A notícia

– Ontem, encontrei-me com a Cláudia. Tu sabes o que ela me disse? Ela me disse que a Ludmila e o Carlos brigaram. A discussão estendeu-se por um século. O Carlos, disse-me a Cláudia… Palavras da Cláudia: “A Ludmila e o Carlos deram o maior escândalo de todos os tempos, no restaurante Bom Garfo, ontem à noite. Conversávamos, eu, a Ludmila e o Carlos. Num dado momento, o Carlos olhou para uma loira bonita, atraente, que passou ao seu lado. Ela se deteve, voltou-se para ele. O Carlos fitou-a. E o que aconteceu em seguida? A loira, atrevida, derrubou, no chão, de propósito, um molho de chaves, e agachou-se para pegá-lo. Tu tinhas de ver. A loira, linda, maravilhosa, usava um decote… O Carlos, com cara de bobo, arregalou os olhos, com os olhos devorou a loira. A Ludmila viu o que o Carlos viu, olhou para o Carlos, e, sem pensar duas vezes, e antes que ele entendesse o que se passava, furiosa, deu-lhe um tapa na cara, virando-o para o avesso. O Carlos deu um grito que na China podiam ouvir. A loira, ao levantar-se, olhou para o Carlos, que massageava o rosto e, com olhar apalermado, indagava da Ludmila a razão do tapa; Ludmila rilhava os dentes; dos olhos dela, fixos em Carlos, chispavam labaredas de ódio. A loira sorriu. Era evidente o seu ar malicioso, simultaneamente divertido e constrangido, de pudor e de malícia. Ela ajeitou o decote, e afastou-se. Não deixou de se voltar para o Carlos e a Ludmila, e sorrir, envaidecida. Envaidecida, sim, pois ela inspirou ciúme a Ludmila, a ponto de ela desferir um tapa no Carlos. Qual mulher não se envaidece de, simultaneamente, e sem esforço, excitar o desejo de um homem e o ciúme de uma mulher, usando, unicamente, as curvas do seu corpo? A Ludmila berrou, para que todo o mundo a ouvisse: ‘Safado!’, e desferiu um tapa na cara do Carlos. ‘O que… Ludmila!’, perguntou-lhe Carlos, surpreso, atoleimado. ‘Tu não podes ver um rabo-de-saia’, censurou-o Ludmila; ‘Eu nada fiz, Ludmila’; ‘Esqueça-me, imbecil! Vá atrás da loira oxigenada! Gostaste dela? Leve-a contigo, idiota’. O Carlos abanou a cabeça, moveu os braços, emudecido, e olhou em torno de si. Curiosos fitavam-no. Sorriam à socapa, uns; gargalhavam, outros, com todos os dentes à mostra, vergando-se para trás. Um escândalo! Que escândalo! Delícia de escândalo! Eu não sabia o que dizer. O que eu diria? Calei-me. Olhei para o Carlos. Olhei para a Ludmila. Olhei, constrangida, em torno. O que eu diria? O que eu diria, e para quem? Eu nada disse. Constrangedor! A Ludmila pegou a bolsa, levantou-se; batendo o pé, foi-se embora. Que escândalo! Que maravilha de escândalo!”.

*

– Sabes da nova? Hoje, no restaurante Comidas Típicas, almocei com a Rúbia. Ela me disse que o Carlos e a Ludmila brigaram. Disse-me a Rúbia… Acompanhes a história. É hilária, e do teu interesse: “Almoçávamos, no restaurante Bom de Garfo… O almoço ia às mil maravilhas. Conversávamos. Bebíamos. Comíamos. Estávamos, lá, eu, a Cláudia, o Carlos e a Ludmila. Nos levantamos. Iríamos embora. Iríamos, eu disse. Não fomos; não naquele momento. E sabes por quê? No restaurante entrou uma loira de parar o trânsito. Uma loira belíssima. Uma deusa grega. Ela usava decote e minissaia. Todos olhamos para ela. Era impossível ignorá-la. Ela, àquele calor, se trajasse blusa de lã e calça jeans folgada, chamaria a nossa atenção, mais, até, do que chamou. De um corpo perfeito, a loira. Sabes o que aconteceu? A loira, involuntariamente, acredito, deixou cair a carteira no chão, e curvou-se para pegá-la, ignorando-nos, como se não estivéssemos lá, como se não houvesse ninguém no restaurante, como se o restaurante estivesse às moscas. Minha nossa! Os eventos sucederam-se em ondas até a cena derradeira. O Carlos… Ah! O Carlos. Ele arregalou os olhos, e boquiabriu-se. O que ele viu… Ele, que mal havia se levantado, sentou-se, e não desviou da loira os olhos arregalados, a boca aberta, o queixo caído. A Ludmila… A Ludmila, sem pensar duas vezes, beliscou o Carlos, tirando-o do estado hipnótico no qual a loira o lançou. O Carlos fitou-a. Com um movimento brusco, levou a mão ao ponto no qual a Ludmila cravou-lhe as unhas. O berro seco do Carlos atraiu a atenção da loira, que, ao se levantar, voltou-se para ele, surpresa, curiosa, intrigada, viu-o massageando o braço, e voltou-se para a Ludmila, que, furiosa, esbravejou. O Carlos encolheu-se. Recuei uns dois passos. A loira esboçou reação, mas, constrangida, ruborizada, afastou-se, sob olhar dos curiosos, com passos firmes, fincando o salto dos sapatos no piso, e foi sentar-se, de costas para nós, à mesa, na outra extremidade do restaurante. Estou certa de uma coisa: o desejo da loira era o de esbofetear a Ludmila. A Ludmila, acredito, não a sobrepujaria numa luta corpo-a-corpo. As pessoas presentes adorariam assistir a tal espetáculo; imperdível, se se sucedesse. A Ludmila escapou de uma surra. O Carlos… Ah! O Carlos! Enquanto a Ludmila vituperava a loira, ele me fitava, abismado, na expectativa, certo de que a Ludmila o repreenderia, ao estilo dela; aos berros, o insultaria, e, ele previa, desferir-lhe-ia um bofetão que lhe deformaria o rosto. Coitado! Antes mesmo de encerrar às ofensas contra a loira, a Ludmila disse para o Carlos: ‘Tu és como todos os homens. Não podes ver um rabo-de-saia. Gostaste da loira oxigenada? Vistes a celulite? É de loiras oxigenadas que tu gostas? Vistes o silicone? Carlos, esqueça-me. Suma da minha frente, vagabundo’. O Carlos, coitado, abobalhado, emudecido, levantou-se, hesitante, enquanto massageava o braço, e afastou-se; antes de transpor o enquadramento da porta, olhou, por sobre o ombro esquerdo, para a Ludmila, que, à minha frente, olhava para a loira e resmungava obscenidades. Paguei pelo almoço, e nos retiramos.” Ouviste, atentamente, a narrativa? É do teu interesse, não é?

*

– A Ludmila, a namorada do Carlos, aquela morena… O Marcelo contou-me, há uns quatro dias… Quando? Não importa. Ele me disse que a Ludmila, o Carlos, a Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom… Sabes o que ele me disse? Imaginas? Não imaginas? Tu conheces aquela figurinha carimbada. Foi na lanchonete Bem Bom, ou no restaurante Comidas Tropicais. Tu conheces o restaurante Comidas Tropicais? Ótimo restaurante. O Marcelo disse-me que a Rúbia contou-lhe que a Ludmila e o Carlos saíram no tapa lá no… Comidas Tropicais, se não me engano. Não. Não foi no Comidas Tropicais. Foi na lanchonete Bem Bom. O Marcelo e a Rúbia almoçaram, dias atrás, no restaurante Bom de Garfo. Tu conheces a Rúbia e o Marcelo. O Marcelo, tu sabes, adora manter as pessoas bem informadas. Ele capta informações no ar, via respiratória. Ele é dotado de radar potentíssimo, e sabe, também, como espalhar as notícias. Não sonega nomes, nem as minúcias dos eventos. É incomparável a sua vocação para jornalista investigativo. Pergunto-me porque ele não envia o curriculum para um tablóide britânico. Faria sucesso estrondoso nas cercanias de Stonehenge; e, no outro lado do canal da Mancha, repetiria o sucesso obtido na ilha dos bretões. Ou não? Ora, os franceses têm reputação de sisudos e racionais. Porém… Conte-lhes, aos macambúzios germanos… gauleses descendentes de Asterix, uma boa aventura… Eles perderão a compostura. Os taciturnos revelarão a verdadeira face da alma gaulesa. Basta de embromação. Basta deste chove, chove, e não molha. Basta de blábláblá. Basta de lengalenga. Vamos ao que nos interessa. O Marcelo, gozando do prazer de relatar um episódio jocoso protagonizado por dois amigos, disse-me: “A Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom, comiam, a Rúbia, um pudim de laranja, e o Cláudio, um pudim de pêssego, e bebiam, o Cláudio, suco de uva, e a Rúbia, refrigerante de limão. Conversavam, animados. Falavam de trivialidades. Chamou-lhes a atenção a voz inconfundível da Ludmila. Sabemos que ela é discreta e sabe se comportar em público. A gargalhada… Ao sentir olhares cravando-se neles, o Carlos chamou a Ludmila à razão. Ela, com sorrisinho malicioso… aquele sorriso… O que ela e o Carlos conversavam? Não sei o que eles falavam… Mas posso imaginar do que se tratava… A Ludmila… O Carlos… Conheço-os como conheço as palmas das minhas mãos. A Ludmila viu a Rúbia e o Cláudio, acenou para eles, e foi, puxando o Carlos, até eles. Saudou-os. Puxaram, cada um, uma cadeira, e sentaram-se, o Carlos à direita da Ludmila, que se sentou à direita da Rúbia. A conversa ia animada. A Ludmila e a Rúbia falavam de vestidos e sapatos, e o Cláudio e o Carlos, de futebol, carros e motos, e insinuaram comentários a uma atriz americana, aludiram aos encantos dela; dariam sequência à conversa, mas o olhar de poucas amigas da Rúbia e da Ludmila os obrigou a retomarem a conversa sobre motos, carros e futebol, três das cinco maiores paixões dos homens. Assunto ia, assunto vinha, riam, gargalhavam, tranqüilos, até que… Música de suspense. Interrompo a narrativa, para criar expectativa. Suspense. Como se dará a sequência desta aventura? Não perca os próximos capítulos desta novela cuja trama intrigante enfeixa drama, comédia, tragédia, tragicomédia, capa-e-espada, cavalaria andante, sertão nordestino, praias cariocas, favelas, planaltos, metrópoles, periferia… O que deu por encerrada a animada conversa de Ludmila, Rúbia, Carlos e Cláudio? Uma loira. Uma loira? Sim, uma loira. Uma loiraça. Não foi uma loira qualquer. Foi uma loira de parar o trânsito e provocar engarrafamento quilométrico. Esqueça os engarrafamentos em São Paulo. Diante do congestionamento que a loira pode provocar, nada significam. Então, retomemos o relato. A loira, com vestido decotado, recendendo perfume irresistível… Ela era irresistível; com o perfume ia além do irresistível. Era o suprassumo da loirice. Um esplendor da natureza! Uma das sete maravilhas do mundo. Um petisco! Ela se aproximou do Carlos, sorrindo, e, exibindo os dentes lindíssimos, os olhos o irradiar felicidade contagiante, com voz maviosa, sedutora, disse-lhe: ‘Oi, lindo, lembra-se de mim?’, e reclinou-se, para beijá-lo, no rosto. Não o beijou, entretanto. Sabes quem a impediu de beijá-lo? A Ludmila. Quem mais poderia ser? A Ludmila deslocou-a com o cotovelo, avançou ao Carlos, e desferiu-lhe um tapa, que ecoou pelo restaurante, escapou para a rua, ganhou o bairro, foi ouvido em toda cidade, cujos limites territoriais venceu, e, em ondas incontíveis, espraiou-se, após atravessar o oceano Atlântico e o oceano Pacífico, pela Europa, pela Ásia e pela América do Norte. A loira arregalou os olhos e boquiabriu-se. Desequilibrada, quase caiu. O Carlos tratou de se afastar do alcance das mãos da Ludmila. Como ela é pacífica, serena, ele não ficou com o olho roxo, ou azulado, ou avermelhado, sei lá. Uma mescla de magenta, lilás, roxo, azul e vermelho alaranjado. Sortudo, o Carlos. Todavia, ele não escapou das broncas. E a Ludmila… Ah! Ela encarou a loira. Gritou para ela: ‘Vagabunda!’. ‘Ludmila, acalme-se’, solicitou-lhe, servil, Carlos. ‘Acalmar-me, Carlos. Tu e essa loira oxigenada são dois vagabundos!’ A loira retirou-se, com o rabo por entre as pernas. E que pernas! O Carlos e a Ludmila discutiram. Um escândalo! Tu tinhas de estar lá para ver.” Eu gostaria de estar lá para ver. Eu queria ser testemunha ocular da briga. Eu queria ver a Ludmila humilhando o Carlos! Foi divertido, imagino. A Ludmila é mulher corajosa, e não teme escândalos. Ela desancou a loira e o Carlos. Falou grosso com ele. Que grosserias ele ouviu! Disse-me o Marcelo que o Carlos, a Rúbia e o Cláudio ficaram ruborizados. O Carlos adquiriu as feições de um pimentão, a fisionomia de um tomate maduro. Eu queria assistir ao espetáculo. Ah! Esquecia-me: a Ludmila e o Carlos romperam o namoro. É a minha chance de abordar a Ludmila… Ora, abordá-la, abordei, e não foram poucas as vezes. Insinuei-me. Ela me rejeitou. Agora, o caminho está livre para mim. E não perderei o meu tempo… A Ludmila não me escapará. E manterei o Carlos afastado dela. Inventarei histórias cabeludas. Para o Carlos, pintarei a Ludmila com as cores mais escuras; para a Ludmila, direi cobras e lagartos do Carlos. Não serão cobras quaisquer, e tampouco quaisquer lagartos. O Carlos nunca mais irá olhar para a Ludmila, que nunca mais irá olhar para ele. Escrevas no teu diário: O Marcos namorará a Ludmila.

*

– O Marcos disse-me que tu e o Carlos brigaram, na lanchonete Bom Apetite, dias atrás.

– Eu e o Carlos nunca fomos à lanchonete Bom Apetite.

– Não?

– Não.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo que, dias atrás, tu e o Carlos brigaram.

– Há três meses eu e o Carlos não entramos no Bom de Garfo. Quando eu e ele entramos, lá, pela última vez? Não me recordo. Faz tanto tempo, que não conservo tal episódio na memória. Reminiscências trazem-me à mente um almoço, lá, no aniversário da Paula, há quatro meses. Quando foi o aniversário da Paula? Há muito tempo. Há um século. Eu e o Carlos brigamos… Eu gostaria que me dissessem quando isso aconteceu, porque eu não soube dessa briga. Não assisto aos telejornais…

– O Marcos disse-me que, na lanchonete…

– Tu acreditas no Marcos? Ele conta cada história da carochinha… Cada lorota! Ele inventa e reinventa as histórias que lhe contam. Pergunte-lhe o que ocorreu entre eu e o Carlos, na próxima vez que o encontrar, e ele dirá que nos viu eu e o Carlos, na praia, num quiosque, bebendo, eu, água de coco, e o Carlos, cerveja, vestindo, eu, biquíni fio-dental amarelo, e o Carlos, sunga azul, e eu, que nunca subi numa prancha de surfe, surfando, e o Carlos, que nunca chutou uma bola, jogando futvôlei…

– O Marcos não inventou nenhuma história. Ele me disse que o Marcelo disse-lhe que tu e o Carlos brigaram na lanchonete Bom Apetite.

– Eu e o Carlos nunca fomos lá.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo…

– Eu e o Carlos, há meses, não vamos lá, como eu já disse.

– Então, não sei. Foi em outra lanchonete, então. Ou em outro restaurante. O Marcos disse-me que, na sexta-feira, o Marcelo, a Rúbia, tu e o Carlos…

– O Marcelo e a Rúbia, comigo e com o Carlos, num restaurante? Há mais de um mês não vejo o Marcelo. A Rúbia… Conversei com ela, pela última vez, na véspera da minha viagem, para o Rio Grande do Sul, com meu pai e minha mãe, em visita ao meu avô, que completou o nonagésimo aniversário, há vinte dias. Hoje… Que dia é hoje? Vinte e sete. O aniversário de meu avô, no dia seis, foi num domingo. Eu, meu pai e minha mãe fomos ao aeroporto, no sábado, pela manhã; na sexta-feira, à tardezinha, nos encontrávamos, eu e a Rúbia, na livraria Assis, dia quatro, portanto, há mais de vinte dias. A tua história não está bem contada.

– O Marcos falou-me da briga…

– Eu e o Carlos não brigamos. Que eu me lembre, não. Briguei com o Carlos? Briguei… E não me informaram…

– Não sejas irônica… Esta história… Se é verdade… Tu me diz que não brigou com o Carlos… Acredito… Mas o Marcos narrou-me, com detalhes constrangedores, a tua briga com o Carlos. Falou-me, e não se furtou a tecer elogios, de uma loira oxigenada…

– Ah! Sei qual história o Marcos te contou… Quero dizer, não sei qual história ele te contou. Se ele narrou uma história que culminou numa briga… Ora, ele adulterou os eventos… Briga… Eu e o Carlos não brigamos. O que eu poderia dizer… Não sei o que ele te disse… Como se diz, quem conta um conto… O Marcos ouviu um conto; ao contá-lo, aumentou… Quantos pontos? Não briguei com o Carlos, Márcia.

– Não? Mas o Marcos…

– Ora, o Marcos! Esqueça-o. Diria minha avó: ele fala mais do que a negra do leite. Não a conheço. Vovó conheceu-a, e diz que ela falava demais. Dá, a taramela, com a língua nos dentes, e não sabe manter a língua dentro da boca.

– Ele me disse com tanta convicção…

– Esclarecer-te-ei o enigma. Contar-te-ei a história, exatamente como transcorreu. No encerramento, tu não ignoras, não se dá uma briga, tampouco uma discussão envolvendo eu e o Carlos. Não se ouviu insultos, nem palavras azedas, nem interjeições viperinas. Os contadores mal-intencionados de histórias são tão convictos… Querem acreditar no que dizem… Basta de tagarelice. Não percamos o nosso tempo… Eu e o Carlos não brigamos, estejas certa. Que eu me recorde, nunca brigamos. Discutimos de vez em quando… Isto é, todos os dias. Briguinhas de namorados. Bobagens. O Carlos, tu sabes, é um pouco ciumento. Se eu uso camisa decotada, ele me repreende; se uso minissaia, ele me reprova; se me atraso para um encontro, ele me censura, e me diz que me demoro, embelezando-me. Quanto a isso, é verdade. Gosto de me reproduzir. Adoro mirar-me ao espelho. Sou maravilhosa, eu sei. Não precisa me dizer isso. O Carlos gosta e, ao mesmo tempo, não gosta, principalmente quando outros homens olham para mim… Além das discussõezinhas, nada de sério. Nos entendemos. Ele é um namorado gentil e carinhoso. O homem com que sonhei. Um príncipe encantado. Um amor. Quanto ao que aconteceu… O que aconteceu? Esqueças o que o Marcos te disse. Ele não sabe o que aconteceu. Queres saber o que aconteceu? Tu te surpreenderás. Ao encerramento, irás rir à bandeiras despregadas, diria um vetusto senhor grisalho. Ouças: eu e o Carlos não brigamos, na lanchonete Bom Apetite. Brigamos, na sorveteria Palito de Ouro. Brigamos… Direi que eu e ele brigamos. Para todos os efeitos, brigamos. E eu e a loira oxigenada nos enrolamos num arranca-rabo que foi um escândalo. Na sorveteria Palito de Ouro, num sábado, eu, o Carlos e a Cláudia passamos bons e agradáveis momentos, conversando, chupando sorvetes. Falamos de todos os assuntos que nos vinham à mente. Falamos mal das vizinhas da Cláudia, do ex-namorado dela, o Rômulo, e do… Do que mais falamos? Não me recordo. O melhor momento ainda estava por vir, e foi uma loira lindíssima que no-lo proporcionou. Tu tinhas de ver. Era sábado. Calor de derreter o cérebro. Chupei sorvete de morango, de laranja, e napolitano, se não me engano. O Carlos, um de chocolate, e… Não sei. E a Cláudia… Sei lá. Atente para este detalhe: Estávamos na sorveteria Palito de Ouro. Esqueças a lanchonete Bom Apetite e todas as outras lanchonetes. Eram quatro horas da tarde. O calor nos rachava a cabeça. O Carlos suava em bicas. Derretia-se. Eu, ele e a Cláudia degustávamos sorvetes gelados quando, na sorveteria, entrou uma loira de parar o trânsito. Uma boneca. A Barbie, sem tirar nem pôr. Pensei, até, em pedir-lhe um autógrafo. Ela usava uma camisa decotada e uma minissaia. Tão bela. Tão linda. Todos olhamos para ela. Imagines uma loira lindíssima de minissaia, camisa decotada e sapatos de saltos altos. Ela passou pelo Carlos, esbarrou-lhe a mão no braço, e o Carlos derrubou o sorvete. E a loira… Sabes o que ela fez? Pediu desculpas para o Carlos, e se abaixou para pegar o sorvete. Imagines a cena. A loira usava camisa decotada. Imagines a cara do Carlos. Olhei para a Cláudia; a Cláudia olhou para mim. Sorrimos. O Carlos ficou vermelho. A loira pediu-lhe desculpas. Ela não percebeu, é certo, constrangida que estava, que o Carlos não tirava os olhos do decote.

– Tu não brigaste com o Carlos?

– Não. Por que eu brigaria com ele? A loira esbarrou-se nele, e ele derrubou o sorvete. Por que eu brigaria com ele? Por que ele olhou para a loira? Ora, o Carlos é um homem. A loira, bonita, linda, um pedaço de mal caminho. Além do mais, foi um acidente. Um acidente engraçado. O Carlos transformou-se num pimentão. A loira foi-se embora. Fingi que estava brava com o Carlos, e dei-lhe tapas na cara. Tapinhas que não doem, e disse-lhe que eu nada queria com ele, e que ele fosse procurar a loira oxigenada. Diverti-me com o episódio. O Carlos, constrangido, não sabia o que dizer, não sabia para onde olhar. E mais uma coisa: a loira não era oxigenada. Era uma loira autêntica, bonita e atraente. Ah! Eu, brigar com o Carlos! Ele é um amor. Eu e ele nos casaremos daqui um mês. O Marcos… Ele… Se vier ter comigo, lhe baterei a porta na cara.

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Em lados opostos

– Você não me acreditará, Feliciano. Você irá me chamar de mentiroso. A Jaqueline está no papo. A gata é minha. Fez-se de difícil, a maldita, mas caiu na lábia do garanhão. Feri-lhe o ego. Mulher vaidosa, ela não suportou ser passada para trás, e cedeu aos meus desejos. Que mulher! Nunca tive em meus braços mulher tão bela! Eu e ela principiamos o namoro na sexta-feira. Ela pensava que não cairia em meus braços. A felina recolheu as garras. Eu a terei em meus braços sempre que a desejar. Ela irá satisfazer todos os meus desejos e todas as minhas fantasias. Eu disse para você que eu conquistaria a Jaqueline. Aquela gata não poderia me escapar, e não me escaparia, e não me escapou. Ela é minha. No domingo, eu e ela fomos pra Ubatuba. Você tinha de ver como os marmanjos olhavam pra ela. Babavam de desejo. Você tinha de ver com que cara eles ficavam ao me ver passando o bronzeador e o protetor solar na Jaqueline. Eles não queriam acreditar no que viam. A Jaqueline pensou que eu não a conquistaria. Sem falsa modéstia, sou irresistível. Sei como convencer uma bela mulher a ceder aos meus desejos. Tenho as minhas artimanhas. Nenhuma mulher que desejei resistiu ao meu charme. E não seria a Jaqueline que resistiria. Eu convidava a Jaqueline para jantar, e ela, soberba, nariz empinado, rejeitava os convites. Eu a convidava para almoçar; ela rejeitava os convites. Eu a convidava para um passeio; ela recusava os convites; não os recusava, rejeitava-os, e tratava-me como capacho. Ela, uma vez, me humilhou diante da Vilma. Foi constrangedor. O sorriso da Jaqueline… Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Aquele sorriso… Veneno de uma víbora. O sorrisinho da Jaqueline, e o da Vilma… Não desisti. Eu tinha de fazer jus à minha masculinidade. Convidei a Jaqueline para ir ao teatro, ao cinema, ao zoológico, à praia, e para almoçar, lanchar, jantar; mas ela, soberba, rejeitou todos os convites que lhe fiz. Ora, o ditado não diz que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Portanto, insisti, e insisti, e insisti. Demorei para me convencer de que, ou a pedra era dura demais, ou o ditado está errado. Foi aí que vi que os ditados são inúteis e reconheci que a minha estratégia de conquista estava errada. A abordagem direta era inútil. Eu teria de usar outra abordagem. Matutei. Inspirado pelos prazeres que eu prelibava… Gostou desta? Poético, não? Eu, inspirado pelo desejo da carne, criei outra estratégia: Abordagem indireta. Eu sitiaria a Jaqueline. Eu iria ferir a vaidade dela. As mulheres bonitas são vaidosas, você sabe. Elas querem que os homens as reverenciem. Jaqueline ficava, é certo, orgulhosa, cheia de si, quando eu me derretia por ela. Ela se considerava a mulher mais desejável do mundo. Eu mostraria pra ela que ela não é a mulher mais importante do mundo. Eu não a convidaria mais. Eu a esnobaria. Eu a ignoraria solenemente, nem olharia pra ela; se ela estivesse próxima de mim, mas não conversando comigo, e eu conversasse com outra pessoa, eu elogiaria a beleza, os encantos, os atrativos de outras mulheres. Eu tinha casos com a Adriana, com a Cinira e com a Andressa. Usei-as pra provocar a Jaqueline. Eu as beijava gulosamente sempre que a Jaqueline olhava pra mim. Eu elogiava todas elas, principalmente a Andressa, que é uma gata; não tão bonita quanto a Jaqueline, mas uma gata… A Jaqueline, eu via nos olhos dela, ficava fula, mordia a língua. Ela sentiu, na carne, a dor do desprezo; e a vaidade falou mais alto. Ela começou a se insinuar pra mim. Eu fingia que não percebia, que não era comigo. Eu a ignorava solenemente. Ela me abordava, contendo-se, e perguntava-me se eu tinha compromisso, ou na hora do almoço, ou à noite, ou no final de semana, mas nunca me dizia porque me fazia tal pergunta. Eu sempre lhe dizia que sim, que, ou tinha um compromisso, ou um encontro. Eu sabia que a fortaleza enfraquecia-se, e que, com uma investida certeira, eu a destruiria, e teria acesso a prazeres indescritíveis… Era tudo uma questão de tempo. Quando eu menos esperasse, e sem que a Jaqueline desconfiasse que eu lhe manipulava os sentimentos e a induzia a fazer o que eu desejava que ela fizesse, ela se lançaria aos meus braços, e se me ofereceria, e eu usufruiria dos prazeres mais sensacionais que eu jamais poderia imaginar. A Jaqueline abordava-me, insinuava-se, e eu a rejeitava, e dava-lhe a entender que eu preferia outra mulher. Eu ia à balada com a Natália, com a Úrsula, com a Arlete. Quando a Jaqueline estava por perto, eu elogiava a Natália, a Arlete, a Úrsula, a Andressa, a Adriana, a Cinira. Eu declarava que não conhecia mulheres tão bonitas quanto elas, e a minha voz chegava aos ouvidos da Jaqueline. Dentre elas, Natália era a que eu mais elogiava. Natália! Que loirinha! Eu sabia que ela e a Jaqueline não se bicam. Elas se detestam. O mundo é pequeno demais para as duas. A Jaqueline irritava-se sempre que me via com a Natália. A Natália é bonita, atraente, desejável. Todavia, não se compara com a Jaqueline; eu, no entanto, dava a entender o contrário. E a Jaqueline mordia-se de raiva! Na sexta-feira, os episódios desta novela sucederam-se num ritmo vertiginoso. Eu estava na minha casa, sozinho, quando a campainha soou. Você é capaz de adivinhar quem premiu a campainha? Abri a porta. O tempo parou. Meu queixo caiu. A Jaqueline, vestida para matar, aproximou-se de mim, abraçou-me, e beijou-me. Foi uma noite maravilhosa. O início do meu namoro com a Jaqueline, auspicioso. A Jaqueline é minha, inteiramente minha, exclusivamente minha. Não quero mais saber de outra mulher. Quero a Jaqueline, apenas a Jaqueline. Não preciso de outra mulher. A Jaqueline satisfaz-me em todos os sentidos e todos os meus sentidos. Não preciso de outra mulher. Sou apaixonado pela Jaqueline. Meu coração é dela, e o dela é meu. Conquistei a Jaqueline. Conquistei a mulher dos meus sonhos. Ela é minha. Inteiramente minha. Exclusivamente minha. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

*

– Daiane, os homens são patéticos. Eles acreditam que sempre estão por cima; que são os conquistadores; que são espertos. Eles acreditam que são mais espertos do que as mulheres, as controlam e as obrigam a satisfazer-lhes todos os desejos. Eles vivem no mundo da fantasia! Eles se recusam a entender que o mundo pertence às mulheres e que a eles cabe o papel de coadjuvantes. Esqueça Casanova e Dom Juan, dois gabolas mentirosos. Você acredita nas histórias que eles escreveram? Eles são famosos, mas qual deles foi poderoso? Pompadour e Cleópatra foram poderosas. Casanova e Dom Juan eram conquistadores baratos. E a Marilyn Monroe, que conquistou os Kennedys e um escritor famoso, cujo nome não lembro. E um escritor americano escreveu uma biografia dela. Não a li. Um escritor americano… Não foi o Roth, nem o Vidal. Li cinco livros dele. O nome dele estava na ponta da minha língua; de repente, desapareceu, como num passe de mágica. Uma graça, a Marilyn, você não acha? Ela é mais bonita e mais cheia de graça do que a Bardot e a Sophia. Cá entre nós, ela parecia uma bonequinha de luxo. Lembrei-me: Norman Mailer. Sou fã da Marilyn. Tenho todos os filmes dela. Como eu dizia, Casanova e Dom Juan, gabolas ridículos, desprezíveis, diziam, com os exageros de praxe, aos quatro cantos do mundo, que iam para a cama com todas as mulheres. Fie-se nas histórias que eles contaram e que deles contam! A Pompadour e a Cleópatra ficaram poderosas. Eles, não. As mulheres são mais sutis, astutas e espertas do que os homens, e sabem usar as suas armas, aquelas que as têm, muito melhor do que os homens usam as deles. Uma delas é a beleza; a outra, a sensibilidade; a outra, a inteligência. Os homens recusam-se a entender que não podem resistir, mesmo se o desejarem, aos ataques das mulheres que possuem essas três armas. Raras as possuem. Eu as possuo. O que eu disse pode soar arrogante aos seus ouvidos, mas não é. Sou bonita. Sou inteligente. Sou sensível. Não quero me gabar: possuo as três mais poderosas armas femininas. E sei usá-las. Usando-as, conquistei o Leandro. Ele é um gato. Ele me abordou, em diversas ocasiões, mas eu, que tenho o meu orgulho, me fiz de difícil. Eu não queria ser mais uma mulher na lista dele. Eu sabia que ele, indiscreto, contava, com todos os pormenores, para o Feliciano, o confidente dele, tudo o que se sucedia sob os lençóis, e o Feliciano anunciava, em rede nacional, tudo o que o Leandro lhe relatava. Discreto ele, né? Eu soube que o Leandro ficava, um dia, com a Cinira, no outro, com a Andressa, no outro, com a Natália, e com outras mulheres. A lista é extensa. Eu não permitiria que o Leandro me reduzisse a um nome na agenda dele. Eu sabia que ele me desejava. Ao contrário das outras mulheres, eu o desprezei. Ele me convidou para almoçar, jantar, ir ao cinema, ao zoológico, ao parque, à praia. Recusei todos os convites. Fui, reconheço, malvada com ele. Arrependi-me de dispensar-lhe tal tratamento… Eu o via com aquele olhar… Eu pensava em parar com o meu joguinho, e ceder ao Leandro… Eu o desejava. Ele é um gato. Ele é inteligente. Ele é elegante. Ele é charmoso. E aquele sorriso derrete-me. Aquele olhar… Minhas pernas tremiam sempre que o Leandro aproximava-se de mim. Meu corpo ardia de prazer, mas eu tinha de conter o desejo que me assaltava sempre que ele, tão perto e tão longe… Você não imagina como foi difícil resistir às abordagens do Leandro… Eu desejava dizer sim a todos os convites que ele me fazia. Eu o desejava, mas eu não queria ser reduzida a um nome na agenda dele. Meu nome seria o único nome de mulher na agenda do Leandro. O Leandro, esnobado, desprezado, provocava-me. Para me provocar, ele ficava com a Úrsula, com a Andressa, e com a Natália, aquela… Sei que ele sabia que eu e a Natália não nos gostamos uma da outra. O bobo pensou que me provocava. Ele, sempre que eu estava perto dele, e ele conversava ou com o Feliciano, ou com o Milton, ou com o Adriano, ou com o Arthur, ou com o César, falava da Natália e a elogiava. O propósito dele: provocar-me ciúme. A Natália é bonita, reconheço, mas ela não é tão bonita como o Leandro falava que ela é. Ora, não sou cega. Quando vejo uma mulher bonita, admiro-lhe a beleza, e até a invejo. A Tábata, por exemplo. Ela é linda. Eu gostaria de ter os olhos azuis dela, e as maçãs do rosto também. A cinturinha… Nossa! Nunca vi outra mulher com tal cinturinha! A Tábata é a mulher mais bonita que já vi. Tem um corpo perfeito. Ela é mais bonita do que eu, reconheço. A Natália… Ela não é mais bonita do que eu. Ela não é inteligente, nem espirituosa. Não digo isso por despeito. Digo isso porque é a verdade. Se quiser confirmar o que digo, converse com ela por alguns minutos. Bastam alguns minutos de conversa com ela para você se convencer de que digo a verdade. E sucederam-se os capítulos desta novela. Percebi que o Leandro estava desesperado. Ora, se ele saía com a Natália, minha desafeta, minha arquiinimiga, para me provocar, era porque ele estava desesperado, e apaixonado, apaixonado por mim, obviamente. E o que fiz? Eu o abordei. Eu me insinuava. Eu me aproximava dele e me fazia presente e atenciosa, mas dele conservava distância respeitosa. Eu lhe provava, assim, que eu não era como as outras mulheres, e o meu nome não seria mais um nome na agenda dele, e a minha foto não figuraria no álbum de fotos dele ao lado das fotos de dezenas de outras mulheres. Notei uma mudança, imperceptível, no comportamento do Leandro: Ele raramente saía de casa, ia às baladas uma vez ou outra, afastou-se das outras mulheres, desmanchou o namoro com a Natália. Vamos dizer a verdade: não era namoro; era apenas um caso. O Leandro usava a Natália para me provocar. Eu… Cheguei numa encruzilhada. Na sexta-feira, ao anoitecer, fui à casa do Leandro. Apertei a campainha, e o esperei. Assim que ele abriu a porta, eu o beijei na boca. Ele não resistiu. Eu o conquistei. O gato é meu. Falei para ele: “Jogue no lixo a agenda com os números dos telefones de todas as mulheres que você já conheceu e as fotos de todas elas. Agora só há uma mulher na sua vida: Eu.” Ele jogou a agenda e as fotos de todas as mulheres no lixo. Em seguida, dei-lhe uma agenda nova, entreguei-lhe uma caneta, e disse-lhe para escrever o meu nome e o número do meu telefone. Ele os escreveu. Dei-lhe uma foto minha, e ele a colou na agenda. O meu nome é o único nome na agenda do Leandro. A minha foto é a única foto na agenda dele. O Leandro é meu, exclusivamente meu, inteiramente meu. O coração dele me pertence. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

Quem com ferro fere com ferro será ferido

Certo domingo, estávamos, na praça Emílio Ribas, conversando, eu, Marcelo, Paulo e João. Os filhos de Paulo, Cláudio e Rodrigo brincavam de pega-pega. Não eram dez horas da manhã. Havíamos nos retirado da Igreja de Santa Teresinha vinte minutos antes. E na praça nos detivemos. De repente, ouvimos alguém gritar:

– Olha o gordo!

Voltamos a nossa atenção para a direção da qual chegou-nos a exclamação. Era Mauro, que, do outro lado da rua, gritava, apontava João, e gargalhava.

Mauro tem um metro e sessenta e cinco centímetros de altura. Branco – não de todo; e loiro – não totalmente. Magro – não direi magro; nem esbelto é. Não é bonito; e nem feio é. Não agrada as mulheres, e não lhes inspira repulsa. Para muita gente ele é irritante, intragável; mas há gente que com ele se simpatiza.

– Esse gordo é muito gordo – prosseguiu Mauro, apontando João. – Gordo! Bolo fofo! Rolha de poço! Precisam de você, na represa, para tampar a rachadura. Bolo fofo! Elefantinho da mamãe.

João, furioso, exibiu um gesto obsceno para Mauro. Paulo, eu e Marcelo pedimos-lhe que não se deixasse levar pelas provocações, mas ele, ignorando-nos, afastou-se de nós, andou na direção de Mauro, exibindo-lhe gestos obscenos e acenando-lhe para que ele se detivesse, que lhe daria boas lições. Mauro provocava-o. Paulo, eu e Marcelo pedimos, em vão, a João que ignorasse Mauro. João dele aproximou-se. Preparou-lhe um soco. Mauro esquivou-se, agachando-se, sorrindo, e afastou-se, passos acelerados, de João; dele distava uns três metros quando pôs-se a gargalhar, e a provocá-lo.

– Quando eu pegar você, Mauro – ameaçou João -, quebrarei seu nariz.

– Pegar-me? – desafiou-o Mauro. – Pegar-me, barril de banha? Você é mais lento do que uma lesma obesa, reservatório estratégico de gordura. Venha me pegar, pança de panda.

E afastava-se Mauro, sorrindo, de João, que o fitava, cenho franzido, furioso, contendo-se. João, ao olhar para a sua direita, viu uma pedra, pegou-a, e voltou-se para Mauro, que, passos apressados, dele afastou-se, zombando. João largou a pedra na calçada, e foi, extremamente irritado, até Paulo, Marcelo e eu.

Permanecemos, na praça Emilio Ribas, durante mais quinze minutos, e rumamos, cada um de nós para a sua casa.

Naquele mesmo domingo, no bar do Gonzaga, um pouco depois das quatro horas da tarde, assistíamos ao jogo de futebol entre o Corinthians e o São Paulo. Eram mais de vinte os homens dentro daquele pequeno bar, todos a olhar, vidrados, para a tela da televisão, e a esbravejar, e a disparar obscenidades contra o árbitro, os jogadores, os técnicos, os bandeirinhas e os gandulas. Alguns dentre nós éramos corinthianos; outros, sãopaulinos.

Ouvimos, em certo momento, um grito:

– Maranhão!

E olhamos, todos os que estávamos no bar, para a porta, e deparamo-nos com Mauro. Houve aqueles que, previdentes, desafetos de Mauro, retiraram-se do bar, por uma porta, enquanto no bar Mauro entrava por outra porta e encostava-se ao balcão. Maranhão, cujo nome é Vitoriano, estava na outra extremidade do balcão, distante de Mauro quatro metros. Fitou-o, olhar seco, de poucos amigos. Entreolhamo-nos muitos dentre nós. E Gonzaga solicitou a Mauro que não provocasse Vitoriano. Antevi a briga. Vitoriano é oriundo do estado do Maranhão, daí o seu apelido. Quase todos os que o conhecemos o chamávamos por tal alcunha; codnome, diz o Gonzaga, de agente secreto. Vitoriano é robusto, de pele áspera curtida de sol, atarracado, mãos enormes, calosas, de dedos grossos e nodosos, e braços de musculatura pétrea.

Enquanto assistíamos ao jogo de futebol, em clima de flaflu, Mauro zombava de Vitoriano, do seu tipo físico, da sua calvície precoce e pronunciada, da sua estatura baixa, da sua pele, do seu sotaque, do formato da sua cabeça. Para surpresa de todos nós, Vitoriano conservou-se, no banco, sentado, ao balcão, degustando da loirinha gelada e dos petiscos de palitinho. Mauro ridicularizava-o, e o silêncio de Vitoriano fê-lo intensificar as chacotas. Pedimos a Mauro que cessasse as provocações. Ele, no entanto, ouvidos moucos, seguia com elas, até que disse as palavras que desencadearam a fúria de Vitoriano:

– Como você nasceu, Maranhão? Quando você nasceu, a sua mãe olhou para você, e gritou: “Meu Deus! Padim Ciço, proteja-me! Que horror! Como essa criatura monstruosa entrou em mim? Não é meu filho. Eu estava bêbada quando o pai dele o fez em mim.”

Uma garrafa riscou, como um míssil, os quatro metros que separavam Vitoriano de Mauro, e estilhaçou-se na parede. Mauro, que mal teve tempo de se mexer, deslocou-se alguns centímetros para a direita, o suficiente para sair da trajetória da garrafa. Vitoriano abriu passagem, como um touro, por entre nós, deslocando-nos com os braços, e foi na direção de Mauro, que tratou de girar sobre os calcanhares e passar sebo nas canelas. Correu Mauro uns dez metros, e voltou-se para trás, para ver, à porta do bar, Vitoriano, parado, fitando-o, e acenou-lhe, debochando.

Vitoriano prometeu, para si mesmo, que um dia agarraria Mauro pelo pescoço e fender-lhe-ia o ventre com uma peixeira.

Encontrei-me com Mauro, na fila do banco C…, na segunda-feira, e falei-lhe da promessa que João e Vitoriano fizeram. Mauro deu de ombros.

– Eles só ameaçam – disse Mauro, sorrindo. – São idiotas, aqueles dois. O João é gordo; o Maranhão é nordestino. Ambos são mais burros do que uma porta. Não vou esquentar a minha cabeça com aqueles dois imbecis fracassados.

Uma semana depois, no Clube Esportivo São Benedito, Mauro aproximou-se de um grupo de homens, saudou-os – muitos dentre eles o saudaram de má-vontade -, e deteve-se em Guilherme, de estatura um pouco maior do que a dele, magro, na altura dos trinta anos, cabelos repartidos ao meio, de óculos de lentes grossas. Mauro, sorrindo, fitava-o como se o examinasse. Guilherme fez que não o viu, e não interrompeu a sua conversa com Vinicius, que se sentiu incomodado com a atitude provocativa de Mauro.

– Pelo amor de Deus. – exclamou Mauro, fitando Guilherme, que não se voltou para ele. – De qual planeta você veio? – perguntou-lhe, tocando-o no ombro, e só então Guilherme e Vinicius interromperam a conversa, e Guilherme voltou-se para Mauro. – Você parece um alienígena com esses óculos, Guilherme. E esses cabelos! Que penteado horroroso! Cruz credo! Você não nasceu! Você foi cuspido! – e gargalhou, dobrando-se sobre si mesmo.

Guilherme, para surpresa de Mauro, disse-lhe, com voz calma, em tom firme:

– Você já se olhou no espelho? Você parece um rebento do cruzamento de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, com o Sméagol, o monstrinho do Senhor dos Anéis.

Mauro, de imediato, disparou-lhe um soco; Guilherme aparou-o, e encaixou-lhe um soco no peito, e se pôs de modo a dissuadi-lo de querer uma briga. Mauro, ciente de que não poderia sobrepujar Guilherme, mão direita a massagear o peito no ponto que Guilherme lho atingira, afastou-se dele, esbravejando:

– Idiota! Imbecil! Idiota! Nunca mais zombe de mim! Vá para o inferno, vagabundo! Vá para o inferno!

E Mauro abriu espaço pela multidão, e retirou-se do clube.

Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

Sob o domínio do desejo

Ludmila, jovem de olhar meigo e sorriso encantador, é uma das mulheres mais sedutoras que já pisou na face da Terra. Para seduzir o homem que deseja, ela não emprega nenhum artifício. Ela nasceu para seduzir. Sua beleza deslumbrante, seu sorriso cativante, seu corpo vistoso, seu olhar divino e seu pudor angelical seduzem todos os homens. Há mulheres mais belas e mais atraentes; nenhuma é tão sedutora.

Os homens, ao admirá-la, perdem a cabeça. As mulheres, principalmente as bonitas, invejam-na, e esforçam-se para entender a atração que ela exerce nos homens, e dela copiam as roupas, o penteado, o perfume, o timbre da voz, o sorriso, o andar, o olhar, mas não conseguem copiar-lhe o poder de sedução; algo, na postura de Ludmila, lhes escapa.

Certo dia, Ludmila conheceu um homem que resistiu ao seu poder de sedução, aos seus encantos.

Quem é o homem que resistiu aos encantos de Ludmila?

A história teve início numa quente manhã de segunda-feira.

Ludmila caminhava pela avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso. Usava um vestido decotado cujas orlas inferiores mal desciam até a metade de suas coxas; o decote generoso deixava à mostra a parte superior de seu busto esplêndido. Os homens embasbacavam-se, boquiabriam-se ao admirá-la. Não foram poucos os que assobiaram para Ludmila, expressando todo o desejo que ela lhes inspirava. Queixocaídos diante de tão esplendorosa maravilha, atoleimados, mergulhavam num abissal estado letárgico do qual emergiam muito tempo após Ludmila sair do campo visual deles, mas a imagem daquele corpo deslumbrante perdurava-lhes no espírito.

Em frente da loja Casa Futurística, Ludmila viu um homem de óculos, um pouco mais alto do que ela, bonito, atraente, esbelto, de cabelos castanhos penteados para trás. Ele atraía a atenção de todas as mulheres, que suspiravam ao admirá-lo. Uma vez ou outra, quando uma mulher encarava-o com insistência e indiscrição, provocando-o, ele sorria, deliciado, e exibia seus dentes brancos. Ludmila percebeu que ele a viu, fitou-a por uma fração de segundo, e por ela não deu mostra de interesse. Após passar por ele, Ludmila, depois de alguns passos, voltou-se para trás e, fingindo olhar para as vitrines da loja Perfumes, fitou-o, e viu, para seu desgosto, que ele não se voltou para trás, para admirá-la, como faziam todos os homens, e irritou-se. À noite, ela não conseguiu conciliar o sono, pois a indiferença daquele belo espécime incomodou-a.

Quem era aquele belo homem? Nos dias seguintes, Ludmila pensou nele, obcecada. À noite, com pálpebras cerradas, desperta, evocava-o, e usufruía de sensações que nunca experimentara.

Nos dias seguintes, sozinha, Ludmila caminhou pelas ruas do centro da cidade à procura do belo homem que abalara a sua confiança em si mesma. Transcorreram-se duas semanas. Ela não o encontrou. Por onde ele andaria? Seria ele um morador da cidade? Qual a idade dele? Qual o nome dele? O coração de Ludmila vibrava rápido sempre que o evocava em pensamentos, ao acordar, ao almoço, ao banhar-se, ao pentear os cabelos, enquanto trabalhava, enquanto atendia aos clientes.

*

Ludmila caminhava pela praça Gilberto Freyre. Usava saia curta e camisa decotada. Atraía todos os olhares. Os homens a admiravam. As mulheres a invejavam e suspiravam, não de desejo, como os homens, mas de raiva. Ludmila dava-se conta da atração que exercia sobre os homens. Viu, para sua surpresa, andando em sua direção, conversando com uma japonesa, o belo homem que a atraíra, que nela exercera irresistível atração, e que a ignorara, dezoito dias antes. Suspendeu a respiração, sentiu aperto no coração e falta de ar. Desacelerou os passos. Cravou os olhos no belo homem, que exibia, num sorriso encantador, que deixou Ludmila deslumbrada, belos dentes brancos. Encarou-o, indiscreta. Aproximou-se dele. Passeou as mãos pelos cabelos. Do belo homem não desviou os olhos. Um pouco antes de cruzar o caminho dele, os olhos dele e os seus encontraram-se. Ele sorriu. Ludmila abriu um sorriso tímido, intimidada. Poucos metros adiante, ela sentou em um banco da praça e, fingindo procurar qualquer coisa na bolsa, olhou para o belo homem e para a japonesa, que se afastavam. Ele não olhou para trás, nem uma vez, para olhar para Ludmila, que mordeu-se de raiva, ferida em seu orgulho.

Depois do almoço, Ludmila foi ao banco, na rua do Encilhamento. Na fila, o belo homem, para quem, percebeu Ludmila, três mulheres olhavam, apaixonadas. Ludmila deteve-se atrás dele. Esperava que ele voltasse para trás e a olhasse, a admirasse, e se encantasse com ela. Ele, em certo momento, voltou-se para trás, e viu Ludmila. Nela deteve o olhar por uns poucos segundos, o suficiente para estudar-lhe o rosto e o busto. Ludmila sentiu o sangue ferver. Moveu a cabeça, jogou os cabelos para trás, puxou-os para a frente, e empinou o busto. O belo homem, contrariando as expectativas de Ludmila, não se interessou por ela, e voltou a sua atenção para uma mulher que passava por ele.

Cinco minutos depois, uma loira aproximou-se do belo homem.

– Lauro – disse-lhe ela -, aqui está o troco da conta que paguei no banco A**.

– Obrigado, Tereza. Aonde você vai?

– À loja Íntima e Decente. Tenho de pagar uma conta.

– Irei ao restaurante Bom Almoço, assim que eu me retirar daqui.

– Você ainda não almoçou?

– Não. E você?

– Já. Mas farei companhia para você. Até mais.

– Tchau. Não demorarei aqui.

– Não conte com isso.

Despediram-se.

Ludmila não perdeu nenhuma palavra deste diálogo. Esperou por uma oportunidade para puxar conversa com Lauro. Aproveitou a primeira que se lhe ofereceu assim que Lauro se virou para trás.

– Que calor! – comentou Ludmila. – O banco, lotado, parece um forno.

– Já enfrentei uma fila, hoje, pela manhã – comentou Lauro. – Um inferno!

– Infelizmente, os bancos não contratam caixas. Veja, há apenas dois.

– Sairemos daqui às três da tarde.

– Se tivermos sorte – Ludmila sorriu.

– Talvez tenhamos sorte, hoje. Detesto bancos.

– Além dos banqueiros, quem gosta de bancos?

A conversa prosseguiu, descontraída, até vinte e oito minutos depois, quando Lauro foi atendido por um caixa. Durante esse tempo, Ludmila esperou que ele lhe pedisse o nome, mas ele não lho pediu, para seu desgosto, e, para seu maior desgosto, Lauro não se mostrou seduzido pela sua beleza.

Ludmila foi atendida pelo outro caixa. Ela pagou uma conta, e retirou-se do banco antes de Lauro, e esperou-o à porta. Para que ele não soubesse que o esperava, fingiu procurar alguma coisa na bolsa que trazia a tiracolo.

Lauro saiu. À porta do banco, encontrou-se com Ludmila e com ela encetou conversa. Em nenhum momento perguntou-lhe o nome, nem demonstrou-se por ela seduzido. A sua postura, ao mesmo tempo que irritou Ludmila, ao feri-la na vaidade de mulher atraente e sedutora, fê-la admirá-lo.

– Vou comer um lanche – disse Ludmila. – Estou com fome.

– Em qual restaurante? – perguntou Lauro.

– No Bom Almoço.

– Que coincidência. Vou me encontrar, lá, com a Tereza. Se você quiser, faça-nos companhia.

Dirigiram-se ao restaurante Bom Almoço. Tereza aguardava Lauro. Lauro apresentou Ludmila para Tereza e Tereza para Ludmila. Sentaram-se à mesa. Lauro almoçou. Tereza e Ludmila comeram, cada uma, um lanche, e beberam, Tereza, laranjada, Ludmila, suco de uva. Os três conversaram, descontraidamente. Em nenhum momento Lauro agiu como se Ludmila o houvesse seduzido. E ela notou que ele era muito atencioso com Tereza, que não era bonita.

O telefone celular de Tereza vibrou. Ela o atendeu; ao fim da conversa, anunciou a sua retirada do restaurante.

– Terei de ir, Lauro. O dever me chama. Deixarei vocês aqui. Comportem-se, hein. Tchau, Lauro. Tchau, Ludmila. Gostei de conhecer você. Você é muito simpática.

– Você também – saudou-a Ludmila, que se levantou, ao mesmo tempo que Tereza curvava-se um pouco para a frente, e despediu-se dela com dois beijos, um em cada face (sem encostar os lábios no rosto e estalando os lábios ao descolá-los) – Nos veremos, qualquer dia.

– Tchau, Tereza – despediu-se Lauro. – Passarei na sua casa, à noite.

– Esperarei por você. Tchau – e Tereza beijou-o no rosto.

Assim que Tereza retirou-se, Ludmila comentou:

– Simpática, a Tereza.

– Conheço-a desde o pré-primário. Tivemos um namorico aos quinze anos. E hoje somos bons amigos.

– Ela é muito animada.

– Ela sempre foi assim, de bem com a vida.

– Gosto de gente assim.

– Ela é esperta, brincalhona, divertida. Para ela, não há tempo ruim. Faça chuva, faça sol, ela está sempre com um sorriso no rosto, a despeito de todas as tragédias que viveu.

Lauro falou da vida de Tereza, atribulada, repleta de tragédias: a morte do irmão caçula e a da irmã; o acidente sucedido com sua mãe, que ficou paraplégica; as aventuras extraconjugais de Mário, de quem divorciou-se e quem a infectou com o virus HIV. Ludmila, admirada e surpresa ao ouvir tais relatos, disse que entendia porque ele, Lauro, admirava a Tereza, e se convenceu de que, para conquistar Lauro, teria de, além de usar de sua beleza, de seu natural poder de sedução, empregar artifícios para atraí-lo, pois ele não dava valor à beleza física, mas, sim, ao caráter e à força de vontade, e perguntou-se o que tinha a oferecer-lhe além de um belo corpo.

Retiraram-se do restaurante após as cinco horas da tarde. Andaram pela rua dos Expedicionários e pela avenida Dom João VI, e entraram na rua José de Anchieta, e andaram até a casa de Lauro, detiveram-se diante do portão, e Ludmila levou sua mão direita ao rosto de Lauro, puxou-o para si, e beijou-o, ardentemente, apaixonadamente.

Três horas depois, encontraram-se na casa de Ludmila, onde passaram uma noite de intensa paixão.

*

– Garanhão, conte-me o que ocorreu, ontem, à noite – exigiu Tereza, ávida por revelações indiscretas, na tarde do dia seguinte, na praça Gilberto Freyre. – Conte-me, bandido. O que aconteceu? Conte-me a história, tintim por tintim. Não quero perder nenhum detalhe.

– Por que tanta animação?

– Ajudei você a ir para a cama com a Ludmila. Tenho o direito de saber o que aconteceu.

– Você e a japinha.

– É verdade. A Maura também. Ela merece a sua gratidão. Conte-me: A diaba cedeu aos seus desejos, às suas fantasias?

– Realizei todas as minhas fantasias.

– Quando você diz “todas as minhas fantasias” você quer dizer todas as suas fantasias?

– Exatamente. “Todas as minhas fantasias” é todas as minhas fantasias.

– A Ludmila não reconheceu você?

– Não.

– Também pudera! Você era tão feio! O tempo passa… Nenhuma mulher, nunca, iria namorar você, se você continuasse feio do jeito que era.

– Você me anima, Tereza.

– Mas agora você é muito bonito. E deu uma lição na Ludmila. Você seduziu a sedutora. Um dia é da caça; o outro, da caçadora. A Ludmila, tão cheia de si, desde que a conheço… Ela não nos reconheceu. Ela não me reconheceu.

– Ela nunca reconheceria você, Tereza. Nunca. Ela não conversava com ninguém, lembra-se? Tão cheia de si, a Ludmila, que se bastava a si mesma. Com quem ela conversava, na escola? Com a Míriam e com a Larissa, as duas mulheres mais chatas e arrogantes que conheci. A Ludmila, lembra-se?, disse-me, no colegial, quando a pedi em namoro, que não namoraria comigo porque eu era feio e pobre. E ela também me disse que nunca iria para a cama comigo, porque sentia nojo de mim.

– O que aconteceu depois… Hoje, pela manhã… Conte-me.

– Ela me disse que me conquistara, e estava muito feliz com isso.

– Ela conquistou você? Foi isso o que ela disse?

– Foi. Ela inverteu os papéis. Ela ficou caidinha por mim. Quando cruzei o caminho dela, perto da loja Casa Futurística, ela me viu, e eu a ignorei. Ontem, quando eu e a Maura passamos por ela, ela não tirou os olhos de mim. Depois, no banco, enquanto eu e você conversávamos, ela nos ouviu falar do restaurante Bom Almoço, e, esperta, não perdeu a oportunidade… Caiu nas garras do gostosão.

– Você está se achando o maior conquistador do mundo.

– Que nada! Sem as suas dicas, eu não teria êxito. Você me disse para eu desprezar a Ludmila, que ela cairia na minha rede. Dito e feito. Tereza, contei para a Ludmila que não me chamo Lauro, mas Gumercindo, e perguntei-lhe se ela se lembrava desse nome. Ela fez cara de espanto. Aí, evoquei o dia em que a pedi em namoro, e perguntei-lhe se ela se lembrava do que disse sentir por mim. Ela arregalou os olhos, Tereza. Você tinha de estar lá para ver. Ela me disse: “Você! Gumercindo! Você está tão diferente!” E eu lhe disse que cresci, melhorei minha aparência, e fiquei bonito, e rico, e coisa, e tal, e disse-lhe que eu a atraíra e a seduzira. Ela não me quis acreditar, e expliquei-lhe o que aconteceu desde o primeiro momento em que eu e ela cruzamos um o caminho do outro. E disse-lhe que eu desejava uma noite de prazer com ela. E a conseguira. Perguntei-lhe se ela sentia nojo de mim, ou dela. Ela ficou fula da vida! Conteve-se, para não fazer escândalo. Estou certo de que ela deseja devorar-me vivo.