Mensagem do Barnabé Varejeira – Educando os filhos.

Ba tarde, Cérjim. Tá calor pa dedéu hoje, tá não?! Vai caí um pé-d’água antes do pôr-do-sór. Calor assim é prenúncio de pancada de chuva, dilúvio pa o Noé morrê de inveja. Armocei há pôco um bom prato de arroz, feijão, carne de vaca, verdura pa dá e vendê, e um litro de laranjada. Eu tô, aqui, pensano cos meus botão, conversano comigo mermo o que se dá co mundo hoje em dia e pruque a garotada tá tão desmiolada, tão desparafusada; parece, inté, que só tem cabeça pa juntá pioiô; parece que a bússola da garotada tá quebrada. Tá difirci, muinto difirci, entendê o que se assucede com os jóve. Eu, que fui educado pelo meu pai e pela mia mãe à moda antiga à moda antiga educo meus fio. Não tem conversa; é do jeito que tem de sê, e pronto. E ponto finar. Sem lero-lero, sem bla-bla-bla, sem conversa fiada. É do jeito que tem de sê. Meus fio educo-os eu, eu e mia muié, craro. O fio reinô, uma espada-de-são-jorge, ou uma varinha-de-marmelo, ensina pa ele quem manda na casa, e quem manda não é ele. E tem de sê assim. Muintos pai e muintas mãe não têm voz firme, e abaixa a cabeça pos fio. Vê se pode! Hoje, antes do armoço, vi, no banco, um menino de uns sete, oito, ano, debochá da mãe; ela chamava ele, e ele punha a língua pa fora da boca, e mostrava a língua pa ela, e ela, em vez de dá nele, no pé-do-ouvido, um tapa pa virá ele do avesso, ficô falano: “Meu fiinho, obedeça a mamãe, obedeça, o cê é um fiinho bonito.” Ah! Se fosse ca mia muié! Ela mandava um tapa nas fuça do moleque, tapa que o viraria do avesso, e fazia ele dá dez vorta em si mermo, antes de pará, e ele ficaria mais tonto que barata tonta. Seria um tapa pa ele nunca mais esquece, nunca mais. Co meus fio é ansim, eu mando, eles obedece; e se eles não obedece, o reio canta-lhes no lombo até tirá, deles, sangue. Não tem conversa. Eu digo o que pode e o que não pode; o que eu digo que pode pode e o que eu digo que não pode não pode, e fim de papo. E comigo sim é sim e não é não. Meu fio, quarqué um deles, faz uma reinação, me farta co respeito, e eu pégo ele de jeito, e nele descarrégo a mia autoridade: “Óia, aqui, ô fio do meu sangue. Se eu mando tá mandado; se eu não mando não tá mandado; se eu digo que não pode não pode; se pode eu digo que pode. Sê entende!? É simpres. Quando eu digo sim quero dizer sim; se quero dizer não digo não; se sim fosse não e não sim, então não não seria não e sim não seria sim. Sim é sim se não é não e não é não se não é sim. Tem de havê distinção entre sim e não de modo que não se confunda não com sim e sim com não. Prestenção! E não vô repeti a órde.” É ansim que falo cos meu fio; dexo mias idéia bem craro pa eles pa que eles não fique no escuro. Ansim meu avô educô meu pai e meus tio, e ansim meu pai educô eu e meus irmão, e ansim eu educo meus fio, e ansim meus fio vão educá os fio deles. Se não fôr ansim, a famia desanda. E ba tarde, Cérjim; não vô mais aporrinhá sua cabeça cos meu pensamento. E que Deus Nosso Senhor te proteja. Inté.

Serviço de Utilidade Pública: Em alto-mar.

Um homem prevenido vale por dois, diz o ditado. Neste ditado, o homem pode ser substituído por uma mulher, que o seu valor se conserva. A sensatez do homem é equivalente à da mulher. Ditas estas palavras, que não se sabe se são úteis, e tampouco se trazem algum bem àqueles que as lêem, prossigo, nesta prestação de serviço de utilidade pública.Se você pretende empreender uma viagem de avião, ou para a Europa, ou para a Ásia, ou para a África, ou para a Oceânia, ou para a América do Norte, providencie, antes de embarcar no avião, uma lapiseira, uma caixinha com grafites, e um bloco de anotações, e conserve-os à mão, num lugar de fácil acesso, que pode ser o bolso da camisa, ou um bolso da calça.Siga na leitura deste prospecto, que você compreenderá as razões para tomar tais providências.O avião decola da pista de decolagem do aeroporto, e ruma ao seu destino, que poderá ser um lugar qualquer em um dos continentes citados linhas acima. Caso o avião, no meio do caminho entre o Brasil e o seu destino, sofra uma pane geral, e, por alguma razão, misteriosa ou não, parta-se ao meio, mantenha a calma, e aposse-se, incontinenti, da lapiseira e do bloco de anotações, e estude a sua situação, calculando a altura que você se encontra acima da superfície do oceano Atlântico, e procure por um baleal. Calcule a distância que separa você das baleias, e, não se esqueça, mantenha a cabeça fria, e anote todas as informações imprescindíveis para o bom andamento do seu projeto de sobrevivência. Conte as baleias, estude-lhes os movimentos, calcule-lhes a velocidade de deslocamento, trace os rumos que elas seguem, verifique se elas nadam em linha reta, se em ziguezague, se em uma linha curva, anote o tempo que elas se conservam imersas, e o tempo que elas se conservam emersas; enfim, estude-as, atentamente, e não deixe que detalhes importantes escapem de suas observações, e não permita que sua atenção se desvie para algo insignificante. À medida que você vai caindo, recalcule todas as operações matemática que você fez, e mude, sempre que necessário, sem vacilar, os seus movimentos, e a direção que, durante a queda, você segue, e altere a sua velocidade, executando manobras corporais para reduzir, ou aumentar, em consonância com o seu plano, o atrito do seu corpo com o ar, mirando, sempre, uma das baleias do baleal, de preferência a maior. E assim que você estiver bem próximo da baleia, abra os braços e as pernas, ponha-se deitado, para ampliar o atrito do seu corpo com o ar. Você a atingirá, e ricocheteará, e será lançado para o alto, realizando um arco, até atingir o ápice – e estude, durante este deslocamento, os movimentos das outras baleias, mantendo, sempre, a cabeça fria, fazendo as anotações e os cálculos apropriados. Mire uma baleia. Atingindo-a, você, uma vez mais, irá ricochetear, e realizará um arco, cujo ápice alcançará uma altura inferior ao do arco que você realizou após ricochetear na primeira baleia que você atingiu; você terá, portanto, agora, menos tempo para estudar os movimentos das baleias, anotar todos os dados que irá colher das observações que deles você fizer, e fazer os cálculos apropriados, e terá de agir conservando, sempre, a tranquilidade de espírito; agindo assim, você poderá executá-los para conseguir atingir, com segurança, uma baleia, e, ao atingi-la, você irá ricochetear, e atingirá, no arco que irá, durante o deslocamento, realizar, um ápice inferior ao do arco anteriormente realizado ao atingir a segunda baleia; e assim, sucessivamente, até atingir, enfim, uma baleia, na qual você não irá ricochetear, dará apenas um pequeno salto, e nela permanecerá são e salvo. Ato contínuo, domine a baleia, e obrigue-a a carregar você até o seu destino.

Mensagem do Barnabé Varejeira – O Mané Sujão Cruz-Credo.


Bão dia, Cérjim. Bão dia, não; ba tarde. Já é tarde aqui. Se aqui, na roça, já é tarde, intão aí em Piamoangaba tamém é; se não é, devia sê. O cê já armoçô? Já!? Então, é ba tarde. Não!? Então, é bão dia. O dia, hoje, tá de rachá os miolo de todo fio de Deus. Nossa Senhora! Parece, inté, que abriro as porta da casa do cão; e o fogo das profundeza dos inferno sobe pa arriba da terra e queima os ómi de carne e osso, e as muié tamém pruque elas tamém são de carne e osso e fias de Deus. Parei um tiquinho de tempo, deitei na mia rede, que já tá um pôco escangaiada, pa lê umas notícia e ligá o uatesape e enviá mensage pos amigo; e o cê é um dos meu amigo pa quem, vira e mexe, dia sim e otro tamém, envio mensage. Hoje, Cérjim, eu conto po cê uma instória divertida, que se deu onde se deu, não muinto longe daqui, e nem muinto perto, e tamém não foi muinto longe dali, e muinto perto tamém não foi; e nem muinto longe e nem muinto perto de acolá. O cê conhece o Mané Sujão Cruz-Credo?! Não o conhece?! Tudo bem. Pa entendê a instória o cê não percisa conhecê ele. O Mané Sujão Cruz-Credo é o ómi mais sujo do praneta. E o mais fedido. E o mais porco. Um gambá de duas perna. Fedido que Deus me livre. Vive no chiquero, o porcalhão! Suíno! Leitão gambázento! Usa ropa tão fedida quanto ele. É doido de pedra, o imundo. Maluco de comê terra e achá que tá comeno filémiôn. Hoje, cedinho, não se sabe porque cargas d’água – e quem sabe o que se passa dentro da cabeça de um cabeça-de-cuia!? – ele, o doido-de-pedra, arresorveu se banhá no córgo da fazenda do Tião Saca-Rôia, que, diga-se a vredade, não cuida muinto bem do córgo, que tá bem fedido, bem sujo, mais sujo do que o trasêro do coisa-ruim. O Tião Saca-Rôia é relaxado pa dedéu, que Deus me perdõe a língua. Não quero dá ca língua nos dente: O Tião suja, e suja muinto, o córgo; no córgo ele joga muinta sujidade. Que Deus Nosso Senhor me corte a língua se eu tô falano mentira. Não falto ca vredade, não. Pois bem, Cérjim, o que fez o Mané Sujão Cruz-Credo!? Ele tirô as rôpa, e pulô no córgo da fazenda do Tião Saca-Rôia. E nem bem caiu nas águas, o córgo cuspiu ele pa fora, espaventô ele, e mandô ele í embora: “Sai daqui, gambá fedorento! Vá levá sua catinga gambázenta pos quinto dos inferno, diabos do cão! Fedido! Fedorento! Pé de porco!” E o Mané, espavorido, pálido de medo, pegô as rôpa, passô sebo nas canela, e foi pa bem longe do córgo, contô-me o Jãnjão Umbigo de Pêra, que não é ómi de contá lorota. Esta é a mensage que eu quis contá po cê, Cérjim; já contei. Fique, amigo, com o Menino Jesus, fio de José e Maria. Inté.

O neto petulante e o avô espirituoso

Petulante, o garoto abordou seu avô, que, entendia ele, era um velho gagá, e, prelibando do constrangimento que, acreditava, lhe iria impor, perguntou-lhe:

– Vovô, o senhor tem juízo?
E respondeu-lhe o avô:

-Não. Eu já transferi todos os meus bens ao seu pai, que os perdeu antes de você nascer.

Eu não esqueci

Assim que Roberto regressou, da casa de sua sogra, à sua casa, sua esposa, Ludmila, perguntou:

– Roberto, você trouxe os chinelos dos meninos e a jarra da Camila?

– Não.

– Não!? Mas, Roberto, eu pedi para você me trazer os chinelos e a jarra.

– Eu sei.

– Sabe!? E por que você não os trouxe?! Esqueceu?

– Não esqueci.

– Então, por que você não os trouxe?

– Eu não me lembrei de trazê-los.

O Pensador

Lá estava ele, à Rodin, sentado no banco da praça, a pensar, presumiam, e a pensar, profundamente, numa questão importante para a espécie humana. De longe, toda pessoa o confundia com uma estátua: a do Pensador. Eram idênticos o homem e a estátua. Incorporava o homem o ideal do pensador. Talvez tenha sido ele o homem que serviu de modelo para Rodin. Ele era um homem na altura dos trinta anos. Gilson era o seu nome. Gilson Alvarenga de Souza Lima. Gilson, o pensador. O seu silêncio e a sua postura davam a entender que ele era um sábio.

– Aquele moço é muito inteligente.

– Como diz o ditado: Em boca fechada não entra mosquito.

– Ele é um pensador. Ele pensa antes de falar. É sensato. É inteligente.

Eram esses os comentários que aventaram a respeito de Gilson. Mas não havia unanimidade. Havia vozes destoantes, e uma delas era a de Zulmira, mulher de sessenta anos, ativa na sociedade, forte, vigorosa, sempre a falar; uma cidadã sem papas na língua, corajosa a ponto de abordar o prefeito na rua e dizer-lhe, no rosto, olho no olho, verdades que ninguém ousava lhe dizer. Tinha fama de encrenqueira, e o era, de fato. Temiam-lhe a língua ferina. Ai daquele que lhe conquistasse a desafeição! Tinha de ter muito jogo de cintura para esquivar-se das farpas que ela disparava sem pena nem dó. Zulmira ia da vulgaridade à sutileza num piscar de olhos, surpreendendo a todos.

– Que sábio, o quê! Que pensador, o quê! Ele, parece-me, é mudo – desdenhava Zulmira, referindo-se a Gilson, ao ouvir elogios a ele. – Aquele moço… Ele deve ser mais burro do que uma porta. Está, lá, sentado, há três horas. E nem se mexe. Eu vou tirar a história a limpo.

Sob olhares de curiosos, Zulmira andou, a passos firmes, atravessou a rua, e, na praça, foi na direção de Gilson, que lhe ignorava a aproximação, se postou a um metro de distância dele, e saudou-o, tirando-o da posição que sustentava até então. E ele voltou-se para ela, e fitou-a, alheado. Após alguns segundos, Zulmira perguntou-lhe:

– Em que você estava pensando? Você está sentado, há horas, tal qual uma estátua, a mão no queixo, o cotovelo fincado na perna, a olhar para o chão. Em que você tanto pensa?

– Eu não estava pensando, minha senhora. Eu… – principiou Gilson a falar, e Zulmira logo o interrompeu:

– Você não estava pensando?

– Não.

– E o que você fazia, então, se não pensava?

– Eu olhava para as formigas que estão entrando e saindo daquele formigueiro.

O homem que não mentia

– Contarei para você um caso que me aconteceu hoje. E você não me acreditará. Eu fui abduzido por um alienígena. É verdade. E conto a história desde o começo. Acordei às sete, sobressaltado, e pulei da cama, o coração a escoicear-me o peito. E quase bati com a cabeça no teto. De repente, um clarão iluminou o quarto, enceguecendo-me, obrigando-me a proteger com as mãos os olhos e a voltar-me para trás. E as trevas reassumiram o governo do quarto. E fez-se a escuridão. Assim que me aprumei, apareceu, a um palmo de meu nariz, uma criatura bizarra: esquálida, de quatro olhos, cinco fossas nasais, três orelhas, duas bocas, sete sobrancelhas, seis queixos, três braços, uma perna; e em cada braço duas mãos, em cada mão dois dedos, em cada dedo duas unhas; e na perna, três dedos sem unhas. Falou-me, e eu nada entendi das palavras que me chegaram aos ouvidos. De repente, envolveu-nos uma bolha azul fosforescente, que nos teletransportou para um planeta situado em uma galáxia localizada em um universo paralelo de outra dimensão, planeta habitado por criaturas horripilantes. Não sei durante quanto tempo a criatura, meu guia em tal viagem interdimensional, ocupou-se em apresentar o seu planeta. Enfim, uma bolha vermelha fosforescente envolveu-me, e, quando dei por mim, vi-me no meu quarto, são e salvo, belo e formoso.
– Que história sem pé, nem cabeça. Você teve um pesadelo.
– Que pesadelo! Um alienígena me abduziu. Foi tal aventura a mais extraordinária da minha vida.
– Você não é pescador; seu pai não é pescador; seus avós não são pescadores… Não há sangue de pescador correndo em suas veias. Por que você mente, então?
– Eu não menti.
– Não, cara-de-pau?! Não?!
– Não. Não menti. Eu disse que eu contaria para você um caso que me aconteceu e que você não me acreditaria. Contei o caso. E você não me acreditou. Menti?

Mensagem do Barnabé Varejeira – Ô povo fraco!

Bão dia, Cérjim. Já é seis hora. O galo já cantô o sór raiá. E o sór raiô. E eu já ordeei as vaca, e já recoí os ovo das galinha, ovos bão, batuta de nutritivo, de deixá todos os meu fio forte inguar tôro, e já peguei do pomar frutas, e, com a graça de Deus, que espaventô a desgraça do diabo, na compania da muié que me acompanha desde o casório na Igreja de Nosso Senhor e dos fio meus querido, bebi café-com-leite, comi pão com mantêga que nóis preparâmo, e muintas, muintas fruta. Agorinha, mermo, me adespedi da muié e dos fio, pa í trabaiá. Finquei pé, aqui, uns minuto, pa dá um bão dia pa famia, pôs parente e pôs amigo. E pa enviá esta mensage po cê, Cérjim, mensage importante. Sei que as coisa não tão nada bem, e pá muita gente vai de mal a pió, e não sobra pão pá ninguém, mas querditando em Deus fica mió. Rimô, inté. Bem, ninguém; pió, mió. Não é de poesia que eu quero falá po cê. Quero dá po cê mensage de animação. Tô veno muintos ómi e muintas muié preocupado demais. Tá certo! Os político tão abusano da sorte. Inventáro esta instória de mocorongovírus só pá martratá as pessoa. Eu não sô bobo. Não naci ônti. Cê acha, Cérjim, que o mocorongovírus matô todo esse mundaréu de gente que dizem por aí que ele matô? Matô, nada. É instória da carochinha, da mamãe gansa, do arco-da-véia, conversa pa boi dormí. Mas, pensa, aqui, comigo, Cérjim, ca sua cabeça, e não ca mia: Se o mocorongovírus matô muinta tanta gente, que sóbe pa mais de um mião, o pobrema não tá no mocorongovírus; tá nas pessoa, que tão muinto fraca. Não engulo, e de jeito maneira, a instória do pãodemônio do mocorongovírus. É instória do arco-da-véia mais véia do que o arco, que é do tempo do Matusalém. Pior, inté, pruque as instória do arco-véia têm, lá, a sua graça, e a do mocorongovírus é bestice de gente da cidade grande. E aí em Piamoangaba tá cheio de bobão que querdita no que político e cientista e médico, todos mentiroso, conta. Não todos, é vredade que se diga. A vida de ôceis da cidade tá difícil, sei eu. Mas a curpa é dos ómi dipromado, bando de gente besta, fiótinhos de cruz-credo. E digo uma coisa, Cérjim: Não se percupe muinto, não, com os pobrema atuar, pois vai piorá; dêxe pa se percupar mais tarde; se o cê esquentá, em demasiado, a cabeça, o cê vai fritá o seu cérbero, o se vai torrá o seu cérbero, e quando vié os maior pobrema, o cê não vai tê força pá agi. Percupe-se só o necessário, e guarde energia pá quano vié coisa mais séria. Ou o cê acha que os político vão dá sossego pa os ómi de bem!? Não vão, não. Eles quer dominá toda as gente do universo. Então, Cérjim, esta é a mensage que eu queria enviá po cê; já enviei, então posso terminá a mensage. Por hoje são esta as palavra que tenho pa dizê. Que Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, fio de José e Maria, abençoe o cê, e não dêxe o cê caí nas lábia do demônio. Inté.

O homem que traiu – sem querer – a sua esposa

Encontraram-se, num sábado, às dez horas da noite, na praça Dom João VI, José do Carmo, que retirara-se, dez minutos antes, do bar Nabé, e duas amigas suas, Carmem e Carmelita. Assim que saudaram-se com beijos no rosto, Carmem perguntou para José do Carmo:

– Está bem a Solange?

– Que Solange? – perguntou, intrigado, José do Carmo.

– A Solange – respondeu Carmem, enquanto Carmelita conservou-se, em silêncio, fitando José do Carmo, na expectativa, um sorriso escarninho a se lhe esboçar no rosto.

Carmo, surpreso com resposta tão enigmática, sorriu, olhou de Carmem para Carmelita, e de Carmelita para Carmem, e para esta perguntou, sorrindo:

– Que Solange, Carmem? Conheço quatro Solange: A prima do Renato, gerente do banco A*; a mãe da Márcia, que trabalha comigo; a irmã da Susana, cabeleireira, que tem um salão de beleza (freqüentado só por mulheres feias) perto da minha casa; e a diretora da escola B*.

– Você enlouqueceu, Zé? – perguntou Carmem.

– Que eu saiba, não – respondeu José do Carmo, gracejando. – Além disso, se eu tivesse enlouquecido, eu não saberia que enlouqueci.

– Você enlouqueceu, Zé, não me resta dúvidas – disse Carmem. – Refiro-me à Solange, a sua esposa.

– A minha esposa! – exclamou José do Carmo, surpreso com a revelação. – A minha esposa chama-se Solange?

Entreolharam-se José do Carmo, Carmem e Carmelita, todos surpresos, cada um por uma razão.

– Ela é loira – perguntou José do Carmo, referindo-se à sua esposa -, e de um metro e oitenta de altura?

– Não – respondeu Carmem, de imediato. – Ela é morena e da altura de um metro e sessenta.

– Meu Deus! – exclamou José do Carmo, ao mesmo tempo em que se aplicou um tapa na própria testa. – Então… Então… Diabos! Então eu fiz uma grande besteira.

Em busca de sabedoria, o brasileiro foi à Grécia.

Ao alvorecer do século XX, um brasileiro, Tobias Alvarenga Ramos de Souza Lima e Silva, homem amargurado, após ouvir a sensata exortação de um amigo que muito bem lhe queria, Paulo Pires de Campos Peixoto, rumou, na primeira oportunidade que se lhe apresentou, oito dias depois, de navio, à Grécia, onde, dissera-lhe o amigo, ele poderia conversar com homens sábios. Logo no dia seguinte ao seu desembarque em Atenas, ouviu de um venerável octogenário de ares sapienciais, edificantes palavras de sabedoria. Satisfeito com o que ouvira, no dia seguinte regressou ao Brasil. Como Tobias Alvarenga Ramos de Souza Lima e Silva do idioma grego não sabia patavinas, ele não entendeu, é óbvio, o que o sábio grego lhe dissera, e para mim, que registro este capítulo da sua biografia, não pôde transmitir o que dele ouvira – e tampouco para outro filho de Deus. E aqui deixo registrada esta interessante aventura de um brasileiro que foi à Grécia em busca de sabedoria.

Parafraseando o Barão de Itararé

Todos sabemos: o Barão de Itararé é, dentre todos os vultos da nossa história – refiro-me, ao dizer ‘nossa história’, à história do Brasil -, o maior – se não o maior, um dos maiores -; e o Visconde de Sabugosa e o Marquês de Rabicó são os dois únicos vultos da nossa história que com ele se rivalizam.

Certo dia, disse-me o insigne Barão, mestre dos anexins sapienciais, representante máximo da aristocracia brasileira, erudito invejável, e aventureiro audaz, ainda em vida:

– Amigo meu, contar-te-ei uma aventura, que merece ser inserida, nos anais da história pátria. Contou-ma um amigo meu, cuja esposa, um dragão, daqueles de cuspir fogo, cuspia fogo, além de atormentá-lo dia e noite, e noite e dia. Se eu fosse o Rui Barbosa, codnominado Águia de Haia, genial macrocéfalo esquálido, eu diria que a esposa do amigo meu era um dragão flamívomo, isto é, um dragão que cospe fogo. Mas vá lá. A mulher do amigo meu era um dragão. Morreu; portanto, ela não é um dragão. Foi ontem, na casa do meu amigo. Ele, ligeiramente embriagado, compungido – e em seu semblante distingui um sorrisinho de satisfação à comissura dos lábios, não estou certo se à da direita, se à da esquerda, pois sou canhoto, e, na ocasião, eu me barbeava, e mirava-me ao espelho do banheiro da minha casa – contou-me o que lhe sucedeu; e tal história, simultaneamente trágica e cômica, portanto, tragicômica, eu a contarei a ti. Ei-la: “Barão, tu não me acreditarás ao ouvir-me contar-te o que me aconteceu, ontem, não sei a que horas; sei que foi ontem. Como tu sabes, gosto de uísque, e quando eu digo que gosto de uísque eu quero dizer que gosto de uísque. A minha mulher, Barão, ontem, disse-me o que me disse ontem, a rosnar, como de costume: “Rubens, jogue o uísque na pia, ou pedirei o divórcio, e farei questão de ficar com o carro. Debilóide! Mongolóide! Asteróide! Inútil! Fútil! Inconsútil! Preguiçoso! Rancoroso! Tinhoso! Maldoso! Gotoso! Teimoso! Majestoso! Mexa-te, asno!, ou expulso-te desta casa!”. E o que fiz? Joguei as garrafas de uísque na pia. “Idiota – reprovou-me a minha mulher, aquela jararaca -, eu não te disse para jogares as garrafas na pia. Eu te disse, anta, para despejares o uísque na pia. Dê fim ao uísque”. Calei-me, e obedeci-lhe, prontamente. A jararaca retirou-se do banheiro, e eu, então, tratei de despejar, e logo, na pia, o uísque. Peguei a primeira garrafa de uísque, aliás, a garrafa era de vidro, e uísque era o seu conteúdo, e desarrolhei-a, e despejei o uísque na pia, mas não todo o uísque, pois separei, em um copo, quatro dedos de uísque, e emborquei o copo, e bebi o uísque. Bebido os quatro dedos de uísque, desarrolhei a segunda garrafa, despejei, em um copo, cinco dedos de uísque, bebi o uísque, e despejei, da garrafa, na pia, o restante de uísque. Ato contínuo, bebi, de um copo, a terceira rolha, e despejei a pia na garrafa. Assim feito, logo a seguir, abri a quarta pia, olhei pelo buraco da fechadura, para espiar se a minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma jibóia, não estava nas proximidades, bebi a rolha, e joguei o copo, com o uísque, através da janela. E não perdi tempo. Desatarraxei o quinto frasco de perfume, nele enfiei a rolha, tampei-o, atarraxei o copo, esvaziei a garrafa de uísque, e bebi água da torneira misturada com desodorante. Olhei de um lado para o outro. Vi que a minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma cascavel, não estava por perto, peguei o sexto frasco de loção pós-barba, barbeei-me com a rolha, enchi o copo com pasta de dente, bebi a pia, e joguei a garrafa de uísque através da janela, que estava aberta, evitando, assim, de quebrá-la. Como eu estava com sorte, pois não quebrei a garrafa, enfiei as mãos na sétima privada, bebi um litro de água-que-passarinho-não-bebe, peguei a vassoura, e com ela tampei a casa, e com a rolha fechei a fechadura da porta. Como era delicioso o uísque, comi a oitava rolha, quebrei a janela com o rodo, joguei o frasco de desodorante na privada, e acendi a lâmpada, que estourou assim que eu a acertei com o meu sapato do pé esquerdo. Assustado com o barulho, olhei de um lado para o outro, e para cima e para baixo, à procura da minha mulher, aquela jararaca, que, além de jararaca, era uma caninana, e, ao ver que ela não me via, bebi, para me acalmar, da nona garrafa, tirei a rolha da pia, e desentupi, com um desentupidor de pias, minhas orelhas, e, com a outra extremidade do desentupidor de pias, minhas narinas, e acertei, com a testa, a parede, com força, muita força. E logo, sem pensar duas vezes, aliás, nem sequer uma vez pensei, peguei da décima lâmina de barbear, cortei a porta, desatarraxei o teto, abri um buraco no chão, cavando, joguei no buraco meus cabelos, enfiei minha cabeça na pia, abri a torneira, e molhei meus pés. Devido ao frio, peguei a décima primeira unha que cortei das minhas mãos, joguei-a na privada, apertei a descarga, que ficou entupida, transbordou, e pedi, com o telefone celular, que me enviassem uma faca para eu fatiar a gelatina de morango que eu havia preparado dois dias antes, e pretendia levar ao forno, para assá-la. E logo em seguida, ou um pouco depois, sem mais tardar e sem delongas, entontecido e desnorteado, voltei-me para trás, e olhei para a frente, e voltei-me para a frente, e olhei para trás, e voltei-me para cima, e olhei para baixo, e voltei-me para baixo, e olhei para cima, à procura da minha mulher, aquela caninana, que, além de caninana, era uma jararaca, e, ao não a encontrar, olhei para a pia, vi que ela ainda estava inteira, mandei um e-mail para o décimo segundo apóstolo, perguntei-lhe da minha mulher, aquela cascavel, que, além de cascavel, era uma jararaca, e dela ele não me deu notícias, e quebrei a pia, e, para a minha surpresa, nesse mesmo instante, entrou no banheiro a minha mulher, aquela jibóia, que, além de jibóia, era uma jararaca, e eu quebrei-lhe, com um pedaço da pia, a cabeça, cortei-lhe, com a lâmina de barbear, o pescoço, e tampei-lhe, com a rolha da garrafa de uísque, o fiofó. Desejo, do fundo de meu coração de marido amável, que ela não telefone para a delegacia de polícia, e não me denunciei por homicídio”.

A luta de boxe sem lutadores – escrito por Alessandro Cassarrato – publicado no Zeca Quinha Nius

O município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, localidade situada num aprazível recanto do nosso imenso Brasil, terra em que se plantando tudo dá, banana, côco e fubá, foi palco de um evento esportivo inédito, cujos ingredientes foram, em doses cavalares, emoção, suspense e aventura, e que hipnotizou milhões de indivíduos da espécie bípede alcunhada, pelos romanos, num latim crônico e anacrônico (crônico, porque está nas crônicas romanas; anacrônico, porque é extemporâneo, superado, obsoleto), de homo sapiens: A luta de boxe sem lutadores; a primeira do gênero; sucesso de público e de popularidade; e cujas ressonâncias políticas e sociais são de valor incalculável. Foram os lutadores deste inusitado e extraordinário evento esportivo Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, duas personagens imaginárias, concebidas, em imaginação, pelos seus criadores, homens criativos, imaginosos, engenhosos, de invejável espírito esportivo, e cujos nomes, não revelados, não são conhecidos pelo grande público, tampouco pelo pequeno público. Tião Soconopeito tem um metro e noventa de altura e cento e dez quilos; e Ditinho Murronacara, um metro e oitenta de altura e cento e um quilos. Dos dois boxeadores estas foram as únicas informações passadas ao público pelos organizadores do evento, informações indispensáveis para que cada pessoa que se dignou a dedicar uma hora de sua vida para assistir ao espetáculo marcial, que foi de doer e que entrou para a história para dela jamais sair, pudesse imaginá-los.

Realizou-se a luta no ringue do estádio municipal de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, edifício grandioso, majestoso, palco de eventos esportivos que atraem numeroso público todo fim de semana. Ao estádio convergiram cento e cinquenta mil pessoas – cada uma delas ocupou uma cadeira à ela reservada no momento da compra, por míseros R$ 150,00, do ingresso; e à televisão, para testemunharem o esmurramento mútuo e recíproco entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, segundo cálculos de confiáveis fontes de informações, mais de três bilhões de pares de olhos de pessoas da espécie humana de todo o orbe terrestre, o planeta azul que habitamos e que chamamos, incorretamente, de Terra. O sucesso, estrondo. Aconchegados às cadeiras da arquibancada do estádio, todas as cadeiras ocupadas, cada uma delas por um ocupante, o narrador esportivo principiou o início da sua narrativa com estas palavras: “Meu adorável público, apresento os dois maiores lutadores do século, bravos e destemidos gladiadores modernos. À direita, Tião Soconopeito. À esquerda, Ditinho Murronacara.” Neste momento, dois focos de luz surgiram, no teto, e ambos criaram, cada um deles um, um cone de luz, cada um projetado num ponto do estádio, num corredor entre as cadeiras. E todos os espectadores puderam imaginar, no cone de luz à direita do narrador, Tião Soconopeito, e no à esquerda, Ditinho Murronacara. E o público foi ao delírio. Aplaudiu e ovacionou, estrondosamente, os dois gladiadores modernos. Tremeram os alicerces do estádio. Enquanto os boxeadores rumavam ao ringue no ritmo do deslocamento dos dois cones de luz, do ponto em que estes surgiram originalmente, até o ringue, o público imaginava-os andando, altivos, sobranceiros, confiantes. E um juiz-de-luta desceu, por uma corda, ao centro do ringue. Enfim, detiveram-se os dois cones de luz próximos do juiz-de-luta, que, gesticulando, listou as regras da luta, para que todos pudessem ouvi-las. E apagaram-se os cones de luz. E o juiz-de-luta apitou o início da luta. E ia de um canto ao outro do ringue. E apartava os dois boxeadores, que se agarravam. E iniciava a contagem regressiva, e logo a encerrava antes de completar os dez segundos. Executava todos os seus movimentos com a desenvoltura de um mímico experimentado; e tão bem os executava que o público, acompanhando-o em sua evolução felina, um espetáculo à parte, sem perder, dele, sequer um ínfimo detalhe, concebia, em imaginação, os movimentos de Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, os dois boxeadores selecionados à mão para empreenderem o confronto inaugural da mais criativa e original modalidade esportiva criada, pelos seres humanos, nos últimos cem anos. E encerrou-se o primeiro assalto. E encerrou-se o segundo assalto. E encerrou-se o terceiro. E o quarto. E o quinto. E a luta prosseguia, indefinida. E o público acompanhava todos os movimentos do juiz-de-luta, podendo, assim, criar, em imaginação, os movimentos dos dois boxeadores, que se socavam e se esmurravam. E encerrou-se o sexto assalto. E o sétimo assalto. E o oitavo. E o nono. E o décimo, encerrando-se a luta sem que nenhum dos dois boxeadores, nocauteado pelo oponente, beijasse a lona. Ambos resistiram aos golpes um os do outro, e bravamente, e heroicamente, até o encerramento da luta. E o narrador, animado desde o princípio do embate entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, anunciou o vencedor, que superou o seu oponente em dois pontos: Ditinho Murronacara.

E, aqui, o silêncio sepulcral de alguns torcedores, abismados, supresos, boquiabertos, de olhos arregalados; e a euforia contagiante de outros, que se expandiram em ínfrene e incontinente alegria despudorada. Os eufóricos haviam imaginado vitorioso o boxeador anunciado, pelo narrador, como vitorioso, Ditinho Murronacara; os boquiabertos de indignação, contrariados, Tião Soconopeito. E nem bem haviam se recomposto da surpresa, desagradável surpresa, estes avançaram, aos berros altissonantes, indignados, contra o juiz-da-luta, que tratou, e logo, de escalar a corda, que haviam descido para que nela ele se agarrasse e lhe escalasse os vinte metros, até uma cabine, que o protegeria dos golpes que lhe pretendiam encaixar os ensandecidos torcedores que traziam os nervos à flor da pele. E principiou o confronto, bárbaro e selvagem confronto, entre os que deram, em imaginação, a vitória a Tião Soconopeito e os que a deram a Ditinho Murronacara. E intensificou-se o confronto. Cadeiras voaram, iguais mísseis teleguiados, pelo estádio. E as cento e cinquenta mil pessoas retiraram-se, iguais vagalhões que arrasam o litoral do Império do Sol Nascente, que é, também, o do Sol Morrente, e o do Sol Sobente (porque o Sol sobe) e o do Sol Descente (porque o Sol desce), do estádio por cujos arredores adjacentes à vizinhança espalharam-se, prosseguindo, em seu exterior, a guerra que dentro dele haviam principiado.

Espalhou-se a arruaça, nas ruas e nas avenidas e nas calçadas, a quebradeira, o quebra-quebra, o quebra-pau. O prefeito do município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste recorreu ao governador do Estado estadual, solicitando-lhe forças, que se revelariam fracas, da política militar; e o governador enviou mil policiais ao município arrasado pelos brutos e asselvajados seres bípedes que haviam se retirado, aos trambolhões, do estádio. Fraca, de fato, a força policial. E o governador recorreu ao governo federal, solicitando-lhe, urgentemente, o envio de tropas federais à cidade, que também é um município, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, que se via convertida num sangrento campo de batalha, sangrento e sanguinolento. O tempo urgia. E o presidente não se fez de rogado. Invocou a Constituição Federal. Decretou Estado de Sítio, de Fazenda e de Chácara no município, que também é uma cidade, de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, e para lá enviou o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, e a torcida do Flamengo e a do Corinthians. E muita gente se perguntou, encasquetada, porque o presidente enviou a Marinha, se Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, não sendo uma cidade litorânea, não tem mar. E as Forças Armadas, secundadas pelas torcidas do Flamengo e do Corinthians, contiveram, em quatro dias consecutivos, os arruaceiros. Foi um espetáculo de doer, e que entrará para a história – e dela jamais irá sair. Ao fim deste capítulo da história terráquea, Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara estavam ilesos. O espetáculo, de doer, promovido pelas pessoas, que, perdendo as estribeiras e a compostura, sanguinolentas e temperamentais, atracaram-se e socaram-se e esmurraram-se, tal qual a luta entre Tião Soconopeito e Ditinho Murronacara, entrou para a história, e dela jamais irá sair.

Siga as orientações médicas, sempre.

Foi numa segunda-feira.

Sentindo fortes dores no peito, e temendo vir a falecer de um ataque cardíaco fulminante, João Carlos, inveterado banqueteador, amante do prato a transbordar carne mal-passada e gordurosa, e de lasanha e de pizza, foi ao doutor Paulo Correia, médico cardiologista, consultá-lo. Inteirou-o das dores que havia sofrido e de seus hábitos alimentares, e dele ouviu:

– Senhor João Carlos, evite comidas pesadas, e garanta uma vida saudável.

– Sim, doutor.

E encerrou-se a consulta.

Uma semana depois, regressou João Carlos ao consultório do doutor Paulo Correia, e queixou-se de fortes dores no peito, tais quais as que sentira uma semana antes.

– O que o senhor comeu, recentemente? – perguntou-lhe o doutor Paulo Correia.

– Sábado, uma pizza e lasanha; e, ontem, domingo, enquanto assistíamos meus irmãos, uns parentes, alguns amigos-do-peito e eu, na casa do Vincenzo, meu vizinho da direita, ao jogo do Curíntia, churrasco e lasanha…

– Senhor João Carlos, eu disse ao senhor que evitasse comidas pesadas – interrompeu-o o doutor Paulo Correia.

– Eu me lembro, doutor. E respeitando as suas orientações, comi, sábado, só uma pizza, de um quilo, se muito, e, ontem, na casa do Vincenzo, um quilo e meio, talvez dois, de churrasco. Comida leve, doutor. Um quilo, sábado, e dois quilos, domingo. Um quilo e dois quilos não pesam no estômago.

Álcool! Que perigo!

Em um supermercado, um homem retira, da prateleira, um frasco de álcool. E uma mulher, ao seu lado, lhe diz:

– É perigoso mexer com álcool, moço. É muito perigoso.

– Não há perigo, não, minha senhora.

– Não? Não há perigo? – exclamou a mulher, alarmada. – Você pode se queimar. No pronto-socorro, ontem, uma amiga minha, enfermeira, disse-me que um homem foi internado com queimaduras em todo o corpo. É perigoso mexer com álcool. Você pode se queimar.

– Não há perigo, minha senhora. Não se preocupe. Não serei eu que usarei o álcool. É o meu filho, o Juninho, de cinco anos, que o usará.

O distraído

Marcelo chegou à sua casa às dezoito horas e trinta minutos. Retirara-se da loja de calçados na qual trabalhava de caixa minutos depois das dezoito horas, um pouco irritado devido à atitude de um cliente, que, esnobe, soberbo, tratara-o com desdém e o constrangera na frente de três clientes e dois funcionários da loja – o sangue a ferver, os punhos cerrados, Marcelo rilhava os dentes, atiçando-o pensamentos que o exortavam a se arremessar contra o cliente que o destratava; soubera conter-se, no entanto.

Chamou por Renata, sua esposa. Ela não estava na casa. Marcelo rumou ao quarto, entrou no banheiro, do qual retirou-se vinte minutos depois, banhado, chinelos-de-dedos nos pés, camisa regata e short, barbeado, de cabelos penteados, e rumou à cozinha para preparar o jantar, o seu e o da Renata, e na cozinha encontrou Renata, à pia, lavando tomates e cebolas, saudou-a, beijou-a, nos lábios, e ela censurou-o:

– Tu és muito distraído, Marcelo.

– Eu? – perguntou-lhe Marcelo, surpreso com a declaração.

– Sim. Tu.

– Por que eu sou distraído?

– E ainda me perguntas? – e sorriu Renata.

– Não sei por que me dizes que sou distraído.

– Fui ao consultório da doutora Jaqueline levar os resultados dos exames médicos, os quais ela me pediu, na semana passada, passei na agência do banco **, e saquei R$ 500,00; ao sair da agência, te vi saindo da loja, chamei-te, uma, duas, mil vezes, e tu não me ouviste. Gritei, e tu a olhar, distraído, para o outro lado da rua.

– Não te ouvi.

– Claro que não me ouviste. Estavas distraído.

– Que horas eram quando me chamaste?

– Minutos depois das seis… Há alguns minutos. Abaixavam, já, as portas da loja.

– Tive a sensação de que eu ouvia alguém a me chamar.

– Tu és muito distraído, Marcelo. Chamei-te várias vezes, e não me ouviste. E tu não estavas muito longe de mim. Ouviste, me ouviste, mas, distraído, não reconheceste a minha voz.

– Eu não estava distraído, Renata.

– Não?

– Não. E eu não sou um homem distraído.

– Tu não és um homem distraído? Claro que és, Marcelo. Tu andavas a olhar não sei para onde, e, distraído, esbarraste, eu vi, em um homem, senhor de idade, derrubando-lhe a caixa que ele trazia consigo.

– Eu fiz isso?

– Fizeste. E aquele senhor de idade te chamaste a atenção, e tu, distraído, não o ouviste.

– Não percebi o que fiz.

– Claro que não; estavas distraído.

– Eu não estava distraído, Renata.

– Estavas, sim. Distraído estavas, Marcelo. Distraidíssimo.

– Tu me ofendes, Renata.

– Ofendo-te?

– Sim. E duas vezes.

– Explica-te.

– Explicar-me-ei a ti. Ao chamar-me de distraído, sendo que distraído não sou, tu me atribuis características que não me pertencem.

– Que dramático!

– Não zombes de mim, Renata.

– Continues.

– Continuo: Além de me atribuir distração, tu, após eu dizer-te que eu não estava distraído, insististe em me chamar de distraído, chamando-me, portanto, de mentiroso, e mentiroso não sou. Tu me ofendestes, Renata, duas vezes.

– E tu não estavas distraído, não?

– Não. E provo. Tu me chamaste, e não te ouvi, e esbarrei, tu me disseste, em um senhor de idade, derrubando-lhe a caixa que ele carregava. Não foi por distração que não te ouvi e que derrubei a caixa que o senhor de idade carregava ao nele esbarrar-me e que não o ouvi recriminar-me. Naquele momento, eu estava concentrado, muito concentrado, em uma morena de um metro e setenta, de minissaia verde e camisa branca decotada, que andava, melhor, desfilava, na calçada, no outro lado da rua, e eu…

E Marcelo cessou o relato ao fitar Renata, e notar-lhe o rosto carregado e o olhar ameaçador a fuzilá-lo, e ver, na mão direita dela, uma faca. E tratou, rapidamente, de de sua esposa afastar-se. E retirou-se, correndo, da cozinha.

O Resumo

Segunda-feira. 7:00 da manhã. Os alunos, muitos deles aparentando sono e cansaço, uns com os cabelos despenteados, todos sentados, cada um à uma carteira, ouviam a professora Fátima, que lhes falava, enquanto, andando entre as carteiras, tendo às mãos uma pilha de folhas de sulfite, entregava uma delas para cada aluno:

– Leiam o texto com atenção e anotem os trechos principais. Escrevam um resumo. Lembrem-se, em um resumo dá-se atenção à idéia central do texto. Não é para selecionar algumas palavras e substituí-las por um sinônimo e copiar o texto. Entendeu, Vinicius? – todos os alunos riram e voltaram-se para ele, que sorriu. – Quero ver de cada um de vocês um resumo, apenas um resumo, do texto que vocês irão ler. Lembrem-se: dêem atenção à idéia principal do texto. Não se percam nos detalhes. Todos vocês já receberam uma cópia do texto? Esqueci de alguém? Não. Ótimo. Mãos à obra. Leiam o texto, atentamente. Anotem as suas idéias principais. E rascunhem, se necessário, um resumo, e corrijam-lo; reescrevam-lo até emprestarem-lhe consistência. E passem-lo a limpo. Vocês têm quarenta e cinco minutos para escreverem o resumo. E você, Marcos, não incomode o Zacarias. Deixe-o ler o texto. Concentre-se na sua leitura e no seu resumo.

Em silêncio, os alunos leram o seguinte texto:

“Nas últimas décadas, verificou-se significativa redução do poder de compra dos brasileiros e o aumento da violência, das desigualdades sociais, do descompasso econômico regional e do analfabetismo funcional. As reformas estruturais empreendidas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o do Luis Inácio Lula da Silva e o da Dilma Roussef prejudicaram as instituições democráticas e as instituições financeiras. O Brasil tem há lamentar o retrocesso na educação, na segurança pública e na saúde. Os índices de violência, no Brasil, são preocupantes; o analfabetismo funcional impede a inserção de milhões de brasileiros no mercado de trabalho; a desigualdade social é uma das maiores do mundo; a burocracia estatal encarece os produtos brasileiros; a justiça é lenta, muito lenta; e os recursos públicos são mal aplicados. Para que o Brasil dê um enorme passo rumo ao progresso são imprescindíveis as reformas política, fiscal, previdenciária e tributária, e investimentos da iniciativa privada e incentivos para investimentos em industria de tecnologia de ponta, o que só será possível com uma população bem educada; para tanto é essencial a boa aplicação do dinheiro público em educação. O Brasil está fazendo a lição de casa? Essa pergunta será respondida pela próxima geração de brasileiros.”

Os alunos leram o texto, atentamente – presume-se -, e escreveram, cada um deles, um resumo. Dentre os resumos, destaca-se o que Charles escreveu:

“O Brasil não vai bem das pernas, mas também não vai de mal a pior. Não está no paraíso, tampouco no inferno. Está no purgatório. O Éfeagacê, o Lula e a Dilma, cada um ao seu modo, e os três da mesma maneira, ajudaram o Brasil a regredir, mas as instituições democráticas estão sólidas desde que Niemeyer as construiu, no governo do Kubitschek, com concreto da melhor qualidade. Os brasileiros não temos, portanto, com o que nos preocupar, mas os porcos têm, pois o Palmeiras não tem mundial. Kkkkkkk.

E o João?! O estado dele é grave?

– Roberto, eu soube do seu irmão, o João. Contou-me a Ludmila que ele envolveu-se, em São José, em um acidente. Como ele está? Ele está no hospital?
– Meu irmão envolveu-se num acidente de carro, em Jacareí, e não em São José, e está hospitalizado.
– E o que aconteceu com ele? Qual é o estado dele?
– Eu o visitei hoje, às oito da manhã. Ele tem, quebrados, um braço, uma perna e duas costelas, perfurado o intestino, esmagada a mão esquerda, e, furado, um olho, o direito. E ele perdeu um litro de sangue.
– Meu Deus.
– Mas não se preocupe, Anderson. O estado dele não é grave.
– Não é grave, Roberto!? Não é grave!? Ele perdeu um olho, tem, quebradas, costelas… E perdeu um litro de sangue! E você me diz que o estado dele não é grave! O que teria de acontecer com o seu irmão para você dizer que o estado dele é grave?
– Anderson, você é muito dramático. Seria grave o estado do João se ele tivesse, quebrados, os dois braços, as duas pernas, e sete costelas, perfurados o intestino, o baço, o fígado, o pâncreas, os dois pulmões e os dois rins, esmagadas as duas mãos, furados os dois olhos, e perdidos três litros de sangue, no mínimo.

Chineladas

Encerrado o expediente, o pai, logo que entrou na sua casa, deu duas chineladas em seu filho, que, surpreso, exclamou, indagando-o:
– Pai, por que você me deu chineladas!? O que eu fiz de errado!?
E o pai respondeu-lhe:
– O que você fez de errado, não sei. Mas que você fez alguma coisa de errado, fez, pois eu dei duas chineladas em você.

A professora

No banco, na fila, um homem e uma mulher conversavam.

Em certo momento da conversa, a mulher disse para o homem:

– Eu sou professora.

– De qual matéria? – perguntou-lhe o homem.

– De Língua Portuguesa.

– E o que você ensina para os seus alunos?

A mulher virou-lhe as costas, dando a conversa por encerrada.

Atenção: superfície quente.

Uma história do Joãozinho.

Estavam, na casa de Joãozinho, naquele sábado, às dez horas da manhã, Joãozinho e o pai do Joãozinho, lavando a varanda. Joãozinho, vassoura à mão, varria as folhas que os ventos – que assopraram durante a tempestade, que, à noite, despencou, na cidade, inundando alguns bairros – arrancaram das árvores do jardim, enquanto o pai do Joãozinho conectava a mangueira à torneira, quando abriu-se o portão da casa. Era a mãe do Joãozinho que regressava da feira, do supermercado e da loja. O pai do Joãozinho tratou, logo, de ir até a sua esposa, e pedir-lhe que ela não entrasse, na varanda, com o carro, pois ele, pai do Joãozinho, e Joãozinho, iriam lavá-la. A mãe do Joãozinho disse que iria estacionar o carro em frente à casa, e pediu ao seu marido que retirasse do carro as sacolas e as caixas com as frutas, os legumes, as verduras, e os produtos que comprara, no supermercado, e a caixa com o forno elétrico. O pai do Joãozinho foi até o carro; e Joãozinho largou, prontamente, a vassoura, e correu até sua mãe, saudou-a com um beijo no rosto, e foi até o carro, e seu pai entregou-lhe algumas sacolas com verduras e legumes, e ele, célere, animado, carregou-as até a cozinha, e, na velocidade da luz, regressou ao carro, para pegar, das mãos de sua mãe, outras sacolas, enquanto seu pai rumava, carregando caixas pesadas, do carro à cozinha. Em cinco viagens de ida e volta do carro à cozinha, Joãozinho, seu pai e sua mãe à cozinha carregaram tudo o que havia para ser carregado. Em seguida, a mãe do Joãozinho entregou para o pai do Joãozinho a chave e o alarme do carro, e anunciou a sua ida ao quarto, para trocar de roupas e, depois, à cozinha, para preparar o almoço, e Joãozinho e seu pai retomaram à limpeza da varanda. E Joãozinho e seu pai varreram a varanda, jogaram sabão em pó no chão, molharam o chão esguichando água com a mangueira, o ensaboaram, e o esfregaram com a vassoura. Joãozinho “nadou”, “surfou” “navegou” enquanto ajudava, ou atrapalhava? seu pai a limpar a varanda. Da cozinha, a mãe do Joãozinho ouvia as gargalhadas cativantes de Joãozinho e as suas exclamações eufóricas e heróicas de conquistador dos sete mares, como ele se anunciava, que lutava contra os monstros do Oceano Tenebroso, e as broncas que o pai dele lhe dava, e sorria, divertida – às vezes, ela ia até o enquadramento da porta que da sala-de-visitas dava acesso à varanda para espiar seu filho e seu marido.

Não eram doze horas quando Joãozinho e seu pai encerraram o trabalho de limpar a varanda. E Joãozinho rumou ao banheiro, para banhar-se, pois sujara-se enquanto conquistava os sete mares, surfava e nadava nas águas revoltas do Oceano Tenebroso.

Meia hora depois, Joãozinho, seu pai e sua mãe, minutos antes de sentarem-se à mesa, na sala-de-jantar, conversavam, na cozinha; a mãe do Joãozinho apontou para uma caixa, a do forno elétrico, e pediu ao seu marido que a abrisse, e dela retirasse o forno. Iriam usá-lo para preparar a lasanha. E Joãozinho, curiosidade excitada, fitava, com olhos arregalados, a caixa. E assim que da caixa o pai do Joãozinho retirou o forno e o pôs sobre a mesa, Joãozinho do forno aproximou-se, e, enquanto seu pai arrumava o isopor dentro da caixa e procurava pelo manual de instruções (o pai do Joãozinho chamava o manual de senhor Manuel, o instrutor indecifrável), estudou o forno, atentamente, em cuja parte superior deteve-se, em um selo, leu o que nele estava escrito, pôs a mão direita sobre o forno, e disse:

– Mamãe, a senhora tem de ir à loja fazer uma reclamação para o homem que vendeu este forno para a senhora.

A atenção da mãe do Joãozinho e a do pai do Joãozinho convergiram para Joãozinho, e o pai do Joãozinho, antecipando-se à mãe do Joãozinho, perguntou para Joãozinho:

– Sua mãe tem de ir à loja, filho? Reclamar do quê?

– O forno está com defeito – respondeu Joãozinho.

– Com defeito? – perguntou-lhe sua mãe, intrigada. – Como você sabe que o forno está com defeito, filho? Seu pai ainda não o ligou. Seu pai ainda está pedindo instruções para o senhor Manuel.

– Venham aqui – chamou Joãozinho seu pai e sua mãe; ambos aproximaram-se de Joãozinho e do forno. – Leiam o que está escrito, aqui, neste plástico – e apontou para o selo na parte superior do forno elétrico. – Aqui está escrito: “Atenção: Superfície quente”. Olhem… – e Joãozinho pôs a mão direita sobre o forno. – Viram, se estivesse quente, eu queimaria a minha mão – e exibiu a mão direita para seu pai e sua mãe. – Aqui não está quente; está frio. O forno está com defeito, mamãe. A senhora tem de ir à loja trocar este forno, que está com defeito, por um forno que não esteja com defeito.

Entreolharam-se o pai do Joãozinho e a mãe do Joãozinho. E sorriram.

O dia em que Napoleão e Thomas Edison encontraram-se

Em um hospício – ou casa de Orastes, escreveria o Bruxo do Cosme Velho -, ao alvorecer, dois loucos, Napoleão e Thomas Edison, o primeiro, vesgo, de apenas três dentes e com seis dedos no pé esquerdo, o segundo, manco e enxundioso, retiraram-se, cada um deles, do seu quarto, e, em vez de irem ao refeitório, para o desjejum, seguiram em direção ao pátio, o primeiro, tateando as paredes, piscando incessantemente, e clamando, a curtos intervalos, em alto brado: “Guerreiros, segui-me para Pompéia”, e o segundo, manquitolando, exclamando: “Faça-se a luz! E a luz eu fiz!” e murmurando palavras inaudíveis. Ambos atravessaram o corredor, e no salão encontraram-se, entreolharam-se, estudaram-se em silêncio, puxaram-se as orelhas, saudaram-se, tocaram-se no nariz, cumprimentaram-se com apertos de mãos, e andaram, lado a lado, sem dizer uma palavra, Napoleão à esquerda de Thomas Edison, distando um do outro um metro; de tempos em tempos, Napoleão tocava, no ombro esquerdo, com a ponta do dedo indicador direito, o seu parceiro de jornada, que lhe retribuía o gesto, simultaneamente amistoso e inamistoso, tocando-lhe, com a ponta do dedo indicador esquerdo, o ombro direito. No pátio, ambos detiveram-se, e Napoleão sussurrou ao ouvido esquerdo de Thomas Edison:
– Tenho uma idéia na cabeça, caro amigo. Assim que eu a encontrar, vos direi qual é.
E Thomas Edison sentenciou:
– Todas as idéias existentes estão na cabeça de alguém.
E Napoleão parafraseou:
– Não há cabeça sem idéias, e nem idéias sem cabeça, mas há idéias sem pé nem cabeça.
Silenciaram-se, ao ouvirem o miado de um gato. Viram-no, no alto do muro; assim que o gato do muro desceu para fora do hospício, Thomas Edison relatou:
– Um gato é um gato, e, sendo um gato, age como um gato. Eu, amigo caro, tinha, na minha casa, um gato, que pulava, como aquele gato que estava em cima do muro, como um gato, e dava os seus pulos de gato. Um dia, há uns dez anos, não me recordo em que ano, mas me recordo de que foi em algum dia no passado, o meu gato, de cima do telhado da minha casa, pulou-me, como um gato, sobre a cabeça, arranhando-me, como um gato, com as suas unhas de gato, a testa e o nariz, e correu, como um gato, para o interior da casa. Procurei-o. Não o encontrei. Ele se escondeu, como se escondem os gatos, em algum recanto da minha casa. Pensei. Pensei. E pensei. E pensei. O que eu teria de fazer para encontrar o gato? Eu não sabia. Decidi recorrer ao meu amigo, um aristocrata sem fumaça, o Barão de Munchausen. Telefonei-lhe. E ele me aconselhou a atear fogo na casa, que o gato, como um gato, apareceria. Agradeci-lhe. E tratei de pôr em prática o sábio conselho do Barão; aliás, sábio não é o conselho; sábio é o Barão. E a minha casa ardeu em chamas. Ouvi os miados do gato. Sete horas depois, apagadas as chamas, entrei na minha casa, e encontrei o gato, cuja aparência estava modificada. E fingia-se de morto, o maldito! Vós acreditais, amigo caro, que ele queimou-se a si mesmo para assumir o estado cadavérico de um gato morto, com a intenção de ludibriar-me, dando-me a entender que ele estava morto? Não cai na esparrela. Tratei, e logo, de pegar um bastão, e sapecar-lhe bastonadas e bastonadas. O maldito gato possui auto-controle invejável. Nem miar miou, o desgraçado.
Encerrado o relato, Napoleão cofiou o bigode imaginário, coçou a testa com o indicador esquerdo, apertou o nariz três vezes, bocejou duas vezes, enfiou a mão na boca, deu dois pulos, coçou a nuca, massageou, com movimentos circulares, as têmporas, pálpebras cerradas, e, cessada a massagem, descerrou as pálpebras, e perguntou para Thomas Edison:
– Sabeis, caro amigo, por que o vosso gato não miou quando vós lhe descarregavas bastonadas no lombo?
– Não, amigo caro, não sei. Se vós puderdes lançar luz, luz que brilha, luz que ilumina, sobre a questão, serei vosso servo por toda a eternidade e mais o tempo que me restar de vida.
– Atentai, então, caro amigo, para a explicação, que é curta e dispensa explicações: O gato, ao cair, como um gato, sobre vós, e, como um gato, arranhar-vos o nariz e a testa, quebrou as unhas com as quais vos arranhou.
Brilharam os olhos de Thomas Edison.
– Sim! Sim! Sim! – gritou Thomas Edison. – Sim, amigo caro! Vós encontrastes, como me disseras, a solução, com a vossa explicação, que, como vós me disseras, é curta, e, sendo curta, não é extensa, e, como eu desejei, lança luz, luz que brilha, luz que ilumina, persuadindo-me da infalibilidade das explicações curtas.
Estreitaram-se num abraço enlouquecido, pularam, endoidecidos, abraçados, e, amalucados, beijaram-se na testa; ao afastaram-se um do outro, sob o efeito irreprimível da alegria contagiante, cabriolaram, ensandecidos. Satisfeitos com a exibição de felicidade, cessaram a agitação irreprimível, recuperaram o fôlego, e, em silêncio, lado a lado, caminharam, sem se falarem, mas proferindo as suas singulares sentenças, até os carros, no estacionamento. Detiveram-se diante de um deles, em cujo capô havia uma concavidade de uns dez centímetros de profundidade. Intrigados, cofiaram bigodes imaginários, Napoleão o de Thomas Edson, e Thomas Edison o de Napoleão, olhos fixos no capô do carro. Pararam, enfim, de cofiarem um o bigode imaginário do outro, e, ensimesmados, olhos fixos no capô do carro, conservaram-se em silêncio durante longos vinte minutos, sem esboçarem um gesto, sem piscarem os olhos; enfim, cortou o silêncio Thomas Edison:
– Por que está amassado o capô do carro? O que amassou o capô do carro? Temos de deslindar o mistério. Um carro. Um capô. E uma concavidade no capô. O capô do carro não se amassou a si mesmo, é óbvio. E a fábrica de carros não fabricou, amassado, este carro. Se o capô do carro está amassado, algo o amassou. O quê? Qual é a chave do mistério enigmático? Ou tenho de dizer enigma misterioso? Ou mistério misterioso? Ou enigma enigmático? Amigo caro, nestes silenciosos e emudecidos minutos que aqui permaneci, ao lado de vós, pensei e repensei os meus pensamentos, eu os moí e os remoí, triturei-os, esmigalhei-os, pulverizei-os, avaliei-lhes a textura, a solidez, a maciez, o núcleo e a superfície; eu os dividi até encontrar a partícula indivisível, que não existe. E quando eu vi passar, do leste para o oeste, um pombo, não sei se macho, se fêmea, e este detalhe é irrelevante, iluminou-se-me a mente, acendeu-se uma lâmpada em meu espírito, e encontrei a explicação para a existência da concavidade no capô deste carro. Algo atingiu-o de fora para dentro, e o que o atingiu seguiu curso descendente, ou vertical, ou oblíquo. E foi o pombo, ou pomba, não sei, o agente iluminador. Apresento-vos, amigo caro, os meus pensamentos. Atentai. Se concordardes comigo, concordarás, e dir-me-ás que concordas; se não concordardes, não concordarás, e dir-me-ás que não concordas. Se agirdes assim, permitir-me-ás saber o que vós pensai. Imaginai um pombo. Não um pombo qualquer, mas um pombo com asas, voador, pois há pombos que não têm asas e pombos que não voam. O pombo, a voar, e a voar alto, a duzentos metros de altura (não a duzentos metros acima do nível do oceano, mas acima deste chão que pisamos), após voar dois quilômetros, passa por sobre este carro, cujo capô não estava amassado quando o pombo o sobrevoou, e de seu corpo desprende-se uma pena, que principia a queda rumo ao solo, e o pombo não percebe que de si desprendeu-se a pena, e segue seu curso, com os seus pensamentos, com as suas preocupações, com os seus paradoxos, com as suas elucubrações pombinas, ignorando a queda da pena que do seu corpo desprendeu-se. E a pena a cair, a cair. E os ventos a carregá-la de um lado para o outro. E a pena a cair, a cair. E a cair a pena. Enfim, a pena atingiu o capô deste carro, pois este carro estava entre o pombo e o chão, no momento em que do pombo a pena desprendeu-se e no momento em que ela atingiu o capô do carro. Assim, com o impacto da pena, o capô do carro curvou-se para baixo, formando a concavidade que vimos com nossos olhos. Imaginai a força do impacto! Impacto de uma pena que se deslocou a partir de duzentos metros de altura, e nenhum fenômeno atenuou-lhe a força. Antes mesmo, suspeito, de a pena atingir o capô do carro, o impulso dado, pela pena, durante a queda, no ar, empurrando-o para a frente, melhor, para baixo, fê-lo adquirir energia devastadora, não para esmagar o carro, mas o suficiente para curvar-lhe o capô.
Napoleão, enquanto o ouvia atentamente, coçava o nariz, e assim que ele encerrou a explicação, disse:
– Caro amigo. Caríssimo amigo. Vós sois de uma inteligência rara, e cara, daí a sua carícia. Dizia-me papai e mamãe em vida: “Tudo o que é raro é caro”. Caro amigo. Peço-vos, encarecidamente, licença para de vós discordar. Peço-vos permissão para apresentar-vos a minha explicação do que aqui se sucedeu em algum momento do passado. O vosso relato é consistente, mas não considera um ponto: Onde está a pena? Não há vestígios da pena. Da pena não há um resquício, nem sequer um sinal, tampouco um espectro. A ausência da pena obriga-me a desconsiderar a queda de uma pena sobre o capô deste carro como a causa do seu afundamento. Então, se a pena não causou o afundamento do capô, o que o provocou? Vós precisais, caro amigo, ir a um vendedor de óculos para aprimorar-vos a vossa visão, para que vós possais enriquecer a vossa inteligência ímpar com observações acuradas dos objetos que vos rodeiam. Vós não vistes o que há no fundo da concavidade no capô do carro. Olhai com atenção. Aproximai-vos. Vê. Uma formiga, e ela está morta. Explicar-vos-ei o que aqui se sucedeu, em algum momento do passado, empregando todo o meu raciocínio lógico indutivo, dedutivo, condutivo e auditivo. Como não estou de posse de sofisticado aparato policialesco, empreendi, usando a minha mente, treinada, durante décadas, na prática de exercícios investigativos nas ruas sombrias de Londres, e na ida, assídua, à Rua Baker Street, em visita a um amigo meu, dono do mais famoso cachimbo que os humanos já viram, e os desumanos também, e os inumanos igualmente, o extraordinário Sherlock Holmes, com quem mantive diálogos intermináveis, que terminaram, todavia, e também mantive, digo, em acréscimo ao que estou dizendo, muitos diálogos com o aprendiz de Hipócrates, Watson, parceiro leal como um cão, um cão leal, obviamente. Ouvi-me, atentamente, caro amigo. Saiba que no meu cérebro inseri a lógica de Aristóteles, a perspicácia de Holmes e a sabedoria ingente de Dom Quixote. Posso, com todos esses recursos, que se fundiram no meu cérebro, no meu organismo, na minha estrutura genética, avaliar, detidamente, pormenorizadamente, atentamente, apropriadamente, sem que meus olhos de águia e meus ouvidos de tigre deixem escapar-me um detalhe, um simples detalhe, o que ocorreu, não sabemos há quanto tempo, neste estacionamento. Atentai, caro amigo. Ouvi-me. Antes de aqui chegarmos, uma formiga, esta que vimos no fundo da cratera situada no capô deste carro, ao chegar à colônia em que vivia com a sua esposa, a dona Formiga, após um exaustivo dia de trabalho, sendo exaustivos o dia e o trabalho, dirigiu-se à sua residência, localizada, na ala oeste, na quadra dezesseis do trigésimo quarto piso do formigueiro do jardim da praça Dom João VI. Ao abrir a porta, e ao enquadramento dela, viu, para seu espanto, para seu horror, no leito conjugal, a sua consorte e o amante dela aos beijos, aos abraços, aos amassos. Desesperado, berrou, e correu, em desabalada carreira, como um raio, como um relâmpago, como uma faísca, como um guepardo, mais rápido do que a luz, para longe, muito longe do seu lar, que deixou de ser tão doce como o era antes de ele tomar conhecimento do conhecimento que tomou, e, exausto, as pernas mal o sustentando, toda a sua estrutura óssea em pandarecos, deteve-se, viu este prédio, e, sem titubear, decidiu escalá-lo, e pular para a morte. Persistente, renovou as suas energias, tão poderosa era a sua vontade, escalou o prédio, e, lá, no topo, a sessenta metros de altura, cerrou as pálpebras, abriu os braços, e pulou, e caiu sobre o capô deste carro, e faleceu com o impacto da queda, só, abandonado, desprezado, esmagado pela verdade que se lhe revelara horas antes – fez uma curta pausa, e encerrou a sua peroração. – Estranha-me, caro amigo, que ninguém, em todo o território deste reino encantado em que vivemos, e nos arredores circunvizinhos, tenha ouvido o estrondo da queda da formiga sobre o capô deste carro.
Thomas Edison assentiu, meneando a cabeça.
Abraçaram-se o conquistador e o inventor. E cabisbaixos dirigiram-se, em silêncio, ao prédio, para o desjejum; antes de beberem, Napoleão, laranjada, e Thomas Edison, limonada, clamaram, com voz altissonante, Napoleão: “Capturem as batatas fritas! Esmaguem o Himalaia! Matem a Rainha de Copas!”, e Thomas Edison: “Engulam sapos, fótons! Estiquem-se, elétrons!”. E brindaram: “À infortunada formiga!”.

Brasil, paraíso dos machistas. Um conto politicamente correto.

Dou a público, hoje, uma história horripilante, comum hoje em dia, mas oculta do povo indiferente.
Após esperar vinte minutos, durante a chuva torrencial que despencou nesta cidade a partir das 18,00 horas, no ponto de parada de ônibus, Jaqueline, vendo um ônibus aproximar-se, acenou; o ônibus parou, para que ela nele subisse. No ônibus, então lotado, ela, em pé, se espremeu entre os passageiros; não havia o ônibus percorrido quinhentos metros, abordou-a um homem esbelto, de um metro e setenta de altura, de barba rapada, calvo nas têmporas, trajando calça jeans, camisa azul e sapatos pretos. Ele, assim que se levantou do banco, ofereceu-o à Jaqueline, para que ela nele se sentasse. Ela, de imediato, rejeitou a oferta, e, diante da insistência dele, solicitou ao motorista que, ou mandasse o homem que lhe oferecera a ela Jaqueline o banco para nele ela se sentar retirar-se do ônibus, ou desviasse do trajeto original e rumasse à delegacia de polícia. O motorista recusou-se a atender-lhe às sugestões; e inúmeros passageiros esbravejaram. Diante da intransigência do motorista e da chusma dos passageiros, ela protestou, veementemente, tirou da bolsa que trazia a tiracolo um telefone celular, discou o número do telefone da delegacia de polícia, e, em altos brados, ora se queixava à telefonista que a atendera, ora tripudiava contra os passageiros e o motorista. A celeuma assumiu proporções inabarcáveis. Jaqueline ameaçou processar todos os que se encontravam no ônibus. Mulheres disparavam-lhe ofensas. Jaqueline estapeou um homem, unhou outro, desferiu duas joelhadas em um terceiro, e ameaçou arrancar os cabelos de um outro. A turbamulta ia, como um vagalhão, ameaçando derrubar o ônibus, o que obrigou o motorista a estacioná-lo, e telefonar para a delegacia de polícia. Para conservar o auto-controle, o motorista retirou-se  do ônibus; lá fora, alternava sua atenção entre sua conversa, ao telefone, com a sua interlocutora, as queixas que os passageiros lhe faziam e as reclamações de Jaqueline.
Não tardou cinco minutos, quando uma viatura policial chegou ao local, trazendo dois policiais, um homem e uma mulher, que trataram de tranquilizar todos os envolvidos no imbróglio, sucesso que só obtiveram a duras penas. De todas as personagens envolvidas, Jaqueline era a mais agitada, e justificadamente, afinal ela fora a ofendida; ela transparecia, em gestos ostensivos, em expressões fortes, as suas indignação e raiva compreensíveis; intempestiva, esbravejou, esgoelou-se, e firme, convencida da razão de seus propósitos, incansável, declarou-se, corretamente, desrespeitada e, corajosamente, disposta a ir aos tribunais denunciar todas as pessoas que a conspurcaram ao lhe arremessarem epítetos insultuosos.
“Aquele machista… – disse Jaqueline, indignada, referindo-se ao homem, que, levantando-se do banco, oferecera-lhe o lugar que deixara vago – aquele machista… Quem ele pensa que eu sou!? Quem ele pensa que ele é!? Que direito ele tem de me oferecer um lugar para eu me sentar!? Quem ele pensa que ele é!? Que desrespeito! Aquele machista… Eu não preciso que homem nenhum me ofereça um banco para eu me sentar. Só porque eu sou mulher, aquele machista me tem como um pessoa inferior, fraca, incapaz! Que absurdo! Vivemos em uma sociedade machista, patriarcal, preconceituosa. Os homens se acham superiores às mulheres”. Tais palavras são de uma mulher poderosa, de brios, que sabe qual é o seu lugar na sociedade. De uma mulher insubmissa, altiva.
Era visível o desarranjo emocional de Jaqueline,  compreensível e justificável diante de tal violência que lhe promoveram, produzido pela ação desrespeitosa do homem que lhe oferecera o lugar no banco. E assim que lhe amainou o espírito, Jaqueline prosseguiu: “E o motorista, outro machista, em vez de atender-me, destratou-me. Fez de conta que o assunto não lhe dizia respeito, e seguiu viagem. Aquele machista! Todos os passageiros do ônibus são machistas, inclusive as mulheres, que, ao invés de irem em meu favor, ofenderam-me. Aquelas bruacas! Aquelas megeras! Todas servis à cultura patriarcal, machista”.
Neste momento, uma das passageiras interrompeu Jaqueline, e, destrambelhada, pôs-se a desancá-la com termos ofensivos e epítetos insultantes. E vários passageiros, açulados por ela, avançaram, ameaçadores, na direção de Jaqueline, que se abrigou às costas dos policiais, que, não sendo bem-sucedidos em chamar todos à razão, solicitaram reforço policial, que não tardou a chegar.
Contornada a situação, todos os envolvidos no entrevero os policiais os conduziram à delegacia de polícia, onde quase se engalfinharam Jaqueline e alguns passageiros e se deu tal distribuição de ofensas que até o Marquês de Sade, se as ouvisse, se constrangeria. Enfim, arrefecidos os ânimos, na presença de advogados e policiais, Jaqueline e os outros passageiros acordaram entregar o caso aos tribunais. Muitos dentre os envolvidos, já no exterior da delegacia, bufaram de raiva, e foram-se embora. Todos os passageiros e o motorista do ônibus, certos de que, de tão absurda a queixa de Jaqueline, ela, Jaqueline, perderia o processo. Enganaram-se. O veredicto, favorável a ela, os obrigava a cada um deles o pagamento de indenização por danos morais à vítima, Jaqueline. Eles esbravejaram. Espernearam. Recorreram da decisão. Jaqueline saiu vitoriosa de tal litígio. E a justiça foi feita. E a sociedade machista perdeu.
Não muito tempo depois, num ônibus que ia do bairro Campo Belo ao Campo Limpo, Jaqueline embarcou num ônibus lotado de passageiros, e espremeu-se como sardinha numa lata, deslocou-se alguns metros, e deteve-se ao lado de um banco, ocupado, então, por um homem cuja aparência lhe dava trinta anos e cuja indumentária lhe emprestava ar solene, venerável. No entra e sai de pessoas no ônibus, durante os quarenta minutos de duração da viagem, Jaqueline foi arremessada de um lado para o outro, só não indo, desequilibrada, ao chão porque outros passageiros serviam-lhe de escora. O desconforto, insuportável. Ao fim da viagem, na rodoviária, assim que, após descer do ônibus, encontrou-se com Marcela, sua amiga, que a aguardava, disse-lhe, queixando-se: “Os homens são muito mal-educados. Deus me livre! Num ônibus lotado, o calor de matar, obrigaram-me os machistas a permanecer em pé durante a viagem. E nenhum homem se dignou a ceder-me o banco. E o que estava na minha frente, machista dos infernos!, fez que nem me viu. Aquele machista! Se soubessem o apuro que as mulheres passamos, todos os dias, no transporte coletivo, os homens jamais iriam desejar ser mulheres. Temos as mulheres de aturar cada desaforo! Que falta de civilidade, a dos homens! Quero nascer homem na próxima encarnação. Assim, eu não sofrerei o que as mulheres sofrem”. E Marcela subscreveu-lhe as queixas.
Esta é uma, apenas uma, das incontáveis histórias que retratam a difícil vida da mulher na sociedade moderna, patriarcal e machista.

Café não emagrece, engorda

Relato pungente de uma vítima da propaganda enganosa dos produtores de café.

– Sinto-me tolo, imbecil. Acreditei nas ladainhas que mas contaram aqueles artistas belos e formosos das propagandas. Eu sou um imbecil. Lembra-se de como eu era há um ano? Eu não era, eu sei, um galã de Hollywood, e eu também não era um homem destituído de charme. Algumas mulheres atribuíam-me beleza peculiar. Eu não era esbelto; e gordo eu também não era. Nem gordo, nem magro eu era. No entanto, eu, sempre que me olhava ao espelho, me via gordo, me achava obeso, comparava-me a um elefante, a uma baleia, e evocava aqueles homens, obesos mórbidos, que vivem confinados na cama, e eu suava frio; paralisavam-me o corpo as imagens que vi, na internet, de um homem que foi retirado da sua casa com um guindaste. Tiveram de remover do quarto em que ele vivia confinado, havia trinta anos, a laje e o teto, para que da casa o removessem. Ele pesava mais de trezentos quilos. Um monstro gelatinoso. Atormentou-me, durante vários dias, a sua figura. Pesadelos roubaram-me o sono. Passei muitas noites em claro, a atormentar-me aquela silhueta elefantina. O horror! A silhueta de um elefante obeso, de um elefante baleiônico. E eu não queria, e não quero, ficar com silhueta igual à dele. Deus me livre! Eu, sem poder mover-me, com trezentos quilos, igual massa gelatinosa… Não. Eu, então, deprimido, angustiado, a temer transformar-me em um elefante de duas pernas, fui vítima fácil das propagandas de café, que me prometiam o paraíso edênico e a beleza de um astro de filmes de ação de Hollywood. Fui vítima das artimanhas dos sórdidos capitalistas e de seu marketing persuasivo. O marketing é, no mundo capitalista, o canto das sereias. E de nada adianta tampar os ouvidos com cera. As propagandas nos seduzem, não apenas pela audição; seduzem-nos pelo olfato, pela visão, pelo tato, pelo paladar. Inebriam os nossos cinco sentidos. São ladinos, astutos, os marqueteiros. Sabem como agarrar-nos pelo pescoço, e conduzir-nos para onde desejam que temos de ir. E eu, desguarnecido, como eu já disse, e não me repito ao me repetir, e nunca é demais destacar este ponto, e eu, eu dizia, angustiado e deprimido, à promessa de que eu, que tenho propensão a engordar, poderia vir a esculpir o meu corpo a ponto de adquirir a beleza cinematográfica dos astros de Hollywood e a beleza apolínea e dionisíaca dos heróis e dos deuses e dos semideuses gregos, e evoco os gregos, não os modernos, que são estúpidos e estão a afundar a Grécia, mas os antigos, da era de ouro da civilização helênica, deixei-me, eu dizia, ludibriar pelas propagandas, em minha fraqueza, excitada a minha vaidade de homem maduro, ou aparentemente maduro, supostamente maduro, presunçosamente maduro, ávido por atrair mulheres encantadoras, esculturais, formosas, que estão de mim a um universo de distância, em uma dimensão paralela. Resumindo: Deixei-me engabelar por malditos propagandistas, e aqui estou, eu, com os meus cento e onze quilos mal distribuídos em meus um pouco mais de um metro e sessenta de altura, sendo que, há um ano eu tinha, além de uns pneuzinhos na barriga, sessenta e sete quilos. Como me arrependo por me deixar ludibriar por aquelas propagandas, as quais, hoje reconheço, seduzem os tolos, os fracos, os débeis, os frágeis, os idiotas, os imbecis, os que não têm vontade própria. Em que inferno vivo! Em um inferno dantesco, o mais infernal de todos os infernos. Mas como, você talvez esteja se perguntando, e por educação não me faz a pergunta, que, eu sei, deseja me fazer, e coça a sua língua o desejo de fazer-ma, mas, por educação e respeito e consideração não ma faz, e como, eu dizia, cheguei a acumular em meu corpanzil tanta banha? Prepare-se para de mim ouvir um relato pormenorizado, nu e cru, estarrecedor, para usar uma expressão que está na moda, do que me sucedeu de doze meses para cá, tempo suficiente, mais do que suficiente, direi, para alterar, significativamente, consideravelmente, a minha figura, a minha silhueta, que, tenho de dizer, nunca foi uma das sete maravilhas da natureza. Recordo-me, como se fosse ontem: Em um domingo, o sol a pino, sob os efeitos anestésicos e inebriantes de uma propaganda de café, retirei-me da minha casa, e rumei ao mercadinho mais próximo, o do Zé Pereira, a um pulo de distância, para comprar café. Em um piscar de olhos, fui e voltei. Não esgotei as minhas forças. Naquele domingo, não bebi café. Principiei, supondo que eu rumava para o céu, a minha jornada rumo ao inferno, na segunda-feira. Nem uma escala no purgatório eu fiz. Fui direto para o inferno, o dantesco, como eu já disse, e repito, e que você não deixe de saber disso, e aprenda com os meus erros, e não cometa erros similares aos que cometi. Na segunda-feira, então, após aquele domingo, dei início ao consumo de café, substância tipicamente brasileira, dos trópicos, que, prometiam as propagandas, presentear-me-ia com a silhueta dos deuses… Do Olimpo? Não. Aliás, Sim, mas, além da deles, a dos de Hollywood, principalmente. E foi na manhã da segunda-feira, após acordar, escovar os dentes, banhar-me, vestir-me, preparado para o trabalho, árduo como é o trabalho de todo o santo dia, preparei-me a refeição da manhã, que consistia em oito fatias de pão-de-fôrma com geléia, um pedaço de pudim de coco, sete bisnaguinhas, um pacote de bolachas waffes, e uma xícara de café. Satisfeito, feliz, a animar-me a certeza da minha transformação, dentro de poucos dias, em uma beldade hollywoodiana, rumei para o trabalho. E encerrou-se o expediente às dezoito horas. E fui para casa, após uma visita à lanchonete. Não eram onze horas da noite, dormi. Na terça-feira, despertei de um sono revigorante, e alegraram-me o sonho situações alegres; minutos depois, o desjejum, que renovou as minhas energias, e concedeu-me forças para encarar mais um dia de trabalho laborioso: metade de um pudim de laranja, duas bananas, seis das doze coxinhas que eu comprara na noite anterior, dois pastéis de carne dos quatro que eu comprara na noite anterior, uma pêra e uma xícara de café fervendo de tão preto. Após retirar-me da loja, encerrado o expediente, rumei, com amigos, à pizzaria Santo Antonio, e lá permaneci até às onze horas da noite. E na quarta-feira, na refeição da manhã, sobre a mesa, para satisfazer-me a vontade de ingerir as substâncias que me forneceriam a energia indispensável para suportar um dia de trabalho intenso, enfiei, para dentro de meu estômago, quatro pães com manteiga, dois pães francês, recheados, cada um deles, com dois ovos de galinha fritos, leite com sucrilhos, dois pedaços de pizza que sobrou da noite anterior, cada pedaço correspondendo a um quarto de uma pizza, duas maria-moles e uma xícara de café, café pretíssimo, fumegante. Encerrado o expediente daquele dia, comemorei, com o Roberto e a Márcia, na lanchonete Vamos que Vamos, o primeiro aniversário de casamento deles. E na quinta-feira dei sequência à minha dieta: Além de uma xícara de café, que não podia faltar, bebi dois copos de leite de duzentos e cinquenta mililitros cada, com achocolatado, comi metade de um pudim de morango com cobertura de caramelo, bolachas de coco, bolachas de mel, bolachas com recheio de morango, bolachas com recheio de chocolate, bolachas com recheio de limão, um pastel de carne e um pastel de queijo dos que sobraram da noite anterior. O dia, intenso; o trabalho, exaustivo. E desincumbi-me de todos os meus afazeres com desenvoltura, e o meu chefe, o Alvarez, elogiou-me, e ele só elogia um subordinado seu que faz por merecer, e eu mereci, elogios. E na pizzaria do Bértão, após o expediente, comemoramos o aniversário da Ana Carolina, aquele pedaço de mal caminho. E encerrou-se o dia. E dormi. Na sexta-feira, no café-da-manhã, além de beber café, bebi leite com sucrilhos, dois copos cheios, um copo de guaraná, comi um pudim, um rocambole mesclado, metade de uma pizza de muzzarela que sobrou da festa da noite anterior, bolachas com recheio de chocolate, bolachas com recheio de laranja, rosquinhas de coco, rosquinhas de chocolate, rosquinhas de nata e duas bananas. Satisfeito, fui trabalhar. À noite, reuni-me com amigos no carrinho-de-lanche do João Louco. Depois, fui à festa de aniversário da Larissa. No sábado, trabalhei até uma hora da tarde, como em todos os sábados; antes, porém, na refeição da manhã, comi um x-tudo dos dois que eu comprara, na noite anterior, e alguns brigadeiros que da festa de aniversário da Larissa levei para casa, duas maria-moles, uma barra de chocolate, bolachas amanteigadas, bolachas de morango com recheio de mel, e bebi leite com sucrilhos, leite com achocolatado, e café, o infalível café, preto, pretíssimo, para dar-me a energia que me seria indispensável para enfrentar metade de um dia de trabalho durante o qual nenhum segundo de descanso eu teria. E à tarde daquele sábado fui à festa de casamento da Marta e do Nelson, e à noite fui à festa de aniversário do Rubens. Comi e bebi do bom e do melhor. E acordei, no domingo, às onze horas; antes de almoçar, na casa do Camilo, que preparou um churrasco supimpa, bebi, na minha casa, uma xícara de café. Durante as semanas que se seguiram àquela, a inaugural, repeti, com pequenas alterações, as refeições da manhã, ao desjejum, certo de que, no decorrer de um ano, ou dois, eu, com o poder milagroso do café, ganharia a silhueta que eu desejava, a de um sedutor irresistível. O café, patrimônio nacional, mais valioso do que o petróleo e o fio-dental, produto genuinamente brasileiro, presentear-me-ia, eu acreditava, influenciado pelas propagandas, com a silhueta dos deuses apolíneos. Arrependo-me, amargamente, e sofro, e você não imagina o meu sofrimento, por haver me deixado ludibriar tão facilmente pelas propagandas de café. Bebi café, todas as manhãs, seguindo orientações dos atores que protagonizavam, nas propagandas, os papéis de criaturas felizes, de bem com a vida, repletas de energia, afortunadas, que adelgaçaram a silhueta consumindo café. Lograram-me, os malditos produtores de café. Engordei a olhos vistos, como você pode ver, e está vendo. Prometeram-me o céu; e desci ao inferno, o inferno dantesco, não me canso de repetir. Nunca mais me deixarei enganar pelas propagandas. Nunca mais. Olhe para mim. Qual mulher me deseja, agora? Converti-me em objeto de irrisão. Sou alvo de chacotas. Olham-me torto, a sorrir. Maldição! Você aceita um cafezinho?

Os nomes

O enlace matrimonial se deu na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso, na manhã de um domingo radiante, que antecipava um dia ensolarado, que louvava a união de Renato e Célia, ele, na idade de vinte e dois anos, ela, de vinte e dois anos de idade, ele, natural de São José dos Campos, ela, de Taubaté, ele, de uma família de palmeirenses, ela, de uma família de corinthianos, ele, canhoto, ela, destra, ele, branco, ela, negra, ele, de inteligência curta e escassa leitura, ela, de inteligência igualmente curta e equivalente escassez de leitura. Amavam-se Renato e Célia. Conheceram-se, no carnaval, dois anos antes. Foi amor à primeira vista. Foi atração à primeira vista. Ele, forte, espadaúdo, de queixo quadrado, tórax amplo e bíceps de pedra, atraiu a atenção dela. Ela, de corpo escultural, de esplendorosa comissão de frente e deslumbrante bateria, atraiu os olhares dele. Travaram conhecimento um do outro. E encerrou-se no altar o relacionamento que principiou com o desejo carnal. Amavam-se. O semblante deles, na Igreja, durante a cerimônia matrimonial, de felicidade contagiante. Nos dois anos de namoro, tiveram as suas escaramuças, e atravessaram os sete círculos do inferno. Singraram todo o espaço, extenso e tortuoso, que levava ao céu. E no céu estavam naquele domingo alvissareiro.

Transcorreram-se os dias.

No consultório médico, souberam Renato e Célia que seriam pais de trigêmeos. Sorriram, consigo, extraordinariamente felizes. Trigêmeos! Trigêmeos! Eram os primeiros trigêmeos da família. Paulo, tio de Renato, e sua esposa, Marcela, são pais dos gêmeos Vicente e Mateus. José Carlos, irmão de Célia, e sua esposa, Rafaela, são pais das gêmeas Valéria e Larissa. João e Adriana, vizinhos de Renato e Célia, são pais de Cláudio e Cláudia. Há gêmeos na família; trigêmeos não há. Haverá. Nasceriam os três meninos dali quatro meses, fortes, robustos, belos, formosos, de nariz igual ao da mãe e focinho igual ao do pai.

Nos dias seguintes, sorridentes, Renato e Célia deram a notícia para os familiares e para os amigos. Não se continham. Renato seria pai de trigêmeos! Célia seria mãe de trigêmeos. Trigêmeos! Trigêmeos! Antecipavam as alegrias e as preocupações, as noites que passariam em branco, os choros; e viam os trigêmeos dez anos no futuro, meninos buliçosos, traquinas, espevitados, e os imaginavam na idade de vinte anos, fortes, altos, audazes, e em pensamento viajando através do tempo, via-os aos quarenta anos, de escassos cabelos brancos e pretos, casados, e pai, ou de três filhos, ou de dois, ou de quatro. Já se imaginavam avós. E perguntavam-se que nomes dariam aos meninos. Eram três meninos. Teriam de escolher um nome para cada um deles. Precisariam de três nomes. Quais seriam os nomes? Na casa dos pais de Célia, reunidos os familiares em festa, em certo momento, falando de nomes para as crianças, e ninguém se negou a fornecer as suas sugestões, Lidiane, prima de Célia, propôs:

– Três nomes com finais iguais.

– Não entendi – disse Célia, e os olhares de todos indicavam que ninguém entendera o que dissera Lidiane, que tratou de explicar:

– Escolher para os três meninos nomes cujas últimas sílabas sejam as mesmas. Sugestões: Roberto, Norberto e Heriberto.

– Cruz-credo! – exclamou Célia. – Que nomes horríveis!

– Horríveis? – perguntou o pai de Célia. – Horríveis, filha? Você esqueceu-se do meu nome? Meu nome é horrível, é?

Todos riram; todos gargalharam.

– Não, pai. Norberto é um nome horrível. Heriberto é um nome horrível. O seu, não. O seu é o mais bonito dos nomes.

– Filha. Filha – disse Roberto, em tom de censura amigável. – Você esqueceu-se do nome de seu avô, meu pai?

E todos, mais uma vez, gargalharam.

– A emenda saiu pior do que o soneto, filha – comentou Margarida, mãe de Célia. – Seu pai, Roberto; seu avô, pai de seu pai, Norberto; seu bisavô, pai de minha mãe, Heriberto.

De tão estrondosas e ensurdecedoras as gargalhadas que se seguiram, que a estrutura da casa tremeu.

E sugeriram outros nomes.

Eis as sugestões de Marcos, irmão de Renato:

– Juvenal, Lourival e Durval.

Gargalharam todos.

– Que nomes horríveis! – foi unânime a rejeição.

– E não combinam – observou Lidiane. – “Nal” de Juvenal não combina com “val” de Lourival e Durval.

E Laura, prima de Renato, sugeriu:

– Bartolomeu, Romeu e Tadeu.

– Não combinam – observou Célia. – A última sílaba de Tadeu é ‘deu’, e não ‘meu’ como a de Bartolomeu e de Romeu. Além disso, os três nomes são feios.

– Feios? – perguntou, indignada, Madalena, tia de Renato. – Tadeu é o nome de meu pai, que é avô, portanto, de Renato, seu marido.

E todos gargalharam.

– Pense antes de falar, Célia – aconselhou-a Renato.

– Então – sugeriu Márcia, tia de Renato -, que seja Irineu.

– A última sílaba de Irineu é ‘neu’ – observou Roberto.

– É verdade – comentou Márcia, censurando-se.

– Que sejam os seus filhos – sugeriu Roberto – batizados com nomes da terra de meus ancestrais: Albertino, Severino e Balduíno.

E uma onda de gargalhadas arrasou a casa, como um tsunami.

– E não ria, filha – censurou-a Roberto. – E não diga que tais nomes são feios. Um de meus tataravôs chamava-se Albertino, e um outro, Balduíno, e um outro, Severino.

E seguiram-se as gargalhadas.

– Josias e Jeremias! – exclamou Pedro, ou Pedrinho, irmão caçula de Renato. – Na minha escola, são meus amigos o Josias e o Jeremias.

– Jeremias e Josias são dois nomes – observou Célia. – Tem de ser três nomes.

– Escolhe estes dois – sugeriu Pedro. – O terceiro nome o acharemos em outro dia.

Riram à solução do menino.

– Tobias pode completar o trio – disse Roberto.

Célia e Renato não gostaram dos nomes.

– Tenho uma proposta – disse Neusa, vizinha. – Adriano, Mariano, Fabiano e Feliciano.

– Quatro nomes – observou Madalena. – Precisam Renato e Célia de três nomes, e não de quatro.

– Faltou um nome para o Pedrinho – comentou Roberto – e sobrou um nome para a Neusa. Vocês nunca estudaram aritmética?

E todos riram. E todos gargalharam.

– Que tal João, Carlão e Tonhão? – sugeriu Roberto.

E riram. E gargalharam.

E encerradas as gargalhadas, seguiram-se outras sugestões.

– Adroaldo, Osvaldo e Ricardo – sugeriu Vinicius, irmão de Célia.

– O quê? – perguntou Maristela, prima de Renato. – Não combinam.

– A última sílaba dos três nomes é ‘do’ – defendeu a sua sugestão Vinicius.

– Mas não combinam – replicou Maristela. – ‘aldo’ de Adroaldo, ‘aldo’ de Osvaldo, e ‘ardo’ de Ricardo…

– Essa ardeu em meus ouvidos – interrompeu-a Roberto.

– Então – disse Vinicius -, que sejam Adroaldo, Osvaldo e Ariovaldo.

– Ou Geraldo, Rivaldo e Nivaldo – sugeriu Cecília, irmã de Célia.

– Já sei – clamou Pedro, chamando a atenção de todos para si. – Já sei os nomes dos meus primos.

– Dos seus primos, não – corrigiu-o Renato. – Dos seus sobrinhos.

– Você será tio deles, Pedrinho – informou-o Roberto.

– Já sei qual será os nomes deles: José, Josué e André.

– São diferentes… – principiou Célia, e interrompeu-a Pedro:

– Todos os nomes terminam com ‘é’.

– Sim – concordou Mário, primo de Renato, para, em seguida, completar: – Mas a última sílaba de cada nome é diferente umas das outras: ‘zé’, ‘é’ e ‘dré’.

– Conheço vários nomes com a mesma última sílaba – disse Ricardo, primo de Renato, até então em silêncio. – São… – e fez ar de quem contava, em pensamento. – São dez nomes: Denílson, Edson, Edmilson, Adilson, Gerson, Gilson, Jackson, Jéferson, Nilson e Nelson.

E discutiram qual era o melhor trio:

– Gostei de Gilson, Denílson e Nilson – disse Roberto.

– Eu, de Nelson, Jéferson e Edmilson – disse Vinicius.

– Prefiro Adilson, Jackson e Edson – disse Renato.

– Adilson, Gerson e Jéferson são mais bonitos – disse Madalena.

E apresentaram dezenas de outros trios, até que Ricardo apresentou uma lista com sete nomes: Daniel, Rafael, Manoel, Gabriel, Miguel, Israel e Natanael, e acalorou-se o debate.

Quais seriam os nomes dos trigêmeos de Renato e Célia? Daniel, Miguel e Israel? Denílson, Gerson e Nelson? Albertino, Severino e Balduíno? Juvenal, Lourival e Durval? Adroaldo, Osvaldo e Rivaldo? Rafael, Manoel e Natanael? Gilson, Nilson e Adilson? Fabiano, Mariano e Feliciano? Jéferson, Jackson e Edson? Nivaldo, Geraldo e Ariovaldo? Eram tantas as opções, que discutiram durante uma hora, até que, enfim, Renato e Célia optaram pelos nomes que mais os agradavam: Daniel, Rafael e Gabriel. E esses os nomes que os três meninos receberam à pia batismal.

Decorridos dois anos e quatro meses dos eventos até aqui narrados, Renato e Célia, ela em nova gestação, receberam, no consultório médico, a notícia, que os surpreendeu enormemente: Célia está grávida de trigêmeas.

– E dizem que dois raios não caem no mesmo lugar! – sentenciou Roberto, ao receber a notícia.

E reuniu-se a família.

E selecionaram os nomes para as meninas.

E as três meninas teriam nomes com a mesma última sílaba.

Apresentaram dezenas de sugestões, e Célia por nenhuma delas se decidiu, por uma razão: Queria que uma das meninas se chamasse Beatriz, em homenagem à avó de Célia, a sua madrinha de batismo, falecida havia cinco anos. E ninguém conhecia outro nome de mulher com última sílaba em ‘triz’.

– Renato – disse Célia, no dia seguinte -, ninguém, na casa de meus pais, soube dizer outro nome, além de Beatriz, com última sílaba em ‘triz’. Vamos consultar o pai dos burros à procura de nomes que nos agradem.

E mãos à obra… no dia seguinte.

No transcurso dos dias, compulsaram Renato e Célia vários tomos de repositórios do idioma vernáculo. Alguns pesavam toneladas.

– Este pai dos burros – comentou Renato enquanto folheava um tomo de quase duas mil páginas impresso em 1940 – está velho e obeso. Deus me livre! Que peso!

– Este pai dos burros – comentou Célia, certo dia, na Biblioteca Municipal, tendo à mão um fino Pequeno Dicionário Escolar da Língua Portuguesa de não mais do que cem páginas – está tão magrinho, coitado! Desnutrido, o bendito!

– Este pai dos burros – disse Renato, em outra ocasião, um minidicionário à mão – é tão nanico, tão nanico, que, se tentar escalar um pé de alface, dele não chegará à metade.

– Este pai dos burros – comentou Célia, avaliando um dicionário de bolso – está esbelto. É um pouco baixo, mas de bom tamanho.

E sucederam-se os dias.

E encontraram Renato e Célia os dois nomes que rimavam com Beatriz.

E nasceram as trigêmeas.

E Renato e Célia, no Cartório de Registro Civil, registraram os nomes de suas filhas: Beatriz, Diretriz e Meretriz.

O pedaço de bolo de chocolate

Uma história do Joãozinho

Era um domingo como outro domingo qualquer. Nem quente, nem frio.

Na casa de número 3443 da Rua das Caraminholas, que com a Rua das Caravelas, a Rua das Caravanas, a Rua das Carapaças e a Rua dos Caranguejos faz intersecções, no Bairro dos Caraminguás, vizinho, ao leste, do Bairro das Carambolas, ao oeste, do Bairro dos Caramujos, ao norte, do Bairro do Caramanchão, ao sul, do Bairro das Carantonhas, vive uma família de quatro pessoas: os genitores, ele, pai de Joãozinho, ela, mãe de Joãozinho, e os seus filhos, ele, o primogênito, Joãozinho, ela, irmã de Joãozinho. Às seis horas da manhã, retiraram-se da casa a mãe e sua filha, que rumaram para a casa dos avós maternos de Joãozinho, situada na cidade vizinha, no número 4334 da Rua dos Carrapichos, que com a Rua dos Carrapatos e a Rua dos Carrascos faz intersecções, no Bairro do Carajé, vizinho, ao leste, do Bairro do Caramelo, ao oeste, do Bairro da Carraspana, ao norte, do Bairro do Caramuru, ao sul, do Bairro dos Caraíbas. E o pai e seu filho acordariam, o primeiro, às oito horas, o segundo, às dez. E o pai de Joãozinho, banho tomado, dentes escovados, leite de um copo de vidro bebido e um bolinho de caramelo degustado, preparou, na cozinha, na mesa, as refeições matinais, a sua e a de seu filho. Joãozinho, banho tomado e dentes escovados, foi à cozinha. E à mesa sentaram-se pai e filho. Este, ao ver sobre a mesa um bolo de chocolate e um pedaço de bolo de chocolate e à mão de seu pai uma faca, e ele preparando-se para cortar o bolo, disse-lhe, detendo-o:

– Não quero o bolo.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Não – respondeu Joãozinho.

– E o que você vai comer? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande esse pedaço de bolo.

– Não é, não.

– Vou cortar… – e inclinou-se o pai de Joãozinho para o bolo, a faca na mão direita, preparando-se para cortá-lo, mas não o cortou. Impediu-o Joãozinho.

– Não pode cortar o bolo de chocolate – disse Joãozinho.

– Mas o pedaço de bolo é grande.

– Eu quero o pedaço inteiro.

– O quê?

– Eu quero o pedaço inteiro.

– Pedaço inteiro!?

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande. – comentou o pai de Joãozinho.

– Não é, não.

– Vou cortar um pedaço deste bolo… – disse o pai de Joãozinho, que não completou a frase porque impediu-o Joãozinho.

– Não quero um pedaço de bolo de chocolate – disse, firme, sério, Joãozinho. – Quero o pedaço inteiro.

– Mas, filho…

– Quero um pedaço inteiro; não quero um pedaço cortado.

– Pedaço inteiro? Pedaço cortado?

– Este é o pedaço inteiro – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– E o pedaço cortado?

– É um pedaço cortado.

O pai de Joãozinho encasquetou com a distinção que seu filho fazia de pedaço inteiro e pedaço cortado; considerando divertido e intrigante o que ele dizia, decidiu dar sequência à conversa para de Joãozinho extrair definições claras do que ele queria dizer com pedaço inteiro e pedaço cortado.

– Filho, cortarei um pedaço deste bolo…

– Não quero um pedaço cortado.

– Filho…

– Quero o pedaço inteiro.

– Cortarei do bolo um pedaço do mesmo tamanho do…

– Não quero um pedaço cortado de bolo.

– O pedaço cortado do bolo de chocolate terá o tamanho desse pedaço inteiro – apontou o pai Joãozinho para o pedaço de bolo.

– Não quero um pedaço cortado; quero o pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado do bolo de chocolate do mesmo tamanho do pedaço inteiro é igual ao pedaço inteiro.

– Não é, não.

– Então, eu cortarei do bolo um pedaço maior do que o pedaço inteiro; sendo maior, é melhor.

– Não é, não. Pedaço cortado é pedaço cortado; e pedaço inteiro é pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado e um pedaço inteiro são iguais se ambos tiverem o mesmo tamanho.

– Não são, não.

– Ambos os pedaços, o inteiro e o cortado, são gostosos.

– Não são, não.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho, intrigado.

– Não – respondeu Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

– Mas, sendo o pedaço inteiro e o pedaço cortado do mesmo tamanho, iguais eles são, e, portanto, terão o mesmo gosto. Ambos os pedaços serão gostosos.

– Não. Não. E não. Eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado.

– Por quê? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo.

– Por que o pedaço inteiro não é um pedaço cortado. E eu, que gosto de pedaço inteiro, e não gosto de pedaço cortado, quero o pedaço inteiro, e não um pedaço cortado.

– Não entendi – comentou o pai de Joãozinho, rindo consigo. – O pedaço inteiro do bolo de chocolate é de chocolate. O bolo, aqui – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – é de chocolate. Se eu cortar deste bolo um pedaço do mesmo tamanho do pedaço inteiro – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro e terá o mesmo gosto dele.

– Não terá o mesmo gosto, não – replicou Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que um pedaço cortado. O pedaço inteiro não é um pedaço cortado. O pedaço cortado não é um pedaço inteiro. O pedaço inteiro é o pedaço inteiro. Um pedaço cortado é um pedaço cortado. E eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado. O bolo é de chocolate. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. O pedaço cortado de bolo de chocolate é de chocolate. Mas o pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não é um pedaço cortado de bolo de chocolate, e, sendo um pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não um pedaço cortado de bolo de chocolate, tem gosto de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e um pedaço cortado de bolo de chocolate tem gosto de pedaço cortado de bolo de chocolate, e de pedaço cortado de bolo de chocolate eu não gosto.

Mais confuso do que no início, o pai de Joãozinho perguntou-se se foi uma idéia sensata insistir na conversa com o propósito de extrair de seu filho esclarecimentos sobre as distinções que ele fazia entre pedaço inteiro e pedaço cortado. Contrariando a si mesmo, melhor, a metade de si que desejava encerrar o assunto e tratar de outro tema, e atendendo à metade de si curiosa por saber o que seu filho entendia por pedaço inteiro de bolo de chocolate e pedaço cortado de bolo de chocolate, disse:

– Filho, o bolo é de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. Se eu cortar do bolo de chocolate um pedaço, o pedaço cortado será, como o bolo de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate, de chocolate. Chocolate é chocolate. O bolo é de chocolate, e todos os seus pedaços cortados são de chocolate. Se eu cortar o bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – em cinco pedaços, todos do tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, todos os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate serão iguais ao pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não diferentes. Serão do mesmo tamanho. O pedaço inteiro de bolo de chocolate e os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate terão o mesmo gosto, e todos os seis pedaços serão de chocolate. Tanto faz comer ou o pedaço inteiro de bolo de chocolate ou um dos cinco pedaços cortados de bolo de chocolate, filho. Você gostará de qualquer um deles.

Joãozinho meneou a cabeça, desconsolado.

– Ai. Ai – suspirou Joãozinho.

– O que eu disse não está certo? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo. A sua expressão impassível não transparecia a hilaridade que lhe animava os pensamentos. Queria emprestar traços sérios, respeitáveis à sua fisionomia, e receava trair-se.

– Não – respondeu-lhe Joãozinho, seco. – Não está certo, não.

– Quero entender, filho, o que você me disse. Então, proponho para você uma brincadeira: Você cobrirá, com as mãos, os olhos, e eu cortarei um pedaço do bolo de chocolate, e o deixarei ao lado do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e os misturarei, e avisarei você, e você descobrirá os olhos, e pegará um pedaço de bolo de chocolate sem saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– O senhor não pode fazer isso, papai – resmungou Joãozinho.

– Por que não?

– Por que eu tenho que ver o senhor cortando o bolo para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate; se eu não ver qual foi o pedaço que o senhor cortou e pôs perto do pedaço inteiro de bolo de chocolate, eu, ao pegar um dos dois pedaços, poderei pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu não quero o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– Mas você, filho, não vendo qual pedaço cortei, não saberá qual é o pedaço cortado e qual é o pedaço inteiro.

– Se eu pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, que eu não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero, comerei o pedaço cortado de bolo de chocolate, que é o que não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero.

– Se você não souber qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, o pedaço que você pegar, ou o inteiro ou o cortado, e comer, será de chocolate, e gostará dele, portanto, filho, você, não sabendo qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, poderá comer qualquer um dos pedaços, e dele gostará.

Joãozinho olhou, com ar desconsolado, para o alto, e suspirou.

– Ai. Ai.

– O que eu disse não está certo?

– Não, né – respondeu Joãozinho, irritado. – Papai, o senhor não entendeu o que eu disse. Se eu cobrir, com as mãos, os olhos, e o senhor cortar o bolo de chocolate em pedaços iguais, todos do mesmo tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu, ao escolher um pedaço de bolo para comê-lo, em vez do pedaço inteiro, que é o que eu gosto, pegar o pedaço cortado, e comê-lo, e gostar dele, eu gostarei do pedaço cortado de bolo, e não do pedaço inteiro, isto é, eu gostarei do pedaço que eu não gosto; se eu não gosto de pedaço cortado, de pedaço cortado não posso gostar; eu tenho de gostar do pedaço que eu gosto, que é o pedaço inteiro, e não do pedaço que eu não gosto, que é o pedaço cortado. Então, entendeu pai, eu tenho de ver o senhor cortar o bolo de chocolate para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu gosto de pedaço inteiro, e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate, e eu não gosto de pedaço cortado. O pedaço inteiro e o pedaço cortado não são a mesma coisa.

– São, sim.

– Não são, não.

– Se eu cortar um pedaço deste bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro.

– Não será, não, papai. O pedaço inteiro é o pedaço que estava em cima da mesa; e o pedaço cortado é o pedaço que o senhor cortará do bolo. Quando eu cheguei aqui, vi, em cima da mesa, um bolo de chocolate e um pedaço inteiro de bolo de chocolate.

– Mas este pedaço inteiro é um pedaço de um bolo de chocolate que, ou eu, ou sua mãe, cortou; portanto, o pedaço que você diz ser pedaço inteiro é, na verdade, um pedaço cortado, porque, ou eu, ou sua mãe, o cortou de um bolo de chocolate. Se eu cortar, deste bolo – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, um pedaço igual ao pedaço inteiro de bolo – e tocou, com a ponta da face, o pedaço de bolo de chocolate -, ambos os pedaços serão iguais.

– Não serão, não – replicou Joãozinho, visivelmente irritado. – O pedaço de bolo de chocolate que está na mesa é um pedaço inteiro. Quando eu cheguei aqui, o pedaço já estava aqui, e estava inteiro; ninguém o cortou; eu não o cortei; o senhor não o cortou; ninguém o cortou; o pedaço, agora, está inteiro como inteiro estava quando eu o vi quando cheguei e sentei-me nesta cadeira. O bolo de chocolate está inteiro, e se o senhor o cortar em pedaços, os pedaços serão cortados, e pedaços cortados não são pedaços inteiros; são pedaços cortados. Eu verei o senhor, papai, cortando o bolo de chocolate, e do bolo de chocolate tirando um pedaço, pedaço este que o senhor me dará, e este pedaço será um pedaço cortado, porque vi o senhor cortando o bolo em pedaços, e todos os pedaços que do bolo o senhor cortar serão pedaços cortados, e não pedaços inteiros. O pedaço inteiro é o pedaço que já estava aqui na mesa quando eu cheguei, e não vi ninguém o cortando, então, este pedaço é um pedaço inteiro, e não um pedaço cortado. Não vi ninguém cortando um bolo, e do bolo tirando este pedaço – e apontou para o pedaço de bolo de chocolate. – Eu vi este pedaço, que estava inteiro quando eu o vi, e não vi ninguém cortá-lo de um bolo, então é um pedaço inteiro este pedaço de bolo de chocolate. Se o senhor cortar o bolo em pedaços, os pedaços serão cortados, e o pedaço que o senhor me der será um pedaço cortado, e não um pedaço inteiro. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro que eu vi quando cheguei aqui na cozinha; e o pedaço cortado de bolo de chocolate será o pedaço que o senhor cortará do bolo. Entendeu, papai?

A pergunta Joãozinho a fez num tom atrevido, que denotava impaciência e desconsolo. O pai de Joãozinho ria-se consigo, olhos fitos em seu filho, tentando entender como funcionava aquele cérebro infantil. Com o que dele ouviu, não pôde avaliar… Aliás, não pôde avaliar o que ouviu. Decidiu, então, encerrar a conversa, contrariando a metade de si que desejava dar-lhe sequência.

– Entendi, filho. Você gosta de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não gosta de pedaço cortado de bolo de chocolate, porque o pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

Joãozinho abriu um largo sorriso, da orelha direita à orelha esquerda, como a dizer: “Papai é inteligente. Ele entendeu o que eu disse.”, o rosto a transparecer a felicidade que o animava.

– Filho – disse o pai de Joãozinho -, coma o pedaço inteiro de bolo de chocolate. É tão gostoso…

O Pólo Norte

Uma história do Joãozinho

Estavam, na casa do avô do Joãozinho, na biblioteca, Joãozinho, a irmã do Joãozinho e o avô do Joãozinho. O avô do Joãozinho era professor de Geografia. Na biblioteca, que o avô do Joãozinho chamava de O Esconderijo, além de livros, havia mapas e um globo do tamanho de uma bola de futebol.

E conversavam o avô do Joãozinho e a irmã do Joãozinho, quando Joãozinho, atraído pelo globo, tirou-o do suporte, olhou de um lado para o outro, e, vendo que ninguém olhava para ele, pôs-se a fazer embaixadinhas.

Em um determinado momento da conversa, o avô do Joãozinho disse para a irmã do Joãozinho que no Pólo Sul há pinguins, e no Pólo Norte não, e que no Pólo Sul há um continente, Antártida, e no Pólo Norte não há um continente. Curiosa, a irmã do Joãozinho perguntou ao seu avô:

– Vovô, o que há no Pólo Norte?

– Veja no globo – disse-lhe o avô; ele sabia a resposta, claro, mas queria que sua neta se acostumasse a consultar o globo sempre que desejasse saber algo sobre Geografia.

A irmã do Joãozinho virou-se, viu Joãozinho a fazer embaixadinhas com o globo, voltou-se para seu avô, e disse-lhe que Joãozinho estava jogando futebol com o globo. E o avô do Joãozinho, sem se levantar da cadeira, disse para Joãozinho:

– Joãozinho, pare de brincar com o globo. O globo não é bola de futebol. E diga para sua irmã o que há no Pólo Norte.

– O que é o Pólo Norte, vovô? – perguntou Joãozinho, sem parar de fazer embaixadinhas com o globo.

– A parte de cima da Terra – respondeu-lhe o avô. – Como o globo é a representação da Terra em miniatura, então, o Pólo Norte é a parte de cima do globo.

– A parte de cima, vovô? – perguntou Joãozinho, enquanto fazia embaixadinhas com o globo.

– Sim – respondeu o avô. – Pare de chutar o globo, que não é uma bola de futebol, e veja o que há no Pólo Norte, Joãozinho.

– O Pólo Norte é a parte de cima, né, vovô? – perguntou Joãozinho.

– É, Joãozinho. É – respondeu-lhe o avô. – Diga para sua irmã o que há no Pólo Norte.

Joãozinho parou com as embaixadinhas, e segurou, firmemente, com as duas mãos, o globo, olhou para a parte de cima dele, e disse:

– Austrália.

Vídeos caseiros

– Ontem, no ônibus, vi uma gata de parar o trânsito! Ela não usava sutiã; usava um vestido decotado! Meu Deus! Que mulher! Filmei-a com o telefone celular. Mário, a gata não percebeu que a filmei. Você quer assistir ao vídeo? Filmei uma gata de parar o trânsito! Você quer vê-la?

– Quero. Deixe-me vê-la, Adriano. Ligue o computador. Quero ver a gata. Quero vê-la.

– Acalme-se. Controle-se. Controle-se. Tenho de ligar o computador.

– Ligue-o, Adriano. Ligue-o. Quero ver a gata. Ligue o computador.

– Você verá a maior gata da cidade. Um avião! Violão! Morena! Deliciosa! Uma sereia. Esqueça as mulheres das revistas que você tem na sua casa. Esqueça-as. Comparadas com a morena que filmei, elas são bruxas com uma verruga horripilante na ponta do narigão. A gata que vi, hoje, põe no chinelo todas as mulheres famosas que aparecem nas fotos das revistas. Elas são mulheres fotochopadas, falsificadas. A gata que filmei, não. Ela é mulher de carne e osso. Você irá babar de desejo ao assistir ao vídeo.

– Pare de falar, e ligue o computador.

Mário e Adriano, na casa de Adriano, no quarto dele, diante do computador, sentados, cada um em uma cadeira giratória, olhavam para o monitor que o pai de Adriano comprara no Natal.

Dos quinhentos gigabytes do disco rígido, cento e oitenta e cinco armazenavam vídeos caseiros que Adriano, Mário e os seus amigos gravaram, nos dois anos anteriores, com câmeras de telefones celulares e com filmadoras.

Computador ligado, Adriano clicou sobre o ícone da pasta dos seus vídeos caseiros, e digitou a senha. Apareceram centenas de ícones de arquivos de vídeos.

Clicou, duas vezes, rapidamente, sobre o ícone que trazia a data do dia anterior. No monitor apareceu uma morena voluptuosa de vestido verde, que lhe modelava o corpo, realçando-lhe os atrativos. Ela se destacava num oceano de mulheres desprovidas de beleza.

Mário, embasbacado, arregalou os olhos e escancarou a boca. A morena era uma mulher cuja beleza superava a de todas as mulheres que ele já havia visto e imaginado. Adriano provocava-o, dava-lhe cotoveladas no ombro, dizia-lhe que o melhor estava por vir, exortava-o a parafusar o queixo, que se desprenderia da cabeça e cairia no chão, se ele não tomasse tal providência.

Em diversos trechos do vídeo aparecia o asfalto, os pisos da calçada, carros, pessoas que passavam por Adriano. Em outros, o vídeo escurecia, e nada se via. Mário protestava, insultava Adriano, que, defendendo-se, explicava-lhe o que ocorreu em certos momentos durante os quais gravava o vídeo. Mário, que não queria ouvir explicações, queria admirar a deusa dos trópicos, aquele pedaço de mal caminho, esbravejava, e desferia tapas na nuca de Adriano e encaixava-lhe socos no ombro, e ele revidava – a escaramuça assemelhava-se às cenas de pastelão do cinema mudo. Estapearam-se, até que atraíram-lhe a atenção imagens nítidas da morena de vestido verde.

Embora houvesse se deparado com dificuldades imensuráveis, Adriano filmara, durante, aproximadamente, trinta minutos, a estonteante morena de vestido verde, de cujo corpo obtivera imagens nítidas, reveladoras; as mais excitantes ele as obtivera a partir do momento em que ela parou em um ponto de ônibus. A partir deste trecho os olhares dos dois jovens convergiram para o monitor. Sentados, curvaram-se, fincaram os cotovelos nos joelhos, e sustentaram o queixo, Mário, com as palmas das mãos abertas e os dedos cobrindo o rosto, Adriano, com os dedos entrelaçados.

Passou despercebida da morena de vestido verde a atitude de Adriano, que, parado ao lado dela, o telefone celular à mão, fingindo procurar o número de um telefone, filmava-lhe o belo rosto e o decote revelador. Quando ela se curvou para a frente, e coçou o joelho direito, Adriano dela registrou imagens dos peitos quase inteiramente nus. Mário, estupefato, levou, automaticamente, as mãos, espalmadas, à testa, puxou os cabelos para trás, encostou-se ao encosto da cadeira, desencostou-se, curvou-se, fincou os cotovelos nas coxas e com as mãos cobriu a boca. Adriano divertia-se com a atitude dele. Ria, zombava dele. Mário deu-lhe um tapa na nuca, desfazendo-lhe o penteado, que Adriano, rindo, ajeitou.

Além de Adriano e da morena de vestido verde, havia duas pessoas no ponto de ônibus: um homem avançado em idade, concentrado na leitura de um catálogo de loja de eletrodomésticos, e uma garotinha de uns dez anos que cantava uma canção infantil. Após uns três minutos registrando, com intervalos, imagens do busto da morena de vestido verde, Adriano recuou alguns passos, posicionou-se atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, filmou o que a morena escondia sob o vestido verde, cuja franja mal descia-lhe à metade das coxas, e revelou a calcinha que cobria o espaço estreito entre as nádegas bem esculpidas. Agitaram-se os dois garotos. Moviam as pernas para os lados, para cima e para baixo. Mário levava as mãos à cabeça, cobria, com as mãos, a boca, e mordia, ora o lábio inferior, ora o lábio superior. Adriano ria da atitude de Mário, que o mandava calar-se.

Um ônibus parou no ponto de ônibus. A menina subiu no ônibus; em seguida, o homem, que até então lia o catálogo de loja de eletrodomésticos, subiu; após ele, a morena de vestido verde. Adriano, atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, e dela revelou, com maior nitidez, a parte inferior do corpo. Como o ônibus estava lotado, a morena de vestido verde teve de deter-se assim que pousou os pés no primeiro degrau. Adriano, aproveitando das facilidades que a situação oferecia-lhe, gravou imagens reveladoras das formas bem arredondadas e firmes das nádegas e do tecido fino que cobria o espaço entre elas. Vibraram de volúpia os dois garotos.

Os passageiros apertavam-se dentro do ônibus.

Para conseguir entrar no ônibus, Adriano pôs-se ao lado da morena de vestido verde, e dela gravou imagens do rosto e do decote. Temia que alguém o surpreendesse filmando-a, e, com indiscrição, revelasse, para todas as pessoas presentes no ônibus, o que ele fazia.

O ônibus pôs-se a andar. Sacolejava ao passar por ruas esburacadas.

Saíram do ônibus várias pessoas; entraram quatro.

Adriano, assim que o ônibus retomou a viagem, telefone celular na mão, registrou imagens do corpo da morena de vestido verde. Ao parar no ponto de ônibus seguinte, o ônibus recebeu mais cinco passageiros, e mais de dez passageiros desceram. Os passageiros que estavam em pé puderam se deslocar pelos estreitos espaços vazios. A morena de vestido verde andou uns dois metros, abrindo espaço entre os passageiros em pé. A sua beleza irradiante e o seu porte exuberante atraíram a atenção dos homens, que, libidinosos, a devoravam com o olhar, cobiçando-a. Adriano seguiu-a, cuidadoso; receava – notou os olhares dos homens convergindo para a estonteante morena de vestido verde – que alguém o flagrasse filmando-a. A morena de vestido verde deteve-se, e do banco mais próximo a mulher que o ocupava levantou-se, e pediu-lhe licença. Carregava ao colo uma caixa e a tiracolo uma sacola branca com o nome fantasia de uma loja de calçados. A morena de vestido verde cedeu-lhe passagem. A mulher deslocou-se, desajeitadamente, pedindo licença; os passageiros abriam-lhe passagem, espremendo-se uns nos outros. A morena de vestido verde sentou-se no banco desocupado, ajeitou o vestido, passeou as mãos pelos cabelos, puxou-os por sobre o ombro direito, e os soltou. Esparramaram-se-lhe pelo busto e pelo ombro os cabelos sedosos. Adriano, em pé, ao lado dela, fitava-a, mordia os lábios quando ela, com movimentos suaves, para ajeitar os cabelos, ou o vestido, revelava uma pequena parte a mais dos peitos e das coxas. Filmava-a. Pensava que agia com discrição ímpar. Duas mulheres, sentadas no banco atrás do qual a morena de vestido verde estava sentada, entenderam o que Adriano fazia, entreolharam-se, e sorriram, maliciosas; e à direita de Adriano um homem, que olhava para a morena de vestido verde, sorriu ao ver a imagem dela na tela do telefone celular na mão de Adriano.

A viagem durou um pouco mais de vinte minutos. O ônibus parou na rodoviária. A morena de vestido verde levantou-se. Adriano permitiu que ela lhe passasse à frente, e filmou-a de trás, por baixo do vestido.

Todos os passageiros desceram do ônibus. Adriano seguiu a morena de vestido verde, à distância de cinco metros, durante uns cinco minutos, até uma casa, cujo portão ela abriu, e entrou.

As imagens excitaram os dois garotos, que teciam os comentários mais obscenos que a imaginação inspirou-lhes.

Mário, eufórico, ao fim do vídeo, perguntou para Adriano:

– Que tal ir até à casa da morena?

– Não é má idéia – comentou Adriano, eufórico. – Não é má idéia. Se ela mora naquela casa, e acho que ela mora lá… Vamos lá. Quem sabe, se dermos sorte…

– Que beleza, Adriano! Gata! Mulherão! Cara! A gata é um pedaço de mal caminho!

– Eu disse para você que ela é uma gata. Você não me quis acreditar.

– Vamos assistir ao vídeo mais uma vez, mais duas vezes, mais três vezes, mais mil vezes.

– Espere um pouco. Vou lançar o vídeo na internet. Quero que todos vejam a maravilhosa morena de vestido verde. O mundo tem de conhecê-la.

– Vamos assistir ao vídeo.

– Assim que eu lançar o vídeo no Youtube, o assistiremos mais mil vezes.

Mário e Adriano assistiram ao vídeo duas vezes.

*

Nas duas semanas seguintes, Mário e Adriano procuraram pela morena de vestido verde. Não a encontraram – mas eles não perdiam a viagem. Tiveram a felicidade de encontrar outras mulheres bonitas as quais ou trajavam calças justas, ou saias, ou minissaias, ou vestidos, e usavam decotes profundos – e gravaram vídeos revelando delas as roupas íntimas, as que as usavam. Mário e Adriano, embasbacados, assistiram aos vídeos várias vezes. Deleitavam-se. Divertiam-se gravando vídeos. Enfrentaram alguns dissabores enquanto os gravavam: Uma mulher, ao virar-se bruscamente, viu Adriano com o telefone celular na mão, desconfiou do que ele fazia, e exigiu-lhe explicações, Adriano desconversou, ela enfureceu-se, e ele deu meia-volta, e dela afastou-se, antes que as obscenidades que ela cuspia chamassem a atenção de muita gente; um grandalhão enfureceu-se ao ver Mário atrás de uma loira, filmando-a com o telefone celular, e encaixou-lhe um murro no nariz, e Mário, ao recompôr-se, sangue se lhe escorrendo em profusão do nariz, correu como nunca havia corrido, e, ao encontrar-se com Adriano, exibiu-lhe o nariz quebrado como se exibisse um troféu.

Mário e Adriano diziam que a profissão de videoamador era muito arriscada, muito perigosa, mais perigosa e mais arriscada, até, do que a de correspondente de guerra e a de jornalista investigativo. Diziam, gracejando, que poderiam, inadvertidamente, vir a se deparar com uma filha de dom Corleone, ou com a de um mafioso russo ou a de um membro da yakusá.

Transcorreram-se dois meses. Mário e Adriano não encontraram a morena de vestido verde. Esqueceram-na, depois de tantos dias sem vê-la.

*

– Adriano! Mário! – exclamou Gilberto, entusiasmado. – Vocês não vão acreditar. Vi um mulherão de derrubar o queixo! Enviei o vídeo para o seu computador, Mário. Vocês não vão acreditar! Meu Deus! Mário, vá à sua casa, e acesse o arquivo *¢. Tá lá, o vídeo da loiraça! Meu Deus! Loiraça de parar o trânsito e fechar o comércio! Loira usando camisa decotada e shortinho agarradinho! Imaginem a loiraça. Vocês não podem imaginá-la. Que melões! Não são limõezinhos, como os da Paola; nem laranjas, como os da Cláudia; nem ovos fritos, como os da Fabiana, que de bom só tem a bunda; nem melancias, como os da Samantha. Melões! Melões! Adriano, você, que gosta de peitos, vai se deliciar! Vocês não vão acreditar! Não perca tempo, Mário. Vá à sua casa, ligue o computador, e acesse o arquivo *¢. Vá com o Mário, Adriano. Você não perderá a viagem.

Ao chegarem à casa de Mário, Adriano e Mário, mal conseguindo conter o ânimo que as palavras de Gilberto atiçaram correram ao quarto. Mário ligou o computador. Acessou o arquivo *¢. Mário e Adriano esfregaram as mãos. O monitor exibiu o vídeo. No início, apareceram imagens desfocadas. Gilberto proferia obscenidades e filmava o próprio rosto. Corria, afobado. Ia, dizia ele, atrás de uma loira de bicicleta. Tropeçou. Desequilibrou-se. Caiu. Recompôs-se rapidamente. Mário e Adriano gargalharam.

– Palerma! – exclamou Mário. – Bicho desengonçado! Bizarro! Aberração da natureza!

– Smeágol! – gargalhou Adriano.

No vídeo, cenas caóticas. Pessoas, carros, bicicletas. Ouvia-se a voz de Gilberto; era impossível compreender a maior parte do que ele dizia, e a parte que se compreendia era quase toda composta de palavrões e comentários sobre os atrativos da loira de bicicleta.

Mário e Adriano ficaram na expectativa. Ao virar a esquina, Gilberto, filmando a si mesmo, disse, eufórico, que a loira estava a poucos metros dele. Parou de correr. Estava com o rosto vermelho; suava copiosamente. Estava exausto. Disse que a loira, que havia descido da bicicleta, estava em frente de um supermercado. Gilberto desacelerou os passos. Filmou a loira. As imagens não eram nítidas. A loira estava um pouco distante. Dela notava-se apenas o short amarelo, as pernas compridas, a camisa branca de manga curta e os cabelos loiros compridos. Mário e Adriano quase nada conseguiam ver. Protestaram. Gilberto aproximava-se da loira. Focalizou-a. Nas imagens apareceram, nítidas, as bem torneadas pernas dela. Depois, apareceram, para satisfação de Mário e Adriano, as nádegas dela, cobertas pelo short amarelo, uma película. Boquiabriram-se Adriano e Mário. A loira do guidão da bicicleta tirou uma corrente com cadeado, abriu o cadeado, ajeitou a bicicleta ao poste de ferro, e curvou-se para a frente. Mário e Adriano levaram as mãos à cabeça. Gilberto passou, andando devagar, pela loira, dela não desviando a câmera do telefone celular. Mário e Adriano, excitadíssimos, viram um busto extraordinariamente deslumbrante. Lamberam os beiços.

Após passar a tranca na bicicleta, a loira caminhou até o supermercado. De repente, escureceram-se as imagens; viam-se apenas manchas e riscos dançando no monitor. Adriano e Mário esbravejaram. Mário, irritado, ofendeu até a quinta geração de Gilberto, e deu duas pancadas no monitor. Poucos minutos depois, apareceu o busto da loira, que, curvada para a frente, mexia na corrente que unia a bicicleta ao poste de ferro.

Ao remover a corrente, a loira, com um movimento brusco, ergueu a cabeça, e olhou para a câmera.

Adriano saltou da cadeira, arremessou-a para trás, e deu um berro misto de surpresa e espanto:

– Diabos! É a minha irmã!

A ciumenta

– Você, Roberto, olha para todas as mulheres, na rua; delas não tira os olhos.

– Eu não olho para outra mulher além de você, Ju. Eu tenho olhos só para você. Não seja ciumenta. Você acha que eu olho para todas as mulheres e me trata como se eu fosse um homem vadio, que nunca viu um rabo-de-saia.

– E você não olha para as outras mulheres, não? Você não arregala os olhos quando vê uma bonitona?

– Não. Não olho, não. Não arregalo os olhos, não.

– E hoje à tarde, hein!?

– O que aconteceu hoje à tarde? E onde?

– Na frente da loja ***.

– O que aconteceu lá? Não olhei para nenhuma mulher.

– Não?

– Não. Olhei para alguma mulher? Que eu saiba, não.

– E a bonitona?

– Que bonitona?

– A de bicicleta.

– Que bonitona de bicicleta? Você está se referindo àquele pedaço de mal caminho, a loira de um metro e oitenta, de camiseta branca com estampa da Scarlet Johansson, short azul marinho bem agarrado com estampas de personagens de desenhos animados japoneses, chinelos-de-dedos azuis com adornos em forma de flores e pulseiras multicoloridas iridescentes nos dois braços? Àquela loira de pés pequenos, coxas grossas, com uma cicatriz na coxa esquerda e duas manchas pequenas, uma, na ilharga esquerda, uma, na coxa direita, e de lábios realçados com batom vermelho fosco, cabelos compridos presos com uma tiara preta, unhas esmaltadas de vermelho framboesa, e com uma tatuagem no ombro esquerdo, atrás, de uma borboleta azul, vermelha, amarela e verde, e um piercing na sobrancelha esquerda?

– É. É a ela que estou me referindo.

– Confesso, querida: Eu a vi. Olhei para ela, mas nela não prestei atenção.

– Não prestou atenção nela!? Você não prestou atenção, canalha, naquela mulher!?

– Não, ciumenta. Nela eu não prestei atenção. Eu apenas atentei para o short que ela usava. Que mal há em olhar para um short? Eu queria ver quais personagens estavam estampados no short. Você sabe que eu gosto de personagens de desenhos animados japoneses, não sabe? Então… Deixe de ser ciumenta.

O homem que tinha boa memória

– Hoje aconteceu-me uma coisa muito interessante, Gustavo. Fui à farmácia comprar um remédio. Ao balcão, a mocinha, uma loirinha simpática, que me atendeu, perguntou-me o que eu desejava. Pensei em dizer-lhe o que, naquele momento, eu desejava, mas, como eu sou um cavalheiro, disse-lhe eu que eu desejava um remédio. E ela perguntou-me: “Qual remédio?”. “Qual remédio!?”, indaguei, no meu tom de voz habitual, mais para mim do que para ela. “É um comprimido”, disse-lhe eu, gracejando, tentando lembrar-me o nome do maldito remédio. E a loirinha perguntou-me, com aqueles olhos tão doces a olharem-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Aquela loirinha era uma gracinha ao falar específico. Nunca vi uma mulher falar específico com tanta graça. E disse-lhe eu: “Posso. O nome do remédio começa com a letra R”. A loirinha sorriu, e perguntou-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Que graça ela falar específico! “Mais específico do que estou sendo, impossível”, respondi-lhe, e ela sorriu. E eu, que havia me esquecido o nome do maldito remédio, disse à loirinha que eu iria telefonar para a minha esposa. E a loirinha, a educação e a simpatia em pessoa, esperou-me, pacientemente, completar a conversa com a Samantha, e dizer-lhe à ela, a loirinha que me atendeu, o nome do remédio. Disse-lho eu, e desliguei o telefone. E a loirinha providenciou-me o remédio; e paguei por ele, no caixa, retirei-me da farmácia, fui para casa o mais rápido que pude, e entreguei o remédio para a Samantha – e após uma curta pausa, para beber da cerveja, prosseguiu: – Gustavo, você sabe o que mais me chamou a atenção nesta história? A minha boa memória. Quando, ao telefone, a Samantha disse-me o nome do remédio que ela me pedira que eu lho comprasse, dele lembrei-me de imediato. Incrível, não? Que boa memória a minha!

O segredo

Uma história do Joãozinho

O pai de Joãozinho diz para Joãozinho.

– Joãozinho, amanhã será o aniversário de tua mãe. Estou preparando uma festa surpresa para ela, mas nada lhe digas, está bem?

– Está bem – respondeu Joãozinho.

Vinte minutos depois, chega à casa a mãe de Joãozinho. Joãozinho pula-lhe aos braços, e, após dela receber um beijo caloroso, lhe diz:

– Mamãe, a senhora sabia que papai está te preparando uma festa surpresa?

– Não era para lhe contar, Joãozinho – censurou-o o pai.

– Não lhe contei – defendeu-se Joãozinho. – Eu só lhe perguntei se ela sabia que o senhor está lhe preparando uma festa surpresa.

 

Os três reis magos

Uma história do Joãozinho

Em uma segunda-feira, no início do mês de dezembro, a professora, na escola de ensino infantil, decidiu, em uma aula, falar de Natal e de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em certo momento da aula, perguntou a professora aos seus alunos:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho perguntou-lhe:

– Três reis magros?

Os alunos gargalharam.

A professora pediu-lhes silêncio, e por eles foi prontamente atendida.

– Não, Joãozinho. Três reis magos. Eu não disse três reis magros. Eu disse três reis magos – e, voltando-se para todos os alunos, repetiu a pergunta. – Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Athos, Porthos e Aramis.

Todos os alunos gargalharam.

A professora fitou Joãozinho com olhar de censura.

– Eu, Joãozinho – disse-lhe a professora -, não pedi os nomes dos três mosqueteiros. Pedi os nomes dos três reis magos.

Os alunos, os olhares a convergirem para Joãozinho, exibiam sorrisos acanhados e contidos, afinal, o olhar da professora, de Medusa, abrangia a todos eles.

E a professora, então, todos os alunos em silêncio, repetiu a pergunta:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, mais uma vez antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Moe, Larry e Curly.

Gargalhadas estrondosas preencheram a sala-de-aula.

– Joãozinho – disse a professora, a fitá-lo, semblante severo -, eu perguntei quais são os nomes dos três reis magos, e não os dos três patetas.

Os alunos principiaram uma onda de gargalhadas, a qual eles cessaram assim que sentiram o olhar petrificante da professora cair sobre eles, e encolheram os ombros.

Joãozinho sorria.

– Perguntarei, mais uma vez – disse a professora, voz gélida -: Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, a gargalhada preparada, e todos os olhares a convergirem para ele, respondeu, de imediato:

– Huguinho, Zezinho e Luizinho.

E estouraram-se as gargalhadas.

E a professora, bufando de raiva, pediu ordem aos alunos. Precisou ela de quinze minutos para conter a horda de bárbaros infantis.

A professora, os alunos em silêncio a entreolharem-se e a sorrirem, disse, irritada:

– Eu não perguntei quais são os nomes dos três sobrinhos do Pato Donald; perguntei quais são os nomes dos três reis magos. – fez uma pausa, para estudar a influência das suas palavras sobre os alunos, e prosseguiu -: Perguntarei pela última vez: Quais são os nomes dos três reis magos?

– Gaspar, Baltasar e Melquior – respondeu Joãozinho, todos os alunos a fitarem-lo.

E a professora sorriu, contente, e perguntou para Joãozinho:

– Se você sabe, Joãozinho, os nomes dos três reis magos, por que você não os disse quando eu fiz a pergunta pela primeira vez?

E Joãozinho respondeu:

– A aula estava muito chata; e eu queria que ela ficasse engraçada.

Tal resposta não a apreciou a professora; os alunos, no entanto…

– O Joãozinho é do balacobaco! – exclamou um dos alunos, em meio às gargalhadas.

– Eu mereço – disse, resignada, a professora, que sentou-se na cadeira, à mesa, fincou os cotovelos na mesa, e enterrou o queixo nas palmas das mãos, a esperar as gargalhadas cessarem; e esperou, e esperou…

Enfim, estrilou a sirene, e todos os alunos, correndo, alvoroçados, da sala-de-aula saíram, lancheiras à mão, para o recreio.

 

As senhas

Os segredos mais bem guardados do universo.

Ricardo, aos vinte e seis anos, era um homem de um metro e oitenta, magro, de ombros largos. Era casado com Suzanne e tinha duas filhas, Márcia e Adriana. Eu o conheci na festa de aniversário de um amigo comum, Marco Antonio. Ricardo era um ótimo contador de histórias e humorista irrivalizado. As pessoas, na festa, acercavam-se dele para dele ouvirem as histórias mais hilárias das quais se têm notícia, algumas picarescas, outras bocaccianas (narradas com sutileza e requinte, para não ferir suscetibilidades, nem constranger alguém), algumas de puro nonsense, outras quixotescas. Hilárias, todas elas. Era impressionante. E ele não se limitava a narrar as suas histórias; ele as animava com gestos – era ele um mímico versátil –, que vinham com tantos pormenores, que me fazem evocar os personagens de Charles Dickens. Direi – e sou ousado ao dizer – que ele era o Charles Dickens redivivo, o avatar do melhor escritor da era vitoriana. Tinha o talento literário do autor de David Copperfield e Oliver Twist, não na escrita, mas na narrativa oral. Cativante, animado, entreteve o aniversariante e todos os seus convidados durante quatro horas daquele sábado de verão. Assim que ele anunciou que teria de ir-se, pedimos-lhe que ficasse um pouco mais, insistimos, mas ele tinha de ir à casa de seu pai, então acamado, em auxílio à sua mãe, que lhe dedicava cuidados.

Dias depois, encontrei-me com Ricardo, em uma fila de banco. Ele contou tantas histórias engraçadas, que não percebemos que havíamos nos conservado quarenta minutos na fila (desejo que nenhum banqueiro leia este relato, que pode vir a inspirar-lhe a contratação de contadores de histórias para entreter as pessoas que, durante horas, permanecem, nas filhas das agências bancárias, à espera de atendimento). Depois daquele dia, encontramo-nos eu e Ricardo, em cinco ocasiões, num prazo de um ano. Encontramo-nos, na casa de Marco Antonio, há dois anos, no casamento de Marco Antonio e Neide, a sua segunda esposa (a primeira esposa dele, Tereza, falecera dois anos antes, em um acidente de moto). E Ricardo falou-nos da sua viagem aos Estados Unidos, à Inglaterra, do seu trabalho em uma empresa de engenharia eletrônica, e de outros capítulos de sua vida atribulada. Já conhecíamos todas as histórias que ele contou-nos antes de ele no-las contar, naquele dia; delas ele havia publicado, no Facebook, fotos e vídeos, mas ouvi-lo narrá-las era muito melhor. Acercamo-nos dele, para ouvi-lo. E ele entremeava o relato com comentários jocosos, alguns sarcásticos, e descrevia-nos personagens com os quais conviveu, alguns grotescos, aparentados com o Quasímodo, outros, hilários, saídos dos filmes de Harold Lloyd e Buster Keaton. Rimos gostosamente. Gargalhamos. Choramos de tanto rir. Em um certo momento da conversa, assediaram Ricardo duas crianças, Marcelo e Eliane, ele, de sete anos, ela de seis, ele, filho de Vinicius, primo de Marco Antonio, e Fabíola, ela, filha de Tadeu e Larissa, vizinhos de Marco Antonio, que lhe perguntaram qual era a senha da conta do Facebook e a do e-mail dele. E Ricardo disse-lhes:

– Sei guardar segredos. Sou o guardador dos segredos mais bem guardados do universo. Não os revelo para ninguém. A minha senha do Facebook e a minha senha do e-mail são segredos secretos. Eu nunca, nunca, nunca, e nunca, contarei para vocês quais são as minhas senhas. Vocês nunca saberão que ornitorrinco é a senha da minha conta do Facebook. Vocês nunca saberão.

E todos rimos.

E Marcelo gargalhou. E cessada a gargalhada, dirigindo-se a Ricardo, disse-lhe:

– Você disse.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo, simulando não haver compreendido a declaração de Marcelo.

– Você disse a sua senha do Facebook – respondeu Marcelo, mal conseguindo proferir as palavras.

– Eu? – indagou Ricardo, simulando surpresa. – Eu disse a minha senha do Facebook!? Não disse, não. Eu, a dizer a minha senha!? Nunca. Jamais. Ninguém sabe qual é a minha senha do Facebook, e ninguém jamais saberá. Jamais!

– Eu sei qual é a sua senha do Facebook – declarou Eliane. – Você disse a senha.

– Você sabe qual é a minha senha? – perguntou Ricardo, “incrédulo”. – Não sabe, não. Eu não disse qual é.

– Disse, sim – afirmou Eliane.

– Eu não disse, não – retrucou Ricardo.

– Disse – afirmou Marcelo. – E eu também sei qual é a sua senha do Facebook.

– Vocês não sabem qual é a minha senha do Facebook – disse Ricardo, que prosseguiu, desafiador: – Se sabem, então digam qual é.

E Marcelo e Eliane disseram, ao mesmo tempo:

– Ornitorrinco.

E Ricardo, simulando espanto, disse, olhos arregalados:

– O quê!? Como vocês descobriram qual é a minha senha do Facebook?

– Você a disse – declararam, sorrindo, Marcelo e Eliane.

– Eu? – perguntou Ricardo, interpretando o seu papel. – Eu? Eu nunca disse para ninguém que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. Nunca.

– Você disse de novo – exclamaram Marcelo e Eliane, e gargalharam.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo.

– A senha: ornitorrinco – disseram Marcelo e Eliane, e choraram de tanto rir da fisionomia, surpresa e assustadiça, de Ricardo, e da confusão dele.

– A senha? Eu disse a senha? – exclamou Ricardo, a simular espanto e incredulidade, arregalados os olhos, a passear as mãos pelo rosto, a fisionomia a exibir o horror que a revelação inspirara-lhe. – Vocês sabem a minha senha – e roeu as unhas. – Como vocês descobriram a minha senha? Vocês são espiões.

– Não somos espiões, não – defendeu-se Marcelo a si e a Eliane. Eliane não se agüentava de tanto rir, não conseguia falar, mal conseguia respirar; temiam que ela engasgasse com o pedaço de bolo que levara à boca.

– São espiões, sim – declarou Ricardo, alterando as suas expressões, fingindo olhá-los a Marcelo e a Eliane como a olhar para pessoas suspeitas, ar carrancudo, ferocidade estampada no olhar, sobrancelhas franzidas. – Vocês dois são espiões – e alterou o timbre da voz, fazendo-o áspero, cortante. – Espiões. Vocês são espiões. Vocês trabalham para o James Bond. Eu nunca disse que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. E eu nunca direi que orangotango é a minha senha do e-mail. Vocês dois nunca saberão qual é a minha senha do e-mail. Nunca! Nunca!

– Orangotango! – gritaram, simultaneamente, Marcelo e Eliane, a gargalharem; e todos gargalhamos.

– O quê!? – gritou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Quem contou para vocês que orangotango é a minha senha do e-mail? Quem?

– Você – disseram, a chorarem de tanto rir, Marcelo e Eliane.

– Eu!? – exclamou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Eu!? Eu!? Vocês – e apontou para Marcelo e Eliane – são espiões. Vou telefonar para a polícia – e tirou do bolso posterior direito da calça o telefone celular, e “discou” para a delegacia de polícia, e encetou conversa com o delegado.

A brincadeira estendeu-se por trinta minutos. As gargalhadas, tão intensas, que abalaram a estrutura das casas do quarteirão.

Decorridas duas semanas, encontramo-nos eu e Ricardo, na festa de aniversário de Mariângela, nossa amiga em comum, e lá, na casa dela, Ricardo disse, durante animada conversa com Marcos e Rúbia, filhos de Mariângela e Gustavo, com Geraldo, filho de Carlos Roberto e Madalena, e com Cauã, filho de Isaías e Isis:

– Sou um homem esperto, atilado, mais esperto do que o mais esperto de todos os homens que já pisaram na face da Terra. Eu nunca direi para ninguém que orangotango é a minha senha do e-mail e ornitorrinco é a minha senha da conta do Facebook. Ninguém nunca saberá quais são as minhas senhas! Nunca!

E Rúbia, antecipando-se a Marcos, Geraldo e Cauã, disse, rindo:

– As senhas são orangotango e ornitorrinco.

– O quê!? – exclamou Ricardo, simulando espanto, surpresa, admiração. – Como você descobriu quais são as minhas senhas? Quem as disse para você? Vocês são espiões? Vocês são espiões. Vocês descobriram as minhas senhas. Vou telefonar para a polícia, e vou falar para o delegado prender vocês – e pegou o celular, e “telefonou” para a polícia, e seguiu-se a brincadeira.

As crianças não se agüentavam de tanto rir. E os adultos, sob influência das gargalhadas das crianças e da mímica histriônica de Ricardo, riam de orelha a orelha.

Um mês não havia transcorrido, encontramo-nos Ricardo e eu, no clube de campo ***, onde, na presença de crianças, Ricardo repetiu a Brincadeira das Senhas, como codnominaram a brincadeira, que, infalivelmente, Ricardo promovia sempre que encontrava-se com crianças. Não haviam decorrido dez dias, Ricardo veio a falecer, pouco depois de um assalto. O assassino disparou contra ele, a queima-roupa, três vezes. Morreu Ricardo, na ambulância, a caminho do hospital. Compareci ao sepultamento. Reinava a tristeza. Apresentei condolências à mãe e ao pai do Ricardo, à Suzanne, e às órfãs, Márcia e Adriana. Lágrimas escorreram-me dos olhos, em uma golfada. Não as removi. Das minhas lágrimas não me envergonho.

Nos dias seguintes, freqüentei a casa de Suzanne, e ajudei-a a ajeitar algumas coisas que Ricardo deixara para trás. Um dia, na casa dela, estávamos Suzanne, Márcia, Adriana, o pai de Suzanne, Cristóvão, a mãe dela, Maria da Conceição, e o tio dela, Rubens, e outros familiares e amigos da família, quando alguém – não me recordo quem -, lembrou-se de acessar o computador, à procura de documentos, projetos e relatórios de Ricardo. Suzanne, no escritório de Ricardo, ligou o notebook, e clicou no ícone do e-mail, e, na sequência, no do Facebook. Para acessar as duas contas digitou, no campo reservado às senhas, na conta do e-mail e na do Facebook, a data de nascimento de Ricardo. Acesso negado. E digitou a data de nascimento de Ricardo com os números alterados, primeiro o ano, depois o mês, e o dia. Acesso negado. Digitou a sua data de nascimento. Acesso negado. Digitou o seu nome. Acesso negado. Digitou o nome de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome das filhas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento delas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Teófilo, pai de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dele. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Maria Amélia, mãe de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dela. Acesso negado. Digitou o nome de Albert Einstein, o cientista que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou o nome de Fibbonacci. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Fibbonacci, o matemático que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Fibbonacci. Acesso negado. Após o Facebook e o e-mail negarem-lhe o acesso trinta e quatro vezes, Suzanne desligou o notebook e, acompanhada de todos nós, retirou-se do escritório de Ricardo, e rumou, irritada, a ponto de debulhar-se em lágrimas, que, parecia, subiam-lhe para os olhos, em torrente, e em uma enxurrada se lhe despencariam dos olhos, para a sala-de-visitas, onde nos reunimos, e Cristóvão e Maria da Conceição pediram-lhe paciência, que, depois, descobririam a senha da conta do e-mail e a da conta do Facebook de Ricardo. Ele, era certo, as havia anotado em algum papel. Em qual? E onde o deixou? Ou, sugeriu Cristóvão, em algum arquivo, no computador, ou, sugeri, para descontrairmos um pouco, em algum arquivo particular no Facebook, ou em um rascunho no e-mail.

Na sala-de-estar, a conversar permanecemos, em tom baixo, respeitoso, durante um bom tempo. Maria da Conceição, preocupada com a saúde de sua filha, à ela dedicou toda a sua atenção até o instante em que Cristóvão soltou uma gargalhada, tão repentinamente, que assustou-nos a todos nós – e a ele também, presumo -, e bateu as mãos, na cabeça, uma, duas, três vezes, como que a se punir por algum pecado. Suspendemos a respiração, de imediato, a fitarmo-lo, abismados. Enlouquecera o velho? Um parafuso desconectara-se-lhe da massa cinzenta? Desmiolhara-se-lhe a cabeça? Liquefizera-se-lhe o cérebro? Coitado do ancião! O que lhe sucedia? Doeu-lhe o ventre de tanto gargalhar. Esparramou-se no sofá, o matusalém. Enfim, ele cessou as gargalhadas, e removeu, com um lenço que tirara do bolso traseiro da calça, as lágrimas dos olhos, e acenou para nós, pedindo-nos que o acompanhássemos. Não lhe exigimos explicações. Entreolhamo-nos, e levantamo-nos, curiosos, do sofá, e seguimo-lo. E ele entrou no escritório que havia sido do seu falecido genro. E ligou o notebook. E digitou a senha da conta do Facebook do Ricardo e a da conta do e-mail dele: ornitorrinco e orangotango.

Monólogo de um doido varrido

Debilitou-me uma doença psicológica bacteriana de origem vegetal pelos psicólogos denominada patologia, isto é – traduzindo para a linguagem de gente que pensa com o próprio cérebro, manuseia os objetos com as mãos, corre com os pés, olha com os olhos, ou com um olho só, caso se trate de um ciclope, e ao se ajoelhar dobra os joelhos -, patologia, dizia eu, doença da qual estou acometido, é a doença das pessoas obcecadas em estudar patos e congêneres. Congêneres, explico, para as pessoas que não sabem o que tal palavra significa, e também para as pessoas que desconhecem dela o significado, é o plural de congênere. Dadas estas explicações, esclarecedoras, que eliminam toda e qualquer dúvida quanto à acepção da palavra da qual estou a tratar, e, ao tratar dela, trato dela, não com a negligência que muitas pessoas das palavras tratam, seja a da qual tratei, seja de qualquer outra palavra, mas com a seriedade que compete aos gênios nos quais a vida infligiu dores provenientes da patologia, em decorrência da ingestão de penas, bicos, cascas de ovos, pés de patos, e, também, de marrecos, gansos, paturis, donaldes, patinhas e gastões, espécies, estas, de bípedes dotados de indumentária que, embora apropriada, é inapropriada para os indivíduos de sua espécie, mesmo que pertençam à espécie alheia, prossigo: A patologia, dizia eu, doença psicológica bacteriana de origem vegetal, derivada das poções mágicas da Maga Patológica, que, com o auxílio da Madame Mim, concebeu receitas compostas dos mais inusitados ingredientes, pertence à família das doenças da classe das categorias aparentadas com a síndrome de Estocolmo – detectada, pela primeira vez, em Helsinque, num laboratório situado em Berlim e localizado em Tóquio –  e com os processos jurídicos do corredor polonês. E quem é o corredor polonês? Desconheço-lhe o nome. Sei, no entanto, e todavia, que é ele natural da Polônia, embora tenha nascido na Hungria, numa noite de lua cheia no Japão; e assistiu ao seu nascimento um homem, o parteiro, grego da ilha de Creta, que lutou, na companhia de Aquiles e Odisseu, na guerra de Tróia, e foi um dos construtores do cavalo de madeira, o famosíssimo Cavalo de Tróia, que era, na verdade, um burro de eucalipto sintético; além disso, ele concebeu um sistema filosófico racionalista, teleológico, mecanicista, heliocêntrico, holístico, que seu aprendiz, o Eleutério, que não é um elemento da tabela periódica, disseminou em todo o mundo, reservando-o para si, sem que o tenha transmitido para outra pessoa qualquer. Mas a sua filosofia, é certo, e quanto a isso não restam dúvidas, foi disseminada em todo o mundo, pois, afinal, ele, isto é, o Eleutério, a aventou aos furacões, ciclones, tufões, que de tempos em tempos varrem a costa leste do litoral e o litoral da costa leste do continente americano banhado pelo Oceano Atlântico, cujas águas são salgadas, e nelas vivem baleias; e Eleutério não se limitou a apenas, e tampouco unicamente, aventá-la aos furacões, tufões, ciclones; ele também a externou para as águas dos oceanos, que a espalharam por todo o planeta. E quem é o Eleutério? Não sei. Eu nunca o vi mais gordo, e nem mais magro, e nem mais alto, e nem mais baixo. E eu nunca ouvi falar dele, e acerca dele nenhuma palavra eu li. Mas o Eleutério não é importante; importante é a distância entre a Terra e a Lua. A Lua, explico, para eu mesmo, para que eu possa entender a minha idéia que me apresento, quando se aproxima da Terra dela fica mais próxima, e quando dela distancia-se dela fica mais distante, e a Terra, ao distanciar-se da Lua quando a Lua dela distancia-se, dela afasta-se, e quando dela aproxima-se ao mesmo tempo em que ela de si aproxima-se encurta-se a distância que há entre elas. Tal fenômeno ainda não foi inteiramente, e tampouco parcialmente, compreendido pelos seres humanos que o estudaram, e muito menos pelos seres desumanos que nunca se dedicaram ao seu estudo. É inexplicável, e inexplicável será até o dia em que alguém o compreenda, e, compreendendo-o, o entenda, e, entendendo-o, formule as explicações que o explique, e explique, também, a relação de causa e efeito entre a extinção dos tiranossauros rex e o milésimo gol do Pelé. Por que o seu milésimo gol Pelé o marcou numa cobrança de pênalti, e não numa cobrança de escanteio? Há uma relação de causa e efeito, e de princípio, meio e fim, entre os dois eventos, afinal, pois, os tiranossauros rex tinham dentes, e o Pelé tem dentes também; e a existência de dentes na boca do Pelé e nas bocas dos tiranossauros rex indica similaridades fenomenológicas existencialistas entre o ludopédio, isto é, o futebol, ou soccer, como dizem os norte-americanos, e os filmes de Steven Spielberg. Além disso, um tiranossauro rex, dias atrás, invadiu-me a televisão, e surrupiou-me das mãos o controle remoto, e, antecipando-se a mim, premiu do controle remoto um botão, e teletransportou-se para outra galáxia, onde encontrou, num planeta piramidal, no sopé de uma montanha, um ovo cósmico, que explodiu no mesmo instante em que Moisés rachou-o com um machado, matando o tiranossauro rex, mas não se matando no processo, pois, afinal, ele, o Moisés, em decorrência do deslocamento de ar da explosão explosiva, foi arremessado à Terra, e caiu, no topo do cume da ponta do Everest onde encontrou o Homem das Neves Abomináveis e o Abominável Homem das Neves a confabularem acerca da relatividade do tempo absoluto, a tempo de ouvir o Homem das Neves Abomináveis comentar, dando por encerrada a sua entrevista com o Abominável Homem das Neves: “O tempo, sendo relativo, não pode ser compreendido como tempo relativo, afinal, pois, sendo relativo, o tempo é, portanto, absoluto, pois, afinal, a sua condição temporal não é atemporal, afinal, pois, ele existe como fenômeno cósmico, portanto, real, dotado de propriedades absolutas, conquanto elas não eliminem as suas propriedades relativas, afinal, pois, a relatividade do tempo, ao mesmo tempo que define o tempo da relatividade, perpetua a noção absoluta do tempo relativo conjugada à noção relativa do tempo absoluto conquanto a sincronia dos eventos simultâneos coordenados pelas cordas que compõem a infinitude do tecido cósmico do universo observado de dentro de um prisma desmaterialize as partículas de nêutrons, que estão a singrar o oceano sideral há bilhões de anos e cujo destino é desconhecido de todos. Sabe-se, apenas, até o presente momento, que, em decorrência da eclosão do Big Bang, os italianos inventaram o spaghetti, os franceses a guilhotina, os alemães o salsichão, os gaúchos o churrasco, e o Bethoveen a surdez”. E aqui, uma avalanche arrastou Moisés até uma aldeia ameríndia txucarramãe onde um índio tupinambá indagou-lhe: “A Capitu capitulou?”, e de Moisés não obtendo resposta, o índio tupinambá entregou-lhe duas placas rochosas com inscrições que Moisés não soube decifrar, e cujo significado o silvícola desconhecia, e o silvícola exortou Moisés a ir até o Egito procurar por Champollion, que poderia lhe prestar consultoria, e ajudá-lo a traduzir as inscrições. Moisés entendeu que o destino o chamava a empreender uma tarefa que ele, e apenas ele, e ninguém mais, poderia empreender, e principiou a jornada; no entanto, todavia, porém, devido a sérios problemas no intestino, teve ele de adiá-la. Não sei se ele foi, ou não, bem sucedido em sua empreitada; só sei que eu, exausto de tanto pensar, tenho, e já, de encerrar as minhas reflexões para eu não vir a enlouquecer, pois, afinal, eu enlouquecerei caso eu não cesse, e já, de pensar, para não vir a carecer de forças que conservem a minha sanidade mental. E agora vou dormir, para poder acordar amanhã cedo, preservadas todas as minhas faculdades mentais, e dar seqüência aos meus pensamentos. Desejo-me bons sonhos. E boa noite.

O conto e o prefácio

Pedi, há um mês, para um amigo meu um prefácio para um conto que escrevi. Antes não lhe tivesse pedido. Ele dissecou o conto, cortou-o em fatias, e o resumiu. Antes de publicar o conto, detive-me, e perguntei-me porque eu o publicaria, se o prefácio apresenta, em síntese, toda a sua trama. Eu repetiria, com a publicação do conto, o que está no prefácio, e o leitor ao lê-los esbravejaria: “Maldito sejas, Sergio! Li duas vezes a mesma história. Tu me fizeste perder o meu tempo. Vá para o inferno. Tenho mais o que fazer, imbecil!”. E eu teria de dar-lhe razão, e calar-me, e reconhecer a minha insensatez. E eu me perguntei uma vez mais porque eu publicaria o conto, se o conto conta o que o prefácio já contou. E decidi publicar apenas o prefácio que para o meu conto o meu amigo escreveu. Decidido, então, a publicar apenas o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, perguntei-me se o conto poderia, um dia, se encontrado por alguém, vir a ser publicado; e decidi, sem pensar duas vezes, queimá-lo, e queimei-o. Queimado o meu conto, nenhum risco existe de ele vir a ser publicado. E perguntei-me, não muito tempo depois, se eu publicaria o prefácio que para o meu conto, que eu queimara, meu amigo escreveu. Sim, eu o publicaria. E para mim justifiquei a minha decisão, que para o leitor é, presumo, uma insensatez: Prometi ao meu amigo – o autor do prefácio – que eu publicaria o prefácio que lhe pedi para o meu conto. Ele o escreveu. E eu, para não faltar com a promessa que lhe fiz e não perder o amigo, o publicaria. E prometi-me nunca mais pedir para um amigo meu, ou para qualquer outra pessoa, um prefácio para um conto meu. Eu escreverei um prefácio para os meus contos. Aliás, um prefácio para qualquer conto meu eu jamais escreverei. E se eu, no prefácio, incorrer em atitude similar à do meu amigo que escreveu para um conto meu um prefácio, e tiver de, repetindo no prefácio a trama do conto, abandonar o conto? Prefiro não arriscar. E o meu amigo, o prefaciador, perguntou-me, há uma hora, do meu conto, e eu lhe disse que eu o queimara, e ele, horrorizado ao ouvir-me, exigiu-me explicações. Dei-lhas; e ele disse que, como o meu conto não seria publicado, ele não permitiria que eu publicasse o prefácio que ele escreveu para o meu conto. E discutimos. E assim que se acalmou, meu amigo pediu-me o prefácio que me havia escrito, para relê-lo. Dei-lho. E ele, para a minha surpresa, correu, e tirou do bolso da camisa uma caixa de fósforos, e ateou fogo às folhas com o prefácio. Assim que me dei conta do que se passava, as chamas já haviam consumido todas as folhas. E queimados o meu conto e o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, a humanidade – triste humanidade! – jamais terá o prazer de ler o meu conto e o prefácio que para ele escreveu o meu amigo.

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