Triste notícia

Manhã de sábado. Às nove horas, um pouco depois do café-da-manhã, Natália despediu-se de Alfredo, e foi, de carro, ao supermercado; depois, iria à farmácia e à feira. Alfredo esperaria, na sua casa, Roberto, seu irmão, e com ele iria para Taubaté à lojas de materiais de construção pesquisar preços de tijolos, cimento, areia, ripas de madeira, outros materiais e utensílios de pedreiro. Enquanto o esperava, trocou a água da vasilha dos cachorros (dois pastores, um alemão, Thor, e um belga, Aquiles. Alfredo diz que o belga é ortodoxo, mas é o alemão que mete medo) e a da vasilha do gato. Certa vez, perguntaram-lhe porque ele escolhia para os seus cachorros (Alfredo tivera dois vira-latas, Odin e Odisseu – Odisseu era o mais astuto; Odin, o manda-chuva – e três cadelas – uma rotweiller, Medusa, e não havia cristão que não se petrificava ao se deparar com ela; uma dálmata, Deméter; e uma colie, Afrodite) nomes de heróis, deuses e semideuses da mitologia grega, romana e nórdica (Ah! Esquecia-me, o gato chamava-se Esfinge), e não nomes de personagens folclóricos e mitos indígenas brasileiros; ele não deixou tal pergunta sem resposta, que estava na ponta de sua língua:

– Cães com nomes de origem brasileira não metem medo em ninguém. Imagine um pastor alemão chamado Saci. Conceba tal monstruosidade. O pastor é manco?, perguntar-me-iam. Ou ele é trípede?, zombariam. Quem o respeitaria? Agora, imagine uma rotweiller chamada Iara. Quem a respeitaria? Ninguém. Todos a achariam bonita, elegante e charmosa, e torceriam o nariz para ela, mas não a temeriam. Não quero cães que sejam alvos de chacotas. Quero cães que metam medo em todo mundo. E o nome tem de inspirar respeito, medo. A mitologia grega e a nórdica os possuem aos punhados. A hebraica também. Imagine um cão chamado Salomão. Você imagina um cãozinho frágil de latido estridente, ou um portentoso espécime de uma raça nobre, altivo, a transpirar sapiência? Agora, imagine um cão chamado Curupira. É para rir, não é?

Quando alguém lhe expunha os aspectos ridículos da sua argumentação, ele não desconversava; para surpresa de todos, defendia, com argumentos inconsistentes, as suas preferências pelos nomes de deuses, semideuses, heróis e monstros da mitologia grega, da nórdica e da romana; na maioria das vezes, não convencia ninguém de suas razões, as quais eram sem pé nem cabeça, mas todos calavam-se, para não perderem amigo tão querido. Certa vez, um amigo, descendente de indianos, apresentou-lhe nomes de deuses, semideuses e heróis hindus, muitos deles extraídos dos poemas épicos Mahabarata e Ramayana. Alfredo rejeitou, terminantemente, as sugestões, alegando que tais nomes são impronunciáveis.

Thor e Aquiles beberam da água, sedentos. Alfredo chamou por Esfinge, que não deu as caras.

– Caiu na farra, o maldito gato, na casa do vizinho – exclamou Alfredo, a sorrir, jocoso. – Também pudera! A gatinha que há lá! Um petisco.

Alfredo distribuiu a ração dos cachorros, em partes iguais, em duas vasilhas, uma vermelha, a de Thor, e uma verde, a de Aquiles, e as manteve afastadas uma da outra uns cinco metros, como também manteve afastadas as duas vasilhas de água – e eu ia sonegando esta informação, imprescindível, acredito, não para a compreensão deste relato, mas para o conhecimento da inimizade latente entre o deus nórdico e o herói grego. Ambos, conquanto trabalhassem, unidos, na proteção dos seus mantenedores, Alfredo, Natália, e os filhos deles, Gustavo, Denise e Fabiana, desentendem-se, às vezes – mantê-los distantes um do outro durante as refeições é uma providência sensata. Alfredo não desejava oferecer-lhes pretexto para eles se engalfinharem, cravarem os dentes um no outro, e ferirem-se. Não queria gastar o seu dinheiro com consultas ao veterinário e compra de medicamentos.

Assim que Thor e Aquiles beberam da água e comeram da ração, Alfredo conduziu-os ao canil. Não é correto dizer que Alfredo os conduziu ao canil. Habituados a, todos os dias, após beberem da água e comerem da ração, encaminharem-se ao canil, nesta manhã de sábado, eles foram ao canil, antecipando-se a Alfredo, que encheu de água as duas vasilhas que estavam no canil, trancou a porta com um cadeado, pendurou a chave num prego à viga de madeira, despediu-se de Thor e Aquiles, e rumou à varanda, onde consultou o relógio. Eram quase nove e meia. Roberto estava atrasado quase trinta minutos. Alfredo se chateou. Detestava atrasos. Era pontual e exigia pontualidade das pessoas com as quais marcava horário para um compromisso. Andou pelo jardim. Avaliou as flores. Procurou por ervas daninhas. Bem-te-vis, colibris e pombas-rolas desviaram-lhe a atenção. Um colibri azul, amarelo e verde osculava bicos-de-papagaio e tamancos-judeus. Alfredo observou-o até ele voar, por sobre o muro, à casa do vizinho.

A campainha soou.

– Até que enfim! – exclamou Alfredo, que foi até à porta, certo de que Roberto premira a campainha. Ao abrir a porta, para a sua surpresa, deparou-se com Vanessa, prima de Natália. Alfredo esboçou um sorriso, que logo suprimiu do rosto ao deparar-se com o rosto doído de Vanessa e ao vê-la remover lágrimas que escorriam do olho esquerdo. Fitou-a. Aguardou a notícia; triste, previu. Vanessa, sem dizer uma palavra, abraçou Alfredo e, enquanto removia de si as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, perguntou se Natália encontrava-se na casa. Alfredo disse-lhe que ela fora à feira, ao supermercado, e perguntou-lhe por que chorava. Vanessa não lhe respondeu, de imediato; engoliu o choro; inspirou, soluçou, pigarreou, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e as que se lhe acumulou nos olhos. Alfredo observou-a, em silêncio. Enfim, Vanessa disse:

– Uma notícia triste, Alfredo.

– Entre, Vanessa. Vamos à sala.

– Não…

– Você quer beber um pouco de água?

– Não, Alfredo, obrigada. Vim falar com você e com a Natália. Notícia triste, e vou… Tenho de ir à casa do Pedro…

– Vanessa…

– Não sei como falar… Ainda bem que encontrei você… Se eu tivesse encontrado a Natália… Não sei como eu lhe contaria… Como eu lhe daria a notícia… Com você, Alfredo, posso ser direto: O tio morreu.

– Tio?

– Sim, o tio… O tio Cirilo.

– O quê? – exclamou Alfredo, estupefato, e arregalou os olhos, e boquiabriu-se, incrédulo. – Mas… Como é possível? Ontem à noite, ele e eu conversamos, tão animados… Ele estava tão bem, tão alegre…

Diante da triste notícia, Alfredo proferiu tais comentários, e não atentou para o absurdo neles contido. Ele pediu que Vanessa entrasse. Ela lhe disse que iria à casa de Pedro e à de outros familiares e amigos transmitir a triste notícia, e não entrou. Em poucas palavras, resumiu o que sucedera durante a madrugada: o telefonema desesperado de Maria José às três horas da madrugada; a correria, dela, Vanessa, e de seu marido, Paulo Roberto, à casa do tio Cirilo e tia Maria José; a chegada da ambulância; a ida ao hospital; e a notícia do falecimento do tio Cirilo; o regresso à casa de Maria José; o medo que sentiu ao ver Maria José, inconsolável, aos prantos; as providências que tomou para consolá-la e para avisar os familiares. Alfredo ouviu-a, compungido, atentamente; lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos. Assim que Vanessa encerrou o relato comovente, estreitou-a num abraço carinhoso, beijou-lhe a testa, ajeitou-lhe os cabelos que lhe caíam à testa, e removeu, com o dorso do dedo indicador direito, as lágrimas que lhe escorriam pela face esquerda. Despediram-se. Alfredo, com o olhar, acompanhou-a afastando-se de si com passos lentos. Assim que ela dobrou a esquina, ele, cabisbaixo, regressou à casa, e trancou a porta; não havia da porta se distanciado dois metros quando a campainha soou. Deu meia-volta, e foi até a porta. Abriu-a. Era Roberto.

– Você já recebeu a notícia? – perguntou Roberto, ao fitá-lo.

Alfredo confirmou com o franzir do cenho, sem piscar, e com movimentos ligeiros dos músculos da face.

– A Natália… – reticenciou Roberto.

– Ela ainda não sabe. Ela está, ou no supermercado, ou na feira…

– Quem a contou para você?

– A Vanessa.

– Como você dará a notícia para a Natália?

– Estou pensando… Entre, Roberto – assim que ambos entraram, Alfredo trancou a porta, mas deixou a chave na fechadura. – Como darei a notícia para a Natália? Não posso lhe dizer, assim, de supetão… Você sabe… A Natália é tão melindrosa… Terei de dar-lhe a notícia. Não posso me furtar a fazê-lo.

Conversaram durante uma hora. Não falaram de materiais de construção, de pesquisa de preços. Falaram de Cirilo. Ao despedirem-se, Roberto renovou os seus votos de condolências.

Sozinho na sua casa, andando de um lado para o outro, perguntava-se Alfredo como daria à Natália a notícia do falecimento do pai dela. Foi ao banheiro; à pia, abriu a torneira, e jogou um pouco de água no rosto. Enxugou-se com uma pequena toalha azul. Fechou a torneira. Abriu a torneira, e molhou, pela segunda vez, o rosto, e não o enxugou. Fechou a torneira. Passou as mãos pelo rosto, removendo a água. E retirou-se do banheiro. Ao andar pela sala, Esfinge dele se aproximou. Alfredo nada lhe disse. Esfinge esfregou-se-lhe às pernas, na calça. Alfredo ignorou-o, alheado. Sentou-se no sofá, ao canto, pousou o braço esquerdo no braço do sofá, cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda, largou-se ao encosto do sofá, cerrou as pálpebras, e esfregou-as com os nós dos dedos da mão direita. Passeou as mãos pelos olhos, e removeu as lágrimas que neles se acumulavam. Estava triste e preocupado. Como daria a notícia à Natália? Teria de ministrar-lha em doses homeopáticas. Teria de preparar Natália para receber a triste notícia, de modo a não sobressaltá-la. Mas, como fazê-lo? Desejou que ela não se encontrasse com ninguém que lhe desse a notícia. Natália, tão melindrosa, se recebesse a notícia, sofreria um ataque cardíaco fulminante. Desejou que ela chegasse em casa, e logo, antes que alguém lhe perguntasse: “Que horas será o enterro de seu falecido pai?”, ou, então: “O traslado do corpo de seu pai começará no velório, ou na casa dele?”, ou: “Quero dar ao seu falecido pai os meus votos de despedidas. Ele será velado onde? Na casa dele, ou no velório?”, ou, então, lhe fizesse comentários sobre a honra e a nobreza de caráter de Cirilo, lhe dissesse que ele era um homem generoso, trabalhador, um dos raros homens confiáveis que havia no mundo, e que não se forjam homens de tal têmpera nos fornos modernos, dos quais só saem molengas, que não enfrentam sol a pino e adoecem ao primeiro golpe de vento, jamais empunham a enxada para carpir a terra, não sabem preparar a refeição que comem e não têm pulso firme para educar os filhos.

Com os pés, Alfredo empurrou Esfinge, que se deteve e fitou-o com seus olhos enigmáticos.

– Bandido… – sussurrou Alfredo; a voz travou-se-lhe no esôfago. – Por onde você andou? Você foi à farra, malandro? – ato contínuo, levantou-se do sofá. Esfinge o seguiu. Foram até onde encontrava-se a vasilha de Esfinge. Alfredo pegou do saco de ração, abriu-o, despejou uma boa quantidade de ração na vasilha. Esfinge curvou-se sobre a vasilha, e pôs-se a comer da ração, enquanto Alfredo pegou da vasilha com água, despejou a água num canteiro de samambaias, foi à torneira, abriu-a, encheu a vasilha com água, fechou a torneira, e carregou a vasilha até Esfinge, deixando-a ao lado da vasilha com ração. Executou mecanicamente essas tarefas. Pensava em Natália. Como dar-lhe-ia a notícia do falecimento do pai dela? Em sua mente, vórtices devastadores de pensamentos entrechocavam-se a ponto de petrificá-lo. Pensou o que sucederia à Natália se lhe dissesse: “Natália, seu pai morreu”, assim, de supetão. Seria o mesmo que matá-la, concluiu. Se desejasse matá-la, dar-lhe-ia desse modo a notícia. Mas não desejava matá-la. Perguntou-se se não estava sendo insensível ao pensar, exclusivamente, em Natália, e em ignorar Cirilo, que faleceu. Concluiu, para o seu conforto, mas tal pensamento não o agradava, que tinha de se preocupar, não com os mortos, mas com os vivos: Natália, sua esposa; Denise e Fabiana, suas filhas; e Gustavo, seu filho. Denise, Fabiana e Gustavo chorariam ao ouvirem a notícia. Fabiana seria quem mais sofreria (dos três era a mais apegada ao avô, com quem apreciava manter intermináveis colóquios sobre literatura e filosofia e a quem acompanhava às tertúlias promovidas por academias). Denise talvez não sofresse, pois nunca foi muito próxima do avô, mas por ele nutria respeito e carinho. Alfredo pensou nas duas filhas e no filho, mas concentrou os seus pensamentos em Natália. Denise, Fabiana e Gustavo suportariam o impacto da triste notícia. Eram jovens, saudáveis, fortes, mas Natália, não. Ela sofria de diabetes, tinha enxaquecas, passara por um período de dois anos de depressão profunda, e implantara um marcapasso dois anos antes. Não era uma mulher na plenitude da sua saúde. Era uma mulher que requeria cuidados, melindrosa. Alfredo não sabia como lhe daria a triste notícia. Pensou em pedir para outra pessoa transmitir-lha. Abandonou esta idéia ao concluir que ele, Alfredo, marido de Natália, é quem teria de dar-lha. Mas como o faria? Como lhe daria a notícia do falecimento do querido pai? Não poderia lhe dizer: “Querida, seu pai morreu”. Era o mesmo que assinar o atestado de óbito dela, o que ele não desejava. “Que outro o assine”, pensou, e sorriu, e meneou a cabeça, para expulsar de sua mente pensamento tão reprovável. Como daria para Natália a notícia do falecimento do pai dela? Desdobrou-se, para encontrar uma resposta. Teria de encontrá-la antes que Natália regressasse. “Eu, assim que Natália chegar – pensava Alfredo consigo, andando pela varanda e entrando e saindo da sala -, a saudarei como o faço todos os dias. Ela, é certo, me pedirá que eu tire do carro as compras. Atenderei ao pedido. Assim que ela entrar no quarto para vestir roupas mais leves, como, é certo, ela irá fazer, pois está um calor de rachar os miolos hoje, entrarei no quarto, e lhe direi para sentar-se na cama, e lhe darei a notícia. Primeiro, lhe direi que não fui, com o Roberto, para Taubaté porque, minutos antes, Vanessa esteve aqui em casa, para lhe dar a ela, Natália, uma notícia importante. Assim, sem ir direto ao assunto, reticente, manterei Natália em suspenso, e despertarei a sua curiosidade. Farei uma pausa, expressarei um ar compungido, fitá-la-ei bem fundo nos olhos… Não dará certo. Ao olhar para mim, ela saberá que lhe darei uma péssima notícia. Ela desconfiará… Terei de dar-lhe a notícia. Então, no quarto, sentados, na cama, de frente um para o outro… Tem de ser no quarto? Sim. É o local mais apropriado. Darei a notícia para a Natália. Começarei assim: ‘Natália, não fui, com o Roberto, para Taubaté. Um pequeno imprevisto…’ Pequeno imprevisto!? Que tolice é esta que me vem à cabeça!? Falta-me um parafuso na cabeça. O pai da minha esposa morre, e eu digo que isso é um pequeno imprevisto! A Natália, se eu lhe disser isso, terá um ótimo motivo para pedir o divórcio. Que sensibilidade! Além disso, por que eu usaria de um tom formal? Não transmitirei uma mensagem para um estranho. Eu irei falar para a minha esposa, mãe de meu filho e minhas filhas, da morte do pai dela. E farei, assim, sem lhe expressar, ao transmitir-lhe a notícia, os meus sentimentos… O que sou? Uma máquina? Um robô? Um andróide? Um replicante? Um sintético? Até os sintéticos têm sentimentos. Sou um homem, triste, agora, com o falecimento do Cirilo, meu sogro, que, desde o instante em que o conheci, foi generoso e respeitoso comigo. Ele foi para mim meu pai… Após o falecimento de meu… Não tenho de ocultar a minha tristeza… Não tenho de esconder da Natália os meus sentimentos… Não tenho de ocultar-lhos. Estou certo que Natália, ao chegar, assim que olhar para mim, perguntar-me-á: ‘O que houve, Alfredo? Por que você está triste?’. Ela possui o sexto sentido. E o sétimo e o oitavo. Não poderei lhe ocultar a minha tristeza. Não me desgastarei tentando exibir-lhe um rosto inexpressivo. É certo que eu, ao olhá-la nos olhos, traga lágrimas aos meus olhos. Melhor, é certo que as lágrimas me venham aos olhos sem que eu as chame, e que meus lábios tremam. Não conseguirei controlar-me. Irei segurar as mãos da Natália, abaixarei a cabeça, me curvarei, e chorarei, o rosto sobre seu colo, convulsivamente. Talvez Natália, ao me ver tão triste, sofrendo tanto, condoa-se de mim, e abrace-me, e, assim que eu lhe der a notícia do falecimento de seu pai, envolva-me com um abraço caloroso, estreite-me a si, e chore. Talvez isso se dê. Estou, aqui, a pensar, preocupado, em tudo isso, certo de que saberei como agir; o mais certo, no entanto, é que os eventos se sucedam, e surpreendam-me. Talvez venha a se suceder o que agora não me passa pela cabeça. A Natália, ao ouvir a notícia, talvez não se perturbe; talvez a receba com serenidade e resignação, afinal Cirilo sofreu muito nos últimos anos, e os remédios, conquanto o conservassem lúcido e animado, como ele se mostrou ontem à noite, fizeram-no sofrer imensamente, embora ele não deixasse que o sofrimento que o afligia lhe transparecesse na fisionomia, que ele conservava animada, como se vivesse no melhor dos mundos possíveis. O testemunho de Maria José me foi revelador: Cirilo sofria muito. Os seus momentos de alegria foram interlúdios entre dois momentos de sofrimento indescritível. E ele os passava com Fabiana e Henrique. Os três adoram livros de literatura e de política; as animadas conversas faziam bem a Cirilo. E ele sofria muito. Talvez Natália se resigne. Talvez ela acolha a notícia e não sofra tanto quanto imagino que ela sofrerá. Talvez o impacto da notícia não seja tão devastador quanto eu o esteja concebendo. Mas, e depois? E depois? A Natália poderá, calada, ouvir-me dar-lhe a notícia, mas, e depois? A Natália me dará a entender que estará bem, não necessitará de maiores cuidados… Mas, e depois?”.

O soar da campainha interrompeu-lhe o fluxo dos pensamentos. Foi à porta. Abriu-a. Era um funcionário dos correios, que lhe entregou uma encomenda feita por Natália uma semana antes, uma caneta e um papel, no qual, num espaço reservado com indicação do nome de Natália e do seu endereço, Alfredo assinou, e escreveu o número do seu RG e o do seu CPF. Assim que os escreveu, entregou o papel e a caneta ao funcionário dos correios, despediu-se dele, desejando-lhe um bom dia de trabalho e um ótimo final de semana, e recolheu-se à casa, com a caixa, a qual deixou sobre a mesa da sala-de-estar. Ato contínuo, foi à cozinha, pegou de um copo de vidro transparente, levou-o ao filtro, encheu-o de água, bebeu da água, e deixou o copo na pia. Retirou-se da cozinha, e foi ao quarto. Sentou-se na cama. O telefone soou. Atendeu-o. Era Maria José, sua sogra. Ela lhe falou do falecimento do marido. Alfredo ouviu-a, atentamente; não lhe disse que Vanessa já lhe dera a triste notícia. Quis consolá-la, mas se convenceu, ao ouvi-la, que ela, mais do que ele, suportava a triste notícia com coragem, e era ele, e não ela, que precisava ser consolado. No tom de voz dela misturavam-se resignação e sofrimento; ela disse que havia sido feita a vontade de Deus, e que Cirilo descansaria, após muitos anos de sofrimento decorrente da doença que o acometera, e que o prostrara, na cama, durante cinco longos anos, e que o privara dos prazeres da vida. Lágrimas abundantes encheram as órbitas dos olhos de Alfredo. Maria José perguntou-lhe de Natália. Alfredo disse que ela fora ao supermercado, à feira e à farmácia. Maria José aconselhou-o a dar-lhe a notícia com cautela, para não feri-la, pois Natália era muito melindrosa; em seguida, disse-lhe que teria de desligar o telefone porque Carlos Roberto, seu irmão, a chamava. Despediram-se, e desligaram o telefone.

Sentado na cama, Alfredo pensava no que diria para Natália. Não poderia abordá-la com circunlóquios, pois, sabia, se o fizesse, despertar-lhe-ia os sentidos, indefiníveis, que ela possuía, tão agudos, tão potentes, que, de imediato, antes de ele dar-lhe a notícia, ela chegaria, ou pelo instinto, ou pela intuição, ou pela razão, ao fitá-lo, à explicação correta para a atitude dele.

Alfredo não poderia lhe dar a notícia de supetão; também não poderia abordá-la com floreios oratórios para transportar-lhe o espírito para uma região serena e tranquila, para, depois, vir com a triste notícia.

Não sabia como teria de proceder. Consultou o relógio. Eram onze e meia. Natália regressaria dali poucos minutos, pois ela ainda teria de preparar o almoço. Alfredo ficou apreensivo. Levantou-se da cama. Retirou-se do quarto. Pensou ter ouvido o barulho do portão sendo fechado. Acelerou os passos. Foi à varanda. Não viu Natália. Concluiu que o portão da casa dos vizinhos da direita, Vinicius e Úrsula, fôra fechado. Passeou as mãos pelo rosto. Um bem-te-vi distraiu-o. Pássaros, ao longe, digladiando-se em pleno vôo, prendeu-lhe a atenção durante um bom tempo. Um pássaro pequeno e um pássaro grande com o triplo do tamanho do pássaro pequeno. Pareceram a Alfredo um pardal e um sabiá-laranjeira, mas ele não estava certo disso. Talvez não fosse um pardal, mas uma noivinha, ou um colibri de penas de cores foscas, e o outro pássaro talvez fosse um bem-te-vi. Não soube dizer quais eram as espécies dos dois pássaros. Não se prendeu à essa questão. Logo mergulhou nos seus pensamentos. O que diria para Natália, que chegaria à casa antes do meio-dia? Enfiou as mãos no bolso da calça. Pensativo, andou de um lado para o outro do jardim e da varanda. Latidos de Thor e Aquiles chegaram-lhe aos ouvidos, numa série que lhe indicava que eles avançavam contra alguma pessoa ou contra algum animal. Alfredo sabia quando os cães latiam para estranhos, fossem pessoas, fossem animais. A entonação dos latidos assumia características singulares. Foi ao quintal. Não havia se aproximado do canil quando obteve a explicação para as detonações dos latidos de Aquiles e Thor. Sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia havia um homem, que mexia na antena. Alfredo não se deteve. Aproximou-se dos cães, que diminuíram a ênfase dos latidos à sua presença.

– Cachorros bravos, hein? – comentou o homem sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia; era ele magro, esquelético, de barba rapada, baixo (um metro e sessenta, se muito), e na altura dos cinquenta anos. – Eles não gostaram de mim.

Aquiles e Thor conservaram-se vigilantes.

– São dois machos? – perguntou o homem sobre o telhado, referindo-se a Aquiles e Thor. – Um pastor alemão e um pastor belga?

– São – respondeu Alfredo. – São dois machos. Um belga e um alemão. Como você pode ver, eles estão com fome.

– Não quero me servir de almoço para eles – e sorriu o homem sobre o telhado, enquanto mexia, com um alicate, no cano de sustentação da antena. – Ferozes, os dois. Treinou-os?

– Sim. Em uma escola para cães.

– Essas duas feras impõem respeito.

– Não há dúvidas.

– Esses dois cães de guarda mantêm os ladrões afastados. Há muitos ladrões na cidade. Ontem, perto da minha casa, dois ladrões… Dois ou três, ninguém sabe… Entraram na casa do Juliano, à noite… Não eram nem dez horas da noite… Entraram na casa e a depenaram. Carregaram o computador, o dvd, o rádio e a televisão. Um computador, sabe?, que parece uma pasta. Não sei como se diz. Ora, um ladrão, sozinho, não poderia fazer o serviço. Foram dois, ou três. E o engraçado: Ninguém, na vizinhança, os viu. Foram sorrateiros, os filhos-da-polícia. Entraram e saíram da casa do Juliano, e ninguém os viu.

– Eles sabiam que não haveria ninguém na casa, na hora do roubo.

– Foi o que eu disse para o Juliano. Não foram ladrões-de-galinha que assaltaram a casa dele. As portas e as janelas não foram arrombadas. Como os ladrões entraram na casa? Teletransportaram-se para dentro dela? E como eles saíram da casa? Teletransportaram-se para fora dela? A Carlinha, minha irmã, disse que os ladrões entraram na casa do Juliano pela casa da Guiomar, que dá fundos para a casa do Juliano. Mas a Guiomar disse que, à noite, naquele dia, ela, o Lindomar, marido dela, e o Neymar, filho dela com Reinaldo, o seu primeiro marido, que faleceu em um acidente de carro há dez anos, estavam, no quintal, arrumando as quinquilharia. Ferros-velhos, papéis, papelões, os quais iriam vender, no ferro-velho, hoje. Ninguém além deles estava naquela casa. E a Guiomar, mulher honesta, decente, trabalhadora, jamais mentiria. Todos os do bairro gostamos dela. A Guiomar é uma cozinheira de mão cheia, mulher forte, vigorosa, sabe? Ela não é gorda; é forte; um mulherão. Ela é baixa, tem um metro e cinquenta; e de um vozeirão que impõe respeito e mete medo até no Papa, que Deus o guarde. Quem manda, na casa dela, é ela, não o Lindomar, homem trabalhador e decente, pau para toda obra. A Guiomar, o Neymar e o Lindomar não ouviram sequer um ruído na casa do Juliano. A Luciana, minha vizinha, disse que os ladrões conhecem o Juliano. São, ela acha, amigos dele.

– Uma hipótese que não se pode descartar.

– O Juliano não a descartou.

– Ele chamou a polícia?

– Não. Não telefonou para a delegacia. Ele jamais iria telefonar para a polícia. Um passarinho contou-me que o Juliano trafica maconha. Não sei se é verdade. Eu nunca o vi fumando um cigarro. Nunca me haviam dito que ele traficava maconha. Depois que assaltaram a casa dele, começaram a espalhar esta história. Por que ele não telefonou para a polícia? Muitas pessoas procuraram uma resposta para esta pergunta. Por que o Juliano não chamou a polícia? A melhor resposta que encontraram: ele não quer os policiais dentro da casa dele porque eles, ao procurarem por evidências que os levem aos ladrões, poderiam encontrar a maconha que ele tem escondida em algum lugar da casa, muito bem escondida, mas não tão bem escondida que os policiais, à procura de evidências que os levem aos ladrões, não possam encontrar. Muita gente está contando esta história pelo bairro. Como não sei se isso é verdade, ou não, calo-me a respeito. Não quero levantar falso testemunho. Aprendi a manter a língua dentro da boca. O padre Carlos, dia destes, disse-me que um dos dez sacramentos, não sei se o quinto, se o oitavo, nos ensina a não levantarmos falso testemunho. É um dos sacramentos que Deus riscou, no monte das Oliveiras, em uma das duas tábuas que Ele entregou para Moisés. Essa história está na Bíblia, numa das primeiras páginas do Novo Testamento, que é a segunda parte da Bíblia, e foi escrito depois do Velho Testamento. E um advogado, Luciano, amigo meu, disse-me, certa vez, que ao acusador cabe o ônus da prova, e que todas as pessoas são inocentes até prova em contrário, excluindo-se, obviamente, os nossos inimigos, pois todos eles nasceram culpados.

A tagarelice do homem que estava sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia distraiu Alfredo, que, enquanto o ouvia, sorria consigo diante dos equívocos nos quais ele incorria, os quais não foram poucos. Menos de vinte minutos depois, o homem, enquanto descia do telhado, despediu-se de Alfredo, que iria à cozinha, mas deteve-se à porta ao ouvir barulho na varanda. “Natália”, pensou. Seu coração vibrou, acelerado. Imóvel, procurou controlar os seus pensamentos e conservar consigo o governo do corpo. Respirou fundo. Expeliu todo o ar dos pulmões. Andou, lentamente, controlando os passos e a respiração, até a varanda. Deteve-se ao batente da porta que dava acesso do corredor à varanda. Entreviu Natália, atrás do carro, cujo bagaceiro estava com a porta levantada.

– Querida – disse, e andou na direção dela, e dela ouviu:

– Fredo, ajude-me com as compras.

– Nossa! Quanta coisa você comprou – exclamou Alfredo, ao se deparar com o bagageiro cheio.

– No banco há mais – disse Natália, sorrindo; ao voltar-se para Alfredo, fitou-o nos olhos. – Você esqueceu que dia será amanhã? Você está ficando velho. Comprei tudo isto para a festa de aniversário de papai. Amanhã ele fará oitenta anos.

Alfredo havia se esquecido.

– Comprarei para você um quilo de cérebro de elefante, Fredo. Agora, ajude-me com esses pacotes – e, carregando duas sacolas, uma em cada mão, afastou-se do carro. – Vou tirar estes sapatos, que estão moendo meus pés, triturando meus ossos, e, depois, vou para a cozinha preparar o almoço. Já é meio-dia. Como as horas passaram rápido, hoje – e retirou-se da varanda.

Alfredo ficou imóvel atrás do carro. Coçou o queixo. Passeou as mãos pelo rosto. Encheu os pulmões de ar – com as mãos aos quadris -, e os esvaziou. Lágrimas vieram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras e abaixou a cabeça. Removeu das órbitas dos olhos as lágrimas. Atormentava-o a ausência de uma resposta para a pergunta que se fazia: “Como vou contar para ela?” – referia-se à Natália e à morte de Cirilo. Conservou-se imóvel, atrás do carro, durante um bom tempo, até que resolveu retirar as sacolas e os pacotes do bagageiro do carro. Deteve-se, na primeira vez que entrou na sala-de-estar, e deixou pacotes e sacolas sobre a mesa. Mais uma vez, lágrimas vieram-lhe aos olhos. Alfredo removeu-as. Curvou-se sobre o encosto de uma das seis cadeiras que ladeavam a mesa, e nele pousou os cotovelos. Cerrou as pálpebras. Cobriu os olhos com as mãos, e pensou: “Como contarei para a Natália?”, referindo-se à morte de Cirilo. “Direi ‘Natália, seu pai morreu’? Não! O que desejo? Desejo a morte da minha esposa? Direi ‘A Vanessa disse-me que seu pai, Natália, morreu’? Diabos! Como eu lhe falarei da morte do Cirilo? Direi ‘Querida, hoje, não fui para Taubaté com o Roberto porque, minutos antes, atendi à campainha. Era a Vanessa, sua prima, que a tocara. Ela me disse, Natália, que seu pai morreu’? No que estou pensando? Não importa o que eu diga, a notícia cairá como uma bomba. Não saberei com quais palavras dar a notícia para a Natália. Cairei aos prantos. Talvez eu não caia aos prantos. Talvez as lágrimas se me sequem, não me venham aos olhos, e eu perca a voz, e eu fique paralisado. Talvez eu perca a consciência, e, parado, comporte-me como um tolo diante da Natália, que me perguntará: ‘O que houve, Alfredo? Você quer me dizer alguma coisa?’, e eu perderei a voz, e faltar-me-ão as palavras. ‘Querida – eu direi – sente-se, por favor. Hoje, a Vanessa, sua prima, esteve aqui, e, depois, o Roberto, e há uma hora, mais ou menos, sua mãe telefonou-me. Os três disseram-me que seu pai, de madrugada, enquanto dormia, faleceu’. Como a Natália reagirá à notícia? Seria como lhe cravar uma faca no peito, e empurrá-la até transpassar-lhe o coração. Terei de lançar mão de outro expediente. Como eu lhe darei à notícia? Eu lhe direi: ‘Querida, sente-se, por favor – se ela não estiver sentada. – Quero conversar com você. Sua mãe telefonou-me há uma hora e meia, e disse-me que seu pai morreu, na noite de hoje, e…’. Não. A Natália… Oh! Inferno! Como direi à Natália?”. Neste momento recompôs-se, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, tirou um lenço do bolso esquerdo traseiro da calça, e com ele enxugou os olhos, suspirou, e andou, pelo corredor, em direção ao quarto. Deteve-se ao enquadramento da porta. Dentro do quarto, Natália, sentada na cama, retirava da orelha esquerda o brinco. Alfredo restituiu o lenço ao bolso da calça, encheu os pulmões de ar, e os esvaziou, lentamente. Com os ânimos serenos – assim ele acreditava -, entrou no quarto. Natália voltou-lhe a atenção, enquanto curvava, ligeiramente, a cabeça para a direita e removia da orelha direita o brinco, o qual guardou num porta-jóias, enquanto Alfredo sentava-se à cama.

– O que aconteceu, Alfredo? – perguntou-lhe Natália. – Você está com um olhar estranho.

Assim que Natália abaixou a tampa do porta-jóias, Alfredo, em silêncio, estendeu-lhe as mãos, com as palmas para cima, pedindo-lhe as mãos. Natália pousou sobre as mãos dele suas mãos, intrigada e expectante. Seu olhar penetrava, profundamente, os olhos de Alfredo, como se lhe sondasse a alma, como se lhe esquadrinhasse o espírito à procura de uma resposta para o estranho comportamento dele. Natália intuiu que algo de triste se sucedera, mas não atinava com as razões do olhar alheado de Alfredo. Aguçou o olhar. Ativou todos os seus neurônios à procura de uma resposta.

Alfredo quebrou o silêncio:

– Natália, não fui, hoje, para Taubaté…

Natália franziu o cenho, fez ar de quem nada compreendia. Não viu correspondência entre a atitude e as palavras de Alfredo. Algo de estranho, pensou, sucedia-se. Não havia sentido, intuiu, Alfredo fazer ar de mistério, fisionomia sofrida, manter o silêncio e dar-lhe tal notícia.

– É só isso o que você quer me dizer, Alfredo?

– Não. Não, Natália. Sua mãe telefonou, há uma hora, mais ou menos.

– O que ela queria?

– Ela queria falar com você.

– A respeito de quê?

Alfredo não deu uma resposta. Natália conservou-se calada. Esperou que ele lhe dissesse o que desejava lhe dizer.

Alfredo, enfim, após alguns minutos de silêncio opressivo, disse, com voz entrecortada:

– Natália… Querida, meu sogro morreu.

 

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A travessia

Era uma segunda-feira do mês de fevereiro. E na loja de materiais de construções Moreira & Moreira, José Luiz desincumbiu-se das suas tarefas não sem dificuldades; para o exercício de algumas delas não pôde dispensar o auxílio de outros funcionários.

Não foi um dia de trabalho muito proveitoso. O proprietário da loja, Roberto Moreira, nervoso – raros, nele, o nervosismo e, dizia José Luiz, a brabeza -, distribuiu broncas para todos os funcionários. Muitos dentre eles desejavam que ele os esquecesse, ou que deles não se lembrasse, mas ele conhecia-os todos, chamava-os pelos nomes, e sabia qual era a função de cada um deles. Os funcionários perguntavam-se a razão do nervosismo, da braveza, da rudeza no trato, da sequidão da voz, que não admitia réplicas, do olhar compenetrado, da fisionomia carregada, rígida, pétrea, de Roberto Moreira. Aventaram inúmeras hipóteses; algumas, sérias; outras, jocosas; raras as maledicentes – estas as aventaram os desafetos de Roberto Moreira, os que o detestavam. José Luiz, que conhecia Marcelo, um dos filhos de Roberto Moreira, soubera, contou-lhe Marcelo, que, no domingo, Cláudia, tia dele, irmã de Roberto, fora atropelada, e essa seria, estava certo, declarou José Luiz, a razão da brabeza do chefe, como a Roberto Moreira referiam-se os funcionários da Moreira & Moreira. Discordou Amauri, que, conhecedor da história do atropelamento de Cláudia, disse que ela passava bem, dissera-lhe Vinicius, marido dela. A razão da postura taciturna e carrancuda de Roberto Moreira e da sua rudeza no trato devia-se, portanto, a outro motivo, que não o aventado por José Luiz.

O trabalho, desgastante. Foi um dia incomum. José Luiz não se recordava de, em outro dia, desde que começou a trabalhar naquela loja, um ano e sete meses antes, haver tantos clientes a comprar materiais de construções. Desdobrou-se para executar todas as tarefas para as quais o encarregavam. Desgastou-se de manhã, durante quatro horas ininterruptas de trabalho, sob sol inclemente – atenuou o desgaste com um copo de água a cada hora. No momento em que cessou o seu trabalho, para almoçar de uma marmita e de um copo de refrigerante que a loja forneceu-lhe, suava, em bicas, a camisa encharcada de suor. Ele dela despiu-se, e abandonou-a sobre os tijolos, para secá-la. A marmita continha uma boa porção de arroz e feijão, bife e batatas, verduras e legumes. Era um almoço reforçado. Encerrado o almoço, José Luiz deitou-se sob um caminhão, e puxou uma palha durante vinte minutos – a soneca foi-lhe salutar. Levantou-se. À pia próxima do monte de areia lavou o rosto, para despertar de vez; vestiu a camisa, e tornou ao batente.

No período da tarde, o trabalho foi mais estafante do que no período da manhã. O sol exauriu-lhe as forças. Se José Luiz não fosse dotado de vontade férrea, músculos resistentes e organismo apropriado para as tarefas que lhe exigia Roberto Moreira, sucumbiria ao esforço. Desempenhava as suas incumbências com desenvoltura; ao final de um dia de expediente a carregar tijolos, vigas, telhas, areia, pedras, sem cessar, ia para a sua casa, banhava-se, degustava de alguns minutos na companhia de Camila, sua esposa, grávida de seis meses, e Paulo Renato, seu filho, menino de dois anos, que, diziam os familiares e os amigos, tinha a cara da mãe e o focinho do pai; e antes das dezenove horas, rumava para a Escola Técnica Nikola Tesla, para assistir às aulas do curso de eletroeletrônica; e regressava à sua casa as onze horas e trinta minutos da noite. E acordava, na manhã seguinte, as cinco horas.

Naquela segunda-feira de fevereiro, José Luiz desgastou-se além do habitual, e, uma hora antes de encerrado o expediente, acreditava, não conseguiria prosseguir com o trabalho até dali uma hora, ao crepúsculo, às dezoito horas, mas agüentou o tranco, disse, assim que se retirou da loja, exausto, mas em pé, e disposto a enfrentar quatro horas de aula, na Escola Técnica Nikola Tesla. Despediu-se dos seus colegas de trabalho. Na companhia de Gustavo, o Gordo, de Maurício, o Pernambuco, de Nelson, o Lagarto, e de Daniel, o Dejota, foi até o cruzamento das ruas José de Anchieta e Dom João VI, onde deles despediu-se, e seguiu, só, rumo à sua casa, distante da loja três quilômetros. Intensificava-se o trânsito. Veículos iam e veículos vinham, rápidos, apressados os motoristas, ou José Luiz tinha a sensação de que todos eles estavam apressados, e também os ciclistas, e os pedestres, menos ele, que seguia no ritmo habitual. E um caminhão a descarregar fumaça apretejada obrigou José Luiz a tampar o nariz com os dedos indicador e polegar da mão esquerda, prender a respiração, cerrar as pálpebras, e mover a cabeça para o lado oposto ao pelo qual passou o caminhão. Em pensamento praguejou José Luiz, e desacelerou os passos. Segundos depois, recomposto, retomou o seu passo na velocidade que lhe era habitual, para, logo em seguida, cobrir os olhos com a mão esquerda em pala, protegendo-os do reflexo dos raios solares, que lhos feriam, no vidro posterior de um carro estacionado poucos metros à sua frente. Ao passar pelo carro, abaixou o braço. Contornou a esquina à direita, e seguiu por cem metros; deteve-se em frente da casa lotérica, e preparou-se, sobre a calçada, parado, a olhar de um lado para o outro, aguardando os carros passarem, para atravessar a rua. Era a hora do rush. Passou um carro. E outro carro. E uma caminhonete. E outro carro. E uma moto. E outra moto. E um caminhão. E um carro. E outro carro. Todos iam no sentido bairro-centro – enquanto, na pista contrária nenhum veículo passava. Assim que viu que na faixa sentido bairro-centro apenas um veículo, um carro, aproximava-se, José Luiz pôs o pé esquerdo na rua, e logo da rua o retirou assim que viu uma fileira de carros se lhe aproximando no sentido centro-bairro, em velocidade considerável – setenta quilômetros por hora, mensurou José Luiz. Um carro passou por ele. Vermelho. E outro carro passou por ele. Prateado. E outro carro prateado. E outro carro prateado. E passou por ele uma caminhonete. E outra caminhonete. E três motos – a primeira, preta; a segunda, azul; e verde, a terceira. E outro carro. Alaranjado. E aproximaram-se dele duas motos, ambas pretas, e atrás delas nenhum veículo. José Luiz desceu o pé esquerdo na rua, e olhou para à sua esquerda, para a faixa sentido bairro-centro, e viu próximo de si, e deslocando-se rapidamente, uma fileira de veículos, e recuou o pé esquerdo, e afastou-se do paralelepípedo à aproximação de um caminhão branco, imenso, que, pareceu-lhe, iria engoli-lo. O caminhão passou por ele, e seguiam-no, como que atraídos pela sua força gravitacional, dezenas de veículos, entre carros e motos. E agora as duas faixas da rua estavam tomadas por veículos. E José Luiz resmungou, e esbravejou, discretamente. Pressionou as mandíbulas uma contra a outra, e cerrou o punho esquerdo, dobrando o cotovelo, como que ameaçando esmurrar alguém, e executou gestos involuntários que dele revelavam a irritação. Olhou de um lado para o outro. E viu carros e mais carros, caminhões e mais caminhões. E ônibus. E caminhonetes, e mais caminhonetes. E motos, muitas motos. E um tanque-de-guerra, que rumava, acreditava José Luiz, do Batalhão Borba Gato para o Batalhão de Engenharia e Combate. E a terra tremeu-lhe sob os pés à passagem do encouraçado, um rinoceronte de metal, como aos tanques-de-guerra referiam-se José Luiz e os soldados que com ele conviveram durante um ano de serviço militar – conquanto a conscrição fosse obrigatória, José Luis e muitos outros recrutas alistaram-se por vontade própria, no desejo, sincero, de prestar uma contribuição ao Brasil, e sacrificar-se pelo país, se necessário.

Há mais de cinco minutos parado na calçada, José Luiz, preparado para atravessar a rua, sempre que nela punha um pé, certo de que poderia atravessá-la, veículos aproximavam-se dele, em alta velocidade, e até bicicletas, de todas as direções, impedindo-o de atravessá-la, irritando-o. Cerrava os punhos, tensionava todos os músculos do corpo, abria os braços num gesto de impaciência. Em certo momento, os veículos como que havendo desaparecidos por encanto, preparou-se José Luiz para atravessar a rua; desceu o pé esquerdo na rua; e ao pôr, nela, o pé direito, ouviu uma buzina, e recuou. Era a buzina de uma cadeira-de-rodas motorizada. Pilotava-a Tião Pé-de-Cabra, encastelado no assento de couro, e um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça achatada, e cujas sobrancelhas – de coruja, diziam – de tão espessas podiam ser entrevistas a um quilômetro de distância.

– Tarde, seu menino – Tião Pé-de-Cabra saudou José Luiz. – Mande um abraço meu para o senhor vosso pai, o velho Moreno, e acenda uma vela pela alma de vosso avô, o velho Marcondes – e seguiu o seu caminho, sem se deter.

José Luiz acenou-lhe, e prometeu-lhe dar o recado para o destinatário dele e acender a vela.

E sorriu José Luiz, atenuada a sua irritação, e relaxados seus músculos. E abanou a cabeça. E olhou de um lado para o outro. Carros, motos, caminhonetes, caminhões e ônibus passavam, em ambos os sentidos da rua. Mordeu José Luiz a língua, para não amaldiçoar Tião Pé-de-Cabra.

José Luiz, pouco tempo depois, certo de que nenhum carro aproximava-se de si, olhou para a direita, e, ao pôr o pé esquerdo na rua, viu, para a sua surpresa, um carro, em alta velocidade, indo em sua direção, e recuou, para a calçada, abrindo os braços, as mãos espalmadas, e as bateu nas coxas, com força, ao mesmo tempo que proferiu uma obscenidade. Contrariado, esperou o carro passar, após o qual passaram duas motos e um ônibus. Quando da sua direita nenhum carro ia em sua direção, olhou para a esquerda, pôs um dos pés na rua, preparou-se para atravessá-la, e recuou ao ver um carro a aproximar-se de si.

Impacientava-se José Luiz. Levantava os braços, irritado, todas as vezes que lhe frustravam a tentativa de atravessar a rua. Irritava-se. Executava movimentos bruscos com os braços, e, as mãos espalmadas, batia-as, enraivecido, nas coxas. E evocava a figura inconfundível de Tião Pé-de-Cabra e a sua cadeira-de-rodas, e o amaldiçoava. Antes não tivesse recuado à calçada quando ele buzinou. Parecia-lhe a ele, José Luiz, que, transcorrendo o tempo, mais difícil tornava-se atravessar a rua. Da direita e da esquerda iam os veículos, dezenas deles. Não havia intervalo de tempo entre dois veículos que lhe permitisse atravessar a rua. José Luiz punha um pé, ou os dois pés, na rua, certo de que poderia atravessá-la, e recuava, logo em seguida, ao ouvir o soar de uma buzina, ou um grito, e tornava à calçada, irritado, contrariado.

E passavam-se os minutos. E José Luiz consultava o relógio no mostrador do telefone celular. E praguejava. Se não atravessasse, e logo, a rua, se atrasaria para as aulas do curso de eletroeletrônica.

Sob o sol, que já ia se pondo, José Luiz viu, há cinquenta metros de distância, na mesma calçada, da sua direita, indo em sua direção, um homem, que – José Luiz concluiu ao atentar para os gestos e os passos dele, vacilantes – estava bêbado. O homem, tipo acaboclado, baixo, troncudo, barrigudo, as pálpebras semi-cerradas, de roupas amarfanhadas, imundas, cabelos desgrenhados, barba por fazer, olhos avermelhados, fundos, órbitas dos olhos apretejadas, pés embrulhados em sapatos surrados – o esquerdo com uma falha que lhe deixava expostos três dedos -, a coçar, incessantemente, a cabeça, andava trançando as pernas e arrastando-se pelas paredes, e ora detinha-se, perdido, a olhar de um lado para o outro, e para o céu, e para o chão à sua frente, e quase ia ao chão; para surpresa de todas as pessoas que assistiam a espetáculo tão deplorável, antecipando, em pensamento, a queda do ébrio, e preparando a gargalhada, que explodiria tão logo ele desse com o nariz no chão, ele não caia, indo contra todas as leis da natureza; conservou-se ele, contra todos os prognósticos, em pé, tão firme quanto um prego fincado na areia – incrédulos, os curiosos não acreditavam que ele conseguia em pé manter-se por muito tempo. E ele não caia, para frustração daqueles que o acompanhavam com os olhos. Ele perdia o equilíbrio, mas não caia. Tinha-se a impressão de que ele cairia, mas ele não caía; ora ele encostava-se à parede de alguma casa, para manter-se em pé; ora ele detinha-se, e, não se sabe como, dava um passo, ou para a frente, ou para trás, ou para a direita, ou para a esquerda, e conservava-se em pé. O seu estado, deplorável. José Luiz lamentava-o. O bêbado ia em direção de José Luiz. Resmungou qualquer coisa ao perder o equilíbrio, e bater com a cabeça na parede. No outro lado da rua, dois garotos, ambos de bicicleta, cada um deles em uma bicicleta, gritaram-lhe, provocando-o. Conheciam-no. E ele esbravejou. Proferiu maldições e obscenidades de ruborizar até o diabo. Incompreensível o que ele disse assim que abaixou o tom de voz. Engrolava as palavras. José Luiz dividia a sua atenção entre o trânsito e o bêbado, esperando que ele de si não se aproximasse. José Luiz detestava bêbados. Os bêbados irritavam-no; havia um alcoólatra na sua família, seu tio, Mauro, irmão de seu pai. Mauro, sóbrio, era gentil, amigável, bem-humorado, espirituoso, cativante; ébrio, era indiscreto, inconveniente, inconsequente, e dele José Luiz não se aproximava; evitava-o; dele fugia como o diabo foge da cruz.

O bêbado não foi até José Luiz, como que lhe atendendo as preces. Deteve-se, de repente, próximo do paralelepípedo, para alívio de José Luiz, a trinta metros de distância dele, e com gestos de mãos caóticos, alheio à realidade, acenou para os motoristas dos veículos que passavam pela rua, e na rua desceu, quase vindo a cair – para surpresa de todos, conservou-se em pé -, e, passo após passo, empreendia a travessia da rua. José Luiz anteviu o atropelamento. Algum veículo atropelaria o bêbado. Para a surpresa de José Luiz, os carros, as motos, os caminhões, as caminhonetes, os ônibus, ou paravam, e deixavam o bêbado passar, ou desviavam-se dele. E ele, com passos incertos, indo e vindo, dois passos para a frente, mas não em linha reta, e um passo para trás, seguia rumo à calçada oposta à da qual partira. E os carros, e as motos, e os caminhões, e os outros veículos, e um tanque-de-guerra, que seguia, do Batalhão de Engenharia e Combate para o Batalhão Borba Gato, e Tião Pé-de-Cabra, a cederem-lhe passagem. E o bêbado, enfim, chegou, são e salvo, ao outro lado da rua.

José Luiz, boquiaberto e queixocaído, olhos arregalados, dedos a coçarem-lhe a cabeça, perguntava-se… Na verdade, incrédulo, nenhuma pergunta se fazia; limitava-se a fitar o bêbado, que, no outro lado da rua, rumava… Para onde? E José Luiz, na calçada, a querer atravessar a rua. Pensou em simular embriaguez. Afugentou de si tal pensamento. Sóbrio, não poderia ignorar o perigo que os veículos representavam-lhe. E o bêbado, no outro lado da rua; e José Luiz, irritado, vendo passarem diante de seus olhos carros, motos, ônibus, caminhonetes, bicicletas e caminhões. E um tanque-de-guerra. E Tião Pé-de-Cabra.

Memórias de um desmemoriado

Anotações para uma autobiografia

Nasci no dia… Em que dia nasci? Que nasci em um dia sei que nasci, afinal, estou vivo. Quando nasci, todavia, não me recordo, mas sei que nasci, e há um bom tempo, pois a minha aparência é a de um homem de uns trinta anos, ou de um pouco menos de quarenta, ou de um pouco mais de vinte. Mais de quarenta não tenho. Menos de vinte também não. A minha aparência, se não me revela, com exatidão, a minha idade, dá-me elementos que me permitem avaliá-la aproximadamente. Então, digo, neste início do registro das minhas memórias, que nasci há trinta anos, aproximadamente.

Nasci, não sei em que dia, nem em que mês, e tampouco em que ano. Sei que nasci num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer. São meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Eu poderia telefonar para eles para lhes perguntar o nome deles, e aproveitar a ocasião e perguntar-lhes a data do meu nascimento, mas não me lembro onde deixei o telefone, e nem onde guardei a agenda telefônica com o número do telefone deles. Eu tenho telefone? Não sei. Devo ter algum telefone guardado em algum lugar desta casa. Se tenho um telefone, onde eu o guardei, caso eu o tenha guardado em algum lugar? Ou eu o esqueci em algum lugar? Não me recordo. Assim que eu me lembrar se tenho, ou não, um telefone, eu o pegarei, e telefonarei para meu pai, ou para minha mãe, e solicitar-lhe-ei as informações, que estou a procurar, para redigir estas minhas memórias, que serão memoráveis.

Prossigo, então, com o registro de episódios da minha vida, vida de um homem de trinta anos de idade, aproximadamente, como me indica a minha aparência.

Foi na cidade… na cidade de… Em qual cidade nasci? Minha mãe me deu à luz, é certo, em alguma cidade, pois não há lugar no mundo que não pertence à uma cidade. Nasci, sei, em alguma cidade. De cesariana, ou de parto normal?

Esquecia-me: Não sei se sou o primogênito de meus pais, ou o segundogênito. Tenho irmãos? Tenho irmãs? Quantos irmãos? Quantas irmãs? E onde eles estão? E onde estão meus pais? Há quanto tempo não falo com eles? Espere um pouco… Meus pais estão vivos? Ou eles morreram? Se morreram, qual foi a causa da morte deles?

Recapitulando o que escrevi até aqui… O que já escrevi? Esqueci. Vou ler o que escrevi até este ponto para poder dar sequência à redação destas minhas memórias, que serão o princípio da minha autobiografia.

*

Li o que já registrei para estas minhas memórias, e chamou-me a atenção, intrigando-me, a ausência de informações acerca da minha vida. Como eu pude registrar um relato tão vago? Não é apropriado, sou obrigado a reconhecer, registrar memórias desprovidas de informações sobre a vida do memorialista. Sou eu o memorialista a escrever a minha autobiografia… Humor involuntário. Apenas eu, é claro, posso escrever a minha autobiografia. E… Espere um pouco. Eu já escrevi, em algum outro dia, a minha autobiografia? Esta é a primeira vez que me ponho a redigir as minhas memórias, ou eu já as escrevi em outro dia? Se as escrevi, quando as escrevi? Falha-me a memória, neste ponto. Tenho de reconstituir a minha infância para que estes meus registros tenham razão de ser.

*

Evoco, a partir de agora, alguns episódios da minha vida de um homem que se encontra na idade de trinta anos, aproximadamente, como indica-me a minha aparência.

Nasci não sei em que dia, nem em que cidade, se de parto normal, se de cesariana. Não me recordo de meus pais, e não sei se eles estão vivo, e não me lembro se tenho irmãos. Mesmo não me recordando destas informações, posso reconstituir a minha história com fidelidade, pois algumas informações, se imprescindíveis, podem ser negligenciadas, afinal, são apenas informações, e nada além de informações, e mesmo que não estejam no corpo da redação das minhas memórias nelas podem ser inseridas por suposição – não há viva alma que, em sã consciência, ignore que uma pessoa, para existir, tem de nascer em algum dia, de genitores; portanto, todas as pessoas que tomarem conhecimento destas memórias sabem que tenho pais, mesmo que eles estejam mortos, e que nasci, no passado, em algum dia, em algum mês, em algum ano, em algum lugar.

*

Meu nascimento, não sei se de parto normal, se de cesariana, deu-se num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer, há, aproximadamente, quarenta anos, indica-me a minha aparência, que é a de um homem de um pouco mais de quarenta anos, ou um pouco menos de quarenta anos – de mais de cinquenta anos não é, e de menos de trinta também não.

Sei que meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Tenho certeza que meu pai e minha mãe têm nomes. Meus pais estão vivos? Meu pai morreu de acidente de carro, não morreu? Ou foi o pai de um amigo meu, de cujo nome minha memória não lembra, que morreu num acidente de carro? E a minha mãe está viva?

Estas são as primeiras palavras das minhas memórias, que eu as escreverei, fornecendo minúcias acerca da minha vida. Eu… Eu… Qual é o meu nome?

*

Inspirado, decidi, hoje, escrever as minhas memórias. Tal desejo excitou-me a imaginação. Eu, escrever as minhas memórias! Que interessante! Eu, escrever a minha autobiografia! Que interessante! Eu, que nunca escrevi as minhas idéias, decidi, hoje, escrevê-las, e escrever, também, a história da minha vida. Para escrevê-la, tenho de registrar o meu nome, o nome de meus pais, os de meus irmãos, os de minhas irmãs, a minha data de nascimento, e as dos meus familiares.

Aqui, no meu quarto, tenho, à mão, os documentos de todas as pessoas da minha família. Não sei porque eu peguei esta caixa com tais documentos e tais fotos – milhares delas, nas quais estou retratado, e nas quais estão retratadas muitas pessoas que nunca vi. Quem são elas? Não sei. Algumas delas estão abraçadas comigo. Por que elas estão abraçadas comigo, se não as conheço?

Consultando estes documentos e estas fotos, escrevo um rascunho das minhas memórias, para, num futuro próximo, redigir a minha autobiografia – e apenas eu posso escrever a minha autobiografia. Humor involuntário.

Meu nome é Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Sou filho de Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e de Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. Por que nomes tão extensos, meu Deus!?

Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às cinco e quarenta e cinco da manhã.

Sou o primogênito de meus pais.

São meus irmãos Paulo Ricardo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Vicente Antonio de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Márcia Luiza de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, e Fabiana Larissa de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

Nestes papéis, que tiro desta caixa de sapatos, há relatos, cujos autores não estão registrados. Leio-os, e venho a saber que, no dia dezesseis de setembro de 1999, faleceu meu avô paterno Josué de Almeida Prado, alvejado, na têmpora esquerda, por um projétil, disparado por um homem de nome João Romão e codnome Lagarto Albino. Não sei quem escreveu estas linhas. As caligrafias (identifiquei quatro), parece-me, são de mulheres, pois os homens jamais escreveriam com tanto esmero.

Nesta outra folha há o relato, de autoria de Vicente Antonio, meu irmão, de uma viagem que todos da família empreendemos aos Estados Unidos. Passeamos pelo Grand Canyon, visitamos Washington, e fomos à Disneylândia.

Assisti à vídeos de gravações de brincadeiras, na escola, com os amigos, e em festas da família.

*

Acordei, hoje, com o desejo de registrar, em vídeo, a história da minha vida. Mas não me lembro de nenhum dos seus episódios. E nem me lembro do meu nome. E não tenho à mão nenhum documento, nenhuma foto, nenhum registro em vídeo, nem escritos em papel, nem digitados em computador, para servir-me de fonte de dados acerca de mim mesmo.

*

Ao limpar o meu guarda-roupa, encontrei fitas-cassetes e dvds com gravações de festas de aniversários, do casamento de meu irmão Paulo Ricardo com a Susana, e do nascimento do primogênito deles, sobrinho meu, o Emílio, e do nascimento de Vanessa, filha dos meus amigos Carlos José e Neide.

*

Anima-me a vontade de escrever as minhas memórias. Não me lembro, no entanto, de nada da minha vida. Como poderei, então, escrever as minhas memórias, se da minha vida nada me recordo?

*

Peguei da caneta, debrucei-me sobre a folha de sulfite, e perguntei-me qual é o meu nome. Qual é o meu nome? Eu o esqueci.

*

Hoje, um dia daqueles em que fico, no ócio, a matutar, e a imaginar coisas, e a conceber idéias, tive uma idéia brilhante: Escrever as minhas memórias, a minha autobiografia. Mas o que há de interessante na minha vida que merece ser contado para as pessoas? A minha vida é interessante? E por que não seria? É interessante, sim.

O que me aconteceu durante a minha vida de não sei quantos anos? Para escrever as minhas memórias tenho de puxar pela memória acontecimentos da minha vida. Quais? De nenhum me recordo.

*

Aconteceu-me algo muito engraçado, hoje, mas esqueci do que se trata. Sei, todavia, que foi engraçado, afinal estou rindo, estou gargalhando.

*

Pergunto-me: Por que não escrevo as minhas memórias? Por que não escrevo a minha autobiografia? Humor involuntário.

*

Encontrei uma folha de sulfite, que traz, em uma das suas faces, um registro de um desejo meu: O de escrever as minhas memórias. Sentei-me à escrivaninha, e abri uma gaveta, na qual havia uma caixa com a minha Certidão de Nascimento. Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às 5:45. São meus pais Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. É o meu nome Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

E deixo esta folha sobre a escrivaninha, para procurar outros documentos, que me dêem notícias da minha vida e da vida de meus familiares, parentes e amigos.

Fiz bem em deixar sobre a escrivaninha esta folha com as minhas anotações e a minha Certidão de Nascimento, pois sei que esqueço, em poucos minutos, o que faço, e às vezes esqueço que esqueço. Fui previdente ao tomar a providência de manter esta folha de sulfite e a minha Certidão de Nascimento sobre a escrivaninha, pois, agora, destes álbuns de fotos e de dois dvds, tiro, do fundo do baú, dir-se-ia – mas não foi no fundo de um baú que os achei (e onde os encontrei, não me lembro) -, algumas notas acerca da minha vida e da minha família e da meus amigos.

São meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa. Eu sou o primogênito, e a Fabiana Larissa é a caçula. Paulo Ricardo nasceu no dia 16 de maio de 1986; Vicente Antonio, no dia 7 de agosto de 1987; Márcia Luiza, no dia 14 de dezembro de 1988; e Fabiana Larissa, no dia 5 de janeiro de 1991.

*

Encontrei um álbum de fotos, e dentro dele uma Certidão de Batismo, a minha, suspeitei; e confirmei as minhas suspeitas após do álbum remover uma foto, em cuja face anterior há uma criança, pequenina e fofinha, que, eu vim a saber, é eu, ao colo de uma linda mulher de uns vinte anos, que, eu soube, é minha mãe, e em cuja face posterior há anotações. Além de vir a saber que a criança é eu, e a mulher, minha mãe, eu soube que o homem à direita de minha mãe é meu pai, e o à direita de meu pai é o pai dele, meu avô e meu padrinho de batismo, Josué de Almeida Prado, todos a irradiar felicidade.

Em outras fotos há várias pessoas, muitas delas eu as desconheço. E não sei em que local tais fotos foram tiradas. Não reconheço os móveis, tampouco os prédios que aparecem ao fundo, e muito menos a paisagem. Em algumas fotos há a indicação, no verso, de que a família estava em viagem ao Rio Grande do Sul, em outras ao Pantanal, e em outras à Flórida; algumas indicam o aniversário natalício de Vicente Antonio, outras o de Fabiana Larissa; outras o de Carlos Ermenegildo, eu; outras, o casamento de Paulo Ricardo e Susana; e outras o de Marcos Roberto e Ana Carolina, meus genitores. São muitas as fotos, e muitas são as pessoas retratadas, e muitas delas eu as desconheço. E eu apareço em várias fotos, principalmente nas mais recentes.

*

Escrevo enquanto assisto ao vídeo que registra a festa de meu aniversário natalício. A minha memória evanescente não me permitiria registrar estas minhas lembranças sem o auxílio do vídeo, e das fotos, que me auxiliam na identificação das pessoas que aparecem no vídeo. É um vídeo da minha festa de aniversário de 18 anos, indicam as velas. O homem que me cumprimenta, no início, é meu pai. E vários familiares eu os identifico com a ajuda de fotos, em cuja face posterior há o nome dos fotografados – comparando-os com as pessoas que aparecem no vídeo, pude identificá-los: Meu pai, minha mãe, meu avô materno, Marco Antonio, minha avó materna, Maria Elizabeth, minha avó paterna, Maria da Conceição, meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa, meus tios Pedro, Sergio, Carla, Madalena, Vinicius, Bruna, Daniel, Tadeu, meus primos Valéria, Roberto, Hélio, Gilberto, Gabriela, Edson, Renato, Rodrigo, André, Jorge, Janaína, Jaqueline, Jéssica, Getúlio, Fábio, Ísis, Leandro, e os meus amigos Adriano, Adriana, Bianca, Márcio, Murilo, Natália, Osvaldo, Paula, Úrsula, Ulisses, Vera, Laura, Ligiane. Estas foram as pessoas que pude identificar. E há inúmeras outras, cujos nomes desconheço, e não sei se há relação de parentesco entre elas e eu, ou se são apenas meus amigos, ou se conhecidos.

*

Tomei, hoje, uma decisão: Escreverei as minhas memórias.

Escrevi estas palavras, para não me esquecer do meu propósito, e saí à procura de vídeos, documentos e álbuns de fotos que me auxiliem em minha empreitada, e encontrei, na segunda gaveta desta escrivaninha, um Atestado de Óbito com a data do falecimento, 16 de outubro de 2015, de Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Quem é ele? Eu o conheço? Por que o Atestado de Óbito dele estava guardado dentro da minha escrivaninha?

A notícia

– Ontem, encontrei-me com a Cláudia. Tu sabes o que ela me disse? Ela me disse que a Ludmila e o Carlos brigaram. A discussão estendeu-se por um século. O Carlos, disse-me a Cláudia… Palavras da Cláudia: “A Ludmila e o Carlos deram o maior escândalo de todos os tempos, no restaurante Bom Garfo, ontem à noite. Conversávamos, eu, a Ludmila e o Carlos. Num dado momento, o Carlos olhou para uma loira bonita, atraente, que passou ao seu lado. Ela se deteve, voltou-se para ele. O Carlos fitou-a. E o que aconteceu em seguida? A loira, atrevida, derrubou, no chão, de propósito, um molho de chaves, e agachou-se para pegá-lo. Tu tinhas de ver. A loira, linda, maravilhosa, usava um decote… O Carlos, com cara de bobo, arregalou os olhos, com os olhos devorou a loira. A Ludmila viu o que o Carlos viu, olhou para o Carlos, e, sem pensar duas vezes, e antes que ele entendesse o que se passava, furiosa, deu-lhe um tapa na cara, virando-o para o avesso. O Carlos deu um grito que na China podiam ouvir. A loira, ao levantar-se, olhou para o Carlos, que massageava o rosto e, com olhar apalermado, indagava da Ludmila a razão do tapa; Ludmila rilhava os dentes; dos olhos dela, fixos em Carlos, chispavam labaredas de ódio. A loira sorriu. Era evidente o seu ar malicioso, simultaneamente divertido e constrangido, de pudor e de malícia. Ela ajeitou o decote, e afastou-se. Não deixou de se voltar para o Carlos e a Ludmila, e sorrir, envaidecida. Envaidecida, sim, pois ela inspirou ciúme a Ludmila, a ponto de ela desferir um tapa no Carlos. Qual mulher não se envaidece de, simultaneamente, e sem esforço, excitar o desejo de um homem e o ciúme de uma mulher, usando, unicamente, as curvas do seu corpo? A Ludmila berrou, para que todo o mundo a ouvisse: ‘Safado!’, e desferiu um tapa na cara do Carlos. ‘O que… Ludmila!’, perguntou-lhe Carlos, surpreso, atoleimado. ‘Tu não podes ver um rabo-de-saia’, censurou-o Ludmila; ‘Eu nada fiz, Ludmila’; ‘Esqueça-me, imbecil! Vá atrás da loira oxigenada! Gostaste dela? Leve-a contigo, idiota’. O Carlos abanou a cabeça, moveu os braços, emudecido, e olhou em torno de si. Curiosos fitavam-no. Sorriam à socapa, uns; gargalhavam, outros, com todos os dentes à mostra, vergando-se para trás. Um escândalo! Que escândalo! Delícia de escândalo! Eu não sabia o que dizer. O que eu diria? Calei-me. Olhei para o Carlos. Olhei para a Ludmila. Olhei, constrangida, em torno. O que eu diria? O que eu diria, e para quem? Eu nada disse. Constrangedor! A Ludmila pegou a bolsa, levantou-se; batendo o pé, foi-se embora. Que escândalo! Que maravilha de escândalo!”.

*

– Sabes da nova? Hoje, no restaurante Comidas Típicas, almocei com a Rúbia. Ela me disse que o Carlos e a Ludmila brigaram. Disse-me a Rúbia… Acompanhes a história. É hilária, e do teu interesse: “Almoçávamos, no restaurante Bom de Garfo… O almoço ia às mil maravilhas. Conversávamos. Bebíamos. Comíamos. Estávamos, lá, eu, a Cláudia, o Carlos e a Ludmila. Nos levantamos. Iríamos embora. Iríamos, eu disse. Não fomos; não naquele momento. E sabes por quê? No restaurante entrou uma loira de parar o trânsito. Uma loira belíssima. Uma deusa grega. Ela usava decote e minissaia. Todos olhamos para ela. Era impossível ignorá-la. Ela, àquele calor, se trajasse blusa de lã e calça jeans folgada, chamaria a nossa atenção, mais, até, do que chamou. De um corpo perfeito, a loira. Sabes o que aconteceu? A loira, involuntariamente, acredito, deixou cair a carteira no chão, e curvou-se para pegá-la, ignorando-nos, como se não estivéssemos lá, como se não houvesse ninguém no restaurante, como se o restaurante estivesse às moscas. Minha nossa! Os eventos sucederam-se em ondas até a cena derradeira. O Carlos… Ah! O Carlos. Ele arregalou os olhos, e boquiabriu-se. O que ele viu… Ele, que mal havia se levantado, sentou-se, e não desviou da loira os olhos arregalados, a boca aberta, o queixo caído. A Ludmila… A Ludmila, sem pensar duas vezes, beliscou o Carlos, tirando-o do estado hipnótico no qual a loira o lançou. O Carlos fitou-a. Com um movimento brusco, levou a mão ao ponto no qual a Ludmila cravou-lhe as unhas. O berro seco do Carlos atraiu a atenção da loira, que, ao se levantar, voltou-se para ele, surpresa, curiosa, intrigada, viu-o massageando o braço, e voltou-se para a Ludmila, que, furiosa, esbravejou. O Carlos encolheu-se. Recuei uns dois passos. A loira esboçou reação, mas, constrangida, ruborizada, afastou-se, sob olhar dos curiosos, com passos firmes, fincando o salto dos sapatos no piso, e foi sentar-se, de costas para nós, à mesa, na outra extremidade do restaurante. Estou certa de uma coisa: o desejo da loira era o de esbofetear a Ludmila. A Ludmila, acredito, não a sobrepujaria numa luta corpo-a-corpo. As pessoas presentes adorariam assistir a tal espetáculo; imperdível, se se sucedesse. A Ludmila escapou de uma surra. O Carlos… Ah! O Carlos! Enquanto a Ludmila vituperava a loira, ele me fitava, abismado, na expectativa, certo de que a Ludmila o repreenderia, ao estilo dela; aos berros, o insultaria, e, ele previa, desferir-lhe-ia um bofetão que lhe deformaria o rosto. Coitado! Antes mesmo de encerrar às ofensas contra a loira, a Ludmila disse para o Carlos: ‘Tu és como todos os homens. Não podes ver um rabo-de-saia. Gostaste da loira oxigenada? Vistes a celulite? É de loiras oxigenadas que tu gostas? Vistes o silicone? Carlos, esqueça-me. Suma da minha frente, vagabundo’. O Carlos, coitado, abobalhado, emudecido, levantou-se, hesitante, enquanto massageava o braço, e afastou-se; antes de transpor o enquadramento da porta, olhou, por sobre o ombro esquerdo, para a Ludmila, que, à minha frente, olhava para a loira e resmungava obscenidades. Paguei pelo almoço, e nos retiramos.” Ouviste, atentamente, a narrativa? É do teu interesse, não é?

*

– A Ludmila, a namorada do Carlos, aquela morena… O Marcelo contou-me, há uns quatro dias… Quando? Não importa. Ele me disse que a Ludmila, o Carlos, a Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom… Sabes o que ele me disse? Imaginas? Não imaginas? Tu conheces aquela figurinha carimbada. Foi na lanchonete Bem Bom, ou no restaurante Comidas Tropicais. Tu conheces o restaurante Comidas Tropicais? Ótimo restaurante. O Marcelo disse-me que a Rúbia contou-lhe que a Ludmila e o Carlos saíram no tapa lá no… Comidas Tropicais, se não me engano. Não. Não foi no Comidas Tropicais. Foi na lanchonete Bem Bom. O Marcelo e a Rúbia almoçaram, dias atrás, no restaurante Bom de Garfo. Tu conheces a Rúbia e o Marcelo. O Marcelo, tu sabes, adora manter as pessoas bem informadas. Ele capta informações no ar, via respiratória. Ele é dotado de radar potentíssimo, e sabe, também, como espalhar as notícias. Não sonega nomes, nem as minúcias dos eventos. É incomparável a sua vocação para jornalista investigativo. Pergunto-me porque ele não envia o curriculum para um tablóide britânico. Faria sucesso estrondoso nas cercanias de Stonehenge; e, no outro lado do canal da Mancha, repetiria o sucesso obtido na ilha dos bretões. Ou não? Ora, os franceses têm reputação de sisudos e racionais. Porém… Conte-lhes, aos macambúzios germanos… gauleses descendentes de Asterix, uma boa aventura… Eles perderão a compostura. Os taciturnos revelarão a verdadeira face da alma gaulesa. Basta de embromação. Basta deste chove, chove, e não molha. Basta de blábláblá. Basta de lengalenga. Vamos ao que nos interessa. O Marcelo, gozando do prazer de relatar um episódio jocoso protagonizado por dois amigos, disse-me: “A Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom, comiam, a Rúbia, um pudim de laranja, e o Cláudio, um pudim de pêssego, e bebiam, o Cláudio, suco de uva, e a Rúbia, refrigerante de limão. Conversavam, animados. Falavam de trivialidades. Chamou-lhes a atenção a voz inconfundível da Ludmila. Sabemos que ela é discreta e sabe se comportar em público. A gargalhada… Ao sentir olhares cravando-se neles, o Carlos chamou a Ludmila à razão. Ela, com sorrisinho malicioso… aquele sorriso… O que ela e o Carlos conversavam? Não sei o que eles falavam… Mas posso imaginar do que se tratava… A Ludmila… O Carlos… Conheço-os como conheço as palmas das minhas mãos. A Ludmila viu a Rúbia e o Cláudio, acenou para eles, e foi, puxando o Carlos, até eles. Saudou-os. Puxaram, cada um, uma cadeira, e sentaram-se, o Carlos à direita da Ludmila, que se sentou à direita da Rúbia. A conversa ia animada. A Ludmila e a Rúbia falavam de vestidos e sapatos, e o Cláudio e o Carlos, de futebol, carros e motos, e insinuaram comentários a uma atriz americana, aludiram aos encantos dela; dariam sequência à conversa, mas o olhar de poucas amigas da Rúbia e da Ludmila os obrigou a retomarem a conversa sobre motos, carros e futebol, três das cinco maiores paixões dos homens. Assunto ia, assunto vinha, riam, gargalhavam, tranqüilos, até que… Música de suspense. Interrompo a narrativa, para criar expectativa. Suspense. Como se dará a sequência desta aventura? Não perca os próximos capítulos desta novela cuja trama intrigante enfeixa drama, comédia, tragédia, tragicomédia, capa-e-espada, cavalaria andante, sertão nordestino, praias cariocas, favelas, planaltos, metrópoles, periferia… O que deu por encerrada a animada conversa de Ludmila, Rúbia, Carlos e Cláudio? Uma loira. Uma loira? Sim, uma loira. Uma loiraça. Não foi uma loira qualquer. Foi uma loira de parar o trânsito e provocar engarrafamento quilométrico. Esqueça os engarrafamentos em São Paulo. Diante do congestionamento que a loira pode provocar, nada significam. Então, retomemos o relato. A loira, com vestido decotado, recendendo perfume irresistível… Ela era irresistível; com o perfume ia além do irresistível. Era o suprassumo da loirice. Um esplendor da natureza! Uma das sete maravilhas do mundo. Um petisco! Ela se aproximou do Carlos, sorrindo, e, exibindo os dentes lindíssimos, os olhos o irradiar felicidade contagiante, com voz maviosa, sedutora, disse-lhe: ‘Oi, lindo, lembra-se de mim?’, e reclinou-se, para beijá-lo, no rosto. Não o beijou, entretanto. Sabes quem a impediu de beijá-lo? A Ludmila. Quem mais poderia ser? A Ludmila deslocou-a com o cotovelo, avançou ao Carlos, e desferiu-lhe um tapa, que ecoou pelo restaurante, escapou para a rua, ganhou o bairro, foi ouvido em toda cidade, cujos limites territoriais venceu, e, em ondas incontíveis, espraiou-se, após atravessar o oceano Atlântico e o oceano Pacífico, pela Europa, pela Ásia e pela América do Norte. A loira arregalou os olhos e boquiabriu-se. Desequilibrada, quase caiu. O Carlos tratou de se afastar do alcance das mãos da Ludmila. Como ela é pacífica, serena, ele não ficou com o olho roxo, ou azulado, ou avermelhado, sei lá. Uma mescla de magenta, lilás, roxo, azul e vermelho alaranjado. Sortudo, o Carlos. Todavia, ele não escapou das broncas. E a Ludmila… Ah! Ela encarou a loira. Gritou para ela: ‘Vagabunda!’. ‘Ludmila, acalme-se’, solicitou-lhe, servil, Carlos. ‘Acalmar-me, Carlos. Tu e essa loira oxigenada são dois vagabundos!’ A loira retirou-se, com o rabo por entre as pernas. E que pernas! O Carlos e a Ludmila discutiram. Um escândalo! Tu tinhas de estar lá para ver.” Eu gostaria de estar lá para ver. Eu queria ser testemunha ocular da briga. Eu queria ver a Ludmila humilhando o Carlos! Foi divertido, imagino. A Ludmila é mulher corajosa, e não teme escândalos. Ela desancou a loira e o Carlos. Falou grosso com ele. Que grosserias ele ouviu! Disse-me o Marcelo que o Carlos, a Rúbia e o Cláudio ficaram ruborizados. O Carlos adquiriu as feições de um pimentão, a fisionomia de um tomate maduro. Eu queria assistir ao espetáculo. Ah! Esquecia-me: a Ludmila e o Carlos romperam o namoro. É a minha chance de abordar a Ludmila… Ora, abordá-la, abordei, e não foram poucas as vezes. Insinuei-me. Ela me rejeitou. Agora, o caminho está livre para mim. E não perderei o meu tempo… A Ludmila não me escapará. E manterei o Carlos afastado dela. Inventarei histórias cabeludas. Para o Carlos, pintarei a Ludmila com as cores mais escuras; para a Ludmila, direi cobras e lagartos do Carlos. Não serão cobras quaisquer, e tampouco quaisquer lagartos. O Carlos nunca mais irá olhar para a Ludmila, que nunca mais irá olhar para ele. Escrevas no teu diário: O Marcos namorará a Ludmila.

*

– O Marcos disse-me que tu e o Carlos brigaram, na lanchonete Bom Apetite, dias atrás.

– Eu e o Carlos nunca fomos à lanchonete Bom Apetite.

– Não?

– Não.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo que, dias atrás, tu e o Carlos brigaram.

– Há três meses eu e o Carlos não entramos no Bom de Garfo. Quando eu e ele entramos, lá, pela última vez? Não me recordo. Faz tanto tempo, que não conservo tal episódio na memória. Reminiscências trazem-me à mente um almoço, lá, no aniversário da Paula, há quatro meses. Quando foi o aniversário da Paula? Há muito tempo. Há um século. Eu e o Carlos brigamos… Eu gostaria que me dissessem quando isso aconteceu, porque eu não soube dessa briga. Não assisto aos telejornais…

– O Marcos disse-me que, na lanchonete…

– Tu acreditas no Marcos? Ele conta cada história da carochinha… Cada lorota! Ele inventa e reinventa as histórias que lhe contam. Pergunte-lhe o que ocorreu entre eu e o Carlos, na próxima vez que o encontrar, e ele dirá que nos viu eu e o Carlos, na praia, num quiosque, bebendo, eu, água de coco, e o Carlos, cerveja, vestindo, eu, biquíni fio-dental amarelo, e o Carlos, sunga azul, e eu, que nunca subi numa prancha de surfe, surfando, e o Carlos, que nunca chutou uma bola, jogando futvôlei…

– O Marcos não inventou nenhuma história. Ele me disse que o Marcelo disse-lhe que tu e o Carlos brigaram na lanchonete Bom Apetite.

– Eu e o Carlos nunca fomos lá.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo…

– Eu e o Carlos, há meses, não vamos lá, como eu já disse.

– Então, não sei. Foi em outra lanchonete, então. Ou em outro restaurante. O Marcos disse-me que, na sexta-feira, o Marcelo, a Rúbia, tu e o Carlos…

– O Marcelo e a Rúbia, comigo e com o Carlos, num restaurante? Há mais de um mês não vejo o Marcelo. A Rúbia… Conversei com ela, pela última vez, na véspera da minha viagem, para o Rio Grande do Sul, com meu pai e minha mãe, em visita ao meu avô, que completou o nonagésimo aniversário, há vinte dias. Hoje… Que dia é hoje? Vinte e sete. O aniversário de meu avô, no dia seis, foi num domingo. Eu, meu pai e minha mãe fomos ao aeroporto, no sábado, pela manhã; na sexta-feira, à tardezinha, nos encontrávamos, eu e a Rúbia, na livraria Assis, dia quatro, portanto, há mais de vinte dias. A tua história não está bem contada.

– O Marcos falou-me da briga…

– Eu e o Carlos não brigamos. Que eu me lembre, não. Briguei com o Carlos? Briguei… E não me informaram…

– Não sejas irônica… Esta história… Se é verdade… Tu me diz que não brigou com o Carlos… Acredito… Mas o Marcos narrou-me, com detalhes constrangedores, a tua briga com o Carlos. Falou-me, e não se furtou a tecer elogios, de uma loira oxigenada…

– Ah! Sei qual história o Marcos te contou… Quero dizer, não sei qual história ele te contou. Se ele narrou uma história que culminou numa briga… Ora, ele adulterou os eventos… Briga… Eu e o Carlos não brigamos. O que eu poderia dizer… Não sei o que ele te disse… Como se diz, quem conta um conto… O Marcos ouviu um conto; ao contá-lo, aumentou… Quantos pontos? Não briguei com o Carlos, Márcia.

– Não? Mas o Marcos…

– Ora, o Marcos! Esqueça-o. Diria minha avó: ele fala mais do que a negra do leite. Não a conheço. Vovó conheceu-a, e diz que ela falava demais. Dá, a taramela, com a língua nos dentes, e não sabe manter a língua dentro da boca.

– Ele me disse com tanta convicção…

– Esclarecer-te-ei o enigma. Contar-te-ei a história, exatamente como transcorreu. No encerramento, tu não ignoras, não se dá uma briga, tampouco uma discussão envolvendo eu e o Carlos. Não se ouviu insultos, nem palavras azedas, nem interjeições viperinas. Os contadores mal-intencionados de histórias são tão convictos… Querem acreditar no que dizem… Basta de tagarelice. Não percamos o nosso tempo… Eu e o Carlos não brigamos, estejas certa. Que eu me recorde, nunca brigamos. Discutimos de vez em quando… Isto é, todos os dias. Briguinhas de namorados. Bobagens. O Carlos, tu sabes, é um pouco ciumento. Se eu uso camisa decotada, ele me repreende; se uso minissaia, ele me reprova; se me atraso para um encontro, ele me censura, e me diz que me demoro, embelezando-me. Quanto a isso, é verdade. Gosto de me reproduzir. Adoro mirar-me ao espelho. Sou maravilhosa, eu sei. Não precisa me dizer isso. O Carlos gosta e, ao mesmo tempo, não gosta, principalmente quando outros homens olham para mim… Além das discussõezinhas, nada de sério. Nos entendemos. Ele é um namorado gentil e carinhoso. O homem com que sonhei. Um príncipe encantado. Um amor. Quanto ao que aconteceu… O que aconteceu? Esqueças o que o Marcos te disse. Ele não sabe o que aconteceu. Queres saber o que aconteceu? Tu te surpreenderás. Ao encerramento, irás rir à bandeiras despregadas, diria um vetusto senhor grisalho. Ouças: eu e o Carlos não brigamos, na lanchonete Bom Apetite. Brigamos, na sorveteria Palito de Ouro. Brigamos… Direi que eu e ele brigamos. Para todos os efeitos, brigamos. E eu e a loira oxigenada nos enrolamos num arranca-rabo que foi um escândalo. Na sorveteria Palito de Ouro, num sábado, eu, o Carlos e a Cláudia passamos bons e agradáveis momentos, conversando, chupando sorvetes. Falamos de todos os assuntos que nos vinham à mente. Falamos mal das vizinhas da Cláudia, do ex-namorado dela, o Rômulo, e do… Do que mais falamos? Não me recordo. O melhor momento ainda estava por vir, e foi uma loira lindíssima que no-lo proporcionou. Tu tinhas de ver. Era sábado. Calor de derreter o cérebro. Chupei sorvete de morango, de laranja, e napolitano, se não me engano. O Carlos, um de chocolate, e… Não sei. E a Cláudia… Sei lá. Atente para este detalhe: Estávamos na sorveteria Palito de Ouro. Esqueças a lanchonete Bom Apetite e todas as outras lanchonetes. Eram quatro horas da tarde. O calor nos rachava a cabeça. O Carlos suava em bicas. Derretia-se. Eu, ele e a Cláudia degustávamos sorvetes gelados quando, na sorveteria, entrou uma loira de parar o trânsito. Uma boneca. A Barbie, sem tirar nem pôr. Pensei, até, em pedir-lhe um autógrafo. Ela usava uma camisa decotada e uma minissaia. Tão bela. Tão linda. Todos olhamos para ela. Imagines uma loira lindíssima de minissaia, camisa decotada e sapatos de saltos altos. Ela passou pelo Carlos, esbarrou-lhe a mão no braço, e o Carlos derrubou o sorvete. E a loira… Sabes o que ela fez? Pediu desculpas para o Carlos, e se abaixou para pegar o sorvete. Imagines a cena. A loira usava camisa decotada. Imagines a cara do Carlos. Olhei para a Cláudia; a Cláudia olhou para mim. Sorrimos. O Carlos ficou vermelho. A loira pediu-lhe desculpas. Ela não percebeu, é certo, constrangida que estava, que o Carlos não tirava os olhos do decote.

– Tu não brigaste com o Carlos?

– Não. Por que eu brigaria com ele? A loira esbarrou-se nele, e ele derrubou o sorvete. Por que eu brigaria com ele? Por que ele olhou para a loira? Ora, o Carlos é um homem. A loira, bonita, linda, um pedaço de mal caminho. Além do mais, foi um acidente. Um acidente engraçado. O Carlos transformou-se num pimentão. A loira foi-se embora. Fingi que estava brava com o Carlos, e dei-lhe tapas na cara. Tapinhas que não doem, e disse-lhe que eu nada queria com ele, e que ele fosse procurar a loira oxigenada. Diverti-me com o episódio. O Carlos, constrangido, não sabia o que dizer, não sabia para onde olhar. E mais uma coisa: a loira não era oxigenada. Era uma loira autêntica, bonita e atraente. Ah! Eu, brigar com o Carlos! Ele é um amor. Eu e ele nos casaremos daqui um mês. O Marcos… Ele… Se vier ter comigo, lhe baterei a porta na cara.

Em lados opostos

– Você não me acreditará, Feliciano. Você irá me chamar de mentiroso. A Jaqueline está no papo. A gata é minha. Fez-se de difícil, a maldita, mas caiu na lábia do garanhão. Feri-lhe o ego. Mulher vaidosa, ela não suportou ser passada para trás, e cedeu aos meus desejos. Que mulher! Nunca tive em meus braços mulher tão bela! Eu e ela principiamos o namoro na sexta-feira. Ela pensava que não cairia em meus braços. A felina recolheu as garras. Eu a terei em meus braços sempre que a desejar. Ela irá satisfazer todos os meus desejos e todas as minhas fantasias. Eu disse para você que eu conquistaria a Jaqueline. Aquela gata não poderia me escapar, e não me escaparia, e não me escapou. Ela é minha. No domingo, eu e ela fomos pra Ubatuba. Você tinha de ver como os marmanjos olhavam pra ela. Babavam de desejo. Você tinha de ver com que cara eles ficavam ao me ver passando o bronzeador e o protetor solar na Jaqueline. Eles não queriam acreditar no que viam. A Jaqueline pensou que eu não a conquistaria. Sem falsa modéstia, sou irresistível. Sei como convencer uma bela mulher a ceder aos meus desejos. Tenho as minhas artimanhas. Nenhuma mulher que desejei resistiu ao meu charme. E não seria a Jaqueline que resistiria. Eu convidava a Jaqueline para jantar, e ela, soberba, nariz empinado, rejeitava os convites. Eu a convidava para almoçar; ela rejeitava os convites. Eu a convidava para um passeio; ela recusava os convites; não os recusava, rejeitava-os, e tratava-me como capacho. Ela, uma vez, me humilhou diante da Vilma. Foi constrangedor. O sorriso da Jaqueline… Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Aquele sorriso… Veneno de uma víbora. O sorrisinho da Jaqueline, e o da Vilma… Não desisti. Eu tinha de fazer jus à minha masculinidade. Convidei a Jaqueline para ir ao teatro, ao cinema, ao zoológico, à praia, e para almoçar, lanchar, jantar; mas ela, soberba, rejeitou todos os convites que lhe fiz. Ora, o ditado não diz que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Portanto, insisti, e insisti, e insisti. Demorei para me convencer de que, ou a pedra era dura demais, ou o ditado está errado. Foi aí que vi que os ditados são inúteis e reconheci que a minha estratégia de conquista estava errada. A abordagem direta era inútil. Eu teria de usar outra abordagem. Matutei. Inspirado pelos prazeres que eu prelibava… Gostou desta? Poético, não? Eu, inspirado pelo desejo da carne, criei outra estratégia: Abordagem indireta. Eu sitiaria a Jaqueline. Eu iria ferir a vaidade dela. As mulheres bonitas são vaidosas, você sabe. Elas querem que os homens as reverenciem. Jaqueline ficava, é certo, orgulhosa, cheia de si, quando eu me derretia por ela. Ela se considerava a mulher mais desejável do mundo. Eu mostraria pra ela que ela não é a mulher mais importante do mundo. Eu não a convidaria mais. Eu a esnobaria. Eu a ignoraria solenemente, nem olharia pra ela; se ela estivesse próxima de mim, mas não conversando comigo, e eu conversasse com outra pessoa, eu elogiaria a beleza, os encantos, os atrativos de outras mulheres. Eu tinha casos com a Adriana, com a Cinira e com a Andressa. Usei-as pra provocar a Jaqueline. Eu as beijava gulosamente sempre que a Jaqueline olhava pra mim. Eu elogiava todas elas, principalmente a Andressa, que é uma gata; não tão bonita quanto a Jaqueline, mas uma gata… A Jaqueline, eu via nos olhos dela, ficava fula, mordia a língua. Ela sentiu, na carne, a dor do desprezo; e a vaidade falou mais alto. Ela começou a se insinuar pra mim. Eu fingia que não percebia, que não era comigo. Eu a ignorava solenemente. Ela me abordava, contendo-se, e perguntava-me se eu tinha compromisso, ou na hora do almoço, ou à noite, ou no final de semana, mas nunca me dizia porque me fazia tal pergunta. Eu sempre lhe dizia que sim, que, ou tinha um compromisso, ou um encontro. Eu sabia que a fortaleza enfraquecia-se, e que, com uma investida certeira, eu a destruiria, e teria acesso a prazeres indescritíveis… Era tudo uma questão de tempo. Quando eu menos esperasse, e sem que a Jaqueline desconfiasse que eu lhe manipulava os sentimentos e a induzia a fazer o que eu desejava que ela fizesse, ela se lançaria aos meus braços, e se me ofereceria, e eu usufruiria dos prazeres mais sensacionais que eu jamais poderia imaginar. A Jaqueline abordava-me, insinuava-se, e eu a rejeitava, e dava-lhe a entender que eu preferia outra mulher. Eu ia à balada com a Natália, com a Úrsula, com a Arlete. Quando a Jaqueline estava por perto, eu elogiava a Natália, a Arlete, a Úrsula, a Andressa, a Adriana, a Cinira. Eu declarava que não conhecia mulheres tão bonitas quanto elas, e a minha voz chegava aos ouvidos da Jaqueline. Dentre elas, Natália era a que eu mais elogiava. Natália! Que loirinha! Eu sabia que ela e a Jaqueline não se bicam. Elas se detestam. O mundo é pequeno demais para as duas. A Jaqueline irritava-se sempre que me via com a Natália. A Natália é bonita, atraente, desejável. Todavia, não se compara com a Jaqueline; eu, no entanto, dava a entender o contrário. E a Jaqueline mordia-se de raiva! Na sexta-feira, os episódios desta novela sucederam-se num ritmo vertiginoso. Eu estava na minha casa, sozinho, quando a campainha soou. Você é capaz de adivinhar quem premiu a campainha? Abri a porta. O tempo parou. Meu queixo caiu. A Jaqueline, vestida para matar, aproximou-se de mim, abraçou-me, e beijou-me. Foi uma noite maravilhosa. O início do meu namoro com a Jaqueline, auspicioso. A Jaqueline é minha, inteiramente minha, exclusivamente minha. Não quero mais saber de outra mulher. Quero a Jaqueline, apenas a Jaqueline. Não preciso de outra mulher. A Jaqueline satisfaz-me em todos os sentidos e todos os meus sentidos. Não preciso de outra mulher. Sou apaixonado pela Jaqueline. Meu coração é dela, e o dela é meu. Conquistei a Jaqueline. Conquistei a mulher dos meus sonhos. Ela é minha. Inteiramente minha. Exclusivamente minha. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

*

– Daiane, os homens são patéticos. Eles acreditam que sempre estão por cima; que são os conquistadores; que são espertos. Eles acreditam que são mais espertos do que as mulheres, as controlam e as obrigam a satisfazer-lhes todos os desejos. Eles vivem no mundo da fantasia! Eles se recusam a entender que o mundo pertence às mulheres e que a eles cabe o papel de coadjuvantes. Esqueça Casanova e Dom Juan, dois gabolas mentirosos. Você acredita nas histórias que eles escreveram? Eles são famosos, mas qual deles foi poderoso? Pompadour e Cleópatra foram poderosas. Casanova e Dom Juan eram conquistadores baratos. E a Marilyn Monroe, que conquistou os Kennedys e um escritor famoso, cujo nome não lembro. E um escritor americano escreveu uma biografia dela. Não a li. Um escritor americano… Não foi o Roth, nem o Vidal. Li cinco livros dele. O nome dele estava na ponta da minha língua; de repente, desapareceu, como num passe de mágica. Uma graça, a Marilyn, você não acha? Ela é mais bonita e mais cheia de graça do que a Bardot e a Sophia. Cá entre nós, ela parecia uma bonequinha de luxo. Lembrei-me: Norman Mailer. Sou fã da Marilyn. Tenho todos os filmes dela. Como eu dizia, Casanova e Dom Juan, gabolas ridículos, desprezíveis, diziam, com os exageros de praxe, aos quatro cantos do mundo, que iam para a cama com todas as mulheres. Fie-se nas histórias que eles contaram e que deles contam! A Pompadour e a Cleópatra ficaram poderosas. Eles, não. As mulheres são mais sutis, astutas e espertas do que os homens, e sabem usar as suas armas, aquelas que as têm, muito melhor do que os homens usam as deles. Uma delas é a beleza; a outra, a sensibilidade; a outra, a inteligência. Os homens recusam-se a entender que não podem resistir, mesmo se o desejarem, aos ataques das mulheres que possuem essas três armas. Raras as possuem. Eu as possuo. O que eu disse pode soar arrogante aos seus ouvidos, mas não é. Sou bonita. Sou inteligente. Sou sensível. Não quero me gabar: possuo as três mais poderosas armas femininas. E sei usá-las. Usando-as, conquistei o Leandro. Ele é um gato. Ele me abordou, em diversas ocasiões, mas eu, que tenho o meu orgulho, me fiz de difícil. Eu não queria ser mais uma mulher na lista dele. Eu sabia que ele, indiscreto, contava, com todos os pormenores, para o Feliciano, o confidente dele, tudo o que se sucedia sob os lençóis, e o Feliciano anunciava, em rede nacional, tudo o que o Leandro lhe relatava. Discreto ele, né? Eu soube que o Leandro ficava, um dia, com a Cinira, no outro, com a Andressa, no outro, com a Natália, e com outras mulheres. A lista é extensa. Eu não permitiria que o Leandro me reduzisse a um nome na agenda dele. Eu sabia que ele me desejava. Ao contrário das outras mulheres, eu o desprezei. Ele me convidou para almoçar, jantar, ir ao cinema, ao zoológico, ao parque, à praia. Recusei todos os convites. Fui, reconheço, malvada com ele. Arrependi-me de dispensar-lhe tal tratamento… Eu o via com aquele olhar… Eu pensava em parar com o meu joguinho, e ceder ao Leandro… Eu o desejava. Ele é um gato. Ele é inteligente. Ele é elegante. Ele é charmoso. E aquele sorriso derrete-me. Aquele olhar… Minhas pernas tremiam sempre que o Leandro aproximava-se de mim. Meu corpo ardia de prazer, mas eu tinha de conter o desejo que me assaltava sempre que ele, tão perto e tão longe… Você não imagina como foi difícil resistir às abordagens do Leandro… Eu desejava dizer sim a todos os convites que ele me fazia. Eu o desejava, mas eu não queria ser reduzida a um nome na agenda dele. Meu nome seria o único nome de mulher na agenda do Leandro. O Leandro, esnobado, desprezado, provocava-me. Para me provocar, ele ficava com a Úrsula, com a Andressa, e com a Natália, aquela… Sei que ele sabia que eu e a Natália não nos gostamos uma da outra. O bobo pensou que me provocava. Ele, sempre que eu estava perto dele, e ele conversava ou com o Feliciano, ou com o Milton, ou com o Adriano, ou com o Arthur, ou com o César, falava da Natália e a elogiava. O propósito dele: provocar-me ciúme. A Natália é bonita, reconheço, mas ela não é tão bonita como o Leandro falava que ela é. Ora, não sou cega. Quando vejo uma mulher bonita, admiro-lhe a beleza, e até a invejo. A Tábata, por exemplo. Ela é linda. Eu gostaria de ter os olhos azuis dela, e as maçãs do rosto também. A cinturinha… Nossa! Nunca vi outra mulher com tal cinturinha! A Tábata é a mulher mais bonita que já vi. Tem um corpo perfeito. Ela é mais bonita do que eu, reconheço. A Natália… Ela não é mais bonita do que eu. Ela não é inteligente, nem espirituosa. Não digo isso por despeito. Digo isso porque é a verdade. Se quiser confirmar o que digo, converse com ela por alguns minutos. Bastam alguns minutos de conversa com ela para você se convencer de que digo a verdade. E sucederam-se os capítulos desta novela. Percebi que o Leandro estava desesperado. Ora, se ele saía com a Natália, minha desafeta, minha arquiinimiga, para me provocar, era porque ele estava desesperado, e apaixonado, apaixonado por mim, obviamente. E o que fiz? Eu o abordei. Eu me insinuava. Eu me aproximava dele e me fazia presente e atenciosa, mas dele conservava distância respeitosa. Eu lhe provava, assim, que eu não era como as outras mulheres, e o meu nome não seria mais um nome na agenda dele, e a minha foto não figuraria no álbum de fotos dele ao lado das fotos de dezenas de outras mulheres. Notei uma mudança, imperceptível, no comportamento do Leandro: Ele raramente saía de casa, ia às baladas uma vez ou outra, afastou-se das outras mulheres, desmanchou o namoro com a Natália. Vamos dizer a verdade: não era namoro; era apenas um caso. O Leandro usava a Natália para me provocar. Eu… Cheguei numa encruzilhada. Na sexta-feira, ao anoitecer, fui à casa do Leandro. Apertei a campainha, e o esperei. Assim que ele abriu a porta, eu o beijei na boca. Ele não resistiu. Eu o conquistei. O gato é meu. Falei para ele: “Jogue no lixo a agenda com os números dos telefones de todas as mulheres que você já conheceu e as fotos de todas elas. Agora só há uma mulher na sua vida: Eu.” Ele jogou a agenda e as fotos de todas as mulheres no lixo. Em seguida, dei-lhe uma agenda nova, entreguei-lhe uma caneta, e disse-lhe para escrever o meu nome e o número do meu telefone. Ele os escreveu. Dei-lhe uma foto minha, e ele a colou na agenda. O meu nome é o único nome na agenda do Leandro. A minha foto é a única foto na agenda dele. O Leandro é meu, exclusivamente meu, inteiramente meu. O coração dele me pertence. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

Quem com ferro fere com ferro será ferido

Certo domingo, estávamos, na praça Emílio Ribas, conversando, eu, Marcelo, Paulo e João. Os filhos de Paulo, Cláudio e Rodrigo brincavam de pega-pega. Não eram dez horas da manhã. Havíamos nos retirado da Igreja de Santa Teresinha vinte minutos antes. E na praça nos detivemos. De repente, ouvimos alguém gritar:

– Olha o gordo!

Voltamos a nossa atenção para a direção da qual chegou-nos a exclamação. Era Mauro, que, do outro lado da rua, gritava, apontava João, e gargalhava.

Mauro tem um metro e sessenta e cinco centímetros de altura. Branco – não de todo; e loiro – não totalmente. Magro – não direi magro; nem esbelto é. Não é bonito; e nem feio é. Não agrada as mulheres, e não lhes inspira repulsa. Para muita gente ele é irritante, intragável; mas há gente que com ele se simpatiza.

– Esse gordo é muito gordo – prosseguiu Mauro, apontando João. – Gordo! Bolo fofo! Rolha de poço! Precisam de você, na represa, para tampar a rachadura. Bolo fofo! Elefantinho da mamãe.

João, furioso, exibiu um gesto obsceno para Mauro. Paulo, eu e Marcelo pedimos-lhe que não se deixasse levar pelas provocações, mas ele, ignorando-nos, afastou-se de nós, andou na direção de Mauro, exibindo-lhe gestos obscenos e acenando-lhe para que ele se detivesse, que lhe daria boas lições. Mauro provocava-o. Paulo, eu e Marcelo pedimos, em vão, a João que ignorasse Mauro. João dele aproximou-se. Preparou-lhe um soco. Mauro esquivou-se, agachando-se, sorrindo, e afastou-se, passos acelerados, de João; dele distava uns três metros quando pôs-se a gargalhar, e a provocá-lo.

– Quando eu pegar você, Mauro – ameaçou João -, quebrarei seu nariz.

– Pegar-me? – desafiou-o Mauro. – Pegar-me, barril de banha? Você é mais lento do que uma lesma obesa, reservatório estratégico de gordura. Venha me pegar, pança de panda.

E afastava-se Mauro, sorrindo, de João, que o fitava, cenho franzido, furioso, contendo-se. João, ao olhar para a sua direita, viu uma pedra, pegou-a, e voltou-se para Mauro, que, passos apressados, dele afastou-se, zombando. João largou a pedra na calçada, e foi, extremamente irritado, até Paulo, Marcelo e eu.

Permanecemos, na praça Emilio Ribas, durante mais quinze minutos, e rumamos, cada um de nós para a sua casa.

Naquele mesmo domingo, no bar do Gonzaga, um pouco depois das quatro horas da tarde, assistíamos ao jogo de futebol entre o Corinthians e o São Paulo. Eram mais de vinte os homens dentro daquele pequeno bar, todos a olhar, vidrados, para a tela da televisão, e a esbravejar, e a disparar obscenidades contra o árbitro, os jogadores, os técnicos, os bandeirinhas e os gandulas. Alguns dentre nós éramos corinthianos; outros, sãopaulinos.

Ouvimos, em certo momento, um grito:

– Maranhão!

E olhamos, todos os que estávamos no bar, para a porta, e deparamo-nos com Mauro. Houve aqueles que, previdentes, desafetos de Mauro, retiraram-se do bar, por uma porta, enquanto no bar Mauro entrava por outra porta e encostava-se ao balcão. Maranhão, cujo nome é Vitoriano, estava na outra extremidade do balcão, distante de Mauro quatro metros. Fitou-o, olhar seco, de poucos amigos. Entreolhamo-nos muitos dentre nós. E Gonzaga solicitou a Mauro que não provocasse Vitoriano. Antevi a briga. Vitoriano é oriundo do estado do Maranhão, daí o seu apelido. Quase todos os que o conhecemos o chamávamos por tal alcunha; codnome, diz o Gonzaga, de agente secreto. Vitoriano é robusto, de pele áspera curtida de sol, atarracado, mãos enormes, calosas, de dedos grossos e nodosos, e braços de musculatura pétrea.

Enquanto assistíamos ao jogo de futebol, em clima de flaflu, Mauro zombava de Vitoriano, do seu tipo físico, da sua calvície precoce e pronunciada, da sua estatura baixa, da sua pele, do seu sotaque, do formato da sua cabeça. Para surpresa de todos nós, Vitoriano conservou-se, no banco, sentado, ao balcão, degustando da loirinha gelada e dos petiscos de palitinho. Mauro ridicularizava-o, e o silêncio de Vitoriano fê-lo intensificar as chacotas. Pedimos a Mauro que cessasse as provocações. Ele, no entanto, ouvidos moucos, seguia com elas, até que disse as palavras que desencadearam a fúria de Vitoriano:

– Como você nasceu, Maranhão? Quando você nasceu, a sua mãe olhou para você, e gritou: “Meu Deus! Padim Ciço, proteja-me! Que horror! Como essa criatura monstruosa entrou em mim? Não é meu filho. Eu estava bêbada quando o pai dele o fez em mim.”

Uma garrafa riscou, como um míssil, os quatro metros que separavam Vitoriano de Mauro, e estilhaçou-se na parede. Mauro, que mal teve tempo de se mexer, deslocou-se alguns centímetros para a direita, o suficiente para sair da trajetória da garrafa. Vitoriano abriu passagem, como um touro, por entre nós, deslocando-nos com os braços, e foi na direção de Mauro, que tratou de girar sobre os calcanhares e passar sebo nas canelas. Correu Mauro uns dez metros, e voltou-se para trás, para ver, à porta do bar, Vitoriano, parado, fitando-o, e acenou-lhe, debochando.

Vitoriano prometeu, para si mesmo, que um dia agarraria Mauro pelo pescoço e fender-lhe-ia o ventre com uma peixeira.

Encontrei-me com Mauro, na fila do banco C…, na segunda-feira, e falei-lhe da promessa que João e Vitoriano fizeram. Mauro deu de ombros.

– Eles só ameaçam – disse Mauro, sorrindo. – São idiotas, aqueles dois. O João é gordo; o Maranhão é nordestino. Ambos são mais burros do que uma porta. Não vou esquentar a minha cabeça com aqueles dois imbecis fracassados.

Uma semana depois, no Clube Esportivo São Benedito, Mauro aproximou-se de um grupo de homens, saudou-os – muitos dentre eles o saudaram de má-vontade -, e deteve-se em Guilherme, de estatura um pouco maior do que a dele, magro, na altura dos trinta anos, cabelos repartidos ao meio, de óculos de lentes grossas. Mauro, sorrindo, fitava-o como se o examinasse. Guilherme fez que não o viu, e não interrompeu a sua conversa com Vinicius, que se sentiu incomodado com a atitude provocativa de Mauro.

– Pelo amor de Deus. – exclamou Mauro, fitando Guilherme, que não se voltou para ele. – De qual planeta você veio? – perguntou-lhe, tocando-o no ombro, e só então Guilherme e Vinicius interromperam a conversa, e Guilherme voltou-se para Mauro. – Você parece um alienígena com esses óculos, Guilherme. E esses cabelos! Que penteado horroroso! Cruz credo! Você não nasceu! Você foi cuspido! – e gargalhou, dobrando-se sobre si mesmo.

Guilherme, para surpresa de Mauro, disse-lhe, com voz calma, em tom firme:

– Você já se olhou no espelho? Você parece um rebento do cruzamento de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, com o Sméagol, o monstrinho do Senhor dos Anéis.

Mauro, de imediato, disparou-lhe um soco; Guilherme aparou-o, e encaixou-lhe um soco no peito, e se pôs de modo a dissuadi-lo de querer uma briga. Mauro, ciente de que não poderia sobrepujar Guilherme, mão direita a massagear o peito no ponto que Guilherme lho atingira, afastou-se dele, esbravejando:

– Idiota! Imbecil! Idiota! Nunca mais zombe de mim! Vá para o inferno, vagabundo! Vá para o inferno!

E Mauro abriu espaço pela multidão, e retirou-se do clube.

Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.