Ração boa pra cachorro

Dirigiu-se Antonio Roberto, às dez horas da manhã, à loja de vendas de artigos para animais; assim que lá chegou, atendeu-o uma funcionária, moça de uns vinte anos, baixa, de, se muito, um metro e sessenta de altura, esbelta, que então ajeitava, com uma maria-chiquinha, os cabelos pretos, lisos, volumosos. Sorridente, ela saudou-o, exibindo-lhe sua fileira de dentes brancos: “Bom dia, senhor. O que o senhor deseja?” E Antonio Roberto respondeu: “Ração para um cachorro velho, de dentes bem fracos.” “Cachorro pequeno, ou grande?” “Médio. Um vira-lata. Ele tem, acho, uns quinze quilos.” “Temos estas duas rações.” – e mostrou-lhe os dois pacotes. “São boas para cachorros velhos de dentes fracos?”, perguntou-lhe Antonio Roberto. “Sim, senhor. São macios. Veja.” – e apertou a moça dois pacotes, um de cada tipo de ração que indicara a Antonio Roberto, sentindo a ração entre os dedos. E Antonio Roberto repetiu-lhe o gesto. “É verdade. São macios, bem macios. Vendem à granel?” “Sim, senhor. De quanto o senhor precisa?” “Das duas rações, meio quilo de cada. Darei das duas para o meu velho amigo, e verei qual delas ele come, qual não.” “É melhor, né? Assim não desperdiça ração.” E a moça pesou meio quilo de cada uma das duas rações escolhidas, e entregou a Antonio Roberto um pequeno pedaço de papel com o logotipo da empresa, no qual escrevera o preço a pagar pelas rações, e disse-lhe que pagasse no caixa e retirasse a compra no balcão. E ele seguiu-lhe as orientações. Aproximava-se Antonio Roberto do balcão, quando a moça que o atendera afastou-se para falar com outra funcionária; e chegou-se ao balcão um funcionário, que, vendo a sacola com as rações empacotadas, perguntou para Antonio Roberto: “Esta ração é para o senhor?”, e ele lhe respondeu: “Para mim, não; é para o meu cachorro.” O funcionário riu, a moça riu e pegou a sacola e entregou-a a Antonio Roberto, e agradeceu-lhe a visita à loja no mesmo instante em que ele, rindo, dizia: “Esta ração é boa pra cachorro.”

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Bons Amigos

Edson e Renato são dois bons amigos. Jovens, ambos de dezessete anos, são, dizem seus pais, unha e carne. A Dupla, referem-se a eles, assim, familiares, parentes e amigos. Edson, extrovertido, brincalhão, expansivo, de rosto rechonchudo, carrega consigo, desde que veio à luz, nariz empinado de ventas largas, queixo pontudo e sobrancelhas espessas. Não é feio; bonito também não é. É excêntrico. Renato, de um metro e setenta e cinco de altura, atlético, de boa estampa, é dono de olhos azuis que encantam as mulheres. É tímido, introvertido. Ninguém entende como os dois jovens se entendem tão bem. Saídos da escola, à hora do almoço, passaram pela frente de uma lanchonete. Ao ver, à mesa, na calçada, cinco mulheres, todas bonitas, quatro, sentadas, uma, em pé, duas, morenas, duas, loiras, uma, branca de cabelos pretos, Edson perguntou-lhes assim que delas se aproximou:

– Bom dia, princesas – e elas interromperam a conversa, e voltaram-se para ele. – Alguma de vocês deseja se casar com um homem pobre, burro e feio?

– Não – responderam, em uníssono, sérias, as cinco mulheres.


E Edson voltou-se para Renato, e disse-lhe:

– Danou-se, Natão. Você ficará pra titio.


Renato meneou, encabulado, a cabeça, e seguiu caminho. Edson, a gargalhar, ia-lhe logo atrás.

– Natão, você é bobo, mesmo. ‘tá vermelho igual pimentão!

Existe, ou não existe?

Encontraram-se João e José, na Praça Monsenhor Marcondes, hoje, às onze da manhã. Após saudarem-se, desejando um ao outro um bom dia e apertarem-se as mãos, João saiu-se com uma notícia daquelas que não lhe eram incomuns, daquelas com as quais, sabiam seus familiares e parentes, e amigos e colegas de trabalho, envolvia os seus interlocutores num labirinto de perguntas e respostas cuja saída eles jamais encontravam:

– Ontem, Zé, eu vi uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre.

– Deixe de besteiras, João. Não existe tal cobra.

– Não, Zé?! Não existe!? Você já viu uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre?

– Não. É claro que não. Não existe.

– Se nunca viu uma tal cobra, como você sabe que ela não existe?

– Ora… Zé, eu… Não existe tal cobra. E pronto! Deixe de besteiras. Eu nunca vi uma cobra dessas.

– Você, Zé, já viu um vírus?

– Não.

– Mas você acredita que vírus existem.

– E o que tem uma coisa com a outra?! Você confunde alhos com bugalhos, e geringonça com onça.

– Você já viu uma bactéria?

– Não. Nunca vi uma bactéria. Deixe de pilhéria, de lérias.

– Mas você acredita que bactérias existem, não acredita?

– Ora, mas os cientistas… Aonde você quer chegar?

– Quero chegar ao banco. Estou indo pra lá. Tenho de pagar quatro contas.

– Perguntei aonde você quer chegar com tais perguntas, ô, desmiolado.

– Você me disse, Zé, que cobra de quatro asas, dois pés e um chifre não existe porque você jamais a viu.

– Não. Não. Eu disse que não existe porque não existe.

– Mas você nunca viu tal cobra.

– De fato, nunca vi.

– Mas eu vi.

– E você persiste, João?? Deixe de asneira. Vocé viu uma fantasmagórica miragem.

– Ao não ver uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre, você não prova que tal cobra não existe.

– Não existe. Não vi

– Você já viu o seu cérebro?

Não… Mas… Ora… Vá se danar, João. Você é louco, e quer me enlouquecer. Deixe de peneiras… Já nem sei o que digo. Esqueça tal assunto. O Timão ganhou, ontem, o jogo. Três a zero.

– Não ganhou, não. Eu não vi.

Durma-se com um barulho desses!

Faz frio, ou calor?

Era uma vez…
Samantha, moça na primavera dos seus dezoito anos, morena cor de jambo, de olhos amendoados, lábios sedutores, cintura de vespa, quadris de tanajura, cabeleira a encachoeirar-se pelos ombros estreitos, pernas bem esculpidas, de um corpo, enfim, divino – que me desculpem a ousadia.
Naquele dia, de temperatura de congelar pinguim, saiu a beldade, às oito da manhã, da sua casa. A sua indumentária, a de uma nativa pré-cabralina; não digo que ela estava nua, inteiramente nua, como a natureza a deu ao mundo, porque cobria-lhe os pés mimosos chinelos-de-dedos, o quadril uma faixa de pano que atende pelo nome de shorts, e o busto generoso uma tira de tecido diáfano, e as orelhas brincos multicoloridos. Cruzou o caminho de Beatriz, sua amiga, que, assim que deteve nela os olhos, esgazeou-os a ponto de arremessá-los para fora das órbitas e, com voz e palavras que lhe traíam a surpresa involuntária, exclamou:

– Sam, meu Deus! Você está no Saara!? Nossa! Eu, a tremer de frio, e você…

– Oi, Bia. Meu corpo não reage ao clima segundo as leis da natureza.

– Sei… Exibida.


E Samantha e Beatriz rumaram, juntas, ao mercadinho.

O Homem que se Machucava Demais.

Não tinha Valério o porte de um portentoso e atemorizante guerreiro viking, nem o tipo escultural, apolíneo, de um herói helênico do tempo de Péricles; e tampouco o de um desgracioso, minúsculo, franzino pigmeu. Não era ele um varapau esquálido, risível e desengonçado, tampouco um gigante tourino, enxundioso, pesado; era um homem comum, de nariz comum, e comuns lhe eram os lábios, e o nariz, e as orelhas, e o queixo, e o rosto desguarnecido de barba e bigode, e a testa, e as mãos, e os dedos, enfim, era ele uma figura comum, esbelta, que já contava a idade de vinte e seis anos. Mas comum não lhe era a cabeleira frondosa, espessa, que lhe ataviava a cabeça, esta comum, e elevava-se do chão um metro e setenta centímetros de altura, aumentando-lhe a estatura em uns cinco centímetros. Invejavam-lhe a cabeleira, misto de juba leonina e crina equina, homens e mulheres, estas mais do que aqueles. Não era Valério um portento de força capaz de erguer uma tora de madeira de cem quilos e carregá-la por um quilômetro, e tampouco um fracote desguarnecido de músculos que mal conseguia erguer uma pena de galinha-d’angola. Extrovertido, e brincalhão, e espirituoso, de índole cativante, que alegrava o mais casmurro dos homens e a mais resmungona das mulheres, de todos a extrair, e sem esforço, sorrisos, risos e gargalhadas, estava sempre a surpreender com suas histórias seus familiares e parentes, e seus amigos e conhecidos, e seus colegas de trabalho. Casado, havia um ano e dois meses, com Jacqueline – que fazia questão de inscrer, em seu nome, o “c” entre o “a” e o “q” – bonita moça de vinte e dois anos, pequena, de um corpo frágil, quebradiço, dir-se-ia de vidro – tal observação dá a entender ao leitor que era a consorte de Valério mulher enfermiça. Reconsideramos, portanto, as palavras que usamos para descrevê-la, e com estas palavras a apresentamos: Era Jacqueline – e não nos esqueçamos do “c” entre o “a” e o “q” – pequena, magra, de cristal, doce, meiga, de pele acetinada, sedosa, de sorriso encantador; um modelo perfeito de uma ninfa, uma sílfide, uma naiade; era ela uma sereia; seus cabelos, atavios que lhe sublimava a beleza; seus olhos, lábios, sobrancelhas, cílios, nariz, orelhas, queixo, maçãs-do-rosto, cabelos, e mãos, e pés, incomuns, raros, dir-se-ia fantásticos, irreais. Mas eram reais, verdadeiros. E hipnotizaram Valério, um dos muitos pretendentes dela; e ela, de todos os homens que a requestavam, decidiu com ele unir-se em cerimônias matrimoniais civil e religiosa, porque não lhe resistia às espirituosidade e graça autênticas, que muito a faziam rir. E invejavam Valério os amigos dele, os solteiros, à procura cada um deles de sua cara-metade, e os casados, que sempre que comparavam a figura de Jacqueline cada qual com a de sua esposa, suspiravam, uns, trangredindo o décimo mandamento, a lamentarem haver um dia decidido vestirem uma aliança no dedo anelar da mão esquerda, e diante de um padre, ou, simplesmente, de um juiz de paz.
Tem princípio a nossa história num sábado ensolarado do mês de Novembro, à tarde, segundos antes do início do crepúsculo. Conta a nossa história três capítulos da vida de seu herói, o já apresentado Valério, o felizardo marido de Jacqueline. O primeiro passa-se em um bar, o segundo em uma casa, e o terceiro em um pronto-socorro. No desejo de não trocarmos os pés pelas mãos, não nos anteciparmos aos eventos, não acelerarmos a narrativa sonegando informações ao leitor, iremos por partes, num ritmo lento, mas não demasiadamente lento, com as minúcias que achamos apropriadas.
E vamos ao bar. E não a um bar qualquer o Valério foi. Ele foi ao bar do Evandro Saraiva, o popular, naquele bairro, e nas adjacências, descendente de nativos de alguma colônia portuguesa na África e de silvícolas ameríndios que escaparam das mãos de bugreiros, Tupi Guaraná, bar distante de sua casa uns duzentos metros, no quarteirão vizinho, à direita, na esquina das ruas Damião de Góes e Manuel Antonio de Almeida. E foi a passos lentos, como que a calcular-lhes os centímetros que cada um deles cobria, e a cronometrar seus movimentos, em cada passo a gastar o mesmo tanto de segundos, a cabeça ligeiramente abaixada, a sorrir, antecipando-se à cena que, desejava, criaria, uma peça, digamos, que pretendia pregar em quem no bar estivesse. Carregava, no braço direito, gesso, que o cobria quase que por inteiro. Com os dedos da mão esquerda coçou o peito, metros antes de chegar ao seu destino; e assim que sentiu algo lhe tocando a cabeça, passou-lhe a mão esquerda ao mesmo tempo que se deteve, e olhou para cima, à procura não sabia do que. Não encontrou o que o atingira; abaixou a cabeça, olhou ao redor, esquadrinhou o chão, e viu galhos e folhas, e concluiu que algum galho, pequeno, lhe acertara a cabeça. E seguiu rumo ao bar, onde chegou pouco depois. E mal transpusera o enquadramento da porta, anunciou-se. Assim que pôs os pés no território do Evandro Saraiva, passou ao seu lado, quase lhe tocando ombro com ombro, um homem de altura que equivalia à sua, gordo, calvo, trajado com uma bermuda, que lhe estava colada às coxas, e uma camisa, que lhe deixava à mostra a metade inferior da barriga proeminente. Saudou Evandro e os dois outros homens que com ele palestravam, ao balcão, todos animados, a se pronunciarem em alto e bom som, e a gargalharem, então perdidos numa animada confabulação acerca de futebol, todos a enodoarem a progenitora do árbitro da partida. Voltaram-lhe os três a atenção, um deles, naquele momento, a levar à boca o copo americano com cerveja alemã. E mal o viram, intrigaram-se, a atenção deles a convergirem-lhe para o gesso que lhe cobria o braço direito. Eram os dois amigos-de-copo de Evandro Saraiva, um, baixote, moreno acobreado, homem de vida difícil, via-se, de rochosa musculatura, semi-calvo, Renato, também chamado, pelos amigos, Galo de Briga, o outro, robusto, moreno, de estatura mediana, de cabelos encaracolados, preto-foscos, o Lobato, assim alcunhado devido às suas espessas sobrancelhas, e cujo nome de batismo era Vicente João Serafim Ricardo.
Antecipando-se aos seus dois amigos, Evandro, curioso, perguntou, zombeteiro, a Valério:

– Quebrou a patinha, donzela?!
Riram Vicente e Renato. E Vicente espetou, com um palito-de-dentes, que tirara de dentro de um copo com cerveja até a metade, um ovo de codorna cozido, e levou-o à boca.
Valério exibiu, então, aos três homens, o braço direito coberto com gesso, com ar triunfante, como se lhes exibisse um troféu arduamente conquistado, e antes de responder à pergunta que lhe fôra feita, Evandro fez-lhe segunda pergunta:

– O que houve, Valério?!

– Ouço o que me chega aos ouvidos. – respondeu-lhe o nosso herói. – Não sou surdo, ô, cacique txucarrapai.
Gargalhou Renato, visivelmente ludibriado pela loira gelada que namorava há alguns minutos. E Vicente sorriu, a inspirarem-lhe o sorriso a pergunta que Evandro fizera a Valério, a resposta que este lhe dera e a gargalhada de Renato.

– Vá se danar, paspalho – replicou Evandro.

– Oi, Galo – saudou Valério a Renato, que foi uns dois passos em sua direção, e deu-lhe três tapas no ombro direito, e passeou-lhe a mão pelos cabelos, acariciando-os, ao mesmo tempo que lhe dizia:

– ‘tá luzidio, Valérinho. De barriga cheia. Que vida mansa, marajá.

– Luzidio, eu, garnizé?! – observou Valério. – Veja suas penas. Brilham ao sol. Penas de ouro e de prata. Que exuberância.

– Apanhou da sua mulher? – perguntou Vicente ao recém-chegado.

– Antes fosse – respondeu-lhe Valério. – Dela eu receberia, e com muito gosto, a pancadas.

– Até eu – afirmou Renato, sorrindo tolamente. – A sua muié é uma tetéia.

– Não me desrespeite, franguinho. – replicou Valério, num tom jocoso. – Olhe o mandamento.

– Respeite a mulher do Valério, Galo de Briga. – reprovou Evandro a atitude de Renato.

– Não esquenta, Valérinho – desculpou-se Renato. – Fêmea de amigo meu para mim é macho.


Valério sorriu ao vê-lo pendular-se para a direita e para a esquerda.

– Vá beijocar a loirinha, galinho. – sugeriu-lhe Valério, que, voltando-se para Evandro, perguntou-lhe: – Quantas geladas o passarinho já bebeu?
Antes que Evandro lhe respondesse à pergunta, entrou no bar, com um jornal dobrado sob a axila esquerda, um magricela branco, de cabelo curto, penteado ao meio, trajado com calça e camisa machados de tinta, Gabriel, que, tão logo viu Valério, perguntou-lhe:

– O que houve, Valério?

– Darei a você, Pé-de-Pato – respondeu-lhe Valério -, a mesma resposta que dei para o cacique Tupi Guaraná: Ouço o que me chega aos ouvidos.

– Conte-nos o que aconteceu, zé-mané – solicitou-lhe Gabriel.

– A senhora muié dele – antecipou-se Renato a Valério – sentou a vassoura no lombo dele, sugando-lhe um litro de sangue, e partindo-lhe o braço em três partes, a do meio ele a jogou pro cachorro do Tupi.

– Cacique, por gentileza – disse Valério -, não dê mais nenhuma gota de malte para a criança. – E voltando-se para Renato, aconselhou-o: – Ô, hobbit, ponha o copo, com a boca para baixo, sobre o balcão. E não ponha mais cerveja na boca, ou vai fazer xixi na cama. – E voltando-se para Evandro: – Mestre morubixaba, sábio indígena, discípulo do mestre Yoda, telefone para a mãe do pouca-sombra, e diga-lhe que venha, e já, buscar o filhotinho, que acha que já é galo, mas que ainda não saiu do ovo.
Renato divertiu-se com o que ouviu. Vicente caiu na gargalhada. E Evandro e Gabriel riram – e este pediu àquele cerveja, e ele atendeu-o prontamente.
Assim que restabeleceram conversa, Valério respondeu à pergunta que Gabriel lhe fizera:

– O que me aconteceu!? Vocês querem saber o que me aconteceu!? Contarei o que me sucedeu, tim-tim por tim-tim. Apresentarei aos senhores todas, e mais algumas, minúscias, pormenorizadamente, com detalhes incalculáveis, num relato repleto de emoção, drama, suspense, mistério, surrealista e parnasiano, e barroco e romântico, a minha enocionante aventura, cujo encerramento, que não me foi do agrado, é cômico, quase trágico, e dolorido, muito dolorido, imensamente dolorido. Estava eu, belo e formoso, a tirar da geladeira a caixa com leite, após dela tirar um pote de plástico cheio de gelatina; não era um pote, digamos a verdade; era um prato de plástico; na verdade, não era um prato, nem um pote; mas era de plástico; era uma vasilha de bordas maiores do que as de um prato e menores do que as de um pote. Mas era de plástico, e de plástico fino, frágil.

– Desembucha, matraca. Você fala mais do que a nega do leite – reprovou-o Evandro Saraiva.

– Silêncio, majestoso pajé dos cataporas – retrucou Valério.- Vamos, passo a passo, a narrar a história. Continuemos, caros aristocratas bebedores do mais puro malte: Pus, sobre a mesa, o prato, ou pote, ou vasilha, ou tapoer, sei lá eu o que era aquela porcaria, com gelatina, e, em seguida, a caixa com leite; e assim que fechei a geladeira, de repente, mais que de repente, na velocidade de um raio, entrou, e logo saiu, na cozinha, um pardal, que me atingiu, com seus pés, a cabeça, assustando-me, e desequilibrei-me, e bati com o cotovelo na mesa, e derrubei, com a mão, não me lembro se com a direita, se com a esquerda, a caixa com leite, e leite derramou-se pela mesa e pelo chão, e esparramou-se, e no meu esforço de recuperar o equilíbrio, estiquei-me, desengonçadamente, e pisei na poça de leite, e pousei a mão, na mesa, onde havia leite derramado, e escorregaram-se-me, levando-me para o chão, violentamente, os pés e as mãos, e cai-me sentado. Doeu-me as almofadas. E tratei de me levantar; e assim que me pus de pé, furibundo, enraivecido, descarreguei um soco, e bem dado, na gelatina. E quebrou-se-me o braço. Vejam, senhores cidadãos do reino tupi: meu braço engessado, obra de um tombo, que um pardal me presenteou.

– E do que era tal gelatina? – perguntou-lhe Evandro, intrigado. – De pedra?!

– Não, Saraiva, não. – respondeu-lhe Valério. – Era de limão.

– De limão azedo? – perguntou-lhe Gabriel, divertindo-se com a situação. – Eu não sabia que com limão azedo se faz gelatina tão dura.

– Que gelatina dura, o que, Pé-de-Pato – falou-lhe, Renato, pronunciando, desajeitadamente, as palavras, silabando-as, exibindo dificuldade para coordenar os pensamentos, que lhe saíam aos trancos. – Você não conhece o Valérinho, não?! Ele é uma flor. Quebrou a patinha de moça. Bilu Tetéia.

– O Valério é de porcelana – comentou Vicente, dobrando-se numa gargalhada convulsiva.

– É uma rosa – disse Renato, aproximando-se de Valério, e passeando-lhe as costas da mão esquerda no rosto e deslizando-lhe a mão pelos cabelos.

– Podem rir – disse Valério, num tom fingidamente pernóstico e irritado em meio às gargalhadas de seus três interlocutores. – Gargalhem. Gargalhem. Se vocês conhecessem o final da minha aventura, que eu ainda não contei do princípio ao fim, não iriam rir, nem gargalhar, jamais, nunca. Eu poderia me recusar a prosseguir com a narração; não o farei, todavia, entretanto, porém, no entanto; embora os senhores bebedores de malte, glutões inveterados, não mereçam de mim ouvir nem mais uma palavra, eu, ainda assim, me dignarei a contar aos senhores o que se me sucedeu. Se porventura um raio cair-me sobre a cabeça, ainda assim eu narrarei o que me comprometi a narrar, e com todos os detalhes indispensáveis, queiram os senhores, ou não, mereçam, ou não, os senhores de mim ouvir tão emocionante relato.

– Deixa de lero-lero, e desembucha – reprovou-o Renato.

– Dê-me silêncio, galinho. – pediu-lhe Valério. – Vá cacarejar em outra freguesia. Antes de mais nada, digo: são de aço, e não de porcelana, meus braços. Mas, vejam. Melhor: escutem, escutem atentamente: eu soquei, e com um soco bem dado, daqueles bem dados, num supetão, a gelatina, esmagando-a, pulverizando-a, esmigalhando-a. E fez-se ouvir o barulho de algo se quebrando; e não era o algo a gelatina; era o meu braço. Ora, soquei a gelatina; e infelizmente, embaixo dela estava a mesa, e não mesa qualquer, de compensado; é a mesa de madeira nobre, jacarandá, herança de meus avós. O osso aqui do braço… Como se chama?! Fêmur?! Não sei. Eu nunca fui bom em poesia. Partiu-se-me o osso em dois. Foi um deus-nos-acuda! A Jacqueline ouviu-me o berro, e correu acudir-me. E num pulo chegamos ao Pronto Socorro. E logo atenderam-me os enfermeiros. E aqui estou, na companhia de três de meus amigos, quebrado, mas inteiro,a bebericar uma geladinha.
E estrondejaram, altissonantes, as gargalhadas.
Entraram no bar outros homens. E Valério logo inteirou-os do que lhe sucedera. Narrou a história, com diferenças insignificantes, quatro vezes, Renato a interrompê-lo a curtos intervalos, infalivelmente a criar cenas hilárias e a embaraçar a todos, em uma ocasião, sendo inconveniente, a ouvir uma reprimenda de Evandro Saraiva, que não admitia em seu território toda e qualquer atitude, e, consciente de seu papel desrespeitoso, desculpou-se com todos, sinceramente constrangido, apesar de sua ligeira ebriez.
Seguiu, animada, a conversa, até as vinte e duas horas.
Encerrado o primeiro capítulo da nossa história, nosso herói, Valério já há um bom tempo recuperado, removido de seu braço direito o gesso – que, um dia antes de o médico lho tirar, estava inteiramente coberto com inúmeras garatujas, e desenhos, uns exemplarmente bem-acabados, e uma pintura de um êmulo de Michelângelo, uma réplica de um afresco que embeleza a Capela Sistina, a obra-prima do admirador do gênio renacentista ladeava a assinatura, cuidadosamente trabalhada, com esmero incomum, de Jacqueline -, damos as primeiras palavras do segundo capítulo da aventura que acompanhamos atentamente.
Transcorreram-se quatro meses do dia que Valério, no bar do Evandro Saraiva, o Tupi Guaraná, anunciou o seu acidente. Estamos, agora, no mês de Março, em um sábado quente e abafado, às dezoito horas.
Valério e Jacqueline, ambos asseados, perfumados, havia poucos minutos banhados na água quente de um chuveiro, retiraram-se de carro, ela ao volante, ele, no banco posterior à direita dela, desajeitado devido ao gesso que lhe cobria a perna direita abaixo do joelho. Para entrar no carro, a amparar-se em muleta de madeira, marrom, manchada de preto em oito pontos, auxiliara-o Jacqueline, que o ajudara a acomodar-se no banco e a livrar-se da muleta. Incomodava-se Valério, que resmungava de tempos em tempos, sempre a adicionar às queixas comentários jocosos, esforçando-se para ver graça em sua situação. Jacqueline trajava um vestido, discretamente decotado, vermelho – que lhe respeitava os contornos do corpo -, as orlas a lhe descerem até os tornozelos, e as alças, finas, a sustentá-lo. Admirou-lhe a beleza e formosura Valério, que lhe disse que ela não tinha que se embelezar tanto, pintar, com tanto cuidado, com esmalte vermelho fosco, as unhas, e tampouco fazer uso de tanto capricho no penteado dos cabelos e dos cílios e das sobrancelhas, pois ela era naturalmente bela, divina, e louvou-lhe a beleza. Jacqueline, ao mesmo tempo que dele acolheu de peito aberto os elogios, pediu-lhe que não tivesse um ataque de ciúmes tal qual o que dera uma semana antes, na festa de casamento de um casal de amigos. Valério careteou.
Iriam à casa dos avós maternos de Jacqueline, Joaquim e Isabel, para a efeméride: septuagésimo quarto aniversário natalício do mais antigo ancestral vivo de Jacqueline, o vovô Joaquim, ancião pacato, de poucas, quase nenhumas, palavras, que, havia dois meses, na mesa de cirúrgias de um hospital, foi retalhado por um cirurgião, que lhe instalara duas pontes-de-safena, às pressas, após ele sofrer uma parada cardíaca que quase lhe roubara a vida.
Na casa de Joaquim e Isabel chegaram Valério e Jacqueline vinte minutos após retirarem-se de sua casa, ela a dirigir, com cuidado extremo, o carro, por ruas esburacadas, e mal-iluminadas, algumas envoltas pela escuridão, pois estavam apagadas as lâmpadas dos postes, e ele a reclamar do sacolejar do carro, movimentos abruptos que lhe provocavam dores na perna envolta em gesso.
E retiraram-se do carro. Mal havia Valério pousado a perna esquerda na calçada, escorando-se, desajeitadamente, na muleta, e Jacqueline a ladeá-lo, e de bem perto, aproximaram-se dele, curiosos, animados, eufóricos, sorridentes, Bianca e Bruno, gêmeos, de cinco anos, sobrinhos de Jacqueline, ele vestido com uma bermuda azul e uma camisa verde, e nos pés tênis pretos amarrados com cadarços brancos, e cabelos desmanchados, ela, com uma calça amarela e camisa branca, carregando, nos pés sandálias, e trazendo, presos, com uma presilha de plástico, os cabelos longos.
E Bianca, que se antecipara a Bruno um passo, abriu os braços para abraçar Valério, que se curvou, esforçando-se para não deixar seu rosto transparecer o desconforto que tal gesto lhe inspirara, para a frente, e ofereceu-lhe o rosto direito, que ela osculou, carinhosamente, ao mesmo tempo que Jacqueline agachava-se, e punha-se de cócoras, e abraçava e beijava Bruno, que lhe saltara aos braços num pulo prodigioso quase vindo a derrubá-la para trás. E saudaram-se com abraços e beijos Jacqueline e Bianca, e com um beijo Valério e Bruno. E assim que encerraram as saudaçoes calorosas, os beijos, os abraços,e Jacqueline pôs-se de pé, Bruno voltou-se para Valério e, apontando-lhe a muleta,perguntou-lhe:

– O que é isso, tio? É uma espingarda?
E Bianca chamou a atenção de seu irmão:

– Não, né, Bruno. O tio não é soldado.

– Marcha soldado, cabeça de papel; se não marchar direito, vai preso no quartel. – cantarolou Bruno. – Não é assim, tio, que soldado canta, e canta e marcha?

– É – respondeu-lhe Valério. – É assim que soldado canta, encanta, e marcha.

– Mas o que é isso? – perguntou-lhe Bianca, apontando a muleta.
E Valério respondeu-lhe:

– O meu estepe.

– Estepe!? – indagou, curiosa, a menina.

– É uma bengala – respondeu Valério, escondendo para si o sorriso que lhe animava o espírito.

– Bengala?! – indagou-lhe Bruno, intrigado, cismado.

– Não é bengala, não – observou Bianca, séria. – Não é um pão. Bengala é pão. Isso – e apontou para a muleta – não é pão. É madeira, madeira de árvore.

– É tábua – corrigiu-a Bruno.

– É madeira – replicou Bianca.

– Não é madeira, não – retrucou Bruno. – É tábua. Tábua é feito de árvore.

– Madeira também é feito de árvore, né, bobo!? – corrigiu-o Bianca, mostrando-lhe a língua.

– Bobona – xingou-a Bruno, que logo voltou-se para Valério: – Tio, isso – e apontou a muleta – não é estepe, não. Não é, não. Isso – e mais uma vez apontou a muleta – não é um pneu de carro.
Valério e Jacqueline não conseguiram controlar o riso. Jacqueline exibiu uma fileira de dentes brilhantes de tão brancos, perfeitos, lácteos. E Valério disse para as duas crianças:

– Vocês me pegaram, danadinhos. Isto – e indicou-lhes a muleta – não é estepe, nem bengala. É um cajado mágico de um bruxo feiticeiro do castelo do rei Príncipe Leão, vossa majestade do reino encantado. Muleta é o nome deste cajado; tem o poder de me amparar; se eu não o deixo, assim, encaixado, aqui, embaixo do sovaco, caio de bumbum no chão. Ai. Ai. Ai – fez que havia caído.
A representação dramática de Valério arrancou ondas de gargalhadas de Bruno e Bianca.
Aproximou-se deles, Laura, irmã de Jacqueline, de dezessete anos, de cabelos escorridos, tão brilhantes, que chamaram a atenção de sua irmã, que não se conteve ao elogiá-la. Beijaram-se as irmãs no rosto, ambas encostando-se os rostos, sem tocarem neles os lábios, movendo-os como se se osculassem. E Jacqueline avaliou os cabelos de Laura, pegando-os, cuidadosa e carinhosamente, e deixando-os escorrerem, suavemente, por entre os dedos das mãos.
Enquanto as irmãs conversavam, e admiravam-se, entretinham-se, numa palestra animada, Bruno, Bianca, e Valério, aqueles concentrados nas palavras deste.

– O senhor está com a perna quebrada, né,tio? – perguntou Bianca a Valério.
E antes que Valério respondesse, Bruno indagou-lhe, ao mesmo tempo que coçava o nariz e ajeitava a bermuda:

– Tio, por que o senhor quebrou a perna?

– Não foi de propósito, acredite – respondeu-lhe Valério. – Sabem o que me aconteceu? Não sabem, é claro. Vou contar para vocês o que houve. Eu estava, na varanda da minha casa, que é, também, a casa da tia Jacqueline, que manda quando não estou lá, a lavar o carro, um calhambeque aristocrático, e não uma lata-velha caindo aos pedaços, com água e sabão, mais água do que sabão, e muito sabão. E eu a passar a esponja com água e sabão no carro, e no carro a esguichar água para dele remover o sabão, até o carro brilhar de tão limpo, a assumir a figura de uma pedra preciosa. Brilhava que era uma beleza o meu carro. E eu, assim que olhei perto da roda de trás, não me lembro se do lado direito, se do esquerdo, vi uma gigantesca montanha de espuma.

– Bem grande? – perguntou-lhe, curiosa, Bianca.

– Enorme. Imensa. – respondeu Valério. – Enorme de tão grande. Imensa de tão enorme. Grandiosa. Maior do que todas as montanhas que existe em todo o mundo.

– E em toda a galáxia – completou Bruno.

– Sim. – confirmou Valério. – Em toda a galáxia. E até o infinito, e além. E lá estava a montanha de espuma, bem diante de meus olhos. E eu, não sei porquê, usando todo o poder intelectual da minha massa cinzenta, o miolo que recheia minha cabeça de homem sábio, decidi, para desfazê-la, dar-lhe um pontapé, e bem dado. E dei-lhe o chute. E quebrou-se-me a perna. Ai. Ai. Ai. Doeram-me pé e perna. Era tanta, mas tanta, a dor, que, não me aguentando em pé, fui parar, no chão, a berrar igual neném que apanha no bumbum.

– Mas, tio, espuma de sabão nem é dura – observou Bruno.

– É verdade – comentou Valério. Espuma de sabão não é dura. A espuma de sabão, meu querido sobrinho, não é dura, eu sei, você sabe, tu sabes, ele sabe, e ela também, nós sabemos, vós sabeis, eles sabem, e elas também, mas a roda, roda de metal, de adamantium, que a espuma de sabão escondia, é. É duríssima. Mais dura do que a minha cabeça. Duríssima. Que dureza! Doeram-me à beça pé e perna. Chorei, até, de dor, e dor bem doída. Não sei qual fenômeno se me envolveu, que, além de quebrar ossos dos dedos do pé, quebrei o da perna direita, a… Tíbia?! Não sei. É assim que se diz?! Sei lá. Geometria não é o meu forte. Foram pras cucuias os ossos.
As duas crianças gargalharam. Durante a festa, elas, mais do que Valério e Jacqueline, encarregaram-se de espalhar a história para todos os presentes na casa de Joaquim e Isabel.
Valério ainda não havia encerrado a sua narrativa, da casa dos avós de Jacqueline saíram Joaquim, um irmão deste, Pedro, e uma filha deste, Maristela, que ficaram a ouvir as derradeiras palavras do relato de Valério, que, assim que o encerrou, saudou-os e abraçou-os. E trataram todos de entrar na casa do aniversariante.
Encerrado o segundo capítulo da aventura de Valério, chegamos, agora, ao terceiro capítulo, que é o último que aqui relatamos, para, ao seu final, darmos fim à nossa história, à qual nos dedicamos, com agrado e boa-vontade, durante alguns minutos de nossa curta existência. E este terceiro e derradeiro capítulo, já dissemos, passa-se em um pronto-socorro.
Estamos, agora, no mês de Junho, na manhã, um pouco antes das sete horas, de uma quarta-feira de frio de trincar ossos, de fazer toda pessoa bater os dentes, uma espessa neblina a cobrir toda a cidade, impedindo as pessoas de verem o que havia a um palmo à frente do nariz.
No saguão de entrada do Pronto Socorro Municipal, estava, sentado numa cadeira-de-rodas, Valério, e a empurrá-la Sócrates, seu irmão. Detiveram-se à porta, à espera do carro que os conduziria à casa de Valério. Trazia o nosso herói uma atadura na cabeça, os dois olhos quase invisíveis, o esquerdo oculto sob espessa camada de pele preta-arroxeada, circundados por hematomas, o nariz quebrado, rubro, coberto com uma gase e esparadrapo, o rosto avermelhado, o braço direito e a perna esquerda engessados, e a perna direita inchada tantos eram os machucados que a cobriam. A aparência de Valério, de dar arrepios. Mal conseguia falar com seu irmão; a voz arrastava-se-lhe pelo esôfago, e nos dentes, encontrando dificuldades, praticamente intransponíveis, para lhe saírem da boca. Sempre que desejava falar ao seu irmão, este curvava-se, ligeiramente, para a frente, e punha-lhe a orelha à boca.
Estavam, à entrada do pronto socorro havia uns vinte minutos, quando abordou-o Denilson, amigo de Valério desde o pré-primário; ambos não se viam desde o casamento de Valério com Jacqueline. Assim que se aproximou deles, Denilson exclamou, surpreso, e sem esboçar vontade de ocultar sua surpresa:

– Ó mai góde!
Voltaram-se para ele Valério, e Sócrates, que lhe estendeu a mão direita, para apertar-lhe a direita, que ele lhe oferecia. E Denilson, encostando-se em Sócrates, e saudando-o com um bom-dia, e dando-lhe tapas fraternais nas costas, perguntou a Valério:

– O que aconteceu com você, Valério?! Atropelamento?! O que aconteceu? Meu Deus, Valério. Você está um bagaço. Um caminhão passou por cima de você?
Valério não respondeu; esboçou um sorriso acanhado, que se assemelhava ao esgar repulsivo de uma quimera fabulosa, monstruosa, mitológica.
Esperou Denilson pela resposta, mas obteve de Valério apenas silêncio e um olhar desaprovador. Diante de tal cena, Sócrates informou a Denilson que Valério mal podia falar, e pediu-lhe que dele se aproximasse. Denilson, então, curvou-se, pousou as mãos nos braços da cadeira-de-rodas, e perguntou a Valério:

– Um caminhão passou por cima de você? Ou foi um trem?

– Antes fosse – respondeu-lhe Valério, ciciando. – Antes fosse, Nil. Mas o veículo que me esmagou é maior, e mil vezes mais destruidor.

– Diga-me o que aconteceu – pediu-lhe Denilson, sua curiosidade atiçada pelas palavras enigmáticas de seu amigo. – Conte-me a história do começo ao fim.

– Nos mínimos detalhes? – perguntou-lhe Valério, esboçando um sorriso grotesco.

– Sim – respondeu Denilson. – Nos mínimos detalhes, e nos máximos, também, se os houver. Não me deixe de falar todos os pormenores. Estou curioso. Nunca vi você assim; ‘tá parecendo um pântano de tão disforme. Não sei que idéia eu quis expressar com tal observação, mas tudo bem. Esqueça o que eu disse, e conte-me o que se deu contigo.

– Eu dei um tapa na cara da Jacqueline, a minha querida esposa. – respondeu Valério, com dificuldade, as palavras mal lhe saindo da boca, e obrigado a fazer curtos intervalos entre cada uma das palavras que dissera e a repetir as mais extensas.

– Quê?! – surpreendeu-se Denilson com a revelação. – Ora, Valério. Não vá me dizer que a Jacqueline fez de você um bagaço. Conte-me outra, que esta não colou. A Jacqueline, tão pequena, tão frágil, tão fraquinha, fez de você saco de pancadas?! Não acredito.

– Espere, Nil – pediu-lhe Valério, sussurrando,paciência. – Não é o que você pensa. Não se precipite. Ouça-me: Discutia-mos eu e a Jacqueline. Mais ela comigo do que eu com ela. Íamos a berrar, a xingar um o outro, não me lembro porquê, e ela me disse não me lembro o que. Não me lembro o que ela me disse. Não me lembro. Dói-me a cabeça. Ela me disse algo que me tirou do sério, e do sério eu saindo, melhor, eu sendo tirado, perdi a cabeça, a compostura, a decência; e sem pensar duas vezes, dei-lhe um tapa, de supetão, na cara, com a mão direita; a direita, sabe? a destra. Foi um tapa bem dado. E a Jacqueline levou a mão ao rosto, e olhou-me com aquele olhar, sabe? de raiva, de raiva furiosa, de fúria raivosa. E entendi, então, ao fitá-la, que ela não iria levar desaforo para casa; aliás, estávamos em casa. E ela não permitiria que o desaforo ficasse lá dentro. Denilson, eu não sei, juro, no que eu pensava, naquele momento. Eu não pensava por mim. Eu não me responsabilizava pelos meus atos, mas me responsabilizaram por eles.
Todo o relato reproduzido no parágrafo anterior, Valério o apresentou num tempo que equivalia ao triplo do que gastaria se estivesse de plena posse de seus pulmões, esôfago e boca. Embora não pronunciasse corretamente as palavras e no volume adequado para se fazer ouvir pelo seu interlocutor, fez-se por ele se entender.

– E sua esposa, Valério – indagou-lhe Denilson -, aquela mulher tão frágil, tão meiga, deu uma sova em você?! E você quer que eu acredite nesta patranha?! Que a Jacqueline tem unhas de leoa, eu sei; que ela é brava, eu também sei. Ela herdou o temperamento sanguíneo do pai dela, aquele homem abrutalhado, fruto da miscigenação de nórdicos, bretões, russos, mongóis e visigodos. Até hoje eu não entendi como de um homem tão selvagem e estúpido e chucro nasceu mulher tão meiga e bela. Juro que não entendo. E olha que ela tem os olhos e o nariz dele.

– Não, Denilson – reprovou-o Valério, falando com a mesma dificuldade que vinha enfrentando até então. – Não é o que você está pensando. A Jacqueline é inocente. Não é ela a personagem mais importante da história. Não foi ela, é claro, que me moeu. Foi o irmão dela. Lembra-se dele?! O David?! David, aquele grandalhão, aquele brutamontes, aquele bárbaro da Ciméria. Homenzarrão de três metros de altura e dois de largura. Davi pequeno é só o da Bíblia. O David, meu antagonista, é um dos monstros da mitologia. De qual mitologia, não sei. Mas que ele é um monstro, é. Um monstro boxeador, lutador de muay-tai, de karatê, e de não sei quais outras, umas cinco ou seis, artes marciais. Coisas de marciano. Reconheço, Nil: o David é um bom homem. E é um ótimo irmão, ninguém há de negar. E é meu cunhado. Meu cunhado favorito. Ai! Dói-me o corpo; dói-me todo o corpo. Dos pés à cabeça. Até as unhas. Mas só dói quando eu respiro.

Faz calor, ou frio?

Era uma vez…
João Cascudo, descendente dos neanderthais, homem de meia idade (e o que eu quero dizer ao dá-lo de meia-idade, não sei), de estatura mediana, barriga pronunciada, de poucos fios de cabelos espalhados pela cabeça razoavelmente agigantada. Num dia de sol de rachar a cabeça de todo filho de Deus, saiu à rua com indumentária típica dos esquimós. Abordou-o Paulo, seu vizinho, que, ao vê-lo, perguntou-se, divertido com a figura bizarra dele, o que lhe ia na cabeça:

– Ô, casca grossa, você está no Pólo Norte?

– Não, songomongo; estou no Pólo Sul – replicou João, sério e sorridente, carrancudo e jocoso.

– E tem pinguim aí, ô, picolé? – persistiu Paulo, zombeteiro, a rir, agora com mais liberdade, de seu amigo.

– ‘tô com frio, ô, diabos!

– Frio!? Você está doente!?

– Doente, ou não, hoje estou com frio. Não sei o que me acontece hoje. Tão logo acordei, desci da cama; ao pôr os pés no chão, tremi, e dos pés à cabeça, de frio, de frio dos infernos.

– Dos infernos!? Dos infernos!? E há frio no inferno!?

– Quem sabe?!


E João e Paulo seguiram, juntos, até a padaria.

Sangue Judeu

  • – Você tem sangue judeu?
  • Por que você me pergunta se tenho sangue judeu?
  • – Os judeus, dizem, sempre respondem uma pergunta com outra pergunta.
  • – E só o povo judeu faz isso?
  • – Não sei. Mas dizem que os judeus nunca respondem uma pergunta com uma resposta. E você é tal qual os judeus, se a lenda é verdadeira. Sempre que alguém faz uma pergunta para você, você responde com outra pergunta, e não com uma resposta.
  • – E ao perguntar, em resposta a uma pergunta que me fazem, não estou dando uma resposta?
  • – Não. Você não responde à pergunta, mas faz outra pergunta, que obriga quem faz a você uma pergunta a dar uma resposta, e aí os papéis se invertem.
  • – Você pode me dar um exemplo?
  • – Posso. Claro que posso. Perguntei para você se você tem sangue judeu, e ao invés de me dizer se tem, ou não, sangue judeu, você me perguntou porque eu perguntara para você se você tem sangue judeu, e eu, então, em resposta à pergunta que você me fizera em vez de me responder à pergunta que eu havia feito a você, disse para você que dizem que os judeus sempre respondem uma pergunta com outra pergunta e não com uma resposta. E aqui estamos nós dois, eu respondendo às perguntas que você me faz. E você ainda não me disse se você tem sangue judeu.
  • – E por que eu diria a você se tenho, ou não, sangue judeu?
  • – E você não pode me dizer se você tem sangue judeu?
  • – E por que você quer saber se eu tenho sangue judeu?
  • – E há algum mal eu querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E por que haveria algum mal em querer saber se tenho sangue judeu?
  • – E quem disse que há algum mal em querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E não foi isso que você insinuou?
  • – Eu insinuei que há mal em querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E não insinuou, não?
  • – Insinuei?
  • – Se você não insinuou que há mal em querer saber de mim se tenho sangue judeu, por que você me perguntou se há mal em querer saber se tenho sangue judeu?
  • – E eu tal pergunta fiz por que eu vejo que há mal em querer saber de você se você tem sangue judeu?
  • – E não vê mal, não?
  • – Vejo?
    … e a conversa prossegue indenifidamente.

Enganou-me o vendedor de livros.

– Sérgio, comprei gato por lebre. Acreditei no Djalma, do sebo Maravilhas Em Papel, e danei-me. Cinco tijolos de ouropel, e não de ouro. Pagar-me-á caro, muito caro, aquele carequinha vendedor de livros. Deixe estar, jacaré; a lagoa há de secar. Um dia é da caça; o outro, do caçador. O mundo não para; dá voltas. Aquele pouca sombra vai ver o que é bom para a tosse e com quantos paus se fazem uma canoa. A vingança é um prato que se come frio. Peguei a mania dos anexis. Agora, cheio de suspeitas, irei à delegacia de polícia, e solicitarei ao delegado me mostre a capivara daquele aeroporto de mosquito e pintor de rodapé. O filho-da-mãe, que sabe que sou traça-de-livros e rato-de-biblioteca, telefonou-me, hoje, de manhã, um pouco antes das dez, e disse-me: “Senhor Gilberto, tenho em mãos cinco volumes de um dicionário do Laudelino Freire, novíssimos. Sei que é o autor do teu agrado. Estás interessado em adquiri-lo?” “Do Laudelino Freire!?”, perguntei-lhe, admirado, espantado com tão agradável surpresa. “Sim, senhor Gilberto. Do Laudelino, o mestre Laudelino.” “Dicionário novo, Djalma?!” “Novo, não, senhor Gilberto. Novíssimo!” “Mande-mos, imediatamente. Quero recebê-los ontem. Se é do Laudelino, é meu. Cinco volumes?” “Sim. Cinco volumes.” “São meus os cinco. O Laudelino fará companhia aos mestres Silveira Bueno e Caldas Aulete.” “Negociemos o preço.” “Diga para o boy trazer o Laudelino, Djalma. Enquanto ele vem, negociaremos o preço de tal preciosidade. Negociaremos o preço, que o valor é inestimável. Agraciaram-me os deuses, que hoje estão de boa veneta, com a fortuna! E assim que o boy chegar, pago-te no cartão.” “Sim, senhor Gilberto. Ordem dada, ordem executada. O boy já saiu daqui. Chegará na tua casa num pulo.” E assim foi, Sérgio. Assim foi. Nem bem eu e o Djalma havíamos acordado o preço do dicionário, toca-me a campainha. Era o boy com o pacote. Paguei-lhe o preço combinado com o Djalma, e entregou-me o boy o pacote, que pesava, mensurei-lhe a tonelagem assim que o tive em minhas mãos, dois mil quilos. Despedi-me do boy, fechei-lhe, com certa má educação, reconheço, a porta, antes, mesmo, de ele me haver dito ‘Tenha um bom dia, seu Gilberto”, e corri, desajeitadamente, pois era demasiado o peso dos livros, à sala-de-estar, onde, exausto, cheguei, cachoeiras de suor a escorrerem-me das têmporas, e com a língua para fora da boca, e célere pus-me a abrir o pacote. E aos meus olhos reluziram cinco livros, grossos, grandes, imensos, monumentais, grandiosos, de capa dura, marrons. Admirei-os. Temi tocá-los. Acreditei que se os tocasse, eles desapareceriam como num passe de mágica. Eu sonhava! Sonhava, maravilhado, no sétimo céu, num estado espiritual de alumbramento indescritível. Peguei o Laudelino. Acalentei-o. Embalei-o. Na lombada do volume um, eu li: Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, e o venerável nome do autor de tão prestigiada obra, Laudelino Freire. E com suavidade movi-lhe a capa; e li a edição: era a segunda; e a editora: Livraria José Olympio Editora; e… e… Sérgio, você não me acreditará o que li ao pé da página. Jamais. O ano da publicação do dicionário: 1954. Novíssimo! Novíssimo, disse-me o Djalma, aquele pé-de-soldadinho-de-chumbo! Tem o dicionário sessenta e oito anos de vida! Sessenta e oito! É quase um ancião! Novíssimo, disse-me o Djalma, aquele tratante! Pagar-me-á muito caro, com a vida, aquele anão-de-jardim! De 1954! Novíssimo!? 1954!

Remédios e galos

Chegado à ancianidade, cabelos grisalhos, poucos, a cobrir-lhe a cabeça, João, após um colapso cerebral, à recomendação do neurologista, passou a ingerir, todo dia, dois comprimidos de um medicamento de estímulo neurológico. Um dia, no rancho da sua casa, abriu o frasco de comprimidos, e foi, copo de vidro à mão, ao filtro, encheu de água o copo, tirou do frasco dois comprimidos, e assim que ouviu dois de seus galos se lhe aproximando, de papo vazio, lembrou-lhe que não lhes dera milhos. Foi até a vasilha de plástico cheia até à boca de milho, dela tirou uma “mãozada” de milho, e arremessou-a aos galos; assim que os grãos de milho caíram no chão, notou que entre eles estavam os dois comprimidos. Bateu os pés no chão, para afugentar os galos, mas já era tarde; eles, esfoemados, além dos grãos de milho, já haviam engolido os comprimidos. “Diacho!”, exclamou João. “Peço a Deus que os galos não morram por causa dos comprimidos, que para mim são um santo remédio, mas para eles venenos, talvez.” Deus atendeu às suas preces. No dia seguinte, os dois galos, para surpresa de João, além de não morrerem, resolveram dois problemas, um de trigonometria e um de juros compostos, e durante duas longas horas lucubraram acerca da origem da vida.

Aceita um cafezinho?

Eram sete horas da manhã de um sábado. Roberto e Maria, que acordaram às seis horas, preparavam o café-da-manhã. O dia acordara nublado; o clima, ligeiramente frio. Dormiam, a sono solto, os dois filhos do casal, um menino de nove anos, e a menina, de sete. Assim que Roberto pegou o telefone para contatar seu irmão, com quem iria, às dez horas, ao hospital, visitar o pai, Vinicius, internado, havia dois dias, devido os graves ferimentos que lhe resultaram de um acidente de carro em que se envolvera, soou a campainha, suavemente, uma vez. Abandonou Roberto o telefone e foi à porta; assim que a abriu, exibiu um largo sorriso; diante de si, a figura pequena, de Teresinha, sua tia-avó, irmã de seu avô paterno, mulher nonagenária, de fibra inesgotável. Trajava a idosa venerável um vestido simples, colorido, e tinha presos os cabelos com maria-chiqunha que uma sua bisneta lhe presenteara no aniversário natalício do ano anterior. Foi Roberto saudar sua tia-avó com um caloroso abraço e beijos carinhosos e afetuosos no rosto, e convidou-a para entrar à casa. Entraram. Queria Teresinha notícias de seu sobrinho, o pai de Roberto, e este lhas deu com todas as minúcias que sabia. Entrada na cozinha, a simpática idosa saudou, com todo o carinho do mundo, a esposa de seu sobrinho-neto, e ela lhe correspondeu com carinho equivalente. Havia dez anos não se encontravam para um dedo de prosa Teresinha com Roberto e Maria, desde que estes, recém-casados, deixaram a roça para irem morar na cidade.

– Tia Teresinha – falou-lhe, amavelmente, Maria -, a senhora aceita beber café conosco?

E a nonagenária, sorridente, respondeu-lhe:

– Agradeço o convite, querida. Mas café eu não quero, não. Bebi um bom dedo do pretinho na casa da minha Elizabeth. Não é desfeita. Mas se não for demais pedir, eu aceito um pedacinho de nosco.

Roberto e Maria de imediato entenderam a confusão que a tia-avó fizera; e Maria, antecipando-se a ele, foi à prateleira, desta abriu uma de suas quatro portas, e puxou um pote de vidro, vazio, e disse à Terezinha, mostrando-lhe o pote:

– Perdoe-me, tia. Esqueci que tinha acabado… Mas temos bolachinhas, biscoitinhos e bolinhos de laranja.

– Não se acanhe, menina – disse-lhe Teresinha. – Eu aceito uns biscoitinhos. São de nata?

– Temos de nata e de leite – respondeu Maria.

– Então eu comerei um de cada. Ou mais – disse Teresinha, que sorriu, divertida.

O café-da-manhã foi recheado de lembranças.

Convalesci. Estou fora de perigo. Não se preocupem.

Adoeci. De gripe. De resfriado. De febre. Eu aproveitara a promoção, e comprara o pacote anunciado: “Levem cinco vírus pelo preço de um: combo promocional: Covid original, Covid versão Delta, Covid versão Ômicron, Influenza e H1N1. Aproveitem! Cinco vírus pelo preço de um.” Aproveitei a oferta. E eu a perderia?! Sou brasileiro; e não perco oferta nunca. Não deixei que se me escapasse por entre os dedos promoção tão generosa.
Acamado, dores de cabeça a afligir-me vinte e quatro horas por dia, febre a queimar-me, em revoltas incontíveis a fauna e a flora estomacais – tão excruciantes as dores que parecia-me que abutres removiam-me as entranhas -, a debilitar-me diarréias, a pressão arterial a gangorrear violentamente. E eu a cuspir catarros, e meus olhos a eliminarem secreção esverdeada em tal quantidade que me colaram as pálpebras, impedindo-me de ver a luz do dia. E assim vivi um dia, dois dias, três dias, quatro dias, a sonhar com a minha convalescência, o que se deu no oitavo dia de ingente sofrimento. Melhorei, a olhos vistos. Foram-se-me as dores, e a febre, e os vômitos, e as diarréias; enfim, melhorei. E piorei. E meu corpo tornou a arder em chamas, e as dores de cabeças regressaram, constantes, ininterruptas, para me atormentarem, e meus pulmões a encherem-se de catarro, que eu tinha de cuspir assim que me subiam à boca. E passaram-se os dias, a flagerarem-me dores atrozes, e pensamentos agourentos a tangenciarem-me a cabeça; e principiei a delirar; e, repentinamente, para a minha surpresa, convalesci, arrefeceu-se-me a febre, atenuaram-se-me as dores. Enfim, convalesci. Melhorei. Era inegável: Melhorei. E piorei. Tornei à cama. Voltaram-me a febre, as dores de cabeça, os vômitos, as diarréias, as oscilações violentas da pressão arterial. E pensei, durante os delírios febris, com os meus botões: “Pela segunda vez, após melhorar, piorei. Basta! Que eu não melhore mais! Nunca mais! Jamais! Quem, sem que eu melhore, eu sare!” Salutar, a auto-sugestão. O poder da mente é extraordinariamente fabuloso! E assim, sem que eu melhorasse, sarei. E sarei bem. Estou pronto para a próxima.

A Dona Morte chegou! Tranquem-se nas suas casas! A Dona Morte chegou!

Estava, naquele dia de céu azul-anil, uma ou outra nuvem a viajar, pachorrentamente, pela abóbada celeste, caminhando, a manquitolar, com a despreocupação de uma entidade imortal, a Dona Morte, andrajos pretos, felpudos, e tétricos, a cobrir-lhe a pele apergaminhada, ocultando de todos os seres vivos sua figura agourenta. Pontilhava o asfalto com a extremidade inferior de um bastão comprido, tão preto quanto as vestes que a cobriam e em cuja outra extremidade havia uma foice afiadíssima, quando, à sua direita, chegou-se um carro, desacelerando, e cujo motorista, um varapau barbudo de grossas pestanas, perguntou-lhe: “Ô, Dona Morte, o que a senhora faz por estas bandas?”, e ela, voz pausada, ciciante, sibilina, sem se dignar a virar-lhe a cabeça, e sem interromper os passos, respondeu-lhe: “Estou dirigindo-me à cidade Tal.” E o motorista pisou, incontinenti, no acelerador, a ponto de afundá-lo no chão do carro. Estava próxima a cidade Tal. Dela distava Dona Morte um quilômetro. Ia tão lentamente a lúgubre senhora, que precisou ela de seis horas e quarenta e oito minutos para entrar-lhe nos domínios; e dela retirou-se três horas depois, a caminhar, claudicante, a pontilhar o asfalto com o bastão, a foice, rubra, a gotejar sangue, e rumou à sua casa, onde chegou à meia-noite.
Na manhã seguinte, ligou Dona Morte o telefone celular, acessou uma página de notícias, e leu o título, que vinha em letras garrafais, da reportagem principal: “Dona Morte matou vinte e dois mil e seiscentos e quarenta e sete moradores da cidade Tal.”, seguido do subtítulo, em letras menores: “A pequena cidade Tal, de setenta e cinco mil habitantes, vive uma tragédia sem precedentes. O povo chora a morte de seus entes queridos.” E de imediato Dona Morte arregala os olhos, abismada, indignada: “Mentirosos! Eu não matei tanta gente assim, não. Ao chegar à cidade Tal o chão dela já estava juncado de cadáveres. Matei quatro pessoas, apenas quatro. Assumo a responsabilidade por tais mortes. Que as debitem na minha conta. Quanto às outras vinte e duas mil e seiscentas e quarenta e três, debitem-las na do Senhor Medo.”

O preço do açúcar.

Hoje de manhã, domingo, João despertou duas horas mais tarde do que a hora que, nos dias-da-semana, deixa o mundo dos sonhos. É João um filho-de-Deus. Concede-se aos domingos o prazer de estender o tempo que passa a sonhar com beldades em ilhas desertas. Espreguiçou-se. E retirou-se de sob o lençol, e desceu da cama. Banhou-se. E à cozinha foi preparar o café-da-manhã. Ao tirar da prateleira o pote de vidro transparente que usa para condicionar açúcar, viu-o vazio. Tratou de ir ao mercadinho, logo ali, a um pulo, à frente de sua casa. Quanta comodidade! Tirou da gôndola um saco de um quilo de açúcar, e foi ao caixa – melhor, à caixa -, tirou da carteira dinheiro, e pagou pelo açúcar, com um pouco de má-vontade, afinal está o preço do açúcar salgado.

O sobrinho mais velho que o tio.

Estavam, na casa dos senhores Silva, Pedro e Maria, anciãos nonagenários, comemorando o aniversário natalício do patriarca, dezenas de familiares e amigos. O ambiente, animado, contagiante. Dentre os presentes, João, irmão de Pedro, idoso octogenário, de cabeça quase que inteiramente desprovida de cabelos, sendo brancos lácteos os poucos que lhe restavam, e Renato, filho de Pedro, de cinquenta e dois anos, dono de vasta cabeleira branca. Conversavam, na companhia de outros familiares, parentes e amigos, descontraidamente. Em um momento da conversa, Renato perguntou ao seu tio João: “Tio, o senhor tem oitenta e cinco anos, ou oitenta e seis?” E respondeu-lhe seu tio: “Oitenta e cinco.” Renato, então, comentou, simulando constrangimento: “Oitenta e cinco. Puxa! Os homens da sua geração, tio, são mais bem conservados do que os da minha. Veja… Eu, por exemplo, sou vinte e três… trinta e três anos mais novo do que o senhor, e, agora, olhando para o senhor, sinto-me mais velho.” Fez uma pausa; e um bom número de par de olhos o fitaram, na expectativa, esperando, dele, a conclusão do comentário. E assim que se deu por convencido de que criara o ambiente apropriado para arremetar seu discurso, disse Renato: “É verdade, tio. Sinto-me mais velho do que o senhor. Veja bem… Olhe para a minha cabeça: Eu tenho mais cabelos brancos do que o senhor.” E todos caíram na gargalhada.

Interessante diálogo ocorrido numa farmácia

João foi à farmácia comprar remédios para seu pai, acamado há dois dias. Esperou, na fila, para ser atendido, se muito, cinco minutos. Atendeu-o uma graciosa morena de olhos amendoados, sorridente. Enquanto verificava, na tela do computador, o preço de um dos três remédios listados na receita, que João lhe entregara, aviada pelo médico, ela lhe perguntou: “Convênio?”; e João, inexpressivo, respondeu-lhe: “Sem vênio”. E ela exibiu um lindo sorriso de dentes brancos, brilhantes, que muito o agradou. Não havia se passado um minuto, ela perguntou para João: “Quem é Jeremias?”, referindo-se ao nome registrado na receita médica. Ele respondeu-lhe: “É o meu pai”. E ela deu sequência à conversa: “Qual é a doença dele?”. E João, no mesmo tom inalterado, inexpressivo, satisfez-lhe a curiosidade: “Velhice”. A resposta lacônica inspirou sorriso contido à morena que o atendia. Ela fitou-o, sem saber o que pensar; e se se soltava a gargalhada que segurava consigo a muito custo preservando-se de constrangimento. E João logo completou: “E não tem cura”. A graciosa morena passeou o seu delicado dedo indicador direito no narizinho arrebitado que lhe adornava o belo rosto, exibiu um olhar que refletia o seu estado de ânimo, divertido, achando graça do que João lhe dissera e da postura dele, reservada, o rosto dele sem confessar o que lhe ia no íntimo. Mal sabia ela que atrás do rosto impassível de João ocultava-se um outro rosto, que expressava o espírito jocoso, cômico, dele, rosto que estava a gargalhar gostosamente, divertindo-se com o embaraço e a confusão que ela exibia.

Descer para baixo e subir para cima.

– Eu, então, desci para baixo…

– Desceu para baixo!? Mas é para baixo mesmo que se desce.

– Nem sempre.

– Que!? Desce-se para cima!? Não me diga que, além de se descer para cima, sobe-se para baixo.

– Digo.

– Então diga.

– Eu, ontem, desci para baixo…

– Não precisa dizer que desceu para baixo, pois sempre que se desce desce-se para baixo.

– Ontem, deixe-me falar e preste atenção, besta, após subir, para cima, pela escada, da laje, desci, para baixo, pela escada, para o chão. Portanto, subi para cima e desci para baixo.

– Ô, João, você não…

– Cale a boca. Eu ainda não terminei. Ao subir, para cima, pela escada, da laje, eu subi, portanto, para cima, e me pus, então, embaixo do telhado. Eu, portanto, subi, pela escada, do chão, para baixo do telhado. Posso, então, dizer que subi para baixo, neste caso, de cima do chão para baixo do telhado. Entendeu? Eu, depois, ao descer, pela escada, para baixo, da laje para o chão, me pus em cima do chão. Eu, portanto, desci, pela escada, de cima da laje (ou de debaixo do telhado, tanto faz) para cima do chão. Posso, então, dizer que desci para cima, neste caso, de cima da laje (ou de debaixo do telhado) para cima do chão.

– Mas, João, você não entendeu…

– Nem mas, nem meio mais. Vá estudar Língua Portuguesa e lógica básica, e não me torre mais a paciência.

Aula de interpretação de texto

Na sala-de-aula.

O professor:

– Vamos analisar, garotada, esta frase que escrevi na lousa. Vejam. Interpretação de texto. Leiam a frase. Aqui está assim “Na Igreja, casaram-se João e Maria.” O que se quer dizer com tal frase? Quem sabe?

– Que o João casou com a Maria – disse Carlinho.

– Errado – disse o professor.

– Que a Maria casou com o João – disse Marcinha.

– Errado – disse o professor.

– Que o João ama a Maria e que a Maria ama o João – disse Robertinho.

– Errado – disse o professor. – Vamos, gente. Quem sabe? O que se quer dizer com esta frase “Na Igreja, casaram-se João e Maria.”?

– Que na Igreja há um padre – disse Lucinha.

– Errado – disse o professor.

– Que tem bolo de chocolate na festa – disse Paulinho.

– Errado – disse o professor.

– Que o João e a Maria querem ter filhos – disse Vicentinho.

– Errado – disse o professor. – Vamos lá, gente. É aula de interpretação de texto.

– Que João e Maria viverão felizes para sempre – disse Andreiazinha.

– Errado – disse o professor.

– Que o João e a Maria eram solteiros antes de se casarem – disse Marquinhos.

– Não. Não. Não. E não. – disse o professor, meio desanimado.

– Que o padre é homem – disse Martinha.

– Na na ni na não – disse o professor. – Hoje vocês estão muito fraquinhos. Vou explicar o que se quer dizer com tal frase. Atenção. Vivemos… Prestem atenção. Vivemos numa social opressora, e nesta sociedade, que é patriarcal, os homens oprimem as mulheres. Sociedade patriarcal que dizer que a sociedade tem um patriarca, que é homem. Os homens oprimem as mulheres. João, então, oprime a Maria, porque o João é homem e a Maria é mulher. Temos que mudar isso, temos de acabar com o patriarcalismo, que é o governo dos patriarcas, que são homens, que são opressores, que oprimem os oprimidos, e os oprimidos pelos homens são as mulheres. E para acabar com o patriarcado temos acabar com a Igreja, que sustenta o governo patriarcal, que é opressor.

– Nada disso ‘tá escrito na frase “Na Igreja, casaram-se João e Maria.” – observou Beatrizinha.

– Eu sei – disse o professor. – Não ‘tá escrito, mas ‘tá implícito. Daí a importância da interpretação de texto. É importante saber interpretar texto.

– Mas o João casou com a Maria porque ele a ama e a Maria casou com ele porque ela o ama – disse Renatinho.

– Errado – disse o professor.

– É assim que eu interpreto o texto – disse Renatinho.

– Interpretação errada – disse o professor. – Você está ideologizado. Você está oprimido pelo seu pai, que oprime sua mãe, e ambos oprimem você, que é de uma família patriarcal. E seu pai e sua mãe casaram-se numa igreja, que sustenta o patriarcalismo.

– Meu pai e minha mãe casaram-se na Igreja. E meu pai ama minha mãe, que ama meu pai. E eu tenho três irmãos. Sou o caçula. Meu pai e minha mãe estão casados há vinte e seis anos. Já têm bodas de prata – disse Ricardinho.

– Eles não se amam – corrigiu-o o professor.

– Amam-se, sim – retrucou Ricardinho. – Eles me dizem…

– Eles não se amam – replicou o professor, perdendo a compostura. – Eles fingem que se amam. São de uma família tradicional. Eu, que sou professor, tenho preparo para entender o que se passa na sua família; você, não. E eu sei interpretar texto.

– Professor, você disse, na outra aula, que cada pessoa pode interpretar o texto de um jeito e que não existe a interpretação certa, e agora… – comentou Lurdinha.

– Eu sou o professor – interrompeu-a o professor. – Eu sei qual interpretação é a correta: a minha. Eu tenho preparo. Quantos anos eu fui à faculdade estudar o assunto? Muitos. E vocês? Nenhum.

– Mas… – disse Ricardinho.

– Não me questione. Aceitem o que eu disse. Agora, atenção, outra frase. Prestem atenção. Interpretação de texto. Numa empresa, à parede, uma folha de cartolina com a frase “Contratam-se funcionários.” O que se quer dizer com tal frase?

– Que a empresa está contrando funcionários – disse Marquinhos.

– Errado – disse o professor.

– Que a empresa precisa de funcionários – disse Vicentinho.

– Errado – disse o professor.

– Que a empresa quer vender as coisas que tem, mas tem poucos funcionários para vendê-las – disse Renatinho.

– Errado – disse o professor. – Vamos, gente. Interpretação de texto.

– Que a empresa quer vender bolo de chocolate – disse Paulinho.

– Errado – disse o professor.

– Que a empresa vai pagar salário para as pessoas que ela contratar – disse Vanessinha.

– Errado – disse o professor. – Errado. Errado. Nada do que vocês disseram está certo. Vocês têm de aprender a interpretar textos. A interpretação correta da frase é: a empresa, uma instituição capitalista, é opressora, oprime os trabalhadores, que são pelos capitalistas oprimidos…

Para melhor atendê-lo – parte 6 de 6

Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota

O Governo Federal estatizou a economia nacional, eliminou a propriedade privada, e assumiu as responsabilidades inerentes aos afazeres familiares das famílias brasileiras. São justificadas todas essas medidas. Os nossos inimigos burgueses capitalistas ocidentais e os brasileiros por eles cooptados com a promessa de riqueza imediata, fazendo deles, pobres honrados, marajás gananciosos e inescrupulosos, raça que, acreditava-se, estava extinta do Brasil há décadas, intensificaram, nas últimas semanas, os bombardeios ao território nacional, com o objetivo de esfacelá-lo, e o de desvirilizar o heróico, nobre, aguerrido povo brasileiro, que bravamente defende a sua pátria amada, idolatrada, Salve! Salve!, obrigando o Governo Federal a tomar as medidas apropriadas para a conservação da paz e da ordem, e para a manutenção da integridade do Brasil.

O Governo Federal, ao estatizar a economia nacional, nacionalizar as empresas estrangeiras e eliminar a propriedade privada, libera, para o esforço de guerra, as forças do povo brasileiro, que agora não desperdiça nenhum segundo de suas vidas com preocupações mundanas de inspiração burguesa capitalista disseminadas pelos sórdidos estadunidenses. Os brasileiros, antes dessas medidas, preocupavam-se com a manutenção do emprego (em muitos casos, submissos à exploração promovida pela classe empresarial, executavam trabalhos degradantes e eram porcamente remunerados), e os desempregados perdiam muitas horas de suas vidas à procura de empregos, não logravam encontrar uma ocupação que lhes remunerassem, com justeza, as energias aplicadas em tarefas extenuantes, e debilitavam-se, deprimidos com os seus sucessivos fracassos. Além do mais, os trabalhadores, em sua ânsia de acumular fortunas hollywoodianas, faraônicas, cesarianas e elizabetanas, comparavam os salários mensais uns com os dos outros, e os pobremente remunerados, ao notarem as injustiças das quais eram as vítimas eternas, ou caíam na devassidão, ou na criminalidade, sendo, portanto, duplamente injustiçados pela sociedade, que sempre os viu como criminosos, e os agentes policiais (representantes da força opressora dos burgueses capitalistas, financiados com dinheiro público), de atalaia, prontos, sempre, para atacá-los, capturá-los, e trancafiá-los em soturnos cárceres, ou matá-los em processos sumários de justiçamento, os aterrorizavam. Agora, não. O Governo Federal criou a economia do pleno emprego, e equalizou os salários, que estão sob a sua administração. Os funcionários do Governo Federal são preparados para geri-los apropriadamente, livrando, assim, os brasileiros de preocupações concernentes à administração do orçamento familiar. O Governo Federal incumbiu-se destas responsabilidades, livrando os brasileiros de preocupações inerentes à sua vida e à vida de sua família, preocupações estas que lhes corroíam a mente, debilitavam o corpo, e eram fontes de discussões e desentendimentos entre familiares.

O Governo Federal, ao se incumbir da tarefa de educar as crianças e os jovens, o brilhante futuro do Brasil varonil, gigante pela própria natureza, elimina mais uma fonte de preocupações dos brasileiros. O Governo Federal, com a criação do Ministério da Educação Fundamental e Elementar e Avançada para Constante e Ininterrupto Aprimoramento da Consciência Política Nacional, oferece aos brasileiros os instrumentos que lhes permitem viver vida nobre, rica, com o emprego, correto, dos seus talentos e do seu vigor físico e intelectual. Os brasileiros não perderão tempo em busca de conhecimento. O Governo Federal sabe quais conhecimentos são imprescindíveis para a vida saudável, proveitosa e produtiva; e são esses conhecimentos que os brasileiros buscam, mas, despreparados, e sob ação das suas veleidades e idiossincrasias individualistas insufladas pelo capitalismo hediondo e sórdido, não sabem quais são, pois estão desprovidos dos instrumentos intelectuais que lhes propiciem os meios para corretamente avaliarem o que lhes é apresentado, permitindo-os fazer distinções entre coisas diferentes, identificar o que lhes é benéfico e o que lhes é maléfico, e lhes dê sabedoria para decidirem pelo que lhes é benéfico.

O Governo Federal sabe o que o povo brasileiro precisa saber, e é esse saber que aos brasileiros será transferido nos estabelecimentos educacionais nacionais.

O Governo Federal, justaposto a essa medida, publicará os livros que contém a sabedoria governamental e os livros com os conhecimentos adequados à formação moral e intelectual do povo brasileiro. Ao proibir a publicação de livros que não tragam as idéias que defende e, especialmente, a de livros de autores que contestam a sua infalível sabedoria, elimina a angústia sintomática na qual os brasileiros precipitar-se-iam se imergissem em elucubrações metafísicas de cunho religioso, desgastando-se física e mentalmente, o que redundaria em insegurança e confusão mental, que os impediria de concentrarem os seus esforços nos trabalhos indicados pelo Governo Federal. A angústia decorrente da colisão de idéias contrastantes exauriria a força intelectual, vigorosa, incomparável, única, do povo brasileiro. A angústia é desvirilizante, emasculadora. A leitura de livros cujo teor contraria os mais caros fundamentos da sabedoria intrínseca ao Governo Federal, além de improdutiva e desvisgoradora, exigiria, para o seu exercício, isolamento e desgaste intelectual. O vigor intelectual é recurso de uso imprescindível, pelo Governo Federal, para implementação de políticas que assegurem a conservação da paz e da ordem. O Governo Federal impedirá que o povo brasileiro caia neste poço sem fundo. Os brasileiros que se perderem nesta tarefa angustiante, isolados do mundo, num esforço infrutífero, que será baldado, de encontrarem soluções para os problemas que afligem o Brasil, além de imergirem na depressão crônica, que os arremessará num redemoinho de ilusões, alucinações e fantasmagorias extemporâneas, que lhes assaltarão a mente, lhes assacarão a sanidade mental, serão vistos, pelos brasileiros fiéis e leais ao Governo Federal (cuja sabedoria por eles é reconhecida), como indivíduos presunçosos e soberbos, pois estabelecerão uma distinção entre eles e os brasileiros leais, humildes, que acolhem, em atitude patriótica sincera e invejável, as ordens emitidas pelo Governo Federal, em sua incontestável sabedoria, deles se afastando e cavando entre eles (o povo fiel ao Governo Federal) e os indivíduos individualistas (os leitores de livros não-autorizados pelo Governo Federal) um fosso intransponível, rompendo, portanto, consequentemente, o vínculo moral, cultural, social e intelectual que os unia, provocando, nos brasileiros autênticos, reações hostis, de confronto, que culminarão na morte, indesejada, de autênticos brasileiros patriotas; além disso, os brasileiros que se recusam a acolher as ordens emitidas pelo Governo Federal influenciam brasileiros patriotas incautos, que, seduzidos por argumentos serpenteantes, envolventes, distanciar-se-ão de ações comunitárias, e romperão o vínculo com o Brasil, sua pátria, gigante por natureza, terra em que se plantando tudo dá, e debelarão os esforços do Governo Federal para a conservação da paz e da ordem e da manutenção da integridade da Nação. Dilaceram o coração generoso do Presidente da República todas as notícias de abandono, por um brasileiro, de valores patrióticos elementares decretados pelo Governo Federal. A ausência de sentimentos afins e propósitos comuns entre os brasileiros que não se associam para o trabalho de conservação da paz e da ordem entristece o Presidente da República, que, a curtos intervalos, se vê às voltas com pensamentos depressivos – mas não esmorece; reanima-se, revigora-se, restabelece o seu amor pela vida e pela Pátria, recompõe-se, e realimenta-se, conservando, e acumulando, forças para o exercício das suas tarefas patrióticas, para o contínuo esforço de conservação da paz e da ordem, e para a manutenção da integridade do território nacional.

O Governo Federal, ao se incumbir dos afazeres das famílias brasileiras, libertou os brasileiros patriotas das atribuições onerosas criadas, artificialmente, pelos burgueses capitalistas ocidentais herdeiros da cultura judeu israelita.

Os brasileiros patriotas se concentrarão no inadiável e imprescindível trabalho de manutenção da integridade do Brasil e na construção dos alicerces do Brasil do futuro, gigante pela própria natureza.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional.

*

Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

O Governo Federal decreta a proibição de cultos religiosos, a disseminação das religiões, fontes de lendas anticientíficas, mitos inverossímeis, superstições ridículas, e o ensino e a disseminação da cultura dos silvícolas nativos, que, reconhece o Governo Federal, é o canto das sereias recitado pelos inimigos estrangeiros para seduzir os brasileiros para as causas defendidas pelas Pequenas Tabas e pela Grande Taba, que gozam do apoio incondicional de organizações globais. Está expressamente proibido o uso de vocábulos silvícolas nativos; os nomes das localidades para cuja inspiração se serviu da cultura e do idioma dos silvícolas nativos serão substituídos por nomes dos heróis patriotas que sacrificaram a vida para a conservação da paz e da ordem no território nacional. O Governo Federal eliminou todos os centros de resistência antipatriótica em território nacional, e encarcerou os descendentes dos burgueses capitalistas europeus ocidentais, os dos sórdidos estadunidenses imperialistas e colonizadores e os dos europeus miscigenados nos quais predominou o sangue corrompido dos europeus, fazendo, deles, trânsfugas sórdidos e traiçoeiros. Centenas de milhares de burgueses capitalistas ocidentais escaparam, clandestinamente, do território nacional. Felizmente, o Governo Federal avistou-os nas balsas precárias, com as quais eles – estúpidos antipatriotas – pretendiam empreender a travessia do oceano Atlântico, e aportarem nas terras macabras dos sórdidos estadunidenses colonizadores e imperialistas, e alvejou-os. As balsas emborcaram. Os tripulantes, estúpidos, não sabiam que embarcações tão rústicas não superam nem mesmo marolinhas inofensivas. O Governo Federal, ao eliminá-los, para melhor atender aos brasileiros e conservar a paz e a ordem, impediu-os de disseminar, no exterior, mentiras difamatórias sobre o Governo Federal, o Brasil e o seu humilde e nobre povo, e atrair a atenção da mídia internacional, que está nas mãos de burgueses capitalistas ocidentais, israelitas judeus genocidas e sórdidos estadunidenses imperialistas e colonizadores, oferecendo-lhes pretexto para defenderem, nas organizações globais, políticas hostis ao Brasil e capitalizarem campanhas bélicas contra o território nacional.

As Pequenas Tabas e a Grande Taba intensificaram os ataques ao território nacional. Devastaram cidades inteiras. Espalharam o pânico e o terror. Ceifaram a vida de um milhão de brasileiros patriotas que lutaram bravamente pela integridade do território nacional, e os seus nomes ficam gravados nos livros de História do Brasil. Para desgosto do Governo Federal, com apoio irrestrito do governo russo, do governo chinês, do governo iraniano, do governo libio e do governo egípcio, outrora nossos aliados incondicionais, e de governos de inúmeras nações africanas, os revoltosos antipatriotas, traiçoeiros, voltam-se contra os seus descendentes que vivem neste lado do oceano Atlântico, e agridem o Brasil, com o desejo de suprimi-lo do mapa. A ingratidão das Pequenas Tabas e da Grande Taba não deixa de nos surpreender, e de nos boquiabrir, e de derrubar os nossos queixos de incredulidade. Vivemos tempos apocalípticos. Milhões de cidadãos brasileiros morreram, sob ininterruptos bombardeios desfechados pelos burgueses capitalistas ocidentais e fundamentalistas cristãos. Revidamos, energicamente, aos ataques. Logramos vitórias importantíssimas. Todavia, não ganhamos a guerra, que se estenderá, prevê o visionário Governo Federal, por décadas, talvez séculos, talvez milênios, e repetirá, aqui, neste continente, mas com os papéis invertidos, o conflito entre israelenses e palestinos, que se perpetuará até o fim dos tempos.

Em decorrência da elevação das mortes imprevistas e inevitáveis, o Governo Federal, para impedir o escoamento de vida de soldados e a redução das forças militares federais, estabelece, para todo o povo brasileiro, os ‘modos de morrer’ e as ‘janelas de morte’.

A você fica proibido morrer nos campos de batalhas.

A você ficam reservados três modos de morrer:

1, Esfaqueamento pela cônjuge, que, num ímpeto de fúria ciumenta, atinge seu coração, transpassando-o (ela não poderá esfaquear você por outro motivo; se transgredir essa lei, o Governo Federal a enviará a um campo de concentração, e a submeterá, durante dez anos, a trabalhos pesados e a outros afazeres patrióticos);

2, Acidente de carro, na Via Dutra, no período da manhã, na pista sentido Rio de Janeiro-São-Paulo, numa colisão frontal com um ônibus no qual terá de, além do motorista, haver, no seu interior, trinta e cinco pessoas, sendo dezesseis mulheres e dezenove homens. Dentre as mulheres, duas terão de ser crianças recém-nascidas, uma de idade de sete anos, e três jovens com idade entre quatorze e dezessete anos; dentre os homens, quatro terão de ser brancos, loiros e de olhos azuis de qualquer idade. Na colisão, além de você, terão de morrer os quatro homens brancos, loiros e de olhos azuis. Não se admitirá a morte de nenhum outro passageiro, tampouco a do motorista – do ônibus eles terão de se retirar incólumes, lúcidos e sem arranhões; e,

3, Enforcamento involuntário, ao caminhar por uma favela paulista (permite-se a opção de este evento trágico ocorrer numa comunidade carioca fluminense), nos ‘gatos’, que se proliferaram, nos doze meses anteriores à esta data, à revelia do Governo Federal.

As ‘janelas de morte’ selecionadas para você são:

1, do dia 7 ao dia 14 de janeiro, das 9:00 às 12:00;

2, do dia 16 de fevereiro ao dia 4 de março, das 12:30 às 14:15;

3, do dia 15 ao dia 19 de julho, das 7:00 às 7:30;

4, do dia 30 de outubro ao dia 2 de novembro, das 23:00 às 23:30; e,

5, do dia 6 ao dia 10 de dezembro, das 16:00 às 18:00.

Fica a seu critério a escolha da opção que melhor for conveniente a você e atender aos seus desejos.

Antes de encerrar, o Banco informa: caso você não respeite as ‘janelas de morte’ e os ‘modos de morrer’, e morra em dias e horários e de modo não contemplados na política de salvaguarda à vida, que visa o impedimento da redução drástica da população nacional – o Governo Federal não pode produzir patriotas na medida em que eles são necessários, embora o deseje, para fazer frente aos seus numerosos inimigos -, os seus familiares, nas próximas quatro gerações, ficarão impedidas de possuírem nomes próprios.

O Banco informa, também: o Governo Federal, para a implementação das ‘janelas de morte’ e dos ‘modos de morrer’, medidas que revelam a sua prudência visionária e a sua sensatez heróica, recebeu a chancela de Organizações Globais, que acolhem, em seu generoso e nutriz seio, as nações que, em equivalentes situações nas quais o Brasil se encontra, atuam em benefício de seus povos, nobres e aguerridos, vinculados aos interesses universais de conservação da paz e da ordem.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional.

*

Novíssima Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Global.

O Governo Federal, eterno mantenedor da paz e da ordem, generoso protetor e benfeitor do povo brasileiro e o seu legítimo representante, no desejo, sincero, de eliminar as injustiças e as desigualdades sociais, e distribuir para os cidadãos brasileiros a inexaurível riqueza produzida pelos brasileiros, une-se, no seu esforço de manter a paz e a ordem e responder por todas as suas atribuições constitucionais às quais assumiu como legítimo representante do povo brasileiro, à outras nações, e delega, para benefício e bem-estar do povo brasileiro, o governo do Brasil à Organização Global das Nações, única detentora do poderio político, tecnológico e militar capaz de enfrentar os inimigos do Brasil, que são, sabemos, e ninguém o ignora, os burgueses capitalistas ocidentais, que imergiram os Estados Unidos e Israel em hostis políticas isolacionistas e de confronto com as nações que, no desejo de concretizar o sonho universal de paz mundial, conceberam e idealizaram a arquitetura política global.

A Organização Global das Nações, para a conservação da paz e da ordem mundiais, concentrará todas as forças mundiais, eliminando as divergências e peculiaridades nacionais, fontes de conflitos, sofrimento e dor.

As nações mundiais transferirão os seus poderes legislativo, executivo e judiciário para a Organização Global das Nações, e adotarão a Constituição Global, aplicando, assim, as suas forças no exercício de políticas das leis globais que todos os cidadãos do globo respeitarão. E a paz mundial será alcançada. O Brasil, nesta nova era que se inicia, dedicará toda a sua energia, sob os auspícios da Organização Global das Nações, na política de solidificação do edifício global, com a peculiar gentileza e cordialidade do povo brasileiro.

A Organização Global das Nações, no uso das suas prerrogativas, representante legítimo dos cidadãos globais, criteriosa avaliadora da cultura global, estabelece, para benefício da humanidade, um padrão de cultura, em todo o globo, moderno, objetivo, realista, ao eliminar as peculiaridades culturais dos povos, as quais, desde o surgimento das civilizações embrionárias há milhares de anos antes do advento da Organização Global das Nações, produziram miséria, injustiças e desentendimentos entre os povos, que, aferrados, cada um, à sua cultura, ao seu idioma, às suas religiões, hostilizavam a cultura alheia e queriam impor aos outros povos a sua cultura – e foram as culturas tradicionais que submeteram os povos a certos parâmetros de comportamento que, ao colidirem com os de outros povos, também ciumentamente aferrados aos seus valores, produziram guerras, mortandades, genocídios, a aniquilação de povos inteiros e de civilizações. Agora, eliminadas as identidades locais, elimina-se todas as motivações que levaram as nações às guerras, a despeito da recusa dos burgueses capitalistas estadunidenses e dos israelitas judeus sionistas de integrarem a Organização Global das Nações, que, mesmo com os ataques ininterruptos dos Estados Unidos e de Israel – estas duas nações burguesas capitalistas ocidentais materialistas que de todos os expedientes criminosos lançam mão para enfraquecê-la -, fortaleceu-se, robusteceu-se, encorpou-se. Essas duas nações prestaram serviços inestimáveis à humanidade ao não se integrarem à Organização Global das Nações. Estados Unidos e Israel, orgulhosos de sua cultura materialista destituída dos mais caros valores humanos e de respeito à natureza, intoxicados pelo materialismo ocidental e pelo capitalismo burguês, isolados, não cooptarão as nações mais frágeis. Se integrassem a Organização Global das Nações, Estados Unidos e Israel ensinariam aos representantes das nações mais fracas os corrosivos valores estadunidenses e israelitas judeus sionistas, e comprar-lhes-iam a consciência com dólares imundos e promessas fantasiosas inconcretizáveis, e corromperiam os representantes legítimos das nações que acolheram as exortações da Organização Global das Nações, e transferiram-lhe a direção de seus povos, para benefício deles, concentrando, na Organização Global das Nações, os mais bem formados intelectuais do mundo, estudiosos natos e humanistas dedicados à paz mundial, no trabalho de implementação das políticas concebidas pela Organização Global das Nações e na ereção da civilização sonhada pelos humanos há milhares de anos, sonho que os cristãos e os judeus burgueses capitalistas ocidentais impediram de se concretizar. Os camaradas cidadãos globais dedicam-se à ereção deste novo mundo, pacífico, amistoso e harmonioso. Sacrificam os seus lazeres para a realização de um sonho universal.

Com a implementação das políticas globais, serão eliminadas todas as forças que impedem a paz mundial e a harmonia entre os povos. Todos os humanos falarão o mesmo idioma, e não se perderão em cultos supersticiosos a entes imateriais, que são as causas de todas as guerras que já assolaram a humanidade. As crenças religiosas serão apagadas da memória humana. Os humanos pensarão, com o uso da razão, as coisas do mundo. E estarão eliminadas todas as causas de conflitos entre os povos, todos, agora, irmanados num único propósito: A conservação da paz e da ordem mundiais.

De

Camarada Cidadão Missivista Oficial do Sistema Financeiro Global.

*

Novíssima Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Global.

O Banco comunicou a você, camarada cidadão global, na carta de [data], as ‘janelas de morte’ e ‘os modos de morrer’.

Você não correspondeu ao que de você, que o Banco acreditava tratar-se de um camarada cidadão global confiável, o Banco esperava. Informaram ao Banco que você, ontem, transgrediu as leis globais de governança implementadas pelo Governo Federal. Você, enquanto pilotava uma moto, atingiu, com o pescoço, uma linha revestida de cerol que um garoto imberbe de quatorze anos empunhava enquanto empinava uma pipa quadriculada verde e azul; você, em sua imprudência insana, não se deteve, a linha distendeu-se e, pressionada contra seu pescoço – enquanto você avançava, em fuga doentia e injustificada, para distanciar-se dos agentes de segurança da Organização Global das Nações que iam no seu encalço -, cortou-lho, separou sua cabeça de seu corpo, e a cabeça, envolta pelo capacete, que a protegia, quicou, pelo asfalto da avenida, por mais de vinte metros, e seu corpo, sem a cabeça, sobre a moto, prosseguiu em sua insana fuga por cento e quarenta metros, atravessou o semáforo vermelho, e colidiu com um veículo oficial da Organização Global das Nações, que, na perpendicular, executava manobra para virar à direita, e seu corpo, assim que a moto perdeu o equilíbrio, em decorrência da colisão com o veículo oficial, caiu, e arrastou-se por quinze metros, manchando o asfalto de sangue.

O Banco informa: de você será subtraída, como punição, a sua Carteira de Habilitação de Motorista; e seus descendentes pagarão todas as despesas referentes à perseguição, limpeza do asfalto e conserto do carro oficial, e a Organização Global das Nações os processará, criminal e penalmente, devido ao seu ato inconsequente, que induziu um inocente jovem imberbe de quatorze anos a perpetrar, involuntariamente, um homicídio. A Organização Global das Nações pretendia punir o jovem, mas, como ele impediu a fuga de um transgressor, que conserva, clandestinamente, a propriedade ilegal de um veículo automotor movido por combustível de origem fóssil antediluviano, não o punirá; o condecorará com a Ordem do Mérito da Cidadania Global.

Esta é a derradeira missiva que o Banco envia para você.

De

Camarada Cidadão Missivista Oficial do Sistema Financeiro Global

Para melhor atendê-lo – parte 5 de 6

Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

O Banco, para melhor atendê-lo, foi transferido paras as mãos do Governo Federal, que, agora, passa a geri-lo, concentrando todos os recursos na tarefa de contenção dos movimentos hostis à política de igualdade social e à política de extinção da desigualdade social. Agora, isento da necessidade de atentar para a concorrência, das preocupações decorrentes da criação de produtos que visavam, única e exclusivamente, a obtenção de lucro, e dos gastos com propagandas mentirosas para ocultar as injustiças perpetradas pelos lucros provenientes de atividades ilícitas, o Banco, sob administração do Governo Federal, concentrará a sua atenção e os seus recursos em atividades benéficas ao povo brasileiro, e produzirá riqueza em todo o território nacional.

Para melhor atendê-lo, o Banco manterá as regras vigentes antes da sua transferência ao Governo Federal.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional

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Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

O Governo Federal, para manter a paz e a ordem, e para melhor atendê-lo, nacionalizou e estatizou todos os bancos localizados em território nacional.

O Governo Federal, para impedir o alastramento da violência perpetrada, em ondas de violência que causam pânico no cordial e gentil povo brasileiro, decidiu, por decreto, assumir o controle de todas as emissoras de televisão e de rádio, de todos os jornais e revistas, e o do sinal dos provedores da internet. Com tal medida, implementada com rigor e convicção, o Governo Federal eliminará a resistência de agentes clandestinos antipatrióticos, que se fortaleciam, às expensas do povo brasileiro, à revelia do Governo Federal. A mídia golpista, traiçoeira, antipatriótica, pretendia eliminar o democraticamente eleito Presidente da República, com suporte estrangeiro, em especial de estadunidenses e de israelitas judeus, que, por não se contentarem, os primeiros, com o Rio Missouri e o Rio Mississipi, e os segundos, com o rio Jordão, estendem os seus tentáculos gadanhudos ao Brasil, para se apossarem do rio Amazonas, com ajuda dos seus cúmplices brasileiros cooptados por míseros dólares com estampa da efígie do famigerado tio Sam.

Para conter o ímpeto beligerante dos astutos inimigos do povo brasileiro – nazistas de bigodinho pernóstico idêntico ao do mentor deles, Hitler -, o Governo Federal tomou a única decisão cabível ao momento: Criou as Nações Indígenas Independentes nos territórios das reservas florestais, em sua maioria nos estados da região norte. As Nações Indígenas Independentes, governadas por brasileiros nativos silvícolas, os verdadeiros donos destas terras milenares, relacionam-se, amistosamente, com o povo brasileiro, sob os auspícios, aplausos e ovações de organizações globais, todas admiradas com a generosidade do Governo Federal.

O Governo Federal decidiu, movido por nobres sentimentos, entregar aos povos nativos silvícolas, de vínculos estreitos com a mãe terra, quatro milhões de quilômetros quadrados do território nacional, para conservar o controle, no Brasil, da paz e da ordem. Ao transferir a incumbência da administração de tal território aos silvícolas nativos, dotados de sabedoria milenar nativa, o Governo Federal concentra a sua atenção no Brasil grande, gigante pela própria natureza; com menos território para administrar, o Governo Federal economizará grandes somas de recursos, e melhorará o aprovisionamento das três forças militares que conservam, no Brasil, a paz e a ordem. Os olhos do Presidente da República inundaram-se de lágrimas ao assinar os documentos de transferência de metade do Brasil aos nossos irmãos nativos silvícolas, que imensurável contribuição deram à ereção do Brasil varonil, gigante pela própria natureza. Foi como se cortasse a própria carne. Tal cessão, voluntária e generosa, é imprescindível para a manutenção da paz e da ordem.

As Nações Indígenas Independentes, presididas por nativos silvícolas herdeiros de cultura milenar, sob a égide e o abrigo das organizações globais, viverão em relações amistosas com o Brasil, sabe o visionário Governo Federal.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional.

*

Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

Nunca, antes, em sua história, o Brasil sofreu golpes tão profundos, tão traiçoeiros, que ferissem tanto os brasileiros. O Governo Federal, que, num gesto de amor pelos brasileiros descendentes dos milenares povos nativos silvícolas deste continente, herdeiros de cultura milenar invejável, que erigiram civilizações singulares, irreproduzíveis pela civilização industrial e tecnológica, e que foram aniquilados pelos gananciosos e sórdidos burgueses capitalistas ocidentais, fascistas e hitleristas insensíveis, que devastaram o planeta, exaurindo-o, a ponto de destruí-lo (vide o aquecimento global, que recrudesce, ininterruptamente), por amor humanitário inspirado por elevados ideais de igualdade e justiça social, revogou leis e idéias nefastas – legadas ao Brasil pela monarquia brasileira, de triste memória, e pelo império português ibérico -, que agrilhoavam os legítimos donos destas terras e os encarceravam ao passado cavernoso, que se eternizava, e livrou-os da injustiça e da miséria ao entregar-lhes, num gesto de sacrifício voluntário, generosidade ímpar, metade do território nacional, recebe, como gesto de gratidão – é uma ironia -, um golpe traiçoeiro: Os nativos silvícolas associaram-se aos estadunidenses imperialistas colonizadores e aos burgueses capitalistas europeus ocidentais, e agrediram o Brasil, na diplomacia, e com ações bélicas. Nunca se viu, na história da civilização, golpe tão rasteiro, tão traiçoeiro, tão desumano, de um povo contra os seus benfeitores.

O Governo Federal entregou, generosamente, a metade do território nacional aos silvícolas nativos, como medida de compensação por todo o sofrimento deles, sofrimento decorrente de quinhentos anos de exploração desumana perpetrada pelos burgueses capitalistas europeus e seus descendentes que colonizaram e exploraram este continente, e de crimes perpetrados pelos descendentes de silvícolas nativos por cujas veias e artérias fluem sangue mesclado, inextricavelmente, no mesmo plasma, de povos silvícolas nativos, de povos negros africanos de ébano e de europeus de cultura israelita e judaica, nos quais o sangue corrompido dos bárbaros europeus preponderou e anulou as virtudes benéficas do sangue silvícola nativo e, principalmente, as do dos nativos da África e seus descendentes puros agrilhoados pelos escravocratas com o apoio dos sórdidos burgueses capitalistas europeus ocidentais e, principalmente, dos ibéricos. Felizmente, em milhões de indivíduos brasileiros miscigenados o sangue dos europeus ocidentais de cultura israelita e judaica foi absorvido e nulificado pelo nobre sangue de povos silvícolas nativos que viviam em comunhão amistosa com a natureza. Infelizmente, tal vínculo de nativos silvícolas com a natureza foi rompido em muitos indivíduos ao corroerem-se o sangue silvícola e o africano com o sangue dos europeus burgueses capitalistas ocidentais de cultura judaica e israelita. Os silvícolas nativos autênticos e os seus descendentes cujo sangue eliminou o sangue pernicioso dos burgueses capitalistas europeus contribuíram, com sangue, suor e lágrimas, para a construção e a consolidação da Pátria Brasileira.

Os silvícolas nativos, donos de um país imenso de quatro milhões de quilômetros quadrados, extensos rios volumosos, a maior bacia hidrográfica do mundo, receberam, do generoso Governo Federal, as suas terras milenares, com as suas riquezas naturais e minerais intactas, terras estas que os sórdidos burgueses capitalistas europeus haviam conquistado, na ponta das baionetas, no fio das espadas e no chumbo fundido das bombas lançadas de canhões, dos povos silvícolas nativos, quebrando, deles, o elo que os unia, num vínculo estreito, com a natureza. E os silvícolas nativos, para alegria de todo o mundo, criaram uma grande nação, as Nações Indígenas Independentes, gigante, como o Brasil, pela própria natureza. Para surpresa do Governo Federal, os silvícolas nativos mudaram o nome de sua nação para Nação Tribal Silvícola, e estabeleceram política externa inamistosa nas relações com o Brasil. Os povos silvícolas, além de não agradecerem ao povo brasileiro e ao Governo Federal, seu legítimo representante, pela generosidade concedida, agrediram o Brasil. E, para maior surpresa e espanto do Governo Federal, a Nação Tribal Silvícola fragmentou-se em dezenas de nações indígenas, que se engalfinham, para desgosto do Governo Federal, em batalhas sangrentas, e governos capitalistas burgueses ocidentais fornecem armas aos beligerantes, em alianças de ocasião, auferindo lucros imensuráveis, e os povos silvícolas nativos, em troca das armas, dão-lhes pedras raras e concessão para a exploração de pedras preciosas e de petróleo. Os burgueses capitalistas europeus, astutos como as raposas, traiçoeiros como os lobos, venenosos como as serpentes, foram, em pouco tempo, bem sucedidos na sua política de corrosão dos valores mais caros aos silvícolas nativos deste continente. Corrompidos, estes abraçam os valores que os precipitam na corrupção moral irreversível, na qual afundarão, inteiramente, até a aniquilação da civilização silvícola nativa, da qual não haverá vestígios.

O mais alarmante, abismável: a Grande Taba, nação silvícola nativa que se criou, devido à fragmentação da Nação Tribal Silvícola, no meio do território nacional, incrustada no coração do Brasil, deu início a bombardeios das regiões circunvizinhas, exigindo, do Governo Federal, a cessão de um território que lhes permita possuir uma saída para o oceano Atlântico. Repete-se, aqui, neste continente, a história milenar protagonizada por israelenses e palestinos, mas com inversão de papéis. No Oriente Médio, os reivindicadores palestinos são, há milênios, vítimas impotentes e frágeis da política genocida dos israelenses. Aqui, dá-se o oposto: os reivindicadores – os silvícolas nativos da Grande Taba – são os agressores; e os brasileiros, generosos e gentis, são os agredidos. Imperdoável, tal ato de ingratidão. O Governo Federal, com os seus aliados incondicionais, defenderá o povo brasileiro, pois é o legítimo representante das suas aspirações, sonhos e desejos.

O Brasil do futuro, gigante pela própria natureza, tem, hoje, a metade do território e o dobro do vigor.

É lamentável!, É lastimável!, que os nativos silvícolas, beneficiados pelo Governo Federal, sejam tão ingratos! O Governo Federal não se curvará. Defenderá o povo brasileiro, povo generoso e gentil. Na arena diplomática, defenderá os interesses do povo brasileiro contra o desejo dos nativos silvícolas de anexarem o território brasileiro à sua jovem nação. Os descendentes dos africanos de nacionalidade brasileira defendem, bravamente, o território nacional, no desejo de conservar a integridade territorial do Brasil, por amor à terra da qual extraem os seus víveres, a sua energia, a sua força, o seu vigor e a beleza pétrea dos seus músculos rígidos que sustentam a incomparável perfeição de seu porte físico. Os brasileiros descendentes de europeus são antipatriotas, pois servem aos burgueses capitalistas europeus ocidentais, aos burgueses capitalistas internacionais, aos imperialistas estadunidenses gananciosos, sórdidos, beligerantes cruéis e colonizadores genocidas, e aos israelitas judeus corruptores dos povos leais à mãe-natureza. O Governo Federal, visionário, prevê o recrudescimento dos conflitos entre os brasileiros descendentes de africanos –, que nutrem amor incondicional pelo Brasil, lutam pela conservação do território nacional, sacrificam a vida em defesa da pátria, rejeitam, altivos, a exortação de emigrarem para a África (sacrificam-se pela conservação da paz e da ordem, no Brasil, ao invés de usufruírem de vida prazerosa e cômoda nos pacíficos e prósperos países africanos) – e os brasileiros descendentes de europeus – que insistem em se conservar nestas terras porque sabem que, se emigrarem para a Europa, sofrerão nos decadentes países europeus; daí rejeitarem, assustados, amedrontados, acovardados, a ordem de regressarem ao continente de seus crudelíssimos e sanguinários ancestrais, que, na Casa Grande, seviciavam, com requintes de sadismo, os habitantes das senzalas.

O Banco, sob administração do Governo Federal, exige dos correntistas:

1, o comprovante de renda;

2, os documentos do seu patrimônio; e,

3, as notas fiscais de compra de produtos e as de prestações de serviços.

Os comprovantes, os documentos e as notas fiscais originais têm de ser apresentados ao Banco acompanhados de cinco vias autenticadas, que serão protocoladas.

O Governo Federal, em sua infalibilidade, não previu o ato traiçoeiro dos silvícolas nativos, e tampouco o do governo da China e o do governo da Rússia, outrora aliados do Governo Federal; servis, curvaram-se, reverentes, aos burgueses capitalistas ocidentais, aos israelitas judeus genocidas e mentirosos compulsivos, que disseminaram a mais vasta rede de corrupção moral da história da civilização, e aos sórdidos estadunidenses imperialistas e colonizadores.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional

*

Nova Brasília, [data]

Ao

Camarada Cidadão Patriota.

O Governo Federal, devido à importação clandestina de armamentos de alto calibre e de grande poder de fogo, decretou, ontem, o bloqueio das importações e das exportações. Empresários brasileiros antipatriotas gananciosos, conluiados com burgueses capitalistas ocidentais inescrupulosos, estadunidenses imperialistas e israelitas judeus genocidas, enviavam, ao exterior, em troca de armamentos, víveres e matérias-primas a preço de banana, e os estrangeiros auferiam lucros exorbitantes à custa do sangue do povo brasileiro, que morre aos milhões nos conflitos fraternais viscerais. Os armamentos eram entregues aos silvícolas nativos da Grande Taba, nação silvícola incrustada no território nacional, com o propósito de eviscerá-lo. Com a eliminação do comércio exterior, o Governo Federal conservará a paz e a ordem no Brasil, gigante pela própria natureza, cujo povo é gentil e não desiste nunca.

O Governo Federal, para o seu conhecimento, estatiza a economia e eleva a alíquota do imposto de renda para 90% para as pessoas que ganham acima de R$ 10.000,00 anuais. A renda auferida com o recolhimento do imposto de renda será distribuída aos brasileiros com renda mensal inferior a R$ 50,00, medida indispensável para a eliminação da desigualdade e injustiça sociais.

O Governo Federal, por intermédio do Banco, para melhor atendê-lo, administra, a partir de hoje, o seu dinheiro, liberando-o para o trabalho, inadiável, de atuar, em benefício do Brasil, nos campos de batalha, em território nacional, para a manutenção da paz e da ordem. O Governo Federal concentra todos os esforços e todos os recursos na manutenção da paz e da ordem, e não perderá o controle da situação. Administrando o seu dinheiro, o Governo Federal assumirá a tarefa de comprar para você todos os provimentos de sua necessidade, impedindo, assim, com tão sábia medida, que você desperdice o seu dinheiro, que, na verdade, é patrimônio do Governo Federal, que o imprime e o põe em circulação, com inutilidades burguesas capitalistas.

O Governo Federal tomou estas medidas para salvaguardar a paz e a ordem no Brasil, gigante por natureza, em decorrência da transferência de recursos para o esforço de guerra contra as dezenas de nações de silvícolas nativos que, sob influência da Grande Taba, esta nação traiçoeira e ingrata incrustada no território nacional, laceram, com facadas certeiras, o coração do Brasil, que se esvai em sangue e em espasmos de dor e angústia, unidas aos brasileiros brancos, loiros e de olhos glaucos descendentes de europeus de cultura israelita judaica.

Aflorados os instintos animalescos, insanos e brutais da sordidez burguesa capitalista ocidental européia latentes no âmago da integridade dos puros descendentes dos europeus e dos não-puros (descendentes de europeus miscigenados ou com silvícolas nativos, ou com negros africanos, ou com amarelos asiáticos, ou com árabes, nos quais prevaleceu o sangue corrompido dos europeus, que anulou a bondade e a nobreza ingênita dos outros povos), os antipatriotas brasileiros transferiram recursos incalculáveis aos inimigos do Brasil, para o aprovisionamento das suas tropas.

O Governo Federal detectou os baluartes dos antipatriotas, no território de São Paulo, e não se surpreendeu. São Paulo sempre foi fonte de ambigüidade política. Os paulistas sempre foram ladinos e traiçoeiros. Dissimulam a sua ganância em votos de amor pelo Brasil; a despeito dos votos enfáticos de amor pelo Brasil, atuam, nos bastidores, em favor dos burgueses capitalistas ocidentais, dos europeus colonizadores fascistas e hitleristas, dos israelitas judeus genocidas e mentirosos compulsivos, e, principalmente, dos estadunidenses capitalistas colonizadores e imperialistas desumanos. Os paulistas arquitetam, mais uma vez, um golpe contra o Governo Federal. Repetem, hoje, a política antipatriótica de 1932. Não triunfarão, do mesmo modo que não triunfaram naquele fatídico e malfadado ano. A sua política malsucedida, infelizmente, não serve de exortação aos novos antipatriotas.

Devido às despesas inerentes a tão vasto esforço, o Banco, agente do Governo Federal, digno e legítimo representante do povo brasileiro, debitará, automaticamente, de cada conta corrente, R$ 100,00, todo início de mês, para o esforço de guerra contra os inúmeros e incansáveis inimigos externos, cuja força humana e recursos naturais, materiais e bélicos, prevê o visionário Governo Federal, não irá se exaurir num futuro próximo, e a guerra, portanto, se perpetuará até as calendas gregas. O Governo Federal, para a conservação da paz e da ordem, e para melhor atender os trabalhadores nacionais e as suas famílias, concentra todos os recursos disponíveis no esforço de guerra contra os seus inimigos viscerais, os traiçoeiros e ingratos silvícolas nativos.

De

Camarada Cidadão Patriota Missivista Oficial do Sistema Financeiro Nacional.

Para melhor atendê-lo – parte 4 de 6

Brasília, [data]

Ao

Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Nesta carta, o Banco apresenta uma síntese esclarecedora do estado de coisas que, cotidianamente, os trabalhadores nacionais e as suas famílias têm de enfrentar em decorrência das violentas manifestações orquestradas por agentes estrangeiros beligerantes e gananciosos, que almejam a aniquilação do Governo Federal, no seu afã de conservar a desigualdade de renda e as injustiças sociais que há quinhentos anos assolam o Brasil e a América Latina, cujas veias estão abertas e cujo sangue é sugado por Nosferatu capitalistas e outras alimárias quiméricas inumanas e desumanas. O ambiente político atual degenera-se em anarquia institucionalizada. O Governo Federal, que nos três anos anteriores à esta data implementou medidas de segurança para melhor atender os trabalhadores nacionais e as suas famílias, e influencia, favoravelmente, com o seu exemplo moral, governos europeus, latino-americanos, asiáticos e africanos, depara-se com o seu mais astuto, ardiloso, traiçoeiro inimigo: brasileiros apátridas servis aos burgueses capitalistas estadunidenses. O Governo Federal exibe, com a grandiosidade das obras que brotaram destas plagas férteis e abundantes, onde o sol nasce para todos, e todas as raças se irmanam, fraternas, num vínculo universal com a mãe natureza e a Mama África, que, do outro lado do Atlântico, despejou, na terra brasilis, raças fortes e vigorosas, que viviam, num elo estreito, com a natureza, a singularidade inimitável da cultura nacional, única no mundo, invejável e admirável, e a dissemina pelo orbe terrestre, abrasileirando todas as nações decentes, fazendo do mundo um Brasil onde em se plantando tudo dá, e dá, como no Brasil, gigante por natureza, jabuticaba e pororoca, e o mundo, ao assimilar peculiaridades brasileiras, se miscigena, se cordializa, se gentiliza, arrastando, atrás do porta-estandarte e do porta-bandeiras, alegria, felicidade, amor à vida, simplicidade e amor grupal, como o mundo jamais presenciou e jamais imaginou. O Brasil é fonte de inspiração para o mundo. As políticas implementadas pelo Governo Federal seriam o pontapé inicial das transformações que conduziriam o mundo à paz universal; todavia, foram, para desgosto do Governo Federal e dos que seguiam os seus passos e alimentavam sentimentos afins, abortados pelos seus inimigos ferrenhos, audaciosos, sagazes e traiçoeiros. O sucesso do Brasil revelaria para o mundo o insucesso do modelo vigente, inspirado nos códigos capitalistas burgueses, cujo desmoronamento não ficaria oculto aos olhos dos menos informados, se as políticas implementadas pelo Governo Federal prosseguissem, e outras nações as copiassem. Os estadunidenses, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, teceram, com os seus tentáculos tenazes, na frente do Brasil, as redes, e travaram o seu avanço. As medidas de segurança implementadas pelo Governo Federal, como se diz no linguajar do nosso humilde e sofrido povo, choveram no molhado. O Governo Federal colheu insucessos devido à agressiva hostilidade canina dos burgueses capitalistas estadunidenses e seus cúmplices, os brasileiros apátridas que compõem a classe média nacional indiferente ao destino do Brasil, mas não abandonará o gentil, nobre e amável povo brasileiro. Batalhará na sua luta pela manutenção da paz e da ordem. Malgrados os seus ingentes esforços, o Governo Federal não perde o ânimo. Prossegue na sua guerra interminável, que se arrasta há quinhentos anos, contra os colonizadores imperialistas estrangeiros.

Para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco, sob os auspícios do Governo Federal, que não perdeu o foco, conquanto os inimigos do Brasil sejam inúmeros, nem todos eles identificáveis – eles, traiçoeiros, ladinos, atacam o Brasil, de todas as direções, pelos flancos e pela retaguarda -, restringirá, a partir de [data], o acesso dos correntistas às operações bancárias aos caixas localizados no interior das agências bancárias; os terminais eletrônicos ou estão inoperantes, ou desativados, devido às ações criminosas, em centenas de cidades, perpetradas por anarquistas que espalham o caos pelo Brasil. Tal medida, para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, é inadiável, e o Banco a implementa a tempo de evitar prejuízos maiores do que o que auferiu de dois meses para cá.

O Governo Federal, para evitar a quebradeira do sistema financeiro, em atendimento à solicitação do Banco, concedeu ao Banco autorização para cobrar, todo mês, dos seus correntistas, para melhor atendê-los, R$ 50,00, que serão debitados, todo dia primeiro, automaticamente, das contas correntes.

O Governo Federal também autorizou o Banco a encerrar as atividades das agências bancárias situadas nas cidades com população inferior a cem mil habitantes e nas que não possuem delegacias de polícias, e nas que a delegacia de polícia foi desativada, e os policiais, aposentados compulsoriamente; com tal medida o Governo Federal concentra o combate à violência nas capitais e nas grandes cidades.

Em decorrência da elevação do custo de manutenção do aparato policial nas cidades com menos de cem mil habitantes, que se deu devido ao avanço da criminalidade, o Governo Federal, sabiamente, nelas encerrou as atividades policiais, para não onerar ainda mais os cofres públicos. É uma medida provisória, que será revogada assim que o Governo Federal achar por bem, no seu esforço de conservar a paz e a ordem, que estão ameaçadas por terroristas estrangeiros acumpliciados com brasileiros apátridas. A concentração da polícia nas capitais e nas grandes cidades, ao contrário do que divulga a mídia dessensibilizadora, felizmente rara no Brasil, como em toda a superfície do orbe terrestre, não é um gesto ostensivo de abandono dos rincões do Brasil varonil, do campo e das pequenas cidades aos criminosos; é uma medida de contenção dos gastos, para impedir a precipitação do Brasil na anarquia. O Governo Federal tem as rédeas nas mãos. O Governo Federal está com a faca e o queijo nas mãos, e está cortando o queijo. O sucesso das políticas implementadas pelo Governo Federal não é incontestável porque brasileiros apátridas, cooptados pelos estrangeiros, desferem, no Brasil, pelas costas, traiçoeiramente, facadas letais, e transpassam os seus órgãos vitais.

O Governo Federal não recua sequer um passo, e decreta, por medida provisória, leis que conservam, para contrariedade dos inimigos do Brasil, a paz e a ordem em todas as cidades, a despeito do avanço da criminalidade.

O Governo Federal, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, também autorizou o Banco a exigir dos correntistas, para melhor atendê-los, a apresentação, à porta de quaisquer agências bancárias, além dos documentos originais e das três cópias autenticadas do RG, do CPF, do Título de Eleitor, do Certificado de Reservista, da Carteira de Habilitação de Motorista e da Certidão de Nascimento, a Ficha Criminal, a original e três cópias autenticadas.

De

Gerente Personalizado

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Brasília, [data]

Ao

Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

O Banco, para melhor atendê-lo, sob os auspícios do Governo Federal, compreensivo e responsável, restringirá, a partir de [data], o seu acesso às instalações da agência bancária situada nesta cidade e a quatro outras agências bancárias (A, B, C, D), das 12:00 às 15:00, como medida de segurança, para melhor atendê-lo. Providência esta, Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, tomada para melhor atendê-lo, para a preservação do seu bem-estar e da sua paz de espírito. Tal providência, provisória, será suspensa assim que o Governo Federal, com o seu gigantesco esforço para a manutenção da paz e da ordem, eliminar os agentes mercenários que impedem a convivência pacífica entre os brasileiros e almejam, com um golpe de estado, destituir da Presidência da República o presidente democraticamente eleito, e implantar, no Brasil, um estado de exceção, de cunho militar, ecoando vozes conservadoras nostálgicas dos anos de chumbo. Para o seu conhecimento, a política de agressão ao estado de direito e ao governo democraticamente eleito pelo povo brasileiro tem o apoio da mídia golpista financiada pelos dólares envenenados dos capitalistas burgueses estadunidenses. O Governo Federal, até o presente momento, impediu o avanço dos revoltosos antipatriotas, que desejam eliminar a paz do Brasil e aniquilar a harmonia da convivência entre as raças. Agentes estrangeiros brancos, loiros e de olhos azuis incutiram idéias antidemocráticas na mente de brasileiros gentis e cordiais. Alguns dentre eles, em sinal de desprezo pelo Governo Federal, que atua, com prudência, desde o início da atual crise, decorrente da ação deletéria de burgueses capitalistas inescrupulosos e conservadores fundamentalistas antediluvianos, na contenção do avanço dos vândalos, exibem, abertamente, o rosto, na internet, e conclamam o povo à luta, não contra os inimigos do Brasil, mas contra o Governo Federal.

O Governo Federal, para orientar o povo brasileiro, gentil, cordial e varonil, condoreiro e mestiço, sábio por natureza, povo que não desiste nunca, herdeiro da bravura dos nativos selvagens e dos negros africanos de ébano de músculos pétreos, e mantê-lo informado das ações governamentais, para a conservação da paz e da ordem, que está em vias de serem corroídas por agentes oxidantes ativados por apátridas traiçoeiros e venais acumpliciados a estrangeiros moralmente insanos e exploradores inescrupulosos, no exercício de sua obrigação moral, contratou, a peso de ouro (o que demonstra a importância que o Governo Federal dá à questão da segurança do povo brasileiro, uma das suas principais prioridades), artistas, cineastas, intelectuais, escritores, pensadores, atores e esportistas; eles gravarão mensagens de esperança e paz, as quais, a partir do dia 7 (sete) do mês corrente, todas as emissoras de televisão e emissoras de rádio veicularão. Assista às mensagens dos seus ídolos prediletos, dos atores que você admira, ouça, atentamente, as palavras sapienciais dos pensadores mais sábios do Brasil, e deixe-as inspirar a você pensamentos nobres, patrióticos, e as virtudes da paciência, da contenção, da tolerância, da compreensão, da ponderação e da reflexão, e impedir que se aflorem ao seu espírito sentimentos de ódio, raiva, egoísmo, ganância, intolerância, intransigência, atiçados peos discursos virulentos dos burgueses capitalistas inescrupulosos e animalescos, que insuflam o ego, estufando-o, com idéias nefastas, que corroem o espírito do cordial e pacífico povo brasileiro.

De

Gerente Personalizado

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Brasília, [data]

Ao

Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Para que você saiba da importância dada à segurança do povo brasileiro, a despeito de toda gritaria malsã dos golpistas, o Governo Federal elevou a alíquota de importação de armas, estatizou as empresas de segurança privada, e contratou homens de confiança, experientes, treinados pelo Governo Federal, para administrá-las, para evitar o recrudescimento da desigualdade social e da injustiça social. De modo arrogante e soberbo, os pançudos, nababescos, pingues burgueses capitalistas inescrupulosos, sórdidos agentes fascistas e hitleristas, que copiam as ações do crudelíssimo Hitler, o asqueroso bigodudo grotesco, bizarro e animalesco, rejeitam a política do Governo Federal, armazenam armas de alto calibre, e contratam seguranças particulares, a preço de ouro, e as empresas particulares capitalistas auferem, insensíveis, indiferentes ao esforço hercúleo e ao sacrifício heróico do Governo Federal, que labora na conservação da paz e da ordem, lucros que extorquem dos pobres e gentis trabalhadores nacionais, os quais o Governo Federal protege com amor e dedicação.

É inadmissível a postura de descaso e de indiferença dos burgueses capitalistas desumanos e repulsivos.

As empresas de segurança particular estatizadas, administradas, agora, por profissionais da confiança do Governo Federal, pessoas de bem, comprometidas com a paz e a ordem, vinculadas ao Governo Federal, o único e exclusivo detentor, por direito constitucional, de salvaguardas do bem-estar e da paz dos brasileiros, e do dever moral de governar o Brasil, pelo povo, para o povo, com o povo, mirando, sem perder o foco, a paz, a ordem, a liberdade, a fraternidade e a igualdade, atuam, para a manutenção da paz e da ordem, para benefício da sociedade, e não de aristocratas elitistas da burguesia capitalista, que vivem ilhados nas suas mansões hollywoodianas de marajás alheados do mundo.

O Governo Federal, o único detentor do direito natural de exercer os serviços imprescindíveis de segurança do povo brasileiro, não permitirá que sórdidos e egoístas agentes burgueses capitalistas inescrupulosos atuem em benefício próprio e em defesa dos seus interesses.

O Governo Federal elevou a alíquota do imposto de renda dos milionários para setenta por cento (70%) da renda. Com esta medida, impedirá que os milionários desperdicem dinheiro com inutilidades luxuosas e produtos supérfluos requintados de ostentação burguesa capitalista, cuja cultura está devastando a Terra, tão castigada, tão maltratada, tão seviciada. O dinheiro auferido com a cobrança da nova alíquota, fortuna incalculável – que estava nas mãos de pessoas desvinculadas da realidade nacional, pessoas que viviam com os pés na lua e a cabeça nas nuvens e desperdiçavam recursos essenciais para a melhoria do padrão de vida do povo brasileiro -, será investido nos bem-sucedidos programas sociais e na política de segurança pública nacional, para a redução do fosso que separa os ricos dos pobres. O Governo Federal construirá projetos grandiosos – como o Brasil, gigantes pela própria natureza –, que alavancarão a economia brasileira, que assumirá a dianteira do desenvolvimento mundial.

O Governo Federal, noutra decisão humanitária inédita, para estabelecer a igualdade entre os ricos e os pobres, decretou o congelamento dos preços dos alimentos, e nacionalizou a indústria farmacêutica e as farmácias, que, agora, são patrimônios do povo brasileiro, e não de burgueses capitalistas estrangeiros e brasileiros servis aos seus mentores estadunidenses. Com tal medida, o Governo Federal evitou a especulação financeira com os alimentos e os remédios, artigos de primeira necessidade do povo brasileiro.

Os burgueses capitalistas fascistas de inspiração nazista especulavam com a vida de milhões de brasileiros! Queriam fazer dos brasileiros, vigorosos e saudáveis, seres acéfalos descerebrados e alimárias famélicas esquizóides deformadas! Você, certamente, viu, em todas as cidades do Brasil varonil e gentil, muitos mendigos famintos, esfarrapados e imundos. São, todos eles, produtos da indústria burguesa capitalista desumana, que produz injustiça social às mancheias e miseráveis mendazes aos cachos.

O Governo Federal investirá na melhoria do sistema de segurança pública a fortuna que os milionários burgueses capitalistas inescrupulosos investiam, inutilmente, no consumo, para satisfação de sua vaidade egocêntrica, de produtos inúteis, e em fábricas que produziam artigos de luxo supérfluo enquanto milhões de brasileiros passam fome, e conterá o avanço dos inimigos da pátria, dentro e fora do Brasil. Tal fortuna, indispensável para o bem-estar dos brasileiros, os milionários burgueses capitalistas empregavam na compra de inutilidades luxuosas! Ao nacionalizar as farmácias e a indústria farmacêutica, o Governo Federal eliminou tudo o que desviava a atenção de milhares de trabalhadores nacionais, funcionários públicos patriotas, que, antes, no mercado de livre concorrência vigente, tinham de fiscalizar os agentes burgueses capitalistas predadores para impedi-los de auferir lucros extorsivos com a venda de remédios adulterados, maus tratos ao povo brasileiro, e a exploração de trabalhadores sem carteira assinada (política esta inerente às injustas leis de mercado que exauriam a energia do povo brasileiro, povo que os burgueses capitalistas alcunham, desrespeitosamente, de consumidores, eliminando a sua condição humana), que trabalhavam, unicamente, em benefício dos burgueses capitalistas inescrupulosos.

O Banco, para melhor atendê-lo, estabelece taxa de R$ 20,00 (vinte reais) para cada saque que você efetuar da conta e da caderneta de poupança, independentemente do valor debitado, e restringe, com autorização do Governo Federal, para melhor atendê-lo, o seu atendimento às segundas-feiras das 14:00 às 15:00, com agendamento.

O Banco mantêm as exigências anteriores quanto à documentação a apresentar, à porta da agência bancária, aos policiais que fazem a sua segurança e a de todos os trabalhadores que contrataram os serviços do Banco, e os débitos automáticos, mensais, na sua conta, consagrados anteriormente pelo Governo Federal.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Cidadão Camarada.

Para melhor atendê-lo, cidadão camarada, o Banco, com o apoio irrestrito do generoso Governo Federal, sob o abrigo do qual milhões de brasileiros encontram amor fraternal e proteção paternal e maternal, institui novas regras para o atendimento aos correntistas:

1, agendamento para atendimento de, no mínimo, setenta e duas horas de antecedência;

2, concessão de atendimento, para a sua segurança, e para melhor atendê-lo, cidadão camarada, à agência B, das 13:00 às 14:00, às segundas-feiras, quartas-feiras e sextas-feiras; e,

3, apresentação, à porta da agência, dos seus documentos e de quatro cópias autenticadas, que serão impressas no Cartório de Registro Civil, sob o olhar atento de um representante do Governo Federal, preparado para atendê-lo, com agendamento de, no mínimo, quarenta e oito horas de antecedência, agendamento que deverá ser feito, no Cartório, e registrado no Livro de Registros; para este serviço, imprescindível, cidadão camarada, à sua segurança, você pagará módicos R$ 5,00

Os documentos exigidos são os que você está consciente de ter de apresentar.

Tais expedientes, cidadão camarada, foram implementados para a sua segurança, e para o Banco melhor atendê-lo.

À porta da agência, sob o olhar escrutinador de um representante do Governo Federal, as quatro cópias autenticadas serão, por um funcionário do Banco indicado pelo Governo Federal, avaliadas, comparadas com os documentos originais, protocoladas, e arquivadas, uma, no Banco, uma, na Receita Federal, uma, na Polícia Federal, e uma será devolvida para você, e você deverá conservá-la consigo até segunda ordem.

Após a apresentação dos documentos, você, cidadão camarada, digitará:

1, a senha;

2, a senha de segurança;

3, a senha de conta;

4, a senha geral;

5, a senha de cidadão camarada.

As senhas serão fornecidas, em folha anexa (a senha anterior foi cancelada), pelo Governo Federal. E digitará, também:

6, a data do seu nascimento;

7, o número do seu RG;

8, o número do seu Título de Eleitor;

9, o número do seu CPF;

10, a data da emissão do seu RG;

11, a data da emissão do seu Título de Eleitor;

12, a data de expedição do seu CPF;

13, a data de registro da sua Certidão de Nascimento;

14, o número do seu Certificado de Reservista;

15, o número da sua Carteira de Habilitação de Motorista;

16, a data da emissão do seu Certificado de Reservista;

17, a data da emissão da sua Carteira de Habilitação de Motorista; e,

18, o número do chassi do seu carro.

Com a digitação destes dados, no instante da efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies, o atendimento a você, cidadão camarada, será mais seguro, para a sua segurança.

O Banco salienta:

O Banco cobrará, para cada operação bancária que você, cidadão camarada, efetuar, módicos R$ 80,00, que serão debitados, automaticamente, da sua conta corrente.

O Governo Federal, para evitar pânico e manter a paz e a ordem, autorizou o Banco a rejeitar toda solicitação, pelos correntistas, de cancelamento dos contratos, e o autorizou a alterar os procedimentos de atendimento, sempre e quando considerar necessário, para melhor atender os correntistas, e a elevar as tarifas e as taxas para investimento, como o Banco faz há meses, na segurança bancária, para evitar violações de contas correntes e cadernetas de poupanças, invasões às agências bancárias, e para a contratação de profissionais de segurança fortemente armados, todos treinados pelo Governo Federal, e de especialistas em informática. Como você percebeu, cidadão camarada, reduziu-se, consideravelmente, nos dois meses anteriores à esta data, as violações de contas correntes e de cadernetas de poupança, as clonagens de cartões e os assaltos às agências bancárias e aos carros fortes. As medidas implementadas pelo Governo Federal e pelos Bancos, restritivas, impediram o avanço de agentes insuflados pelos burgueses capitalistas estrangeiros inescrupulosos e os seus cúmplices nacionais antipatriotas.

Todas essas medidas são necessárias à sua segurança, cidadão camarada, pois o Governo Federal identificou agentes burgueses capitalistas astutos nas agências bancárias, e inteirou o Banco, que assumiu as suas responsabilidades na manutenção da paz e da ordem, e demitiu vinte por cento dos seus funcionários, e contratou especialistas indicados pelo Governo Federal.

De

Representante Governamental do Sistema Financeiro Nacional

Para melhor atendê-lo – parte 3 de 6

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Por meio desta, o Banco vos informa:

Em decorrência da elevação dos casos de clonagens de cartões, violações de contas correntes e cadernetas de poupança, seqüestros relâmpagos e seqüestros, o Banco solicitou ao Governo Federal autorização para intensificar o rigor do sistema de segurança bancária, para melhor atender os seus correntistas. Tendo em vista o atraso, compreensível e admissível, da implantação do novo sistema de segurança bancária nacional, é imprescindível a captação de recursos além dos originalmente considerados. Lançando mão de expedientes legais, para melhor atender aos seus correntistas, o Banco, autorizado pelo Governo Federal, irá solicitar-lhes, a partir de [data], a apresentação dos originais do RG e do CPF aos quais anexarão as respectivas cópias autenticadas (duas), no momento da efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies, no terminal eletrônico, no caixa e em quaisquer estabelecimentos comerciais autorizados. As duas cópias autenticadas serão protocoladas, na boca do caixa, pelo caixa, e, no terminal eletrônico, por um funcionário que ficará à disposição dos correntistas, e, nos estabelecimentos comerciais autorizados, milhares deles em todo o território nacional, por um funcionário indicado pelo estabelecimento, contratado, exclusivamente, para exercer esta imprescindível tarefa, uma das que compõem o conjunto de medidas que visam a melhoria do atendimento aos correntistas.

Os empresários, o Banco vos informa, esbravejaram e hostilizaram o Governo Federal, exibindo a ganância, a insensibilidade, a irresponsabilidade social e o descompromisso com o bem-estar e a segurança do povo brasileiro que os inspiram. O Governo Federal, no seu esforço de melhorar a vida do povo brasileiro, dissuadiu os empresários relutantes de rejeitarem as medidas que propõem o melhor atendimento dos bancos aos correntistas ao oferecer-lhes empréstimos para os investimentos na instalação do novo sistema de segurança bancária, inviolável, de tecnologia exclusivamente nacional, desenvolvida por brasileiros treinados pelo Governo Federal. Diante da generosa oferta do Governo Federal, os empresários relutantes abandonaram a intransigência injustificada e abraçaram a causa defendida por bancos, cartórios e representantes das leis, todos eles patriotas compromissados com o bem-estar dos brasileiros.

Damos um passo para a frente. Avançamos para o futuro antevisto pelo Governo Federal, visionário e profético.

O funcionário que vos atender, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, no momento da efetivação de quaisquer operações bancárias, protocolará as duas cópias autenticadas do RG e as duas cópias autenticadas do CPF (as cópias do RG e as do CPF deverão vir em folhas separadas), conservará uma com o Banco, e a outra ele vos entregará, cópia esta que o senhor deverás conservar convosco pelo período de cinco anos, para a vossa segurança.

Sabemos que o Brasil é, com freqüência preocupante, acossado por tragédias naturais imprevisíveis e, não é incomum, alvejado por raios, os quais têm alto poder de destruição e danificam, em muitos casos irreversivelmente, a estrutura energética nacional, desde as hidrelétricas, passando pelas redes de distribuição de energia, até o seu destino, a casa dos brasileiros, causando, sabemos, transtornos para os trabalhadores nacionais e as suas famílias; os estragos, em muitos casos, são tão numerosos e tão vastos, que o Governo Federal, mesmo com o emprego da sua gigantesca estrutura, do tamanho do Brasil, gigante por natureza, não corrige, em tempo hábil, para evitar transtornos e dissabores aos brasileiros, os danos, ou, então, ao consertar uma parte do que foi danificado, uma catástrofe natural avassaladora, ou uma sequência demolidora de raios nos dias tempestuosos – que tem recrudescido, em decorrência do aquecimento global, fenômeno cataclísmico minuciosamente documentado que culminará na destruição da Terra, se as medidas inadiáveis para evitar o apocalipse não forem implementadas por todas as nações do globo, sob ditames de leis internacionais e a égide de órgãos de abrangência global às quais todas as nações devem respeito, principalmente o Brasil, que é o detentor da maior rede de produção de energia limpa (as hidrelétricas) e da maior floresta tropical do planeta (o pulmão vital da mãe Gaia, a nossa mãe) -, ou uma saraivada de ventos devastadores, anula os esforços empreendidos pelo Governo Federal ao danificar o que foi recuperado, impedindo que se recupere o que foi danificado, danificando-o ainda mais. As conseqüências são conhecidas. O Brasil passou por contratempos similares, nos anos recentes, e outros contratempos não estão fora de cogitação. Devido à tais problemas, se faz necessária, por precaução, a conservação de cópias autenticadas protocoladas de todas as operações bancárias que o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, vier a efetivar, para a vossa segurança e para que melhor o Banco possa atendê-lo.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, assististe aos noticiários deste mês (se não assististe, o Governo Federal vos indica os noticiários A, B, C, respectivamente, das emissoras de televisão, D, E, F, e as revistas G, H, e os programas jornalísticos F, I, respectivamente, das rádios J, Y, e os sites W, Z, X, todos fontes confiáveis de informações selecionadas pelo Governo Federal, para que o senhor não despendas tempo precioso de vossa vida à procura de fontes de notícia, e possas aproveitá-la de forma produtiva, trabalhando e estudando, para fazer do Brasil, o país do futuro, gigante pela própria natureza, um país grande, e tornar o futuro presente, para gáudio dos brasileiros e inveja dos estrangeiros), e tomastes conhecimento das tragédias que se abateram sobre o Brasil, provocando devastações. O Governo Federal, com a presteza que lhe é peculiar, mensurou o custo da recuperação de toda a malha energética danificada e o da recuperação do sistema nacional de segurança bancária. Não é do agrado do Governo Federal ter de solicitar aos trabalhadores nacionais a adição de R$ 10,00 à contribuição mensal que generosamente investem, no projeto do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional, para a conservação da paz e da ordem, mas, em decorrência da elevação do custo, decorrente de catástrofes naturais, imprevisíveis e indomáveis, do projeto de segurança bancária – projeto inédito no mundo, de causar inveja aos estrangeiros -, se viu na obrigação de lhos solicitar, e avisa que os debitará, mensalmente, das contas correntes, no primeiro dia útil do mês.

Certo da vossa compreensão e colaboração, o Banco despede-se.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Nos quinze dias anteriores à esta carta, como é do teu conhecimento, sucederam-se sublevações populares, em inúmeras cidades nacionais, sendo as mais preocupantes, e as para as quais o Governo Federal tem dado mais atenção, as que se sucederam no Estado de São Paulo, e, principalmente, na cidade de São Paulo.

Como é do teu conhecimento, os paulistas, desde o fatídico ano de 1932, o da malfadada história antipatriota então promovida contra o Governo Federal de turno – que, altivo, batalhou, heroicamente, com os brasileiros patriotas sob o seu comando, pela conservação da integridade do território nacional, a partir do palácio Guanabara -, promovem política de secessão. O governante daquela era áurea, por amor ao Brasil, preferiu a morte ao destino entristecedor dos anos subseqüentes. Até hoje a figura deste grande líder da nação brasileira, que, como a nação, gigante por natureza, foi, por natureza, um gigante, é vilipendiada pelos paulistas, que, com a sua desprezível arrogância capitalista de inspiração estadunidense e a sua apologética bandeirante dos desbravadores que devastaram a Mata Atlântica e patrocinaram, com dinheiro estrangeiro, a aniquilação dos povos nativos, os únicos e verdadeiros donos destas terras, lutam pela implementação, em todo o território nacional, da cultura paulista da irreflexão, da dessensibilização capitalista, com a conseqüente eliminação das culturas regionais, agressão esta que se sucede há quinhentos anos e à qual os políticos nordestinos – pejorativamente alcunhados coronéis – resistiram bravamente, em benefício dos brasileiros herdeiros das ancestrais culturas nativas pré-colombianas e pré-cabralinas, dois substantivos inapropriados, pois com eles não se considera a diversidade cultural dos povos nativos, que é rica, imensurável, incomparável – infelizmente a sua maior parte foi destruída por espanhóis, portugueses, britânicos, holandeses e franceses, povos sórdidos que, após devastarem a Europa, devastaram a Ásia, a África e o continente o qual, numa demonstração de profundo desprezo pelos donos destas terras, destruíram, eliminando a harmonia existente entre eles e a natureza abundante, generosa, mantenedora da vida. Muitos povos – irmanados com a natureza, que lhes legou a sabedoria, pura, intocada pela civilização, sabedoria, tão excelsa, milenar, embebida na pureza natural, que os homens civilizados estão impossibilitados de conceber – foram dizimados pelos embrutecidos, cruéis e sórdidos europeus, que, incapazes de apreenderem o real valor da sabedoria natural, que lhes exige intelecto do qual são desprovidos, enraivecidos, invejando os povos nativos, os exterminaram. Sobreviveram unicamente os povos que se refugiaram no coração da floresta e conservaram, bravamente, opondo-se à política européia de extermínio dos povos nativos silvícolas, a cultura milenar nativa.

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, esta introdução é imprescindível para a correta compreensão dos eventos que se sucedem, à revelia do Governo Federal, no Brasil, com mais intensidade no Estado de São Paulo, que concentra a maior parte do movimento orquestrado por partidos conservadores fundamentalistas, fervorosos, arbitrários e intransigentes defensores da cultura capitalista de cunho genocida de inspiração européia que muitos males e sofrimentos produziu em todo o orbe terrestre. São estes os agentes da destruição que pululam Brasil adentro, mancomunados com agentes estrangeiros infiltrados no Brasil, e manipulam os brasileiros, induzindo-os a atacarem o Governo Federal. Não procede o teor da notícia, saiba, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, disseminada pela mídia nacional, que, sabemos, está nas mãos de conservadores fundamentalistas, como tu tão bem sabes, de que agentes comunistas, financiados pelo Governo Federal, infiltraram-se nas revoltas mais agressivas, e vociferaram, belicistas, palavras de ordem, exibiram desprezo pela autoridade governamental e brandiram bandeiras conservadoras com o propósito de imputar aos conservadores crimes perpetrados pelo Governo Federal. Tal é a estratégia política dos conservadores fundamentalistas, inimigos do Governo Federal, que está atento para a ação dos inimigos do Brasil. No seu esforço de preservar os programas sociais, conservar a paz e a ordem, conter a violência conservadora, o Governo Federal, a contragosto, despende somas incalculáveis – que não estavam consideradas no orçamento nacional -, com o propósito de impedir o recrudescimento da violência e a elevação da força dos revoltosos, e transfere, para enfrentar a onda de violência perpetrada pelos conservadores fundamentalistas, recursos destinados à criação do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional à política de segurança pública e à ampliação e aperfeiçoamento do sistema de segurança nacional, objetivando a manutenção do aparato policial, para fazer frente ao trabalho, incontornável e inadiável, de matar, no nascedouro, o movimento radical hostil à justiça social e ao bem-estar dos nordestinos, povos que os conservadores fundamentalistas tanto desprezam. O Governo Federal contratará trabalhadores nacionais capacitados e convocará um exército de agentes civis, todos eles treinados pelo Governo Federal, para quebrar a espinha dorsal dos inimigos do Brasil e cortar o mal pela raiz, como salientou, enfático, o Excelentíssimo Presidente da República. O Governo Federal, visionário, ao acolher o resultado dos estudos de especialistas gabaritados e com experiência comprovada pelo rigoroso, justo e infalível processo de avaliação criado por especialistas de renome nacional contratados pelo Governo Federal, decidiu solicitar a elevação da contribuição mensal dos brasileiros para o esforço de manutenção da paz e da ordem. R$ 50,00 serão, automaticamente, debitados da conta corrente de cada trabalhador brasileiro, todo mês, no dia cinco. O Governo Federal prescindiu da consulta aos trabalhadores brasileiros devido à urgência do estado de coisas. O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, responsável cidadão brasileiro, reconheces a urgência da medida, e, como patriota exemplar, acolhes, consciente, a ordem presidencial, numa postura digna, correta e corajosa, em respeito às medidas que salvaguardam a paz nacional. Infelizmente, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, milhões de brasileiros desprovidos de consciência e responsabilidade patrióticas equivalente à tua, rejeitaram, terminantemente, a solicitação do Governo Federal à contribuição provisória compulsória de recursos, e hostilizam os trabalhadores nacionais investidos em causa tão justa e finalidade tão nobre. Eles não sabem os males que a rejeição deles à política do Governo Federal produzirão no Brasil.

Com autorização do Governo Federal, tendo em vista os prejuízos decorrentes da destruição de agências bancárias pelos revoltosos conservadores, do avanço da violência contra os seguranças contratados pelo Banco, da violação das contas correntes e da invasão dos computadores do Banco por hackers e assaltantes virtuais, o Banco, autorizado pelo Governo Federal, debitará, para melhor atendê-lo, da tua conta corrente, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, a taxa mensal de R$ 35,00, para investimento no Sistema de Segurança Bancária.

O Banco despede-se, sob votos de felicidade e gratidão.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

As recentes medidas adotadas pelo Governo Federal e pelo Banco, como o Banco te informou, a despeito do seu inegável sucesso, não coibiram, todavia, a ação dos mais exaltados burgueses inescrupulosos, sórdidos agentes do imperialismo ianque, sobrinhos do famigerado tio Sam, que, com a sua insanidade esquizofrênica, implementaram na nação estadunidense a secessão, cortando o país ao meio.

O Governo Federal, carente de recursos, e preocupado com o bem-estar do povo brasileiro, povo gentil, cordial, o melhor povo que já surgiu na face externa do orbe terrestre, decidiu não acolher em seu seio generoso e benevolente, a despeito da insistência de organizações internacionais, que desejam ver o nobre povo brasileiro famélico, desvigorado, emasculado, arrastando-se, débil, pelo chão, espojando-se nos lixões produzidos pela burguesia capitalista, as exortações dos capitalistas estrangeiros, as quais, se acolhidas, encareceriam, enormemente, a vida do gentil povo brasileiro, o povo mais trabalhador de que se tem notícia, pois teria de, obrigatoriamente, realocar recursos destinados aos projetos sociais, ambientais, educacionais e culturais para projetos de contenção dos meliantes, e elevar as alíquotas de impostos, que já são elevadíssimas (a elevação das alíquotas de impostos enfraqueceria as indústrias nacionais e diminuiria o poder de compra dos trabalhadores nacionais e de suas famílias). O Governo Federal não hesitou: rejeitou, altivo, nobre, como é de seu feitio, esta proposta nefasta para a pátria, e decidiu implementar medidas que não prejudicam os brasileiros e inspiram-lhes ações favoráveis à participação espontânea no esforço hercúleo de conservação da paz e da ordem neste país tropical, belo por natureza, em que todas as raças se irmanam, amistosamente, neste Éden paradisíaco, e não repetem o ódio visceral fraternal de Caim e Abel, pois, aqui, no Brasil, a natureza é farta, e nutre, com o seu úbere apojado de proteínas e vitaminas, os descendentes de povos oriundos de todos os continentes.

O Banco te informa, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas: o Governo Federal, para obter os recursos imprescindíveis para conservar a paz e a ordem e impedir a repetição do episódio lamentável – que os brasileiros da gema, honestos, decentes e trabalhadores, têm, obrigatoriamente, de deplorar -, que se sucedeu, anteontem [data], no estado de São Paulo, cuja população, descendente de bandeirantes asquerosos, herdeiros de imundos desbravadores genocidas, repete, em pleno século XXI, a malfadada e antipatriótica política de 1932, aumentará a quantidade de dinheiro à disposição do gentil povo brasileiro. As impressoras do Governo Federal estão a todo vapor. O Governo Federal produz riqueza como nunca se produziu na história da civilização.

Para encerrar:

O Governo Federal autorizou o Banco a, para melhor atendê-lo, solicitar-te, encarecidamente, que, para melhor atendê-lo, salientamos, toda vez que tu efetuares uma operação bancária, em quaisquer terminais eletrônicos e caixas em quaisquer agências bancárias, ou nas lojas credenciadas e nas casas lotéricas, além de digitares os dados os quais o senhor estás habituado a fornecer (listamo-los: 1, a senha; 2, o número do teu CPF; 3, o número correspondente ao mês do teu nascimento; 4, o ano do teu nascimento; 5, o número do teu RG; 6, o número do teu Título de Eleitor; 7, o número do teu Certificado de Reservista; 8, o número da tua Carteira de Habilitação de Motorista) e apresentar os documentos originais (Certidão de Nascimento, RG, CPF, Título de Eleitor, Certificado de Reservista e Carteira de Habilitação de Motorista), apresentará três cópias autenticadas de cada documento (RG, CPF, Título de Eleitor, Certificado de Reservista e Carteira de Habilitação de Motorista), que serão protocoladas, e uma cópia o Banco recolherá e arquivará, e uma cópia o Banco enviará ao Governo Federal, e uma cópia o Banco te devolverá, e tu a arquivarás, e conservarás contigo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, para a tua segurança, por um período de cinco anos. Caso o senhor não sejas detentor do Certificado de Reservista e da Carteira de Habilitação, o Banco solicita-te providenciar declaração, de próprio punho, na presença de oficial de justiça, autenticada e com reconhecimento de firma; caso o senhor já tenhas tomado tal providência, conforme solicitado na carta de [data], e redigido, de próprio punho, tal declaração, desconsidere-a, pois o Banco, autorizado pelo Governo Federal, para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, invalidou-a, e a destruirá; a destruição da declaração será executada no Fórum Municipal (para a sua destruição, o senhor terá de pagar módicos R$ 5,00), evitando, assim, que o senhor, nesta vida atribulada, esqueças de tomar tal providência, e o documento, caindo em mãos erradas, que são numerosas nos dias atuais, seja utilizado para realização de crimes contra a tua pessoa. Para a tua segurança, para o Banco melhor atendê-lo, o senhor terá de redigir nova declaração, de próprio punho, autenticá-la, no Cartório de Registro Civil, na presença de um Oficial de Justiça, e terá de apresentá-la, sempre que desejar entrar em uma agência bancária, ao segurança, que te dará acesso aos domínios da agência.

O Banco despede-se de ti, sob votos de felicidade e alegria.

De

Gerente Personalizado

Para melhor atendê-lo – parte 2 de 6

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Senhor, o Banco vos informa:

Na reunião, em [data], da qual participaram economistas e matemáticos do Governo Federal, após ponderados estudos, revisão de cálculos do investimento para a substituição do sistema de segurança bancária atual para o moderno, desenvolvido por técnicos nacionais altamente capacitados, ficou decidido, para atender às novas exigências de segurança bancária para melhor atender os correntistas:

1, elevação de 20% (vinte por cento) dos custos do investimento.

O Governo Federal tomou medidas apropriadas para proteger os correntistas brasileiros da sanha hedionda dos gananciosos exploradores internacionais, que impingem aos brasileiros custos onerosos associados a serviços de qualidade duvidosa e de má qualidade, certos de concentrarem, nas suas mãos, os recursos naturais, dádivas que os brasileiros herdamos da mãe natureza, generosa e benevolente, benquista por todos. O novo sistema de segurança bancária foi desenvolvido por especialistas nacionais, preparados, em instituições nacionais, por especialistas nacionais, para não assimilarem idéias estrangeiras. Com tal medida, o Governo Federal salvaguarda a riqueza cultural nacional, para cuja dilapidação especuladores estrangeiros trabalham, com o objetivo, sórdido, de dissolver o elo que conserva o Brasil uno e indivisível. Se os estrangeiros triunfarem em sua política colonizadora, transferirão, para paraísos fiscais, as riquezas nacionais, que pertencem, por natureza e destino, ao povo brasileiro. Para impedir que isso se dê, o Governo Federal decidiu:

1, elevar a alíquota de importação de máquinas estrangeiras;

Objetivo: impedir a devastação do parque industrial nacional e a apropriação indevida de capital nacional por estrangeiros.

2, investir na capacitação de profissionais nacionais;

Objetivo: impedir o domínio do mercado nacional por profissionais estrangeiros, que, se dominá-lo, chantagearão o Brasil, e exigirão, extorquindo o Brasil, remuneração excessiva.

3, proibir a contratação de profissionais estrangeiros por empresas nacionais; e,

4, controlar a imigração, que, sabemos, é parte do projeto de dominação estrangeira.

Objetivo: Promover justiça social. Se, no Brasil, maior for o número de trabalhadores estrangeiros, menor será o de trabalhadores brasileiros. As conseqüências são óbvias: O empobrecimento do povo brasileiro; o aumento da desigualdade de renda; e a concentração da riqueza nas mãos dos estrangeiros, que são enviados para o Brasil para eliminar a concorrência nacional, pois, sabem os estrangeiros, os brasileiros são bem treinados, talentosos, produtivos, dotados de peculiaridades únicas, invejadas pelos estrangeiros, que sabem que os brasileiros lhes representam ameaças incontornáveis.

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, vós aprendeste, com a vossa vasta experiência, quais são os perigos que pairam sobre as nossas cabeças e os que nos rondam, ameaçadoramente. Os estrangeiros, vós sabeis, sitiam-nos, e estão na iminência de desfechar um ataque devastador contra o Brasil. Com as medidas acima elencadas, o Governo Federal visa a defesa da riqueza nacional. O Governo Federal, nosso mantenedor e benfeitor, vos põem a par, como a milhões de brasileiros cientes de suas responsabilidades e atribuições de patriotas, das ameaças à segurança nacional.

Certo de que o senhor compreendeste as motivações do Governo Federal na implementação das medidas, justas, favoráveis ao bem-estar dos brasileiros, o Banco passa à parte subseqüente da carta, longa, e para cuja leitura o senhor despenderás, no entanto, poucos minutos do vosso precioso tempo de brasileiro trabalhador.

No seu esforço de construção, no Brasil, de uma indústria de avançada tecnologia de sistema de segurança bancária, melhor do que a existente no exterior, para evitar a bancarrota da incipiente indústria nacional neste setor, que, embora incipiente, avoluma-se, atrai a atenção dos estrangeiros, que admiram os brios e a competência dos profissionais nacionais preparados pelo Governo Federal (daí o desejo, alimentado pelos estrangeiros, de destruírem-na), o Governo Federal estabeleceu as medidas das quais o senhor está a par, e com as quais o senhor, brasileiro patriota que sois, ciente de vossas responsabilidades, concorda. O Governo Federal, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, certo de que o senhor o apoiarás no esforço, incontornável, premente, inadiável, de implantar sistema de segurança bancária de qualidade superior aos que há no exterior, vos solicita, para proteger o Brasil, a contribuição mensal, que será debitada da vossa conta corrente, de R$ 5,00.

Para que os encargos, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, não vos sobrecarreguem, o Governo Federal, ciente do vosso sacrifício espontâneo, cancela a contribuição provisória anteriormente estabelecida, como o Banco vos informou em carta de [data], cumprindo, assim, o compromisso que com o senhor assumiu, dando provas de ser merecedor da confiança que o senhor depositaste no Banco e no Governo Federal.

O Governo Federal, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco enfatiza, numa elevada postura moral admirável, não vos pedirá que participes deste esforço com duas contribuições, a atual, de R$ 2,00, e a de R$ 5,00 estabelecida na reunião, em [data], dos economistas e matemáticos do Governo Federal e de institutos de estudos econométricos financiados pelo Governo Federal. Assim, para não sobrecarregar-vos, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Governo Federal, que bem vos quer, a partir de [data], encerrará o débito, da vossa conta corrente, da contribuição de R$ 2,00, e a partir de então debitará, de vossa conta, R$ 5,00, todo início de mês.

O Governo Federal está seguro de que o senhor participarás deste esforço, pois o senhor, sob a guarda protetora do Governo Federal, serás um dos beneficiados. Os resultados, positivos, favoráveis, serão do vosso conhecimento antes do que imaginais.

O Banco e o Governo Federal contam com a vossa colaboração.

O Banco despede-se com sinceros votos de felicidade e bem-estar.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Senhor, o Banco vos informa:

Conquanto eficientes as últimas medidas tomadas pelo Governo Federal instituídas em [data], como o Banco vos informou na carta precedente, o Banco não alcançou o seu propósito: proteger os seus correntistas, evitando-lhes dissabores. O novo sistema de segurança bancária implementado pelo Banco, sob orientações do Governo Federal, melhor do que o antecedente, mostrou-se, todavia, aquém das expectativas.

Com o aumento do número de casos de violações de contas correntes e de clonagens de cartões, o Banco solicitou ao Governo Federal permissão, para melhorar o sistema de segurança bancária, e melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, para solicitar-vos, senhor, e a todos os seus correntistas, informações que coibirão a ação dos meliantes, e a obteve. Tais informações os correntistas terão de fornecer, para que o Banco melhor possa atendê-los. O senhor, a partir de [data], além de digitardes, para a efetivação de quaisquer operações bancárias, a senha, o número do vosso CPF, o número correspondente ao mês do vosso nascimento, o ano do vosso nascimento e o número do vosso RG, digitarás, na sequência:

1, o número do vosso Título de Eleitor;

2, o número do vosso Certificado de Reservista; e,

3, o número da vossa Carteira de Habilitação de Motorista.

Se o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, não sois detentor de Certificado de Reservista e Carteira de Habilitação de Motorista, redijas uma declaração, de próprio punho, em duas vias, reconheças firma num cartório de registro civil, autentiques as vias, e envie-as ao Banco.

Com tal providência, o Banco melhor irá atendê-lo sempre que o senhor efetuares operações bancárias de quaisquer espécies, não vindo o senhor a ser, portanto, constrangido a vos retirardes do Banco sem efetuares as operações bancárias que sejam do vosso desejo. Evitai transtornos, dissabores, constrangimentos.

Procurai-me – estarei à vossa disposição, para orientar-vos, caso necessário, se for do vosso agrado.

Não tardes a tomar as providências nesta carta elencadas.

Ajudes o Banco a melhor atendê-lo.

Vós sabeis que, nos vinte meses anteriores à esta carta, atuando em parceria com o Governo Federal, o Banco concentrou os seus esforços no exaustivo trabalho de implementação do grandioso sistema de segurança bancária que vos oferece segurança e comodidade, para melhor atendê-lo, oferecendo-vos tranquilidade.

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco conta com a vossa inestimável e imprescindível contribuição.

Certo da vossa compreensão, o Banco despede-se sob votos de amizade.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Mais uma vez, para melhor atendê-lo, o Banco vos solícita, encarecidamente, a vossa contribuição, certo de que o senhor participarás do projeto do Governo Federal. Na reunião, em [data], o Governo Federal, para vosso benefício, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, deliberou, certo de vossa anuência, erigir uma organização de segurança que visa o vosso bem-estar, para melhor atendê-lo.

À guisa de esclarecimentos, o Banco vos informa:

Para a ereção da organização de segurança, imprescindível para o correto e eficiente funcionamento do sistema de segurança bancária, para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Governo Federal teria de transferir recursos de projetos sociais, educacionais, culturais e ambientais para o de segurança bancária, mas não o fará, pois os brasileiros, gentis e patriotas, o apoiarão na implementação do sistema de segurança bancária. Se o Governo Federal reduzisse os recursos destinados às áreas educacional, social, cultural e ambiental, e elevasse o de segurança bancária, prejudicaria, o senhor estás ciente, cidadão responsável que sois, milhões de brasileiros das classes sociais desprivilegiadas, que mal adquirem, todo mês, o salário adequado para a aquisição de provimentos indispensáveis para uma vida saudável.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, sois um brasileiro patriota exemplar. Não desejas, sabe o Governo Federal, ver os vossos patrícios espojando-se na imundície para obter o feijão e o arroz diários. O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, referenderás, como milhões de brasileiros patriotas conscientes de suas responsabilidades, na íntegra, a decisão do Governo Federal. O senhor apoiarás o Governo Federal nesta política, que redundará em vosso benefício, e o Banco melhor irá atendê-lo.

A criação do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional exigirá esforços inauditos do Governo Federal e dos bancos. A contratação de trabalhadores – todos de nacionalidade brasileira – é uma das medidas tomadas pelo Governo Federal. O projeto, gigantesco – como o Brasil, gigante pela própria natureza -, para sustentar o país do futuro, será concebido e desenvolvido por brasileiros treinados pelo Governo Federal, que valoriza, enormemente, como é do vosso conhecimento, o talento irrivalizado dos brasileiros. O projeto, de dimensões gigantes, é essencial para atender o gigante adormecido, que desperta, e atrai o mundo, após o sono prolongado de décadas perdidas em decorrência da entrega das riquezas pátrias para os estrangeiros, que há quinhentos anos exploram o Brasil e mantêm os brasileiros na miséria.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, contribuirás, para tão inaudito esforço, com módicos R$ 10,00 mensais, que serão, automaticamente, debitados da vossa conta corrente. Essa contribuição, que será cobrada de todo brasileiro patriota, permitirá ao Governo Federal conservar os programas sociais, educacionais, culturais e ambientais, para benefício de centenas de milhões de brasileiros, que viveriam à míngua sem o auxílio do Governo Federal.

Certo de contar com a vossa colaboração e compreensão, e certo de que o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, participarás, com o senso de dignidade patriótica que vos anima, entusiasmado, deste projeto, o Banco despede-se sob votos de felicidade e alegria.

Viva o Brasil Grande.

De

Gerente Personalizado

PS.: A contribuição de R$ 5,00 mensais estabelecida, pelo Governo Federal, em [data], será mantida. O senhor compreendes que o Governo Federal não pode prescindir deste recurso, que o senhor tão gentil e generosamente lhe entregas, para não onerar os cofres públicos e não prejudicar centenas de milhões de brasileiros explorados, há quinhentos anos, por estrangeiros gananciosos.

*

Brasília, [data]

Ao

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

O Banco, por meio desta, vos dá notícias, para vossa alegria e felicidade, concernentes ao bem-sucedido Sistema de Segurança Bancária criado pelo Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional. O trabalho vai, de vento em popa, a todo o vapor. O cronograma prossegue como o planejado. O Governo Federal contratou cinco mil trabalhadores nacionais. Todos os trabalhadores, treinados pelo Governo Federal, têm carteira assinada. Com a contratação deles, o Governo Federal melhorou os índices sociais nacionais, que agora equiparam-se aos dos países ricos.

Os empreendimentos patrocinados pelo Governo Federal exigiram recursos inimagináveis.

Um prédio gigantesco, do tamanho do Brasil, está sendo erguido, em Brasília, Capital Federal, que foi sonhada por Juscelino Kubitschek de Oliveira, presidente que presenteou o Brasil com a magistral obra concebida por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, gênios nacionais visionários, irrivalizados.

O Governo Federal treinou centenas de milhares de trabalhadores nacionais, que empreenderão o trabalho que obra tão vasta exige.

Todos os trabalhadores, registrados com carteira assinada, salientamos, são brasileiros, e recebem rendimentos superiores aos oferecidos pelas empresas capitalistas, e escalam as camadas sociais, e integram, agora, a classe média nacional – mas conserva a sua cultura impoluta de brasileiros patriotas -, que, antes da concepção do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional, era de acesso restrito aos privilegiados descendentes de estrangeiros, que, há quinhentos anos, usufruem das riquezas proporcionadas pela sua aliança com os capitalistas estrangeiros, os quais, agora, com a atitude altiva do Governo Federal, esbravejam tendo em mira a conservação dos privilégios dos quais gozavam com exclusividade e os quais não desejam perder. Todos os ataques que os privilegiados desfecham – em associação com os estrangeiros – contra as medidas do Governo Federal, que protege o trabalhador nacional, não surtiram o efeito por eles desejado porque se depararam com um governo altivo, poderoso, que não se curva aos exploradores estrangeiros inescrupulosos, arrogantes, soberbos, insensíveis capitalistas multibilionários, e não é servil às multinacionais e aos governos que as sustentam. O Governo Federal resistiu, heroicamente, ao assédio dos capitalistas estrangeiros, colonizadores e imperialistas gananciosos.

O Governo Federal vos informa:

Com os seus projetos grandiosos (o Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional é um deles), o Governo Federal erigirá o Brasil grande – o país do futuro, gigante pela própria natureza, terra em que se plantando tudo dá, e onde canta o sabiá -, que foi negligenciado pelos governantes brasileiros (todos eles servis aos capitalistas estrangeiros) antecessores ao Governo Federal. Os projetos nacionais, tão grandiosos, foram erguidos a partir do nada, exclusivamente com o talento nacional, que põem aos estrangeiros admirados, invejosos do vigor intelectual e físico irrivalizados do Governo Federal e do patriótico povo brasileiro.

O Governo Federal encarrega-se de tarefas de alcance inédito na história da civilização: o do pleno emprego e o da eliminação das desigualdades sociais. Em nenhum outro país e em nenhuma outra época empreenderam-se projetos tão grandiosos, nem sequer conceberam-se projetos similares.

Os dados reunidos até o presente momento apontam para o progresso irreversível dos projetos do Governo Federal e a necessidade de alocação de recursos para a execução de tão grandioso empreendimento (o Banco refere-se, aqui, ao Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional). O encerramento da construção se dará antes da data aprazada. Não é do desejo do Governo Federal o adiamento indefinido da data de encerramento das obras. Se o Governo Federal não cumprisse com a sua obrigação, concluir o projeto até a data aprazada, escancararia, aos olhos dos brasileiros, a incompetência de um governo descompromissado com o dinheiro público. Não é este o caso do Governo Federal, que nunca tolerará, como nunca admitirá, a elevação de tarifas de impostos, já demasiadamente altos, como o senhor tão bem sabes.

Comunicadas estas notícias, todas do vosso agrado, o Banco, agora, trata de questões de vosso interesse.

Faz-se urgente, como vós sabeis, para a efetiva realização do projeto do Governo Federal, alocação de recursos de montante elevado, muito além do que se previu inicialmente. O Governo Federal, como informado, nesta carta, no parágrafo anterior ao anterior, é categórico na rejeição de elevação de tarifas de impostos e, mais ainda, na da criação de tarifas de impostos, as quais, se criadas, encareceriam o padrão de vida dos trabalhadores nacionais, e, como conseqüência imediata e lógica, reduziriam o seu padrão de vida à miséria. O Governo Federal, para cumprir os contratos assinados com inúmeras empresas nacionais de capital nacional, nos meses anteriores à esta data, para fazer jus à confiança dos trabalhadores nacionais, imprimiu dinheiro para honrar com os seus compromissos, pois, para o Governo Federal, é inadmissível o descumprimento dos contratos, algo que jamais irá fazer, nem mesmo quando estiver acuado pelos megacapitalistas estrangeiros; mesmo em circunstância tão desvantajosa, o Governo Federal lutará, com todas as suas forças – e as suas forças são do tamanho do Brasil, gigante pela própria natureza -, para impedir os trabalhadores nacionais e as suas famílias de carecerem de víveres indispensáveis à vida saudável e tranquila e terem desrespeitados os seus direitos fundamentais inegociáveis. O Governo Federal defenderá os trabalhadores nacionais e as suas famílias da ganância e da frieza dos insensíveis, descompromissados e egoístas capitalistas estrangeiros e dos seus cúmplices brasileiros apátridas e antipatriotas burgueses inescrupulosos.

Para evitar estado de coisas indesejado, tanto pelo Governo Federal, quanto pelos trabalhadores nacionais, o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, com a boa vontade que vos é peculiar, a partir do próximo mês, contribuirás, para a ereção e manutenção do Instituto Nacional de Polícia Especializada em Sistema de Segurança Bancária do Sistema Bancário Nacional, mensalmente, com R$ 20,00, que serão, automaticamente, debitados da vossa conta corrente, e transferidos para as organizações contratadas pelo Governo Federal – o débito se dará no dia subseqüente ao crédito de vosso salário na vossa conta corrente. Com tal providência, o Governo Federal evitará que o saldo da vossa conta corrente fique no vermelho. O débito de R$ 20,00 após o crédito de vosso salário é uma providência de responsabilidade e justiça social implementada pelo Governo Federal, uma prova da consciência social dos governantes nacionais, que lutam, arduamente, para fazer do Brasil um país grande, uma potência mundial, que, sabe o visionário Governo Federal, desbancará, dentro de dez anos, os Estados Unidos – o império romano extemporâneo que personifica a hedionda inescrupulosidade capitalista burguesa -, o Japão – o império oriental em franca decadência – e a Europa – a vilã milenar que explorou as Américas, a África e a Ásia, promoveu a extinção de espécies da flora e da fauna, devastou continentes inteiros, dizimou povos silvícolas nativos, e produziu miséria em todo lugar, e inculcou, na mente dos inocentes nativos, que viviam sob a eterna lei da mãe Gaia, lei irrevogável (mas os europeus, arrogantes, sob a égide da sordidez capitalista, quiseram revogá-la), as idéias nefastas, religiosas e filosóficas oriundas do lamaçal judeu israelita e cristão, as quais os povos europeus, decadentes, herdaram dos antigos hebreus obscurantistas e fundamentalistas supersticiosos, e com as quais querem fazer lavagem cerebral nos brasileiros, induzindo-os a renegar a valiosa cultura que herdaram dos povos nativos da África e da América. O Brasil, sabe o Governo Federal, ao desancar os promotores de misérias e injustiças, dá início à uma nova era, sob os auspícios do Governo Federal, que, com a sua autoridade moral, irá se impor ao mundo, e todos os povos atualmente explorados pelos capitalistas estrangeiros do primeiro mundo se irmanarão, sob a liderança do Governo Federal, e rumarão, de braços dados, para o futuro, brilhante, reservado ao Brasil e aos países cujos povos são puros como o povo brasileiro.

Dito isso, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco vos informa que, para melhor atendê-lo, o senhor, a partir de [data], além de digitar, no caixa e no terminal eletrônico, no momento da efetivação de quaisquer operações bancárias, os dados os quais o senhor já estás habituado a digitar, apresentarás, no caixa de quaisquer de nossas agências, o vosso RG e o vosso CPF, e, no terminal eletrônico, exibi-los-ás para um dispositivo de vídeo instalado na sua parte superior.

Sem mais para o momento, o Banco despede-se com abraços fraternais.

De

Gerente Personalizado

PS.: O Governo Federal suspende a exigência de contribuição de R$ 5,00 e de R$ 10,00 a partir do mês subseqüente ao envio desta carta. Com tal providência, o Governo Federal demonstra respeito pelos brasileiros e reconhece o seu esforço e a sua boa-vontade.

Para melhor atendê-lo – parte 1 de 6

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Por meio desta, o Banco vos comunica da medida, estabelecida para melhor atendê-lo, que o Governo Federal tomou, na resolução [número], publicada em [data], no Diário Oficial, para impedir a supressão, que pode prejudicar-vos sobremaneira, da vossa conta corrente e da vossa caderneta de poupança, de valores consideráveis.

O cumprimento, a contento, da medida abaixo apresentada oferecer-vos-á, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, segurança e tranquilidade. Cumprindo-a, o senhor oferecerás ao Banco instrumentos para melhor atendê-lo.

O procedimento atual, que consiste na digitação da senha, para efetivação de operações bancárias, em quaisquer terminais eletrônicos localizados em território nacional e nos caixas e em terminais eletrônicos de quaisquer agências bancárias, no Brasil e no exterior, devido à ação deletéria de ladrões virtuais, não permite que o Banco vos ofereça a segurança que o senhor mereces, e o Banco deseja vos oferecer, para privar-vos de aborrecimentos e preocupações enervantes. Nos doze meses anteriores à esta carta, o Banco vos informa, para inteirar-vos do estado de coisas atual, os crimes virtuais e as violações de contas correntes e cadernetas de poupança aumentaram a níveis intoleráveis. Tais modalidades criminosas popularizaram-se e engendraram medo e insegurança. Para coibir a ação dos criminosos, o Governo Federal, além da medida que o Banco vos anuncia nesta carta, prepara outras medidas de segurança, para a melhoria do sistema bancário nacional.

Tendo em vista a segurança dos correntistas, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco, em respeito à medida do Governo Federal, e para melhor atendê-lo, a partir de [data], exigirá dos correntistas a digitação, nos caixas e nos terminais eletrônicos, para a execução de operações bancárias de quaisquer espécies:

1, dos dois últimos números do CPF.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, ao digitares, após digitares a vossa senha, os dois últimos números do vosso CPF, darás a vossa contribuição, imprescindível, para o trabalho que o Banco executa com o propósito de garantir a vossa segurança, proporcionandoao Banco os meios para melhor atendê-lo. Tal medida é imprescindível para a tarefa que o senhor confiaste ao Banco: a de guardião do patrimônio que o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, amealhaste, com o suor do vosso rosto, no transcurso dos vossos vinte e cinco anos de vida profissional com carteira assinada.

O Banco conta com a vossa compreensão, certo de que o senhor contas com o seu valioso trabalho.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Em respeito à resolução do Governo Federal, o Banco informa:

Em decorrência da elevação dos casos de violação das contas correntes e cadernetas de poupança por ladrões virtuais e do aumento preocupante dos casos de seqüestros e seqüestros relâmpagos, o Governo Federal estabelece:

Os correntistas, de posse do cartão magnético, no ato da efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies, nas agências bancárias localizadas no território nacional e no território de quaisquer outros países, e nos terminais eletrônicos, além de digitarem a senha e os dois últimos números do CPF, digitarão, a partir de [data]:

1, o número correspondente ao mês de nascimento.

O Banco, certo de que pode contar com a vossa compreensão, para que melhor possa atendê-lo, vos deseja um ótimo dia.

Felicidades.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Por meio desta, o Banco vos comunica a norma bancária [número] estabelecida, pelo Governo Federal, com o propósito de obrigar o Banco a melhor atendê-lo, e que visa o vosso benefício, a vossa segurança, o vosso bem-estar, a vossa tranquilidade e a preservação do vosso dinheiro. O Governo Federal, tendo em vista a elevação dos casos de violência contra a integridade da pessoa humana, no Brasil, e os casos de violações das contas bancárias dos brasileiros, estabelece:

1, os bancos têm, obrigatoriamente, de exigir dos correntistas:

a, após a digitação da senha, dos dois últimos números do CPF e do número correspondente ao mês de nascimento, a digitação, nos painéis dos terminais eletrônicos e no caixa, do ano do nascimento.

O Banco conta com a vossa compreensão e a vossa colaboração, para melhor atendê-lo.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

O Banco vos envia esta carta, para vos inteirar da resolução, decidida em [data], do Governo Federal, estabelecida para o vosso bem-estar e a vossa segurança. O Banco melhor irá atendê-lo ao aprimorar o seu sistema de segurança bancária, que se aproxima da perfeição de um sistema inviolável.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, tomaste conhecimento, pelos jornais, revistas, telejornais e blogs, da elevação considerável, nos dois meses anteriores à esta carta, dos casos de violações de contas correntes e cadernetas de poupança e da multiplicação de seqüestros e seqüestros relâmpagos, que são corriqueiros. O Governo Federal, ciente desta preocupante realidade, promoveu uma reunião ministerial para debater, com representantes do sistema bancário nacional, propostas de aprimoramento do sistema de segurança bancária oferecida aos correntistas pelos bancos nacionais. O Governo Federal reconhece que revelaram-se infrutíferas as providências tomadas, nos doze meses anteriores à esta carta, para o aperfeiçoamento do sistema de segurança dos bancos nacionais. Os meliantes souberam criar expedientes, não previstos pelos especialistas nacionais em segurança bancária, para violarem contas correntes e cadernetas de poupança, e suprimirem dinheiro dos correntistas. Os esforços do Governo Federal não foram de todo baldados; todavia, contrariando a expectativa do Governo Federal, que, no seu empenho de oferecer segurança aos brasileiros, implementou normas de segurança bancária concebidas por especialistas nacionais em segurança bancária, os casos de violações de contas correntes e cadernetas de poupança e os de seqüestros e seqüestros relâmpagos aumentaram consideravelmente, como o Banco vos informou acima – e enfatiza tal informação.

Os especialistas em sistema de segurança bancária do Sistema Bancário Nacional do Governo Federal frustraram-se ao se inteirarem do resultado, indesejado, imprevisto, obtido; mas os esforços não foram de todo em vão.

Na semana anterior à esta, em [data], o Governo Federal, com o apoio incondicional dos bancos, tomou a seguinte resolução:

1, A modificação da sequência dos dados que os correntistas têm de, obrigatoriamente, informar aos bancos, ao digitar, ou nos terminais eletrônicos, ou no caixa, para a efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies.

Para que não persista nenhuma duvida, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o Banco elenca os procedimentos para a efetivação de operações bancárias:

Até o presente momento, a digitação, na sequência:

1, da senha;

2, dos dois últimos números do CPF;

3, do número correspondente ao mês do nascimento; e,

4, do ano do nascimento.

Agora, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, segue a sequência estabelecida pelo Governo Federal para melhor atendê-lo:

A digitação:

1, do ano do nascimento;

2, do número correspondente ao mês do nascimento;

3, dos dois últimos números do CPF; e,

4, da senha.

Com tal alteração, o Governo Federal almeja coibir a ação dos meliantes.

O Banco conta com a vossa colaboração, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Para a vossa segurança, executes as digitações na sequência solicitada pelo Governo Federal, para que o Banco possa melhor atendê-lo.

O Banco despede-se com abraços fraternais.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, o senhor há de se lembrar que o Banco, na carta anterior que vos enviou, vos inteirou da resolução, tomada pelo Governo Federal, que vigorou a partir de [data]. O senhor correspondeu à expectativa do Banco, agiu com presteza e correção, digitando, conforme o solicitado, as informações, e na sequência pedida, como cidadão pacato, digno e responsável que sois.

A reputação do Banco faz jus à vossa postura.

O Banco é grato pela compreensão que o senhor tem demonstrado, desde o princípio, ao atender às medidas para melhor atendê-lo.

Vós sois um valioso cliente do Banco e prestimoso cidadão brasileiro.

Nesta carta, o Banco vos informa:

O Governo Federal, para conceder ao Banco instrumentos para melhor atendê-lo, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, pensando no vosso bem-estar e no da vossa família, estabelece novas regras para a efetivação de operações bancárias de quaisquer espécies. As medidas de segurança bancária instituídas pelo Governo Federal – das quais o senhor tomaste conhecimento, na carta de [data] que o Banco vos enviou -, para surpresa dos especialistas do Sistema Bancário Nacional do Governo Federal, não surtiram o efeito desejado: a redução da violência contra os correntistas. Os casos de seqüestros e seqüestros relâmpagos, duas modalidades criminosas que, à revelia do Governo Federal, e apesar de todos os seus esforços para coibir os criminosos à prática de nefandos atos de violência contra a integridade da pessoa humana, cresceram, no Brasil, desde a implementação das novas regras de segurança para melhoria dos serviços bancários, e são, diuturnamente, divulgados pela imprensa, e espalham-se por todo o território nacional, como tumores cancerígenos. O Governo Federal, diante da triste realidade, na reunião, em [data], com especialistas em segurança bancária, tomou, após discussão exaustiva acalorada, providências para inibir os criminosos e defender as pessoas de bem, como o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas. O Banco apoiou, incondicionalmente, o Governo Federal, em suas novas medidas de segurança, ao reconhecê-las apropriadas para melhor atendê-lo. O Governo Federal e o Banco decidiram revogar as regras, informadas ao senhor na carta anterior, para digitação, no momento da efetivação de quaisquer operações bancárias, nos caixas e nos terminais eletrônicos, como o senhor, desde então, realizaste.

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, a partir de [data], digitarás, na sequência (Elencamos os dados, para que o senhor não vos confundis ao executardes as operações bancárias; e não vos preocupais, se vos atrapalhardes: funcionários, treinados pelo Banco, estarão à vossa disposição, para melhor atendê-lo):

1, a senha;

2, os dois últimos números do vosso CPF;

3, o número correspondente ao mês do vosso nascimento; e,

4, o ano do vosso nascimento.

O Banco vos informa que, após estes dados, o senhor, para o Banco melhor atendê-lo, em respeito às novas resoluções do Governo Federal, instituídas em [data], digitarás:

1, o número do vosso RG.

Antes de encerrar esta carta, o Banco vos informa:

Com autorização do Governo Federal, o Banco debitará, da vossa conta corrente, todo mês, no dia subseqüente ao recebimento, pelo senhor, do vosso salário, para o custeio da instalação do novo sistema de segurança bancária, sofisticado e seguro, a quantia, módica, de R$ 1,00, que é uma contribuição provisória indispensável para a maturação do novo sistema, e que o senhor gentilmente ofereces ao Banco, que, com a instalação do novo sistema, melhor irá atendê-lo.

O Banco conta, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, com a vossa cooperação e compreensão.

O Banco, certo de que o senhor corresponderás às suas expectativas, ciente de tratar com um cidadão brasileiro exemplar que encarna as virtudes, louváveis, do povo desta pátria sagrada por natureza, despede-se com votos de felicidade.

De

Gerente Personalizado

*

Brasília, [data]

Ao

Excelentíssimo Senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas.

Prezado senhor,

O Banco, em respeito à resolução [número] do Governo Federal, oficializada após análise minuciosa dos dados referentes aos casos de violações de contas bancárias, clonagens de cartões de crédito e cartões de débito, substituirá, num prazo de três meses, a partir da data da promulgação da resolução, os cartões em mãos dos correntistas por cartões providos de tecnologia inovadora desenvolvida, em território nacional, por profissionais nacionais, para efetivação de quaisquer operações bancárias, nos terminais eletrônicos, nos caixas e em terminais localizados em lotéricas, supermercados, lojas, postos de combustíveis e outros estabelecimentos comerciais.

Para relembrar-vos, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, a sequência da digitação:

1, a senha;

2, os dois últimos números do vosso CPF;

3, o número correspondente ao mês do vosso nascimento;

4, o ano do vosso nascimento; e,

5, o número do vosso RG.

O Banco, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, em favor dos correntistas, estabelece uma modificação num dos dados que os correntistas têm de digitar, para que o Banco melhor possa atendê-lo, a partir de [data]:

1, como indicado no item 2, os correntistas digitam os dois últimos números do CPF; a partir de [data], terão de digitar o número do CPF.

A sequência dos cinco dados a digitar se mantêm.

Após inteirá-lo desta informação, o Banco recorda:

O senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, contribuis, provisoriamente, todo início de mês, com o módico valor de R$ 1,00 para a instalação do novo sistema de segurança bancária.

Agora, o senhor, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, para a instalação do novo sistema de segurança bancária e a substituição do cartão que está em vossas mãos pelo novo cartão de tecnologia avançada criada e desenvolvida por profissionais nacionais, os quais, enfim, são agraciados com reconhecimento e respeito pelo Governo Federal, contribuirás, todo mês, com módicos R$ 2,00. A contribuição, senhor Carlos Roberto de Souza Almeida Vargas, é provisória. O senhor contribuirás, todo mês, até a maturação do novo sistema, o que se dará dentro de seis meses, quando atingirá a obsolescência, e o Banco dele prescindirá, como os especialistas da área tecnológica prevêem.

O Banco conta com a vossa colaboração, e vos tem em alta estima, certo de que o senhor compreendes as motivações do Governo Federal, que, em seu ingente esforço, trabalha, para vos beneficiar, oferecendo ao Banco instrumentos para melhor atendê-lo, e, cidadão responsável e patriótico que sois, acatarás a resolução governamental, ciente de que se trata de medida apropriada para a melhoria do atendimento bancário aos correntistas.

Da vossa participação, redundará, para vosso benefício e o de todos os correntistas, a melhoria dos serviços que o Banco vos prestará, salvaguardando a vossa liberdade, a vossa segurança, o poder aquisitivo do vosso dinheiro e a conservação do vosso patrimônio.

O Banco despede-se, sob votos de felicidade e alegria.

Um abraço.

De

Gerente Personalizado

O Filho que Viaja Demais

De São Paulo, capital, à noite, o filho telefona para seu pai, em Pindamonhangaba:

– Pai, a benção.

– Deus te abençoe.

– Estou em São Paulo. Daqui a pouco, no aeroporto, embarcarei no avião. Irei para o Sul, para perto do Uruguai.

– Embarcar num avião? Não seria num barco?

– Já estou atrasado, pai. Tenho de correr, ou perderei o avião. A benção.

– Deus te abençoe, filho. Chegando lá, no Sul, avise-me. Vá com Deus.


Na manhã seguinte, telefona o filho para seu pai:

– Pai, a benção.

– Deus te abençoe.

– Já cheguei em Pernambuco.

– Quê!? Pernambuco!? Pernambuco!? Filho, Pernambuco fica, no Sul, perto do Uruguai?!

– E eu sei!? Dormi durante a viagem.

Um escritor e seus lápis

Tenho, sobre a minha escrivaninha, vinte e três lápis, todos devidamente apontados, prontos para o uso.

Hoje, após o café-da-manhã, sentei-me à escrivaninha, para escrever um conto. Peguei um lápis dos vinte e três que tenho à mão, e mirei a folha de sulfite em branco. E menhuma idéia me veio à cabeça. Após meia hora de inércia, desiludido comigo mesmo, abandonei o lápis sobre a escrivaninha. E levantei-me da cadeira. E sai de casa. E todos os meus vinte e três lápis ficaram desapontados.

Em 2.030, na escola…

Era o primeiro dia de aula na Escola Princesa Isabel, de ensino infantil. As crianças a invadiram em vagalhões destruidores, que não poderiam ser contidos nem por todo o maquinário construído pelo homem para a contenção de fenômenos naturais devastadores. A algazarra das crianças traduzia o ânimo delas, criaturas de almas angelicais. Abraçaram-se, espontâneas, expansivas; falaram-se; gargalharam. Sempre em alto e bom som, com toda a força de seus pequenos pulmões, que emitiam sons altissonantes, de fazer tremer o Everest. No rosto delas, o sorriso aberto; nos olhos, o brilho da inocência, da ínfrene alegria. Dominaram da escola o pátio e os corredores. Algumas, acompanhadas de seu pai, ou de sua mãe, logo das mãos deles, assim que viam um amigo, se desvencilhavam e iam alimentar a multidão turbilhonante que tomara conta do território escolar. O caos presente ocultava a ordem existente. Ao soar do sinal que indicou o início das aulas, as crianças rumaram cada uma delas para a sala-de-aula que frequentaria durante o ano letivo. E esvaziou-se o pátio, de onde saía o ruído do silêncio, e nada mais. Em uma das salas-de-aula, a de número 7, da quarta-série, além de vinte e oito crianças, entrou a professora Ludmila, mulher de trinta e dois anos, professora desde os vinte. De estatura mediana, cabelos pretos, lisos e compridos, esbelta, simpática, de espírito cativante, era querida por seus alunos.

Após alguns minutos de conversa descontraída com seus alunos, e assim que eles se silenciaram, disse a professora Ludmila:

– Vamos à chamada.

– Vamos – replicaram algumas crianças; e todas riram.

– Prestem atenção – pediu a professora Ludmila. – Álcoolgeorge.

– Presente.

– Álcoolgerson.

– Estou aqui no fundo.

E gargalhadas dominaram a sala.

– Engraçadinho – censurou-o a professora Ludmila, sorrindo. – Atenção! Álcoolgilson.

– Presente.

– Cloroquiniano.

– Presente.

– Covidiano.

– Presente.

– Distanciamentónio.

– Presente.

– Professora, a ponta do meu lápis ‘tá quebrada – disse uma aluna.

– Você tem apontador? – perguntou-lhe a professora Ludmila.

– Não – respondeu a aluna. – Eu o esqueci, na minha casa, em cima da minha cama.

– Quem pode emprestar um apontador para ela? – perguntou a professora Ludmila a todos os alunos.

E três alunos oferecem à aluna um apontador, e ela pegou o que lhe ofereceu um aluno sentado à sua direita, e pôs-se a apontar o lápis.

– Vamos retomar a chamada – anunciou a professora Ludmila.

– Sim, professora – exclamaram os alunos.

– Imunidadenilson.

– Presente.

– Infecsálvio.

– Eu esqueci o presente, professora.

Os alunos riram. E a professora Ludmila pediu-lhes silêncio, e prosseguiu com a chamada:

– Isolamentobias.

– Presente, professora.

– Isolamentônio.

– Presente.

– Ivermectiago.

– Presente.

– Lockdowniel.

– Presente. Posso ir embora, professora? Ontem, eu não terminei a terceira fase do Game of Virus.

– Não!? – exclamou um aluno, surpreso. – Eu já. E estou na sexta fase.

– Legal! – exclamou outro aluno.

– Meninos, silêncio – censurou-os a professora Ludmila. – No recreio, vocês poderão falar do jogo; aqui na sala, não. Lockdowniel, você não pode ir embora. E comportem-se todos vocês. Atenção à chamada. Lockdownson.

– Presente.

– Pandemilton.

– Presente.

– Quarentênio.

– Presente, professora.

– Recuperadouglas.

– Presente.

– Vacinelson.

– Ele não veio, professora – disse Pandemilton. – Ele mora perto da minha casa. Ontem, ele e a mãe dele, a dona Amélia, que é muito chata, e muito, muito feia, disseram para a minha mãe que hoje ele iria ao médico.

– Tudo bem – disse a professora Ludmila. – À chamada. Vacinicius.

– Presente.

– Azitromisílvia.

– Presente.

– Cloroquiniana.

– Presente, professora.

– Coronádia.

– Presente, professora.

– Coronavilma.

– Presente.

– A Coronavilma é muito chata – disse Cloroquiniano.

– Chato é você! Bobão! – replicou Coronavilma.

– Silêncio, por favor – reprovou-os a professora Ludmila. – Atenção à chamada. Covidiana.

– Presente.

– Infecsílvia.

– Não veio – disse Lockdownson.

– Isolamentónia.

– Presente.

– Quarentenina.

– Presente.

– A Quarentenina também é chata – disse Cloroquiniano.

– E você é bobo – retrucou Quarentenina.

– Bobo e bocó – completou Coronavilma.

– A conversa não chegou no chiqueiro, nariz de porquinha – respondeu Cloroquiniano, dirigindo-se à Coronavilma.

– Professora, a senhora ouviu… – perguntava Coronavilma à professora Ludmila.

– Sim, Coronavilma, ouvi – respondeu-lhe a professora Ludmila antes que ela completasse a frase. – Silêncio, todos vocês. E você, Cloroquiniano, não me interrompa. E seja educado com as suas colegas.

– Sim, senhora – respondeu Cloroquiniano.

– Professora, mande o Cloroquiniano para a diretoria – sugeriu Coronavilma.

– À chamada – disse a professora Ludmila. – Eu ainda não a terminei. Quarentenívia.

– Presente, professora.

– Vacinúbia.

– Presente.

– Zincarla.

– Presente.

– Zincátia.

– Presente, professora.

– Agora – disse a professora Ludmila -, encerrada a chamada, à aula.

Dom Quixote e os Pernilongos

Vinícius é um leitor voraz. Dedica-se à leitura de obras clássicas da literatura universal, todos os dias, nos seus momentos de lazer e em todos os momentos livres do dia – e quando não tem um momento livre, ele dá um jeito de encontrar um. Não é incomum surpreendê-lo, à mesa, durante o café-da-manhã, com um livro à mão, esquecido do que se passa ao seu redor, sua atenção presa mas peripécias de Odisseu, o herói mítico da guerra de Tróia, nas ações misteriosas de Sherlock Holmes pelas ruelas de Londres, nas aventuras disparatadas de Dom Quixote de la Mancha e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, pelas terras espanholas, nas aventuras um tanto rocambolescas de D’Artagnan, Athos, Portos e Aramis, nas viagens marítimas do Capitão Nemo, à bordo do Nautilus, nas fantásticas aventuras de Aladin e do gênio da lâmpada, na caçada que Acab empreende à baleia branca. E assim que conclui o almoço, e também a janta, recolhe-se à biblioteca de sua casa, deita-se no sofá, em cujo um de seus braços apoia um travesseiro sobre o qual pousa a cabeça, e dedica-se à leitura dos mais fantásticas relatos jamais concebidos pela imaginação, fértil imaginação, humana, enquanto seus três filhos assistem, à televisão, a um desenho animado, ou a um filme, ou entretêm-se com um jogo de videogame, e Verônica, sua esposa dedica-se, atarefada, à limpeza da casa , ou desdobra-se para impedir que seus filhos se engalfinhem em lutas fratricidas.

A dedicação de Vinícius à leitura lhe era natural, atendia ao seu temperamento pacato, retraído, introspectivo, avesso, dir-se-ia hostil, à agitação do dia-a-dia, à multidão. Recolhe-se ao seu mundo, e deste mundo parte em viagens para outros mundos, mundos, estes, imaginados por outros seres de sua espécie, e nele permanece por horas a fio.

Nos primeiros anos após unir laços matrimoniais com Verônica, ela enervava-se sempre que o via à margem do que ocorria na casa, e o descompunha, atrabiliária, sobranceira, sob uma torrente de censuras; e ele, contrariado, era obrigado a abandonar a leitura e a executar as tarefas caseiras, para ele monótonas e entediantes, que dele sua consorte exigia. Transcorridos alguns anos, convencida de que seu marido era um leitor incorrigível, que, durante violentas tempestades, que destelhavam a casa – e não é força de expressão: tal se deu duas vezes – infalivelmente conservava-se, tranquilo, a ler livros, e habituando-se a vê-lo com a leitura entretido, e compreendendo-o, com ele nunca mais se irritou, e nunca mais o descompôs. Deixava-o ocupar-se com a leitura, para evitar desgastes que poderiam vir a culminar num rompimento que nenhum deles desejava. Podia o mundo desabar à sua volta e o inferno subir à terra, que Vinícius não interrompia a leitura, principalmente quando estava a ler Dom Qiixote de la Mancha, de todos os livros do universo o que ele mais gostava de ler. Não havia cristão capaz de tirar-lhe o livro de diante dos olhos. Não custa repetir: De todos os livros que Vinícius leu, a obra-prima de Miguel de Cervantes Saavedra é o de sua predileção. Nenhum outro livro o emulava aos olhos de Vinicíus. Nenhum. Nem os de William Shakespeare; nem os de Homero; nem os de Melville. Nem as Mil e Uma Noites. Era Dom Quixote de la Mancha seu herói.

No decurso de seus trinta e dois anos de vida, Vinícius seguiu o herói da Mancha e seu fiel escudeiro quatorze vezes, nas peripécias trágicas, cômicas, dramáticas, heróicas, épicas, pelas terras da Espanha. Sabia de cor e salteado todos os capítulos das aventuras picarescas do herói espanhol. E sempre que se dedicava à leitura da obra-prima de Cervantes surpreendia-se, fascinado, alumbrado com os hilários episódios saídos da mente do mais genial de todos os escritores espanhóis, como se a lesse pela primeira vez.

Ao crepúsculo de um domingo ensolarado de Outubro, após regressar de um passeio, com sua esposa e seus filhos, ao parque, e banhar-se, e, enquanto sua esposa preparava o jantar e os filhos entretinham-se com um quebra-cabeças de quinhentas peças, Vinícius, na biblioteca, tirou da estante o Dom Quixote de la Mancha, e deitou-se no sofá. Iniciaria a décima quinta leitura das peripécias de Dom Quixote e Sancho Pança. Sorriu, ao evocar algumas das cenas para ele as mais engraçadas, prelibando prazer indescritível. E tão logo ajeitou-se no sofá, a cabeça confortavelmente aninhada no travesseiro, iniciou a leitura – e que o mundo ruísse.

Transcorreram-se os minutos. A curtos intervalos de tempo, estampava-se no rosto de Vinícius um sorriso, que contagiaria quem o surpreendesse e lhe excitaria a curiosidade. Uma hora depois, entrou na biblioteca Verônica, que não se admirou ao ver seu marido, deitado no sofá, a ler Dom Quixote.

– Vinícius, há muitos pernilongos, aqui. Meu Deus! Os pernilongos não estão mordendo você, não? – perguntou-lhe Verônica, um sorriso divertido a enfeitar-lhe o belo, simpático rosto.

– Não – respondeu-lhe Vinícius, mecanicamente, os olhos a seguirem as andanças de Dom Quixote e Sancho Pança.

– Vinícius, olhe para seus pés.

– Por quê?

– Olhe.

– Está bem – e Vinícius abaixou, tranquilamente, os braços, o livro, aberto, à mão direita, mal moveu a cabeça, e fitou seus pés. – O que têm meus pés, Verônica?

– O que têm seus pés?! – perguntou Verônica, surpresa, incrédula. – O que têm?! Vinícius, você… Pelo amor de Deus! O que têm?! Você não está vendo os pernilongos em seus pés? Meu Deus! Vinícius! Não acredito! Em cada pé seu há uns vinte pernilongos; alguns deles, de tão gulosos, têm a barriga cheia de sangue. Vinte?! Mais. Uns trinta em cada pé.

– Não se preocupe – respondeu Vinícius, com a tranquilidade habitual, ao mesmo tempo que restituía sua cabeça à posição original, trazia o livro para diante de seus olhos e retomava a leitura.

– Não me preocupar!? E os pernilongos?

– Deixe-os em paz. Não os amole. Daqui a pouco, eles, enjoados de tanto engolir sangue, arrebentam-se, e vão-se embora.

– Quê!? Deixá-los em paz! Não os… Quando eles irão embora, Vinícius? Quando eles drenarem todo o seu sangue?

– Não sei. Entenda-se com eles.

Incrédula com a resposta que ouviu, Verônica meneou a cabeça, apalermada.

– Multidão de pernilongos a morderem-lhe os pés, e o príncipe encantado não ‘tá nem aí – ciciou Verônica para si mesma, um tanto atarantada com a indiferença de seu marido, cujos pés pernilongos devoravam.

Conquanto acostumada com os hábitos de leitor de Vinícius e com os atos, inusitados, que ele prodigalizava durante a leitura de livros, ele ainda a surpreendia, boquiabrindo-a.

Verônica pegou, de sobre a mesa, uma flanela, e com ela afugentou todos os pernilongos – muitos deles de barriga cheia, estufada, vermelhuda – que se banqueteavam com o farto sortimento de sangue que Vinícius lhes oferecia.

– O jantar já ‘tá na mesa – anunciou, recomposta, fleumática, Verônica, que restituiu a flanela à mesa e retirou-se da biblioteca.

E montado no Rocinante, Vinícius errava por terras da Espanha…

O Mentiroso

– Foi o que aconteceu – esbravejou Rodolfo, visivelmente irritado.

– Não foi, não, Rodolfo – retrucou Renato. – Lembra-se do que você contou para todo mundo?

– Contei o que aconteceu.

– Você contou uma história bem conveniente.

– O que você está querendo me dizer?!

– Que você mentiu.

– Menti?!

– Mentiu.

– Não menti.

– Mentiu. Você mentiu.

– Menti?! Lembro-me, e muito bem, do que eu fiz e disse. Não menti.

– Mentiu. Você é um mentiroso profissional. Você contou mais uma das suas infinitas mentiras.

– Você me ofende. Que outras mentiras contei?!

– Que outras mentiras!? Ora, Rodolfo. Perdi a conta de quantas mentiras você já contou. Perdi a conta. Você mente, e mente, e mente, e mente… E mente. Até a respeito do seu nome você mente.

– Quê!?

– Para a Lucinha você disse chamar-se Leandro; para a Mariângela, Luciano; para a Gorete, Vinicius. E mentiu sobre os seus pais e a respeito da cidade em que nasceu…

– Não acredito no que você me diz.

– Se você acredita ou não, o que você fez já está feito, e não vai fazer com que você deixe de ser o mentiroso que você é, e as pessoas não deixarão de saber que você é um mentiroso incorrigível. Todos sabemos que você nada mais é do que um mentiroso. Sorte sua que hoje em dia não há um Gepeto perambulando por aí.

-Quem é Gepeto?

– Você nunca ouviu falar do Collodi?

– Não.

– E do Pinóquio?

– Já. Quem nunca ouviu falar dele?! O que o Pinóquio tem a ver com o tal de Gepeto e com o tal do outro que você mencionou?

– Collodi é o autor do livro que conta a estória do Pinóquio e Gepeto é o personagem que, na estória, dá vida ao Pinóquio.

– E o que os três têm a ver com o que aconteceu ontem?

– Para certas coisas você é esperto, esperto até demais; para outras, asnaticamente burro.

– Você me ofende.

– Se eu digo que não existe nenhum Gepeto por aí e que ele deu vida ao Pinóquio, o que você entende?

– É uma indireta?

– Enfim, você despertou de um sono profundo.

– Você está me dizendo que eu sou tão mentiroso quanto o Pinóquio?!

– Não. Estou dizendo que você é mais mentiroso do que ele. Muito mais.

– Grande amigo você é.

– Já livrei você de muitas enrascadas nas quais você se enroscou por causa das suas mentiras. Desta vez, você que se entenda com a Adriana. Eu não direi para ela que eu e você fomos, ontem, ao campo de futebol.

– Mas você e eu fomos ao campo de futebol.

– O quê!? Onde você está com a cabeça!?

– Não fomos ao campo de futebol, ontem, não?!

– O quê!? Do que você está falando? Não fomos ao campo de futebol, ontem. Eu e a Andressa fomos ao cinema. E você e a Beatriz, ao motel.

– Não fui ao motel.

– Foi.

– Não fui.

– Pois eu digo que foi. E digo com todas as letras: Você traiu a Adriana. E não foi a primeira vez. E não será a última, com certeza. Faça-me um favor, Rodolfo: Não me envolva mais em seus problemas. Eu vou embora.

– Espere um pouco, Renato. Não me deixe na mão. Estou confuso. Não me lembro de ter ido com a Beatriz ao motel. Que Beatriz!? E eu traí a Adriana!? Eu sou incapaz de traí-la. Eu, trair a minha cara-metade!? Jamais! Traição é crime imperdoável. Eu amo a Adriana. Ela é a paixão da minha vida. Meu docinho de coco. Casei-me com ela porque eu a amo. Sou incapaz, incapaz, entendeu!? de traí-la. Eu e você fomos, ontem, ao campo de futebol. Eu sei que fomos ao campo de futebol, Renato. Eu sei.

– Com toda a sinceridade, Rodolfo: Você está muito estranho ultimamente. Até você acredita nas suas mentiras. É o cúmulo dos absurdos.
*
Uma semana depois:
Casa de Rodolfo e Adriana.
Domingo.
Uma e quarenta e cinco da madrugada.
À escuridão da sala, Adriana, sentada no confortável sofá, trajando, unicamente, uma camisola; com as pernas cruzadas, a direita por sobre a esquerda, movia o pé direito – percebia-se-lhe sinais de irritação e impaciência; semi-adormecida, quase sucumbindo ao sono, aguardava Rodolfo.
E Rodolfo entrou em sua casa. Seus passos, lentos, cuidadosos, silenciosos.

– Por que você demorou tanto, querido? – perguntou-lhe Adriana assim que ele, ao apertar o interruptor, acendeu as duas lâmpadas da sala.

– Querida. O que você faz, aqui, no escuro?! Por que você está, aqui, no escuro?! E de camisola?!

– Eu estava esperando você.

– Esperando-me!?

– Sim. Eu estava esperando você. Você demorou. Faz tempo que estou esperando você.

– Desculpe-me, querida. Você sabe como é a minha vida atribulada. Nos finais de semana, eu vou, você sabe, com os amigos jogar futebol no campo de futebol perto da cada do Renato, ou no perto da casa do pai dele, ou no perto da Igreja São Benedito.

– Querido…

– O Renato convidou-me para ir lá, hoje, jogar uma pelada e beber umas loiras geladas. Fui. E não vi a hora passar. Desculpe-me. Peço desculpas, Adriana. A hora passou. Nossa! Duas horas! Já!? Pelo amor de Deus! Como o tempo passa depressa!

– Querido…

– E eu pensando que eram, ainda, umas dez da noite, e nem um segundo a mais. E já são duas da madrugada! Pelo amor de Deus! O que aconteceu com os ponteiros do relógio!? Como o tempo passa depressa! Nossa Senhora! E eu pensando que era cedo ainda. Modo de falar, né, querida. Força de expressão. Eu não imaginei que fiquei tanto tempo lá no campo, com o Renato, o Vinicius, o Pedro, o Carlos, o Ricardo, o Paulo, o Roberto, e outros camaradas meus, jogando futebol, desde… Desde que horas? Desde às seis… desde às cinco… Não me recordo. Depois de um dia de trabalho cansativo, muito cansativo, você sabe, né, querida! preciso de uma partidinha de futebol com os amigos, para espairecer, queimar as calorias, gastar as energias, e renovar as energias, gastando-as. É um paradoxo. Um paradoxo. Gasta-se energia, para renová-la.

– Querido, do que você está falando?! Assim que chegamos, eu da casa de mamãe e você da casa de seu irmão, principiamos conversa, que os latidos do Golias interromperam. E você foi ao quintal saber porque o Golias latia tanto, e eu fui banhar-me. E assim que saí do banho, sentei-me, aqui, e fiquei à sua espera. E já faz quase duas horas que você foi ao quintal. Por que você demorou tanto tempo?! Por que o Golias latia tanto? E que história é essa de terem ido jogar futebol você, o Renato, o Vinicius, o Pedro, o Roberto?! Você não saiu daqui de casa depois que regressamos, você, da casa de seu irmão, eu, da de mamãe.

– Golias!? Latidos!? Mamãe!? Meu irmão!? Querida, eu vim do campo de futebol, não vim!?

O homem que evitou o divórcio

– Você não me acreditará, Nelson. Você, após ouvir-me a história, me dirá que sou um mentiroso, um mentiroso inescrupuloso, malvado, um mau-caráter, um mentiroso compulsivo, um rematado mentiroso, um mentiroso incorrigível, um caso perdido, o pai da mentira, o mentiroso dos mentirosos, o gênio da mentira. Não me interrompa, Nelson; não me interrompa. Deixe-me contar para você o que me aconteceu há uns trinta minutos; ou há uma hora, ou há duas horas, não sei. Estou desnorteado. Ainda não me recuperei do desgaste físico e mental da minha mais recente aventura conjugal, um drama, que só não descambou numa tragédia porque fiz bom uso da minha lábia de vendedor tarimbado, de um homem de quarenta anos de experiência no comércio. Minhas mãs, trêmulas; meu peito, incha e desincha, afobado; minhas têmporas, porejadas. Se eu não tivesse feito bom uso da minha oratória de vendedor eu já estaria no olho da rua; a minha patroa teria me demitido; e sem pensar duas vezes teria me dado um belo de um pontapé, e me chutado para fora da casa, arremessando-me na sarjeta. É, Nelson! O coronavírus veio para destruir a vida de todos. O coronavírus é um bicho danado de ruim, criatura nefasta, cruel, muito cruel, uma praga destruidora de lares, promotora de brigas e desentendimentos. O bicho desgraçado obriga todo filho de Deus que deseja sair de casa da casa sair de máscara. E eu cumpro a minha obrigação ao pé da letra, e não saio de casa sem uma das quatro máscaras que minha patroa me comprou há uns dois meses. Temos de nos resguardar ela e eu, mais ela do que eu, afinal ela tem umas complicações no coração, que nunca foi lá grande coisa, e é diabética; e tenho, mesmo sendo forte, de contribuir para a segurança dela, e para a minha também, e para a de meus filhos, e a de meus pais, e a de meus sogros, pessoas bondosas e generosas. E de máscara a cobrir-me a cara, saí de casa, logo após o café-da-manhã, e fui à lotérica; e, trinta minutos depois, saído, já, da lotérica, fui ao banco. Tive de enfrentar duas filas de dar voltas no quarteirão. A para o banco tinha o dobro da para a lotérica. Perdi, calculo, duas horas do dia nas filas. Fazer o que, Nelson!? Eu tinha de pagar contas e depositar dinheiro na conta de meus pais e na do Carlinho, o Carlinho do açougue do Campo Alegre. Assim que saí do banco, irritado, fui à lanchonete… à lanchonete… Esqueci-lhe o nome. Comprei uma coxinha e um refrigerante. Não podendo sentar-me à mesa, fui à Praça Monsenhor Marcondes, e sentei-me em um dos bancos. Abaixei a máscara, ajeitei-me no banco, olhei ao redor, e dei uma boa mordida na coxinha, que estava uma delícia, diga-se de passagem. E destampei a garrafa de refri, e quase a esvaziei em um gole, de tão gelada estava. Refrescou-me o refri. E acertei mais uma dentada na coxinha, arrancando-lhe um bom naco, quase a reduzindo à nada. E degustava eu do refrigerante e da coxinha quando vi, aproximando-se de mim, uma mulher que, pensei assim que a vi, não era de se jogar fora, não; não era uma sereia, e tambêm não era uma baranga. E sentou-se ao meu lado, a atrevida. Eu sou casado. “Ela não me viu a aliança!?”, perguntei-me. Há, na praça, uns vinte bancos; e uns oito deles estavam desocupados; e aquela mulher sentou-se ao meu lado, a um palmo de mim, se muito. “Que atrevimento!”, pensei. E a mulher me olhou, e deteve em mim o olhar. Os olhos dela, castanhos. Disfarcei, olhei para ela, e tão logo meus olhos viram os olhos dela, virei-me para o outro lado, cocei o nariz, e pensei comigo: “O que esta mulher quer comigo? Deve ser uma encalhada à caça de um bom partido. E me escolheu para marido, a maldita. Não me parece feia; e também não é bonita. Havendo tanto homem no mundo, por que ela veio até mim? Está desesperada, com medo de ficar pra titia; só pode ser isso.” Eu não sou um bonitão de novela, Nelson, e nunca atrai mulher nenhuma. Só a Cátia, e com muita dificuldade. Você sabe. Você foi um dos cupidos que me ajudou a conquistá-la. Não sou o Robinho, aquele felizardo, que nasceu mais bonito do que o Tom Cruise. Mulher sempre choveu na horta dele. Mas eu!? Coitado de mim! Só a Cátia, e olhe lá! Mas hoje, aquela mulher, na Praça Monsenhor Marcondes… “Quem é a bandida!?”, pensei, e me perguntei. “O que a dona viu em mim?”, perguntei-me ao sentir o olhar dela pousado em mim. E com insistência ela me fitava. Constrangido, e discretamente, fui um pouco para o lado, afastando-me da moça, que, não muito discretamente, aproximou-se de mim. E eu, com a mesma discrição anterior, mexi-me até a beirada do banco; e a moça, sem esperar-me ajeitar a garrafa de refri ao lado, no chão, achegou-se, e colou-se, em mim, e, sem que eu dela esperasse qualquer outro movimento, levou a mão à minha boca, para dela me remover um pequeno pedaço, que me ficara um pouco acima da comissura direita, da coxinha que eu comia. E tão logo senti os dedos da mulher em mim, movi a cabeça, e exclamei: “Ei!”, e fitei a mulher, e ela me fitou, ambos supresos, eu com o gesto dela, atrevido, e ela, com a minha reação, inesperada e, penso, segundo ela, exagerada. E pensei: “Já passou da hora de dar um basta nesta história.” Dei tratos à bola, e disse, carrancudo, à moça, um tanto quanto mal-educado, rude, grosseiro, em desrespeito às lições que eu trouxe do berço, lições que meus pais me ensinaram acerca do tratamento que um homem deve conceder, sempre, independentemente das circunstâncias, às mulheres: “Não me leve à mal, não, minha senhora, mas você não faz o meu tipo.” E foi só eu concluir a fala, que senti, na cara, um tapa, um tapa daqueles, bem dado, que me sacudiu o cérebro, um tapa de arrancar os dentes e revirar os olhos. Surpreso, e muito surpreso, movi a cabeça, e conservei-me sentado, no banco, de modo a manter-me distante das garras daquela mulher que, desprezada por mim, despeitada, ferida em seu orgulho mulheril, estava, eu sabia, enraivecida, muito enraivecida. E a mulher esbravejou: “Imbecil! Idiota! Estúpido! Vagabundo! Bandido! Salafrário! Canalha! Patife!” Fitei-a, espantado. “Que tempestade em copo d’água.”, pensei. E bufando de raiva a mulher removeu de si a máscara. E o céu desabou-me sobre a cabeça! Era a Cátia. Puxa vida! Nelson, você consegue imaginar a cara dela!? Chispava ódio. Levantou-se do banco a Cátia; e afastou-se de mim, a passos apressados. E eu, lá, na praça, no banco, sentado, apalermado, tentando, em vão, concatenar as idéias, rearranjar os pensamentos, esperando os neurônios reocuparem cada um deles o seu lugar original. Macacos me mordam, Nelson! Era a patroa! E assim que me recuperei da surpresa, levantei-me do banco, e corri atrás da Cátia, e cheguei até ela; e ela não desacelerava os passos; e pedi-lhe desculpas; e ela não quis prosa comigo. As minha palavras caíram em ouvidos moucos. A Cátia nem sequer se dignou a me olhar. Pensando, agora, em retrospectiva, surpreende-me ela não haver descarregado em mim uma catadupa ainda maior de impropérios. Ela soube, bem, ou mal, não sei, controlar os nervos. E foi a muito custo que, já em casa, usando da minha lábia de vendedor tarimbado, eu consegui amansar a fera, que, ferida em sua vaidade, me disparava olhares ferinos e me alvejava com rosnados e grunhidos que assustariam um homem mais pacato. Enfim, arranquei-lhe do rosto um sorriso. E nos divertimos com a confusão. Que o coronavírus regresse à China, e logo. Já me causou muitos dissabores, e quase me arranjou um divórcio indesejado.

Patrulheiros Fique Em Casa – (versão 1)

João e José, irmãos, domingo, ao entardecer, após uma semana trancafiados em casa, saíram para esticar as canelas. Ao chegarem à esquina, uma viatura do Patrulheiros Fique Em Casa aproximou-se deles, e o patrulheiro lhes berrou, fungando de raiva:
– Voltem para casa. Têm de ficar de quarentena.
– E o que você está fazendo aqui, patrulheiro? – perguntou-lhe José, rindo. – Volte para a sua casa.
– Engraçadinho. Eu tenho de manter a ordem.
– Mas nós temos de trabalhar – mentiu João. – Tratalhamos, na Fábrica Monte e Desmonte, no turno da noite. Temos de ganhar o nosso ganha-pão. A frase ficou feia, né, José: “Ganhar ganha-pão”? Que falta de estilo.
– Não podem – replicou o patrulheiro. – Tem de obedecer a quarentena.
– Eu não a conheço – replicou José.
– Você não conhece quem!? – perguntou, intrigado, o patrulheiro.
– A sua patroa – respondeu João.
– A minha patroa!? – perguntou o patrullheiro, ainda mais intrigado.
– Sim – respondeu José. – Sim. A sua patroa: a Quarentena.
– Chega de palhaçada – bufou o patrulheiro, de raiva.
– Palhaçada ou palha assada? – divertia-se João com a confusão do patrulheiro.
– Basta! Engraçadinhos, basta! Voltem para a casa de vocês. Respeitem a quarentena.
– Senhor patrulheiro – disse José -, nós mentimos para o senhor. Pedimos-vos as nossas humildes desculpas. Na verdade eu e meu irmão não estamos indo trabalhar. Estamos apenas caminhando, para espairecer um pouco, desenferrujar os ossos…
– Não podem – berrou o patrulheiro. – É proibido aglomerações.
– Aglomerações!? – exclamaram, confusos, ao mesmo tempo, José e João, que se entreolharam, intrigados.
– Sim – respondeu o patrulheiro. – Vocês são dois. E dois é mais de um. Um é um só. Dois é mais de um. Se é mais de um não é singular; é plural. Se é plural, é aglomeração.
– E essa agora!? – exclamou João.
– Vixi Maria! – exclamou José.
– Tudo bem, senhor patrulheiro – disse João, ao vê-lo pegar de um cassetete. – Tudo bem, senhor, Perdoe-nos, pedimos humildemente. Mentimos para o senhor duas vezes. Perdoe-me. Respeitamos o senhor. Digo a verdade, agora, senhor patrulheiro: eu e meu irmão não vamos trabalhar; nem saímos de casa para passear. Serei sincero, senhor patrulheiro: Nós estamos indo até a biqueira. Somos viciados, drogados. Vamos comprar LSD, crack, maconha, cocaína, lá na boca do Carlão Tatu-Bola. Não queremos desampará-lo, neste momento tão difícil. Ele tem de ganhar a graninha dele, né?! E nós temos de nos divertir um pouco, né, senhor patrulheiro!? É só consumo recreativo. E lá tem funk; e novinhas… Se é que o senhor me entende… – piscou, rindo, cúmplice.
– Ah! – exclamou o patrulheiro, sorrindo. – Por que não me disseram assim que abordei vocês!? Teríam evitado atrito e constrangimento. Neste caso, fiquem à vontade. Não há lei que proíba as pessoas de se divertirem. Tenham uma boa noite de diversão, senhores.
– E tenha uma boa noite de trabalho, senhor patrulheiro.
E o patrulheiro Fique Em Casa entrou na viatura, acenou para João e José, e seguiu a patrulhar a cidade.
E João e José passearam tranquilamente.

O caçador de patos

Certo dia, em algum lugar da França, antes de o galo cantar, anunciando o alvorecer, e o Sol despontar no horizonte, Jean, um amante da arte venatória, a vibrar de energia, retirou-se da sua casa, para uma caçada, na floresta pantanosa. Carregava um rifle e um facão. A floresta da sua casa distava uma hora de caminhada de passos comedidos pela estrada de terra, então lamacenta.

Chegando na floresta, divisou, por entre as árvores rasteiras, em uma lagoa, um pato, que singrava, tranquilamente, a calma água barrenta, e, a curtos intervalos, na água imergia a cabeça, e imersa a conservava durante alguns segundos, e a emergia.

Deteve-se Jean. Não queria de sua presença alertar o pato. Preparou o rifle, cuidadoso, em silêncio, e nem a sua respiração se ouvia. Os seus movimentos eram precisos. Enfim, rifle preparado, apontou-o para o pato. Pô-lo sob a mira do rifle. Ia premir o gatilho, e alvejar o pato, na cabeça, estava certo. Não erraria o tiro, sabia. O pato estava, à sua mira, a trinta metros de distância, e deslocava-se, lentamente, despreocupado, como se vivesse no paraíso. Não erraria o tiro, sabia Jean, que prelibava a refeição: um pato assado. Lambia os beiços, água à boca, a olhar o pato, animal tão incauto, tão inocente, tão pacato, tão… pato. Alvejá-lo-ia, estava certo. Não erraria o tiro, sabia. A menos que…

Com o pato à sua mira – um pato pato, pensava Jean, regozijando-se, lambendo os beiços, água à boca… -, preparado para alvejá-lo, surpreendeu-o, e ao pato, o estalar de um graveto, o qual algum animal premira, e o pato alçou vôo, para contrariedade de Jean, que conseguiu controlar-se, conquanto praguejasse, em pensamento, e as pragas e maldições que, em pensamento, proferia, ecoassem no interior de seu cérebro.

E Jean, o pato à mira do rifle, disparou, e…

No mesmo instante em que Jean premiu o gatilho do rifle, e ouviu-se o estampido da detonação da pólvora, e o projétil principiou, cortando o céu, a sua viagem rumo ao pato, surgiu, não se sabe de onde, um marreco, que seguiu em direção oposta à que seguia o pato, do qual distava quarenta centímetros quando o projétil alvejou-lhe a cabeça, a dele, marreco, então mais pato do que o pato.

E penas de marreco voaram em todas as direções.

E o marreco, morto, sem cabeça, caiu no pântano.

E o pato voou, a salvar-se.

E Jean, que viu o pato a afastar-se, sabia que não fôra em vão o tiro: viu penas a bailarem no céu e um corpo cair no pântano. Correu, feliz e contrariado – contrariado, sim, afinal, não alvejara o pato –, célere, até o local em que caíra o marreco, morto; ao vê-lo, sorriu, e disse:

– Mirei o pato; acertei o marreco.

E foi, feliz, para a sua casa, assobiando uma canção popular e recitando uma poesia pastoril.

E assou o marreco.

E encheu o bucho com a saborosa carne de marreco assada.

E lambeu os beiços, deliciado.

Em primeira mão

– Senhores, apresento-vos o popular e prestigiado homem que nos últimos sete anos engrandeceu o jornalismo brasileiro, alçando-o à altura do das nações ricas: Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço. Senhor Juvenal, recebas, da Academia dos Jornalistas do Brasil, o prêmio Melhor Jornalista do Ano.

Este foi o iniciou do evento ao qual compareceu a nata do jornalismo brasileiro. Juvenal, porte altivo, sorridente – seus dentes brancos refulgiam – ergueu-se. Acenou para os colegas, que, de pé, aplaudiram-no e ovacionavam-no estrondosamente.

Tranquilamente, abrindo passagem entre as mesas, abraçando os homens e estreitando, em abraços calorosos, as mulheres, todas encantadas, e beijando-as nas faces, Juvenal caminhou até o microfone.

A ovação e os aplausos estenderam-se por longos dez minutos.

Com acenos, Juvenal pediu silêncio – o público atendeu-o prontamente -, e deu início ao discurso:

– Esta egrégia instituição selecionou os mais talentosos nomes da literatura jornalística, os quais se rivalizam com os dos Estados Unidos e os da Inglaterra, nações cujos profissionais alçaram-se ao píncaro da genialidade, e, dentre todos os selecionados, todos merecedores de respeito e admiração, optou por me prestigiar com o prêmio Melhor Jornalista do Ano. Há nomes que, mais do que o meu, merecem recebê-lo. Preparei um discurso. Guardei-o no bolso… Estou tão emocionado, que temo gaguejar ao lê-lo. Embaçar-se-me-ia a visão, embargar-se-me-ia a voz… Constrangido… Eu, o centro das atenções… Para mim convergem os vossos olhares… Há, aqui, jornalistas de experiência profissional tão vasta que me constrangem a declarar que não sou o merecedor de tão prestigiado prêmio. Outros nomes se sobrepõem ao meu. O insigne senhor, meu mestre, Paulo Renato Friedmann, excelso jornalista brasileiro, merece, mais do que eu, o título Melhor Jornalista do Ano. Provecto, as suas vastas cãs não me desmentem, usufrui, aos seus noventa e quatro anos de idade, setenta e cinco deles consagrados ao jornalismo, de lucidez admirável. Os artigos de sua lavra, publicados nas últimas semanas, sustentam as minhas palavras. Ele é o guia infalível que nos mostra o melhor caminho, que é o mais árduo, ao correto exercício do jornalismo. O senhor Paulo Renato Friedmann, mais do que todos nós, merece receber, das mãos do presidente da Academia, este troféu que eu, um simples mortal, hoje tenho comigo. Proponho o título Jornalista Sênior ao senhor Paulo Renato Friedmann.

Ovações ensurdecedoras encheram todos os espaços do luxuoso templo, que tremia. As pessoas, emocionadas, expandiam-se em aplausos e assobios.

Juvenal regozijou-se.

Encerrados os aplausos febris e a ovação, Juvenal retomou o discurso:

– Iniciei, há sete anos, a minha promissora carreira jornalística. Neste curto tempo, conheci profissionais que me educaram no exercício de tão nobre profissão, que remonta aos excelsos gênios da Grécia, Tucidides e Heródoto; e de Roma, Plutarco. Eles foram, além de historiadores fabulosos, dotados de recursos literários extraordinários, jornalistas admiráveis. Trataram de inúmeros eventos, todos importantes para a história da civilização. Relataram, com maestria, conflitos entre o ocidente e o oriente, escreveram biografias dos imperadores romanos, e narraram guerras de ampla ressonância cultural e política. Devido aos registros que eles nos legaram, hoje podemos estudar os elementos que agitaram as antigas civilizações. Os relatos deles e, nos tempos modernos, os de Defoe, com o seu naufrágio, os de Swift, com as suas narrativas maravilhosas, os de Churchill, com o seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas, os de Lawrence, com os seus sete pilares da sabedoria, os de Reed, que abalou o mundo em dez dias, engrandecem o jornalismo. Não é atrevimento classificar as obras deles como obras jornalísticas. Atrevo-me a declarar, também, que Guerra e Paz, O Leopardo, A Cartuxa de Parma e Comédia Humana são obras de cunho jornalístico. Apenas pessoas dotadas de talento jornalístico retratam, com desenvoltura, lucidez, penetração psicológica, perícia cirúrgica, os eventos que testemunharam. Tolstoi, Lampedusa, Stendhal e Balzac, além de literatos geniais, criadores irrivalizados, foram jornalísticas formidáveis.

Aplausos retumbantes abafaram-lhe as palavras.

Cessados os aplausos, prosseguiu:

– Para dar a real dimensão da importância do jornalismo na formação da literatura de língua portuguesa e da sua contribuição para a formação de escritores, cito os nomes de Machado de Assis e Eça de Queirós. Ambos nos legaram magistrais peças jornalísticas.

Sucederam-se aplausos ensurdecedores. A ovação elevou-se a níveis inconcebíveis. Mais uma vez, Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço teve de interromper o discurso. Cessados os aplausos e a ovação, prosseguiu:

– Felicito-me ao ver as minhas palavras agradarem aos senhores. Aqui, entre os meus pares e os meus mestres, envaideço-me das minhas conquistas e, principalmente, dos meus fracassos, os quais me ensinaram a humildade e provaram-me que tenho muito a aprender. Agradeço ao querido mestre Paulo Renato Friedmann por todos os ensinamentos e pelo seu exemplo. Para mim, Paulo Renato Friedmann é o modelo perfeito de jornalista. O mestre dos mestres. Deus vos dê saúde e vos permita viver mais noventa e quatro anos. Obrigado.

O público aplaudiu, emocionado.

O advento de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço deu-se sete anos e quatro meses antes do evento que o prestigiou com o título Melhor Jornalista do Ano. Em sua primeira matéria tratou de um episódio medonho sucedido na cidade de ***. Crime abominável, envolvido em mistérios: assassinato de uma menina de nove anos. O assassino também era um necrófilo. Os munícipes ficaram aterrorizados. Quem era o assassino? Ninguém sabia. O cadáver da menina, cujo nome era Lucélia Maria Marques Moreira, ensangüentado e coberto de hematomas, sujo e eviscerado, foi encontrado, à margem de um córrego poluído, por um bêbado, cujo nome era Heriberto Roberto Florisberto Vitorino Trancoso Amoroso D’Escragnolle Neto, que nele tropeçou e, automaticamente, recuperou a lucidez. O corpo foi carregado ao necrotério e submetido à autópsia. Dados os motivos da morte e noticiadas as violações às quais o corpo foi submetido (Lucélia foi estuprada, eviscerada e degolada), logo a notícia espalhou-se por toda a cidade, e a população dirigiu-se, horrorizada, ao velório, a consolar o pai e a mãe – ambos inconsoláveis – de Lucélia Maria Marques Moreira. A mãe, Márcia Maria Marques Moreira, o rosto deformado pelo sofrimento, debulhava-se em lágrimas abundantes. Ela desmaiou; ao recompor-se, repeliu os conselhos de amigos e familiares, e conservou-se no velório a velar sua filha e a receber os votos de condolências de familiares e amigos.

Juvenal, de passagem pela cidade, tomara conhecimento do caso. E registrou, com uma pequena câmara digital, a agitação promovida pelo assassinato da pequena Lucélia Maria Marques Moreira. As imagens espalharam-se pelo mundo. Juvenal foi requisitado a fazer a cobertura dos eventos. Foi tão bem sucedido que a polícia desdobrou-se na investigação, e a pequena cidade converteu-se, da noite do dia 16 de * para a manhã de 17, no maior centro de concentração de jornalistas e curiosos. Para a pequena *** convergiram pessoas de todo o país, todas ávidas por notícias que esclarecessem os pontos obscuros do inominável episódio. E tiveram início as especulações de todos os gêneros. Multiplicaram-se as informações conflitantes. O caso assumiu dimensões fabulosas. As teorias mais extravagantes apontavam a participação de anjos, demônios, alienígenas e bruxos.

Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço ficou famoso no Brasil. Todos desejavam saber o que ele tinha para comentar a respeito da morte de Lucélia. O crime foi reconstituído em todas as suas minúcias. Trabalho modelar, o das emissoras de televisão, que, no emprego dos mais avançados recursos gráficos, reconstituíram o abominável crime.

O delegado responsável pelas investigações apontou Rui Francisco Moura, um homem de quarenta e quatro anos, como suspeito. A multidão, enraivecida, indignada, esqueceu-se, ou não tomou conhecimento, de que Rui Francisco Moura era suspeito de haver cometido o crime, e não havia prova que o incriminasse, e o enxovalhou. Os muros da sua casa foram pichados com ofensas, ameaças de morte, desenhos obscenos e alcunhas depreciativas. Seu nome foi associado ao que há de mais desprezível nos humanos. Alguns nobres cidadãos, que zelavam pela segurança das crianças da cidade, espancaram-no. Sofreu barbaridades até o dia em que o delegado encerrou as investigações, o inocentou e declarou, na entrevista coletiva, que ele era um cidadão exemplar.

Rui retirou-se da cidade, desgostoso. Viveu amargurado os seus últimos quatro anos de vida. Era apontado, em todas as cidades em que se instalava, como estuprador e assassino, e delas tinha de retirar-se antes que alguém o matasse. Viveu como um nômade, entrando e saindo de cidade após cidade. Para ele, a morte foi um lenitivo.

O episódio, que ficou conhecido, nos anais do jornalismo brasileiro, como o Caso Lucélia, foi a desgraça de Rui; em contrapartida, foi a fortuna de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço. Nunca se havia presenciado tal fenômeno midiático. Do Oiapoque ao Chuí não se tratou, durante dois meses, de outro assunto que não o Caso Lucélia. Juvenal, de um momento para o outro, do anonimato galgou, com um salto espetacular, o topo da notoriedade. Amealhou fortuna incalculável. Obteve acesso à alta sociedade brasileira. As suas aventuras amorosas com atrizes, modelos, atletas, cantoras, apresentadoras de programas de auditório e jornalistas estamparam as manchetes de todos os jornais e de todas as revistas do país. O seu site oficial, nos primeiros doze meses após o Caso Lucélia, teve duzentos milhões de acessos. No seu blog, que ele escrevia diariamente, com uma prolixidade ímpar, muitos internautas deixavam comentários favoráveis a seu respeito. Raras as vozes dissonantes. A sua fama ascendeu com o Caso Romualdo, que tratava da história de um garoto que, engolido por uma sucuri, conseguiu safar-se porque seu avô, Juscelino, esquartejou-a com uma picareta. O caso tornou-se evento de repercussão nacional. Dois grupos antagônicos digladiaram-se em ferrenhos debates, com direito a troca de insultos, insinuações maldosas e difamações de toda ordem. Eram, em um canto do ringue, o Amamos Sucuris, e, no outro, o Odiamos Sucuris. Astuto, Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço explorou o episódio em seu benefício. Explorou-o tão sabiamente que Romualdo foi reduzido a um coadjuvante que, acidentalmente, intrometeu-se na história da sucuri; esta, sim, a protagonista, para a qual todas as atenções convergiram. Todas as emissoras de televisão promoveram debates acalorados sobre a atitude da serpente colossal. Em um programa dominical, um psicólogo de serpentes exibiu toda a sua erudição ofídica. Uma emissora de televisão pagou cinquenta mil reais a Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço para ele participar de um debate cujo tema era “As serpentes personificam o mal”. As suas palavras foram repetidas em todas as esquinas, em todas as reuniões, e as suas frases de efeito, citadas como exemplos de sabedoria elevada, sensatez incomparável e penetração filosófica irrivalizada. Reverenciaram-no como a um taumaturgo, a um profeta.

Outro caso de grande repercussão no noticiário brasileiro foi o do serial-killer de **, que, com requintes de crueldade, matou vinte e duas mulheres. Juvenal foi o primeiro jornalista a escrever a respeito. O serial-killer foi alcunhado Dentinho devido aos seus dentes salientes e pontiagudos. Seu nome de batismo era William Washington Williams. Apesar do nome inglês, era brasileiro, filho de brasileiros, neto de brasileiros, e bisneto de um brasileiro, um português, uma brasileira, uma africana, uma espanhola – e são desconhecidas as nacionalidades dos seus outros bisavós, e mal se suspeita as dos seus ascendentes mais antigos. William Washington Williams (ou, como também era conhecido, Dábliu Dábliu Dábliu) era um sujeito tímido, pacato. Juvenal investigou a fundo a biografia de William Washington Williams (ou Dábliu Dábliu Dábliu, ou, simplesmente, WWW) e revelou detalhes que chamaram a atenção do público: WWW era o primeiro de três filhos; foi aluno medíocre, apático, negligente; trancado em si, vivia numa concha; era estranho, esquisito; na sua casa, não se envolvia em brigas com os irmãos; para sua mãe, era um anjinho; para seu pai, um bom filho. Aos vinte e seis anos, entrou para a história como o maior serial-killer do Brasil. Juvenal, no auge do seu prestígio, com a sua persuasão e o seu charme, foi bem sucedido na negociação de uma entrevista exclusiva com William Washington Williams. A entrevista foi ao ar, em um domingo, às oito horas da noite. O Brasil jamais havia assistido a fenômeno televisivo tão grandioso. Nem em copas do mundo, nem nos derradeiros capítulos das novelas, uma emissora de televisão concentrara e concentraria tanto a audiência. A atenção de dezenas de milhões de brasileiros se concentrou em Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço e WWW. A entrevista, um tsunami midiático, arrasou a concorrência. Juvenal, sabiamente, não negociara uma remuneração fixa com a emissora de televisão que transmitiu a entrevista, como habitualmente fazia, mas atrelou o seu salário ao índice de audiência, e amealhou uma fortuna incalculável, e converteu-se, em uma hora, no jornalista mais bem pago na história do Brasil.

As revelações de WWW, e a sua frieza e a sua crueldade, abominaram os brasileiros, mas exerceram fascínio em muita gente, e houve mulheres que se manifestaram favoravelmente a ele, e uma mulher fogosa provida de atrativos irresistíveis desejou dele ter um filho.

Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço, antes que o Caso Dos Três Dáblius, como ficou conhecida a história do maior serial-killer brasileiro, se esgotasse, noticiou, em primeira mão, o Caso do Estuprador do Viaduto, que lhe rendeu um milhão de reais, além de contratos milionários para escrever artigos semanais para os principais jornais e hebdomadários brasileiros. Prolixo, Juvenal escrevia, diariamente, no seu blog (com oitocentos mil acessos por dia), e, para quatro jornais, artigos de duas páginas, publicados nas edições dominicais, cujas tiragens aumentaram cento e quarenta por cento, e, para cinco revistas, um artigo exclusivo para cada uma. Admiravam-lhe a prolixidade. Pasmos, todos ficaram fascinados com a velocidade com que ele produzia textos de altíssima qualidade.

Juvenal era dotado de talento incomparável: investigar os casos mais ordinários, e os transformar em notícias populares. Ele convertia qualquer incidente e qualquer acidente em fenômeno jornalístico. Um exemplo: Um simples incidente, ocorrido em uma estrada federal, envolvendo um motorista que, ligeiramente embriagado, atropelou uma capivara, rendeu manchetes de capa nas principais revistas e nos mais importantes jornais do país. O título do primeiro artigo, de autoria de Juvenal, abordando o episódio, Capivara Etílica, foi reproduzido em todos os jornais, em todas as revistas e em milhares de sites. Num vídeo, Juvenal aparecia no exato local em que o motorista atropelou a desafortunada capivara; e o cadáver dela foi exposto e minuciosamente estudado. Ronaldo Magalhães, o motorista do carro que atropelou a capivara, concedeu a Juvenal uma entrevista de duas horas de duração, revelando o seu estado deplorável: rosto vermelho e inchado; mal conseguia manter-se em pé; engrolava as palavras, delas trocando a ordem das sílabas ou delas suprimindo sílabas. Juvenal, com a sua extraordinária simpatia pessoal, convenceu-o a ficar ‘de quatro’ e a andar sobre uma linha, riscada com giz, no asfalto. Milhões de internautas assistiram à cena, extraordinariamente hilária. Emissoras de televisão a exibiram exaustivamente. Ronaldo, que, a partir desse dia, passou a ser conhecido pela alcunha de Capivaresco, o assassino de capivaras, converteu-se em uma das personalidades mais populares do Brasil, e todos os programas de televisão requisitaram a sua presença. Suplantou, em popularidade, os galãs das novelas, os cantores sertanejos, os de forró, os de axé, os de rap, os de funk, os de pagode e os de outros gêneros musicais populares. Não havia dupla sertaneja, nem pagodeiro, nem mc, nem loira calipígia e nem mulata deslumbrante que se rivalizava com Ronaldo no que dizia respeito à carisma, simpatia e popularidade. Extraordinário! Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço converteu uma nulidade chamada Ronaldo Magalhães em um fenômeno da cultura popular. Ronaldo não existia mais; morreu, para o nascimento de Capivaresco. Jeca Tatu, Macunaíma, Peri, Policarpo Quaresma, enfim, conheceram um personagem que com eles se rivalizava em personificação da alma popular nacional. E o seu criador, Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço, amealhou fortuna impossível, diziam, de se amealhar em tão pouco tempo. Capivaresco tornou-se marca registrada. Apoiado por Juvenal, estreou na música popular, como mc Capivaresco, e lançou dois sucessos musicais: A Capivara Etílica e O Gargalo Roedor. Sucesso nas rádios. Sucesso nas emissoras de televisão. Sucesso na internet. Eram as duas músicas mais ouvidas no Brasil. Lideraram, durante oito meses, a lista das músicas mais tocadas nas rádios. O sucesso das músicas impulsionou a carreira de ator, humorista, poeta, trovador, romancista, de Ronaldo Magalhães, o Capivaresco, que, em pouco mais de um ano, além de amealhar fortuna de mais de quinze milhões de reais, conquistou uma centena de amantes, que não atentavam para a sua notória feiúra, que, aos olhos delas, assumia ares sedutores. E a sua inusitada figura estampou capas de cadernos, recipientes de sabão em pó, e desodorantes, e pijamas, cuecas, chinelos, roupas íntimas femininas, toalhas, artigos esportivos, e mais uma infinidade de outros produtos. E Capivaresco converteu-se em um simpático personagem de revistas em quadrinhos e de desenhos animados: Capivarinho, um garoto sorridente – ao contrário de Ronaldo, tinha todos os dentes -, protetor das florestas e das capivaras; atuava em todo o Brasil, e aventurava-se pelo Alasca, pela Sibéria, pelo Saara e pela Antártida, lugares, até onde se sabe, onde não há capivaras. E todos esqueceram que Ronaldo Magalhães, bêbado ao volante de um carro, havia atropelado uma capivara.

A carreira jornalística de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço ia de vento em popa. Previa-se que nada lhe frearia a ascensão meteórica rumo à estratosfera do mundo jornalístico. Restava-lhe o reconhecimento dos seus pares, e o título de melhor jornalista do ano, concedido pela Academia dos Jornalista do Brasil, lhe viria bem a calhar. Mas a comunidade jornalística, que lhe torcia o nariz, não o via com bons olhos e não o considerava digno de figurar no grupo dos profissionais da imprensa, lho negava, peremptoriamente.

Juvenal superou todos os obstáculos. Os seus opositores, os seus desafetos, todos os profissionais que o viam com maus olhos, não puderam, por mais que o desejassem, barrar-lhe a ascensão. Juvenal triunfou. Prestigiaram-no, em um evento luxuoso, com o título de Melhor Jornalista do Ano, conquanto houvessem muitas vozes dissonantes.

Com o título na mão, o renome em alta, Juvenal circulou pelas mais elevadas camadas sociais, e os homens mais poderosos abriram-lhe as portas e deram-lhe acesso aos seus escritórios. A sua influência nos meios de comunicação era inédita. Antes dele, nenhum outro jornalista granjeara tanto poder. O seu sucesso, previam, jamais teria fim. Juvenal tinha faro jornalístico, diziam, e sabia do nada produzir notícia, contestando, na prática, a lei de Lavoisier. Muitos jornalistas, numa confusão inextricável de sentimentos, admiravam-no e invejavam-no.

Não havia o que negar: Juvenal era dotado de vocação jornalística rara. Após a Academia dos Jornalistas do Brasil o laurear com o título Melhor Jornalista do Ano, Juvenal deu seqüência à sua carreira bem sucedida. Noticiou outros casos, que chegaram às manchetes de todos os jornais, revistas e noticiários de todas as emissoras de televisão: O do Et Caolho, narrado pelo casal Josenildo e Carlota, ambos abduzidos, na Dutra, por uma nave espacial pilotada por um alienígena caolho e sem orelhas; e, principalmente, o do deslizamento de terra que causou a morte, por soterramento, de uma vira-lata e seus cinco filhotes. Esta história comoveu os brasileiros. A prefeitura de * homenageou, com uma estátua, instalada na praça central da cidade, a cachorra, Belinha, e seus cinco filhotinhos. Ao evento compareceu multidão superior ao número de habitantes de * cujo serviço de fornecimento de água entrou em colapso – o departamento de limpeza pública, no dia seguinte ao concorrido evento ao qual compareceram políticos renomados, artistas consagrados, presidentes de organizações não-governamentais de defesa dos animais, removeu setenta e oito toneladas de lixo. * jamais havia conhecido tantos distúrbios como os que presenciou nos dias que precederam e sucederam à inauguração da estátua em homenagem à Belinha e seus cinco filhotinhos (Não é demais noticiar que o deslizamento de terra provocou a morte de dezesseis pessoas, sendo nove delas crianças).

E o Brasil conheceu a história do Surfista Desaparecido, a do Skatista Reaparecido, a da Mulher Com Celulite Na Testa (Como conseqüência da negligência de um cirurgião plástico, a vítima, Andressa, uma linda mulher até então, perdeu os cabelos que lhe adornavam a cabeça, e a sua testa assumiu a configuração de nádegas com celulite), a do Empacotador Empacotado, a do Segurança Inseguro, a do Canhoto Demoníaco, a do Motoqueiro de Botas de Aço e Luvas de Pelica, a da Jaqueta Assassina, a da Peruca Fantasmagórica, a do Fantasma Virtual, a do Software Devorador de Almas e a do Tintureiro Ressuscitado.

Esses foram os casos que Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço noticiou, em primeira mão. Todos ganharam as manchetes dos principais e mais importantes jornais e revistas do Brasil.

A carreira profissional de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço ia num crescendo ininterrupto. Por fim, estabilizou-se. O seu estilo jornalístico fez escola. Transformou assuntos, eventos, fatos irrelevantes em notícias bombásticas, e pessoas desconhecidas em personalidades populares, famosas e ricas.

Sabe-se, hoje, que o caso do Tintureiro Ressuscitado foi o seu último caso de sucesso. A partir do seguinte, os seus artigos atraíram pouca, ou nenhuma, atenção do público, e o nome de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço começou a ser menos evocado nas conversas e deixou de ser referência para os novos jornalistas que chegavam ao mercado. Juvenal, perdulário, via os seus recursos minguarem; e, para seu profundo descontentamento, outros jornalistas o substituíram no imaginário popular; e ele previu que, se continuasse a perder popularidade, ninguém se interessaria pelo seu trabalho, e o esqueceriam. Estava decidido a impedir que isso ocorresse.

– Nunca dei uma notícia interessante – monologava, só, no seu quarto, deitado na cama, fitando o teto. – Fiz com que as pessoas se interessassem pelo que me convinha e convinha aos que me agraciaram com cheques polpudos. Ninguém se interessa por questões importantes, pois para entendê-las têm de queimar as pestanas. Quem deseja queimá-las? Ninguém. Para que quebrar a cabeça com assuntos complicados? É mais interessante narrar a história de um garoto dentuço e espinhento que, ao manusear um estilingue com a exímia destreza de Davi, dispara uma pedra, que atinge um pombinho, quebrando-lhe a asa esquerda, do que tratar da instabilidade da economia mundial e das suas ressonâncias políticas nos miseráveis países africanos, assunto, este, que está fora do âmbito do interesse e das preocupações do público. A questão econômica é espinhosa; a do menino espinhento, não. Brincar com as emoções das pessoas, manipulá-las, mexê-las e remexê-las é sucesso garantido. Tiro e queda! Foi o que fiz até hoje. O resultado está aí. Montanhas de dinheiro. Sucesso. Mulheres. As mulheres mais desejáveis do mundo caem aos meus pés e entregam-se para mim. Sou uma celebridade. Mas minha fama está sofrendo uma reversão. Tenho de anulá-la antes que seja tarde demais. Preciso de uma notícia. Fracassaram as minhas últimas tentativas de transformar em notícias assuntos ordinários. Estou perdendo a mão. O que farei? Terei de fazer alguma coisa. O quê!? O quê!? Não jogarei a minha carreira na lata de lixo. Não sei se procedem as minhas suspeitas, mas, acho, estou perdendo a minha destreza jornalística. Ou eu recupero o espaço que perdi nos últimos meses, ou jovens imberbes, individualistas, agressivos, gananciosos, que não demonstram respeito pelas gerações precedentes, e só olham para o próprio umbigo, e olham-me de cima para baixo, superiores e soberbos, os basbaques!, os almofadinhas!, que mal abandonaram os cueiros e já querem contestar a teoria da gravidade!, me jogarão para escanteio. Na última sessão da Academia o meu nome não figurou entre os cinco jornalistas selecionados para o prêmio Melhor Jornalista do Ano. Provarei para todo o mundo quem é o melhor jornalista do Brasil.

Com esforço hercúleo, numa atividade fatigante e prodigiosa, atirou-se ao trabalho. Não era possível ocultar a sua decadência. Os seus artigos não eram mais lidos com paixão por leitores ávidos. Os acessos ao seu blog despencaram, em seis meses, noventa e cinco por cento. Vários jornais e revistas não renovaram o seu contrato, e os que o renovaram ofereceram-lhe dez por cento da remuneração anterior. Os seus recursos minguavam. O seu busto não estampava capas de revistas e tampouco a primeira página dos principais jornais do país. A sua marca não atraía público, não alavancava as vendas de nenhum produto. As mulheres afastaram-se dele. A sua feiúra destacou-se. Perdeu o charme, as mulheres, os amigos, os admiradores.

Antes, as suas notícias tinham êxito fenomenal; agora, eram ignoradas. O Caso Hermógenes, o orelhudo, e o Caso Salamandra Grelhada, dar-lhe-iam, em outra época, sucesso incomparável, e seriam destaques nos principais jornais e revistas do país. Mas os tempos eram outros, e os ventos assopravam para outra direção. E Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço continuava a rolar ladeira abaixo. Por maior que fosse, o seu esforço para recuperar a popularidade e a fortuna dos seus anos de glória era inútil. Ficou deprimido. Tornou-se alcoólatra. Desvairado, flagelado pela obsessão de reconquista da sua fama e aflito ao ver que outros jornalistas conquistavam o território no qual ele reinava como monarca absoluto, contratou um vigarista para dissimular tentativa de suicídio. O episódio renderia destaque em todas as publicações nacionais e o nome de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço retornaria às manchetes, se ele não incorresse em um erro imperdoável: Não pagou os cinquenta mil reais combinados com Rodolfo para que este simulasse o desejo de suicidar-se. Rodolfo, acometido de fúria irrefreável, pôs a boca no trombone, literalmente. O escândalo abalou os alicerces da república. Juvenal desmentiu as palavras de Rodolfo; este, astuto, apresentou um áudio comprometedor – que gravara, à revelia de Juvenal: o da negociação dos cinquenta mil reais. Juvenal disse que a gravação era uma montagem. Técnicos a examinaram. A gravação era autêntica. Esse foi o primeiro passo de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço na sua interminável via-crucis. O Caso do Suicida Vivo, como ficou conhecido o escândalo, suscitou muitas interrogações que acarretaram muitos dissabores a Juvenal.

– Os outros casos noticiados por Juvenal merecem investigação. Cabe a pergunta: Foram forjados? Juvenal adulterou provas e manipulou fatos? Quais outras mentiras ele nos contou? Quais notícias ele produziu por conta própria? Toda a carreira de Juvenal está sob suspeita.

Tais palavras foram repetidas diariamente. A honestidade de Juvenal foi questionada. Foi suprimido de Juvenal o direito de exercer o jornalismo. As investigações concluíram que ele manipulara inúmeros eventos, inclusive os que lhe conferiram fama e fortuna. Foi expulso da Academia dos Jornalistas do Brasil. Os seus títulos, anulados. O seu nome, sinônimo de manipulação, corrupção moral, foi associado ao que há de pior na conduta humana. Os seus desafetos, que antes não ousavam pôr-lhe o dedo em riste ao nariz e não o atacavam, agora o desancavam, verborrágicos, em artigos ferinos, recheados de acusações. Linchado moralmente, Juvenal caiu em desgraça. Perdeu a sua fortuna, despendida com advogados e rábulas. Juvenal disse, na sua derradeira entrevista, para uma revista dominical, que estava na véspera do seu regresso às manchetes de todos os jornais e de todas as revistas do Brasil.

No dia seguinte, as emissoras de televisão, em chamada de plantão, deram a notícia: Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço foi encontrado, na sua casa, morto, com um tiro na têmpora esquerda. O legista declarou a causa da morte: suicídio. E a carta, de punho de Juvenal, sustentava: “Regressei, para a eternidade.”

O trágico encerramento da vibrante vida de Juvenal foi destaque em todos os noticiários, jornais, revistas e blogs. No dia da sua morte, mais de cinquenta milhões de internautas visitaram o seu blog oficial. A tiragem das revistas semanais e dos jornais aumentou mais de duzentos por cento. E Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço, ou, simplesmente, Juvenal, tornou-se ícone popular, um mártir midiático. A morte o remiu de todos os pecados. A sua estampa suplantou, em popularidade, a de Che Guevara, a de Jimi Hendrix e a de John Lennon. Em um curto período, publicaram-se quatro biografias de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço, cujos títulos eram: Juvenal, o tsunami jornalístico; O Neologismo Juvenalismo; Juvenal, uma biografia; e Juvenal, a lenda. De cada um deles foram vendidos milhões de exemplares, sendo que Juvenal, a lenda converteu-se no maior sucesso editorial do Brasil, rompendo a barreira dos quinze milhões de exemplares vendidos.

Como ele prometera, regressou às manchetes de todos os jornais e de todas as revistas.

Reverenciaram-no.

Desencavaram um manuscrito de Juvenal, enfurnado na gaveta da sua escrivaninha: a sua autobiografia.

Aventaram a possibilidade de o canonizarem.

O teor da autobiografia serviria de fonte para a sua hagiografia.

O sustentável peso do ser

– Márcia, tenho uma novidade para você. Decidi abandonar a minha vida sedentária – disse Fábio, ao chegar na sua casa após um exaustivo dia de trabalho. Márcia, sua esposa, enquanto ensaboava um copo, após usá-lo para beber leite com achocolatado, voltou o rosto para Fábio, ofereceu-lhe os lábios, os quais ele beijou, e esperou pelo complemento da notícia. – O meu estilo de vida está me matando.

– Enfim você reconheceu que precisa de reformas. – comentou Márcia, sorrindo em tom de leve censura.

– Por favor, Márcia… Poupe-me das piadas e dos sermões. Você me alertou para o meu estilo de vida, sedentário, que me prejudica. Vou de carro daqui até o escritório; de carro, do escritório volto para casa; de carro, vou à padaria, que fica no outro lado da rua; de carro, vou à banca de revistas do Manoel, que fica lá na esquina; daqui até lá, um pulo, com a perna esquerda, para ir, e um pulo, com a perna direita, para voltar. E eu, de carro… Quer saber, Márcia, o que me aconteceu, hoje, e me fez mudar de atitude? Tive de andar uns setecentos metros, mais ou menos, do escritório até o cartório… Mal me aguentei em pé ao chegar ao cartório. Cansado, mal consegui respirar. Ofegante, diante da mocinha do cartório, não me recordo se a Fátima, se a Evelyn, que me fitava, esperando que eu lhe dissesse o que eu desejava, fitei-a, sinalizei que atendesse uma mulher que chegou logo após eu, e sorri, constrangido. Ela sorriu, e atendeu à mulher. Pouco depois, ou Evelyn, ou Fátima, eu já recomposto, atendeu-me. Márcia, mal consegui andar setecentos metros! Como cheguei a este ponto!? Escreva o que digo: Perderei estes pneuzinhos…

– Pneuzinhos?

– Não zombe. Tire esse sorrisinho da cara. São pneuzões de caminhão, os que perderei, e os perderei antes do Natal. É uma promessa. Se eu ficar como estou, confundir-me-ão com um leitão, ou com um peru. Você se surpreenderá. Ficarei esbelto como um galã de novela.

No dia seguinte, no café-da-manhã, Fábio, para surpresa de Márcia, fez uma refeição frugal: duas fatias de torrada com geléia de cereja, uma pêra, seis uvas e um copo de laranjada.

– Pelo visto, Fábio, ontem você falou sério – comentou Márcia, surpresa e contente.

– Bote fé, Márcia, o regime é pra valer.

Fábio foi até o escritório, a pé, distante mil e duzentos metros da sua casa. Exausto, sentou na cadeira, e permaneceu sentado durante cinco minutos, para renovar as energias consumidas durante a caminhada. Colegas de trabalho não perderam a oportunidade de convertê-lo no alvo de piadas preferencial durante a manhã. Fábio, de bom humor, embora constrangido, ouviu-as, e divertiu-se com as contadas por Josué, dotado de senso de humor irresistível.

No almoço, no restaurante em frente ao escritório, Fábio sentou-se à mesa. Carlos, o garçom, atendeu-o:

– O de sempre, Fabião?

– Não, Carlos. Traga-me cinco grãos de arroz, três grãos de feijão, duas folhas de alface, quatro fatias de pepino, seis fatias de tomate, e, para beber, meio copo de vinho.

– E os oito bifes de alcatra, Fábião?

– Não quero bife.

– Não quer bife? – perguntou-lhe Carlos, surpreso. – E as quinze coxinhas de frango?

– Esqueça-as, Carlos. Esqueça-as. Não quero ver cheiro de carne.

– O que você comerá de sobremesa?

– Gelatina de limão.

– Gelatina de limão, Fabião!?

– Eu disse gelatina de limão, então é gelatina de limão.

– Você está doente?

– Não.

– Você está bêbado?

– Não.

– Você fumou maconha? Cheirou cocaína? Entupiu-se de crack?

– Não! Não! E não!

– E o pudim, e o doce de coco, e o bolo de chocolate, e o rocambole, e o brigadeiro, e o doce de leite, e a marmelada, e a goiabada com queijo, e a maria-mole, e a teta-de-nega…

– Gelatina de limão, Carlos. Gelatina de limão. Entendeu? De limão. Gelatina de limão.

– E essa agora! Se eu contar para o gerente, ele vai me demitir.

– Deixe de conversa fiada, e traga-me a comida.

– Comida!? Que comida, Fabião? Continue assim, e você aprofundará a crise econômica internacional. Espero que ninguém siga o seu exemplo. Você está de regime?

– Estou – a voz áspera de Fábio fez com que Carlos o olhasse com estranheza.

– O mundo está de cabeça pra baixo – sentenciou Carlos, que ficou de costas para Fábio, e afastou-se, abismado.

Nos dias seguintes, Fábio repetiu essa refeição, para surpresa e espanto de todos.

– Você emagrecerá mais rápido, Fábio – disse-lhe Márcia, uma semana depois -, se praticar um esporte. Que tal ir à academia? A na qual a irmã da Jéssica faz ginástica é ótima, disse-me minha irmã.

– Emagreci?

– Um pouco. Se você se mexer mais, emagrecerá mais, e mais rapidamente. Você pesava cento e vinte e oito quilos; agora, pesa cento e vinte e sete quilos e oitocentos e noventa gramas.

– Virou piadista, mala-sem-alça?

No dia seguinte, Fábio, na academia de ginástica, na sala de musculação, exercitou-se até encharcar a camisa de suor e exaurir as energias.

Encerrados os exercícios, satisfeito com o seu desempenho e com o seu esforço, Fábio mirou-se ao espelho. Irreconhecível, a sua figura. Era o Fábio, o Fábio de sempre. A camisa banhada em suor, ele pensou, era uma recompensa pelo esforço aplicado durante uma hora de exercícios físicos. Sorriu, exultante. Sentia-se outro homem. Saudou a professora, despediu-se dela e dos outros sete alunos, pegou da toalha, enxugou os cabelos ensopados de suor e removeu o suor que lhe porejava o rosto e o pescoço. Retirou-se da academia. Deu não mais do que vinte passos, olhou para o outro lado da rua, e exclamou:

– Ninguém é de ferro! Sou filho de Deus!

Ato contínuo, atravessou a rua, e entrou na lanchonete, e devorou, em dez minutos, com voracidade animalesca, três x-tudo, dois pastéis de carne, duas coxinhas de frango, um quarto de uma torta, e sorveu, sedento, de uma garrafa, dois litros de refrigerante de laranja.

O golpe

Teodoro, empresário bem-sucedido, proprietário da TSS Empreendimentos, granjeou, em mais de trinta anos de estudos e trabalhos exaustivos, reputação de homem honesto, dedicado à família e ao trabalho, e fortuna invejável. Respeitado e admirado, adquiriu ascendência moral sobre muitos profissionais. Dotado de raro espírito empreendedor e de determinação incomum, superou as dificuldades intrínsecas à sua origem social. Ignorou a descrença das pessoas que lhe diziam que ele, pobre, tinha de contentar-se com a pobreza porque ‘quem nasceu para tostão não chegará a vintém’. Determinado a enriquecer-se e oferecer conforto para seu pai e sua mãe, estudou e trabalhou, com seriedade ímpar, e progrediu, numa vida repleta de altos e baixos, de fracassos fragorosos e de sucessos retumbantes, sem jamais desanimar, sem jamais pensar em desistir dos seus sonhos – e sempre com os pés no chão -, até erigir um conglomerado empresarial multimilionário.

Seu pai sonhava com uma viagem aos Estados Unidos, para conhecer o Grand Canyon que via nos filmes de faroeste que tanto admirava. Sua mãe sonhava com a Itália; desejava conhecer Nápoles e Florença. Ambos, admiradores de Beethoven, desejavam conhecer a Áustria. Teodoro prometeu, para si mesmo, entregar, um dia, para seu pai e sua mãe, passagens de avião, em primeira classe, para as cidades que eles desejavam conhecer, e pagar-lhes hospedagem nos melhores hotéis. Cumpriu a promessa antes de assoprar as velas do seu trigésimo aniversário, quando já havia amealhado fortuna calculada em cinco milhões de reais.

Nunca envergonhou-se, nem no auge da sua riqueza, aos cinquenta anos de idade, da sua origem simples, desprovida de conforto material. Nunca alimentou sentimento de desprezo pelo seu pai e pela sua mãe. Amava-os. Aquele casal de pessoas analfabetas o educou, com amor e carinho, o apoiou quando ele se lançou em empreendimentos arriscados, o aconselhou a agir com prudência e sabedoria.

De seu pai e de sua mãe Teodoro nunca ouviu censuras injustificadas, reclamações e conselhos acovardados. Deles sempre ouviu palavras firmes, lições edificantes que o encorajavam, que o animavam a nunca desistir dos seus sonhos.

Teodoro narra, para quem o deseja ouvir, episódios encantadores da sua infância e juventude livres, e, com pormenores chocantes, os capítulos horríveis das privações pelas quais passou – mas não o faz em tom de lamúria, e tampouco a destilar ódio à sociedade. Narra-os para engrandecer as suas conquistas, para enobrecer o nome de seu pai e o de sua mãe, para ilustrar aos seus interlocutores a difícil vida de uma parcela da população brasileira. Muitos dos seus interlocutores, no início, enquanto o ouvem, incrédulos, certos de que ele exagera no tom, com o propósito de comovê-los, rejeitam o que ouvem, mas, tão vívida a memória de Teodoro, persuadem-se de que ouvem relatos que traduzem, com exatidão, a infância e a juventude dele e as das outras pessoas com quem ele convivia. Teodoro alegra-se ao ver que a sua história e a história de sua família e a de amigos inspiram outras pessoas a estenderem as mãos aos desamparados.

Teodoro é um idealista. Para formular os seus ideais, ele, em nenhuma doutrina religiosa se inspirou, nem em um sistema filosófico, tampouco em uma teoria econômica e em uma teoria política. Os seus ideais, fruto da educação que recebeu de seu pai e de sua mãe, nasceram de uma crença sincera no valor humano e no direito de os humanos viverem plenamente a vida e usufruírem de todos os prazeres que ela oferece. Ao contrário dos idealistas aferrados aos sistemas de pensamentos e às teorias políticas, Teodoro jamais impôs os seus ideais às outras pessoas, principalmente àquelas às quais ele estendeu as mãos para ajudar. Dotado de espírito democrático, e utopista, não inseriu, na sua concepção de utopia, os infalíveis elementos das utopias concebidas por intelectuais: governos autoritários que subjugam os indivíduos, que não passam ou de escravos ou de autômatos acéfalos. Na utopia de Teodoro não há espaço para um governo central opressor, nem doutrinas de qualquer tipo; nela, os indivíduos são plenamente livres. Poder-se-ia dizer que Teodoro era uma pessoa que vive com a cabeça nas nuvens. Tal apreciação não corresponderia à realidade, pois ele, dotado de inteligência prática invejável, tem a cabeça nas nuvens, sim, mas anda com os pés no chão.

*

Apresentado Teodoro, relato um capítulo da sua vida.

Há dez anos, Teodoro deu início a uma sequência de equívocos que o fez cometer injustiça contra um dos seus funcionários, ao julgá-lo e condená-lo sem dar-lhe direito à defesa.

Teodoro envergonha-se, sinceramente arrependido, da injustiça que cometeu. Nunca escondeu de seus familiares e amigos os seus erros. Jamais se negou, quando indagado, a narrar, com pormenores ilustrativos, o episódio. Ao narrá-lo, nunca distorceu o papel que protagonizou. O episódio, do qual se envergonha, sinceramente arrependido, ele, ao narrá-lo, o apresenta como um exemplo de injustiça, que qualquer pessoa, baseando-se em suspeitas infundadas, é suscetível de cometer, ao julgar o caráter de outra pessoa. Com sinceridade constrangedora, fala dos seus erros para todas as pessoas que se dispõe a ouvi-lo. Nota-se, no seu tom de voz, forte, e na pronúncia das palavras, correta, sinceridade e constrangimento, e, no olhar, vergonha, arrependimento e coragem de expor-se. Nunca disse que agiu por instinto, e, portanto, não teve consciência dos seus atos, ou que, ao perder, momentaneamente, a razão, cometeu a injustiça. Narra, para seus filhos, para os quais nunca se apresentou como pai perfeito, que eles têm de, obrigatoriamente, reverenciar, o episódio com as mesmas tintas que o narra para todas as outras pessoas. Com invejável sentimento de justiça, apresenta o espírito de cada um dos três protagonistas – Teodoro, Ulisses e Raul – com correção.

Para a reconstituição dos eventos que compõem tal episódio, no desejo de apresentar um relato imparcial, ponderei, e considerei os testemunhos de Teodoro, Ulisses, Raul e os de alguns outros personagens envolvidos.

Não considerei os relatos de pessoas que não participaram diretamente dos eventos aqui narrados.

Nenhum vínculo possuo com os três protagonistas, e eu os desconhecia até o momento que com eles entrei em contato para reunir informações para este relato. Suprimi as informações desencontradas. Busquei, na medida do possível, dar coerência e consistência ao relato. Os três principais envolvidos na história poderão apresentar as suas observações, e contestarem-me se assim o desejarem, e se entenderem que a maneira como eu os retratei não corresponde à realidade e os prejudica. Saibam, aqueles que se pronunciarem contrários ao meu relato, que todas as contestações serão analisadas, e não serão levadas em consideração se não houver provas que as sustentem.

A TSS Empreendimentos, em franco progresso, ao dar início às suas atividades internacionais, com uma filial nos Estados Unidos e uma na Índia, passou por um processo de reformulação do organograma. Teodoro e os integrantes da diretoria da TSS Empreendimentos assimilaram novos e modernos conceitos empresariais, certos de que, atuando, com desenvoltura, em um mercado de dimensões consideravelmente maiores do que o com o qual se depararam até então, poderiam alcançar o sucesso almejado. A concorrência, mais agressiva, voraz e desafiadora do que a nacional, impor-lhes-ia novas exigências, e a TSS Empreendimentos, para não sucumbir aos concorrentes, teve de ser reformulada para a adoção de modernas técnicas de produção. Todos os trabalhadores foram treinados nas novas técnicas, e profissionais gabaritados, formados nas melhores universidades do mundo, com experiência internacional, foram contratados a peso de ouro.

Teodoro conheceu vários profissionais extraordinários. Selecionou os melhores dentre eles. Dentre os selecionados, dois destacaram-se: Ulisses e Raul. Teodoro lhes fez propostas irrecusáveis. Ulisses e Raul, profissionais experientes e astutos, iriam, antevia Teodoro e os diretores da TSS Empreendimentos, gerar grande lucro para a empresa. Ambos, de inteligência prática comprovada, dotados de raro vigor intelectual, ganharam, em pouco tempo, o respeito de Teodoro e dos diretores da TSS Empreendimentos. Ambos, ambiciosos, almejavam a presidência da empresa. Não ocultaram, nem de Teodoro, o que pensavam, o que almejavam; e Teodoro não os censurava; e a rivalidade entre eles não passou despercebida de Teodoro, que não os reprovava, e também não os incentivava a lutarem entre si pela presidência da empresa, pois, sabia, se os incentivasse a lutarem entre si, exacerbaria sentimentos que os conduziriam à destruição, cada qual, da sua carreira, além de prejudicar, com conflitos abertos – ou silenciosos, como numa Guerra Fria -, a empresa, pois estimularia desavenças entre os funcionários, que se reuniriam em dois grupos hostis. Não desejava converter a TSS Empreendimentos em uma terra sem lei, nem rei. Teodoro não inibiu Ulisses e Raul. Não os impediu de desafiarem-se um ao outro, de se provocarem, com alfinetadas polidas. A rivalidade entre eles, sabia Teodoro, se corretamente estimulada e administrada, redundaria em ganhos consideráveis para a TSS Empreendimentos. De nenhum dos dois Teodoro admitiria golpes desleais e artifícios desonestos. Estudou o comportamento deles, e os manipulou, em benefício da TSS Empreendimentos. Qualquer passo em falso, sabia Teodoro, faria com que eles reagissem de modo a prejudicar a empresa.

Certo dia, chegou aos ouvidos de Teodoro uma notícia perturbadora: ou Ulisses, ou Raul, um deles, ou os dois, planejava removê-lo, com um golpe traiçoeiro, da presidência da TSS Empreendimentos. Tal objetivo seria concretizado com o apoio de acionistas. Teodoro, num primeiro momento, incrédulo, rejeitou a notícia. Entretanto, o seu senso de realidade, a sua capacidade de ignorar os seus sentimentos e os seus desejos fê-lo pedir mais detalhes sobre a postura de Ulisses e de Raul à pessoa que lhe levara a perturbadora notícia. E o que ouviu estarreceu-o. Nesse dia ele reconheceu, para seu infortúnio, que possuía víboras peçonhentas bem próximas de si e que havia sido ele, Teodoro, que havia aberto a porta da TSS Empreendimentos para elas. Convenceu-se que a sua imprevidência custar-lhe-ia caro. Mas quem seria o traidor? Ulisses? Raul? Ou os dois? Pensava: “Quem quer me remover da presidência da minha empresa? Quem me prepara um golpe traiçoeiro? Ulisses? Raul? Ulisses e Raul? Quem prepara o terreno para eles? Tenho de desconfiar de qual deles? Posso confiar em um deles? Não me agrada a minha situação. Tenho de suspeitar de duas pessoas que admiro e respeito. Ulisses e Raul são inteligentes, espertos, astutos. Não os subestimo. Guardarei comigo as minhas suspeitas. Irei investigá-los. Se eu der um passo em falso, eles perceberão que os observo, e, ou mudarão de estratégia, ou adiarão os próximos atos, até encontrarem o momento propício para me encaixarem um golpe certeiro, e me derrubarem. Eles não me concederão nenhuma chance ou para eu me defender, ou para eu me antecipar ao golpe que me preparam. O que farei? Mantê-los-ei próximos de mim? Não modificarei as minhas atitudes. Agirei como sempre agi. Se Ulisses e Raul estão unidos contra eu, enfraquecerei a união deles, ou, o que me será melhor, destruí-la-ei. Se Raul é o meu adversário, usarei Ulisses contra ele; se Ulisses é o vilão desta história, jogarei Raul contra ele. Mas… Ronda-me uma ameaça… Poderei, certo de que faço em meu favor, jogar Raul contra Ulisses, e Raul, mais tarde, revelar-se tão perigoso quanto Ulisses, ou até mais perigoso do que ele. E se eu jogar Ulisses contra Raul? Ou devo lançar Ulisses contra Raul e Raul contra Ulisses… Jogarei um contra o outro… Que os dois engalfinhem-se, destruam-se. Terei a paciência de Jó, a sabedoria de Salomão e a astúcia de Odisseu. Serei pragmático, realista, frio, calculista. Estou entre inimigos, em uma guerra pelo domínio da minha empresa. Tenho experiência e inteligência suficientes para saber que estou pisando em terreno minado. Não me distrairei, nem por um milionésimo de um milionésimo de um milionésimo de um segundo.”

Teodoro estabeleceu, com pessoas da sua confiança, meios de detectar as artimanhas de Ulisses e Raul, na hipótese de que ambos, unidos, jogavam, com deslealdade, contra ele, Teodoro, que a nenhum dos seus subordinados desejava entregar a presidência da TSS Empreendimentos – estava estabelecido que ele conservaria consigo a presidência da empresa até a sua aposentadoria compulsória, aos setenta anos, e assumiria a presidência do conselho consultivo.

Transcorreram-se os dias. Teodoro assistiu à deterioração do relacionamento de Ulisses e Raul – que nunca havia sido amigável; eles nunca se entenderam; as provocações recíprocas eram, conquanto ferinas, polidas. O respeito que dedicavam um ao outro decorria de cálculo frio, não de um sentimento sincero de respeito e consideração. À medida que transcorriam-se os dias, Ulisses e Raul, percebia Teófilo, trocavam farpas agudas e comentários maldosos, em alguns casos com o dedo em riste na cara de um e de outro. Tais demonstrações de desprezo recíproco sucediam-se, com o passar dos dias, a intervalos mais curtos. Ofendiam-se Ulisses e Raul, sem meias-palavras. Eram diretos e ríspidos. Disparavam suspeitas sobre a honestidade, o talento profissional e a sexualidade, e sobre a fidelidade das esposas, e sobre a honestidade, a sexualidade e o caráter dos filhos. Teodoro surpreendeu-os, em mais de uma ocasião, imersos em discussões acaloradas. Perguntava-se se Ulisses e Raul eram, efetivamente, rivais viscerais, inimigos umbilicais, ou se desejavam confundi-lo, induzindo-o a aliar-se a um deles, contra o outro – e Teodoro aliar-se-ia a um seu inimigo contra outro inimigo, enfraquecendo-se; se Teodoro revelasse os seus pensamentos, ou para Ulisses, ou para Raul, crente que ele era seu aliado, poderia vir a ser por ele surpreendido, e seria arrasado. Desconfiado, Teodoro não buscou aliança nem com Ulisses, nem com Raul.

Meses depois, Teodoro convenceu-se que Raul e Ulisses eram hostis um ao outro. Teodoro sabia que eles eram ambiciosos e almejavam a presidência da TSS Empreendimentos. Mas qual deles era profissional leal e qual era traiçoeiro e desleal? Teodoro empenhou-se em descobrir quem lhe era leal, ou, se não lhe era leal, agia, como profissional, respeitando as normas da TSS Empreendimentos, preparando-se para, um dia, assumir dela a presidência, e quem lhe era desleal e planejava arruiná-lo. Compreendia os seus subordinados. Sabia que ambos eram ambiciosos. E os admirava. Teodoro também era ambicioso. E não se censurava. Para ele, a ambição, ao contrário do que dizem muitos moralistas, é uma virtude, e não um vício. Não tinha ele porque se reprovar, e porque reprovar Ulisses e Raul. Admirava-os. Respeitava-os. Tinha ciência de que a TSS Empreendimentos progrediu porque pessoas ambiciosas – Teodoro, Ulisses, Raul e centenas de outros profissionais – trabalharam para ela. Desejava Ulisses e Raul na folha de pagamentos da TSS Empreendimentos por muitos anos. Mas, se eles agiam com deslealdade, com desonestidade, puni-los-ia com rigor.

Certo de que Ulisses e Raul não eram aliados, Teodoro esforçou-se por descobrir qual deles preparava-lhe o golpe traiçoeiro. Ulisses? Raul? Se descobrisse que Raul era o seu inimigo, Teodoro poderia confiar em Ulisses e aliar-se a ele? Se descobrisse que Ulisses era o seu inimigo, Teodoro poderia confiar em Raul e aliar-se a ele?

Teodoro não dava a entender que desconfiava de Ulisses e de Raul, e reunia informações a respeito deles. Não deixava escapar de si nenhuma evidência que pudesse levá-lo à resposta para a pergunta: Quem é o meu inimigo: Ulisses ou Raul?

Teodoro não descobriu quem era o seu inimigo; no entanto, acreditou, dissuadiu-o do golpe, e ao não identificar o seu inimigo, sabia, a ameaça continuaria a pairar sobre a sua cabeça. E previu que ou Ulisses, ou Raul, arquitetaria outro golpe, e preparou-se para recebê-lo, e revidá-lo, se fosse o caso, ou antecipar-se ao seu inimigo, e destroçá-lo; se a ele não se antecipasse, desgastar-se-ia, debilitar-se-ia, e ficaria vulnerável ao ataque de um rival de pouca expressão, pois, sabia, fragilizado, atiçaria a ambição de muitas pessoas que aguardavam, pacientemente, por um momento propício para pôr as garras de fora.

Sempre que conversava com Ulisses e Raul, punha-se de sobreaviso, calculava as palavras que dizia, atentava para as palavras que lhe diziam, e procurava identificar os interesses subjacentes a elas. Não podia dar um passo em falso. Até quando manteria a mente fria, os pensamentos ordenados, concentrado no seu trabalho e, ao mesmo tempo, agiria, sem cometer um deslize que alertasse ou Ulisses ou Raul? Não sabia até quando suportaria a pressão. Previu que, logo, alguém cederia, ou ele, Teodoro, ou Ulisses, ou Raul.

Teodoro reuniu novas evidências. Estudou-as. Convenceu-se de que Ulisses era o seu inimigo. Ele, áspero no trato, com atitudes esquivas, agressivas, evasivas, hostilizava-o. Teodoro concluiu que ele notara que o investigavam e sabia que ele, Teodoro, criava-lhe obstáculos para impedi-lo de ascender à presidência da TSS Empreendimentos. Ulisses desrespeitava Teodoro, abertamente. Desprezava-o. Desdenhava-o. Intransigente, procurava impor as suas idéias. Exibia os seus pendores inquisitoriais. Raul, por sua vez, era afável com Teodoro. Com ele se reunia, com freqüência, para tratar de assuntos do interesse da empresa. Assumiu incumbências que eram de Teodoro, livrando-o de compromissos indesejáveis. Era claro, direto, eloquente, espirituoso, prestativo. Tinha a amizade e o respeito e a consideração dos funcionários. Era diplomático. Nas reuniões, pronunciava-se, sempre, com tranquilidade, ponderação e elegância. Transparecia lealdade e franqueza.

Considerando-se unicamente as descrições de Ulisses e de Raul apresentadas no parágrafo anterior, concluir-se-ia que Teodoro, sem hesitar, decidiria: Demitiria Ulisses e aliar-se-ia a Raul. As descrições, em retrospectiva, dão a impressão de que todas as respostas estavam ao alcance das mãos de Teodoro. Teodoro, assim que se convenceu de que Ulisses era o seu inimigo, não se aliou a Raul, pois, suspeitava, ele lhe escondia os seus verdadeiros propósitos; além disso, a mudança do comportamento de Ulisses talvez fosse causada por problemas pessoais que Teodoro ignorava.

Raul acumulava, a cada dia, mais poder na TSS Empreendimentos. No trato com Teodoro era mais livre, mais aberto; e dele tornou-se confidente.

Ulisses, intransigente e intragável, com Teodoro era ríspido e grosseiro. Teodoro, por sua vez, com ele não tratava de assuntos importantes. Hostilizava-o. Sonegava-lhe informações imprescindíveis ao correto exercício do trabalho dele, prejudicando-lhe a reputação. Resultado: Ulisses enfraqueceu-se. Em contrapartida, Raul fortalecia-se, e concentrou muito poder em suas mãos; um dia, o seu poder rivalizou-se com o de Teodoro, e, na cabeça de Teodoro, disparou alarme estridente. Teodoro se viu indagando que loucura cometia ao oferecer tanto poder a Raul, e, apreensivo, reconheceu que se enfraquecia ao enfraquecer Ulisses e fortalecer Raul, que, paciente e sorrateiramente, solapava o chão sobre o qual ele, Teodoro, pisava.

Um relatório de um escritório de consultoria empresarial e um de um escritório de auditoria convenceram Teodoro de que Raul manipulava dados em seu próprio benefício.

Teodoro não entendeu como pôde ser tão ingênuo a ponto de não perceber o que ocorria ao seu redor. Convocou uma reunião, e expôs para a diretoria o conteúdo dos relatórios. Enquanto exibia os gráficos, as tabelas, os organogramas, os documentos, as assinaturas, todos voltaram-se, estupefatos, para Raul, que, lívido, os olhos esbugalhados, suando nas têmporas, o rosto suplicante, dava a entender que não compreendia o que ouvia.

Encerrada a exposição dos relatórios, Teodoro fitou Raul, que, intimidado, disse:

– É ultrajante. Nos relatórios, inverdades. Nunca assinei tais documentos. Nunca autorizei tais transferências de dinheiro. Nunca negociei com Hugo Ugo, que, sei, é uma empresa de fachada. Nunca…

– Cale-se! – interrompeu-o Teodoro, com um grito seco. – Nada do que exibi é verdade? Dois escritórios conceituados estudaram a empresa e ambos revelaram que você, além de desviar uma boa soma de dinheiro da empresa para a sua conta no exterior, pretendia induzir-me a cometer erros que me removeriam da presidência da minha empresa. Você se atreve a dizer, com toda a desfaçatez do mundo, que os relatórios não revelam as suas falcatruas, as suas maquinações? De quem são estas assinaturas? Além de você, quem tem acesso às informações privilegiadas do seu departamento? Quem tem as senhas das contas, Raul? Apenas você as tem. Cometi um erro, um erro grosseiro, um erro imperdoável: confiei em você. Não persistirei no erro. Você há de me pagar caro pela traição. Você não fez jus à confiança que em você depositei. Você há de me pagar caro. Você se apresentou como profissional nobre, leal, respeitável, honesto, irrepreensível. Enganei-me… Você me enredou nas suas artimanhas. Você me golpearia pelas costas, e me derrubaria, e me destruiria… Não se faça de inocente, Raul. Não se atreva a ofender a minha inteligência. Você pagará caro. Eu a me enredar nas suas artimanhas… Forneci para você a munição que você pretendia usar para me atacar e me destruir! Confiei em você… Você me afagou o ego. Bajulou-me… Fez-se de amigo! Fez-se de leal! Fez-se de profissional acima de qualquer suspeita! E eu a engolir… Um afago no ego… Envaidecido, deixei-me embrulhar. Dê adeus à sua carreira, Raul. Você pagará caro! É constrangedor! Confiei em você, e você a me preparar um golpe traiçoeiro. Você e a sua corja! Você não tem palavras para usar em sua defesa, Raul. Não ouse abrir a boca para falar, seja o que for, em sua defesa… Você é desprezível… Você… Você é desprezível… Desprezível! Você está demitido, Raul. Demitido! Demitido! Você há de pagar caro! Já falei com o diretor do departamento jurídico. Ele falou com os advogados, e tomará as providências cabíveis ao caso. Você pagará caro! Retire-se da minha sala. Retire-se da minha empresa.

Raul, cabisbaixo, ombros curvados, passos vagarosos, arrastando os pés, caminhou até à porta, e deteve-se. Ergueu a cabeça. Encheu os pulmões de ar, e esvaziou-os de uma só vez. Segurou a maçaneta, e girou-a, e abriu a porta. Com passos firmes, retirou-se da sala, e fechou a porta atrás de si.

*

– Papai, há um homem lá fora – disse Vladimir para Raul. – Ele disse que quer conversar com você.

Raul, que podava a roseira, abandonou a tesoura, e foi à varanda. À porta, Teodoro aguardava-o.

– Há quanto tempo, Raul? – perguntou Teodoro, fitando Raul nos olhos. – Podemos conversar?

– Depois de tantos anos…

– Por favor… Peço a você, Raul, encarecidamente, que me ouça…

Raul abriu a porta, e pediu a Teodoro que entrasse. Caminharam até à sala de visitas. Raul indicou um sofá a Teodoro, que se sentou, e sentou-se em outro.

Teodoro rompeu o silêncio:

– Há quanto tempo… Não me lembro quando foi que estive aqui pela última vez… Está tão diferente… Ali havia um quadro… Com uma paisagem… Um rio… Montanhas… Lembro-me… Pássaros… Águias… A mesinha de centro… Retangular… A parede, amarela… Amarelo-alaranjada… A lâmpada… Eu… Sabe, Raul… Eu… Como dizer… Quais palavras… Depois de tantos anos… Quantos anos? Quatro? Cinco anos… Raul… Você não imagina como esses cinco anos foram terríveis pra mim. E pra você… Pior… Certamente, pior… Um pedido de desculpas… Você está bem? Sei que você está desempregado… Aquele menininho é seu caçula? Eu não o conhecia… Vladimir… Ele me disse… Espertinho… E onde está a Susana? E a Zuleika? E o Irineu? Eu o vi, no sábado. Está grande, o garoto. Garoto? Ele está homem feito… Disseram-me que ele vai pra faculdade. Engenharia? São Paulo… Osasco… O Irineu… Eu… Eu não o via há muito tempo… E… Sabe, Raul… Os filhos sempre nos dão preocupações. Sabe… Raul, eu… Vim pedir desculpas. Raul… Você merece ouvi-las. Você não imagina… Fiquei arrasado ao saber da verdade. Eu… Se eu pudesse… Se existisse máquina do tempo, eu compraria uma passagem pro passado… Antes de demitir você… Eu iria pra… Pensei em vir… Você imagina, Raul… Difícil tomar a decisão de vir… De vir pedir desculpas pra você… Há quatro anos… Quatro, ou cinco… Não importa… Demiti você… Meu Deus! Raul, você… Sinto-me culpado… Peço, Raul, que me desculpe… Eu não podia imaginar, Raul… Eu… Com raiva… Lembro-me como se tivesse ocorrido ontem. Assim que eu soube da verdade, Raul, o mundo desabou sobre a minha cabeça. Os relatórios… As tabelas… Os gráficos… Os organogramas… Os documentos… As suas assinaturas… Não eram suas… As fotos… Raul… As assinaturas eram suas… Pensei que fossem… E as tabelas… Os documentos incriminavam você… As assinaturas… Os documentos… Em seu favor, a sua palavra… Como eu ia saber, Raul? Errei… Sei que errei… Não posso voltar no tempo e corrigir o erro… Raul… Sei que errei. Sei que não posso… Não tenho direito de pedir pra você esquecer o que aconteceu… Não tenho esse direito… Sei que… O que aconteceu, aconteceu… Errei, sei. Fui injusto… Prejudiquei você… Prejudiquei sua família… A Susana… A Zuleika… O Irineu… O Vladimir… Vocês… Eles… Você… Perdoe-me, Raul… Entenda-me… Não… Não me entenda… Sei quem… Raul, eu… Você foi o mais leal dos meus funcionários… Hoje eu sei disso… Não faz diferença… Sei a verdade… Falar… Não irá apagar o que aconteceu… Você merece ouvir, Raul: Você é um homem trabalhador, honesto, inteligente… Você não mereceu o tratamento que recebeu… A sua assinatura, falsificada… Os relatórios, falsos… As assinaturas não eram suas… Falsificações… Perfeitas… Os dados, manipulados para prejudicar você… Sei, há… Falsificações… Assinaturas falsas… Documentos falsos… O Ulisses… Raul, o Ulisses quis me derrubar… Raul, ele… Ele, Raul, ele, e não você… O Ulisses… Raul, o Ulisses… Quase perdi a TSS… A TSS não escapou de minhas mãos… Ainda conto com amigos leais e profissionais honestos. De boa índole… Defenderam-me… Ajudaram-me… Sou grato a todos eles… Por um triz… Um triz… Quase, Raul… Quase perdi a TSS… Foi… O horror que vivi nestes cinco anos… Por um triz… Se eu perdesse… Eu viveria na miséria… Minha esposa viveria na miséria… Meus filhos, na miséria… Meu pai… Minha mãe… Raul, só de pensar… Pensar em meu pai e em minha mãe… Meu coração… Um peso no coração… Um aperto… Perdoe-me… Raul, quase perdi a TSS, a casa… Não sei se eu suportaria tal golpe. Eu me reergueria… Me desencaminharia… Fiquei com medo de perder… Se eu perdesse… O que seria de minha mãe? O que seria de meu pai? E de Samantha? E de Beatriz? E de Paola? E de Gustavo? E de Leandro? Raul… O que seria de minha família? Raul… Entendo… Não… Não entendo… O Ulisses… Ele me jogou contra você… Pensei que você me bajulava… Ele, com rispidez… Pensei que… Ele, Raul, contratou um estelionatário… Uma organização criminosa… Raul, o Ulisses contratou estelionatários para falsificarem a sua assinatura. Em nenhum momento, Raul, passou-me pela cabeça… Não desconfiei das maquinações dele… Não desconfiei… O Ulisses, Raul, subornou… Manipularam os dados… Você, Raul, parecia… Você… Você, o suspeito… O suspeito de tramar contra mim… E é inocente… Inocente… Raul, as duas consultorias, conceituadas, insuspeitas… Não imaginei, Raul… O Ulisses enganou-me… Cometi uma injustiça… O Ulisses… Por favor, Raul… Raul, por favor, desculpe-me pelo que fiz a você… Por favor… Entenderei, se você não quiser me desculpar… Prejudiquei você… Prejudiquei sua família… Entenderei, se… Por favor, Raul, desculpe-me, Raul… Perdoe-me… Perdoe-me…

Atração irresistível

Era o doutor Castelo Branco aquele homem altivo de andar firme e com ar de aristocrata de tempos não muito distantes. Parecia um contemporâneo de Joaquim Nabuco que entrou em uma máquina do tempo, e transportou-se para a primeira década do século 21. Reputado juiz de direito, é respeitado e admirado por todos os munícipes. Seu pai e seu avô foram personalidades históricas. Seu avô, por antonomásia o Velho, tinha o porte de um imperador; no município, dizem ainda hoje, ele mandava mais do que o prefeito. Se é lenda ou não, ficou na mente do vulgo que ele era o cacique e o pajé deste município, outrora uma vila de ruas de terra pelas quais circulavam carroças.

O doutor Castelo Branco conservava, em todas as ocasiões, a dignidade que o cargo lhe exigia e o título lhe impunha. Jamais perdia a compostura e nem negligenciava a correção da pronúncia; não descia ao vulgo; o seu vocabulário, requintado. Um Rui Barbosa redivivo. Ele não considerava de bom-tom, para sustentar a sua digníssima autoridade, assumir atitudes indignas de um homem de sua posição privilegiada.

– Doutor Castelo Branco – abordou-o um transeunte, homem rústico de vestes vulgares, cabelos ensebados, falhas nos dentes, pele curtida de sol, mãos calosas.

– Bom dia, senhor – saudou-o, altivo, o doutor Castelo Branco, oferecendo-lhe a mão direita.

– Ótimo trabalho, doutor. Ontem, vossa senhoria mandou aqueles cafajestes filhos-da-mãe para o xilindró. Que Deus Nosso Senhor os envie para o inferno! Somos gratos, doutor. Deus vos guarde, vos ilumine. Que Deus vos dê saúde, muitos anos de vida, sabedoria e coragem para arrostar os filhos-da-égua que infestam esta cidade.

– A justiça é o norte dos filhos de Deus Nosso Senhor – sentenciou o doutor Castelo Branco. – Exige de nós homens de direito respeito às leis e dedicação aos estudos, numa faina diária, em prol do bem-estar das pessoas de bem. Ser-me-ia impossível exercer o nobre labor de homem da lei, se não me animasse o amor aos humanos. Orienta-me, em meu diligente trabalho, os ditames das leis divinas e os das leis dos homens. A justiça não é uma quimera. Aprendi, como sabeis, com meu saudoso avô, a jamais descurar de minhas incumbências, a jamais me acovardar diante do escárnio que me cospem as pessoas de má-fé, a jamais transigir diante das ameaças à minha integridade. Envidei todos os esforços no combate do bom combate. Não me aviltei. Não permito que os crápulas me empanem a visão com argumentos enviesados, oratória florida e salamaleques. Os que se confrontaram comigo, partiram do pressuposto de que todos os representantes da lei são corruptíveis. Enganaram-se. O povo desta cidade clamava por justiça. Como representante da justiça, impelido por nobres sentimentos, em mim inculcados por meus ascendentes, respeitáveis, vós sabeis, respeitando a justiça dos homens, inspirado pela justiça de Deus, para restabelecer a ordem nesta cidade, cujos moradores, decentes filhos de Deus, indignados com a selvageria animalesca de arautos de Satã, estavam na iminência de sucumbirem ao ódio, que corrói a alma, e violarem as leis de Deus, puni, com justiça, como representante da lei, os bandidos execráveis que ousaram seviciar e assassinar uma angelical menina, amada e adorada por todos nós. Não pleiteio galardões, senhor. Vossas palavras me são valiosas. Recuso os encômios. Deus concedeu-me força, coragem e sabedoria. A justiça está feita.

O transeunte renovou seus elogios ao doutor Castelo Branco, apertou-lhe a mão, e tocou-lhe, de leve, no ombro, receando enodoar o terno, que reverberava à luz do sol.

Ao despedir-se do transeunte, o doutor Castelo Branco prosseguiu, com passos cronometrados, a postura ereta, o queixo erguido, altivo, a sua caminhada até o Fórum Municipal.

– Aquele homem encarna a justiça – comentou o transeunte que cumprimentara o doutor Castelo Branco.

– Quem é ele, Raimundo? – perguntou-lhe um gordo atarracado com camisa e calça rasgadas.

– O doutor Castelo Branco.

– Foi ele que meteu no xadrez aqueles filhos-de-uma-égua que estupraram e mataram a filha do José da Granja e da dona Amélia?

– Foi ele, e não poderia ter sido nenhum outro. Ele, e apenas ele, tem coragem para mostrar aos facínoras quem é que dá as cartas aqui e pôr ordem na casa. O que pensavam eles? Eles pensaram que iriam embora, sem pagar pelos pecados?

– O doutor é um homem elegante, distinto. Nem um vinco no terno… De porte de rei.

– De majestade! De excelência!

– De reverência!

– De excrescência.

– Excrescência!? Não. Excrescência é palavrão, Raimundo. O doutor que mandou os estupradores e assassinos para o xilindró, e que eles apodreçam lá!, não é um palavrão. Raimundo, você está fazendo confusão. Excrescência é pústula, é verruga no nariz, é casca de ferida, é dente encavalado, é olho torto, é lábio de coelho, é chifre em cabeça de cavalo, é pêlo em casca de ovo, é pé virado do Curupira, é o nariz do Tião da Farmácia.

O doutor Castelo Branco caminhou pelas tranqüilas ruas da cidade. Os munícipes cumprimentavam-no, uns, com respeitoso aperto de mãos; a maioria dele conservou respeitosa distância, saudou-o com um gesto de mão, com um respeitoso “Oi”, ou um “Bom dia, doutor”.

O doutor Castelo Branco não transparecia a vaidade que lhe inflava o ego. Sustentava a elegância e a nobreza do porte e a fisionomia serena, impassível.

– Que homem! – suspiravam as mulheres solteiras, as casadas, as viúvas, as desquitadas, as jovens, as adultas e as velhas. – Doutor Castelo Branco! Não conheço homem tão elegante, tão charmoso. Que voz! Culto. Inteligente. Ele é o homem dos meus sonhos.

No verão de calor infernal, o doutor Castelo Branco saudava os transeuntes, sereno, impassível. Os seus passos, firmes. Atraía a atenção de todas as pessoas, que dele admiravam a postura, a elegância, os gestos suaves. Transpirava nobreza e autoridade. Destoava da multidão. “O doutor Castelo Branco. O doutor Castelo Branco”, sussurravam os munícipes que o apontavam, admirados com a elegante e majestosa figura do filho ilustre da cidade.

O doutor Castelo Branco passou pelo jardim da Igreja Matriz – acompanharam-no três dúzias de pares de olhos. Fez o sinal-da-cruz, voltado para a magnífica igreja edificada no século XVIII, e extraiu exclamações de louvor de todos os que testemunharam tão simples gesto. De repente, surpreendendo a todos, ele olhou para o céu, arregalou os olhos, que brilhavam de satisfação, escancarou a boca, e gritou:

– Içá! Içá!

Pondo a todos boquiabertos, correu como um medalhista olímpico nos cem metros rasos, passou pela frente de um carro, cujo motorista afundou o pé no pedal de freio e evitou a colisão, atravessou a rua, saltou, superou a altura alcançada pelo recordista mundial em salto em altura, e apanhou, a três metros de altura, a desacautelada formiga.

Circuíto fechado

– Marcão! Marcão! – gritou Roberto, que corria na direção de Marcos, que andava a passos largos.

Ao ouvir seu nome, Marcos voltou-se para trás, e viu Roberto, esbaforido.

Assim que se aproximou de Marcos, Roberto disse-lhe:

– Você anda rápido demais. Com essas pernas, você bate o recorde mundial dos cem metros rasos.

– Você precisa abandonar a sua vida sedentária, Betão – censurou-o Marcos. – Você bebe refrigerante e come hambúrguer no café-da-manhã, no almoço, no café-da-tarde, na janta, de segunda a segunda. Por isso você está assim, que mal se agüenta. Assim você se arrebentará, Betão. Qualquer dia desses…

– Pôxa! – exclamou Roberto, com um pouco de dificuldade, enquanto esforçava-se para se recompor. – Amigão, você, hein, Marcão! Amigão! Vim dar uma notícia, que é do seu interesse… Deixe-me recuperar o fôlego… Você anda muito rápido… As minhas banhas impedem-me de acelerar os passos. De certo ponto de vista, você tem razão. Estou fora de forma. Mas não precisa ficar me dizendo isso, não, tá?, e nem fique me esculhambando toda vez que nos encontramos… Agora, do ponto de vista de um barril, estou em ótima forma. Forma de um barril, obviamente. Para uma barrilzinha fofinha e gostosinha, sou um galã.

– Você leva tudo na brincadeira.

– E você é sério demais. Cara, você precisa abrir um sorriso de vez em quando nessa cara feia e abandonar a sua ridícula pose de gostosão. Você tem o rei na barriga.

– E o que você tem na sua barriga?

– Eu… O boi, os leitões, os frangos e os peixes que comi no café-da-manhã. Marcão, hoje enchi a pança.

– Todo dia você a enche.

– Hoje exagerei.

– Qual notícia você veio me trazer?

– Ah! Sim. A notícia… A Carolina convidou você para a festa de aniversário dela?

– Convidou.

– Você sabe quem me disse que vai lá?

– Não. Quem?

– A Janaína.

– A Janaína?

– Não. A Berenice. Você é surdo? Eu disse Janaína, então é Janaína. Se eu tivesse dito Fabiana, seria Fabiana. Se eu tivesse dito Ângela, seria Ângela. Se eu tivesse dito Catarina, seria…

– Está bem. Já entendi.

– Você sempre fica perdido, com cara de bobo, de idiota, sempre que alguém fala da Janaína. Você está gamado nela, hein, garanhão.

– Estou.

– Também pudera, a Janaína é uma gostosura.

– Não falte com o respeito.

– Ih! O homem virou fera. “Não falte com o respeito.” “Não falte com o respeito.”

– Detesto que me arremedem.

– “Detesto que me arremedem.” “Detesto que me arremedem.” “Não falte com o respeito.”

– Você perdeu a noção do perigo, Betão?

– “Você perdeu a noção do perigo, Betão?” “Você perdeu a noção do perigo, Betão?”

– Vem aqui, besta. Você não me escapa, maldito bolofofo. Rolha-de-poço! – e Marcos passou seu braço por trás do pescoço de Roberto, e apertou-lhe as bochechas ao mesmo tempo que o atraía para si e Roberto esmurrava-lhe, com socos inofensivos, a barriga.

Roberto e Marcos são amigos há mais de dez anos. Inseparáveis. Confidentes um do outro. O contraste, que não pode ser ignorado, de porte e de temperamento, deixa todas as pessoas admiradas. Marcos é alto, atlético, ríspido, desprovido de senso de humor, vaidoso e indiferente ao exercício intelectual. Joga vôlei. Encanta as mulheres. Roberto é gordo, tem um metro e setenta de altura e cento e sete quilos. Bonachão, zombeteiro, está sempre de bem com a vida, dono de inesgotável repertório de anedotas e frases de efeito. Estudioso, pretende seguir carreira literária. Participou de mais de cem concursos literários. Ficou em primeiro lugar em quatro concursos, recebeu sete menções honrosas, três menções especiais e cinqüenta e quatro prêmios de edição. Escreveu um romance e o enviou para nove editoras. Todas o rejeitaram.

Andavam pela avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso. Dirigiam-se à escola. Os dois, ambos com dezessete anos de idade, fazem planos para a carreira que cada um sonha seguir. Marcos está determinado a chegar à seleção brasileira de vôlei; Roberto almeja o Nobel de literatura. Ambos estão dispostos a sacrificar outros prazeres da vida para atingir, cada um deles, o objetivo que cada um tem em mira. Essa precoce consciência da realidade e a força de vontade, mais do que tudo, os unem.

Marcos disse para Roberto que não pretendia ir à festa de aniversário da Carolina, mas como Janaína iria, ele, Marcos, também iria. Roberto perguntou-lhe porque ele não se simpatiza com Carolina; Marcos disse que ela é interesseira e duas-caras. Roberto discordou, disse que ela é adorável, e aprecia admirá-la nas aulas de educação física, nas academias de ginástica e nos clubes, à piscina. Falaram de Carolina durante uns dez minutos. Diante da livraria, despediram-se. Roberto entrou na livraria e Marcos rumou ao ginásio.

No final de semana, Marcos e Roberto foram à casa da Carolina. Divertiram-se muito. Separaram-se no momento em que Marcos abordou Janaína.

Na segunda-feira, Roberto, debruçado sobre o seu caderno de literatura, o cérebro entupido de idéias, pôs-se a escrever. Queria dar vazão à sua imaginação prodigiosa, expor os seus pensamentos, desenvolver as tramas concebidas. As personagens desfilavam, animadas, vivas, na sua mente. Roberto conversou com elas, pediu-lhes esclarecimentos sobre pontos obscuros da vida delas, detalhes de eventos por elas protagonizados e revelações sobre os pensamentos que lhes animavam a mente. Para Roberto, as suas personagens são vivas, reais. De todas as personagens que concebeu, Yvone é a mais instigante, a mais interessante, a de temperamento mais complexo e admirável. (Roberto adora conceber personagens femininas, que, para ele, são mais interessantes do que as masculinas). Yvone é uma jovem de dezoito anos (inspirada em uma jovem chamada Giovana, por quem Roberto suspira e alimenta um amor secreto – ele sabe que Giovana jamais olhará, com admiração e paixão, para ele, pois o rival dele, Ricardo, é um tipo muito mais interessante do que ele aos olhos dela).

No conto Divina, Roberto narra a história de Yvone:

Não há mulheres perfeitas. Há mulheres que se aproximam da perfeição. Mulheres honestas, belas, inteligentes, simpáticas. Elas são raras, dizem muitos homens. Não é a minha opinião. Há muitas mulheres extraordinárias. Os defeitos pequenos eu os relevo. Não desejo uma criatura celestial que desceu dos céus à Terra, perfeita, uma deusa – os deuses também são dotados de defeitos e de vícios tipicamente humanos, que são incalculáveis: gula, fúria, luxúria, incúria, etc. E os deuses têm serviçais e escravos para executar-lhes as tarefas mais comezinhas. E são ingratos e rancorosos.

Na condição humana, na absoluta ausência de pretensões a transcendê-la, Yvone é divina. Dela jamais ouvi propósitos transcendentais e objetivos inalcançáveis para os humanos. Ela não alimenta ideologias irracionais e não sonha com utopias que jamais serão concretizadas porque não levam em consideração a condição humana, utopias que, em resumo, são apenas conceitos de mundo ideal concebidos por pessoas desajustadas, pessoas que alimentam o desejo de erigir um mundo onde elas são reverenciadas. Yvone trata de coisas reais, palpáveis, mensuráveis. Admiráveis a sua determinação, a sua beleza, a sua simpatia e a sua inteligência. Tem dezoito anos – restam-lhe cinco meses para o décimo nono aniversário. Nas suas palavras há mais inteligência do que nas proferidas por muitos homens e mulheres de cabelos brancos. Tem idéias interessantes. Jamais apresenta lições supostamente edificantes. O belo corpo bem torneado ela o mantêm com alimentação balanceada, dieta saudável, sem os excessos das dietas dos vaidosos que, submissos – patéticos! – aos modelos disseminados pelos programas de televisão, pelas novelas, pelas passarelas de desfiles de modas e pelo cinema, emagrecem e convertem-se, como efeito colateral (ou não?), em esqueletos cadavéricos, lívidos, despidos de beleza natural. As falsas promessas das empresas de cosméticos, das revistas femininas e da cultura da anorexia bulímica jamais seduziram Yvone. Ela sempre resguardou a sua autenticidade, de temperamento, de personalidade, de idéias. Jamais se arrastou ao abismo para o qual muitas mulheres (e homens também) se arrastam. Conserva-se Yvone. Bela, linda. Divina. É aplicada nos estudos. É leitora voraz de romances clássicos e de livros de filósofos consagrados – mas mantêm independência de pensamento em relação a todos eles; jamais submeteu-se a uma doutrina e jamais sucumbiu à autoridade de um gênio reverenciado pela humanidade estéril (mais justa apreciação da humanidade: uma parcela é estéril; para sorte dos humanos, todas as épocas tiveram os seus espíritos independentes e libertários). É leitora apaixonada de Montaigne, Leibnitz, Hume, Ortega y Gasset, Gilberto Freyre, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Joaquim Nabuco, Tocqueville, Ludwig von Mises, Locke, Mário Ferreira dos Santos, Proust, Tolstoi, Machado de Assis, Balzac, Dostoiévski, Swift, Cervantes, Melville, Stendhal, Shakespeare, Whitman, Pessoa, Thomas Mann. Essa lista representa a qualidade da leitura de Yvone. A lista completa, se inserida aqui, ocuparia uma resma de papel de sulfite. Nutrida pela leitura da obra de tão extraordinários romancistas, poetas e filósofos, Yvone adquiriu erudição de causar inveja aos eruditos. Na sua pouca idade, não tem rivais.

Dedica-se aos exercícios intelectuais – e não descuida dos exercícios físicos.

Todos os dias, ao acordar, Yvone, antes de o sol nascer, vai à piscina e nada durante trinta minutos. Após retirar-se da piscina, faz a refeição da manhã, rica em carboidratos, vitaminas, fibras e proteínas. Vai ao trabalho, de segunda a sábado, de bicicleta. O trajeto, da sua casa à loja na qual trabalha, corresponde a dois quilômetros. Ao fim do expediente, às seis horas da tarde, ela transita por um percurso de três a quatro quilômetros. Ao chegar à sua casa, troca de roupas e faz caminhada de três quilômetros e, depois, nada, na piscina do clube, por meia hora. À noite – não todos os dias – reúne-se, no clube, com as amigas e os amigos. Joga, em um dia, vôlei, no outro, basquete, em outro, futebol, em outro, handebol. Duas vezes por semana, na terça-feira e na quinta-feira, tem uma aula de uma hora, em cada dia, de karatê; na sexta-feira e no sábado, uma hora, cada dia, de capoeira. Muitas pessoas perguntam-lhe como ela consegue conciliar trabalho, namoro, estudo, esportes e diversão. Ela responde, lacônica:

– Defino as minhas prioridades, e me concentro nelas.

Essa frase, para muitas pessoas um enigma indecifrável, reserva mistérios insondáveis.

Yvone escreve romances, poesias, contos, novelas, ensaios filosóficos, reflexões sobre a vida e o universo e faz pesquisas, na internet, sobre inúmeras ciências. Participa de concursos e saraus literários e filosóficos e de congressos científicos. Integra duas academias. Ostenta, com orgulho, o seu título de acadêmica.

O namorado de Yvone, Marcelo, é um sujeito da estirpe e do temperamento de Yvone. Dizem que os contrários se atraem. Marcelo e Yvone não são contrários, não são, um, o pólo positivo, e o outro, o negativo. Os dois conservam, cada um dentro de si, os dois pólos.

Nos dois finais de semana anteriores, Yvone escreveu trechos de uma novela e de um roteiro de filme ao qual ela vinha dedicando-se havia seis meses. No capítulo quatro da novela, narrou a seguinte cena:

Capítulo 4 – Um diálogo descontraído.

Na casa de Larissa, reuniram-se Marco Antonio, Pedro Paulo, Larissa, Cláudia e Madalena. Pedro Paulo foi o que menos se pronunciou. Ouviu mais do que falou. É submisso ao seu temperamento: retraído. Manifestava-se apenas quando algum dos seus interlocutores pedia-lhe a opinião. Marco Antonio, bonacheirão, falou sem parar e não compreendeu as insinuações maliciosas de Madalena, mulher de espírito livre e temperamento agressivo. Cláudia, estudiosa e tímida, de espírito crítico, comentou todos os assuntos de perspectivas inusitadas. Larissa, tagarela, fofoqueira, não deixou de falar tudo o que sabia a respeito da vida alheia.

– Vocês não sabem da novidade – disse Larissa, com ar de suspense, atraindo a atenção de Marco Antonio, Pedro Paulo, Cláudia e Madalena. Todos, certos de que ela lhes daria revelações surpreendentes sobre a vida de alguém, ouviram-na, atentamente. – Vocês não imaginam o que eu soube, hoje cedo. Não imaginam…

– Conte logo, Larissa – reclamou Madalena. – Deixe de suspense, e conte logo, mulher.

– A Carla contou-me que o Túlio pegou, no flagra, a Marcela e o Lauro, na cama, na casa dela.

– E o que o Túlio fez? – perguntou Madalena, excitada pela notícia.

– O Túlio pulou sobre o Lauro, e esmurrou-o até ele dizer chega! A Marcela tentou separá-los. Não conseguiu. O Túlio quase fez picadinho do Lauro, que, sortudo, safou-se de ir parar num caixão, mas está numa enrascada na qual eu não desejaria me ver. O Túlio prometeu enviá-lo para o inferno. E ele é capaz disso. Se o Lauro dele não tivesse se livrado, agora estaria sete palmos abaixo da terra, conversando com os vermes.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Cláudia, na sua casa, escreveu o último capítulo de um conto no qual trabalhava havia uma semana. É o que segue:

Quatro dias após a festa de aniversário de Carolina, Marcos e Roberto encontraram-se na Praça Emílio Ribas.

– E aí, Marcão – disse Roberto, expansivo, ao saudar Marcos, ao mesmo tempo que lhe estendeu a mão direita para cumprimentá-lo.

– Aí, Beto – disse Marcos, cabisbaixo, voz sumida, cujo rosto transparecia o sofrimento que lhe avassalava o espírito. Roberto abaixou, automaticamente, o braço direito, enfiou a mão no bolso da calça, sentou-se ao lado de Marcos, tocou-o no ombro, e perguntou-lhe:

– Que bicho mordeu você, brother? Diz respeito a Janaína, não é?

– É. É a Janaína – respondeu Marcos, sussurrando. Pela primeira vez em sua vida, Roberto viu-o chorar. O silêncio, opressivo, constrangedor, estendeu-se por uns dez minutos, até Marcos, recomposto, enquanto enxugava as lágrimas, pôr-se a falar: – Você não imagina o que aconteceu, Betão. Você não imagina… Na casa da Carolina… Conversei com a Janaína. Nos entendemos… Eu e ela conversamos. Ela se mostrou bem receptiva, bem disposta… Ficamos na casa da Carolina até… Não sei até que horas. Saímos de lá, acho, depois da meia-noite. Você havia ido embora. Sei que você havia ido embora porque a Ingrid me contou. Eu lhe perguntara se ela havia visto você, e ela me disse que você havia ido para Taubaté, meia-hora antes, mais ou menos, com a Beatriz, a Samantha e o Vanderlei. Sei disso… A Ingrid… Ela me contou. E eu e a Janaína nos despedimos da Carolina, do pai e da mãe dela, da Ingrid, da Renata, do Paulo, e de mais alguns conhecidos, e fomos à discoteca. Perguntei à Janaína se ela queria namorar comigo. Ela sorriu. Não precisou me dizer o que ela desejava. Beijei-a. Nossa! Beto. Fazia décadas que eu desejava beijá-la. Beijo daqueles, sabe, Beto? Inesquecível… Coisa de louco. Ia tudo muito bem… Ia… A Janaína… Eu, cheio de mim, todo prosa, a considerava minha. Mas… Diabos! As coisas nunca acontecem como desejo. Inferno! Vou contar para você o que aconteceu. Você vai entender… Diabos! Puxa, Beto… Sou um filho-da-polícia! Mereço um tiro na cabeça! Que alguém me estoure os miolos, para eu deixar de ser besta! Na discoteca, depois… Estávamos na discoteca. Conversávamos. Dançávamos. Eu olhava para a Janaína… Eu pensava… Nossa! Seria a melhor noite da minha vida… Como eu disse, seria… Mas não foi. Por quê? Porque o papai aqui é um idiota, um imbecil, um retardado, uma besta quadrada. Burro! Asno! Imbecil! Por que… Eu e a Janaína nos entendíamos muito bem… Aí, a Janaína pediu-me licença para ir ao banheiro. E fiquei, lá, na pista de dança. E eu ia me chegando ao balcão… Sabe quem cortou o meu caminho? Sabe quem me apareceu? A Ludmila. Lembra-se dela? A minha ex. Ludmila! Por que ela foi aparecer lá? Vestida com aquele decote, com aquela mini-saia… Meu Deus! Beto, que desgraça! Duas gatas… Eu, interessado na Janaína, e a Ludmila aparece para me atormentar… Por que a Ludmila foi àquela discoteca? Se eu soubesse que ela iria lá, eu levaria a Janaína para outra discoteca, ou… Pois é, meu velho… Beto… Fiquei perdido. A Ludmila estava linda. Tentação. Gata. Deusa. Olhei, com cara de bobo, para ela. De um bobo bem bobo, um bobo idiota, um bobo imbecil. E ela veio… Deu-me um beijo no rosto. “Oi.”, disse-me ela, com aquela voz doce… Sorria… Olhei para ela, com cara de idiota. “Tudo bem, Marcos?”, perguntou-me ela. “Não nos vemos há um bom tempo. Que bom encontrar você aqui. Passei na sua casa. Seu pai disse-me que você havia ido à festa de aniversário da Carolina. Fui à casa da Carolina. A Carolina disse-me que eu encontraria você aqui. E aqui estou, Marcos, para você, todinha para você.” E ela, Beto, passou-me os braços pelo pescoço e espremeu-se em mim. E beijou-me. Não resisti. Estreitei-a nos braços. Beto… Eu e a Ludmila nos beijamos.

– E a Janaína?

– A Janaína? Eu e a Ludmila nos beijávamos… Eu havia me esquecido da Janaína. Tão absorto… A Ludmila, com aquele decote, aquela mini-saia, aquele perfume, aquele batom… Irresistível. Irresistível. E a Janaína… Eu havia me esquecido dela. Maldita Ludmila! A Janaína foi ao banheiro, voltou, e o que ela viu? Eu e a Ludmila aos braços um do outro. Aos beijos… Aos amassos… Ah! Beto. Melhor não contar… A Janaína soltou um berro que podia ser ouvido em Tóquio. Em Kuala Lumpur… Não sei onde fica Kuala Lumpur; sei que fica bem longe, e de lá seria possível ouvir o berro da Janaína. Eu não sabia o que pensar… O beijo, tão gostoso… Afastei-me da Ludmila. Olhei para a Ludmila. Olhei para a Janaína. Olhei para a Ludmila. Olhei para a Janaína. Você não imagina, Beto, o que aconteceu. Você não é capaz de imaginar. Olhei para a Janaína. Olhei para a Ludmila. Ah! Inferno! Que escândalo! Escândalo para figurar na primeira página de um tablóide britânico. De um tablóide britânico! Britânico! A Janaína… Os olhos dela… Os olhos dela… Atingiram-me em cheio… Dos olhos dela, lágrimas… Os lábios, trêmulos… Mas… Ela, com raiva… Muita raiva… Furiosa… Ela queria me devorar. Queria me mandar desta para a melhor. Beto, a Janaína deu-me um tapa na cara. Virou-me para o avesso. Depois, a Ludmila, os olhos arregalados, mãos na cintura, fez um “Oh! Não acredito.”, e acertou-me um tapa na cara, que me virou para o avesso do avesso; em seguida, virou-me às costas, e, furiosa, andando entre a multidão de curiosos, foi-se, batendo os pés. Foi constrangedor. E a Janaína, Beto, a Janaína… Ah! A Janaína, Beto, disse-me que não deseja mais me ver, nem morto. Nunca mais. Virou-me às costas. E foi-se. Belo conquistador eu sou… Perdi, em uma noite, a Janaína e a Ludmila. A Ludmila, bem, eu não a namorava… Mas a Janaína… Perdi a Janaína… Beto, perdi a Janaína…

– Não fique cabisbaixo, Marcão. Pense: Você ficou no avesso? Não. A Janaína virou você para o avesso. Por sorte, a Ludmila desvirou você. E isso não é bom?

– Não estou para brincadeiras, Beto…

– Você é sortudo, Marcão – comentou Roberto.

– Sortudo!? Sortudo!? Beto, você ficou louco? O que você bebeu? Tequila? Vodka? Whisky? O que você cheirou? A Janaína e a Ludmila, Beto, as duas… Nenhuma delas quer me ver mais, nem pintado. Nem morto. Perdi a Janaína… E você diz que sou sortudo!? Você perdeu um parafuso? Perdeu dois parafusos? Você encheu a sua cabeça com titica de galinha?

– Você é um homem de sorte, Marcão. Você tem as duas mulheres mais bonitas da cidade nas palmas das suas mãos.

– Beto, não estou para brincadeiras.

– Você está com a faca e o queijo nas mãos. É só estalar os dedos, que as mulheres correm até você… Que homem sortudo.

– Beto, não continue com essa piada…

– Marcão, as duas mulheres mais bonitas da cidade estão loucas por você. As duas, enciumadas, e por você. Você é um Casanova. Você é um dom Juan. Garanhão. Gostosão. Você é o cara, Marcão. A Janaína e a Ludmila… Garanhão – e deu-lhe um tapa no ombro. Marcos fitou-o, embasbacado. Não queria acreditar no que ouvia. Ou Roberto havia enlouquecido ou apreciava um tipo de humor que ele, Marcos, não compreendia e não desejava compreender.

À noite, Roberto debruçou-se sobre a escrivaninha, e escreveu o encerramento da história de Yvone:

Yvone e Marcelo, nas férias de Yvone, foram ao cinema, ao teatro, a festivais de música, a saraus literários e filosóficos, a congressos de tecnologia e científicos. Foram dias produtivos, férteis de idéias e extraordinariamente proveitosos. As conversas com amigos, atores, escritores, músicos, filósofos, webdesigners, internautas, blogueiros e cientistas enriqueceram-lhes a rica erudição. Os livros, os filmes, as revistas em quadrinhos e os games inspiraram-lhes inúmeras idéias que eles remoeram e as traduziram para uma linguagem singular, distinta, que deles refletia o temperamento e as afinidades literárias.

Dois dias antes do fim das férias, Marcelo e Yvone, de regresso de Ubatuba, onde passaram três dias banhando-se ao sol, tomando banhos de mar, passeando pela orla marítima, degustando deliciosos frutos do mar, entraram em Taubaté. Um caminhão desgovernado colidiu com o carro no qual iam Marcelo e Yvone, e o arrastou por mais de cinquenta metros, e capotou, vindo a colidir com um ônibus desocupado, e um muro, derrubando-o. A colisão, tão violenta, reduziu o carro à sucata. Marcelo morreu instantaneamente. Seu cérebro foi esmigalhado, os pulmões e o coração, perfurados, as pernas e os braços, quebrados. Yvone, com traumatismo craniano, as pernas quebradas, um braço quebrado, morreu, na ambulância, a caminho do hospital. O motorista do caminhão morreu esmagado entre as ferragens.

Três dias antes, Yvone concluíra a história de Cláudia, Larissa, Marco Antonio, Pedro Paulo e Madalena, história cujo último parágrafo é o que segue:

Pedro Paulo, numa inconsequente aventura amorosa com uma prostituta, contraiu o vírus HIV. Seu pai e sua mãe o expulsaram de casa. Uma semana depois, desesperado, pulou de sobre um viaduto, na linha férrea, à frente de um trem. Seu corpo foi mutilado. Um artigo a respeito do suicídio estampou a primeira página dos principais jornais da cidade. Marco Antonio casou-se duas vezes. Sua primeira esposa, Cátia, autoritária e histérica, sugava-lhe o pouco dinheiro que ele recebia todo início de mês. Marco Antonio surpreendeu-a, na cama, aos beijos e abraços, com dois homens. Sua segunda esposa, Solange, sofreu de depressão pós-parto, matou o filho recém-nascido, afogando-o na banheira, e enlouqueceu; Marco Antonio internou-a em um manicômio. Larissa foi expulsa da família por seu pai e sua mãe, que souberam que ela era lésbica e mantinha um relacionamento, desde os dezoito anos, com Marta, a sua chefe, com quem foi morar em Belo Horizonte. Madalena, aos quarenta anos, ingressou em um convento. Cláudia, escritora promissora, com dezenas de prêmios literários, amputou as duas pernas após um acidente automobilístico. Abandonada pelo primeiro marido, que a trocou por uma jovem beldade de dezoito anos, ficou deprimida. Seu segundo marido usou-a como um imã para atrair outras mulheres e dissipou-lhe a fortuna que ela arduamente amealhou com os seus romances, contos, novelas, roteiros de filmes, de revistas em quadrinhos, e traduções. Seu filho, Cauã, que se envolveu com tráfico de drogas, morreu com um projétil alojado no coração, ventrículo direito, e um no cérebro, hemisfério esquerdo, lobo temporal. Sua filha, Marli, vinte e um anos, casada com Saulo, empresário bem-sucedido, deu-lhe uma netinha, Virgínia, corada e saudável. Cláudia a adora.

Conhece o Euclides?

De Euclides nada direi. Corrijo-me: Nada direi a respeito da personalidade de Euclides. Eu me acreditava conhecedor da sua personalidade, do seu caráter, dos seus pendores intelectuais; uma sucessão de eventos, no entanto, nos últimos dias, convenceu-me de que dele nada sei, a ponto de chegar a pensar que não o conheço. Ciente da minha ignorância, decidi, ao me pôr a escrever sobre Euclides, amigo de longa data, sonegar aos meus queridos leitores os meus pensamentos a seu respeito, quais sentimentos por ele eu alimento, e qual é o meu apreço por ele, apreço nutrido, há duas décadas, pelo nosso vínculo fraternal. Alguns leitores, e eles não seriam raros – principalmente os que dizem conhecer Euclides -, contestar-me-iam se eu apresentasse o Euclides como eu o vejo, e casquinariam, reprovar-me-iam, dir-me-iam que apresento traços injustificadamente favoráveis ao meu amigo Euclides, e, contrapondo-se-me, apresentariam as suas avaliações, fiéis, diriam, enfáticos, à pessoa do Euclides. Declinarei, portanto, da obrigação, que muitos leitores atribuem aos escritores, de fornecer uma descrição minuciosa da personagem, no que se refere ao seu caráter, e me concentrarei na descrição do seu aspecto físico, que não alimentará controvérsias infindáveis, e a nenhum dos meus desafetos e desafetos de Euclides propiciará oportunidades de me cuspir objurgatórias.

Não transcorreram vinte minutos da última conversa minha com o Euclides, cuja imagem está nítida em minha memória. Posso evocá-la. Talvez eu me detenha num aspecto em detrimento de outro, que necessitaria, ou de correção, ou de realce; talvez eu negligencie aspectos aos quais não farei menção, e algum leitor atento, que conhece o Euclides, chame-me a atenção para isso; e eu, escritor ciente das minhas responsabilidades, adicionarei o que falta, e retratarei a personagem – o protagonista só dará o ar da sua graça nas derradeiras linhas deste relato, mas a sua pessoa perpassa-o desde o título até a palavra de encerramento -, se não com fidelidade, o mais fiel que me for possível.

Euclides não é alto, nem baixo. Tem um metro e setenta. De estatura mediana, portanto – é poucos centímetros mais alto do que eu. Para um homem de um metro e setenta centímetros de altura, Euclides é razoavelmente pesado. Pesa noventa e oito quilos. Não digo que ele é gordo. Ele tem braços grossos, ombros largos, tórax amplo e uma barriga que começa a se pronunciar. Aos quarenta e seis anos é um homem bem conservado.

Traz no rosto espessos barba e bigode. Ostenta cabeleira que, de tão vasta, parece juba de leão. Metade das suas falripas são brancas, tanto as dos cabelos, quanto as da barba. Seus lábios, descorados, quase invisíveis em meio a tanta barba, podem ser divisados por observadores atentos. Seus olhos guardam pouca expressão. São feios, como é feia a sua figura. A Carmen, sua esposa, não partilharia do meu parecer se eu lho expusesse. As pernas dele são finas. Os pés, desproporcionalmente enormes. Tais aspectos físicos atraem a atenção de muita gente, principalmente a dos caçoadores e a dos seus desafetos.

Euclides é casado com Carmen, que nasceu dois anos antes dele, há vinte e dois anos. Suas filhas chamam-se Camila, Mariana e Heloísa; e seu filho, Ulisses. Todos solteiros. Nada mais direi a respeito deles. Este conto não os tem como personagens. Falarei de Euclides. Melhor: por intermédio de outras personagens, o apresentarei aos leitores.

Há quinze dias, cruzei, no mercado público, entre as barracas dos feirantes, com Hugo, meu amigo desde a juventude. Saudamo-nos. O Hugo enveredou por um tema que não me agrada: a vida alheia. Esse é o seu vício e, infelizmente, consta-se, o de nove em cada dez pessoas (ou o de noventa e nove em cada cem – talvez o de novecentas e noventa e nove em cada mil).

– Tu conheces o Euclides? – perguntou-me Hugo, em certo momento da conversa.

– Euclides? – perguntei. – Qual deles? Conheço quatro Euclides.

– O marido da Carmen – e deu-me descrição minuciosa do Euclides (a descrição aproximava-se da que forneci linhas acima).

– Sim. Conheço-o – respondi.

– Confessar-te-ei: Detesto-o. Sempre que me encontro com ele, dele procuro afastar-me, ou sinto ganas de enforcá-lo. Ele é chato. Intragável. Tem o rei na barriga. Pensa que é o dono do mundo. Acredita que é o maioral porque é empresário, tem quatro carros na garagem, filho estudando na melhor faculdade do Brasil, e filhas que falam inglês e espanhol. Ele me contou que ele, a Carmen, o filho e as filhas viajaram, no ano passado, aos Estados Unidos. Visitaram Miami, Flórida, Disneylândia, Texas, Los Angeles, Califórnia, Grande Canyon, Estátua da Liberdade e o monte não sei qual. O monte no qual há estátuas do Franklin, do Lincoln… Aquele monte que aparece nos filmes americanos. O daquelas quatro cabeças gigantes. Estados Unidos! Uma pessoa que vai aos Estados Unidos é superior às pessoas que nunca foram aos Estados Unidos? Soberbo, o Euclides. Ele adora contar vantagens. “Fui aos Estados Unidos com a minha família”, ele encheu a boca para me dizer. “Fomos à Califórnia”; “Conheci Washington”. Ele conheceu o Washington. Também o conheço. O Washington trabalha comigo. Estou morto de inveja! Pensei em perguntar para o Euclides se ele evoluiu depois de conhecer os gringos. Ele é um colonizado de mente tosca. Sei que muita gente gosta dele. Bajuladora, essa gente desocupada. O Euclides é rico. Rodeiam-no, os abutres. Tu o conheces. Talvez ele tenha te falado da viagem aos Estados Unidos, e também das viagens à Europa, à Noruega e ao Japão. Noruega! Em qual planeta se situa este país? Marte? Júpiter? E o Euclides mostrou-me as fotografias, provas das suas viagens ao exterior. E ele viu a Estátua da Liberdade. Que lindo! Ele, a Carmen, o filho e as filhas viram uma estátua enraizada numa ilha minúscula, localizada no meio de um rio desconhecido, próxima de uma outra ilha, que era uma prisão. Guantánamo, ou coisa que o valha. Prisão desativada. Aparece nos filmes americanos. Guantánamo… Ou Albatroz, não me recordo. O Euclides torrou uma nota preta para ver uma estátua enorme de grande. Que tolice! E na Europa, ele, a Carmen, as três filhas e o filhote foram à Torre Eiffel, visitaram castelos medievais, túmulos de escritores famosos, e pontes, e estátuas, e pinturas. E Paris. Conheceram Paris. Paris! E foram ao Palácio do Kremlin. Em que país encontra-se tal palácio? É um palácio tão famoso que ninguém sabe me dar a sua localização. E eles visitaram Londres, Lisboa, Barcelona, Atenas, Tóquio, Melbourne, Berlim. Conheceram mesquitas, palácios, pontes, igrejas, castelos, e pontes, e castelos, e mais pontes, e mais castelos, e mais castelos. E ruínas. Ruínas de igrejas, ruínas de pontes, ruínas de castelos. E mais ruínas de castelos. O Euclides é um sujeito intragável. Um exibicionista. Arrogante. Vive em um mundo à parte. No seu mundo, ele reina, e todos satisfazem os seus caprichos. Ele se considera o centro do mundo. Ninguém é mais importante do que ele, ele pensa. Com toda a sinceridade: ele é o homem mais arrogante, orgulhoso, prepotente e asqueroso que conheço. Sujeito repulsivo.

Abordou-me Pedro, um amigo, encerrando os vitupérios proferidos por Hugo. Eu vaticinava um dia tedioso, pois Hugo, enquanto não destilasse todo o seu veneno, não daria por encerrados os seus comentários depreciativos à pessoa do Euclides, amigo meu de duas décadas, constrangendo-me. Não aprecio críticas, ao meu ver infundadas e injustas, a ninguém, muito menos a um amigo meu cuja amizade me é valiosa. Para a minha sorte, Pedro, com a sua extroversão inusitada, e a sua filhinha loquaz, Camila, que, com sua voz sedosa, suas tranças, as suas meias compridas, que me fazem evocar Pippilota, filha de Efraim Meialonga, impediram que Hugo tecesse mais alguns comentários à pessoa do Euclides. Contrariado, após alguns minutos, ele de nós se despediu, e foi-se embora.

Três dias depois, na empresa, durante uma conversa descontraída, no refeitório, com dois amigos, Cléber e Gabriel, e uma amiga, Alaíde, deles ouvi comentários a respeito de Euclides.

Gabriel disse:

– Conheceis o Euclides? O empresário, marido da Carmen? Encontrei-me com ele dias destes, não faz uma semana, perto da minha casa. Ele gosta de se exibir. A elegância personificada. Esmera-se na aparência, o distinto doutor. Empedernido. Esnobe. Terno impecável. Gravata. Nariz empinado. Vaidoso. Prepotente. Exibiu-me o carro de luxo importado. Da Alemanha, dos Estados Unidos, não me recordo. Encheu a boca para me falar da aquisição de uma loja. Qual loja? Não me recordo. Sujeito insuportável. Soberbo. Ele pensa que é melhor do que todo mundo, e a esposa dele, a melhor esposa do mundo, e o filho dele, o melhor filho do mundo, e as filhas dele, as melhores filhas do mundo. O Euclides é intratável, arrogante, soberbo.

– Tu detestas o Euclides, estou vendo – comentou Alaíde. – O Euclides não é como tu o pintas. Conheço-o há seis, sete anos. Conheço a Carmen, o Ulisses, a Camila, a Heloísa e a Mariana. São educadíssimos. Eu os conheci na festa de casamento da Lúcia, minha prima, que há três anos se divorciou do Marcelo, e, no ano passado, se casou com o Adriano, dele se divorciando no mês passado. O Ulisses era um menino quando o conheci. Uma gracinha de menino. Agora, ele é um homem inteligente, bonito, alto e forte. Eu e o Renato nos encontramos com ele e com a namorada dele na casa da Márcia, há duas semanas. Educadíssimo, o Ulisses. A Mariana, a Camila e a Heloísa são moças educadíssimas. Das três a que melhor eu conheço é a Camila, que é moça simples, herdeira dos pendores do Euclides. Todos dizemos que são o nariz de um e o focinho do outro. A Camila puxou pelo Euclides. Das três moças, é a que herdou do pai o talento para os negócios. Incríveis, as semelhanças de temperamento e pendores intelectuais. O mesmo senso prático, o mesmo espírito empreendedor, a mesma confiança no valor do estudo e trabalho árduos. Certa vez, ela me disse que administrará as empresas do pai. Euclides é um felizardo. Raros empresários têm filhos com talento para os negócios. E ele tem uma filha, a Camila. O Euclides tem orgulho das próprias conquistas, do próprio sucesso. Ora, eu, embora não tenha alcançado sucesso equivalente ao dele, sou uma pessoa bem sucedida, e me orgulho das minhas conquistas. E sou ambiciosa. O Euclides é um homem ambicioso, seguro de si. Tem os seus defeitos, é óbvio. Ora, quem não os têm!? Ele distingue o certo do errado; o permitido do proibido. Ele, católico, defende aqueles valores antigos, e não se curva è pedagogia moderna, e tampouco ao discurso falacioso de intelectuais vigaristas, sórdidos inimigos da humanidade. Uma leitura de artigos publicados em sites e blogs de pensadores cuja integridade moral é inatacável nos dá um panorama da situação política atual, que nos põem abismados. E podemos descer às minúcias de cada pormenor que constitui tal situação. Euclides resiste ao avanço das hordas de seguidores de humanistas liberticidas. Ele é um homem de têmpera de aço, de pulso firme, na família e na empresa. Tatcher e Reagan são os seus ídolos. Ele educa as filhas e o filho, impondo-se como pai, uma autoridade moral. Agindo assim, ao contrário do que declaram os moderninhos, deles têm amor. Ele corrige os filhos quando estes cometem uma falta. Pune-os. E orienta-os, para eles evitarem dissabores. Catilinárias intelectualóides não o persuadem a mudar de atitude. Ele é um homem de fibra. Conheço-o e conheço a família dele. Ele é um homem trabalhador, honesto, confiável, um exemplo de homem para os homens.

– Que notável peça de oratória! – comentou, zombeteiro, Gabriel. – Um rosário de louvores. Escrevas uma hagiografia.

– A minha formação intelectual, fruto de leituras de livros clássicos, permite-me expressar-me com elegância, até mesmo sobre temas triviais – retrucou Alaíde, veemente. – Não escreverei uma hagiografia do Euclides. Eu nunca disse que ele é um santo.

– Vocês conhecem o Euclides – interveio Cléber, que, ao observar a fisionomia de Gabriel e a de Alaíde, e a troca de olhares entre eles, perspicaz, anteviu a irrupção de uma discussão interminável, certo de que, dentre os dois, Gabriel seria o que mais se exaltaria, e prorromperia em exclamações furibundas, e insultaria Alaíde, que defenderia Euclides e atiraria farpas ferinas contra Gabriel, como era do seu estilo. – Não o conheço. Conheço pessoas que o conhecem. Conheço vocês, que o conhecem. E conheço pessoas que conhecem pessoas que o conhecem – levou à boca um punhado de arroz. – Vejo-o, aqui e ali, a pé, acompanhado de uma mulher, a esposa dele, presumo. Morena clara de cabelos compridos ondulados, sempre bem vestida, elegante, com uma bolsa a tiracolo.

– É a Carmen, esposa dele – disse Alaíde.

– Falei de bolsa – comentou Cléber -, e a Alaíde identificou a dona da bolsa. Mulheres! Não resistem a bolsas e chocolates. Há homens que dizem ter dificuldades para seduzir as mulheres. Ofereça-lhes bolsas e chocolates. E anéis de brilhantes. Não podemos nos esquecer dos anéis de brilhantes. Comentários machistas. Alaíde, mantenha-se distante de mim, no mínimo, trinta metros – levou o copo com refrigerante à boca; sorveu do refrigerante, e, antes de pôr o copo sobre a mesa, disse: – Um brinde – e prosseguiu: – Sempre vejo o Euclides de terno, gravata e sapatos brilhantes de tão polidos. A postura dele, ao andar, correta. Nunca o vi curvado, como se carregasse um fardo às costas. Elegante, o Euclides é. Charmoso, também ele é. Bem vestido, sempre. Tem porte de aristocrata; não dos de Bruzundanga. A elegância, o charme e o gosto requintado não fazem ninguém arrogante. Sei que muitas pessoas não se simpatizam com ele. Por quê? Não me perguntem. Não o conheço. Vocês o conhecem.

– O Euclides é arrogante – disse Gabriel. – É um muquirana. Se vós pensais que o tio Patinhas é o maior mão-de-vaca que existe, enganardes redondamente. Euclides é o mão-de-vaca típico. Era pobre. Enricou. E pensa que é o dono do mundo. Ele não tem uma caixa forte, mas tem coração de pedra e despreza os pobres. Todo pobre, ao se enriquecer, envergonha-se da sua vida de misérias, e refocila-se no luxo, para ocultar a sua história, para esconder de si mesmo o seu passado. O Euclides envergonha-se, do mesmo modo que todos os pobres que se enricaram, do passado, que o persegue pela vida afora; daí, escreveria um romancista, as fumaças de aristocracia. Ostenta erudição que não tem, fortuna nababesca, títulos a mancheias, carros do ano, símbolos de status alcançado, não com trabalho árduo, estudo e mérito, mas devido ao seu vínculo com políticos influentes. Com os joelhos flexionados, o reverenciam, servis. Beijam-lhe os pés. A recompensa, sabemos, é farta. O Euclides vive em uma redoma. Mora num condomínio. O filho e as filhas estudam em escolas particulares. Por que eles não estudam em escola pública? O Euclides não quer que eles se misturem à gentalha. Dona Florinda que o diga. A família dele tem plano de saúde particular. Por que eles não vão a hospitais públicos? Não querem se misturar à gentalha. Na garagem, tem três carros, ou quatro. Não importa. Ele é um riquinho. O filho dele, um mauricinho; as filhas, patricinhas. Soberbos e arrogantes, todos eles.

– Não sei o que o Euclides possa ter-te feito para tu destilar tanto veneno – comentou Alaíde. – O Euclides é rico? É. A riqueza faz dele um homem arrogante e soberbo? Não. Ele é orgulhoso? É óbvio que ele se orgulha das conquistas dele, do mesmo modo que me orgulho das minhas. Nesta vida atribulada, e a do Euclides foi atribulada, repleta de percalços, almejar o sucesso com o suor do próprio rosto, e obtê-lo, não é tarefa para os fracos. É tarefa para os fortes. Há ricos arrogantes, prepotentes e soberbos. Há ricos humildes, simpáticos. Não generalize, Gabriel. E não use estereótipos. De estereótipos o inferno está cheio. E eu também. Conheço pobres que são arrogantes, prepotentes, soberbos, gananciosos, mesquinhos e invejosos. Conheço pobres que são humildes, dotados de nobres sentimentos. Não me venha com a história, preconceituosa, discriminatória, de que todo rico é mau-caráter, personificação do mal, e todo pobre, bom, inerentemente bom. O Euclides é um homem bom. Ele é vaidoso? É. Quem não é? Ele é ambicioso? É. Quem não é? Ele é orgulhoso? É. Quem não é? Ganancioso ele não é, e nem arrogante, e nem prepotente. Ele é um homem seguro de si, confiante. Muita gente confunde firmeza de propósitos com ganância, e a mediocridade, a incúria, o desleixo e a pobreza com humildade.

– Filósofa – casquinou Gabriel.

– Não queiras desmerecer a minha opinião, espezinhando-me – retrucou Alaíde. – Se queres, alfinete-me. Exorto-te a não perderes o teu tempo. Sei que muitas pessoas invejam o Euclides, pessoas que ambicionam o que ele possui: Nome respeitável, riqueza, família feliz, coragem para defender os seus princípios, que o norteiam; princípios que, posso declarar, convicta de que tenho razão no que digo, oferecem-lhe a força necessária para se dedicar ao estudo, ao trabalho, e a coragem para propugnar os seus propósitos. Conheço muitas pessoas que, ao se depararem com o primeiro obstáculo, detêm-se, petrificados, e, ao não conseguirem transpô-lo, sucumbem, prostrados no chão, e desistem dos seus sonhos, se sonham, efetivamente; depois, ao transcurso dos anos, ao se recordarem do insucesso, ou desconversam, ou o justificam, atribuindo o fracasso à ausência de apoio, à hostilidade de um rival desleal, e nunca confessam a falta de vontade, de fibra. Eu poderia citar muitas pessoas fracassadas que agem assim. Por decência, não o farei. Meu respeito por elas não mo permite.

A conversa estendeu-se por meia hora. Gabriel, Alaíde, Cléber e eu divergimos em muitos pontos. A polarização entre Alaíde e Gabriel destacou-se e predominou na conversa. Os meus apartes e os do Cléber, adicionamo-los, tímidos, para não ferir suscetibilidades dos dois contendores, que abandonaram a razão, e agiram impelidos pelos sentimentos feridos. Não sei o que pôs fim à conversa. Passamos para outro assunto ao modo de ‘mudando de pato pra ganso’.

Reproduzi um trecho da conversa, do que me lembro. Não pretendi evocá-la com exatidão – estou impossibilitado de fazê-lo. Conservei, no entanto, o essencial; como pude, reproduzi o vernáculo de cada um deles, e, inclusive – esforço ingente; frutífero, acredito – o tom de voz deles e os sentimentos que lhes inspiraram as palavras que cada um deles proferiu. É infundada a minha certeza nesta crença no meu sucesso? Terei de confrontar o meu testemunho com o do Cléber, o do Gabriel e o da Alaíde. Após isso, não saberei, estou certo, se o relato concebido a partir dos testemunhos deles será fiel ao teor da conversa.

Como se vê, no trecho no qual relato tal conversa, não apresentei os meus comentários a respeito do Euclides. Eu os escrevi, mas, certo de que a apresentação dos meus comentários conduziriam os leitores à uma direção que lhes daria uma idéia equivocada de quem é Euclides, os suprimi, pois não se adequam ao propósito que tenho em mente.

Encerrada esta digressão, prossigo:

Ouvi, nos dias seguintes, outras pessoas a comentarem sobre Euclides. Constatei que a maioria delas não se simpatizam com ele.

Durval, na mercearia perto de casa, disse-me, hoje de manhã:

– Conheces o Euclides? Sujeito intragável. Cruzei com ele na loja Pés Macios. Que sujeito chato! A chatice em pessoa. Ele perguntava ao vendedor o preço dos sapatos, anotava-os em um caderninho, pedia desconto de quinze por cento no pagamento à vista, e ditava o preço do mesmo modelo de sapatos em outra loja. Queria o desconto. E insistia em obtê-lo. Sujeito miserável. É podre de rico, e vive a barganhar em todas as lojas em que entra. Ele não abre a mão nem para dar tchau. De que lhe vale tal apego à riqueza? Morto, ele não a levará ao túmulo.

À tarde Jaqueline, minha amiga desde a juventude, casada, mãe de Poliana e Rebeca, disse-me:

– Conheces o Euclides? Que homem simpático! Conheci-o, ontem. Ele e a esposa, Carmen. Homem elegante, charmoso. Bonito. Não conte isso para o Tiago. Ele morrerá de ciúmes – sorriu. – O Euclides não é extrovertido; mas o sorriso dele é lindo. Apreciei a conversa que mantive com ele e a Carmen. Pessoas ricas e simples. Eu os imaginava diferentes. Disseram-me que ele é arrogante, prepotente. Ele é simpático! Um homem de opiniões próprias. A dicção dele, perfeita. Ele é elegante, confiante, inteligente. Admiro as pessoas inteligentes, confiantes, dotadas de espírito de iniciativa e que zelam pela liberdade, a própria e a dos outros. E ele é humilde, embora podre de rico. Ontem, ele trajava terno, gravata e calça social. Ao fitá-lo, pensei com os meus botões: “Xi! Terei, agora, de aturar este esnobe com o rei na barriga” quando o Tiago mo apresentou. Diante de mim, o rei da cocada preta. E quem conheci? O Euclides surpreendeu-me. O Euclides que conheci não foi o Euclides de quem me falaram. O Euclides é invejado por aqueles que o admiram e admirado por aqueles que o invejam. Enfim, o meu lar, doce lar. Minhas filhas aguardam-me. Iremos ao oftalmologista. Temos, ainda, tempo para uma xícara de café. Aceitas?

Recusei o convite. Disse-lhe que, em outra ocasião, aceitarei dela convite para um café. Despedimo-nos.

Minutos depois, sentado num banco da praça Rui Barbosa, eu descansava à sombra de uma árvore quando ouvi uma voz chamando-me pelo nome. Voltei-me. Era o Euclides de quem todos me perguntavam “Conheces o Euclides?”

– Boa tarde – saudou-me.

– Boa tarde, Euclides. Passeando, para espairecer?

– Para refrescar a cabeça – respondeu-me. – Para deixar os pensamentos livres, soltos. Para renovar as energias. O trabalho enobrece, até certo ponto – e sorriu. – Se me sobrecarregar, entrarei em curto-circuito.

Sentou-se à minha direita, ajeitou-se ao encosto do banco, e cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda.

– Que calor! – exclamou, mais para si do que para mim; curvou a cabeça para trás, e olhou para o céu. – O céu, limpo. Hoje não choverá. A Carmen está gripada. A Heloísa ficou uma semana acamada. Trinta e nove graus de febre. O tempo quente e seco maltrata as pessoas. As crianças e os velhos são os que mais sofrem. Com eles, os cuidados têm de ser redobrados. O Gustavo, menino de dois anos, filho do Henrique, o meu vizinho da direita, foi encaminhado ao hospital. Desidratação. Diarréia. Meu pai, minha mãe e meu sogro, até agora, não sucumbiram à gripe…

Intrigou-me o comportamento do Euclides. Ele, lacônico, jamais se permite a expansividade. Falou-me do clima, de seu pai, de sua mãe, de seu sogro, da Carmen, da Heloísa, do filho do vizinho. Intrigou-me o seu comportamento. Conversamos, sossegados, à sombra da árvore. Falamos da minha família, da família dele, de futebol, carnaval, conflitos entre árabes e israelenses, atritos diplomáticos envolvendo o governo dos Estados Unidos e o da China. Euclides, bem informado, para enriquecer os seus argumentos, parafraseou filósofos, sociólogos e citou políticos de inúmeros países e vertentes ideológicas. Prolongamos a conversa por duas horas. Levantei-me. Preparei-me para me despedir. O Euclides reteve-me, e perguntou-me:

– Conheces o Euclides?

Intrigado, sentei-me. Fitei-o. Ele abriu um sorriso acanhado, e disse-me:

– Conheces o Euclides? Tu te perguntas porque te faço esta pergunta. Para te dizer a verdade, não sei porque a faço a ti. Desgosta-me muitas coisas que ouço… Conheces o Euclides? É a pergunta que mais se ouve por aí. Já te fizeram tal pergunta, não? Conheces o Euclides? Parece o título de uma peça teatral cômica, não te parece? Conheces o Euclides? O que te falam do Euclides? O Euclides é arrogante, prepotente, ganancioso. É simpático, trabalhador, humilde. Conheces o Euclides? Eu sou o Euclides. Não sou, nem o arrogante e prepotente, nem o simples e humilde. Digo-te uma coisa: Não sei quem é o Euclides. Não conheço o Euclides de quem tanto falam e que tão bem conhecem. Sou o Euclides. Quem sou? Já me fiz esta pergunta milhares de vezes. Há momentos em que me considero um homem trabalhador, correto e ambicioso. Noutros, atribuo-me pendores que não me agradam. Sou quem penso que sou; sou quem as pessoas pensam que sou; sou quem sou. Quem sou? Eu, que sou quem penso que sou, não me porque -me, e de rico. assim,rabalha comigo. timentos por ele eu alimento, qual conheço como sou; as outras pessoas não podem me conhecer, pois elas conhecem quem acham que sou, não quem sou. Muitas pessoas me elogiam, e um número muito maior de pessoas criticam-me. Não sou quem elas dizem que sou; e elas não podem me conhecer melhor do que eu me conheço, e mal me conheço à idade de quarenta e seis anos. Para encerrar: Conheces o Euclides?

Pensamento positivo

– Querer é poder – disse Marco Aurélio para Robson, então desanimado antes do início da conversa; agora, ouvidas as palavras animadoras de Marco Aurélio, e a sentença estimulante, motivadora, animou-se Robson, que prometeu para si mesmo que seria bem-sucedido em seu empreendimento.

Robson queria ser arquiteto. Não se classificara, no ano anterior, no vestibular. E neste ano prestaria exame vestibular.

– Chute para escanteio a tristeza, Robson – aconselhou-o Marco Aurélio. – Pense positivo. Pense positivo, sempre. Diga para você mesmo: “Eu conseguirei. Serei um arquiteto. Estudarei em uma faculdade de arquitetura. Serei um arquiteto.” Esteja certo, Robson. Você será um arquiteto. Pense positivo. Pense positivo, sempre.

Robson não foi o único candidato à vaga à uma cadeira na faculdade de arquitetura que pensou positivo. Outros seis mil jovens prestaram vestibular para ingressarem na faculdade de arquitetura, e todos eles tiveram a mesma idéia: Pensar positivo. Eram cinquenta as vagas à disposição dos candidatos. Façamos às contas. Seis mil candidatos para cinquenta vagas. Para cada vaga, cento e vinte candidatos.

Evoco, de memória, uma história que ouvi, certa vez, de meu avô. Ele me disse que, certa ocasião, não me recordo se na copa de 58, se na de 62, se em outro campeonato de futebol, Garrincha perguntou, com a sua sutileza de passarinho (em uma época em que ele estava no auge) à pessoa que disse que o Brasil tinha de ganhar o jogo:

– Já combinou com os suecos?

A história foi mais ou menos essa a que meu avô contou-me. Talvez eu a tenha alterado, mas ela me serve para ilustrar o que se sucedeu com Robson.

Os seis mil candidatos às cinquenta vagas do corpo discente da faculdade de arquitetura não sabiam que Robson pensava positivo e Robson não sabia que eles pensavam positivo. Os pensamentos positivos dos seis mil candidatos colidiram-se uns contra os outros no dia da prova. E Robson soube, poucas horas depois de encerrado o tempo à disposição para os candidatos responderem às cem questões, o gabarito às mãos, comparando as respostas corretas com as que registrara, para seu desgosto, que acertara menos de cinquenta por cento das questões, e não se classificaria, não lhe restavam dúvidas, entre os cinquenta melhores candidatos. Daria adeus, persuadiu-se, ao seu sonho de cursar a faculdade de arquitetura.

No dia seguinte, Robson encontrou-se com Marco Aurélio, e falou-lhe do vestibular:

– Acalme-se, Robson – aconselhou-o Marco Aurélio. – Você conferiu o gabarito, mas ainda não foi publicada a lista dos candidatos classificados. Das cem questões, você acertou quarenta e oito, o que corresponde a quarenta e oito por cento das questões. É uma porcentagem baixa de acertos, o que não dá a você razões para se preocupar. E digo isso porque li, anteontem, uma reportagem, publicada na revista **, na edição da semana passada, apresentando os resultados de uma pesquisa. Pasme-se, Robson. Ouça-me, atentamente, e alegre-se. Um pouco mais de cinquenta por cento dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais. Pense positivo. Pense positivo, sempre. Muitos candidatos, é certo, foram, no vestibular, piores do que você. Pense positivo. Pense positivo, sempre.

– E se o resultado da pesquisa estiver errado? – perguntou Robson.

– Provavelmente está – sentenciou Marco Aurélio, sorrindo. – Corrijo-me: Está errado, certamente. Lendo a pesquisa financiada por um órgão público, ou por um órgão particular financiado com dinheiro público, e indicando problemas que não se pode varrer para baixo do tapete, então, digo, sem o receio de errar, adulteraram-se os resultados, reduzindo-se os seus pontos negativos. Pense: Se os resultados indicam que cinquenta por cento dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais, então… Pense, Robson. E pense positivo. Pense positivo, sempre. E conclua o meu argumento. Complete o meu raciocínio. Então, adulterado o resultado, foi reduzida a porcentagem de alunos analfabetos funcionais do total do corpo estudantil brasileiro. E os analfabetos funcionais correspondem a sessenta por cento, ou a oitenta por cento, ou a cem por cento dos universitários, e não aos um pouco mais de cinquenta por cento indicado pela pesquisa; então, é a conclusão óbvia, ou sessenta por cento, ou oitenta por cento, ou cem por cento dos candidatos à faculdade são analfabetos funcionais.

– Se cem por cento – comentou Robson – são analfabetos funcionais, então eu também o sou, e não sabia; então… qual é a minha chance…

– Pense positivo, Robson. Pense positivo, sempre. Consulte a lista dos nomes classificados, e… Pense positivo. Pense positivo, sempre.

Duas horas depois, Robson consultou a lista com os seis mil nomes de candidatos. O seu nome ocupava a 2394ª posição. Cabisbaixo, Robson rumou para a sua casa, à porta da qual encontrou Marco Aurélio; voz tatibitate, fisionomia murcha, suspirando a curtos intervalos, falou-lhe da sua desclassificação.

– O que se pode dizer, Robson? – perguntou Marco Aurélio. – Todos os outros candidatos pensaram positivo. Alguém tinha de ser desclassificado, não é? Se eu fosse você, pensaria positivo, pensaria positivo, sempre, e tentaria o vestibular novamente; poderemos corrigir os nossos erros, aliás, você poderá corrigir os seus erros, afinal, contou-me você, você não estudou para o vestibular…

– Você me disse que bastava eu pensar positivo, que as coisas aconteceriam por si.

– Robson, pense positivo, mais uma vez, e estude, que você se classificará no vestibular, e se inscreverá na faculdade de arquitetura, com certeza.

– Você acredita? Marco Aurélio, pense positivo, pense positivo, sempre. A minha vontade é a de acertar um soco na sua cara e quebrar seu nariz. Pense positivo, Marco Aurélio. Pense positivo, sempre. Pense que você poderá esquivar-se da bordoada. Pense que eu escorregarei, e você fugirá de mim. Pense que cairá um raio em minha cabeça. Pense positivo, Marco Aurélio. Pense positivo, sempre. E saiba que eu, pensando positivo, pensando positivo, sempre, acertarei, positivamente, um soco nas suas fuças…

O homem que não namorava

Claudemir, tipo bem apessoado, vaidoso, de boa aparência, simpático e espirituoso, sabia entreter os seus interlocutores, em uma conversa agradável e descontraída, com observações sarcásticas e irônicas. Admiravam-lhe a prontidão na resposta e a postura agressiva, que intimidava os interlocutores, principalmente os seus desafetos. Não era bonito, mas considerava-se o mais belo dos homens. O espelho era o seu melhor interlocutor. Os seus solilóquios envaideciam-no; o espelho reconhecia-o como o mais belo espécime do gênero masculino humano, o mais inteligente, o mais charmoso, o mais elegante, o melhor de todos os amantes.

De uma família pobre, na infância e na juventude foi privado dos brinquedos que mais desejava. Para ajudar seu pai e sua mãe, trabalhou, de engraxate, aos doze anos. Meses depois, de balconista, em um bar. E foi auxiliar de pedreiro, carregador de sacolas, em uma loja, faxineiro, na rodoviária e em um restaurante; garçom, aos dezessete anos; cozinheiro, aos dezenove; taxista, balconista de lanchonete e motorista, aos vinte. Atribuía-se versatilidade intelectual e elevado talento para aprender novas profissões. A sua desenvoltura, irrivalizada, corroborava a apreciação que fazia de si mesmo. Era dotado de inteligência prática vigorosa, e era extraordinariamente persuasivo. Extrovertido, rodeado de amigos, que o ouviam, com interesse e atenção, sempre que ele se pronunciava, e ele se pronunciava sempre, nunca recusava os convites que lhe faziam; foi convidado, certa vez, pela irmã da viúva de Gustavo Guimarães, para animar velório: “Claudemir, por favor, vá ao velório do meu cunhado. O velório está com cara de… velório”. Eram seis horas da manhã de um dia frio de inverno. Claudemir não titubeou: aceitou o convite.

Visceralmente avesso aos livros, não compreendia a paixão de Milene, sua irmã, pelos romances encorpados de Tolstoi, Dostoievski, Thomas Mann, Proust, Dickens e Victor Hugo. Quando Milene resumia-lhe o enredo de um romance russo, ele lhe perguntava porque ela perdia tempo com estórias tão patéticas, boquiabrindo-a com comentários depreciativos.

Certo dia, Milene, no seu quarto, lia À sombra das raparigas em flor. Claudemir interrompeu-lhe a leitura, e, zombeteiro, perguntou-lhe com qual melodrama novelesco patético ela perdia tempo. Milene retrucou, disse-lhe que lia um dos melhores livros de todos os tempos o qual Claudemir jamais apreciaria devido à sua insensibilidade literária. Claudemir ridicularizou-lhe o apreço pelos romances. Durante a conversa, que se assemelhava a uma discussão fraternal entre dois jovens implicantes, Milene, além de dizer-lhe que os comentários dele eram frutos da ignorância, disse-lhe que À sombra das raparigas em flor é um dos sete livros que compõem a obra magistral, de mais de duas mil páginas, de Marcel Proust, escritor de quem ele nunca ouvira falar, e cuja obra jamais irá ler, o que é demérito dele, Claudemir. Claudemir aconselhou-a, zombeteiro, a largar o livro, e ir às discotecas, aos bailes, aos shows de forró, pagode, country, e caçar um namorado, casar com ele, e com ele ter sete filhos, que lhe exigiriam todo o tempo disponível; assim, ela não desperdiçaria mais nenhum segundo com leituras de livros insignificantes, que afastam as pessoas das atividades produtivas, para imergi-las em fantasias estapafúrdias. Milene, ofendida, retrucou:

– Não fingirei que não ouvi os seus comentários, ignorante. Você está me aconselhando a… Entendi o que você me disse? Você me disse para eu caçar um homem, e me casar com ele? O que você pensa que sou? Que história é essa de casar e ter sete filhos? Por que sete filhos? Para não me sobrar tempo para ler romances de Proust, Tolstoi, Gogol, Machado de Assis, Balzac, Dostoiévski, Wassermann e Austen? Você despreza tanto os livros, que deseja me ver ocupada com sete sobrinhos seus a me ver com um livro aberto, a lê-lo. Só sete? Que tal onze? Daria um time de futebol. Por que você não segue o conselho que me deu? Olhe-se no espelho, Claudemir. Perco o meu tempo lendo livros? Não. Não perco o meu tempo. Eu o ocupo como desejo ocupá-lo: lendo livros. Saiba que, assim que eu concluir a leitura de Em busca do tempo perdido, vou reler Ana Kariênina, Almas Mortas, Tom Jones, Os demônios, Os noivos, O processo Maurizius, e, depois, irei ler Meu nome é vermelho, Noites antigas, Emma, e As minas de prata. Não queira me convencer a namorar, casar e ter sete filhos. E você, Claudemir? Você perde o seu tempo mirando-se ao espelho durante trinta horas por dia, dez dias por semana, seis semanas por mês e quinze meses por ano. Você é um pavão. Narciso. Não tenho namorado? É verdade. Rompi o namoro com o Murilo, e por bons motivos. E casamento, no momento, não me passa pela cabeça. Sete filhos! Nunca. Terei dois filhos. No máximo, três. Mas, e você, narciso? Você, que me aconselha a caçar um homem, namorar com ele, e com ele me casar, nunca namorou, e não pensa em casamento. Você, aventureiro, foge dos compromissos como o diabo foge da cruz. Você só teve aventuras de uma noite; no máximo, de um final de semana. Você dá início aos seus namoros, no sábado, à noite, e os dá por encerrados, na segunda-feira, de manhã. Eu, no entanto, no que me diz respeito, tive quatro namorados, você sabe. Namorei o Carlos, o Marcos, o Hércules e o Murilo. O Carlos, durante seis meses; o Marcos, um ano; o Hércules, um ano e meio; e o Murilo, oito meses. E você?

– Não namorei nenhum deles – comentou Claudemir, sorrindo. – Jogo em outro time, Milene.

– Bobo. Eu sei. Você não é como o Hugo. Ele é bonzinho, gosto dele… Gosto dele, mas…

– Você tem uma quedinha por ele, Milene…

– Tive, é verdade.

– Você ainda gosta dele.

– Ele é fofo, simpático, um amigo sincero. Aquela paixão que eu sentia por ele, paixão que… Não a sinto mais. Ele foi viver a vida dele… Infelizmente, as coisas não se deram como eu queria…

– Você ainda gosta dele… É só alguém falar dele, que você muda o tom da voz.

– Gostar dele, gosto. Na vida há surpresas…

– Que chato, né? Ele preferiu o Elói a você. O Elói… Até hoje zombam dele… O Hugo, indiscreto, o constrangeu… Lembro, como se fosse ontem… Nossa! O que se passou pela cabeça do Hugo? Declarar-se, assim, tão… Ele deu um tiro no próprio pé.

– Você se lembra? Nossa! O Elói, constrangido, imóvel… Ele… Ao lado dele, a Ludmila, com quem ele namorava… Nossa! Que vergonha! O Hugo foi muito… Muito… Insensato… O Elói… O Elói, agora, namora a Tereza.

– O Hugo ficou arrasado… Você não o conquistou; ele não conquistou o Elói… O mundo nos surpreende…

– Remova esse sorrisinho ridículo, descarado, da cara, bobo.

– Bobo. Este é o único palavrão que você conhece? Chamando-me de bobo, você me ofende? Nos romances que você já leu não há palavrões? Não? Então, por que você os lê?

– Você é bobo, Claudemir.

– Vamos deixar pra lá esta questão. Quero falar de outro assunto: Adriana. Convenhamos, Milene, ela tem bom gosto.

– Você é bobo. Não conheço ninguém mais bobo do que você.

– Você concorda comigo, não concorda? A Adriana tem bom gosto, não têm? Ela, no ano passado, namorou a Daniela, um peixão, e, no começo deste ano, a Fabíola, um violão. Duas gatas. Duas sereias. Duas maravilhas da natureza. Duas divindades celestiais. Gatíssimas.

– As duas são bonitas, mas não exagere… A Fabíola namora o Renato. A Daniela… Ela se mudou para o Maranhão. Não tenho notícias dela há mais de seis meses. Mas chega de rodeios, Claudemir. Não queira mudar de assunto. Por que você nunca namorou as suas pretendentes? Estou falando de namoro, Claudemir. Namoro, entendeu? Relacionamento sério, de seis meses, um ano, dois anos. Não estou me referindo às suas aventuras de um final de semana, e tampouco às de uma noite, isto é, de seis horas. Por que você nunca namorou as suas pretendentes? Você é bonito, Claudemir. As mulheres gostam de você. Pretendentes você tem. Por que você não namorou a Lúcia, nem a Veruska, nem a Olívia, nem a Poliana, nem a Rafaela, nem a Sandra, nem a Graziela? Todas elas quiseram namorar você, mas você deu um chega pra lá em todas elas. Por quê? Pode me dizer, Claudemir?

Claudemir, para surpresa de Milene, retirou-se do quarto, em silêncio, inexpressivo.

Milene prometeu, para si mesma, que arrancaria de Claudemir uma resposta para a pergunta que lhe fez.

*

Três dias depois, ao encontrar-se com Claudemir, Milene perguntou-lhe porque ele não namorou a Poliana. Claudemir fez de tudo, e mais um pouco, para se esquivar da pergunta; desconversou, afastou-se de Milene, mas ela, insistente, seguiu-o, e disse-lhe que não o deixaria em paz enquanto ele não lhe respondesse à pergunta. Claudemir, para se ver livre dela, capitulou:

– Milene, você é pior do que carrapato.

– Responda-me: Por que você não namorou a Poliana? Você quer se ver livre de mim? Então satisfaça a minha curiosidade.

– É o que farei! Não há outro meio de me livrar de você, há? Tenho um compromisso daqui meia hora. Você quer saber porque não namorei a Poliana? Tive as minhas razões. Como você é chata, Milene! Sarna! Carrapato! Desgrude de mim! Largue de meu pé. Direi para você quais razões tive para não namorar a Poliana. Foram boas as razões que eu tive. Você há de concordar comigo, maninha. Conheci, e bem, muito bem, a Poliana. Ela não é o tipo de mulher que desejo para um relacionamento sério e duradouro. Aliás, nem sei que tipo de mulher desejo para um relacionamento sério e duradouro. A mulher tem de ser decente, bonita, honesta, trabalhadora, séria… Séria? Não. Não tem de ser séria. Tem de ser brincalhona, alegre… Sabe, Milene, que nunca pensei nisso, nunca me detive para pensar numa resposta para a pergunta: “Qual tipo de mulher desejo para um relacionamento sério e duradouro?” Bem, não precisaria ser duradouro, nem sério, né? Não precisaríamos assumir um compromisso. Poderíamos namorar durante um tempo; depois, cada um que seguisse o seu rumo, mas preferi não tentar… A mulher ideal, aquela mulher ideal que muitos homens idealizam, aquela mulher ideal que as mulheres idealizam, não me parece a mulher ideal. Para mim, segundo os meus superiores critérios de avaliação, a mulher ideal que homens e mulheres paladinos da moral idealizam é intragável, insuportável, indesejável, repulsiva. Acredito que…

– Cale a boca, Claudemir. Perguntei para você: “Por que você não namorou a Poliana?” Quero ouvir uma resposta para esta pergunta. Você está desconversando, você está, mais uma vez, querendo evitar a questão. Você não se livrará de mim. Conheço os seus métodos de esquivanças. Você, com as suas tergiversações, não se desvencilhará de mim. Você tem três opções: Primeira, responder-me à pergunta: “Por que você não namorou a Poliana?” Segunda: Responder à pergunta: “Por que você não namorou a Poliana?”

– Não me diga qual é a terceira opção. Milene, de qual livro você tirou ‘tegiver’, ‘tergisação’, alguma coisa assim?, e ‘desvencilhar’? Foi isso o que você disse? Pelo amor de Deus! Essas palavras não existem. O Aurélio não as conhece. Vamos deixar pra lá esta questão, que não é do meu interesse. Vamos tratar de um assunto, que não é do meu interesse, mas é do da minha querida irmã, lindinha e fofinha e charmosinha e engraçadinha, que, ao morrer, irá para o céu, e Deus irá para o inferno, e o Diabo irá para o céu, e… Quero dizer, queridíssima irmã, que você, ao morrer, irá para o céu, e Deus enviará você para o inferno, e o Diabo enviará você para o céu, e ambos, Deus e o Diabo, viverão, eternamente, numa queda de braços, e ignorarão o que se sucederá na Terra, como já vem fazendo desde que o mundo é mundo. Se o fazem ou para o bem ou para o mal da humanidade, não sei, e não quero saber, e tenho raiva de quem sabe. Milene, para a sua felicidade e para a felicidade geral da nação, digo: Tive as minhas razões para não namorar a Poliana. Boas razões, você concordará comigo, ao ouvi-las. Quais razões foram essas? Ora, Milene, queridíssima irmã, sarnentinha e carrapatenta, você conhece a Poliana. Suspeito que você sabe o que direi, mas, como você não se satisfaz com o que já sabe, e faz questão de me ouvir, digo que a Poliana é bonita; não é a mulher mais bonita que conheço, mas é bonita. Tem um… Sei lá. Ela é bonita. Ela me agradava. Aliás, ela me agrada. Eu gostava dela, Milene. Então, você me pergunta: “Por que você, Claudemir, não a namorou?”, embora saiba qual é a resposta. A Poliana, Milene, eu já disse, e você sabe, é bonita, além de bonita, sedutora, atraente, e, você já sabe, é assanhada, indiscreta, e, você também já sabe, não confio nela. Ela não é, como direi?, confiável. Não quero ser deselegante, afinal sou um cavaleiro. Ou sou um cavalheiro? Se eu a namorasse, Milene, ela me seria fiel? Não. Ela não me seria fiel, eu sei. Você também sabe. A Poliana atira-se aos braços dos homens. Aliás… Não… Ela não se atira aos braços dos homens. Ela se insinua aos homens, e espera que eles se atirem aos braços dela. Como você diria, Milene, a Poliana é volúvel. Não sei se o Aurélio conhece essa palavra. Vamos deixar esta questão para outro dia. Antes que você pense que estou embrulhando você, e, para censurar-me, venha-me com outras palavras que o Aurélio desconhece, digo que muitos homens desejam a Poliana, a abordam, e a convidam para um jantar romântico à luz de velas, para um passeio no litoral, por um final de semana, e para outros programas. Como você sabe, Milene, ela jamais recusa um convite. Quando eu e ela íamos a Ubatuba, a Campos do Jordão, ao sul de Minas, ao Guarujá, ao Rio de Janeiro, ela nunca me deu a entender que desejava um relacionamento sério e duradouro comigo. Ela nunca jurou fidelidade. Nunca, Milene. Nunca. Ela é volúvel e leviana, você diria. E eu o digo, com todas as letras e os acentos indispensáveis. Eu sabia, quando eu e a Poliana nos entendíamos, e bem, muito bem, que ela se entendia bem, e muito bem, com outros homens. Qual seria a minha fama, hoje, se eu namorasse a Poliana? Você sabe. O seu sorrisinho malicioso revela os seus pensamentos, queridíssima irmã, lindérrima, lindíssima. Aí está, Milene, para a sua satisfação, a razão que tive para não namorar a Poliana. Queria saber por que não namorei a Poliana? Agora você sabe. Aliás, você já sabia, mas queria ouvir de mim a razão, não é mesmo, queridíssima irmã, bonitíssima, charmosíssima. Satisfeita?

– Mas, Claudemir, e a …

– Chega, Milene. Chega. Tenho de ir, ou chegarei atrasado.

Claudemir deu-lhe as costas.

Durante a semana, atarefados, Claudemir e Milene não entabularam uma conversa sequer. Desencontravam-se. Os horários não coincidiam. Quando um deles chegava em casa, para o almoço, o outro retirava-se. Quando Milene ia à cozinha, para o café-da-manhã, Claudemir retirava-se, para ir à empresa, trabalhar. Saudavam-se, e despediam-se. Os diálogos que mantiveram eram compostos de frases curtas, e referiam-se à questões relacionadas à casa, contas a pagar, bens a comprar, e à notícias de familiares e amigos. Milene, no entanto, não esqueceu a promessa que fizera para si mesma: a de extrair de Claudemir as razões que ele teve para não namorar nenhuma das suas pretendentes. Claudemir, por sua vez, esquecera-se disso; tão atarefado estava com as suas incumbências, que mal tinha tempo sequer para respirar.

Assim que, num dia de folga, viu Claudemir, descansando, na sala, assistindo à televisão, mas desinteressado do que via, Milene saudou-o, sentou-se à sua direita, e o fitou. Claudemir olhou para ela, e perguntou-lhe porque ela o fitava com aquele olhar de idiota.

– Estou esperando você me contar – respondeu Milene.

– Contar o quê?

– Contar-me por que você não namorou a Veruska.

– Você não esqueceu essa história?

– Não.

– Não me diga que você pensou nisso durante a semana…

– Digo: Pensei nisso durante a semana.

– Pedi para não me dizer… Agora você entende porque não leio romances.

– Nenhuma relação há entre os romances que leio e o meu interesse pela sua atitude.

– A sua curiosidade é uma fênix, que, morta, renasce das cinzas, e metamorfoseia-se num pássaro trovejante.

– Se você fosse um poeta… Pelo amor de Deus! Dante, Shakespeare, Camões e Milton estão se remexendo no túmulo. A sua analogia é patética, é absurda, é ridícula.

– Você é indecente. Eu, para dar um toque de requinte ao que digo, uso figura de linguagem sofisticada, e você me vem com obscenidades.

– Obscenidades!? Figura de linguagem sofisticada!? Toque de requinte!? Nossa Senhora! Do que você está falando? Não responda. Por favor, não responda. Quero saber por que você não namorou a Veruska. Não queira mudar de assunto. Responda: Por que você não namorou a Veruska?

– Pombas, Milene! Tenho escapatória? Você não se cansa? Você não pode me ver sossegado, no meu canto, quieto! Sarna! Carrapato! Você quer saber por que não namorei a Veruska? Por que você quer saber porque não namorei a Veruska? Você não gostaria de saber o placar do jogo São Paulo versus Corinthians, de ontem? Você não quer saber quais jogadores marcaram o gol do São Paulo e quais marcaram os gols do Corinthians? Ou você prefere saber notícias do jogo do Santos versus Palmeiras? Não? O que você deseja saber da corrida de motos? Nada? Se não perdesse tempo lendo romances água com açúcar escritos por franceses, russos e ingleses que tanto admira, você teria mais tempo para se ocupar com coisas mais interessantes, e, do ponto de vista cultural, mais importantes. O futebol, por exemplo; e, também, não posso me esquecer, os vídeos mais engraçados da internet e os escândalos das celebridades. Mas, não! Você se dedica à leitura de tijolos de cinco quilos…

– Não queira embrulhar-me com a sua tagarelice, Claudemir. Mamãe disse-me que você irá para São Paulo. Bobo, você acha que pode me ludibriar com a…

– O quê? ‘Ludi’ o quê? Milene, quando você aprenderá a linguagem humana?

– Ignorante. Não desconverse. Responda-me: Por que você não namorou a Veruska?

– O que não tem remédio, remediado está, diria o vovô. Ele, que conhece muitas frases populares, tem uma para cada ocasião, o velho sábio. O vovô, com aqueles cabelos brancos, aquela pele enrugada e aquela dentadura postiça, até que é lúcido, não é?

– Claudemir…

– Está bem, Milene, está bem. Você quer saber porque não namorei a Veruska? É isso o que você deseja saber? Se eu disser que não irei falar… Melhor contar, logo, de uma vez… e você me deixará em paz; pelo menos, por hoje. Saiba, Milene, que não namorei a Veruska porque ela queria se casar comigo. É verdade. Não ria, besta. Casar-me com a Veruska! Onde ela estava com a cabeça quando me falou de casamento? Melhor: Onde estava a cabeça dela quando ela me falou de casamento? A cabeça dela, estou certo, não estava sobre o pescoço. Pombas! Para a Veruska o namoro é um degrau para o altar. Eu mal a conhecia, Milene. Eu e ela divertíamos… Gosto dela. Ela é bonita. Ela é atraente. Mas… Ela precisava vir com a história do casamento? Ela se insinuou… Falou de enlace matrimonial. Disse-me que a Cláudia se casou com o Marcos, e a Renata com o Luis. Disse-me que as festas foram espetáculos grandiosos, e que a Cláudia, a Renata, o Marcos e o Luis estão felicíssimos, e a Renata e a Cláudia usam aliança… “Xi!”, pensei com os meus botões: “A Veruska quer me enforcar.” Não pensei duas vezes: Chutei-a para escanteio. A Veruska é bonita e atraente, mas casamento é para as feias. A Veruska tem vinte e oito anos, e está louca pra se casar. As amigas dela se casaram, não umas com as outras, mas cada uma delas com o seu respectivo marido. A Renata, a Cláudia, a Vanessa, a Luana, a Natália, a Tereza, a Denise, a Gabriela, a Andressa, a Jéssica, a Fabiana e a Íris, todas elas estão casadas. A Veruska mira-se ao espelho e pergunta-se para si, melhor, pergunta para o espelho: “Espelho, espelho meu, ficarei pra titia?”, e o espelho responde-lhe: “Você é filha única, besta quadrada!”. Resposta enigmática. A Veruska quebra o espelho, e cai aos prantos. Mas a infeliz não se curva ao destino que Deus lhe reservou, e procura por um marido. Então, o que ela faz? Lança-se ao homem que está mais à mão. E que homem é o escolhido? Eu. O bonitão aqui. Personificação do macho gostoso. Suprassumo da masculinidade. Eu, o mais acessível, o mais fácil, fui escolhido, pela Veruska, para subir com ela ao altar, e para viver com ela, feliz para sempre, num castelo encantado, com quatro criancinhas ranhentas e birrentas a tiracolo. Ora, só me restou, para me salvar da peste bubônica, a decisão sensata: dar-lhe a entender que não quero me casar. Ela fingiu que não entendeu as indiretas, que foram diretas, que eu lhe disse, e perguntou-me: “Você já pensou em casamento, Claudemir?”, e eu lhe respondi: “Já! Já pensei no casamento dos meus amigos; no meu, nunca!” Pombas! Milene, por que o Aurélio inventou a palavra casamento? Casamento… Não daria certo, Milene. Sou jovem demais para casar. Serei eternamente jovem. Imagino: Eu e a Veruska, sob o mesmo teto… Filhos… Não. Nem em sonhos… Quem sabe em um pesadelo. A Veruska desejava casar-se comigo. Que piada de mal gosto. Não é piada de gosto duvidoso, não. É piada de mal gosto. Satisfeita, Milene? Agora você sabe porque não namorei a Veruska. Satisfeita a sua curiosidade, você me deixará em paz, não é?

– Não. Você me contou porque não namorou a Veruska, mas não me contou porque não namorou a Lúcia. Quero saber…

– Senhor, Meu Deus, por que me abandonais? Pombas, Milene! Você quer saber por que não namorei a Lúcia? Você sabe que terei de, daqui dez minutos, pegar o ônibus pra São Paulo. Daqui até a rodoviária, andando, a pé, a passos acelerados, demoro, se muito, uns cinco minutos; então, tenho uns dois minutos disponíveis… Serei sucinto, Milene. Não me interrompa. Contarei, logo, para me ver livre de você: Não namorei a Lúcia por causa do pai e da mãe dela. Sabe o que eles me disseram quando a Lúcia apresentou-me para eles e eles para mim? Disseram-me que eu e a Lúcia teríamos de nos casar dentro de um mês. Eu lhes disse que eu não namorava a Lúcia. Eles não quiseram me ouvir. Disseram-me, irritados, que eu era o homem que a Lúcia desejava… Olhei para a Lúcia. Ela me olhou… Ela me olhou de um jeito… De um jeito… De que jeito? Não sei dizer. Sei que me senti completamente esquisito. Levantei-me. Pedi licença. Despedi-me de todos eles. E fui-me embora. Nunca mais vi, nem a Lúcia, nem o pai dela, nem a mãe dela. E não desejo vê-los novamente. Eles saíram da minha vida, e para sempre. Agora, Milene, dê-me licença. Tchau. Estou atrasado. Diacho! Tenho que correr. Não posso perder o ônibus.

Quatro dias depois, Claudemir regressou de São Paulo. Almoçou com seu pai, sua mãe e Milene. Narrou-lhes, nos pormenores, o que fez em São Paulo (ocultando deles, obviamente, o que não lhes era do interesse), e, alegre, comemorou o sucesso na negociação com empresários paulistanos. Após o almoço, que se prolongou por três horas, na sala, Claudemir entregou para Milene presentes, doces e os chocolates que ela tanto apreciava.

– Agora – disse-lhe Milene -, enquanto degusto este delicioso chocolate com recheio de cereja que você me trouxe, diga-me, Claudemir, porque você não namorou a Olívia.

– Estava demorando…

– Ela gostava tanto de você…

– Ela gostava de mim? É verdade, Milene, ela gostava de mim. Eu não queria enfrentar o Popeye… Vou fazer uma revelação que vai desejar… vai deixar você de queixo caído, Milene: A Olívia, quando saía comigo, namorava o Popeye, atual marido dela. Eu o conhecia. Os dois já haviam marcado a data do casamento. Pode me chamar de covarde, Milene, se quiser, mas eu nunca encararia o Popeye, aquele brutamontes. Imagine o que seria de mim, se eu o encarasse. Pra imaginar o que aconteceria comigo, você precisa saber que o Popeye é lutador de karatê, muay-tai, boxe, e tem um metro e noventa de altura, e bíceps maiores do que os de Schwarzenegger. Vai encarar? Está rindo, né?

– E a Graziela? Por que você não namorou a Graziela?

– Ah! Não! Milene. Poupe-me.

– Diga-me porque você…

– Está bem… Se eu falar porque não namorei a Graziela, você me deixará ir tomar um banho, e dormir?

– Juro pela alma da vovó.

– Estou com sono, Milene. Contarei porque não namorei a Graziela. Depois, irei dormir. E você me deixará em paz, pelas próximas doze horas. Graziela, a santarrona! Pelo amor de Deus! Ela… Penso nela, e caio na gargalhada. A Graziela, Milene, é uma santarrona. Carola até dizer chega! Beata dos infernos. Ela é pior do que os monges que se enclausuram nos castelos medievais da Europa. A Graziela… Pelo amor de Deus! Que santarrona! Ela vai à igreja, todos os dias. Fazer o que, não sei. Ela submete-se à lavagem cerebral, e voluntariamente. Em todas as conversas, Milene, não importa qual seja o assunto, a Graziela fala de Igreja, Jesus Cristo, Nossa Senhora, Papa e Apóstolos. Eu lhe levava notícia a respeito de um programa de auditório, e a Graziela falava-me de Jesus Cristo e da decadência da civilização ocidental. Eu lhe falava de um computador que comprei, e ela me vinha com Jesus Cristo, Nossa Senhora de Aparecida, Nossa Senhora de Guadalupe, Sagrado Coração de Jesus, Santo António, Santo Agostinho, e outros diabos, e tecia argumentos minuciosos a respeito da insensibilidade dos homens modernos, que só se interessam por tecnologia, e desconhecem a espiritualidade de Jesus Cristo e a doutrina da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Eu lhe falava da crise financeira mundial, e a Graziela, a santarrona, me vinha com Jesus Cristo e os vendilhões do templo, sermões do Padre Fulano de Tal, epístolas de apóstolos, Novo Testamento, Velho Testamento, testamentos inexistentes, testamentos que nunca foram escritos, testamentos que foram queimados na biblioteca de Alexandria, e o testamento que o avô dela assinou antes de morrer porque, depois de morto, nenhum testamento ele pôde assinar. Não deixaram… Milene, a Graziela, a respeito de qualquer assunto, principia os seus argumentos assim: “O padre disse…”, ou, então: “Na Bíblia está escrito…”, e quando eu lhe pedia o livro, o capítulo e o versículo, ela desconversava. “Jesus Cristo ensinou…”, ou, então, “O Papa disse…”. Poupei-me a tortura eterna ao me afastar da Graziela. Eu não a suportava. Pensei namorá-la… Namorar a Graziela! Onde eu estava com a cabeça? Melhor: Onde estava a minha cabeça? Ela não estava em cima de meu pescoço. Por sorte, encontrei-a, embora eu não soubesse onde ela estava, e recoloquei-a no seu lugar de origem, e não cometi a maior burrada da minha vida. Agora, maninha querida, irei dormir com os anjos. Estou com muito sono. Boa noite.

Na manhã seguinte, Claudemir banhou-se, e, na cozinha, saudou Milene, que, sentada à mesa, degustava uma torradinha com geléia de framboesa.

Sobre a mesa havia uma garrafa térmica preta, canecas sobre pires, copos de vidro transparente, um pote de manteiga, biscoitos-de-vento, bisnaguinhas, cookies, broas, potes de geléia, sendo uma de framboesa, uma de morango, uma de laranja, e pães e bolachas waffes, e uma caneca com leite. Claudemir sentou-se numa cadeira, e serviu-se de café-com-leite e bolachas waffes de laranja. Enquanto servia-se, disse:

– Antes que você me pergunte, Milene, direi porque não namorei a Sandra. Você quer saber porque não namorei a Sandra? Não precisa me fazer esta pergunta. Sei qual é a resposta. Já falei da Poliana, da Graziela, da Veruska… E de quem mais? Da Lúcia e da Olívia. Resta-me falar da Sandra. A Sandra! Pelo amor de Deus! Você a conhece melhor do que eu a conheço. Por que você quer me ouvir dizer porque não a namorei, se você conhece a resposta? Você não me perguntou porque não namorei a Sandra. Eu tomei a iniciativa de falar a respeito com você. Mas você iria me perguntar, não iria? É claro que iria! E me atormentaria, até o dia do Juízo Final, para obter a resposta. Conheço a minha queridíssima irmã. A Sandra, você sabe, é a mulher mais mentirosa, fingida e trambiqueira que conheço. Ela dá dó… Ela dá nó até em pingo d’água. O que seria de mim, se eu a namorasse? Você se lembra do que ela fez com o Nilson? Fê-lo desentender-se, a víbora peçonhenta, com o pai dele, com o irmão, comigo, com a Paula, resumindo, com todas as pessoas que moram nesta cidade, e com a metade da população do Brasil, e com um terço da torcida do Corinthians, e com dois quintos do exército brasileiro. Fê-lo perder a metade do que possuía e o emprego. E ela queria me namorar. Eu, namorar a Sandra! Nem morto! A vampira sugar-me-ia todo o sangue do corpo. Você conhece alguém mais mentirosa, falsa, fingida e mascarada do que ela?

– Claudemir, sei que você teve razões de sobra para não namorar nem a Sandra, nem a Lúcia, nem a Veruska, nem a Graziela, nem a Olívia, nem a Poliana, e tampouco manter um relacionamento duradouro e estável com elas. Principalmente, com a Sandra. De todas, ela é a pior. Conheço a história dela com o Nilson. Conheço o roteiro do início ao fim. Sei que a Sandra está namorando… Coitado do atual namorado dela… Não o conheço, mas sinto muita pena dele… Isso não nos interessa. Agora, Claudemir, quero saber porque você não namorou a Rafaela. Ela é tão boazinha. Você não teve uma boa razão pra não a namorar. Ela estava interessada em você. Ela gostava muito de você; ainda gosta; não tanto como há alguns meses. Ela está namorando o Gustavo. Você, Claudemir, perdeu a Rafaela. Ela seria uma ótima mulher para você. É bonita, honesta, inteligente e trabalhadora. Não sei porque você a descartou. Por que você a ignorou? Ontem, encontrei-me com ela. Ela me fez perguntas a seu respeito, Claudemir. Ela, com aquele olhar, sabe? Ela não esqueceu você. Ela namora o Gustavo. Disse-me que está bem com ele, e muito feliz. O que quero saber, Claudemir… Não entendo porque você não namorou a Rafaela. Você tem razão em não ter namorado nem a Lúcia, nem a Sandra, nem a Poliana, nem a Graziela, nem a Olívia, nem a Veruska. Mas, a Rafaela, Claudemir! Não acredito que houve um bom motivo para você a rejeitar. Se você tivesse namorado a Sandra, eu faria de tudo pra estragar o namoro de vocês. E nunca me simpatizei nem com a Poliana, nem com a Graziela, nem com a Olívia, nem com a Veruska, nem com a Lúcia. A Poliana é volúvel, assanhada, indiscreta; e não merece confiança. A Rafaela é exatamente o oposto. É discreta, e merece confiança; ela faz jus à reputação que tem. Ela também não é como a Lúcia. Não tem pai e mãe adeptos de doutrinas absurdas. A Rafaela também não está louca para se casar e não se atira ao primeiro homem que lhe aparece na frente, como a Veruska. Tampouco é bitolada como a Graziela, que vive enfiada na Igreja. A Rafaela não é como a Olívia, que, na véspera do casamento, flerta com outros homens. Não podemos pôr a Rafaela no mesmo saco no qual se encontra a Sandra. As duas não são farinha do mesmo saco. A Sandra é desprezível. A Rafaela é uma pessoa extraordinária. Você não teve motivos para não a namorar. Não encontro, por mais que eu procure, um motivo para você não namorar a Rafaela. A Rafaela é doce, meiga, discreta, honesta, leal, trabalhadora, estudiosa, inteligente, bonita, espirituosa, amigável, prestativa… Quais outros predicados eu poderia incluir na lista? A Rafaela não é carola, não é carniceira, não é maria-gasolina, não é vampira, não é maria-vai-com-as-outras… Não entendo porque você não a namorou. Sinceramente, não entendo. A Rafaela… Não acredito que você… Penso com os meus botões, e a nenhuma conclusão eu chego: Por que você rejeitou a Rafaela? Por favor, diga-me: Por que você não quis namorar a Rafaela? Ela gostava tanto de você… Você a rejeitou, Claudemir. Diga-me: Por que você não namorou a Rafaela?

– A Rafaela tem celulite – respondeu Claudemir, inexpressivo.

Desencontros e encontros

– Esperarei por você, Valquíria, hoje, às nove horas, no restaurante Smith & Smith. Eu não seria nem um pouco cavalheiro se me atrasasse ao encontro e fizesse você me esperar.

– Irei com o meu melhor vestido, Cauã. Para uma ocasião tão especial, o melhor vestido e o melhor perfume. Passarei no cabeleireiro, e pedirei para ele caprichar no visual. Será uma noite inesquecível.

– Saiba: você não precisa se enfeitar para ficar bonita. Você é bonita; e dispensa os adornos. Você fica linda em qualquer vestido; até sem vestido, fica linda…

– Bobo. Não seja engraçadinho… Então, às nove horas, no Smith…

– Não quer uma carona até a sua casa?

– Não. Obrigada. Terei, antes de ir para a minha casa, de ir ao caixa eletrônico do banco X sacar alguns trocados e pagar duas contas, e à loja Lar comprar um conjunto de sofá, pois o de casa a Milu e a Mi o estraçalharam…

– Aqueles cachorrinhos são traquinas…

– Eles destróem tudo o que encontram pela frente… Vou virar à direita, Cauã. Tchau. Um beijo.

– Tchau, Valquíria. Às nove horas, no Smith.

– Estarei lá.

*

– E então, Valquíria, conte-me como foi o seu encontro com o Cauã, na sexta-feira. Conte-me. Quero saber de todos os detalhes. De todos os detalhes.

– Que avidez por notícias, Mônica. Nossa! Não é à toa que dizem que você é fofoqueira…

– Eu adoro fofocas. Não me farto de fofocas. Eu me alimento de fofocas. O que seria do mundo se não houvesse fofocas? O mundo seria um lugar muito chato para se viver. Você sabia que os fofoqueiros são as pessoas mais bem informadas sobre o que realmente interessa…

– Não me venha com mais uma de suas teses filosóficas, sociológicas e antropológicas para justificar os seus vícios…

– Que vícios… E você também adora fofocas…

– Não vou discutir com você porque hoje eu estou muito feliz. E ninguém, e nada, poderá destruir a minha felicidade…

– Você e o Cauã beijaram-se, apaixonadamente, e agarraram-se, e…?

– Não. E sabe por quê? Eu não fui ao encontro.

– O quê? Você não foi ao encontro?

– Foi isso o que eu disse, não foi? Foi isso o que você me ouviu dizer, não foi?

– Mas… Mas… Valquíria… O Cauã… Você…

– Quer saber, Mônica: Eu estava cheia do Cauã. Cheia! Eu já estava com ele pelo pescoço. Ele merecia um bolo; e eu lhe dei um. Você o conhece tão bem quanto eu o conheço. Ele insistia em sair comigo, há semanas. E ele agia como se eu fosse uma propriedade dele. Confesso: ele é bonito, e inteligente também; mas eu tinha de fazer alguma coisa para pô-lo no lugar dele e provar-lhe que nem toda mulher se curva perante ele e o trata como o deus do amor e da beleza. Ora, ele merecia uma lição. E eu lhe dei uma. Ele tem que aprender, Mônica, que ele não pode usar as, e tampouco abusar das, mulheres e tratá-las com desdém. Eu não sou um objeto. Assim que me encontrar com o Cauã, eu lhe direi que houve um imprevisto, que minha mãe adoeceu, e esqueci-me de telefonar para ele… Sei lá… Inventarei uma desculpa qualquer. E demonstrarei que não me sinto triste por não haver ido ao Smith. Tratarei do assunto como se fosse algo corriqueiro, para que ele entenda que não lamento o fato de eu não poder ir ao encontro. Quero ver a cara do Cauã… Assim que ele chegar e me vier falar… Quero ver a cara de defunto…

– Falando no capeta, Valquíria, apareceu o diabo. Ele não me parece triste. O sorriso dele vai de uma orelha à outra.

– Espere ele vir aqui.

– Ele não me parece triste; parece o homem mais feliz do mundo.

– Ele disfarça bem, Mônica; quero ver como ele vai se comportar ao me ouvir.

– Ele está vindo para cá. Devagar. Calmo. Bom dia, Cauã.

– Bom dia, Mônica. Bom dia, Valquíria.

– Bom, dia, Cauã. Lamento não ter isso ao Smith, Cauã. E lamento não ter telefonado para você. A minha irmã adoeceu, e eu tive de levá-la ao hospital; esqueci-me de telefonar para você para desmarcarmos o encontro.

– Não se preocupe, Valquíria.

– Poderemos marcar um outro encontro, Cauã, se você desejar, no restaurante que você escolher, e no dia que você quiser.

– Seria bom, mas não poderei marcar um encontro com você, e nem sair mais com você…

– Cauã, se você está com raiva de mim, entendo…

– Valquíria, não estou com raiva. Eu estou muito feliz. Fui ao Smith, e esperei por você. Depois de quase duas horas, certo de que você não iria ao Smith, chamei pelo garçom, e pedi a conta. Foi então que se me apresentou uma linda moreninha sorridente, de olhar peralta e meigo, de rosto bonito, rechonchudinho, rosado: Lidiane. Conversamos ela e eu. Ela me agradou. Eu a agradei. E conversa vai, e conversa vem… E ela e eu começamos a namorar. O amor é lindo, não? A Lidiane é a mulher da minha vida, é a minha alma gêmea, é a minha cara-metade. Será a mãe de meus filhos.

A mulher que não fofocava

Gustavo acordou, naquele domingo de verão, às seis horas da manhã, fios de luz do sol a invadir o quarto, pelos interstícios das tábuas da janela deteriorada, durante trinta anos, sob golpes de ventos, que a atingiram com violência em não raras ocasiões, vibrando-lhe toda a estrutura e lançando-a contra a parede, e sob chuvas torrenciais, que atingem a região em dias quentes de verão, e, em raras ocasiões, sob granizos, que a afetaram consideravelmente. Jamais se dispôs a reparar a janela, ou a substituí-la por uma janela nova. Limitou-se, apesar de todos os rogos de Ludmila, sua esposa, a pregar tábuas às tábuas originais que a constituíam quando ele a comprou e a instalou em sua casa. Fosse de tábuas de madeira não tão resistentes, a janela já havia se desmantelado por completo muitos anos antes.

Ao lado de Gustavo, dormia Ludmila a sono solto. Na ponta dos pés, cuidando para não fazer ruídos que pudessem vir a despertá-la, foi Gustavo até a porta, abriu-a lenta e cuidadosamente, e assim que passou pelo enquadramento, fechou-a com o mesmo cuidado e lentidão, e andou, com passos firmes, até o banheiro. Não haviam se passado trinta minutos, vestido, rumou à cozinha, onde preparou o seu café-da-manhã, que consistia em um copo de café com leite, uma xícara de café, um pão francês com queijo-prato derretido, um pão italiano, metade de um abacate, um caqui e pedaços de mamão. Encerrada a refeição, lavou a louça, regressou ao quarto, do criado-mudo pegou a carteira, deu, na testa de Ludmila, um suave beijo, carinhoso, retirou-se do quarto, todo o tempo tomando cuidado para não emitir ruído que pudesse vir a despertar a sua esposa, foi ao banheiro escovar os dentes, e não muito tempo depois, se muito cinco minutos, retirando-se de sua casa, fechou atrás de si a porta, e rumou para o ponto-de-ônibus, onde havia, sentada no banco, uma mulher gorda, tendendo para o obeso, a fisionomia de mau-humor despertando em Gustavo um comentário silencioso: a mulher chupara um limão azedo, o que explicava, dela, cara de poucos amigos. Saudou-a com um gesto e um bom-dia, e dela recebeu silêncio constrangedor e um olhar de Medusa, que o converteria em uma estátua de pedra se ele não tomasse a providência de desviar o olhar, o que fez, de imediato, incapaz de sustentá-lo. Nenhuma criatura mitológica provocaria em Gustavo a corrente de calafrio que lhe vibrou todo o corpo, e o espírito também, assim que ele fitou aquela mulher. E esperaram o ônibus Gustavo e a mulher durante um bom tempo. E antes de o ônibus chegar àquele ponto-de-ônibus, uma outra mulher chegou e saudou a mulher sentada no banco, tratando-a pelo nome, Maria Teresa. Já se conheciam as duas mulheres, e tinham elas no trato familiaridade, como indicava a liberdade com que a mulher dirigiu a palavra à Maria Teresa. Após saudar Maria Teresa e dela receber uma saudação contida e um bom-dia dito numa voz cavernosa, se lhe sentou a mulher ao lado, e com ela encetou conversa, a qual Gustavo ouviu, contrariado, suplicando a Deus o envio imediato de um ônibus para aquele ponto de parada de ônibus. Maria Teresa era lacônica; as suas intervenções no seu colóquio com a sua interlocutora, cujo nome era Camila, resumiam-se a frases curtas de no máximo dez palavras; na maior parte do tempo a sua participação limitava-se a um assentimento com um mover da cabeça, lento. Gustavo perguntou-se que virtude possuía Camila que a permitia conversar com, e olhar para, Maria Teresa, mulher cuja fisionomia transparecia um aspecto, o qual ele não sabia definir, que lhe despertava, nele, Gustavo, o desejo de matar-se.

Contrastavam o temperamento de Camila e o de Maria Teresa; aquela era loquaz, expansiva, extrovertida; esta, lacônica, contida em si, introvertida. De um modo inexplicável, entendiam-se. E Gustavo, mesmo não o desejando, ouviu a conversa que elas mantiveram, conversa que Camila principiou e da qual Gustavo, após regressar à sua casa, para o almoço, fez referência à Ludmila, sem entrar nos detalhes, os quais ele jamais saberia reconstituir, de tão numerosos.

Entrando num comentário a respeito do longo tempo em que não se viam Camila e Maria Teresa, e declarando que elas tinham de pôr as novidades em dia, Camila, sem dar à sua interlocutora oportunidade de respirar, inteirou-a de alguns eventos que ela, Maria Teresa, presumia Camila, ignorava:

– Encontrei-me, Maria Teresa, com a Roberta, a esposa do Vinicius. Ela me falou da vida de todos os vizinhos dela. Que mania ela tem! Fala, a mexeriqueira, gozando do prazer de dar todos os detalhes da vida de todos. Que coisa! Eu não gosto de fuxicar a vida alheia. A Roberta, fofoqueira incorrigível, não perde nem uma oportunidade sequer de falar da vida alheia, e tampouco de colher informações da vida de todos, para, depois, espalhá-las aos quatro cantos do universo. Infelizmente, há muita gente que, do mesmo modo que ela, vive de fofocas. São pragas tais pessoas. Ela fala da vida alheia, mas não fala da própria vida. Não é engraçado!? O que ela diz de si mesma? Nada. Ela esconde de todos coisas da própria vida, mas as pessoas sabem o que se passa com ela, pois as paredes têm ouvidos, e os passarinhos também. E alguns passarinhos têm nomes, e um desses passarinhos, cujo nome é Marcela, contou-me, há quatro meses, que a Roberta e o Vinicius discutiram a ponto de ela dar-lhe um tapa na cara e ofendê-lo nos termos com os quais uma esposa jamais trata o próprio marido. E como é escandalosa, a Roberta ergue o tom de voz sem se preocupar se os vizinhos a ouvem. E eles a ouvem, afinal a voz da Roberta atravessa as paredes. E o que a Roberta fala da discussão dela com o Vinicius? Nada. Ela, fofoqueira sem igual no mundo, fala da vida de todos; da vida dela, não. E a Marcela, numa outra vez, há um mês, disse-me que ouviu uma discussão entre a Roberta, o Vinicius, e a Paula, a filha deles, mocinha de uns dezenove anos, leviana, que namora um tal de Anderson, que, dizem todos os da vizinhança, não é flor que se cheire. Mexeriqueira de marca maior, que vive de fuxicar a vida alheia, não perdendo a oportunidade de praticar o seu esporte predileto, a fofoca, disse-me: “Ouvi, e com os meus ouvidos que Deus me deu pra mim, Camila, a discussão, que se deu, na casa da Roberta, entre ela, Roberta, e o Vinicius, aquele banana, e a Paula, aquela mocinha, que, bonita por fora e feia por dentro, é um demônio em forma de mulher, e só se envolve com gente imprestável, como o tal de Anderson, que ela namora, homem que, dizem as más línguas, que não me parecem más, já engravidou uma bobinha, que mora no bairro do Crispim e cujos pais são ignorantes incorrigíveis, e já se envolveu, ou está envolvido, com tráfico de drogas, e até com assassinato, dizem. A Márcia disse-me, ontem, no consultório do doutor Marcos, o dentista, não o otorrino: ‘Marcela, a Paula, filha da Roberta e do Vinicius, engravidou do Anderson, aquele vagabundo.’, e perguntei-lhe: ‘Aquele moço do qual o Márcio disse horrores, aquele moço que trafica drogas e que engravidou aquela mocinha lá do Crispim?’. ‘Ele mesmo.’, respondeu-me a Márcia, ‘Um rapaz magro, com um piercing no nariz e um na sobrancelha, não me lembro se na direita, se na esquerda’. ‘Na direita’, respondi-lhe. ‘Ele é horrivelmente feio. Parece um bicho. É um animal estranho, bizarro. Não é humano ele, é? Ele é um bicho do mato. E é dele que a Paula espera um filho’. ‘Mas é verdade, Márcia, ou é só diz-que-diz?’, perguntei, porque eu não gosto de espalhar boatos. Se a história não é verdadeira, se é só uma invencionice de desafetos da Paula, e eu a conto para alguém, acabo, sem o desejar, por prejudicá-la; então, não querendo passar para nenhuma outra pessoa uma história que não é verdadeira, insisti na pergunta, e a Márcia confirmou a história, e prosseguiu: ‘Imagine, Marcela, os apuros em que estão o Vinicius, e a Roberta, que sempre foi desleixada, mãe ausente, esposa negligente, e que, disseram-me o Márcio, a Cláudia e a Renata, traiu o Vinicius, aquele bestalhão, mais de uma dezenas de vezes! Imagine em que palpos de aranha eles estão!’ E conversamos, durante um bom tempo, a Márcia e eu, e ela me inteirou de muitas histórias do arco-da-velha, das quais você nem imagina, Camila”. E a Marcela contou-me, Maria Teresa, todos os pormenores da história, uma história horripilante, da qual a Marcela revelou-me detalhes de pôr a todos com o queixo caído. A Marcela adora tratar da vida alheia. É, penso, pior do que a Roberta, uma fofoqueira de mão cheia. Fornece informações da vida de todos, e os vizinhos dela são os alvos prediletos dos mexericos, os quais ela conta com uma boa dose de acidez, de amargor, de, digo, maldade, com o desejo de pintar a todos com as cores mais repulsivas, de tão maledicente ela é.

Neste momento, para agrado de Gustavo, já exausto de ouvir a narração de Camila e esforçando-se para se concentrar, em vão, num pensamento qualquer, chegou o ônibus que o conduziria a ele e Camila e Maria Teresa a Taubaté. E os três entraram no ônibus, em cujo interior já havia outros nove passageiros, três deles com ar sonolento e transparecendo cansaço, um cochilando, dois, ambos jovens, de aproximadamente quatorze anos um deles e de dezessete anos o outro, semelhantes no físico e na fisionomia, conversando, animados, dois homens e uma mulher desacompanhados, ocupando bancos distantes um do outro.

Gustavo sentou-se num dos bancos do fundo do ônibus, certo de que estaria, durante a viagem, que demoraria em torno de trinta minutos, livre de ouvir as histórias narradas, para Maria Teresa, por Camila.

Camila e Maria Teresa pagaram ao cobrador pela passagem, e sentaram-se uma ao lado da outra, Maria Teresa à janela, Camila à sua esquerda, logo atrás do banco em que estava, sentado, o cobrador.

E mal havia se sentado, Camila pôs-se a falar ao mesmo tempo em que o ônibus retomava viagem, e para se fazer ouvir por Maria Teresa, ergueu o tom de voz, para que os ruídos emitidos pelo ônibus não lha abafassem, e fez-se ouvir, também, pelo cobrador, pelo motorista, pelos outros dez passageiros, dentre estes Gustavo.

– Espanta-me, Maria Teresa, o prazer que a Marcela, a Roberta e a Márcia têm de mexericar a vida de todos. Que vício, o delas! Se elas fossem as únicas pessoas que adoram fofocas, o mundo não seria tão ruim, tão cheio de desentendimentos; infelizmente, elas não são as únicas. Uma outra pessoa, fofoqueira das mais desembaraçadas, é a minha vizinha, a Carla, que, Deus me perdoe, é um tipo intragável; fala, a maldita, de tudo e de todos, mas das maluquices dela ela nada diz; cala-se a respeito como se fosse a mais sensata e decente das mulheres. Se não a conhecesse, eu acreditaria que a vida que ela leva é um mar de rosas; mas é, sei, um mar de espinhos. Ora, já sabemos, eu e os da nossa vizinhança, que ela, num caso extraconjugal, engravidou, e abortou, há cinco meses, o filho que trazia dentro de si, disse-me a Margarete, outra fofoqueira, que nunca perde a ocasião de cuidar de mexericos e que jamais fala das brigas dela com o Bernardo, o marido dela, e com os filhos, Roberto e Gilson, dois garotos vadios. O Bernardo, não posso deixar de dizer, e o digo sem o desejo de espalhar mentiras, pois o que sei dele contou-me a Clarice, a ex-esposa do Denílson, mulher que, embora mexeriqueira, não é de inventar histórias, e o Bernardo, eu dizia, manteve um caso extraconjugal com uma mocinha, a Zuleica, que trabalha na padaria do Paulo, lá do bairro. E a Carla, dias atrás, há ou cinco, ou seis dias, não me lembro, disse-me a Vicentina, na casa do amante, foi surrada pela esposa dele, uma tal de Vanessa. As notícias, desencontradas, correram mundo. A Vicentina e a Edna disseram-me que o amante dela é o Tadeu, marido da Fabiana. O Tadeu é o gerente do banco *; a Fabiana, do banco **. A Marcela, a Márcia e o Cristóvão disseram-me que o amante da Carla é o Ricardo, dono da revendedora de automóveis Furacão Speed; a Alice e a Samanta disseram-me que é o amante da Carla o José António, frentista do posto de gasolina Encha o Tanque. Não sei quem é o amante da Carla; sei que ela tem um amante e que a esposa dele deu-lhe, nela, na Carla, uma surra, daí os hematomas nos olhos e nos braços dela. Disseram-me a Claudete, a Juliana, o Robson e a Kátia que os hematomas que se vêem no corpo já acabado da Carla quem os fez foi o Lauro, marido dela, ao saber do caso dela com não souberam me dizer quem. A história é obscura. A Carla se acredita, aos quarenta anos, um avião. Vaidosa, ela, a mocréia, ainda não entendeu que não é mais aquela bonitona que, há mais de vinte anos, punha todos os homens de queixo caído, embasbacados, de língua para fora da boca, mas apenas uma baranga despeitada, despelancada e coberta de pés-de-galinha, estrias e celulite.

E Camila, neste momento, o ônibus parado num ponto-de-ônibus, para receber outros passageiros, quatro, de uma família, o pai, a mãe, e duas filhas, ambas jovens, uma aparentando quatorze anos, a outra, dezessete, interrompeu o seu relato, observou aqueles que entravam no ônibus, e assim que se certificou que nenhum deles era um conhecido seu, reencetou a narração:

– E conto outra história para você, Maria Teresa; uma história que ma contou a Rúbia, a minha irmã, também ela uma fofoqueira. Na minha família também há uma fofoqueira, e é a fofoqueira da família a minha irmã caçula, a xodó do papai e da mamãe. Ela sempre foi mimada. Meu pai sempre a tratou como a uma rainha e de ninguém nunca escondeu a sua preferência por sua filhinha querida, filhinha que ele reverencia. E minha mãe sempre deu a ela tudo o que ela quis, e estende-lhe o tapete vermelho, sempre. Dela eu já falei para você, Maria Teresa. Ela mora em Belo Horizonte, com o marido, Osvaldo, e a filha, a Silvana, menina de nove anos, uma gracinha, minha afilhada, que em nada puxou pela mãe. É a Silvana, como a madrinha, discreta e recatada. E é personagem da história que ma contou a Rúbia a Lidiane, filha da Cleusa, minha amiga, com quem estudei no colegial. A Lidiane, já nos seus dezoito anos, é uma daquelas mulheres fáceis, que sem nenhuma vergonha, sem nenhum receio, se entregam para todos os homens. No bairro ela tem a fama que nenhuma mulher gostaria de carregar consigo. Também pudera! Ter a mãe que tem, ela não poderia sair uma santa. A Cleusa, eu sei, e ela própria contou-me, era instável, e trocava de namorado com a mesma facilidade e freqüência com que se troca de roupas. Da Lidiane ouvi histórias de enrubescer o mais desavergonhado dos homens. Disse-me a Rúbia, “Camila, dias atrás, no sábado, à noite, na discoteca, a Lidiane, contou-me a Laura, irmã dela, e a Érika, uma amiga minha e da Laura, esfregou-se, desavergonhada, em homens, e não poucos, que, libidinosos, acoxaram-na, apalparam-na, livremente, os faunos, deliciando-se, gozando do prazer que a Lidiane, libertina, prodigalizava-lhes. Imagine, Camila, o que se deu depois que ela se retirou, já ligeiramente embriagada, na companhia sabe-se lá de quantos homens, da discoteca, às três horas da madrugada! Use da imaginação.” E com essas palavras, e um sorriso malicioso, quase obsceno, estampado no rosto, a minha irmãzinha, de quem eu poderia contar, para você, algumas histórias do arco-da-velha, principiou o seu relato recheado de sem-vergonhices.

O ônibus desacelerou-se, e parou num ponto-de-ônibus. E no ônibus entraram umas dez pessoas, dentre elas homens e mulheres, velhos, adultos, jovens e crianças; elas ajeitaram-se nos bancos, umas após passarem pela roleta à frente do cobrador; outras não. Gustavo percebeu que Camila havia se silenciado e que Maria Teresa falava-lhe qualquer coisa, num tom baixo, pausado, silabando as palavras, não permitindo a ele, Gustavo, ouvi-la, e nem a Camila, concluiu ele, ao avaliar-lhe a postura, então inclinada para Maria Teresa, que não estendeu mais do que dois minutos o seu relato, e assim que ela o encerrou, Camila pôs-se a falar, no seu tom peculiar, alto, e sua voz, que se confundia com as dos outros passageiros, mal chegou aos ouvidos de Gustavo. Do que Camila dizia para Maria Teresa, poucas palavras, a curtos intervalos, atingiam os tímpanos de Gustavo, vibrando-os, não o permitindo conceber qual história ela narrava; fosse qual fosse, era uma cujo teor pedia o bom tom que não se contasse, em público, ao alcance de ouvidos de outras pessoas, concluiu Gustavo assim que se cruzaram o seu olhar e o do cobrador, este a revelar àquele o indisfarçável incômodo que o relato de Camila lhe provocava. Transparecia no rosto do cobrador inconfundível desejo de safar-se daquela situação; estava obrigado, todavia, a ouvir histórias que não desejava jamais ouvir, mas, por dever de ofício, tendo de permanecer sentado no banco que lhe estava reservado, ouviu-as. E sorriram Gustavo e o cobrador. E eles entreolharam-se não muito tempo depois, e sorriram, compreendendo um o pensamento do outro. E o ônibus parou, em um ponto-de-ônibus, e do ônibus desceu Maria Teresa. E Gustavo, enfim, pôde sentir-se livre da presença daquela mulher, que lhe provocava um sentimento de repulsa, que o perturbava, e também se livraria, definitivamente, da tagarelice de Camila, que, não havendo agora quem pudesse ouvi-la, manter-se-ia em silêncio o restante da viagem, poupando, de suas narrativas, Gustavo, o cobrador e os outros passageiros. Contrariando, no entanto, o desejo de Gustavo, sucedeu algo que não lhe havia passado pela cabeça: Naquele ponto-de-ônibus, além de Maria Teresa, desceu do ônibus um homem, e no ônibus subiram umas vinte pessoas, que foram ocupando os bancos vagos, e uma mulher octogenária sentou-se ao lado de Camila, que se deslocara para o banco à direita, permanecendo-se à janela, e uma outra mulher, também octogenária, ou nonagenária, deteve-se, em pé, ao lado da que se sentara ao lado de Camila, que, vendo-a, levantou-se do banco, auxiliou-a a sentar-se no banco que desocupara, e assim que a anciã nele acomodou-se, andou, um pouco desajeitadamente, até o banco à direita de Gustavo, então desocupado, e nele sentou-se. Gustavo rogou aos céus que impedisse que Camila com ele puxasse conversa. Os céus não lhe atenderam aos rogos. Tão logo sentou-se, Camila, comichão a coçar-lhe a língua, dirigiu-lhe a palavra, perguntou-lhe se não era ele o homem que aguardava o ônibus no mesmo ponto-de-ônibus em que ela e Maria Teresa o aguardavam, e assim que dele ouviu a confirmação, disse-lhe, sem papas na língua:

– Há mais de seis meses, ou um ano, não estou certa, que eu e a Maria Teresa não nos víamos, e não nos dávamos um dedo de prosa. Hoje, por acaso, nos encontramos, e pudemos pôr algumas novidades em dia. Ela me falou de um sobrinho dela, um dos vários sobrinhos que ela tem, o Fábio, e, com a sem-cerimônia de uma mexeriqueira, disse-me que ele brigou com os pais dele; o pai dele, Osvaldo, é trabalhador, mas pai ausente e marido ausente; e a mãe dele, Maria Joana, desequilibrada, esposa histérica, relapsa. E Fábio arrumou as trouxas, e foi morar com os avós paternos dele, um casal de velhinhos já um pouco gagás, mas ainda sensatos. E qual foi a razão da briga de Fábio com os pais dele? Viciado em maconha, ele lhes pediu dinheiro, para comprar roupas, disse-lhes, uma calça e duas camisas, e um par de sapatos, de que ele muito precisava. Osvaldo e Maria Joana cobraram-lhe explicações acerca das roupas dele, as quais não se viam nem no guarda-roupas, nem em nenhum outro lugar da casa. Fábio desconversou, e deu-se início à discussão. E foi-se Fábio para a casa dos avós. Só não me estendo a contar para você a história que a Maria Teresa contou-me há alguns minutos, antes de ela despedir-se de mim e retirar-se do ônibus, porque não vivo de tratar de coisas que não me dizem respeito, e nada quero saber, e tampouco dizer, acerca da vida de familiares, parentes e amigos. Guia-me a discrição, e discrição é o que peço àqueles que me procuram para falar da vida alheia. Que mania desagradável têm as pessoas de cuidarem do que não lhes dizem respeito. Não sabem que muita desafeição nasce de tal vício? Se soubessem, o evitariam. Se Deus iluminasse a todos, ninguém vivia de mexericar a vida alheia.

Gustavo limitou-se a assentir. Assim que a porta do ônibus abriu-se, o ônibus parado na rodoviária, dele retirou-se, rapidamente, e, a passos acelerados, afastou-se de Camila antes que ela tivesse a idéia de principiar a narrativa de qualquer história, ou, simplesmente, perguntar-lhe aonde ele iria. E se ele lhe dissesse aonde iria, e ela dissesse que iria para o mesmo lugar? Tão logo tal pensamento resvalara-lhe a cabeça, tratara Gustavo de afugentá-lo de si, e agira de modo que ele não se concretizasse.

Brasil, paraíso dos machistas. Um conto politicamente correto.

Dou a público, hoje, uma história horripilante, comum hoje em dia, mas oculta do povo indiferente.
Após esperar vinte minutos, durante a chuva torrencial que despencou nesta cidade a partir das 18,00 horas, no ponto de parada de ônibus, Jaqueline, vendo um ônibus aproximar-se, acenou; o ônibus parou, para que ela nele subisse. No ônibus, então lotado, ela, em pé, se espremeu entre os passageiros; não havia o ônibus percorrido quinhentos metros, abordou-a um homem esbelto, de um metro e setenta de altura, de barba rapada, calvo nas têmporas, trajando calça jeans, camisa azul e sapatos pretos. Ele, assim que se levantou do banco, ofereceu-o à Jaqueline, para que ela nele se sentasse. Ela, de imediato, rejeitou a oferta, e, diante da insistência dele, solicitou ao motorista que, ou mandasse o homem que lhe oferecera a ela Jaqueline o banco para nele ela se sentar retirar-se do ônibus, ou desviasse do trajeto original e rumasse à delegacia de polícia. O motorista recusou-se a atender-lhe às sugestões; e inúmeros passageiros esbravejaram. Diante da intransigência do motorista e da chusma dos passageiros, ela protestou, veementemente, tirou da bolsa que trazia a tiracolo um telefone celular, discou o número do telefone da delegacia de polícia, e, em altos brados, ora se queixava à telefonista que a atendera, ora tripudiava contra os passageiros e o motorista. A celeuma assumiu proporções inabarcáveis. Jaqueline ameaçou processar todos os que se encontravam no ônibus. Mulheres disparavam-lhe ofensas. Jaqueline estapeou um homem, unhou outro, desferiu duas joelhadas em um terceiro, e ameaçou arrancar os cabelos de um outro. A turbamulta ia, como um vagalhão, ameaçando derrubar o ônibus, o que obrigou o motorista a estacioná-lo, e telefonar para a delegacia de polícia. Para conservar o auto-controle, o motorista retirou-se  do ônibus; lá fora, alternava sua atenção entre sua conversa, ao telefone, com a sua interlocutora, as queixas que os passageiros lhe faziam e as reclamações de Jaqueline.
Não tardou cinco minutos, quando uma viatura policial chegou ao local, trazendo dois policiais, um homem e uma mulher, que trataram de tranquilizar todos os envolvidos no imbróglio, sucesso que só obtiveram a duras penas. De todas as personagens envolvidas, Jaqueline era a mais agitada, e justificadamente, afinal ela fora a ofendida; ela transparecia, em gestos ostensivos, em expressões fortes, as suas indignação e raiva compreensíveis; intempestiva, esbravejou, esgoelou-se, e firme, convencida da razão de seus propósitos, incansável, declarou-se, corretamente, desrespeitada e, corajosamente, disposta a ir aos tribunais denunciar todas as pessoas que a conspurcaram ao lhe arremessarem epítetos insultuosos.
“Aquele machista… – disse Jaqueline, indignada, referindo-se ao homem, que, levantando-se do banco, oferecera-lhe o lugar que deixara vago – aquele machista… Quem ele pensa que eu sou!? Quem ele pensa que ele é!? Que direito ele tem de me oferecer um lugar para eu me sentar!? Quem ele pensa que ele é!? Que desrespeito! Aquele machista… Eu não preciso que homem nenhum me ofereça um banco para eu me sentar. Só porque eu sou mulher, aquele machista me tem como um pessoa inferior, fraca, incapaz! Que absurdo! Vivemos em uma sociedade machista, patriarcal, preconceituosa. Os homens se acham superiores às mulheres”. Tais palavras são de uma mulher poderosa, de brios, que sabe qual é o seu lugar na sociedade. De uma mulher insubmissa, altiva.
Era visível o desarranjo emocional de Jaqueline,  compreensível e justificável diante de tal violência que lhe promoveram, produzido pela ação desrespeitosa do homem que lhe oferecera o lugar no banco. E assim que lhe amainou o espírito, Jaqueline prosseguiu: “E o motorista, outro machista, em vez de atender-me, destratou-me. Fez de conta que o assunto não lhe dizia respeito, e seguiu viagem. Aquele machista! Todos os passageiros do ônibus são machistas, inclusive as mulheres, que, ao invés de irem em meu favor, ofenderam-me. Aquelas bruacas! Aquelas megeras! Todas servis à cultura patriarcal, machista”.
Neste momento, uma das passageiras interrompeu Jaqueline, e, destrambelhada, pôs-se a desancá-la com termos ofensivos e epítetos insultantes. E vários passageiros, açulados por ela, avançaram, ameaçadores, na direção de Jaqueline, que se abrigou às costas dos policiais, que, não sendo bem-sucedidos em chamar todos à razão, solicitaram reforço policial, que não tardou a chegar.
Contornada a situação, todos os envolvidos no entrevero os policiais os conduziram à delegacia de polícia, onde quase se engalfinharam Jaqueline e alguns passageiros e se deu tal distribuição de ofensas que até o Marquês de Sade, se as ouvisse, se constrangeria. Enfim, arrefecidos os ânimos, na presença de advogados e policiais, Jaqueline e os outros passageiros acordaram entregar o caso aos tribunais. Muitos dentre os envolvidos, já no exterior da delegacia, bufaram de raiva, e foram-se embora. Todos os passageiros e o motorista do ônibus, certos de que, de tão absurda a queixa de Jaqueline, ela, Jaqueline, perderia o processo. Enganaram-se. O veredicto, favorável a ela, os obrigava a cada um deles o pagamento de indenização por danos morais à vítima, Jaqueline. Eles esbravejaram. Espernearam. Recorreram da decisão. Jaqueline saiu vitoriosa de tal litígio. E a justiça foi feita. E a sociedade machista perdeu.
Não muito tempo depois, num ônibus que ia do bairro Campo Belo ao Campo Limpo, Jaqueline embarcou num ônibus lotado de passageiros, e espremeu-se como sardinha numa lata, deslocou-se alguns metros, e deteve-se ao lado de um banco, ocupado, então, por um homem cuja aparência lhe dava trinta anos e cuja indumentária lhe emprestava ar solene, venerável. No entra e sai de pessoas no ônibus, durante os quarenta minutos de duração da viagem, Jaqueline foi arremessada de um lado para o outro, só não indo, desequilibrada, ao chão porque outros passageiros serviam-lhe de escora. O desconforto, insuportável. Ao fim da viagem, na rodoviária, assim que, após descer do ônibus, encontrou-se com Marcela, sua amiga, que a aguardava, disse-lhe, queixando-se: “Os homens são muito mal-educados. Deus me livre! Num ônibus lotado, o calor de matar, obrigaram-me os machistas a permanecer em pé durante a viagem. E nenhum homem se dignou a ceder-me o banco. E o que estava na minha frente, machista dos infernos!, fez que nem me viu. Aquele machista! Se soubessem o apuro que as mulheres passamos, todos os dias, no transporte coletivo, os homens jamais iriam desejar ser mulheres. Temos as mulheres de aturar cada desaforo! Que falta de civilidade, a dos homens! Quero nascer homem na próxima encarnação. Assim, eu não sofrerei o que as mulheres sofrem”. E Marcela subscreveu-lhe as queixas.
Esta é uma, apenas uma, das incontáveis histórias que retratam a difícil vida da mulher na sociedade moderna, patriarcal e machista.

Um escritor à procura de um conto

Quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso literário. Pensei, durante horas, em com quais palavras iniciá-lo. Pus a cabeça para funcionar. Queimei as pestanas. Perdi muito tempo (ou não perdi) pensando no que eu escreveria, e amadureci (amadureci?) as idéias, para escrever com segurança e desenvoltura. Enfim, simultaneamente seguro e hesitante, dei início à redação do conto. Após escrever umas cem palavras, parei de escrever, deitei a caneta sobre a mesa, e li o texto que, tomei conhecimento, para meu desgosto, saiu-me diferente do que eu me propusera a escrever inicialmente. Ato contínuo, amassei o papel, e o joguei no lixo.

Falei para alguns amigos do meu restrito círculo de amizades que eu quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso. Eles (aos quais sou imensamente grato por me ouvirem atentamente e se me dignarem a dizer o que pensavam do meu propósito), pretensiosos (como todo bom brasileiro, entendem de todos os assuntos), aconselharam-me a não perder o meu tempo escrevendo um conto, pois, declararam, certos do que diziam, escrever é ocupação de desocupados. Diante desse paradoxo, perguntei-lhes:

– Se escrever é a ocupação dos desocupados, escrever é uma ocupação; então, o escritor, ocupado em escrever, é uma pessoa ocupada. Certo?

Eles desconversaram. Com exercício intelectual que, diziam-me, sustentavam com raciocínio inatacável, que eu, por mais que o desejasse, não compreendia, sublinhavam a opinião – à qual os brasileiros aferram-se com unhas e dentes – que nos diz que os escritores são pessoas desocupadas. Decidi, após perder um bom tempo em discussão estéril com pessoas que nada entendem de literatura, conversar apenas com quem entende do assunto: o Juscelino, o Lourenço (não sei qual é o seu primeiro nome), a Mariângela, a Cláudia, a Rosemeire e o Teodoro.

Encontrei o Juscelino sentado em um banco, lendo um livro, à sombra de uma árvore, na praça São Benedito. Interrompi-lhe a leitura. Falei-lhe do concurso literário e das minhas idéias para o conto que eu pretendia escrever. Ele me veio, com autoridade de um entendido, com essas palavras amargas:

– Balzac escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso. Conheço alguns livros do Balzac (Não ousei, até hoje, encarar a sua obra, muito volumosa. Um dos motivos, confesso, que constrangedor!: a preguiça; outro: não encontrei todos os volumes que compõem a Comédia Humana, nem na biblioteca municipal, que vive às moscas, coberta de teias de aranhas, com livros empoeirados de folhas amareladas, e cujo acervo, de pouco mais de cinco mil livros, compõe-se, quase que exclusivamente, de livros de auto-ajuda, esoterismo e outras insignificâncias, nem em nenhum outro lugar).

– Sim, escreveu – respondeu Juscelino.

– Tem certeza, Juscelino? – perguntei. Eu queria que ele me dissesse em qual livro Balzac narrou a história que concebi.

Juscelino atendeu ao meu desejo. Provou-me que Balzac escreveu uma estória idêntica à minha. “Ora – eu poderia gritar, a plenos pulmões – Maldito Balzac! Roubou-me as idéias”. Se eu tivesse nascido antes de Balzac, eu, antes dele, teria tido as idéias que ele concebeu antes de mim, escrevê-las-ia, e eu, e não Balzac, seria um gênio da literatura universal. Balzac – sorte dele! – nasceu antes de mim!

– Se eu fosse você – aconselhou-me Juscelino -, esqueceria o conto. Você nunca será original porque, seja qual for a sua idéia, algum escritor, e dos bons, que hoje são respeitados como clássicos, já a usou em algum conto, que, com certeza, é muito melhor do que o que você será capaz de escrever. Você não quer ser ridicularizado, quer? Não quer que as pessoas reconheçam você, na rua, apontem o dedo para você, e digam: “Olhem! O plagiador!”? É isso o que você deseja?

Tais palavras feriram-me profundamente. Puxa! Por essa eu não esperava. Juscelino acertou-me um golpe no queixo, nocauteando-me. Certo, nunca o considerei meu amigo, tampouco dei-lhe muita atenção, jamais respeitei-lhe as opiniões, mas, ora!, eu, desejando escrever um conto, e ele me veio com palavras tão agressivas, tão… Não sei tão o quê! Restou-me agradecer-lhe (ferido em meu ego) as opiniões e as sugestões, e afastar-me, cabisbaixo, desanimado. Depois, pensei comigo: “Juscelino é apenas um. Ele me apresentou a sua opinião. Ora, vou à procura do Lourenço. Ele, sim, há de dar-me ouvidos e elogiar-me a vontade de escrever um conto, ganhar um prêmio, e, quem sabe, ver o meu conto publicado em uma revista respeitável, ao lado de contos de outros escritores que, como eu, também buscam um lugar ao sol.

Então, ao Lourenço.

Fui à casa dele. Ele, animado, fanhoso (tenho de me esforçar para conseguir compreender o que ele fala), saudou-me, e perguntou-me a respeito de meu pai, minhas irmãs, e minha mãe – especialmente de minha irmã mais velha, a Jéssica, por quem ele, apesar de casado e pais de três filhas, sente atração, mesmo que não ma confesse. Não sou bobo, ora bolas! Percebo como os homens, atrevidos, olham para minhas irmãs, principalmente para a Jéssica, a mais bonita das duas (Que um psiquiatra, adepto da escola do Freud, ou de qualquer outra escola, pouco me importa de qual, interprete, à luz das teorias psiquiátricas, caso elas projetem alguma luz, as minhas palavras; que digam que tenho complexo disso ou complexo daquilo, que o meu id esmurrou o meu ego, e ambos, cúmplices do meu superego, subverteram a ordem, se ordem há, do meu inconsciente, e coisa e tal… e chega de lorota).

Não permiti, um pouco enciumado e incomodado, confesso, que o Lourenço se estendesse, indefinidamente, em superlativos à beleza da Jéssica. Eu o interrompi e falei-lhe das minhas idéias (não as mesmas que eu apresentara para o Juscelino, mas outras; não exatamente outras, mas as que eu apresentara para o Juscelino com significativas modificações: outros personagens, ambiente e narrador, agora em terceira pessoa). Lourenço ouviu-me atentamente; e disse-me, depois de puxar pela memória algumas lembranças das suas leituras:

– O Dostoiévski escreveu um romance com essas idéias, Carlinhos – e só agora revelo o meu nome, e ainda assim, no diminutivo, o que detesto sobremaneira. Desconfio que o Lourenço sabe que detesto ser chamado de Carlinhos, eu, com um metro e oitenta e dois de altura! Carlinhos, eu!?

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso; cabisbaixo, interessado em sua vasta erudição, o ouvi atentamente.

Lourenço falou-me de Dostoiévski (Li Os Irmãos Karamazovi. De Dostoiévski, apenas esse livro. Que vergonha! Como é constrangedor confessar a minha ignorância!). Provou-me, por A mais B, que ele escreveu um romance com as minhas idéias – as minhas idéias, sim! Dostoiévski escreveu um romance com as minhas idéias, pois não li o seu romance com idéias idênticas às minhas. Dostoiévski, afortunadamente, nasceu e morreu antes de mim e, involuntariamente – acredito que não tenha sido a intenção dele -, impediu-me de escrever uma estória original.

A conversa estendeu-se por um bom tempo. Ao contrário de Juscelino, Lourenço deu-me muitas idéias para contos – e disse-me que todas foram escritas por algum escritor. Pensei em ir-me embora, mas, com a chegada da Cássia, esposa dele, decidi permanecer na casa um pouco mais e dar sequência à conversa porque, como previ, ela me ofereceu um cafezinho saboroso – o qual degustei repleto de prazer. Além disso, eu queria admirá-la. Cássia, aos quarenta e dois anos, é um colírio para os olhos.

Eu queria prolongar a conversa com o Lourenço e a Cássia; tive, no entanto, a contragosto, de retirar-me. Despedi-me do casal, lançando um último olhar para a Cássia, e retirei-me. Como eu pretendia escrever um conto, e precisava de novas idéias – as que eu tivera abandonei-as – procurei pela Mariângela, que, leitora de romances e contos clássicos, poderia tecer comentários acurados sobre as minhas idéias. Por acidente, nos trombamos ao dobrar uma esquina. Desculpei-me. Ela se desculpou. Rimos. Cessado o riso, iniciamos uma conversa descontraída. Falei-lhe do concurso de contos para o qual eu desejava enviar um conto, e apresentei-lhe um resumo do meu conto. Ela me ouviu, atentamente; ao final do meu relato, disse-me:

– Machado de Assis escreveu um conto com essas idéias, Carlinhos.

– Escreveu? – não percebi que ela me chamou de Carlinhos, tão surpreso eu estava ao ouvi-la dizer que o bruxo do Cosme Velho, que tanto admiro, escreveu uma história com as minhas idéias.

E a Mariângela falou-me do conto do Machado de Assis. Para meu desgosto, para meu espanto, lembrei-me do dito cujo.

– Você está com a razão, Mariângela. Li o conto.

– Você tem de ser original, Carlinhos. Você não pode plagiar o Machado de Assis.

– Não desejei plagiá-lo, Mariângela. Tive algumas idéias, e decidi usá-las em um conto; e agora, e só agora, alertado por você, sei que Machado de Assis escreveu um conto com elas. Puxa! Que coincidência! Ainda bem, Mariângela, que você me avisou a tempo. Imagine a vergonha que eu passaria se escrevesse um conto com idéias usadas por Machado de Assis! Seria constrangedor. Eu nunca me perdoaria! Plagiar o bruxo do Cosme Velho! Involuntariamente eu incorreria em plágio, acredite em mim. A alma penada do Machado ou me cortaria o pescoço, ou me assombraria por toda a eternidade. Estou dizendo a mais pura verdade, Mariângela, a verdade verdadeira. Acredite em mim. Eu não mentiria pra você. O Machado escreveu… Quem diria!

Ao chegar em frente da casa da Mariângela, despedimo-nos. Segui rumo à minha casa. No caminho, ao passar pela praça São Bernardo, quem vi, lá, sentada em um banco, lendo um livro? A belíssima e vistosa Cláudia, a mulher mais bonita que conheço. Que pedaço de mal caminho! Ela nunca me deu bola. E daí? Sempre que a encontro, a admiro, embevecido, deslumbrado, de queixo caído, boquiaberto. O Gustavo, namorado dela, é quem tem de manter afastados os gaviões que voam em círculos em torno dela; ele, se não quiser ganhar um belo par de cornos, que se cuide e que cuide do que é dele. Eu, embora exista o risco de atiçar a cólera enciumada do Gustavo, não perco uma oportunidade de abordar a Cláudia, e requestá-la, com discrição e sutileza. Abordagens diretas a escandalizam. Confesso: não quero entrar em confronto com o Gustavo, que é meu amigo e mais forte do que eu. A tentação, no entanto, é incontornável…

Não pensei duas vezes. Enveredei pela praça. Como quem não quer nada, fui até a Cláudia, que trajava uma camisa branca decotada e um short amarelo bem justo. Quanta generosidade! As pernas cruzadas, desnudas! Acheguei-me a ela. Simulando surpresa, saudei-a. Ela sorriu. Que sorriso! Aqueles dentes brancos resplandecentes! Quase me perdi, naquele instante. Fiquei a ponto de desmaiar. Ela me ofereceu o rosto, para que eu o beijasse. Beijei-o, deliciado.

Perguntei-lhe que livro ela lia. Ela, pondo um marcador de página na página que lia, fechou o livro, cuja capa exibiu-me. Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Expus-lhe os meus comentários favoráveis ao livro e elogiei-lhe o bom gosto. Cláudia sorriu. Abaixou a cabeça, como que constrangida com os elogios. Perguntei-lhe se eu poderia sentar-me ao seu lado e puxar uns dedos de prosa. Ela me disse que me sentasse à direita. Sentei-me. Eu lhe disse que eu lera, dois meses antes, aquele livro, e, no ano passado, A volta do Parafuso. Conjuguei dois interesses: falar de literatura e admirar a Cláudia.

Falei-lhe do meu conto. Ela me ouviu atentamente; as suas observações, favoráveis, de estímulo; no entanto, ela me apresentou uma ressalva:

– O Boccaccio escreveu um conto com tais idéias.

Admirei-me. A Cláudia leu Boccaccio!? Não acreditei!

– Escreveu? – perguntei, boquiaberto, incrédulo.

– Escreveu, sim. Um dos contos do Decamerão.

Boquiaberto, de queixo caído, pasmo, eu não soube o que dizer. A Cláudia leu o Decamerão! Quase não me contive. Desejei perguntar-lhe qual dentre as cenas picantes ela mais apreciou. Calei-me, todavia. Eu fizera uma miscelânea das estórias que contei para o Juscelino, para o Lourenço e para a Mariângela. A Cláudia associou o meu conto aos do Boccaccio, que eu havia lido não muitos dias antes; mais uma vez, minha memória enganou-me. Eu não disse à Cláudia que li o Decamerão. Pedi-lhe mais detalhes. A bandida leu o Decamerão! Eu não quis acreditar. Ela, tão reservada, tão discreta, com fama de santinha – ler Boccaccio não faz uma mulher depravada, não é mesmo? -, surpreendeu-me com a revelação. Cláudia leu, como me provou, o Decamerão, e divertiu-se com a leitura. Falou-me da peste que assolava a Europa, na época de Boccaccio; falou-me dos contos, inclusive dos mais picantes, mas não o fez abertamente, com desembaraço.

Convencido de que criei um conto cujo tema era idêntico ao de um conto do Boccaccio, arrumei, com muito jeito, sem que a Cláudia desconfiasse das minhas verdadeiras intenções, assuntos para estender a conversa. Eu desejava admirar a Cláudia e tinha o sincero desejo de aprender um pouco mais sobre literatura. A Cláudia apresentou-me comentários a respeito de muitos livros, em sua maioria clássicos da literatura. Acompanhei-a, embevecido, em seu entusiasmo contido ao falar de Liév Tolstoi, seu escritor predileto. Eu sentia o odor perfumado que ela exalava. Inebriei-me com o seu perfume. Ébrio de desejo, enlaçava-a, em pensamento, e osculava-a, apaixonadamente. Encerramos a conversa – para meu desgosto – quando o Gustavo apareceu. Após saudar-me, ele atraiu a Cláudia para si, colou seus lábios aos dela – eu desejava beijá-los; os da Cláudia, obviamente; não os do Gustavo -; em seguida, após descolar seus lábios dos dela, voltou-se para mim, e disse-me que iriam à casa de uma amiga. Retiraram-se.

Levantei-me. Rumei à minha casa. Com quem dei de cara, na sala? Com a Rosemeire, que conversava com a Jéssica. Após passar momentos agradáveis com a Cláudia, defrontei-me com a feiúra em pessoa. Rosemeire, apesar de toda a sua feiúra repulsiva, não apagou, da minha mente, a belíssima imagem da Cláudia. Sorri. Eu rumava para o meu quarto; a um chamado da Rosemeire, detive-me. A Rosemeire me disse que participaria de um concurso de poesias, e perguntou-me se eu não desejava participar. Eu lhe disse que não gosto de poesia, mas de prosa, e tinha idéias para um conto que eu pretendia escrever e enviar para um concurso de contos. Ela me pediu que lho narrasse; eu lhe disse que eu não havia escrito nenhum conto, mas tinha algumas idéias na cabeça. Ela me perguntou quais eram. Eu lhas disse. Eram as idéias, com pequenas modificações, que eu apresentara para a Cláudia. Encerrado o relato, Rosemeire disse-me:

– A Virginia Woolf escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu?

Rosemeire resumiu o romance da Virginia Woolf. A Virginia Woolf – maldita! – escreveu a minha estória! Meu Deus! Em que mundo estamos! Um conto, que para a Cláudia continha idéias concebidas por Boccaccio, converteu-se, com pequenas modificações, em um romance da Virginia Woolf! Nenhum livro da Virginia Woolf eu li… Apalermado, ouvi as razões apresentadas pela Rosemeire, que, por sinal, foi muito gentil comigo – tanta gentileza não me agradou. O que ela desejava? Preciso responder à esta pergunta? Ah! Se fosse a Cláudia, assim, tão gentil, tão generosa, tão solícita… Mas não era a Cláudia; era a Rosemeire. As suas intenções… O seu sorriso… O sorriso cúmplice e zombeteiro da Jéssica… No desejo de não prolongar a minha permanência na sala, eu lhes disse que iria ao meu quarto escrever as idéias que me iam à cabeça, e retirei-me da sala, não sem antes olhar para a Jéssica. Malditinha! Sinto, não raras vezes, vontade de esganá-la. Rosemeire não me engana… Não tenho psicologia feminina, mas entendo as mulheres.

Convencido de que Virginia Woolf – e quem tem medo de Virginia Woolf? – roubou-me as idéias, decidi abandoná-las definitivamente. Não eram originais, e eu não me lançaria em um empreendimento literário para repetir o que outro escritor – e escritor consagrado – escreveu. Enfurnado no meu quarto, decidi mudar, e radicalmente, as minhas idéias. Nada de estória realista, nada de drama, nada de romance. Abandonei os meus projetos, e lancei-me na elaboração de uma estória fantástica. Retirei-me do quarto, duas horas depois. Ao passar pela sala, despedi-me da Jéssica e da Rosemeire, tão sorridente… O seu sorriso… Exagerado. Falso, notei. Sei o que a Rosemeire deseja de mim; não participarei de nada do que ela deseja. Ela que procure outro homem, um que se disponha a encará-la. Prefiro encarar a Medusa.

Na cozinha, enquanto eu bebia um copo de água, veio-me à lembrança a extravagante figura do Teodoro, leitor voraz de estórias de ficção científica, terror, espionagem, policial e fantasia. Rumei para a casa dele, sem pensar duas vezes.

À porta da casa do Teodoro, premi a campainha. Minutos depois, Teodoro abriu a porta. Saudamo-nos. Ele, expansivo, convidou-me para entrar. Entrei. Na sala, recebi um beijo no rosto e um forte abraço da Karen, esposa do Teodoro, tão extravagante e exótica quanto ele – eles formam o casal mais estranho da cidade. E entramos na conversa: literatura fantástica, ficção científica, terror, policial e outros gêneros que os críticos, soberbos, pedantes, insistem em classificar como sub-literatura.

No instante em que me surgiu a oportunidade, falei das minhas idéias para um conto de ficção científica. Teodoro, enquanto, atentamente, ouvia-me, cofiava o vasto bigode desgrenhado – como dizem nas redondezas: sem o bigode ele é como o Sansão sem a cabeleira.

Teodoro pensava, pensava, pensava. No que ele pensava? Não precisei esperar muito tempo para ter a resposta:

– Carlão, meu irmão, o Asimov escreveu um conto com essas idéias.

– Escreveu?

– Escreveu. Tenho certeza. Li todos os livros do Asimov. Em inglês. Entendeu? Em inglês. Carlão, as suas idéias não são originais. Você está plagiando o Asimov. Isso é heresia, você sabe. Pô, Carlão. Que decepção! Plagiar o Asimov! Ora, desista do conto. O que você pretende fazer é heresia. Lesa-pátria. Imperdoável! O que você está pretendendo fazer não merece perdão. Escreva o seu conto, que, na verdade, é do Asimov, que você vai parar na guilhotina. É o destino dos que desrespeitam o Asimov.

Foi a gota d’água! Desisti de escrever um conto. Aqui vai o meu registro, com meu sangue, meu suor e minhas lágrimas. Ninguém pode conceber o meu sofrimento! Ninguém pode conceber a minha angústia! Foi infrutífera a minha jornada à procura de uma boa idéia para um conto, que eu enviaria para um concurso…

Malditos todos os escritores que me antecederam! Malditos! Mil vezes malditos! Que a alma de todos eles queime no inferno! Malditos! Malditos! Mil vezes malditos!

Triste notícia

Manhã de sábado. Às nove horas, um pouco depois do café-da-manhã, Natália despediu-se de Alfredo, e foi, de carro, ao supermercado; depois, iria à farmácia e à feira. Alfredo esperaria, na sua casa, Roberto, seu irmão, e com ele iria para Taubaté à lojas de materiais de construção pesquisar preços de tijolos, cimento, areia, ripas de madeira, outros materiais e utensílios de pedreiro. Enquanto o esperava, trocou a água da vasilha dos cachorros (dois pastores, um alemão, Thor, e um belga, Aquiles. Alfredo diz que o belga é ortodoxo, mas é o alemão que mete medo) e a da vasilha do gato. Certa vez, perguntaram-lhe porque ele escolhia para os seus cachorros (Alfredo tivera dois vira-latas, Odin e Odisseu – Odisseu era o mais astuto; Odin, o manda-chuva – e três cadelas – uma rotweiller, Medusa, e não havia cristão que não se petrificava ao se deparar com ela; uma dálmata, Deméter; e uma colie, Afrodite) nomes de heróis, deuses e semideuses da mitologia grega, romana e nórdica (Ah! Esquecia-me, o gato chamava-se Esfinge), e não nomes de personagens folclóricos e mitos indígenas brasileiros; ele não deixou tal pergunta sem resposta, que estava na ponta de sua língua:

– Cães com nomes de origem brasileira não metem medo em ninguém. Imagine um pastor alemão chamado Saci. Conceba tal monstruosidade. O pastor é manco?, perguntar-me-iam. Ou ele é trípede?, zombariam. Quem o respeitaria? Agora, imagine uma rotweiller chamada Iara. Quem a respeitaria? Ninguém. Todos a achariam bonita, elegante e charmosa, e torceriam o nariz para ela, mas não a temeriam. Não quero cães que sejam alvos de chacotas. Quero cães que metam medo em todo mundo. E o nome tem de inspirar respeito, medo. A mitologia grega e a nórdica os possuem aos punhados. A hebraica também. Imagine um cão chamado Salomão. Você imagina um cãozinho frágil de latido estridente, ou um portentoso espécime de uma raça nobre, altivo, a transpirar sapiência? Agora, imagine um cão chamado Curupira. É para rir, não é?

Quando alguém lhe expunha os aspectos ridículos da sua argumentação, ele não desconversava; para surpresa de todos, defendia, com argumentos inconsistentes, as suas preferências pelos nomes de deuses, semideuses, heróis e monstros da mitologia grega, da nórdica e da romana; na maioria das vezes, não convencia ninguém de suas razões, as quais eram sem pé nem cabeça, mas todos calavam-se, para não perderem amigo tão querido. Certa vez, um amigo, descendente de indianos, apresentou-lhe nomes de deuses, semideuses e heróis hindus, muitos deles extraídos dos poemas épicos Mahabarata e Ramayana. Alfredo rejeitou, terminantemente, as sugestões, alegando que tais nomes são impronunciáveis.

Thor e Aquiles beberam da água, sedentos. Alfredo chamou por Esfinge, que não deu as caras.

– Caiu na farra, o maldito gato, na casa do vizinho – exclamou Alfredo, a sorrir, jocoso. – Também pudera! A gatinha que há lá! Um petisco.

Alfredo distribuiu a ração dos cachorros, em partes iguais, em duas vasilhas, uma vermelha, a de Thor, e uma verde, a de Aquiles, e as manteve afastadas uma da outra uns cinco metros, como também manteve afastadas as duas vasilhas de água – e eu ia sonegando esta informação, imprescindível, acredito, não para a compreensão deste relato, mas para o conhecimento da inimizade latente entre o deus nórdico e o herói grego. Ambos, conquanto trabalhassem, unidos, na proteção dos seus mantenedores, Alfredo, Natália, e os filhos deles, Gustavo, Denise e Fabiana, desentendem-se, às vezes – mantê-los distantes um do outro durante as refeições é uma providência sensata. Alfredo não desejava oferecer-lhes pretexto para eles se engalfinharem, cravarem os dentes um no outro, e ferirem-se. Não queria gastar o seu dinheiro com consultas ao veterinário e compra de medicamentos.

Assim que Thor e Aquiles beberam da água e comeram da ração, Alfredo conduziu-os ao canil. Não é correto dizer que Alfredo os conduziu ao canil. Habituados a, todos os dias, após beberem da água e comerem da ração, encaminharem-se ao canil, nesta manhã de sábado, eles foram ao canil, antecipando-se a Alfredo, que encheu de água as duas vasilhas que estavam no canil, trancou a porta com um cadeado, pendurou a chave num prego à viga de madeira, despediu-se de Thor e Aquiles, e rumou à varanda, onde consultou o relógio. Eram quase nove e meia. Roberto estava atrasado quase trinta minutos. Alfredo se chateou. Detestava atrasos. Era pontual e exigia pontualidade das pessoas com as quais marcava horário para um compromisso. Andou pelo jardim. Avaliou as flores. Procurou por ervas daninhas. Bem-te-vis, colibris e pombas-rolas desviaram-lhe a atenção. Um colibri azul, amarelo e verde osculava bicos-de-papagaio e tamancos-judeus. Alfredo observou-o até ele voar, por sobre o muro, à casa do vizinho.

A campainha soou.

– Até que enfim! – exclamou Alfredo, que foi até à porta, certo de que Roberto premira a campainha. Ao abrir a porta, para a sua surpresa, deparou-se com Vanessa, prima de Natália. Alfredo esboçou um sorriso, que logo suprimiu do rosto ao deparar-se com o rosto doído de Vanessa e ao vê-la remover lágrimas que escorriam do olho esquerdo. Fitou-a. Aguardou a notícia; triste, previu. Vanessa, sem dizer uma palavra, abraçou Alfredo e, enquanto removia de si as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, perguntou se Natália encontrava-se na casa. Alfredo disse-lhe que ela fora à feira, ao supermercado, e perguntou-lhe por que chorava. Vanessa não lhe respondeu, de imediato; engoliu o choro; inspirou, soluçou, pigarreou, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e as que se lhe acumulou nos olhos. Alfredo observou-a, em silêncio. Enfim, Vanessa disse:

– Uma notícia triste, Alfredo.

– Entre, Vanessa. Vamos à sala.

– Não…

– Você quer beber um pouco de água?

– Não, Alfredo, obrigada. Vim falar com você e com a Natália. Notícia triste, e vou… Tenho de ir à casa do Pedro…

– Vanessa…

– Não sei como falar… Ainda bem que encontrei você… Se eu tivesse encontrado a Natália… Não sei como eu lhe contaria… Como eu lhe daria a notícia… Com você, Alfredo, posso ser direto: O tio morreu.

– Tio?

– Sim, o tio… O tio Cirilo.

– O quê? – exclamou Alfredo, estupefato, e arregalou os olhos, e boquiabriu-se, incrédulo. – Mas… Como é possível? Ontem à noite, ele e eu conversamos, tão animados… Ele estava tão bem, tão alegre…

Diante da triste notícia, Alfredo proferiu tais comentários, e não atentou para o absurdo neles contido. Ele pediu que Vanessa entrasse. Ela lhe disse que iria à casa de Pedro e à de outros familiares e amigos transmitir a triste notícia, e não entrou. Em poucas palavras, resumiu o que sucedera durante a madrugada: o telefonema desesperado de Maria José às três horas da madrugada; a correria, dela, Vanessa, e de seu marido, Paulo Roberto, à casa do tio Cirilo e tia Maria José; a chegada da ambulância; a ida ao hospital; e a notícia do falecimento do tio Cirilo; o regresso à casa de Maria José; o medo que sentiu ao ver Maria José, inconsolável, aos prantos; as providências que tomou para consolá-la e para avisar os familiares. Alfredo ouviu-a, compungido, atentamente; lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos. Assim que Vanessa encerrou o relato comovente, estreitou-a num abraço carinhoso, beijou-lhe a testa, ajeitou-lhe os cabelos que lhe caíam à testa, e removeu, com o dorso do dedo indicador direito, as lágrimas que lhe escorriam pela face esquerda. Despediram-se. Alfredo, com o olhar, acompanhou-a afastando-se de si com passos lentos. Assim que ela dobrou a esquina, ele, cabisbaixo, regressou à casa, e trancou a porta; não havia da porta se distanciado dois metros quando a campainha soou. Deu meia-volta, e foi até a porta. Abriu-a. Era Roberto.

– Você já recebeu a notícia? – perguntou Roberto, ao fitá-lo.

Alfredo confirmou com o franzir do cenho, sem piscar, e com movimentos ligeiros dos músculos da face.

– A Natália… – reticenciou Roberto.

– Ela ainda não sabe. Ela está, ou no supermercado, ou na feira…

– Quem a contou para você?

– A Vanessa.

– Como você dará a notícia para a Natália?

– Estou pensando… Entre, Roberto – assim que ambos entraram, Alfredo trancou a porta, mas deixou a chave na fechadura. – Como darei a notícia para a Natália? Não posso lhe dizer, assim, de supetão… Você sabe… A Natália é tão melindrosa… Terei de dar-lhe a notícia. Não posso me furtar a fazê-lo.

Conversaram durante uma hora. Não falaram de materiais de construção, de pesquisa de preços. Falaram de Cirilo. Ao despedirem-se, Roberto renovou os seus votos de condolências.

Sozinho na sua casa, andando de um lado para o outro, perguntava-se Alfredo como daria à Natália a notícia do falecimento do pai dela. Foi ao banheiro; à pia, abriu a torneira, e jogou um pouco de água no rosto. Enxugou-se com uma pequena toalha azul. Fechou a torneira. Abriu a torneira, e molhou, pela segunda vez, o rosto, e não o enxugou. Fechou a torneira. Passou as mãos pelo rosto, removendo a água. E retirou-se do banheiro. Ao andar pela sala, Esfinge dele se aproximou. Alfredo nada lhe disse. Esfinge esfregou-se-lhe às pernas, na calça. Alfredo ignorou-o, alheado. Sentou-se no sofá, ao canto, pousou o braço esquerdo no braço do sofá, cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda, largou-se ao encosto do sofá, cerrou as pálpebras, e esfregou-as com os nós dos dedos da mão direita. Passeou as mãos pelos olhos, e removeu as lágrimas que neles se acumulavam. Estava triste e preocupado. Como daria a notícia à Natália? Teria de ministrar-lha em doses homeopáticas. Teria de preparar Natália para receber a triste notícia, de modo a não sobressaltá-la. Mas, como fazê-lo? Desejou que ela não se encontrasse com ninguém que lhe desse a notícia. Natália, tão melindrosa, se recebesse a notícia, sofreria um ataque cardíaco fulminante. Desejou que ela chegasse em casa, e logo, antes que alguém lhe perguntasse: “Que horas será o enterro de seu falecido pai?”, ou, então: “O traslado do corpo de seu pai começará no velório, ou na casa dele?”, ou: “Quero dar ao seu falecido pai os meus votos de despedidas. Ele será velado onde? Na casa dele, ou no velório?”, ou, então, lhe fizesse comentários sobre a honra e a nobreza de caráter de Cirilo, lhe dissesse que ele era um homem generoso, trabalhador, um dos raros homens confiáveis que havia no mundo, e que não se forjam homens de tal têmpera nos fornos modernos, dos quais só saem molengas, que não enfrentam sol a pino e adoecem ao primeiro golpe de vento, jamais empunham a enxada para carpir a terra, não sabem preparar a refeição que comem e não têm pulso firme para educar os filhos.

Com os pés, Alfredo empurrou Esfinge, que se deteve e fitou-o com seus olhos enigmáticos.

– Bandido… – sussurrou Alfredo; a voz travou-se-lhe no esôfago. – Por onde você andou? Você foi à farra, malandro? – ato contínuo, levantou-se do sofá. Esfinge o seguiu. Foram até onde encontrava-se a vasilha de Esfinge. Alfredo pegou do saco de ração, abriu-o, despejou uma boa quantidade de ração na vasilha. Esfinge curvou-se sobre a vasilha, e pôs-se a comer da ração, enquanto Alfredo pegou da vasilha com água, despejou a água num canteiro de samambaias, foi à torneira, abriu-a, encheu a vasilha com água, fechou a torneira, e carregou a vasilha até Esfinge, deixando-a ao lado da vasilha com ração. Executou mecanicamente essas tarefas. Pensava em Natália. Como dar-lhe-ia a notícia do falecimento do pai dela? Em sua mente, vórtices devastadores de pensamentos entrechocavam-se a ponto de petrificá-lo. Pensou o que sucederia à Natália se lhe dissesse: “Natália, seu pai morreu”, assim, de supetão. Seria o mesmo que matá-la, concluiu. Se desejasse matá-la, dar-lhe-ia desse modo a notícia. Mas não desejava matá-la. Perguntou-se se não estava sendo insensível ao pensar, exclusivamente, em Natália, e em ignorar Cirilo, que faleceu. Concluiu, para o seu conforto, mas tal pensamento não o agradava, que tinha de se preocupar, não com os mortos, mas com os vivos: Natália, sua esposa; Denise e Fabiana, suas filhas; e Gustavo, seu filho. Denise, Fabiana e Gustavo chorariam ao ouvirem a notícia. Fabiana seria quem mais sofreria (dos três era a mais apegada ao avô, com quem apreciava manter intermináveis colóquios sobre literatura e filosofia e a quem acompanhava às tertúlias promovidas por academias). Denise talvez não sofresse, pois nunca foi muito próxima do avô, mas por ele nutria respeito e carinho. Alfredo pensou nas duas filhas e no filho, mas concentrou os seus pensamentos em Natália. Denise, Fabiana e Gustavo suportariam o impacto da triste notícia. Eram jovens, saudáveis, fortes, mas Natália, não. Ela sofria de diabetes, tinha enxaquecas, passara por um período de dois anos de depressão profunda, e implantara um marcapasso dois anos antes. Não era uma mulher na plenitude da sua saúde. Era uma mulher que requeria cuidados, melindrosa. Alfredo não sabia como lhe daria a triste notícia. Pensou em pedir para outra pessoa transmitir-lha. Abandonou esta idéia ao concluir que ele, Alfredo, marido de Natália, é quem teria de dar-lha. Mas como o faria? Como lhe daria a notícia do falecimento do querido pai? Não poderia lhe dizer: “Querida, seu pai morreu”. Era o mesmo que assinar o atestado de óbito dela, o que ele não desejava. “Que outro o assine”, pensou, e sorriu, e meneou a cabeça, para expulsar de sua mente pensamento tão reprovável. Como daria para Natália a notícia do falecimento do pai dela? Desdobrou-se, para encontrar uma resposta. Teria de encontrá-la antes que Natália regressasse. “Eu, assim que Natália chegar – pensava Alfredo consigo, andando pela varanda e entrando e saindo da sala -, a saudarei como o faço todos os dias. Ela, é certo, me pedirá que eu tire do carro as compras. Atenderei ao pedido. Assim que ela entrar no quarto para vestir roupas mais leves, como, é certo, ela irá fazer, pois está um calor de rachar os miolos hoje, entrarei no quarto, e lhe direi para sentar-se na cama, e lhe darei a notícia. Primeiro, lhe direi que não fui, com o Roberto, para Taubaté porque, minutos antes, Vanessa esteve aqui em casa, para lhe dar a ela, Natália, uma notícia importante. Assim, sem ir direto ao assunto, reticente, manterei Natália em suspenso, e despertarei a sua curiosidade. Farei uma pausa, expressarei um ar compungido, fitá-la-ei bem fundo nos olhos… Não dará certo. Ao olhar para mim, ela saberá que lhe darei uma péssima notícia. Ela desconfiará… Terei de dar-lhe a notícia. Então, no quarto, sentados, na cama, de frente um para o outro… Tem de ser no quarto? Sim. É o local mais apropriado. Darei a notícia para a Natália. Começarei assim: ‘Natália, não fui, com o Roberto, para Taubaté. Um pequeno imprevisto…’ Pequeno imprevisto!? Que tolice é esta que me vem à cabeça!? Falta-me um parafuso na cabeça. O pai da minha esposa morre, e eu digo que isso é um pequeno imprevisto! A Natália, se eu lhe disser isso, terá um ótimo motivo para pedir o divórcio. Que sensibilidade! Além disso, por que eu usaria de um tom formal? Não transmitirei uma mensagem para um estranho. Eu irei falar para a minha esposa, mãe de meu filho e minhas filhas, da morte do pai dela. E farei, assim, sem lhe expressar, ao transmitir-lhe a notícia, os meus sentimentos… O que sou? Uma máquina? Um robô? Um andróide? Um replicante? Um sintético? Até os sintéticos têm sentimentos. Sou um homem, triste, agora, com o falecimento do Cirilo, meu sogro, que, desde o instante em que o conheci, foi generoso e respeitoso comigo. Ele foi para mim meu pai… Após o falecimento de meu… Não tenho de ocultar a minha tristeza… Não tenho de esconder da Natália os meus sentimentos… Não tenho de ocultar-lhos. Estou certo que Natália, ao chegar, assim que olhar para mim, perguntar-me-á: ‘O que houve, Alfredo? Por que você está triste?’. Ela possui o sexto sentido. E o sétimo e o oitavo. Não poderei lhe ocultar a minha tristeza. Não me desgastarei tentando exibir-lhe um rosto inexpressivo. É certo que eu, ao olhá-la nos olhos, traga lágrimas aos meus olhos. Melhor, é certo que as lágrimas me venham aos olhos sem que eu as chame, e que meus lábios tremam. Não conseguirei controlar-me. Irei segurar as mãos da Natália, abaixarei a cabeça, me curvarei, e chorarei, o rosto sobre seu colo, convulsivamente. Talvez Natália, ao me ver tão triste, sofrendo tanto, condoa-se de mim, e abrace-me, e, assim que eu lhe der a notícia do falecimento de seu pai, envolva-me com um abraço caloroso, estreite-me a si, e chore. Talvez isso se dê. Estou, aqui, a pensar, preocupado, em tudo isso, certo de que saberei como agir; o mais certo, no entanto, é que os eventos se sucedam, e surpreendam-me. Talvez venha a se suceder o que agora não me passa pela cabeça. A Natália, ao ouvir a notícia, talvez não se perturbe; talvez a receba com serenidade e resignação, afinal Cirilo sofreu muito nos últimos anos, e os remédios, conquanto o conservassem lúcido e animado, como ele se mostrou ontem à noite, fizeram-no sofrer imensamente, embora ele não deixasse que o sofrimento que o afligia lhe transparecesse na fisionomia, que ele conservava animada, como se vivesse no melhor dos mundos possíveis. O testemunho de Maria José me foi revelador: Cirilo sofria muito. Os seus momentos de alegria foram interlúdios entre dois momentos de sofrimento indescritível. E ele os passava com Fabiana e Henrique. Os três adoram livros de literatura e de política; as animadas conversas faziam bem a Cirilo. E ele sofria muito. Talvez Natália se resigne. Talvez ela acolha a notícia e não sofra tanto quanto imagino que ela sofrerá. Talvez o impacto da notícia não seja tão devastador quanto eu o esteja concebendo. Mas, e depois? E depois? A Natália poderá, calada, ouvir-me dar-lhe a notícia, mas, e depois? A Natália me dará a entender que estará bem, não necessitará de maiores cuidados… Mas, e depois?”.

O soar da campainha interrompeu-lhe o fluxo dos pensamentos. Foi à porta. Abriu-a. Era um funcionário dos correios, que lhe entregou uma encomenda feita por Natália uma semana antes, uma caneta e um papel, no qual, num espaço reservado com indicação do nome de Natália e do seu endereço, Alfredo assinou, e escreveu o número do seu RG e o do seu CPF. Assim que os escreveu, entregou o papel e a caneta ao funcionário dos correios, despediu-se dele, desejando-lhe um bom dia de trabalho e um ótimo final de semana, e recolheu-se à casa, com a caixa, a qual deixou sobre a mesa da sala-de-estar. Ato contínuo, foi à cozinha, pegou de um copo de vidro transparente, levou-o ao filtro, encheu-o de água, bebeu da água, e deixou o copo na pia. Retirou-se da cozinha, e foi ao quarto. Sentou-se na cama. O telefone soou. Atendeu-o. Era Maria José, sua sogra. Ela lhe falou do falecimento do marido. Alfredo ouviu-a, atentamente; não lhe disse que Vanessa já lhe dera a triste notícia. Quis consolá-la, mas se convenceu, ao ouvi-la, que ela, mais do que ele, suportava a triste notícia com coragem, e era ele, e não ela, que precisava ser consolado. No tom de voz dela misturavam-se resignação e sofrimento; ela disse que havia sido feita a vontade de Deus, e que Cirilo descansaria, após muitos anos de sofrimento decorrente da doença que o acometera, e que o prostrara, na cama, durante cinco longos anos, e que o privara dos prazeres da vida. Lágrimas abundantes encheram as órbitas dos olhos de Alfredo. Maria José perguntou-lhe de Natália. Alfredo disse que ela fora ao supermercado, à feira e à farmácia. Maria José aconselhou-o a dar-lhe a notícia com cautela, para não feri-la, pois Natália era muito melindrosa; em seguida, disse-lhe que teria de desligar o telefone porque Carlos Roberto, seu irmão, a chamava. Despediram-se, e desligaram o telefone.

Sentado na cama, Alfredo pensava no que diria para Natália. Não poderia abordá-la com circunlóquios, pois, sabia, se o fizesse, despertar-lhe-ia os sentidos, indefiníveis, que ela possuía, tão agudos, tão potentes, que, de imediato, antes de ele dar-lhe a notícia, ela chegaria, ou pelo instinto, ou pela intuição, ou pela razão, ao fitá-lo, à explicação correta para a atitude dele.

Alfredo não poderia lhe dar a notícia de supetão; também não poderia abordá-la com floreios oratórios para transportar-lhe o espírito para uma região serena e tranquila, para, depois, vir com a triste notícia.

Não sabia como teria de proceder. Consultou o relógio. Eram onze e meia. Natália regressaria dali poucos minutos, pois ela ainda teria de preparar o almoço. Alfredo ficou apreensivo. Levantou-se da cama. Retirou-se do quarto. Pensou ter ouvido o barulho do portão sendo fechado. Acelerou os passos. Foi à varanda. Não viu Natália. Concluiu que o portão da casa dos vizinhos da direita, Vinicius e Úrsula, fôra fechado. Passeou as mãos pelo rosto. Um bem-te-vi distraiu-o. Pássaros, ao longe, digladiando-se em pleno vôo, prendeu-lhe a atenção durante um bom tempo. Um pássaro pequeno e um pássaro grande com o triplo do tamanho do pássaro pequeno. Pareceram a Alfredo um pardal e um sabiá-laranjeira, mas ele não estava certo disso. Talvez não fosse um pardal, mas uma noivinha, ou um colibri de penas de cores foscas, e o outro pássaro talvez fosse um bem-te-vi. Não soube dizer quais eram as espécies dos dois pássaros. Não se prendeu à essa questão. Logo mergulhou nos seus pensamentos. O que diria para Natália, que chegaria à casa antes do meio-dia? Enfiou as mãos no bolso da calça. Pensativo, andou de um lado para o outro do jardim e da varanda. Latidos de Thor e Aquiles chegaram-lhe aos ouvidos, numa série que lhe indicava que eles avançavam contra alguma pessoa ou contra algum animal. Alfredo sabia quando os cães latiam para estranhos, fossem pessoas, fossem animais. A entonação dos latidos assumia características singulares. Foi ao quintal. Não havia se aproximado do canil quando obteve a explicação para as detonações dos latidos de Aquiles e Thor. Sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia havia um homem, que mexia na antena. Alfredo não se deteve. Aproximou-se dos cães, que diminuíram a ênfase dos latidos à sua presença.

– Cachorros bravos, hein? – comentou o homem sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia; era ele magro, esquelético, de barba rapada, baixo (um metro e sessenta, se muito), e na altura dos cinquenta anos. – Eles não gostaram de mim.

Aquiles e Thor conservaram-se vigilantes.

– São dois machos? – perguntou o homem sobre o telhado, referindo-se a Aquiles e Thor. – Um pastor alemão e um pastor belga?

– São – respondeu Alfredo. – São dois machos. Um belga e um alemão. Como você pode ver, eles estão com fome.

– Não quero me servir de almoço para eles – e sorriu o homem sobre o telhado, enquanto mexia, com um alicate, no cano de sustentação da antena. – Ferozes, os dois. Treinou-os?

– Sim. Em uma escola para cães.

– Essas duas feras impõem respeito.

– Não há dúvidas.

– Esses dois cães de guarda mantêm os ladrões afastados. Há muitos ladrões na cidade. Ontem, perto da minha casa, dois ladrões… Dois ou três, ninguém sabe… Entraram na casa do Juliano, à noite… Não eram nem dez horas da noite… Entraram na casa e a depenaram. Carregaram o computador, o dvd, o rádio e a televisão. Um computador, sabe?, que parece uma pasta. Não sei como se diz. Ora, um ladrão, sozinho, não poderia fazer o serviço. Foram dois, ou três. E o engraçado: Ninguém, na vizinhança, os viu. Foram sorrateiros, os filhos-da-polícia. Entraram e saíram da casa do Juliano, e ninguém os viu.

– Eles sabiam que não haveria ninguém na casa, na hora do roubo.

– Foi o que eu disse para o Juliano. Não foram ladrões-de-galinha que assaltaram a casa dele. As portas e as janelas não foram arrombadas. Como os ladrões entraram na casa? Teletransportaram-se para dentro dela? E como eles saíram da casa? Teletransportaram-se para fora dela? A Carlinha, minha irmã, disse que os ladrões entraram na casa do Juliano pela casa da Guiomar, que dá fundos para a casa do Juliano. Mas a Guiomar disse que, à noite, naquele dia, ela, o Lindomar, marido dela, e o Neymar, filho dela com Reinaldo, o seu primeiro marido, que faleceu em um acidente de carro há dez anos, estavam, no quintal, arrumando as quinquilharia. Ferros-velhos, papéis, papelões, os quais iriam vender, no ferro-velho, hoje. Ninguém além deles estava naquela casa. E a Guiomar, mulher honesta, decente, trabalhadora, jamais mentiria. Todos os do bairro gostamos dela. A Guiomar é uma cozinheira de mão cheia, mulher forte, vigorosa, sabe? Ela não é gorda; é forte; um mulherão. Ela é baixa, tem um metro e cinquenta; e de um vozeirão que impõe respeito e mete medo até no Papa, que Deus o guarde. Quem manda, na casa dela, é ela, não o Lindomar, homem trabalhador e decente, pau para toda obra. A Guiomar, o Neymar e o Lindomar não ouviram sequer um ruído na casa do Juliano. A Luciana, minha vizinha, disse que os ladrões conhecem o Juliano. São, ela acha, amigos dele.

– Uma hipótese que não se pode descartar.

– O Juliano não a descartou.

– Ele chamou a polícia?

– Não. Não telefonou para a delegacia. Ele jamais iria telefonar para a polícia. Um passarinho contou-me que o Juliano trafica maconha. Não sei se é verdade. Eu nunca o vi fumando um cigarro. Nunca me haviam dito que ele traficava maconha. Depois que assaltaram a casa dele, começaram a espalhar esta história. Por que ele não telefonou para a polícia? Muitas pessoas procuraram uma resposta para esta pergunta. Por que o Juliano não chamou a polícia? A melhor resposta que encontraram: ele não quer os policiais dentro da casa dele porque eles, ao procurarem por evidências que os levem aos ladrões, poderiam encontrar a maconha que ele tem escondida em algum lugar da casa, muito bem escondida, mas não tão bem escondida que os policiais, à procura de evidências que os levem aos ladrões, não possam encontrar. Muita gente está contando esta história pelo bairro. Como não sei se isso é verdade, ou não, calo-me a respeito. Não quero levantar falso testemunho. Aprendi a manter a língua dentro da boca. O padre Carlos, dia destes, disse-me que um dos dez sacramentos, não sei se o quinto, se o oitavo, nos ensina a não levantarmos falso testemunho. É um dos sacramentos que Deus riscou, no monte das Oliveiras, em uma das duas tábuas que Ele entregou para Moisés. Essa história está na Bíblia, numa das primeiras páginas do Novo Testamento, que é a segunda parte da Bíblia, e foi escrito depois do Velho Testamento. E um advogado, Luciano, amigo meu, disse-me, certa vez, que ao acusador cabe o ônus da prova, e que todas as pessoas são inocentes até prova em contrário, excluindo-se, obviamente, os nossos inimigos, pois todos eles nasceram culpados.

A tagarelice do homem que estava sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia distraiu Alfredo, que, enquanto o ouvia, sorria consigo diante dos equívocos nos quais ele incorria, os quais não foram poucos. Menos de vinte minutos depois, o homem, enquanto descia do telhado, despediu-se de Alfredo, que iria à cozinha, mas deteve-se à porta ao ouvir barulho na varanda. “Natália”, pensou. Seu coração vibrou, acelerado. Imóvel, procurou controlar os seus pensamentos e conservar consigo o governo do corpo. Respirou fundo. Expeliu todo o ar dos pulmões. Andou, lentamente, controlando os passos e a respiração, até a varanda. Deteve-se ao batente da porta que dava acesso do corredor à varanda. Entreviu Natália, atrás do carro, cujo bagaceiro estava com a porta levantada.

– Querida – disse, e andou na direção dela, e dela ouviu:

– Fredo, ajude-me com as compras.

– Nossa! Quanta coisa você comprou – exclamou Alfredo, ao se deparar com o bagageiro cheio.

– No banco há mais – disse Natália, sorrindo; ao voltar-se para Alfredo, fitou-o nos olhos. – Você esqueceu que dia será amanhã? Você está ficando velho. Comprei tudo isto para a festa de aniversário de papai. Amanhã ele fará oitenta anos.

Alfredo havia se esquecido.

– Comprarei para você um quilo de cérebro de elefante, Fredo. Agora, ajude-me com esses pacotes – e, carregando duas sacolas, uma em cada mão, afastou-se do carro. – Vou tirar estes sapatos, que estão moendo meus pés, triturando meus ossos, e, depois, vou para a cozinha preparar o almoço. Já é meio-dia. Como as horas passaram rápido, hoje – e retirou-se da varanda.

Alfredo ficou imóvel atrás do carro. Coçou o queixo. Passeou as mãos pelo rosto. Encheu os pulmões de ar – com as mãos aos quadris -, e os esvaziou. Lágrimas vieram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras e abaixou a cabeça. Removeu das órbitas dos olhos as lágrimas. Atormentava-o a ausência de uma resposta para a pergunta que se fazia: “Como vou contar para ela?” – referia-se à Natália e à morte de Cirilo. Conservou-se imóvel, atrás do carro, durante um bom tempo, até que resolveu retirar as sacolas e os pacotes do bagageiro do carro. Deteve-se, na primeira vez que entrou na sala-de-estar, e deixou pacotes e sacolas sobre a mesa. Mais uma vez, lágrimas vieram-lhe aos olhos. Alfredo removeu-as. Curvou-se sobre o encosto de uma das seis cadeiras que ladeavam a mesa, e nele pousou os cotovelos. Cerrou as pálpebras. Cobriu os olhos com as mãos, e pensou: “Como contarei para a Natália?”, referindo-se à morte de Cirilo. “Direi ‘Natália, seu pai morreu’? Não! O que desejo? Desejo a morte da minha esposa? Direi ‘A Vanessa disse-me que seu pai, Natália, morreu’? Diabos! Como eu lhe falarei da morte do Cirilo? Direi ‘Querida, hoje, não fui para Taubaté com o Roberto porque, minutos antes, atendi à campainha. Era a Vanessa, sua prima, que a tocara. Ela me disse, Natália, que seu pai morreu’? No que estou pensando? Não importa o que eu diga, a notícia cairá como uma bomba. Não saberei com quais palavras dar a notícia para a Natália. Cairei aos prantos. Talvez eu não caia aos prantos. Talvez as lágrimas se me sequem, não me venham aos olhos, e eu perca a voz, e eu fique paralisado. Talvez eu perca a consciência, e, parado, comporte-me como um tolo diante da Natália, que me perguntará: ‘O que houve, Alfredo? Você quer me dizer alguma coisa?’, e eu perderei a voz, e faltar-me-ão as palavras. ‘Querida – eu direi – sente-se, por favor. Hoje, a Vanessa, sua prima, esteve aqui, e, depois, o Roberto, e há uma hora, mais ou menos, sua mãe telefonou-me. Os três disseram-me que seu pai, de madrugada, enquanto dormia, faleceu’. Como a Natália reagirá à notícia? Seria como lhe cravar uma faca no peito, e empurrá-la até transpassar-lhe o coração. Terei de lançar mão de outro expediente. Como eu lhe darei à notícia? Eu lhe direi: ‘Querida, sente-se, por favor – se ela não estiver sentada. – Quero conversar com você. Sua mãe telefonou-me há uma hora e meia, e disse-me que seu pai morreu, na noite de hoje, e…’. Não. A Natália… Oh! Inferno! Como direi à Natália?”. Neste momento recompôs-se, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, tirou um lenço do bolso esquerdo traseiro da calça, e com ele enxugou os olhos, suspirou, e andou, pelo corredor, em direção ao quarto. Deteve-se ao enquadramento da porta. Dentro do quarto, Natália, sentada na cama, retirava da orelha esquerda o brinco. Alfredo restituiu o lenço ao bolso da calça, encheu os pulmões de ar, e os esvaziou, lentamente. Com os ânimos serenos – assim ele acreditava -, entrou no quarto. Natália voltou-lhe a atenção, enquanto curvava, ligeiramente, a cabeça para a direita e removia da orelha direita o brinco, o qual guardou num porta-jóias, enquanto Alfredo sentava-se à cama.

– O que aconteceu, Alfredo? – perguntou-lhe Natália. – Você está com um olhar estranho.

Assim que Natália abaixou a tampa do porta-jóias, Alfredo, em silêncio, estendeu-lhe as mãos, com as palmas para cima, pedindo-lhe as mãos. Natália pousou sobre as mãos dele suas mãos, intrigada e expectante. Seu olhar penetrava, profundamente, os olhos de Alfredo, como se lhe sondasse a alma, como se lhe esquadrinhasse o espírito à procura de uma resposta para o estranho comportamento dele. Natália intuiu que algo de triste se sucedera, mas não atinava com as razões do olhar alheado de Alfredo. Aguçou o olhar. Ativou todos os seus neurônios à procura de uma resposta.

Alfredo quebrou o silêncio:

– Natália, não fui, hoje, para Taubaté…

Natália franziu o cenho, fez ar de quem nada compreendia. Não viu correspondência entre a atitude e as palavras de Alfredo. Algo de estranho, pensou, sucedia-se. Não havia sentido, intuiu, Alfredo fazer ar de mistério, fisionomia sofrida, manter o silêncio e dar-lhe tal notícia.

– É só isso o que você quer me dizer, Alfredo?

– Não. Não, Natália. Sua mãe telefonou, há uma hora, mais ou menos.

– O que ela queria?

– Ela queria falar com você.

– A respeito de quê?

Alfredo não deu uma resposta. Natália conservou-se calada. Esperou que ele lhe dissesse o que desejava lhe dizer.

Alfredo, enfim, após alguns minutos de silêncio opressivo, disse, com voz entrecortada:

– Natália… Querida, meu sogro morreu.

 

A travessia

Era uma segunda-feira do mês de fevereiro. E na loja de materiais de construções Moreira & Moreira, José Luiz desincumbiu-se das suas tarefas não sem dificuldades; para o exercício de algumas delas não pôde dispensar o auxílio de outros funcionários.

Não foi um dia de trabalho muito proveitoso. O proprietário da loja, Roberto Moreira, nervoso – raros, nele, o nervosismo e, dizia José Luiz, a brabeza -, distribuiu broncas para todos os funcionários. Muitos dentre eles desejavam que ele os esquecesse, ou que deles não se lembrasse, mas ele conhecia-os todos, chamava-os pelos nomes, e sabia qual era a função de cada um deles. Os funcionários perguntavam-se a razão do nervosismo, da braveza, da rudeza no trato, da sequidão da voz, que não admitia réplicas, do olhar compenetrado, da fisionomia carregada, rígida, pétrea, de Roberto Moreira. Aventaram inúmeras hipóteses; algumas, sérias; outras, jocosas; raras as maledicentes – estas as aventaram os desafetos de Roberto Moreira, os que o detestavam. José Luiz, que conhecia Marcelo, um dos filhos de Roberto Moreira, soubera, contou-lhe Marcelo, que, no domingo, Cláudia, tia dele, irmã de Roberto, fora atropelada, e essa seria, estava certo, declarou José Luiz, a razão da brabeza do chefe, como a Roberto Moreira referiam-se os funcionários da Moreira & Moreira. Discordou Amauri, que, conhecedor da história do atropelamento de Cláudia, disse que ela passava bem, dissera-lhe Vinicius, marido dela. A razão da postura taciturna e carrancuda de Roberto Moreira e da sua rudeza no trato devia-se, portanto, a outro motivo, que não o aventado por José Luiz.

O trabalho, desgastante. Foi um dia incomum. José Luiz não se recordava de, em outro dia, desde que começou a trabalhar naquela loja, um ano e sete meses antes, haver tantos clientes a comprar materiais de construções. Desdobrou-se para executar todas as tarefas para as quais o encarregavam. Desgastou-se de manhã, durante quatro horas ininterruptas de trabalho, sob sol inclemente – atenuou o desgaste com um copo de água a cada hora. No momento em que cessou o seu trabalho, para almoçar de uma marmita e de um copo de refrigerante que a loja forneceu-lhe, suava, em bicas, a camisa encharcada de suor. Ele dela despiu-se, e abandonou-a sobre os tijolos, para secá-la. A marmita continha uma boa porção de arroz e feijão, bife e batatas, verduras e legumes. Era um almoço reforçado. Encerrado o almoço, José Luiz deitou-se sob um caminhão, e puxou uma palha durante vinte minutos – a soneca foi-lhe salutar. Levantou-se. À pia próxima do monte de areia lavou o rosto, para despertar de vez; vestiu a camisa, e tornou ao batente.

No período da tarde, o trabalho foi mais estafante do que no período da manhã. O sol exauriu-lhe as forças. Se José Luiz não fosse dotado de vontade férrea, músculos resistentes e organismo apropriado para as tarefas que lhe exigia Roberto Moreira, sucumbiria ao esforço. Desempenhava as suas incumbências com desenvoltura; ao final de um dia de expediente a carregar tijolos, vigas, telhas, areia, pedras, sem cessar, ia para a sua casa, banhava-se, degustava de alguns minutos na companhia de Camila, sua esposa, grávida de seis meses, e Paulo Renato, seu filho, menino de dois anos, que, diziam os familiares e os amigos, tinha a cara da mãe e o focinho do pai; e antes das dezenove horas, rumava para a Escola Técnica Nikola Tesla, para assistir às aulas do curso de eletroeletrônica; e regressava à sua casa as onze horas e trinta minutos da noite. E acordava, na manhã seguinte, as cinco horas.

Naquela segunda-feira de fevereiro, José Luiz desgastou-se além do habitual, e, uma hora antes de encerrado o expediente, acreditava, não conseguiria prosseguir com o trabalho até dali uma hora, ao crepúsculo, às dezoito horas, mas agüentou o tranco, disse, assim que se retirou da loja, exausto, mas em pé, e disposto a enfrentar quatro horas de aula, na Escola Técnica Nikola Tesla. Despediu-se dos seus colegas de trabalho. Na companhia de Gustavo, o Gordo, de Maurício, o Pernambuco, de Nelson, o Lagarto, e de Daniel, o Dejota, foi até o cruzamento das ruas José de Anchieta e Dom João VI, onde deles despediu-se, e seguiu, só, rumo à sua casa, distante da loja três quilômetros. Intensificava-se o trânsito. Veículos iam e veículos vinham, rápidos, apressados os motoristas, ou José Luiz tinha a sensação de que todos eles estavam apressados, e também os ciclistas, e os pedestres, menos ele, que seguia no ritmo habitual. E um caminhão a descarregar fumaça apretejada obrigou José Luiz a tampar o nariz com os dedos indicador e polegar da mão esquerda, prender a respiração, cerrar as pálpebras, e mover a cabeça para o lado oposto ao pelo qual passou o caminhão. Em pensamento praguejou José Luiz, e desacelerou os passos. Segundos depois, recomposto, retomou o seu passo na velocidade que lhe era habitual, para, logo em seguida, cobrir os olhos com a mão esquerda em pala, protegendo-os do reflexo dos raios solares, que lhos feriam, no vidro posterior de um carro estacionado poucos metros à sua frente. Ao passar pelo carro, abaixou o braço. Contornou a esquina à direita, e seguiu por cem metros; deteve-se em frente da casa lotérica, e preparou-se, sobre a calçada, parado, a olhar de um lado para o outro, aguardando os carros passarem, para atravessar a rua. Era a hora do rush. Passou um carro. E outro carro. E uma caminhonete. E outro carro. E uma moto. E outra moto. E um caminhão. E um carro. E outro carro. Todos iam no sentido bairro-centro – enquanto, na pista contrária nenhum veículo passava. Assim que viu que na faixa sentido bairro-centro apenas um veículo, um carro, aproximava-se, José Luiz pôs o pé esquerdo na rua, e logo da rua o retirou assim que viu uma fileira de carros se lhe aproximando no sentido centro-bairro, em velocidade considerável – setenta quilômetros por hora, mensurou José Luiz. Um carro passou por ele. Vermelho. E outro carro passou por ele. Prateado. E outro carro prateado. E outro carro prateado. E passou por ele uma caminhonete. E outra caminhonete. E três motos – a primeira, preta; a segunda, azul; e verde, a terceira. E outro carro. Alaranjado. E aproximaram-se dele duas motos, ambas pretas, e atrás delas nenhum veículo. José Luiz desceu o pé esquerdo na rua, e olhou para à sua esquerda, para a faixa sentido bairro-centro, e viu próximo de si, e deslocando-se rapidamente, uma fileira de veículos, e recuou o pé esquerdo, e afastou-se do paralelepípedo à aproximação de um caminhão branco, imenso, que, pareceu-lhe, iria engoli-lo. O caminhão passou por ele, e seguiam-no, como que atraídos pela sua força gravitacional, dezenas de veículos, entre carros e motos. E agora as duas faixas da rua estavam tomadas por veículos. E José Luiz resmungou, e esbravejou, discretamente. Pressionou as mandíbulas uma contra a outra, e cerrou o punho esquerdo, dobrando o cotovelo, como que ameaçando esmurrar alguém, e executou gestos involuntários que dele revelavam a irritação. Olhou de um lado para o outro. E viu carros e mais carros, caminhões e mais caminhões. E ônibus. E caminhonetes, e mais caminhonetes. E motos, muitas motos. E um tanque-de-guerra, que rumava, acreditava José Luiz, do Batalhão Borba Gato para o Batalhão de Engenharia e Combate. E a terra tremeu-lhe sob os pés à passagem do encouraçado, um rinoceronte de metal, como aos tanques-de-guerra referiam-se José Luiz e os soldados que com ele conviveram durante um ano de serviço militar – conquanto a conscrição fosse obrigatória, José Luis e muitos outros recrutas alistaram-se por vontade própria, no desejo, sincero, de prestar uma contribuição ao Brasil, e sacrificar-se pelo país, se necessário.

Há mais de cinco minutos parado na calçada, José Luiz, preparado para atravessar a rua, sempre que nela punha um pé, certo de que poderia atravessá-la, veículos aproximavam-se dele, em alta velocidade, e até bicicletas, de todas as direções, impedindo-o de atravessá-la, irritando-o. Cerrava os punhos, tensionava todos os músculos do corpo, abria os braços num gesto de impaciência. Em certo momento, os veículos como que havendo desaparecidos por encanto, preparou-se José Luiz para atravessar a rua; desceu o pé esquerdo na rua; e ao pôr, nela, o pé direito, ouviu uma buzina, e recuou. Era a buzina de uma cadeira-de-rodas motorizada. Pilotava-a Tião Pé-de-Cabra, encastelado no assento de couro, e um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça achatada, e cujas sobrancelhas – de coruja, diziam – de tão espessas podiam ser entrevistas a um quilômetro de distância.

– Tarde, seu menino – Tião Pé-de-Cabra saudou José Luiz. – Mande um abraço meu para o senhor vosso pai, o velho Moreno, e acenda uma vela pela alma de vosso avô, o velho Marcondes – e seguiu o seu caminho, sem se deter.

José Luiz acenou-lhe, e prometeu-lhe dar o recado para o destinatário dele e acender a vela.

E sorriu José Luiz, atenuada a sua irritação, e relaxados seus músculos. E abanou a cabeça. E olhou de um lado para o outro. Carros, motos, caminhonetes, caminhões e ônibus passavam, em ambos os sentidos da rua. Mordeu José Luiz a língua, para não amaldiçoar Tião Pé-de-Cabra.

José Luiz, pouco tempo depois, certo de que nenhum carro aproximava-se de si, olhou para a direita, e, ao pôr o pé esquerdo na rua, viu, para a sua surpresa, um carro, em alta velocidade, indo em sua direção, e recuou, para a calçada, abrindo os braços, as mãos espalmadas, e as bateu nas coxas, com força, ao mesmo tempo que proferiu uma obscenidade. Contrariado, esperou o carro passar, após o qual passaram duas motos e um ônibus. Quando da sua direita nenhum carro ia em sua direção, olhou para a esquerda, pôs um dos pés na rua, preparou-se para atravessá-la, e recuou ao ver um carro a aproximar-se de si.

Impacientava-se José Luiz. Levantava os braços, irritado, todas as vezes que lhe frustravam a tentativa de atravessar a rua. Irritava-se. Executava movimentos bruscos com os braços, e, as mãos espalmadas, batia-as, enraivecido, nas coxas. E evocava a figura inconfundível de Tião Pé-de-Cabra e a sua cadeira-de-rodas, e o amaldiçoava. Antes não tivesse recuado à calçada quando ele buzinou. Parecia-lhe a ele, José Luiz, que, transcorrendo o tempo, mais difícil tornava-se atravessar a rua. Da direita e da esquerda iam os veículos, dezenas deles. Não havia intervalo de tempo entre dois veículos que lhe permitisse atravessar a rua. José Luiz punha um pé, ou os dois pés, na rua, certo de que poderia atravessá-la, e recuava, logo em seguida, ao ouvir o soar de uma buzina, ou um grito, e tornava à calçada, irritado, contrariado.

E passavam-se os minutos. E José Luiz consultava o relógio no mostrador do telefone celular. E praguejava. Se não atravessasse, e logo, a rua, se atrasaria para as aulas do curso de eletroeletrônica.

Sob o sol, que já ia se pondo, José Luiz viu, há cinquenta metros de distância, na mesma calçada, da sua direita, indo em sua direção, um homem, que – José Luiz concluiu ao atentar para os gestos e os passos dele, vacilantes – estava bêbado. O homem, tipo acaboclado, baixo, troncudo, barrigudo, as pálpebras semi-cerradas, de roupas amarfanhadas, imundas, cabelos desgrenhados, barba por fazer, olhos avermelhados, fundos, órbitas dos olhos apretejadas, pés embrulhados em sapatos surrados – o esquerdo com uma falha que lhe deixava expostos três dedos -, a coçar, incessantemente, a cabeça, andava trançando as pernas e arrastando-se pelas paredes, e ora detinha-se, perdido, a olhar de um lado para o outro, e para o céu, e para o chão à sua frente, e quase ia ao chão; para surpresa de todas as pessoas que assistiam a espetáculo tão deplorável, antecipando, em pensamento, a queda do ébrio, e preparando a gargalhada, que explodiria tão logo ele desse com o nariz no chão, ele não caia, indo contra todas as leis da natureza; conservou-se ele, contra todos os prognósticos, em pé, tão firme quanto um prego fincado na areia – incrédulos, os curiosos não acreditavam que ele conseguia em pé manter-se por muito tempo. E ele não caia, para frustração daqueles que o acompanhavam com os olhos. Ele perdia o equilíbrio, mas não caia. Tinha-se a impressão de que ele cairia, mas ele não caía; ora ele encostava-se à parede de alguma casa, para manter-se em pé; ora ele detinha-se, e, não se sabe como, dava um passo, ou para a frente, ou para trás, ou para a direita, ou para a esquerda, e conservava-se em pé. O seu estado, deplorável. José Luiz lamentava-o. O bêbado ia em direção de José Luiz. Resmungou qualquer coisa ao perder o equilíbrio, e bater com a cabeça na parede. No outro lado da rua, dois garotos, ambos de bicicleta, cada um deles em uma bicicleta, gritaram-lhe, provocando-o. Conheciam-no. E ele esbravejou. Proferiu maldições e obscenidades de ruborizar até o diabo. Incompreensível o que ele disse assim que abaixou o tom de voz. Engrolava as palavras. José Luiz dividia a sua atenção entre o trânsito e o bêbado, esperando que ele de si não se aproximasse. José Luiz detestava bêbados. Os bêbados irritavam-no; havia um alcoólatra na sua família, seu tio, Mauro, irmão de seu pai. Mauro, sóbrio, era gentil, amigável, bem-humorado, espirituoso, cativante; ébrio, era indiscreto, inconveniente, inconsequente, e dele José Luiz não se aproximava; evitava-o; dele fugia como o diabo foge da cruz.

O bêbado não foi até José Luiz, como que lhe atendendo as preces. Deteve-se, de repente, próximo do paralelepípedo, para alívio de José Luiz, a trinta metros de distância dele, e com gestos de mãos caóticos, alheio à realidade, acenou para os motoristas dos veículos que passavam pela rua, e na rua desceu, quase vindo a cair – para surpresa de todos, conservou-se em pé -, e, passo após passo, empreendia a travessia da rua. José Luiz anteviu o atropelamento. Algum veículo atropelaria o bêbado. Para a surpresa de José Luiz, os carros, as motos, os caminhões, as caminhonetes, os ônibus, ou paravam, e deixavam o bêbado passar, ou desviavam-se dele. E ele, com passos incertos, indo e vindo, dois passos para a frente, mas não em linha reta, e um passo para trás, seguia rumo à calçada oposta à da qual partira. E os carros, e as motos, e os caminhões, e os outros veículos, e um tanque-de-guerra, que seguia, do Batalhão de Engenharia e Combate para o Batalhão Borba Gato, e Tião Pé-de-Cabra, a cederem-lhe passagem. E o bêbado, enfim, chegou, são e salvo, ao outro lado da rua.

José Luiz, boquiaberto e queixocaído, olhos arregalados, dedos a coçarem-lhe a cabeça, perguntava-se… Na verdade, incrédulo, nenhuma pergunta se fazia; limitava-se a fitar o bêbado, que, no outro lado da rua, rumava… Para onde? E José Luiz, na calçada, a querer atravessar a rua. Pensou em simular embriaguez. Afugentou de si tal pensamento. Sóbrio, não poderia ignorar o perigo que os veículos representavam-lhe. E o bêbado, no outro lado da rua; e José Luiz, irritado, vendo passarem diante de seus olhos carros, motos, ônibus, caminhonetes, bicicletas e caminhões. E um tanque-de-guerra. E Tião Pé-de-Cabra.

Memórias de um desmemoriado

Anotações para uma autobiografia

Nasci no dia… Em que dia nasci? Que nasci em um dia sei que nasci, afinal, estou vivo. Quando nasci, todavia, não me recordo, mas sei que nasci, e há um bom tempo, pois a minha aparência é a de um homem de uns trinta anos, ou de um pouco menos de quarenta, ou de um pouco mais de vinte. Mais de quarenta não tenho. Menos de vinte também não. A minha aparência, se não me revela, com exatidão, a minha idade, dá-me elementos que me permitem avaliá-la aproximadamente. Então, digo, neste início do registro das minhas memórias, que nasci há trinta anos, aproximadamente.

Nasci, não sei em que dia, nem em que mês, e tampouco em que ano. Sei que nasci num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer. São meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Eu poderia telefonar para eles para lhes perguntar o nome deles, e aproveitar a ocasião e perguntar-lhes a data do meu nascimento, mas não me lembro onde deixei o telefone, e nem onde guardei a agenda telefônica com o número do telefone deles. Eu tenho telefone? Não sei. Devo ter algum telefone guardado em algum lugar desta casa. Se tenho um telefone, onde eu o guardei, caso eu o tenha guardado em algum lugar? Ou eu o esqueci em algum lugar? Não me recordo. Assim que eu me lembrar se tenho, ou não, um telefone, eu o pegarei, e telefonarei para meu pai, ou para minha mãe, e solicitar-lhe-ei as informações, que estou a procurar, para redigir estas minhas memórias, que serão memoráveis.

Prossigo, então, com o registro de episódios da minha vida, vida de um homem de trinta anos de idade, aproximadamente, como me indica a minha aparência.

Foi na cidade… na cidade de… Em qual cidade nasci? Minha mãe me deu à luz, é certo, em alguma cidade, pois não há lugar no mundo que não pertence à uma cidade. Nasci, sei, em alguma cidade. De cesariana, ou de parto normal?

Esquecia-me: Não sei se sou o primogênito de meus pais, ou o segundogênito. Tenho irmãos? Tenho irmãs? Quantos irmãos? Quantas irmãs? E onde eles estão? E onde estão meus pais? Há quanto tempo não falo com eles? Espere um pouco… Meus pais estão vivos? Ou eles morreram? Se morreram, qual foi a causa da morte deles?

Recapitulando o que escrevi até aqui… O que já escrevi? Esqueci. Vou ler o que escrevi até este ponto para poder dar sequência à redação destas minhas memórias, que serão o princípio da minha autobiografia.

*

Li o que já registrei para estas minhas memórias, e chamou-me a atenção, intrigando-me, a ausência de informações acerca da minha vida. Como eu pude registrar um relato tão vago? Não é apropriado, sou obrigado a reconhecer, registrar memórias desprovidas de informações sobre a vida do memorialista. Sou eu o memorialista a escrever a minha autobiografia… Humor involuntário. Apenas eu, é claro, posso escrever a minha autobiografia. E… Espere um pouco. Eu já escrevi, em algum outro dia, a minha autobiografia? Esta é a primeira vez que me ponho a redigir as minhas memórias, ou eu já as escrevi em outro dia? Se as escrevi, quando as escrevi? Falha-me a memória, neste ponto. Tenho de reconstituir a minha infância para que estes meus registros tenham razão de ser.

*

Evoco, a partir de agora, alguns episódios da minha vida de um homem que se encontra na idade de trinta anos, aproximadamente, como indica-me a minha aparência.

Nasci não sei em que dia, nem em que cidade, se de parto normal, se de cesariana. Não me recordo de meus pais, e não sei se eles estão vivo, e não me lembro se tenho irmãos. Mesmo não me recordando destas informações, posso reconstituir a minha história com fidelidade, pois algumas informações, se imprescindíveis, podem ser negligenciadas, afinal, são apenas informações, e nada além de informações, e mesmo que não estejam no corpo da redação das minhas memórias nelas podem ser inseridas por suposição – não há viva alma que, em sã consciência, ignore que uma pessoa, para existir, tem de nascer em algum dia, de genitores; portanto, todas as pessoas que tomarem conhecimento destas memórias sabem que tenho pais, mesmo que eles estejam mortos, e que nasci, no passado, em algum dia, em algum mês, em algum ano, em algum lugar.

*

Meu nascimento, não sei se de parto normal, se de cesariana, deu-se num dia qualquer, de um mês qualquer, de um ano qualquer, há, aproximadamente, quarenta anos, indica-me a minha aparência, que é a de um homem de um pouco mais de quarenta anos, ou um pouco menos de quarenta anos – de mais de cinquenta anos não é, e de menos de trinta também não.

Sei que meus pais… Qual é o nome de meu pai? Qual é o nome de minha mãe? Tenho certeza que meu pai e minha mãe têm nomes. Meus pais estão vivos? Meu pai morreu de acidente de carro, não morreu? Ou foi o pai de um amigo meu, de cujo nome minha memória não lembra, que morreu num acidente de carro? E a minha mãe está viva?

Estas são as primeiras palavras das minhas memórias, que eu as escreverei, fornecendo minúcias acerca da minha vida. Eu… Eu… Qual é o meu nome?

*

Inspirado, decidi, hoje, escrever as minhas memórias. Tal desejo excitou-me a imaginação. Eu, escrever as minhas memórias! Que interessante! Eu, escrever a minha autobiografia! Que interessante! Eu, que nunca escrevi as minhas idéias, decidi, hoje, escrevê-las, e escrever, também, a história da minha vida. Para escrevê-la, tenho de registrar o meu nome, o nome de meus pais, os de meus irmãos, os de minhas irmãs, a minha data de nascimento, e as dos meus familiares.

Aqui, no meu quarto, tenho, à mão, os documentos de todas as pessoas da minha família. Não sei porque eu peguei esta caixa com tais documentos e tais fotos – milhares delas, nas quais estou retratado, e nas quais estão retratadas muitas pessoas que nunca vi. Quem são elas? Não sei. Algumas delas estão abraçadas comigo. Por que elas estão abraçadas comigo, se não as conheço?

Consultando estes documentos e estas fotos, escrevo um rascunho das minhas memórias, para, num futuro próximo, redigir a minha autobiografia – e apenas eu posso escrever a minha autobiografia. Humor involuntário.

Meu nome é Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Sou filho de Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e de Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. Por que nomes tão extensos, meu Deus!?

Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às cinco e quarenta e cinco da manhã.

Sou o primogênito de meus pais.

São meus irmãos Paulo Ricardo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Vicente Antonio de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, Márcia Luiza de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva, e Fabiana Larissa de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

Nestes papéis, que tiro desta caixa de sapatos, há relatos, cujos autores não estão registrados. Leio-os, e venho a saber que, no dia dezesseis de setembro de 1999, faleceu meu avô paterno Josué de Almeida Prado, alvejado, na têmpora esquerda, por um projétil, disparado por um homem de nome João Romão e codnome Lagarto Albino. Não sei quem escreveu estas linhas. As caligrafias (identifiquei quatro), parece-me, são de mulheres, pois os homens jamais escreveriam com tanto esmero.

Nesta outra folha há o relato, de autoria de Vicente Antonio, meu irmão, de uma viagem que todos da família empreendemos aos Estados Unidos. Passeamos pelo Grand Canyon, visitamos Washington, e fomos à Disneylândia.

Assisti à vídeos de gravações de brincadeiras, na escola, com os amigos, e em festas da família.

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Acordei, hoje, com o desejo de registrar, em vídeo, a história da minha vida. Mas não me lembro de nenhum dos seus episódios. E nem me lembro do meu nome. E não tenho à mão nenhum documento, nenhuma foto, nenhum registro em vídeo, nem escritos em papel, nem digitados em computador, para servir-me de fonte de dados acerca de mim mesmo.

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Ao limpar o meu guarda-roupa, encontrei fitas-cassetes e dvds com gravações de festas de aniversários, do casamento de meu irmão Paulo Ricardo com a Susana, e do nascimento do primogênito deles, sobrinho meu, o Emílio, e do nascimento de Vanessa, filha dos meus amigos Carlos José e Neide.

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Anima-me a vontade de escrever as minhas memórias. Não me lembro, no entanto, de nada da minha vida. Como poderei, então, escrever as minhas memórias, se da minha vida nada me recordo?

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Peguei da caneta, debrucei-me sobre a folha de sulfite, e perguntei-me qual é o meu nome. Qual é o meu nome? Eu o esqueci.

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Hoje, um dia daqueles em que fico, no ócio, a matutar, e a imaginar coisas, e a conceber idéias, tive uma idéia brilhante: Escrever as minhas memórias, a minha autobiografia. Mas o que há de interessante na minha vida que merece ser contado para as pessoas? A minha vida é interessante? E por que não seria? É interessante, sim.

O que me aconteceu durante a minha vida de não sei quantos anos? Para escrever as minhas memórias tenho de puxar pela memória acontecimentos da minha vida. Quais? De nenhum me recordo.

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Aconteceu-me algo muito engraçado, hoje, mas esqueci do que se trata. Sei, todavia, que foi engraçado, afinal estou rindo, estou gargalhando.

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Pergunto-me: Por que não escrevo as minhas memórias? Por que não escrevo a minha autobiografia? Humor involuntário.

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Encontrei uma folha de sulfite, que traz, em uma das suas faces, um registro de um desejo meu: O de escrever as minhas memórias. Sentei-me à escrivaninha, e abri uma gaveta, na qual havia uma caixa com a minha Certidão de Nascimento. Nasci no dia 22 de setembro de 1984, às 5:45. São meus pais Marcos Roberto de Souza Figueira de Almeida Prado e Ana Carolina da Costa Tavares da Silva e Silva. É o meu nome Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva.

E deixo esta folha sobre a escrivaninha, para procurar outros documentos, que me dêem notícias da minha vida e da vida de meus familiares, parentes e amigos.

Fiz bem em deixar sobre a escrivaninha esta folha com as minhas anotações e a minha Certidão de Nascimento, pois sei que esqueço, em poucos minutos, o que faço, e às vezes esqueço que esqueço. Fui previdente ao tomar a providência de manter esta folha de sulfite e a minha Certidão de Nascimento sobre a escrivaninha, pois, agora, destes álbuns de fotos e de dois dvds, tiro, do fundo do baú, dir-se-ia – mas não foi no fundo de um baú que os achei (e onde os encontrei, não me lembro) -, algumas notas acerca da minha vida e da minha família e da meus amigos.

São meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa. Eu sou o primogênito, e a Fabiana Larissa é a caçula. Paulo Ricardo nasceu no dia 16 de maio de 1986; Vicente Antonio, no dia 7 de agosto de 1987; Márcia Luiza, no dia 14 de dezembro de 1988; e Fabiana Larissa, no dia 5 de janeiro de 1991.

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Encontrei um álbum de fotos, e dentro dele uma Certidão de Batismo, a minha, suspeitei; e confirmei as minhas suspeitas após do álbum remover uma foto, em cuja face anterior há uma criança, pequenina e fofinha, que, eu vim a saber, é eu, ao colo de uma linda mulher de uns vinte anos, que, eu soube, é minha mãe, e em cuja face posterior há anotações. Além de vir a saber que a criança é eu, e a mulher, minha mãe, eu soube que o homem à direita de minha mãe é meu pai, e o à direita de meu pai é o pai dele, meu avô e meu padrinho de batismo, Josué de Almeida Prado, todos a irradiar felicidade.

Em outras fotos há várias pessoas, muitas delas eu as desconheço. E não sei em que local tais fotos foram tiradas. Não reconheço os móveis, tampouco os prédios que aparecem ao fundo, e muito menos a paisagem. Em algumas fotos há a indicação, no verso, de que a família estava em viagem ao Rio Grande do Sul, em outras ao Pantanal, e em outras à Flórida; algumas indicam o aniversário natalício de Vicente Antonio, outras o de Fabiana Larissa; outras o de Carlos Ermenegildo, eu; outras, o casamento de Paulo Ricardo e Susana; e outras o de Marcos Roberto e Ana Carolina, meus genitores. São muitas as fotos, e muitas são as pessoas retratadas, e muitas delas eu as desconheço. E eu apareço em várias fotos, principalmente nas mais recentes.

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Escrevo enquanto assisto ao vídeo que registra a festa de meu aniversário natalício. A minha memória evanescente não me permitiria registrar estas minhas lembranças sem o auxílio do vídeo, e das fotos, que me auxiliam na identificação das pessoas que aparecem no vídeo. É um vídeo da minha festa de aniversário de 18 anos, indicam as velas. O homem que me cumprimenta, no início, é meu pai. E vários familiares eu os identifico com a ajuda de fotos, em cuja face posterior há o nome dos fotografados – comparando-os com as pessoas que aparecem no vídeo, pude identificá-los: Meu pai, minha mãe, meu avô materno, Marco Antonio, minha avó materna, Maria Elizabeth, minha avó paterna, Maria da Conceição, meus irmãos Paulo Ricardo, Vicente Antonio, Márcia Luiza e Fabiana Larissa, meus tios Pedro, Sergio, Carla, Madalena, Vinicius, Bruna, Daniel, Tadeu, meus primos Valéria, Roberto, Hélio, Gilberto, Gabriela, Edson, Renato, Rodrigo, André, Jorge, Janaína, Jaqueline, Jéssica, Getúlio, Fábio, Ísis, Leandro, e os meus amigos Adriano, Adriana, Bianca, Márcio, Murilo, Natália, Osvaldo, Paula, Úrsula, Ulisses, Vera, Laura, Ligiane. Estas foram as pessoas que pude identificar. E há inúmeras outras, cujos nomes desconheço, e não sei se há relação de parentesco entre elas e eu, ou se são apenas meus amigos, ou se conhecidos.

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Tomei, hoje, uma decisão: Escreverei as minhas memórias.

Escrevi estas palavras, para não me esquecer do meu propósito, e saí à procura de vídeos, documentos e álbuns de fotos que me auxiliem em minha empreitada, e encontrei, na segunda gaveta desta escrivaninha, um Atestado de Óbito com a data do falecimento, 16 de outubro de 2015, de Carlos Ermenegildo de Souza Figueira de Almeida Prado da Costa Tavares da Silva e Silva. Quem é ele? Eu o conheço? Por que o Atestado de Óbito dele estava guardado dentro da minha escrivaninha?

A notícia

– Ontem, encontrei-me com a Cláudia. Tu sabes o que ela me disse? Ela me disse que a Ludmila e o Carlos brigaram. A discussão estendeu-se por um século. O Carlos, disse-me a Cláudia… Palavras da Cláudia: “A Ludmila e o Carlos deram o maior escândalo de todos os tempos, no restaurante Bom Garfo, ontem à noite. Conversávamos, eu, a Ludmila e o Carlos. Num dado momento, o Carlos olhou para uma loira bonita, atraente, que passou ao seu lado. Ela se deteve, voltou-se para ele. O Carlos fitou-a. E o que aconteceu em seguida? A loira, atrevida, derrubou, no chão, de propósito, um molho de chaves, e agachou-se para pegá-lo. Tu tinhas de ver. A loira, linda, maravilhosa, usava um decote… O Carlos, com cara de bobo, arregalou os olhos, com os olhos devorou a loira. A Ludmila viu o que o Carlos viu, olhou para o Carlos, e, sem pensar duas vezes, e antes que ele entendesse o que se passava, furiosa, deu-lhe um tapa na cara, virando-o para o avesso. O Carlos deu um grito que na China podiam ouvir. A loira, ao levantar-se, olhou para o Carlos, que massageava o rosto e, com olhar apalermado, indagava da Ludmila a razão do tapa; Ludmila rilhava os dentes; dos olhos dela, fixos em Carlos, chispavam labaredas de ódio. A loira sorriu. Era evidente o seu ar malicioso, simultaneamente divertido e constrangido, de pudor e de malícia. Ela ajeitou o decote, e afastou-se. Não deixou de se voltar para o Carlos e a Ludmila, e sorrir, envaidecida. Envaidecida, sim, pois ela inspirou ciúme a Ludmila, a ponto de ela desferir um tapa no Carlos. Qual mulher não se envaidece de, simultaneamente, e sem esforço, excitar o desejo de um homem e o ciúme de uma mulher, usando, unicamente, as curvas do seu corpo? A Ludmila berrou, para que todo o mundo a ouvisse: ‘Safado!’, e desferiu um tapa na cara do Carlos. ‘O que… Ludmila!’, perguntou-lhe Carlos, surpreso, atoleimado. ‘Tu não podes ver um rabo-de-saia’, censurou-o Ludmila; ‘Eu nada fiz, Ludmila’; ‘Esqueça-me, imbecil! Vá atrás da loira oxigenada! Gostaste dela? Leve-a contigo, idiota’. O Carlos abanou a cabeça, moveu os braços, emudecido, e olhou em torno de si. Curiosos fitavam-no. Sorriam à socapa, uns; gargalhavam, outros, com todos os dentes à mostra, vergando-se para trás. Um escândalo! Que escândalo! Delícia de escândalo! Eu não sabia o que dizer. O que eu diria? Calei-me. Olhei para o Carlos. Olhei para a Ludmila. Olhei, constrangida, em torno. O que eu diria? O que eu diria, e para quem? Eu nada disse. Constrangedor! A Ludmila pegou a bolsa, levantou-se; batendo o pé, foi-se embora. Que escândalo! Que maravilha de escândalo!”.

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– Sabes da nova? Hoje, no restaurante Comidas Típicas, almocei com a Rúbia. Ela me disse que o Carlos e a Ludmila brigaram. Disse-me a Rúbia… Acompanhes a história. É hilária, e do teu interesse: “Almoçávamos, no restaurante Bom de Garfo… O almoço ia às mil maravilhas. Conversávamos. Bebíamos. Comíamos. Estávamos, lá, eu, a Cláudia, o Carlos e a Ludmila. Nos levantamos. Iríamos embora. Iríamos, eu disse. Não fomos; não naquele momento. E sabes por quê? No restaurante entrou uma loira de parar o trânsito. Uma loira belíssima. Uma deusa grega. Ela usava decote e minissaia. Todos olhamos para ela. Era impossível ignorá-la. Ela, àquele calor, se trajasse blusa de lã e calça jeans folgada, chamaria a nossa atenção, mais, até, do que chamou. De um corpo perfeito, a loira. Sabes o que aconteceu? A loira, involuntariamente, acredito, deixou cair a carteira no chão, e curvou-se para pegá-la, ignorando-nos, como se não estivéssemos lá, como se não houvesse ninguém no restaurante, como se o restaurante estivesse às moscas. Minha nossa! Os eventos sucederam-se em ondas até a cena derradeira. O Carlos… Ah! O Carlos. Ele arregalou os olhos, e boquiabriu-se. O que ele viu… Ele, que mal havia se levantado, sentou-se, e não desviou da loira os olhos arregalados, a boca aberta, o queixo caído. A Ludmila… A Ludmila, sem pensar duas vezes, beliscou o Carlos, tirando-o do estado hipnótico no qual a loira o lançou. O Carlos fitou-a. Com um movimento brusco, levou a mão ao ponto no qual a Ludmila cravou-lhe as unhas. O berro seco do Carlos atraiu a atenção da loira, que, ao se levantar, voltou-se para ele, surpresa, curiosa, intrigada, viu-o massageando o braço, e voltou-se para a Ludmila, que, furiosa, esbravejou. O Carlos encolheu-se. Recuei uns dois passos. A loira esboçou reação, mas, constrangida, ruborizada, afastou-se, sob olhar dos curiosos, com passos firmes, fincando o salto dos sapatos no piso, e foi sentar-se, de costas para nós, à mesa, na outra extremidade do restaurante. Estou certa de uma coisa: o desejo da loira era o de esbofetear a Ludmila. A Ludmila, acredito, não a sobrepujaria numa luta corpo-a-corpo. As pessoas presentes adorariam assistir a tal espetáculo; imperdível, se se sucedesse. A Ludmila escapou de uma surra. O Carlos… Ah! O Carlos! Enquanto a Ludmila vituperava a loira, ele me fitava, abismado, na expectativa, certo de que a Ludmila o repreenderia, ao estilo dela; aos berros, o insultaria, e, ele previa, desferir-lhe-ia um bofetão que lhe deformaria o rosto. Coitado! Antes mesmo de encerrar às ofensas contra a loira, a Ludmila disse para o Carlos: ‘Tu és como todos os homens. Não podes ver um rabo-de-saia. Gostaste da loira oxigenada? Vistes a celulite? É de loiras oxigenadas que tu gostas? Vistes o silicone? Carlos, esqueça-me. Suma da minha frente, vagabundo’. O Carlos, coitado, abobalhado, emudecido, levantou-se, hesitante, enquanto massageava o braço, e afastou-se; antes de transpor o enquadramento da porta, olhou, por sobre o ombro esquerdo, para a Ludmila, que, à minha frente, olhava para a loira e resmungava obscenidades. Paguei pelo almoço, e nos retiramos.” Ouviste, atentamente, a narrativa? É do teu interesse, não é?

*

– A Ludmila, a namorada do Carlos, aquela morena… O Marcelo contou-me, há uns quatro dias… Quando? Não importa. Ele me disse que a Ludmila, o Carlos, a Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom… Sabes o que ele me disse? Imaginas? Não imaginas? Tu conheces aquela figurinha carimbada. Foi na lanchonete Bem Bom, ou no restaurante Comidas Tropicais. Tu conheces o restaurante Comidas Tropicais? Ótimo restaurante. O Marcelo disse-me que a Rúbia contou-lhe que a Ludmila e o Carlos saíram no tapa lá no… Comidas Tropicais, se não me engano. Não. Não foi no Comidas Tropicais. Foi na lanchonete Bem Bom. O Marcelo e a Rúbia almoçaram, dias atrás, no restaurante Bom de Garfo. Tu conheces a Rúbia e o Marcelo. O Marcelo, tu sabes, adora manter as pessoas bem informadas. Ele capta informações no ar, via respiratória. Ele é dotado de radar potentíssimo, e sabe, também, como espalhar as notícias. Não sonega nomes, nem as minúcias dos eventos. É incomparável a sua vocação para jornalista investigativo. Pergunto-me porque ele não envia o curriculum para um tablóide britânico. Faria sucesso estrondoso nas cercanias de Stonehenge; e, no outro lado do canal da Mancha, repetiria o sucesso obtido na ilha dos bretões. Ou não? Ora, os franceses têm reputação de sisudos e racionais. Porém… Conte-lhes, aos macambúzios germanos… gauleses descendentes de Asterix, uma boa aventura… Eles perderão a compostura. Os taciturnos revelarão a verdadeira face da alma gaulesa. Basta de embromação. Basta deste chove, chove, e não molha. Basta de blábláblá. Basta de lengalenga. Vamos ao que nos interessa. O Marcelo, gozando do prazer de relatar um episódio jocoso protagonizado por dois amigos, disse-me: “A Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom, comiam, a Rúbia, um pudim de laranja, e o Cláudio, um pudim de pêssego, e bebiam, o Cláudio, suco de uva, e a Rúbia, refrigerante de limão. Conversavam, animados. Falavam de trivialidades. Chamou-lhes a atenção a voz inconfundível da Ludmila. Sabemos que ela é discreta e sabe se comportar em público. A gargalhada… Ao sentir olhares cravando-se neles, o Carlos chamou a Ludmila à razão. Ela, com sorrisinho malicioso… aquele sorriso… O que ela e o Carlos conversavam? Não sei o que eles falavam… Mas posso imaginar do que se tratava… A Ludmila… O Carlos… Conheço-os como conheço as palmas das minhas mãos. A Ludmila viu a Rúbia e o Cláudio, acenou para eles, e foi, puxando o Carlos, até eles. Saudou-os. Puxaram, cada um, uma cadeira, e sentaram-se, o Carlos à direita da Ludmila, que se sentou à direita da Rúbia. A conversa ia animada. A Ludmila e a Rúbia falavam de vestidos e sapatos, e o Cláudio e o Carlos, de futebol, carros e motos, e insinuaram comentários a uma atriz americana, aludiram aos encantos dela; dariam sequência à conversa, mas o olhar de poucas amigas da Rúbia e da Ludmila os obrigou a retomarem a conversa sobre motos, carros e futebol, três das cinco maiores paixões dos homens. Assunto ia, assunto vinha, riam, gargalhavam, tranqüilos, até que… Música de suspense. Interrompo a narrativa, para criar expectativa. Suspense. Como se dará a sequência desta aventura? Não perca os próximos capítulos desta novela cuja trama intrigante enfeixa drama, comédia, tragédia, tragicomédia, capa-e-espada, cavalaria andante, sertão nordestino, praias cariocas, favelas, planaltos, metrópoles, periferia… O que deu por encerrada a animada conversa de Ludmila, Rúbia, Carlos e Cláudio? Uma loira. Uma loira? Sim, uma loira. Uma loiraça. Não foi uma loira qualquer. Foi uma loira de parar o trânsito e provocar engarrafamento quilométrico. Esqueça os engarrafamentos em São Paulo. Diante do congestionamento que a loira pode provocar, nada significam. Então, retomemos o relato. A loira, com vestido decotado, recendendo perfume irresistível… Ela era irresistível; com o perfume ia além do irresistível. Era o suprassumo da loirice. Um esplendor da natureza! Uma das sete maravilhas do mundo. Um petisco! Ela se aproximou do Carlos, sorrindo, e, exibindo os dentes lindíssimos, os olhos o irradiar felicidade contagiante, com voz maviosa, sedutora, disse-lhe: ‘Oi, lindo, lembra-se de mim?’, e reclinou-se, para beijá-lo, no rosto. Não o beijou, entretanto. Sabes quem a impediu de beijá-lo? A Ludmila. Quem mais poderia ser? A Ludmila deslocou-a com o cotovelo, avançou ao Carlos, e desferiu-lhe um tapa, que ecoou pelo restaurante, escapou para a rua, ganhou o bairro, foi ouvido em toda cidade, cujos limites territoriais venceu, e, em ondas incontíveis, espraiou-se, após atravessar o oceano Atlântico e o oceano Pacífico, pela Europa, pela Ásia e pela América do Norte. A loira arregalou os olhos e boquiabriu-se. Desequilibrada, quase caiu. O Carlos tratou de se afastar do alcance das mãos da Ludmila. Como ela é pacífica, serena, ele não ficou com o olho roxo, ou azulado, ou avermelhado, sei lá. Uma mescla de magenta, lilás, roxo, azul e vermelho alaranjado. Sortudo, o Carlos. Todavia, ele não escapou das broncas. E a Ludmila… Ah! Ela encarou a loira. Gritou para ela: ‘Vagabunda!’. ‘Ludmila, acalme-se’, solicitou-lhe, servil, Carlos. ‘Acalmar-me, Carlos. Tu e essa loira oxigenada são dois vagabundos!’ A loira retirou-se, com o rabo por entre as pernas. E que pernas! O Carlos e a Ludmila discutiram. Um escândalo! Tu tinhas de estar lá para ver.” Eu gostaria de estar lá para ver. Eu queria ser testemunha ocular da briga. Eu queria ver a Ludmila humilhando o Carlos! Foi divertido, imagino. A Ludmila é mulher corajosa, e não teme escândalos. Ela desancou a loira e o Carlos. Falou grosso com ele. Que grosserias ele ouviu! Disse-me o Marcelo que o Carlos, a Rúbia e o Cláudio ficaram ruborizados. O Carlos adquiriu as feições de um pimentão, a fisionomia de um tomate maduro. Eu queria assistir ao espetáculo. Ah! Esquecia-me: a Ludmila e o Carlos romperam o namoro. É a minha chance de abordar a Ludmila… Ora, abordá-la, abordei, e não foram poucas as vezes. Insinuei-me. Ela me rejeitou. Agora, o caminho está livre para mim. E não perderei o meu tempo… A Ludmila não me escapará. E manterei o Carlos afastado dela. Inventarei histórias cabeludas. Para o Carlos, pintarei a Ludmila com as cores mais escuras; para a Ludmila, direi cobras e lagartos do Carlos. Não serão cobras quaisquer, e tampouco quaisquer lagartos. O Carlos nunca mais irá olhar para a Ludmila, que nunca mais irá olhar para ele. Escrevas no teu diário: O Marcos namorará a Ludmila.

*

– O Marcos disse-me que tu e o Carlos brigaram, na lanchonete Bom Apetite, dias atrás.

– Eu e o Carlos nunca fomos à lanchonete Bom Apetite.

– Não?

– Não.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo que, dias atrás, tu e o Carlos brigaram.

– Há três meses eu e o Carlos não entramos no Bom de Garfo. Quando eu e ele entramos, lá, pela última vez? Não me recordo. Faz tanto tempo, que não conservo tal episódio na memória. Reminiscências trazem-me à mente um almoço, lá, no aniversário da Paula, há quatro meses. Quando foi o aniversário da Paula? Há muito tempo. Há um século. Eu e o Carlos brigamos… Eu gostaria que me dissessem quando isso aconteceu, porque eu não soube dessa briga. Não assisto aos telejornais…

– O Marcos disse-me que, na lanchonete…

– Tu acreditas no Marcos? Ele conta cada história da carochinha… Cada lorota! Ele inventa e reinventa as histórias que lhe contam. Pergunte-lhe o que ocorreu entre eu e o Carlos, na próxima vez que o encontrar, e ele dirá que nos viu eu e o Carlos, na praia, num quiosque, bebendo, eu, água de coco, e o Carlos, cerveja, vestindo, eu, biquíni fio-dental amarelo, e o Carlos, sunga azul, e eu, que nunca subi numa prancha de surfe, surfando, e o Carlos, que nunca chutou uma bola, jogando futvôlei…

– O Marcos não inventou nenhuma história. Ele me disse que o Marcelo disse-lhe que tu e o Carlos brigaram na lanchonete Bom Apetite.

– Eu e o Carlos nunca fomos lá.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo…

– Eu e o Carlos, há meses, não vamos lá, como eu já disse.

– Então, não sei. Foi em outra lanchonete, então. Ou em outro restaurante. O Marcos disse-me que, na sexta-feira, o Marcelo, a Rúbia, tu e o Carlos…

– O Marcelo e a Rúbia, comigo e com o Carlos, num restaurante? Há mais de um mês não vejo o Marcelo. A Rúbia… Conversei com ela, pela última vez, na véspera da minha viagem, para o Rio Grande do Sul, com meu pai e minha mãe, em visita ao meu avô, que completou o nonagésimo aniversário, há vinte dias. Hoje… Que dia é hoje? Vinte e sete. O aniversário de meu avô, no dia seis, foi num domingo. Eu, meu pai e minha mãe fomos ao aeroporto, no sábado, pela manhã; na sexta-feira, à tardezinha, nos encontrávamos, eu e a Rúbia, na livraria Assis, dia quatro, portanto, há mais de vinte dias. A tua história não está bem contada.

– O Marcos falou-me da briga…

– Eu e o Carlos não brigamos. Que eu me lembre, não. Briguei com o Carlos? Briguei… E não me informaram…

– Não sejas irônica… Esta história… Se é verdade… Tu me diz que não brigou com o Carlos… Acredito… Mas o Marcos narrou-me, com detalhes constrangedores, a tua briga com o Carlos. Falou-me, e não se furtou a tecer elogios, de uma loira oxigenada…

– Ah! Sei qual história o Marcos te contou… Quero dizer, não sei qual história ele te contou. Se ele narrou uma história que culminou numa briga… Ora, ele adulterou os eventos… Briga… Eu e o Carlos não brigamos. O que eu poderia dizer… Não sei o que ele te disse… Como se diz, quem conta um conto… O Marcos ouviu um conto; ao contá-lo, aumentou… Quantos pontos? Não briguei com o Carlos, Márcia.

– Não? Mas o Marcos…

– Ora, o Marcos! Esqueça-o. Diria minha avó: ele fala mais do que a negra do leite. Não a conheço. Vovó conheceu-a, e diz que ela falava demais. Dá, a taramela, com a língua nos dentes, e não sabe manter a língua dentro da boca.

– Ele me disse com tanta convicção…

– Esclarecer-te-ei o enigma. Contar-te-ei a história, exatamente como transcorreu. No encerramento, tu não ignoras, não se dá uma briga, tampouco uma discussão envolvendo eu e o Carlos. Não se ouviu insultos, nem palavras azedas, nem interjeições viperinas. Os contadores mal-intencionados de histórias são tão convictos… Querem acreditar no que dizem… Basta de tagarelice. Não percamos o nosso tempo… Eu e o Carlos não brigamos, estejas certa. Que eu me recorde, nunca brigamos. Discutimos de vez em quando… Isto é, todos os dias. Briguinhas de namorados. Bobagens. O Carlos, tu sabes, é um pouco ciumento. Se eu uso camisa decotada, ele me repreende; se uso minissaia, ele me reprova; se me atraso para um encontro, ele me censura, e me diz que me demoro, embelezando-me. Quanto a isso, é verdade. Gosto de me reproduzir. Adoro mirar-me ao espelho. Sou maravilhosa, eu sei. Não precisa me dizer isso. O Carlos gosta e, ao mesmo tempo, não gosta, principalmente quando outros homens olham para mim… Além das discussõezinhas, nada de sério. Nos entendemos. Ele é um namorado gentil e carinhoso. O homem com que sonhei. Um príncipe encantado. Um amor. Quanto ao que aconteceu… O que aconteceu? Esqueças o que o Marcos te disse. Ele não sabe o que aconteceu. Queres saber o que aconteceu? Tu te surpreenderás. Ao encerramento, irás rir à bandeiras despregadas, diria um vetusto senhor grisalho. Ouças: eu e o Carlos não brigamos, na lanchonete Bom Apetite. Brigamos, na sorveteria Palito de Ouro. Brigamos… Direi que eu e ele brigamos. Para todos os efeitos, brigamos. E eu e a loira oxigenada nos enrolamos num arranca-rabo que foi um escândalo. Na sorveteria Palito de Ouro, num sábado, eu, o Carlos e a Cláudia passamos bons e agradáveis momentos, conversando, chupando sorvetes. Falamos de todos os assuntos que nos vinham à mente. Falamos mal das vizinhas da Cláudia, do ex-namorado dela, o Rômulo, e do… Do que mais falamos? Não me recordo. O melhor momento ainda estava por vir, e foi uma loira lindíssima que no-lo proporcionou. Tu tinhas de ver. Era sábado. Calor de derreter o cérebro. Chupei sorvete de morango, de laranja, e napolitano, se não me engano. O Carlos, um de chocolate, e… Não sei. E a Cláudia… Sei lá. Atente para este detalhe: Estávamos na sorveteria Palito de Ouro. Esqueças a lanchonete Bom Apetite e todas as outras lanchonetes. Eram quatro horas da tarde. O calor nos rachava a cabeça. O Carlos suava em bicas. Derretia-se. Eu, ele e a Cláudia degustávamos sorvetes gelados quando, na sorveteria, entrou uma loira de parar o trânsito. Uma boneca. A Barbie, sem tirar nem pôr. Pensei, até, em pedir-lhe um autógrafo. Ela usava uma camisa decotada e uma minissaia. Tão bela. Tão linda. Todos olhamos para ela. Imagines uma loira lindíssima de minissaia, camisa decotada e sapatos de saltos altos. Ela passou pelo Carlos, esbarrou-lhe a mão no braço, e o Carlos derrubou o sorvete. E a loira… Sabes o que ela fez? Pediu desculpas para o Carlos, e se abaixou para pegar o sorvete. Imagines a cena. A loira usava camisa decotada. Imagines a cara do Carlos. Olhei para a Cláudia; a Cláudia olhou para mim. Sorrimos. O Carlos ficou vermelho. A loira pediu-lhe desculpas. Ela não percebeu, é certo, constrangida que estava, que o Carlos não tirava os olhos do decote.

– Tu não brigaste com o Carlos?

– Não. Por que eu brigaria com ele? A loira esbarrou-se nele, e ele derrubou o sorvete. Por que eu brigaria com ele? Por que ele olhou para a loira? Ora, o Carlos é um homem. A loira, bonita, linda, um pedaço de mal caminho. Além do mais, foi um acidente. Um acidente engraçado. O Carlos transformou-se num pimentão. A loira foi-se embora. Fingi que estava brava com o Carlos, e dei-lhe tapas na cara. Tapinhas que não doem, e disse-lhe que eu nada queria com ele, e que ele fosse procurar a loira oxigenada. Diverti-me com o episódio. O Carlos, constrangido, não sabia o que dizer, não sabia para onde olhar. E mais uma coisa: a loira não era oxigenada. Era uma loira autêntica, bonita e atraente. Ah! Eu, brigar com o Carlos! Ele é um amor. Eu e ele nos casaremos daqui um mês. O Marcos… Ele… Se vier ter comigo, lhe baterei a porta na cara.

Em lados opostos

– Você não me acreditará, Feliciano. Você irá me chamar de mentiroso. A Jaqueline está no papo. A gata é minha. Fez-se de difícil, a maldita, mas caiu na lábia do garanhão. Feri-lhe o ego. Mulher vaidosa, ela não suportou ser passada para trás, e cedeu aos meus desejos. Que mulher! Nunca tive em meus braços mulher tão bela! Eu e ela principiamos o namoro na sexta-feira. Ela pensava que não cairia em meus braços. A felina recolheu as garras. Eu a terei em meus braços sempre que a desejar. Ela irá satisfazer todos os meus desejos e todas as minhas fantasias. Eu disse para você que eu conquistaria a Jaqueline. Aquela gata não poderia me escapar, e não me escaparia, e não me escapou. Ela é minha. No domingo, eu e ela fomos pra Ubatuba. Você tinha de ver como os marmanjos olhavam pra ela. Babavam de desejo. Você tinha de ver com que cara eles ficavam ao me ver passando o bronzeador e o protetor solar na Jaqueline. Eles não queriam acreditar no que viam. A Jaqueline pensou que eu não a conquistaria. Sem falsa modéstia, sou irresistível. Sei como convencer uma bela mulher a ceder aos meus desejos. Tenho as minhas artimanhas. Nenhuma mulher que desejei resistiu ao meu charme. E não seria a Jaqueline que resistiria. Eu convidava a Jaqueline para jantar, e ela, soberba, nariz empinado, rejeitava os convites. Eu a convidava para almoçar; ela rejeitava os convites. Eu a convidava para um passeio; ela recusava os convites; não os recusava, rejeitava-os, e tratava-me como capacho. Ela, uma vez, me humilhou diante da Vilma. Foi constrangedor. O sorriso da Jaqueline… Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Aquele sorriso… Veneno de uma víbora. O sorrisinho da Jaqueline, e o da Vilma… Não desisti. Eu tinha de fazer jus à minha masculinidade. Convidei a Jaqueline para ir ao teatro, ao cinema, ao zoológico, à praia, e para almoçar, lanchar, jantar; mas ela, soberba, rejeitou todos os convites que lhe fiz. Ora, o ditado não diz que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Portanto, insisti, e insisti, e insisti. Demorei para me convencer de que, ou a pedra era dura demais, ou o ditado está errado. Foi aí que vi que os ditados são inúteis e reconheci que a minha estratégia de conquista estava errada. A abordagem direta era inútil. Eu teria de usar outra abordagem. Matutei. Inspirado pelos prazeres que eu prelibava… Gostou desta? Poético, não? Eu, inspirado pelo desejo da carne, criei outra estratégia: Abordagem indireta. Eu sitiaria a Jaqueline. Eu iria ferir a vaidade dela. As mulheres bonitas são vaidosas, você sabe. Elas querem que os homens as reverenciem. Jaqueline ficava, é certo, orgulhosa, cheia de si, quando eu me derretia por ela. Ela se considerava a mulher mais desejável do mundo. Eu mostraria pra ela que ela não é a mulher mais importante do mundo. Eu não a convidaria mais. Eu a esnobaria. Eu a ignoraria solenemente, nem olharia pra ela; se ela estivesse próxima de mim, mas não conversando comigo, e eu conversasse com outra pessoa, eu elogiaria a beleza, os encantos, os atrativos de outras mulheres. Eu tinha casos com a Adriana, com a Cinira e com a Andressa. Usei-as pra provocar a Jaqueline. Eu as beijava gulosamente sempre que a Jaqueline olhava pra mim. Eu elogiava todas elas, principalmente a Andressa, que é uma gata; não tão bonita quanto a Jaqueline, mas uma gata… A Jaqueline, eu via nos olhos dela, ficava fula, mordia a língua. Ela sentiu, na carne, a dor do desprezo; e a vaidade falou mais alto. Ela começou a se insinuar pra mim. Eu fingia que não percebia, que não era comigo. Eu a ignorava solenemente. Ela me abordava, contendo-se, e perguntava-me se eu tinha compromisso, ou na hora do almoço, ou à noite, ou no final de semana, mas nunca me dizia porque me fazia tal pergunta. Eu sempre lhe dizia que sim, que, ou tinha um compromisso, ou um encontro. Eu sabia que a fortaleza enfraquecia-se, e que, com uma investida certeira, eu a destruiria, e teria acesso a prazeres indescritíveis… Era tudo uma questão de tempo. Quando eu menos esperasse, e sem que a Jaqueline desconfiasse que eu lhe manipulava os sentimentos e a induzia a fazer o que eu desejava que ela fizesse, ela se lançaria aos meus braços, e se me ofereceria, e eu usufruiria dos prazeres mais sensacionais que eu jamais poderia imaginar. A Jaqueline abordava-me, insinuava-se, e eu a rejeitava, e dava-lhe a entender que eu preferia outra mulher. Eu ia à balada com a Natália, com a Úrsula, com a Arlete. Quando a Jaqueline estava por perto, eu elogiava a Natália, a Arlete, a Úrsula, a Andressa, a Adriana, a Cinira. Eu declarava que não conhecia mulheres tão bonitas quanto elas, e a minha voz chegava aos ouvidos da Jaqueline. Dentre elas, Natália era a que eu mais elogiava. Natália! Que loirinha! Eu sabia que ela e a Jaqueline não se bicam. Elas se detestam. O mundo é pequeno demais para as duas. A Jaqueline irritava-se sempre que me via com a Natália. A Natália é bonita, atraente, desejável. Todavia, não se compara com a Jaqueline; eu, no entanto, dava a entender o contrário. E a Jaqueline mordia-se de raiva! Na sexta-feira, os episódios desta novela sucederam-se num ritmo vertiginoso. Eu estava na minha casa, sozinho, quando a campainha soou. Você é capaz de adivinhar quem premiu a campainha? Abri a porta. O tempo parou. Meu queixo caiu. A Jaqueline, vestida para matar, aproximou-se de mim, abraçou-me, e beijou-me. Foi uma noite maravilhosa. O início do meu namoro com a Jaqueline, auspicioso. A Jaqueline é minha, inteiramente minha, exclusivamente minha. Não quero mais saber de outra mulher. Quero a Jaqueline, apenas a Jaqueline. Não preciso de outra mulher. A Jaqueline satisfaz-me em todos os sentidos e todos os meus sentidos. Não preciso de outra mulher. Sou apaixonado pela Jaqueline. Meu coração é dela, e o dela é meu. Conquistei a Jaqueline. Conquistei a mulher dos meus sonhos. Ela é minha. Inteiramente minha. Exclusivamente minha. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

*

– Daiane, os homens são patéticos. Eles acreditam que sempre estão por cima; que são os conquistadores; que são espertos. Eles acreditam que são mais espertos do que as mulheres, as controlam e as obrigam a satisfazer-lhes todos os desejos. Eles vivem no mundo da fantasia! Eles se recusam a entender que o mundo pertence às mulheres e que a eles cabe o papel de coadjuvantes. Esqueça Casanova e Dom Juan, dois gabolas mentirosos. Você acredita nas histórias que eles escreveram? Eles são famosos, mas qual deles foi poderoso? Pompadour e Cleópatra foram poderosas. Casanova e Dom Juan eram conquistadores baratos. E a Marilyn Monroe, que conquistou os Kennedys e um escritor famoso, cujo nome não lembro. E um escritor americano escreveu uma biografia dela. Não a li. Um escritor americano… Não foi o Roth, nem o Vidal. Li cinco livros dele. O nome dele estava na ponta da minha língua; de repente, desapareceu, como num passe de mágica. Uma graça, a Marilyn, você não acha? Ela é mais bonita e mais cheia de graça do que a Bardot e a Sophia. Cá entre nós, ela parecia uma bonequinha de luxo. Lembrei-me: Norman Mailer. Sou fã da Marilyn. Tenho todos os filmes dela. Como eu dizia, Casanova e Dom Juan, gabolas ridículos, desprezíveis, diziam, com os exageros de praxe, aos quatro cantos do mundo, que iam para a cama com todas as mulheres. Fie-se nas histórias que eles contaram e que deles contam! A Pompadour e a Cleópatra ficaram poderosas. Eles, não. As mulheres são mais sutis, astutas e espertas do que os homens, e sabem usar as suas armas, aquelas que as têm, muito melhor do que os homens usam as deles. Uma delas é a beleza; a outra, a sensibilidade; a outra, a inteligência. Os homens recusam-se a entender que não podem resistir, mesmo se o desejarem, aos ataques das mulheres que possuem essas três armas. Raras as possuem. Eu as possuo. O que eu disse pode soar arrogante aos seus ouvidos, mas não é. Sou bonita. Sou inteligente. Sou sensível. Não quero me gabar: possuo as três mais poderosas armas femininas. E sei usá-las. Usando-as, conquistei o Leandro. Ele é um gato. Ele me abordou, em diversas ocasiões, mas eu, que tenho o meu orgulho, me fiz de difícil. Eu não queria ser mais uma mulher na lista dele. Eu sabia que ele, indiscreto, contava, com todos os pormenores, para o Feliciano, o confidente dele, tudo o que se sucedia sob os lençóis, e o Feliciano anunciava, em rede nacional, tudo o que o Leandro lhe relatava. Discreto ele, né? Eu soube que o Leandro ficava, um dia, com a Cinira, no outro, com a Andressa, no outro, com a Natália, e com outras mulheres. A lista é extensa. Eu não permitiria que o Leandro me reduzisse a um nome na agenda dele. Eu sabia que ele me desejava. Ao contrário das outras mulheres, eu o desprezei. Ele me convidou para almoçar, jantar, ir ao cinema, ao zoológico, ao parque, à praia. Recusei todos os convites. Fui, reconheço, malvada com ele. Arrependi-me de dispensar-lhe tal tratamento… Eu o via com aquele olhar… Eu pensava em parar com o meu joguinho, e ceder ao Leandro… Eu o desejava. Ele é um gato. Ele é inteligente. Ele é elegante. Ele é charmoso. E aquele sorriso derrete-me. Aquele olhar… Minhas pernas tremiam sempre que o Leandro aproximava-se de mim. Meu corpo ardia de prazer, mas eu tinha de conter o desejo que me assaltava sempre que ele, tão perto e tão longe… Você não imagina como foi difícil resistir às abordagens do Leandro… Eu desejava dizer sim a todos os convites que ele me fazia. Eu o desejava, mas eu não queria ser reduzida a um nome na agenda dele. Meu nome seria o único nome de mulher na agenda do Leandro. O Leandro, esnobado, desprezado, provocava-me. Para me provocar, ele ficava com a Úrsula, com a Andressa, e com a Natália, aquela… Sei que ele sabia que eu e a Natália não nos gostamos uma da outra. O bobo pensou que me provocava. Ele, sempre que eu estava perto dele, e ele conversava ou com o Feliciano, ou com o Milton, ou com o Adriano, ou com o Arthur, ou com o César, falava da Natália e a elogiava. O propósito dele: provocar-me ciúme. A Natália é bonita, reconheço, mas ela não é tão bonita como o Leandro falava que ela é. Ora, não sou cega. Quando vejo uma mulher bonita, admiro-lhe a beleza, e até a invejo. A Tábata, por exemplo. Ela é linda. Eu gostaria de ter os olhos azuis dela, e as maçãs do rosto também. A cinturinha… Nossa! Nunca vi outra mulher com tal cinturinha! A Tábata é a mulher mais bonita que já vi. Tem um corpo perfeito. Ela é mais bonita do que eu, reconheço. A Natália… Ela não é mais bonita do que eu. Ela não é inteligente, nem espirituosa. Não digo isso por despeito. Digo isso porque é a verdade. Se quiser confirmar o que digo, converse com ela por alguns minutos. Bastam alguns minutos de conversa com ela para você se convencer de que digo a verdade. E sucederam-se os capítulos desta novela. Percebi que o Leandro estava desesperado. Ora, se ele saía com a Natália, minha desafeta, minha arquiinimiga, para me provocar, era porque ele estava desesperado, e apaixonado, apaixonado por mim, obviamente. E o que fiz? Eu o abordei. Eu me insinuava. Eu me aproximava dele e me fazia presente e atenciosa, mas dele conservava distância respeitosa. Eu lhe provava, assim, que eu não era como as outras mulheres, e o meu nome não seria mais um nome na agenda dele, e a minha foto não figuraria no álbum de fotos dele ao lado das fotos de dezenas de outras mulheres. Notei uma mudança, imperceptível, no comportamento do Leandro: Ele raramente saía de casa, ia às baladas uma vez ou outra, afastou-se das outras mulheres, desmanchou o namoro com a Natália. Vamos dizer a verdade: não era namoro; era apenas um caso. O Leandro usava a Natália para me provocar. Eu… Cheguei numa encruzilhada. Na sexta-feira, ao anoitecer, fui à casa do Leandro. Apertei a campainha, e o esperei. Assim que ele abriu a porta, eu o beijei na boca. Ele não resistiu. Eu o conquistei. O gato é meu. Falei para ele: “Jogue no lixo a agenda com os números dos telefones de todas as mulheres que você já conheceu e as fotos de todas elas. Agora só há uma mulher na sua vida: Eu.” Ele jogou a agenda e as fotos de todas as mulheres no lixo. Em seguida, dei-lhe uma agenda nova, entreguei-lhe uma caneta, e disse-lhe para escrever o meu nome e o número do meu telefone. Ele os escreveu. Dei-lhe uma foto minha, e ele a colou na agenda. O meu nome é o único nome na agenda do Leandro. A minha foto é a única foto na agenda dele. O Leandro é meu, exclusivamente meu, inteiramente meu. O coração dele me pertence. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

Quem com ferro fere com ferro será ferido

Certo domingo, estávamos, na praça Emílio Ribas, conversando, eu, Marcelo, Paulo e João. Os filhos de Paulo, Cláudio e Rodrigo brincavam de pega-pega. Não eram dez horas da manhã. Havíamos nos retirado da Igreja de Santa Teresinha vinte minutos antes. E na praça nos detivemos. De repente, ouvimos alguém gritar:

– Olha o gordo!

Voltamos a nossa atenção para a direção da qual chegou-nos a exclamação. Era Mauro, que, do outro lado da rua, gritava, apontava João, e gargalhava.

Mauro tem um metro e sessenta e cinco centímetros de altura. Branco – não de todo; e loiro – não totalmente. Magro – não direi magro; nem esbelto é. Não é bonito; e nem feio é. Não agrada as mulheres, e não lhes inspira repulsa. Para muita gente ele é irritante, intragável; mas há gente que com ele se simpatiza.

– Esse gordo é muito gordo – prosseguiu Mauro, apontando João. – Gordo! Bolo fofo! Rolha de poço! Precisam de você, na represa, para tampar a rachadura. Bolo fofo! Elefantinho da mamãe.

João, furioso, exibiu um gesto obsceno para Mauro. Paulo, eu e Marcelo pedimos-lhe que não se deixasse levar pelas provocações, mas ele, ignorando-nos, afastou-se de nós, andou na direção de Mauro, exibindo-lhe gestos obscenos e acenando-lhe para que ele se detivesse, que lhe daria boas lições. Mauro provocava-o. Paulo, eu e Marcelo pedimos, em vão, a João que ignorasse Mauro. João dele aproximou-se. Preparou-lhe um soco. Mauro esquivou-se, agachando-se, sorrindo, e afastou-se, passos acelerados, de João; dele distava uns três metros quando pôs-se a gargalhar, e a provocá-lo.

– Quando eu pegar você, Mauro – ameaçou João -, quebrarei seu nariz.

– Pegar-me? – desafiou-o Mauro. – Pegar-me, barril de banha? Você é mais lento do que uma lesma obesa, reservatório estratégico de gordura. Venha me pegar, pança de panda.

E afastava-se Mauro, sorrindo, de João, que o fitava, cenho franzido, furioso, contendo-se. João, ao olhar para a sua direita, viu uma pedra, pegou-a, e voltou-se para Mauro, que, passos apressados, dele afastou-se, zombando. João largou a pedra na calçada, e foi, extremamente irritado, até Paulo, Marcelo e eu.

Permanecemos, na praça Emilio Ribas, durante mais quinze minutos, e rumamos, cada um de nós para a sua casa.

Naquele mesmo domingo, no bar do Gonzaga, um pouco depois das quatro horas da tarde, assistíamos ao jogo de futebol entre o Corinthians e o São Paulo. Eram mais de vinte os homens dentro daquele pequeno bar, todos a olhar, vidrados, para a tela da televisão, e a esbravejar, e a disparar obscenidades contra o árbitro, os jogadores, os técnicos, os bandeirinhas e os gandulas. Alguns dentre nós éramos corinthianos; outros, sãopaulinos.

Ouvimos, em certo momento, um grito:

– Maranhão!

E olhamos, todos os que estávamos no bar, para a porta, e deparamo-nos com Mauro. Houve aqueles que, previdentes, desafetos de Mauro, retiraram-se do bar, por uma porta, enquanto no bar Mauro entrava por outra porta e encostava-se ao balcão. Maranhão, cujo nome é Vitoriano, estava na outra extremidade do balcão, distante de Mauro quatro metros. Fitou-o, olhar seco, de poucos amigos. Entreolhamo-nos muitos dentre nós. E Gonzaga solicitou a Mauro que não provocasse Vitoriano. Antevi a briga. Vitoriano é oriundo do estado do Maranhão, daí o seu apelido. Quase todos os que o conhecemos o chamávamos por tal alcunha; codnome, diz o Gonzaga, de agente secreto. Vitoriano é robusto, de pele áspera curtida de sol, atarracado, mãos enormes, calosas, de dedos grossos e nodosos, e braços de musculatura pétrea.

Enquanto assistíamos ao jogo de futebol, em clima de flaflu, Mauro zombava de Vitoriano, do seu tipo físico, da sua calvície precoce e pronunciada, da sua estatura baixa, da sua pele, do seu sotaque, do formato da sua cabeça. Para surpresa de todos nós, Vitoriano conservou-se, no banco, sentado, ao balcão, degustando da loirinha gelada e dos petiscos de palitinho. Mauro ridicularizava-o, e o silêncio de Vitoriano fê-lo intensificar as chacotas. Pedimos a Mauro que cessasse as provocações. Ele, no entanto, ouvidos moucos, seguia com elas, até que disse as palavras que desencadearam a fúria de Vitoriano:

– Como você nasceu, Maranhão? Quando você nasceu, a sua mãe olhou para você, e gritou: “Meu Deus! Padim Ciço, proteja-me! Que horror! Como essa criatura monstruosa entrou em mim? Não é meu filho. Eu estava bêbada quando o pai dele o fez em mim.”

Uma garrafa riscou, como um míssil, os quatro metros que separavam Vitoriano de Mauro, e estilhaçou-se na parede. Mauro, que mal teve tempo de se mexer, deslocou-se alguns centímetros para a direita, o suficiente para sair da trajetória da garrafa. Vitoriano abriu passagem, como um touro, por entre nós, deslocando-nos com os braços, e foi na direção de Mauro, que tratou de girar sobre os calcanhares e passar sebo nas canelas. Correu Mauro uns dez metros, e voltou-se para trás, para ver, à porta do bar, Vitoriano, parado, fitando-o, e acenou-lhe, debochando.

Vitoriano prometeu, para si mesmo, que um dia agarraria Mauro pelo pescoço e fender-lhe-ia o ventre com uma peixeira.

Encontrei-me com Mauro, na fila do banco C…, na segunda-feira, e falei-lhe da promessa que João e Vitoriano fizeram. Mauro deu de ombros.

– Eles só ameaçam – disse Mauro, sorrindo. – São idiotas, aqueles dois. O João é gordo; o Maranhão é nordestino. Ambos são mais burros do que uma porta. Não vou esquentar a minha cabeça com aqueles dois imbecis fracassados.

Uma semana depois, no Clube Esportivo São Benedito, Mauro aproximou-se de um grupo de homens, saudou-os – muitos dentre eles o saudaram de má-vontade -, e deteve-se em Guilherme, de estatura um pouco maior do que a dele, magro, na altura dos trinta anos, cabelos repartidos ao meio, de óculos de lentes grossas. Mauro, sorrindo, fitava-o como se o examinasse. Guilherme fez que não o viu, e não interrompeu a sua conversa com Vinicius, que se sentiu incomodado com a atitude provocativa de Mauro.

– Pelo amor de Deus. – exclamou Mauro, fitando Guilherme, que não se voltou para ele. – De qual planeta você veio? – perguntou-lhe, tocando-o no ombro, e só então Guilherme e Vinicius interromperam a conversa, e Guilherme voltou-se para Mauro. – Você parece um alienígena com esses óculos, Guilherme. E esses cabelos! Que penteado horroroso! Cruz credo! Você não nasceu! Você foi cuspido! – e gargalhou, dobrando-se sobre si mesmo.

Guilherme, para surpresa de Mauro, disse-lhe, com voz calma, em tom firme:

– Você já se olhou no espelho? Você parece um rebento do cruzamento de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, com o Sméagol, o monstrinho do Senhor dos Anéis.

Mauro, de imediato, disparou-lhe um soco; Guilherme aparou-o, e encaixou-lhe um soco no peito, e se pôs de modo a dissuadi-lo de querer uma briga. Mauro, ciente de que não poderia sobrepujar Guilherme, mão direita a massagear o peito no ponto que Guilherme lho atingira, afastou-se dele, esbravejando:

– Idiota! Imbecil! Idiota! Nunca mais zombe de mim! Vá para o inferno, vagabundo! Vá para o inferno!

E Mauro abriu espaço pela multidão, e retirou-se do clube.