Desencontros e encontros

– Esperarei por você, Valquíria, hoje, às nove horas, no restaurante Smith & Smith. Eu não seria nem um pouco cavalheiro se me atrasasse ao encontro e fizesse você me esperar.

– Irei com o meu melhor vestido, Cauã. Para uma ocasião tão especial, o melhor vestido e o melhor perfume. Passarei no cabeleireiro, e pedirei para ele caprichar no visual. Será uma noite inesquecível.

– Saiba: você não precisa se enfeitar para ficar bonita. Você é bonita; e dispensa os adornos. Você fica linda em qualquer vestido; até sem vestido, fica linda…

– Bobo. Não seja engraçadinho… Então, às nove horas, no Smith…

– Não quer uma carona até a sua casa?

– Não. Obrigada. Terei, antes de ir para a minha casa, de ir ao caixa eletrônico do banco X sacar alguns trocados e pagar duas contas, e à loja Lar comprar um conjunto de sofá, pois o de casa a Milu e a Mi o estraçalharam…

– Aqueles cachorrinhos são traquinas…

– Eles destróem tudo o que encontram pela frente… Vou virar à direita, Cauã. Tchau. Um beijo.

– Tchau, Valquíria. Às nove horas, no Smith.

– Estarei lá.

*

– E então, Valquíria, conte-me como foi o seu encontro com o Cauã, na sexta-feira. Conte-me. Quero saber de todos os detalhes. De todos os detalhes.

– Que avidez por notícias, Mônica. Nossa! Não é à toa que dizem que você é fofoqueira…

– Eu adoro fofocas. Não me farto de fofocas. Eu me alimento de fofocas. O que seria do mundo se não houvesse fofocas? O mundo seria um lugar muito chato para se viver. Você sabia que os fofoqueiros são as pessoas mais bem informadas sobre o que realmente interessa…

– Não me venha com mais uma de suas teses filosóficas, sociológicas e antropológicas para justificar os seus vícios…

– Que vícios… E você também adora fofocas…

– Não vou discutir com você porque hoje eu estou muito feliz. E ninguém, e nada, poderá destruir a minha felicidade…

– Você e o Cauã beijaram-se, apaixonadamente, e agarraram-se, e…?

– Não. E sabe por quê? Eu não fui ao encontro.

– O quê? Você não foi ao encontro?

– Foi isso o que eu disse, não foi? Foi isso o que você me ouviu dizer, não foi?

– Mas… Mas… Valquíria… O Cauã… Você…

– Quer saber, Mônica: Eu estava cheia do Cauã. Cheia! Eu já estava com ele pelo pescoço. Ele merecia um bolo; e eu lhe dei um. Você o conhece tão bem quanto eu o conheço. Ele insistia em sair comigo, há semanas. E ele agia como se eu fosse uma propriedade dele. Confesso: ele é bonito, e inteligente também; mas eu tinha de fazer alguma coisa para pô-lo no lugar dele e provar-lhe que nem toda mulher se curva perante ele e o trata como o deus do amor e da beleza. Ora, ele merecia uma lição. E eu lhe dei uma. Ele tem que aprender, Mônica, que ele não pode usar as, e tampouco abusar das, mulheres e tratá-las com desdém. Eu não sou um objeto. Assim que me encontrar com o Cauã, eu lhe direi que houve um imprevisto, que minha mãe adoeceu, e esqueci-me de telefonar para ele… Sei lá… Inventarei uma desculpa qualquer. E demonstrarei que não me sinto triste por não haver ido ao Smith. Tratarei do assunto como se fosse algo corriqueiro, para que ele entenda que não lamento o fato de eu não poder ir ao encontro. Quero ver a cara do Cauã… Assim que ele chegar e me vier falar… Quero ver a cara de defunto…

– Falando no capeta, Valquíria, apareceu o diabo. Ele não me parece triste. O sorriso dele vai de uma orelha à outra.

– Espere ele vir aqui.

– Ele não me parece triste; parece o homem mais feliz do mundo.

– Ele disfarça bem, Mônica; quero ver como ele vai se comportar ao me ouvir.

– Ele está vindo para cá. Devagar. Calmo. Bom dia, Cauã.

– Bom dia, Mônica. Bom dia, Valquíria.

– Bom, dia, Cauã. Lamento não ter isso ao Smith, Cauã. E lamento não ter telefonado para você. A minha irmã adoeceu, e eu tive de levá-la ao hospital; esqueci-me de telefonar para você para desmarcarmos o encontro.

– Não se preocupe, Valquíria.

– Poderemos marcar um outro encontro, Cauã, se você desejar, no restaurante que você escolher, e no dia que você quiser.

– Seria bom, mas não poderei marcar um encontro com você, e nem sair mais com você…

– Cauã, se você está com raiva de mim, entendo…

– Valquíria, não estou com raiva. Eu estou muito feliz. Fui ao Smith, e esperei por você. Depois de quase duas horas, certo de que você não iria ao Smith, chamei pelo garçom, e pedi a conta. Foi então que se me apresentou uma linda moreninha sorridente, de olhar peralta e meigo, de rosto bonito, rechonchudinho, rosado: Lidiane. Conversamos ela e eu. Ela me agradou. Eu a agradei. E conversa vai, e conversa vem… E ela e eu começamos a namorar. O amor é lindo, não? A Lidiane é a mulher da minha vida, é a minha alma gêmea, é a minha cara-metade. Será a mãe de meus filhos.

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A mulher que não fofocava

Gustavo acordou, naquele domingo de verão, às seis horas da manhã, fios de luz do sol a invadir o quarto, pelos interstícios das tábuas da janela deteriorada, durante trinta anos, sob golpes de ventos, que a atingiram com violência em não raras ocasiões, vibrando-lhe toda a estrutura e lançando-a contra a parede, e sob chuvas torrenciais, que atingem a região em dias quentes de verão, e, em raras ocasiões, sob granizos, que a afetaram consideravelmente. Jamais se dispôs a reparar a janela, ou a substituí-la por uma janela nova. Limitou-se, apesar de todos os rogos de Ludmila, sua esposa, a pregar tábuas às tábuas originais que a constituíam quando ele a comprou e a instalou em sua casa. Fosse de tábuas de madeira não tão resistentes, a janela já havia se desmantelado por completo muitos anos antes.

Ao lado de Gustavo, dormia Ludmila a sono solto. Na ponta dos pés, cuidando para não fazer ruídos que pudessem vir a despertá-la, foi Gustavo até a porta, abriu-a lenta e cuidadosamente, e assim que passou pelo enquadramento, fechou-a com o mesmo cuidado e lentidão, e andou, com passos firmes, até o banheiro. Não haviam se passado trinta minutos, vestido, rumou à cozinha, onde preparou o seu café-da-manhã, que consistia em um copo de café com leite, uma xícara de café, um pão francês com queijo-prato derretido, um pão italiano, metade de um abacate, um caqui e pedaços de mamão. Encerrada a refeição, lavou a louça, regressou ao quarto, do criado-mudo pegou a carteira, deu, na testa de Ludmila, um suave beijo, carinhoso, retirou-se do quarto, todo o tempo tomando cuidado para não emitir ruído que pudesse vir a despertar a sua esposa, foi ao banheiro escovar os dentes, e não muito tempo depois, se muito cinco minutos, retirando-se de sua casa, fechou atrás de si a porta, e rumou para o ponto-de-ônibus, onde havia, sentada no banco, uma mulher gorda, tendendo para o obeso, a fisionomia de mau-humor despertando em Gustavo um comentário silencioso: a mulher chupara um limão azedo, o que explicava, dela, cara de poucos amigos. Saudou-a com um gesto e um bom-dia, e dela recebeu silêncio constrangedor e um olhar de Medusa, que o converteria em uma estátua de pedra se ele não tomasse a providência de desviar o olhar, o que fez, de imediato, incapaz de sustentá-lo. Nenhuma criatura mitológica provocaria em Gustavo a corrente de calafrio que lhe vibrou todo o corpo, e o espírito também, assim que ele fitou aquela mulher. E esperaram o ônibus Gustavo e a mulher durante um bom tempo. E antes de o ônibus chegar àquele ponto-de-ônibus, uma outra mulher chegou e saudou a mulher sentada no banco, tratando-a pelo nome, Maria Teresa. Já se conheciam as duas mulheres, e tinham elas no trato familiaridade, como indicava a liberdade com que a mulher dirigiu a palavra à Maria Teresa. Após saudar Maria Teresa e dela receber uma saudação contida e um bom-dia dito numa voz cavernosa, se lhe sentou a mulher ao lado, e com ela encetou conversa, a qual Gustavo ouviu, contrariado, suplicando a Deus o envio imediato de um ônibus para aquele ponto de parada de ônibus. Maria Teresa era lacônica; as suas intervenções no seu colóquio com a sua interlocutora, cujo nome era Camila, resumiam-se a frases curtas de no máximo dez palavras; na maior parte do tempo a sua participação limitava-se a um assentimento com um mover da cabeça, lento. Gustavo perguntou-se que virtude possuía Camila que a permitia conversar com, e olhar para, Maria Teresa, mulher cuja fisionomia transparecia um aspecto, o qual ele não sabia definir, que lhe despertava, nele, Gustavo, o desejo de matar-se.

Contrastavam o temperamento de Camila e o de Maria Teresa; aquela era loquaz, expansiva, extrovertida; esta, lacônica, contida em si, introvertida. De um modo inexplicável, entendiam-se. E Gustavo, mesmo não o desejando, ouviu a conversa que elas mantiveram, conversa que Camila principiou e da qual Gustavo, após regressar à sua casa, para o almoço, fez referência à Ludmila, sem entrar nos detalhes, os quais ele jamais saberia reconstituir, de tão numerosos.

Entrando num comentário a respeito do longo tempo em que não se viam Camila e Maria Teresa, e declarando que elas tinham de pôr as novidades em dia, Camila, sem dar à sua interlocutora oportunidade de respirar, inteirou-a de alguns eventos que ela, Maria Teresa, presumia Camila, ignorava:

– Encontrei-me, Maria Teresa, com a Roberta, a esposa do Vinicius. Ela me falou da vida de todos os vizinhos dela. Que mania ela tem! Fala, a mexeriqueira, gozando do prazer de dar todos os detalhes da vida de todos. Que coisa! Eu não gosto de fuxicar a vida alheia. A Roberta, fofoqueira incorrigível, não perde nem uma oportunidade sequer de falar da vida alheia, e tampouco de colher informações da vida de todos, para, depois, espalhá-las aos quatro cantos do universo. Infelizmente, há muita gente que, do mesmo modo que ela, vive de fofocas. São pragas tais pessoas. Ela fala da vida alheia, mas não fala da própria vida. Não é engraçado!? O que ela diz de si mesma? Nada. Ela esconde de todos coisas da própria vida, mas as pessoas sabem o que se passa com ela, pois as paredes têm ouvidos, e os passarinhos também. E alguns passarinhos têm nomes, e um desses passarinhos, cujo nome é Marcela, contou-me, há quatro meses, que a Roberta e o Vinicius discutiram a ponto de ela dar-lhe um tapa na cara e ofendê-lo nos termos com os quais uma esposa jamais trata o próprio marido. E como é escandalosa, a Roberta ergue o tom de voz sem se preocupar se os vizinhos a ouvem. E eles a ouvem, afinal a voz da Roberta atravessa as paredes. E o que a Roberta fala da discussão dela com o Vinicius? Nada. Ela, fofoqueira sem igual no mundo, fala da vida de todos; da vida dela, não. E a Marcela, numa outra vez, há um mês, disse-me que ouviu uma discussão entre a Roberta, o Vinicius, e a Paula, a filha deles, mocinha de uns dezenove anos, leviana, que namora um tal de Anderson, que, dizem todos os da vizinhança, não é flor que se cheire. Mexeriqueira de marca maior, que vive de fuxicar a vida alheia, não perdendo a oportunidade de praticar o seu esporte predileto, a fofoca, disse-me: “Ouvi, e com os meus ouvidos que Deus me deu pra mim, Camila, a discussão, que se deu, na casa da Roberta, entre ela, Roberta, e o Vinicius, aquele banana, e a Paula, aquela mocinha, que, bonita por fora e feia por dentro, é um demônio em forma de mulher, e só se envolve com gente imprestável, como o tal de Anderson, que ela namora, homem que, dizem as más línguas, que não me parecem más, já engravidou uma bobinha, que mora no bairro do Crispim e cujos pais são ignorantes incorrigíveis, e já se envolveu, ou está envolvido, com tráfico de drogas, e até com assassinato, dizem. A Márcia disse-me, ontem, no consultório do doutor Marcos, o dentista, não o otorrino: ‘Marcela, a Paula, filha da Roberta e do Vinicius, engravidou do Anderson, aquele vagabundo.’, e perguntei-lhe: ‘Aquele moço do qual o Márcio disse horrores, aquele moço que trafica drogas e que engravidou aquela mocinha lá do Crispim?’. ‘Ele mesmo.’, respondeu-me a Márcia, ‘Um rapaz magro, com um piercing no nariz e um na sobrancelha, não me lembro se na direita, se na esquerda’. ‘Na direita’, respondi-lhe. ‘Ele é horrivelmente feio. Parece um bicho. É um animal estranho, bizarro. Não é humano ele, é? Ele é um bicho do mato. E é dele que a Paula espera um filho’. ‘Mas é verdade, Márcia, ou é só diz-que-diz?’, perguntei, porque eu não gosto de espalhar boatos. Se a história não é verdadeira, se é só uma invencionice de desafetos da Paula, e eu a conto para alguém, acabo, sem o desejar, por prejudicá-la; então, não querendo passar para nenhuma outra pessoa uma história que não é verdadeira, insisti na pergunta, e a Márcia confirmou a história, e prosseguiu: ‘Imagine, Marcela, os apuros em que estão o Vinicius, e a Roberta, que sempre foi desleixada, mãe ausente, esposa negligente, e que, disseram-me o Márcio, a Cláudia e a Renata, traiu o Vinicius, aquele bestalhão, mais de uma dezenas de vezes! Imagine em que palpos de aranha eles estão!’ E conversamos, durante um bom tempo, a Márcia e eu, e ela me inteirou de muitas histórias do arco-da-velha, das quais você nem imagina, Camila”. E a Marcela contou-me, Maria Teresa, todos os pormenores da história, uma história horripilante, da qual a Marcela revelou-me detalhes de pôr a todos com o queixo caído. A Marcela adora tratar da vida alheia. É, penso, pior do que a Roberta, uma fofoqueira de mão cheia. Fornece informações da vida de todos, e os vizinhos dela são os alvos prediletos dos mexericos, os quais ela conta com uma boa dose de acidez, de amargor, de, digo, maldade, com o desejo de pintar a todos com as cores mais repulsivas, de tão maledicente ela é.

Neste momento, para agrado de Gustavo, já exausto de ouvir a narração de Camila e esforçando-se para se concentrar, em vão, num pensamento qualquer, chegou o ônibus que o conduziria a ele e Camila e Maria Teresa a Taubaté. E os três entraram no ônibus, em cujo interior já havia outros nove passageiros, três deles com ar sonolento e transparecendo cansaço, um cochilando, dois, ambos jovens, de aproximadamente quatorze anos um deles e de dezessete anos o outro, semelhantes no físico e na fisionomia, conversando, animados, dois homens e uma mulher desacompanhados, ocupando bancos distantes um do outro.

Gustavo sentou-se num dos bancos do fundo do ônibus, certo de que estaria, durante a viagem, que demoraria em torno de trinta minutos, livre de ouvir as histórias narradas, para Maria Teresa, por Camila.

Camila e Maria Teresa pagaram ao cobrador pela passagem, e sentaram-se uma ao lado da outra, Maria Teresa à janela, Camila à sua esquerda, logo atrás do banco em que estava, sentado, o cobrador.

E mal havia se sentado, Camila pôs-se a falar ao mesmo tempo em que o ônibus retomava viagem, e para se fazer ouvir por Maria Teresa, ergueu o tom de voz, para que os ruídos emitidos pelo ônibus não lha abafassem, e fez-se ouvir, também, pelo cobrador, pelo motorista, pelos outros dez passageiros, dentre estes Gustavo.

– Espanta-me, Maria Teresa, o prazer que a Marcela, a Roberta e a Márcia têm de mexericar a vida de todos. Que vício, o delas! Se elas fossem as únicas pessoas que adoram fofocas, o mundo não seria tão ruim, tão cheio de desentendimentos; infelizmente, elas não são as únicas. Uma outra pessoa, fofoqueira das mais desembaraçadas, é a minha vizinha, a Carla, que, Deus me perdoe, é um tipo intragável; fala, a maldita, de tudo e de todos, mas das maluquices dela ela nada diz; cala-se a respeito como se fosse a mais sensata e decente das mulheres. Se não a conhecesse, eu acreditaria que a vida que ela leva é um mar de rosas; mas é, sei, um mar de espinhos. Ora, já sabemos, eu e os da nossa vizinhança, que ela, num caso extraconjugal, engravidou, e abortou, há cinco meses, o filho que trazia dentro de si, disse-me a Margarete, outra fofoqueira, que nunca perde a ocasião de cuidar de mexericos e que jamais fala das brigas dela com o Bernardo, o marido dela, e com os filhos, Roberto e Gilson, dois garotos vadios. O Bernardo, não posso deixar de dizer, e o digo sem o desejo de espalhar mentiras, pois o que sei dele contou-me a Clarice, a ex-esposa do Denílson, mulher que, embora mexeriqueira, não é de inventar histórias, e o Bernardo, eu dizia, manteve um caso extraconjugal com uma mocinha, a Zuleica, que trabalha na padaria do Paulo, lá do bairro. E a Carla, dias atrás, há ou cinco, ou seis dias, não me lembro, disse-me a Vicentina, na casa do amante, foi surrada pela esposa dele, uma tal de Vanessa. As notícias, desencontradas, correram mundo. A Vicentina e a Edna disseram-me que o amante dela é o Tadeu, marido da Fabiana. O Tadeu é o gerente do banco *; a Fabiana, do banco **. A Marcela, a Márcia e o Cristóvão disseram-me que o amante da Carla é o Ricardo, dono da revendedora de automóveis Furacão Speed; a Alice e a Samanta disseram-me que é o amante da Carla o José António, frentista do posto de gasolina Encha o Tanque. Não sei quem é o amante da Carla; sei que ela tem um amante e que a esposa dele deu-lhe, nela, na Carla, uma surra, daí os hematomas nos olhos e nos braços dela. Disseram-me a Claudete, a Juliana, o Robson e a Kátia que os hematomas que se vêem no corpo já acabado da Carla quem os fez foi o Lauro, marido dela, ao saber do caso dela com não souberam me dizer quem. A história é obscura. A Carla se acredita, aos quarenta anos, um avião. Vaidosa, ela, a mocréia, ainda não entendeu que não é mais aquela bonitona que, há mais de vinte anos, punha todos os homens de queixo caído, embasbacados, de língua para fora da boca, mas apenas uma baranga despeitada, despelancada e coberta de pés-de-galinha, estrias e celulite.

E Camila, neste momento, o ônibus parado num ponto-de-ônibus, para receber outros passageiros, quatro, de uma família, o pai, a mãe, e duas filhas, ambas jovens, uma aparentando quatorze anos, a outra, dezessete, interrompeu o seu relato, observou aqueles que entravam no ônibus, e assim que se certificou que nenhum deles era um conhecido seu, reencetou a narração:

– E conto outra história para você, Maria Teresa; uma história que ma contou a Rúbia, a minha irmã, também ela uma fofoqueira. Na minha família também há uma fofoqueira, e é a fofoqueira da família a minha irmã caçula, a xodó do papai e da mamãe. Ela sempre foi mimada. Meu pai sempre a tratou como a uma rainha e de ninguém nunca escondeu a sua preferência por sua filhinha querida, filhinha que ele reverencia. E minha mãe sempre deu a ela tudo o que ela quis, e estende-lhe o tapete vermelho, sempre. Dela eu já falei para você, Maria Teresa. Ela mora em Belo Horizonte, com o marido, Osvaldo, e a filha, a Silvana, menina de nove anos, uma gracinha, minha afilhada, que em nada puxou pela mãe. É a Silvana, como a madrinha, discreta e recatada. E é personagem da história que ma contou a Rúbia a Lidiane, filha da Cleusa, minha amiga, com quem estudei no colegial. A Lidiane, já nos seus dezoito anos, é uma daquelas mulheres fáceis, que sem nenhuma vergonha, sem nenhum receio, se entregam para todos os homens. No bairro ela tem a fama que nenhuma mulher gostaria de carregar consigo. Também pudera! Ter a mãe que tem, ela não poderia sair uma santa. A Cleusa, eu sei, e ela própria contou-me, era instável, e trocava de namorado com a mesma facilidade e freqüência com que se troca de roupas. Da Lidiane ouvi histórias de enrubescer o mais desavergonhado dos homens. Disse-me a Rúbia, “Camila, dias atrás, no sábado, à noite, na discoteca, a Lidiane, contou-me a Laura, irmã dela, e a Érika, uma amiga minha e da Laura, esfregou-se, desavergonhada, em homens, e não poucos, que, libidinosos, acoxaram-na, apalparam-na, livremente, os faunos, deliciando-se, gozando do prazer que a Lidiane, libertina, prodigalizava-lhes. Imagine, Camila, o que se deu depois que ela se retirou, já ligeiramente embriagada, na companhia sabe-se lá de quantos homens, da discoteca, às três horas da madrugada! Use da imaginação.” E com essas palavras, e um sorriso malicioso, quase obsceno, estampado no rosto, a minha irmãzinha, de quem eu poderia contar, para você, algumas histórias do arco-da-velha, principiou o seu relato recheado de sem-vergonhices.

O ônibus desacelerou-se, e parou num ponto-de-ônibus. E no ônibus entraram umas dez pessoas, dentre elas homens e mulheres, velhos, adultos, jovens e crianças; elas ajeitaram-se nos bancos, umas após passarem pela roleta à frente do cobrador; outras não. Gustavo percebeu que Camila havia se silenciado e que Maria Teresa falava-lhe qualquer coisa, num tom baixo, pausado, silabando as palavras, não permitindo a ele, Gustavo, ouvi-la, e nem a Camila, concluiu ele, ao avaliar-lhe a postura, então inclinada para Maria Teresa, que não estendeu mais do que dois minutos o seu relato, e assim que ela o encerrou, Camila pôs-se a falar, no seu tom peculiar, alto, e sua voz, que se confundia com as dos outros passageiros, mal chegou aos ouvidos de Gustavo. Do que Camila dizia para Maria Teresa, poucas palavras, a curtos intervalos, atingiam os tímpanos de Gustavo, vibrando-os, não o permitindo conceber qual história ela narrava; fosse qual fosse, era uma cujo teor pedia o bom tom que não se contasse, em público, ao alcance de ouvidos de outras pessoas, concluiu Gustavo assim que se cruzaram o seu olhar e o do cobrador, este a revelar àquele o indisfarçável incômodo que o relato de Camila lhe provocava. Transparecia no rosto do cobrador inconfundível desejo de safar-se daquela situação; estava obrigado, todavia, a ouvir histórias que não desejava jamais ouvir, mas, por dever de ofício, tendo de permanecer sentado no banco que lhe estava reservado, ouviu-as. E sorriram Gustavo e o cobrador. E eles entreolharam-se não muito tempo depois, e sorriram, compreendendo um o pensamento do outro. E o ônibus parou, em um ponto-de-ônibus, e do ônibus desceu Maria Teresa. E Gustavo, enfim, pôde sentir-se livre da presença daquela mulher, que lhe provocava um sentimento de repulsa, que o perturbava, e também se livraria, definitivamente, da tagarelice de Camila, que, não havendo agora quem pudesse ouvi-la, manter-se-ia em silêncio o restante da viagem, poupando, de suas narrativas, Gustavo, o cobrador e os outros passageiros. Contrariando, no entanto, o desejo de Gustavo, sucedeu algo que não lhe havia passado pela cabeça: Naquele ponto-de-ônibus, além de Maria Teresa, desceu do ônibus um homem, e no ônibus subiram umas vinte pessoas, que foram ocupando os bancos vagos, e uma mulher octogenária sentou-se ao lado de Camila, que se deslocara para o banco à direita, permanecendo-se à janela, e uma outra mulher, também octogenária, ou nonagenária, deteve-se, em pé, ao lado da que se sentara ao lado de Camila, que, vendo-a, levantou-se do banco, auxiliou-a a sentar-se no banco que desocupara, e assim que a anciã nele acomodou-se, andou, um pouco desajeitadamente, até o banco à direita de Gustavo, então desocupado, e nele sentou-se. Gustavo rogou aos céus que impedisse que Camila com ele puxasse conversa. Os céus não lhe atenderam aos rogos. Tão logo sentou-se, Camila, comichão a coçar-lhe a língua, dirigiu-lhe a palavra, perguntou-lhe se não era ele o homem que aguardava o ônibus no mesmo ponto-de-ônibus em que ela e Maria Teresa o aguardavam, e assim que dele ouviu a confirmação, disse-lhe, sem papas na língua:

– Há mais de seis meses, ou um ano, não estou certa, que eu e a Maria Teresa não nos víamos, e não nos dávamos um dedo de prosa. Hoje, por acaso, nos encontramos, e pudemos pôr algumas novidades em dia. Ela me falou de um sobrinho dela, um dos vários sobrinhos que ela tem, o Fábio, e, com a sem-cerimônia de uma mexeriqueira, disse-me que ele brigou com os pais dele; o pai dele, Osvaldo, é trabalhador, mas pai ausente e marido ausente; e a mãe dele, Maria Joana, desequilibrada, esposa histérica, relapsa. E Fábio arrumou as trouxas, e foi morar com os avós paternos dele, um casal de velhinhos já um pouco gagás, mas ainda sensatos. E qual foi a razão da briga de Fábio com os pais dele? Viciado em maconha, ele lhes pediu dinheiro, para comprar roupas, disse-lhes, uma calça e duas camisas, e um par de sapatos, de que ele muito precisava. Osvaldo e Maria Joana cobraram-lhe explicações acerca das roupas dele, as quais não se viam nem no guarda-roupas, nem em nenhum outro lugar da casa. Fábio desconversou, e deu-se início à discussão. E foi-se Fábio para a casa dos avós. Só não me estendo a contar para você a história que a Maria Teresa contou-me há alguns minutos, antes de ela despedir-se de mim e retirar-se do ônibus, porque não vivo de tratar de coisas que não me dizem respeito, e nada quero saber, e tampouco dizer, acerca da vida de familiares, parentes e amigos. Guia-me a discrição, e discrição é o que peço àqueles que me procuram para falar da vida alheia. Que mania desagradável têm as pessoas de cuidarem do que não lhes dizem respeito. Não sabem que muita desafeição nasce de tal vício? Se soubessem, o evitariam. Se Deus iluminasse a todos, ninguém vivia de mexericar a vida alheia.

Gustavo limitou-se a assentir. Assim que a porta do ônibus abriu-se, o ônibus parado na rodoviária, dele retirou-se, rapidamente, e, a passos acelerados, afastou-se de Camila antes que ela tivesse a idéia de principiar a narrativa de qualquer história, ou, simplesmente, perguntar-lhe aonde ele iria. E se ele lhe dissesse aonde iria, e ela dissesse que iria para o mesmo lugar? Tão logo tal pensamento resvalara-lhe a cabeça, tratara Gustavo de afugentá-lo de si, e agira de modo que ele não se concretizasse.

Brasil, paraíso dos machistas. Um conto politicamente correto.

Dou a público, hoje, uma história horripilante, comum hoje em dia, mas oculta do povo indiferente.
Após esperar vinte minutos, durante a chuva torrencial que despencou nesta cidade a partir das 18,00 horas, no ponto de parada de ônibus, Jaqueline, vendo um ônibus aproximar-se, acenou; o ônibus parou, para que ela nele subisse. No ônibus, então lotado, ela, em pé, se espremeu entre os passageiros; não havia o ônibus percorrido quinhentos metros, abordou-a um homem esbelto, de um metro e setenta de altura, de barba rapada, calvo nas têmporas, trajando calça jeans, camisa azul e sapatos pretos. Ele, assim que se levantou do banco, ofereceu-o à Jaqueline, para que ela nele se sentasse. Ela, de imediato, rejeitou a oferta, e, diante da insistência dele, solicitou ao motorista que, ou mandasse o homem que lhe oferecera a ela Jaqueline o banco para nele ela se sentar retirar-se do ônibus, ou desviasse do trajeto original e rumasse à delegacia de polícia. O motorista recusou-se a atender-lhe às sugestões; e inúmeros passageiros esbravejaram. Diante da intransigência do motorista e da chusma dos passageiros, ela protestou, veementemente, tirou da bolsa que trazia a tiracolo um telefone celular, discou o número do telefone da delegacia de polícia, e, em altos brados, ora se queixava à telefonista que a atendera, ora tripudiava contra os passageiros e o motorista. A celeuma assumiu proporções inabarcáveis. Jaqueline ameaçou processar todos os que se encontravam no ônibus. Mulheres disparavam-lhe ofensas. Jaqueline estapeou um homem, unhou outro, desferiu duas joelhadas em um terceiro, e ameaçou arrancar os cabelos de um outro. A turbamulta ia, como um vagalhão, ameaçando derrubar o ônibus, o que obrigou o motorista a estacioná-lo, e telefonar para a delegacia de polícia. Para conservar o auto-controle, o motorista retirou-se  do ônibus; lá fora, alternava sua atenção entre sua conversa, ao telefone, com a sua interlocutora, as queixas que os passageiros lhe faziam e as reclamações de Jaqueline.
Não tardou cinco minutos, quando uma viatura policial chegou ao local, trazendo dois policiais, um homem e uma mulher, que trataram de tranquilizar todos os envolvidos no imbróglio, sucesso que só obtiveram a duras penas. De todas as personagens envolvidas, Jaqueline era a mais agitada, e justificadamente, afinal ela fora a ofendida; ela transparecia, em gestos ostensivos, em expressões fortes, as suas indignação e raiva compreensíveis; intempestiva, esbravejou, esgoelou-se, e firme, convencida da razão de seus propósitos, incansável, declarou-se, corretamente, desrespeitada e, corajosamente, disposta a ir aos tribunais denunciar todas as pessoas que a conspurcaram ao lhe arremessarem epítetos insultuosos.
“Aquele machista… – disse Jaqueline, indignada, referindo-se ao homem, que, levantando-se do banco, oferecera-lhe o lugar que deixara vago – aquele machista… Quem ele pensa que eu sou!? Quem ele pensa que ele é!? Que direito ele tem de me oferecer um lugar para eu me sentar!? Quem ele pensa que ele é!? Que desrespeito! Aquele machista… Eu não preciso que homem nenhum me ofereça um banco para eu me sentar. Só porque eu sou mulher, aquele machista me tem como um pessoa inferior, fraca, incapaz! Que absurdo! Vivemos em uma sociedade machista, patriarcal, preconceituosa. Os homens se acham superiores às mulheres”. Tais palavras são de uma mulher poderosa, de brios, que sabe qual é o seu lugar na sociedade. De uma mulher insubmissa, altiva.
Era visível o desarranjo emocional de Jaqueline,  compreensível e justificável diante de tal violência que lhe promoveram, produzido pela ação desrespeitosa do homem que lhe oferecera o lugar no banco. E assim que lhe amainou o espírito, Jaqueline prosseguiu: “E o motorista, outro machista, em vez de atender-me, destratou-me. Fez de conta que o assunto não lhe dizia respeito, e seguiu viagem. Aquele machista! Todos os passageiros do ônibus são machistas, inclusive as mulheres, que, ao invés de irem em meu favor, ofenderam-me. Aquelas bruacas! Aquelas megeras! Todas servis à cultura patriarcal, machista”.
Neste momento, uma das passageiras interrompeu Jaqueline, e, destrambelhada, pôs-se a desancá-la com termos ofensivos e epítetos insultantes. E vários passageiros, açulados por ela, avançaram, ameaçadores, na direção de Jaqueline, que se abrigou às costas dos policiais, que, não sendo bem-sucedidos em chamar todos à razão, solicitaram reforço policial, que não tardou a chegar.
Contornada a situação, todos os envolvidos no entrevero os policiais os conduziram à delegacia de polícia, onde quase se engalfinharam Jaqueline e alguns passageiros e se deu tal distribuição de ofensas que até o Marquês de Sade, se as ouvisse, se constrangeria. Enfim, arrefecidos os ânimos, na presença de advogados e policiais, Jaqueline e os outros passageiros acordaram entregar o caso aos tribunais. Muitos dentre os envolvidos, já no exterior da delegacia, bufaram de raiva, e foram-se embora. Todos os passageiros e o motorista do ônibus, certos de que, de tão absurda a queixa de Jaqueline, ela, Jaqueline, perderia o processo. Enganaram-se. O veredicto, favorável a ela, os obrigava a cada um deles o pagamento de indenização por danos morais à vítima, Jaqueline. Eles esbravejaram. Espernearam. Recorreram da decisão. Jaqueline saiu vitoriosa de tal litígio. E a justiça foi feita. E a sociedade machista perdeu.
Não muito tempo depois, num ônibus que ia do bairro Campo Belo ao Campo Limpo, Jaqueline embarcou num ônibus lotado de passageiros, e espremeu-se como sardinha numa lata, deslocou-se alguns metros, e deteve-se ao lado de um banco, ocupado, então, por um homem cuja aparência lhe dava trinta anos e cuja indumentária lhe emprestava ar solene, venerável. No entra e sai de pessoas no ônibus, durante os quarenta minutos de duração da viagem, Jaqueline foi arremessada de um lado para o outro, só não indo, desequilibrada, ao chão porque outros passageiros serviam-lhe de escora. O desconforto, insuportável. Ao fim da viagem, na rodoviária, assim que, após descer do ônibus, encontrou-se com Marcela, sua amiga, que a aguardava, disse-lhe, queixando-se: “Os homens são muito mal-educados. Deus me livre! Num ônibus lotado, o calor de matar, obrigaram-me os machistas a permanecer em pé durante a viagem. E nenhum homem se dignou a ceder-me o banco. E o que estava na minha frente, machista dos infernos!, fez que nem me viu. Aquele machista! Se soubessem o apuro que as mulheres passamos, todos os dias, no transporte coletivo, os homens jamais iriam desejar ser mulheres. Temos as mulheres de aturar cada desaforo! Que falta de civilidade, a dos homens! Quero nascer homem na próxima encarnação. Assim, eu não sofrerei o que as mulheres sofrem”. E Marcela subscreveu-lhe as queixas.
Esta é uma, apenas uma, das incontáveis histórias que retratam a difícil vida da mulher na sociedade moderna, patriarcal e machista.

Um escritor à procura de um conto

Quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso literário. Pensei, durante horas, em com quais palavras iniciá-lo. Pus a cabeça para funcionar. Queimei as pestanas. Perdi muito tempo (ou não perdi) pensando no que eu escreveria, e amadureci (amadureci?) as idéias, para escrever com segurança e desenvoltura. Enfim, simultaneamente seguro e hesitante, dei início à redação do conto. Após escrever umas cem palavras, parei de escrever, deitei a caneta sobre a mesa, e li o texto que, tomei conhecimento, para meu desgosto, saiu-me diferente do que eu me propusera a escrever inicialmente. Ato contínuo, amassei o papel, e o joguei no lixo.

Falei para alguns amigos do meu restrito círculo de amizades que eu quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso. Eles (aos quais sou imensamente grato por me ouvirem atentamente e se me dignarem a dizer o que pensavam do meu propósito), pretensiosos (como todo bom brasileiro, entendem de todos os assuntos), aconselharam-me a não perder o meu tempo escrevendo um conto, pois, declararam, certos do que diziam, escrever é ocupação de desocupados. Diante desse paradoxo, perguntei-lhes:

– Se escrever é a ocupação dos desocupados, escrever é uma ocupação; então, o escritor, ocupado em escrever, é uma pessoa ocupada. Certo?

Eles desconversaram. Com exercício intelectual que, diziam-me, sustentavam com raciocínio inatacável, que eu, por mais que o desejasse, não compreendia, sublinhavam a opinião – à qual os brasileiros aferram-se com unhas e dentes – que nos diz que os escritores são pessoas desocupadas. Decidi, após perder um bom tempo em discussão estéril com pessoas que nada entendem de literatura, conversar apenas com quem entende do assunto: o Juscelino, o Lourenço (não sei qual é o seu primeiro nome), a Mariângela, a Cláudia, a Rosemeire e o Teodoro.

Encontrei o Juscelino sentado em um banco, lendo um livro, à sombra de uma árvore, na praça São Benedito. Interrompi-lhe a leitura. Falei-lhe do concurso literário e das minhas idéias para o conto que eu pretendia escrever. Ele me veio, com autoridade de um entendido, com essas palavras amargas:

– Balzac escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso. Conheço alguns livros do Balzac (Não ousei, até hoje, encarar a sua obra, muito volumosa. Um dos motivos, confesso, que constrangedor!: a preguiça; outro: não encontrei todos os volumes que compõem a Comédia Humana, nem na biblioteca municipal, que vive às moscas, coberta de teias de aranhas, com livros empoeirados de folhas amareladas, e cujo acervo, de pouco mais de cinco mil livros, compõe-se, quase que exclusivamente, de livros de auto-ajuda, esoterismo e outras insignificâncias, nem em nenhum outro lugar).

– Sim, escreveu – respondeu Juscelino.

– Tem certeza, Juscelino? – perguntei. Eu queria que ele me dissesse em qual livro Balzac narrou a história que concebi.

Juscelino atendeu ao meu desejo. Provou-me que Balzac escreveu uma estória idêntica à minha. “Ora – eu poderia gritar, a plenos pulmões – Maldito Balzac! Roubou-me as idéias”. Se eu tivesse nascido antes de Balzac, eu, antes dele, teria tido as idéias que ele concebeu antes de mim, escrevê-las-ia, e eu, e não Balzac, seria um gênio da literatura universal. Balzac – sorte dele! – nasceu antes de mim!

– Se eu fosse você – aconselhou-me Juscelino -, esqueceria o conto. Você nunca será original porque, seja qual for a sua idéia, algum escritor, e dos bons, que hoje são respeitados como clássicos, já a usou em algum conto, que, com certeza, é muito melhor do que o que você será capaz de escrever. Você não quer ser ridicularizado, quer? Não quer que as pessoas reconheçam você, na rua, apontem o dedo para você, e digam: “Olhem! O plagiador!”? É isso o que você deseja?

Tais palavras feriram-me profundamente. Puxa! Por essa eu não esperava. Juscelino acertou-me um golpe no queixo, nocauteando-me. Certo, nunca o considerei meu amigo, tampouco dei-lhe muita atenção, jamais respeitei-lhe as opiniões, mas, ora!, eu, desejando escrever um conto, e ele me veio com palavras tão agressivas, tão… Não sei tão o quê! Restou-me agradecer-lhe (ferido em meu ego) as opiniões e as sugestões, e afastar-me, cabisbaixo, desanimado. Depois, pensei comigo: “Juscelino é apenas um. Ele me apresentou a sua opinião. Ora, vou à procura do Lourenço. Ele, sim, há de dar-me ouvidos e elogiar-me a vontade de escrever um conto, ganhar um prêmio, e, quem sabe, ver o meu conto publicado em uma revista respeitável, ao lado de contos de outros escritores que, como eu, também buscam um lugar ao sol.

Então, ao Lourenço.

Fui à casa dele. Ele, animado, fanhoso (tenho de me esforçar para conseguir compreender o que ele fala), saudou-me, e perguntou-me a respeito de meu pai, minhas irmãs, e minha mãe – especialmente de minha irmã mais velha, a Jéssica, por quem ele, apesar de casado e pais de três filhas, sente atração, mesmo que não ma confesse. Não sou bobo, ora bolas! Percebo como os homens, atrevidos, olham para minhas irmãs, principalmente para a Jéssica, a mais bonita das duas (Que um psiquiatra, adepto da escola do Freud, ou de qualquer outra escola, pouco me importa de qual, interprete, à luz das teorias psiquiátricas, caso elas projetem alguma luz, as minhas palavras; que digam que tenho complexo disso ou complexo daquilo, que o meu id esmurrou o meu ego, e ambos, cúmplices do meu superego, subverteram a ordem, se ordem há, do meu inconsciente, e coisa e tal… e chega de lorota).

Não permiti, um pouco enciumado e incomodado, confesso, que o Lourenço se estendesse, indefinidamente, em superlativos à beleza da Jéssica. Eu o interrompi e falei-lhe das minhas idéias (não as mesmas que eu apresentara para o Juscelino, mas outras; não exatamente outras, mas as que eu apresentara para o Juscelino com significativas modificações: outros personagens, ambiente e narrador, agora em terceira pessoa). Lourenço ouviu-me atentamente; e disse-me, depois de puxar pela memória algumas lembranças das suas leituras:

– O Dostoiévski escreveu um romance com essas idéias, Carlinhos – e só agora revelo o meu nome, e ainda assim, no diminutivo, o que detesto sobremaneira. Desconfio que o Lourenço sabe que detesto ser chamado de Carlinhos, eu, com um metro e oitenta e dois de altura! Carlinhos, eu!?

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso; cabisbaixo, interessado em sua vasta erudição, o ouvi atentamente.

Lourenço falou-me de Dostoiévski (Li Os Irmãos Karamazovi. De Dostoiévski, apenas esse livro. Que vergonha! Como é constrangedor confessar a minha ignorância!). Provou-me, por A mais B, que ele escreveu um romance com as minhas idéias – as minhas idéias, sim! Dostoiévski escreveu um romance com as minhas idéias, pois não li o seu romance com idéias idênticas às minhas. Dostoiévski, afortunadamente, nasceu e morreu antes de mim e, involuntariamente – acredito que não tenha sido a intenção dele -, impediu-me de escrever uma estória original.

A conversa estendeu-se por um bom tempo. Ao contrário de Juscelino, Lourenço deu-me muitas idéias para contos – e disse-me que todas foram escritas por algum escritor. Pensei em ir-me embora, mas, com a chegada da Cássia, esposa dele, decidi permanecer na casa um pouco mais e dar sequência à conversa porque, como previ, ela me ofereceu um cafezinho saboroso – o qual degustei repleto de prazer. Além disso, eu queria admirá-la. Cássia, aos quarenta e dois anos, é um colírio para os olhos.

Eu queria prolongar a conversa com o Lourenço e a Cássia; tive, no entanto, a contragosto, de retirar-me. Despedi-me do casal, lançando um último olhar para a Cássia, e retirei-me. Como eu pretendia escrever um conto, e precisava de novas idéias – as que eu tivera abandonei-as – procurei pela Mariângela, que, leitora de romances e contos clássicos, poderia tecer comentários acurados sobre as minhas idéias. Por acidente, nos trombamos ao dobrar uma esquina. Desculpei-me. Ela se desculpou. Rimos. Cessado o riso, iniciamos uma conversa descontraída. Falei-lhe do concurso de contos para o qual eu desejava enviar um conto, e apresentei-lhe um resumo do meu conto. Ela me ouviu, atentamente; ao final do meu relato, disse-me:

– Machado de Assis escreveu um conto com essas idéias, Carlinhos.

– Escreveu? – não percebi que ela me chamou de Carlinhos, tão surpreso eu estava ao ouvi-la dizer que o bruxo do Cosme Velho, que tanto admiro, escreveu uma história com as minhas idéias.

E a Mariângela falou-me do conto do Machado de Assis. Para meu desgosto, para meu espanto, lembrei-me do dito cujo.

– Você está com a razão, Mariângela. Li o conto.

– Você tem de ser original, Carlinhos. Você não pode plagiar o Machado de Assis.

– Não desejei plagiá-lo, Mariângela. Tive algumas idéias, e decidi usá-las em um conto; e agora, e só agora, alertado por você, sei que Machado de Assis escreveu um conto com elas. Puxa! Que coincidência! Ainda bem, Mariângela, que você me avisou a tempo. Imagine a vergonha que eu passaria se escrevesse um conto com idéias usadas por Machado de Assis! Seria constrangedor. Eu nunca me perdoaria! Plagiar o bruxo do Cosme Velho! Involuntariamente eu incorreria em plágio, acredite em mim. A alma penada do Machado ou me cortaria o pescoço, ou me assombraria por toda a eternidade. Estou dizendo a mais pura verdade, Mariângela, a verdade verdadeira. Acredite em mim. Eu não mentiria pra você. O Machado escreveu… Quem diria!

Ao chegar em frente da casa da Mariângela, despedimo-nos. Segui rumo à minha casa. No caminho, ao passar pela praça São Bernardo, quem vi, lá, sentada em um banco, lendo um livro? A belíssima e vistosa Cláudia, a mulher mais bonita que conheço. Que pedaço de mal caminho! Ela nunca me deu bola. E daí? Sempre que a encontro, a admiro, embevecido, deslumbrado, de queixo caído, boquiaberto. O Gustavo, namorado dela, é quem tem de manter afastados os gaviões que voam em círculos em torno dela; ele, se não quiser ganhar um belo par de cornos, que se cuide e que cuide do que é dele. Eu, embora exista o risco de atiçar a cólera enciumada do Gustavo, não perco uma oportunidade de abordar a Cláudia, e requestá-la, com discrição e sutileza. Abordagens diretas a escandalizam. Confesso: não quero entrar em confronto com o Gustavo, que é meu amigo e mais forte do que eu. A tentação, no entanto, é incontornável…

Não pensei duas vezes. Enveredei pela praça. Como quem não quer nada, fui até a Cláudia, que trajava uma camisa branca decotada e um short amarelo bem justo. Quanta generosidade! As pernas cruzadas, desnudas! Acheguei-me a ela. Simulando surpresa, saudei-a. Ela sorriu. Que sorriso! Aqueles dentes brancos resplandecentes! Quase me perdi, naquele instante. Fiquei a ponto de desmaiar. Ela me ofereceu o rosto, para que eu o beijasse. Beijei-o, deliciado.

Perguntei-lhe que livro ela lia. Ela, pondo um marcador de página na página que lia, fechou o livro, cuja capa exibiu-me. Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Expus-lhe os meus comentários favoráveis ao livro e elogiei-lhe o bom gosto. Cláudia sorriu. Abaixou a cabeça, como que constrangida com os elogios. Perguntei-lhe se eu poderia sentar-me ao seu lado e puxar uns dedos de prosa. Ela me disse que me sentasse à direita. Sentei-me. Eu lhe disse que eu lera, dois meses antes, aquele livro, e, no ano passado, A volta do Parafuso. Conjuguei dois interesses: falar de literatura e admirar a Cláudia.

Falei-lhe do meu conto. Ela me ouviu atentamente; as suas observações, favoráveis, de estímulo; no entanto, ela me apresentou uma ressalva:

– O Boccaccio escreveu um conto com tais idéias.

Admirei-me. A Cláudia leu Boccaccio!? Não acreditei!

– Escreveu? – perguntei, boquiaberto, incrédulo.

– Escreveu, sim. Um dos contos do Decamerão.

Boquiaberto, de queixo caído, pasmo, eu não soube o que dizer. A Cláudia leu o Decamerão! Quase não me contive. Desejei perguntar-lhe qual dentre as cenas picantes ela mais apreciou. Calei-me, todavia. Eu fizera uma miscelânea das estórias que contei para o Juscelino, para o Lourenço e para a Mariângela. A Cláudia associou o meu conto aos do Boccaccio, que eu havia lido não muitos dias antes; mais uma vez, minha memória enganou-me. Eu não disse à Cláudia que li o Decamerão. Pedi-lhe mais detalhes. A bandida leu o Decamerão! Eu não quis acreditar. Ela, tão reservada, tão discreta, com fama de santinha – ler Boccaccio não faz uma mulher depravada, não é mesmo? -, surpreendeu-me com a revelação. Cláudia leu, como me provou, o Decamerão, e divertiu-se com a leitura. Falou-me da peste que assolava a Europa, na época de Boccaccio; falou-me dos contos, inclusive dos mais picantes, mas não o fez abertamente, com desembaraço.

Convencido de que criei um conto cujo tema era idêntico ao de um conto do Boccaccio, arrumei, com muito jeito, sem que a Cláudia desconfiasse das minhas verdadeiras intenções, assuntos para estender a conversa. Eu desejava admirar a Cláudia e tinha o sincero desejo de aprender um pouco mais sobre literatura. A Cláudia apresentou-me comentários a respeito de muitos livros, em sua maioria clássicos da literatura. Acompanhei-a, embevecido, em seu entusiasmo contido ao falar de Liév Tolstoi, seu escritor predileto. Eu sentia o odor perfumado que ela exalava. Inebriei-me com o seu perfume. Ébrio de desejo, enlaçava-a, em pensamento, e osculava-a, apaixonadamente. Encerramos a conversa – para meu desgosto – quando o Gustavo apareceu. Após saudar-me, ele atraiu a Cláudia para si, colou seus lábios aos dela – eu desejava beijá-los; os da Cláudia, obviamente; não os do Gustavo -; em seguida, após descolar seus lábios dos dela, voltou-se para mim, e disse-me que iriam à casa de uma amiga. Retiraram-se.

Levantei-me. Rumei à minha casa. Com quem dei de cara, na sala? Com a Rosemeire, que conversava com a Jéssica. Após passar momentos agradáveis com a Cláudia, defrontei-me com a feiúra em pessoa. Rosemeire, apesar de toda a sua feiúra repulsiva, não apagou, da minha mente, a belíssima imagem da Cláudia. Sorri. Eu rumava para o meu quarto; a um chamado da Rosemeire, detive-me. A Rosemeire me disse que participaria de um concurso de poesias, e perguntou-me se eu não desejava participar. Eu lhe disse que não gosto de poesia, mas de prosa, e tinha idéias para um conto que eu pretendia escrever e enviar para um concurso de contos. Ela me pediu que lho narrasse; eu lhe disse que eu não havia escrito nenhum conto, mas tinha algumas idéias na cabeça. Ela me perguntou quais eram. Eu lhas disse. Eram as idéias, com pequenas modificações, que eu apresentara para a Cláudia. Encerrado o relato, Rosemeire disse-me:

– A Virginia Woolf escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu?

Rosemeire resumiu o romance da Virginia Woolf. A Virginia Woolf – maldita! – escreveu a minha estória! Meu Deus! Em que mundo estamos! Um conto, que para a Cláudia continha idéias concebidas por Boccaccio, converteu-se, com pequenas modificações, em um romance da Virginia Woolf! Nenhum livro da Virginia Woolf eu li… Apalermado, ouvi as razões apresentadas pela Rosemeire, que, por sinal, foi muito gentil comigo – tanta gentileza não me agradou. O que ela desejava? Preciso responder à esta pergunta? Ah! Se fosse a Cláudia, assim, tão gentil, tão generosa, tão solícita… Mas não era a Cláudia; era a Rosemeire. As suas intenções… O seu sorriso… O sorriso cúmplice e zombeteiro da Jéssica… No desejo de não prolongar a minha permanência na sala, eu lhes disse que iria ao meu quarto escrever as idéias que me iam à cabeça, e retirei-me da sala, não sem antes olhar para a Jéssica. Malditinha! Sinto, não raras vezes, vontade de esganá-la. Rosemeire não me engana… Não tenho psicologia feminina, mas entendo as mulheres.

Convencido de que Virginia Woolf – e quem tem medo de Virginia Woolf? – roubou-me as idéias, decidi abandoná-las definitivamente. Não eram originais, e eu não me lançaria em um empreendimento literário para repetir o que outro escritor – e escritor consagrado – escreveu. Enfurnado no meu quarto, decidi mudar, e radicalmente, as minhas idéias. Nada de estória realista, nada de drama, nada de romance. Abandonei os meus projetos, e lancei-me na elaboração de uma estória fantástica. Retirei-me do quarto, duas horas depois. Ao passar pela sala, despedi-me da Jéssica e da Rosemeire, tão sorridente… O seu sorriso… Exagerado. Falso, notei. Sei o que a Rosemeire deseja de mim; não participarei de nada do que ela deseja. Ela que procure outro homem, um que se disponha a encará-la. Prefiro encarar a Medusa.

Na cozinha, enquanto eu bebia um copo de água, veio-me à lembrança a extravagante figura do Teodoro, leitor voraz de estórias de ficção científica, terror, espionagem, policial e fantasia. Rumei para a casa dele, sem pensar duas vezes.

À porta da casa do Teodoro, premi a campainha. Minutos depois, Teodoro abriu a porta. Saudamo-nos. Ele, expansivo, convidou-me para entrar. Entrei. Na sala, recebi um beijo no rosto e um forte abraço da Karen, esposa do Teodoro, tão extravagante e exótica quanto ele – eles formam o casal mais estranho da cidade. E entramos na conversa: literatura fantástica, ficção científica, terror, policial e outros gêneros que os críticos, soberbos, pedantes, insistem em classificar como sub-literatura.

No instante em que me surgiu a oportunidade, falei das minhas idéias para um conto de ficção científica. Teodoro, enquanto, atentamente, ouvia-me, cofiava o vasto bigode desgrenhado – como dizem nas redondezas: sem o bigode ele é como o Sansão sem a cabeleira.

Teodoro pensava, pensava, pensava. No que ele pensava? Não precisei esperar muito tempo para ter a resposta:

– Carlão, meu irmão, o Asimov escreveu um conto com essas idéias.

– Escreveu?

– Escreveu. Tenho certeza. Li todos os livros do Asimov. Em inglês. Entendeu? Em inglês. Carlão, as suas idéias não são originais. Você está plagiando o Asimov. Isso é heresia, você sabe. Pô, Carlão. Que decepção! Plagiar o Asimov! Ora, desista do conto. O que você pretende fazer é heresia. Lesa-pátria. Imperdoável! O que você está pretendendo fazer não merece perdão. Escreva o seu conto, que, na verdade, é do Asimov, que você vai parar na guilhotina. É o destino dos que desrespeitam o Asimov.

Foi a gota d’água! Desisti de escrever um conto. Aqui vai o meu registro, com meu sangue, meu suor e minhas lágrimas. Ninguém pode conceber o meu sofrimento! Ninguém pode conceber a minha angústia! Foi infrutífera a minha jornada à procura de uma boa idéia para um conto, que eu enviaria para um concurso…

Malditos todos os escritores que me antecederam! Malditos! Mil vezes malditos! Que a alma de todos eles queime no inferno! Malditos! Malditos! Mil vezes malditos!

Triste notícia

Manhã de sábado. Às nove horas, um pouco depois do café-da-manhã, Natália despediu-se de Alfredo, e foi, de carro, ao supermercado; depois, iria à farmácia e à feira. Alfredo esperaria, na sua casa, Roberto, seu irmão, e com ele iria para Taubaté à lojas de materiais de construção pesquisar preços de tijolos, cimento, areia, ripas de madeira, outros materiais e utensílios de pedreiro. Enquanto o esperava, trocou a água da vasilha dos cachorros (dois pastores, um alemão, Thor, e um belga, Aquiles. Alfredo diz que o belga é ortodoxo, mas é o alemão que mete medo) e a da vasilha do gato. Certa vez, perguntaram-lhe porque ele escolhia para os seus cachorros (Alfredo tivera dois vira-latas, Odin e Odisseu – Odisseu era o mais astuto; Odin, o manda-chuva – e três cadelas – uma rotweiller, Medusa, e não havia cristão que não se petrificava ao se deparar com ela; uma dálmata, Deméter; e uma colie, Afrodite) nomes de heróis, deuses e semideuses da mitologia grega, romana e nórdica (Ah! Esquecia-me, o gato chamava-se Esfinge), e não nomes de personagens folclóricos e mitos indígenas brasileiros; ele não deixou tal pergunta sem resposta, que estava na ponta de sua língua:

– Cães com nomes de origem brasileira não metem medo em ninguém. Imagine um pastor alemão chamado Saci. Conceba tal monstruosidade. O pastor é manco?, perguntar-me-iam. Ou ele é trípede?, zombariam. Quem o respeitaria? Agora, imagine uma rotweiller chamada Iara. Quem a respeitaria? Ninguém. Todos a achariam bonita, elegante e charmosa, e torceriam o nariz para ela, mas não a temeriam. Não quero cães que sejam alvos de chacotas. Quero cães que metam medo em todo mundo. E o nome tem de inspirar respeito, medo. A mitologia grega e a nórdica os possuem aos punhados. A hebraica também. Imagine um cão chamado Salomão. Você imagina um cãozinho frágil de latido estridente, ou um portentoso espécime de uma raça nobre, altivo, a transpirar sapiência? Agora, imagine um cão chamado Curupira. É para rir, não é?

Quando alguém lhe expunha os aspectos ridículos da sua argumentação, ele não desconversava; para surpresa de todos, defendia, com argumentos inconsistentes, as suas preferências pelos nomes de deuses, semideuses, heróis e monstros da mitologia grega, da nórdica e da romana; na maioria das vezes, não convencia ninguém de suas razões, as quais eram sem pé nem cabeça, mas todos calavam-se, para não perderem amigo tão querido. Certa vez, um amigo, descendente de indianos, apresentou-lhe nomes de deuses, semideuses e heróis hindus, muitos deles extraídos dos poemas épicos Mahabarata e Ramayana. Alfredo rejeitou, terminantemente, as sugestões, alegando que tais nomes são impronunciáveis.

Thor e Aquiles beberam da água, sedentos. Alfredo chamou por Esfinge, que não deu as caras.

– Caiu na farra, o maldito gato, na casa do vizinho – exclamou Alfredo, a sorrir, jocoso. – Também pudera! A gatinha que há lá! Um petisco.

Alfredo distribuiu a ração dos cachorros, em partes iguais, em duas vasilhas, uma vermelha, a de Thor, e uma verde, a de Aquiles, e as manteve afastadas uma da outra uns cinco metros, como também manteve afastadas as duas vasilhas de água – e eu ia sonegando esta informação, imprescindível, acredito, não para a compreensão deste relato, mas para o conhecimento da inimizade latente entre o deus nórdico e o herói grego. Ambos, conquanto trabalhassem, unidos, na proteção dos seus mantenedores, Alfredo, Natália, e os filhos deles, Gustavo, Denise e Fabiana, desentendem-se, às vezes – mantê-los distantes um do outro durante as refeições é uma providência sensata. Alfredo não desejava oferecer-lhes pretexto para eles se engalfinharem, cravarem os dentes um no outro, e ferirem-se. Não queria gastar o seu dinheiro com consultas ao veterinário e compra de medicamentos.

Assim que Thor e Aquiles beberam da água e comeram da ração, Alfredo conduziu-os ao canil. Não é correto dizer que Alfredo os conduziu ao canil. Habituados a, todos os dias, após beberem da água e comerem da ração, encaminharem-se ao canil, nesta manhã de sábado, eles foram ao canil, antecipando-se a Alfredo, que encheu de água as duas vasilhas que estavam no canil, trancou a porta com um cadeado, pendurou a chave num prego à viga de madeira, despediu-se de Thor e Aquiles, e rumou à varanda, onde consultou o relógio. Eram quase nove e meia. Roberto estava atrasado quase trinta minutos. Alfredo se chateou. Detestava atrasos. Era pontual e exigia pontualidade das pessoas com as quais marcava horário para um compromisso. Andou pelo jardim. Avaliou as flores. Procurou por ervas daninhas. Bem-te-vis, colibris e pombas-rolas desviaram-lhe a atenção. Um colibri azul, amarelo e verde osculava bicos-de-papagaio e tamancos-judeus. Alfredo observou-o até ele voar, por sobre o muro, à casa do vizinho.

A campainha soou.

– Até que enfim! – exclamou Alfredo, que foi até à porta, certo de que Roberto premira a campainha. Ao abrir a porta, para a sua surpresa, deparou-se com Vanessa, prima de Natália. Alfredo esboçou um sorriso, que logo suprimiu do rosto ao deparar-se com o rosto doído de Vanessa e ao vê-la remover lágrimas que escorriam do olho esquerdo. Fitou-a. Aguardou a notícia; triste, previu. Vanessa, sem dizer uma palavra, abraçou Alfredo e, enquanto removia de si as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, perguntou se Natália encontrava-se na casa. Alfredo disse-lhe que ela fora à feira, ao supermercado, e perguntou-lhe por que chorava. Vanessa não lhe respondeu, de imediato; engoliu o choro; inspirou, soluçou, pigarreou, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e as que se lhe acumulou nos olhos. Alfredo observou-a, em silêncio. Enfim, Vanessa disse:

– Uma notícia triste, Alfredo.

– Entre, Vanessa. Vamos à sala.

– Não…

– Você quer beber um pouco de água?

– Não, Alfredo, obrigada. Vim falar com você e com a Natália. Notícia triste, e vou… Tenho de ir à casa do Pedro…

– Vanessa…

– Não sei como falar… Ainda bem que encontrei você… Se eu tivesse encontrado a Natália… Não sei como eu lhe contaria… Como eu lhe daria a notícia… Com você, Alfredo, posso ser direto: O tio morreu.

– Tio?

– Sim, o tio… O tio Cirilo.

– O quê? – exclamou Alfredo, estupefato, e arregalou os olhos, e boquiabriu-se, incrédulo. – Mas… Como é possível? Ontem à noite, ele e eu conversamos, tão animados… Ele estava tão bem, tão alegre…

Diante da triste notícia, Alfredo proferiu tais comentários, e não atentou para o absurdo neles contido. Ele pediu que Vanessa entrasse. Ela lhe disse que iria à casa de Pedro e à de outros familiares e amigos transmitir a triste notícia, e não entrou. Em poucas palavras, resumiu o que sucedera durante a madrugada: o telefonema desesperado de Maria José às três horas da madrugada; a correria, dela, Vanessa, e de seu marido, Paulo Roberto, à casa do tio Cirilo e tia Maria José; a chegada da ambulância; a ida ao hospital; e a notícia do falecimento do tio Cirilo; o regresso à casa de Maria José; o medo que sentiu ao ver Maria José, inconsolável, aos prantos; as providências que tomou para consolá-la e para avisar os familiares. Alfredo ouviu-a, compungido, atentamente; lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos. Assim que Vanessa encerrou o relato comovente, estreitou-a num abraço carinhoso, beijou-lhe a testa, ajeitou-lhe os cabelos que lhe caíam à testa, e removeu, com o dorso do dedo indicador direito, as lágrimas que lhe escorriam pela face esquerda. Despediram-se. Alfredo, com o olhar, acompanhou-a afastando-se de si com passos lentos. Assim que ela dobrou a esquina, ele, cabisbaixo, regressou à casa, e trancou a porta; não havia da porta se distanciado dois metros quando a campainha soou. Deu meia-volta, e foi até a porta. Abriu-a. Era Roberto.

– Você já recebeu a notícia? – perguntou Roberto, ao fitá-lo.

Alfredo confirmou com o franzir do cenho, sem piscar, e com movimentos ligeiros dos músculos da face.

– A Natália… – reticenciou Roberto.

– Ela ainda não sabe. Ela está, ou no supermercado, ou na feira…

– Quem a contou para você?

– A Vanessa.

– Como você dará a notícia para a Natália?

– Estou pensando… Entre, Roberto – assim que ambos entraram, Alfredo trancou a porta, mas deixou a chave na fechadura. – Como darei a notícia para a Natália? Não posso lhe dizer, assim, de supetão… Você sabe… A Natália é tão melindrosa… Terei de dar-lhe a notícia. Não posso me furtar a fazê-lo.

Conversaram durante uma hora. Não falaram de materiais de construção, de pesquisa de preços. Falaram de Cirilo. Ao despedirem-se, Roberto renovou os seus votos de condolências.

Sozinho na sua casa, andando de um lado para o outro, perguntava-se Alfredo como daria à Natália a notícia do falecimento do pai dela. Foi ao banheiro; à pia, abriu a torneira, e jogou um pouco de água no rosto. Enxugou-se com uma pequena toalha azul. Fechou a torneira. Abriu a torneira, e molhou, pela segunda vez, o rosto, e não o enxugou. Fechou a torneira. Passou as mãos pelo rosto, removendo a água. E retirou-se do banheiro. Ao andar pela sala, Esfinge dele se aproximou. Alfredo nada lhe disse. Esfinge esfregou-se-lhe às pernas, na calça. Alfredo ignorou-o, alheado. Sentou-se no sofá, ao canto, pousou o braço esquerdo no braço do sofá, cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda, largou-se ao encosto do sofá, cerrou as pálpebras, e esfregou-as com os nós dos dedos da mão direita. Passeou as mãos pelos olhos, e removeu as lágrimas que neles se acumulavam. Estava triste e preocupado. Como daria a notícia à Natália? Teria de ministrar-lha em doses homeopáticas. Teria de preparar Natália para receber a triste notícia, de modo a não sobressaltá-la. Mas, como fazê-lo? Desejou que ela não se encontrasse com ninguém que lhe desse a notícia. Natália, tão melindrosa, se recebesse a notícia, sofreria um ataque cardíaco fulminante. Desejou que ela chegasse em casa, e logo, antes que alguém lhe perguntasse: “Que horas será o enterro de seu falecido pai?”, ou, então: “O traslado do corpo de seu pai começará no velório, ou na casa dele?”, ou: “Quero dar ao seu falecido pai os meus votos de despedidas. Ele será velado onde? Na casa dele, ou no velório?”, ou, então, lhe fizesse comentários sobre a honra e a nobreza de caráter de Cirilo, lhe dissesse que ele era um homem generoso, trabalhador, um dos raros homens confiáveis que havia no mundo, e que não se forjam homens de tal têmpera nos fornos modernos, dos quais só saem molengas, que não enfrentam sol a pino e adoecem ao primeiro golpe de vento, jamais empunham a enxada para carpir a terra, não sabem preparar a refeição que comem e não têm pulso firme para educar os filhos.

Com os pés, Alfredo empurrou Esfinge, que se deteve e fitou-o com seus olhos enigmáticos.

– Bandido… – sussurrou Alfredo; a voz travou-se-lhe no esôfago. – Por onde você andou? Você foi à farra, malandro? – ato contínuo, levantou-se do sofá. Esfinge o seguiu. Foram até onde encontrava-se a vasilha de Esfinge. Alfredo pegou do saco de ração, abriu-o, despejou uma boa quantidade de ração na vasilha. Esfinge curvou-se sobre a vasilha, e pôs-se a comer da ração, enquanto Alfredo pegou da vasilha com água, despejou a água num canteiro de samambaias, foi à torneira, abriu-a, encheu a vasilha com água, fechou a torneira, e carregou a vasilha até Esfinge, deixando-a ao lado da vasilha com ração. Executou mecanicamente essas tarefas. Pensava em Natália. Como dar-lhe-ia a notícia do falecimento do pai dela? Em sua mente, vórtices devastadores de pensamentos entrechocavam-se a ponto de petrificá-lo. Pensou o que sucederia à Natália se lhe dissesse: “Natália, seu pai morreu”, assim, de supetão. Seria o mesmo que matá-la, concluiu. Se desejasse matá-la, dar-lhe-ia desse modo a notícia. Mas não desejava matá-la. Perguntou-se se não estava sendo insensível ao pensar, exclusivamente, em Natália, e em ignorar Cirilo, que faleceu. Concluiu, para o seu conforto, mas tal pensamento não o agradava, que tinha de se preocupar, não com os mortos, mas com os vivos: Natália, sua esposa; Denise e Fabiana, suas filhas; e Gustavo, seu filho. Denise, Fabiana e Gustavo chorariam ao ouvirem a notícia. Fabiana seria quem mais sofreria (dos três era a mais apegada ao avô, com quem apreciava manter intermináveis colóquios sobre literatura e filosofia e a quem acompanhava às tertúlias promovidas por academias). Denise talvez não sofresse, pois nunca foi muito próxima do avô, mas por ele nutria respeito e carinho. Alfredo pensou nas duas filhas e no filho, mas concentrou os seus pensamentos em Natália. Denise, Fabiana e Gustavo suportariam o impacto da triste notícia. Eram jovens, saudáveis, fortes, mas Natália, não. Ela sofria de diabetes, tinha enxaquecas, passara por um período de dois anos de depressão profunda, e implantara um marcapasso dois anos antes. Não era uma mulher na plenitude da sua saúde. Era uma mulher que requeria cuidados, melindrosa. Alfredo não sabia como lhe daria a triste notícia. Pensou em pedir para outra pessoa transmitir-lha. Abandonou esta idéia ao concluir que ele, Alfredo, marido de Natália, é quem teria de dar-lha. Mas como o faria? Como lhe daria a notícia do falecimento do querido pai? Não poderia lhe dizer: “Querida, seu pai morreu”. Era o mesmo que assinar o atestado de óbito dela, o que ele não desejava. “Que outro o assine”, pensou, e sorriu, e meneou a cabeça, para expulsar de sua mente pensamento tão reprovável. Como daria para Natália a notícia do falecimento do pai dela? Desdobrou-se, para encontrar uma resposta. Teria de encontrá-la antes que Natália regressasse. “Eu, assim que Natália chegar – pensava Alfredo consigo, andando pela varanda e entrando e saindo da sala -, a saudarei como o faço todos os dias. Ela, é certo, me pedirá que eu tire do carro as compras. Atenderei ao pedido. Assim que ela entrar no quarto para vestir roupas mais leves, como, é certo, ela irá fazer, pois está um calor de rachar os miolos hoje, entrarei no quarto, e lhe direi para sentar-se na cama, e lhe darei a notícia. Primeiro, lhe direi que não fui, com o Roberto, para Taubaté porque, minutos antes, Vanessa esteve aqui em casa, para lhe dar a ela, Natália, uma notícia importante. Assim, sem ir direto ao assunto, reticente, manterei Natália em suspenso, e despertarei a sua curiosidade. Farei uma pausa, expressarei um ar compungido, fitá-la-ei bem fundo nos olhos… Não dará certo. Ao olhar para mim, ela saberá que lhe darei uma péssima notícia. Ela desconfiará… Terei de dar-lhe a notícia. Então, no quarto, sentados, na cama, de frente um para o outro… Tem de ser no quarto? Sim. É o local mais apropriado. Darei a notícia para a Natália. Começarei assim: ‘Natália, não fui, com o Roberto, para Taubaté. Um pequeno imprevisto…’ Pequeno imprevisto!? Que tolice é esta que me vem à cabeça!? Falta-me um parafuso na cabeça. O pai da minha esposa morre, e eu digo que isso é um pequeno imprevisto! A Natália, se eu lhe disser isso, terá um ótimo motivo para pedir o divórcio. Que sensibilidade! Além disso, por que eu usaria de um tom formal? Não transmitirei uma mensagem para um estranho. Eu irei falar para a minha esposa, mãe de meu filho e minhas filhas, da morte do pai dela. E farei, assim, sem lhe expressar, ao transmitir-lhe a notícia, os meus sentimentos… O que sou? Uma máquina? Um robô? Um andróide? Um replicante? Um sintético? Até os sintéticos têm sentimentos. Sou um homem, triste, agora, com o falecimento do Cirilo, meu sogro, que, desde o instante em que o conheci, foi generoso e respeitoso comigo. Ele foi para mim meu pai… Após o falecimento de meu… Não tenho de ocultar a minha tristeza… Não tenho de esconder da Natália os meus sentimentos… Não tenho de ocultar-lhos. Estou certo que Natália, ao chegar, assim que olhar para mim, perguntar-me-á: ‘O que houve, Alfredo? Por que você está triste?’. Ela possui o sexto sentido. E o sétimo e o oitavo. Não poderei lhe ocultar a minha tristeza. Não me desgastarei tentando exibir-lhe um rosto inexpressivo. É certo que eu, ao olhá-la nos olhos, traga lágrimas aos meus olhos. Melhor, é certo que as lágrimas me venham aos olhos sem que eu as chame, e que meus lábios tremam. Não conseguirei controlar-me. Irei segurar as mãos da Natália, abaixarei a cabeça, me curvarei, e chorarei, o rosto sobre seu colo, convulsivamente. Talvez Natália, ao me ver tão triste, sofrendo tanto, condoa-se de mim, e abrace-me, e, assim que eu lhe der a notícia do falecimento de seu pai, envolva-me com um abraço caloroso, estreite-me a si, e chore. Talvez isso se dê. Estou, aqui, a pensar, preocupado, em tudo isso, certo de que saberei como agir; o mais certo, no entanto, é que os eventos se sucedam, e surpreendam-me. Talvez venha a se suceder o que agora não me passa pela cabeça. A Natália, ao ouvir a notícia, talvez não se perturbe; talvez a receba com serenidade e resignação, afinal Cirilo sofreu muito nos últimos anos, e os remédios, conquanto o conservassem lúcido e animado, como ele se mostrou ontem à noite, fizeram-no sofrer imensamente, embora ele não deixasse que o sofrimento que o afligia lhe transparecesse na fisionomia, que ele conservava animada, como se vivesse no melhor dos mundos possíveis. O testemunho de Maria José me foi revelador: Cirilo sofria muito. Os seus momentos de alegria foram interlúdios entre dois momentos de sofrimento indescritível. E ele os passava com Fabiana e Henrique. Os três adoram livros de literatura e de política; as animadas conversas faziam bem a Cirilo. E ele sofria muito. Talvez Natália se resigne. Talvez ela acolha a notícia e não sofra tanto quanto imagino que ela sofrerá. Talvez o impacto da notícia não seja tão devastador quanto eu o esteja concebendo. Mas, e depois? E depois? A Natália poderá, calada, ouvir-me dar-lhe a notícia, mas, e depois? A Natália me dará a entender que estará bem, não necessitará de maiores cuidados… Mas, e depois?”.

O soar da campainha interrompeu-lhe o fluxo dos pensamentos. Foi à porta. Abriu-a. Era um funcionário dos correios, que lhe entregou uma encomenda feita por Natália uma semana antes, uma caneta e um papel, no qual, num espaço reservado com indicação do nome de Natália e do seu endereço, Alfredo assinou, e escreveu o número do seu RG e o do seu CPF. Assim que os escreveu, entregou o papel e a caneta ao funcionário dos correios, despediu-se dele, desejando-lhe um bom dia de trabalho e um ótimo final de semana, e recolheu-se à casa, com a caixa, a qual deixou sobre a mesa da sala-de-estar. Ato contínuo, foi à cozinha, pegou de um copo de vidro transparente, levou-o ao filtro, encheu-o de água, bebeu da água, e deixou o copo na pia. Retirou-se da cozinha, e foi ao quarto. Sentou-se na cama. O telefone soou. Atendeu-o. Era Maria José, sua sogra. Ela lhe falou do falecimento do marido. Alfredo ouviu-a, atentamente; não lhe disse que Vanessa já lhe dera a triste notícia. Quis consolá-la, mas se convenceu, ao ouvi-la, que ela, mais do que ele, suportava a triste notícia com coragem, e era ele, e não ela, que precisava ser consolado. No tom de voz dela misturavam-se resignação e sofrimento; ela disse que havia sido feita a vontade de Deus, e que Cirilo descansaria, após muitos anos de sofrimento decorrente da doença que o acometera, e que o prostrara, na cama, durante cinco longos anos, e que o privara dos prazeres da vida. Lágrimas abundantes encheram as órbitas dos olhos de Alfredo. Maria José perguntou-lhe de Natália. Alfredo disse que ela fora ao supermercado, à feira e à farmácia. Maria José aconselhou-o a dar-lhe a notícia com cautela, para não feri-la, pois Natália era muito melindrosa; em seguida, disse-lhe que teria de desligar o telefone porque Carlos Roberto, seu irmão, a chamava. Despediram-se, e desligaram o telefone.

Sentado na cama, Alfredo pensava no que diria para Natália. Não poderia abordá-la com circunlóquios, pois, sabia, se o fizesse, despertar-lhe-ia os sentidos, indefiníveis, que ela possuía, tão agudos, tão potentes, que, de imediato, antes de ele dar-lhe a notícia, ela chegaria, ou pelo instinto, ou pela intuição, ou pela razão, ao fitá-lo, à explicação correta para a atitude dele.

Alfredo não poderia lhe dar a notícia de supetão; também não poderia abordá-la com floreios oratórios para transportar-lhe o espírito para uma região serena e tranquila, para, depois, vir com a triste notícia.

Não sabia como teria de proceder. Consultou o relógio. Eram onze e meia. Natália regressaria dali poucos minutos, pois ela ainda teria de preparar o almoço. Alfredo ficou apreensivo. Levantou-se da cama. Retirou-se do quarto. Pensou ter ouvido o barulho do portão sendo fechado. Acelerou os passos. Foi à varanda. Não viu Natália. Concluiu que o portão da casa dos vizinhos da direita, Vinicius e Úrsula, fôra fechado. Passeou as mãos pelo rosto. Um bem-te-vi distraiu-o. Pássaros, ao longe, digladiando-se em pleno vôo, prendeu-lhe a atenção durante um bom tempo. Um pássaro pequeno e um pássaro grande com o triplo do tamanho do pássaro pequeno. Pareceram a Alfredo um pardal e um sabiá-laranjeira, mas ele não estava certo disso. Talvez não fosse um pardal, mas uma noivinha, ou um colibri de penas de cores foscas, e o outro pássaro talvez fosse um bem-te-vi. Não soube dizer quais eram as espécies dos dois pássaros. Não se prendeu à essa questão. Logo mergulhou nos seus pensamentos. O que diria para Natália, que chegaria à casa antes do meio-dia? Enfiou as mãos no bolso da calça. Pensativo, andou de um lado para o outro do jardim e da varanda. Latidos de Thor e Aquiles chegaram-lhe aos ouvidos, numa série que lhe indicava que eles avançavam contra alguma pessoa ou contra algum animal. Alfredo sabia quando os cães latiam para estranhos, fossem pessoas, fossem animais. A entonação dos latidos assumia características singulares. Foi ao quintal. Não havia se aproximado do canil quando obteve a explicação para as detonações dos latidos de Aquiles e Thor. Sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia havia um homem, que mexia na antena. Alfredo não se deteve. Aproximou-se dos cães, que diminuíram a ênfase dos latidos à sua presença.

– Cachorros bravos, hein? – comentou o homem sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia; era ele magro, esquelético, de barba rapada, baixo (um metro e sessenta, se muito), e na altura dos cinquenta anos. – Eles não gostaram de mim.

Aquiles e Thor conservaram-se vigilantes.

– São dois machos? – perguntou o homem sobre o telhado, referindo-se a Aquiles e Thor. – Um pastor alemão e um pastor belga?

– São – respondeu Alfredo. – São dois machos. Um belga e um alemão. Como você pode ver, eles estão com fome.

– Não quero me servir de almoço para eles – e sorriu o homem sobre o telhado, enquanto mexia, com um alicate, no cano de sustentação da antena. – Ferozes, os dois. Treinou-os?

– Sim. Em uma escola para cães.

– Essas duas feras impõem respeito.

– Não há dúvidas.

– Esses dois cães de guarda mantêm os ladrões afastados. Há muitos ladrões na cidade. Ontem, perto da minha casa, dois ladrões… Dois ou três, ninguém sabe… Entraram na casa do Juliano, à noite… Não eram nem dez horas da noite… Entraram na casa e a depenaram. Carregaram o computador, o dvd, o rádio e a televisão. Um computador, sabe?, que parece uma pasta. Não sei como se diz. Ora, um ladrão, sozinho, não poderia fazer o serviço. Foram dois, ou três. E o engraçado: Ninguém, na vizinhança, os viu. Foram sorrateiros, os filhos-da-polícia. Entraram e saíram da casa do Juliano, e ninguém os viu.

– Eles sabiam que não haveria ninguém na casa, na hora do roubo.

– Foi o que eu disse para o Juliano. Não foram ladrões-de-galinha que assaltaram a casa dele. As portas e as janelas não foram arrombadas. Como os ladrões entraram na casa? Teletransportaram-se para dentro dela? E como eles saíram da casa? Teletransportaram-se para fora dela? A Carlinha, minha irmã, disse que os ladrões entraram na casa do Juliano pela casa da Guiomar, que dá fundos para a casa do Juliano. Mas a Guiomar disse que, à noite, naquele dia, ela, o Lindomar, marido dela, e o Neymar, filho dela com Reinaldo, o seu primeiro marido, que faleceu em um acidente de carro há dez anos, estavam, no quintal, arrumando as quinquilharia. Ferros-velhos, papéis, papelões, os quais iriam vender, no ferro-velho, hoje. Ninguém além deles estava naquela casa. E a Guiomar, mulher honesta, decente, trabalhadora, jamais mentiria. Todos os do bairro gostamos dela. A Guiomar é uma cozinheira de mão cheia, mulher forte, vigorosa, sabe? Ela não é gorda; é forte; um mulherão. Ela é baixa, tem um metro e cinquenta; e de um vozeirão que impõe respeito e mete medo até no Papa, que Deus o guarde. Quem manda, na casa dela, é ela, não o Lindomar, homem trabalhador e decente, pau para toda obra. A Guiomar, o Neymar e o Lindomar não ouviram sequer um ruído na casa do Juliano. A Luciana, minha vizinha, disse que os ladrões conhecem o Juliano. São, ela acha, amigos dele.

– Uma hipótese que não se pode descartar.

– O Juliano não a descartou.

– Ele chamou a polícia?

– Não. Não telefonou para a delegacia. Ele jamais iria telefonar para a polícia. Um passarinho contou-me que o Juliano trafica maconha. Não sei se é verdade. Eu nunca o vi fumando um cigarro. Nunca me haviam dito que ele traficava maconha. Depois que assaltaram a casa dele, começaram a espalhar esta história. Por que ele não telefonou para a polícia? Muitas pessoas procuraram uma resposta para esta pergunta. Por que o Juliano não chamou a polícia? A melhor resposta que encontraram: ele não quer os policiais dentro da casa dele porque eles, ao procurarem por evidências que os levem aos ladrões, poderiam encontrar a maconha que ele tem escondida em algum lugar da casa, muito bem escondida, mas não tão bem escondida que os policiais, à procura de evidências que os levem aos ladrões, não possam encontrar. Muita gente está contando esta história pelo bairro. Como não sei se isso é verdade, ou não, calo-me a respeito. Não quero levantar falso testemunho. Aprendi a manter a língua dentro da boca. O padre Carlos, dia destes, disse-me que um dos dez sacramentos, não sei se o quinto, se o oitavo, nos ensina a não levantarmos falso testemunho. É um dos sacramentos que Deus riscou, no monte das Oliveiras, em uma das duas tábuas que Ele entregou para Moisés. Essa história está na Bíblia, numa das primeiras páginas do Novo Testamento, que é a segunda parte da Bíblia, e foi escrito depois do Velho Testamento. E um advogado, Luciano, amigo meu, disse-me, certa vez, que ao acusador cabe o ônus da prova, e que todas as pessoas são inocentes até prova em contrário, excluindo-se, obviamente, os nossos inimigos, pois todos eles nasceram culpados.

A tagarelice do homem que estava sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia distraiu Alfredo, que, enquanto o ouvia, sorria consigo diante dos equívocos nos quais ele incorria, os quais não foram poucos. Menos de vinte minutos depois, o homem, enquanto descia do telhado, despediu-se de Alfredo, que iria à cozinha, mas deteve-se à porta ao ouvir barulho na varanda. “Natália”, pensou. Seu coração vibrou, acelerado. Imóvel, procurou controlar os seus pensamentos e conservar consigo o governo do corpo. Respirou fundo. Expeliu todo o ar dos pulmões. Andou, lentamente, controlando os passos e a respiração, até a varanda. Deteve-se ao batente da porta que dava acesso do corredor à varanda. Entreviu Natália, atrás do carro, cujo bagaceiro estava com a porta levantada.

– Querida – disse, e andou na direção dela, e dela ouviu:

– Fredo, ajude-me com as compras.

– Nossa! Quanta coisa você comprou – exclamou Alfredo, ao se deparar com o bagageiro cheio.

– No banco há mais – disse Natália, sorrindo; ao voltar-se para Alfredo, fitou-o nos olhos. – Você esqueceu que dia será amanhã? Você está ficando velho. Comprei tudo isto para a festa de aniversário de papai. Amanhã ele fará oitenta anos.

Alfredo havia se esquecido.

– Comprarei para você um quilo de cérebro de elefante, Fredo. Agora, ajude-me com esses pacotes – e, carregando duas sacolas, uma em cada mão, afastou-se do carro. – Vou tirar estes sapatos, que estão moendo meus pés, triturando meus ossos, e, depois, vou para a cozinha preparar o almoço. Já é meio-dia. Como as horas passaram rápido, hoje – e retirou-se da varanda.

Alfredo ficou imóvel atrás do carro. Coçou o queixo. Passeou as mãos pelo rosto. Encheu os pulmões de ar – com as mãos aos quadris -, e os esvaziou. Lágrimas vieram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras e abaixou a cabeça. Removeu das órbitas dos olhos as lágrimas. Atormentava-o a ausência de uma resposta para a pergunta que se fazia: “Como vou contar para ela?” – referia-se à Natália e à morte de Cirilo. Conservou-se imóvel, atrás do carro, durante um bom tempo, até que resolveu retirar as sacolas e os pacotes do bagageiro do carro. Deteve-se, na primeira vez que entrou na sala-de-estar, e deixou pacotes e sacolas sobre a mesa. Mais uma vez, lágrimas vieram-lhe aos olhos. Alfredo removeu-as. Curvou-se sobre o encosto de uma das seis cadeiras que ladeavam a mesa, e nele pousou os cotovelos. Cerrou as pálpebras. Cobriu os olhos com as mãos, e pensou: “Como contarei para a Natália?”, referindo-se à morte de Cirilo. “Direi ‘Natália, seu pai morreu’? Não! O que desejo? Desejo a morte da minha esposa? Direi ‘A Vanessa disse-me que seu pai, Natália, morreu’? Diabos! Como eu lhe falarei da morte do Cirilo? Direi ‘Querida, hoje, não fui para Taubaté com o Roberto porque, minutos antes, atendi à campainha. Era a Vanessa, sua prima, que a tocara. Ela me disse, Natália, que seu pai morreu’? No que estou pensando? Não importa o que eu diga, a notícia cairá como uma bomba. Não saberei com quais palavras dar a notícia para a Natália. Cairei aos prantos. Talvez eu não caia aos prantos. Talvez as lágrimas se me sequem, não me venham aos olhos, e eu perca a voz, e eu fique paralisado. Talvez eu perca a consciência, e, parado, comporte-me como um tolo diante da Natália, que me perguntará: ‘O que houve, Alfredo? Você quer me dizer alguma coisa?’, e eu perderei a voz, e faltar-me-ão as palavras. ‘Querida – eu direi – sente-se, por favor. Hoje, a Vanessa, sua prima, esteve aqui, e, depois, o Roberto, e há uma hora, mais ou menos, sua mãe telefonou-me. Os três disseram-me que seu pai, de madrugada, enquanto dormia, faleceu’. Como a Natália reagirá à notícia? Seria como lhe cravar uma faca no peito, e empurrá-la até transpassar-lhe o coração. Terei de lançar mão de outro expediente. Como eu lhe darei à notícia? Eu lhe direi: ‘Querida, sente-se, por favor – se ela não estiver sentada. – Quero conversar com você. Sua mãe telefonou-me há uma hora e meia, e disse-me que seu pai morreu, na noite de hoje, e…’. Não. A Natália… Oh! Inferno! Como direi à Natália?”. Neste momento recompôs-se, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, tirou um lenço do bolso esquerdo traseiro da calça, e com ele enxugou os olhos, suspirou, e andou, pelo corredor, em direção ao quarto. Deteve-se ao enquadramento da porta. Dentro do quarto, Natália, sentada na cama, retirava da orelha esquerda o brinco. Alfredo restituiu o lenço ao bolso da calça, encheu os pulmões de ar, e os esvaziou, lentamente. Com os ânimos serenos – assim ele acreditava -, entrou no quarto. Natália voltou-lhe a atenção, enquanto curvava, ligeiramente, a cabeça para a direita e removia da orelha direita o brinco, o qual guardou num porta-jóias, enquanto Alfredo sentava-se à cama.

– O que aconteceu, Alfredo? – perguntou-lhe Natália. – Você está com um olhar estranho.

Assim que Natália abaixou a tampa do porta-jóias, Alfredo, em silêncio, estendeu-lhe as mãos, com as palmas para cima, pedindo-lhe as mãos. Natália pousou sobre as mãos dele suas mãos, intrigada e expectante. Seu olhar penetrava, profundamente, os olhos de Alfredo, como se lhe sondasse a alma, como se lhe esquadrinhasse o espírito à procura de uma resposta para o estranho comportamento dele. Natália intuiu que algo de triste se sucedera, mas não atinava com as razões do olhar alheado de Alfredo. Aguçou o olhar. Ativou todos os seus neurônios à procura de uma resposta.

Alfredo quebrou o silêncio:

– Natália, não fui, hoje, para Taubaté…

Natália franziu o cenho, fez ar de quem nada compreendia. Não viu correspondência entre a atitude e as palavras de Alfredo. Algo de estranho, pensou, sucedia-se. Não havia sentido, intuiu, Alfredo fazer ar de mistério, fisionomia sofrida, manter o silêncio e dar-lhe tal notícia.

– É só isso o que você quer me dizer, Alfredo?

– Não. Não, Natália. Sua mãe telefonou, há uma hora, mais ou menos.

– O que ela queria?

– Ela queria falar com você.

– A respeito de quê?

Alfredo não deu uma resposta. Natália conservou-se calada. Esperou que ele lhe dissesse o que desejava lhe dizer.

Alfredo, enfim, após alguns minutos de silêncio opressivo, disse, com voz entrecortada:

– Natália… Querida, meu sogro morreu.

 

A travessia

Era uma segunda-feira do mês de fevereiro. E na loja de materiais de construções Moreira & Moreira, José Luiz desincumbiu-se das suas tarefas não sem dificuldades; para o exercício de algumas delas não pôde dispensar o auxílio de outros funcionários.

Não foi um dia de trabalho muito proveitoso. O proprietário da loja, Roberto Moreira, nervoso – raros, nele, o nervosismo e, dizia José Luiz, a brabeza -, distribuiu broncas para todos os funcionários. Muitos dentre eles desejavam que ele os esquecesse, ou que deles não se lembrasse, mas ele conhecia-os todos, chamava-os pelos nomes, e sabia qual era a função de cada um deles. Os funcionários perguntavam-se a razão do nervosismo, da braveza, da rudeza no trato, da sequidão da voz, que não admitia réplicas, do olhar compenetrado, da fisionomia carregada, rígida, pétrea, de Roberto Moreira. Aventaram inúmeras hipóteses; algumas, sérias; outras, jocosas; raras as maledicentes – estas as aventaram os desafetos de Roberto Moreira, os que o detestavam. José Luiz, que conhecia Marcelo, um dos filhos de Roberto Moreira, soubera, contou-lhe Marcelo, que, no domingo, Cláudia, tia dele, irmã de Roberto, fora atropelada, e essa seria, estava certo, declarou José Luiz, a razão da brabeza do chefe, como a Roberto Moreira referiam-se os funcionários da Moreira & Moreira. Discordou Amauri, que, conhecedor da história do atropelamento de Cláudia, disse que ela passava bem, dissera-lhe Vinicius, marido dela. A razão da postura taciturna e carrancuda de Roberto Moreira e da sua rudeza no trato devia-se, portanto, a outro motivo, que não o aventado por José Luiz.

O trabalho, desgastante. Foi um dia incomum. José Luiz não se recordava de, em outro dia, desde que começou a trabalhar naquela loja, um ano e sete meses antes, haver tantos clientes a comprar materiais de construções. Desdobrou-se para executar todas as tarefas para as quais o encarregavam. Desgastou-se de manhã, durante quatro horas ininterruptas de trabalho, sob sol inclemente – atenuou o desgaste com um copo de água a cada hora. No momento em que cessou o seu trabalho, para almoçar de uma marmita e de um copo de refrigerante que a loja forneceu-lhe, suava, em bicas, a camisa encharcada de suor. Ele dela despiu-se, e abandonou-a sobre os tijolos, para secá-la. A marmita continha uma boa porção de arroz e feijão, bife e batatas, verduras e legumes. Era um almoço reforçado. Encerrado o almoço, José Luiz deitou-se sob um caminhão, e puxou uma palha durante vinte minutos – a soneca foi-lhe salutar. Levantou-se. À pia próxima do monte de areia lavou o rosto, para despertar de vez; vestiu a camisa, e tornou ao batente.

No período da tarde, o trabalho foi mais estafante do que no período da manhã. O sol exauriu-lhe as forças. Se José Luiz não fosse dotado de vontade férrea, músculos resistentes e organismo apropriado para as tarefas que lhe exigia Roberto Moreira, sucumbiria ao esforço. Desempenhava as suas incumbências com desenvoltura; ao final de um dia de expediente a carregar tijolos, vigas, telhas, areia, pedras, sem cessar, ia para a sua casa, banhava-se, degustava de alguns minutos na companhia de Camila, sua esposa, grávida de seis meses, e Paulo Renato, seu filho, menino de dois anos, que, diziam os familiares e os amigos, tinha a cara da mãe e o focinho do pai; e antes das dezenove horas, rumava para a Escola Técnica Nikola Tesla, para assistir às aulas do curso de eletroeletrônica; e regressava à sua casa as onze horas e trinta minutos da noite. E acordava, na manhã seguinte, as cinco horas.

Naquela segunda-feira de fevereiro, José Luiz desgastou-se além do habitual, e, uma hora antes de encerrado o expediente, acreditava, não conseguiria prosseguir com o trabalho até dali uma hora, ao crepúsculo, às dezoito horas, mas agüentou o tranco, disse, assim que se retirou da loja, exausto, mas em pé, e disposto a enfrentar quatro horas de aula, na Escola Técnica Nikola Tesla. Despediu-se dos seus colegas de trabalho. Na companhia de Gustavo, o Gordo, de Maurício, o Pernambuco, de Nelson, o Lagarto, e de Daniel, o Dejota, foi até o cruzamento das ruas José de Anchieta e Dom João VI, onde deles despediu-se, e seguiu, só, rumo à sua casa, distante da loja três quilômetros. Intensificava-se o trânsito. Veículos iam e veículos vinham, rápidos, apressados os motoristas, ou José Luiz tinha a sensação de que todos eles estavam apressados, e também os ciclistas, e os pedestres, menos ele, que seguia no ritmo habitual. E um caminhão a descarregar fumaça apretejada obrigou José Luiz a tampar o nariz com os dedos indicador e polegar da mão esquerda, prender a respiração, cerrar as pálpebras, e mover a cabeça para o lado oposto ao pelo qual passou o caminhão. Em pensamento praguejou José Luiz, e desacelerou os passos. Segundos depois, recomposto, retomou o seu passo na velocidade que lhe era habitual, para, logo em seguida, cobrir os olhos com a mão esquerda em pala, protegendo-os do reflexo dos raios solares, que lhos feriam, no vidro posterior de um carro estacionado poucos metros à sua frente. Ao passar pelo carro, abaixou o braço. Contornou a esquina à direita, e seguiu por cem metros; deteve-se em frente da casa lotérica, e preparou-se, sobre a calçada, parado, a olhar de um lado para o outro, aguardando os carros passarem, para atravessar a rua. Era a hora do rush. Passou um carro. E outro carro. E uma caminhonete. E outro carro. E uma moto. E outra moto. E um caminhão. E um carro. E outro carro. Todos iam no sentido bairro-centro – enquanto, na pista contrária nenhum veículo passava. Assim que viu que na faixa sentido bairro-centro apenas um veículo, um carro, aproximava-se, José Luiz pôs o pé esquerdo na rua, e logo da rua o retirou assim que viu uma fileira de carros se lhe aproximando no sentido centro-bairro, em velocidade considerável – setenta quilômetros por hora, mensurou José Luiz. Um carro passou por ele. Vermelho. E outro carro passou por ele. Prateado. E outro carro prateado. E outro carro prateado. E passou por ele uma caminhonete. E outra caminhonete. E três motos – a primeira, preta; a segunda, azul; e verde, a terceira. E outro carro. Alaranjado. E aproximaram-se dele duas motos, ambas pretas, e atrás delas nenhum veículo. José Luiz desceu o pé esquerdo na rua, e olhou para à sua esquerda, para a faixa sentido bairro-centro, e viu próximo de si, e deslocando-se rapidamente, uma fileira de veículos, e recuou o pé esquerdo, e afastou-se do paralelepípedo à aproximação de um caminhão branco, imenso, que, pareceu-lhe, iria engoli-lo. O caminhão passou por ele, e seguiam-no, como que atraídos pela sua força gravitacional, dezenas de veículos, entre carros e motos. E agora as duas faixas da rua estavam tomadas por veículos. E José Luiz resmungou, e esbravejou, discretamente. Pressionou as mandíbulas uma contra a outra, e cerrou o punho esquerdo, dobrando o cotovelo, como que ameaçando esmurrar alguém, e executou gestos involuntários que dele revelavam a irritação. Olhou de um lado para o outro. E viu carros e mais carros, caminhões e mais caminhões. E ônibus. E caminhonetes, e mais caminhonetes. E motos, muitas motos. E um tanque-de-guerra, que rumava, acreditava José Luiz, do Batalhão Borba Gato para o Batalhão de Engenharia e Combate. E a terra tremeu-lhe sob os pés à passagem do encouraçado, um rinoceronte de metal, como aos tanques-de-guerra referiam-se José Luiz e os soldados que com ele conviveram durante um ano de serviço militar – conquanto a conscrição fosse obrigatória, José Luis e muitos outros recrutas alistaram-se por vontade própria, no desejo, sincero, de prestar uma contribuição ao Brasil, e sacrificar-se pelo país, se necessário.

Há mais de cinco minutos parado na calçada, José Luiz, preparado para atravessar a rua, sempre que nela punha um pé, certo de que poderia atravessá-la, veículos aproximavam-se dele, em alta velocidade, e até bicicletas, de todas as direções, impedindo-o de atravessá-la, irritando-o. Cerrava os punhos, tensionava todos os músculos do corpo, abria os braços num gesto de impaciência. Em certo momento, os veículos como que havendo desaparecidos por encanto, preparou-se José Luiz para atravessar a rua; desceu o pé esquerdo na rua; e ao pôr, nela, o pé direito, ouviu uma buzina, e recuou. Era a buzina de uma cadeira-de-rodas motorizada. Pilotava-a Tião Pé-de-Cabra, encastelado no assento de couro, e um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça achatada, e cujas sobrancelhas – de coruja, diziam – de tão espessas podiam ser entrevistas a um quilômetro de distância.

– Tarde, seu menino – Tião Pé-de-Cabra saudou José Luiz. – Mande um abraço meu para o senhor vosso pai, o velho Moreno, e acenda uma vela pela alma de vosso avô, o velho Marcondes – e seguiu o seu caminho, sem se deter.

José Luiz acenou-lhe, e prometeu-lhe dar o recado para o destinatário dele e acender a vela.

E sorriu José Luiz, atenuada a sua irritação, e relaxados seus músculos. E abanou a cabeça. E olhou de um lado para o outro. Carros, motos, caminhonetes, caminhões e ônibus passavam, em ambos os sentidos da rua. Mordeu José Luiz a língua, para não amaldiçoar Tião Pé-de-Cabra.

José Luiz, pouco tempo depois, certo de que nenhum carro aproximava-se de si, olhou para a direita, e, ao pôr o pé esquerdo na rua, viu, para a sua surpresa, um carro, em alta velocidade, indo em sua direção, e recuou, para a calçada, abrindo os braços, as mãos espalmadas, e as bateu nas coxas, com força, ao mesmo tempo que proferiu uma obscenidade. Contrariado, esperou o carro passar, após o qual passaram duas motos e um ônibus. Quando da sua direita nenhum carro ia em sua direção, olhou para a esquerda, pôs um dos pés na rua, preparou-se para atravessá-la, e recuou ao ver um carro a aproximar-se de si.

Impacientava-se José Luiz. Levantava os braços, irritado, todas as vezes que lhe frustravam a tentativa de atravessar a rua. Irritava-se. Executava movimentos bruscos com os braços, e, as mãos espalmadas, batia-as, enraivecido, nas coxas. E evocava a figura inconfundível de Tião Pé-de-Cabra e a sua cadeira-de-rodas, e o amaldiçoava. Antes não tivesse recuado à calçada quando ele buzinou. Parecia-lhe a ele, José Luiz, que, transcorrendo o tempo, mais difícil tornava-se atravessar a rua. Da direita e da esquerda iam os veículos, dezenas deles. Não havia intervalo de tempo entre dois veículos que lhe permitisse atravessar a rua. José Luiz punha um pé, ou os dois pés, na rua, certo de que poderia atravessá-la, e recuava, logo em seguida, ao ouvir o soar de uma buzina, ou um grito, e tornava à calçada, irritado, contrariado.

E passavam-se os minutos. E José Luiz consultava o relógio no mostrador do telefone celular. E praguejava. Se não atravessasse, e logo, a rua, se atrasaria para as aulas do curso de eletroeletrônica.

Sob o sol, que já ia se pondo, José Luiz viu, há cinquenta metros de distância, na mesma calçada, da sua direita, indo em sua direção, um homem, que – José Luiz concluiu ao atentar para os gestos e os passos dele, vacilantes – estava bêbado. O homem, tipo acaboclado, baixo, troncudo, barrigudo, as pálpebras semi-cerradas, de roupas amarfanhadas, imundas, cabelos desgrenhados, barba por fazer, olhos avermelhados, fundos, órbitas dos olhos apretejadas, pés embrulhados em sapatos surrados – o esquerdo com uma falha que lhe deixava expostos três dedos -, a coçar, incessantemente, a cabeça, andava trançando as pernas e arrastando-se pelas paredes, e ora detinha-se, perdido, a olhar de um lado para o outro, e para o céu, e para o chão à sua frente, e quase ia ao chão; para surpresa de todas as pessoas que assistiam a espetáculo tão deplorável, antecipando, em pensamento, a queda do ébrio, e preparando a gargalhada, que explodiria tão logo ele desse com o nariz no chão, ele não caia, indo contra todas as leis da natureza; conservou-se ele, contra todos os prognósticos, em pé, tão firme quanto um prego fincado na areia – incrédulos, os curiosos não acreditavam que ele conseguia em pé manter-se por muito tempo. E ele não caia, para frustração daqueles que o acompanhavam com os olhos. Ele perdia o equilíbrio, mas não caia. Tinha-se a impressão de que ele cairia, mas ele não caía; ora ele encostava-se à parede de alguma casa, para manter-se em pé; ora ele detinha-se, e, não se sabe como, dava um passo, ou para a frente, ou para trás, ou para a direita, ou para a esquerda, e conservava-se em pé. O seu estado, deplorável. José Luiz lamentava-o. O bêbado ia em direção de José Luiz. Resmungou qualquer coisa ao perder o equilíbrio, e bater com a cabeça na parede. No outro lado da rua, dois garotos, ambos de bicicleta, cada um deles em uma bicicleta, gritaram-lhe, provocando-o. Conheciam-no. E ele esbravejou. Proferiu maldições e obscenidades de ruborizar até o diabo. Incompreensível o que ele disse assim que abaixou o tom de voz. Engrolava as palavras. José Luiz dividia a sua atenção entre o trânsito e o bêbado, esperando que ele de si não se aproximasse. José Luiz detestava bêbados. Os bêbados irritavam-no; havia um alcoólatra na sua família, seu tio, Mauro, irmão de seu pai. Mauro, sóbrio, era gentil, amigável, bem-humorado, espirituoso, cativante; ébrio, era indiscreto, inconveniente, inconsequente, e dele José Luiz não se aproximava; evitava-o; dele fugia como o diabo foge da cruz.

O bêbado não foi até José Luiz, como que lhe atendendo as preces. Deteve-se, de repente, próximo do paralelepípedo, para alívio de José Luiz, a trinta metros de distância dele, e com gestos de mãos caóticos, alheio à realidade, acenou para os motoristas dos veículos que passavam pela rua, e na rua desceu, quase vindo a cair – para surpresa de todos, conservou-se em pé -, e, passo após passo, empreendia a travessia da rua. José Luiz anteviu o atropelamento. Algum veículo atropelaria o bêbado. Para a surpresa de José Luiz, os carros, as motos, os caminhões, as caminhonetes, os ônibus, ou paravam, e deixavam o bêbado passar, ou desviavam-se dele. E ele, com passos incertos, indo e vindo, dois passos para a frente, mas não em linha reta, e um passo para trás, seguia rumo à calçada oposta à da qual partira. E os carros, e as motos, e os caminhões, e os outros veículos, e um tanque-de-guerra, que seguia, do Batalhão de Engenharia e Combate para o Batalhão Borba Gato, e Tião Pé-de-Cabra, a cederem-lhe passagem. E o bêbado, enfim, chegou, são e salvo, ao outro lado da rua.

José Luiz, boquiaberto e queixocaído, olhos arregalados, dedos a coçarem-lhe a cabeça, perguntava-se… Na verdade, incrédulo, nenhuma pergunta se fazia; limitava-se a fitar o bêbado, que, no outro lado da rua, rumava… Para onde? E José Luiz, na calçada, a querer atravessar a rua. Pensou em simular embriaguez. Afugentou de si tal pensamento. Sóbrio, não poderia ignorar o perigo que os veículos representavam-lhe. E o bêbado, no outro lado da rua; e José Luiz, irritado, vendo passarem diante de seus olhos carros, motos, ônibus, caminhonetes, bicicletas e caminhões. E um tanque-de-guerra. E Tião Pé-de-Cabra.

Memórias de um desmemoriado

Anotações para uma autobiografia

Nasci no dia… Em que dia nasci? Que nasci em um dia sei que nasci, afinal, estou vivo. Quando nasci, todavia, não me recordo, mas sei que nasci, e há um bom tempo, pois a minha aparência é a de um homem de uns trinta anos, ou de um pouco menos de quarenta, ou de um pouco mais de vinte. Mais de quarenta não tenho. Menos de vinte também não. A minha aparência, se não me revela, com exatidão, a minha idade, dá-me elementos que me permitem avaliá-la aproximadamente. Então, digo, neste início do registro das minhas memórias, que nasci há trinta anos, aproximadamente.

Nasci, não sei em que dia, nem em que mês, e tampouco em que ano. Sei que nasci num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer. São meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Eu poderia telefonar para eles para lhes perguntar o nome deles, e aproveitar a ocasião e perguntar-lhes a data do meu nascimento, mas não me lembro onde deixei o telefone, e nem onde guardei a agenda telefônica com o número do telefone deles. Eu tenho telefone? Não sei. Devo ter algum telefone guardado em algum lugar desta casa. Se tenho um telefone, onde eu o guardei, caso eu o tenha guardado em algum lugar? Ou eu o esqueci em algum lugar? Não me recordo. Assim que eu me lembrar se tenho, ou não, um telefone, eu o pegarei, e telefonarei para meu pai, ou para minha mãe, e solicitar-lhe-ei as informações, que estou a procurar, para redigir estas minhas memórias, que serão memoráveis.

Prossigo, então, com o registro de episódios da minha vida, vida de um homem de trinta anos de idade, aproximadamente, como me indica a minha aparência.

Foi na cidade… na cidade de… Em qual cidade nasci? Minha mãe me deu à luz, é certo, em alguma cidade, pois não há lugar no mundo que não pertence à uma cidade. Nasci, sei, em alguma cidade. De cesariana, ou de parto normal?

Esquecia-me: Não sei se sou o primogênito de meus pais, ou o segundogênito. Tenho irmãos? Tenho irmãs? Quantos irmãos? Quantas irmãs? E onde eles estão? E onde estão meus pais? Há quanto tempo não falo com eles? Espere um pouco… Meus pais estão vivos? Ou eles morreram? Se morreram, qual foi a causa da morte deles?

Recapitulando o que escrevi até aqui… O que já escrevi? Esqueci. Vou ler o que escrevi até este ponto para poder dar sequência à redação destas minhas memórias, que serão o princípio da minha autobiografia.

*

Li o que já registrei para estas minhas memórias, e chamou-me a atenção, intrigando-me, a ausência de informações acerca da minha vida. Como eu pude registrar um relato tão vago? Não é apropriado, sou obrigado a reconhecer, registrar memórias desprovidas de informações sobre a vida do memorialista. Sou eu o memorialista a escrever a minha autobiografia… Humor involuntário. Apenas eu, é claro, posso escrever a minha autobiografia. E… Espere um pouco. Eu já escrevi, em algum outro dia, a minha autobiografia? Esta é a primeira vez que me ponho a redigir as minhas memórias, ou eu já as escrevi em outro dia? Se as escrevi, quando as escrevi? Falha-me a memória, neste ponto. Tenho de reconstituir a minha infância para que estes meus registros tenham razão de ser.

*

Evoco, a partir de agora, alguns episódios da minha vida de um homem que se encontra na idade de trinta anos, aproximadamente, como indica-me a minha aparência.

Nasci não sei em que dia, nem em que cidade, se de parto normal, se de cesariana. Não me recordo de meus pais, e não sei se eles estão vivo, e não me lembro se tenho irmãos. Mesmo não me recordando destas informações, posso reconstituir a minha história com fidelidade, pois algumas informações, se imprescindíveis, podem ser negligenciadas, afinal, são apenas informações, e nada além de informações, e mesmo que não estejam no corpo da redação das minhas memórias nelas podem ser inseridas por suposição – não há viva alma que, em sã consciência, ignore que uma pessoa, para existir, tem de nascer em algum dia, de genitores; portanto, todas as pessoas que tomarem conhecimento destas memórias sabem que tenho pais, mesmo que eles estejam mortos, e que nasci, no passado, em algum dia, em algum mês, em algum ano, em algum lugar.

*

Meu nascimento, não sei se de parto normal, se de cesariana, deu-se num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer, há, aproximadamente, quarenta anos, indica-me a minha aparência, que é a de um homem de um pouco mais de quarenta anos, ou um pouco menos de quarenta anos – de mais de cinquenta anos não é, e de menos de trinta também não.

Sei que meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Tenho certeza que meu pai e minha mãe têm nomes. Meus pais estão vivos? Meu pai morreu de acidente de carro, não morreu? Ou foi o pai de um amigo meu, de cujo nome minha memória não lembra, que morreu num acidente de carro? E a minha mãe está viva?

Estas são as primeiras palavras das minhas memórias, que eu as escreverei, fornecendo minúcias acerca da minha vida. Eu… Eu… Qual é o meu nome?

*

Inspirado, decidi, hoje, escrever as minhas memórias. Tal desejo excitou-me a imaginação. Eu, escrever as minhas memórias! Que interessante! Eu, escrever a minha autobiografia! Que interessante! Eu, que nunca escrevi as minhas idéias, decidi, hoje, escrevê-las, e escrever, também, a história da minha vida. Para escrevê-la, tenho de registrar o meu nome, o nome de meus pais, os de meus irmãos, os de minhas irmãs, a minha data de nascimento, e as dos meus familiares.

Aqui, no meu quarto, tenho, à mão, os documentos de todas as pessoas da minha família. Não sei porque eu peguei esta caixa com tais documentos e tais fotos – milhares delas, nas quais estou retratado, e nas quais estão retratadas muitas pessoas que nunca vi. Quem são elas? Não sei. Algumas delas estão abraçadas comigo. Por que elas estão abraçadas comigo, se não as conheço?

Consultando estes documentos e estas fotos, escrevo um rascunho das minhas memórias, para, num futuro próximo, redigir a minha autobiografia – e apenas eu posso escrever a minha autobiografia. Humor involuntário.

Meu nome é Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Sou filho de Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e de Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. Por que nomes tão extensos, meu Deus!?

Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às cinco e quarenta e cinco da manhã.

Sou o primogênito de meus pais.

São meus irmãos Paulo Ricardo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Vicente Antonio de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Márcia Luiza de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, e Fabiana Larissa de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

Nestes papéis, que tiro desta caixa de sapatos, há relatos, cujos autores não estão registrados. Leio-os, e venho a saber que, no dia dezesseis de setembro de 1999, faleceu meu avô paterno Josué de Almeida Prado, alvejado, na têmpora esquerda, por um projétil, disparado por um homem de nome João Romão e codnome Lagarto Albino. Não sei quem escreveu estas linhas. As caligrafias (identifiquei quatro), parece-me, são de mulheres, pois os homens jamais escreveriam com tanto esmero.

Nesta outra folha há o relato, de autoria de Vicente Antonio, meu irmão, de uma viagem que todos da família empreendemos aos Estados Unidos. Passeamos pelo Grand Canyon, visitamos Washington, e fomos à Disneylândia.

Assisti à vídeos de gravações de brincadeiras, na escola, com os amigos, e em festas da família.

*

Acordei, hoje, com o desejo de registrar, em vídeo, a história da minha vida. Mas não me lembro de nenhum dos seus episódios. E nem me lembro do meu nome. E não tenho à mão nenhum documento, nenhuma foto, nenhum registro em vídeo, nem escritos em papel, nem digitados em computador, para servir-me de fonte de dados acerca de mim mesmo.

*

Ao limpar o meu guarda-roupa, encontrei fitas-cassetes e dvds com gravações de festas de aniversários, do casamento de meu irmão Paulo Ricardo com a Susana, e do nascimento do primogênito deles, sobrinho meu, o Emílio, e do nascimento de Vanessa, filha dos meus amigos Carlos José e Neide.

*

Anima-me a vontade de escrever as minhas memórias. Não me lembro, no entanto, de nada da minha vida. Como poderei, então, escrever as minhas memórias, se da minha vida nada me recordo?

*

Peguei da caneta, debrucei-me sobre a folha de sulfite, e perguntei-me qual é o meu nome. Qual é o meu nome? Eu o esqueci.

*

Hoje, um dia daqueles em que fico, no ócio, a matutar, e a imaginar coisas, e a conceber idéias, tive uma idéia brilhante: Escrever as minhas memórias, a minha autobiografia. Mas o que há de interessante na minha vida que merece ser contado para as pessoas? A minha vida é interessante? E por que não seria? É interessante, sim.

O que me aconteceu durante a minha vida de não sei quantos anos? Para escrever as minhas memórias tenho de puxar pela memória acontecimentos da minha vida. Quais? De nenhum me recordo.

*

Aconteceu-me algo muito engraçado, hoje, mas esqueci do que se trata. Sei, todavia, que foi engraçado, afinal estou rindo, estou gargalhando.

*

Pergunto-me: Por que não escrevo as minhas memórias? Por que não escrevo a minha autobiografia? Humor involuntário.

*

Encontrei uma folha de sulfite, que traz, em uma das suas faces, um registro de um desejo meu: O de escrever as minhas memórias. Sentei-me à escrivaninha, e abri uma gaveta, na qual havia uma caixa com a minha Certidão de Nascimento. Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às 5:45. São meus pais Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. É o meu nome Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

E deixo esta folha sobre a escrivaninha, para procurar outros documentos, que me dêem notícias da minha vida e da vida de meus familiares, parentes e amigos.

Fiz bem em deixar sobre a escrivaninha esta folha com as minhas anotações e a minha Certidão de Nascimento, pois sei que esqueço, em poucos minutos, o que faço, e às vezes esqueço que esqueço. Fui previdente ao tomar a providência de manter esta folha de sulfite e a minha Certidão de Nascimento sobre a escrivaninha, pois, agora, destes álbuns de fotos e de dois dvds, tiro, do fundo do baú, dir-se-ia – mas não foi no fundo de um baú que os achei (e onde os encontrei, não me lembro) -, algumas notas acerca da minha vida e da minha família e da meus amigos.

São meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa. Eu sou o primogênito, e a Fabiana Larissa é a caçula. Paulo Ricardo nasceu no dia 16 de maio de 1986; Vicente Antonio, no dia 7 de agosto de 1987; Márcia Luiza, no dia 14 de dezembro de 1988; e Fabiana Larissa, no dia 5 de janeiro de 1991.

*

Encontrei um álbum de fotos, e dentro dele uma Certidão de Batismo, a minha, suspeitei; e confirmei as minhas suspeitas após do álbum remover uma foto, em cuja face anterior há uma criança, pequenina e fofinha, que, eu vim a saber, é eu, ao colo de uma linda mulher de uns vinte anos, que, eu soube, é minha mãe, e em cuja face posterior há anotações. Além de vir a saber que a criança é eu, e a mulher, minha mãe, eu soube que o homem à direita de minha mãe é meu pai, e o à direita de meu pai é o pai dele, meu avô e meu padrinho de batismo, Josué de Almeida Prado, todos a irradiar felicidade.

Em outras fotos há várias pessoas, muitas delas eu as desconheço. E não sei em que local tais fotos foram tiradas. Não reconheço os móveis, tampouco os prédios que aparecem ao fundo, e muito menos a paisagem. Em algumas fotos há a indicação, no verso, de que a família estava em viagem ao Rio Grande do Sul, em outras ao Pantanal, e em outras à Flórida; algumas indicam o aniversário natalício de Vicente Antonio, outras o de Fabiana Larissa; outras o de Carlos Ermenegildo, eu; outras, o casamento de Paulo Ricardo e Susana; e outras o de Marcos Roberto e Ana Carolina, meus genitores. São muitas as fotos, e muitas são as pessoas retratadas, e muitas delas eu as desconheço. E eu apareço em várias fotos, principalmente nas mais recentes.

*

Escrevo enquanto assisto ao vídeo que registra a festa de meu aniversário natalício. A minha memória evanescente não me permitiria registrar estas minhas lembranças sem o auxílio do vídeo, e das fotos, que me auxiliam na identificação das pessoas que aparecem no vídeo. É um vídeo da minha festa de aniversário de 18 anos, indicam as velas. O homem que me cumprimenta, no início, é meu pai. E vários familiares eu os identifico com a ajuda de fotos, em cuja face posterior há o nome dos fotografados – comparando-os com as pessoas que aparecem no vídeo, pude identificá-los: Meu pai, minha mãe, meu avô materno, Marco Antonio, minha avó materna, Maria Elizabeth, minha avó paterna, Maria da Conceição, meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa, meus tios Pedro, Sergio, Carla, Madalena, Vinicius, Bruna, Daniel, Tadeu, meus primos Valéria, Roberto, Hélio, Gilberto, Gabriela, Edson, Renato, Rodrigo, André, Jorge, Janaína, Jaqueline, Jéssica, Getúlio, Fábio, Ísis, Leandro, e os meus amigos Adriano, Adriana, Bianca, Márcio, Murilo, Natália, Osvaldo, Paula, Úrsula, Ulisses, Vera, Laura, Ligiane. Estas foram as pessoas que pude identificar. E há inúmeras outras, cujos nomes desconheço, e não sei se há relação de parentesco entre elas e eu, ou se são apenas meus amigos, ou se conhecidos.

*

Tomei, hoje, uma decisão: Escreverei as minhas memórias.

Escrevi estas palavras, para não me esquecer do meu propósito, e saí à procura de vídeos, documentos e álbuns de fotos que me auxiliem em minha empreitada, e encontrei, na segunda gaveta desta escrivaninha, um Atestado de Óbito com a data do falecimento, 16 de outubro de 2015, de Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Quem é ele? Eu o conheço? Por que o Atestado de Óbito dele estava guardado dentro da minha escrivaninha?