Enfim… o fim.

Quero escrever um conto.

Há horas, na biblioteca, na minha casa, à mesa, esferográfica à mão, papel em branco sobre a mesa, e eu a devanear.

Enfim, achei uma idéia para um conto: um homem apaixona-se por uma mulher, que não corresponde ao amor que por ela ele sente.

Como darei início ao conto? Transpus uma barreira. Contente, eufórico, avancei – poucos passos, mas avancei. Vejo-me, agora, petrificado. Persistirei. Insistirei. Quero escrever um conto. A idéia eu a tenho. Como a desenvolverei?

Com a idéia na cabeça, agora resta-me escrever o conto. Quem é o protagonista? Qual é o seu nome? O que ele sente? O que ele pensa? Qual a relação dele com as outras personagens? Quem são os seus amigos?  Quem são os seus desafetos? Qual é a sua idade? Ele é jovem, adulto, ou velho? Qual é o nome da mulher pela qual ele se apaixonou? À qual classe social ambos pertencem? Eles são solteiros? Casados? Viúvos? Ela é jovem, adulta ou velha?

Penso nestas questões e em muitas outras – todas, unidas num vórtice, assediam-me e imobilizam-me.

Escrevo estas linhas para tomar conhecimento das dificuldades com as quais me deparo.

Interrompi a redação deste texto, para beber de um pouco de água. O calor – infernal – liquefaz-me. Sinto-me como se eu estivesse no Saara, ou à boca de um vulcão em erupção, ou nas fornalhas do inferno.

Saciei a minha sede.

Agora, sentado, à mesa, esferográfica à mão, ponho-me à redação do conto, cujo início é:

Segunda-feira. O dia amanhece quente e abafado. João Carlos acorda às quatro horas e cinquenta minutos, dez minutos antes de o despertador estridular. Com os olhos remelentos, os cabelos despenteados, o rosto inchado, as pálpebras semi-cerradas, desorientado, aciona o botão interruptor, e, automaticamente, protege os olhos com os braços, contrai os músculos do rosto, e cobre a cabeça com a colcha. Espreguiça-se. Estremunhado, retira-se de sob a colcha, empurrando-a, com os pés, aos pés da cama, levanta-se e dirige-se ao banheiro.

Após o banho, vestido, ruma à cozinha, e prepara lauta refeição da manhã. Come uma banana, duas peras, um pedaço de melancia, uvas, jabuticabas, três morangos, ameixas, um pão francês com duas fatias de queijo-prato e geléia de pêssego, sequilhos, biscoitos-de-vento, e bebe café-com-leite e laranjada.

Ao retirar-se da sua casa, às seis horas, ao volante do carro que comprara há três meses, seu rosto transparecia o ânimo que o propelia para mais uma exaustiva jornada de trabalho, das oito às dezoito horas – trabalhava como um cavalo para, ao final do mês, receber um salário de mula.

Comentários:

Empolgado com as idéias que me assaltaram a mente, escrevi, rapidamente, estes três parágrafos. Interrompi a redação da narrativa para registrar observações a respeito das minhas dúvidas quanto ao teor do que escrevi.

Fiz uma lista com mais de cinquenta nomes. Desta lista, selecionei oito nomes: Paulo, Vicente, Antonio, João Carlos, Sergio, Roberto, Djalma e Lauro. Selecionados estes nomes, perdi preciosos minutos pensando qual deles é o mais apropriado para o meu personagem. Escolhi João Carlos, nome que, todavia, não me agradou. Se não me agradou, por que, então, o escolhi para o meu personagem? Se eu soubesse o que há nos escaninhos do meu cérebro! João Carlos é o nome do meu personagem. Embora eu o tenha escolhido dentre vários outros nomes, estou à procura de outro nome, que me seja mais simpático. Pergunto-me: Quais são os meus critérios para batizar os meus personagens com um nome, e não com outro? Alguma coisa – o quê?, não sei – indica-me um nome, e o procuro, muitas vezes sem saber que nome é esse. É como se houvesse algo no meu interior que me dissesse que este, e não aquele, é o nome apropriado para o personagem A, e não para o personagem B. É uma sensação estranha – direi indefinível. Não posso explicá-la. Já escrevi contos com personagens que de mim receberam o nome de José, Sebastião, Gumercindo, Paulo, Evandro, Humberto, Godofredo, Washington, Murilo, Lúcia, Stéfani, Larissa, Verônica, Maria, Tábata e Angelina. Como se vê, nomes comuns e nomes incomuns. Por que me decido por uns, e não por outros, não sei explicar. Penso comigo: Tal personagem tem cara de Godofredo. Godofredo! Como é um homem chamado Godofredo? Não sei, não conheço nenhum Godofredo. Então, vou mudar o exemplo: Tal personagem tem cara de José. Conheço vários José. José é o nome mais comum, no Brasil, de homens, e também de mulheres. Conheço várias Maria José. Como é um homem chamado José? Os Josés que conheço não se parecem uns com os outros. Conheço-os baixos, altos, gordos, magros, calvos, cabeludos, negros, brancos, cafuzos, mamelucos, pardos, e até japoneses e árabes. Quero dizer: brasileiros descendentes de japoneses e brasileiros descendentes de árabes. Fica a pergunta: O que vejo num personagem masculino, enquanto o concebo, para vir a batizá-lo de José, e não de Ariovaldo? Essa questão, como se pode concluir, dá muito pano pra manga.

Pergunto-me: Conservo o início do conto? Apresentei João Carlos acordando, banhando-se, tomando o café-da-manhã, saindo da sua casa, de carro, na manhã de uma segunda-feira, para ir ao trabalho. Cena tão trivial não despertará no leitor a curiosidade, tampouco a vontade de dar sequência à leitura. Que conto sairá deste início tão insosso!? Um conto banal, é certo. Tenho de modificá-lo. Ou, se não modificá-lo, narrar, na sequência, um evento que desperte a curiosidade do leitor; não se faz imprescindível um evento grandioso, fantástico, como um ataque de alienígenas à Terra, ou a detonação de uma guerra termonuclear, mas, sim, um evento que prenda a atenção do leitor, e o agrade, além de agradar-me; que lhe excite a curiosidade; e que inspire-me novas cenas para a sequência da narração.

Narro, agora, um evento chocante (decidirei, depois, se conservarei os três parágrafos iniciais do conto):

Ao passar pelo cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco, José Carlos atropelou uma loira que atravessava a rua.

Comentários:

Decidi substituir João Carlos – nome que não me agradou – por José Carlos. Pergunto-me se, em vez de uma loira, a mulher atropelada não pode ser uma morena, ou uma negra, ou uma mulata. Queimo as pestanas pensando nisso. Para ao mesmo tempo complicar e descomplicar a questão, penso em outra alternativa, que é a que mais me agrada: substituir a loira por uma ruiva. As ruivas são exóticas, pitorescas. Eu já vi quantas ruivas? A última ruiva que vi, há mais de dois anos… Isso não vem ao caso. Decidi: Modificarei o início do conto. Excluirei os três primeiros parágrafos, e o quarto parágrafo eu o modificarei – para melhor, presumo. Substituirei a loira por uma ruiva. E faço-me as seguintes perguntas: Por que o acidente ocorreu no cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco? Não poderia ter ocorrido no cruzamento da rua Oliveira Lima com a Euclides da Cunha? Ou, então, no da rua Gilberto Freyre com a Machado de Assis? Ou no cruzamento da avenida José de Alencar com a rua Washington Luis? Ou no da avenida Oswaldo Cruz com a Emílio Ribas? Não é, como aparenta, tão simples tomar uma decisão a respeito desses detalhes, que não são irrelevantes.

O início do conto fica assim:

7:00. José Carlos retira-se da sua casa, de carro. Duzentos metros depois, distraído, ouvindo uma canção de Noel Rosa, chegou ao cruzamento da avenida Emílio Ribas com a avenida Oswaldo Cruz. De repente, do nada, surgiu-lhe, à frente do carro, provocando-lhe intensa onda de calafrios, uma ruiva jovem, bonita, atraente. Instintivamente, José Carlos afundou o pé no pedal do freio. O carro parou a um palmo da ruiva, que, petrificada, os olhos arregalados, a boca escancarada, fitou José Carlos, que, num átimo, desafivelou o cinto de segurança, abriu o carro, e saiu, com o coração aos pinotes – no seu cérebro entrechocavam-se miscelâneas de pensamentos. Eram poucas as pessoas que testemunharam o evento. Dois homens levaram as mãos à cabeça; um deles proferiu um “Quase!”, e elogiou José Carlos, enquanto o outro limitou-se a empinar o corpo como se o carro tivesse ido em sua direção, e não em direção à ruiva. Diante da padaria, uma jovem levou a mão direita ao peito esquerdo. No jardim, sentados em um banco, dois homens teceram comentários desabonadores: “Mocinha lerda”, disse um deles, um sujeito de cabelos desgrenhados, barba hirsuta, roupas amarfanhadas, chinelos-de-dedos surrados; e o outro, tipo esdrúxulo, corcunda, calvo nas têmporas, de nariz volumoso de abas largas – a direita adornada com uma verruga roxa -, sobrancelhas espessas projetadas sobre os olhos, quase os cobrindo completamente, lábios descoloridos, orelha esquerda de abano, queixo pontudo, mãos calosas e pele coberta de pêlos grossos, que lhe emprestava aspecto simiesco, comentou: “A palerma está dormindo! A idiota não acordou!”, e tossiu duas vezes, e completou: “Se eu fosse o motorista, passaria por cima dela, para ela aprender a não ser burra”.

Comentários:

Tenho várias observações para apresentar a respeito das modificações que fiz, dos trechos que suprimi e das personagens que acrescentei. Exclui os dois primeiros parágrafos nos quais eu apresentava o protagonista despertando, banhando-se e degustando um lauto café-da-manhã. Conclui que tais parágrafos, para o conto que tenho em mente, são irrelevantes, portanto, prescindíveis. Suprimi-los foi a decisão correta, acredito. Talvez eu reconsidere esta minha decisão. Outro ponto a se considerar: eu havia escrito que o protagonista acordou dez minutos antes das cinco horas da manhã, e saiu da sua casa às 6:00 para iniciar o expediente de trabalho às oito horas. Ao pensar em outras idéias, as quais anotei à parte, conclui que manter o terceiro parágrafo implicaria em outras idéias, que não me agradam, as quais eu teria de inserir neste conto; refiz, portanto, o parágrafo, e apresentei o protagonista retirando-se da sua casa às sete horas. Na versão que abandonei, eu apresentaria o protagonista rumando para a empresa, localizada na cidade vizinha, distante cento e cinquenta quilômetros da sua casa, para a qual ele regressaria às 20:00, ou às 20:30. Abandonei essas idéias. Escreverei, na versão atual do conto, que a empresa na qual o protagonista trabalha localiza-se na cidade na qual ele reside; ele, portanto, não precisará retirar-se da sua casa às seis horas para ir à empresa na qual trabalha. Saindo de sua casa às sete horas, ele chegará, com quinze minutos de antecedência, na empresa.

Outra observação: O nome José Carlos não me é simpático, mas não sei se o substituirei por outro nome. Pensei, hoje, nos seguintes nomes para o meu personagem: Charles, Davi, Heródoto, Rubens e Gustavo, e, ontem à noite, pensei nestes nomes: Frederico, Henrique, Cauã, Salomão, Demócrito, Lúcio, Felipe, Ulisses e Laércio.

Agora, ao ponto mais importante de todas as modificações e acréscimos que fiz: as pessoas que testemunharam o evento. Antes, eu não me referira à nenhuma testemunha, pois escrevi que o evento se sucedera no cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco, situado num bairro residencial de pouco movimento às seis horas da manhã. Agora, relatei o evento sucedendo-se, às sete horas da manhã, no cruzamento das duas principais avenidas da cidade, a Emílio Ribas e a Oswaldo Cruz, situado no centro da cidade. Às sete horas da manhã, há, lá, muitos transeuntes. Primeiro, limitei-me a aludir às testemunhas. Considerei, depois de algumas ponderações, inadequado limitar-me à alusão às testemunhas e, sem entrar em pormenores, dar sequência à narrativa. Foi, então, que concebi as cinco testemunhas; para duas delas emprestei características físicas de dois mendigos bêbados, ambos feios, desgraciosos; os seus comentários a respeito da ruiva eu os ouvi – para não ferir suscetibilidades, não os reproduzi com exatidão – há dois meses, na véspera do aniversário de uma amiga inestimável, a Érica, ao entardecer. Relato o episódio: Chegou-me, de trás de mim, o som de freada brusca. Ao olhar por sobre o ombro direito, entrevi, à frente de um carro parado no meio da rua, uma roda e o guidão de uma bicicleta vermelha e a cabeça de um garoto de cabelos compridos repartidos ao meio. Uma fração de segundo depois, vi dois mendigos de aparência repulsiva atravessando a rua; eles teceram comentários desabonadores em tom de voz elevado. Não reproduzi, como comentários à ruiva, os comentários que eles fizeram ao garoto, pois são irreproduzíveis. Outros escritores – para os quais as obscenidades são como o sangue que lhes corre pelos vasos sanguíneos – os escreveriam. Eu, atendendo ao meu desejo, reservo-me o direito ao requinte do vocabulário. Declarei que este é o ponto mais importante que eu consideraria aqui. Não o é, entretanto. Há outro ponto de equivalente grau de importância. José Carlos, o protagonista, não atropelou a ruiva. Na versão anterior, José Carlos atropelou a loira – que substitui por uma ruiva. Antes, o protagonista atropelou a loira; agora, ele não atropelou a ruiva.

Encerrados os comentários, escrevo a sequência do conto:

– Tu estás bem? Estás machucada? – perguntou José Carlos, com voz quase sumida, à ruiva. Ansioso, com o coração aos pulos, fitava a ruiva com olhar perdido. Não sabia se se aproximava dela, pegava-a ao colo, punha-a no carro, para conduzi-la ao pronto-socorro, ou se dela mantinha distância respeitável. Tocou-a no ombro com as pontas dos dedos da mão esquerda. A ruiva, emudecida, moveu a cabeça para cima e para baixo, lentamente, dando a entender que se sentia bem e não se machucara.

José Carlos pediu-lhe que entrasse no carro. Disse-lhe que a conduziria ao pronto-socorro. Ela disse, em tom baixo, ao mesmo tempo que levava ao peito a mão direita aberta, que não precisaria ir ao pronto-socorro, pois sentia-se bem. Estava lívida. José Carlos, atencioso e preocupado, conduziu-a à calçada. Ato contínuo, foi ao carro, manobrou-o até à margem da rua, estacionou-o próximo da ruiva, retirou-se do carro, dirigiu-se à ruiva, cujo nome era Verônica.

Comentários:

Estes dois parágrafos apresentam o que eu quis expressar: uma cena corriqueira, na qual os dois personagens principais entabularam conversa. Desconsiderando alguns detalhes, como o nome da ruiva (pensei em Ludmila, Larissa, Verônica, Laura, Jaqueline, Inês, Natasha, Íris e Yulia – e decidi-me por Verônica), o texto agradou-me. Sinto-me extremamente contente por ter dado sequência à narração, tendo em vista que despendi, para este curto trecho, três horas de um dia ensolarado. Suspeito que foi uma tarde proveitosa e me regozijo com a redação deste conto, que se encorpa, lentamente, gradativamente, mais lentamente do que eu gostaria; e vou encontrando soluções para as complicações inerentes à trama; soluções que, se não me agradam, preenchem as lacunas, e dão corpo ao texto.

Prossigo:

Algumas pessoas aproximaram-se de José Carlos e de Verônica. Umas, consolavam-na; outras, estudavam as atitudes de José Carlos e observavam Verônica. Alguns homens, que não foram lá para prestar auxílio a Verônica, não se interessavam pelo que lhe ocorrera – admiraram-lhe a formosura do porte.

Comentários:

Até aqui o texto encaminha-se bem. As personagens que representam a multidão eu as apresentei superficialmente, mas da maneira adequada, acredito. Algumas dentre elas são solícitas e prestativas; outras, homens animalescos, estavam lá para satisfazer a lubricidade. E José Carlos devotou à Verônica a sua atenção. Foi atencioso, mostrou-se preocupado, e insistiu em conduzi-la ao pronto-socorro; os seus gestos e as suas palavras revelam os seus bons sentimentos.

À sequência do conto:

José Carlos disse para Verônica que a conduziria ao pronto-socorro. Ela lhe disse, mais uma vez, que não se machucara, que apenas se assustara com o sucedido, e pediu-lhe que não se preocupasse; gracejando, disse-lhe que ele estava mais nervoso do que ela, e que ele, e não ela, precisava ir ao pronto-socorro. José Carlos sorriu.

Aos poucos, Verônica foi recuperando a cor natural do rosto. José Carlos, cujos sentimentos confundiam-se, fitava-a, embevecido, atraído pela sua beleza. Preocupava-se com Verônica ou dedicava-lhe tanta atenção por que ela era uma mulher bonita e atraente?

Comentários:

Destes dois parágrafos gostei apenas do primeiro; do último, não. Quais sentimentos Verônica despertou em José Carlos? Insinuei que, assim que Verônica recuperou as cores naturais do rosto, aflorou à mente de José Carlos pensamentos que não correspondiam à sua índole, à que lhe atribui nos parágrafos precedentes. A interrogação ao final do último parágrafo dá a entender que José Carlos não é um homem sincero, bem-intencionado, mas, sim, um canalha. O último parágrafo, se eu o conservar, inspirará no leitor certas expectativas quanto à conduta de José Carlos, expectativas que não pretendo lhe inspirar, pois desejo respeitar a trama original, a qual apresentei no princípio deste texto. José Carlos – é o que tenho em mente – impelido pelos ditames de um coração generoso, não pode misturar sentimentos censuráveis ao seu sincero desejo de prestar auxílio à Verônica. Excluirei, portanto, o último parágrafo. E dou sequência à narração:

A ruiva recuperou a cor natural do rosto. Inspirou e expirou como se removesse de dentro de si pensamentos que lhe pesavam no espírito.

Conquanto se persuadisse de que ela não se machucara, José Carlos insistiu em conduzi-la ao pronto-socorro.

– Qual é o teu nome? – perguntou-lhe José Carlos.

– Veruska – respondeu a ruiva.

– Veruska, se tu quiseres ir ao pronto-socorro…

– Não. Obrigada. Não me machuquei…

– José Carlos.

– José Carlos, não me machuquei. O carro nem encostou em mim. Acredite-me – sorriu.

– Bem… então… Queres que eu telefone para alguém? Para teu pai? Para tua mãe?

– Não, José Carlos. Obrigada. Estou bem. Acredite, estou bem.

Comentários:

Decidi modificar o nome da ruiva. Pensei, além de Veruska, em Zuleika, Fabíola, Ariadne, Marianne, Dayanne, Paola, Samantha, Pâmela, Dorotéia e Gislaine, além dos que mencionei linhas atrás. Decidi-me por Veruska porque este nome, melhor do que os outros, encaixou-se, à perfeição, na personagem ruiva. É como se houvesse um vínculo entre Veruska e as ruivas. Como se, como direi?, todas as ruivas, por serem ruivas, se chamassem Veruska. Não consigo imaginar uma ruiva chamada Maria, ou Elisabete. Já imaginei ruivas chamadas Yulia e Natasha, nomes incomuns, aqui, no Brasil, mas comuns, presumo, na Rússia e na Ucrânia. Mas Yulia e Natasha não são os nomes ideais para a ruiva. Veruska, sim, é. Por quê? Não sei. Sempre que imagino uma ruiva, penso em nomes pitorescos. Decidi, também, mudar um detalhe significativo: Antes eu mantivera José Carlos ignorante do nome da ruiva; agora, decidi fazê-lo tomar a iniciativa de perguntar à ruiva o nome. Dei, assim, um toque mais íntimo à cena.

Dou sequência ao relato:

Veruska disse que estava em condições de ir até o escritório de contabilidade no qual trabalhava. José Carlos ofereceu-lhe carona. Veruska a recusou, com gentileza; disse-lhe que iria, a pé, até lá. José Carlos insistiu em conduzi-la até o escritório e disse-lhe que não aceitaria um ‘não’ como resposta. Fitaram-se. Veruska sorriu, constrangida; após alguns segundos de silêncio, disse para José Carlos que aceitaria a carona.

Entraram no carro.

Durante o trajeto, falaram de filmes e espetáculos musicais.

Chegaram ao escritório de contabilidade dez minutos depois.

– Queres que eu explique para a tua patroa o que aconteceu e porque tu estás atrasada? – perguntou José Carlos.

– Não, José Carlos – respondeu Veruska. – A Lúcia sabe que tive um bom motivo para me atrasar.

Comentários:

Mais uma vez, não me simpatizo com um nome que escolhi para uma personagem: Lúcia, o da patroa da Veruska. Pensei em outros três nomes: Renata, Paula e Felícia. Optei por Lúcia. Por quê? Não sei. Mas será Lúcia o nome da patroa da Veruska. Outro ponto relevante: o sexo do superior hierárquico imediato da Veruska. No início, pensei em um homem, cujo nome seria, ou Fabiano, ou Rodolfo, ou Ulisses, ou Zacarias, ou Isaias. Foram esses os cinco nomes que me vieram à cabeça. Abandonei-os ao decidir-me por uma mulher. Preferi uma patroa para a Veruska, e não um patrão. E ficará assim.

Retomo a narração:

Veruska retirou-se do carro. À porta do escritório de contabilidade, voltou-se, e acenou para José Carlos, que lhe retribuiu o aceno, esperou-a entrar no escritório, e retirou-se.

Durante o dia, José Carlos pensou em Veruska. Reviu-a diante do carro – tentou dimensionar o medo que lhe avassalara o espírito -, assustada, com a boca escancarada e os olhos tão abertos que, parecia, iriam pular das órbitas.

– Terra chamando Zé Carlo. Terra chamando Zé Carlo. Atenda, Zé Carlo. Câmbio. Atenda, Zé Carlo. Câmbio. Terra chamando Zé Carlo – disse, bem-humorado, Eduardo, ao mesmo tempo que dava um tapa na nuca de José Carlos.

– O que tu desejas, Eduardo? – perguntou José Carlos.

– Em qual planeta tu estavas?

– O quê?

– Em qual galáxia tu estavas?

– Eu estava aqui, com os meus pensamentos.

– Sei. Pensavas em uma mulher. Ela é bonita?

– Não me incomode, Eduardo. Vamos trabalhar.

Comentários:

Este trecho agradou-me. Concebi o personagem Eduardo e, automaticamente, entendi que ele é um personagem apropriado para este trecho do conto; de imediato, suprimi o que eu escrevera, trecho demasiadamente sério, desprovido de humor. Conheci pessoas como Eduardo, pessoas sempre bem-humoradas e de bem com a vida, mesmo que tenham passado por maus bocados e comido o pão que o diabo amassou. Um dos meus amigos, Josué, um tipo avoado, é assim. Ele está sempre de bom humor, e perde, com freqüência, a noção da realidade – é impossível manter com ele uma conversa séria por mais de trinta segundos –, e não sei se os eventos que ele narra sucederam-se como ele diz, pois ele insere, nas narrativas dos eventos que protagonizou, detalhes fictícios oriundos dos labirintos de uma mente extraordinariamente criativa. E mais uma vez me implico com o nome que escolhi para um personagem. Para o amigo de José Carlos escolhi o nome Eduardo, após abandonar o nome Marcelo, pois batizei com este nome um personagem que criei para outro conto, e os nomes Roberto, Fábio, Danilo e Daniel.

Retomo a narração:

Eduardo, durante a conversa, disse para José Carlos ir ao escritório onde Veruska trabalha, e aconselhou-o a convidá-la para jantar.

– Não é todo dia que se encontra uma ruiva – disse Eduardo. – Irás deixá-la escapar, Zé Carlo?

– Não confundas as coisas, Eduardo – censurou-o José Carlos. – Quase a atropelei. Depois, como eu disse, eu a levei até o escritório de contabilidade, e vim trabalhar.

– Sei, Zé Carlo – disse Eduardo, em tom zombeteiro. – Tu não te interessaste por ela? Tu queres te enganar? Quem tu queres enganar? Eu? Ou tu? Se tu queres me enganar, saibas que não conseguirás. Se tu queres te enganar, engana-te. Mas saibas que, se tu te deixares enganar por ti, serás um otário.

– Tu não entendeste, Eduardo. A Veruska… Eu não a conheço. Eu a vi, e pela primeira vez, hoje, e numa ocasião… Como eu diria?

– Adequada para o início de um romance.

– Não digas asneiras…

– Asneiras!? Quais asneiras eu disse? Da minha boca, até agora, nenhuma asneira saiu. Zé Carlo, tu não assistes filmes? A maioria dos romances… Como se diz? Romances profícuos? Não. Como é que se diz? Não encontro a palavra adequada…

– O que queres me dizer, Eduardo? Que eu e a Veruska nos casaremos, e viveremos felizes para sempre?

– Exatamente. Tiraste as palavras da minha boca, mas não todas elas.

– Tu confundes a realidade com um conto de fadas. Não sou um príncipe, e a Veruska não é uma princesa.

– Ela pode não ser uma princesa, mas te enfeitiçou. E tu és um sapo. E o que acontece quando uma princesa beija um sapo? Cospe, o rosto a transparecer, em esgares que o deformam, o nojo que lhe avassala o espírito, nojo que deixará de sentir ao beijar um príncipe, ou duas horas após chamar o Hugo. Queres saber, Zé Carlo: Não queiras dissimular os teus sentimentos. O teu olhar, o teu rosto e o teu sorriso revelam-me a paixão que tu sentes pela Veruska.

– Não digas asneiras.

– Nunca falei tantas verdades na minha vida, sabes disso. Estou surpreso comigo. Nunca me imaginei no papel de Cupido. Como eu dizia, mas tu me interrompeste, nos filmes, principalmente nas comédias românticas, uma história de amor começa, infalivelmente, com uma trombada dentro de uma loja. Nunca viste tal cena? É infalível: Uma linda mulher, em um shopping center, após comprar, numa de suas lojas, roupas e calçados, anda, carregando sacolas e uma pilha de caixas, pelos corredores, e, ao passar em frente à porta de outra loja, esbarra-se em um homem, as caixas escapam-lhe das mãos, e esparramam-se, abertas, umas, fechadas, outras, pelo chão, e ela faz um gesto de surpresa e de contrariedade; ao olhar para o homem no qual se esbarrou, arregala os olhos, surpresa com a beleza do bonitão, que a enfeitiça, e o enfeitiça, e os dois, enfeitiçados, agacham-se para recolher do chão as caixas, a linda mulher, encabulada, sorrindo à toa, e o bonitão, elegante, sorridente, exibindo dentes branquíssimos, a admira, elogia-lhe o rosto formoso, o sorriso cativante e os olhos lindíssimos. Recolhidas do chão as caixas, levantam-se, conversam, sorrindo ambos à toa, ele, ávido de desejo, querendo se lançar nos braços dela, e beijá-la, e ela, sedenta de desejo, querendo lançar-se nos braços dele, e beijá-lo, e estreitá-lo num estreito amplexo… Gostaste? Amplexo. Li esta palavra num livro de José de Alencar; se não foi num livro dele, foi num livro de outro escritor. Como eu dizia, o bonitão e a linda mulher agem com discrição, para não se exibirem como levianos e indecentes um para o outro. Resumindo o enredo: eles se encontram, casualmente ou não, num outro dia, e dão início a um relacionamento entre tapas e beijos. No final, antes do famoso The End, eles se casam, e vivem felizes para sempre.

– Um ótimo roteiro para um filme de Hollywood – comentou José Carlos, sorrindo.

– Eu sei. Mas não apenas para um filme de Hollywood. Muitos relacionamentos profícuos… É assim que se diz? Li esta palavra num romance do Lima Barreto; se não foi num romance dele, foi num do Machado de Assis, ou num de outro escritor. A história que contei é roteiro de filme? Pode ser. Ora, Zé Carlo, como sabemos, a arte imita a vida, e a vida imita a arte. Convenhamos, a vida imita mais a vida do que a arte, e a arte imita mais a arte do que a vida. Muitos romancistas fundem, numa personagem, características de uma personagem de outro escritor com as de pessoas que conheceram e as de pessoas que conhecem. As pessoas, ao tomarem uma decisão, consideram o que outras pessoas lhes disseram e o que soube que outras pessoas fizeram em situações semelhantes. Zé Carlo, como eu dizia, a vida não imita a arte, e a arte não imita a vida. Elas se imitam. Vida e arte estão imbricadas. Imbricadas! Em qual romance li esta palavra? Foi num romance do Camilo Castelo Branco? Se não foi num romance dele, foi num romance do Aluísio Azevedo. Se não foi num romance de nenhum deles, então não sei em qual romance a li, mas tenho certeza de que a li num romance, se não brasileiro, português; se nem brasileiro, nem português, então foi num romance francês, ou inglês, ou russo, ou americano. Zé Carlo, tu viste… Do que eu falava?

A estrondosa gargalhada de José Carlos ecoou pelo escritório.

Comentários:

Eu escrevera um relato telegráfico, como se diz, de um diálogo de José Carlos e Eduardo. Um falava seis ou sete palavras, e cedia a palavra para o interlocutor, ou o interlocutor interrompia-o, impedindo-o de completar os comentários. Para mim, tal diálogo não expressava, como eu o desejava, a personalidade expansiva e bem-humorada de Eduardo, um sujeito bonacheirão e tagarela. Suprimi o diálogo. Debruçado sobre a mesa, com a caneta esferográfica à mão, sustentando a cabeça com a mão esquerda, pensei no que escreveria em substituição ao diálogo suprimido. Após uns minutos durante os quais rabisquei a folha de sulfite à minha frente e escrevi o meu nome dezenas de vezes, decidi retirar-me daqui. Fui à sala, mexi em jornais e revistas, para logo retirar-me, e ir ao quintal, onde andei em círculos sob o abacateiro; enfim, regressei à biblioteca, e escrevi o diálogo que se lê nas linhas precedentes.

As melhores idéias me vêm à mente durante a redação do texto o qual modifico à medida que vou desenrolando a história; não foi isso o que me ocorreu hoje, ao me sentir incapaz de criar um diálogo de José Carlos e Eduardo. Escrito o diálogo, satisfeito com o que escrevi, após corrigi-lo durante duas horas e trinta minutos, interrompi a redação da narrativa para registrar estes comentários. O diálogo é perfeito para o que tenho em mente. Agora encerro os comentários, e dou sequência ao conto, que se encaminha para o encerramento:

Durante a manhã, Eduardo, sempre que se lhe oferecia uma oportunidade, falava, sorrindo, para José Carlos ir ao escritório no qual Veruska trabalhava, e convidá-la para um jantar romântico à luz de velas. No almoço, realçou as suas exortações. José Carlos divertia-se com as narrativas que Eduardo lhe contava, com o propósito de o persuadir a ir ao escritório de contabilidade, e convidar Veruska para um jantar romântico à luz de velas, nas quais inseria princesas, fadas, semi-deuses, atrizes famosas e personagens de romances e de revistas em quadrinhos.

Durante à tarde, até o encerramento do expediente, Eduardo renovou as exortações com os mais sensatos e os mais disparatados argumentos.

Ao retirarem-se do escritório, antes de se despedirem, Eduardo disse para José Carlos:

– Zé Carlo, a Veruska, estou certo, pensou em ti. Tu pensaste nela, então ela pensou em ti.

– O que tu dizes não faz sentido.

– Não faz sentido?

– Não. Ela pensou em mim porque pensei nela? Isso não faz sentido, Eduardo.

– Não faz sentido! Essa é boa. Tu me surpreendes, Zé Carlo. Tu me surpreendes. Como assim, o que eu disse não faz sentido!? Em que mundo tu vives? Tu nunca ouviste falar de energias cósmicas? Tu nunca ouviste falar de simulacros cosmogônicos? Tu nunca ouviste falar da teoria das supercordas? Tu nunca ouviste falar do princípio da incerteza? Tu nunca ouviste falar de ressonância mórfica? Tu nunca ouviste falar de paralaxe cognitiva? Tu nunca ouviste falar do teorema de Pitágoras?

– Do que…

– Não me interrompas, Zé Carlo. Tu nunca ouviste falar do irresistível poder de atração dos átomos dotados de sentimentos afins?

– O quê? Átomos têm sentimentos?

– Têm. Do que os nossos corpos são compostos? De átomos. Temos sentimentos, não temos? Como os nossos sentimentos são produzidos? Não sei como são produzidos, mas sei que são os átomos que os produzem. Os átomos do teu corpo e os do corpo da Veruska compartilham os mesmos sentimentos, e desde a criação do mundo, como está escrito no Gênesis.

Com os mais estapafúrdios argumentos, Eduardo conseguiu, por meios incompreensíveis à inteligência humana, persuadir José Carlos a ir ao escritório de contabilidade no qual Veruska trabalhava.

Parado ao cruzamento da rua Dom João VI com a avenida Abraham Lincoln, José Carlos olhou para o escritório de contabilidade no qual Veruska trabalhava, distante uns cem metros. Havia vários carros e motos estacionados em toda a extensão da rua. O trânsito, intenso; o barulho, infernal. Ansioso, José Carlos se perguntou se Veruska já se retirara do escritório e fora-se embora. Tamborilava o volante e alternava a sua atenção entre o semáforo, que, parecia-lhe, fora desativado, e a porta do escritório de contabilidade. Entreviu duas mulheres saindo do escritório. Uma loira alta e Veruska. José Carlos pensou em pisar no acelerador, e transgredir uma lei de trânsito. O semáforo abriu para ele. José Carlos viu Veruska e a loira se despedindo com beijos nos rostos. Ao aproximar-se de Veruska, buzinou, e chamou-a pelo nome. Veruska voltou-se para ele, e acenou-lhe. José Carlos, com a mão direita, fez-lhe sinal para ela entrar no carro. O motorista do carro que ia logo atrás do de José Carlos buzinou. Veruska, passos acelerados, foi até o carro, e José Carlos abriu-lhe a porta do carro, e pisou no acelerador tão logo ela se sentou e fechou a porta. Veruska deu início à conversa ao perguntar-lhe do seu trabalho. José Carlos reconstituiu o dia, e falou, rindo, dos comentários de Eduardo a respeito dos sentimentos afins dos átomos. Veruska sorriu, e exibiu duas fileiras de dentes branquíssimos. Seu rosto encantador transpareceu a alegria que a contagiava. O rubor realçou-lhe a beleza cativante.

À frente da casa de Veruska, ainda dentro do carro, José Carlos perguntou para Veruska se ela queria ir com ele, ou a uma pizzaria, ou a um restaurante. Veruska, encabulada, abriu um largo sorriso, disse-lhe que não tinha compromisso para aquela noite e não havia razão para não ir com ele ou para uma pizzaria ou para um restaurante, dando a entender que dele gostaria de receber um convite. José Carlos percebeu que Veruska, enquanto falava, ajeitava os cabelos, avaliava as unhas, fitava-o, e, encabulada, desviava o olhar, e não suprimia do rosto, cujas maçãs salientes destacavam-se, e o rubor as realçava, o sorriso cativante. Os olhares de ambos encontraram-se. O silêncio que se seguiu, constrangedor, de indisfarçável significado. Ambos desviaram o olhar, e olharam para a frente. Nenhum deles sabia como dar sequência à conversa. Enfim, após encher os pulmões, e expirar, controlando-se, lentamente, José Carlos, com voz suave, perguntou para Veruska:

– Queres jantar comigo, Veruska?

Veruska ajeitou os cabelos, abriu um largo sorriso, olhou para José Carlos com olhar de indisfarçável paixão, e disse, com a voz tão baixa que, para ouvi-la, José Carlos não precisou da audição, mas apenas de paixão:

– Quero.

Marcaram o encontro.

Às vinte horas, José Carlos foi à casa de Veruska. Veruska mirava-se ao espelho e dava os últimos retoques no vestido. Enquanto a esperava na sala-de-estar, José Carlos conversou com Mateus, pai de Veruska, e Berenice, mãe dela. Ele, de porte majestoso, barba e bigodes rapados, cabelos penteados para trás, de temperamento tranquilo, silabava, corretamente, as palavras; ela, magnífica mulher de quarenta anos, robusta, ruiva, de voz suave, cabelos compridos. Ambos elegantes. Ambos de impecável formação intelectual, inteligentes, decentes e trabalhadores. José Carlos impressionou-se com o porte físico e a postura deles, com a elegância que eles exibiram, e com a hospitalidade, o bom-humor, e o conhecimento que possuíam da cultura brasileira e da de outros países. Durante a conversa de menos de uma hora, José Carlos ouviu comentários a respeito da obra de filósofos e romancistas cujos nomes jamais ouvira. Dentre os mencionados, os mais enaltecidos foram Ludwig von Mises, Mário Ferreira dos Santos, Gilberto Freyre, Liév Tolstoi e Dostoiévski, cujas obras, declararam Mateus e Berenice, são, dentre das de outros raros intelectuais e romancistas de inteligência vigorosa, inegável sabedoria e honestidade intelectual, de leitura obrigatória para todas as pessoas que desejam compreender a civilização moderna.

Veruska, enfim, apareceu à sala-de-estar. José Carlos fitou-a, maravilhado. Berenice não titubeou:

– Tu estás linda, filha.

– Linda ela sempre foi – comentou Mateus. – Hoje, ela está exageradamente linda.

Encabularam-na tais comentários. Ruborizou-se-lhe o rosto, cujas maçãs destacaram-se.

José Carlos sentiu o coração vibrando violentamente.

Berenice deslizou, suavemente, suas mãos macias pelos cabelos sedosos de Veruska, e deu-lhe um beijo suave no rosto.

– A benção, mamãe.

– Deus te abençoe.

Ao aproximar-se de seu pai, Veruska pediu-lhe a benção.

– Deus te abençoe – e ele lhe pousou a mão esquerda, de leve, mal a tocando, na face direita, e beijou-lhe o rosto esquerdo.

José Carlos despediu-se de Berenice e Mateus.

Naquela noite, José Carlos e Veruska começaram a namorar.

Oito meses depois, casaram-se, na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Transcorridos quatorze meses, Veruska deu à luz Renato, menino rechonchudo e saudável. Transcorridos outros dezessete meses, nasceu Samantha, que herdou de sua mãe os cabelos ruivos.

Há oito anos José Carlos e Veruska vivem em lua-de-mel. Renato e Samantha crescem, belos e repletos de saúde e de alegria.

Comentários:

Farto dos finais tristes dos romances modernos, perguntei-me se não seria melhor eu encerrar este conto com um final feliz. Abandonei a idéia original, que não era original, e escrevi o final que me agrada. Não é original; todavia, satisfaz os meus anseios.

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O escritor que era original

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos buscou a originalidade durante quase toda a sua vida, que se estendeu por setenta e dois anos. Certo dia, reconheceu, após muitas horas de reflexão, que todas as narrativas que havia escrito os gregos, os romanos, os espanhóis, os italianos, os franceses, os russos, etc., etc., já as haviam contado séculos antes, e, então, certo de que se consumiu em trabalho infrutífero, reconheceu que havia desperdiçado, inutilmente, décadas da sua vida, mas estava feliz, pois entendia, agora, qual era a atitude apropriada para o labor literário, iluminado pela sabedoria universal. Decidiu queimar todos os seus textos. Arremessou resmas e resmas de papel à fogueira, e sentiu-se livre da opressão de todos os sentimentos angustiantes que o sufocaram durante as décadas que antecederam o seu ato de alforria, ciente de que conhecia, agora, a fórmula da excelência literária. A fogueira ardeu durante quatro horas. E a partir desse dia, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não leu sequer um livro, pois não queria que o influenciassem em sua obra que estava por escrever Homero, Boccaccio, Cervantes, Victor Hugo, Machado de Assis, Proust, Dostoiévski, Tolstoi, Turgueniev, e outros escritores influentes. Que eles influenciassem outros escritores; ele, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, não. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos sabia, agora, inspirado pela sabedoria universal, que a excelência literária encontra-se na simplicidade das coisas do mundo, e, atendendo aos seus anseios, sublimados pelas forças inspiradoras do universo – que estão além do alcance da mente debilitada das pessoas contaminadas pela civilização tecnológica na qual estão imersas -, poderia haurir da sabedoria da natureza, pois estava preparado para, sem açodamento, fruir do aroma natural das coisas do mundo, e escrever a sua obra perene. Não mais leu livros dos grandes mestres da literatura. Eles não eram imprescindíveis, como declaram inúmeros estudiosos, todos eles presunçosos, pernósticos, soberbos eruditos encastelados em torres de marfim. Desfez-se Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos dos seus livros. Não os cedeu para bibliotecas públicas, e nem para as universitárias; não os vendeu para livreiros, nem para bibliófilos, tampouco os doou para alguma instituição. Queimou-os. Sim. Queimou-os. Eram todos os livros, e os clássicos dentre todos, perniciosos para a inteligência humana, acreditava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. Debilitavam-na os livros. Impediam o florescimento da sabedoria, da criatividade, da originalidade, que, para ele era, até então, inalcançável. As suas reflexões conduziram-lo para a elevação da sua mente sob a inspiração benéfica da sabedoria universal, e soube, então, o que tinha de fazer, e o que tinha de fazer era inadiável. Já havia desperdiçado muitos anos da sua vida com leituras, que o oprimiram, o impediram de pensar, de criar, de conceber tramas e personagens originais. Os escritores e os estudiosos aos quais atribuem sabedoria e genialidade sufocam os espíritos dos homens, são nocivos ao desenvolvimento da originalidade, estava convencido Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. E não os condenam à fogueira. Enaltecem-los. Entoam loas para eles. Até hoje, Júlio César é difamado por ter ateado fogo à Biblioteca de Alexandria. Júlio César, segundo Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, merecia o reconhecimento da humanidade por haver tê-la livrado de obras que lhe roubariam a liberdade de espírito, que lhe propiciaria a originalidade de pensamento e de criação literária, científica, filosófica e política.

Recluso, em busca da originalidade, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos evitava contato com as pessoas, principalmente com os escritores. Viveu em busca da originalidade perdida, da originalidade que a humanidade perdeu, esta humanidade industrial, tecnológica, que se nega ao direito inalienável de usar de todo o seu poder mental, ao desconectar-se da natureza e de sua simplicidade inerente.

E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos reconheceu que todo o legado cultural da civilização é desprezível e emasculador.

Nas raras vezes que abandonava a sua reclusão, e dignava-se a olhar para um indivíduo da sua espécie, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos falava, e falava apenas o que considerava dever falar, não se interessando se os seus interlocutores, melhor, os seus ouvintes, estavam interessados no que ele lhes dizia; e os comensais, no almoço, no jantar, eram obrigados a ouvi-lo, em silêncio. E quando um deles esboçava um movimento a indicar-lhe o desejo de falar, ele o silenciava com um gesto, o cenho franzido, o olhar fixo, a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, o que lhe emprestava um aspecto inquisitorial. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não se dispunha a ouvir o que as pessoas desejavam lhe dizer, as histórias que elas desejavam-lhe relatar, os casos que elas desejavam-lhe narrar, as idéias a respeito dos mais diversos assuntos dos quais elas desejam-lhe inteirar e com ele debater; pois, acreditava, o espírito iluminado pela sabedoria universal e pela simplicidade da natureza, que lhe inspiravam pensamentos profundos e iluminadores, que as idéias que lhe queriam apresentar impedi-lo-iam de alcançar a tão almejada originalidade, e, alcançando-a, escrever a sua obra-prima, a sua obra suprema, celestial, porque sorvia da simplicidade da natureza, ainda não corroída pela civilização tecnológica, decantada esta em prosa e verso pelos industriais, pelos capitalistas ocidentais, pelos materialistas insensíveis. E a originalidade ele a alcançaria se não tivesse contato com idéias estranhas ao seu espírito, à sua alma, à sua condição primeva em contato com a natureza, condição que herdara dos seus mais antigos ancestrais, que jornadeavam pela Terra antes do advento da civilização, que desumanizou os humanos, deles eliminando o vínculo com a natureza. As pessoas que o ouviam, ouviam-no atentamente, fascinadas, embevecidas com tão excelsa sabedoria, com palavras de tão ardente vigor sapiencial, pronunciadas com a veemência encantadora de um venerável profeta antediluviano, e curvavam-se, reverentes, diante de tão extraordinária exibição de inteligência superior. Não o contestavam. Silenciavam-se. E admiravam-lo, alumbrados. Raros os que o criticaram. E estes os admiradores de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos repudiaram, e cortaram com eles as relações; excluíram-los do círculo de amizade e camaradagem. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era um gênio da literatura moderna, diziam dele os seus admiradores. As idéias dele iam de boca em boca; disseminavam-las, e rapidamente, nos círculos intelectuais, universitários, literários, em todos os quadrantes do Brasil. As suas palestras, sempre repletas de ouvintes embevecidos. Nas universidades, ouviam-lo, maravilhados. Nas academias, reverenciavam-lo, curvados, joelhos no chão, a cabeça sobre o peito. Consagraram-lo o maior gênio das letras nacionais. E não atentaram para um detalhe: De Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não havia nem um livro publicado, e ninguém jamais leu um texto de sua autoria. E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, após haver lançado ao fogo todos os seus textos, os quais escreveu, segundo ele, durante as décadas em que se desencaminhou, influenciado por idéias equivocadas, que o angustiavam, e ele vivia, macambúzio, nos recantos sombrios da sua biblioteca e do seu espírito, em busca da arte literária que os livros não poderiam lhe ensinar, nenhum outro texto escreveu. Pensava as suas idéias, com esforço intelectual incomum, rara na história da espécie humana, e mentalmente as reelaborava, diuturnamente, exaustivamente, e incansavelmente, e as escreveria quando, e se, atingisse o ápice da expressão literária, perfeita, irretocável. Os seus admiradores desejavam que tal dia não tardasse a chegar. Laurearam as academias Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos com títulos de prestigio. Durante as palestras, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era infatigável – aludia à sua obra-prima, que daria à luz assim que atingisse a perfeição, fruto da originalidade almejada, dizia, e traria luz à medíocre literatura brasileira moderna, e, também, à literatura mundial, conquanto acreditasse que ela, principalmente a européia e a norte-americana, fosse infensa à simplicidade, à originalidade, corroída que estavam por técnicas narrativas modernas, dessensibilizadoras, hostis à verdadeira arte literária, que nasce da natureza humana em comunhão com a natureza, num vínculo imarcescível, diferindo, portanto, da literatura brasileira, da literatura latino-americana, da literatura africana, da literatura árabe e da literatura do sul da Ásia, as quais, embora tenham absorvido alguns vícios da literatura moderna, conservam, latentes, a beleza intrínseca do seu contato com a natureza. E arrancava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos ovações grandiloquentes e aplausos ensurdecedores do público, que, em estado letárgico, ouvia-o, mesmerizado.

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos granjeou reputação de beletrista provido de intelecto prodigioso.

Em vida, nada publicou. Morto, os admiradores da sua obra inexistente difundiram o seu nome, envolvendo-o com a aura de gênio original, universal.

Homenagearam-lo as academias.

No túmulo de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, o epitáfio: “Aqui jaz o autêntico gênio da literatura brasileira, ignorado pelo público iletrado, admirado por homens superiores que souberam reconhecer-lhe a excelência literária e apreciar-lhe a obra, que, de tão original, ele nunca a escreveu, e ninguém a conheceu”.