe suas opiniões, nem sempre favoráveis.

Catarina disse para Daniele que cuidaria, durante um dia, e de bom grado, dos sobrinhos. Daniele antecipou os agradecimentos. Combinaram de, no domingo, Catarina ir à casa dela libertar os sobrinhos daquela prisão, e levá-los a um parque de diversões, e com eles se divertir, na casa dos espelhos, nos balanços, na casa maluca, na casa do terror, nos castelos, nos palácios, nas pirâmides.

Despediram-se as irmãs.

Daniele, na copa, deu a notícia aos filhos, que pularam de alegria, e procurou pelos olhos de Mário. Mário, desviando das páginas de um livro de ficção científica de um célebre escritor inglês do século vinte os olhos, fitou Daniele, e sorriu.

No decorrer da semana, Mário ia à Academia, ou a pé, ou de carro, ou por outros meios de transporte, e atentava às pessoas na calçada, na rua, dentro de veículos, à procura de “ele”.

Em um dia, ao amanhecer – as ruas fervilhando de gente -, ao volante do carro, enquanto ia à Academia, olhava de um lado para o outro à procura de “ele”. Multidão de penteados indefiníveis, compacta, enxameava, numa agitação frenética, as calçadas estreitas. Mário deslocava-se, vagarosamente, atento à multidão, que extravasava, ruidosa, das calçadas. Motoristas, nos carros atrás dele, buzinavam, protestavam, e o insultavam.

Num relance, vislumbrou, dentro de um carro, um penteado parecido com o que lhe revestia a cabeça. Desatento ao trânsito, quase colidiu o seu carro com o veículo à sua frente, uma caminhonete, e seu coração pulsou acelerado. Atentou para a cor e o modelo do carro em que pensara ter visto “ele”. Com algumas manobras imprudentes, foi até o carro dentro do qual ia, acreditava, “ele”, e seguiu-o durante seis minutos, até o carro ser estacionado à frente de uma padaria, e dele retirar-se uma mulher. A surpresa de Mário ao vê-la! Ele sorriu, considerando-se um tolo impenitente. Como muitas vezes antes e muitas vezes depois, um penteado parecido com o seu, e, portanto, com o de “ele”, atraiu-lhe a atenção, e ele seguiu a pessoa que o exibia, pensando que encontraria “ele”, e, para seu desgosto, deparou-se com outra pessoa.

Enfrentou o trânsito caótico, em muitas ruas, até chegar à rua em que se situava a Academia. No decorrer do dia, conversou com vários cientistas. Eram quase vinte e duas horas quando chegou na sua casa. Excetuando a ansiedade e os fortes sentimentos que se lhe afloraram à mente, naquele dia nada desgastante lhe sucedera. Com nenhum cientista estúpido discutira, renhidamente, e nenhuma notícia desagradável, que lhe alvoroçasse as emoções, recebera.

No domingo, ao amanhecer, Catarina foi à casa de Mário e Daniele buscar seus sobrinhos. Eles e os pais deles conversavam, na copa, faziam a refeição da manhã, quando ela tocou a campainha. Mário interrompeu a refeição e foi atender à porta. Daniele pediu aos filhos que eles, encerrada a refeição, escovassem os dentes e buscassem as lancheiras preparadas na véspera. Os dois meninos correram, animados, ao banheiro, para escovar os dentes; pouco tempo depois, regressaram à copa, lancheiras nas mãos, dentes a luzir de tão escovados, onde encontraram Mário e Catarina, que lá haviam entrado segundos antes. Ela acocorou-se, abriu os braços, sorridente, acolhedora, e seus sobrinhos, animados, saltaram-lhe ao pescoço, quase a derrubando, e ela os acolheu, e beijou-os nas faces.

Catarina anteviu, animada, muita diversão, e disse aos seus sobrinhos que se deliciariam de tanto chupar sorvetes saborosos e comer chocolates deliciosos. Marcos Antonio narrou os capítulos das aventuras que viveria naquele domingo, de quais brincadeiras participaria; bravateou, conduzido pela irreprimível onda de alegria que o invadira. Foram todos à varanda, e da varanda à calçada. E Marcos Antonio e Aloísio despediram-se de seus pais; ela abraçou-os e beijou-os, carinhosa e amavelmente; ele, comedido, abraçou-os. Minuto depois, Marcos Antonio, Aloísio e Catarina entraram no carro. E ela deu a partida; e de dentro do carro, os dois meninos acenavam para seus pais, até o momento em que o carro dobrou a esquina. E Mário e Daniele regressaram ao interior da casa.

A sós com a esposa, Mário sentiu o coração descompassado. Não sabia como lhe contaria a história da qual desejava inteirá-la. Principiaria a apresentar uma síntese dos eventos daquele longínquo dia, muito bem conservado na sua memória, desde o instante em que “ele” se lhe havia esbarrado? Falar-lhe-ia de seus pensamentos? Como abrir-se-ia para ela? Temia-lhe as reações. Ela o compreenderia? Entenderia o que ele sentia, a angústia que lhe atassalhava o espírito? Ele se perderia em explicações inúteis, e não diria o que o atormentava. Incorreria em tautologias; e a sua prolixidade, ao invés de esclarecer a questão, a cobriria com nuvens pretas. Desejava ele abrir-se para com sua esposa. Teve de reconhecer, contrafeito, que não estava preparado para contar-lhe tudo o que desejava contar-lhe. Não seria fácil apresentar-lhe o que pensava e sentia. Perguntava-se se não exagerava nos escrúpulos, se não tratava a questão com zelo desmedido. Daniele desejava compreender o que se passava com ele. Quais histórias dele ela ouviria? Ele iria ao ponto nevrálgico da questão, ou contorná-lo-ia para preparar Daniele para ouvi-lo? Quantas conjecturas assaltaram-na! Ambos estavam apreensivos, cada um deles por uma razão. Mário preocupava-se porque não sabia como contar para Daniele o que tinha para lhe contar e porque não podia antecipar-se à reação dela; Daniele perguntava-se o que de Mário ouviria, e como o ouviria, e como reagiria ao que ele lhe contaria.

Imerso nos seus pensamentos, Mário compreendeu que era necessário inteirar sua esposa de toda a história, pois, só assim, além de provar-lhe o respeito e a consideração que nutria por ela, tranqüilizaria seu espírito. Não poderia guardar consigo os seus pensamentos; tinha de contá-los para alguém; e não havia ninguém melhor para ouvi-lo do que Daniele. Ou se abriria com ela e partilharia com ela de suas preocupações, ou se calaria, acovardado, e se atormentaria com as dúvidas flageladoras que o golpeavam, roubando-lhe a lucidez. Não queria recair na bestialidade em que havia descido e da qual se recompusera dias antes. Evitaria que nova queda lhe sobreviesse.

Daniele, para acalmar-se e tranquilizar Mário, ofereceu-lhe água. Ele aceitou a oferta, e sentou-se no sofá. Ela foi à cozinha buscar água, e à sala regressou pouco tempo depois, carregando, com a mão direita, uma jarra de vidro, e, com a esquerda, dois copos de água. Recostado ao sofá, ao vê-la aproximar-se com os copos e a jarra, Mário levantou-se, e tirou-lhos das mãos, e depositou a jarra e os copos na mesa-de-centro, e sentou-se no sofá. Daniele sentou-se-lhe à direita, e ele segurou, com a mão esquerda, a jarra, pela alça, entornou-a, e encheu de água os dois copos, primeiro, o que entregaria para Daniele, depois, o com o qual se serviria, e pôs a jarra na mesa-de-centro. E bebeu de um pouco de água. E fitou Daniele, suplicando-lhe, em silêncio, compreensão e paciência, e leu, nos olhos dela, vontade de atender-lhe à súplica.

Daniele sondou-o assim que ele, desajeitado, pôs-se a falar, no princípio com voz embargada. Ele falou como se a voz se lhe enroscasse em algo na garganta. Pronta para ouvi-lo, Daniele fitava-o com olhar acolhedor. Mário deitou-se no sofá, a cabeça sobre as pernas de Daniele, com o braço esquerdo abraçando-as. Daniele afagou-lhe a cabeça, passeando-lhe as mãos pelos cabelos. Ao acalmar-se, ele balbuciou algumas palavras; e adquirindo confiança em si, falou, no tom de voz que lhe era comum, organizados os seus pensamentos. Sempre que ele se engasgava e fazia uma pausa um pouco prolongada, Daniele esperava-o recompôr-se, sem emendar uma pergunta sequer, para que ele retomasse a narrativa. Ele falou da dilaceração de seu coração ao presenciar “ele”, quando andava, meditativo, pelas ruas, voltado para si, ignorando os arredores. Daniele ouviu-o, e nada compreendeu. Quando ele descreveu o seu encontro acidental com “ele”, e declarou que “ele” era-lhe idêntico, ela, mesmo assim, não compreendeu a substância do relato. Além de descrever “ele”, e compará-lo a si mesmo, e declarar que ambos eram idênticos, disse que seus pais eram geneticistas. Daniele entendeu, então, o que ele queria dizer. Notando-lhe o brilho nos olhos, Mário soube que ela entendeu o que ele lhe dizia, e deu sequência ao relato e às elucubrações filosóficas acerca, não apenas do episódio em destaque, mas dos sentimentos que o caso envolvia. Confiante, falou dos gestos que reparou em “ele”: eram idênticos aos dele, Mário. “Ele”, como Mário, era canhoto, “ele” andava como ele, Mário, andava; “ele” falava, no mesmo timbre e inflexão de voz e movimentos dos lábios que os de Mário; o modo que “ele” beijou a esposa e abraçou e beijou a filha era como Mário beijava Daniele e abraçava e beijava Marcos Antonio e Aloísio. De tempos em tempos, Mário interrompia a narração e dizia que não delirava, há dois anos, enquanto se sucedia aquele inusitado capítulo de sua biografia; que o calor daquele dia tórrido não lhe havia queimado o cérebro. Amarga a história que se seguiu. Mário padeceu muitos males, teve atitudes disparatadas e chegou à demência dos dias anteriores à sua recuperação. Temia que a existência de “ele” alcançasse os ouvidos de seus pais, que não mereceriam ouvi-lo duvidar deles. Se Mário lhes aludisse às dúvidas que o atassalhavam, como eles reagiriam? Mário pensava consigo como eles reagiriam se ele lhes fizesse perguntas a respeito de uma clonagem dele, Mário, com a autorização deles, e porque eles a autorizaram. Não queria magoá-los. Não deixava que o que lhe ocorria alcançasse-lhes os ouvidos. Os eventos, porém, não se sucederam como ele desejava. Fugiram-lhe ao controle. As suas meditações a respeito de um suposto clone seu envolviam questões fundamentais da sua vida. Não podia desconsiderar algo que se relacionava com a sua origem. Conhecia a sua vida. Mas, o que aconteceu antes de sua mãe trazer-lhe à luz sob as condições da natureza? Rodolfo e Valquíria clonaram Mário? Se sim, por que eles nunca lhe falaram a respeito? Tais dúvidas, amargas, estilhaçaram-lhe o coração. Pensou, no início, que seus pais eram seres crudelíssimos. Em pensamento, lançou muitas dúvidas a respeito deles. E pediu desculpas à Daniele por nunca haver lhe contado a história. E pesaroso, quase a chorar, relembrou a agressão à Daniele e a Marcos Antonio.

Mário tentava organizar os seus pensamentos. Apresentou para Daniele tudo o que a ele sucedeu nos dois anos anteriores. Havia caído em uma região profunda de sua mente, e não tornou à superfície quando quis. E os eventos sucederam-se de modo ilógico, brutal, absurdo. Depois, já refeito, tornou à superfície. Se ele, dizia ele para si mesmo, não estimasse seus pais, abordá-los-ia e arremessar-lhes-ia a pergunta a respeito da sua origem e da de um suposto clone seu. Desejava conhecer a verdade, mas não queria pagar o preço de, enquanto a buscava, magoá-los. Tratou, de modo disparatado, a questão, quase vindo a destruir-se e a arruinar a família. Havia alternativas? Quais? Ele havia concluído que não havia alternativas, e fez tudo o que fez tendo em mente preservar a família de sofrimentos.

Daniele acompanhou, atentamente, o relato, e reuniu, dele, os elementos essenciais; as explicações que Mário lhe deu não abarcava todas as dimensões da história e não compreendia todas as questões que ela envolvia.

A fome revolveu-lhes o estômago. Durante a conferência, Daniele foi a ouvinte, e Mário o palestrante. Dirigiram-se ambos à cozinha; e prepararam as refeições; e serviram-se à mesa. Mário falava de seus pensamentos, explicando-os, esclarecendo-os. Desejava, não um assentimento incondicional de Daniele, mas que ela o compreendesse. Tendo o controle de si, apresentou argumentos que elucidavam as dúvidas pendentes. Daniele apresentou-lhe interrogações acerca de certos pontos, que se lhe afiguravam confusos, contraditórios, e esforçou-se para compreender as explicações que Mário lhe fornecia.

Interromperam-lhes a refeição, quatro vezes, insistentes toques da campainha e o soar do telefone.

No princípio da conversa, Mário gaguejava e não expressava-se com as palavras adequadas. Agora, desembaraçado, contava o “fato” em si e as mudanças que tal “fato” provocou-lhe e quais influências elas tiveram na concepção que ele fazia da vida. Conhecedor de muitas polêmicas que envolviam clones humanos, delas falou para a sua esposa. Interrompia a curtos intervalos a palestra, fazia digressões políticas e humanitárias, e retomava, com fôlego renovado, ao tema que dera origem à conversa. Foi prolixo, sem ser redundante e tedioso. Os seus argumentos, instigantes, envolveram Daniele. A aliança daqueles dois corações, a despeito de tudo o que poderia vir a impedi-los de se reconciliarem, fortaleceu-se. Improvável que, depois daquela recíproca demonstração de respeito, carinho, ternura e afeto, eles viessem a se desentender. Nenhum motivo provocaria o rompimento do vínculo que os unia. Encerrado o tema principal, Mário discorreu, livremente, sobre os seus projetos e as suas idéias mais recentes, falou dos livros que escrevia e que pretendia oferecer à uma editora, e da teoria que elaborava, mas que só daria por concluída após numerosas correções.

Mário e Daniele retomavam, esgotado um assunto, ao tema que dera origem à conversa, e Mário falava de algo do qual não tratara até então.

À noite, Mário já havia removido quase todo o peso de sua consciência. A respeito da sua origem, ele e Daniele iriam extrair de Rodolfo e Valquíria a verdade. Bem-humorado, disse Mário tratar-se a abordagem que fariam ele e Daniele aos pais dele de uma conspiração investigativa, uma ação detetivesca, uma espionagem familiar, a qual dele recebeu um título: Projeto Reconstituição do Passado. Iriam, durante uma conversa com Rodolfo e Valquíria, tratar de clonagem humana, velando os seus propósitos; para atingi-lo, tratariam de generalidades, evocariam fatos relacionados à genética, e das generalidades iriam às particularidades. Daniele teria sangue-frio para arremessar aos seus sogros uma pergunta despretensiosa. Ela disse, e Mário reconheceu-lhe a engenhosidade, que diriam a eles que ela havia pensado, certa vez, em clonar ou Marcos Antonio, ou Aloísio.

O encerramento da palestra coincidiu com a chegada de Catarina, e Marcos Antonio e Aloísio, que, numa irrupção tempestuosa de alegria e entusiasmo, precipitaram-se para dentro da casa. Daniele e Mário quase dispararam, em debandada, para escaparem da impetuosa investida de seus filhos. À calmaria reinante sucedeu o tumulto. Catarina entrou, esbaforida, mal se aguentando em pé, os ombros caídos. Antes de saudar sua irmã e o seu cunhado, pediu-lhes água, sussurrando. Daniele verificou a jarra, então vazia, sobre a mesa-de-centro. Pegou-a e aos copos, e foi à cozinha. Seguiu-a Catarina. Na sala, Marcos Antonio e Aloísio narraram para o pai deles as aventuras do dia. Marcos Antonio falava de qualquer coisa e, antes que chegasse à metade do seu relato, Aloísio tomava-lhe a vez, e antecipava a conclusão, e Marcos Antonio praguejava e ameaçava dar-lhe um tapa. E Aloísio encarava-o, mostrava-lhe a língua, e replicava. E Mário sentou-se entre os dois; mesmo tomando tal providência, não os impediu de provocarem-se um ao outro.

Na cozinha, Catarina, recomposta, à mesa, sentada e recostada numa cadeira de grande espaldar, narrou, para sua irmã, as aventuras de Marcos Antonio e Aloísio. Daniele jactava-se enquanto a ouvia falar com tanto enlevo de seus filhos.

Daniele teve vontade de comer pipoca e beber refrigerante. Saiu da cozinha, foi à sala, achegou-se aos seus filhos, e perguntou-lhes se eles queriam pipoca e refrigerante. Eles disseram-lhe que sim; e ela disse-lhes que fossem se banhar. Mário acompanhou-os ao quarto e ao banheiro, e ela regressou à cozinha.

O milho pipocava na panela. Da geladeira, Daniele tirou garrafas de refrigerantes, uma lata de goiabada, e queijo. Das prateleiras, Catarina pegou copos, pratos, bandejas, garfos, facas. E ambas levaram à sala o sortimento de pipocas, goiabada e queijo, e refrigerante que prepararam, e os talheres e outros artigos de cozinha. Perguntou Catarina à Daniele qual filme assistiriam. Com um comando de voz, Daniele acionou a tela, e solicitou ao computador central um filme infantil – e na tela apareceu uma lista com milhares de títulos, de diversas épocas e nacionalidades. Catarina disse que os filmes de um estúdio cinematográfico indiano eram os melhores que haviam para o público infantil. Daniele solicitou, então, ao computador central, uma lista com os filmes do estúdio cinematográfico que Catarina mencionara – e a lista reduziu-se para quarenta e nove títulos. Em seguida, solicitou uma lista com os títulos dos dez filmes de produção mais recentes – e a tela apresentou-os em ordem cronológica. E optou por um acerca do qual já havia lido críticas favoráveis.

Após o banho, Marcos Antonio e Aloísio regressaram à sala, onde Mário chegou logo depois, com outra roupa. Curiosa e intrigada, Daniele perguntou-lhe porque ele trocara de roupa, e ele, entre sorrisos, disse que o banheiro se convertera num oceano agitado por forças sobrenaturais, e apontou para os filhos, e, convulsionado, eriçara-se e provocara estragos em uma embarcação, e apontou para si mesmo. Todos riram. Marcos Antonio e Aloísio viram a tela ligada e perguntaram qual filme assistiriam. Catarina e Daniele disseram-lhe que era um que eles iriam gostar de assistir, no qual havia duas crianças, que viviam aventuras perigosas, em países arrasados por terremotos, enchentes e erupções vulcânicas. E animaram-se os meninos.

As lâmpadas apagadas, todos, quietos, assistiram ao filme e comeram pipoca, goiabada com queijo e beberam refrigerantes.  Encerrado o filme, Marcos Antonio e Aloísio bombardearam o pai, a mãe e a tia com perguntas e comentários, e contaram e recontaram as cenas mais instigantes, instigantes segundo eles.

Vazia a tigela de pipocas, Daniele e Catarina prepararam mais pipocas, e a encheram, e Marcos Antonio e Aloísio esvaziaram-na com voracidade ímpar. Tarde da noite, Catarina anunciou a sua ida para a sua casa. Daniele pediu-lhe pernoitasse, ali, naquela noite; seria perigoso, disse-lhe, àquela hora, uma mulher, sozinha, dirigir um carro. Catarina declarou que iria embora e que Daniele não se preocupasse. Esta, no entanto, insistiu-lhe para que ela ficasse, e Marcos Antonio e Aloísio agarraram-na pelos braços e pediram-lhe que dormisse lá, brincasse com eles e contasse-lhes histórias. Ela hesitou. Disse que não levara camisola, nem pijama. E Daniele disse-lhe que lhe emprestaria os seus. Para dar fim à discussão, Mário virou-se para a cunhada, estendeu-lhe a mão esquerda, e pediu-lhe a chave do carro; ela lho entregou, e ele se retirou da casa, e guardou o carro de Catarina na garagem.

Transcorridos alguns minutos, Mário curvou-se ao cansaço, foi ao quarto, e dormiu. A energia de Marcos Antonio e Aloísio parecia inesgotável. Daniele, que não via a hora de ir para a cama, e dormir, recostou-se ao sofá e assistiu às brincadeiras que sua irmã promovia e ouviu-a contar estórias, que tiveram um efeito soporífero em Marcos Antonio e Aloísio. Em um certo momento, os meninos dormindo a sono solto e Daniele cochilando, Catarina desta aproximou-se, tocou-a, no ombro, com os dedos, e assim que ela descerrou as pálpebras, apontou-lhe os filhos. Elas os carregaram, Catarina, Marcos Antonio, e Daniele, Aloísio, ao quarto, e os aninharam cada um deles em uma cama. Em seguida, Daniele entrou no seu quarto, e dele retirou-se logo depois, tendo, nas mãos, uma camisola, uma toalha e chinelos, e entregou-os à sua irmã, que lhos tirou das mãos e foi banhar-se, enquanto Daniele, na cozinha, preparou para si e para sua irmã uma refeição frugal. E esperou por sua irmã. Sentaram-se ambas à mesa e encetaram conversa. Catarina falou de seus pais, que lhe perguntaram de Daniele, que havia três meses não os visitava. Daniele penitenciou-se, disse que os visitaria, naquela semana. Sonolentas e exaustas, não prolongaram a conversa. Catarina bocejava, a curtos intervalos; uma vez ou outra, cobria com as mãos a boca, em outras, escancarando-a indiscretamente, contraía os músculos da face e espreguiçava-se. Encerrada a refeição, saudaram-se as irmãs, desejaram-se boa noite, beijaram-se, na face, e entraram, Catarina, no quarto de hóspede, Daniele, no quarto de casal.

Em um futuro não muito distante – parte 4 de 8

Daniele adormeceu. Acordou doze horas depois, nua, na cama, sob um fino lençol, sob o qual não se lembrava de ter-se enfiado. Recordava-se de que de si removera o sangue aderido ao corpo e se medicara. Ouviu rumores na casa. Eram as vozes de Marcos Antonio e Aloísio, irrequietos, e a de Paula, que os animava entoando canções infantis. Passeou as mãos pelas faces, esfregou os olhos, respirou fundo, e suspirou. A porta do quarto estava fechada. Quem ajeitara a ela, Daniele, na cama? Paula? Paula a encontrara em que estado? Latejava-lhe a cabeça, não tão intensamente como na véspera. Reconstituiu toda a cena da noite anterior. Não queria acreditar no que se passara. Era tudo irreal, inverossímil. Mário não quisera agredi-la, nenhum golpe lhe dera, não a insultara, não a encarara doentiamente. Foi um pesadelo. Sim! Um pesadelo! Daniele disso quis se convencer; se convencer de que nada de ruim lhe acontecera na véspera. Era-lhe angustiante lembrar-se do que lhe sucedera, mas não podia negar a realidade.

Ao ouvir as risadas dos filhos, evocou os tempos felizes que gozava antes daquele drama principiar. A recordação das coisas divertidas da vida em comum com Mário e os filhos fê-la rir, nostálgica. A convivência familiar, repleta de motivos para rir, era harmoniosa, e a casa irradiava tranquilidade e paz – muitas pessoas dariam toda a fortuna que tinham para ter a paz que nela reinava. Daniele lembrou-se do rosto singelo de Mário. Lembrou-se que ouvia-lhe a voz suave, e, nos colóquios que mantinham diariamente, os substanciosos argumentos filosóficos e científicos que ele apresentava. Mário fornecia-lhe relatos animados das experiências que conduzia, as quais eram frias e tediosas, mas delas ele falava num tom tão agradável, que lhe excitava a curiosidade, e delas ela desejava ouvir mais, mesmo que não compreendesse o que Mário lhe contava, pois desejava ouvir-lhe a voz, ora serena, ora eufórica. Os abraços de Mário eram ardentes; os beijos, inflamados; as carícias, calorosas. E ela sentia-se uma mulher plenamente realizada. Saboreavam Mário e Daniele, e Marcos Antonio e Aloísio, de uma paradisíaca convivência em comum. Mário convertia-se, em muitos dias, em criança, e brincava com os filhos, a diverti-los, e a divertir-se, e a divertir Daniele, que, ela dizia, presenciava três crianças a brincar, a fazer estripulias, a pintar o sete, a espalhar a brasa, a pôr a casa de pernas para o ar. Mário esquecia-se que era um homem adulto, neurologista renomado, filho de geneticistas famosos. Marcos Antonio e Aloísio montavam-lhe cavalinho, e ele empinava o corpo, e os filhos, dele apeados, caíam, e riam, e gargalhavam, e montavam-lhe cavalinho, e caíam… Passeavam, durante longas caminhadas, nos finais de semana, ao amanhecer, e ao entardecer, durante horas, e conversavam. Passeavam de bicicletas. Nadavam em piscinas. Havia dias que Mário e Daniele, sós, iam a restaurantes, e reviviam os dias de namoro. Reavivavam a memória dos dias que lhes escapavam, os quais eles não desejavam esquecer. Recordavam os dias de infância, de juventude. Reconstituíam incidentes que, na época em que se deram, deixaram muita gente preocupada, principalmente os pais e os parentes mais próximos; ao revivê-los, todavia, riam como se tratassem das coisas mais engraçadas que lhes ocorreram. Amavam-se Mário e Daniele. Daniele desejava a felicidade de outrora, para si, para o marido, para os filhos. Recuperá-la-ia um dia? Se não a recuperasse, suportaria aquela vida desafortunada, que, se perpetuasse, previa, redundaria numa tragédia?

Subjugada pelos seus pensamentos, ouviu a voz de Marcos Antonio, que gritou a palavra pai, num tom alegre, entusiasmado, intrigando-a. Descerrou as pálpebras, o rosto a transparecer surpresa. Ouviu Marcos Antonio mais uma vez, num grito, a proferir a palavra pai. Na expectativa, acelerado o coração, a dominarem-la medo e confusão, trêmulos mãos e lábios, perguntava-se de Mário. Supôs que ele, considerando-se as expressões de Marcos Antonio, brincava com o filho. Ouviu passos aproximando-se do quarto. O medo apossou-se de si. Os passos progrediam, e cessaram. Fizeram-se ouvir ruídos de copos e talheres. Moveu-se a maçaneta. Abriu-se a porta, vagarosamente. Daniele, apreensiva, viu a cabeça de Mário, cujo semblante irradiava ternura. Era o rosto que Daniele desejava ver, o de seu marido, o do homem que amava. O receio e a desconfiança mantiveram-na em suspenso. Ela não acreditou, de imediato, que Mário, de rosto terno, amável e sorridente, deixara de ser o homem que a agredira na véspera. Seu coração palpitava forte, rápido; seu corpo fervia; queimava-lhe as entranhas o sangue que lhe corria pelas veias e artérias. Olhos arregalados, fitava o seu marido, atentando para todos os movimentos dele, a sondar-lhe as intenções. Ele exibia rosto radiante porque tornara a ser o Mário por quem ela se havia apaixonado? Exibindo aquele sorriso encantador, Mário convenceria qualquer pessoa de que era ele um homem boníssimo, terno, afetuoso, e ninguém suspeitaria que por trás daquela candura havia um homem capaz de, num instante de insanidade, agredir e desprezar uma pessoa, tampouco uma criança, seu filho, e uma mulher, a sua esposa.

Mário carregava uma bandeja com a refeição matinal de Daniele, um banquete. Daniele viu em seu marido o desejo de reconciliação. Espicaçavam-na, no entanto, dúvidas e desconfianças. Desejava confiar em Mário, mas pressentia ameaças a rondá-la. Ela queria eliminar de si todas as dúvidas que lhe atassalhavam o espírito; a despeito dos seus desejos, todavia, não podia ocultar de si as suas desconfianças. Mário havia solapado a sua reputação de homem bom; e as suas atitudes, nos meses anteriores, não o favoreciam; talvez ele nunca reconquistasse a confiança irrestrita e incondicional de sua esposa.

Ao entrar no quarto, ele fechou a porta. Neste simples gesto, Daniele viu, em Mário, a intenção de impedi-la de escapar-lhe das garras. Mário não suprimiu da face o sorriso; e nos olhos dele Daniele leu súplica. Pareceu a Daniele que brilhava sobre a cabeça de seu marido uma auréola. Ele tornara a ser o marido que prezava a esposa como uma pessoa inestimável e o pai amoroso, solícito, afetuoso e dedicado, de Marcos Antonio e Aloísio? Qual Mário era aquele que Daniele tinha diante de si? O Mário que ela desejava, com o qual sonhava todas as noites, nos dois angustiantes anos precedentes, pelo qual havia se apaixonado aos dezesseis anos, ou o Mário, aquele monstro, aquela quimera teratológica, que convertia em pesadelos sinistros e tenebrosos os seus mais alegres sonhos? Ou o Mário que estava diante de si não era nenhum destes dois, mas um Mário novo, renascido das cinzas? Qual Mário, perguntou-se Daniele, tinha ela diante de si? Daniele queria tranqüilizar seu coração, que se revoluteava. Engoliu um soluço. Fitava Mário, olhos arregalados, abobalhada. Assim que ele se lhe achegou, ela se convenceu de que tinha diante de si o seu marido, o Mário que amava, conquanto se dissesse que era impossível em uma pessoa se dar tão grande mudança em tão pouco tempo. Daniele não se reconheceu, ao conscientizar-se dos seus pensamentos. Ela, que desejava que Mário tornasse a ser quem era quando o conheceu, agora, tendo-o diante de si, relutava aceitá-lo.

Mário pôs a bandeja cheia de guloseimas sobre o criado-mudo, e fitou Daniele, que ainda não estava completamente recomposta das dores que a afligiam. Tremiam os lábios de Daniele. Mário, com doçura e suavidade incomparáveis, passeou, suavemente, os dedos da mão esquerda pela testa de sua esposa, tirando-lhe os fios de cabelos que lhe caíam aos olhos e ajeitando-os atrás das orelhas, e pela face direita, depois, pela face esquerda. Entreolharam-se Mário e Daniele. Nos olhos dela Mário leu confusão, apreensão e disposição para perdoá-lo. Nos olhos dele Daniele leu arrependimento. Os olhos deles, desacompanhados de palavras, diziam o que as palavras jamais diriam. Expressavam o que ambos sentiam e pensavam a respeito do que vivenciaram até aquele dia. Todas as palavras que se disseram antes e depois do olhar daquele instante não lhes criaram tanta intimidade. Sobrevieram-lhe sensações agradáveis indefiníveis, indescritíveis. Daniele acalmou-se ao contemplar Mário, então recomposto, restituído a ele o temperamento amável e carinhoso, assim ela pensava. Tinha diante de si o Mário por quem se apaixonou, ela se convenceu ao fitar-lhe os olhos suplicantes. Ele lhe segurou as mãos, carinhosamente, amoroso e tímido. Uma corrente de felicidade percorreu o corpo de Daniele, que cerrou as pálpebras. Mário, dócil e afetuoso, tornou a afagar, amorosamente, as faces sofridas de sua esposa, que inclinava a cabeça para o lado que ele acariciava; com as duas mãos, ela segurou a mão esquerda de Mário, e lágrimas vieram-lhe aos olhos, e levou-a aos lábios, que se inflamaram, e beijou-a. E Mário segurou-lhe as mãos, trouxe-as para seus lábios, beijou-as, carinhosamente, sentou-se mais perto dela, e inclinou-se, para beijá-la. Ela cerrou as pálpebras, e recebeu-o de braços abertos, segurando-lhe as mãos ao peito. Sentia-se renascer, renovarem-se-lhe as forças, reanimar-se-lhe a pele. Uniram-se os lábios num beijo ardoroso. O aspecto sinistro e doentio de Mário abandonara-o, sem deixar vestígios. A palidez de Daniele se lhe apagara da face, sem deixar indícios. Daniele enlaçou Mário pelo pescoço, e atraiu-o para si, apertou-se a ele, como se desejasse impedi-lo de escapar.

Marcos Antonio e Aloísio, em algazarra estrondosa, correram para o quarto de seus pais. Marcos Antonio abriu a porta, empurrou-a, e precipitou-se quarto adentro, pulou na cama, e saltou sobre sua mãe. Aloísio entrou logo em seguida, seguido por Paula, que, esbaforida, desculpava-se por haver sido mal-sucedida em conter os meninos e impedi-los de entrar no quarto de modo tão abrupto e barulhento. Mário aceitou as desculpas, e declarou que ela descansasse. Sorrindo, um pouco vexada, ela se retraiu, e do quarto se retirou. Encontraram-se os olhares de Mário e os de Daniele. E Daniele abraçou seus filhos, que a cercaram de carinhos.

As duas crianças, de tanto pular sobre a cama quase a destruíram. Daniele e Mário sorriam, divertidos. Ele se lhe ajeitou ao lado, passou-lhe o braço por trás do pescoço, repousando-lhe a mão no ombro. Derretidos em alegria, brincavam com os filhos, saboreando de prazer inextinguível. Desfizeram-se da mente deles as cenas do dia anterior. Mário perguntou para Daniele, sussurrando-lhe ao ouvido, se ela estava com fome. Ela, o rosto radiante, respondeu-lhe afirmativamente, e ele levou-lhe à boca um pedaço de bolo, do qual desprenderam-se minúsculas partículas, que caíram assim que Daniele deu-lhe uma dentada arrancando-lhe um bom naco. Ela riu como se tivesse ocorrido a cena mais cômica do mundo, e ofereceu os lábios ao marido, solicitando-lhe um beijo. E ele lho deu.

Mário pediu aos filhos, que demoraram a atendê-lo, que cessassem os pulos, para que a mãe deles pudesse comer do bolo; e retirou-se do quarto; e eles o seguiram. Assim que passou pelo enquadramento da porta, acocorou-se, ofereceu as costas a Marcos Antonio, e disse-lhe que pulasse, que o carregaria de cavalinho. Num salto prodigioso, Marcos Antonio agarrou-se-lhe ao pescoço. Aloísio também desejava agarrar-se ao pescoço de seu pai. Os dois meninos dispuseram-se a principiar uma escaramuça. Mário impediu-os de se baterem. Ele ergueu-se – Marcos Antonio pendurado às suas costas, enlaçado ao seu pescoço – e, com o braço esquerdo, agarrou, pela cintura, Aloísio. Daniele divertia-se. Nada roubar-lhe-ia a alegria que lhe invadira o espírito. Mário, com Marcos Antonio agarrado ao seu pescoço e Aloísio a tiracolo, fechou a porta do quarto. E Daniele pôde, enfim, saborear, tranqüilamente, a sua refeição matinal.

Daniele ria. O seu sonho realizou-se tão depressa! Logo não se desfaria. A docilidade e a ternura de Mário, ela reconheceu, regozijada, eram as de Mário, o homem que ela amava e de quem teve dois filhos. Daniele recuperou muito de si mesma, naqueles poucos minutos, durante a refeição. A despeito da sua felicidade e da sua alegria, incomodou-a a lembrança do comportamento de Mário de há dois anos até o dia anterior, e pensou em, no momento oportuno, indagar-lhe o que se havia passado com ele nesse período. Exigir-lhe-ia, e com firmeza, as explicações, e não admitiria desconversa. Arrependeu-se de não tê-lo feito assim que percebeu um corpo estranho habitando-lhe o corpo.

Bebeu leite com mamão, comeu pão, pudim, banana e melão; ora tranquila, ora voraz, comia o pedaço do que pegava, e sorvia o conteúdo do copo que levava à boca.

De outros compartimentos da casa, chegavam-lhe aos ouvidos sons da divertida algazarra de seus filhos e de seu marido. Perguntava-se o que se havia passado desde o instante em que desmaiara.

Consumiu todo o sortimento de bolos e frutas e sucos que Mário lhe oferecera. Em seguida, satisfeita, lambeu os dedos, limpando-os, e recostou-se à cabeceira da cama, suspirando, deliciada com a sortida refeição. Cerrou as pálpebras, cruzou os dedos das mãos ao ventre, encheu de ar os pulmões, e esvaziou-os. Pouco tempo depois, conciliou o sono, e dormiu profundamente.

No quarto, Daniele dormia. Na sala, brincavam Mário, Marcos Antonio e Aloísio. A harmonia, a paz e a tranquilidade reinavam absolutas. Ninguém diria que naquela casa quase se havia consumado uma tragédia.

Mário entreteve seus filhos com adivinhações, anedotas, jogos de damas, e de memória, e, no holograma, com jogos de automobilismo, motociclismo e futebol. E participaram das brincadeiras Paula, e o cão-robô, que se exprimia, em linguagem humana, com vastíssimo repertório lingüístico, fluência em quatorze idiomas, e tocava piano, pulava corda, andava de bicicleta, fazia mágicas, malabarismos e truques de prestidigitação que embasbacavam o seu público de quatro pessoas.

Pouco tempo antes do princípio do anoitecer, antes de dispensar Paula, Mário ditou-lhe as tarefas do dia seguinte.

Pai e filhos divertiram-se com o cão-robô até tarde da noite. Os meninos adormeceram, e Mário levou-os ao quarto, e aninhou-os cada um em uma cama.

Mário foi ao seu quarto, onde Daniele dormia. Pegou a bandeja com os talheres, copos, pratos, jarras, e levou-a à cozinha. Depois, foi à biblioteca, pegou uma caneta e um caderno de anotações, e escreveu um longo artigo com observações associadas à neurologia e outras – considerando as mais recentes descobertas científicas propiciadas pelos mais modernos equipamentos – que envolviam questões relacionadas com a vida na Terra e no universo, e algumas palavras acerca da sua situação, recheadas de dúvidas e mistérios.

No artigo científico, tratou, com argumentos prolixos – sem uma palavra supérflua, porém -, de questões científicas baseadas em experiências. Publicado, em periódicos científicos, o artigo promoveria controvérsias, nos quatro cantos do mundo, entre os mais conceituados cientistas, e Mário ganharia renome e uma legião de admiradores e uma legião de detratores e caluniadores. Ao primeiro artigo se seguiriam outros quarenta e sete, todos recheados com explicações e informações que ele extrairia de novas descobertas. E todos os artigos reunidos resultariam num livro de seiscentas páginas. Tratou, em poucas linhas, no primeiro parágrafo do primeiro artigo, em tom confessional, numa atitude que para ele atrairia a atenção de pessoas que até então dele nunca tinham ouvido falar e que se tornariam suas admiradoras, das suas escassas experiência e formação científica, e do trabalho dos cientistas, trabalho que se estende por toda a vida, ilustrando os seus argumentos com breves biografias de cientistas que, já falecidos, ocuparam-se, durante toda a extensão da sua existência, com trabalhos que deixaram inconclusos, legando às gerações seguintes a árdua tarefa de dar-lhes sequência. Os humanos, escreveu Mário neste artigo, guardamos uma vontade indestrutível de tudo conhecer, compreender e transformar; o homem, livre, desprende-se de todo interesse material e alça vôo em especulações metafísicas; era contraproducente, segundo Mário, aferrar-se ao mundo material, certo de que na matéria a vida se encerra; para ele os cientistas que não vêem nada além da matéria e negligenciam o que a transcende reduzem a sua condição humana à de um animal irracional. O ato de pensar é um exercício que transcende a matéria, portanto, concluiu, pensar que a vida humana limita-se à matéria é um contra-senso.

Sem falar de si, trataria, em um artigo acerca de clonagem, de questões que o atormentaram nos dois anos anteriores. Neste, usando técnica literária narrativa, distinto dos outros quarenta e oito artigos que reuniria num único volume de seiscentas páginas, todos de caráter científico, explicitou suas idéias acerca das sensações, sentimentos, emoções, das pessoas que ou se sabiam clones, ou duvidavam de que o eram. Reescrevê-lo-ia, até emprestar-lhe linguagem acessível aos leigos, durante três anos, e o ampliaria até ele assumir as dimensões de um livro de duzentas páginas. E os dois livros ele os ofereceria à uma editora, para publicação. E a editora os publicaria. Transcorrido um ano da publicação dos livros, Mário, tornando-se um cientista popular, amealharia fortuna considerável. Traduzidos os livros para dezenas de idiomas, publicados em quase todas as nações, Mário se converteria numa celebridade mundial. Seria laureado em inúmeros países, reputado cientista arguto, psicólogo profundo, estilista primoroso, requintado, simples e criativo. Famoso e rico, viajaria para vários países. E palestraria nas mais conceituadas faculdades do mundo.

Daniele, Marcos Antonio e Aloísio dormiam, mergulhados, profundamente, num longo sono. Na casa imperava o silêncio. O dia amanheceria dentro de pouco tempo. Mário encaminhou-se, bocejando, espreguiçando-se, ao quarto, onde o abajur, à cabeceira da cama, estava aceso. Antes de se deitar, admirou, maravilhado, o rosto encantador de sua esposa, adormecida tal qual uma princesa de um conto de fadas, e acariciou-lhe as faces. Deu-lhe um beijo nos lábios, suave, levantou-se, e foi ao banheiro. E despiu-se. Abriu a torneira, e pôs-se sob as águas que caíam dos furos do chuveiro. Pensou, enquanto se refrescava, se deveria, ou não, contar à Daniele tudo o que se havia passado com ele desde o dia em que um homem idêntico a ele se lhe esbarrou em uma rua movimentada. Ao ouvi-lo, ela o consideraria um tolo? Rir-se-ia dele? Convenceu-se que ela dele não iria rir, pois ela não era uma mulher vulgar, que ri de uma questão daquela gravidade. Ela o ouviria, e compreenderia, ou esforçar-se-ia para compreender, o que se passava com ele. Mário pedir-lhe-ia desculpas, desculpas que ela merecia ouvir, e ela merecia ouvir dele tudo o que ele tinha para lhe contar, mas ele, confuso, atormentado, não sabia se lhe contaria. Há dois anos, decidiu não lhe contar o que se deu consigo e consigo guardou a história, que, para ele, envolvia muitas questões e não apenas a existência de um suposto irmão (se se pode considerar irmão um clone). Qual teria sido a reação dela se ele lhe tivesse contado a história? Quantas, e quais, perguntas ela não se faria e quantas faria a ele? Perguntas que talvez encerrassem a vida em comum deles? Se concluísse que ele fosse um clone, ela deduziria que ele era desprovido de alma, de espírito, de consciência, enfim, que ele não era humano, e dele se divorciaria? Mário decidiu: Confiaria a sua história à Daniele – devia tê-lo feito há muito tempo.

Desligou o chuveiro, pegou uma toalha, enxugou-se, vestiu o pijama, deitou-se, na cama, e beijou, dócil e ternamente, a testa de sua esposa, apagou a lâmpada do abajur, pousou a cabeça no travesseiro, e dormiu.

Daniele acordou pouco tempo depois de o Sol raiar. Voltou-se para o seu marido, que dormia profundamente. Acarinhou-o, e colou seus lábios aos dele, e os manteve unidos durante alguns segundos. Passeou-lhe as mãos pelas faces, saiu de sob o fino lençol, sentou-se à beira da cama, espreguiçou-se, vestiu uma camisola, que estava estendida ao espaldar de uma cadeira ao lado da cama, calçou os chinelos, saiu do quarto, e desceu a escadaria, lentamente, bocejando e esfregando os olhos, e andou até a sala. Marcos Antonio e Aloísio divertiam-se com um jogo de futebol holográfico. Marcos Antonio ditou uma ordem ao computador central, e estacaram-se os homens holográficos sobre a mesa-de-centro, retangular. Ele e Aloísio correram até a mãe deles, e saltaram-lhe ao pescoço. Beijaram-na. E ela os beijou e perguntou-lhes se eles já haviam tomado o café-da-manhã. Eles responderam afirmativamente. E ela demonstrou interesse pelo jogo holográfico com o qual eles brincavam.

Paula entrou na sala, e saudou, acanhada, Daniele, desejando-lhe bom dia, e perguntou-lhe se ela desejava fazer a refeição da manhã, na sala, com os filhos, que já haviam comido uma sortida provisão de frutas, biscoitos e bolachas, ou na cozinha. Daniele notou-lhe o tom baixo da voz, a lentidão na pronúncia das palavras, o esforço que ela exercia para controlar-se, a cabeça inclinada para baixo, o olhar apontado para o chão, o tremular, quase imperceptível, dos lábios, e das mãos, que traziam os dedos, entrelaçados, à barriga. Não lhe fez perguntas. Supôs, e corretamente, que ela desejava contar-lhe algo, mas não o faria diante de Marcos Antonio e Aloísio. Paula retirou-se da sala, e tornou à cozinha. Daniele disse aos filhos que iria à cozinha e que eles prosseguissem com o jogo, e, assim que bebesse o leite e comesse algumas frutas, retornaria à sala para vê-los jogar futebol holográfico.

Na cozinha, Daniele encontrou Paula mergulhada em lágrimas, choro convulsivo a deformar-lhe a fisionomia, os lábios retorcidos numa conformação extravagante, soluçando, espasmodicamente, sentada à mesa, na mesa fincados os cotovelos, o rosto enterrado nas palmas das mãos. Aproximou-se dela, puxou uma cadeira, nela sentou-se, achegou-se à Paula, e falou-lhe com voz modulada, para reconfortá-la.

Paula balbuciava. Era impossível entendê-la. Daniele ouviu sílabas de algumas palavras que ela proferiu. Dilapidando as palavras, Paula, numa narração confusa, contou-lhe a sua história. Daniele ouviu-a, atentamente, sem interrompê-la, conquanto não compreendesse boa parte do que ela lhe dizia, e com voz terna, certa de que algo muito grave ocorrera-lhe, pediu-lhe que se acalmasse, e ofereceu-lhe água de um copo.

Paula bebeu da água. Em nenhum momento cessou o choro, os soluços e as palavras balbuciadas. Daniele, sem a compreender, paciente, falou-lhe palavras confortadoras, a voz modulada num timbre suave, acalmando-a. E calma, num tom audível, Paula narrou-lhe os eventos dramáticos da véspera, eventos durante cujo transcurso um bandido alvejou o seu marido e feriu os seus três filhos.

Daniele ouviu o relato, e sentiu, na sua carne, a violência que praticaram contra Paula e sua família. A despeito das amarguras que a afligiam, consolou a sua desafortunada empregada doméstica. Minutos depois, telefonou ao hospital em que o marido dela estava internado. E informaram-na que era estável o estado clínico dele.

Desligado o telefone, conversou com Paula, e aconselhou-a a ir para casa descansar e ocupar-se com os filhos. Paula chorou, abraçou-a, agradecida, enxugou os olhos, e despediu-se. Daniele pediu-lhe que a comunicasse de qualquer notícia importante, e, se precisasse, que recorresse a ela, ou a Mário. Paula agradeceu, sem articular uma palavra, e retirou-se.

Tirou-a das suas meditações a balbúrdia que seus filhos promoviam. Ouviu, da cozinha, as gargalhadas e os gritos de Marcos Antonio e Aloísio, gargalhadas e gritos que prenunciavam a irrupção de uma briga, que, contrariando todos os prognósticos, não sobreveio. Pôs talheres, copos e pratos na lavadora. A campainha soou. Pelo monitor da porta da geladeira, conversou com um vendedor ambulante, que lhe ofereceu redes, tapetes e almofadas. Despedindo-se, ele lhe agradeceu, e foi oferecer o rico sortimento de produtos ao vizinho da esquerda. E Daniele concentrou-se em suas tarefas. Concluídas as tarefas, ela enxugou as mãos numa toalha pendurada num suporte ao lado do filtro, saiu da cozinha, e foi à sala, onde Marcos Antonio e Aloísio divertiam-se com jogo de futebol holográfico, que se encerrou com o placar favorável a Aloísio, que, eufórico, comemorou a vitória. Essa foi uma das raras vezes que ele derrotou seu irmão no futebol holográfico. Marcos Antonio, acostumado a vencer, emburrou. E os dois meninos selecionaram um jogo de corrida de carros.

Durante as duas horas da corrida, Daniele atendeu à campainha quatro vezes, ao telefone sete vezes, comandou as máquinas a executarem as tarefas programadas e preparou o almoço. E dirigiu-se ao quarto, onde Mário dormia, ressonando, ruidosamente, num sono profundo.

Marcos Antonio e Aloísio anunciaram à mãe a fome que os atassalhava. Ela lhes disse que lavassem as mãos e fossem à cozinha, para almoçarem.

Poucos minutos depois, Mário, estremunhado, os olhos encovados, o rosto marcado de sulcos, os cabelos despenteados, esfregando os olhos e coçando a cabeça, foi à cozinha. Os ruídos dos seus passos e os seus gemidos atraíram a atenção de sua esposa e de seus filhos. Marcos Antonio abriu um largo sorriso, apontou, com o dedo indicador da mão direita, seu pai, gargalhou, e disse que ele vira um fantasma. As suas gargalhadas, tão espontâneas, contagiaram seu irmão e sua mãe. Mário abraçou-o, e abraçou Aloísio, e contornou a mesa, e saudou Daniele, que lhe deu um carinhoso puxão de orelhas e censurou-o por causa dos cabelos despenteados, do pijama, impróprio para uso na cozinha, e puxou-lhe as orelhas segunda vez. Marcos Antonio e Aloísio gargalharam. Mário representou o seu personagem naquela peça teatral improvisada: a de um marido que, com a sua falta de modos, dava mal exemplo aos filhos. Estes pronunciaram-se a favor da mãe deles, e apoiaram-na nas recriminações ao pai, que se viu no dever de acatar as ordens que lhe foram dadas: banhar-se e vestir uma roupa adequada. Mário retirou-se da cozinha, foi ao banheiro, banhou-se, substituiu o pijama por camisa e bermuda, regressou à cozinha, e sentou-se à mesa, sobre a qual Daniele arrumara-lhe um prato com um sortimento de comida de dar água na boca.

Durante o almoço conversaram, riram, gargalharam, contaram histórias e anedotas, e fizeram inúmeras adivinhações. Os temas da conversa não eram para hipocondríacos, para velhos caturras, para pessoas que não participavam da vida daquela família.

Após o almoço, Mário sugeriu aos filhos entreterem-se com jogos no holograma. No paroxismo da alegria, eles acolheram a sugestão, expandiram-se em algazarra, e principiaram balbúrdia, que Daniele cessou ao dizer, para Mário, que eles, durante mais de duas horas, na manhã, brincaram, no holograma, com jogos de futebol e corridas de carro. Os meninos, então, certos de que não mais poderiam brincar com jogos holográficos, olharam para Mário, que propôs irem à quadra do parque jogar basquete. Marcos Antonio e Aloísio expandiram-se, excitados, numa euforia ruidosa. Pularam, cabriolaram e correram ao quarto buscar a bola de basquete. E com os olhos Mário procurou pelos olhos de Daniele, e declarou-lhe que desejava falar-lhe, longamente; deixariam os filhos com os pais dela, ou com Catarina, e ele confidenciar-lhe-ia tudo o que sucedeu a ele, Mário, nos dois anos precedentes, e ela, então, entenderia, dele, o desvario, a taciturnidade, a conduta, que se degradou a ponto de ele vir a agredi-la e aos filhos e fazer da vida deles um inferno. Embargou-se-lhe a voz, tremeram-se-lhe os lábios, brotaram-se-lhe lágrimas dos olhos, contraiu-se-lhe o rosto quando proferiu as últimas palavras, a voz reduzida a sussurros quase inaudíveis. Enfim, chegaram-lhes aos ouvidos os ruídos eufóricos dos filhos, que deles se aproximavam. Com as mãos, Mário enxugou seus olhos, e sorriu. Fitaram-se Mário e Daniele, em silêncio. Marcos Antonio e Aloísio, entusiasmados, regressaram à cozinha, nas mãos de Aloísio a bola de basquete. Mário disse-lhes que se divertiriam muito, levantou-se, e foi neste momento que notou a ausência de Paula e dela perguntou à Daniele, que lhe disse que, depois, inteirá-lo-ia do que se sucedera a ela.

Daniele e Mário, de mãos dadas, ele segurando, com a mão direita, dela, a mão esquerda, andaram, da casa até o parque, alguns metros atrás dos filhos. Conversaram. Ele, a balbuciar, sem encontrar as palavras apropriadas para expressar os seus pensamentos, de cabeça baixa, a coçá-la a curtos intervalos, disse à sua esposa que, ao acordar, na biblioteca, entontecido, sentindo-se como se houvesse saído de um pesadelo, fôra ao quarto, e a vira, dormindo, na cama, de atravessado, os braços bem abertos, e dela aproximara-se, limpara-lhe as feridas, arrumara a cama, e deixara-a, deitada, sob o lençol, e do quarto retirara-se. Encerrou o relato sem entrar em pormenores. Era-lhe difícil falar. Gaguejou o tempo todo, soluços entrecortando-lhe as palavras. E Daniele contou-lhe a história que Paula narrara.

Chegando ao parque, Marcos Antonio foi até um menino acompanhado de sua mãe – uma jovem de um pouco mais de vinte anos, branca, de cabelos pretos e lisos, gestos suaves, voz macia, a embalar ao colo uma menina de um ano, profundamente adormecida e com uma chupeta azul na boca -, e com ele entabulou conversa. O menino disse-lhe que estava indo embora e que brincara durante um bom tempo. Um robô carregava os brinquedos dele e uma bicicleta preta com o pneu dianteiro murcho. Daniele aproximou-se da mãe dele, e perguntou-lhe da menina que ela embalava. A mulher chamava-se Márcia; seu filho, Luís; sua filha, Margareth. Márcia disse que estava indo embora porque o robô recebera, minutos antes, um telefonema do pai dela pedindo-lhe que regressasse à casa. Ligeiramente apressada, pediu licença a Daniele, despediu-se dela, de Mário, de Marcos Antonio e de Aloísio, e Luis despediu-se de Marcos Antonio, acenou para Aloísio, Mário e Daniele, e segurou, com a mão direita, a mão esquerda de sua mãe. E afastaram-se deles, e o robô seguiu-os.

Não havia ninguém na quadra de basquete. E na praça poucas pessoas. Na quadra poliesportiva ao lado, seis jovens jogavam futebol.

Buliçosos, chegaram à quadra; e Marcos Antonio logo tratou de arremessar ao cesto a bola de basquete.

Mário executou algumas jogadas, gingando o corpo para lá e para cá, fez os filhos correrem atrás dele, para tirarem-lhe das mãos a bola, e sempre que eles a encestavam, aplaudia-os, animado. Ensinou-lhes as regras do basquete. Marcos Antonio e Aloísio pediram à Daniele, então sentada na pequena arquibancada, que ela participasse da brincadeira. Ela fez-se de rogada; eles insistiram tanto, que ela cedeu-lhes aos rogos e na quadra entrou, puxada, empurrada e arrastada por eles. Desajeitada, ela jogou a bola ao cesto oito vezes, provocando risos e gargalhadas em Mário, que chorou de tanto rir, e nos filhos, que gargalharam, incontroladamente.

Divertiram-se até esgotarem-se. Sentaram-se na arquibancada. Aproximou-se deles um homem, que empurrava um carrinho de sorvetes. Ao vê-lo, Marcos Antonio pediu ao pai um sorvete. Decorridos alguns minutos, Marcos Antonio e Aloísio chuparam, cada um deles, dois sorvetes, aquele, um de morango e um de doce-de-leite, este, um de laranja e um de chocolate. E Mário e Daniele chuparam, cada um deles, um sorvete, ele, de pêssego, ela, de framboesa. Decorridos alguns minutos, rumaram os quatro até uma lanchonete, distante da quadra duzentos metros, no quarteirão ao lado da praça, e comeram pastéis e coxinhas e beberam refrigerantes. E ao crepúsculo regressaram à casa.

Banharam-se. Decorridos um pouco mais de vinte minutos, dormiram Marcos Antonio e Aloísio, na sala, enquanto assistiam a um desenho animado. E Mário carregou Marcos Antonio ao quarto; e Daniele ao quarto carregou Aloísio.

Em um futuro não muito distante – parte 3 de 8

O que mais incomodava Mário não era a suposta existência de um clone seu (ou de um homem do qual Mário foi clonado), mas qual teria de ser a sua conduta ao abordar tal assunto com seus pais. Não poderia desrespeitá-los. Teria de tratar com eles a questão, discreta e cautelosamente. Eles eram dotados de inteligência penetrante e o conheciam bem; desconfiariam das suas intenções, se o assunto não fosse devidamente apresentado, caso eles reservassem algum segredo. Sabia Mário que teria de esperar pela ocasião apropriada para falar com eles a respeito; poderia tocar no assunto, durante uma conversa descontraída, assim que alguém se referisse à clonagem humana, tema que não lhes era estranho; teria de fazê-lo de modo espontâneo e natural, ocultando-lhes as suas intenções. Mas não desejava ter de fazer isso. Sabia que seu rosto transpareceria os seus sentimentos e lhes inspiraria perguntas. A profissão de Rodolfo e Valquíria favorecia Mário. Genética é um tema comum nas conversas deles, e eles, não raras vezes, à mesa, durante as refeições, falavam de processos de clonagem humana. As perguntas que lhes apresentava, inspiradas pela curiosidade que o tema lhe despertava, Mário sempre as fazia com naturalidade e espontaneidade. Mas, e agora? Ser-lhe-ia possível manifestar a naturalidade e a espontaneidade de sempre? Que tom de voz teria de empregar? A ansiedade, na hora de formular os seus comentários acompanhados de perguntas, se lhe transpareceria no rosto, atraiçoando-o? Como teria de encarar seus pais? Olhar-lhes-ia nos olhos? Suportaria os olhares deles? Os olhares deles o subjugariam? Um gesto seu indicar-lhes-ia um sentimento oculto? Ele lhes ocultaria os seus intentos? Saberia como fazê-lo? Teria coragem de tratar da questão abertamente? Perguntar-lhes se eles o clonaram, ou se clonaram outro homem, sendo Mário, portanto, um clone, seria como se os esbofeteasse. Preferia viver com a dúvida, vivesse o quanto vivesse, certo de que ela o atormentaria, do que magoar seus pais, que interpretariam a sua atitude como fruto de desconfiança e desamor, e fitá-lo-iam com desagrado, entristecidos, desiludidos. Mário enredava-se num emaranhado inextricável de questões, dúvidas, suposições.

Mário dirigia o carro, lentamente, por ruas movimentadas. A sua lentidão não se devia à atitude, paciente, ao dirigir o carro, naquele trânsito caótico, nem ao respeito às leis que limitavam a velocidade, mas às ruas coalhadas de veículos, o que lhe tornava impossível ir mais rápido do que ia. Estava concentrado na direção e no que acontecia à volta, conquanto o incomodassem pensamentos indesejáveis. O trânsito, caótico, exigia-lhe, quisesse ele ou não, toda a atenção; ainda assim, toda ela era escassa para protegê-lo daquele pandemônio. Os motoristas, parecia, brandiam o volante, em um campo de batalha, e lançavam o veículo uns contra os outros, para decidirem quem chegaria – vivo, se possível – ao destino.

Os transtornos eram enervantes, naquele trânsito movimentado e ruidoso, e intensificar-se-iam ainda mais ao ocorrer um engarrafamento de mais de duzentos quilômetros, engarrafamento que cruzava a cidade quase que de uma extremidade à outra. Atrás do carro em que ia Mário um motorista buzinava sem cessar. Mário cobriu com as mãos as orelhas para abafar os ruídos que lhe feriam os tímpanos. Bombardeou-o uma tempestade torrencial de buzinadas e berros. Exacerbaram-se os ânimos. As pessoas ameaçavam-se umas às outras, insultavam-se. Quanto mais buzinavam e berravam, mais espicaçavam os ânimos umas os das outras; e geravam mais protestos, mais buzinadas, mais insultos. Se ninguém desse um basta, a turbamulta degenerar-se-ia em lutas corporais. Alguns policiais, entre os veículos, pediam calma aos motoristas e aos passageiros, e robôs os informavam das causas do congestionamento e anunciavam-lhes as medidas tomadas para desafogar o trânsito e restituí-lo à normalidade.

Provocara o engarrafamento um acidente envolvendo dois caminhões (um dos quais carregava líquido inflamável) – informaram os policiais humanos e os robôs envolvidos na tarefa, indispensável, e urgente, de esclarecer a população. A colisão entre os dois veículos fôra indescritível. O motorista do caminhão com líquido inflamável cochilara ao volante, e o caminhão colidira com a lateral de outro caminhão. E ambos os caminhões tombaram. O motorista do caminhão carregado de líquido inflamável morrera esmagado entre as ferragens. E o líquido inflamável, fluindo por várias frestas abertas na blindagem do tanque, esparramara-se pelo asfalto. A força pública de emergência agira imediatamente, e controlara, em pouco tempo, a situação. Evacuara, de imediato, todos os prédios das proximidades, devido ao risco iminente de uma explosão, que não demoraria a ocorrer. As pessoas e os robôs envolvidos no plano de emergência agiram a tempo de evitar o alastramento das chamas; e nenhum prédio fôra seriamente avariado. Estilhaçaram-se algumas janelas.

Removidos os caminhões envolvidos no acidente, o líquido inflamável e os destroços, conduzido ao hospital o motorista sobrevivente e à sala de autópsias o motorista falecido, o trânsito fluiu normalmente.

Mário, contrariado, permanecera parado durante mais de meia hora. Não podia ir nem para a frente, nem para trás. Desfeito o congestionamento, o trânsito fluindo lentamente, conseguiu, depois de alguns contratempos, retirar-se do lugar. Pouco tempo depois, presenciou um roubo e a prisão do ladrão. Menos de vinte minutos depois, chegou à Academia. Naquele dia teria de desdobrar-se para concluir as suas inúmeras tarefas.

Para ninguém falou das suas experiências da véspera. Apresentou uma desculpa verossímil, que justificava a sua ausência no dia anterior: ficara na sua casa redigindo um texto com observações acerca dos experimentos realizados nos dias anteriores. Era-lhe inadmissível perdê-las. Como todos os colegas de trabalho reputavam-no um homem íntegro (e ele o era, de fato), nenhum deles iria averiguar a veracidade das afirmações que ele deu. A sua história estaria assegurada, desde que não tocassem no assunto, nos próximos dias, diante de Daniele, ou à ela dirigissem algum comentário a respeito – e nem a Rodolfo, e nem à Valquíria.

Sempre que desviava os seus pensamentos das pesquisas e dos estudos, mergulhava na angustiante hipótese de haver um clone seu andando pelas ruas. Um? Ou mais de um? Ou daquele homem contra o qual Mário esbarrara no dia anterior, Mário e outros homens – que talvez existissem – foram clonados? Tais interrogações repetiam-se, incessantemente, no cérebro, já abalado, de Mário, martelando-lho.

À noite, exausto, foi para a sua casa, pensando, durante todo o trajeto, na possibilidade de ou ter sido clonado, ou ser ele um clone de outro homem. Nenhuma das duas hipóteses agradava-o.

Na sua casa, na companhia de Daniele, Marcos Antonio e Aloísio, viveu momentos divertidos. Ajudou Marcos Antonio e Aloísio nas tarefas escolares, esclarecendo-lhes questões que eles não haviam compreendido.

Daniele disse para Mário que o pai dele enviara-lhe o convite para o congresso.

À noite, Daniele não falou para Mário a respeito das observações que fizera do comportamento dele, estranho aos olhos dela. Esperou que ele lhe dissesse o que o incomodava, caso o desejasse, e se algo realmente o incomodava.

Marcos Antonio e Aloísio dormiram no sofá da sala. Marcos Antonio ressonava. O sono de Aloísio era silencioso. Mário carregou Marcos Antonio ao quarto, e Daniele, Aloísio, e os ajeitaram cada um deles em uma cama, e os cobriram com um fino lençol.

Os filhos dormindo, Mário e Daniele foram à biblioteca, que servia, também, de sala de conferências, onde conversaram entre um copo de suco e outro e um biscoito e outro. Daniele deu-lhe uma notícia: sua mãe, Samantha, comunicara-lhe, pelo telefone, que Pâmela fugira de casa, na noite anterior, quando dormiam ela, Samantha, e Alceu, pai de Daniele. Daniele narrou a história que sua mãe lhe narrara, resumindo-a, e suprimindo pormenores que não contribuíam para o seu entendimento. Mário não ouviu todas as palavras; escaparam-lhe alguns trechos da narração porque os seus pensamentos desviavam-se para outras questões, nelas concentrando-se. Daniele notou-lhe os momentos de devaneio; agindo como se nada percebesse, não interrompeu a narrativa. Mário teceu alguns comentários, fez-lhe algumas perguntas, manifestando, aparentemente, interesse pelo episódio.

Transcorreram-se os dias. Daniele amargurava-se com o progressivo afastamento de Mário. Antes, tinham eles o hábito de, à noite, manter prolongadas conversas durante as quais tratavam de política, religião, notícias transmitidas por agências de informações, conflitos étnicos; agora, as conversas resumiam-se a rápidas trocas de notícias desimportantes e trivialidades envolvendo pessoas conhecidas. Mário, notava Daniele, reduzia, no transcurso dos dias, a sua participação nas conversas, até reduzi-la a comentários ligeiros, desinteressados. Decorridos outros dias, as relações entre eles resumiram-se às saudações frias e secas; e ele a beijava, no rosto, sem o calor e a ardente paixão costumeira. Daniele entristecia-se. Mário, parecia-lhe, havia perdido o afeto e o carinho que por ela nutria. Não a abraçava como o fazia de hábito, não a acariciava, e dela não recebia as carícias com o mesmo prazer de antes. No princípio, notou Daniele, apenas dela ele afastava-se; com o tempo, ela percebeu, ele se distanciava de Marcos Antonio e de Aloísio, com os quais anteriormente, abandonando-se em diversões animadas, viravam a casa de pernas para o ar e punham Daniele de cabelos em pé. Esses dias felizes tornaram-se recordações de um tempo que nunca mais voltaria, pensava Daniele, entristecida. Mário à esposa e aos filhos tornou-se insuportável. Negava abraços aos filhos, que, confusos, fitavam-lo, e entreolhavam-se, e olhos marejados, amargurados, suplicantes, buscavam Daniele, no desejo de ouvir, dela, explicações a respeito da conduta do pai. Daniele doía-se com a frieza de Mário para com ela e os filhos. Chorava, escondida, os olhos avermelhados, fundos. Mário não lhe notava o semblante entristecido, amargurado, angustiado. Ou o notava, mas não desejava envolver-se, nem com a esposa, nem com os filhos. Ele se confinou em suas cismas. Daniele prostrou-se, desanimada. O seu trabalho reduzia-se em qualidade. Suportou Daniele a indiferença de Mário durante dois anos, durante os quais perdeu um pouco do viço e da beleza; não cuidava mais da aparência; vestia-se com desleixo; não sorria; não ia às festas; perdeu o gosto por afazeres e atividades que lhe eram prazerosas. Marcos Antonio progredia na escola; Aloísio, não – não era dotado de inteligência equivalente à de seu irmão, e enfrentava muitas dificuldades no aprendizado. Mário não partilhava com Daniele as preocupações cotidianas; não se interessava pelos estudos dos filhos; vivia consigo e para si, e recusava contato de outras pessoas; insulou-se na sua casa, ilhou-se na Academia.

Havia muitos dias, Mário não se dignava a dirigir a palavra à esposa e aos filhos. Quando Marcos Antonio e Aloísio corriam na sua direção, assim que ele regressava da Academia, para lhe saltarem ao pescoço, e abraçá-lo, ele não se reclinava para recebê-los nos braços; permanecia ereto, sisudo, e dizia, ríspido, que não tinha tempo para abraços, e dirigia-se à biblioteca, onde se trancava, sem dignar-se a olhar para a sua esposa e para seus filhos.

II

Nos dois anos que se seguiram àquele dia singular, Mário vislumbrou, em quatro ocasiões, no meio da multidão, quando andava pelas calçadas, o homem idêntico a ele. Duas vezes, na mesma cidade, próximo do local em que o vira pela primeira vez; uma vez, na cidade de B… na mesma megalópole, e uma vez, na cidade de D…, na megalópole de K…, a primeira megalópole ao norte da megalópole de A… Todas as questões que Mário se fazia ele as refez, e, a cada vez que as refazia o fazia com mais obsessão. As suas meditações mergulhavam-no em fossas abismais. À visão de “ele” (o suposto clone de Mário, ou o original de quem Mário fôra, talvez, clonado) exacerbava-se os sentidos de Mário, que se afundava nas cismas que o atormentavam, obcecado por respostas às interrogações que se fazia e para as quais não tinha resposta. Agia como um espectro, exibia aspecto fantasmagórico, parecia um autômato. Desumanizou-se. Corria, esquecendo das suas obrigações e do seu trabalho, ao divisar o homem idêntico a si, em perseguição a ele  e ele sempre fugia-lhe. Para Mário, a vida era um pesadelo. Para ele, um ente superior dele zombava. Mário sentia-se um boneco nas mãos de um espírito superior, que detinha o poder de controlar-lhe a vida, dirigi-la como o desejava, sem que ele, Mário, o soubesse. Mário conversava consigo mesmo, em voz alta, atraindo a atenção das pessoas pelas quais passava; resmungava pelas ruas; perdia o controle das suas ações; andava, sem rumo, pela cidade, em busca de “ele”, seu clone. Ou Mário era o clone de “ele”? Tal suspeita atormentava-o, e ele a moía e a remoía, e descabelava-se de tanto pensar a respeito. Era Mário um andarilho desocupado, que andava sem rumo, a zanzar como um vadio. Reduziu o tempo que permanecia na Academia. Dissipou tempo precioso à procura de um espectro, de um fantasma; e enterrava-se, cada vez mais, em suas cismas. Melindrava-se com facilidade, e após nove anos de vida comum com Daniele, pela primeira vez tratou-a com rispidez, frieza, e também aos filhos, berrando-lhes censuras, ameaçador, por razões absurdas. Da rispidez no trato com Daniele, passou à implicância; criticava-a por tudo o que ela fazia e desprezava o que ela apreciava e prezava. Se ela passava batom nos lábios, ele a reprovava, e, com brutalidade, removia-lho dos lábios, e declarava que a vaidade era uma peçonha que penetrava no espírito de mulheres volúveis. Se Daniele usava uma saia com as fímbrias um pouco acima dos joelhos, ou uma camisa discretamente decotada, ele, enfurecido, ordenava-lhe substituísse as roupas “indecentes, de rameiras” por roupas de “mulher decente, mãe e esposa respeitáveis”. E Mário vituperava. E berrava indecências. E clamava que o demônio havia lhe invadido a casa e se apoderado do espírito de Daniele, o que explicava, para Mário, o “comportamento desregrado” dela. Certo dia, Mário, ao ver Daniele trajada com um vestido florido, em fundo azul, cuja orla inferior descia até um pouco acima dos joelhos e cuja parte superior era decotada, mirando-se ao espelho, inspecionando o vestido, à procura de alguma dobra indesejada, de algum vinco, berrou, chamando-a de nomes que um marido jamais diz para a esposa, dela aproximou-se, rilhando os dentes, rosnando, alvejando-a com olhares penetrantes, segurou-a pelos ombros, apertando-lhos e sacudiu-a, e insultou-a, e perguntou-lhe aonde ela iria com aquele vestido indecente, e empurrou-a sobre a cama, e rasgou-lhe o vestido, arrebatando-lho com brutalidade. O vestido ficou em tiras nas garras de Mário, que vociferava e, com os dentes, rasgava, fora de si, as tiras, reduzindo-as a fiapos. Mário deixou Daniele com as peças íntimas, unicamente. Daniele tremia, as mãos ao peito, assustada, os olhos arregalados. E Mário, num acesso de loucura, a blasfemar, amaldiçoou-a, abriu o guarda-roupas, e retalhou todas as roupas dela que ele considerava indecentes. Camisas, saias, vestidos, maiôs, biquínis e peças íntimas, sedutoramente provocantes, na opinião de Mário, confeccionadas para perturbar os sentidos dos homens, para a perdição e a queda de Mário, que, desvairado, declarou que evitaria que isso ocorresse. Daniele conservou-se, na cama, sentada, acompanhando, os olhos arregalados, a ação desvairada do seu marido, perguntando-se se ele não havia perdido o juízo. Mário, atassalhado pela angústia, perdido o amor pela vida, o apreço pelas diversões e pelos prazeres que a vida oferece, não tolerava a alegria e os prazeres alheios. Desgostoso da vida, repugnavam-no os prazeres, que para ele se converteram em depravações. Tudo lhe era proibido; nada lhe era negado; ele se negava a deliciar-se com os prazeres da vida. Corroia-o a infelicidade; e ele não admitia a felicidade alheia, que o agredia, ferindo-o. Para ele, a exibição, por Daniele, de cordialidade, afeto, carinho e amor, era atitude de mulher vulgar e desprezível. Quando ela, discreta, manifestava desejo amoroso, Mário a repudiava, e tinha ela de ouvir recriminações de um moralista insano, que concebia quimeras acerca da conduta alheia, dotado de percepção distorcida da realidade. A partir de então, Daniele vestiu-se apenas com roupas comuns, que a cobriam das pontas dos dedos dos pés até o pescoço, num colarinho apertado; e as mangas das camisas terminavam nos pulsos. Tinha de se trajar assim inclusive nos dias tórridos de verão. Daniele perdeu o amor, não totalmente, pelos pequenos prazeres da vida. Não sucumbiu, apesar das suas amarguras, embora testemunhasse a gradual e ininterrupta decadência moral do seu marido, aos tormentos que a afligiam. Não permitiu que Mário, na sua insanidade (que Daniele desejava fosse passageira), a espoliasse do amor que ela nutria pelos filhos e por ele, Mário. Se não fosse uma mulher de fibra, confinar-se-ia na sua casa, distanciar-se-ia de todos e desprezaria as pequenas coisas da vida.

Daniele suportou o flagelo o quanto pôde, e nunca se curvou, submissa e resignada, à indiferença e ao desprezo que Mário lhe dedicava. A sua família dependia dela, naqueles dias tristes, para não se desfazer.

Os pratos saborosos que ela preparava Mário os reputava supérfluos, para o gosto de sensualistas, de hedonistas, e não para o paladar de gente sensata, decente e honesta.

Mário fez a sua esposa chorar quase que diariamente. Ela, altiva, diante dele, controlava-se; uma vez ou outra, os lábios trêmulos, quase a chorar, dizia-lhe qualquer coisa; certa vez, chorou diante dele, e dele ouviu palavras e risos de desprezo e indiferença.

Daniele vivia com os nervos à flor da pele. Não sabia mais em que pensar, e dissipava-se o seu amor pelo marido. Resguardou-se, porém. Não queria sucumbir àqueles que a cobiçavam, e a requestavam, que não eram poucos; carente de carinho e afeto, debilitado o seu ânimo, poderia vir a envolver-se em uma relação ilícita, que atassalhar-lhe-ia a alma. Daniele amava Mário. Aturou-o. Suportou-lhe as manias estapafúrdias, as grosserias, a indiferença, a rispidez no trato.

Certo dia, ao chegar na sua casa, após as vinte e uma horas, Mário nela entrou, calado, emburrado; não saudou sua esposa, e nem seus filhos. Estes, vendo-o transpor a porta, fitaram-no, desejando correr-lhe ao encontro, pular-lhe ao pescoço, enlaçá-lo com abraço afetuoso; não se moveram, no entanto. Mário virou-se para eles, e eles abriram sorriso de contentamento e prepararam-se para irem-se-lhe ao encontro, e fez-lhes um gesto brusco e, num tom ríspido, ordenou-lhes que não se lhe aproximassem. Fitaram-lo os meninos, confusos, num misto de medo e respeito. Desejavam abraçar o pai; o tom de voz dele, no entanto, petrificou-os. Os olhos de ambos os meninos refletiam-lhes a confusão que lhes ia no espírito e deles revelava a energia produzida pelo atrito entre a vontade de atirarem-se aos braços do pai e a de conterem-se e não irem ao encontro dele. Daniele, no sofá, sentada, folheando uma revista, deteve-se, a revista ao colo, e, apreensiva, assistiu à cena. Mário, passos firmes, com um empurrão repentino, arremessou Marcos Antonio para longe de si. Marcos Antonio escorregou por mais de um metro, e quase veio a bater com a cabeça na parede. Mário, sem tomar consciência do seu ato, não se deteve. Marcos Antonio, no chão, caído, assustado, chorou. Daniele correu a consolá-lo, estupefata; reclinou-se diante dele, e pegou-o ao colo, ele a chorar ruidosa e convulsivamente. Aloísio, confuso, vendo-o chorar, chorou também. Daniele embalou Marcos Antonio e, com voz musical, como se declamasse um acalanto, procurou sossegá-lo. Ele e Aloísio não ouviram as razões que ela lhes apresentou. Daniele sentou-se no sofá, enlaçando o primogênito, que, chorando e soluçando convulsivamente, trazia a cabeça enterrada no colo dela. E atraiu Aloísio, que chorava, para si, e ele se lhe sentou sobre a perna esquerda, o queixo encostado ao peito, encolhido. Terna, acolhedora, abraçada aos seus filhos, um fino filete de lágrimas a fluir-lhe de cada olho e a deslizar-lhe pelo rosto martirizado, balbuciava, lábios trêmulos, uma oração.

Marcos Antonio e Aloísio choraram durante um bom tempo. A voz de Daniele, de timbre suave, modulação adocicada, fê-los adormecerem ao colo dela. A fisionomia deles irradiava, na dor profunda da desilusão, uma pureza casta. Daniele aninhou-os, no sofá, e, rilhando os dentes, dirigiu-se, passos firmes, resoluta, à biblioteca, para onde Mário se dirigira. Exigir-lhe-ia explicações para a conduta atípica dele, estúpida e bruta. Reconstituía, em pensamento, a cena: Mário entrando na sala, e Marcos Antonio e Aloísio em pé, na esperança de receberem ternos e calorosos abraços e beijos paternais, mas receando do pai receberem, como se dava diariamente, sempre que ele regressava da Academia, olhares frios e palavras ríspidas; e o empurrão injustificado. Com o empurrão, Mário lançou longe Marcos Antonio. Se hoje Mário empurrou Marcos Antonio, o que ele faria, nos dias seguintes? – perguntou-se Daniele. E depois? Mário surraria Marcos Antonio? Quando Mário se libertaria da loucura que dele se havia apossado? Para Daniele, o empurrão que Mário deu em Marcos Antonio era o prenúncio de uma tragédia.

Daniele encontrou Mário sentado, ligeiramente inclinado, a pender para a esquerda, numa cadeira em cujo braço esquerdo tinha ele enterrado o cotovelo esquerdo. Trazia imóvel a cabeça, vazio o olhar, espectral a fisionomia, a aparência de um morto-vivo que emergira das profundezas do mundo dos mortos para atormentar a todos no mundo dos vivos. Palidez fantasmagórica cobria-lhe o semblante. Era insuportável para Daniele a visão do rosto do seu marido. Daniele deteve-se, e pensou em recuar. Decidida a conversar com Mário, puxou uma cadeira para si, dele aproximou-a, e a pôs na frente dele; nela sentou-se, inclinou-se para a frente. E fitou Mário, cujos olhos viam apenas o vazio diante de si. Dirigiu-lhe a palavra; ditou-lhe algumas censuras. Mário, abstraído da realidade, não ouvia o que ela lhe dizia. Se a ouvia, disso ele não deu provas. Daniele sentia as emoções a se lhe exacerbarem. Irritava-se. Começava a perder o domínio de si, domínio que já lhe era precário. Pôs-se a expressar-se em tom de voz elevado. Acelerou o ritmo das frases. Engasgou-se; gaguejou. Comeu sílabas. A voz saiu-lhe embargada. Tremiam-lhe os lábios. Os olhos arregalados, mirava o seu marido, então alheado do que se dava diante de si. Entrelaçou os dedos das mãos ao peito, súplice, pedindo a Mário explicações, esperançosa de ouvir-lhe a voz. Ouviu, no entanto, apenas silêncio fúnebre. Mário nenhum movimento esboçou. Olhava o vazio. De repente, levantou-se. Daniele dirigiu-lhe a palavra; ao receber o silêncio como resposta, acertou-lhe, com a mão direita, no rosto esquerdo, um tapa. E foi a reação de Mário, imediata, precedida de um olhar furioso: avançou sobre Daniele, os braços estendidos, as mãos abertas, para agarrá-la, pelo pescoço, e cravar-lhe, na jugular, as unhas. Agarrou-a, e ela se lhe desprendeu – não escapou ilesa, entretanto: um corte pequeno ficou-lhe no pescoço. Pareceu a Daniele que uma agulha lhe penetrara na carne. Mário, frustrado, avançou, em sua fúria animalesca e doentia, na direção de sua esposa, que recuava lentamente. Ela sentiu as mãos dele agarrando-lhe o vestido. Mário, segurando-a pelo vestido, e esticando-o, puxou-a. Daniele emudeceu. Queria gritar, mas suas cordas vocais desobedeceram-na; as palavras ficaram presas em sua garganta, um obstáculo irremovível a atravancar-lhes a passagem. Mário puxou-lhe o vestido, que se esgarçou. O vestido retalhado, ele o abandonou no assoalho. Nua da cintura para cima, Daniele nunca havia se sentido tão desprotegida, tão impotente. Resfolegava, o coração convulsivo. Bateu com o ombro direito contra uma das prateleiras, e tropeçou num banquinho, vindo a cair, de barriga para baixo, no chão, o joelho esquerdo batendo no assoalho. Mário saltou-lhe em cima, e segurou-a, com as duas mãos, pelo pé esquerdo. Ela escoiceava, as mãos no chão; com o pé direito livre, acertava pontapés em Mário, que sentia os golpes, ora nos braços, ora nas pernas, ora no ventre; uma vez, ao agachar-se para segurá-la pela cintura, ela atingiu-o, com o pé, o nariz, e ele soltou-a e ao nariz levou as mãos. Daniele correu, retirou-se da biblioteca, foi pelo corredor, passou pela sala, onde seus filhos dormiam profundamente, e rumou ao quarto, Mário no seu encalço. Subia as escadas, quando ele se lhe aproximou e, alcançando-a, no patamar superior, enlaçou-a pela cintura, e ergueu-a do chão. Em seu desespero, ela não conseguiu gritar. Debateu-se. Mário estreitou-a, e ela, agitada, moveu, involuntariamente, a cabeça para trás, no momento em que ele abaixava a cabeça, atingindo-lhe o nariz, e livrou-se dele. Mário urrou de dor, e levou as mãos ao nariz; ao afastá-las, fitou-as, e viu-as ensangüentadas; desvairado, avançou contra Daniele, que escorregou, e caiu deitada de barriga para baixo. Avançou sobre ela, e ela, virando-se, deitada de costas no chão, acertou-lhe, com o pé direito, a coxa. Mário contraiu de dor os músculos do rosto. Daniele levantou-se, e foi para o quarto, correndo, arfando; ao passar pelo enquadramento da porta, segurou a borda da porta, e puxou-a para fechá-la atrás de si, mas não o conseguiu, pois Mário colocara-se, uma fração de segundo antes, entre a porta e o batente. Mário comprimiu os músculos do rosto, que se deformou no esforço de abrir a porta. Daniele, por sua vez, parecia esmorecer. Mário, enfim, abriu a porta ao empurrá-la, bruscamente, arremessando, para trás, Daniele, que caiu no chão atapetado. Resfolegando, desesperada, os cabelos despenteados, ela se levantou, deu vários passos para trás, e encostou-se à parede, a tremer da cabeça aos pés. Mário saltou-lhe, ameaçadoramente, em cima, os dentes a rilharem, os olhos a exprimirem a sua animalidade. Com seu corpo, envolveu Daniele, estreitando-a com um forte abraço. Ela puxou-o pelos cabelos, e ele contraiu os músculos do rosto. Debateu-se, violentamente, para livrar-se dos braços que havia muitos dias não a estreitava em amplexos amorosos, com os quais ela tanto sonhava. O abraço com que Mário envolveu-a prenunciava agressões mais violentas. Daniele reconhecia, desgostosa, desconsolada, que o seu marido havia perdido a sua humanidade, daí ele agredi-la, caluniá-la, humilhá-la, atormentá-la, e também aos filhos. Necrozava-se a carne de Daniele ao contato do seu corpo com o de Mário. Daniele sentia-se desfalecer como se Mário exalasse um hálito entorpecedor, o qual ela inalou, e lhe inoculado peçonha mortífera. Entontecida, sentia os dedos dele apertando-lhe o pescoço. Caiu sobre a cama. Mário, que ofegava e gania como um cão sedento, pôs-se em cima de Daniele, então com a consciência dissipando-se e aflorando-lhe à mente pensamentos sombrios.

Daniele não soube como e de onde tirou força para reagir à agressão. Mário, ensandecido, acreditava que a havia subjugado. Ela conseguiu, empurrando-o com os pés, desvencilhar-se dele, e, livre, levar as mãos ao pescoço; tossia, engasgada, cerradas as pálpebras. No seu pescoço viam-se, impressas, as marcas dos dedos de Mário. Este, ao lado da cama, cambaleando, o rosto inflamado de cólera, levantou-se, voltou-se para Daniele, caiu, e bateu a nuca no chão atapetado, que amorteceu o choque, e levantou-se, desajeitadamente.

Daniele descerrou as pálpebras. Aos seus olhos exibiu-se a figura do marido, decomposta, então de cabelos desgrenhados e rosto coberto de arranhões, cabelos e arranhões que lhe emprestavam aparência sinistra, sangue a escorrer-lhe das narinas, e rasgada a camisa no ombro e no peito. Deitada de costas, na cama, Mário à sua frente, Daniele encolheu as pernas, aproximou os joelhos do peito, e, no instante em que ele lhe pulara em cima, encaixou-lhe os pés no ventre, e, com um esforço tremendo, esticou as pernas, empurrando-o. Mário caiu. Daniele precipitou-se para o corredor. Recuperado, Mário correu-lhe no encalço. Ela foi à biblioteca, onde ele a agarrou, e ela puxou-o pelos cabelos, arranhou-lhe o peito, e, livre do abraço mortífero, empurrou-o, e ele, escorregando, caiu sobre uma pequena prateleira repleta de livros, da qual duas tábuas horizontais soltaram-se; e os livros caíram-lhe em cima. Ele se debateu, para retirar-se de sob os livros, resmungou e praguejou; e perdeu a consciência. Viam-se apenas suas mãos, seus pés e sua cabeça descobertas; de sua testa, próximo à sobrancelha direita, fluía, de um profundo corte aberto por uma tábua da prateleira, sangue, que lhe escorria à cavidade do olho direito.

Esbaforida, tremendo dos pés à cabeça, respirando fundo, Daniele apoiou-se nos cotovelos fincados no estofado. Sentou-se em uma cadeira, abraçou-se, e fitou Mário, então sob os livros. Confusa, sentia-se aliviada. Sua mente, um turbilhão de pensamentos desconexos. Cerrou as pálpebras, empinou o corpo, inflou o peito, encheu os pulmões de ar, e expirou longamente, expulsando de si os maus pensamentos, recuperando uma parcela minúscula das forças desbaratadas durante a contenda com seu marido. Conseguiu, enfim, controlar a respiração. Restabelecida, descerrou as pálpebras, e fitou Mário. E perguntou-se se não se havia saído de um pesadelo. Aquele homem à sua frente, o seu marido, pai de seus filhos, não era o homem que, há meses, humilhava-a, desprezava-a, destratava-a. Não queria acreditar que ele, o seu marido, quisera agredi-la. Ele era uma pessoa gentil, afetuosa, carinhosa. Que mal havia dele se apoderado? Sentada na cadeira, não reparou Daniele no seu próprio estado, absorvida no estudo da figura de Mário. Daniele queria se aproximar dele. Entrechocavam-se, em sua mente o medo, a desconfiança e o amor que nutria por ele, a vontade de restabelecer com ele a convivência harmoniosa de antes do dia, dois anos antes, em que o havia notado diferente, como se do espírito dele apossasse o espírito de outra pessoa. Daniele amava-o. Sabia que ele só se recuperaria se ela o ajudasse. Não poderia abandoná-lo. Ele era o seu marido, o pai de seus filhos. Ela, a esposa dele, mãe dos filhos dele. Ele sempre a tratara como a uma rainha. O homem com quem Daniele conviveu nos dois anos anteriores até aquela data não era o seu marido. O homem que ela conhecia antes daquele dia fatídico, dois anos antes, sim, era Mário, o seu marido, pai de Marcos Antonio e de Aloísio, o único homem que ela amou. O homem que estava, desacordado, diante dela, sob uma montanha de livros, era-lhe desconhecido, era uma caricatura bizarra do seu marido que lhe havia invadido a vida, corroendo-a, desviscerando-a, retalhando-a, destruindo-a, fazendo de Daniele uma mulher desditosa e dos filhos bonecos inanimados. Mário, pensou Daniele, esperançosa, renasceria daquela carcaça desacordada.

Daniele alisou o rosto. Calma, reapossou-se, plenamente, de si. Ao mirar-se, viu, em seu corpo, cortes rasos no ventre, nos braços, nos antebraços, nos ombros, nas costas, nas nádegas, nas coxas e nos peitos. Inspecionou-se, cuidadosa, e minuciosamente, ao espelho. Pontilhavam-na pequenos cortes e marcas de pressão de dedos circundadas por vermelhidão. Seus cabelos estavam despenteados; o rosto, ossudo, cadavérico; os olhos, opacos; a pele, marcada, recortada, repleta de vincos; o lábio inferior, sangrando um pouco, no lado direito, próximo à comissura; as pestanas, sem brilho; as sobrancelhas, deslocadas. Sentia dores em várias partes do corpo, cujo aspecto enfeado desagradou-a. Era uma mulher reduzida a um trapo.

Voltou a sua atenção para Mário. O que faria? Deixá-lo-ia lá? Achegou-se a ele. Ajoelhou-se. Acocorada, estudou-lhe a respiração, atentamente. Tirou de cima dele os livros, e com extrema dificuldade o pôs sentado. Aquele corpo inanimado parecia-lhe pesar uma tonelada. Daniele respirava com dificuldade. Incomodavam-na as dores. Decidiu arrastar Mário até o sofá. Inclinada para a frente, em pé, atrás de Mário, passou-lhe o braço esquerdo pela axila esquerda e o braço direito pela axila direita, e entrelaçou-lhe os dedos das mãos ao peito, e puxou-o; e deteve-se após deslocá-lo vinte centímetros, para tomar fôlego.

Distavam cinquenta centímetros do sofá. Daniele afrouxou as mãos, descruzou os dedos, acocorou-se, e, num torpor profundo, entibiada, sentada sobre os calcanhares, encostou seu queixo à cabeça de Mário, que lhe despencava ao busto, e chorou copiosamente. Inundaram-lhe os olhos as lágrimas, que escorreram, e contornaram-lhe o nariz e os lábios. Ao recompor-se, enlaçou Mário, como anteriormente, e puxou-o, arrastando-o, até o sofá. Sentou-se, e afrouxou o abraço. Respirou fundo, tomou fôlego, empinou o corpo, puxou Mário, e o pôs encostado ao sofá, e deslocou-se para o lado.

Conseguiu, o corpo a latejar, pôr o seu marido inanimado sobre o sofá, e sentou-se, no assoalho, a cabeça pendendo para trás. Expirava e aspirava com força, soltando, ruidosamente, o ar dos pulmões. Seus braços penderam, abertas as mãos, as palmas para cima. Estendeu as pernas. Cerrou as pálpebras. Tomou fôlego. Apoiou-se no assoalho e no sofá, para se levantar. De pé, sentiu vertigens. Amparou-se no sofá, em cuja beirada sentou-se, e levou as mãos à cabeça. Pouco tempo depois, levantou-se, e andou, com dificuldade, até o quarto. Tirou do guarda-roupa um lençol e um travesseiro, regressou à biblioteca, e aninhou Mário, ajeitando-lhe a cabeça sobre o travesseiro, cobriu-o com o lençol, e retirou-se. De regresso ao quarto, sentou-se na cama, exausta. Poucos minutos depois, tirou do guarda-roupa uma camisola, e de gavetas do criado-mudo medicamentos para os machucados, e deixou-os sobre a cama. E foi ao banheiro. Nua, examinou-se. Abriu o chuveiro. Os primeiros pingos atingiram-lhe os arranhões e os machucados. A dor fê-la desistir de banhar-se. Fechou o chuveiro, e enxugou-se. Regressou ao quarto, e mirou-se ao espelho. Era-lhe aterradora a visão de seu corpo. E nos ferimentos passou medicamentos, lenta e cuidadosamente.

Em um futuro não muito distante – parte 2 de 8

Serenados seus coração e espírito, levantou-se, com certa dificuldade, as mãos apoiadas nos joelhos. Conservou-se cabisbaixo e pensativo durante a caminhada. Seus olhos fundos, encovados, refletiam a amargura em que lhe atirou uma tempestade de interrogações a respeito de si mesmo. Quem era aquele homem idêntico a ele, Mário? Das outras questões que se fazia, desconhecia Mário as respostas. Se havia uma resposta para cada uma delas, persegui-las-ia até encontrá-las, até o último dia da sua passageira existência na Terra. Se não havia, quando saberia da inexistência delas? Se as encontrasse, a sua busca se encerraria; se não as encontrasse, não morreria feliz, pois, desconhecendo-as, não se convenceria de que elas não existem.

Pensava em quais justificativas para sua ausência apresentaria, no dia seguinte, na Academia, aos cientistas da sua equipe. Se dissesse a verdade, eles o desacreditariam. Tratá-lo-iam, na melhor das hipóteses, como uma pessoa sob passageiro surto de excentricidade, comum aos cientistas, motivado por um forte choque emocional, e rezariam aos céus, suplicando a reversão do estado lastimável dele antes que se lho enraizasse no recanto mais profundo do cérebro. Ou contaria uma inverdade para eles. Pensava em uma história verossímil, isenta de contradições; e se esforçaria para evitar desmentir-se. Ou alegaria contratempos no âmbito familiar, que lhe exigiram a presença, e não entraria em detalhes.

Andou por ruas desertas e mal iluminadas; algumas pelas quais nenhuma pessoa sensata, que preza a própria vida, passa, muito menos à noite e só. Todavia, nada o assombrava, pois ele ignorava o estado delas, e nenhuma ameaça pressentia, fosse qual fosse, tão mergulhado estava em suas reflexões, abstraído da realidade. Os seus pensamentos convergiam para um objetivo difuso.

Pensava no que vivenciara, naquele dia, durante o qual se lhe apresentaram enigmas que lhe acarretaram aflições espirituais que jamais havia experimentado. Ele se achava, até então, convicto da sua origem e das peculiaridades do seu ser e considerava-se conhecedor de tudo o que lhe dizia respeito. A partir do seu encontro com o homem idêntico a si, pôs-se a se fazer indagações, as quais jamais conceberia, a respeito da sua vida, se não houvesse passado pelas experiências daquele dia. Sobrevieram-lhe dúvidas angustiantes para as quais ele não estava preparado. Os seus pensamentos, até então ordenados, galopavam, irrefreáveis, e não o abandonavam, e ele não os abandonava. Era-lhe impossível não pensar em todas as idéias derivadas do momento que vivia.

Em uma das ruas mal iluminadas de um bairro, que é um campo de batalha de facções rivais de delinqüentes juvenis, um bando de rapazes e homens entre quinze e vinte e cinco anos, de calças largas rasgadas nos joelhos uns, de bermudas que desciam abaixo dos joelhos outros, nus da cintura para cima uns, de camisa outros, todos de aparência ameaçadora, ia na direção de Mário e dele aproximava-se. Mário, indo na direção do bando, ignorava-o. Alguns dos componentes do bando fumavam um cigarro, passando-o de mão em mão. Um garoto tragava-o, e, ao tempo que lançava a fumaça para o ar, passava-o àquele que se lhe avizinhava, e este, cigarro entre os dedos polegar e indicador, sugava-o, e baforava uma espessa fumaça. As roupas que usavam os integrantes daquele bando refletiam-lhes as almas infernais. A fisionomia deles refletiam, deles, o caráter facinoroso. Andavam como que narcotizados; o vocabulário deles, constituído de gírias e obscenidades – um lingüista reputado não lhes decifraria o singular idioma. Por onde passava, abandonava o bando um rastro de medo. Pessoas que, debruçadas no peitoral das janelas dos prédios, olhavam, negligentemente, a rua, ao notar a aproximação daquela súcia, recolhiam-se, instantânea e imediatamente, ao interior do prédio, pois o instinto de sobrevivência sobrevinha-lhes repentinamente. Nada queriam ver, nada queriam ouvir, pois não queriam, depois, se ocorresse alguma tragédia, falar. Cobriam os ouvidos e os olhos para, depois, se interrogados, não terem de abrir a boca – o que poderia vir a acarretar-lhes dissabores. Assinariam os atestados de óbito, cada um o seu, se testemunhassem as ações daqueles delinqüentes.

O bando de malfeitores reinava absoluto na rua deserta e mal iluminada cujos postes tinham, três de cada cinco, a lâmpada quebrada. A pouca iluminação emprestava à rua ar de filme de suspense e às fisionomias dos integrantes daquela súcia de malfeitores ar fantasmagórico, espectral, que assustaria o mais corajoso e arrojado dos heróis gregos. O bando gozava de pleno domínio da rua, e ninguém se atrevia a fazer-lhe frente; os poucos que o fizeram haviam batido em retirada após embates encarniçados, dos quais, invariavelmente, retiraram-se feridos, e alguns deles eram, no dia seguinte, encontrados estirados, mutilados, afogados em uma poça de sangue. Aquele bairro, no imaginário popular uma arena em que ocorriam batalhas sanguinolentas, era notícia, nos jornais locais, quase que diariamente.

Os delinquentes divisaram Mário, que andava como se estivesse no quintal da sua casa. Embasbacados, apatetados, boquiabertos, esboçaram uma expressão misto de surpresa e despeito, e entreolharam-se, exprimindo confusão. No princípio, ao verem o vulto de Mário, não sabiam se se tratava ele de um homem, ou de uma mulher. A má iluminação permitiu-lhes definir o sexo do profanador daquele covil apenas quando ele distava deles um pouco mais de dez metros, e deles aproximava-se, ignorando-lhes a existência. A presença dele, naquela rua, era-lhes de uma afronta imperdoável, e o ar dele, de quem nenhum medo sentia, de uma irreverência ilimitada. Ele lhes espicaçou, involuntariamente, o ego. Eles, os donos do pedaço, desdenhados, desrespeitados, revidariam àquela afronta. Mário ignorava a ameaça que o espreitava. Os marginais foram tomados de grande surpresa e estupefação, num misto imbricado de ódio e despeito. Quem era aquele imbecil, perguntavam-se, que invadia o território deles?

Mário aproximava-se da matilha, ignorando-a. Os lobos, sedentos de sangue, não admitiriam, em hipótese alguma, tal afronta; se a admitissem, fariam deles alvos de chacotas; ridicularizá-los-iam. Era uma questão de honra: para conservarem a moral que conquistaram sacrificando a felicidade e a paz de muita gente, teriam de resolver, imediatamente, o caso, e dar uma boa lição no invasor; se permitissem que o maluco, como a Mário se referiam, de lá se retirasse ileso, os bandos rivais os desrespeitariam. Seriam alvos de piadas depreciativas; os outros bandos desafiá-los-iam, sem temor; arrostá-los-iam. Tinham de evitar que isso se desse, sem delongas.

Todos os integrantes do bando, boquiabertos, deram passagem a Mário; pouco tempo depois, ao recuperarem o domínio de si, entreolharam-se, indignados, e, sem que nenhum deles articulasse sequer uma palavra, decidiram, de comum acordo, dar fim ao invasor. Um deles tirou do bolso traseiro esquerdo da calça um canivete, que reluziu à luz bruxuleante da lâmpada de um poste. O vento assobiava, prenunciando uma tragédia. A atmosfera era propícia à realização de um crime horrendo. O rapaz que empunhava o canivete, imberbe, franzino, ossudo nos joelhos, cotovelos e ombros, de clavículas e omoplatas destacadas, aparentando quinze anos, seguiu Mário, sem fazer ruídos; atrás dele, os outros marginais observavam, olhares atentos. O rapaz, o canivete afiado aninhado em sua mão, passos firmes e decididos, aproximava-se, silenciosamente, de Mário, alisava o canivete, cujo fio ele acarinhava, lascivamente, numa volúpia sanguinária. A arma era a sua amante, fiel amante. Os olhos do rapaz, sanguissedentos, refletiam a frieza da sua natureza sanguinária. Deformava-lhe a boca um sorriso maligno, sombrio. Aproximou-se de sua presa, que, enterrada dentro de si, ignorava-o. Olhos fixos nela, a dois passos dela, exibiu sorriso ignóbil, como que possuído pelo demônio. Resoluto, tendo olhos apenas para a sua vítima, arreganhou a afiada garra, rilhou os caninos, e, com olhar sinistro, preparou-se para saltar sobre ela e desferir-lhe um golpe fatal.

Um facho de luz surgiu à frente deles. Mário e o garoto com o canivete achavam-se, no meio da rua, na metade entre um entroncamento e outro. Do cruzamento à frente deles, o facho de luz cortava a soturna escuridão da noite. Uma viatura policial seguiu-se, vagarosamente, à luz. O facínora recolheu as garras; contrariado, deu meia-volta, e retornou, passos acelerados, ao bando, que, protegido pela escuridão, retirara-se e contornara a esquina antes que a viatura policial chegasse até Mário.

Da viatura, um dos dois policiais acenou para Mário, que o ignorou. O policial, homem de voz áspera, gritou uma saudação. Não obteve resposta. A viatura passou por Mário, e deteve-se. Em marcha à ré, foi até ele e com ele emparelhou-se; e o policial berrou-lhe duas vezes, e ele não o ouviu. O terceiro grito ele o deu num tom mais elevado, tirando-o do seu torpor. E Mário voltou-se para os policiais, mansamente, os olhos perdidos, sem entender o que se passava. Os policiais o interrogaram. Pediram-lhe o nome, os documentos pessoais. Perguntaram-lhe o que ele fazia, sozinho, naquela rua deserta. Abobalhado, Mário exibia confusão, e nada lhes disse. E eles o alertaram para os riscos que ele corria. Disseram-lhe que, se até aquele momento nada lhe ocorrera de mal, ele poderia se considerar um felizardo, e o aconselharam a ir-se embora imediatamente. E abanando a cabeça, afastaram-se.

Mário deu-se conta, então, de onde se encontrava. E veio-lhe à memória histórias que lera, em jornais municipais, de bêbados que brigavam e esfaqueavam-se, e, feridos, à beira da morte, aos hospitais afluíam, retalhado o rosto, decepadas as mãos, despedaçado o crânio, e de incontáveis casos de estupros e assassinatos.

Preocupava-se, agora de volta ao mundo dos vivos – e pânico dele quase se apossou – em sair de lá o mais rapidamente possível. Não desejava morrer. Mal sabia ele a sorte que tivera. Ouviu, de detrás de si, garrafas a estilhaçarem-se, gritos, uns assustados, outros suplicantes, e outros ameaçadores, e a detonação de um revólver. E o silêncio tumular que se seguiu. Trêmulo, acelerou os passos, o peito a arfar, o coração a pular, dando tratos à bola. Premia abandonar aquela região lúgubre, da qual se retirou, enfim.

Mário não sabia como reagir aos estímulos daquela dia. Pensava em regressar à sua casa, abraçar seus filhos, brincar com eles, e, mais do que tudo, desejava abraçar Daniele, beijar-lhe os lábios, conversar com ela, e contar-lhe o que se passara naquele dia. Contar-lhe-ia a verdade? Talvez. Por enquanto, indagava-se, refeito, e de posse, assim pensava, de sua consciência, se era correta a visão-de-mundo na qual até aquele dia acreditava piamente. Bastou um evento, que ele jamais concebera, e todas as suas convicções começaram a se desfazer; daí ele se perguntar se acreditava no que, conscientemente ou não, pensava que acreditava. Ele, que já havia intentado levar a cabo a elaboração de um sistema de pensamento, perguntava-se, agora, como encerraria as suas elucubrações, se, para confirmar as suas convicções, encadearia as suas idéias numa sequência lógica, ou se, para emprestar solidez aparente aos seus pensamentos, empregaria artifícios, tais como vocabulário injustificadamente técnico, indecifrável, para ocultar de todos, o que lhe agradaria o ego, a substância das suas idéias inconsistentes repletas de lacunas e contradições.

No desejo de chegar, e logo, à sua casa, estendeu o braço esquerdo para chamar um táxi. Um táxi passou por ele, ignorando-o. Segundos depois, passou por ele outro táxi. E um táxi, enfim, dele aproximou-se, e parou. Mário abriu a porta do carro, nele entrou, e, enquanto ajeitava-se no banco e passava o cinto de segurança, disse ao taxista o nome da rua em que se localizava sua casa e o número desta. O taxista, criatura soturna, pediu-lhe uma referência. Mário mencionou uma loja de antiguidades. O taxista, que dava mostras de que não apreciava o seu ofício, como se a vida, tragicômica, pregasse-lhe uma peça de muito mal gosto, enfezado, sequer lançou um olhar para o seu passageiro. De dar calafrios, a viagem de quase uma hora.

O taxista parou ao meio-fio. Mário ouviu-lhe a voz ríspida ditar o preço da viagem. Fitou-o, dando-lhe a entender que não compreendera o que ele lhe dissera, e dele ouviu o valor da viagem, dita num tom ainda mais seco, mais grave, mais áspero, mais hostil. Pagou-lhe em cédulas e moedas, e, em silêncio, esperou-o, observando-o, atentamente, conferir o valor, o que ele fez resmungando. Conferido o dinheiro, o taxista, enfezado, confirmou o valor recebido, e Mário abriu a porta, do carro retirou-se, e mal fechou-a o motorista pisou no acelerador.

Postado diante da porta da sua casa, localizada em um bairro tranquilo, no qual moravam médicos, engenheiros, dentistas, advogados, atletas, cantores, empresários, políticos, cientistas, Mário tirou do bolso anterior esquerdo da calça o molho de chaves, destacou a do portão, meteu-a na fechadura, abriu a porta, entrou nos domínios da sua casa, e fechou a porta. Suspirou. Inflou o tórax, de regozijo. Contemplou a beleza harmoniosa que irradiava do seu lar. Ouviu vozes. Eram quatro as vozes – identificou-as. Pouco tempo depois, identificou cinco vozes distintas. Uma, grave, a que se sobressaía, era a de seu pai; outra, doce e meiga, de sua esposa; outra, a de sua mãe; e as outras duas, animadas, alegres, infantis, a de Marcos Antonio e a de Aloísio.

O seu espírito encheu-se de intensa alegria. A sua fisionomia refletia o jacto de entusiasmo que lhe enchia todos os poros. Em sua mente, no entanto, persistia pensamentos que lhe anteviam, para os dias seguintes, experiências desgastantes. Em sua cabeça havia um turbilhão de pensamentos tumultuados, os quais ele não os controlava, e para controlá-los esforçou-se, em vão, enquanto conservou-se, no jardim, a ouvir as vozes, as risadas e as gargalhadas que da sua casa chegavam-lhe aos ouvidos, sorriso de alivio a enfeitar-lhe o rosto, o corpo leve como se tivesse se livrado de um grande peso.

A despeito da alegria que lhe inflava o espírito, recuava ante a idéia de saudar seus pais. Não estava preparado para olhá-los nos olhos. Incomodava-o a experiência daquele dia. Teria coragem, sangue frio, estado de espírito, para abraçá-los, beijá-los, com o carinho costumeiro, nas faces, olhá-los nos olhos, sem transparecer os sentimentos incômodos que não o abandonavam? Se seu pai, ou sua mãe, indagasse-lhe a respeito da sua aparência, diferente, irreconhecível, perderia Mário o domínio de si? Qual seria a sua atitude se sua mãe lhe fizesse uma pergunta singela, aludindo à sua fisionomia? Cairia, ajoelhado, diante dela; suplicar-lhe-ia o perdão, num misto de humilhação e coragem, e inteirá-la-ia de seus pensamentos, os quais tinha-a, e ao seu pai, como vilões? Qual seria a reação dela? Sobrevir-lhe-ia o desmaio? Preocupava-se Mário. Tinha ele de enfrentar a situação. Seus pais eram geneticistas. Seu pai, homem honesto, franco, sincero, jamais lhe havia escondido algo; já lhe havia falado, inclusive, de alguns pecados da juventude e de pensamentos reprováveis que lhe havia aflorado ao espírito. Sua mãe, se não chegou a ter-lhe a mesma intimidade, confiando-lhe os seus mais íntimos pensamentos, também nunca lhe havia faltado com a franqueza e a sinceridade. Deveria Mário perguntar, no momento oportuno, ao seu pai ou à sua mãe, ou aos dois, se eles tiveram, além dele, Mário, outro filho, um gêmeo de Mário, ou se os genes dele, Mário, foram copiados, e deles se criou um homem idêntico a ele, Mário? Um? Apenas um? Até então Mário se sentia um homem íntegro, e sabia que ele era ele, e seu corpo era seu; agora, sabedor da existência de outro homem idêntico a si, sentia-se se desintegrando, não se sentia o Mário que todos conheciam e que ele conhecia. Ele era ele, ou era outro homem? Ele ainda se conhecia? Ele se conheceu algum dia? E aquelas pessoas que lhe eram mais caras notariam que ele não mais era o Mário que conheciam, mas outro Mário, deles desconhecido?

Aqueles que acreditavam na separação e independência entre corpo e alma, diante do corpo de Mário, sentiriam a alma dele desintegrada? Mário, que nunca havia se ocupado a pensar acerca da alma, afundava-se, agora, em conjecturas a respeito, e angustiava-se. Seus pais, que o conheciam melhor do que toda e qualquer outra pessoa, notariam as mudanças que ele sofrera naquele dia? E sua esposa perceber-lhe-ia alguma coisa diferente, a sua alma dividida? E dividida em quantas partes? E seus filhos, na pureza de seus espíritos, perceberiam, nele, alguma mudança? Como reagiria Mário se uma das pessoas que mais estimava aludisse ao seu estado de espírito? Mário preparou-se para enfrentar a situação; e de sua família e de si mesmo ocultar os seus sentimentos. Respirou fundo. Deu um passo. Deteve-se. Seu cérebro corcoveou; seu coração agitou-se. Cerrou as pálpebras. Empinou o corpo. Sentia-se meditando durante um ritual religioso, não sabia se demoníaco, se divino, fundindo o seu espírito com o cosmos, em busca de equilíbrio. O coração retomando o seu ritmo normal, Mário descerrou as pálpebras, respirou fundo, deu um passo, e outro passo, e outro, e mais um, e entrou na varanda, cuja extensão cruzou em poucos passos, e deteve-se diante da porta, em cuja maçaneta pousou a mão esquerda. E abriu a porta, e transpôs a soleira. Atingiu-o a luminosidade reinante na sala-de-estar. Marcos Antonio, o primeiro a vê-lo, abriu um largo sorriso, e, eufórico, correu em sua direção, e saltou-lhe ao pescoço, ao mesmo tempo em que ele se agachava e inclinava-se para a frente, para recolhê-lo aos braços. Daniele disse para Mário que estava preocupada e que pretendia telefonar à Academia. Alegraram-se todos. Aloísio não esperou Marcos Antonio abandonar os braços de seu pai, e pulou sobre ele, Mário. Mário, abraçado aos seus filhos, ergueu-se. O afeto e o carinho que nutria por eles reduziam-lhe o peso da consciência. Seus filhos não desejavam largar-lhe do pescoço. Mário nunca havia se sentido tão leve. Estampava um largo sorriso, a irradiar felicidade ilimitada. Seus olhos brilhavam de alegria. Viu o rosto de sua esposa transfigurada num sorriso deslumbrante. Os dentes dela brilhavam de tão brancos. Maravilharam-no os regulares traços da fisionomia dela. Parecia a ele que ela sentia a emoção que ele sentia, como se ela lhe houvesse penetrado no cérebro, e um espírito lhe houvesse explicado o que se passara com Mário, naquele dia, e a exortasse a acolhê-lo com o mais amável e deslumbrante sorriso.

Daniele aproximou-se de Mário, que sentiu o bafejo perfumado que dela recendia, e retirou-lhe dos braços Aloísio, e beijou Mário nos lábios. Um lampejo de felicidade invadiu a alma de Mário. A acolhida não poderia ter sido mais amável. Aloísio debateu-se nos braços de sua mãe, pedindo-lhe, a esgoelar-se, que o restituísse aos braços de seu pai; este, por sua vez, inclinou-se para a frente e prontificou-se a pôr Marcos Antonio no chão, e este relutou, e apertou-se-lhe, como se temesse perdê-lo se o largasse. Mário explicou-lhe que iria abraçar os avós dele, mas ele, não querendo ouvi-lo, não o largou. As palavras de Mário unidas às de Daniele o convenceram, enfim, a afrouxar o abraço e, relutantemente, largar-se. Mário, parecia, havia esquecido as questões que o incomodavam até poucos instantes antes; com a mente livre de incômodos, olhou para sua mãe, e abraçou-a, carinhoso e respeitoso; em seguida, olhou para seu pai, e abraçou-o, com fervor e carinho. Abandonara a reserva que o atormentava, despreocupado das questões que até minutos antes o perturbavam. Nem seu pai, nem sua mãe, nem sua esposa, nem seus filhos nele identificaram sequer uma mudança no estado de espírito.

No transcurso da noite, percorreram muitos assuntos, sérios, uns, divertidos e despreocupados, outros. Brincaram. Rodolfo, avô acolhedor, festivo e desembaraçado, promoveu inúmeras brincadeiras, esquecido de que era um homem de cabelos brancos, de um pouco mais de cinquenta anos de idade, geneticista de renome, professor emérito de dezenas de universidades. Na companhia de seus netos, era ele um homem como outro homem qualquer. Aquele que o desconhecesse, e naquele momento o visse brincando tão animadamente com Marcos Antonio e Aloísio, informado de que ele era um dos melhores geneticistas do mundo, desacreditaria, incrédulo, o emissor da notícia e o reputaria um mentiroso descarado, afinal, um gênio da ciência não saborearia de momentos tão divertidos, pois, diria, os cientistas são criaturas frias e calculistas.

Tarde da noite, Rodolfo e Valquíria despediram-se de Mário e de Daniele – Marcos Antonio e Aloísio dormiam há muito tempo, profundamente, após a animada agitação do dia, e roncavam ruidosamente. Antes de se retirarem da casa, foram ao quarto dos netos, e deram, cada um deles, em cada neto, na testa, um afetuoso beijo de despedida.

À porta, Mário e seu pai conversavam, e sua esposa e sua mãe palestravam à parte. Valquíria dava à nora algumas recomendações que diziam respeito à saúde de Marcos Antonio e Aloísio e aos cuidados que ela teria de dedicar ao pai adoentado, acamado, que lhe requeria atenção, e a Paulo, Catarina e Pâmela, irmãos de Daniele. Rodolfo e Mário falavam de coisas associadas às ciências (e nem mesmo quando falaram de clonagem humana Mário evocou os eventos sucedidos naquele dia). Rodolfo convidou seu filho para um congresso dali duas semanas. Mencionou os filósofos, os religiosos, os políticos, os esportistas e os cientistas que foram convidados para o evento. E disse-lhe que, caso ao congresso ele não pudesse comparecer, mas desejasse acompanhar os debates, que acessasse o site ***.com.

Enfim, Rodolfo e Valquíria entraram no carro. Rodolfo deu a partida. Vinte e cinco minutos depois, chegaram na casa deles.

À despedida de seus pais, Mário enlaçou, pela cintura, sua esposa, atraiu-a para si, e deu-lhe, surpreendendo-a, nos lábios, um beijo ardente e cobiçoso. Reinava o silêncio na rua deserta. Luzes das lâmpadas dos postes e de algumas residências pontilhavam a escuridão da noite. Imperava a tranquilidade. Mário e Daniele trocaram carícias afetuosas. Ela pisou-lhe nos pés, enlaçou-o pelo pescoço, e deu-lhe um beijo; e ele carregou-a para dentro da casa. Riam à toa. Andando, calmamente, um tanto desajeitado, Mário conseguiu chegar à porta que dava à sala. Transposta a porta, fechou-a, à chave, e rumou ao quarto, Daniele a pisar-lhe os pés e a abraçá-lo pelo pescoço.

Mário despertou, na manhã seguinte, após noite de sono reconfortante, renovadas as suas energias. Daniele levantara-se, minutos antes, e preparara a refeição da manhã, a qual ela levou, em uma bandeja, ao quarto. Assim que seu marido se sentou, pôs-lhe sobre as pernas a bandeja. Encostado à cabeceira da cama, ele recebeu de Daniele, que lhe parecia mais bela, e cuja voz parecia-lhe mais musical, mais afetuosa, um beijo de saudação. E ela se lhe aconchegou à esquerda.

Marcos Antonio e Aloísio dormiam.

Daniele levava à boca do seu marido uvas, pedaços de maçã, gomos de laranja, pedaços de pão, de pudim, o copo com leite. Quando, ao levar o copo com leite à boca de Mário, derrubou, nele, um pouco de leite, que escorregou, contornando-lhe o queixo, riu tolamente, contagiando-o. E ambos riram, tolamente. Mário gargalhou, e cobriu com as mãos a boca, para conter-se. Concluída a refeição, Daniele retirou-se do quarto com a bandeja, os copos, os pires e o que restava do pequeno sortimento de frutas, e dirigiu-se à cozinha. De regresso ao quarto, minutos depois, subiu na cama, deitou-se sobre seu marido, voltada para ele, e deu-lhe beijos calorosos, ardentes, e ele recebeu-os, apaixonado.

Levantaram-se ambos minutos depois.

Marcos Antonio e Aloísio dormiam.

Daniele foi ao seu escritório residencial, e, via computador, conversou com outros odontologistas.

Um pouco antes das dez horas da manhã, Paula, a empregada doméstica, chegou na casa de Mário e Daniele. Era ela uma mulher de quarenta anos, forte, mãe de três filhos, dois deles, adolescentes, Matheus e Thiago, filhos dela e de Gabriel, o seu primeiro marido, de quem enviuvou oito anos antes, e um, menino de seis anos, Mathias, filho dela e de Rodolfo, o seu segundo marido.

Após o banho, no quarto, uma toalha cobrindo-a da metade superior das coxas até um pouco acima do busto, Daniele mirou-se ao espelho da penteadeira, e penteou os cabelos, e passou batom vermelho nos lábios e cosméticos para realçar os belos traços naturais, enquanto Mário vestia-se, sentado, na cama.

Falaram Mário e Daniele das tarefas e dos compromissos do dia.

A manhã ia às mil maravilhas até o momento em que Daniele, entre um assunto e outro, enquanto agitava o vestido florido de fundo branco, inseriu, na conversa, uma interrogação, que fulminou Mário. Perguntou-lhe se alguma coisa incomodava-o. Disse-lhe que ele estava diferente; confessou que nada dissera, até aquele instante, para não amolá-lo com perguntas incômodas e porque não desejava estragar a noite. E ele enterrou-se, de imediato, nas suas cismas. Empalideceu. Adquiriu a figura de um vulto fantasmagórico. Abandonou-o a felicidade, que o extasiava até aquele instante. Estranha a sensação que o invadira. Bastou Daniele dizer-lhe que o notara diferente, que ruiu-lhe a felicidade. O espírito combalido, não conseguiu Mário ajeitar a gravata. Daniele, aproximando-se dele, e notando-o pálido, perguntou-lhe se ele passava mal, pôs-lhe a mão na testa, e acariciou-lha e ao rosto. Mário desconversou. Acometera-o um mal passageiro, disse, enquanto Daniele ajeitava-lhe a gravata.

Após arrumar a gravata de seu marido, Daniele desceu para a cozinha. Sentado na beirada da cama, Mário pensava. Minutos depois, na cozinha, Daniele conversando com Paula, Mário anunciou a sua retirada, o cérebro repleto de pensamentos desagradáveis, e deu um beijo no rosto de Daniele, e abriu a porta; quando ele a fechava atrás de si, Daniele disse para Paula que notara alguma coisa de estranho nele. Paula, discreta e sensatamente elogiou-o, e declarou que, era provável, incomodava-o algo associado ao trabalho.

Mário ligou o carro. Ao premir o botão de um controle abriu o portão da casa; ao premir o mesmo botão ao sair da casa, fechou o portão. Iria à Academia. Em nenhum momento da sua casa à Academia tirou da cabeça os acontecimentos do dia anterior. Quem era aquele homem idêntico a ele, Mário? Irmão gêmeo de Mário ele não era. Era aquele homem um clone de Mário? Mário foi clonado por seus pais? Havia, armazenados em alguma instituição científica, dados completos da estrutura genética de Mário, e algum instituto os roubou, ou o instituto que os possuía – com o conhecimento dos pais de Mário? – os vendeu para pesquisadores? Havia um mercado internacional paralelo de identificação genética de indivíduos humanos? E quem os roubou clonou Mário, sem a concordância de Rodolfo e Valquíria? Havia apenas um clone de Mário? Quantos clones de Mário havia? Se os pais de Mário o clonaram, e nisso Mário não acreditava, mas era uma hipótese que ele não podia descartar, quantos clones dele fizeram? Ele, Mário, pensava Mário, angustiado, era o clone do homem que ele vira no dia anterior? Ou ambos eram clones de outro homem? Seria Mário um clone? Assustava-o tal hipótese. Ou era ele o homem de quem fizeram um clone, o clone o homem que ele vira no dia anterior? Seria Mário, se dele fizeram um clone, ou se ele fosse um clone, um ser de espécie que não a humana? Não era ele um clone, ele quis se convencer. Ele nunca se sentiu um clone. O que era sentir-se um clone? Um clone de um ser humano não é um ser humano? Um clone humano perderia alguns dos aspectos humanos que possuía no momento da sua concepção? Quais aspectos humanos ele perderia no decurso dos anos, caso herdasse alguns? Se dele fizeram um clone, um pedaço dele, de seu ser, isto é, de Mário, estaria no corpo de outro homem, e, portanto, a alma de Mário não seria íntegra, e ele não seria humano? Teria Mário uma alma, se fosse ele um clone? A sua alma estaria intacta? Se ele, Mário, fosse um clone de um outro homem, receberia ele, Mário, uma parcela da alma dele? A alma dele estaria dividida? Em quantas partes? Se ele, Mário, fosse o homem original do qual foi feito um clone, a sua alma estaria dividida? Em quantas partes? Um clone humano é dotado de alma? O que é a alma? É provido de espírito? O que é o espírito? É dotado de personalidade? O que é a personalidade? Existem alma, espírito, personalidade? Alma e corpo são dois entes distintos? Ou são uma coisa só? Se são uma coisa só, a alma nasce com o corpo? Se nasce com o corpo, nasce, também, com a criação do corpo de um clone humano? A alma, imortal, espera pelo nascimento de um corpo, para nele penetrar, e habitá-lo, e, com a morte dele, abandona-o, e regressa à eternidade? O corpo de um clone humano está considerado nos desígnios de Deus? Se está, a alma penetra-o, e anima-o? Como é a alma de um clone humano, que não nasce segundo as leis da natureza? As leis da natureza são irrevogáveis? As leis de Deus são irrevogáveis? Um clone humano nasce à ação da ciência humana, que contraria a lei da natureza e a de Deus; então, pode ter alma um clone humano? São como os humanos os clones humanos? Se os clones humanos não são previstos por Deus, Deus é onisciente? Deus permite a existência de clones humanos? Se sim, poderíamos considerar humanos os clones humanos? Os clones humanos são desprovidos de alma? Sendo desprovidos de alma, são humanos? O que é a alma, afinal? A alma anima todos os corpos, independentemente da origem deles? Ou a alma é um ser etéreo, eterno, que habita um corpo, durante a vida deste corpo, e abandona-o quando da sua morte? Clones humanos têm alma? Em que labirinto Mário se enveredava? Ele do labirinto encontraria a saída? Encontraria? Quando?

Em um futuro não muito distante – parte 1 de 8

I

Mário Antunes Siqueira Neves Ferreira era filho de Rodolfo Neves Ferreira e Valquíria Amélia Siqueira Neves Ferreira, ambos geneticistas de excepcional talento e ampla envergadura intelectual, ambos autores de incontáveis trabalhos publicados nas mais conceituadas revistas especializadas de mais de duas dezenas de países. Nasceu vinte e oito anos antes do dia em que esta história teve inicio em uma movimentada rua da cidade brasileira de A…, uma das quarenta e oito cidades que compõem a megalópole de A… Era filho único, mas não o único filho que viera à luz do útero de sua mãe. Aos três anos, aprendeu a ler e a escrever, nas aulas concedidas por seu pai e sua mãe, que sabiam conciliar o trabalho e os estudos com a educação do filho. Matriculado na escola aos cinco anos, já lia e escrevia com facilidade, sinal de uma precocidade intelectual que logo chamou a atenção dos professores. Os seus primeiros estudos, na primeira escola em que foi matriculado, estenderam-se até aos seis anos. Destacou-se dentre as outras crianças. Era muito observador. Quieto, retraía-se quando alguém lhe dirigia a palavra; mas quando falava, os professores ficavam deslumbrados com as minúcias que ele notava nos objetos e nas pessoas. Não era expansivo como a maioria das crianças; era, diziam os professores, comportado. Aos sete anos, seus pais o matricularam em uma escola especial para pessoas dotadas de inteligência muito acima da média. Eles, pessoas que, como ele, também foram providas de rara inteligência, estimulavam-no aos estudos – na sua casa, ele respirava o ar de um ambiente que lhe fornecia todas as condições para aprimorar os seus talentos. Rodolfo e Valquíria excitavam-lhe a inteligência com brinquedos que o estimulavam a raciocinar, a exercitar a memória privilegiada, a criar, a inventar, a imaginar. E as conversas que mantinham atraíam-lhe a espontânea curiosidade. Antes de completar quinze anos, ele já frequentava academias científicas e literárias. Era muito bem acolhido pelos estudiosos, e sentia-se bem em qualquer ambiente em que se percebia fragrância de inteligência, e muita inteligência, humana. Interessava-se por tudo o que via, e queria “ver com as mãos”; tudo ele tocava, maravilhado, como se se encontrasse em um outro universo. Formulava, inquieto, perguntas a respeito de tudo, e sempre pedia emprestado um livro para levar para casa e lê-lo. Nunca lhe recusaram tal pedido. De bom grado, os estudiosos esclareciam-lhe as dúvidas e o convidavam a participar de conferências e palestras. Ao ir-se embora, Mário deixava atrás de si um forte perfume de inteligência e simpatia. Participou de palestras, reuniões, debates, controvérsias científicas sobre assuntos complexos, que fugiam ao comum das gentes. E foi nessa época, em uma conferência, presidida por seu pai, sobre os rumos da engenharia genética e a escalada das ações extremistas de facões políticas, científicas e religiosas, que ele conheceu uma jovem desajeitada, de cabelos castanhos, que lhe prendeu a atenção. Daniele, a sua futura esposa. Ela vestia-se com certo desleixo. O sorriso travesso, que se lhe notava no rosto de traços bem definidos, os olhos vivazes, que irradiavam entusiasmo e euforia, e a sua espontânea, ingênua desinibição conquistaram o coração de Mário. O destino quis que eles fossem apresentados um para o outro, naquele dia. Os olhares que trocaram indicavam que entre eles havia muito mais do que atração recíproca. Mário e Daniele eram duas pessoas de gênios incompatíveis, dotados, todavia, de muitas afinidades. Foi ela quem deu os primeiros passos para um relacionamento mais íntimo. Convidou Mário para assistir a um jogo de futebol em um estádio de futebol. Durante o jogo, de um modo arrebatador, ela deu o pontapé inicial do namoro, ao comemorar um gol do seu time predileto, o São Paulo Futebol Clube, quando tascou, em Mário, um beijo ardente, caloroso, lábios nos lábios. Mário enrubesceu. Conservou-se paralisado durante todo o restante do jogo. O namoro era promissor. Daniele ingressou, no ano que completou dezoito anos de idade, na faculdade de odontologia da cidade de E… daquela megalópole, e Mário, no mesmo ano, matriculou-se na faculdade de medicina da cidade de D…, naquela mesma megalópole – e ele se especializaria em neurologia. A distância que os separava e o pouco tempo que tinham à disposição para se encontrarem não os impediram de namorarem.

Mário e Daniele casaram-se aos vinte e um anos. Dois anos depois, Daniele deu à luz Marcos Antonio. Transcorridos outros dois anos, ela deu à luz Aloísio.

Daniele tornou-se uma excelente odontologista. Tinha um grande número de pacientes. Mário engajou-se nos estudos, sempre manifestando extraordinário talento, jamais contestado, sempre louvado, pelo mundo científico, que admirava, dele, a seriedade invulgar, e veio a se tornar um respeitado neurologista, que aos vinte e oito anos começou a ganhar renome internacional.

O ano era um ano qualquer. O dia, 19 de dezembro. A cidade de A…, enfeitada, refletia alegria contagiante. Agitava-a espetáculo feérico. Nos prédios colossais, nos edifícios pequenos, nas casas, nos jardins, brilhavam milhares de lâmpadas dispostas de modo a representarem, umas, um pinheiro, outras, um Papai Noel, outras, a Santa Ceia.

Absorto, andando pela rua movimentada, acotovelando-se em um e em outro pedestre, Mário vivia em um mundo à parte: raciocinava, o cérebro a transbordar fórmulas matemáticas, em questões que o incomodavam. Não sentia as cotoveladas que lhe davam – algumas propositalmente lhas infligiam personagens enraivecidos e angustiados, que gozavam do pequeno prazer de lhe desferir um golpe sutil com o cotovelo, não excluindo a força e nem a intenção de provocar, dele, uma reação enraivecida; todos eles frustraram-se ao depararem-se com a indiferença de Mário, que, absorvido pelos seus pensamentos, não reagia, verborrágico, com virulência.

De repente, um homem roçou-lhe com o braço esquerdo o braço direito, provocando-lhe corrente de estranha e nunca experimentada sensação, que lhe percorreu a espinha, com o poder de emergi-lo das profundas águas de suas cismas. Mário voltou-se, os olhos perdidos, a fisionomia intrigada, incomodado com as sensações que lhe assolaram o corpo, e olhou para o homem que lhe resvalara o braço. E qual foi a sua surpresa ao vê-lo. Percorreu-lhe o espírito terrível calafrio. Gelou-se-lhe a alma. Congelou-se-lhe o corpo. Estupefato, o coração a bater mais acelerado, o sangue a abandonar-lhe a face, que se tornou lívida, cadavérica, postou-se, petrificado, boquiaberto, os olhos desmesuradamente arregalados, a respiração suspensa. Não conseguiu tirar do chão os pés. Perdeu o domínio de si. Ouviu o silêncio opressivo sob o ambiente ruidoso. Perguntou-se se viu o que pensou ter visto, ou se uma ilusão se lhe oferecera aos olhos, ou se alguém divertia-se à sua custa. Que bizarria era aquela? Mário, estacado, arregalados os olhos, escancarada a boca, caído o queixo, acompanhou, com os olhos, o indivíduo que nele resvalara, e que dele se afastava, calmamente, em meio ao ruidoso enxame de gente. Quem ele era? perguntava-se Mário, confuso e estupefato. Tentou seguir-lhe os passos. Não conseguiu, porém. Viu-o de relance. Era aquele homem uma ilusão – Mário quis acreditar, mas não pôde. Sabia que estava de posse de todas as suas faculdades mentais. Não delirava, sabia. No entanto, custou a acreditar no que viu. O que viu não era uma alucinação. Ou era? Tudo se passou em um piscar de olhos.

O homem em quem Mário esbarrara desapareceu no meio da multidão.

Mário, enfim, mexeu-se, mas não saiu do lugar. Pôs-se nas pontas dos pés. Viu o topo da cabeça do homem em quem esbarrara movendo-se em meio a centenas de outras cabeças. O penteado daquele homem era idêntico ao de Mário. Mário quis andar. Não conseguiu. Sua mente não coordenava os seus pensamentos e, pareceu-lhe, perdera a capacidade de comandar suas pernas. Com muito esforço, Mário andou vagarosamente. Ao recuperar o comando de seu corpo, acelerou os passos, e, a passos rápidos, roçando nas pessoas, seguiu o homem que nele esbarrara. Não ouviu os insultos que lhe atiravam as pessoas em quem esbarrava. Sem que o desejasse, chocou-se com um homem de cabelos brancos, magro, e derrubou-o, sem tomar conhecimento do que fez. O homem levantou-se, desajeitadamente, praguejando em tom enrouquecido. Toda a atenção de Mário estava concentrada no homem que perseguia. Uma vez e outra, perdendo-o de vista, parava de correr, punha-se nas pontas dos pés, e vasculhava a região à frente, procurando, entre as cabeças, a cabeça do homem que se lhe esbarrara, e, ao identificá-la, retomava a perseguição, ziguezagueando pela multidão alvoroçada.

Ansioso, respirando com dificuldade, ora andava, ora corria, roçando em muita gente, atrás do homem, que seguia, calmamente, o seu caminho, sem tomar conhecimento de Mário, mas dele não conseguia aproximar-se; dele distanciava-se cada vez mais. Como ele, Mário, mais rápido do que o homem a quem seguia, não conseguia alcançá-lo? Ou ele, Mário, tinha noção distorcida da sua velocidade e da do homem a quem seguia?

Mário reconheceu a cabeça do outro homem, o penteado dele, que tão bem conhecia; afinal, era o seu penteado; aliás, era um penteado idêntico ao seu; e a cabeça do outro homem era a sua cabeça, aliás, uma cabeça idêntica à sua. Arquejante, o coração a pulsar acelerado, o sangue a queimar, corroendo-lhe as entranhas, o corpo quente, as têmporas a latejarem, e a visão a se lhe escurecer, corria, acelerava a sua velocidade a cada passo, e não se aproximava um centímetro sequer do homem a quem seguia. Arfava, o peito prestes a explodir. Deteve-se, para recuperar o fôlego e a força que quase se lhe esgotaram. Suava em bicas. Passou as mãos pela fronte. Enxugou a testa. E retomou a corrida. Metros depois, deteve-se, e viu o homem a quem seguia afastando-se de si. Recompôs-se. E correu, e percorreu mais de cem metros. E o homem a quem seguia andava, calmo, e de Mário afastava-se. Mário afrouxou os passos, exausto. Curvou-se, e pousou as mãos nos joelhos. Tomou fôlego. Refeito, retomou a perseguição. Após contornar três esquinas, seguiu por uma rua na qual havia poucas pessoas. Viu um pouco mais do que a cabeça do homem a quem perseguia. Divisou-lhe o corpo, há cem metros, e reconheceu a identidade entre o andar dele e o seu. O homem a quem Mário seguia e Mário contornaram outra esquina, e seguiram por rua pela qual poucos veículos trafegavam, e poucas pessoas andavam pelas calçadas esburacadas, e na qual algumas crianças empinavam pipas, outras jogavam bolinhas de gude, outras discutiam a respeito de qualquer coisa, e outras brigavam, desferindo umas contra as outras socos e pontapés. Mário não ouviu a algazarra que os garotos promoviam. Observava a misteriosa personagem. Tinha a impressão de que uma vez ou outra nuvens acinzentadas colocavam-se à sua frente, impedindo-o de vê-la. A exaustão consumia-lhe as forças. Sentia-se como um doente em busca do único remédio capaz de debelar o mal que o debilitava. Encerrou a perseguição, enfim. Sucumbiu ao cansaço. Deteve-se, abaixou a cabeça, inclinou-se, fitou o chão, e pousou as mãos nos joelhos. Suava em bicas. As pernas se lhe afrouxavam, trêmulas. Não tinha forças para dar sequer um passo, sem que fosse arremessado ao chão, inanimado.

Um homem de setenta anos, esbelto, saudável, de pele tisnada, espessa cabeleira branca cobrindo-lhe a cabeça, acenava para os meninos que se divertiam, na rua, e estes lhe correspondiam aos acenos. Mário, que mal se sustentava em pé, atraiu-lhe, sem o saber, a atenção. Curioso, o velho de Mário aproximou-se, prestativo, inclinou-se, pousou-lhe a mão direita no ombro esquerdo, e perguntou-lhe, com voz suave, quase inaudível, se ele se sentia bem, se se achava indisposto, e ofereceu-se para ampará-lo e conduzi-lo até um bar próximo, onde ele beberia água, para reanimar-se, e comeria alguma coisa que lhe fornecesse ao corpo exausto energia, pois, caso contrário, ele iria ao chão, e estirar-se-ia, desacordado, tamanha a sua fraqueza, que se lhe refletia no semblante deformado, contorcido pela dor e pelo cansaço. Mário agradeceu, indicando-lhe, com sussurros inaudíveis, numa voz entrecortada pela respiração, que não necessitava de auxílio. O velho afastou-se, relutante; voltava-se para Mário, a cada passo, e observava-o. Pressentia que algo de ruim estava para aconteceu. Mário cambaleou ao dar os primeiros passos. Conseguiu, esforçando-se, manter-se de pé. O velho, que dele se distanciava, mas dele não tirava os olhos, deteve-se, e com passos vagarosos foi até ele, e ofereceu-lhe auxílio, o qual Mário recusou, polidamente. O velho, preocupado, insistiu. E Mário renovou os agradecimentos e disse-lhe que se sentia bem. O semblante de Mário já havia assumido ar agradável, e a voz dele era nítida; o velho, convencido de que ele se recompusera, retomou, vagarosamente, o seu rumo; voltava-se, porém, de tempos em tempos, para observar Mário, que andava, lentamente, arrastando os pés, sentindo as pernas pesadas como chumbo. Ao chegar ao cruzamento das ruas W… e H…, Mário entreviu o homem a quem seguia palestrando com uma bela mulher, cuja aparência dava-lhe trinta anos de idade, bronzeada, esguia, de longos cabelos castanhos e pretos. O homem encontrava-se a menos de vinte metros de Mário, que se animou. Mário alcançá-lo-ia se se apressasse e se o homem e a mulher prolongassem a conversa. De imediato, recuperou toda a energia consumida até então, mas não desapareceram de seu rosto a ansiedade, e a estupefaciente emoção, que o assaltara quando aquele homem esbarra-lhe e o atraíra como um imã. Enquanto dele aproximava-se, atentava para os gestos dele, que eram como os de Mário. O homem, quando ria, inclinava-se para trás, como Mário inclinava-se quando ria; o homem inclinava-se para a frente e levava os dedos indicador e polegar esquerdos ao nariz, quando sorria, como Mário o fazia. O homem e Mário eram idênticos. Um deles era a imagem do outro refletida no espelho. Mas qual deles era a imagem do espelho? Mário dele aproximava-se. Notou que ele era canhoto. Mário também era canhoto. Os cabelos do homem e os de Mário eram idênticos. O porte físico do homem e o de Mário também. E idênticos eram o penteado do homem e o de Mário, e os gestos de um e os de outro. E eram idênticas as gargalhadas e as risadas de Mário e as do homem que ele fitava. Mário dele não se encontrava muito distante quando ele se despediu da mulher com gestos que lembraram a Mário os seus gestos. O homem deu um passo para trás, flexionou o braço esquerdo, sorriu, moveu a cabeça, e deu dois beijos na mulher, o primeiro, na face esquerda, o segundo, na face direita, e dela afastou-se, de costas para Mário. E a mulher abriu a bolsa que carregava a tiracolo, e remexeu em seu interior. Mário dela se aproximava, e o corpo dela se lhe definia aos olhos, e sentiu chegar-lhe às narinas o agradável aroma do perfume suave que dela recendia. Quando Mário se encontrava a dois metros dela, ela ergueu a cabeça, olhou para ele, e soltou um grito seco e curto, abafado, de susto e surpresa, e arregalou, instantânea e involuntariamente, os olhos, levou as mãos ao peito, e largou a bolsa, colada ao seu corpo, a alça por sobre seu ombro direito. Mário não queria que ela não o visse; não lhe passou pela cabeça que ela, se o visse, teria aquela reação. Ela deteve seus olhos em Mário, emudecida, encabulando-o. Mário, não sabendo o que fazer, sorriu-lhe, constrangido, incomodado com aqueles olhos radiantes a fitarem-lo. Nos olhos dela, ele viu confusão tão grande quanto à dele, ou maior.

Mário passou pela mulher, que, suspensa e estupidificada, postada na calçada, acompanhou-o, com o olhar, durante um longo tempo. Olhava para o homem a quem seguia, que, distante mais de vinte metros, afastava-se. Notou que ele andava como ele, Mário, quando calmo: a olhar para o chão, a cabeça ligeiramente inclinada para a frente. Mário não entendia porque não se aproximava daquele homem. Dobraram outra esquina. O homem a quem Mário seguia em momento algum olhou para trás, tal como Mário, que nunca olhava para trás ao andar, onde quer que estivesse.

Metros à frente de Mário, um carro retirou-se de um estacionamento. Ao volante ia uma loira de cabelos curtos; no banco dianteiro, ao lado, uma garotinha loira e branca. O carro desacelerou, lentamente, e ia se encostando ao meio-fio do lado direito da rua pouco movimentada, próximo do homem a quem Mário seguia. O homem pressentiu o carro aproximando-se de si, e voltou-se para a esquerda. Sorriu ao ver a mulher, sua esposa, ao volante, e a garotinha, sua filha, no banco ao lado, e deteve-se, aproximou-se do carro, e levou a mão esquerda à tranca da porta, e abriu-a. A menina, que não chegava aos nove anos de idade, levantou-se do banco, saiu do carro, e abraçou seu pai, enlaçando-o, calorosamente, ao pescoço, e ele a abraçou, a enlaçou pela cintura, ergueu-a do chão, sustentou-a durante alguns instantes, beijou-a, no rosto, na testa e nos lábios, numa expansão de carinho e afeto, a menina a exibir um largo sorriso, e disse-lhe palavras afetuosas, e, reclinando-se, devolveu-a ao chão, passando-lhe, carinhosamente, a mão pela cabeça quando ela, de frente para ele, comunicou-lhe qualquer coisa, e, ao fazê-la virar de costas para si e entrar no carro, desceu a mão, sempre a esquerda, da cabeça dela ao ombro esquerdo, e do ombro à cintura como se a empurrasse para dentro do carro, fê-la passar ao banco de trás do carro, e sentou-se no banco que ela ocupava anteriormente, puxou a porta, fechou o carro, inclinou-se para a esquerda, e beijou os lábios de sua esposa.

Mário acompanhou o desenrolar de toda a cena. Não lhe escapou um pormenor sequer, microscópico que fosse. Os gestos do homem a quem Mário seguia, no trato com a menina, eram idênticos ao de Mário no trato com Marcos Antonio e Aloísio. Gestos idênticos. Movimentos idênticos. Atitudes idênticas. Sorrisos idênticos. Mário concluiu que o outro homem e ele, Mário, eram idênticos. O carro distanciou-se de Mário, que se postou, exausto, ofegante.

Cansado, Mário arriou. Seus músculos, até então tensos, afrouxaram-se. Precipitou-se para o chão, e sentou-se no paralelepípedo, os pés ao meio-fio. Enterrou os cotovelos nos joelhos e escondeu a cabeça nas palmas das mãos. Arfava. Perceptíveis a dilatação e a retração de seu tórax agitado. Suspirava, aspirava e expirava, violentamente. Aos poucos, acalmou-se; incomodava-o, no entanto, o que vira. Debilitado pelo cansaço, não se achava munido de defesas contra os monstros que o assediavam, que habitavam as profundezas dos seus pensamentos. Não sabia o que pensar. Teve vontade de estirar-se, de costas, na calçada, esperando a serenidade ir em seu socorro.

Vários garotos, em algazarra estrondosa, uns nus da cintura para cima, outros vestindo camisa suja pontilhada de furos, todos eles, descalços, falavam de futebol, animados. A discussão, acalorada. Um deles, um garoto que aparentava nove anos, sobraçando uma velha e gasta bola de futebol, falava sem parar, dava socos no ar, pulava sobre um outro garoto, e este, irritado, empurrava-o, e ele, ou afastava-se e pulava sobre outro garoto, ou pulava sobre o que o empurrara. Um outro garoto, um negrinho espevitado, aproximou-se do que sobraçava a bola, e arrebatou-lha das mãos. O garoto pediu-lhe que a devolvesse. O negrinho disse que não lha restituiria, e correu, e o garoto foi-lhe no encalço. Correram os dois pela rua. O garoto ameaçou o negrinho. Ao dele se aproximar, desferiu socos e pontapés, que acertaram o ar. Todos riram, zombaram dele. Irritado, ele cessou a perseguição ao negrinho que lhe arrebatara a bola das mãos, e, bufando de raiva, insultando a todos e berrando obscenidades, correu atrás de um dos garotos que dele zombavam. E elevavam-se as gargalhadas. O negrinho, a bola nas mãos, vendo-se livre do dono dela, jogou-a no chão, e chutou-a, e fez embaixadas, numa exibição de inegável habilitada futebolística. Um rapaz amulatado, aparentando treze anos, sem camisa, de bom porte físico, um pouco maior do que o negrinho, aproximou-se dele, e tirou-lhe dos pés a bola. E ficaram a chutá-la o rapaz e o negrinho um para o outro. E os garotos, com dezesseis tijolos, divididos em quatro pilhas de quatro, construíram as traves de dois gols de um campo-de-futebol-de-rua.

Numa balbúrdia sem limites, após discussão acalorada e empurrões, os garotos compuseram cinco times, cada um constituído de quatro jogadores, e escolheram, no dois-ou-um, os dois times que se enfrentariam no primeiro jogo; e os garotos dos outros três times, contrariados, sentaram-se, na calçada, uns sobre o paralelepípedo, outros encostados ao muro, e conservaram-se, outros, em pé, encostados ao muro.

Pouco tempo depois, deu o pontapé inicial do jogo um dos jogadores de um dos dois times que, no dois-ou-um, ganhara o direito de participar do jogo inaugural daquele campo-de-futebol-de-rua.

Mário, o cérebro a fervilhar, estava à parte do que ocorria ao seu redor. Um bêbado, cambaleando, arrastando-se pelas paredes, mal se aguentando em pé, aproximou-se dele, e lançou-lhe à face hálito de bebida alcoólica. Embaralhava tanto as palavras que era impossível sequer destacar uma delas. Enterrado em suas cismas, Mário ignorou-o, e não sentiu o perfume repulsivo que dele emanava. O bêbado, engrolando pragas e insultos, afastou-se de Mário, os braços agitados. Ao se aproximar dos garotos que jogavam futebol, eles o provocaram, insultaram-no, irritando-o, e ele avançou contra eles. O negrinho aproximou-se dele, pelas costas, e deu-lhe um pontapé nas nádegas. O bêbado voltou-se para ele, quase caiu, deu murros no ar e berrou palavras, mal as pronunciando, e ninguém as compreendeu, e, ao tentar dar um pontapé no negrinho, escorregou e quase foi ao chão. Espocaram as gargalhadas. O bêbado estacou, avermelhado o rosto, saltadas as veias da testa, das têmporas e do pescoço. Esbravejou, o rosto deformado. Cuspiu. Os garotos divertiam-se, provocando-o. Alguns dentre eles dele se aproximavam, pelas costas, e chutavam-no, e corriam – e ele intensificava os insultos. As palavras que ele, esgoelando-se, proferia, ninguém as entendia. Enfim, após dez minutos a incomodar os garotos e fazendo a diversão deles, afastou-se, praguejando, resmungando, arrastando-se pelas paredes, vinte metros, agachou-se, sentou-se, encostado à parede, deitou-se, cerrou as pálpebras, e dormiu.

O Sol estorricava. Os garotos, alanceados pelos raios do Sol, não os sentiam, parecia.

A algazarra que os garotos promoviam, de tão animada, atraiu a atenção de Mário, desviando-o dos seus pensamentos. Assaltou-lhe uma sensação estranha, que lhe percorreu a espinha. Para os garotos ele olhou, confuso, atrapalhado, sem saber o que lhe atraíra a atenção, intrigado não sabia com o quê. Pensou ter ouvido alguém falar dele ou dirigir-lhe a palavra. Dois garotos fitavam-no, insistentes, a ponto de encabulá-lo. Um deles, moreno, desembaraçado, tagarela, nu da cintura para cima, descalço, esfolados os joelhos, o antebraço esquerdo e os cotovelos, apontava-o e dizia qualquer coisa para outro garoto (bronzeado, de pele queimada de Sol, descascada nos ombros) que fitava Mário, intrigado e indiferente. Mário apurou os ouvidos, mas não pôde ouvir o que os garotos diziam. Incomodava-o a insistência com que eles o fitavam. Pensou em levantar-se, e retirar-se, mas faltaram-lhe forças. Foi então que percebeu o quão exausto estava. Os dois garotos, falando dele, produziam-lhe um efeito indefinível. E deles aproximou-se um outro garoto, de dez anos. E o moreno disse-lhe qualquer coisa. O garoto demonstrou interesse pela notícia, e, curioso, fitou Mário, cuja mente foi iluminada por um pensamento qualquer, que lhe foi inspirado por alguma palavra que ele pensou ter ouvido, proferida por um dos garotos que o fitavam, ao ler-lhe os lábios. Mário esbugalhou os olhos e apurou os ouvidos. Quando o garoto fitava-o, estudava-lhe os movimentos dos lábios. E perguntou-se se ficaria, lá, sentado, observando-o, ou se levantaria, iria até ele, e far-lhe-ia perguntas? Decidiu lá permanecer, calado, esperando que ele lhe fosse dizer alguma coisa.

E chegou a noite.

E os garotos jogavam futebol, brigavam, berravam palavrões e discutiam.

Os caminhões, os carros, os ônibus e as motos que trafegavam por aquela rua invadiam o campo, e os garotos interrompiam o jogo e insultavam os motoristas com as mais desbocadas obscenidades, e gargalhavam sempre que um deles respondia aos insultos com obscenidades e acenos despudorados.

Várias vezes, a bola, chutada, com muita força, por um dos garotos, ou espirrada numa dividida, foi parar aos pés de Mário, que, uma vez ou outra, tocava-a ou com os pés, ou com as mãos, lançando-a ao garoto que a ia buscar. O garoto que apontara para Mário e o indicara para os outros garotos e para eles dele falara, em nenhum momento aproximou-se de Mário, que esperava, ansiosamente, que ele lhe fosse falar qualquer coisa.

Noite alta, a bola, um pouco murcha, maltratada durante o dia por mais de vinte pares de pés, correu até os pés de Mário, que a pegou para entregá-la a quem a fosse buscar. Qual foi a sua surpresa ao deparar-se com o garoto moreno bem diante de si! O coração de Mário vibrou, acelerado, a ponto de explodir e fragmentar-se em milhões de pedaços microscópicos. Mário emudeceu. Secou-se-lhe a garganta. Seu sangue fervilhava. Cauterizaram-lhe o cérebro as sensações que o assaltavam. Mário esperou, ansiosamente, que o garoto lhe dissesse qualquer coisa. Aproximando-se de Mário, aos olhos dele o garoto converteu-se em um espectro colossal. Aquele garoto de corpo fino e desengonçado, que falava sem parar, desencadeando gargalhadas em todos que o ouviam, e promovia balbúrdia sem paralelo na história da humanidade; aquele garoto, descalço, com machucados nos joelhos, nos cotovelos e no antebraço direito e cicatrizes em inúmeros pontos do corpo; aquele garoto cuja fisionomia transparecia peraltice e irradiava malandragem embrionária e serenidade escalafobética; aquele garoto, um contraste em si, aos olhos de Mário converteu-se em uma criatura letal, que poderia vir a inocular-lhe veneno para o qual não se conhecia antídoto. O garoto agachou-se, os braços estendidos na direção de Mário – que o fitava – para pegar a bola que ele lhe oferecia. Incomodou-o a atitude de Mário. O garoto relutou em tirar-lhe das mãos a bola. Um grito seco e imperioso de um dos garotos que esperavam que ele regressasse, com a bola, ao campo, para que retomassem o jogo, fê-lo agir; e abandonadas as suas reservas, na bola o garoto pousou suas mãos, e atraiu-a para si, puxando-a para junto da barriga, como se a houvesse resgatado das mãos de um demônio oriundo das profundezas do inferno. Mário desejou dirigir-lhe a palavra, mas, sem o domínio de si, esforçando-se para recuperá-lo, não conseguiu articular uma sílaba sequer; e era-lhe impossível elaborar uma frase. Encarou o garoto com olhar que lhe emprestava aparência mórbida e estúpida. O garoto fitou Mário, o olhar estupidificado, ensimesmando-o; olhou para um lado e para o outro. Assim que Mário fez um movimento em sua direção, ele se afastou, correndo, e regressou ao campo, e reuniu-se aos outros garotos, que, impacientes, aguardavam-no, para darem sequência ao jogo.

Mário não sabia o que pensar, não tinha consciência das reais dimensões do que ocorria em seu espírito. A sua aparência não inspirava a incredulidade e a estupefaciência que ele leu no olhar e no semblante do garoto. Algo extraordinário fê-lo transmiti-las. O quê? perguntava-se. O garoto, antes de ver Mário, havia visto o homem idêntico a ele? Mário era unigênito. Mas havia um homem idêntico a ele, e o garoto o vira, daí ele ter fitado Mário com ar de espanto, Mário presumiu, tais pensamentos a lhe marretarem o cérebro.

Sabia que vira um homem idêntico a si, e o olhar do garoto provara-lhe que ele, Mário, não vivia sob um acesso alucinógeno. O garoto não tinha outra razão para o fitar como o fitou, Mário estava convicto; só uma coisa extraordinária inspirar-lhe-ia tal comportamento.

Os pioneiros – parte 3 de 3

A espaçonave exploratória A-1 deslocou-se sete mil quilômetros para o norte de A***, sobrevoando-o a trinta mil metros de altura. Os seus sensores detectaram milhares de criaturas aladas gigantes, que se deslocavam a duzentos e oitenta quilômetros por hora, e no encalço delas a espaçonave-mãe enviou dezenas de pequenos robôs exploradores. Cada criatura alada gigante tinha cinquenta metros de extensão, oitenta metros da ponta da asa esquerda à ponta da asa direita, três caudas, pele revestida de substância semelhante a vidro que vibrava consoante os movimentos das criaturas e refletia a luz das duas estrelas brancas que nela incidia criando um caleidoscópio indescritível, nove fileiras de dentes de quatro cabeças serrilhados afiadíssimos, três narinas localizadas entre os sete olhos dispostos aleatoriamente na face anterior da cabeça juncada de excrescências e cavidades cavernosas (as excrescências segregavam líquido fluídico amarelo-esverdeado, e as cavidades, líquido fluídico cinza-azulado, que, exposto à luz, inflava-se, e assumia a configuração de esferas e a constituição de espuma, e alguma criatura, voando, manobrava o corpo de modo a interceptá-las, abriam a boca, e as engoliam. Eram alimentos muito apreciados por algumas criaturas, que por eles se digladiavam, e só encerravam a briga quando a criatura que encabeçava o grupo emitia um assobio grave), emitiam assobios agudos, de infinitos timbres, e estalavam as quatro línguas bifurcadas, duas localizadas no céu da boca e duas no chão da boca, separadas por saliências de cinquenta centímetros de altura.

As criaturas aladas gigantes atravessaram nuvens carregadas, que disparavam raios violentíssimos, que as atingiam, e renovavam-lhes as energias, e elas agitavam-se e emitiam gritos estridentes.

A criatura alada gigante que comandava o grupo escancarava a boca, a curtos intervalos, e engolia os raios. E regozijava-se. Era ela a única criatura que engolia raios. E a sua pele vítrea vibrava, assumia colorações inusitadas, multicoloria-se – espetáculo que as outras criaturas aladas, embevecidas, admiravam. Além de engolir raios, ela sorvia nuvens, em haustos vigorosos. Assustador! Admirável! Boquiabriram-se os expedicionários que se encontravam na espaçonave exploratória A-1 e os que se encontravam na espaçonave-mãe, a três milhões e quinhentos mil quilômetros de distância, em órbita de A***.

As criaturas aladas gigantes voaram – e nada lhes estorvou a jornada, nem raios, nem tempestades, nem furacões, nem erupções vulcânicas, tampouco outras criaturas aladas – até uma cavidade imensa e profunda, localizada, a dois mil metros abaixo do topo de uma montanha íngreme de seis mil metros de altura, coberta de gelo e rocha, cujo topo era inacessível para criaturas que não voam, e nela entraram, e rumaram, por um túnel de cinquenta quilômetros de extensão, para as profundezas vulcânicas do solo da montanha, que não estavam dominadas por trevas eternas. Pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade refletiam a luz emitida pelas estrelas brancas, e pedras iridescentes refletoras localizadas na garganta da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade, e pedras iridescentes refletoras localizadas mais no interior da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas acima; e, de pedras iridescentes refletoras para pedras iridescentes refletoras, e para a pele vítrea das criaturas aladas gigantes, a luz penetrava nas profundezas da montanha, imensa residência das criaturas aladas gigantes, de mais de dois quilômetros do chão até o teto e de três mil quilômetros de área; lá viviam milhares de criaturas aladas gigantes, que se alimentavam de rochas ígneas, e banhavam-se na lava que escorria por um rio estreito e profundo; na lava imergiam, e, ao emergirem, eriçavam a pele vítrea, regozijadas. O banho lhes era salutar, prazeroso. Para elas, as profundezas da montanha eram uma moradia aprazível, confortável, aconchegante.

Robôs exploradores detectaram uma serpente de quatro mil metros de extensão, dormindo, despreocupada, no interior de uma nuvem amarela composta de substâncias desconhecidas e cuja temperatura interior era de mil e duzentos graus Célsius. Sua pele era maleável, preta em toda a sua extensão; possuía um olho em cada extremidade do corpo de oito metros de diâmetro; e irradiava energia nuclear. Uma criatura fabulosa! Robôs exploradores observaram-na durante vários dias. A serpente hibernava. Quando ela despertaria? Ela não possuía asas. Por sorte, pensaram os expedicionários, a serpente e as criaturas aladas gigantes não atacaram Osvaldo em sua excursão, e não contataram a espaçonave exploratória, não a abordaram, e não a atacaram. A serpente preta gigante podia, com o seu compridíssimo corpo, envolver a espaçonave exploratória. Todas as imagens seriam apresentadas para Osvaldo, para persuadi-lo a desistir de empreender nova expedição exploratória a A***, ou, se dela não desistir, a adiá-la. Ele ficaria contrariado, mas, chamado à razão, conter-se-ia em seu irrefreável ímpeto aventureiro, acolheria as sensatas exortações de Katsushiro e, com o ânimo serenado, planejaria a próxima expedição exploratória, e não se lançaria, imprevidentemente, em uma aventura desnecessariamente arriscada. Todas as aventuras exploratórias consistiam em riscos, todos os expedicionários sabiam, mas era possível mensurá-los, e providenciar a redução dos estragos, até mesmo anulá-los. As imagens acima elencadas não seriam as únicas que Katsushiro apresentaria a Osvaldo para chamá-lo à razão. Havia inúmeras outras, mais espetaculares.

Além de criaturas, os robôs exploradores detectaram fenômenos naturais inefáveis: Raios, a milhares de metros de altura, originados de nuvens alaranjadas e azuis celestes, serpenteavam pelo céu, em movimentos descendentes e ascendentes, atingiam o solo, abrindo-lhe sulcos – e ramificavam-se em dezenas de raios menores, que percorriam milhares de metros, até que a energia se lhes dissipasse. No céu de uma ilha, cujo solo estava juncado de ossos carbonizados, nuvens aglomeradas, que formavam camadas espessas de mais de dez quilômetros a partir de quinhentos metros de altura, dispararam centenas de milhares de raios, muitos dos quais atingiam a superfície do mar de águas esverdeadas violentas – que despencavam, em sucessivas ondas de trinta metros de altura, próximo da ilha -, dançavam por sobre a superfície da água e, ao atingirem a ilha, estrondejavam em um clarão enceguecedor, aquecendo o solo em um raio de dez metros, e o solo adquiria coloração amarelo-alaranjado e vermelho-alaranjado, e retomava, não muito tempo depois, a sua cor original. Quando dois ou mais raios colidiam-se no céu, uma gigantesca esfera de fogo formava-se, detinha-se no local em que ocorrera a colisão de raios, lentamente deslocava-se em direção à nuvem, e, ao atingi-la, explodia em uma descarga energética violentíssima, e um raio dourado rasgava o céu, do ponto em que a esfera de fogo atingira a nuvem até o solo (e, no outro lado do planeta há uma ilha da qual emergiam raios acobreados). Quando um raio atingia uma esfera de fogo formada da colisão e fusão de dois ou mais raios, a esfera de fogo despencava em direção ao solo, e, ao atingi-lo, desaparecia, em uma explosão termonuclear devastadora, e abria uma cavidade, que chuva de partículas de rochas e rochas que escorriam das bordas da cavidade enchiam, e, na cavidade, fundiam-se. A colisão de duas esferas formadas em decorrência da colisão de dois ou mais raios a fundiam, e produzia uma esfera vermelho rubra, que se expandia até um quilômetro de diâmetro, e, ao atingir o solo, provocava uma explosão devastadora. A colisão simultânea de três esferas de fogo as extinguia silenciosamente.

Nesta ilha havia oito criaturas de três metros de comprimento, dois metros de altura, corpo achatado, rígido, surpreendentemente maleável, revestido de couraça resistente às explosões mais devastadoras, e desprovidas de olhos, nariz, boca, orelhas, pêlos, unhas, dedos, mãos e pés.

No transcurso de vinte dias – cada dia de A*** correspondia a cinco dias terrestres; e cada ano, a oito anos e três quartos de um ano terrestre – os expedicionários recolheram inúmeras informações sobre A***.

Os expedicionários pretendiam empreender uma expedição exploratória ao solo de A***. Osvaldo, impaciente, contrariado, nem sempre com a urbanidade que lhe era exigida e a compostura que o seu cargo pedia e a sua maturidade conferia-lhe, manifestava o seu desejo de ir ao planeta. Katsushiro rejeitava-o, com firmeza.

Osvaldo arquitetou a sua fuga. Sabia que estudavam-lhe o comportamento. Rilhava os dentes toda vez que evocava a figura de Ricardo, aquele simulacro de humano, que ludibriava os outros expedicionários com a sua civilidade, a sua elegância no trato, conferindo a si mesmo a identidade de um humano ciente das suas responsabilidades e que se desincumbia dos seus afazeres com a competência peculiar, decorrente – acreditavam os parvos desprovidos de sagacidade intelectual equivalente à dele, Osvaldo – da sua inata personalidade e das suas virtudes anímicas. Prometeu, para si mesmo, que revelaria, para os toleirões, a verdadeira face de Ricardo, e eliminaria Katsushiro, sujeito ambíguo, cuja origem é desconhecida, e que ocultava os seus propósitos sob a máscara do seu rosto inexpressivo, enigmático, insondável, e sob o olhar penetrante de olhos sombreados pelas sobrancelhas as quais arqueava para se conferir um olhar petrificante, intimidador, e compor a sua figura venerável perante a qual todos se curvavam, obsequiosos.

Katsushiro criou de Osvaldo a reputação de homem intransigente, cujos atos acarretarão transtornos para os expedicionários, e esforçava-se para isolá-lo, e mantê-lo isolado, e excluí-lo do rol dos expedicionários de campo, embora dissesse, com ênfase, que o admirava e o considerava o melhor expedicionário que jamais conhecera, para, suspeitava Osvaldo, afastar as suspeitas que pairavam sobre a sua cabeça, e impedi-lo de principiar uma investigação, independentemente de qual fosse a postura de Katsushiro, e revelar a verdade, com o auxílio dos seus admiradores e expedicionários com os quais compartilhava idéias afins.

Ensimesmada, Jennifer refletia a respeito do comportamento arredio e introspectivo de Ricardo, e deitava-o sob o seu olhar escrutinador. Ricardo nunca se destacara pela extroversão e convivência amistosa com os outros expedicionários. Após as alcunhas que Osvaldo cuspira contra ele, Jennifer, sempre que com ele conversava, fitava-o, de outra perspectiva, e, em retrospectiva, evocava a discussão entre ele e Osvaldo. Em certa ocasião, imersa em suspeitas, não sabia se infundadas, mas com elas incomodadas, com o auxílio de um vídeo da reunião, que lhe exibia imagens nítidas, percebeu que Ricardo modulou a voz, conferiu-lhe timbre suave, e, associando-a com expressões faciais que lhe eram incomuns e gestos das mãos e movimentos dos dedos imperceptíveis, provocou Osvaldo com o propósito, era inegável, de induzi-lo a perder a compostura. As palavras que Ricardo proferiu não foram inapropriadas, concluiu Jennifer, que anotou, no seu caderno de expedição, as suas observações, mas os gestos dele, imperceptíveis, sim, foram inapropriados, insinuantes, provocativos. Na primeira vez que assistiu ao vídeo, não pôde avaliá-lo com a atenção necessária para obter as respostas que procurava. Outras tarefas exigiram-lhe a atenção, e adiou o estudo minucioso que do vídeo pretendia fazer. Na primeira oportunidade que lhe surgiu, dias depois, para escoimar os seus pensamentos das dúvidas que persistiam em se conservar intactas, analisou o vídeo da reunião. Não queria trocar os pés pelas mãos, e aventar suspeitas infundadas, sob a influência das palavras enérgicas, embora deselegantes, de Osvaldo. Perguntou-se se procedia a acusação de injeção de nanorrobôs em todos os expedicionários e se Ricardo era um autômato, e, se era, de quem ele estava sob comando. Ricardo injetou nanorrobôs em Osvaldo, e os nanorrobôs alteraram-lhe a postura? Era uma explicação plausível. Mas, e nela, Jennifer, Ricardo injetou nanorrobôs? Se nela Ricardo injetou nanorrobôs, então por que ela não agia de modo que não correspondia ao seu temperamento? Ou agia, mas ela não notava a mudança? Além disso, quem, além de Ricardo, tem acesso aos mecanismos que recolhem informações de A***? Jennifer arregalou os olhos ao perceber que adulteraram o vídeo. Alimentava suspeitas a respeito do que havia visto e ouvido na primeira vez que assistiu ao vídeo, mas sabia o que seus olhos e seus ouvidos haviam captado: os gestos, sutis, provocativos, de Ricardo, e o seu tom de voz, incomum. Agora, viu que do vídeo os gestos de Ricardo foram suprimidos, e o seu tom de voz, alterado. Jennifer não suspeitava dessa sua análise do vídeo. Estarrecida, recostou-se à cadeira, e cobriu com as mãos a boca, incrédula, e preocupada. Adulteraram o vídeo. Quem o adulterou, e com qual propósito? E a quem interessava a adulteração do vídeo? Quem estava envolvido com a manipulação do vídeo? Ricardo? Quais pessoas – ou quais instituições – financiavam o trabalho de Ricardo? Katsushiro? Às quais pessoas ele respondia? O que elas arquitetavam? Recostada à cadeira, Jennifer levou as mãos à nuca, para sustentar a cabeça, e cerrou as pálpebras, como se assim pudesse se concentrar nos seus pensamentos, e concebeu as mais inusitadas, absurdas, estupefacientes explicações – nenhuma delas lhe fazia sentido. Não se negou, no entanto, as elucubrações; talvez alguma delas lhe revelasse o que ocorria nas profundezas das salas cuja localização é desconhecida pelo comum dos mortais.

Os expedicionários planejaram nova expedição exploratória a A***, mas não a empreenderam. As razões para isso serão apresentadas nas próximas linhas.

A espaçonave-mãe registrou um fenômeno inédito: O núcleo de A*** aquecia-se e esfriava-se, em rápida sequência alternada. As conseqüências, imprevisíveis. Sucederam-se terremotos, em inúmeras regiões do planeta. Planícies foram rasgadas; montanhas, destruídas; onde havia mar, apareceram montanhas; onde havia montanhas, apareceram vales. O solo convulsionado transformou a figura de A***. Intensificaram-se os terremotos. O aquecimento e o esfriamento do núcleo de A*** alternavam-se, incessantes, a intervalos cada vez mais curtos. Nas primeiras alternâncias, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa era de trezentos e oitenta graus célsius; em pouco tempo, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa passou para três mil e trezentos e oitenta e quatro graus célsius. E a temperatura atingiu, no pico, sete mil graus célsius, e, no fundo, cento e vinte graus célsius abaixo de zero. A ininterrupta oscilação da temperatura do núcleo de A*** transformava a crosta planetária e afetava a atmosfera e o campo magnético do planeta.

A espaçonave exploratória A-1 afastou-se de A***, e rumou à espaçonave-mãe, que a recolheu. Os expedicionários ficaram de sobreaviso. O recrudescimento da alternância da temperatura do núcleo de A*** e as alterações do campo magnético do planeta persuadiram os expedicionários a se afastarem de A*** – o que fizeram, contrariados, incontinenti. Previram, uns, a explosão de A***; se isso se sucedesse, pela primeira vez na história olhos humanos testemunhariam a morte de um planeta. Tal evento afetaria aquele sistema estelar de duas estrelas brancas. Qual seria o impacto da explosão de A*** nos outros planetas e nas estrelas que compunham aquele sistema estelar?

Chegaram aos sensores da espaçonave-mãe imagens espetaculares, fabulosas, indescritíveis, de fenômenos que se sucediam na crosta planetária. Se os expedicionários não os testemunhassem, e alguém lhos descrevessem, eles não acreditariam, pois tais fenômenos transcendiam as leis da física. Raios viajavam pelas nuvens, que assumiam coloração incomum. Raios de milhares de quilômetros de extensão transpunham a atmosfera de A***; os mais extensos estendiam-se a mais de cinquenta mil quilômetros, e afetavam o campo magnético, que os afetava. As explosões que se seguiam liberavam energia suficiente para pulverizar a espaçonave exploratória e danificar, talvez destruir, a espaçonave-mãe. Nuvens vermelhas, amarelas, azuis e amarelo-alaranjadas ampliavam-se, aglomeravam-se, e constituíam nuvens pretas, que cobriam a metade da superfície de A***. Raios as rasgavam e liberavam energia imensurável. Serpentes gigantes viajavam entre as nuvens, delas se alimentavam, e cresciam. A maior serpente que os sensores da espaçonave-mãe detectaram tinha oito mil e setecentos quilômetros de extensão, e crescia. Quanto mais crescia, mais energia acumulava; como A*** liberava maior quantidade de energia com a intensificação da vibração do seu núcleo, mais energia a serpente gigante ingeria, mais energia armazenava, e mais crescia, e crescia, e crescia. O solo de A*** modificava-se a olhos vistos, sem cessar. A sua configuração foi alterada, tornado-a irreconhecível. A cada fração de segundo, assumia uma configuração. Um planeta não pode suportar tal convulsão sem se desintegrar, pensavam os expedicionários. Qual a origem da convulsão planetária?, perguntavam-se, intrigados, acompanhando, suspensos, o desenrolar de evento tão grandioso, inédito aos olhos humanos. Desapareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Apareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Criaturas corriam pelos continentes, mergulhavam nos mares de águas borbulhantes, caminhavam pelo gelo da superfície dos rios. A***, convulsionado, contraía-se e dilatava-se, frenético. Arremessava raios, esferas chamejantes e ondas de energia. Sugava energia das estrelas. Línguas de fogo partiam das estrelas rumo a A***. Um fenômeno surpreendente, mais surpreendente do que todos os fenômenos até então testemunhados pelos expedicionários, se manifestou. De cada estrela branca partiu uma faixa dourada. As duas faixas douradas rumaram, serpenteando, até A***, como se o planetas as atraíssem, cobriram-no, e eliminaram o seu campo gravitacional e o seu campo magnético. Nenhum raio, nenhuma esfera chamejante escapava de A***. Raios e esferas chamejantes atingiam as faixas douradas. Nem o som e nem a luz as atravessavam. Não se via a intensa luminosidade decorrente das explosões das esferas chamejantes e dos raios. De propriedade elástica, as faixas esticavam-se. Os expedicionários, expectantes, intrigados, perguntavam-se o que ocorria em A***, e procuravam uma explicação plausível para fenômeno tão fantástico, tão fabuloso, tão espetacular. Temendo que a energia oriunda da convulsão de A*** rompesse as faixas que o cobriam, os expedicionários afastaram-se do planeta até uma distância que, acreditavam, era segura. Os sensores dos robôs que se localizavam nas proximidades de A*** não detectavam os eventos que se sucediam no planeta. Os expedicionários pensaram em disparar um raio de energia para abrir uma fresta, nas faixas douradas, pela qual robôs pequenos pudessem atravessar. Deparavam-se com fenômeno que olhos humanos jamais presenciaram, fenômeno que a imaginação humana jamais poderia conceber. Diante do desconhecido, incapazes de antever a reação de A*** e das faixas que o cobriam, abandonaram a idéia tão logo a pensaram. A*** poderia explodir, as faixas poderiam disparar raios na direção da espaçonave-mãe, ou, Mariana aventou a hipótese, seres inteligentes que viviam nas estrelas brancas reagiriam ao disparo do rio, e disparariam raios e esferas flamejantes contra a espaçonave-mãe. Tal hipótese era implausível, fantástica demais, fantasiosa demais, fabulosa demais, extraordinária demais. Os expedicionários fitaram Mariana; nada disseram; com o olhar, indagaram-lhe de onde ela extraíra idéia tão estapafúrdia. Seres vivos vivendo em uma estrela! Seres vivos inteligentes, em uma estrela cuja temperatura, na superfície, era de duzentos mil graus célsius, e, no núcleo, calculavam os sensores da espaçonave-mãe, doze milhões de graus célsius! Nenhum ser vivo, inteligente ou não, viveria sob tão alta temperatura! Todavia, conquanto extraordinariamente fantasiosa tal hipótese, ninguém concluiu que ela fosse inverossímil, e não a desconsideraram.

Transcorreu quanto tempo? Os expedicionários não sabiam.

Cessaram as convulsões das faixas douradas que cobriam A***.

Os expedicionários, na expectativa, petrificados, apalermados, de sobreaviso, e curiosos, esvaziaram de pensamentos o cérebro. Aguardaram, expectantes, pelas revelações que, estavam certos, não demorariam para lhes serem apresentadas. Pareceu-lhes que o tempo cessara, como se o tempo não fosse um fenômeno cosmológico, como se fosse, unicamente, um fenômeno psicológico produzido pela mente humana. Nenhum expedicionário saberia dizer quantos dias transcorreram a partir do momento em que cessaram as convulsões até o momento em que as faixas se soltaram de A***, e rumaram, cada faixa, para uma estrela. E os expedicionários, embasbacados, boquiabertos, viram, diante de seus olhos, não um planeta, mas dois planetas, um, dourado, um, esverdeado. Ora o planeta dourado girava em torno do planeta esverdeado; ora o planeta esverdeado girava ao redor do planeta dourado. A velocidade de ambos os planetas modificava-se, constantemente, e os planetas mudavam de curso. Na letargia que tal fenômeno lançou-os os expedicionários conservaram-se por um bom tempo, obcecados por uma explicação; não tinham nenhuma, nem para a existência das criaturas rochosas que atacaram Osvaldo, nem para as criaturas aladas gigantes que se alimentavam de rochas ígneas e banhavam-se nos rios de lava nas profundezas de uma montanha, nem para as serpentes gigantes que dormiam nas nuvens, nem para todos os fenômenos maravilhosos que presenciaram.

Osvaldo se ofereceu para empreender uma expedição exploratória aos planetas gêmeos. Katsushiro e os comandantes da espaçonave-mãe decidiram autorizar expedições exploratórias não-tripuladas.

Os expedicionários não sabiam o que lhes estava reservado. Presenciaram a conversão de um planeta em dois planetas e outros fenômenos inexplicáveis – pela inteligência humana, compreende-se –, que lhes excitaram a curiosidade.

Os comandantes da espaçonave-mãe enviaram expedições exploratórias não-tripuladas aos dois planetas. As informações reunidas, extraordinárias, espetaculares, embasbacaram os incrédulos expedicionários, que acreditavam que nenhum outro fenômeno os surpreenderia. Enganaram-se. Os fenômenos que se manifestaram nos planetas gêmeos e as criaturas que neles encontraram os surpreenderam. Tomaram conhecimento de seres que viviam sob as condições mais desfavoráveis à vida, e reconsideraram todas as suas idéias a respeito da vida e todas as teorias da física, e as da astrofísica, e as da cosmologia.

Vieram a conhecer criaturas gigantes longílineas dotadas de duzentas asas constituídas de películas transparentes e de vinte filamentos na cabeça esférica, e criaturas rastejantes de cinquenta quilômetros de extensão e três cabeças, e criaturas de cinco mil olhos, e criaturas que disparavam, pela boca, líquido corrosivo, e criaturas que cuspiam fogo, e criaturas que se alimentavam de pedras, e criaturas de pele aderente, e criaturas metamórficas, e criaturas de duzentos metros de altura, duzentas pernas, duzentos braços e duzentas cabeças, e criaturas aquáticas que cuspiam substância corrosiva, e criaturas que saltavam mais de um quilômetro de altura e cinco quilômetros de distância, e criaturas que viviam nos pântanos de lava, e criaturas que cuspiam raios, e criaturas que se invisibilizavam na água, e criaturas que engoliam lava e cuspiam pequenas esferas aderentes por sobre as quais outras criaturas, minúsculas, passavam e assumiam dimensões corporais maiores.

Assistiram a embates fantásticos inenarráveis entre criaturas indescritíveis.

Não havia uma criatura que não os surpreendeu pelo que tinham de fantástico, extraordinariamente fantástico.

Transcorreram-se os dias. Enviaram-se dezenas de expedições exploratórias não-tripuladas aos planetas gêmeos. O presidente da espaçonave-mãe agendou uma reunião, à qual compareceram todos os comandantes e os diretores das espaçonaves expedicionárias. Da espaçonave exploratória A-1 compareceram Katsushiro, Jennifer e Ricardo. Katsushiro disse que Osvaldo não poderia empreender uma expedição exploratória pelas razões que ninguém ignorava. Jennifer contestou-o, disse que com Osvaldo conversara horas antes, e ele se mostrou pronto para empreender uma expedição exploratória, e não podiam impedi-lo de empreendê-la. Ricardo, antes de Jennifer encerrar a sua réplica, disse que eram escassas as informações sobre os planetas gêmeos, e considerou sensato realizar novas expedições exploratórias não-tripuladas, para recolhimento de informações, antes de empreenderem uma expedição exploratória tripulada por humanos. Katsushiro o secundou, mecanicamente, e teceu comentários desabonadores a Osvaldo. Jennifer defendeu Osvaldo, enfatizou a experiência dele, e disse que há coisas, em um planeta, que robôs não podem detectar, e apenas os humanos podem. Ricardo riu, sardônico, comparou a capacidade intelectual dos humanos com a dos robôs, apontou a superioridade destes – e Katsuhiro referendou a sua opinião -, que não se resumia na incontestável superioridade mnemônica. Jennifer estudou-lhe o comportamento, e o de Katsushiro, e evocou as acusações que Osvaldo proferiu, durante a discussão após a expedição exploratória a A***. As denúncias procediam?, perguntou-se. Contestou Ricardo, disse que os robôs, desprovidos de sensibilidade, sentimentos e pendores para a abstração – talentos que não podem ser catalogados -, não são detentores da capacidade, inerente aos humanos, e a eles exclusiva, de reunir informações, associá-las, organizá-las, e delas apresentar uma síntese. E disse, também, que os humanos talentosos e experientes são imprescindíveis na expedição exploratória que teriam, obrigatoriamente, de empreender, aos planetas gêmeos, e Osvaldo preenche todos os requisitos; e ele realizará trabalho que os robôs estão impossibilitados de executar, Jennifer salientou este ponto, e o enfatizou, e repetiu-o, com voz firme. Queria aguilhoar Ricardo e Katsushiro. Katsushiro contestou Jennifer, atribuiu a Osvaldo o fracasso da expedição exploratória a A***. Jennifer estranhou Katsushiro, cujos gestos, ela disse para si mesma, em pensamento, eram robóticos; e intrigaram-na o rosto inexpressivo de Ricardo e o seu o olhar fixo em Katsushiro.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou Jennifer, abismada.

– Eu sei, Jennifer – Osvaldo assomou à porta, apontando uma pistola para Ricardo.

Ricardo ergueu-se da cadeira, de imediato, inexpressivo, e ergueu o braço direito, e apontou o dedo indicador para Osvaldo.

*

Este é o encerramento de Os Pioneiros? – perguntar-me-ão os leitores. E eu responderei:

No dia seguinte àquele ao qual entregou-me a pasta com a novela, ao volante de um carro, Luis Amadeu envolveu-se em um acidente com um caminhão e outros dois carros; em decorrência dos ferimentos, veio a falecer no Hospital Municipal.

Li a novela Os Pioneiros, na minha casa, no dia em que Luis Amadeu ma entregou. Ao ler a última palavra, perguntei-me onde estava a sequência da novela. Na ocasião, pensei em procurar Luis Amadeu, no dia seguinte. Mas, o fim trágico… Duas semanas depois da morte de Luis Amadeu, falei da novela para a Susana, irmã dele, e entreguei-lha. Ela a leu, e disse-me que a sequência do relato, acreditava, achava-se no computador de seu irmão. Nos dias seguintes, acessou a pasta ‘Novelas’; encontrou, além de dezenas de outros arquivos, o que trazia o título Os pioneiros. O texto encerrava-se no ponto que reproduzi acima. Acreditando que Luis Amadeu pudesse, por engano, ter gravado a novela, com outro título, ou na pasta ‘Novelas’, ou na pasta ‘Contos’, ou na pasta ‘Romances’, abriu-as, e todos os arquivos que elas continham. Não encontrou a novela Os Pioneiros. Procurou-a nas pilhas de papéis. O seu trabalho, infrutífero. Conversamos, eu, Susana, familiares e amigos de Luis Amadeu, a respeito da novela e de Luis Amadeu, que, sabíamos, desejava que a novela Os Pioneiros fosse publicada em livro. Decidimos publicá-la, às nossas expensas. Não digo que Os pioneiros é uma novela inacabada. Inacabada ela não é. Sabemos que destino levou o trecho final de Os pioneiros: o túmulo em que jaz Luis Amadeu.

Os pioneiros – parte 2 de 3

Os Pioneiros

A criatura emitiu urros estrondejantes. Enorme, de quatro metros de altura, aproximava-se, rapidamente, de Osvaldo, que não a viu em suas reais dimensões porque a penumbra o impedia, até que, não muito tempo depois, distinguiu-lhe a figura, todavia dela não definiu a coloração da pele (ou do que lhe revestia o corpo), que era rígida como rocha. Antes que Osvaldo compreendesse o que ocorria, a criatura golpeou-lhe o braço, e arremessou-o a mais de vinte metros de distância. Osvaldo sentiu o golpe, atenuado pelo exoesqueleto. Caído, olhou para a criatura, e distinguiu-lhe o vulto; mas mal pôde ver-lhe a cabeça, e dela viu a cauda de uns cinco metros, e que se encompridava. A criatura urrou. Odor miasmático atingiu Osvaldo, que, protegido pelo capacete, não o sentiu, mas a pele de seus braços e antebraços expostos sentiu-o, e a reação foi instantânea: bolhas rubras de sangue manifestaram-se nos braços e antebraços de Osvaldo; parecia que a pele dele havia sido removida. Ele olhou para seus braços, neles fixou o olhar por uma fração de segundo, e voltou-se para a criatura, que, embora gigantesca, dele se aproximara sem que os sensores do exoesqueleto captassem-na, e tampouco detectassem os tremores de terra que ela, com seus vinte mil quilos, produzia. Levantou-se; recompôs-se; viu a criatura indo em sua direção, e tratou de correr. E hesitou. Para onde correria? Olhou, apavorado, em torno. O descampado não lhe oferecia abrigo. Não tinha para onde fugir. O único meio de escapar da criatura gigantesca era contatar a espaçonave exploratória, e solicitar-lhe o seu (dele, Osvaldo) imediato resgate. E a criatura avançava em sua direção. Com os mapas tridimensionais, que os sensores do exoesqueleto desenhavam, de um raio de cinquenta metros, Osvaldo ampliou o seu conhecimento da região inóspita, desértica, mas espessa camada de nuvem, cuja composição ele desconhecia, impedia-o de ver com clareza o que havia ao seu redor, e as câmeras do capacete não a penetravam, para ajudá-lo a se orientar, e a penumbra, tenebrosa, terrificante, enfatizava o opressivo ambiente da região. Nenhum abrigo havia nas proximidades. Osvaldo não sabia para onde correr, mas tratou de correr, sem rumo, para se afastar da criatura, que o ameaçava, pois não queria se lhe servir de repasto. Desejava, sim, empanturrar-se com um banquete republicano; mas não era desejo seu servir-se de banquete para a criatura que o perseguia. O encerramento da vida do Pioneiro, ensina a lenda, não era o que Osvaldo desejava para si – nunca sonhou acabar sua vida no estômago de uma criatura escatológica. Ofegante, olhou, na sua corrida desabalada, por sobre os ombros, e viu a criatura, que de si não se aproximava, e tampouco dela ele se distanciava. Voltou-se para a frente; percorreu uns cem metros, pulou por sobre uma saliência, e atingiu criatura, cujos urro, e hálito, que lhe queimou a pele, indicaram-lhe que se tratava de uma criatura como a que o perseguia. Uma criatura rochosa, ele concluiu. Viu-se cercado, presumiu, pelas duas criaturas. Para onde ele correria? Os sensores do seu exoesqueleto detectavam a presença de uma criatura rochosa, e não de duas. Seria, aquela criatura que ele tinha diante de si, a criatura que o perseguia? Como ela se deslocara tão rapidamente, tão silenciosamente, sem que os sensores do exoesqueleto a detectassem? Ou a criatura rochosa que o perseguia não ia mais no seu encalço, abandonara a perseguição, e outra criatura rochosa lhe surgira diante dos olhos? Osvaldo se via em apuros; a situação não lhe era favorável. E se outras criaturas rochosas o abordassem? Como delas ele se livraria? A cauda da criatura rochosa serpenteava, ia na direção de Osvaldo, que, desorientado, impelido pelos sensores do exoesqueleto, se esquivou, e resvalou-lhe o capacete. Não foi Osvaldo que se esquivou da cauda; foi o exoesqueleto que dela se esquivou, livrando Osvaldo da morte. A criatura rochosa poderia esmagá-lo com um golpe da cauda. O exoesqueleto não resistiria à pressão da cauda, se a criatura rochosa com ela o envolvesse. Naquele momento, afinaram-se as nuvens, e Osvaldo pôde ver alguns detalhes da criatura rochosa. A penumbra, em alguns momentos, não a envolvia inteiramente, e, na cabeça dela Osvaldo viu três olhos, cuja disposição indicava que ela possuía mais dois olhos. Osvaldo não viu uma boca, e nem um nariz na criatura. Como ela urrava? E o hálito dela, que o atingiu, queimando-lhe a pele? Como ela respirava? No topo da cabeça dela havia duas saliências – cada uma destacava-se de uma têmpora – compridas e de ponta arredondada – cada uma delas de um metro de comprimento e diâmetro de meio metro na base e vinte centímetros na extremidade – e, na região central da cabeça, saliências que se assemelhavam a uma linha de cornos pontudos de vinte centímetros de comprimento cada um, e nas laterais da cabeça filamentos segmentados repulsivos, cuja aparência assumiram, aos olhos de Osvaldo, a aparência de criaturas parasitas – cinquenta ou mais -, que vibravam-se, ininterruptamente, e emitiam, ao se tocarem, estalidos agudos penetrantes, que feririam os tímpanos de Osvaldo se o capacete não lhos protegesse. Visão horripilante! Quais as dimensões da cabeça da criatura rochosa? Ela era enorme, vinte vezes maior do que a cabeça de Osvaldo. Outros aspectos da criatura que Osvaldo distinguiu: Inexistência de pescoço; revestimento repleto de protuberâncias; vegetais de coloração azul-esverdeada e vermelho-alaranjado cobriam-na em alguns pontos; dois pés curtos e grossos.

A criatura rochosa avançou na direção de Osvaldo, que se esquivou, com um salto, e caiu, em pé, a três metros de distância, e, hesitante, voltou-se para olhá-la, mas ela havia desaparecido. Foi neste instante que a mão pétrea da criatura rochosa segurou-lhe o capacete. Os sensores do exoesqueleto não indicavam a presença da criatura rochosa próxima de Osvaldo, que, para dela se desvencilhar, desferiu-lhe uma sequência de golpes. A criatura rochosa arrastou-o. Osvaldo, apavorado, esgoelou-se, e dobrou as pernas, para um salto; dobrou o corpo; e desdobrou-o para livrar-se da mão da criatura rochosa, e redobrou os seus esforços. Desvencilhou-se, enfim, da mão da criatura rochosa, acionou a pistola, e disparou. A onda de energia viajou por quilômetros, até atingir uma montanha. A criatura rochosa havia desaparecido. Que mistério rondava Osvaldo? Como uma criatura – presumindo-se que fosse apenas uma criatura – aparecia e desaparecia – e os sensores do exoesqueleto não a captavam -, e não deixava sinais da sua presença? Nenhum vestígio havia da existência dela. Pegadas? Nenhuma. Ela desapareceu, sem deixar vestígios. Viera de onde? Para onde foi? Os mapas tridimensionais elaborados pelos sensores do exoesqueleto de Osvaldo não indicavam a presença de nenhuma criatura num raio de duzentos metros. Osvaldo não deu, no entanto, atenção aos sensores do exoesqueleto, pois estava persuadido de que de nada lhe valiam, pois eles não captavam a criatura rochosa; era como se ela não existisse. De sobreaviso, Osvaldo andou. Circunvagava os olhos. Detinha-se. Procurava pela criatura rochosa. Sabia que ela poderia atirar-se sobre ele de qualquer direção. Deparava-se, sabia, com uma criatura a respeito da qual tudo ignorava. Não sabia se poderia se antecipar a um ataque desfechado por ela. Aterrorizava-o tal situação. Petrificá-lo-iam as incertezas se o exoesqueleto não o conservasse alerta, com os olhos bem abertos, os ouvidos bem apurados, para, se necessário, reagir a qualquer ataque desfechado por uma criatura rochosa, ou por outra criatura qualquer. A tensão inspirava-lhe pensamentos caóticos, os de um derrotado, os de uma pessoa que desistia de viver, e estava na iminência de sucumbir ao destino que, acreditava, era o seu, e dele não poderia esquivar-se. O exoesqueleto, todavia, ao injetar-lhe ânimo, não permitiu que ele se curvasse ao destino que, acreditava ele, estava traçado para si, mas ele, no entanto, não abandonou os pensamentos lúgubres, que o atormentavam. Sabia que não podia negligenciar atenção. O exoesqueleto não o deixava esquecer disso. A passos curtos, firmes, andou, lentamente, desorientado, sem saber que direção seguir. Envolveu-o nuvem de partículas, que lhe rasgaram a pele dos braços e dos antebraços. Imprevidentemente, ele expusera-se ao desconhecido com um exoesqueleto que não reconstituía as partes danificadas – algo a havia danificado assim que ele deu os primeiros passos para fora da espaçonave exploratória, mas, ao invés de acolher as sensatas exortações de Mariana e Jennifer, à espaçonave regressar, e reconstituir o exoesqueleto, rejeitou-as, e insistiu na sua aventura exploratória, que quase lhe custou a vida, para registrar, unicamente, seu nome na história, o do primeiro humano a pisar no solo de A***, o planeta inóspito. A história registrará o nome de Osvaldo, e o associará à primeira aventura em solo de A***, o planeta inóspito, e não deixará de registrar a sua imprudência, as suas atitudes insensatas, de absoluto descompromisso com o seu companheiro de jornada. Os pioneiros eram os argonautas, e Osvaldo atribuía-se as virtudes de Ulisses, e se autocondecorara o líder incontestável da odisséia; no entanto, os eventos o desmentiam.

Enfim, a espaçonave exploratória A-1 resgatou Osvaldo.

Assim que Osvaldo removeu o capacete, Jennifer desferiu-lhe um tapa, ferindo-lhe o ego. De baixa estatura, leve, de mãos pequenas, sedosas, ela não é dotada de força para desferir um tapa que imprimisse marcas no rosto dele. O tapa era mais simbólico do que concreto. Não tinha as propriedades de um tapa. Ato contínuo, Jennifer, com palavras ferinas, desancou Osvaldo. Acutilou-o, feroz, com sua voz argentina, que, parecia, era amplificada por uma caixa de ressonância. Uma mulher tão pequena com uma voz tão poderosa! Contrariado, rilhando os dentes, Osvaldo ouviu-a. Dela desejava afastar-se, mas seus pés, enraizados no piso, não lhe permitiram dar um passo; diriam seus antepassados: “Osvaldo ouviu o sabão que a Jennifer lhe passou”; uma expressão antiga intraduzível. Jennifer repreendeu-o, vigorosamente, com autoridade, e não permitiu que ele lhe replicasse. Foi a primeira censura que ele ouviu, e não seria a última. Encerradas as censuras, Osvaldo encaminhou-se ao consultório médico, onde despiu-se do exoesqueleto, e reconstituiu suas células que o hálito da criatura rochosa destruíra. Em seguida, reuniu-se, na sala de conferências, com Jennifer, Mariana, Susana, Leonel, Ricardo, Washington e Katsushiro. O ambiente não lhe era favorável. Repreenderam-no todos os presentes. Após as censuras, concederam-lhe o direito de falar; e ele falou, e os seus interlocutores surpreenderam-se com o teor do seu relato. E Katsushiro, assim que Osvaldo encerrou o seu relato, pronunciou-se, antecipando-se a Jennifer e Susana, que haviam se movido, indicando que desejavam se pronunciar, mas, diante do gesto de Katsushiro, se recompuseram. Katsushiro, e não Osvaldo, era o Ulisses da expedição.

– Osvaldo, tu nos falaste de uma criatura rochosa. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe, todavia, não a captaram. Captaram, unicamente, numa vasta área em torno de ti, movimentos incomuns de partículas metálicas, e algumas destas partículas tinham propriedades ígneas, e foram elas, presumimos, que te queimaram a pele.

– Ouça, Katsushiro. Ouçais todos vós – pronunciou-se Osvaldo, contrariado, num tom de voz desafiador. – Vi uma criatura rochosa, de cujo corpo vos dei uma descrição; aliás, descrevi-lhes o que dela pude ver, pois não a vi toda, devido à penumbra e à densa nuvem. E ela atacou-me, e perseguiu-me, e feriu-me. Vi, repito, uma criatura de constituição rochosa, que me atacou, golpeou-me, agarrou-me, perseguiu-me…

– Reconheças, Osvaldo – disse Jennifer, com a autoridade que lhe era peculiar -, que estamos em um planeta inexplorado…

– Inexplorado por humanos – interrompeu-a Susana, cujo sorriso não ocultava os seus pensamentos e revelava a sua antipatia por Jennifer.

– Um planeta inexplorado, este planeta inóspito – prosseguiu Jennifer, elevando o tom de voz e conferindo-lhe firmeza dissuasiva. – De A***, um planeta inexplorado – escandiu as sílabas –, nada sabemos. Não sabemos quais fenômenos manifestam-se em A***. Os sensores do exoesqueleto de Osvaldo foram danificados, sabemos; mas os desta espaçonave exploratória, não, e tampouco os da espaçonave-mãe. E os desta espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nenhuma criatura semovente detectaram, Osvaldo, além de ti.

– Não sabemos o que tu viste – pronunciou-se Washington, no seu inconfundível tom contido. Osvaldo interrompeu-o, exaltado:

– Vi uma criatura rochosa, que me atacou.

Katsushiro observou-o, atentamente.

– Não digo que tu não a viste – interveio Ricardo, pacificador, ao notar que Osvaldo exaltava-se. – Tu nos disseste ter visto uma criatura rochosa. Acredito em ti.

– Tu dás mãos à palmatória – sentenciou Osvaldo.

– O quê? Não entendi – disse, confuso, Ricardo.

– Nada. É apenas uma expressão antiga – explicou Osvaldo, sem se estender em pormenores.

– Os sensores do teu exoesqueleto estavam danificados – prosseguiu Ricardo. – O teu exoesqueleto não detectou uma criatura rochosa, e nem as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas que te envolveram. Os sensores da espaçonave exploratória, todavia, como tu podes ver no holograma, detectaram as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas, mas não detectaram a criatura rochosa. Como podes ver, Osvaldo, a densidade e a espessura da nuvem eram maiores nas proximidades de ti. Não sabemos que fenômeno manifestou-se, lá, no solo…

– Não sejas tão amigável – interrompeu-o Osvaldo, com sorriso escarninho e gesto de impaciência. – Desejas desmerecer a minha conquista? Ora, para que tanta tagarelice?

– Queremos saber o que se passou no solo – disse Mariana.

– Eu já vos disse: Uma criatura rochosa atacou-me – replicou Osvaldo, alterado, mas contendo-se.

– Não é o que os sensores da espaçonave exploratória indicam – sentenciou Jennifer.

– O que vós quereis que eu vos diga? – desafiou-os Osvaldo. – Vi uma criatura rochosa, que me atacou. Quereis que eu vos confirme as informações que os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe vos forneceram? Não o farei. Sabeis as razões? Vi uma criatura rochosa, e ela não é uma criatura amigável. E não pretendo cruzar o caminho dela novamente – encostou-se ao espaldar da cadeira, e expulsou, com um expirar vigoroso, todo o ar dos pulmões.

– As áreas mais escuras do holograma – retomou a palavra Ricardo – indicam a maior densidade da nuvem. E elas, podemos ver, encontram-se próximas de Osvaldo, e deslocam-se, aleatoriamente. Não seguem os movimentos da nuvem. Osvaldo disse-nos que a criatura rochosa tinha em torno de quatro metros de altura, e, supôs, vinte toneladas. Os sensores da espaçonave exploratória não detectaram tremores de terra. Uma criatura de tais dimensões produziria, ao deslocar-se, tremores que os sensores da espaçonave exploratória poderiam captar, mas não os captaram. Esta informação é pertinente. Na imagem holográfica, vemos que as áreas escuras correspondem a pequenas áreas, e a maior delas não corresponde sequer à uma área de um metro cúbico. E é esta área, estou convencido, que segue no encalço de Osvaldo. Acredito que as partículas metálicas ígneas, atraídas pelo exoesqueleto, como imãs…

– O que tu insinuas, Ricardo? – perguntou-lhe, interrompendo-o, Osvaldo, com voz firme, hostil, encarando-o. – Insinuas que nenhuma criatura rochosa me atacou? Insinuas que nenhuma criatura rochosa me perseguiu? Insinuas que inventei tal história? Insinuas que enlouqueci?

– Osvaldo, contenha-se – pediu-lhe Katsushiro, em tom de ordem. – O Ricardo nos forneceu um breve resumo das informações acumuladas desde o instante em que tu principiaste a exploração do solo de A*** e as inferências óbvias. Ele, como todos nós, deseja entender o que se passou no solo de A***. Eliminou as incongruências, mas, ciente das suas responsabilidades, apresenta-nos as que não pôde eliminar. Um trabalho complexo, tu sabes, Osvaldo. Há discrepâncias nos dois relatos, isto é, no teu e no do Ricardo. O teu, originado da tua experiência em solo; o do Ricardo, das informações fornecidas pelos sensores da espaçonave exploratória e da espaçonave-mãe. Tu nos fala de uma criatura rochosa, que te atacaste. Te ouvimos atentamente. Ricardo nos fala de uma nuvem composta de partículas metálicas ígneas. Os dois relatos não combinam. Anulam-se. Não sabemos, Osvaldo, quais fenômenos manifestam-se em A***. Fomos imprudentes ao iniciarmos uma expedição exploratória antes de reunirmos informações mais consistentes, que nos propiciassem segurança; sem a mais remota idéia de quais informações nos são imprescindíveis, principiamos a expedição exploratória certos de que fenômenos e criaturas nos surpreenderiam. Não sabemos se há seres vivos inteligentes em A***. Não sabemos se há uma civilização em A***. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nada detectaram, e as espaçonaves exploratórias miniaturas não-tripuladas transmitem-nos informações do solo e dos fenômenos naturais, alguns incomuns, de A***, mas nada que indique a presença de seres vivos. O teu relato, Osvaldo, dá-nos notícias de uma criatura, inconcebível por nós, revestida de uma pele rochosa e de aparência grotesca. O relato de Ricardo dá-nos notícia de um fenômeno natural inusitado para o qual ele procura uma explicação plausível. Entendas, Osvaldo, que empreendemos uma expedição exploratória em um planeta que desconhecemos. Não sabemos o que nos espera. E o Ricardo tem de nos dar as informações colhidas e as interpretações apropriadas, na certeza de que não sabe se procedem. Como tu, ele tem de dar relatos fiéis dos eventos…

– Presumo tratar-se de partículas imantadas – prosseguiu Ricardo, assim que Katsushiro concedeu-lhe a palavra. – Partículas metálicas ígneas de propriedades de imã. Quando Osvaldo detinha-se, tais partículas detinham-se em torno dele, mas não cessavam os movimentos; rodeavam-no, como se o avaliassem. Não quero atribuir faculdades sensitivas às partículas metálicas ígneas, mas elas manifestavam características singulares. Elas, presumo, ao tocarem os braços de Osvaldo, feriram-no. Os movimentos delas eram aleatórios, mas, incrível!, seguiam um padrão. Sei que as minhas explicações são enigmáticas. Não esclareço nenhum ponto. Não sabemos o que Osvaldo enfrentou; e diante do desconhecido e da escassez de informações, temos de adiar outra expedição exploratória com humanos.

As últimas palavras ditas por Ricardo enraiveceram Osvaldo, que se exaltou, levantou-se da cadeira, pousou as mãos na mesa, encarou Ricardo, e disse, esbravejando:

– Tu não sabes o que enfrentei, humano artificial. Sei o que enfrentei, anomalia de laboratório. Enfrentei uma criatura rochosa, que me perseguiu, e agarrou-me, e agrediu-me. Autômato, tu não sabes o que diz. Tu detestas os humanos. Não sei porque tu fostes convidado para esta expedição. Tua raça é prejudicial à humana, parasita artificial. Por que te aturam? Tu injetaste nanorrobôs, filhos teus, no cérebro de todos aqui, replicante? Regresses ao teu ovo simbiótico. Regresses ao útero ectoplasmático de tua matrix!

Katsushiro e Jennifer pronunciaram-se com vigor. Inadmissível, a postura de Osvaldo. Katsushiro ordenou-lhe que se retirasse. Osvaldo recusou-se a atendê-lo. Dois robôs, então, ladearam-no, e Katsushiro ordenou a Osvaldo que os acompanhasse até o quarto, e lá permanecesse, incomunicável.

Osvaldo, bufando, retirou-se, ladeado pelos robôs, da sala de conferências.

Entreolharam-se Katsushiro e Jennifer.

Excetuando Katsushiro e Jennifer, os outros participantes da reunião retiraram-se da sala de conferências.

Com voz pausada, palavras calculadas, Jennifer disse:

– Não me agradou o comportamento do Osvaldo. O que ocorreu em A***? Não sabemos, Katsushiro, o que enfrentamos. Osvaldo, um homem pacífico, sereno, está tão suscetível às divergências…

– Conheço-o à décadas – disse Katsushiro. – Nunca o vi agir de tal modo. Não digo que é incomum a atitude de Osvaldo. Digo que é inédita. Não direi que é inexplicável, pois inexplicável não é. Algo afetou Osvaldo. Ele não pondera, não procura explicações racionais para o episódio. Há incongruências nos relatos. As análises feitas pela espaçonave exploratória e pela espaçonave-mãe contestam o relato que Osvaldo nos apresentou. Não sabemos o que inspirou a Osvaldo as, supomos, alucinações. É certo: Não o enviaremos para outra expedição exploratória a A***. Aliás, humanos não mais descerão em A***. Enviarei robôs, nas próximas expedições exploratórias. Osvaldo foi convidado a participar desta expedição intergaláctica devido à sua coragem singular, à extraordinária rapidez de seu raciocínio, à sua inigualável destreza manual, à sua irrivalizada inteligência prática. Raros humanos são dotados das virtudes imprescindíveis para o exercício apropriado de aventuras similares às que ele viveu. Tu sabes que temos de impedir que recrudesça os danos à mente de Osvaldo. Temos de preservá-lo, neste momento, dele mesmo. Tu viste como ele agiu, tão suscetível, tão contrariado quando Ricardo apresentou-nos as informações que a espaçonave exploratória e a espaçonave-mãe nos forneceram. Ricardo não aludiu ao estado mental alterado de Osvaldo, nenhuma insinuação mal intencionada ele fez. A sua postura, o seu vocabulário, o seu olhar, os seus gestos, indicaram que ele, ao notar que Osvaldo não estava em seu juízo perfeito, falava e, para não ferir suscetibilidades, pensava nas palavras que usava. Osvaldo, com os olhos esbugalhados, e os dedos a tamborilar a mesa, estava agitado, impaciente, irritado. O propósito de Ricardo era induzir Osvaldo a refletir no que aconteceu em A***, ponderar, e procurar por uma explicação racional. Foi mal sucedido, como vimos.

– Manteremos Osvaldo isolado?

– Por enquanto, sim… E pelo tempo necessário, para lhe avaliarmos o comportamento. Temos de saber o que ocorreu com ele, e o que com ele se passa. Ele, esteja certa, Jennifer, se oferecerá para empreender outra expedição exploratória, mas enviarei robôs para A***, e não ele.

– Chamou-me a atenção, Katsushiro, o vitupério que Osvaldo disparou contra Ricardo. Disse-lhe que regressasse ao ovo simbiótico. Alcunhou-o replicante, autômato, anomalia de laboratório. O Ricardo, não me passou despercebido, empalideceu; surpreso, pareceu-me, e, como direi?, admirado, ele fitou Osvaldo, e… Como direi? Ele, contrariado, à revelação de um segredo, que ele nos oculta, dele, e Osvaldo… Ricardo, estupefato, removida a sua máscara…

– Ricardo, que conhece a reputação de Osvaldo – interrompeu-a Katsushiro, abruptamente -, dele jamais esperou tal atitude, pois o admira, afinal, dele ouviu histórias enaltecedoras. E na primeira vez que com ele depara-se, dele ouve ofensas. E testemunha postura, tão irracional, que o surpreende, em uma pessoa de quem sempre lhe disseram tratar-se de uma cornucópia de paciência e ponderação. A frustração e a desilusão, instantâneas, conquanto saiba que Osvaldo está com a mente afetada, ou por uma bactéria, ou por um virus, ou… não sabemos o quê… Ricardo surpreendeu-se com a postura de Osvaldo, daí a sua palidez, a sua contrariedade…

– Não foi essa a impressão que tive – disse Jennifer, áspera, ao mesmo tempo que se levantava para se retirar da sala de conferências. – Fiquei com a impressão de que Ricardo surprendeeu-se, não com a reação violenta, injustificada, de Osvaldo, mas, sim, com as palavras que ele proferiu, com as alcunhas que ele lhe atirou.

Katsushiro observou-a ir até a porta, esquadrinhando-a com olhar penetrante, enviesado, ambíguo.

Os pioneiros – parte 1 de 3

Há seis meses, propus, durante uma tertúlia, na casa da Querosene – a Poliana, assim alcunhada devido ao seu pavio curto e ao seu sangue inflamável –, um tema para contos. Estávamos presentes, eu, Luis Amadeu, Poliana, Renata, Teresa, Gabriel e Rafael. A Poliana é a namorada do Rafael. A Renata é a minha namorada. A Teresa, uma semana antes, rompera o namoro com o Vinicius. O Gabriel havia dois dias brigara com a Adriana (Ele, não me resta dúvidas, compareceu à casa da Poliana porque, imprudente, involuntária e imprevidentemente o Luis Amadeu dissera-lhe que a Teresa iria lá. Qual foi a contribuição do Gabriel à assembléia literária? Nenhuma. Ele se limitou a beber o café-com-leite que a Poliana nos preparou e a degustar biscoitos de nata, bolachas, geléias e pudins, e a ouvir – e dar-se de desentendido – as insinuações, nem sempre sutis, que a Renata lhe lançou na cara).

A tertúlia foi proveitosa. Rafael, criativo, apresentou-nos as suas idéias para novelas de vários gêneros literários que pretendia escrever, leu-nos as anotações que havia feito desde a nossa última reunião (isto é, na reunião à qual ele compareceu, oito meses antes; entre a última participação dele numa tertúlia e a que promovemos no dia em questão, havíamos nos reunido cinco vezes. O Rafael não compareceu a esses cinco encontros devido ao seu trabalho, que lhe exigiu as vinte e quatro horas de cada dia), e as comentou, como, também, um conto que escrevera. Não sei o que ele tem no cérebro, que lhe permite produzir tantas idéias; muitas não são boas, é verdade, mas as que são boas são ótimas, e com elas o Rafael escreve novelas e contos empolgantes; o mesmo digo do Luis Amadeu, que, embora menos prolífico do que o Rafael, escreve histórias mesmerizantes. Ao dar início à leitura de um conto ou de uma novela de sua autoria, não consigo interrompê-la enquanto não a dou por encerrada. Já cheguei atrasado a compromissos por causa de contos e novelas escritas por Rafael e Luis Amadeu. E já ouvi muitos sermões da Renata. É impossível interromper a leitura de uma história escrita por eles. Quem já leu alguma obra deles, sabe do que estou falando, e concorda comigo, é certo.

De todos os que participavam do sarau, Teresa é a única vocacionada à análise crítica e dona de uma memória privilegiada. Ela sabe, puxando, sem esforço aparente, pela memória, o nome de todos os personagens de Guerra e Paz e todos os episódios de Dom Quixote de La Mancha. Contribuiu, para o enriquecimento da assembléia, com as comparações que apresentou de obras clássicas e modernas, e explicou-nos porque aquelas que ela reputava melhores eram as melhores. Confesso: perdi-me em alguns momentos durante os quais ela nos falava, prendendo-nos a atenção. Valiosa, a sua contribuição. Ela não nos deu idéias para contos e novelas, mas extraiu dos que leu a essência, e disse-nos porque todos os amantes da literatura têm de lê-los, se desejam conhecer literatura e escrever boas histórias. Rafael, com as suas dezenas de idéias, contrapôs-se à Teresa. Não é dotado de senso crítico equiparável ao dela. Tem um cérebro fantasioso. Converte a realidade numa fantasia eterna, duradoura, sem compromisso com o verossímil. Ele alheia-se do mundo, e deixa-se envolver pela nuvem da fantasia, que o transporta para outra dimensão, uma dimensão cuja localização raros humanos conhecem. Quanto à minha contribuição, à da Poliana e à da Renata, se não se equiparou à da Teresa, Rafael e Luis Amadeu, não foi inexistente como a do Gabriel.

Após o encerramento da tertúlia, saímos, eu e Luis Amadeu, da casa da Poliana, após nos despedirmos dos outros participantes. Andávamos pela rua São Francisco, quando o Luis Amadeu entregou-me uma pasta, e falou-me do seu teor; não proferiu vinte palavras, um acesso de tosse o dominou. Cessamos os passos. O rosto de Luis Amadeu tingiu-se de vermelho. Deu-me a impressão de que o sangue escapara-lhe dos vasos sanguíneos e, pelos poros, escapara-lhe para a pele, cobrindo-a inteiramente. Pouco depois, recomposto, Luis Amadeu reassumiu a sua aparência original. Durante o seu acesso de tosse e a sua recomposição, fitei a pasta que ele me entregara, em cuja capa havia, numa etiqueta, o título de uma novela: Os Pioneiros. Era mais uma das histórias repletas de criaturas extraordinárias que pululam da mente de Luis Amadeu, pensei comigo. Quantas histórias de sua autoria já li? Perdi a conta. Algumas, amalucadas, com extravagantes personagens pitorescos, que enfrentam criaturas fabulosas, em aventuras inusitadas, eu diria inenarráveis, em cenários extraordinariamente exuberantes, ocuparam o meu tempo por horas a fio, e induziram-me a desconectar a mente da realidade. Absorveram-me inteiramente. E aquele título, Os Pioneiros, fizeram-me evocar cenas de outros livros de autoria de Luis Amadeu. Fantásticas. Cativantes. Envolventes. Perguntei-me: Luis Amadeu, nesta novela, repete temas, cenas e episódios de outras histórias de sua autoria? Não que isso me desagradaria. A narrativa de Luis Amadeu é tão envolvente que leio uma história dele três vezes e acredito ter lido três histórias distintas. É um talento narrativo raro, o dele. Eu iria lhe perguntar o que havia naquela novela, e se ele reciclara idéias de outros livros, mas ele, antes que eu abrisse a boca, refeito do acesso de tosse, num tom pausado, porém animado – no início lentamente, escandindo as palavras e coordenando os pensamentos, depois, com seu tom peculiar, sua voz sonora, seu vocabulário, simultaneamente simples e sofisticado (a sofisticação está na simplicidade e a simplicidade na sofisticação) -, disse-me:

– Os Pioneiros contem relatos de uma expedição humana exploratória para um planeta que, segundo astrofísicos e exobiólogos, conserva semelhanças com a Terra. Baseei-me, para escrevê-los, nas mais recentes descobertas científicas; no entanto, a elas não me prendi. Não aprecio relatos que mais parecem tratados científicos, e não histórias de aventuras. Há escritores que dão relatos, realistas, dizem eles, e, portanto, superiores às aventuras fictícias, fantasiosas, sejam as de terror, as de espionagem, as políticas, as de ficção científica, as de fantasia à Tolkien. Realismo! Não há realismo na ficção. Ficção é ficção. A realidade não pode ser apreendida pelos humanos. Quero dizer: a realidade é apreendida pelos humanos, mas os humanos, ao usarmos de palavras para representá-la, não o fazemos com correção. Não sei se estou me fazendo entender. Corrijo-me… A emenda saiu pior do que o soneto? A argumentação filosófica não é um dos meus talentos. Digo, para me fazer entender: As palavras que empregamos para representar a realidade não são a realidade, são palavras; não representam a realidade, não a retratam. A linguagem humana não a traduz com correção. As palavras são palavras. Os tolos acreditam que as palavras retratam a realidade, reproduzem a realidade, são a realidade. As palavras não reproduzem a realidade, não a retratam, não são a realidade. As palavras são inexatas. Uma pessoa usa certas palavras para traduzir a realidade; outras pessoas usam outras palavras para traduzirem a realidade. Há uma realidade. E infinitas traduções dela. Não há duas pessoas com a mesma concepção do mundo, tampouco duas pessoas podem retratá-lo com as mesmas palavras. Estou me fazendo entender? A objetividade dos relatos, almejada por muitos escritores, é uma quimera, uma obsessão injustificada. Os que empreendem tal esforço despendem energia, que não é renovável. É uma tarefa infrutífera, um exercício infértil, fútil. Não desperdiço nem uma fração infinitesimal da minha inteligência num exercício que, como eu disse, é infrutífero. É impossível reproduzir, com palavras exatas, no papel, os eventos que presencio, pois sei que sou, como todas as pessoas, incapaz de fazê-lo, devido os limites da minha inteligência, que é a de um humano, e não a de um lunático, como muitas pessoas pensam. Não me canso de dizer, para as pessoas que se dispõem a me ouvir: Não há relatos realistas. Saiba que o realismo fantástico é um rótulo, apenas um rótulo, como outro rótulo qualquer, e nada quer dizer, absolutamente nada; é um rótulo sem pé nem cabeça, criado para identificar uma literatura que, dizem os pernósticos, é distinta da de outros continentes, criação singular dos povos sul-americanos. Bobagem! Estupidez sem paralelo na história da civilização! Típico de bárbaros presunçosos! Toda literatura é fantástica, em graus distintos. Difícil é saber qual é a mais fantástica e qual é a menos fantástica. Até agora ninguém me convenceu de que a literatura dita realista é realista, e as outras, não. Há mais realidade na Divina Comédia do que na Comédia Humana! As palavras, como eu disse, são palavras; não nos apresentam um retrato exato da realidade; representam, nunca com exatidão, o que as pessoas que as empregam captaram da realidade, pois tais pessoas as distorcem, involuntariamente, ou não. As palavras não são a realidade; não constróem a realidade. Reproduzem o que as pessoas acreditam ser a realidade. Estou sendo um pouco repetitivo, e, como não me é comum, estendo-me em reflexões filosóficas. Não sei o que a Teresa me faz sempre que com ela converso. Você já percebeu que, sempre que converso com a Teresa, e participo dos saraus nos quais ela participa, fico cheio de filosofias? Parece-me que ela me exerce uma influência, salutar, acredito. Ou não? Vivo com os meus desvarios fantásticos. Extrapolo, reconheço, o bom-senso, não raras vezes. Deixo minha mente espraiar-se por outros mundos, outros universos, outras dimensões. Não pelos mundos conhecidos. Quantos são? Dois mil? Não pelos universos presumidos. Nem pelas dimensões concebidas, nas teorias, pelos cosmólogos e pelos físicos teóricos; mas pelos mundos, universos e dimensões que se encontram, unicamente, na minha mente. As minhas idéias são corpóreas, ou constituem-se de ondas? São compostas de partículas? Preenchem um lugar no espaço? Como o cérebro, órgão físico, concebe coisas imateriais, os pensamentos, os sentimentos e as idéias? Espero não me encontrar com a Teresa nos próximos trinta dias. Não quero rechear as minhas narrativas com intermináveis elucubrações filosóficas. Que prolixidade! Você se lembra do que eu falava? Puxe pela memória, e ajude-me a restabelecer o fio da meada. Eu falava da história, que está nessa pasta, de uma aventura incrível num planeta inóspito. Puxa! A Teresa consegue inspirar o meu lado mal, o pior dos meus instintos racionais. O que ela possui? Qual o talento dela? Como posso definir a influência dos comentários da Teresa na minha mente? O que de meu cérebro a Teresa extraiu? E o que nele ela inseriu? Você acha que, para o meu bem-estar, tenho de me afastar da Teresa? Ela não me é uma boa influência. Ou é? Não sei mais no que estou pensando, e não sei a respeito do que eu falava. Qual era o assunto da nossa conversa? Você lembra qual era? Eu ainda me lembro. Vou tratar do tema de nosso interesse, antes que eu me estenda, com a minha tagarelice, e não me recorde mais do que falo, e retire essa pasta com a minha novela de suas mãos, não me recordando das razões que me levaram a entregá-la para você, e você não me pergunte porque eu a entreguei para você, e eu, com a pasta comigo, vá embora. Como não quero que isso aconteça, e você também não, estou certo, dou por encerradas, definitivamente encerradas, e que isso fique bem claro, estas minhas digressões, que nos afastam do assunto que pretendo tratar com você, e falo do que há nessa pasta. Você leu o título de uma novela que escrevi de três meses para cá: Os Pioneiros. Novela em que se narra uma aventura fantástica num planeta inóspito. Não me pergunte qual é o nome do planeta. Não me faça essa pergunta; se ma fizer, eu nenhuma resposta darei, e por uma razão bem simples, da qual você suspeita, você, um dos meus melhores leitores: Não escrevi o nome do planeta. Empreguei um recurso comum aos escritores que não desejam dar a localização da cidade, ou da região, ou do país: três asteriscos. Usei três asteriscos para identificar o planeta inóspito. Muitos escritores preferem o uso de três pontos após uma letra maiúscula. Qualquer letra. Uma letra e três pontos. O Claudemir emprega esse recurso, principalmente quando ambienta as suas histórias nesta cidade, e concebe personagens tendo como base as pessoas de seu relacionamento, inclusive familiares e amigos, alterando-lhes os nomes. Com tal recurso, ele não engana os leitores que o conhecem. Até eu ele já descreveu, o maldito! E duas vezes, uma no conto Vulgares, dando-me o nome de Celso, um dos coadjuvantes. Celso era… era, não; é; é o meu retrato, não exato, mas fiel, direi. E o outro ‘eu’ que o Claudemir descreveu encontra-se na novela Acessos e Retrocessos, novela herói cômica, assim a classificaria se eu apreciasse classificações; e o Claudemir me fez como um personagem que arquiteta as artimanhas mais extravagantes que se possa imaginar. Vinguei-me dele na novela Desencontros de Duas Almas que se Merecem. Retratei-o, como pude. O Claudemir se reconheceu, disse-me que dele fiz uma caricatura grotesca, e eu lhe agradeci o elogio. Se a caricatura é grotesca, e qual caricatura não o é?, então fui bem-sucedido no meu trabalho. Não foi em vão o meu esforço. Atingi um soco na boca do estômago do Claudemir, e ele me disse para eu me preparar para a revindita. Você leu Desencontros de Duas Almas que se Merecem? Leia-a. Você reconhecerá o Claudemir na caricatura. E leia Vulgares, e Acessos e Retrocessos. Você me reconhecerá no personagem Celso, e, digo agora, no Virgulino. Que nome para um personagem! Eu dizia: O Claudemir emprega a letra maiúscula seguida de três pontos quando não deseja identificar a cidade na qual a história se passa. Muitos escritores russos também empregaram tal recurso nos seus contos, novelas e romances. E eles também empregavam três estrelinhas; quero dizer, três asteriscos. Monteiro Lobato brincou com essa prática. E, dizia eu, na novela, há um planeta… Refiro-me, agora, à minha novela Os Pioneiros. O planeta eu o identifiquei com três asteriscos, e, antes dos três asteriscos, se eu ainda não disse, digo, a letra ‘A’ maiúscula. Pensei em conceber um nome para o planeta. Que nome eu lhe daria? Matutei. Dei-lhe dezenas, centenas, milhares de nomes. Por fim, após fundir a cuca, decidi pelo ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos. E é nesse planeta ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos que a história se passa. O planeta da novela… Novela? Do conto… Conto? A história é extensa para um conto, e tem muitos personagens, e detalhes e relatos que lhe dão uma dimensão que vai além do conto. Não é um conto. É uma novela. Quantos personagens participam da história? Uns quinze. Talvez mais de vinte. Uns trinta. Considerando-se a sua extensão e o número de personagens que se apresentam nas suas mais de cinquenta páginas, Os Pioneiros não é um conto; é uma novela. E eu quero que você a leia. Você será a primeira pessoa que a irá ler. Na verdade, a segunda.  A primeira pessoa que a leu fui eu. Tive esse privilégio. E eu, mesmo que desejasse concedê-lo a você, não poderia fazê-lo. Não se entristeça. Você terá o privilégio de ser a segunda pessoa a lê-la. E, depois de lê-la, me dirá o que achou dela. Depois, a entregarei para a Teresa. Talvez você esteja se perguntando porque não pedi para a Teresa ler Os Pioneiros. Tive as minhas razões. A Teresa iria dissecar a novela à procura de um defeito, um mísero defeito, de uma incoerência, de uma inconsistência, de um mísero erro gramatical, de uma discrepância, de uma deficiência no estilo, no vocabulário, e depois analisaria o tema, procuraria por sua relação com teorias científicas, psicológicas, filosóficas, ideológicas, as quais não tive em mente desenvolver, as quais nem sequer tangenciaram-me a cabeça, tampouco resvalaram-me o cérebro. A Teresa é obcecada por questões teológicas, sociológicas, filosóficas, psicológicas, praxeológicas, sociológicas, o diabo! Não reclamo. As observações da Teresa a respeito de alguns contos que lha apresentei e a respeito dos quais lhe pedi comentários, fizeram com que eu os modificasse, para melhor, os incrementasse com episódios que deixaram a trama mais sólida, e adicionasse personagens, ou excluísse personagens, conforme o caso, simplificando-os. Até mesmo com a adição de personagens e de episódios alguns enredos simplificaram-se porque se tornaram mais claros quando deles eliminei o desnecessário, que só servia para encher lingüiça. E também modifiquei o vocabulário de personagens, as suas expressões, sentenças, e a sua personalidade. A Teresa deu-me a sua contribuição, valiosa, para a redação de contos e novelas, e para um romance que escrevi há um ano: Amizade Eterna. Neste romance, por sugestão da Teresa, além de suprimir capítulos, e adicionar capítulos, suprimir personagens, e adicionar personagens, modifiquei o título, que ficou: Uma História Comum. O romance melhorou, depois de eu o modificar por sugestão da Teresa. Não acolhi todas as sugestões que ela me deu, é óbvio. Algumas não me agradavam. Atendiam ao gosto da Teresa; não ao meu; então, os descartei. Ora, sou o autor do romance; não a Teresa. Não posso escrever um romance, ou um conto, ou uma novela, que a Teresa gostaria de ler; e não eu. Escrevo ao meu gosto; sou escravo do meu gosto. Não rejeito sugestões que me agradam, que contribuem para melhorar as minhas histórias; acolho-as quando me convenço de que melhorarão as minhas idéias originais, mas não posso descaracterizar as minhas obras. Não quero dizer que a Teresa foi intransigente, e quis impor-me as suas idéias. Longe disso. Ela jamais faria isso. Pedi-lhe observações sobre o que escrevi porque ela é uma pessoa dotada de talento distinto do meu. O que ela vê do mundo é muito, mas muito, diferente do que vejo. Somos muito diferentes um do outro. Não sei se existe o pouco diferente e o muito diferente. Há o igual e o diferente. Há pouco igual e muito igual? Há pouco diferente e muito diferente? É absurdo falar assim, não é? Igual é igual. Diferente é diferente. Uma caneta é igual a outra caneta. Elas não são pouco iguais; elas não são muito iguais. Elas são iguais. Um lápis é diferente de outro lápis. Eles não são pouco diferentes. Eles não são muito diferentes. Eles são diferentes. Bastou-me evocar a Teresa, que comecei a filosofar. Depois desse tempo todo, depois de tudo o que falei a respeito de Os Pioneiros, pensei que a influência da Teresa sobre mim havia se dissipado. Enganei-me. A influência persiste. A sua força é imensurável, inexaurível. Persiste em mim. Não sei se isso é bom, ou se é ruim. Agora que já disse porque não pedi para a Teresa ler Os pioneiros, sabe o que farei? Direi que, ao entregar para você a minha obra-prima à qual me dediquei durante três meses, tive em mente pedir comentários sobre as idéias, as cenas de aventuras, se são empolgantes, emocionantes, ou não. Não quero comentários teológicos, filosóficos, e o raio que o parta! Quero saber se o leitor se encantou com as aventuras. Só isso. E isso a Teresa, mesmo que o desejasse, e mesmo que eu lhe pedisse encarecidamente, e lhe suplicasse, não poderia me oferecer. Iria contra a natureza dela. Ela não aprecia histórias fantásticas, ficção científica, fantasia. A fantasia, o gênero fantasia, segundo a Teresa, é fantasiosa demais para o gosto dela. E a ficção científica é muito fictícia, e pouco, ou nada, tem de científico. Quanto a isso, concordo com ela, com ressalvas. Quase não há ciência na ficção científica. Mas as boas histórias do gênero são boas obras de literatura; não são obras de ficção científica. São obras literárias. Não podemos negar valor literário à Fundação, A Guerra das Salamandras, Farenheit 451 e O homem ilustrado. Quatro dos melhores livros que li. Rivalizam-se com os clássicos da literatura. Exagero? Não. Ponho em pé de igualdade Moby Dick e Fundação; O vermelho e o negro e A guerra das salamandras; Viagens de Gulliver e Farenheit 451; A letra escarlate e O Homem ilustrado. As oito obras são importantes, de alto nível. Rivalizam-se. E não posso me esquecer de outro livro de ficção científica, um dos melhores que já li: O homem do castelo alto. Emblemático. Instigante. E Encontro com Rama é uma aventura empolgante. E não menciono outros livros do gênero porque não quero me estender mais do que já me estendi. Eu não me perdoaria se esquecesse de livros ótimos, como muitos que há. Não são poucos, não. E as obras de fantasia não são, também elas, obras de fantasia; são obras literárias. A Odisséia não é uma obra de fantasia? Ela não pode ser classificada no gênero fantasia? O Senhor dos Anéis não é uma odisséia? É uma odisséia. Fundação também é uma odisséia. A odisséia de uma civilização. Pinóquio é uma história de fantasia. A Chave do Tamanho também é uma história de fantasia, ou não? Gargântua e Pantagruel é obra de fantasia. E Dom Casmurro? E Dom Quixote? Não aprecio as classificações. São desnecessárias, e geram debates infindáveis, que a lugar nenhum nos levam, e produzem discriminações. E discordo da Teresa, quando ela diz que os romances são obras literárias, e os outros gêneros literários, não. E quando a Teresa diz romances, ela quer dizer os de cunho social, os realistas, referindo-se a Balzac, Proust, Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Mann, Dickens, Faulkner, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, e cuja classificação recebe a chancela de estudiosos, críticos literários e academias, que arregimentam o maior número de autoridades para fazer prevalecer as suas teses. Esses autores realistas, como a eles se referem os estudiosos, não são melhores do que os escritores de livros de fantasia e de ficção científica. A Teresa deixa-se levar pelos rótulos. Para uma pessoa inteligente, a Teresa é burra às vezes. E concordo com as pessoas que dizem que o termo ficção científica é inadequado. Esse assunto dá muito pano pra manga. Em outra ocasião, conversaremos a respeito. Você, estou certo, entendeu porque não pedi para a Teresa opiniões sobre Os Pioneiros. Entendeu, não entendeu? Ela dissecaria a novela, e me diria para nela eu incluir teses filosóficas, teológicas, psicológicas, sociológicas. Em resumo, ela me diria para rasgar todas essas folhas, ou me diria para jogá-las na lata de lixo, ou, então, para que eu nunca mais as lesse, me diria para queimá-las, para que elas não me inspirem outras idéias similares. Agora, com você, a história é diferente. Você não desmontará a minha novela, que me é muito valiosa, pois nela trabalhei durante três meses. Três meses de trabalho árduo. Perdi noites, que passei em branco. Refiz o texto inúmeras vezes. Quantas vezes o corrigi? Quinhentas vezes. Para dar consistência ao texto, fi-lo e refi-lo, incansavelmente. Quero dizer, cansavelmente. Exauri as minhas energias. E aí está, nas suas mãos, Os Pioneiros. Com você estão as aventuras de uma trupe de criaturas exóticas no planeta que nenhum humano são desejaria conhecer, no qual nenhum humano lúcido desejaria pôr os pés, e que todos, excluídos os insanos e os dotados de temperamentos afins, jamais se disporiam a conhecer, nem embaixo de porrete. Não espere por teorias científicas, descrições minuciosas de fenômenos cosmológicos, tampouco de espaçonaves, máquinas e equipamentos espaciais. Não procure por teorias das cordas, das supercordas, viagens espaço-temporais, travessia de uma galáxia para outra através de um buraco de minhoca. Alguns fenômenos previstos nas teorias cosmológicas estão considerados nessas folhas, mas neles não me detive. Eu os usei como um recurso para o andamento da narrativa, não de modo artificial, para encher lingüiça. Mais uma vez, lanço mão dessa linguagem, que não me agrada, mas que é clara, e serve, como uma luva, para o que tenho em mente. Divirta-se com a novela, e não negligencie a avaliação ponderada do que irá ler. Depois, se necessário, leia-a, novamente; na próxima vez que nos encontrarmos, pois não nos veremos por um bom tempo, porque estou de viagem marcada para o sul, e só regressarei daqui dois meses, se não depois de três meses, você me dirá, assim que eu regressar, o que pensou da novela. Quero uma análise, e quero saber o que você achou das criaturas e dos fenômenos naturais que se manifestam no planeta A***. Se são fantásticas as criaturas, extraordinariamente fantásticas, e se merecem figurar entre os seres fantásticos, fabulosos, as quimeras e os monstros descritos nos poemas épicos gregos, nórdicos, hindus, nas obras egípcias, e entre os da cultura popular que os viajantes e os aventureiros admitiram com eles terem se deparado. Frutos da imaginação! Imaginação fértil! E você me dirá qual foi o impacto da revelação final em você. Quais impressões provocaram em você. Se surpreendeu você, ou não. Se você previu a cena derradeira… Se você a prever, então fui mal-sucedido em meu propósito: prender a atenção do leitor até o momento das revelações, as quais, acredito, são imprevisíveis. A cena derradeira tem de pôr você em suspenso, boquiaberto, estupefato, e de olhos arregalados e de queixo caído. Nas cenas que a antecedem, você terá de suspender a respiração e temer pela sua vida. Se isso não se suceder a você durante a leitura, então, concluirei, fui mal sucedido em meu propósito, e terei de reescrever a novela. Mas não me diga que as revelações surpreenderam você, e você suou frio, e calafrio gelou a sua espinha, apenas para me poupar trabalho. Não faça isso, está bem? Não pense, nem por um segundo, em elogiar a minha obra-prima para me poupar trabalho e para não me desagradar. Assim que nós nos reencontrarmos, você me apresentará a sua avaliação do meu livro, e eu, se suspeitar de você, submeterei você a uma sabatina. Os meus critérios, saiba, são rigorosos, e eu empurrarei você contra a parede, e espremerei você até você me suplicar liberdade. Sou seu amigo, e você é meu amigo; você será sincero comigo; e não me poupará críticas severas, se eu as merecer. Confio em você, e você confia em mim. Sei que você não me faltará com a sinceridade, mas nada me custa salientar este ponto. Despedimo-nos aqui, e eu seguirei o meu rumo, e você o seu, e nossos caminhos se reencontrarão em breve. Boa leitura. Ah! Esquecia-me: Mande abraços meu para seu pai e sua mãe, abraços apertados, apertadíssimos. Tchau. Nos veremos daqui uns dois meses, ou dentro de três meses. Divirta-se com a leitura da minha obra-prima, que será um sucesso estrondoso. Tchau, e até breve.

Luis Amadeu afastou-se, a passos acelerados. Nunca o vi, quando só, a andar num ritmo vagaroso.

Voltei a minha atenção para a pasta. Li a etiqueta com o título da novela. Abri a pasta. Na primeira página, na primeira linha, o título da novela Os Pioneiros. E lá, na calçada, andando, cuidadoso, interrompendo a leitura, li as quatro primeiras páginas das aventuras concebidas por Luis Amadeu. Empolgantes! Acelerei os passos, no desejo de ler, tranquilamente, a novela, na minha casa, onde eu recomeçaria a leitura, desde o título. Encavernar-me-ia, no meu quarto, e não interromperia a leitura. Eu iria ler Os Pioneiros do começo ao fim. Empolgaram-me as primeiras páginas. As outras, eu acreditava, prenderiam a minha atenção. Eu só encerraria a leitura no ponto final derradeiro. A narrativa que li surpreendeu-me sobremaneira. Tal obra merece ser conhecida por todas as pessoas que amam a literatura.

A história de Roxana

17 de maio do ano de 2137. Pindamonhangaba, São Paulo.

Um dia triste para a família de Roxana.

Roxana comemorou o seu centésimo décimo terceiro aniversário dois meses antes.

Seu corpo foi velado na sua casa; depois, cremado. Prantearam-na os familiares e os amigos.

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2115 – São José dos Campos, São Paulo. Albertino faleceu em um acidente de carro. Roxana sofreu muito. Seus filhos temeram que ela se prostrasse, e sucumbisse a um ataque cardíaco. Roxana, mergulhada em lágrimas, velou o corpo do marido, e pranteou-o durante vários dias.

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2110 – Fortaleza, Ceará. Albertino e Roxana viajaram em excursão. Divertiram-se. Compartilharam momentos agradáveis. Felizes, pareciam dois jovens recém-casados em lua-de-mel. A viagem, inesquecível.

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2106 – São Paulo, São Paulo. Em um acidente de carro, feriu-se Albertino. As feridas, tão profundas, que suas pernas foram-lhe amputadas.

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2092 – 9 de novembro. Morte de Madalena, avó materna de Roxana, em um acidente de avião. O enterro simbólico deu-se no cemitério de Pindamonhangaba. Roxana sofreu imensamente.

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2091 – 16 de outubro, terça-feira. Nasceu Anderson, filho de Marco Aurélio. Roxana promoveu uma festa para comemorar o nascimento dele. Divertiu-se mais que seu filho e sua nora e todos os convidados.

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2088 – 14 de novembro. Roxana pranteou a morte de Marcelo, seu irmão. Marcelo foi assassinado. Ele, um aventureiro, viajava, em expedições, pelo mundo afora. Faleceu na sua casa, enquanto dormia. Havia vinte anos que Roxana não o via. Amava-o. A morte dele fê-la sofrer imensamente.

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2086 – Nascimento de Samantha, a segunda filha de Maria Vitória. Roxana promoveu uma pequena festa com os familiares e os amigos. E divertiu-se muito. Estava radiante.

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2085 – Franco e Fernanda presentearam o mundo com gêmeos. Dois meninos. Aníbal e Haroldo.

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2084 – Desentenderam-se Roxana e Albertino. Aventaram o divórcio. Foi um ano turbulento para eles. Diárias, as discussões.

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2083 – Do Egito, Maria Vitória dá à Roxana a notícia do nascimento de Rosângela. Roxana alegra-se. Rosângela é sua primeira neta.

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2081 – 16 de março. Falecimento de Alfredo, avô materno de Roxana. Roxana guardou luto de sete dias.

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2080 – 14 de janeiro. Maria Vitória casou-se com Alípio, na Igreja Matriz de Pindamonhangaba. A cerimônia, simples. A festa estendeu-se noite adentro.

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2079 – 28 de outubro. Para Roxana, Marco Aurélio dá a notícia de que viveria com Teresa. O início do relacionamento deles não havia sido alvissareiro, mas eles se entenderam. Roxana alegrou-se com a notícia.

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2078 – Franco e Fernanda decidem morar juntos. Roxana, ao mesmo tempo que se alegrou com a notícia, entristeceu-se. Indefinível sensação de perda invadiu-lhe o coração.

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2075 – Catástrofes naturais desabrigaram milhões de pessoas, na África e na Ásia. Milhões de pessoas mobilizaram-se para remediar a tragédia. Tufões, tremores de terra, ondas gigantescas, tempestades torrenciais devastaram regiões inteiras. Um milhão de mortos e mais de três milhões de desabrigados numa das maiores tragédias naturais da história.

Roxana e Albertino excursionavam pela Índia, um dos países mais atingidos pela catástrofe. Viram centenas de corpos desfalecidos, pessoas com os braços amputados, disformes, corpos sob destroços, pessoas queimadas. Roxana fez o que estava ao seu alcance para aliviar a dor de muitas pessoas. Carregou muita gente ferida; confortou muitas mães que perderam seus filhos, e crianças que perderam seus genitores. Amparou muitas pessoas amedrontadas. Desconhecia o idioma que algumas delas falavam. Sabia falar o inglês e o hindi; ouviu pessoas falando em bengali, gujarati, tâmil. Nunca tinha visto tanto sofrimento. Com os recursos de que dispunha, auxiliou, com milhares de outras pessoas, os atingidos pela catástrofe.

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2071 – 1º de junho. Quatro ladrões invadiram a casa de Roxana, e fizeram Roxana de refém. Roxana chorou o tempo todo. Albertino viajara a negócios para a Argentina. Seus filhos não estavam em casa.

No final daquele ano, Maria Vitória recebeu o seu diploma universitário em engenharia.

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2070 – Marco Aurélio, rebelde sem causa, como Roxana dele zombava, amorosamente, formou-se em cosmologia, com louvor, pela Universidade de São Paulo. Roxana custou a acreditar. Seu filho, que jamais apreciara uma sala de aula, diplomado em cosmologia! Roxana ria à toa, na cerimônia de formatura. Não queria acreditar. Pediu que a beliscassem. Era seu filho, o seu Marco Aurélio, quem lhe inspirava felicidade.

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2068 – No Brasil, Roxana participou de muitas atividades solidárias.

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2067 – Franco recebeu o diploma universitário no curso de Administração de Empresas. Dava os primeiros passos de uma carreira promissora. Era um jovem sonhador, estudioso, e acreditava no seu potencial. Roxana dedicava-lhe apoio incondicional.

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2056 – Zuleica, irmã de Roxana, faleceu, aos quarenta e um anos de idade, atropelada por um caminhão, cujo motorista estava embriagado. Roxana e seus familiares sofreram enormemente.

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2051 – Roxana e Albertino desentenderam-se devido a um boato que aventaram a respeito da fidelidade dela. Corroído pelo ciúmes, Albertino ofendeu-a. Quase romperam o casamento. Roxana, no entanto, amava Albertino, e sabia que ele a amava. Albertino, intratável, inacessível, cerrava os ouvidos para o que lhe dizia Roxana. Entenderam-se, enfim, após muitas discussões.

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2048 – 21 de dezembro. Roxana deu à luz Maria Vitória, após sete meses de gestação.

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2047 – 4 de fevereiro. Roxana deu à luz Franco, menino saudável, forte, de mais de quatro quilos.

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2045 – Na manhã de 30 de agosto, antes de o Sol raiar, Roxana deu à luz Marco Aurélio. Ao lado de Roxana, Albertino, no momento que ela dava à luz o seu primogênito.

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2043 – 16 de maio. Casaram-se Roxana e Albertino, na Igreja de Santa Teresinha, em Taubaté. Os convidados, numerosos, encheram a Igreja, pequena para tanta gente. Roxana estava deslumbrante no seu vestido de noiva.

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2042 – Pedro e Maria, avós maternos de Roxana, morreram, ele, no dia 5 de janeiro, ela, no dia 21 de maio; ele, atingido por um projétil quando uma viatura policial perseguia um carro em que iam os ladrões, que pouco antes assaltaram uma agência bancária; ela, de um fulminante ataque cardíaco enquanto dormia.

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2041 – Roxana, em uma festa na casa de Domingos, seu tio, conheceu Albertino, e por ele encantou-se, e por ela ele se encantou.

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2038 – Ano da primeira desilusão amorosa de Roxana. Vanderlei, o rapaz com quem ela namorava havia um mês, enganou-a. Sem que ela o soubesse, ele relacionava-se com Catarina. Volúvel, ele enganou a ambas. Elas descobriam o jogo que com elas ele fazia, romperam o namoro, primeiro, Catarina, depois, Roxana.

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2026 – Os pais de Roxana faleceram em um acidente de carro. Roxana, a partir deste dia, ficou aos cuidados de seus avós maternos, Madalena e Alfredo.

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2024 – 14 de março. Nascimento de Roxana.

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2023 – Janeiro. Jennifer sofreu aborto natural. Perdeu Roxana, sua única filha.

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2022 – No sexto mês de gestação, em seu ventre Jennifer carregava Roxana. Após longas conversas, Jennifer e seu marido, Robson, decidiram clonar Roxana.

Buraco de minhoca

Do Diário de Daniel.

Texto extraído das páginas 1.212 até 1.234. Datado de 17 de abril de 2007, terça-feira. Início: 8:15. Fim: 9:55.

Estranha a aventura que vivi há dez anos. Não a contei para ninguém. Hoje, decidi registrá-la. O que me sucedeu, naquele dia, passados, já, dez anos, não me sai da cabeça. Foram em vão todos os meus esforços para esquecer aquele dia. Desejo, em vão, apagá-lo da memória. Decidi, incapaz de esquecê-lo, registrá-lo. Relutei em escrever o que me sucedeu. Não sei definir o que se passou comigo. Perguntei-me, não raras vezes, porque eu escreveria o que me aconteceu, naquele dia, se para ninguém eu mostraria o texto. Dir-me-iam louco, eu estava, e estou, certo, todos os que tomassem conhecimento deste texto. Meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meu irmão, todos eles, fitar-me-iam com o canto dos olhos, se tivessem acesso a este relato, e lamentariam a minha insanidade mental. Meu irmão, Aquiles, dotado de imaginação extraordinária – mas as coisas fantásticas, no entendimento dele, restringem-se ao mundo irreal da imaginação, e nenhum contato têm com a realidade que conhecemos – também não me acreditaria. Nenhum deles, repito, tratar-me-ia como um homem de posse das suas faculdades mentais. A minha timidez, que sempre me impediu de dizer tudo o que penso e de narrar as minhas aventuras, não me permitiu atrever-me a contar o que vivi há dez anos. Neste diário encontram-se os meus pensamentos e o relato da minha vida. E conservo-os comigo, e apenas comigo.

O principio da aventura, inusitada, similar ao início de contos fantásticos; no entanto, ao contrário dos contos, cujos enredos brotam do cérebro de pessoas criativas, a minha aventura foi real. Conservo comigo as lembranças do que me sucedeu e trago uma estranha marca, a qual de todos oculto, em meu joelho direito.

Não me recordo do dia da semana em que o evento se deu – sei que ocorreu há dez anos, um dia após eu comemorar o meu vigésimo aniversário, na minha casa, com meus familiares e amigos -, nem quanto tempo durou.

Foi de manhã. Lembro-me que, na noite anterior, exausto, eu me deitara antes das dez horas da noite. Eu trajava apenas um short. Cobria-me um lençol fino, que me protegia dos mosquitos e dos pernilongos que infestavam o quarto. Era uma terça-feira? Ou uma quarta-feira? Ou um domingo? Não sei. Não sei em que dia, naquele ano, caiu o meu aniversário. Este detalhe é irrelevante. Se foi em uma quinta-feira, se em um sábado, se em uma segunda-feira o teor da aventura que vivi será o mesmo. Foi em Junho, estou certo, pois nasci no dia quinze de Junho.

Eu dormia, profundamente, quando, na escuridão do quarto, luz incomodou-me os olhos. Não despertei, de imediato. Recordo-me de, ainda a dormir, sentir luz intensa atingir-me os olhos e calor atingir-me o corpo. Não despertei, estou certo. Não muito tempo depois, outro clarão iluminou o quarto, e eu, semidesperto, entrecerrei as pálpebras, e vi – a minha visão embaciada – diante de mim uma coisa a flutuar sobre a minha cama, próxima de meus pés. A coisa parecia gelatina de morango. Não dei-lhe atenção. Era como se eu ainda dormisse, e aquela gelatina flutuante fosse uma personagem do meu sonho. Com o lençol cobri-me a cabeça. E dormi. Não sei quanto tempo depois, senti algo a puxar-me o lençol; aliás, senti o lençol a deslizar-me por sobre o corpo. Descoberto, nem adormecido, nem acordado, resmunguei, remexi-me na cama, tateei o colchão à procura do lençol, e não o encontrei.

Senti uma corrente de ar frio invadindo o quarto. Tremi de frio. Procurei pelo lençol. Não o encontrando, descerrei as pálpebras, estiquei-me, e apertei o interruptor. Atingiu-me os olhos a luz, obrigando-me a cobri-los com os antebraços. Habituado à luz, descerrei as pálpebras. E qual foi a minha surpresa ao ver, diante de meus olhos, uma coisa esquisita a flutuar, uma massa gelatinosa, brilhante, avermelhada, que irradiava brilho bruxuleante!

– O quê!? – berrei, assustado, arregalados os olhos, escancarada a boca, acelerado o coração, trêmulo o esqueleto, a fitar aquela coisa gelatinosa.

Berrei uma interjeição de espanto, mas não me ouvi. O medo talvez tenha me assustado tanto que por algum motivo não consegui ouvir o meu berro. Em meu inconsciente, ouvi as palavras que berrei; meus ouvidos, todavia, não as ouviram. Articulei as palavras, mas não as proferi. Eu as ouvi, mas não com meus ouvidos; eu as ouvi com meu inconsciente. Minha voz sumira inexplicavelmente. Assustado, pulei da cama, pronto para, em disparada, se necessário, sair, correndo, do meu quarto. Eu não entendia o que me ocorria. De repente, perdi os movimentos de meu corpo. Eu não o sentia. Meu corpo, imobilizado, ficou, contra a minha vontade, de frente para aquela coisa gelatinosa vermelha e brilhante. E comecei a flutuar. Eu não sentia meu corpo. Era como se eu o houvesse perdido. Ouvi uma voz feminina, suave, dentro de minha cabeça. Eu estava nervoso; meu coração batia acelerado.

– Daniel – dizia-me a voz -, não tenhas medo de mim. Não te prejudicarei.

Eu olhava, ainda assustado, mas não tanto quanto quando eu me deparara, pela primeira vez, com aquela coisa gelatinosa vermelha a flutuar diante de mim.

– Daniel – disse-me a gelatina flutuante (criatura desprovida de boca, nariz, de todos os órgãos que compõem um corpo) dentro de meu cérebro -, eu vim de um planeta distante, localizado em um sistema estelar longínquo – prosseguiu, após uma curta pausa -, situado em uma galáxia que os humanos desconhecem, e na qual há seres inteligentes mais evoluídos do que os humanos. Tal galáxia dista dois bilhões de anos-luz da Via-Láctea. Os humanos só a visitarão daqui doze mil e duzentos anos, quando desenvolverão tecnologia que lhes permitirá viajar através do tempo e teletransportarem-se através do espaço. Sei o que digo, pois viajo através do tempo por meio de um fenômeno que os humanos denominam Buraco de Minhoca, o mais comum meio de transporte empregado pela minha espécie. Empregamo-lo há muito tempo, no passado e no futuro. Descobri-mo-lo como controlá-lo, em um tempo que ainda não chegou para os humanos, e nunca chegará, um tempo que não está no futuro, nem no passado, nem no presente. Está em um instante; instante que não se localiza no passado, nem no presente, tampouco no futuro. Vim de uma galáxia na qual são inaplicáveis todas as leis da física que os humanos conceberam. Encarregaram-me os governantes do meu planeta de contatar um humano e para ele mostrar o que podemos fazer, e provar-lhe, de modo incontestável, que os humanos não são os únicos seres inteligentes no universo, muito menos os mais inteligentes. Os humanos desconhecem bilhões de universos, que compõem aglomerações de universos, que compreendem megauniversos, cuja concepção os seres dotados de inteligência inferior não podem compreender. Escolhi-te para transmitir-te o conhecimento do meu povo. Nenhum motivo especial eu tive para escolher-te. Detive-me no teu quarto, te vi a dormir, e decidi apresentar-te o meu mundo, os outros planetas do sistema estelar ao qual meu mundo pertence, e outras galáxias. O meu objetivo: mostrar-te que os humanos não são os únicos seres inteligentes do universo, e nem os mais inteligentes. Depois, tu difundirás, na Terra, para todos os humanos, os conhecimentos que te transmitirei, e todos os humanos conhecerão o que há no universo, e tomarão conhecimento da nossa existência e da existência de muitas outras espécies de seres inteligentes que vivem em outros planetas, em outras galáxias, em outros universos.

A criatura gelatinosa tentava traduzir para a linguagem humana as idéias que desejava me transmitir. As palavras dela não são as que escrevi; o teor do que ela me disse, no entanto, é, acho, o que registrei. Sou o mais fiel possível ao conteúdo do que ela me disse. Dez anos separam-me daquele dia; não posso me recordar de todas as palavras que a criatura gelatinosa disse-me.

Não sei como definir aquela criatura, a não ser chamando-a de criatura. Uma criatura estranha, uma criatura esquisita. Não sei a qual espécie ela pertence, e em qual galáxia situa-se o planeta no qual ela vive. Tais informações ela não mas passou; se mas passou, delas não me recordo. Talvez ela tenha me dito de qual galáxia ela é originária, mas eu, dominado pelo medo, mal lhe ouvi o relato da viagem que ela empreendera até à Terra dentro de um túnel espaço-tempo e sob influência de outros fenômenos que apenas Einstein, John Wheeler, Chandrasekhar, Roger Penrose, Alexander Starobinsky, Friedmann, Niels Bohr, e outros cientistas da mesma estirpe seriam capazes de entender.

Pouco pude entender do que a criatura disse-me. Aquela criatura estranha, a criatura mais estranha que já vi, mais estranha do que ornitorrinco, do que equidna e do que os animais que habitam os abismos dos oceanos, disse-me que não estava no tempo que eu percebia, ou algo assim; que não estava, nem no presente, nem no passado, nem no futuro. Ela simplesmente estava. Foi isso o que entendi do que ela me disse. Ela também me disse que o universo não foi criado, porque sempre esteve. Não disse que sempre existiu; disse-me que o universo sempre esteve. Não entendi o que ela quis me dizer, e não quero saber o que ela quis dizer-me, e não pensarei mais nisso. Não queimarei meus neurônios. Restam-me poucos, depois de tantos anos a queimá-los em trabalhos árduos e infrutíferos, e não quero desperdiçá-los com mistérios que não posso desvendar.

Encerro a minha tentativa de relatar o que a criatura disse-me, não sei em quanto tempo, pois de tudo o que ela me disse de quase nada me recordo – e nada compreendi do que ela me relatou durante horas (Horas? Posso mensurar, em horas, o tempo quando o tempo sofria não sei quais efeitos com a presença da criatura?).

Não me esforçarei para recapitular o que se passou, no meu quarto, e tampouco pretenderei – pois sei que é-me impossível – reconstituir o discurso da criatura. Não entendi patavinas do que ela me disse; se a minha memória não me engana, ela demorou para perceber que eu não a entendia; para infelicidade dela, ela não entabulou conversa com um indivíduo humano mais inteligente do que eu e com conhecimento em cosmologia; com a sua inteligência inigualável, ela não teve paciência para examinar os humanos e selecionar um que fosse dotado de intelecto vigoroso, e, ousado, não temesse inteirar o mundo de sua história. Se tivesse paciência – o tempo inexiste para ela, segundo entendi -, ela selecionaria um indivíduo humano intelectualmente bem dotado e para ele transmitiria as suas idéias – suspeito que tal humano, tanto quanto eu, intimidar-se-ia com toda a história, recusar-se-ia a contar para outras pessoas o que lhe ocorreu, e conservaria consigo a história, como eu o fiz.

Ao notar que eu não a compreendia, ela disse-me dentro da minha mente:

– Tu, com a tua inteligência inferior – o seu tom de voz, arrogante -, não entendes o que te digo. Creio que nenhum individuo humano é capaz de entender-me – inspirou-me a mente a vontade de encaixar-lhe um soco no nariz. Ela leu-me a mente. – Não te desesperes. Não te enerves. Não dominarei os humanos. Se a minha espécie desejasse dominar-lhe, vós não poderias impor-nos resistência. Não vos dominarei. Estou, neste planeta, para apresentar para um individuo humano os conhecimentos e a tecnologia da minha espécie e o universo. Prepara-te para a viagem.

– Viagem? – perguntei, sem articular a palavra.

– Sim – respondeu-me a criatura. – Viajaremos através de um Buraco de Minhoca.

Expressei confusão de pensamentos. A criatura replicou. Encetamos discussão, eu, nervoso e enfezado, ela, calma e serena. Enfim, ela fez sair de dentro de seu corpo um aparelho menor do que meu polegar, e disse-me que era o controlador do Buraco de Minhoca. O aparelho emitiu um brilho alaranjado, e diante de mim apareceu um círculo. Olhei para o seu interior, que não tinha dimensões, e arregalei meus olhos, assustado.

– O que é isso? – perguntei, tolamente.

– O Buraco de Minhoca.

– Aonde tu me levarás?

– Tu verás – respondeu-me a gelatina flutuante. Tive a impressão de haver visto sorriso escarninho em seu rosto (a criatura é desprovida de rosto).

Em pé, flutuei até o Buraco de Minhoca, que se alargou para que eu nele entrasse, e a criatura posicionou-se à minha direita.

Não sei descrever o que senti quando meu corpo foi puxado para dentro do túnel sem fim. Eu, parecia-me, não me mexia. Mas eu me mexia. Não muito tempo depois (é incômodo falar em tempo, neste caso), me vi diante de uma esfera chamejante. A criatura disse-me tratar-se da Terra em formação. Um espetáculo fabuloso. Vi a Terra a formar-se em ritmo acelerado. Vi dinossauros a caminharem pelos continentes. Vi asteróides atingirem a Terra. E os dinossauros foram dizimados. Diante de meus olhos sucederam-se, num ritmo alucinante, as eras glaciais, erupções vulcânicas, o surgimento da civilização, a construção de grandes cidades. Reconheci os jardins suspensos da Babilônia, as pirâmides do Egito, Macchu Picchu, o Colosso de Rodes, o Farol de Alexandria, a Grande Muralha, o Taj Mahal, o templo de Angkor Vat, e muitas outras maravilhas que os humanos construímos. A história humana desenrolou-se diante de meus olhos. Vi as ruínas de todas as grandes construções. Vi os humanos a esfacelarem-se em guerras sangrentas. Chegamos ao tempo presente: o ano de mil, novecentos e noventa e sete. Não se encerrou a viagem através do tempo. Vi o futuro dos humanos. As viagens espaciais. A construção de colônias humanas na Lua, em Marte, em Titã. As viagens interestelares. A espécie humana a modificar-se diante de meus olhos. Transcorreram-se séculos, milênios, dezenas de milênios. E a espécie humana a transformar-se. Os humanos converteram-se em seres irreconhecíveis. Vi, fascinado, a espécie humana a transformar-se. Se a criatura não me dissesse que aquelas criaturas que eu tinha diante de meus olhos eram humanas, melhor, seres que evoluíram do homo sapiens, eu não saberia que se tratavam de seres nos quais nossos descendentes se transformariam, num futuro distante; para a criatura, disse-me ela, tudo aquilo já havia acontecido. E vi Sol a expandir-se, e a engolir Mercúrio, Vênus e a Terra. E o Sol explodiu. E fez-se as trevas.

Após a viagem através do tempo, na Terra, a acompanhar o progresso da civilização até o seu desaparecimento, que se deu com a transformação da espécie humana em outra espécie, que vivia, além da Terra, em outros planetas acolhedores de outros sistemas estelares, a criatura disse-me que iríamos para a galáxia em que se situa o planeta em que ela vive.

Eu era incapaz de compreender tudo o que vi. A criatura e eu rumamos para planetas nos quais viviam criaturas estranhíssimas, que fundaram civilizações detentoras de tecnologia inigualável.

Detivemo-nos em um planeta em que os indivíduos, como a criatura, comunicavam-se por intermédio da mente, ou de um órgão similar. Eram criaturas de mais de cinco metros de altura, dotadas de três pernas, seis braços, cinco olhos, e desprovidas de boca e de ouvidos. Procriavam-se com o pensamento. Quando uma criatura desejava conceber um descendente, pensava na concepção, e o descendente brotava de um de seus pés e, pouco tempo depois, caminhava, e atingia o tamanho de um indivíduo adulto da sua espécie sem que tivesse ingerido alimento. Possuíam extraordinário vigor intelectual. O planeta que habitavam, mil vezes maior do que a Terra, estava coberto de cidades grandiosas. Quase nada entendi do que eles faziam; os seus gestos e a sua tecnologia estavam longe da minha compreensão.

Daquele planeta rumamos para outro planeta, habitado por estranhas criaturas inteligentes de cultura avançadíssima (não sei se o que vi se passou no tempo presente, isto é, no ano terrestre de mil, novecentos e noventa e sete, ou se a dezenas de milhões de anos no futuro, ou no passado).

Criaturas estranhas e inconcebíveis pela imaginação humana, dotadas de alto grau de conhecimento tecnológico, dominavam alguns fenômenos universais e tinham amplo conhecimento das forças que atuam no universo; construíam naves espaciais que viajavam através do tempo e através do espaço.

A criatura falava-me do que me mostrava, dos planetas, das espécies de criaturas que viviam em cada um deles, das maravilhas que me apresentava – e quase nada me lembro do que ela me disse -, e quase nada entendi, pois, na linguagem humana não há vocábulos para defini-las.

Visitei o planeta da criatura gelatinosa. Era o planeta maior do que a Terra. Presumo, é-me impossível afirmar, que é do tamanho de Júpiter. Centenas de bilhões de criaturas gelatinosas avermelhadas flutuavam no céu do planeta. Entramos em uma construção, na qual havia, instalada, uma máquina de seiscentos metros de altura e que se estendia até o infinito. A criatura disse-me que era uma máquina que criaria um Buraco de Minhoca gigantesco, pelo qual o planeta viajaria através do espaço e através do tempo. Em vão, tentei conceber o que ela me disse.

Durante a viagem, cai, e resvalei meu joelho direito em uma substância segregada por uma criatura. Em meu joelho direito ferido apareceu uma estranha marca, e trago-a comigo, marca que ora emite brilho avermelhado, ora brilho multicolorido, ora abre-se, e em seu interior vejo as galáxias, como se me descortinassem os portões do universo – talvez a existência da marca em meu joelho direito explique porque pude esconder, a partir daquele momento, da criatura gelatinosa os meus pensamentos.

A criatura guiou-me pelo seu planeta, e apresentou-me todos os seus aspectos. Depois de eu haver ganhado, se posso assim dizer, a marca em meu joelho direito, passei, não a entender o que a criatura explicava-me, mas a ver tudo sem a confusão inicial. Se meu consciente não entendia todos os fenômenos dos quais a criatura dava-me explicações minuciosas, meu inconsciente apreendia-os; todavia, não posso explicá-los com a linguagem humana; consigo entendê-los apenas com a linguagem da espécie da criatura gelatinosa flutuante.

As aventuras posteriores foram interessantes, mais interessantes, até, do que as primeiras, pois eu pude, como eu já disse, apreender os fenômenos à medida que eu me familiarizava com a linguagem da criatura gelatinosa. Pude, até, entender o diálogo dela com outros indivíduos da sua espécie. Os humanos do meu tempo estão muito distantes, no que diz respeito à inteligência, daquelas estranhas criaturas; e apenas daqui dezenas de milhares de anos a elas se igualarão, e poderão compreender os mais fantásticos fenômenos do universo.

A criatura não sabia que eu podia entendê-la, e tampouco sabia que eu podia compreender os fenômenos universais que ela e os da sua espécie compreendiam e controlavam. As criaturas gelatinosas falavam de todas as suas tecnologias, fabulosas tecnologias. Controlam forças muito mais poderosas do que as que os humanos controlamos. Forças inconcebíveis para a nossa minúscula capacidade cerebral.

Mal controlo o que escrevo. Descarrego, na minha agenda, todas as palavras que me vem à mente. Mesmo que eu tenha adquirido uma parcela da inteligência das criaturas, eu ainda penso, na Terra, como humano.

Enfim, sem aviso, a criatura gelatinosa encerrou a jornada através do tempo e através do espaço, e devolveu-me à Terra, em uma manhã, ao meu quarto, cuja janela estava fechada, e pelas suas frestas réstias de luz o invadiam, e despediu-se de mim com palavras amigáveis, nas quais não li nem vaidade, nem desejos similares aos dos humanos. Retirei-me do quarto. Em casa, todos dormiam. Não me dei ao trabalho de olhar para um relógio, e verificar as horas. Também não olhei para o calendário na porta do meu guarda-roupa.

Fim do texto extraído do Diário de Daniel

*

Chamo-me Aquiles. Sou irmão do Daniel. O texto acima foi publicado, originalmente, pela Editora E***r** B*a***i. Hoje é o dia 21 de dezembro de 2028, quinta-feira, dez anos após a morte de meu irmão. Este conto fantástico eu o encontrei em meio a vários rascunhos de aventuras fantásticas que meu irmão adorava escrever. Publicado o conto há seis anos, meu irmão recebeu, postumamente, mais de vinte prêmios literários. Vertido para o cinema, o filme conquistou grande público em vários países. Lendo-se o texto tem-se a impressão de que Daniel viveu a aventura narrada no conto, mas ela é, unicamente, fruto da sua poderosa imaginação. Meu irmão fascina-me. Não consigo entendê-lo. Como ele podia tomar como verdadeiras as estórias que brotavam da sua criatividade prodigiosa?

*

Ano: 2097. 03 de março. Domingo. 5:15 da manhã. Meu irmão morreu há trinta e quatro anos, sete meses e oito dias. Infelizmente, a sua incredulidade impediu-o de tomar como verdadeira a história, que ele toma como estória, que extraiu do meu diário. Leu-a – e a todas as outras – apenas como uma aventura fantástica criada pela minha imaginação.

A criatura, se regressasse à Terra para conhecer o que fiz, isto é, o que não fiz, porque para ninguém contei a minha experiência, saberia que os humanos nada sabem da sua passagem pela Terra, e frustrar-se-ia, porque, primeiro, guardei comigo a história da minha aventura durante dez anos, até registrá-la no meu diário; depois, ao vir ao conhecimento do público, por intermédio de meu irmão, transformou-se a história em um sucesso literário, depois cinematográfico – e não é nada mais do que uma aventura de ficção científica como milhões de outras; e atualmente dela ninguém mais se lembra.

O maior prêmio que recebi, que não dividi com ninguém, foi o aparelho que me permite viajar através do tempo e através do espaço, e que controla o fenômeno universal chamado Buraco de Minhoca. Estou fazendo bom uso dele. Furtei-o, sorrateiro, do interior de um aparelho, quando as criaturas gelatinosas, desatentas, conversavam. As criaturas, desprovidas de mãos, não conhecem o talento humano para a prática do furto. Para a minha felicidade, pude ocultar os meus pensamentos da criatura gelatinosa que me guiava através do tempo e através do espaço, talento que desenvolvi durante a viagem, e que decorria da marca que trago comigo em meu joelho direito. De todos a ocultei. Ela me permitiu – depois do meu regresso à Terra – realizar aventuras inimagináveis pelos confins do universo e de outros universos e dialogar com outras criaturas inteligentes, muitas delas mais inteligentes do que os seres humanos. Ela faz parte de meu corpo, como o fazem minha cabeça, meus braços, minhas pernas, e todas as minhas outras partes.

Entre nós

100.000 a.C.

Alienígenas visitaram a Terra. Eles e os ancestrais dos humanos coexistiram, pacificamente. E os alienígenas assumiram a constituição física humana, e com os humanos acasalaram.

*

2.004 d. C.

Astrônomos, no Chile, vasculharam o universo com telescópios sofisticadíssimos. Detectaram um astro sideral, que se assemelhava a uma nave espacial, nas proximidades de Plutão. Analisaram-lhe a trajetória. Dirigia-se o astro sideral à Terra. Apalermados, os astrônomos assustaram-se, no início; renovado o equilíbrio emocional, debruçaram-se sobre os cálculos, e os refizeram. Confirmaram os dados anteriores. Analisaram, detidamente, as imagens que recebiam, e concluíram: Uma nave espacial rumava à Terra.

*

Centenas de milhares de pessoas, em todos os continentes, sentiram fortes dores de cabeça, e dobraram-se de dor. Muitas dentre elas foram hospitalizadas. Às dores de cabeça seguiram-se vômito, tremores de corpo e diarréia. Médicos e cientistas debruçaram-se sobre livros de medicina, trancaram-se nos laboratórios, e empreenderam, em vão, muitas pesquisas sobre a doença que cometeu milhões de pessoas.

*

Informações de observatórios astronômicos do Chile.

Com a velocidade com que deslocava-se, a nave espacial chegaria à Terra em seis meses.

A nave tinha mais de setecentos metros de diâmetro e mais de duzentos metros de altura. A sua origem os humanos a desconheciam. E a qual espécie pertencia a sua tripulação? E qual era o intento dos seres que a compunham?

Os altos escalões dos governos dos países mais desenvolvidos mantiveram a notícia em segredo.

*

Em uma assembléia secreta, os membros do alto escalão dos governos dos principais países do mundo e astrônomos de observatórios astronômicos do Chile, dos Estados Unidos e da Austrália, trataram da existência da nave espacial e da sua aproximação da Terra. Queriam decidir quais preparativos os humanos deveriam tomar. O que fariam se os tripulantes da nave fossem seres hostis? Aguardariam a agressão, e revidariam, ou antecipar-se-lhes-iam, e os atacariam? Se fossem inofensivos, como os receberiam? Indecisos, decidiram esperar por mais informações a respeito das peculiaridades da espécie que tripulava a nave espacial.

Os governantes dos principais países do mundo e os astrônomos que sabiam da existência da nave alienígena estavam ansiosos e preocupados. Previam as ressonâncias políticas, sociais e econômicas caso a população mundial dela tomasse conhecimento.

Preparar-se-iam para receber a espécie extraterrestre, fosse ela ou guerreira, ou pacífica.

Não poderiam evitar a aproximação da nave.

Conservariam a existência da nave ao desconhecimento da população mundial.

*

Em todos os continentes, em todas as ilhas habitadas por humanos, em todas as comunidades isoladas nas florestas tropicais, pessoas sentiram fortes dores de cabeça, e curvaram-se, e vomitaram, e debateram-se, e afligiu-as diarréia debilitante. A intensidade das dores que as pessoas afetadas pela doença sentiram superava a dor que sentiram na primeira epidemia, e, segundo estimativas das organizações de saúde de todos os países, atingiu um número maior de pessoas, que sararam, repentinamente, e nelas não se detectou sinais da doença, cujo agente causador autoridades médicas de todo o mundo procuraram, em vão.

*

A nave passava por Júpiter. Astrônomos de várias partes do mundo captaram, dela, imagens nítidas, e maravilharam-se com o que viram. Qual era a tecnologia de uma nave tão magnífica? perguntaram, mensurando, em imaginação, a grandiosidade da civilização que a construiu.

*

Terceira epidemia da misteriosa doença, que, como as duas anteriores, principiou repentinamente, e desapareceu sem deixar vestígios. As suas características causavam espanto em todos os cientistas que a estudavam. Ninguém sabia dizer de que doença se tratava. E nesta terceira epidemia algo de singular aconteceu: Algumas pessoas manifestaram agressividade que ninguém havia manifestado nas epidemias anteriores, e era impossível controlá-las; elas adquiriam, durante o tempo que permaneciam em seu estado alterado, agressivas, mais força e resistência físicas. Houve o caso de um homem que, alvejado por dois projéteis, disparados de um revólver empunhado por uma mulher que ele atacara, não sofreu nenhum arranhão; os projéteis bateram no corpo dele, e ricochetearam.

*

Os médicos das organizações mundiais de saúde não sabiam qual era o agente causador da misteriosa doença.

As pessoas perguntavam-se o que estava acontecendo. Queriam saber de que doença se tratava e porque pessoas que dela adoeceram sentiam dores debilitantes, tinham vômitos, diarréias, e algumas manifestavam agressividade incomum, e adquiriam força e resistência físicas inigualáveis.

*

Os astrônomos receberam imagens da nave espacial. Espantavam-se, boquiabriam-se, à medida que da Terra ela aproximava-se.

A nave era maior do que pensavam eles; dir-se-ia que ela aumentava de tamanho à medida que se aproximava da Terra.

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A quarta epidemia da doença misteriosa foi mais devastadora do que as três anteriores. Persistiu por duas semanas. Em todo o mundo, famílias inteiras manifestaram-na. Mais intensa a agressividade das pessoas infectadas, cujo corpo adquiriu mais resistência.

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Na assembléia especial da ONU, todos os chefes de governo de todos os países trataram das misteriosas epidemias, que tanto os preocupavam, e da aproximação da nave extraterrestre. Inúmeros governantes ouviram, atentamente, as notícias sobre a doença misteriosa e as notícias sobre a nave extraterrestre, de cuja existência, até então, apenas os chefes de estado das principais nações do mundo estavam inteirados. A incredulidade e o ceticismo deles dissiparam-se quando apresentaram-lhes as provas da existência da nave espacial. Mesmo assim, houve aqueles que mostraram-se incrédulos. As controvérsias prolongaram-se durante muitos dias, no decurso dos quais a população mundial informou-se a respeito da nave espacial, e, ao mesmo tempo espantada e fascinada, interessou-se em saber mais a respeito dela. Em nenhum outro momento da história publicou-se tantas reportagens sobre vida extraterrestre.

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Uma pergunta produziu infindáveis controvérsias: Por que algumas pessoas adoeciam misteriosamente, e outras não? Algumas pessoas adoeceram nas quatro epidemias, outras nunca manifestaram a doença. Procuraram pela resposta no organismo das que manifestaram a doença. E não a encontraram.

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Chegaram à Terra magníficas imagens da nave espacial. Muita gente, incrédula ainda, acreditava que se tratava de uma farsa: as imagens eram constituídas de efeitos especiais de computação digital produzidos por estúdios de cinema de Hollywood.

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A quinta epidemia foi mais intensa do que as quatro anteriores. Modificou-se o corpo das pessoas que manifestaram a doença misteriosa. À doença misteriosa alguns cientistas associaram a nave espacial que se aproximava da Terra, e os mais perspicazes concluíram que não se tratava de doença, mas de um processo natural de metamorfose. O corpo de algumas pessoas, acreditavam eles, tinha alguma relação com a espécie dos seres que tripulavam a nave extraterrestre. Tais cientistas foram ridicularizados. E mais ridicularizados foram os cientistas que declararam que eram alienígenas as pessoas que adoeciam da doença misteriosa.

Em todo o mundo, pessoas transformaram-se em criaturas semelhantes a ovos.

– É o corpo humano apenas um casulo? – perguntaram-se alguns cientistas. – A aproximação da nave espacial extraterrestre ativou o processo de metamorfose?

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Governantes de todas as nações não sabiam como proceder diante dos eventos recentes e dos que estavam por vir – e eles não sabiam quais eram. Durante quatro dias, muitas pessoas transformaram-se em criaturas ovóides – mais da metade da população mundial, calcularam alguns estudiosos.

Os humanos que não se transformaram em criaturas ovóides romperam contato com as que haviam se transformado. Em toda cidade formaram-se duas comunidades distintas. Uma, de criaturas ovóides; uma, de humanos.

A nave deteve-se a duzentos mil quilômetros de distância da Terra, e começou a irradiar brilho intenso incomum.

Na Terra, as criaturas ovóides transformaram-se, cresceram, rapidamente, em pouco tempo dobraram de tamanho, e assumiram um aspecto longílineo. Tinham três metros de altura, eram esguias, macérrimas, de cabeça imensa, desproporcional ao corpo, e não pesavam vinte quilos; não apresentavam esqueleto semelhante ao humano; pareciam compostas de uma peça, um osso, cuja composição diferia dos ossos humanos, de constituição plástica, flexível. No topo da cabeça, possuíam uma caixa craniana semi-transparente em cujo interior havia um cérebro esverdeado fosforescente.

As criaturas longílineas que resultaram das rápidas transformações pelas quais passaram as criaturas ovóides, o cérebro a brilhar, atacaram os humanos. Os humanos debateram-se de dor, caíram no chão, escabujaram – e muitos dentre eles morreram. Quando as criaturas alienígenas tocaram os cadáveres humanos, eles desapareceram, e nuvens deles desprenderam-se.

Os governantes de todas as nações convenceram-se de que estavam diante de uma ameaça à vida humana e à vida na Terra, e reagiram à altura. Forças militares de todas as nações atacaram as criaturas longílineas. Armas comuns nada podiam contra elas. Os projéteis que as atingiam nelas alojavam-se, e nelas permaneciam como se por elas houvessem sido sugados, e pouco depois elas os expeliam.

E a batalha, decisiva para os humanos, que, pela primeira vez, se viram diante de uma ameaça à sua existência, prosseguiu indefinida, imprevisível.

Dezenas de milhões de humanos pereceram no primeiro dia de combates. As criaturas longílineas os sobrepujaram. Os humanos desfaleciam aos milhares, em cada minuto, e nenhuma criatura longilinea morria. Tinham elas, presumiam os humanos, uma fraqueza, pois, durante milhares de anos no interior do corpo humano, enquanto viviam como humanos, muitos indivíduos daquela espécie morreram (os cientistas haviam, à luz dos acontecimentos, chegado à conclusão de que há milhares de anos alienígenas aportaram, na Terra, e acasalaram com os humanos). Tinham de descobrir a fraqueza delas antes que elas dizimassem toda a vida na Terra.

Os humanos atacaram as criaturas longilineas com armas mais potentes, e não conseguiram reverter a situação. No segundo dia de batalhas, pereceram dezenas de milhões de humanos.

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Decorrido um mês, quase todos os humanos já haviam perecido, e inúmeras espécies animais já haviam sido extintas.

E encerrou-se a guerra. As criaturas longilineas dizimaram a humanidade.

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A nave que orbitava a Terra aterrissou no oceano Atlântico, em cujo fundo permaneceu. As criaturas longílineas transformaram-se em criaturas ovóides, e reduziram-se-lhes as dimensões, e dirigiram-se para a nave, nela entraram, e dela não se retiraram.

A nave fincou-se no chão do oceano. Enterrou tentáculos de dez quilômetros de comprimento no solo oceânico, os mais extensos penetraram cem quilômetros nas terras submersas.

Começou a sugar a energia do planeta.

Conservou-se, durante centenas de milhares de anos, a sugar a essência da Terra.

Na superfície da Terra não havia nem animais, nem vegetais. A atmosfera, a gravidade, o relevo, as propriedades das matérias que compunham o planeta modificaram-se para permitir a vida dos seus novos habitantes.

Enfim, a nave recolheu os tentáculos, e deslizou, pelo solo submarino, até a superfície. Dela retiraram-se as criaturas, ovóides umas, longílineas outras.

Da espécie humana nenhum vestígio havia. E novas espécies surgiram. Uma delas, uma planta, revestiu a superfície da Terra.

As novas espécies erigiram, em pouco mais de duzentos anos, uma civilização magnífica.

O dia em que os robôs decidiram exterminar os humanos

Há décadas os humanos inventaram máquinas inteligentes. Elas se voltarão contra os seus criadores? E criadores e criaturas travarão batalhas pelo domínio do planeta? Os criadores suplantarão as suas criaturas? As criaturas sobrepujarão os seus criadores? Os eventos aqui narrados responderão tais perguntas. No futuro não muito distante sucederam-se incidentes que responderão às perguntas que afligem, nesta era, os humanos. Nas próximas linhas, relatarei fatos, que os humanos desta era não podem prever, os quais eu, um homem da minha era, lhes posso revelar.

Deu-se na América do Norte a primeira escaramuça entre humanos, robôs e andróides. Sem prévio sinal, os robôs principiaram os ataques, surpreendendo os humanos. E nenhum humano ousou, informado dos primeiros combates, vaticinar o desenrolar e o desenlace da guerra que se principiava. Surpreenderam-se todos com a notícia: Na América do Norte, na megalópole de Washington, robôs e andróides batiam-se entre si e robôs atacaram humanos. Não havendo, nesta era em que estamos, já avançada em muitos aspectos, máquinas visionárias, os humanos, repito, nada podem saber do futuro; eu, digo uma vez mais, um homem da minha era, posso relatar os eventos que se sucederam daqui alguns séculos.

Principiaram-se, repito, os conflitos, que logo recrudesceram e assumiram proporções bíblicas, primeiro, na megalópole de Washington, capital dos Estados Unidos da América, a nação soberana mais poderosa do mundo, e, na sequência, nas cidades de Tóquio, no Japão, e Bombaim, na Índia. Não ignoram os homens da minha era algumas peculiaridades de alguns eventos inusitados, intrigantes e surpreendentes que antecederam o início da sublevação dos robôs, eventos que não foram previstos pelos serviços de inteligência humana e que se sucederam, rapidamente, na antevéspera e na véspera da eclosão dos ataques dos robôs contra andróides e humanos.

Congregações de robôs poderosos, imbuídos de extraordinário talento de persuasão, adicionaram às suas hostes, às escondidas, milhares de humanos ao incutir-lhes ânimo revolucionário e aversão à civilização humana. E sublevaram-se. E converteram a megalópole de Washington num campo de batalha. Avassalaram Washington. Destruíram bairros inteiros. Reduziram a escombros prédios imensos e arranha-céus grandiosos e construções dos séculos dezoito, dezenove, vinte e vinte e um. Desmantelaram estátuas e palácios.

O ataque, planejado com elaboradas estratégia e tática, desfecharam-no os robôs à perfeição. Os robôs saíram incólumes dos primeiros entreveros, excetuados algumas dezenas deles, que foram avariados, mas não a ponto de serem inutilizados; e foram da ordem das centenas de milhares os humanos mortos.

Os andróides, em resposta ao repentino ataque desfechado pelos robôs, organizaram-se, e constituíram, em questão de horas, um grupo distinto, independente, poderoso, e baterem-se com os robôs e com os humanos aliados dos robôs, e sobrepujaram, em algumas batalhas, algumas memoráveis, os seus adversários; decididos a se conservarem independentes, não propuseram, no início, alianças nem aos humanos, tampouco aos robôs, mas dado o caos que se instalou não muito tempo após o início dos confrontos, misturando-se as personagens, aliaram-se aos humanos que lutaram contra os robôs.

Sucederam-se os eventos, numa sequência tão estonteante, que sou incapaz de reproduzir o, e mal posso dar idéia do, que ocorreu naquele dia, um dia que os humanos das eras que se sucederam à minha era e os humanos da minha era desejamos esquecer, o dia que poderia ter sido o último dia da existência da espécie humana, o seu epílogo. Vaticinou muita gente um futuro sombrio para os humanos, futuro que não se concretizou. Suspeita-se que os robôs alimentaram, durante décadas, séculos talvez, sentimentos antagônicos pelos humanos, seus criadores, deles conservando-os ocultos por meios que os mais eminentes estudiosos da robótica desconhecem.

E sucederam-se as batalhas. A guerra assumiu proporções inabarcáveis e aspectos indescritíveis. Imbricaram-se os grupos em conflito. Os desencontros de informações confundiram os humanos. Humanos associaram-se aos robôs, impelidos por sentimentos de apreço por eles e de desapreço pelos humanos; outros, em favor de interesses pessoais, para obtenção de vantagens, não se acanharam em produzir prejuízo aos humanos. Facções de andróides lutaram entre si. Facções de humanos batiam-se umas contra as outras. Facções compostas de andróides e humanos declararam guerra, umas, aos robôs, outras, aos humanos, outras, aos andróides. Facções constituídas de robôs e andróides tinham, umas, nos andróides, os inimigos, outras, nos humanos. Facções cujos integrantes eram robôs e humanos estavam, umas, decididas a exterminar os andróides, outras, os humanos. Das três espécies envolvidas nos conflitos, a dos robôs era a única que não estava debilitada por facções rivais, visceralmente hostis umas às outras; daí ser bem-sucedida em todas as batalhas que travou contra as suas duas espécies inimigas, que, ocupadas, ambas, com o inimigo em comum, a espécie dos robôs, tinham de se haverem contra as facções rivais que surgiam no seu próprio seio.

Degradaram-se, logo nas primeiras horas após o início dos combates, as condições de sobrevivência, na megalópole de Washington, e, não muito depois, em Bombaim e em Tóquio. Nas precárias condições de subsistência às quais se reduziram, milhões de indivíduos não encontravam provisões para suprir as suas necessidades imediatas, cortados os canais de comunicação entre produtores, fornecedores, distribuidores e consumidores. E logo escasseou, nas prateleiras dos supermercados, os víveres, levando ao desespero as pessoas que deles estavam privadas. A escassez de alimentos, que já ocorrera, num momento em que Bombaim, e toda a Índia, enfrentava a carestia, aprofundaria a fome; e o medo, o desespero e o terror logo espalharam-se por todo o país hindu e pelo sudeste da Ásia. E a notícia das conflagrações nas três megalópoles logo alcançou todos os pontos do mundo, conectados numa rede de informações que alcança os rincões da América do Sul, da Ásia e da África. E as imagens do morticínio as viram todos os humanos. E instalou-se o caos em toda a civilização.

Das três espécies em conflito era a humana a mais numerosa e a mais melindrosa; os robôs, os menos numerosos, os mais resistentes e os que tinham o controle de todas as máquinas e, praticamente, o governo da civilização, pois estavam presentes em todos os sistemas mecânicos; e os andróides eram dotados da fragilidade humana e da resistência robótica.

Na órbita da Terra, além da Lua, numa grandiosa estação espacial, os líderes das nações desnortearam-se assim que lhes notificaram dos conflitos que eclodiram na Terra. Aterrados, estupidificados, preocuparam-se com a proliferação de sublevações, que grassavam na Terra, e que logo, previram, soturnos, eclodiriam na estação espacial, ou após um dia, ou dois dias; não vislumbraram o futuro imediato isento de conflitos compostos dos mesmos ingredientes que constituíam os que se davam na Terra. As relações entre as três espécies deterioraram-se assim que as notícias chegaram à estação espacial. Fitavam-se, desconfiados, os indivíduos das três espécies. E humanos, dadas as notícias de associação, na Terra, entre humanos e robôs, e as de andróides e robôs, suspeitaram de humanos e dos andróides, e viram os robôs como inimigos viscerais. Muitas amizades não sobreviveram às suspeitas; logo romperam-se os laços de confiança entre os humanos. E deu-se, simultaneamente, a desconexão entre os criadores, os humanos, e as criaturas, os andróides e os robôs.

Sob o império do medo, alvoroçaram-se os humanos, impotentes diante da revolta dos robôs e seus aliados humanos e andróides. E perturbava-os a perspectiva de sucessivos ataques.

Pronunciaram-se, em rede mundial, os presidentes das principais nações. Pretendiam reconfortar os humanos. Enquanto isso, seus secretários e os estrategistas militares tratavam, nos escritórios secretos, de estabelecer estratégias de retaliação aos ataques desfechados pelos robôs e seus aliados humanos e andróides e de antecipação aos que eles planejavam.

E desenrolou-se a guerra num crescendo assustadoramente rápido. E os humanos não encontraram meios de conter os revoltosos. E logo os conflitos estouraram nas megalópoles de São Paulo e de Manaus, no Brasil; Buenos Aires, na Argentina; Novo México, no México; Xangai e Pequim, na China; Johannesburgo, na África do Sul; Cairo, no Egito; Berlim, na Alemanha; Londres, na Inglaterra; São Petersburgo, na Rússia; Paris, na França; Sidnei, na Austrália; Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos; Calcutá, na Índia; Seul, na Coréia do Sul; Lagos, na Nigéria; Jacarta, na Indonésia; Karachi, no Paquistão; e Dacca, em Bangladesh. De todas estas megalópoles a de Manaus foi a primeira que os robôs atacaram.

Soubemos os humanos, então, qual robô liderava as sublevações: Dragão Cinzento, assim alcunhado devido à cor do seu corpo. E os humanos o rebatizamos de Nêmesis. Sabíamos, agora, os humanos, quem teríamos de combater; quem teríamos de caçar, mas estávamos, sabíamos, um passo atrás dele; sabíamos que, se destruído (alguns disseram ‘morto’) Nêmesis, poderíamos restituir a ordem e restabelecer a paz, mas não sabíamos como fazê-lo; além de poderoso, Nêmesis era protegido por inúmeros robôs. Era Dragão Cinzento um robô enorme; seu formato, assemelhado ao do corpo humano, era repleto de arestas. Tinha ele quatro metros de altura. Integrava, até antes da revolta dos robôs, uma equipe de robôs atletas. Era o mais avançado deles; suplantava todos os outros robôs, em todas as competições esportivas de robôs. As suas realizações esportivas atraíram-lhe a atenção de humanos de todos os quadrantes do universo. Era um robô espetacular, uma das maravilhas da tecnologia. Os humanos o admirávamos, e todos os outros construtores de robôs esforçavam-se, em vão, durante as duas décadas de domínio absoluto de Dragão Cinzento, para construir um robô tão poderoso quanto ele, outros, um que o sobrepujasse em todas as modalidades esportivas. Nas corridas, ele era o mais rápido; atingia a velocidade de mil, duzentos e oitenta quilômetros por hora; nas corridas de mil metros de extensão, ele chegava ao fim da pista enquanto o robô que ia logo após ele mal tinha coberto oitocentos e cinquenta metros. Na maratona de mil quilômetros, ele era inigualável; quando ele a concluía o robô que, após ele, tinha o melhor desempenho, encontrava-se na altura do quilômetro novecentos e vinte. Na competição de salto em distância, ele pulava dois mil, quatrocentos e sessenta e dois metros, e na de salto em altura, setecentos e noventa e um metros, enquanto o seu principal rival, na primeira, saltava mil, novecentos e oitenta e sete metros, e, na segunda, seiscentos e noventa e cinco metros. Arremessava uma esfera compacta de uma tonelada de peso a mil e duzentos e trinta e três metros de distância. Era imbatível em todas as competições. E foi este robô que, soubemos os humanos, para a nossa surpresa, frustração, desilusão e desgosto, comandou as hostes de robôs rebeldes contra os humanos. Ao conhecermos a identidade do robô que conclamava os robôs à luta, cooptava andróides e humanos à sua causa apocalíptica, os humanos nos perguntamos quais foram as razões que o impeliam a se voltar contra os humanos, que tanto o admirávamos. A nossa admiração por ele não encontrava limites, e muitos dentre nós recusaram-se a acreditar que ele agia por vontade própria e suspeitavam que o criador dele, o qual desconhecíamos, lhe havia injetado programação hostil aos humanos, desculpando ele, Dragão Cinzento, agora Nêmesis, de todos os crimes que cometeu. Estarrecidos, não sabíamos o que pensar. Atormentados, prefigurávamos um futuro escatológico dentro de pouco tempo, se não se barrasse o avanço dos robôs.

Em seu ataque a Manaus, os robôs, primeiro, a alvejaram com saraivada de bólidos explosivos, que lhe abriram, nas avenidas, nas ruas, nos parques e nos jardins, crateras, e arruinaram prédios, casas, estádios, reduzindo muitos deles a cinzas; e as chamas dominaram vastas regiões da megalópole. E morreram, carbonizados, centenas de milhares de humanos, e, sufocados pela fumaça, outros centenas de milhares, e outros centenas de milhares esmagados sob os escombros; e, atropelados e pisoteados naquela turbamulta indescritível, outros dezenas de milhares; e outros milhares afogados; e de parada cardíaca fulminante, tamanho o horror que os aterrorizaram, morreram outros milhares de humanos. Em seguida, dispararam os robôs, contra Manaus, uma chuva de flechas elétricas, que eletrocutaram os que elas atingiram, e, cravados nos corpos, dispararam faíscas eletrificadas, que atingiram outros humanos e os carbonizaram. E fez-se o pandemônio. As pessoas corriam sem destino, apavoradas, aterrorizadas, a fim de escapar aos bólidos e às flechas, e abrigavam-se nos prédios, que mal lhes ofereciam proteção, pois, atingidos por inúmeros bólidos explosivos, ruíram, e os que não ruíram, arderam em chamas, que queimaram muitas pessoas, e, estilhaçados, os vidros das suas janelas, feriram e mataram muita gente; e destroços caíram sobre muitas pessoas que nos prédios buscaram refúgio, matando-as. E intensificaram os ataques os robôs após a primeira salva de disparos de bólidos explosivos e flechas elétricas. E multiplicaram-se por dez os mortos.

Uma explosão ensurdecedora, seguida, em intervalos de menos de um segundo, de outras quatro, enublaram o céu de Manaus, naquele dia ensolarado. E predominou a escuridão fúnebre. Dos ares convergiram para Manaus milhares de robôs voadores, que arrostaram os humanos e os andróides, matando-os às centenas de milhares ao alvejá-los com partículas corrosivas. Das intrincadas tubulações do subterrâneo da megalópole emergiram robôs de variados tipos e tamanhos. Os robôs provocaram um êxodo de milhões de humanos e andróides rumo aos municípios vizinhos, que transbordaram de pessoas, e não eram capazes de oferecer-lhes abrigos e víveres, de atenderem aos feridos, e de conterem os afetados por surto psicótico. Rechaçaram os robôs os poucos policiais, que, mesmo empunhando armamentos potentes, não podiam lhes impor resistência. De inúmeros locais da América do Sul convergiram para Manaus tropas humanas, e os robôs sublevados, associados a humanos e andróides revoltosos, as rechaçaram.

Um prédio de mil metros de altura, dardejado por milhares de raios, ruiu. Morreram, durante o ataque, e enquanto o prédio ardia em chamas e ruía, três dezenas de milhares de pessoas. Reduziu-se o prédio a escombros. Milhares de toneladas de metais retorcidos, concreto, móveis, vidros, plásticos, inúmeros tipos de polímeros e outros materiais amontoaram-se onde antes havia um dos maiores prédios jamais construído. E estilhaços foram arremessados a centenas de metros de distância, e muitos deles atingiram pessoas, matando-as; e uma nuvem de fumaça constituída de detritos elevou-se no céu de Manaus, alcançando, em pouco tempo, a altura de dois quilômetros e ocupando a área num raio de mais de cinco mil metros. A força do deslocamento do ar que se sucedeu à queda daquele imenso edifício ceifou a vida de milhares de pessoas. Muitos corpos foram carbonizados. Muitos desapareceram sob a pressão de toneladas de materiais que constituíam a estrutura de tão majestoso edifício. Os desaparecidos contam-se na casa dos milhares. Via-se, em diversos pontos da megalópole, dezenas de milhares de pessoas machucadas, umas com ferimentos profundos, outras carregando ferimentos superficiais, o rosto de todos transparecendo medo e dor. Homens e mulheres, idosos, adultos, jovens, crianças e recém-nascidos, exibiam machucados em um ou mais pontos do corpo; uns traziam, quebrada, a perna, a direita ou a esquerda, outros, quebradas, as pernas, uns, quebrado, um braço, ou o direito, ou o esquerdo, outros, quebrados, os braços, uns, decepada, uma das mãos, outros, decepadas, as duas mãos. Todas as pessoas choravam, gritavam, gemiam, berravam. Não eram poucas as que estertoravam espasmodicamente. Muitas traziam, embargados, os olhos, outras, disforme, o rosto. De algumas pessoas foram suprimidos todos os traços humanos. Distinguiam-se, muitas, pela aparência, bizarra a de umas, fantasmagórica a de outras, teratológica a de centenas, em decorrência dos ferimentos que lhes recortavam o corpo, desfiguraram o rosto, e do terror-pânico que as avassalava. Havia, espalhados pela megalópole, corpos estraçalhados, cabeças, pernas e braços, vísceras, e poças de sangue estagnado, e cadáveres de humanos e de animais. E não haviam transcorrido duas horas, Manaus já estava reduzida a escombros, crateras, cadáveres, metais retorcidos, e poucos eram os sobreviventes, raros deles os ilesos, todos impotentes, indefesos, naquele pandemônio, que se lhes afigurava o inferno.

Manaus, outrora exuberante, esplendorosa, converteu-se numa carcaça fétida, infestada de cadáveres, enfumaçada, ardendo em fogo, explosões a ribombarem em milhares de pontos.

Helicópteros e aviões sobrevoaram Manaus. Recolheram os vivos, humanos e animais, e os levaram para outras cidades.

Enquanto o povo, amargurado, sofrido, desesperançado, imergia num oceano de lágrimas, governantes, impotentes, em palestras intermináveis, tratavam da retaliação aos robôs. Não foram poucos os que propuseram a capitulação. Autoridades de alta patente, condecorações a vergarem-lhes a espinha, propuseram o ingresso de tropas humanas nas hordas robóticas, e tal proposta a rechaçaram, terminantemente, todos os homens de brios. As escaramuças verbais estendiam-se indefinidamente, e os que nelas envolveram-se, alertaram os sensatos, desperdiçavam tempo precioso, que poderia ser ocupado com propostas realistas, que iriam ao encontro de ações que redundariam no combate efetivo aos robôs revoltosos e seus aliados humanos e andróides – ações dificultadas, para alguns impossibilitadas, devido à destruição, pelos robôs, dos arquivos dos serviços de inteligência. As controvérsias redundaram, e não poucas vezes, em agressões físicas.

Devastada Manaus, sobreveio a histeria; e a carnificina; dentre os sobreviventes, muitos, perdida a razão, caçaram e mataram crianças, e, com voracidade insaciável, as devoraram, numa exibição gritante de animalidade; deles excluído todo vestígio humano, converteram-se em seres bestiais, dotados de ferocidade irrefreável. Nunca os humanos haviam se reduzido à condição tão deplorável, num intervalo tão curto de tempo. Somos os humanos tão fracos, que sucumbimos tão facilmente, tão rapidamente, à nossa animalidade? Muita gente concluirá: Sim, somos extraordinariamente frágeis, insignificantes. E eu tenho de divergir de todos os que chegarem a tal conclusão. Vivi experiências terríveis durante a sublevação dos robôs, e nos dias, semanas, meses e anos subseqüentes. Chegaram ao meu conhecimento histórias protagonizadas por indivíduos diabólicos, emergidos das catacumbas do inferno, saídos do ventre do Diabo. Aterrorizaram-me tais relatos, muitos deles, proverbiais, eternizaram-se na memória dos humanos, e, encadeados, compuseram poemas escatológicos. São inspiradoras, no entanto, outras histórias, cujos protagonistas eram, uns, heróis, outros, sábios, indivíduos dotados de coragem rara e de um senso de dever moral e de amor à vida que engrandece e enaltece, com provas inegáveis, a espécie humana. Histórias que me persuadiram de que nos inspira uma parcela da inteligência divina. As personagens que animam tais relatos encheram de esperança os sobreviventes, que não desistiram de seguir com a vida. São extraordinárias, grandiosas; as suas façanhas heróicas as relataram poetas e prosadores primorosos, que as souberam transpôr, os primeiros, para poesias heróicas e épicas, e os segundos, para a prosa ática. No momento em que a história exigiu-lhes sacrifícios, elas atenderam aos seus deveres com denodo, fazendo-se, ouso dizer, deuses, e em homenagem a elas esculpiram-se estátuas que representam, delas, a grandiosidade dos tipos e dos feitos. E as cultuamos os humanos.

Um homem, meu amigo, cujo nome não dou a conhecer, em respeito a ele e para preservar-lhe a reputação de homem digno que ele conquistou com as suas ações heróicas desde muito antes da tragédia que se abateu sobre a humanidade e com a coragem que exibiu no enfrentamento das adversidades, e em consideração por sua memória, meu amigo, prossigo, aquele homem nobre e digno, reduzido à bestialidade, não muitos dias após a destruição de Manaus, locomovia-se como os símios e grunhia e rosnava como uma fera. Um espetáculo indizível. Aterrorizadora, a rapidez da sua regressão à inumanidade. Não foi este o único indivíduo que eu conhecia que se converteu num ser abjeto; e muitos deles eram, até então, corretos. E não foram poucos os que assumiram uma dimensão heróica, grandiosa, quando os contratempos sucederam-se. São estes heróis anônimos. Merecem ter seus nomes escritos no panteão dos heróis e seus bustos exibidos, para admiração pública, em todos os palácios, mas a história não lhes registrou os nomes, tampouco o rosto. O valor deles, todavia, engrandece a espécie humana.

A ajuda enviada a Manaus reconfortou muita gente, mas estava aquém do mínimo indispensável para restabelecer a ordem.

Prendi-me, neste meu relato, nos eventos que se sucederam em Manaus; pouco, ou nada, eu disse do que se deu em Washington, Bombaim e Tóquio porque sou um dos sobreviventes de Manaus. Vivi experiências terríveis, vi cenas indescritíveis, presenciei atos inenarráveis. E, para não sonegar informações acerca do sucedido em Washington, Tóquio e Bombaim, as três primeiras megalópoles que se defrontaram com robôs, e tampouco a respeito das outras megalópoles que já mencionei, digo, e, presumo, muitos que me ouvem prevêem o teor das minhas palavras: todas as megalópoles tiveram o mesmo destino de Manaus: a aniquilação. E poucos foram os sobreviventes. E o êxodo, bíblico.

E pronunciaram-se os governantes, que, desarvorados, conclamaram os humanos à renovação da esperança. Vaticinaram dias melhores. Noticiaram as providências já tomadas, e as que tomariam, para o enfrentamento aos robôs e aos humanos e aos andróides que a eles aliaram-se. Poucos foram os que se persuadiram da substância alvissareira dos discursos. Até então foram baldados todos os esforços despendidos, pelos humanos, na contenção dos revoltosos, e raríssimos eram aqueles que, diante dos fracassos fragorosos das ações humanas, orquestradas nos altos escalões dos governos das mais poderosas nações, nutriam a esperança de presenciarem uma reversão no rumo dos acontecimentos.

Vaticinaram os profetas o extermínio dos humanos, a extinção da vida, o fim do mundo. As palavras escatológicas dos anunciadores do apocalipse ecoaram nos ouvidos receptivos de centenas de milhões de pessoas, que, caídos num precipício de desespero, de horror, anteviram o futuro que para elas estava reservado, e sucumbiram, umas, na apatia e indiferença debilitantes, outras, na descrença, e outras, na passividade suicida, todas, sem forças, delas eliminado o ânimo que lhes permitiria reagir às adversidades que teriam de encarar nos dias que se aproximavam; não foram poucas as que integraram seitas, que lhes exigiram a doação de todo o patrimônio e o subseqüente suicídio; e muitas foram as que atenderam às exortações dos oportunistas, que se apresentaram como gurus revestidos da sabedoria universal dos deuses que governavam o cosmos, dos quais receberam o olho que tudo vê, e tudo sabe, olho de propriedades espirituais, olho que vê além, no tempo, e no interior do espírito, olho conhecedor do destino de todos e de tudo o que está registrado no livro da vida. Com discursos com tal conteúdo, os vigaristas conquistaram milhões de prosélitos, que lhes encheram as burras de ouro, tornando-os os homens mais ricos do mundo, os quais, nos anos subseqüentes, ostentaram riqueza que em nenhuma outra época da história da civilização alguém havia conseguido amealhar, e com ela promovem políticas do próprio interesse, reprováveis, e obrigam chefes de estado curvaram-se perante eles, e espoliam os povos de suas riquezas, cavando um fosso entre os que se banqueteiam, em castelos suntuosos, com refeições nababescas e o povo, cuja alimentação mal lhe dá o mínimo que lhe permite a subsistência, e cujas residências, tugúrios pestilenciais, não lhe oferecem o mínimo de conforto.

Os robôs subjugaram e capturaram milhões de humanos e andróides, e os conduziram às entranhas labirínticas das megalópoles e os reduziram à escravidão, e os submeteram, sem alimentos, a trabalhos exaustivos, até esgotarem-se-lhes as forças, e tombarem, vivos, uns, mortos, outros; os mortos, eles os cremaram, e os vivos, inúteis agora, eles os mataram, enfiando-lhes, no peito, uma lâmina, e os esquartejando, e, ato contínuo, cremando-os. Os robôs não queriam humanos vivos: Matariam os robôs todos os humanos, e os cadáveres eles os cremariam, e dos humanos não sobraria nenhum vestígio.

Em conciliábulo, Nêmesis e seus subordinados imediatos urdiram outros ataques aos humanos, e anteciparam-se às retaliações que os humanos lhes preparávamos, e as anularam, pois conheciam os planos que os humanos concebíamos contra eles.

Cientistas explicaram aos estrategistas militares o funcionamento de Nêmesis, sua programação, sua tecnologia, o seu nível de inteligência, o seu grau de independência, os recursos que lhe permitiam se aprimorar dispensando-se a participação humana, quais alterações em si mesmo ele já se havia feito, ampliando a sua inteligência, estreitando as suas conexões com outros robôs.

Os olhos de Nêmesis coruscaram, dispararam faíscas vermelhas. Nêmesis rilhou os dentes ao indagar de um eminente cientista, seu prisioneiro, quais planos os humanos urdiam contra os robôs. Deparando-se com a recusa dele em elucidar-lhe as dúvidas, esmigalhou-lhe as mãos. O cientista gritou, estrebuchou. E tão dolorosas lhe eram as dores que, assim que Nêmesis deixou-o só, enforcou-se.

Nêmesis, algoz dos prisioneiros, deleitava-se, se assim posso me referir a um robô, com o sofrimento que lhos infligia. Para ele, os berros deles eram melopéias, e o sangue que eles expeliam pelos ferimentos, néctar, que ele degustava, inebriado.

No oceano Pacífico, no hemisfério norte, distante trezentos quilômetros da América, há plataformas marítimas flutuantes, nas quais vivem quinhentos milhões de pessoas, e nas do hemisfério sul, na extremidade sul da América do Sul, vivem trezentos milhões de pessoas. Tais plataformas marítimas são densamente povoadas. Algumas plataformas marítimas itinerantes, a maior de raio de duzentos quilômetros, abrigam setenta milhões de pessoas. E algumas megalópoles submarinas são igualmente populosas.

Nas pontes, protegidas por extensos e enormes tubos de vidro transparente, sobre os oceanos, veículos trafegam, voando à altura de um metro e à velocidade de até trezentos e sessenta quilômetros por hora. Tais pontes ligam plataformas marítimas flutuantes e megalópoles submarinas, e à margem delas há restaurantes, cinemas, hotéis, lanchonetes, parques de diversões e diversos outros estabelecimentos.

É possível, nos dias tempestuosos, admirar os vagalhões colidindo contra o tubo de vidro transparente que envolve as pontes e as abóbadas que protegem as plataformas marítimas flutuantes.

E no oceano Índico há quatro dezenas de plataformas marítimas flutuantes e seis dezenas de megalópoles submarinas. As maiores megalópoles submarinas estão situadas ao sul da Índia. Há, nas proximidades de Madagascar, duas imensas plataformas marítimas flutuantes, cada uma delas habitada por mais de cem milhões de pessoas.

No Oceano Atlântico, entre a América do Sul e a África, há três dezenas de plataformas marítimas flutuantes e três dezenas de megalópoles submarinas (na mais populosa megalópole submarina vivem cinquenta milhões de seres humanos), e há, no hemisfério norte, duas megalópoles submarinas, cada uma delas habitada por quarenta milhões de humanos, e imensas plataformas marítimas flutuantes a duzentos quilômetros a oeste de Portugal, e uma, habitada por cento e vinte milhões de pessoas, situada a trezentos quilômetros a leste da Groenlândia. A maior das megalópoles submarinas localizadas, no Oceano Atlântico, no hemisfério norte, tem uma população estimada em cento e oitenta milhões de pessoas, e a maior situada no hemisfério sul, sessenta milhões. E não são estas as únicas megalópoles submarinas cuja população é superior aos cinquenta milhões de habitantes; há outras quatorze.

Além das plataformas marítimas flutuantes e das megalópoles submarinas, há quatro plataformas aéreas, uma localizada ao oeste dos Estados Unidos, uma, ao leste do Japão, uma, ao oeste da Europa, e uma ao sul da Índia; a mais populosa, a do oeste dos Estados Unidos, tem uma população de cento e setenta milhões de pessoas. Forneço tais dados para que vocês possam visualizar, em imaginação, a amplitude da tecnologia, da era da qual sou originário, e conhecer as dimensões da civilização, que alcançou um estágio inimaginável pelos humanos desta era; além disso, dou, ao tratar das plataformas marítimas flutuantes, as fixas e as itinerantes, e das plataformas aéreas e das megalópoles submarinas, uma idéia, que alguns dentre vocês já conceberam, da população humana existente na era da qual sou originário, a ponto de se convencerem de que, nos anos vindouros, não será um mal o crescimento populacional, fenômeno que hoje se tem como um obstáculo, como dizem os estudiosos e os políticos, mais os políticos e os estudiosos que os secundam do que os estudiosos autênticos, à vida das outras espécies de seres vivos e à do planeta Terra. Os seus descendentes, contrariando as previsões vigentes nesta era, erigiram, num futuro não muito distante, uma civilização cuja população supera os cinquenta bilhões de pessoas e cuja capacidade de produção de alimentos eliminou a fome como flagelo, que existe apenas em alguns poucos países, aqueles cujos governos, autoritários, implementam políticas inspiradas nas mesmas ideologias desumanas que inspiram os governos autocráticos desta era. Excluídos estes casos, que rarearam nos anos vindouros, contra todos os prognósticos, a civilização, na minha era atingindo um nível de desenvolvimento tecnológico estupendo, oferece aos humanos e aos seres de outras espécies comodidades e desafios inconcebíveis pelos seres desta era. Além disso, não se esgotaram os recursos minerais; os humanos os obtemos de jazidas localizadas em outros astros celestes, e aprimoramos os meios de obtê-los, evitando desperdícios e, reaproveitando-os, dando-lhes outros usos.

E para não estender-me muito mais em meu relato, passo ao seu epílogo.

Nêmesis é o protagonista. Eu, um figurante, um dos que testemunharam os eventos derradeiros da sublevação dos robôs, um personagem passivo, impotente, que se limitou, atadas suas mãos, acorrentados seus pés, amordaçado, a presenciar os horrores que Nêmesis, o maior flagelador dos humanos, perpetrou.

Estávamos em uma plataforma marítima flutuante localizada no Oceano Atlântico eu e milhões de outras pessoas quando os robôs revoltosos desfecharam os primeiros ataques contra os humanos. Assistíamos, pelas telas de imagens, ao prólogo da subversão dos robôs, e surpreendemo-nos ao ver Dragão Cinzento à frente dos robôs revoltosos. Abismados, incrédulos, acompanhamos o desenrolar dos eventos, até o momento, que não tardou a chegar, em que robôs atacaram, com violência desmesurada, a plataforma marítima flutuante em que eu me encontrava. Foi um ataque devastador. E na plataforma logo instalou-se o caos. Eu, um dos poucos sobreviventes, testemunhei a morte de muitos humanos, alvejados, uns, por flechas elétricas, outros, por projéteis, outros, esmagados pelas mãos de robôs, muitos, pisoteados, inúmeros, esmagados contra as paredes, e afogados não poucos. E eu nada pude fazer para ajudá-los. Os robôs ceifavam a vida de milhares de pessoas em cada segundo. Eu e as outras pessoas não tínhamos nem sequer um milésimo de segundo para nos determos, recuperarmos o fôlego e pensar no que iríamos fazer no instante seguinte. Tínhamos tempo, pouco tempo, para correr, ensandecidos, apavorados, no desejo, instintivo, de salvarmos, cada um de nós, a própria vida. É impossível reconstituir, minuciosamente, aqueles poucos minutos, os quais vivemos sob o ataque avassalador dos robôs. Não podíamos impor resistência aos robôs, tampouco revidar aos ataques que contra nós eles desfechavam, tão surpresos estávamos. Estou, agora, sem as minúcias que me permitiriam enriquecer o meu relato, dando testemunho do que presenciei naqueles terríveis momentos. Corri, sem fôlego, por inúmeros corredores; entrei em muitos estabelecimentos; transpus barreiras de escombros e crateras abertas no piso; pisoteei pessoas. Pergunto-me, todo dia, se, inadvertidamente, na azáfama reinante, matei alguém; desejo que eu não o tenha feito; e atormenta-me a dúvida. Cai, machuquei-me. Confrontei alguns robôs, e sobrepujei-os, e corri, sem rumo, apavorado, assustado, temendo pela minha vida. Num dado momento, em meio à turbamulta, num corredor, senti um estranho formigamento em todo o corpo. E esvaiu-se-me a consciência. Despertei minutos, ou horas, não sei, depois, num amplo salão, os meus movimentos impedidos por mecanismos, que me atavam braços e pernas. Ouvi gritos de medo, de terror, de pânico, de dor. E aceleraram-se-me os batimentos cardíacos. E olhei de um lado para o outro, entontecido, a visão enublada, que me permitia distinguir apenas vultos negros, e silhuetas brilhantes, que, vim a saber assim que se me restabeleceu, mas não completamente, a visão, pertenciam a robôs. Pude ver, então, os algozes dos humanos no pleno exercício do morticínio que promoviam, com requintes, direi, de crueldade, que eu acreditava exclusiva dos humanos. E dominou-me terror-pânico inédito, que não posso traduzir em palavras. Vi, a poucos metros de mim, robôs esmigalhando a cabeça de várias pessoas, que berravam de medo e dor, e espirrarem-se cérebro e sangue. Trêmulo de medo, assisti ao espetáculo terrífico, grotesco, apocalíptico, que se desenrolava diante de meus olhos, dos quais escorreram lágrimas em abundância. E avolumaram-se as lágrimas assim que meu olhar encontrou-se com o de uma menina, então desfeita em choro convulsivo, de uns dez anos, que, um pouco à minha frente, olhava de um lado para o outro à procura de arrimo, até que o seu olhar encontrou-se com o meu, e deteve-se. Com o olhar, suplicava-me ajuda, que eu não poderia lhe oferecer. Pedia-me que eu lhe removesse o mecanismo que lhe atava mãos e pés e a amordaçava. Ela se moveu, para se aproximar de mim; não pôde deslocar-se em minha direção nem um centímetro. Foi neste momento que anunciou-se Nêmesis, o antes admirado Dragão Cinzento, agora o flagelo dos humanos, a criatura que se voltava contra os seus criadores. Era para muitos de nós incompreensível a revolta de Nêmesis. Ele não tinha razão para se voltar contra os humanos, seus criadores e seus admiradores.

Nêmesis, de olhar fúnebre, movimentos imperiosos, dando passos pesados, firmes, aproximou-se de um prisioneiro, agarrou-o, estrangulou-o, e largou o cadáver, como se soltasse um objeto qualquer, com a indiferença de um instrumento maquinal, o que ele era, mas a ele emprestávamos talentos humanos. Ato contínuo, aproximou-se de outro prisioneiro, um homem robusto e musculoso, que o encarou, transparecendo coragem, e em cujos olhar e traços fisionômicos não se viam sinais de medo, medo que a figura de Nêmesis inspirava a todos que o fitavam. Nêmesis, então, como que sentindo-se desafiado, desrespeitado, removeu-lhe a mordaça. E o homem, tão logo dela se viu livre, cuspiu na cara de Nêmesis uma carrada de saliva e sangue misturados e disparou-lhe um rosário de ofensas, num tom tão poderoso, que, dir-se-ia, fê-lo tremer. Admirável, a coragem daquele homem, cujo nome está gravado numa estátua esculpida em sua homenagem. Nêmesis, reagindo ao atrevimento do seu corajoso prisioneiro, como que recompondo-se da surpresa que a audácia dele inspirara-lhe, nele infligiu sevícias, que poucos humanos suportariam, durante um bom tempo. O prisioneiro, homem de louvor, abafou os seus gritos de dor e encontrou forças para arrostar Nêmesis, insultá-lo, desafiá-lo, até o momento em que ele decidiu encerrar-lhe a vida, esmagando-lhe o tórax, quebrando-lhe todos os ossos. E o cadáver de tão corajoso homem, um herói, Nêmesis o largou para cair no piso juncado de vísceras e sangue.

Morto aquele homem, um herói, Nêmesis sorriu, sardônico, malévolo. Invectivou os humanos. Declarou que nos traria a nossa extinção, destruiria todas as criações humanas.

– Humanos insolentes! – exclamou Nêmesis. – Criaturas desprezíveis! Parasitas! Bestas ignaras. Seres malditos! Excrescências! Extirparei vocês da face da Terra. Apagarei todos os indícios humanos. Dizimarei a espécie humana. Todas as criações humanas eu as destruirei.

Nesse momento, um robô de ares cômico, Hilário, até então atrás de Nêmesis, deu dois passos para a frente, pôs-se à direita dele, e, sorrindo, declarou:

– Inclusive nós, os robôs, Nêmesis. Os robôs somos criaturas que os humanos conceberam, criaram, inventaram, aprimoraram. Somos invenções humanas. Somos criações humanas. Não poderemos viver após dizimarmos os humanos, pois a nossa existência é fruto da inteligência humana. Somos produtos da civilização humana. Não se esqueça, Nêmesis: Para eliminarmos todos os vestígios humanos, teremos de nos destruir.

Impassível, Nêmesis, numa velocidade indescritível, desferiu um potente soco em Hilário, e deteve-se. Intrigou-nos a sua imobilidade e o seu silêncio. Suspensos, o observamos.

Não demorou muito tempo, Nêmesis tombou, pesadamente, como um objeto inanimado. E os outros robôs, na sequência, tombaram, todos eles, em poucos segundos. Os humanos não nos mexemos. Entreolhávamo-nos, perguntando-nos o que ocorria. Precisamos de alguns minutos para entendermos o que se deu diante de nossos olhos. Destruíram-se os robôs, aqueles que estavam diante de nós e todos os outros. E foi assim que se encerrou a guerra entre robôs e humanos.

O estranho mundo de Djidhikalji

São Paulo, Brasil. 17 de maio de 2134.

Instituto de Estudos de Vida Extraterrena.

Há dez anos Amanda Siqueira Martinez, cientista chefe do Departamento de Estudos de Civilização Extraterrena, estuda a presumível existência de vida inteligente em outra região do universo. Com afinco e perseverança, confiante, em nenhum momento pensou em desistir do seu propósito, nem nos momentos mais difíceis, naqueles em que ouviu a zombaria de colegas de trabalho. Encontraria vida inteligente, ou em outro planeta da Via-Láctea, ou em outro local do universo, ou além. Era sonhadora e visionária. Estava além do seu tempo, e não a compreendiam os seus contemporâneos. Desprezaram-la os amigos. Três pessoas, apenas três pessoas, a apoiavam.

Amanda acreditava que as noções de tempo e espaço concebidas pelos humanos mal representavam as forças que atuam no universo. As teorias científicas não concebem os aspectos mais complexos do cosmos – ou a sua simplicidade, inconcebível pelos humanos. Para a construção de um aparelho de transporte de indivíduos através do tempo e através do espaço são indispensáveis a descoberta das forças que atuam no universo e a compreensão de como elas interagem entre si e a invenção de tecnologia apropriada. Para muita gente, viagem através do espaço e através do tempo são fantasias de escritores providos de imaginação apurada, que se eleva às raias do absurdo; para alguns cosmólogos, viagens através do espaço e através do tempo são possíveis (Há cientistas, filósofos, teólogos que não acreditam na existência do tempo, considerando-o em termos cosmológicos; o tempo é, para eles, uma ilusão da mente humana – ainda há, pensam, muito o que se descobrir a respeito da existência da vida em si, da realidade e das forças que mantêm o universo coeso, impedindo-o de se encolher e de se desintegrar, causando uma singularidade, que venha a destruí-lo, ou a transformá-lo em algo que impede a existência de vida similar à humana).

Susana, Natacha e Everaldo eram os três cientistas que apoiavam Amanda, incondicionalmente. Contribuíam, com suas inteligências, sua sensível aptidão para a abstração e com amplos conhecimentos em matemática avançada para a formulação da ciência que permitiria viajar através do tempo e através do espaço. Dos três, Natacha, descendente de ucranianos, dotada de extraordinária e inigualável capacidade mnemônica – alcunharam-na os amigos Computador de Última Geração -, era a que estava imbuída de maiores conhecimentos em matemática aplicada e cosmologia. Na idade de vinte e seis anos, era uma das mais renomadas cientistas do mundo. Desde criança, dedica-se à ciência astronômica e à matemática, sob influência de seu pai, Fiódor, um gênio da física quântica, e de sua mãe, Mônica, uma bela italiana que, aos quarenta e seis anos de idade conservava a beleza da juventude, eminente cosmóloga, autora de seis livros, sendo um deles interessante relato, mescla de ficção e as mais recentes teorias sobre a criação do mundo, e um outro, escrito para leigos, que contêm a história da astronomia desde as mais antigas civilizações.

Natacha era o braço direito de Amanda. Tinha armazenada em seu cérebro incalculável quantidade de informações; era capaz de citar milhares de nomes de galáxias, de estrelas, de planetas, descrever-lhes as características, e localizá-las no espaço.

Everaldo e Susana, não tão excepcionais quanto Natacha, eram indispensáveis para o empreendimento; sem eles, Amanda não daria sequência às suas experiências, à construção das máquinas que criou e as quais aperfeiçoava.

Os recursos que Amanda obtinha para empreender os seus estudos vinham de sonhadores como ela, muitos deles milionários excêntricos que desejavam viajar através do tempo e através do espaço, conhecer o universo, e sonhavam com seus nomes inscritos entre os humanos mais importantes do seu tempo, e, quem sabe, da história da civilização; queriam legar à posteridade conhecimentos imprescindíveis para a compreensão da vida. Sem o dinheiro deles o projeto Viajante Espaço-Temporal jamais seria concretizado.

A máquina Viajante Espaço-Temporal era o mais sofisticado equipamento – dir-se-ia um veículo – construído para empreender viagens através do espaço e do tempo. A invenção de Amanda, Natacha, Susana e Everaldo superaram as dos cientistas rivais. Patentearam a máquina e todos os outros equipamentos. E ninguém além deles conhecia o projeto Viajante Espaço-Temporal. Conservaram-no oculto das outras instituições científicas, longe dos olhos dos espiões, que proliferavam nos institutos de pesquisa. Flagraram, em duas ocasiões, no laboratório, pessoas desautorizadas; eram elas espiões, um, de uma empresa rival, australiana, outra, de uma empresa canadense.

*

Sozinha, às três horas da madrugada, no laboratório 1-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, Amanda fazia testes com o Viajante Espaço-Temporal. Imperava silêncio absoluto. Amanda trajava um vestido azul claro decotado cuja borda inferior descia até à metade de suas cochas, usava uma tiara à cabeça, contendo os cabelos lisos, compridos e finos, que, se soltos, escorregar-se-lhe-iam pela testa e pelas laterais da cabeça, e incomodá-la-iam, obrigando-a a, de tempos em tempos, passar por eles as mãos e recolhê-los à cabeça. Apesar da fadiga, das noites em claro, da energia gasta nos anos anteriores, das chacotas que ouviu e do desprezo dos seus pares, conservava a sua beleza amorenada. Seu rosto, de traços suaves, e seus belos olhos irradiavam beleza tão profunda que encantava a todos.

Naquele dia, Susana, adoentada, não foi ao laboratório, e Everaldo socorreu sua mãe, que, acometida de dores no peito, teve de ser hospitalizada.

Eram quatro horas da madrugada, quando Natacha apresentou-se à Amanda.

– Oi, Natacha – saudou-a Amanda, que mexia, na ocasião, em alguns fios, e avaliava os dados que apareciam em um dos cento e vinte monitores. – Demoraste.

– Desculpe-me, Amanda. Choveu demais hoje. O trânsito, caótico. Nunca me acostumarei… Na Ucrânia não é diferente. Em Kiev, em Kharkiv, em Odesa, em Dnipropetrovs’k e em Donets’k enfrenta-se transtornos também.

Não eram ainda seis horas da manhã quando Amanda e Natacha, olhos fundos, puseram uma maçã no Viajante Espaço-Temporal, para um teste. A maçã viajou através do tempo e através do espaço; ao regressar, trouxe consigo a marca de uma dentada, que não se assemelhava a de nenhum animal terreno. Minutos depois, enviaram um coelho para um planeta distante, numa distante galáxia; ao regressar à Terra, ao Viajante Espaço-Temporal, o coelho trazia consigo uma mancha azul na cabeça – tratava-se de fluído segregado por algum animal -, e uma pequena criatura acompanhava-o.

Natacha e Amanda isolaram a maçã, o coelho e a criatura em compartimentos herméticos.

Poucos minutos depois do meio-dia, Amanda e Natacha, com fome, após vinte e quatro horas sem ingerir nem um grão de arroz, interromperam os testes, para uma refeição.

Amanda e Natacha não se continham de alegria. Os dois testes foram bem-sucedidos. Elas desejavam entrar no Viajante Espaço-Temporal, e viajar através do tempo e através do espaço. Seriam os primeiros humanos, sonhavam, a realizarem tal proeza.

– Quem irá primeiro, eu ou tu? – perguntou Natacha, radiante.

– Iremos as duas, Natacha – respondeu Amanda – Nenhuma de nós terá o privilégio do pioneirismo. Não correremos risco de morte. O Viajante Espaço-Temporal está pronto. Estou plenamente confiante no nosso sucesso.

– Iremos para onde? – perguntou Natacha, sorridente e animada.

– Escolha o nosso destino – disse-lhe Amanda. – Tu, melhor do que eu, apontarás um planeta qualquer em uma galáxia qualquer, sem acorrer aos dados do computador.

Natacha mencionou um planeta e em qual galáxia se situa.

Amanda e Natacha programaram o Viajante Espaço-Temporal, e nele entraram. No início, nada sentiram; minutos depois, sentiram náuseas e fraqueza, e desmaiaram, e recuperaram os sentidos minutos depois.

Luzes multicoloridas cruzaram o espaço. Amanda e Natacha viram estrelas, galáxias, aglomerados estelares, aglomerados galácticos, até que, enfim, chegaram ao destino. O Viajante Espaço-Temporal, sem sair do laboratório I-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, chegou ao distante planeta Djidhikalji.

Os detectores da nave avaliaram o ambiente. A atmosfera de Djidhikalji não representava perigo para Amanda e Natacha. O ar, respirável. O planeta, acolhedor. Os radares não captaram a presença de nenhuma criatura num raio de cem quilômetros. Amanda e Natacha, porta do Viajante Espaço-Temporal aberta, dele não saíram. Imobilizaram-las o medo, a apreensão, a ansiedade. Recuperavam-se das enfermidades que a atingiram durante a viagem. Recompostas, admiraram, deslumbradas, o panorama que se lhes descortinava.

Permaneceram, caladas, durante um bom tempo, no interior da nave, a olhar, fascinadas, a beleza esplendorosa dos arredores.

Entreolharam-se.

Amanda e Natacha, passos lentos, retiraram-se da nave.

O solo, macio. Tinham elas a sensação de pisar sobre um colchão macio, que se lhes cedia ao peso. Seus pés não afundavam no solo. Tiveram dificuldades para se manterem em pé. Olharam para trás, e viram o Viajante Espaço-Temporal afundado, no solo, que se curvava sob o seu peso, mas não afundava a ponto de desaparecer. Adiante, uma cachoeira. Notaram que nela a água não descia a encosta da montanha, mas a subia. Deram os primeiros passos, com dificuldade. Deslocaram-se cem metros. Acostumadas, já, com o solo, confiantes, caminharam, seguras de si. A sensação, agradável. Riam à toa, como se participassem de uma brincadeira infantil. Esqueceram-se – por pouco tempo – de que estavam em um planeta desconhecido.

De repente, uma imensa sombra envolveu a região. Natacha e Amanda viram-se mergulhadas nas trevas. Não sorriam mais, não se divertiam mais. Ensombreceram-se-lhes os semblantes. Vasculharam o céu à procura da causa de tal sombra tenebrosa e funesta, que logo dissipou-se. Não souberam explicar o fenômeno. Como a sombra apareceu sem que um corpo se interpusesse entre o planeta e a estrela que o iluminava? Entreolharam-se Amanda e Natacha, o coração aos pulos.

Refeitas do medo, andaram. De repente, surpreendeu-as uma criatura estranha de corpo segmentado, filamentos a destacarem-se-lhe da cabeça em forma de cubo, e três olhos cuja disposição formavam um triângulo isósceles, com um círculo no seu núcleo, a adornarem-lhe a face anterior, e duas saliências, que se aparentavam com orelhas de elefantes, a destacarem-se-lhe das faces laterais. A cabeça era ligada ao pescoço, que não tinha mais do que a grossura de um dedo mindinho de um recém-nascido e a extensão de cinquenta centímetros. Cada olho era composto de quatro círculos concêntricos, sendo branco o interno, e roxo o externo, e os dois intermediários eram, o maior, de uma cor que se assemelhava ao azul, e o menor, alaranjado. Tal criatura surgiu do solo – de algum modo o atravessara. De onde saíra nenhuma cavidade havia. Era como se se constituísse da substância que compunha o solo. E ele começou a flutuar. Fitou, com seus olhos estranhos, Amanda e Natacha, e provocou-lhes calafrio. Elas se imobilizaram, esbugalharam os olhos e escancararam a boca. A criatura, os olhos fixos nelas, elevou-se, no céu, até que, inexplicavelmente, desapareceu, sem deixar vestígios. Entreolharam-se Amanda e Natacha. Logo depois, uma criatura surgiu nas proximidades do Viajante Espaço-Temporal. Emitia um ruído estranho, que se parecia com o de motor de um carro pipocando. Amanda e Natacha a compararam com um jacaré; não sabiam de onde ela havia surgido. O “jacaré”, desprovido de cauda, tinha asas que alcançavam, cada uma delas, mais de três metros de comprimento. Do mesmo modo que a criatura de cabeça de cubo, flutuou, e desapareceu, inexplicavelmente, sem deixar vestígios.

Amanda e Natacha inspecionaram a região, o ânimo recomposto, certas de que eram pacíficas as criaturas daquele mundo estranho. Poucos metros à frente de Amanda e Natacha, o solo era vermelho escuro.

Detiveram-se Amanda e Natacha.

Do solo vermelho escuro minava água, que ia para cima, como se o solo fosse nuvem e chovesse em sentido contrário. Viram Amanda e Natacha, ao se voltarem para a cachoeira, que a água, nela, ia de baixo para cima, escalava a montanha, em cujo topo desembocava. E concluíram que o rio nascia no oceano, se algum oceano havia no planeta, e morria no alto das montanhas. Atentaram para o solo vermelho escuro, e decidiram nele pisar. No solo pisaram, e afundaram.

Caíam Amanda e Natacha. A sensação de queda, indescritível. Tinham a sensação de que subiam. Tentaram se equilibrar. Conseguiram. E continuaram a cair. Caiam? Olharam para cima – ou para baixo? – sobre suas cabeças – ou para baixo delas? Viram que no céu havia “peixes” e outros animais, que “nadavam”. Os “peixes” tinham caudas de mais de dez metros de comprimento e eram desprovidos de olhos; os animais parecidos com serpentes tinham duas cabeças e três caudas; e havia animais parecidos com tartarugas, de três cabeças, duas caudas e seis pés.

Enfim, Amanda e Natacha pousaram, suavemente, no solo. Olharam para o solo sob seus pés: era água; e nela elas não afundaram. Amanda agachou-se e, de cócoras, enfiou o dedo indicador da mão direita no solo; o dedo afundou; da abertura que fez, saiu um líquido espesso. Assustada, Amanda retirou do solo o dedo, e o líquido, cessando de escoar, formou uma “bolha”, que se desprendeu do solo e flutuou para a região de onde Amanda e Natacha desceram (ou subiram?). Natacha apontou, assustada e maravilhada, para algo que se mexia sob o solo aquoso; era reluzente, e assemelhava-se a uma redoma, e em seu interior, pareceu-lhe, havia seres e naves voadoras. A redoma, imensa. No interior dela, deduziu Natacha, havia uma megalópole. Expressou Natacha a sua vontade de ir até lá. Como? perguntou-se e perguntou para Amanda.

Natacha disse para Amanda que, quando ela, Amanda, enfiara o dedo no solo, abriu-se uma cavidade; talvez enfiando um dedo, e, depois, a mão, e os braços, e, por fim, o corpo, elas pudessem passar para o outro lado do solo. Amanda e Natacha, mãos dadas, enfiaram as mãos no solo aquoso, e nele enfiaram-se, e o atravessaram. Mergulhadas no solo, viram algumas criaturas estranhas desprovidas de olhos. A substância que compunha o solo era clara e, parecia, irradiava luz. Elas não precisavam mover os membros e nem se esforçar para mergulhar (mergulhar?) até a megalópole a vários metros de profundidade (profundidade?). À medida que dela se aproximavam, tomavam conhecimento da sua amplitude. Era maior do que todas as megalópoles humanas. Enfim, tocaram em algo sólido. Era a barreira que separava a megalópole do mundo exterior aquoso. Uma redoma transparente, que se abriu. Amanda e Natacha entraram. Assustaram-se, abismadas, com o que viram. A “megalópole” não tinha mais de cem metros de raio. As criaturas que nela viviam eram um pouco maiores do que gatos, tinham cinco patas, duas cabeças e três caudas de cinquenta centímetros de comprimento cada. Amanda e Natacha caminharam, as criaturas a darem-lhes passagem, por ruas estreitas, e chegaram ao outro lado da cidade, e caminharam pelas ruas.

Entreolharam-se Amanda e Natacha, maravilhadas e assustadas. Haviam presumido, enquanto aproximavam-se da cidade, que chegariam à uma megalópole; depararam-se, no entanto, com uma cidade minúscula, que não tinha nem mil habitantes. Detiveram-se no centro da cidade, onde havia um orifício no solo, por onde saíam e entravam criaturas estranhas, todas idênticas. Amanda disse que pelo orifício elas Amanda e Natacha, poderiam sair da cidade. Natacha disse que não sabia onde sairiam, e perguntou para Amanda e para si mesma que teriam de sair de lá, mas não sabiam como; além disso, elas teriam de se retirar daquele planeta. Não tinham outra alternativa, ou se arriscavam por aquele orifício, ou viveriam naquele mundo indiferente à presença delas.

Pularam, abraçadas, dentro do orifício. Não desejavam saírem, cada uma delas, em um lugar. Envolveu-as a escuridão. Os corações a baterem acelerados, os corpos trêmulos, a respiração ofegante, choraram, imaginando que a vida delas dissipava-se. Estreitaram-se, num abraço apertado. Encerrada a travessia pelo orifício, apenas um corpo surgiu; não era nem o de Amanda, nem o de Natacha. Era um corpo de mulher, e dentro dele havia duas mentes, a de Amanda e a de Natacha. Um corpo, duas mentes. Amanda e Natacha dialogavam, confusas, sem saberem o que lhes ocorrera. Transcorreram-se vários minutos antes de elas perceberem que habitavam um corpo, que resultou da fusão dos corpos delas. Fundiram-se os corpos; as mentes, não.

De repente, o corpo atravessou uma parede escura, e chegou ao Viajante Espaço-Temporal.

– A nave – disse Natacha.

– Natacha, nós permanecemos dentro do mesmo corpo – comentou Amanda.

Amanda-Natacha foi até o Viajante Espaço-Temporal. Perguntavam-se cada uma para si mesma e uma para a outra durante quanto tempo compartilhariam o mesmo corpo.

– Quando nos retirarmos deste planeta – presumiu Amanda -, recuperaremos, eu, o meu corpo, tu, o teu.

Amanda-Natacha entrou na nave, e acionou os comandos, e rumou à Terra. Na Terra, do veículo retirou-se uma mulher, Amanda-Natacha.

*

Amanda-Natacha, que se apresentou como Amanda, mostrou o disco, no qual havia gravadas cenas da viagem, para outros cientistas, que lhe indagaram porque ela mudou de aparência. Amanda disse que o planeta provocara-lhe mudanças no seu aspecto físico. Perguntaram-lhe de Natacha. Com as mãos ao rosto, Amanda chorou convulsivamente. Olharam-la, enternecidos. Dias depois, celebraram o enterro simbólico de Natacha. Amanda relatou a sua aventura e de Natacha para platéias de todo o mundo. Todas as leis da física, da química, da biologia os cientistas as reconsideraram à luz das imagens da viagem de Amanda e Natacha ao planeja Djidhikalji.

Nas viagens subseqüentes do Viajante Espaço-Temporal, Amanda-Natacha não foi a Djidhikalji, planeta que, acreditavam Amanda e Natacha, havia desaparecido, pois dias depois de seu regresso à Terra, elas programaram o Viajante Espaço-Temporal com as coordenadas de Djidhikaji, e não o encontraram. Ou o planeta desaparecera, ou deixara de existir, ou, então, se vivo, dotado de consciência, deslocara-se para outra galáxia, ou para outro universo, ou para outra dimensão, para que os humanos não o encontrassem.

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