A ciumenta

– Você, Roberto, olha para todas as mulheres, na rua; delas não tira os olhos.

– Eu não olho para outra mulher além de você, Ju. Eu tenho olhos só para você. Não seja ciumenta. Você acha que eu olho para todas as mulheres e me trata como se eu fosse um homem vadio, que nunca viu um rabo-de-saia.

– E você não olha para as outras mulheres, não? Você não arregala os olhos quando vê uma bonitona?

– Não. Não olho, não. Não arregalo os olhos, não.

– E hoje à tarde, hein!?

– O que aconteceu hoje à tarde? E onde?

– Na frente da loja ***.

– O que aconteceu lá? Não olhei para nenhuma mulher.

– Não?

– Não. Olhei para alguma mulher? Que eu saiba, não.

– E a bonitona?

– Que bonitona?

– A de bicicleta.

– Que bonitona de bicicleta? Você está se referindo àquele pedaço de mal caminho, a loira de um metro e oitenta, de camiseta branca com estampa da Scarlet Johansson, short azul marinho bem agarrado com estampas de personagens de desenhos animados japoneses, chinelos-de-dedos azuis com adornos em forma de flores e pulseiras multicoloridas iridescentes nos dois braços? Àquela loira de pés pequenos, coxas grossas, com uma cicatriz na coxa esquerda e duas manchas pequenas, uma, na ilharga esquerda, uma, na coxa direita, e de lábios realçados com batom vermelho fosco, cabelos compridos presos com uma tiara preta, unhas esmaltadas de vermelho framboesa, e com uma tatuagem no ombro esquerdo, atrás, de uma borboleta azul, vermelha, amarela e verde, e um piercing na sobrancelha esquerda?

– É. É a ela que estou me referindo.

– Confesso, querida: Eu a vi. Olhei para ela, mas nela não prestei atenção.

– Não prestou atenção nela!? Você não prestou atenção, canalha, naquela mulher!?

– Não, ciumenta. Nela eu não prestei atenção. Eu apenas atentei para o short que ela usava. Que mal há em olhar para um short? Eu queria ver quais personagens estavam estampados no short. Você sabe que eu gosto de personagens de desenhos animados japoneses, não sabe? Então… Deixe de ser ciumenta.

O homem que tinha boa memória

– Hoje aconteceu-me uma coisa muito interessante, Gustavo. Fui à farmácia comprar um remédio. Ao balcão, a mocinha, uma loirinha simpática, que me atendeu, perguntou-me o que eu desejava. Pensei em dizer-lhe o que, naquele momento, eu desejava, mas, como eu sou um cavalheiro, disse-lhe eu que eu desejava um remédio. E ela perguntou-me: “Qual remédio?”. “Qual remédio!?”, indaguei-lhe, no meu tom de voz habitual, mais para mim do que para ela. “É um comprimido”, disse-lhe eu, gracejando, tentando lembrar-me o nome do maldito remédio. E a loirinha perguntou-me, com aqueles olhos tão doces a olharem-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Aquela loirinha era uma gracinha ao falar específico. Nunca vi uma mulher falar específico com tanta graça. E disse-lhe eu: “Posso. O nome do remédio começa com a letra R”. A loirinha sorriu, e perguntou-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Que graça ela falar específico! “Mais específico do que estou sendo, impossível”, respondi-lhe, e ela sorriu. E eu, que havia me esquecido o nome do maldito remédio, disse à loirinha que eu iria telefonar para a minha esposa. E a loirinha, a educação e a simpatia em pessoa, esperou-me, pacientemente, completar a conversa com a Samantha, e dizer-lhe à ela, a loirinha que me atendeu, o nome do remédio. Disse-lho eu, e desliguei o telefone. E a loirinha providenciou-me o remédio, e paguei por ele, no caixa, e retirei-me da farmácia, e fui para casa o mais rápido que pude, e entreguei o remédio para a Samantha – e após uma curta pausa, para beber da cerveja, prosseguiu: – Sabe o que é mais interessante nesta história, Gustavo? A minha boa memória. Quando, ao telefone, a Samantha disse-me o nome do remédio que ela me pedira que eu lho comprasse, dele lembrei-me de imediato. Incrível, não? Que boa memória a minha!

O segredo

Uma história do Joãozinho

O pai de Joãozinho diz para Joãozinho.

– Joãozinho, amanhã será o aniversário de tua mãe. Estou preparando uma festa surpresa para ela, mas nada lhe digas, está bem?

– Está bem – respondeu Joãozinho.

Vinte minutos depois, chega à casa a mãe de Joãozinho. Joãozinho pula-lhe aos braços, e, após dela receber um beijo caloroso, lhe diz:

– Mamãe, a senhora sabia que papai está te preparando uma festa surpresa?

– Não era para lhe contar, Joãozinho – censurou-o o pai.

– Não lhe contei – defendeu-se Joãozinho. – Eu só lhe perguntei se ela sabia que o senhor está lhe preparando uma festa surpresa.

 

Os três reis magos

Uma história do Joãozinho

Em uma segunda-feira, no início do mês de dezembro, a professora, na escola de ensino infantil, decidiu, em uma aula, falar de Natal e de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em certo momento da aula, perguntou a professora aos seus alunos:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho perguntou-lhe:

– Três reis magros?

Os alunos gargalharam.

A professora pediu-lhes silêncio, e por eles foi prontamente atendida.

– Não, Joãozinho. Três reis magos. Eu não disse três reis magros. Eu disse três reis magos – e, voltando-se para todos os alunos, repetiu a pergunta. – Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Athos, Porthos e Aramis.

Todos os alunos gargalharam.

A professora fitou Joãozinho com olhar de censura.

– Eu, Joãozinho – disse-lhe a professora -, não pedi os nomes dos três mosqueteiros. Pedi os nomes dos três reis magos.

Os alunos, os olhares a convergirem para Joãozinho, exibiam sorrisos acanhados e contidos, afinal, o olhar da professora, de Medusa, abrangia a todos eles.

E a professora, então, todos os alunos em silêncio, repetiu a pergunta:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, mais uma vez antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Moe, Larry e Curly.

Gargalhadas estrondosas preencheram a sala-de-aula.

– Joãozinho – disse a professora, a fitá-lo, semblante severo -, eu perguntei quais são os nomes dos três reis magos, e não os dos três patetas.

Os alunos principiaram uma onda de gargalhadas, as quais eles cessaram assim que sentiram o olhar petrificante da professora cair sobre eles, e encolheram os ombros.

Joãozinho sorria.

– Perguntarei, mais uma vez – disse a professora, voz gélida -: Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, a gargalhada preparada, e todos os olhares a convergirem para ele, respondeu, de imediato:

– Huguinho, Zezinho e Luizinho.

E estouraram-se as gargalhadas.

E a professora, bufando de raiva, pediu ordem aos alunos. Precisou ela de quinze minutos para conter a horda de bárbaros infantis.

A professora, os alunos em silêncio a entreolharem-se e a sorrirem, disse, irritada:

– Eu não perguntei quais são os nomes dos três sobrinhos do Pato Donald; perguntei quais são os nomes dos três reis magos. – fez uma pausa, para estudar a influência das suas palavras sobre os alunos, e prosseguiu -: Perguntarei pela última vez: Quais são os nomes dos três reis magos?

– Gaspar, Baltasar e Melquior – respondeu Joãozinho, todos os alunos a fitarem-lo.

E a professora sorriu, contente, e perguntou para Joãozinho:

– Se você sabe, Joãozinho, os nomes dos três reis magos, por que você não os disse quando eu fiz a pergunta pela primeira vez?

E Joãozinho respondeu:

– A aula estava muito chata; e eu queria que ela ficasse engraçada.

Tal resposta não a apreciou a professora; os alunos, no entanto…

– O Joãozinho é do balacobaco! – exclamou um dos alunos, em meio às gargalhadas.

– Eu mereço – disse, resignada, a professora, que sentou-se na cadeira, à mesa, fincou os cotovelos na mesa, e enterrou o queixo nas palmas das mãos, a esperar as gargalhadas cessarem; e esperou, e esperou…

Enfim, estrilou a sirene, e todos os alunos, correndo, alvoroçados, da sala-de-aula saíram, lancheiras à mão, para o recreio.

 

As senhas

Os segredos mais bem guardados do universo.

Ricardo, aos vinte e seis anos, era um homem de um metro e oitenta, magro, de ombros largos. Era casado com Suzanne e tinha duas filhas, Márcia e Adriana. Eu o conheci na festa de aniversário de um amigo comum, Marco Antonio. Ricardo era um ótimo contador de histórias e humorista irrivalizado. As pessoas, na festa, acercavam-se dele para dele ouvirem as histórias mais hilárias das quais se têm notícia, algumas picarescas, outras bocaccianas (narradas com sutileza e requinte, para não ferir suscetibilidades, nem constranger alguém), algumas de puro nonsense, outras quixotescas. Hilárias, todas elas. Era impressionante. E ele não se limitava a narrar as suas histórias; ele as animava com gestos – era ele um mímico versátil –, que vinham com tantos pormenores, que me fazem evocar os personagens de Charles Dickens. Direi – e sou ousado ao dizer – que ele era o Charles Dickens redivivo, o avatar do melhor escritor da era vitoriana. Tinha o talento literário do autor de David Copperfield e Oliver Twist, não na escrita, mas na narrativa oral. Cativante, animado, entreteve o aniversariante e todos os seus convidados durante quatro horas daquele sábado de verão. Assim que ele anunciou que teria de ir-se, pedimos-lhe que ficasse um pouco mais, insistimos, mas ele tinha de ir à casa de seu pai, então acamado, em auxílio à sua mãe, que lhe dedicava cuidados.

Dias depois, encontrei-me com Ricardo, em uma fila de banco. Ele contou tantas histórias engraçadas, que não percebemos que havíamos nos conservado quarenta minutos na fila (desejo que nenhum banqueiro leia este relato, que pode vir a inspirar-lhe a contratação de contadores de histórias para entreter as pessoas que, durante horas, permanecem, nas filhas das agências bancárias, à espera de atendimento). Depois daquele dia, encontramo-nos eu e Ricardo, em cinco ocasiões, num prazo de um ano. Encontramo-nos, na casa de Marco Antonio, há dois anos, no casamento de Marco Antonio e Neide, a sua segunda esposa (a primeira esposa dele, Tereza, falecera dois anos antes, em um acidente de moto). E Ricardo falou-nos da sua viagem aos Estados Unidos, à Inglaterra, do seu trabalho em uma empresa de engenharia eletrônica, e de outros capítulos de sua vida atribulada. Já conhecíamos todas as histórias que ele contou-nos antes de ele no-las contar, naquele dia; delas ele havia publicado, no Facebook, fotos e vídeos, mas ouvi-lo narrá-las era muito melhor. Acercamo-nos dele, para ouvi-lo. E ele entremeava o relato com comentários jocosos, alguns sarcásticos, e descrevia-nos personagens com os quais conviveu, alguns grotescos, aparentados com o Quasímodo, outros, hilários, saídos dos filmes de Harold Lloyd e Buster Keaton. Rimos gostosamente. Gargalhamos. Choramos de tanto rir. Em um certo momento da conversa, assediaram Ricardo duas crianças, Marcelo e Eliane, ele, de sete anos, ela de seis, ele, filho de Vinicius, primo de Marco Antonio, e Fabíola, ela, filha de Tadeu e Larissa, vizinhos de Marco Antonio, que lhe perguntaram qual era a senha da conta do Facebook e a do e-mail dele. E Ricardo disse-lhes:

– Sei guardar segredos. Sou o guardador dos segredos mais bem guardados do universo. Não os revelo para ninguém. A minha senha do Facebook e a minha senha do e-mail são segredos secretos. Eu nunca, nunca, nunca, e nunca, contarei para vocês quais são as minhas senhas. Vocês nunca saberão que ornitorrinco é a senha da minha conta do Facebook. Vocês nunca saberão.

E todos rimos.

E Marcelo gargalhou. E cessada a gargalhada, dirigindo-se a Ricardo, disse-lhe:

– Você disse.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo, simulando não haver compreendido a declaração de Marcelo.

– Você disse a sua senha do Facebook – respondeu Marcelo, mal conseguindo proferir as palavras.

– Eu? – indagou Ricardo, simulando surpresa. – Eu disse a minha senha do Facebook!? Não disse, não. Eu, a dizer a minha senha!? Nunca. Jamais. Ninguém sabe qual é a minha senha do Facebook, e ninguém jamais saberá. Jamais!

– Eu sei qual é a sua senha do Facebook – declarou Eliane. – Você disse a senha.

– Você sabe qual é a minha senha? – perguntou Ricardo, “incrédulo”. – Não sabe, não. Eu não disse qual é.

– Disse, sim – afirmou Eliane.

– Eu não disse, não – retrucou Ricardo.

– Disse – afirmou Marcelo. – E eu também sei qual é a sua senha do Facebook.

– Vocês não sabem qual é a minha senha do Facebook – disse Ricardo, que prosseguiu, desafiador: – Se sabem, então digam qual é.

E Marcelo e Eliane disseram, ao mesmo tempo:

– Ornitorrinco.

E Ricardo, simulando espanto, disse, olhos arregalados:

– O quê!? Como vocês descobriram qual é a minha senha do Facebook?

– Você a disse – declararam, sorrindo, Marcelo e Eliane.

– Eu? – perguntou Ricardo, interpretando o seu papel. – Eu? Eu nunca disse para ninguém que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. Nunca.

– Você disse de novo – exclamaram Marcelo e Eliane, e gargalharam.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo.

– A senha: ornitorrinco – disseram Marcelo e Eliane, e choraram de tanto rir da fisionomia, surpresa e assustadiça, de Ricardo, e da confusão dele.

– A senha? Eu disse a senha? – exclamou Ricardo, a simular espanto e incredulidade, arregalados os olhos, a passear as mãos pelo rosto, a fisionomia a exibir o horror que a revelação inspirara-lhe. – Vocês sabem a minha senha – e roeu as unhas. – Como vocês descobriram a minha senha? Vocês são espiões.

– Não somos espiões, não – defendeu-se Marcelo a si e a Eliane. Eliane não se agüentava de tanto rir, não conseguia falar, mal conseguia respirar; temiam que ela engasgasse com o pedaço de bolo que levara à boca.

– São espiões, sim – declarou Ricardo, alterando as suas expressões, fingindo olhá-los a Marcelo e a Eliane como a olhar para pessoas suspeitas, ar carrancudo, ferocidade estampada no olhar, sobrancelhas franzidas. – Vocês dois são espiões – e alterou o timbre da voz, fazendo-o áspero, cortante. – Espiões. Vocês são espiões. Vocês trabalham para o James Bond. Eu nunca disse que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. E eu nunca direi que orangotango é a minha senha do e-mail. Vocês dois nunca saberão qual é a minha senha do e-mail. Nunca! Nunca!

– Orangotango! – gritaram, simultaneamente, Marcelo e Eliane, a gargalharem; e todos gargalhamos.

– O quê!? – gritou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Quem contou para vocês que orangotango é a minha senha do e-mail? Quem?

– Você – disseram, a chorarem de tanto rir, Marcelo e Eliane.

– Eu!? – exclamou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Eu!? Eu!? Vocês – e apontou para Marcelo e Eliane – são espiões. Vou telefonar para a polícia – e tirou do bolso posterior direito da calça o telefone celular, e “discou” para a delegacia de polícia, e encetou conversa com o delegado.

A brincadeira estendeu-se por trinta minutos. As gargalhadas, tão intensas, que abalaram a estrutura das casas do quarteirão.

Decorridas duas semanas, encontramo-nos eu e Ricardo, na festa de aniversário de Mariângela, nossa amiga em comum, e lá, na casa dela, Ricardo disse, durante animada conversa com Marcos e Rúbia, filhos de Mariângela e Gustavo, com Geraldo, filho de Carlos Roberto e Madalena, e com Cauã, filho de Isaías e Isis:

– Sou um homem esperto, atilado, mais esperto do que o mais esperto de todos os homens que já pisaram na face da Terra. Eu nunca direi para ninguém que orangotango é a minha senha do e-mail e ornitorrinco é a minha senha da conta do Facebook. Ninguém nunca saberá quais são as minhas senhas! Nunca!

E Rúbia, antecipando-se a Marcos, Geraldo e Cauã, disse, rindo:

– As senhas são orangotango e ornitorrinco.

– O quê!? – exclamou Ricardo, simulando espanto, surpresa, admiração. – Como você descobriu quais são as minhas senhas? Quem as disse para você? Vocês são espiões? Vocês são espiões. Vocês descobriram as minhas senhas. Vou telefonar para a polícia, e vou falar para o delegado prender vocês – e pegou o celular, e “telefonou” para a polícia, e seguiu-se a brincadeira.

As crianças não se agüentavam de tanto rir. E os adultos, sob influência das gargalhadas das crianças e da mímica histriônica de Ricardo, riam de orelha a orelha.

Um mês não havia transcorrido, encontramo-nos Ricardo e eu, no clube de campo ***, onde, na presença de crianças, Ricardo repetiu a Brincadeira das Senhas, como codnominaram a brincadeira, que, infalivelmente, Ricardo promovia sempre que encontrava-se com crianças. Não haviam decorrido dez dias, Ricardo veio a falecer, pouco depois de um assalto. O assassino disparou contra ele, a queima-roupa, três vezes. Morreu Ricardo, na ambulância, a caminho do hospital. Compareci ao sepultamento. Reinava a tristeza. Apresentei condolências à mãe e ao pai do Ricardo, à Suzanne, e às órfãs, Márcia e Adriana. Lágrimas escorreram-me dos olhos, em uma golfada. Não as removi. Das minhas lágrimas não me envergonho.

Nos dias seguintes, freqüentei a casa de Suzanne, e ajudei-a a ajeitar algumas coisas que Ricardo deixara para trás. Um dia, na casa dela, estávamos Suzanne, Márcia, Adriana, o pai de Suzanne, Cristóvão, a mãe dela, Maria da Conceição, e o tio dela, Rubens, e outros familiares e amigos da família, quando alguém – não me recordo quem -, lembrou-se de acessar o computador, à procura de documentos, projetos e relatórios de Ricardo. Suzanne, no escritório de Ricardo, ligou o notebook, e clicou no ícone do e-mail, e, na sequência, no do Facebook. Para acessar as duas contas digitou, no campo reservado às senhas, na conta do e-mail e na do Facebook, a data de nascimento de Ricardo. Acesso negado. E digitou a data de nascimento de Ricardo com os números alterados, primeiro o ano, depois o mês, e o dia. Acesso negado. Digitou a sua data de nascimento. Acesso negado. Digitou o seu nome. Acesso negado. Digitou o nome de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome das filhas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento delas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Teófilo, pai de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dele. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Maria Amélia, mãe de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dela. Acesso negado. Digitou o nome de Albert Einstein, o cientista que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou o nome de Fibbonacci. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Fibbonacci, o matemático que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Fibbonacci. Acesso negado. Após o Facebook e o e-mail negarem-lhe o acesso trinta e quatro vezes, Suzanne desligou o notebook e, acompanhada de todos nós, retirou-se do escritório de Ricardo, e rumou, irritada, a ponto de debulhar-se em lágrimas, que, parecia, subiam-lhe para os olhos, em torrente, e em uma enxurrada se lhe despencariam dos olhos, para a sala-de-visitas, onde nos reunimos, e Cristóvão e Maria da Conceição pediram-lhe paciência, que, depois, descobririam a senha da conta do e-mail e a da conta do Facebook de Ricardo. Ele, era certo, as havia anotado em algum papel. Em qual? E onde o deixou? Ou, sugeriu Cristóvão, em algum arquivo, no computador, ou, sugeri, para descontrairmos um pouco, em algum arquivo particular no Facebook, ou em um rascunho no e-mail.

Na sala-de-estar, a conversar permanecemos, em tom baixo, respeitoso, durante um bom tempo. Maria da Conceição, preocupada com a saúde de sua filha, à ela dedicou toda a sua atenção até o instante em que Cristóvão soltou uma gargalhada, tão repentinamente, que assustou-nos a todos nós – e a ele também, presumo -, e bateu as mãos, na cabeça, uma, duas, três vezes, como que a se punir por algum pecado. Suspendemos a respiração, de imediato, a fitarmo-lo, abismados. Enlouquecera o velho? Um parafuso desconectara-se-lhe da massa cinzenta? Desmiolhara-se-lhe a cabeça? Liquefizera-se-lhe o cérebro? Coitado do ancião! O que lhe sucedia? Doeu-lhe o ventre de tanto gargalhar. Esparramou-se no sofá, o matusalém. Enfim, ele cessou as gargalhadas, e removeu, com um lenço que tirara do bolso traseiro da calça, as lágrimas dos olhos, e acenou para nós, pedindo-nos que o acompanhássemos. Não lhe exigimos explicações. Entreolhamo-nos, e levantamo-nos, curiosos, do sofá, e seguimo-lo. E ele entrou no escritório que havia sido do seu falecido genro. E ligou o notebook. E digitou a senha da conta do Facebook do Ricardo e a da conta do e-mail dele: ornitorrinco e orangotango.

Monólogo de um doido varrido

Debilitou-me uma doença psicológica bacteriana de origem vegetal pelos psicólogos denominada patologia, isto é – traduzindo para a linguagem de gente que pensa com o próprio cérebro, manuseia os objetos com as mãos, corre com os pés, olha com os olhos, ou com um olho só, caso se trate de um ciclope, e ao se ajoelhar dobra os joelhos -, patologia, dizia eu, doença da qual estou acometido, é a doença das pessoas obcecadas em estudar patos e congêneres. Congêneres, explico, para as pessoas que não sabem o que tal palavra significa, e também para as pessoas que desconhecem dela o significado, é o plural de congênere. Dadas estas explicações, esclarecedoras, que eliminam toda e qualquer dúvida quanto à acepção da palavra da qual estou a tratar, e, ao tratar dela, trato dela, não com a negligência que muitas pessoas das palavras tratam, seja a da qual tratei, seja de qualquer outra palavra, mas com a seriedade que compete aos gênios nos quais a vida infligiu dores provenientes da patologia, em decorrência da ingestão de penas, bicos, cascas de ovos, pés de patos, e, também, de marrecos, gansos, paturis, donaldes, patinhas e gastões, espécies, estas, de bípedes dotados de indumentária que, embora apropriada, é inapropriada para os indivíduos de sua espécie, mesmo que pertençam à espécie alheia, prossigo: A patologia, dizia eu, doença psicológica bacteriana de origem vegetal, derivada das poções mágicas da Maga Patológica, que, com o auxílio da Madame Mim, concebeu receitas compostas dos mais inusitados ingredientes, pertence à família das doenças da classe das categorias aparentadas com a síndrome de Estocolmo – detectada, pela primeira vez, em Helsinque, num laboratório situado em Berlim e localizado em Tóquio –  e com os processos jurídicos do corredor polonês. E quem é o corredor polonês? Desconheço-lhe o nome. Sei, no entanto, e todavia, que é ele natural da Polônia, embora tenha nascido na Hungria, numa noite de lua cheia no Japão; e assistiu ao seu nascimento um homem, o parteiro, grego da ilha de Creta, que lutou, na companhia de Aquiles e Odisseu, na guerra de Tróia, e foi um dos construtores do cavalo de madeira, o famosíssimo Cavalo de Tróia, que era, na verdade, um burro de eucalipto sintético; além disso, ele concebeu um sistema filosófico racionalista, teleológico, mecanicista, heliocêntrico, holístico, que seu aprendiz, o Eleutério, que não é um elemento da tabela periódica, disseminou em todo o mundo, reservando-o para si, sem que o tenha transmitido para outra pessoa qualquer. Mas a sua filosofia, é certo, e quanto a isso não restam dúvidas, foi disseminada em todo o mundo, pois, afinal, ele, isto é, o Eleutério, a aventou aos furacões, ciclones, tufões, que de tempos em tempos varrem a costa leste do litoral e o litoral da costa leste do continente americano banhado pelo Oceano Atlântico, cujas águas são salgadas, e nelas vivem baleias; e Eleutério não limitou-se a apenas, e tampouco unicamente, aventá-la aos furacões, tufões, ciclones; ele também a externou para as águas dos oceanos, que a espalharam por todo o planeta. E quem é o Eleutério? Não sei. Eu nunca o vi mais gordo, e nem mais magro, e nem mais alto, e nem mais baixo. E eu nunca ouvi falar dele, e acerca dele nenhuma palavra eu li. Mas o Eleutério não é importante; importante é a distância entre a Terra e a Lua. A Lua, explico, para eu mesmo, para que eu possa entender a minha idéia que me apresento, quando se aproxima da Terra dela fica mais próxima, e quando dela distancia-se dela fica mais distante, e a Terra, ao distanciar-se da Lua quando a Lua dela distancia-se, dela afasta-se, e quando dela aproxima-se ao mesmo tempo em que ela de si aproxima-se encurta-se a distância que há entre elas. Tal fenômeno ainda não foi inteiramente, e tampouco parcialmente, compreendido pelos seres humanos que o estudaram, e muito menos pelos seres desumanos que nunca se dedicaram ao seu estudo. É inexplicável, e inexplicável será até o dia em que alguém o compreenda, e, compreendendo-o, o entenda, e, entendendo-o, formule as explicações que o explique, e explique, também, a relação de causa e efeito entre a extinção dos tiranossauros rex e o milésimo gol do Pelé. Por que o seu milésimo gol Pelé o marcou numa cobrança de pênalti, e não numa cobrança de escanteio? Há uma relação de causa e efeito, e de princípio, meio e fim, entre os dois eventos, afinal, pois, os tiranossauros rex tinham dentes, e o Pelé tem dentes também; e a existência de dentes na boca do Pelé e nas bocas dos tiranossauros rex indica similaridades fenomenológicas existencialistas entre o ludopédio, isto é, o futebol, ou soccer, como dizem os norte-americanos, e os filmes de Steven Spielberg. Além disso, um tiranossauro rex, dias atrás, invadiu-me a televisão, e surrupiou-me das mãos o controle remoto, e, antecipando-se a mim, premiu do controle remoto um botão, e teletransportou-se para outra galáxia, onde encontrou, num planeta piramidal, no sopé de uma montanha, um ovo cósmico, que explodiu no mesmo instante em que Moisés rachou-o com um machado, matando o tiranossauro rex, mas não se matando no processo, pois, afinal, ele, o Moisés, em decorrência do deslocamento de ar da explosão explosiva, foi arremessado à Terra, e caiu, no topo do cume da ponta do Everest onde encontrou o Homem das Neves Abomináveis e o Abominável Homem das Neves a confabularem acerca da relatividade do tempo absoluto, a tempo de ouvir o Homem das Neves Abomináveis comentar, dando por encerrada a sua entrevista com o Abominável Homem das Neves: “O tempo, sendo relativo, não pode ser compreendido como tempo relativo, afinal, pois, sendo relativo, o tempo é, portanto, absoluto, pois, afinal, a sua condição temporal não é atemporal, afinal, pois, ele existe como fenômeno cósmico, portanto, real, dotado de propriedades absolutas, conquanto elas não eliminem as suas propriedades relativas, afinal, pois, a relatividade do tempo, ao mesmo tempo que define o tempo da relatividade, perpetua a noção absoluta do tempo relativo conjugada à noção relativa do tempo absoluto conquanto a sincronia dos eventos simultâneos coordenados pelas cordas que compõem a infinitude do tecido cósmico do universo observado de dentro de um prisma desmaterialize as partículas de nêutrons, que estão a singrar o oceano sideral há bilhões de anos e cujo destino é desconhecido de todos. Sabe-se, apenas, até o presente momento, que, em decorrência da eclosão do Big Bang, os italianos inventaram o spaghetti, os franceses a guilhotina, os alemães o salsichão, os gaúchos o churrasco, e o Bethoveen a surdez”. E aqui, uma avalanche arrastou Moisés até uma aldeia ameríndia txucarramãe onde um índio tupinambá indagou-lhe: “A Capitu capitulou?”, e de Moisés não obtendo resposta, o índio tupinambá entregou-lhe duas placas rochosas com inscrições que Moisés não soube decifrar, e cujo significado o silvícola desconhecia, e o silvícola exortou Moisés a ir até o Egito procurar por Champollion, que poderia lhe prestar consultoria, e ajudá-lo a traduzir as inscrições. Moisés entendeu que o destino o chamava a empreender uma tarefa que ele, e apenas ele, e ninguém mais, poderia empreender, e principiou a jornada; no entanto, todavia, porém, devido a sérios problemas no intestino, teve ele de adiá-la. Não sei se ele foi, ou não, bem sucedido em sua empreitada; só sei que eu, exausto de tanto pensar, tenho, e já, de encerrar as minhas reflexões para eu não vir a enlouquecer, pois, afinal, eu enlouquecerei caso eu não cesse, e já, de pensar, para não vir a carecer de forças que conservem a minha sanidade mental. E agora vou dormir, para poder acordar amanhã cedo, preservadas todas as minhas faculdades mentais, e dar seqüência aos meus pensamentos. Desejo-me bons sonhos. E boa noite.

O conto e o prefácio

Pedi, há um mês, para um amigo meu um prefácio para um conto que escrevi. Antes não lhe tivesse pedido. Ele dissecou o conto, cortou-o em fatias, e o resumiu. Antes de publicar o conto, detive-me, e perguntei-me porque eu o publicaria, se o prefácio apresenta, em síntese, toda a sua trama. Eu repetiria, com a publicação do conto, o que está no prefácio, e o leitor ao lê-los esbravejaria: “Maldito sejas, Sergio! Li duas vezes a mesma história. Tu me fizeste perder o meu tempo. Vá para o inferno. Tenho mais o que fazer, imbecil!”. E eu teria de dar-lhe razão, e calar-me, e reconhecer a minha insensatez. E eu me perguntei porque eu publicaria o conto, se o conto conta o que o prefácio já contou. Decidi, então, suprimir o meu conto, e publicar apenas o prefácio que para o meu conto o meu amigo escreveu. Decidido, então, a suprimir o meu conto, e publicar apenas o prefácio escrito pelo meu amigo, previ que o conto poderia, um dia, se encontrado por alguém, vir a ser publicado; e decidi queimá-lo, e queimei-o. Queimado o meu conto, nenhum risco existe de ele vir a ser publicado. E perguntei-me, então, se eu, ao não publicar o meu conto – e eu já o havia queimado – publicaria o prefácio que para ele meu amigo escreveu. Sim, eu o publicaria. E para mim justifiquei a minha decisão, que para o leitor é, presumo, uma insensatez: Prometi ao meu amigo – o autor do prefácio – que eu publicaria o prefácio que lhe pedi para o meu conto. Ele o escreveu. E eu, para não faltar com a promessa que lhe fiz, e não perder o amigo, publicá-lo-ia. E prometi-me nunca mais pedir a um amigo meu, ou para qualquer outra pessoa, um prefácio para um conto meu. Eu escreverei um prefácio para os meus contos. Aliás, um prefácio para qualquer conto meu eu jamais escreverei. E se eu, no prefácio, incorrer em atitude similar à do meu amigo que escreveu para um conto meu um prefácio, e tiver de, para não repetir, no prefácio, a trama do conto, abandonar o conto? Prefiro não arriscar. E o meu amigo, o prefaciador, perguntou-me, há uma hora, do meu conto, e eu lhe disse que eu o queimara, e ele, horrorizado ao ouvir-me, exigiu-me explicações. Dei-lhas; e ele disse que, como o meu conto não seria mais publicado, ele não permitiria que eu publicasse o prefácio que ele escreveu para o meu conto. E discutimos. Assim que se acalmou, meu amigo pediu-me o prefácio que me havia escrito, para relê-lo. Dei-lho. E ele, para a minha surpresa, correu, e tirou do bolso da camisa uma caixa de fósforos, e ateou fogo às folhas com o prefácio. Assim que me dei conta do que se passava, as chamas já haviam consumido todas as folhas. E queimados o meu conto e o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, a humanidade – triste humanidade! – jamais terá o prazer de ler o meu conto e o prefácio que para ele escreveu o meu amigo.