Uma história com final feliz

Às dez da manhã, depois de um lauto banquete matinal na companhia de Carmem, sua esposa, jovem acobreada, fornida e fogosa, de vinte e dois anos, e dela despedir-se com um beijo, casto, nos lábios carnudos, João saiu da sua casa e rumou à agência bancária situada à margem direita, no sentido bairro-centro, da Praça Fernando Pessoa, e para o interior dela seguiu, a passos lentos, calculados, subindo os degraus de um em um, olhando de um lado para o outro, como que à procura de alguém conhecido. Não foi do seu agrado a cena que presenciou. Aos seus olhos, revelou-se um aglomerado barulhento de gente de todos os tipos, de todas as raças, de todos os credos, a enxamear a agência, um vozerio ensurdecedor a preencher-lhe todos os cantos. Deteve-se, ligeiramente desanimado, ao enquadramento da larga entrada, e, contrariado, circunvagando o olhar, passando-o, rapidamente, de uma pessoa à outra, certo de que encontraria um rosto conhecido, e não o encontrando, deu, hesitante, o primeiro passo para o interior da agência bancária, e, a passos lentos, mas não muito seguros – pensamentos instando-o a dar meia-volta e regressar à sua casa – orientando-se, e quase se perdendo, em tal labirinto humano, conseguiu, enfim, solicitando orientação dos que ocupavam espaços no interior do estabelecimento e recebendo orientações, que ele não solicitou, e que o desorientavam, de pessoas que, vendo-o desorientado, o auxiliavam a se encontrar, a se encaminhar, até o fim da fila de pessoas, que se organizavam, como o podiam, para pegarem uma senha, cada pessoa uma, e de posse da senha, passarem pela porta giratória, e, sentados e em pé, esperarem um caixa, um dos três presentes, as atenderem. E posicionou-se atrás de uma velha de uns oitenta anos, cãs espessas a cobrirem-lhe a cabeça, emoldurando-lhe o rosto encovado de olhos minúsculos, azuis-claro, ocultos sob grossas sobrancelhas brancas, e de nariz fino e pontudo e lábios esmaecidos, e que trazia a tiracolo uma bolsa florida e cujos trajes lhe indicavam a sua origem humilde. E suspirou, certo de que desperdiçaria um bom tempo da sua curta existência esperando ouvir o número de sua senha proferido numa voz eletrônica e o visse exibido num monitor exposto logo à frente da parede que separava os caixas dos clientes.

José, homem na altura dos seus sessenta anos, rechonchudo, de rosto rosado, de baixa estatura, calvo, dono de orelhas de abano razoavelmente pronunciadas, que se ocultavam, em parte, atrás das bochechas salientes, uma hora antes retirara-se do consultório odontológico, onde permanecera, na sala de espera, quarenta minutos, e, sentado na cadeira odontológica, a dentista a examinar-lhe os dentes, cinco minutos, o que o inspirara a contar à dentista, Larissa, mulher de trinta anos, simpática, espirituosa, cuja presença o animava e inspirava-lhe bons sentimentos, uma anedota: a de que ele, José, era um homem de muita sorte, pois ela, Larissa, não cobrava honorários pelo tempo que ele, na sala-de-espera, sentado no confortável sofá, aguardava ser atendido. Expandindo-se num contagiante sorriso, Larissa exibira seus branquíssimos dentes, que pareciam de leite, embora fossem permanentes, concedendo a José o privilégio de admirar-lhe as covinhas que se lhe formavam, nas bochechas, durante a exibição do majestoso sorriso, que José, no desejo de presenciá-lo, ia ao consultório, carregando consigo, na massa cinzenta, nas palavras dele, um bom sortimento de anedotas, todas de elevado teor cômico. Neste dia, pôde ele contar à sua dentista apenas uma anedota, a acima apresentada numa síntese que lhe guarda o conteúdo, pois Larissa teria de, às pressas, retirar-se do consultório, para ir ao hospital, para um atendimento de emergência, que lhe solicitavam. José, a contragosto, desejando dilatar a sua presença na companhia de tão graciosa dentista, cujas virtudes muito o encantavam, acolhera a justificativa, e não prolongara a conversa, como fazia de hábito, e despedira-se de Larissa, e retirara-se do consultório. E agendara outra consulta, com a secretária, Mariana, jovem de dezoito anos, dona de sedosos cabelos pretos, lisos, brilhantes, que se lhe encachoeiravam pelos estreitos ombros e esbelto colo, para dali dezesseis dias. Descera, pelo elevador, os sete andares, que o separavam do térreo, andara, a passos apressados, até o estacionamento, entrara no seu carro, dera a partida, e chegara, após vinte e cinco minutos gastos num trânsito caótico, percorrendo um percurso que, em dias normais, cobria em dez minutos, à agência bancária situada à margem direita, no sentido bairro-centro, da Praça Fernando Pessoa, e subira a escadaria de dois em dois degraus. E logo enveredara pela agência bancária, e desembestara a comentar a situação em que se encontrava, antevendo o transtorno que enfrentaria no interior daquela agência bancária, que era, segundo ele, o purgatório. Encontrando, após procurá-lo durante um tempo razoável, o fim da fila, pusera-se atrás da última pessoa que a ocupava, que era o já nosso conhecido João.

Não demoraram os nossos dois personagens a entabularem conversa recheada de comentários jocosos, ambíguos, com trocadilhos criativos, que deles revelavam o espírito brincalhão, espirituoso, engenhoso. Principiaram a conversa a tratar, desembaraçados, desinibidos, despreocupados, de atos políticos de autoria do prefeito municipal e dos vereadores, mencionando, e revelando-se ambos críticos ferozes, contumazes, dos políticos, chamando, ambos, a atenção para obras inacabadas e mal feitas; logo em seguida, entraram a falar, no mesmo tom desinibido, livre, de futebol, para, logo que passaram pela porta giratória, após pegarem, cada um deles, uma senha, já esquecidos do assunto que lhes animara a conversação, tratarem de casos sucedidos com alguns membros da família, parentes e familiares, e amigos de longa data, e familiares e parentes destes, e de casos de tráfico de drogas, e do mal que a omissão do poder público, a conivência de agentes do governo, a indiferença e negligência de muitos pais na educação de seus filhos têm produzido no mundo. Ambos revelaram-se preocupados com a situação, calamitosa, preocupante, concordaram entre si, que envolvia os jovens e o consumo e tráfico de drogas. Foi ao fim deste assunto que José, após pigarrear, a mão direita fechada à frente da boca, disse, como se revelasse uma história inusitada, inédita, extraordinária, misteriosa, usando de um tom de voz distinto do que usara até então:

– Vou contar para você, João, uma história com final feliz. Hoje, às quatro da madrugada, despertou-me um amigo, amigo antigo, do tempo da infância, do tempo do onça, o Roberto, Carlos Roberto, Betinho para os amigos íntimos, os amigos do peito. Imagine: às quatro horas da madrugada, dormindo a sono solto, num sono de pedra, sonhando com os anjos… Para dizer a verdade, eu não sonhava com os anjos; eu sonhava com um peixão, com uma sereia de dar água na boca, de deixar todo homem de queixo caído, embasbacado, perdido, vendo estrelas. Eu dormia a sono solto, sono pesado… Imagine-se no meu lugar: dormindo tal qual uma pedra, sonhando com uma sereia cor de jambo, e de repente, às quatro da madrugada, tocam a campainha uma, duas, três, quatro, cinco, trezentos milhões de vezes, numa sucessão de enlouquecer todo e qualquer filho de Deus; e você acorda, assustado. E o que você pensa assim que acorda, abre os olhos, e ouve a campainha soar como se um louco, um maluco, um sandeu, um mentecapto, a apertasse sem cessar? O seu desejo é o de pegar um revólver e meter uma bala na cabeça do filho-da-mãe que aperta a campainha. E foi esse o desejo que me fez me retirar de sob o lençol, e da cama, trajado à caráter, um pijama azul a cobrir-me as  vergonhas. Liguei o monitor da câmera de segurança, e o que vi? Aliás, quem eu vi, à frente do portão da minha casa, a apertar, possuído pelo demônio, a campanha da minha casa? O Betinho. Ele, em carne e osso. Praguejei. Amaldiçoei-o. Ofendi-lhe a mãe. Que me perdoe a dona Elizabeth, mulher santa, generosa, que merece todo o carinho do mundo. Que amaldiçoado seja o Betinho! Acordar-me às quatro horas da madrugada. Para que a minha patroa não acordasse, ela, que dormia como um anjo, a amaldiçoar o Betinho, e certo de que tinha ele noticia importante a me dar, do contrário ele não iria ter à minha casa às quatro horas da madrugada, andei, descalço, a passos acelerados, até o portão, e abri-lhe a porta. E ele, antes mesmo de adentrar os domínios da minha humilde casa, disse-me: “Zé, há duas horas, na via Marechal Floriano Peixoto, em um acidente envolvendo um ônibus, dois caminhões e quatro carros, morreram vinte e uma pessoas.”

– História com final feliz?! – perguntou João, surpreso, estupefato, confuso, a fitar, com olhos arregalados e sobranceiras arqueadas, José, assim que este se silenciou indicando que encerrara a sua narração. – Final feliz!? Essa história tem final feliz?!

– É claro que ela tem final feliz – respondeu-lhe José, um sorriso maroto a adornar-lhe o rosto rechonchudo. – Eu sou o dono da agência funerária.

Publicidade

Patrulheiros Fique Em Casa (Versão 2)

Eram seis horas da manhã.

João despertou, moveu-se, na cama, sob o fino lençol, lenta e cuidadosamente, para não acordar sua esposa, que fôra, às duas da madrugada, dormir, exausta, após um dia de muitas tarefas, no transcurso do qual dedicou-se a cuidar de seu pai, um ancião enfermo, que requer muitos cuidados. Sem fazer ruídos, sentou-se na beira da cama, calçou os chinelos, e retirou-se do quarto, e foi ao banheiro, onde deixara, na véspera, as roupas que usaria durante o dia de trabalho. Banhado, barbeado, penteado, perfumado, retirou-se, vinte minutos depois, do banheiro, andando pé ante pé, para não acordar sua esposa, que merecia o sono dos justos, e rumou à cozinha, onde preparou o seu café-da-manhã, e o de sua esposa e os dos três filhos. Eram sete horas e quarenta e cinco minutos, um de seus filhos, o primogênito, jovem recém-entrado na vida adulta, foi à cozinha, e saudou-o com a benção costumeira. João respondeu à saudação, orientou-o quanto às tarefas do dia, disse-lhe que ele ajudasse à mãe a cuidar dos irmãos menores e os entretivesse, e lhes aplicasse uns sopapos e puxões de orelhas, caso eles os merecessem. Pai e filho conversaram até às oito e meia. E despediram-se. Após pegar, de sobre a estante da sala a carteira, João retirou-se da sua casa, e deu os primeiros passos para ir à empresa.

Na casa vizinha à de João, às oito horas, acordaram José e sua esposa. Ela ficaria em casa, cuidando dos afazeres domésticos e entretendo os três filhos, todos crianças, o primogênito de oito anos. E José iria à empresa. José banhou-se. E comeu e bebeu do café-da-manhã que sua esposa lhe preparara. Com sua esposa conversou durante uns dez minutos, e dela recebeu uma pequena folha de papel sulfite com a lista de compras e uma receita médica e uma fatura da empresa de fornecimento de energia elétrica, e recomendações quanto à marca de alguns produtos e a composição deles. Após ouvir-lhe as orientações e recomendações, dela despediu-se com um beijo nos lábios, e retirou-se da casa, de sua esposa ouvindo que Deus o acompanhasse e para ela dizendo que ela ficasse com Deus. Eram oito e meia.

João e José saudaram-se, e rumaram, juntos, à empresa. Eram amigos de longa data e colegas de trabalho. Inteiraram-se das novidade e criticaram o governador e o prefeito. Elencaram as decisões autoritárias deles. Não haviam chegado à esquina, uma viatura do Patrulheiros Fique Em Casa, em baixa velocidade, aproximou-se deles. João e José, na expectativa, fitaram-la, receosos. Assim que a viatura se lhes aproximou, viram que havia dois patrulheiros no seu interior. Detiveram-se. E o patrulheiro sentado no banco do carona, carrancudo, ríspido, indagou-lhes.

– O que as donzelas estão fazendo aqui?

E José, homem que não leva desaforos para casa, replicou, de imediato:

– Por que você não cuida da sua vida!?

O patrulheiro cerrou as sobrancelhas, mordeu os lábios, rilhou os dentes, concentrou o seu olhar de poucos amigos em José e bufou de raiva. O motorista, se lhe antecipando, e antevendo uma luta corporal entre o outro patrulheiro e José, e medindo o porte deste e calculando a raiva daquele, de quem era conhecedor do temperamento atrabiliário, certo de ser ele um pavio curto, disparou a João e José a ordem:

– Retornem às casas de vocês. E fiquem em casa.

– E por quê?! – perguntou José, num tom de voz alto, desafiador.

– Estamos de quarentena. É ordem: todos devem ficar em casa.

E José replicou.

– E o que vocês dois estão fazendo aqui!? Por que vocês não estão nas casas de vocês?

O patrulheiro sentado, no banco do carona, tratou, e logo, de abrir a porta da viatura, desta retirar-se, e fincar pé diante de José, um palmo separando-o dele, fitando-o nos olhos, bufando, medindo-lhe, instintivamente, a força física. O outro patrulheiro retirou-se da viatura, foi até o seu colega, pediu-lhe calma, e disse para João e José:

– Nós – referiu-se a si mesmo e ao seu colega – estamos fazendo o nosso trabalho.

– E nós queremos ir à empresa fazer o nosso trabalho – replicou João.

– Entendemos, amigo – disse o patrulheiro. – Mas vocês têm de ficar em casa. Têm de respeitar a quarentena – ao dizer tais palavras, pôs a mão direita sobre o ombro esquerdo do seu colega, e a este pediu que se acalmasse e se afastasse de José. Ele lhe atendeu ao pedido, e de José afastou-se, de má vontade, sem desviar, dele, o olhar, em nenhum momento; nem piscar, piscou. E enquanto o patrulheiro de cara-de-poucos-amigos, enfezado, e José, igualmente enraivecido, encaravam-se, prontos para se lançarem um contra o outro e socarem-se até à morte, João e o outro patrulheiro estenderam-se no seguinte diálogo:

– José e eu somos pais de família. Temos de trabalhar, para ganhar o nosso o nosso arroz e feijão de todo dia. Não podemos nos dar ao luxo de permanecermos em casa. Não somos ricos. Não nascemos em berço de ouro.

– Eu entendo…

– Se me entende, deixe-nos ir trabalhar; precisamos do nosso ganha-pão.

– Recebemos ordens para abordarmos todos os elementos…

– Agora somos “elementos”?! Que absurdo! Não somos pessoas, não?!

– Quero que você me entenda. Recebemos ordens…

– Não as cumpra…

– Não podemos.

– E por que não? Ninguém tem de cumprir ordens que prejudicam outras pessoas.

– Ouça…

– Vocês não têm que acolher ordens que contrariem a consciência de você.. A menos que concordem com os desmandos do governador e do prefeito.

– É a lei, meu amigo. É lei. Estamos cumprindo a lei.

Assim que o patrulheiro proferiu tais palavras, José, que, encarando o outro patrulheiro, que o encarava, e que se continha para não se lançar sobre ele, empurrou-o, jogando-o contra a viatura, surpreendendo-o com tal golpe, e atraindo para si a atenção de João e do outro patrulheiro, e para este disse, em tom elevado, aproximando-se dele, desafiador, quase lhe encostando no nariz o nariz:

– Lei!? Lei!? Vocês respeitam leis que impedem as pessoas de trabalharem!? Vocês respeitam leis que impedem as pessoas de tirarem o sustento do próprio trabalho!? Que tipo de homens sãos vocês? Vocês não são homens; vocês são ratos.

Enquanto José lançava tais palavras ao rosto do patrulheiro, o outro patrulheiro, recuperando-se do empurrão, deu uns dois passos na direção de José, punho cerrado. João, mantendo o estado de espírito, interpôs-se entre eles, e foi pelo patrulheiro empurrado. José, aqui, encerrou a sua palestra inspirada pela fúria que ele, com extrema dificuldade, continha, voltou-se para João, e fez um movimento em direção ao patrulheiro que o empurrara, preparado para neste encaixar, na cabeça, um soco; o outro patrulheiro puxou José pelo ombro; e José, instintiva, e automaticamente, moveu, com um gesto abrupto, o braço, acertando-lhe, com o cotovelo, o nariz. João pediu a José calma, chamando-o à razão. Enquanto o patrulheiro golpeado no nariz recuava alguns passos, curvava-se para a frente e levava as mãos ao nariz e o outro patrulheiro, indeciso, olhava ora para o seu colega, ora para José e João, João puxou José para trás, e ambos afastaram-se dos dois patrulheiros alguns metros. E o patrulheiro que até segundos antes desafiava-os, foi até o que massageava o nariz atingido pelo cotovelo de José. Transcorridos alguns segundos, o patrulheiro, após avaliar o nariz do seu colega, voltou-se para José, e disparou-lhe:

– Você irá pagar muito caro pela afronta.

– Você é só um cachorrinho do governador e do prefeito – retrucou José.

João pediu a José calma. Este se conteve. João tinha ascendência moral sobre seu amigo mais novo, homem buliçoso, de muita energia. De temperamento sereno, sempre o orientava, e não foram poucas as vezes que seus conselhos, acolhidos por ele, o impediram de se envolver em apuros. José respeitava-o, reconhecia-lhe a autoridade; daí conter-se assim que ele, de frente para si, olhando-o nos olhos, as mãos pousadas em seus ombros, pediu-lhe calma, numa voz tranquilizadora. José calmo, João voltou-se, fitou os patrulheiros, moveu a cabeça em direção a José, pediu a este que permanecesse onde estava, disse-lhe que iria resolver a questão, e foi até os patrulheiros, aproximou-se deles, e desculpou-se com o patrulheiro golpeado, no nariz, por José, e prosseguiu:

– Estamos todos nervosos com a situação. Não queremos desentendimentos. Eu e José temos de trabalhar. Eu tenho esposa e filhos que precisam de mim, e José é casado, a esposa dele tem de ficar em casa para cuidar dos três filhos deles, todos crianças. E ela não pode ir trabalhar. Ela é professora de uma creche, que está fechada; e os três filhos dela e de José foram dispensados de frequentar a escola. E a esposa de José não sabe se, no próximo mês, receberá o salário, e nem se manterá o emprego, ou se será demitida. Se demitida, a renda da família de José se reduzirá à metade. E se José também perder o emprego!? Vocês me entendem? A situação da minha esposa e minha não é tão preocupante, pois temos um escritório em casa; e minha esposa dá aulas particulares, de inglês, via computador, e tem uma boa renda. Mas eu tenho de conservar o meu emprego; se eu o perder a renda da minha família se reduzirá à metade. E a de José? A esposa dele pode perder o emprego, e José também. E o que será deles e dos filhos deles, se ambos perderem o emprego? De onde eles tirarão o dinheiro de que precisam para comprar a comida para eles e para os três filhos deles? Eles não terão renda.

– Eu entendo – respondeu o patrulheiro que tivera seu nariz golpeado por José. – Mas nós estamos cumprindo ordens.

– E as ordens que vocês receberam – replicou João, seguro de si – são injustas. Vocês não têm a obrigação moral de cumpri-las, se a consciência de vocês entendem que elas fazem mal, muito mal, às pessoas.

Entreolharam-se os dois patrulheiros. João notou que eles estavam confusos, entrechocando-se no cérebro deles pensamentos conflitantes; e se persuadiu de que, com algumas palavras sensatas, poderia chamá-los à razão e fazê-los entender que eles, sendo patrulheiros, têm o desejo de ajudar as pessoas, e não o de prejudicá-las. Antes, porém, de dar sequência à sua palestra, o patrulheiro com o nariz machucado tomou a palavra:

– Todas as pessoas têm de ficar em casa. Fora de casa, podem ser infectadas pelo coronavírus, que já matou milhares de pessoas e que irá matar muita gente se ninguém respeitar a quarentena. Toda pessoa tem de pensar no bem-estar coletivo, e não em si mesma, só nos seus próprios interesses.

– Mas… – principiou João, reconhecendo a intransigência do patrulheiro, presumindo, e corretamente, que a cabeça dele estava recheada de imagens apocalípticas inspiradas pela agressiva campanha midiática que aterrorizou bilhões de pessoas mundo afora; sabia, estava certo, de que seria praticamente impossível convencê-lo do erro em que ele se encontrava.

– Ouça-me – prosseguiu o patrulheiro. – Ouça-me: Você e o seu amigo, se perderem o emprego, poderão conseguir outro…

– O quê!? – interrompeu-o João, surpreso com o que ouviu. Os seus gestos e o tom de sua voz, ligeiramente mais elevada do que o habitual, atraíram a atenção de José, que, até este momento, controlando-se, conservava-se à parte.

José andou na direção de João, e dos patrulheiros, que o fitaram. Com um gesto, João pediu-lhe calma, e, dirigindo-se aos patrulheiros, disse:

– Se perdermos o emprego, José e eu não teremos a certeza de conseguirmos outro. Você disse – prosseguiu, olhando para o patrulheiro com o nariz machucado – que José e eu poderemos conseguir outro emprego; você reconhece que não há certeza de que conseguiremos outro; é só uma possibilidade, e não uma certeza.

– Amigo – retomou a palavra o patrulheiro -, a vida é mais importante…

– Mais importante do que o quê!? – perguntou José, irritado, antecipando-se a João, indo na direção do patrulheiro.

João interpôs-se entre José e os patrulheiros, para impedir que eles se engalfinhassem numa luta corporal  da qual todos saíram machucados. Sabedor do temperamento sanguíneo do seu amigo, tinha consciência de que a situação poderia vir a desandar, e converter-se num constrangedor espetáculo de animalidade; até o momento, com muita fleuma, conteve os ânimos exaltados de José e do patrulheiro de cara de poucos amigos; mas, agora, não tinha mais a certeza de que contaria com a calma que lhe inspirasse palavras que exercessem alguma ascendência sobre os outros três personagens com os quais contracenava neste grotesco capítulo da história humana; entendia que perdia o controle da situação, que o protagonismo não era mais seu, que outros dois personagens, José e o patrulheiro de cara de poucos amigos ascendiam nos papéis que representavam, que eles, de coadjuvantes, assumiriam o papel de protagonistas. João sabia que se perdesse para eles o papel principal os eventos que se seguiriam exibiriam cenas constrangedoras, reduzidos os quatro personagens a criaturas irracionais, estúpidas. Foi então que veio em seu socorro uma idéia: dizer aos patrulheiros que ele e José não iam à empresa, para trabalhar, mas que saíram de casa para um passeio; e assim fez; e do patrulheiro ouviu:

– Não se permite aglomerações na rua.

– O quê!? – perguntaram João e José, surpresos, em uníssono. – Aglomerações!? Aglomerações!?

– Vocês dois… – prosseguiu o patrulheiro.

E João e José o interromperam.

– Nós dois somos dois homens, apenas. Aglomerações… Estamos…

– Mude o seu tom de voz, rapaz – vociferou o patrulheiro de cara de poucos amigos contra José, desse aproximando-se, ameaçador, fuzilando-o com os olhos, furioso, preparado para acertar-lhe um soco na cabeça. José, antecipando-se-lhe, golpeou-o com um soco, no nariz, com tanta força, que o arremessou-o para trás. O patrulheiro, sua cabeça jogada para trás, caiu, desequilibrado, sentado, pousando, como pôde, desajeitadamente, as mãos no chão, para não bater com a cabeça no muro de uma residência; via-se-lhe no rosto, estampada, a surpresa que dele se acometeu; e um fio de medo; ele não previra, era certo, que José poderia alvejá-lo com um murro tão potente, certeiro, que quase lhe roubou a consciência; era visível a sua confusão e o seu estado de semi-consciência, de quem não entendia o que se passava; olhava, desnorteado, cerrando e descerrando as pálpebras, mal conseguindo ver o que estava a um palmo de seus olhos. João não precisou ir até José para contê-lo, pois ele, vendo, caído, o patrulheiro, deteve-se a observá-lo. O rosto de José transparecia a raiva contida que lhe fervia nos vasos sanguíneos. O outro patrulheiro acudiu o patrulheiro caído; acocorado, deu-lhe leves tapas no rosto, para retirá-lo do torpor em que o soco que recebera o mergulhara, chamando-o pelo nome, sob os olhares de João e José.

Assim que se recompôs, o patrulheiro, massageando o rosto, levantou-se, desajeitadamente, com a ajuda de seu colega, e olhou para José, este, então, com o olhar franzido, o cenho cerrado, os músculos do rosto contraídos, os punhos fechados, em posição de ataque. O olhar do patrulheiro, agora, não exibia a confiança de antes; era o olhar de um homem amedrontado e humilhado. João, reconhecendo que os ânimos haviam se esfriado – o de José, inclusive, pois, sabia João, José agora tinha o domínio, conquistado pela sua estatura e força física e agressividade, sobre os seus oponentes -, desculpou-se com os patrulheiros, e, para os persuadir de deixar a eles, João e José, a seguirem o rumo, tranquilamente, até a empresa, decidiu exibir a sua carta derradeira, na qual pensara enquanto os patrulheiros se recuperavam da lição que José lhes ministrara:

– Patrulheiros, José e eu não saímos, ele, da casa dele, eu, da minha, para irmos à empresa, e nem para uma caminhada – as suas palavras, magnéticas, atraíram a atenção dos patrulheiros e de José, e os três, José mais do que os outros dois, intrigados, na expectativa, ouviram João, atentamente. – Direi a verdade parta vocês. Nós saímos, José da casa dele, eu da minha, para irmos à boca do Tião Tatu. Vocês o conhecem. Ele é uma personalidade muito famosa na cidade. É ele, e vocês sabem, quem fornece maconha, cocaína, lsd, crack, para os magnatas locais, os médicos, os advogados… Não preciso falar para vocês o que vocês já sabem, e melhor do que eu. Ora, José, na casa dele, e eu, na minha, confinados, não conseguimos aturar, eu, minha esposa e filhos, José, a esposa e os filhos dele. Precisamos espairecer. As mulheres falam mais do que a boca, e os filhos são muito barulhentos. São insuportáveis. Estamos José e eu à procura de um pouco de refresco. E onde há tranquilidade, agora, com todo o auê causado pelo coronavírus? Na boca do Tião Tatu. Lá, José e eu gozaremos de algumas horas de calmaria. Precisamos alimentar o espírito esmagado pela esposa e pelos filhos. E urgentemente. Não aguentamos mais. Estamos a ponto de explodirmos. E lá, na boca do Tião Tatu, sabemos, a esta hora, há, além do néctar dos deuses, novinhas, novinhas irresistíveis. Entendem-nos? José e eu só queremos nos divertir.

Os patrulheiros entreolharam-se, e sorriram, cúmplices; ato contínuo, um deles, o que dirigia a patrulha, disse, sorridente, para João e José:

– E por que vocês não nos disseram antes?!

– Ora, é que pensávamos que vocês iriam nos prender – respondeu João.

– Prender vocês por quê!? – perguntou o patrulheiro, num misto de surpresa e indignação. – Não recebemos ordens para prendermos homens de bem. Temos ordens para abordarmos toda pessoa que sai de casa para trabalhar, ou para caminhar. Vocês não estão incluídos em nenhuma destas duas categorias. Se tivessem nos falado antes, teríamos evitado a confusão.

– Não sabíamos – comentou João, surpreso, mas ocultando dos seus interlocutores a surpresa.

– Tudo bem – disse o patrulheiro. – São águas passadas.

– Lamentamos o mal-entendido – desculpou-se João. – Eu e José pedimos desculpas. Principalmente a você – disse, dirigindo-se ao patrulheiro que recebera o soco de José; e voltando-se para José, transmitiu-lhe, com o olhar, a mensagem, que ele compreendeu de imediato.

– Desculpe-me – disse José, dirigindo-se ao patrulheiro que golpeara minutos antes. – Não era a minha intenção…

– Tudo bem – interrompeu-o o patrulheiro. – Desculpas aceitas – e estendeu a mão, em cumprimento a José, que lha apertou amigavelmente. – Você tem um ótimo soco de direita – comentou, sorrindo, jocoso. – Respeito quem me manda para o chão com um soco. Mas não abuse, não. Da próxima vez você não me pegará desprevenido.

Os quatro personagens cumprimentaram-se, amigavelmente, renovaram os pedidos de desculpas, trocaram algumas notícias; e desejaram-se um bom dia. E os patrulheiros entraram na viatura, e deixaram João e José livres para irem à empresa trabalhar.

Declaração de Amor – parte 5 de 5

Encerradas as férias, Marta, no início do ano letivo, retomou as aulas e as suas atividades profissionais, e Dálton redobrou os seus esforços no trabalho e adicionou centenas de reais ao seu salário mensal.

A carreira de Dálton seguia em franca ascensão. Ele arrancava elogios de Durval e olhares hostis de vendedores e desafetos.

Na faculdade, Marta apreendia as lições ministradas pelos professores; no escritório, Floriano e Lucrécia ministravam-lhe lições, práticas estas, que davam suporte àquelas. Com tal auxílio, valioso, indispensável, ela avantajava-se aos seus condiscípulos; e muitos dentre eles a consultavam em busca de esclarecimentos para certas lições que não haviam assimilado na sala de aula.

Numa sexta-feira chuvosa, séries intermináveis de raios rasgavam o céu – e seguiam-se estrondos assustadores. Os ventos fustigavam as árvores, cujos galhos e tronco vergavam-se. Dálton, preocupado, telefonou para Marta, no horário de intervalo entre duas aulas, e disse-lhe que a buscaria na faculdade. Retirou-se do carro, à frente da faculdade, duas horas depois de encerrado o telefonema. Empunhava dois guardas-chuva; com a mão direita, o armado; e com a esquerda o desarmado. Andou, passos firmes e cuidadosos, pelo piso molhado, a cabeça ligeiramente inclinada, até os degraus que davam acesso ao prédio da faculdade. Ao abrigo da laje, girou o cabo do guarda-chuva aberto, de cuja capa, com a força centrífuga, removeu a água, e o desarmou. Deteve-se ao limiar da porta ampla. Não entrou no prédio. Esperaria por Marta, próximo à porta. Olhou ao redor à procura de uma pessoa conhecida. Assistiu à tempestade arrefecer. Cessaram os raios. Amainaram os ventos. Um grupo de universitários – duas mulheres e três homens, dois desleixados e um de postura formal, de terno e gravata, óculos de lentes grossas escanchados no nariz achatado de abas largas. Este era alvo de piadas. Com emprego inapropriado do jargão jurídico, tratavam-no por juiz; e ele, representando o papel que lhe atribuíam, emprestou entonação férrea à voz, e, empunhando um martelo imaginário, sentenciou um ladrão-de-galinhas à prisão perpétua, exortando-o a viver até a data aprazada para a sua soltura. Os outros alunos gargalharam. Um dos que integravam este grupo mambembe, fazendo a vez de réu, súplice, declarou-se inocente e disse que não roubara uma galinha, mas, sim, um galo, um predador sexual. A moça que se fez de advogada de defesa pediu a comutação da pena. O homem que fazia a vez de advogado de acusação declarou que o réu não roubara uma galinha qualquer, mas uma galinha preta, que seria imolada num ritual de magia negra, à luz de uma vela vermelha, numa linha de trem, numa região baldia, sob o viaduto, à meia-noite de uma sexta-feira de lua cheia. E o que interpretava o juiz adicionou mais duzentos anos à sentença de prisão perpétua e enfatizou a exortação: que o réu não morresse antes de cumprir integralmente a pena; se ele morresse, outros duzentos anos seriam adicionados à condenação; e encerrou a peroração com uma série de interjeições recheadas de latim macarrônico e elogios à obra do Mestre Janotus de Bragmardo, êmulo de Cícero, e cuja oratória está bem documentada no livro do ilustríssimo Alcofribas, abstrator de quintessência. Dálton sorriu. Divertiu-se com a caricatura grotesca que os alunos representaram, surpreso com as alusões a casos famosos, popularizados pela imprensa sensacionalista e às obras clássicas da literatura e da filosofia. Os alunos entremeavam os discursos com observações sobre a tempestade, a fúria dos ventos, que retornaram com vigor redobrado, e os raios, que rasgavam o céu escuro. Todos foram ao pátio. No pátio, Dálton estudou os detalhes das estátuas que o adornavam. Um dos alunos, o que representara o papel de advogado de acusação, citou o nome do professor Basílio, e o classificou como um predador sexual, um sedutor de alunas incautas. Uma aluna e um aluno exortaram-no a não dar ouvidos aos boateiros; e ele afirmou não se tratar de boato, e disse que o professor Basílio estava arrastando as asas para uma aluna do segundo ano, e citou o nome: Marta. Dálton, ao ouvi-lo, apurou os ouvidos, e, simulando interesse pelo alto-relevo incrustado na parede, aproximou-se do grupo.

– Que Marta? – perguntou uma das moças.

O aluno descreveu-a, nos pormenores. Dálton reconheceu Marta na descrição, e seu sangue borbulhou. Fungou, furioso, e expeliu, pelas narinas, o seu furor. Cruzou os braços ao tórax, e pôs-se a ouvir, atentamente, os comentários dos alunos, sem deixar de si escapar uma palavra sequer. Mordia os lábios, ora o superior, ora o inferior. Os detalhes que os alunos forneciam eram reveladores. Ninguém conceberia tantos pormenores para uma história inventada. Dálton acolheu como verdadeiros os relatos. A temperatura de seu corpo elevava-se à medida que os alunos adicionavam detalhes à narrativa.

Arrefeceram-se os ventos. Raios cortavam o céu a intervalos maiores. A água despencava, agora, calma e ritmada.

Dispersaram-se os alunos. As duas moças e um dos moços que haviam participado da representação teatral de um julgamento disseram que iriam embora, e retiraram-se; os outros dois alunos rumaram para a biblioteca.

Dálton remoeu os seus pensamentos. Indagou-se da veracidade dos relatos que ouvira. Marta, então, era a aluna predileta do professor Basílio? De Marta Dálton exigiria explicações; não admitiria tergiversações. O seu furor exacerbou-se ao ouvir, atrás de si, o nome de Basílio pronunciado pela voz suave de uma aluna, aluna morena de longos cabelos pretos, sorridente, de olhos radiantes. Dálton deparou-se com um homem de um metro e oitenta, ombros largos, esbelto, cabelos compridos presos num rabo-de-cavalo, barba e bigode rapados. Então, este é o professor Basílio, pensou Dálton, rilhando os dentes, fuzilando-o com os olhos injetados de cólera. A aluna desmanchava-se diante do professor Basílio, que, com um sorriso encantador, covinhas sedutoras nas laterais dos lábios e um olhar irresistível, elogiou-lhe o novo penteado, que lhe realçava a beleza natural. Ela derreteu-se, e disse-lhe que, no escritório em que trabalhava, conhecera uma ex-aluna dele: Luana. Ele puxou pela memória, para se lembrar da figura dela. A moça descreveu-lha: baixa, de cabelos alaranjados, sardenta. Ele exultou de alegria. Recordava-se de Luana, a Laranjinha – à ela se referiu – e a moça confirmou: o apelido dela era Laranjinha; e algumas pessoas chamavam-na de Narizinho devido ao minúsculo e gracioso narizinho arrebitado que ela trazia consigo desde que dera o ar de sua graça ao mundo. Dálton ouvia tais futilidades e abanava a cabeça. O professor Basílio anunciou à aluna a ida para outra sala-de-aula, e estendeu-lhe a mão. E a aluna retirou-se. Neste mesmo instante, Dálton viu Marta, Mariana e um homem indo na direção do professor Basílio, e seus pés enterraram-se no piso, e concentrou em Marta o seu olhar como se projetasse sobre ela um foco de luz, isolando-a do ambiente. O professor Basílio viu-os e saudou-os, sorridente. Dálton viu Marta, que trazia os cadernos e os livros ao busto, abrir um sorriso de orelha a orelha e estender a mão direita para o professor Basílio. Não lhe passaram despercebidos os gestos dela: o de remexer os cabelos e ajeitá-los às costas; o de empinar o corpo; o de ajeitar a camisa. No seu campo de visão, entrou a mão esquerda do professor Basílio, que tocou, suavemente, o ombro direito de Marta, o suficiente para arrancar de Marta suspiros. Sobrepujando as forças que o imobilizavam e enraizavam-lhe os pés no piso, Dálton andou, crispados os músculos, franzido o cenho, pesados os passos e cerrados os punhos, na direção de Marta, que, pressentindo-lhe, dir-se-ia, a aproximação, voltou-se para ele, viu-o, e abriu um largo sorriso. Dálton ampliou o seu campo de visão, para abranger Marta, Mariana, o aluno e o professor Basílio. Estava a um metro deles, quando Marta apresentou-o ao professor Basílio e este a ele. E o professor Basílio estendeu-lhe a mão direita, e disse-lhe:

– A Marta disse-me que tu e ela estão noivos. Parabéns.

Dálton sorriu e se disse um felizardo. Com o braço direito, Marta enlaçou Dálton pela cintura, e encostou-lhe no tórax a cabeça. O professor Basílio exigiu, deles, um convite para o casamento, consultou o relógio, e anunciou, em suas palavras, a sua retirada estratégica, pela esquerda, rumo à sala-de-aula, despediu-se deles, e deles afastou-se, a passos acelerados. Pouco tempo depois, Marta e Dálton despediram-se de Mariana e do outro aluno.

Raios e trovões anunciavam tempestade, que se precipitaria em poucos minutos. Uma série de raios seguidos de trovões persuadiram Dálton e Marta a acelerarem os passos até o carro. Grossos pingos de água os atingiram. Ao abrigo dos guarda-chuvas chegaram ao carro.

Dálton inseriu, na conversa, que principiara com observações de Marta a respeito das provas, o professor Basílio, teceu comentários favoráveis a ele e estudou a reação de Marta, que dele deu muitas informações.

Notou que ela se continha ao elogiar o professor Basílio. Enquanto a ouvia, estreitou os olhos, que quase desapareceram sob as sobrancelhas. Crispou as mãos ao volante, e acelerou o carro. Marta pediu-lhe que reduzisse a velocidade. Ele ignorou-a. Ela se lhe mostrou preocupada. Ele executou manobras arriscadas, contornou um carro, pela direita, atravessou um cruzamento com o semáforo aceso no vermelho, entrou na contramão, por uma rua de mão única, atravessou um cruzamento, sem atentar para o semáforo, e acelerou o carro. O motorista de um carro, que vinha na perpendicular, freou a tempo de evitar a colisão, e, esgoelando-se, disparou uma saraivada de obscenidades. Marta berrava, dava tapas no ombro e no braço de Dálton, e ordenava-lhe que parasse o carro. Seu coração quase foi à boca quando ele executou, em alta velocidade, uma manobra, num cruzamento, numa pista escorregadia, com poças de água estagnada e areia, para a esquerda. O carro subiu na calçada, tangenciou o muro de uma casa e resvalou um poste. Marta desmanchava-se em prantos e berros ensandecidos. Chorava. Seu rosto, deformado pelo medo. Viu a morte diante de si. Inspirava e expirava rapidamente. Arregalava os olhos. Cerrava as pálpebras. As lágrimas escapavam-se-lhe, copiosas, e escorriam-se-lhe pelo rosto deformado pelo terror que a afligia. Dálton ofendeu-a. Ela desfazia-se em prantos, tensa, apreensiva. Ele não parou o carro. Ensandecido, disparou contra Marta uma série de ofensas atordoantes, que dela extraíram o vigor e pulverizaram-lhe o espírito. Encarnava a personalidade de um alter-ego monstruoso. Seus olhos refletiam a fúria que se lhe apossara do espírito. Inclinado sobre o volante, rilhava os dentes a ponto de ferir as gengivas; quando conservava a boca aberta, pronunciava, com rictus animalesco, voz cavernosa, vaticínios lúgubres. Marta perdeu a voz quando ele manobrou, no cruzamento seguinte, para a direita, subiu com o carro na calçada, no lado oposto da rua, tangenciou uma árvore, perdeu o governo do carro – o volante escapando-se-lhe das mãos, moveu-se como se houvesse adquirido vontade própria -, que atravessou a rua, subiu na calçada, e ia colidir com o muro, mas, no último instante, Dálton recuperou-lhe o controle, e, com um brusco movimento do volante para a esquerda, direcionou-o de modo a passar entre o muro e o poste, e desceu da calçada à rua trinta metros depois, rua inclinada num ângulo de quarenta e cinco graus. Dálton acelerou o carro. A velocidade vertiginosa dava a impressão de que o carro caía em um abismo. Marta sentiu o coração subir-lhe à boca. Ao atingir o nível mais baixo da rua, Dálton afundou o pé no freio, e girou o volante. A manobra, de tão arriscada, lançou Marta para a frente, e sacudiu-a, roubando-lhe a respiração. A pressão do cinto de segurança fê-la perder os sentidos. O carro deu solavancos e quase tombou. A cabeça inerte de Marta, pendendo sobre o peito, oscilava de um lado para o outro como se fosse um pêndulo invertido. Dálton esgoelava-se em maldições e protestos, rilhava os dentes, num rictus macabro, como se houvesse coberto o rosto com uma máscara ritualística demoníaca. Berrou perguntas insanas. Não obteve resposta. Deu um tapa em Marta, ao mesmo tempo que a insultava e a ameaçava. Ela recuperou a consciência. Entontecida, alheada, com olhar vazio, indagava-se o que ocorrera e onde se encontrava. Dálton berrava-lhe insultos. Ela não compreendia as palavras, que lhes chegavam, distorcidas, aos ouvidos, como se cada uma delas lhe chegasse numa freqüência, como se uma lha invadisse o cérebro numa velocidade, e outra em outra velocidade, como se a última sílaba de uma palavra lhe chegasse antes da primeira sílaba, que tardava a chegar, ou não lhe chegava, aos ouvidos. Após passar por três cruzamentos, executar outras manobras arriscadas e dobrar duas esquinas, Dálton parou o carro, e deu socos no volante. E cuspiu obscenidades no rosto de Marta, que, com os lábios separados um do outro e a cabeça repousada no encosto do banco, fitava-o, apática, a escaparem-se-lhe dos olhos lágrimas cristalinas. Arrostava-a, esmagava-a sob uma torrente infindável de insultos e acusações; ilustrava a sua narrativa com gestos obscenos. Disse-lhe que ela protagonizava orgias sexuais e submetia-se aos caprichos de Wesley, do professor Basílio, de Lauro, de outros homens, e de Mariana, e de outras mulheres. Disse saber que ela era uma depravada. Marta soluçou, engasgou-se com a saliva. Arfava. As lágrimas não cessavam; avolumavam-se-lhe, e, escorrendo, contornavam-lhe o nariz e a boca, e despencavam-lhe do queixo para o peito. A sua postura irritou Dálton. Moveu Marta a cabeça, lentamente, para o outro lado, olhou através da janela, e cerrou as pálpebras. Uma onda de lágrimas escapou-lhe dos olhos, deslizou-lhe, como um rio em correnteza, pelo rosto, e despencou, do queixo para o peito, como uma cachoeira. Marta rogava aos céus o envio de um anjo. O olhar e as ameaças de Dálton inspiraram-lhe cenas de horror. Visualizou a sua morte nas mãos de Dálton, que a sufocaria até exaurir-lhe a energia vital e o sopro divino se lhe escapar do corpo. Estava à mercê dele. Ele ordenou-a se retirasse do carro e desatou-lhe o cinto de segurança. Ela não se mexeu. E ele berrou-lhe aos ouvidos e espargiu-lhe perdigotos corrosivos. Ela mordeu o lábio inferior, petrificada. Dálton desvencilhou-se do cinto de segurança, curvou-se sobre ela, agarrou-a pelo queixo, voltou-a para si, cravou seus olhos nos olhos dela, e gritou-lhe que saísse do carro. Ela não se mexeu. E ele passou o braço por sobre ela, destravou a porta, abriu-a. E com brutalidade empurrou Marta para fora do carro. Ao cair na calçada, ela esfolou os cotovelos. Dálton arremessou-lhe os livros, os cadernos e a bolsa. Um livro atingiu-lhe o nariz. Dálton fechou, violentamente, a porta do carro, pisou no acelerador, imprimindo, no asfalto, a marca dos pneus, e foi-se embora.

Marta precisou de um bom tempo para se restabelecer. Ao emergir do alheamento, arfando, soluçando, chorando convulsivamente, lágrimas se lhe escorrendo pelo rosto deformado pelo medo, olhou ao redor, e só então se deu conta de onde se encontrava: numa rua deserta e mal iluminada. As lâmpadas dos postes piscapiscavam, sinistras. Com as mãos trêmulas, abriu a bolsa, e procurou pelo telefone celular; ao achá-lo, sôfrega, pegou-o, telefonou para seu pai; tensa, num choro convulsivo, aguardou-o atender a chamada. Recolheu os livros, os cadernos e a bolsa. Acocorou-se, com a bolsa a tiracolo, e olhou em torno. A rua não lhe era desconhecida; todavia, não soube dizer para si mesma em qual bairro localizava-se. Andou, cambaleando, a mente entorpecida, até os degraus que davam acesso a um estabelecimento comercial – um bar (leu o letreiro) com as portas cerradas; as letras do letreiro, aos seus olhos imbricadas, ampliavam-se e reduziam-se. Sentou-se no degrau superior, e pousou os pés no degrau logo abaixo, conservando, entre as coxas e a barriga, os livros e os cadernos. Não afastou o telefone celular da orelha direita. Inclinada sobre a coxa, as costas abauladas, enterrou os cotovelos nos joelhos. Roeu as unhas dos dedos da mão esquerda. Ninguém lhe atendia ao telefone. Olhou em redor. Vislumbrou, à sua direita, próximo ao cruzamento, um vulto. Removeu, com a palma e as costas da mão esquerda, as lágrimas que lhe prejudicavam a visão, e focalizou-o. Ora arregalava os olhos, ora os comprimia cobrindo-os quase que completamente com as pálpebras e as sobrancelhas. Franzia os músculos circunvizinhos aos olhos de modo a apurar a visão, para distinguir o vulto, que, parecia-lhe, ou era um corcunda, ou um homem carregando um fardo grande e pesado às costas. Ninguém atendeu ao telefone. Repetiu a ligação. De sobreaviso, fitava o vulto aproximando-se de si. Encolheu-se. Abraçou as pernas com o braço esquerdo, abaixou a cabeça, curvou as costas, de modo a pousar o queixo sobre os joelhos; assim, pensou, sem tomar consciência dos seus pensamentos, reduzia-se aos olhos da pessoa que se aproximava; e deslocou-se um pouco para a direita, quase se encostando ao batente da porta, onde uma sombra se projetava. Um pensamento iluminou-lhe o cérebro: à sombra passaria despercebida aos olhos da pessoa que se aproximava. O vulto, cujos contornos se lhe definiram, era o de um homem, que arrastava os pés, o corpo curvado para a frente, carregando às costas uma sacola de plástico; tinha ele aparência grotesca, cabelos e barbas desgrenhados, e ele trajava calça e camisa amarfanhadas e rasgadas em vários pontos. Ele passou pelo meio da rua, sem tomar conhecimento de Marta, que o comparou a um ogro repulsivo. Floriano, enfim, atendeu ao telefonema. Marta desfez-se, de imediato, em lágrimas, e sussurrou, para não atrair a atenção do homem que passara por ela. Alarmou-se Floriano. Alterou-se. Pediu à sua filha a localização dela e aconselhou-a a acalmar-se. Ela fitava o homem, que se afastava lentamente. Era perceptível a mudança do timbre da voz de Floriano. Marta não disse coisa com coisa, não completou uma frase, abandonou inúmeras reticências, solicitou ajuda, disse que não sabia onde estava, falou de Dálton. Floriano pediu-lhe a localização. Ela não soube dizer-lha, preocupando-o. Ele, depois de alguns minutos, logrou acalmá-la o suficiente para ela lhe dar o nome do estabelecimento à porta do qual se encontrava, e perguntou-lhe se havia outro estabelecimento comercial, nas proximidades; não conhecia aquele, e pediu-lhe que fosse até a esquina, e, na placa afixada, ou na parede, ou no muro, ou sustentada por um poste de metal, ou por um poste, lesse o nome da rua. Marta intensificou o choro. Disse que estava com medo. Floriano disse-lhe que não poderia ajudá-la, se ela não lhe dissesse o nome da rua onde se encontrava. A muito custo, ela se levantou. Enquanto andava até a esquina, falava, sem dar ao seu pai um relato pormenorizado e objetivo do que a ela ocorrera. Repetia-se. Confundia-se na cronologia; aos poucos, recuperava-se – sempre que ela parava de falar, Floriano fazia-lhe uma pergunta qualquer, para que ela falasse qualquer coisa. Na esquina, ela procurou pela placa indicativa do nome da rua; não a encontrou, nem no poste, nem na parede do estabelecimento comercial. Olhou para o outro lado da rua. Viu uma placa metálica afixada no muro. Olhou em torno, e atravessou a rua, cujo nome ela o leu na placa. Floriano disse conhecê-la; iria até lá, e pediu a Marta que ela não desligasse o telefone, e passou o telefone para Lucrécia, foi ao telefone sem fio, telefonou para a delegacia de polícia, e forneceu uma síntese do episódio e o nome da rua na qual Marta estava. A telefonista prometeu providenciar, imediatamente, uma viatura, e desligou o telefone. Marta e Lucrécia conversavam. Lucrécia, de camisola, a respiração suspensa, roendo as unhas, sentada no sofá, ouvindo a narrativa caótica de sua filha, levou a mão ao peito esquerdo, para impedir que o coração abrisse caminho para fora do corpo. Floriano foi ao quarto trocar de roupas. Regressou, logo depois, trajando tênis, bermuda e camisa, e pediu à Lucrécia o telefone, e disse-lhe que fosse ao quarto, substituísse a camisola por uma roupa adequada, para ir até onde Marta estava. Lucrécia passou-lhe o telefone, retirou-se, açodada, para o quarto, do qual regressou em menos de um minuto, com chinelos nos pés, uma calça e uma camisa larga. Neste momento, Floriano já estava, na varanda, dentro do carro. Assim que Lucrécia entrou no carro, passou-lhe o telefone, e retirou da garagem o carro, retirou-se do carro, fechou a porta, e regressou ao carro, enquanto Lucrécia, ao telefone, conversava com Marta. Rumou para a rua em que Marta encontrava-se. Transcorreram-se oito minutos. Marta disse que aproximava-se de si uma viatura policial; e que da viatura retirou-se um policial, que foi até ela. Lucrécia pediu-lhe que passasse o telefone a ele; e disse ao policial que chegariam, ela, Lucrécia, e Floriano, até ele e Marta em dois ou três minutos, e que, depois, iriam à delegacia denunciar Dálton, cujos nome completo e endereço forneceu-lhe. O policial comprometeu-se a providenciar uma viatura para ir à casa de Dálton; Lucrécia agradeceu, e pediu-lhe que passasse o telefone para Marta. Ele lho passou; e ato contínuo comunicou à delegacia o ocorrido, e solicitou uma viatura policial no endereço que Lucrécia lhe fornecera e a condução de Dálton à delegacia. Transcorreram-se cinco minutos. Chegaram Lucrécia e Floriano onde Marta estava. Lucrécia desceu, açodada, do carro, correu até ela, envolveu-a com os braços, protetora. Marta chorava, convulsivamente. Os policiais afastaram-se delas, foram até Floriano, e relataram-lhe o que presenciaram desde o instante em que se depararam com Marta. Em seguida, Floriano foi até ela, e atraiu-a para si e ela aninhou-lhe ao tórax a cabeça. E deu-lhe um beijo, na metade superior da testa. Comovido, a voz trêmula, disse-lhe que se acalmasse, que logo iriam para casa.

Chegaram na delegacia vinte minutos depois.

Marta não deu um relato objetivo dos eventos, desde o início, logo após retirarem-se ela e Dálton da faculdade. Falou, como pôde – e mal pôde falar – das perguntas que Dálton lhe fizera, da postura dele, e de como ele se transtornara, e acelerara o carro, e atravessara cruzamentos, desrespeitando semáforos, e quase colidira com um carro, com postes, com o muro de uma casa; falou das manobras arriscadas, do tapa que ele lhe dera, e do empurrão, jogando-a para fora do carro. A policial que colheu o depoimento de Marta, para dar-lhe coerência a certos trechos e estabelecer uma cronologia, instou-lhe que recontasse a história uma dezena de vezes, até eliminar as incongruências. Marta soluçava; debulhava-se em prantos. Seu pai evocou o evento sucedido dias antes, em frente à sua casa, numa certa noite: ouvira Dálton ofender Marta; observara-os, e anunciara-se; Dálton, então, afastara-se, e fôra-se embora e dias depois pedira-lhe desculpas, num tom tão cândido, tão compungido, tão sincero, que, não lhe duvidando da sinceridade, dera-lhe acesso à casa. Em seguida, declarou que gostava de Dálton, que é trabalhador e estudioso, e preocupava-se com o estado dele. Marta e Lucrécia subscreveram-lhe as palavras e adicionaram argumentos favoráveis a Dálton. Floriano disse que o ciúme possessivo de Dálton vinha num crescendo desde o ano anterior. Marta falou do que se sucedera num clube e de outros episódios, corriqueiros, disse, mas que, agora, avaliados em retrospectiva, assumiam outra dimensão. Salientou Floriano: se os policiais colherem informações, na loja na qual Dálton trabalhava, a respeito dele, saberão que a reputação dele é a de um homem dedicado ao trabalho e dotado de rara inteligência. E disse que era seu desejo vê-lo bem, mas temia pela vida de Marta. Dálton apertara o pulso de Marta, imprimindo-lhe marcas, na discussão anterior. E agora poderia tê-la matado. Não o detestava, disse; afastava, no entanto, de si, os sentimentos de carinho que nutria por ele; iria, todavia, conservá-lo a uma distância da qual poderia, ao estender-lhe os braços, acolhê-lo, num abraço fraternal, e atraí-lo para o seio de sua família. Sentimentos incompatíveis colidiam-se na alma de Floriano, e repeliam-se.

Havia mais de uma hora que estavam na delegacia quando se retiraram. No corredor do térreo, cruzaram o caminho de Dálton, Ulisses e Vilma Helena. Nuvens soturnas desceram sobre todos eles. Dálton, com o olhar, fuzilou Marta, que virou o rosto e cruzou os braços ao peito. Lucrécia enlaçou-a pelos ombros, estreitando-a a si. Entreolharam-se Ulisses, Vilma Helena, Floriano e Lucrécia. Eles não articularam nenhuma palavra, e nenhum gesto esboçaram.

Marta, Floriano e Lucrécia retiraram-se da delegacia, e rumaram para casa.

Marta caiu em sono profundo assim que sua mãe cobriu-a com o lençol, e antes de ela lhe dar um beijo, na testa, e desejar-lhe boa noite.

Ulisses e Vilma Helena, e Floriano e Lucrécia conversaram, em duas ocasiões, a respeito de Dálton. Na primeira, Ulisses e Vilma Helena pediram desculpas, constrangidos, a Floriano e Lucrécia, e disseram-lhe, compungidos, que não sabiam porque Dálton agia com tão brutal violência, e que haviam contratado um psicólogo para estudar o caso dele; na segunda, renovaram os pedidos de desculpas, e disseram que Dálton havia se consultado três vezes com o psicólogo e mostrava-se arrependido do que fizera, mas era prematuro conceder-lhe permissão para encontrar-se com Marta.

Cabisbaixo, desanimado, Dálton agia com indiferença e desinteresse ao que lhe sucedia ao redor, na sua casa e na loja; na loja, o seu desempenho diminuíra, e muitas pessoas com quem trabalhava notaram-lhe a mudança de comportamento, e muitas dentre elas, ao tomarem conhecimento do que se dera entre ele e Marta, afastaram-se dele; evitavam-no, e, desconfiados, observavam-no com o canto dos olhos.

Floriano e Lucrécia consultaram Marta, dias depois, a respeito do seu noivado com Dálton. Ela lhes disse que não se casaria com ele. E tal notícia foi dada a Ulisses e Vilma Helena, que a passaram para Dálton, que a ouviu, em silêncio, inexpressivo, resignado.

Um dia, à noite, Dálton foi à faculdade, e abordou Marta, que se pôs a tremer. Mariana e dois amigos não se afastaram dela quando Dálton lhes pedira uma conversa a sós com Marta, que, com o olhar, suplicava-lhes ajuda. Constrangido, com voz aveludada, ele lhe disse que estava arrependido, e que a amava, e que lhe escreveria um soneto de amor, e lho recitaria. Ela se conservou calada, fitando o vazio, o olhar alheado. Cabisbaixo, ele se despediu, e retirou-se da faculdade.

Assim que chegou à sua casa, Marta narrou o episódio para seus pais. Floriano telefonou para Ulisses e comunicou-lhe o ocorrido.

Dias depois, na praça Santo Antonio, Dálton abordou Marta, e disse-lhe que lhe escrevera um soneto de amor, e que lho declamaria, na casa dela, se ela quisesse. Ela pediu-lhe que se afastasse. Ele renovou, numa voz pungente, os seus pedidos de desculpas, disse-lhe que estava arrependido, e que a amava, e que ela foi a única mulher que ele amou, e suplicou-lhe que reconsiderasse a decisão de romper o noivado e cancelar o casamento, e que o perdoasse; com as mãos justapostas, genuflexionou os joelhos perante ela, na frente de curiosos. Marta deteve-se, constrangida, irritada, nervosa, apreensiva; ameaçou chamar a polícia, e apontou, para a outra extremidade da praça, para uma viatura policial e dois policiais. Dálton calou-se, e enraizou os pés no chão. Marta afastou-se dele.

Floriano e Lucrécia, e Ulisses e Vilma Helena reuniram-se, num restaurante, no dia seguinte. Expuseram as suas preocupações. Em certo momento, Vilma Helena, compungida, voz sussurrante, levou as mãos aos olhos, que se marejaram de lágrimas, e falou das suas preocupações, temerosa do que Dálton poderia fazer e do bem-estar e da saúde mental dele. Aquele Dálton de quem falavam não era o Dálton que ela conhecia, seu filho, que ela amamentou, embalou, aninhou ao colo; não era o Dálton, criança traquinas, que lhe deu muitas preocupações e que não ficava um dia sem se envolver em algum ato reprovável; não era o Dálton, jovem que, como muitos jovens, contestou a autoridade paterna, transgrediu regras de convivência social e envolveu-se em atos de vandalismo e em brigas; não era o Dálton, que, apesar de todos os seus defeitos, tinha os seus pendores intelectuais, os quais ele os exibiu na escola, em casa, na loja; não era o Dálton que, apaixonado por Marta, havia se tornado um homem gentil, trabalhador, generoso, abnegado, suscetível às influências benévolas, a felicidade encarnada, construtor de castelos no ar, e que, nos paroxismos da euforia, compartilhava sua felicidade com todas as pessoas. Aquele homem de quem falavam, homem que vivia recolhido em si, tristonho, ensimesmado, andando de um lado para o outro, indiferente ao que ocorria ao redor, desinteressado da família, dos amigos, e do trabalho, e dos estudos, não era o Dálton, seu filho. Vilma Helena desejava o seu filho, Dálton, aquele moço que lhe inspirou muitos cuidados, muitas preocupações, e muita alegria, e não aquele que via, há dias, calado, taciturno, de olhar lúgubre.

Ouviram-na, respeitosos. Enquanto ela falava, Ulisses, carinhoso, passeava-lhe as mãos pelos cabelos.

Nos dias seguintes, Dálton abordou Marta à porta e nas proximidades do escritório de advocacia, e falou-lhe do seu amor por ela. Sem olhar para ele, ela acelerava os passos, até o estacionamento, entrava no carro, e abandonava Dálton em seu solilóquio angustiante.

Certo dia, ao anoitecer, Dálton abordou Marta quando ela entrava no banco para fazer um saque de trezentos reais e pagar a mensalidade da faculdade, e falou-lhe, num tom meigo, que lhe inspirou compaixão. Ela, todavia, não o fitou; limitou-se a ouvi-lo. Quando ele a tocou no ombro, recolheu-se, em sinal de repulsa. Ele lhe pediu desculpas, impressionado com os esgares que ela imprimira no rosto tão logo ele a tocara, renovou o pedido de desculpas, disse-lhe que não a incomodaria, e solicitou-lhe uma conversa; queria recitar-lhe um soneto escrito em homenagem a ela. Marta nada lhe disse. Sem obter uma resposta, ele anunciou a sua retirada, despediu-se, e foi-se embora. Marta, então, respirou, aliviada, e executou as operações bancárias.

Dálton ia ao consultório do psicólogo duas vezes por semana. Recuperava o seu gosto pelo trabalho, pelos estudos, pelas relações familiares, pelos eventos festivos e pelos amigos. Sempre que encontrava Marta, saudava-a, sem constrangê-la, e ela, que por esta época estreitava os seus laços com Tucídides, que a conhecera na faculdade, ficou insegura, indecisa. Queria namorar Tucídides, moço educado, charmoso, inteligente, de sorriso encantador, mas a figura de Dálton invadia-lhe os pensamentos, dividia-lhe a atenção e interpunha-se entre ela e Tucídides.

Um dia, Marta e Tucídides, na praça Dom Pedro II, conversavam, animadamente. De repente, Marta emudeceu, empalideceu e suspendeu a respiração ao ver Dálton indo em sua direção. Ele abriu um largo sorriso, saudou-a, e estendeu a mão direita para Tucídides, que o saudou, cauteloso, constrangido. Apertaram-se as mãos Dálton e Tucídides. Dálton apresentou-se-lhe. Entabulou conversa com ele. Confessou-lhe a felicidade, entusiasmado, com sua transferência para São Paulo. Fôra promovido a sub-gerente de vendas. Falou-lhe de seu plano de passar as férias, no mês seguinte, nos Estados Unidos, em visita à Flórida, ao Texas e à Califórnia. O seu entusiasmo, contagioso. Arrancou sorrisos de Tucídides, e de Marta, que, no início da conversa, conservara-se acanhada e acuada, mas, assim que afugentara de si os pensamentos negativos que a incomodavam, abriu-se, espontânea. Dálton, enfim, despediu-se de Marta e Tucídides, e seguiu rumo contrário ao que eles seguiram. Após andar uns dez metros, Marta olhou por sobre o ombro, e viu, já distante de si uns trinta metros, Dálton, a passos apressados e firmes, galgando as escadarias de acesso à prefeitura municipal, e sorriu.

Dias depois, Marta chegou, apressada, à sua casa, às dezenove e vinte. Açodada, ia enfiar a chave na fechadura, para entrar na casa, pegar dos livros e do caderno, e, de carro, rumar para a faculdade, quando ouviu seu nome. Era Dálton que a chamava. Ela sorriu. Saudou-o. Ele lhe falou do soneto que lhe escrevera: perfeitamente metrificado, como aprendeu a compor ao ler os de Camões. Marta sorriu, encantada.

– Quer ouvir-me recitá-lo? – perguntou-lhe Dálton. Marta sorriu, acanhada, ruborizada. Assentiu. Dálton, o rosto a reluzir alegria indizível, enfiou a mão direita sob a fímbria da camisa, e retirou um revólver de sob o cós da calça. Marta arregalou os olhos e escancarou a boca; e Dálton, inexpressivo, apontou-lhe o cano do revólver para o peito esquerdo, e apertou o gatilho. Marta caiu, sob soluços agonizantes, nos braços de Dálton, que apontou o cano do revólver para si mesmo, colou seus lábios aos de Marta, e declamou, para dentro dela, o soneto dedicado ao amor eterno, e apertou o gatilho.

Declaração de Amor – parte 4 de 5

Dias depois, Marta convidou Dálton para irem à uma festa que alunos da universidade promoveram. Disse-lhe que iria à festa, mesmo que ele não fosse, pois era a última festa do ano, e muitos dos alunos ela os veria apenas no ano seguinte, e pediu-lhe, encarecidamente, que à festa a acompanhasse. Disse-lhe, também, que muitos amigos regressariam à cidade na qual suas respectivas famílias moravam, e alguns dentre eles talvez se transferissem para faculdades situadas em outra cidade. Ele anuiu, a contragosto, ocultando-lhe os seus sentimentos e sonegando-lhe os seus pensamentos. Evocou, em pensamento, cenas que presenciara no clube. Sondou Marta à procura de pensamentos secretos, a mente a corroer-se de suspeitas que, ele queria acreditar, eram infundadas. Na tentativa, frutífera, de detectar-lhe sutis alterações na modulação da voz, verificou que ela estava eufórica. De ouvido atento, ouviu-a. E acolheu-lhe a sugestão de irem no carro de Floriano.

Rumaram para o clube.

Na metade do trajeto, um carro azul, em alta velocidade, em sentido contrário, ultrapassou um carro preto e invadiu a pista contrária. Apavorada, Marta moveu, com brusquidão, o volante, empinou o corpo, arregalou os olhos, escancarou a boca, emitiu um berro surdo, que lhe ficou travado na boca, e desviou-se do carro azul, evitando a colisão. Seu coração palpitou, descompassado. Dálton, igualmente apavorado, recompôs-se antes dela, voltou-se para ela, e passou-lhe a mão esquerda sobre a mão direita; com voz entrecortada, perguntou-lhe como ela se sentia. Lívida, ela nada lhe disse. E ele lhe perguntou se ela queria que ele dirigisse o carro dali em diante; ela inspirou, pelo nariz, em haustos vigorosos, e expirou, pela boca, várias vezes, sob o olhar atento e preocupado dele, e recomposta, deu sequência à viagem até o clube.

Luzes de lâmpadas caleidoscópicas coloriam todos os recantos do salão. E a música preenchia-lhe todo o espaço. Dálton divisou, em meio a um grupo, Wesley e Carlos Roberto, franziu o cenho, e desviou, de imediato, o olhar.

Uma universitária, Larissa, cuja reputação inspirava comentários deselegantes, cuja figura inspirava olhares cobiçosos e pensamentos lúbricos e cuja presença exercia influência em todas as pessoas, de vestido cintilante decotado, cujas fímbrias mal lhe cobriam a metade superior das coxas, e colares e pulseiras radiantes, aproximou-se de Dálton, e saudou-o. Impressionado com a beleza ofuscante – e os cabelos dela, sedosos, emolduravam-lhe o rosto belíssimo, sublimando-lhe a beleza – e a sem-cerimônia dela, ele, visivelmente embasbacado, se voltou para Marta, que o fitava com olhar reprovador, e emudeceu. Larissa passeou as mãos pelos cabelos, olhou para Marta, sorriu, e, desdenhosa, perguntou para Dálton:

– Tu estás acompanhado dela?

E Dálton disse-lhe que Marta era sua namorada. Larissa, cujas palavras, sorriso insinuante e olhar estavam repletos de sugestões, desculpou-se, disse-lhes que foi ao clube para se divertir e estabelecer novas amizades, e afastou-se de Marta e Dálton; poucos passos depois, olhou por sobre o ombro esquerdo, e, com olhar cobiçoso, fitou Dálton, então sob o olhar severo de Marta, que desviou o olhar, dele para Larissa – e os olhares delas encontraram-se no meio do caminho. Ato contínuo, Larissa fitou Dálton, e tornou a fitar Marta, e voltou a sua atenção para a direção para a qual seguia. E Marta e Dálton entreolharam-se. Intimidado, ele desviou o olhar, e fitou, por sobre o ombro dela, o vazio.

O salão encheu-se de gente. Dálton e Marta encontraram, em um canto, um sofá desocupado, e nele sentaram-se. Ela acenou para um casal de amigos, Lauro e Rúbia. Saudaram-se. Entabularam conversa. Marta apresentou Dálton para eles. Rúbia, vinte e dois anos de idade, morena, bonita, musculosa, trajava um vestido branco de alças finas e exibia os seus atributos físicos; seu esposo, Lauro, de cabeça coberta por cabelos esparsos, um pouco mais baixo do que ela, estava na idade de trinta anos. Ambos, elegantes. Lauro conduziu a conversa. Falou, com desembaraço e vocabulário sofisticado, do envolvimento de magistrados em esquemas fraudulentos e do apoio de juristas a políticas nocivas ao estado de direito. Sempre após um dos seus três interlocutores fazer-lhe uma ressalva, apresentava argumentos irreplicáveis, e dizia que, se houvesse vontade política e desejo de justiça – sentimentos dos quais careciam muitas autoridades brasileiras -, poder-se-ia preencher inúmeros buracos do queijo suíço que é o sistema legal brasileiro. Dálton aquilatou-lhe o vigor intelectual, e o de Rúbia, não tão poderoso quanto o de seu marido, mas também incomum. Regozijou-se ao ver que, na faculdade, havia alunos interessados no conhecimento, e não apenas em diversões fúteis. Lauro, apegado às minúcias, estendeu a conversa e por ela conservou o interesse dos seus interlocutores, entremeando os seus comentários com anedotas hilárias – e ele possuía um bom sortimento delas. Extraiu gargalhadas sonoras de Dálton, Marta, e Rúbia, que lhe dava pancadinhas nos braços e nos ombros, inofensivas.

Outras pessoas os saudaram e com eles estabeleceram conversa. Uma delas, Paulo Tarcísio, movia os braços ao falar, incessantemente. E mordia o lábio inferior e movia as mãos, involuntária, e ininterruptamente, e segurava o queixo, e olhava, fixo, para quem lhe falava, numa visível demonstração de impaciência, sempre que tinha de ouvir um relato extenso.

Encerrada a música, Washington, no palco, atraiu a atenção de todos para si. Era Washington um moço bem apessoado. De terno e gravata impecáveis, barba e bigode rapados, cabelos curtos penteados para trás, ele proclamou a nova era, jocoso. Declarou que, naquele recinto, encontravam-se os futuros benfeitores da humanidade. Ovacionaram-lo. A sua oratória, sedutora. Imodesto, declarou que hauriu, nos clássicos gregos, romanos, britânicos, portugueses e brasileiros, a quintessência da arte oratória. O seu discurso foi pontuado por aplausos ensurdecedores. Citou expoentes das ciências jurídicas. Interromperam-no eclosão de rajadas de assobios e aplausos estrondejantes. Cessados os assobios e os aplausos, desejou aos alunos festas animadas, felicidade e muito dinheiro no bolso. Ovacionaram-lo.

Washington afastou-se do microfone, ao qual regressou, minutos depois, com passos apressados, e anunciou o professor Josué. Seguiram-se aplausos estrondejantes, vivas estrepitosos, assobios estridentes. O professor Josué, mirrado, acenou para os alunos, com as duas mãos dançando acima de sua cabeça, e saudou Washington, que sorriu e retirou-se do palco. Seguindo à risca o figurino que concebeu para si, com acenos, pediu silêncio. Atenderam-no prontamente. Após desobstruir o esôfago, pronunciou o seu discurso, cujo teor inspirou risos de galhofa em certos alunos, que repudiaram o professor, que, para eles, era pernóstico, enfadonho, desprezível, moralista presunçoso, defensor de idéias antiquadas.

Mauro, aluno da faculdade, baixo, de rosto descarnado, cabelos encarapinhados, aproximou-se de Marta, Dálton, Rúbia e Lauro, e atormentou-os com comentários depreciativos, e esgares, arremedando, de modo caricatural, o professor Josué:

– Professorzinho ridículo. De tagarelice proverbial e idealismo irrealista. É um embusteiro, o sentinela da justiça, o guardião do cálice sagrado, o protetor dos fracos e oprimidos. Professorzinho patético! Até hoje ninguém lhe disse que o mundo pertence aos espíritos fortes. Não quero exercer a advocacia para viver na miséria. Quero viver na abastança, no luxo. Quero riqueza! Quero poder! Terei um emprego rendoso. Não rezo pela cartilha do professorzinho de araque, sujeitinho burlesco, ermitão misantropo, misógino, que enfia a mão na cornucópia de frases feitas edificantes e de lá extrai idéias irrealistas para com elas edificar uma sociedade utópica, perfeita, isto é, habitada, única e exclusivamente, por covardes samaritanos. Quero riqueza! Quero poder! O professorzinho de meia-tigela arrefece, com as suas aulas moralistas antiquadas, o ânimo dos espíritos fortes. O professorzinho bestalhão, ermitão antiquado, coroou o seu discurso com exortações à justiça, que, segundo ele, está impregnada de sabedoria eterna. Não sei quanto a vocês, mas eu quero, com a advocacia, arranjar a minha vida. Não viverei a vida de misérias de um advogadozinho debruçado sobre calhamaços, perdendo noites de sono e os prazeres que a vida proporciona. Quero riqueza! Quero poder! Viverei rodeado de mulheres estonteantes. Lograrei sucesso, poder, riqueza. Lograrei os tolos e os ignorantes. Calcarei aos pés o espírito dos pobres e beneficiarei os pobres de espírito. Jamais defenderei idéias contrárias aos meus interesses. Quero riqueza! Quero poder! Defenderei os meus interesses, egoístas, sim, mas os únicos que me interessam. Aniquilarei os justos. Que os apedeutas espumem, nas Gulags, pelos cantos da boca! Digo, sem papas na língua: me unirei aos de alto calibre. Não viverei na miséria. Bem aquinhoado, viverei a vida que desejo. Os fins justificam os meios. E as vítimas de crimes? Não me preocuparei com elas. Cada pessoa que cuide de si. Que os pobres comam o pão que o diabo amassou. Que eles se danem! Quero riqueza! Quero poder! Viverei rodeado de mulheres irresistíveis! Toda manhã, acordarei, e ao meu lado, na cama, terei uma mulher farta de atrativos. A riqueza e o poder são os pré-requisitos para uma vida feliz. Trajarei roupas de seda! Comerei caviar e filé mignon, todos os dias. Filé mignon! Caviar! Scargot! Carros luxuosos! Mansão! Mulheres belíssimas! Ilhas paradisíacas! Quero riqueza! Quero poder!

Enquanto perdia-se na sua euforia, Mauro, sem dar ouvidos aos apartes e sem atentar para o desconforto dos que o ouviam, além de constrangê-los com a defesa, sincera, de idéias que eles repudiavam, irritou-os com o estribilho, proferido num tom de voz mais elevado do que o tom de voz alterado que usava. Não passou despercebido de todos que o ouviram que ele, ao discorrer com tanta eloqüência, estava sóbrio, de posse, presumiam, de todas as suas faculdades mentais. Constataram a sua personalidade leviana, o seu temperamento hedonista, a sua devassidão moral, e abismaram-se com tanta desfaçatez, tão aberta, e tão abjeta, que os constrangeu. Boquiabriram-se, incrédulos, diante de tal ostentação de depravação moral. Aqueles que o conheciam, e dele haviam ouvido tais demonstrações de descaso à justiça, não se admiraram, tampouco se surpreenderam. Dálton, Marta, Lauro e Rúbia afastaram-se dele, mas ele, querendo por eles se fazer ouvir, não os abandonou; palrador, como de hábito, discorreu, abertamente, sobre as suas idéias. Contradisseram-no Lauro e Marta; Lauro, com vigor redobrado, quando, estupefato, ouviu-o defender, sem papas na língua, as atrocidades perpetradas por nazistas e comunistas e declarar que os nazistas são piores do que os comunistas, pois estes matam os escritores críticos do seu sistema de governo após os interrogarem, e aqueles os matam sem ler-lhes os livros.

Os alunos dispersaram-se em meio à multidão, que enchia todos os espaços do salão; muitos dentre eles exibiram, desajeitados, as suas evoluções de dança; raros, os exímios dançarinos. O professor Josué, a professora Cátia, a professora Susana, o professor Gustavo e o professor Daniel foram, pelos alunos, solicitados a dançar.

Marta dançou com o professor Daniel, com o professor Josué e com o professor Gustavo.

Mariana puxou Dálton para dançar, sob os olhares de Walter, namorado dela, e de Marta, que lhes disse, sorrindo, que se comportassem. E Marta dançou com Lauro. Dálton conservou-os sob olhares perscrutadores e cenho franzido. Não passou despercebido de Mariana o olhar dele e os traços firmes de seu rosto. Para desanuviar-lhe a mente, teceu comentários jocosos sobre a atitude de Mauro, protótipo de ditador-de-araque. Dálton sorriu, fitou-a, disse-lhe qualquer coisa, conservando, o tempo todo, Marta e Lauro sob o seu olhar vigilante.

Ao entrever Rúbia, livre, andando na direção de Lauro, Dálton soltou Mariana, ofereceu-a para Walter, afastou-se, foi até Rúbia, abordou-a, e pediu-lhe a dança. Ela o aceitou; ele pousou-lhe as mãos na cintura, e conduziu-a até Lauro, e Marta, que olhou para ele e Rúbia de modo significativo. Pouco tempo depois, Dálton entregou Rúbia para Lauro, e pediu a este, encarecidamente, uma dança com Marta, e assim que a acolheu em suas mãos, enlaçou-a pela cintura, e colou seus lábios aos dela.

A festa prosseguia animada. Dálton e Marta, enfim, encerraram a dança. Ela puxava-o, segurando-o pela mão, quando Larissa abordou-o, ignorando-a, como se ela não estivesse lá, e pediu-lhe uma dança. Dálton estacou, emudecido. Recompôs-se, rapidamente. Disse-lhe que iria descansar um pouco. Larissa insistiu, com voz açucarada e olhar meigo. Não havia como Dálton negar-lhe a dança pedida. E ele voltou-se para Marta, solicitando-lhe auxílio, ou para afastá-lo de Larissa, ou para dar-lhe permissão para dançar com ela. A contragosto, ela soltou-lhe a mão, sorriu, e disse-lhe, com voz inaudível, e sorriso amigável, que dançasse com Larissa. Dálton e Larissa afastaram-se de Marta, que andou até os bancos à parede, voltou-se e viu Dálton e Larissa, na pista de dança, ela a enlaçá-lo pelo pescoço, a tocar-lhe, com a ponta do dedo indicador esquerdo, a ponta do nariz, e a sorrir, encantada. Marta ia sentar-se, mas conservou-se de pé, e o seu olhar encontrou-se com o de Larissa.

Larissa, sorrindo, disse para Dálton que Marta mordia-se de ciúmes. Ele nada disse. Ela perguntou-lhe há quanto tempo eles namoravam, e se ele gostava dela. Ele respondeu-lhe às perguntas, e adicionou a informação de que ele e Marta se casariam em julho do ano seguinte. Larissa não se mostrou animada com a notícia; ao contrário, exibiu-lhe a sua frustração, e disse, sem meias palavras, que os frutos proibidos são os mais saborosos.

Larissa e Dálton sincronizaram os movimentos. Marta olhou os circunstantes, para verificar se alguém a fitava, e, intrigado, indagava-se porque ela permitia que Dálton dançasse com Larissa. Sentiu-se objeto da curiosidade de todos os presentes, certa de que todos eles a observavam, intrigados. Tinha a sensação de que farpas penetravam-lhe em todos os poros do corpo. Os seus pensamentos cabriolaram ao ver Larissa falar ao ouvido de Dálton, e sorrir. Pensou em ir até ela, puxá-la, dar-lhe um tapa, esganá-la, e expô-la ao ridículo. Queria humilhá-la. Conteve-se, no entanto. Roeu as unhas e rilhou os dentes, Dálton e Larissa sob o seu olhar perscrutador.

Dálton visualizou Marta, um espectro que lhe ocupou a mente, e comparou a figura dela com a de Larissa, cujos atrativos salientaram-se-lhe à mente. Larissa era mais bonita e mais atraente do que Marta. Aquele sorriso… Marta era incapaz de exibir um sorriso tão belo. Dálton pensou qual havia sido a sua intenção ao solicitar à Marta permissão para dançar com Larissa. Não queria descontentar Marta; também não desejava descontentar Larissa. Confessou, para si mesmo, que, com desinteresse, e sem esforço, apresentou resistência débil ao pedido de Larissa, porém, assim que ela lhe segurou as mãos, e suplicou-lhe, com voz veludosa e olhar suplicante, uma dança, aquele corpo mesmerizador sugando-lhe todas as faculdades intelectuais, drenando-lhe a alma, e rebaixando-o, ao extrair-lhe o espírito divino, à condição animalesca, decidiu que dançaria com ela mesmo que Marta tal não aprovasse. Autômato de cérebro positrônico, revogou as três leis da robótica, e, em prejuízo do seu relacionamento com Marta, deixou-se conduzir pelo seu desejo de conservar consigo o belo corpo de Larissa.

Dálton e Larissa falavam futilidades, provocavam-se, alheios ao que se dava ao redor. De repente, ele, ao olhar, involuntariamente, por sobre o ombro direito dela, viu Marta e Wesley conversando, e suprimiu, de imediato, o sorriso do rosto. Larissa notou-lhe a brusca alteração dos traços do rosto e os dedos crisparem-se-lhe, voltou-se, viu Marta e Wesley, e, compreendendo a razão da alteração do humor de Dálton, procurou, em vão, atrair-lhe a atenção. Pousou-lhe as mãos no rosto, e voltou-o para si. Intimidou-a o olhar dele. Larissa procurou infundir-lhe serenidade. Ele ignorou-a. Para acalmá-lo, ela disse-lhe que não queria ver derramamento de sangue, naquela festa, e que ele postergasse a decisão de triturar Wesley. Ele não a ouviu. Com os olhos, ele tentou decodificar os movimentos dos lábios e as expressões faciais de Marta e Wesley. Não detectou, no rosto dela, nenhuma evidência de sentimento de repulsa por Wesley. Viu Wesley olhando-o de relance e interpondo-se entre ele e Marta, de costas para ele. No paroxismo da fúria, abandonou Larissa, que, contendo-o, temendo que ele perdesse o controle de si, pediu-lhe serenidade e fê-lo olhar para ela. Aos poucos, ele recobrou a presença de espírito, mas parecia às tontas. Larissa notou-lhe a respiração ofegante. Dálton disse que Wesley era canalha e a ele se referiu com expressões rasteiras. Larissa concordou, sem ressalvas. Ele declarou que Wesley suscitava-lhe repulsa, e aludiu ao que ocorrera, no clube, não muitos meses antes. Ela disse que ouvira falar de tal episódio, e sabia que Wesley era um cafajeste, e que tinham de amordaçá-lo, e arremessá-lo numa masmorra fétida, e encarcerá-lo por todos os dias que lhe restavam de vida. Dálton aspirava em fortes haustos. Enchia os pulmões, inflava o tórax, e esvaziava-os, num ritmo acelerado. Cerrou as pálpebras. Enfim, levou os dedos indicador e polegar direitos aos olhos, massageou-os, abaixou a cabeça, afrouxou os músculos, exibiu um sorriso misto de irritação e ódio, meneou a cabeça, e articulou, sussurrando, no início, sílabas desconexas, depois, num timbre metálico, ameaças veladas a Wesley.

Larissa reteve Dálton consigo o quanto pôde. Ele, aparentemente sereno, disse-lhe que iria até Marta. Prometeu-lhe que não daria escândalo, e, sob o olhar preocupado dela, andou na direção de Marta e Wesley; deteve-se à direita dele, de frente para ela. Wesley saudou-o. O olhar de Dálton não era ambíguo. Expressava o que ele sentia. Uma onda de calafrio percorreu a espinha de Marta, que empalideceu. Wesley não cessou a fingida bajulação. Marta interpôs-se entre eles. De frente para Dálton, disse-lhe que queria dançar com ele. Ele conservou Wesley sob o seu olhar ameaçador. Wesley encarou-o, exibiu sorriso de deboche e, movendo os lábios, sem emitir nenhum som, quando Marta não olhava para ele, pronunciou ofensa que Dálton pensou ouvir. Wesley alcunhava-o corno. Dálton livrou-se das mãos de Marta, e antes que ela percebesse o que se passava, foi, com passos firmes e pesados, na direção de Wesley, e empurrou-o. Àquela altura, os circundantes não ignoravam o que se sucedia. Dálton encarava Wesley e tocava-lhe o peito com o dedo indicador direito. Wesley recuava, com ar de vítima injustiçada. Marta segurou Dálton pelo antebraço e suplicou-lhe paciência. As suas palavras o chamaram à razão. Ele olhou para ela, que o puxou para si e, segurando-o pelo pulso, com força incomum, afastou-o de Wesley, para quem ele olhava, ameaçador. Pouco tempo depois, Marta e Dálton trocaram palavras ferinas. E ele virou-lhe as costas, dela afastou-se, e retirou-se do salão. Ela seguiu-o. Reunidos no estacionamento, discutiram. Ele prometeu regressar ao salão e escorraçar Wesley a socos e pontapés. No decurso de meia hora, ela aplacou-lhe a raiva. A fraca claridade permitia-lhe notar as modificações do semblante de Dálton, o desanuviar-lhe dos pensamentos e a transfiguração da figura dele, então sentimentos negativos a deformá-lo, para a de um homem sereno. Ao voltar-se para trás ao ouvir passos, viu Wesley, o seu sorriso debochado, e ouviu os insultos que ele cuspiu contra Dálton. Não obstante o seu esforço para manter Wesley e Dálton distantes um do outro, eles se atracaram. Com um golpe traiçoeiro, Carlos Roberto, até então oculto aos olhos de Marta e Dálton, correu na direção de Dálton, e com um salto, as pernas e os pés justapostos, encaixou-lhe, sem lhe dar tempo para reagir, uma pancada no tórax, e caiu no chão no mesmo instante em que ele caiu sobre o capô de um carro. Wesley e Carlos Roberto, movimentos sincronizados, acercaram-se de Dálton, que, perdido, via-se defrontando-se com dois oponentes, que, unidos, o superavam em força. Estava Dálton acuado. Wesley disparou-lhe um soco; ele se esquivou, travou-lhe do braço esquerdo, arremessou-o contra uma árvore, e, ato contínuo, desajeitado e desequilibrado, disparou um soco contra Carlos Roberto, que o aparou e deu-lhe um pontapé nas costas. Recomposto, Dálton preparou um soco contra Wesley, que o neutralizou ao mesmo tempo que lhe encaixou um soco no nariz. Wesley e Carlos Roberto desancariam Dálton, se ninguém interviesse. Os gritos de Marta, histéricos, atraíram a atenção de várias pessoas. Do nariz de Dálton escorria um fio de sangue. Vários rapazes intervieram na luta e enxotaram Wesley e Carlos Roberto, que, numa saraivada de insultos, os maldisseram, difamaram Marta, insultaram Dálton, e prometeram quebrá-lo ao meio na próxima vez que o encontrassem.

Dálton disparou saraivadas de olhares penetrantes contra Wesley e desafiou-o para uma luta. Wesley exibiu-lhe gestos obscenos. Marta e outras pessoas contiveram Dálton, que delas tentou desvencilhar-se. Afastaram-se de todos Wesley e Carlos Roberto. Mariana, informada, por uma amiga, do sucedido, rumou ao estacionamento; à porta do salão, viu a pequena multidão, e a passos largos, apressados, foi até ela. Marta afastou-se de Dálton, mas conservou-o sob o seu olhar. Continham-no três rapazes e duas moças. Mariana não se surpreendeu quando lhe disseram que Wesley e Carlos Roberto brigaram com Dálton. Recomposto, aparentemente sereno, Dálton recusou o pedido de Marta para regressarem ao salão. Afastaram-se de Marta e Dálton as outras pessoas. Mariana foi a última pessoa a deixá-los a sós, e com relutância, a pedido de Marta. Voltava-se para trás, olhava para eles, detinha-se a curtos intervalos, e observava-os. Ao se convencer de que eles se entenderiam, foi até o salão à porta do qual deteve-se, voltou-se, viu-os de mãos dadas, sorriu, e entrou no salão.

Larissa fitava Dálton, de distância respeitosa. Cobiçava-o, mas não se atreveu a se aproximar dele. Aplacou os seus desejos dizendo para si mesma que não queria provocá-lo, e tampouco provocar Marta – ambos muito suscetíveis, naquele momento. Marta viu-a à porta do salão. Num monólogo silencioso, disse para si mesma que lhe daria uma lição inesquecível, se ela ousasse aproximar-se de Dálton.

Encerrou-se a festa às quatro horas da madrugada. Algumas pessoas declararam que iriam a outro clube, em busca de diversão, e lá permaneceriam até o raiar do dia. Marta deu carona para Mariana e um casal de amigos. Deixou, primeiro, os amigos na casa deles, depois, Mariana na casa dos pais dela, e rumou para a sua casa. Dálton conservou-se calado durante toda a viagem de regresso.

O carro disposto sobre a calçada, o portão fechado, Marta pediu para Dálton que ele abrisse o portão. Ele se recusou a fazê-lo e, fisionomia carregada, disse-lhe para ela abri-lo. Ela cruzou os braços à frente do peito, e, calada, ficou a olhar para a frente. Ele crispou os músculos. Com os dentes rangendo, num tom cavernoso, aludiu-lhe à conversa dela com Wesley, no salão. Ela, conservando o olhar fixo no vazio à sua frente, com voz balbuciante, disse que Wesley a convidara para dançar, e ela recusara o convite e pedira-lhe que não insistisse, mas ele persistira. Intimidaram-na o olhar sombrio e o rosto convulsionado de Dálton. Dálton, sorrindo, desdenhoso, fez-lhe implacáveis referências ao que testemunhara e às suspeitas que alimentava desde a festa, no clube, ao ouvir Wesley insinuar que ela era mais interessante quando ele, Dálton, não estava por perto, e perguntou-lhe em que pessoa ela se transformou durante um ano de convívio com aqueles universitários depravados, e evocou as cenas da festa, no clube, a tia Luiza e seus comentários a respeito da devassidão dos universitários. Gaguejando, Marta repudiou os comentários e as alusões difamatórias. Zombeteiro, Dálton afinou a voz, arremedou Marta, e fez, com esgares caricaturais, um discurso, para ele hilariante, de um advogado de defesa, espargindo respingos de saliva sobre Marta, que os removeu, enojada. Marta disse-lhe que ele, movido pelo ciúme e por desejos mórbidos, tecia, num tom agressivo, comentários maldosos que ela não merecia ouvir, e que pensamentos de desconfiança tangeram a sua mente ao vê-lo dançando com Larissa, a quem ela se referiu como sirigaita e depravada. De imediato, os olhos de Dálton dançaram nas órbitas. Marta sentiu-se recompensada ao vê-lo na defensiva, justificando-se, alegando inocência, Ele repetiu as perguntas a respeito dela e de Wesley e disse que queria saber o que eles conversavam. Ela sorriu, perguntou-lhe se estavam num tribunal, participando de um interrogatório, e se ela estava sentada no banco dos réus. Ele escrutinou-lhe a fisionomia, sondou-lhe a mente; enquanto ela falava, estudava-a, desconfiado, como se lhe auscultasse o cérebro. E ela, uma vez mais, tratando da conversa dele com Larissa, perguntou-lhe se ele apreciara o contato de seu corpo com o formoso, estonteante, luxurioso corpo dela. Dálton pôs-lhe o dedo indicador esquerdo em riste, ergueu o tom de voz, e elencou os supostos sinais de traição de Marta, que, com voz esganiçada, esgoelando-se, açoitou-o com insultos impublicáveis a tal ponto que, nervosa, tensa, soluçou e gaguejou. O seu descontrole e a sua fraqueza inspiraram-lhe comentários zombeteiros; e ele arrostou-a com insinuações maledicentes e acusações maldosas. Perdendo o controle de si, Marta retirou-se do carro, andou, passos acelerados, aos tropeções, pela calçada esburacada repleta de raízes expostas. Logo em seguida, Dálton retirou-se do carro, foi até ela, alcançou-a, e apertou-lhe o braço. Ela fez um gesto de repulsa ao sentir em seu punho a pressão da mão dele, e um arrepio passou-lhe por toda a extensão da espinha, e lágrimas orvalharam-lhe o rosto; e balbuciou, com voz trêmula, qualquer coisa ininteligível. Dálton compreendeu-lhe algumas palavras, mas não apreendeu o significado do que ela dizia. Perturbado pelo tumulto de emoções que se entrechocavam no seu espírito, foi indiferente às emoções que as suas acusações suscitaram em Marta, que, insistindo nas suas débeis tentativas de se livrar da mão dele, desferiu-lhe um tapa na cara, e ele, fuzilando-a com o olhar, preparou-se para disparar-lhe um arsenal de insultos, mas não o fez, pois ela moveu o braço para acertar-lhe outro tapa; antecipando-se-lhe, ele segurou-lhe o pulso, premiu-o, sem tomar conhecimento da força que aplicava, infligindo-lhe dores. Ela rogou-lhe que a soltasse. Sem lhe dar ouvidos, ele lhe disparou, num tom elevado, uma saraivada de insultos. A muito custo, ela logrou convencê-lo a soltar-lhe o punho. E foi nesse momento que Floriano, anunciando-se, disse que ouvira gritos e retirara-se de casa a saber o que ocorria, e perguntou para Dálton e Marta porque o carro estava sobre a calçada. Marta fitou seu pai e Dálton virou-se para o lado oposto. Não passou despercebido de Floriano o constrangimento de Marta e Dálton e os gestos dela massageando o pulso. Fitou-a, com olhar interrogativo. Dos olhos dela escorreram lágrimas – ela estava na iminência de desabar aos prantos. Um raio de compreensão atingiu o cérebro de Floriano, que disse para Marta, e para Dálton, para ela num timbre suave, carinhoso, para ele, num timbre metálico, que entrassem na casa. Dálton, num tom seco, desejou-lhe boa noite, e afastou-se, a passos pesados, sob o olhar dele. Assim que Dálton saiu do seu campo de visão, Floriano voltou-se para Marta, que, à porta, observara Dálton a afastar-se, e pediu-lhe a chave do carro. Ela disse que a chave estava no contato. Ele abriu a porta da varanda, disse a Marta que entrasse na casa, e foi ao carro. Lucrécia apareceu, de camisola, ao pé da porta que dá acesso à sala de visitas. Ao vê-la, Marta caiu aos prantos, e aninhou-se-lhe ao peito. Lucrécia envolveu-a com o corpo. Entraram mãe e filha na casa. Durante a conversa com sua filha, Lucrécia, falando-lhe numa voz melodiosa e passeando-lhe as mãos pelos cabelos e deslizando-lhas pelo rosto, tranqüilizou-a. E Marta logo conciliou o sono. Enquanto desenrolava-se a conversa entre mãe e filha, na sala Floriano andava, tenso, de um lado para o outro, prometendo para si mesmo que iria, no dia seguinte, de Dálton exigir explicações.

Na manhã de domingo, estremunhada, Marta sentou-se na cama, ajeitou a camisola, e retirou-se do quarto. Ao ouvir vozes, deteve-se ao enquadramento da porta, com a mão esquerda na maçaneta, e apurou os ouvidos. E bocejou. Pensou ouvir vozes de três pessoas: a de sua mãe e a de duas outras mulheres. Assim que as substâncias anestésicas do sono abandonaram-lhe o corpo, reconheceu as vozes que ouvia: eram de uma pessoa: a de sua mãe, que conversava, ao telefone, com uma pessoa cuja identidade desconhecia. Enfiou-se pelo corredor, e, a passos lentos, foi à sala. Lucrécia pressentiu-lhe a presença, olhou por sobre o ombro, deparou-se com uma figura semi-desperta de rosto inchado de sono e cabelos desgrenhados, interrompeu a sua preleção ao telefone, e pediu à pessoa, que atendia pelo nome de Marisa, desculpas por ter de encerrar a conversa, prometeu-lhe dar sequência às explicações, ao entardecer, ou em outro momento, despediu-se dela, pôs o fone no gancho, levantou-se, foi até Marta, e saudou-a. Marta abriu um sorriso acanhado. Lucrécia beijou-a na testa, sustentando-lhe o rosto com as mãos, e assim que ela descruzou os braços, passeou-lhe as mãos pelo rosto, e removeu-lhe, com os dedos indicadores, a remela dos olhos, massageou-lhe os pulsos, falou-lhe dos hematomas, e perguntou-lhe se ela desejava falar a respeito, e pediu-lhe que se sentasse. Marta sentou-se, e sua mãe sentou-se-lhe ao lado. E narrou-lhe os eventos da véspera – tintim por tintim, como Lucrécia, a sua confidente, exigira-lhe. Lucrécia expressou a sua indignação e preconizou uma tragédia, se Marta persistisse no namoro com Dálton. Evocou, para ilustrar as suas declarações e sustentar o seu ponto de vista e inibir toda e qualquer contestação que Marta pudesse vir a apresentar-lhe, casos, que se popularizaram, de maridos e namorados enciumados que ou espancaram suas esposas e namoradas, ou as mataram. Marta fitou-a, horrorizada. Pensou em defender Dálton, dizer que ele agira sob efeitos de sentimentos passageiros e que se encontrava fora de si, no paroxismo de raiva suscitada pelo ciúme que lhe fôra inspirado por Wesley, por quem ele alimenta ódio visceral, e que ela, Marta, ao invés de acalmá-lo, lhe exacerbara os sentimentos ao confrontá-lo e atirar-lhe na cara insinuações e acusações, mas optou pelo silêncio, pois, sabia, sua mãe lhe diria, e seu pai a secundaria, que, se todas as vezes que agisse por impulso, açulado por ciúme, a ponto de machucá-la, e Marta, nervosa, ao não refletir nas palavras, o confrontasse, Dálton perdesse o governo de si e a agredisse, então ele era uma ameaça para ela e dele ela teria de se afastar antes que ocorresse uma tragédia.

À tarde, Dálton telefonou para Marta. E eles conversaram durante uma hora. Duas horas depois, ele premiu a campainha da casa dela. Ouviu-a retinir. Ninguém atendeu à porta. Premiu a campainha segunda vez. Viu Floriano, na varanda, andando em sua direção. Floriano deteve-se à porta que dá acesso à rua, fitou-o, e disse-lhe, num timbre de voz metálico, que ele machucara Marta. Dálton, constrangido, pediu-lhe desculpas, olhou para os lados, e renovou, com voz contida, arrependido, visivelmente constrangido, os pedidos de desculpas. Floriano interrogou-o, repreendeu-o, e dele nenhuma palavra ouviu. No momento de maior excitação, elevou o tom de voz e torpedeou-o com um arsenal de interrogações fulminantes, Dálton, então, de cabeça abaixada, a escarvar o chão, a passear as mãos pelos cabelos, a massagear o nariz. Dálton declarou-se sinceramente arrependido. Assim que Floriano perguntou-lhe se ele possuía dupla personalidade, sorriu, acreditando tratar-se de um chiste, mas, o seu olhar encontrando-se com o dele, suprimiu, automaticamente, do rosto o sorriso, olhou para a direita, para o vazio, e coçou o nariz. Após alguns minutos de completo silêncio, Floriano, num tom paternal, confessou-lhe o amor pela filha, e o respeito e o carinho que cultivava e nutria por ele, e perguntou-lhe se ele merecia uma segunda chance. Ele respondeu com silêncio, olhar de súplica, e lábios trêmulos, que o impediam de articular qualquer palavra. Floriano, enfim, abriu a porta, e deu-lhe acesso à casa. Dálton pediu licença, e ele concedeu-lha. Cabisbaixo, entrou, deu quatro passos, e deteve-se, o olhar perdido. Floriano pediu-lhe que entrasse na casa. Fechou a porta atrás de si, convidou-o a sentar-se, e disse-lhe que iria conversar com Marta. Dálton notou-lhe o tom de voz, simultaneamente distante e carinhoso, e disse-lhe, com voz mal articulada, que, em pé, esperaria por ela. Floriano retirou-se da sala. Dálton olhou para as fotos, todas emolduradas. Não muito tempo depois, Marta entrou na sala e saudou-o com um sussurro. Ele voltou-se para ela. E fitaram-se, ambos constrangidos. Ele massageou o nariz, empinou a cabeça e fitou o teto. Ela cruzou os braços ao peito. E ele abaixou a cabeça, levou a mão esquerda aos olhos, e com o polegar e o médio massageou-os, como se quisesse afugentar de si os pensamentos que o impediam de articular as palavras que pretendia dizer para Marta, que, tensa e ansiosa, conteve a respiração, fitou-o, desviou o olhar, e concentrou-o em algum objeto.

Dálton, enfim, foi até Marta, e ela virou-lhe o rosto. Pegou-lhe as mãos, e massageou-lhe os pulsos. Notou-lhe o tremular dos lábios e do queixo. Ela puxou as mãos para si – sem esforço, pois ele não as prendia em sua mãos – e cruzou ao peito os braços; ele interpretou tal gesto como um sinal da repulsa que ela sentia por ele. Carinhosamente, ele levou a mão direita à nuca de Marta, e atraiu a cabeça dela para si – ela deixou-se atrair e aninhou-lhe a cabeça ao peito – e abrigou-a sob os braços. Na sequência, sentaram-se no sofá. Conversaram, retraídos, trocaram gestos de carinho, e provocaram-se. Marta beliscou-o e deu-lhe tapas inofensivos. Parecia que ambos abandonavam as desconfianças; persistia, no entanto, na cabeça de Marta, resquícios de medo, e, na de Dálton, o receio de vir a perdê-la se lhe ferisse suscetibilidades. Retiraram-se da casa às vinte e uma horas, e rumaram, de mãos dadas, sorrisos apaixonados nos rostos corados, a uma pizzaria, da qual se retiraram quinze minutos antes da meia-noite. E na varanda da casa de Marta, renovaram os votos de amor. Beijaram-se, apaixonadamente, enlaçados num abraço estreito. E despediram-se vinte minutos depois da meia-noite.

Declaração de Amor – parte 3 de 5

Dálton cursava o terceiro ano colegial, à noite, e trabalhava das oito horas ao meio dia e das quatorze às dezoito horas.

Dois eventos entristeceram-no sobremaneira: a morte de Celso, seu tio, um dos tios pelo qual nutria mais carinho e respeito; e, três dias depois, a morte de Adriano, um amigo que, ou foi enforcado, ou cometeu suicídio. Adriano, dois anos antes, envolvera-se com drogas, e, suspeitavam, traficava drogas e devia uma boa soma em dinheiro para traficantes; como não saldara a dívida, mataram-no, enforcado, simulando suicídio, diziam. Durante os cortejos fúnebres, Dálton conservou-se calado; a sua fisionomia transparecia a dor que o avassalava. De seus olhos, escorreram lágrimas abundantes, as quais ele removia com as mãos, ou Marta lhas removia, carinhosamente. Nas provas que se sucederam, na semana posterior às mortes de Celso e de Adriano, Dálton obteve notas baixas; e o seu desempenho no trabalho também diminuiu. A sua desatenção e a sua indiferença não passaram despercebidas das pessoas com as quais ele convivia.

Semanas depois, numa conversa com seus pais, disse-lhes que, indeciso, não sabia que faculdade cursaria. Decidiu-se, por fim, não cursar nenhuma faculdade. Seus pais insistiram; que ele cursasse alguma faculdade. Ele lhes disse que talvez se matriculasse em um curso técnico, ou em uma faculdade relacionada à administração e negócios, pois, na loja de aparelhos eletrônicos, tomara gosto pelo ofício de vendedor, e porque desejava conhecer o funcionamento de uma empresa; e, com argumentos consistentes, que teria mais a aprender na loja do que numa universidade. Ulisses disse-lhe que ele poderia cursar ou engenharia ou medicina. Dálton não se decidiu; pensaria no assunto, e, enquanto não tomasse uma decisão, trabalharia, na loja de aparelhos eletrônicos, ou em outra empresa. Vilma Helena falou de Claudionor, que se dedicava aos estudos e iniciara estágio em uma empresa de engenharia espacial, e disse que ele, Dálton, não poderia se contentar com emprego de vendedor em uma loja de aparelhos eletrônicos. Dálton franziu o cenho, expôs o seu descontentamento com a comparação, e perguntou-lhe, sem deixar de dirigir a pergunta para seu pai, se eles poderiam admitir que ele, Dálton, tomasse uma decisão independentemente de qual tenha sido a de Claudionor. Sua mãe desconversou, disse-lhe que tivera, unicamente, a intenção de mostrar-lhe, ao falar de Claudionor, que ele, Dálton, não teria futuro de sucesso sem instrução universitária.

– A emenda saiu pior do que o soneto – sentenciou Dálton.

Ao perceber que os ânimos acirravam-se, antecipando-se à Vilma Helena, Ulisses perguntou a Dálton se ele estava desempenhando bem o seu trabalho na loja de aparelhos eletrônicos. Vilma Helena calou-se, e engoliu a pergunta, provocativa, ela sabia, que pretendia fazer ao filho. Até o encerramento do almoço, ela não pronunciou nenhuma outra palavra; da conversa entre Ulisses e Dálton ouviu o início, e dela alheando-se, mergulhou nos seus pensamentos.

Num final de semana, Marta e Dálton foram à uma festa num clube alugado pelos alunos da universidade.

À beira da piscina, Marta, Dálton e Mariana conversavam, sentados; Marta entre Dálton, à sua direita, e Mariana, à sua esquerda. Wesley e Carlos Roberto, visivelmente embriagados, aproximaram-se deles, e seguraram Marta, Wesley, pelos calcanhares, Carlos Roberto, pelas axilas, e levantaram-na. Ela protestou. Eles gargalharam e provocaram-na, desdenhosos. Dálton observou-os. Ao cruzar o seu olhar com o de Marta, levantou-se, e pediu, com gentileza incomum, a Wesley e Carlos Roberto que a soltassem. Eles gargalharam, zombaram dele e de Marta. Wesley perguntou para ela porque ela havia levado o namorado à festa e disse-lhe que ela era mais simpática e engraçada quando ele não estava por perto. Dálton encarou-o, engrossou a voz, e, num tom imperioso, com o punho direito cerrado, disse-lhe que soltasse Marta. Zombeteiro, Wesley soltou-a, e disse-lhe que ele era muito nervoso, e, voltando-se para Marta, disse-lhe que ela merecia um namorado que sabia curtir a vida. Dálton empurrou-o, sem aplicar toda a sua força. Wesley recuou, ergueu os braços, mantendo os cotovelos dobrados, e, num tom ao mesmo tempo zombeteiro e intimidado, pediu-lhe calma. Carlos Roberto soltou Marta. Ao contínuo, ele e Wesley aproximaram-se de Mariana, ameaçaram agarrá-la e jogá-la na piscina. Ela deu um tapa inofensivo em Carlos Roberto, e este e Wesley provocaram-na, afastaram-se dela, e aproximavam-se de Bianca e Jéssica, que conversavam, sentadas, no outro lado da piscina. Agarraram Jéssica, que não imprimiu resistência e limitou-se a apresentar-lhes protestos débeis, ergueram-na, e arremessaram-na na piscina. Wesley, ato contínuo, jogou-se na piscina. Jéssica emergiu. Ele emergiu. Carlos Roberto puxou Bianca pelo calcanhar. Ela resistiu, e deu-lhe uma unhada. Ele recuou, massageou o ponto atingido, voltou-se para ela e desferiu-lhe obscenidades; e ao chamado de Wesley, pulou na piscina. E acercaram-se Carlos Roberto e Wesley de Jéssica, que protestou. Wesley agarrou-a pelos cabelos. Bianca pediu a Wesley e Carlos Roberto que a deixassem em paz. Carlos Roberto proferiu um palavrão. Dálton disse para Mariana e Marta que aquela brincadeira não teria um final feliz. Jéssica protestou, ofendeu Wesley, e, com olhos suplicantes, pediu-lhe que a largasse. As gargalhadas e os comentários de Wesley e Carlos Roberto incomodaram Marta, Dálton, Mariana, Bianca e outras pessoas. Dálton, então, preparou-se para ir em socorro a Jéssica; deteve-se ao ver dois rapazes e Bianca se lhe antecipando e pulando na piscina. E os três nadaram até Wesley, Carlos Roberto e Jéssica; esta, ao se ver livre e na companhia de Bianca, nadou até a borda da piscina, chorando, enquanto os dois rapazes discutiam com Wesley e Carlos Roberto. À beira da piscina, Bianca e duas moças ampararam Jéssica, visivelmente nervosa, cuja respiração o choro dificultava, e uma delas cobriu-a com uma toalha; Bianca, envolvendo-a pelos ombros, conduziu-a até uma cadeira. Enquanto isso, os dois rapazes que pularam na piscina em socorro a Jéssica, e outros rapazes, obrigaram Wesley e Carlos Roberto a se retirarem da piscina à cuja beira Wanderley, um grandalhão loiro de cabelos compridos, deu um tapa na cara de Carlos Roberto e pôs-lhe o dedo em riste ao nariz e encostou o punho esquerdo cerrado na testa de Wesley, dirigindo-lhes a palavra num tom de voz ameaçador. Wesley e Carlos Roberto, intimidados, escudaram o rosto com as mãos, encolheram os ombros e viraram a cabeça quando Wanderley, que sopesava o seu desejo de expulsá-los do clube aos socos e pontapés, ameaçou dar-lhes um soco. E afastaram-se. E a namorada de Wanderley puxou-o pelo braço ao mesmo tempo que, atônita, dava, para Wesley e Carlos Roberto, que se recolheram sob apupos impublicáveis e olhares de repreensão de todos os presentes, a sugestão de recomporem-se e irem-se embora.

Duas pessoas justificaram a atitude de Wesley e Carlos Roberto.

– Eles estão bêbados – disse uma delas. – Eles não têm controle dos próprios atos.

– O que fizemos? – replicou um aluno. – Acabamos com a ebriedade deles. Os palavrões que lhes dissemos e os tapas que o Wanderley lhes deu os trouxeram à realidade.

– Eles apenas se divertiam – disse a outra. – A Jéssica perdeu o controle. O Wesley e o Carlos Roberto nada lhe fariam, aqui, na piscina, na frente de todo mundo.

– Eles se divertiam? – retrucou uma aluna, indignada. – A Jéssica não se divertia. Cabia a eles respeitá-la. Se ela não queria participar da brincadeira, eles não poderiam obrigá-la a participar. E quem disse que eles não iriam fazer nada!? Estão bêbados aqueles dois imbecis. Eles tiraram a parte de cima do biquíni da Jéssica. O Wesley e o Carlos Roberto puxaram-lhe o biquíni de baixo, para desatá-lo. Se a Jéssica não o segurasse, eles lho removeriam – e acrescentou, após um curto intervalo. – E tu me dizes que aqueles dois idiotas nada fariam contra a Jéssica!

Minutos depois, Dálton, ao entrar no banheiro, sentiu a emanação peculiar de maconha e ouviu vozes de três pessoas – duas vozes masculinas e uma voz feminina – dentro de um compartimento isolado. Assim que ouviram os passos de Dálton, tais pessoas calaram-se; sempre que uma delas fazia algum barulho, ouvia-se, na sequência, um “chiu” ciciado ou um “Quieto” sussurrado. Dálton pensou em Marta. Imaginou-a na companhia de Wesley e Carlos Roberto. Perguntou-se o que Wesley quis dizer quando dissera para Marta que ela era mais simpática e engraçada quando estava desacompanhada dele, Dálton, e imaginou-a, num banheiro reservado aos homens, fumando maconha, na companhia de dois homens – tais pensamentos e tais imagens rodopiaram no seu cérebro, desnorteando-o. Retirou-se do banheiro, em menos de dois minutos após nele entrar, e foi, sem se deter, até a piscina, e sentou-se à direita de Marta. À sua mente, os pensamentos a lhe avassalarem o espírito. Ao olhar ao redor, divisou, ao longe, num terreno um pouco abaixo, encostado à árvore, um homem, e uma mulher, ele a enlaçá-la. O homem trajava uma sunga. A mulher, um biquíni azul. Riam. Beijavam-se. Ela lhe passeava as mãos pelos cabelos compridos. Ele lhe apertava as nádegas. Ela, sorrindo, ora dava-lhe um tapa no ombro, ora beliscava-lhe o braço, ora apertava-lhe as bochechas, ora segurava-lhe as mãos. Um rapaz aproximou-se deles. O homem e a mulher voltaram-se para ele, e riram. O rapaz, com esgares lascivos, gestos obscenos, enlaçou, por trás, a mulher, encostou-se nela, puxou-lhe os cabelos e lambeu-lhe a orelha direita. A mulher e o homem gargalharam. O rapaz deslizou as mãos pelas ilhargas, quadris e pernas da mulher, apertou-lhe as nádegas, e estreitou-se nela ainda mais; ao receber do homem um empurrão amigável, afastou-se; ato contínuo, ameaçou aproximar-se da mulher, mas o homem, sorrindo, ameaçou dar-lhe pontapés; com gestos lascivos da língua, afastou-se, às gargalhadas estrondosas, as quais ecoaram pelo clube e chegaram aos ouvidos de Marta, de Mariana, e aos de Dálton, cuja mente imagens nas quais a mulher era substituída por Marta a avassalavam.

À noite, Dálton e Marta passearam pela praça Joaquim Nabuco. Ele lhe relatou o que presenciara no clube, e expôs os seus pensamentos a respeito, as impressões que o episódio provocara em si, perguntou-lhe se, em todas as festas que os universitários promoviam, havia tais depravações, e disse-lhe que ela não iria, desacompanhada dele, a outras festas, pois os universitários, sentenciou, são depravados. Marta discordou. Disse que alguns deles eram irresponsáveis, desrespeitosos e preguiçosos, e muitos eram responsáveis, estudiosos e trabalhadores, e evocou as pessoas que reprovaram Wesley e Carlos Roberto. Dálton replicou: uma delas era a moça cuja voz ouvira no banheiro, e outra, o homem que, encostado à árvore, enlaçava a mulher, namorada dele, presumia. Eles eram imorais, sentenciou. E perguntou para Marta a respeito dos comentários de Wesley, que disse que era ela mais simpática e engraçada quando ele, Dálton, não a acompanhava. Ela aconselhou-o a não dar atenção para o que Wesley dizia. Dálton ensaiou uma réplica, mas calou-se, ensimesmado, nutrindo suspeitas; disse para si mesmo, em pensamento, que usaria de expedientes dos quais Marta não suspeitaria para saber o que se passava na faculdade. As desconfianças empanaram-lhe a consciência; o torvelinho de idéias embotou-lhe o raciocínio. Ele evocou os eventos sucedidos no clube, lembrou da sua curiosidade mórbida sobre o desenrolar e o desenlace do caso que Wesley e Carlos Roberto protagonizaram e visualizou a moça e os dois homens no banheiro. Fustigaram-lhe a mente pensamentos desconcertantes a respeito de Marta, para cujo comportamento conjecturou explicações.

Dálton exasperou-se ao não confirmar as suas suspeitas. Acreditava que Marta esquivava-se das perguntas que ele lhe fazia com o propósito de sondar-lhe a mente, mas sem revelar-lhe as suas intenções, as quais, pensava, delas Marta desconfiava mas simulava ignorância.

Em novembro, pediu Marta em casamento. Deram ambos a notícia aos familiares. Casariam em julho do ano seguinte. Reuniram-se, numa festa comemorativa, na casa de Floriano e Lucrécia. Alguns familiares maledicentes disseram que Marta estava grávida de um aluno da faculdade; houve quem declarasse que o filho dela fôra concebido durante uma festa, e que Marta não sabia quem era o pai da criança que ela daria à luz dali seis meses, caso não a abortasse, como ela e Dálton pensavam fazer. Resumo do enredo aventado aos quatro cantos do mundo: Marta bebeu whisky, vodka, fumou maconha e cheirou cocaína; com o cérebro em frangalhos, participou de uma orgia, manteve o intercurso carnal com quatro homens, todos eles alunos da faculdade, bêbados e drogados. Os maledicentes, com voz sibilina, não se limitaram a espalhar tal história durante a festa. Disseminaram-na, nos dias seguintes, por toda a cidade. Tal história alcançou os ouvidos de Marta e Dálton, e os dos pais dele e os dos pais dela. O autor de tais boatos não foi identificado, mas, tinham certeza Dálton e Marta, e os pais deles, que ele era um dos convidados à festa na casa de Floriano e Lucrécia.

Nos finais de semana e nos dias de folga, Dálton e Marta foram às imobiliárias, e às lojas pesquisar preços de cama, guarda-roupas, mesas, e às empresas de materiais de construção. Floriano e Lucrécia os presentearam com um terreno de quinhentos metros quadrados que possuíam no Bairro Jardim das Oliveiras e disseram-lhes que os ajudariam, com dinheiro, na construção da casa.

Dálton comprou um carro seminovo. No trabalho, desincumbia-se, à perfeição, das suas funções. O gerente da loja, Vinicius, promoveu-o, e transferiu-o para uma filial, localizada na cidade vizinha, cujo gerente, Durval, em reconhecimento dos méritos de Dálton, aumentou-lhe o salário e a porcentagem da comissão. Alguns vendedores fitavam Dálton com olhares enviesados; dentre eles, havia os que lhe arquitetavam a queda. Outros vendedores, sinceros, teciam-lhe elogios, saudavam-no, respeitosos, e reconheciam-lhe as excepcionais faculdades de vendedor. A dedicação de Dálton ao trabalho e aos estudos era o assunto principal das conversas de Ulisses e Vilma Helena, ambos convencidos de que Marta inspirava nobres sentimentos a Dálton, que não andava mais na companhia daqueles sujeitos pelos quais nutriam repulsa figadal. Ele, diziam, mudou da água para o vinho. Na loja, difamadores e desafetos dele o hostilizavam, abertamente uns, pelas costas outros. No início, ele estranhou a atitude de alguns vendedores, a hostilidade deles, as insinuações que eles lhe apresentavam, as ambigüidades que proferiam; não precisou de muito tempo para se convencer de que, dentre os vendedores, muitos eram seus rivais, e muitos seus inimigos viscerais.

Dálton e Marta foram à festa de final de ano que a loja promoveu. À mesa em que estavam havia outros funcionários da loja, uns, acompanhados da namorada, outros, da esposa, e funcionárias acompanhadas, umas, do esposo, outras, dos filhos e do esposo. Dálton, após reconhecer um amigo, Matheus, que estava no outro lado do salão, em pé, saudando duas pessoas, levantou-se, e andou na direção dele. Ao passar por uma mesa, deteve-se para dar passagem para duas mulheres, que iam em sentido contrário. Foi então que ouviu o nome de Marta mencionado num tom que não o agradou. Reconheceu a voz que o pronunciou; era a de Lúcio, um dos vendedores que trabalhava na loja; e, em seguida, reconheceu a voz de Ricardo, outro vendedor. Ouviu Lúcio referir-se, num tom seco, à Marta. Ele disse que ela, extraordinariamente persuasiva, extraía favores da gerência, para beneficiar Dálton. Dálton ouviu uma voz indignada, de mulher. Não se voltou para Lúcio e Ricardo. Sabia que eles queriam que ele se voltasse e os fitasse. Afastou-se deles, assim que pôde, mas não antes de ouvir uma das duas mulheres que conversavam com eles perguntar se Dálton não sabia que recebia privilégios devido aos favores que Marta prestava ao gerente, ou não desconfiava das facilidades na obtenção de vantagens, e Lúcio declarar que suspeitava que ele ou sabia de tudo, mas por conveniência e covardia calava-se, pois recebia muitos benefícios, ou, mancomunado com a namorada, chantageava o gerente, que era casado.

Dálton saudou Matheus, a namorada dele, Sabrina, o pai dela, Renato, que era um funcionário da loja, e a mãe dela, Ana Beatriz. Eles pediram a Dálton que se sentasse, e lhes fizesse companhia; ele lhes disse que estava com Marta. Conversaram durante alguns minutos. Dálton soube que Matheus trabalhava em uma montadora de automóveis, localizada em São José dos Campos. Parabenizou-o. Desejou-lhe sucesso. Falou-lhe de Marta, do noivado, do casamento, do terreno que ganhara dos futuros sogros, da casa que pretendiam construir, e disse-lhe que lhe enviaria o convite de casamento. Matheus, que havia um ano não o via, desde que se mudara, com o pai e a mãe, de cidade, disse que desejava conhecer Marta. Dálton pediu-lhe que o acompanhasse, que lha apresentaria. Matheus e Sabrina o acompanharam até à mesa à qual estava Marta. Ao passar próximo à mesa à qual estavam Lúcio e Ricardo, Dálton viu, com o canto dos olhos, as duas mulheres fitando-o com olhar misto de indignação e pena, como se o vissem, ou como um tolo, ou como um ser repulsivo, fez que nada viu, e seguiu até Marta.

Minutos depois da meia-noite, quando quase todos os convidados já haviam se retirado do clube, Dálton e Marta despediram-se dos amigos e de Durval. À porta do salão, Lúcio abordou-os, sorridente, saudou Dálton, e deu-lhe tapinhas nas costas. Em seguida, ele saudou Marta, que lhe retribuiu a gentileza. Assim que Fátima, esposa de Lúcio, e Andréia, esposa de Ricardo, e Ricardo deles se aproximaram, Lúcio apresentou Dálton para Fátima:

– Ele é o Dálton de quem te falei.

Fátima exibiu sorriso acanhado, e ofereceu a mão direita a Dálton, de quem não passou despercebido a lividez do rosto dela e o constrangimento.

Em seguida, Lúcio apresentou Fátima para Marta. Elas se cumprimentaram, com débil aperto de mãos, que mal se tocaram. Na sequência, ele apresentou Andréia para Marta – elas se cumprimentaram – e para Dálton – e Dálton e ela saudaram-se. Lúcio elogiou Dálton; sorrindo, disse-lhe que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher, e disse para Marta que Dálton, sem o apoio dela, não seria um vendedor tão bem-sucedido. Ela acolheu os elogios. Dálton compreendeu as insinuações, e sorriu; era seu desejo cerrar os punhos e esmigalhar o nariz de Lúcio com socos, mas, para a sua surpresa, conteve-se. A sua postura, fria, contrastava com o sangue, que lhe fervia nos vasos sanguíneos, e com os pensamentos, que lhe queimavam a mente.

Enfim, após muitos sorrisos forçados, elogios falsos, Lúcio e Fátima e Ricardo e Andréia despediram-se de Dálton e de Marta.

No carro, Marta perguntou para Dálton porque ele, na presença de Lúcio, Fátima, Ricardo e Andréia, estava tenso, e dele ouviu:

– Amanhã te contarei a história. Tu conhecerás a verdadeira face do Lúcio e a do Ricardo.

Na manhã seguinte, Dálton cumpriu o prometido. Marta ouviu-o atentamente, meneando a cabeça, indignada, enraivecida. Condenou a postura dissimulada de Lúcio e a de Ricardo. Dálton disse-lhe que tinha de lidar com eles, todos os dias – e se controlar para não perder a compostura e não os moer de socos -, e com outros vendedores do mesmo naipe. Ela lhe disse que tais vendedores mereciam uma surra inesquecível. Lúcio, disse Dálton, era, de todos os seus desafetos, o mais sórdido; era persuasivo, capaz de, com lábia sedutora – como Marta tivera a oportunidade de conhecer -, embotar, com seus floreios retóricos, a consciência das pessoas, que acabavam por acreditar em idéias estapafúrdias e a praticar atos condenáveis; e fazia inimigos viscerais dois amigos filiais. Tal faculdade ele empregou contra os seus desafetos e os seus fiéis escudeiros, caso de Ricardo, sujeito passivo, desprovido de vontade própria, inapto, que se sente seguro e forte à sombra dele. Ricardo era um vendedor promissor antes de cair nas garras de Lúcio, que o reduziu a um bonequinho de ventríloquo. Inteirada do tipo de Lúcio e do de Ricardo, nas outras ocasiões em que entabulou conversa com eles, Marta compreendeu as insinuações que eles lhe faziam; com sutileza, disparou-lhes farpas, e eles esforçavam-se por exibir indiferença e rosto inexpressivo, mas um ligeiro esgar, o rumor de um sorriso, com a comissura dos lábios, o franzir das sobrancelhas deles revelavam o incômodo – detalhes minúsculos, imperceptíveis, que Marta, meticulosa, detectava, e usava contra eles, logrando irritá-los. Lúcio tentava fustigá-la com comentários ambíguos nos quais estavam implícitos os seus propósitos maldosos, e os quais revelavam, dele, o ponto fraco, o qual ela acreditou haver descoberto.

Declaração de Amor – parte 2 de 5

No dia seguinte, Luiza, Marco Antonio, Jéssica e Vanessa visitaram Vilma Helena e Ulisses. Não eram oito horas da manhã quando chegaram à casa deles. Saudaram-se calorosamente. Dálton dormia. Acordou um pouco antes das nove horas, envolvido pelas vozes de Luiza e Marco Antonio, que falavam em tom alto. Esfregou os olhos com os nós dos dedos; e com os dedos indicadores removeu a remela dos olhos. Semi-desperto, puxou a colcha para baixo; com movimentos dos pés e das pernas, descobriu-se. Foi nesse momento que ouviu seu tio pronunciar seu nome e sua mãe dizer-lhe que ele, Dálton, dormia como um anjo. Dálton mal ouviu o que eles disseram; captou algumas palavras, que lhe permitiam fazer idéia do assunto que eles tratavam. E sentou-se na cama; e passou as mãos pelo rosto, e bocejou. Sentia pesados os olhos. Passeou as mãos pelos cabelos; e coçou a cabeça. Sentiu algo a lhe incomodar o nariz. Assoou-o, e na sua mão direita atirou muco nasal. Levantou-se, e foi ao banheiro. À pia, abriu a torneira, e limpou a mão. Regressou ao quarto, pegou algumas roupas, encaminhou-se ao banheiro, e banhou-se com água fria. Vinte minutos depois, retirou-se do banheiro com aparência melhor do que a que apresentava ao nele entrar. Na sala-de-estar, encontrou-se com seu pai, sua mãe, seu tio, sua tia e suas primas. Luiza atraiu-o, beijou-o nas duas faces, e, com as mãos pousadas no rosto dele, deu-lhe um beijo na testa – Dálton teve de reclinar-se para que ela o beijasse. Em seguida, ela elogiou-lhe a beleza e o porte físico. Na sequência, ele saudou, com um abraço caloroso e um aperto de mãos, seu tio, que dele se aproximara quando ele conversava com Luiza, e, com beijos e abraços, Vanessa e Jéssica.

– Tua mãe disse-me, Dálton – disse Luiza -, que tu estás namorando uma princesa: Marta. Quando tu a apresentarás para nós?

– Traga-a aqui – antecipou-se Vanessa, sorridente. – Quero conhecer a mulher que irá pôr um pouco de juízo na cabeça de meu primo.

Todos riram do comentário.

Vanessa evocou as aventuras de Jéssica, Dálton, Claudionor e dela, na fazenda dos avós, e os passeios que empreenderam no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, e nos Estados Unidos. Riram dos contratempos que enfrentaram e dos dissabores que os afligiram. E foi ela quem evocou o dia em que, no Rio Grande do Sul, num passeio de ônibus, o motorista do ônibus quase perdeu a direção e o ônibus quase despencou em uma ribanceira. Aludiu aos insultos que os passageiros cuspiram contra ele e ao medo que sentiram. Dálton evocou outros momentos inesquecíveis de tal viagem e as aventuras sucedidas nos Estados Unidos. Seus olhos brilharam ao evocar a Califórnia, um país, disse ele, surreal.

Beberam café, leite, café-com-leite. Comeram pães com queijo, pães com manteiga, maçãs, bananas, sucrilhos, bolachas com recheio de morango e bolachas com recheio de chocolate, waffes, biscoitos, pães-de-fôrma com geléia de pêssego, e goiabada com queijo.

Durante a conversa, mudavam, constantemente, de assunto. Em certo momento, Jéssica perguntou de Marta a Dálton. Desejava saber se ela era bonita, qual a cor dos cabelos e dos olhos dela, qual a idade dela e onde ela morava. Dálton se tornou o centro das atenções. Sentiu-se intimidado. Carecia de tempo para responder às perguntas, pois todos lhe falavam ao mesmo tempo. Foi Vilma Helena quem disse que, se desejavam extrair-lhe alguma informação, teriam de permitir que ele falasse. Assim que sua mãe, como ela mesma disse, conseguiu pôr ordem na casa, ele falou de Marta. Elogiou-a, sem ressalvas. Evocou o dia em que a conhecera. Falou da cor e do comprimento dos cabelos dela, da cor dos olhos, do formato do nariz, do rosto, do tipo físico e da altura dela, das roupas que ela mais gostava de usar, dos filmes prediletos dela, dos livros que ela leu e dos que ela não leu e não pretendia ler; e do início do ano letivo, na faculdade de Direito. Estava orgulhoso do sucesso de Marta, que, como o pai e a mãe dela, seguiria carreira de advogado; mas ela ainda não havia decidido em qual ramo do direito se especializaria. Marco Antonio teceu comentários sobre advogados e outros profissionais do ramo jurídico. Jéssica declarou que advocacia era uma profissão que ela jamais exerceria. Vanessa disse que não conseguia entender como podia existir pessoas que viviam mergulhadas em livros de códigos e constituições, analisando pontos, vírgulas e pontos-e-vírgulas de milhares de leis, e perguntou qual a razão de tantas leis, e se elas eram escritas para melhorar a vida das pessoas, ou para piorá-la. Marco Antonio tomou a palavra, e afirmou, categoricamente, que muitas leis são criadas tendo-se em mira a defesa de interesses de grupos privilegiados, a garantia de reserva de mercado para certas empresas e a impunidade a certos políticos.

A conversa estendeu-se, com comentários favoráveis e comentários desfavoráveis ao sistema legal brasileiro. Marco Antonio entremeou com perguntas retóricas as suas argumentações. Falaram da criação da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, da extradição de Cesare Battisti, da Lei da Ficha Limpa, da formação ideológica dos representantes das leis, e das faculdades de Ciências Jurídicas. Luiza disse, em certo momento da conversa, que as universidades brasileiras são antros de pervertidos. Nenhum dos seus interlocutores corroborou tal opinião. Marco Antonio dela divergiu frontalmente, e ela mencionou exemplos de casos que lhe chegaram ao conhecimento e concentrou-se no protagonizado por Jennifer, filha de Lúcia, uma das suas vizinhas:

– A Lúcia contou-me, um dia, na casa dela, que Jennifer, sua segunda filha, foi, no primeiro ano de administração de empresas, assediada e chantageada por um professor, cujo nome não me recordo, ao tratar com ele das notas que ela tirara nas provas. Na somatória das notas de todas as provas do ano, Jennifer não havia conseguido a nota mínima necessária para passar à série seguinte; restou-lhe meio ponto. O professor, não reservando consigo as suas segundas intenções, disse para ela que ela poderia passar para a série seguinte se aceitasse o convite que ele lhe fazia para jantar. O seu sorriso cínico, as reticências, o realce que deu ao ‘jantar’, o olhar enviesado e o timbre da voz não deixaram dúvidas a respeito do que ele desejava. Jennifer, momentaneamente privada da voz, ensaiou uma resposta grosseira, mas calou-se. Disse que mordera a língua, para não faltar com o respeito ao professor, não perder a compostura, e não se debulhar em lágrimas, de decepção, num misto de raiva e medo. Aquele professor, de todos os professores, era o que ela mais estimava. Afligiu-a o descaramento dele. Incapaz de falar, no receio de não perder o controle de si, abreviou a conversa e, as pernas bambas, foi-se embora. Ao chegar na sua casa, contou o ocorrido para a Lúcia. No ano seguinte, matriculada no segundo ano, ela estudou, do primeiro ano, a matéria na qual fôra reprovada, agora com outro professor, e mais as matérias do segundo ano. E ela foi aprovada, e com louvor – fez uma pausa, para avaliar o impacto das suas palavras naqueles que a ouviam, e prosseguiu: Quantas mulheres são vítimas, nas universidades, de professores canalhas? As universidades são antros de perdição. Nas universidades os alunos fumam maconha, frequentam festas regadas a bebidas alcoólicas e drogas. Brutalizam-se. Emburrecem-se. Na cabeça, eles têm, além de piolhos, minhocas. Os professores os deseducam, os deformam.

– Tu exageras, mãe – sentenciou Vanessa.

– Não exagero – replicou Luiza. – Conhecemos este caso. Quantos outros não nos chegaram ao conhecimento? Se não fosse moça decente, a Jennifer aceitaria a proposta indecente daquele professor calhorda. Quantas alunas aceitaram a chantagem dele?

– Que eu saiba – comentou Marco Antonio -, as moças que estudam nas universidades são adultas. Se decidem aceitar as chantagens de um professor canalha, o fazem de livre e espontânea vontade.

– De livre e espontânea vontade!? – exclamou Luiza.

– E não é? – prosseguiu Marco Antonio. – É de livre e espontânea vontade. As alunas são adultas. Podem dizer não; ou, se já conhecem a reputação do professor, que não o procurem para dele receber, sem o merecer, o meio ponto que lhe restam para passarem de ano letivo. Os alunos não podem abordar os professores e lhes solicitarem meio ponto, um quinto de um ponto, que seja. Não conseguiram a nota mínima, nas provas oficiais, as mesmas provas que todos os alunos fizeram, então que aceitem o resultado, se não adulterado, e calem-se. Se um aluno não consegue a nota mínima para aprovação, das duas, uma, ou ele não se aplicou ao estudo, ou não tem inteligência para assimilar os conhecimentos.

– A Jennifer, no ano seguinte, passou de ano – observou Luiza.

– Portanto – retrucou Marco Antonio -, ela tem inteligência para assimilar os conhecimentos; então, por que, no primeiro ano que cursou a matéria, ela não conseguiu, nas provas, a nota mínima para aprovação? Por que ela teve de, carente de meio ponto, recorrer ao professor? Talvez ela não tenha se aplicado nos estudos, como o dever lhe exige.

– Ela trabalhava, durante o dia, e ia à faculdade, à noite – disse Luiza.

– Ela é uma aluna universitária – tornou Marco Antonio. – Era a única universitária que trabalhava? Responda-me: Os alunos que estavam na mesma situação que ela foram reprovados?

– Tu queres dizer que o professor não estava errado… – comentou Luiza.

– Não foi isso o que eu disse.

– O que tu disseste, então? – perguntou-lhe Luiza.

– Agora, eles discutirão pra valer – anunciou Jéssica, sorrindo.

– A conversa está ficando divertida – comentou Vanessa.

– Por que a Jennifer foi pedir meio ponto ao professor? – perguntou Marco Antonio. – Se, durante o ano letivo, ela não havia conseguido, nas provas e nos trabalhos, a pontuação mínima para aprovação, ela que admitisse, para si mesma, que não estava preparada para dar mais um passo em sua jornada universitária, e se detivesse, e aceitasse o seu fracasso. Não seria o fim do mundo. Que aprendesse com o insucesso. A Jennifer pediu meio ponto ao professor porque…

– Ela não pediu meio ponto ao professor – interrompeu-o Luiza, alterada. – Ela lhe pediu um trabalho; e ela o faria, e pelo trabalho o professor lhe daria meio ponto.

– Certo – tornou Marco Antonio. – Por que, diga-me, o professor teria de dar um trabalho para a Jennifer em troca de meio ponto? A Jennifer é bonita…

– O que tu estás insinuando? – interrompeu-o Luiza, transparecendo indignação na fisionomia e na voz.

– Nenhuma insinuação eu fiz. Pergunto-me se a Jennifer não pensou em tirar vantagem de sua beleza. E se ela fosse uma feiosa desdentada, um bagaço?

– A Jennifer é moça decente – disse Luiza, num tom de voz alterado.

– Eu quero dizer o seguinte, e que fique bem claro: um aluno, ao não conseguir a pontuação mínima para aprovação, não pode pedir ao professor um trabalho em troca ou de meio ponto, ou de um ponto, ou de dois pontos, ou de dez pontos. O professor não pode, ao ouvir um aluno apresentar-lhe tal proposta, aceitá-la. Se decente, sério, compromissado com a formação intelectual dos seus alunos, tem de, obrigatoriamente, dizer-lhe que nenhum trabalho lhe dará e que os alunos aprovados o foram devido ao esforço próprio, sem obterem facilidades. Se um aluno não consegue a nota mínima, que ele seja reprovado.

– Mas… e as alunas que não têm opção, e são obrigadas a aceitar a chantagem do professor? – perguntou Luiza.

– Quais alunas não têm opção? – perguntou, surpreso, Marco Antonio. – Nenhuma aluna é obrigada a aceitar chantagens.

– As que não podem recusar a chantagem não têm opção – replicou Luiza.

– Quem não pode rejeitar a chantagem? – perguntou Marco Antonio, aparentemente mais surpreso do que antes.

– As alunas que temem o professor, que tem algo contra elas – respondeu Luiza, como se desse uma resposta irreplicável.

– Então, é caso de polícia – respondeu Marco Antonio.

– Há professores que descobrem segredos dos alunos e os usam contra eles – disse Luiza.

– É caso de polícia – sentenciou Marco Antonio, severo. – Todos os alunos têm opções. Podem falar a respeito com alguém. Saiba que há muitos alunos que se calam, ou por conveniência, ou por covardia. Por conveniência, sim, pois, ao curvarem-se à chantagem, passam de ano letivo, e não desgostam os familiares e os amigos, e ganham diplomas, e conquistam fama de estudiosos.

– Queres dizer que os professores chantageiam as alunas, e elas são as culpadas por serem chantageadas? – perguntou Luiza, impaciente. – A Jennifer foi a vítima do professor, um calhorda, que de professor não merece ser chamado. O professor chantageou-a, e ela tem de ser punida?

– Vamos pôr os pingos nos is – replicou Marco Antonio. – Vamos dar nomes aos bois. Não confunda alhos com bugalhos, e saiba que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

– O que eu disse? – perguntou Vanessa, para si mesma e para todos os presentes. – A conversa está divertida.

– Detesto quando tu fazes isso, Marco Antonio – disse Luiza, em tom de censura, chateada. – Tu debochas de mim. Tu zombas de mim.

– Acabou-se a conversa – sentenciou Marco Antonio. – Vou, agora, fazer da minha boca um túmulo.

– Sábia decisão – sentenciou Luiza. – Sábia decisão. Direi o que penso. Se tu me permitires, meu querido marido. Há muitos malandros nas universidades. Muitos professores são canalhas. Não educam os alunos; e seduzem as alunas incautas. Os universitários, aos dezoito, dezenove anos, sabem o que da vida? Nada. O ambiente universitário é favorável à transgressão de leis, normas sociais, e à transvaloração de todos os valores. Não é assim que os seus amigos intelectuais falam, Marco Antonio? Aqueles soberbos de cabeça oca que, por terem lido meia dúzia de livros, consideram-se os maiores gênios de todos os tempos. Basta ler jornais, revistas, assistir à televisão, e ouvir o que as pessoas falam, e atentar para o teor das conversas dos universitários, para se saber que o mundo está de cabeça para baixo. Para os universitários o certo é errado, e o errado certo; a vítima de um crime é o criminoso, e o criminoso a vítima. Os intelectuais dizem que os criminosos, que, ao nascerem, eram homens bons, cometem crimes porque a sociedade os obriga a cometê-los ao negar-lhes acesso à riqueza e ao corrompê-los. Tal idéia faz a cabeça de muitas pessoas, que estão prontas para aporrinhar a vida das pessoas de bem. Elas justificam todos os crimes e inocentam os criminosos. Tais idéias professores universitários inoculam na mente sugestionável dos alunos. Os professores, ou são bichos peçonhentos, ou desmiolados, que não têm a mínima idéia das idéias que inoculam no espírito dos seus alunos. Se eles justificam os crimes, fazem das vítimas culpados, e dos culpados vítimas… São vigaristas! É com espírito de transgressão que eles querem reformular o mundo, para melhorá-lo, dizem. Mas o pioram. Os universitários são bombardeados com idéias prejudiciais à sociedade. Um professor chantageia as alunas, e ninguém o denuncia porque a sociedade já está corrompida. Se há alunas que se calam, e a Jennifer se calou, embora não tenha aceitado a chantagem; se há alunas que aceitam a chantagem, pensando nas vantagens que terão, é porque a sociedade já está corrompida. Muitas alunas saem de uma cidade, lá do cafundó do Judas, e vão, sozinhas, para uma universidade situada lá onde Judas perdeu as botas, conhecem pessoas que nunca viram mais gordas, expõem-se às tentações, e não têm uma pessoa da família, ou um amigo, para quem possam confiar os seus pensamentos e de quem possam receber orientações. E com uma decisão impensada caem no fundo do poço. Vivem à mercê de outras pessoas, e têm de arcar com as conseqüências. Nem todos os professores são ruins, sei. O Dálton terá de prestar muita atenção ao comportamento da Marta, que poderá vir a ser vítima de um professor canalha, ou, até, de alunos canalhas. Dálton, tu sabes o que acontece nas festas que os universitários promovem? A Camila e a Samantha, filhas da Beatriz, disseram-me que os alunos… Pergunto: Os universitários frequentam as bibliotecas da universidade e as livrarias, ou os bares e as bocas de fumo? Se pensaram em bibliotecas e livrarias, erraram redondamente. Eles não lêem livros. Muitos deles os professores os acompanham nas aventuras alucinógenas. A Marta poderá vir a ser vítima desse tipo de gente. Os universitários, longe das famílias, consideram-se donos do poder. Sem uma autoridade moral para contê-los, perdem-se. Muitos deles, sem a renovação das lições morais que receberam, em casa, de seus pais, e com repetidas lições recheadas de idéias contrárias às quais foram educados, acabam por abandonar as idéias que lhes freavam os instintos auto-destrutivos, e se destróem e destróem outras pessoas. Sei que a Marta não irá para uma cidade longe e que ela irá morar na casa dos pais dela; todavia, ela irá às aulas na casa de amigos e às festas. Os universitários não têm escrúpulos e têm muitos estímulos para a transgressão e a auto-destruição. Os professores não ensinam o respeito ao próximo e à moral cristã. Dálton, tu achas que o cristianismo é bem-visto em uma universidade brasileira? A Samantha disse-me que uma amiga dela, católica, certa vez, lia, no pátio da faculdade, a Bíblia. Ridicularizaram-na os alunos. Dela zombando, perguntaram-lhe porque ela se interessava por aquelas histórias do arco-da-velha e disseram-lhe que ela era muito tola por acreditar que Adão e Eva, e Noé, e Sansão existiram. Ela ignorou-os, e pôs-se a ler a Bíblia. Intransigentes, embora se apresentassem como tolerantes, abertos às idéias diferentes, eles lhe disseram que não perdiam tempo lendo a Bíblia. Um deles disse-lhe: “Nunca li este livro, e nunca irei lê-lo. Não perderei o meu tempo com baboseiras de antigos povos analfabetos e supersticiosos.”, orgulhoso do seu desprezo pela Bíblia e por outros livros sagrados. Muitos alunos ouvem, nas salas de aula, dos professores, as idéias moderninhas, e arrotam sabedoria que não possuem. Imaginem o que há na cabeça dos universitários! Preconceitos. E eles ousam se apresentar como tolerantes e respeitáveis. As universidades são fábricas de imoralidades. Dálton, tu tens de amar a Marta, e acompanhá-la, sempre. Atente para o comportamento dela, ou irás perdê-la.

– A tua visão de mundo é injustificadamente pessimista – admoestou-a Marco Antonio, num misto de reprovação e incredulidade.

– Não é pessimista – retrucou Luiza, alterada. – Nas universidades brasileiras, o ataque aos valores universais tradicionais são intensos; e os universitários, muitos deles distantes de pai e mãe, tornam-se presas fáceis de professores vigaristas, que, defensores de ideais revolucionários, e sonhando com a destruição da civilização, os deformam ao incutir-lhes falsas idéias, ensinar-lhes a transgredirem a moral cristã, a desprezarem mãe e pai e avós, a cuspirem no prato que comem. E os alunos levianos intimidam os alunos educados, a ponto de persuadi-los a renegarem os valores que defendem e a praticarem atos reprováveis. A Samantha não foi a única pessoa que me disse isso. E a Jennifer não foi a única aluna chantageada por um professor.

A conversa prolongou-se até o almoço. Luiza realçou o seu ponto de vista. Contestou-a Marco Antonio. Ao divergir de ambos, Vanessa declarou que, com uma fusão dos dois pontos de vista, obter-se-ia uma idéia exata do que se dá nas universidades.

Dálton ouviu-os, atentamente, pensativo.

Luiza e Marco Antonio, e Vanessa e Jéssica ficaram para o almoço. Estas, após o almoço, pediram a Dálton que as levasse à casa da Marta. Lá, conversaram, animadamente. À noite, participaram da conversa Lucrécia e Floriano. Às vinte e uma horas, Jéssica, Vanessa, Dálton e Marta foram em visita a outros familiares.

Três dias depois, Luiza, Marco Antonio e suas filhas regressaram a Belo Horizonte.

Transcorreram-se os dias. O namoro de Dálton e Marta, entremeado de rusgas passageiras, prosseguia alvissareiro. Ciúme espicaçava-os em certas ocasiões – nada que os arremessasse um contra o outro a ponto de eles romperem o namoro. Sempre que desentendimentos esfriavam o relacionamento, eles se continham, e, para evitar discussões estéreis, pensavam nas palavras que diriam um para o outro. Sabiam como se portar ao ouvirem comentários de maledicentes, desafetos e invejosos. Chegaram-lhes aos ouvidos boatos cujas origens não ignoravam.

Floriano e Lucrécia convenceram Marta a trabalhar no escritório deles. Ela relutara; no início, dissera-lhes preferir trabalhar em outro escritório, mas os argumentos que deles ouvira a dissuadiram de seu propósito original.

No primeiro dia de aula, Marta foi à faculdade; acompanharam-na Dálton, e Roberta, sua amiga, e Ricardo, namorado de Roberta. Ao final das aulas, às vinte e três horas, Dálton e Ricardo, no carro deste, foram à faculdade buscar Marta e Roberta. No trajeto, de quase trinta quilômetros, da faculdade até a casa de Marta, Marta falou da sua apreensão nos minutos que precederam o início das aulas e teceu comentários sobre as impressões que os professores lhe provocaram, em particular Basílio, que, dos cinco professores, foi aquele que revelava melhor domínio do assunto que ensinava e o único que exibia postura adequada ao ofício, e, entendia ela, o mais inteligente deles. Dos outros quatro, ela fez breves comentários, apresentando, deles, mais aspectos negativos do que positivos.

Chegando à casa de Marta, Marta e Dálton desceram do carro. À frente do portão, ele a enlaçou, ela visivelmente exausta, pela cintura, e beijou-a. Pouco tempo depois, despediram-se. Marta despediu-se de Roberta e de Ricardo, e entrou na sua casa. Dálton regressou ao carro. Ricardo rumou à casa de Dálton. Lá chegando, este despediu-se dele e de Roberta, e retirou-se do carro. E Ricardo e Roberta foram à casa dela, diante da qual, no interior do carro, beijaram-se durante longos minutos, até que ela se retirou do carro. Ricardo observou-a abrir o portão da casa e entrar para a varanda. Assim que ela o fitou, e mandou-lhe um beijo, e foi para a porta que dá acesso à casa, ele girou a chave na ignição, deu a partida, pisou no acelerador, e chegou na sua casa quatro minutos depois.

Transcorreram-se os dias.

Habituada ao ambiente universitário, Marta estabeleceu amizade com vários alunos, criando relacionamento mais estreito com Mariana, Andréia, Denise, Tábata, André, Murilo e Nilton. Com eles possuía afinidades de formação familiar, intelectual, e de interesses e objetivos. Eram alunos aplicados, que conservavam certo distanciamento dos alunos relapsos, que iam à faculdade para farrear e tinham, como único interesse, obter o diploma ao final do quinto ano. Marta não precisou de muito tempo para identificar os alunos descompromissados com o estudo. Eles eram barulhentos, tagarelas e levianos. Com eles não estreitou laços de amizade, conquanto alguns fossem extrovertidos e com eles ela adorasse conversar.

Dois de seus condiscípulos, Carlos Roberto e Wesley, não tinham o hábito de freqüentar as aulas; quando freqüentavam uma aula, conversavam, no fundo da sala, desinteressados do que o professor explicava. Certa vez, eles, fleumáticos e ansiosos, ocultando os seus desejos inconfessados, proferindo, com correção, as palavras, o que lhes era incomum, abordaram Denise, Tábata, Murilo, André e Marta – e destes não passou despercebido o esforço que eles faziam para emprestar à voz um tom de dissimulado respeito -, e pediram-lhes, solícitos, que incluíssem seus nomes no cabeçalho de um trabalho. Denise disse-lhes que não incluiria os nomes dos dois no trabalho porque, se o fizesse, seria desrespeitosa consigo e com os outros alunos que participaram do trabalho, pois, se lhos incluísse, eles, Wesley e Carlos Roberto, receberiam notas por um trabalho para o qual não deram nenhuma contribuição. Wesley, secundado por Carlos Roberto, prometeu-lhe, com voz melíflua, sorriso cativante, incluir o nome dela num trabalho que fizessem, se, por algum motivo, ela não pudesse fazê-lo. Ela rejeitou a proposta, com veemência, reprovando-os, com argumentos irreplicáveis, e não lhes franqueou espaço para que, posteriormente, em qualquer outro dia, eles lhe solicitassem outro favor, pois a resposta que dela ouviriam seria a mesma:

– Não incluirei o teu nome e nem o teu – disse, dirigindo-se a Wesley e Carlos Roberto – neste trabalho – e exibiu-lhos. – E eu jamais pedirei a vocês a inclusão do meu nome no trabalho que vocês fizerem, se fizerem algum. Se vocês não aprenderam as primeiras lições, como aprenderão as lições posteriores, que, compreende-se, serão mais complexas, e, para a sua realização, será indispensável o conhecimento das primeiras lições, as quais vocês não assimilaram? Eu faço os meus trabalhos, e quero reconhecimento pelo meu esforço, e não pelo esforço alheio. Somos gratos pelos elogios que vocês nos fizeram, mas, saibam, não iremos incluir o teu nome e o teu nome – e apontou para Wesley e Carlos Roberto – neste trabalho – e lhos exibiu.

Wesley fez esgares de zombaria, desdenhoso, e Carlos Roberto, mais contido, mas não menos desdenhoso, exibiu sorriso escarninho. E ambos afastaram-se, despeitados, rilhando os dentes.

Os dois notabilizar-se-iam, no decurso do ano letivo, como os alunos mais irresponsáveis e descompromissados daquela sala-de-aula.

Convidada para a festa de aniversário de Mariana, Marta, antes de dizer para Mariana se iria, ou não, à festa, consultou Dálton. A conversa não se desenrolou como ela desejava. Não logrou convencer Dálton, que lhe disse que teria de trabalhar, naquele sábado, à noite, a deixá-la ir à festa. Essa foi a primeira discussão séria que eles travaram. Marta disse, escandindo as palavras, que iria à casa da Mariana, pessoa que ele conhecia, e salientou: a festa não se daria nem numa discoteca, nem num clube, e nem se prolongaria pela noite adentro porque Mariana iria, domingo, às cinco da manhã, com Walter, o seu namorado, Valéria, sua irmã, e Renata e Larissa, primas de Walter, a Ubatuba. Dálton, irredutível, disse-lhe que ela não tinha a permissão dele para ir à festa.

– Não me dás permissão? – retrucou Marta, visivelmente irritada. – Tenho de pedir-te permissão para ir à festa de aniversário de uma amiga?

– Por que queres tanto ir à festa? – perguntou-lhe Dálton, de cenho franzido.

– Porque a Mariana é minha amiga.

– Essa é a única razão da sua vontade de ir à festa? O que tu não queres me dizer? O que não queres que eu saiba?

– Não acredito, Dálton. O que deu em ti? O que estás a pensar? Quero ir à festa de uma amiga. E quero que tu vás comigo, mas tu terás de trabalhar, e não poderás ir. Que mal há se eu ir sozinha à festa?

– Não irás.

– Eu irei à festa, Dálton.

– Não irás, não.

– Irei, sim. Irei. Tu não tens o direito de me proibir de ir à festa da Mariana.

– Sou o teu namorado.

– Eu sei. Irei à festa de aniversário da Mariana. Ela é minha amiga. Gosto muito dela, e irei à festa.

– Não irás, Marta.

– Dálton, pare.

– Tu nunca me trataste como me tratas agora. A faculdade não está fazendo bem para ti; está fazendo de ti outra pessoa.

– Não digas asneiras.

– Por que estás agindo assim?

– Assim como, santo Deus!? – e Marta riu.

– Tu debochas de mim.

– Não debocho de ti.

– Por que ris, então?

– Estás sendo ridículo, infantil. Estás com ciúme…

Dálton, com o punho direito cerrado, deu um soco na mesa. Marta removeu o sorriso do rosto, calou-se, fitou Dálton, que a encarava, os traços do rosto carregados, o olhar penetrante, as sobrancelhas arqueadas sobre os olhos, que estavam quase ocultos sob as pálpebras. Teve a impressão de que o ouvira bufar, rilhar os dentes e rosnar. Destacaram-se, intumescidos, os vasos sanguíneos do pescoço e os das têmporas dele. Marta pegou de sobre a mesa a sua carteira, a bolsa e os óculos pretos, e disse para Dálton que, depois, conversariam, beijou-o nos lábios, com a mão pousada no rosto dele, e anunciou a sua retirada da casa, e foi para a sua casa preparar-se para ir à casa da Mariana.

Quando se preparava para ir à empresa na qual trabalhava, Dálton telefonou para Marta, que lhe disse que iria à casa da Mariana. Dele Marta ouviu silêncio opressivo. Imaginou ouvir-lhe a respiração acelerada, a expulsão, com força, do ar dos pulmões, o rilhar de dentes e o estralar de ossos dos dedos. Ele desligou o telefone. Ela, pensativa, com o telefone celular na mão, perguntou-se se tomara a decisão correta ao confrontá-lo. Discou o número do telefone celular dele. A ligação caiu na caixa postal. Marta não deixou nenhuma mensagem. Iria discar-lhe novamente quando a campainha soou. Guardou o telefone celular na bolsa, e foi atender à porta. Era Denise, que a levaria à casa da Mariana. No caminho – trajeto de vinte quilômetros -, Marta discou três vezes para Dálton – e três vezes a ligação caiu na caixa postal. A preocupação, que lhe transparecia na fisionomia, não passou despercebida de Denise, que lhe fez observações e perguntas a respeito; Marta desconversou.

No dia seguinte, de manhã, Dálton foi à casa de Marta, que, sonolenta, o atendeu. Não a saudou com um beijo nos lábios, como de hábito. Antes que ela lhe dissesse qualquer coisa, exigiu-lhe, contendo-se, para não a ofender, explicações sobre a conduta dela na véspera. Fitava-a com olhar severo. Ela hesitou, ao vê-lo tenso. E tentou, em vão, acalmá-lo. Ao se convencer de que as suas tentativas de acalmá-lo exacerbavam-lhe os ânimos, contou-lhe, com pormenores, o que se dera na casa de Mariana. Ele a ouviu, atentamente; ao final da narrativa, contendo-se, tenso ainda, mas não tão tenso como estava ao chegar, disse-lhe, com voz contida, que contrastava com a sua fisionomia carregada, que iria embora. Ela se lhe aproximou, e, tímida, dir-se-ia cautelosa, beijo-lhe os lábios e acariciou-lhe os cabelos. Pouco tempo depois, ele dela se despediu, e foi-se embora.

Nas duas semanas seguintes, Dálton e Marta não falaram da festa de aniversário de Mariana. Ele conservou-se reservado. Ela aludiu-lhe à atitude dele – não foi direta, para não lhe ferir suscetibilidades. Se entendeu as alusões, e é certo que as entendeu, ele deu a entender que não as entendeu, e tratou de outros assuntos. Dias depois, uma loja de aparelhos eletrônicos contratou-o, comprometendo-se a remunerá-lo com um salário mínimo e meio por mês. E em poucos meses, ele se tornou um vendedor bem-sucedido; e de alguns vendedores ganhou a hostilidade; de outros a amizade, o respeito e a admiração.

Declaração de Amor – parte 1 de 5

Dálton era o segundo filho de Ulisses, engenheiro eletrônico, e Vilma Helena, médica veterinária, e irmão de Claudionor.

Claudionor, o primogênito, era tímido; com Dálton formava contraste, que de ninguém passava despercebido. Dálton era enérgico, agitado, agressivo. Ulisses e Vilma Helena diziam, sorrindo, que ele era uma fera selvagem, e que o domariam; se não o domassem, ele se converteria num ditador. Dálton foi um garoto espevitado. Os avós o alcunharam Espalha-brasa. Algumas pessoas diziam que ele era um diabinho; outras, que ele era um anjinho. Ele se intrometia nas conversas dos adultos, sendo, com freqüência constrangedora, inconveniente. Claudionor, pacato, susceptível às boas lições, embora contestasse a autoridade materna e a paterna, punha em prática as lições que seus pais lhe ministravam, nem sempre da maneira adequada. Aos dezoito anos, ingressou na faculdade de física. Alguns familiares e amigos íntimos da família anteviam o cientista que ele viria a ser. Dálton, em contrapartida, não possuía para os estudos paciência equivalente à de Claudionor; era, no entanto, dotado de raciocínio lógico incomum e agudeza intelectual penetrante. Antes dos dez anos, ele era enxadrista exemplar. Não era aplicado nos estudos, como o era seu irmão, mas, ao se dedicar a alguma atividade (um jogo de xadrez, uma questão de lógica, um jogo de vôlei), deixava-se por ela absorver, nenhuma resistência lhe fazendo, não procurava subterfúgios para dela se afastar. Enquanto não pronunciasse o xeque-mate; enquanto não deslindasse o problema de lógica; enquanto não encerrasse o jogo de vôlei, nenhum ruído atraía-lhe a atenção. Desconsiderando-se estes momentos, que não eram raros, ocupava o seu tempo livre – que não era muito, pois tinha de estudar com professores particulares orientados por Ulisses e Vilma Helena, que os cientificavam do gênio difícil de Dálton – com gibis de super-heróis, videogames e desenhos animados. Em seus anos de juventude envolveu-se em não poucas brigas. Um dos seus desafetos, Rodolfo, era o alvo predileto das suas chacotas. Brigaram os dois em inúmeras ocasiões. Travaram embates ferozes. Anos depois, os amigos de Dálton, ao evocarem uma das inúmeras brigas que os dois protagonizaram, referiam-se à ela como a Luta do Século, que rendera a suspensão deles da escola, por cinco dias. Tal briga, evento grandioso, testemunhado por uma multidão de jovens eufóricos, desenrolou-se no pátio da escola, durante o intervalo, sob olhares de professores, estarrecidos, e de alunos, admirados, estes ávidos por sangue, ossos fraturados e cabeças esmigalhadas. Dálton nocauteou Rodolfo, que prometeu vingar-se dele. Três dias depois, Rodolfo e Dálton, na quadra de esportes de um clube, sob olhares de jovens, que os atiçavam com frases bombásticas e punhos cerrados, travaram uma luta encarniçada. Dois seguranças do clube, vaiados pela multidão, os apartaram quando Rodolfo, escanchado sobre Dálton – que, caído no chão, protegia-se, como podia, e mal podia proteger-se, com os braços e os antebraços, aparando alguns golpes e esquivando-se de outros -, na cabeça dele encaixava uma saraivada de socos. Ao encerramento da luta, Dálton carregava o nariz quebrado e o olho esquerdo roxo, e Rodolfo, que estava em melhores condições do que ele, os olhos roxos e um ferimento na sobrancelha esquerda.

Dálton travava brigas homéricas com os seus desafetos e os seus rivais por motivos os mais banais. O olhar enviesado, o de indiferença, e um comentário sarcástico, sem ser depreciativo, produziam-lhe reação violenta inexplicável. As abruptas oscilações do seu humor alteravam-lhe, consideravelmente, o comportamento, e os amigos e os familiares, perplexos, preocupavam-se com o bem-estar físico e mental dele; alguns dentre eles preconizavam-lhe contratempos incontornáveis decorrentes dos seus repentinos acessos de cólera. A sua conduta, instável e violenta, exacerbava-se com o transcurso dos anos, revelando-se ele mais irritadiço e mais suscetível a qualquer ninharia, sempre que contrariado. E Ulisses e Vilma Helena afligiam-se; e Claudionor criou-lhe desafeição ao romper o estreito vínculo fraternal que havia, entre eles, durante a infância.

Dálton, enfim, chegou à maioridade.

Na festa de aniversário de Luciana, irmã de Cláudio, seu amigo, e na companhia deste, passou por Marta, e olhou por sobre o ombro direito; e seus olhos encontraram os dela. Encantou-o aquela figura miúda, sorridente, de cabelos compridos, pretos; e ela encantou-se com aquele homem de porte avantajado, másculo, de queixo quadrado e sobrancelhas espessas caídas sobre os olhos – olhos de homem misterioso, disse ela às amigas. Minutos depois, por insistência de Dálton, Cláudio apresentou-o para Marta e Marta para ele, e afastou-se deles, deixando-os à vontade. No início um pouco acanhados e um tanto atrevidos, Dálton e Marta sorriram, entreolharam-se, e entabularam conversa; no desejo de evitarem deslizes, calculavam as palavras. Dálton preocupava-se com o timbre de sua voz e com a sua postura; Marta perguntava-se se não se exibia com vulgaridade. No desejo de não trocar os pés pelas mãos, ele evitou perguntas indiscretas. Discreta, ela, para extrair-lhe as informações desejadas, lançou mão de alguns expedientes; depois, desembaraçada, tomou liberdade de lhe fazer perguntas ambíguas e contar-lhe anedotas. Certo de que não a desagradava, ele se livrou da corrente que o impedia de fazer a ela perguntas ousadas. Ao notarem que não encontraram um no outro rejeição e que os olhares e os sorrisos lhes eram um pelo outro retribuídos, desembaraçaram-se da timidez inicial, e assumiram, sem receios, postura atrevida, com direito a insinuações maliciosas. A conversa ia alegre, divertida. Tinham eles apenas olhos um para o outro, e o que ocorria ao redor eles ignoravam; viviam num mundo à parte, numa dimensão em que havia apenas duas pessoas: Dálton e Marta. Estavam mergulhados, em espírito, um no outro, sorriso imarcescível nos rostos, quando atraiu a atenção de Dálton a voz de Cláudio; este lhe acenou, e, um sorriso cúmplice no rosto, com mímica que apenas Dálton podia compreender, foi até o rádio, do qual, segundos depois, ouviu-se música romântica. E Dálton atraiu Marta, e enlaçou-a pela cintura. E dançaram, ela com as mãos suavemente pousadas nos ombros dele e a cabeça ao tórax dele. Atraíram a atenção dos convidados – não foram raros aqueles que preconizaram o enlace matrimonial, e tampouco os que, conhecedores do temperamento atrabiliário de Dálton, considerando as diferenças de temperamento dele e de Marta, declararam que eles nenhuma afinidade possuíam, e, conquanto alvissareiro o preâmbulo, o namoro deles estava fadado ao fracasso. Entre estes profetas, havia os que desejavam Marta. Alguns dentre eles a haviam abordado com propostas de namoro, outros para ela se insinuaram; mal-sucedidos, não apreciaram vê-la dançando com Dálton; despeitados, apresentaram, maledicentes, comentários maldosos a respeito de Dálton e de Marta, com a finalidade de impedi-los de principiarem o namoro. Foram mal-sucedidos. Marta e Dálton entenderam-se, e muito bem, durante a festa, como se nascidos um para o outro fossem; encerrada a festa, despediram-se da aniversariante, dos familiares e amigos dela, os remanescentes, que correspondiam a uma reduzida parcela dos convidados que haviam comparecido à casa de Luciana, e, juntos, foram-se embora. Dálton acompanhou-a até a casa dela, distante uns duzentos metros da casa de Luciana. E no trajeto eles conversaram, e sorriram. À frente da casa, Dálton atraiu Marta para si, estreitou-a em seus braços, cerrou as pálpebras, e uniu seus lábios aos dela. Ao despedirem-se, às duas horas da madrugada, segurando um as mãos do outro, fitaram-se, sorriram, aproximaram os lábios um dos do outro, e beijaram-se uma vez mais. Minutos depois, Marta abriu a porta, entrou à varanda, e fechou a porta atrás de si. Na varanda, a chave à fechadura, abriu a porta que dava acesso à casa ao mesmo tempo que assoprou um beijo para Dálton, e deu o primeiro passo para dentro da casa. Dálton, sorrindo, acenou-lhe com a mão esquerda. Marta, assim que passou pelo enquadramento da porta, curvou-se para trás, exibindo apenas a cabeça para Dálton, e, com a mão direita aberta, a palma para cima, os dedos unidos, enviou-lhe um beijo, sorriu, e deu-lhe tchau, dançando os dedos da mão direita, entrou na sala, e fechou a porta atrás de si. E Dálton, sorrindo de uma orelha à outra, seguiu para a sua casa. Não havia percorrido a metade do trajeto, encontrou-se com Eduardo e Joilson, que o convidaram para ir a uma discoteca. Recusou o convite; alegou cansaço. Eles insistiram; e ele, irredutível, renovou a recusa. E Joilson ofereceu-lhe carona; e ele a aceitou. Na sua casa, Dálton deitou-se, na cama, e não precisou nem de um minuto para conciliar o sono.

Na manhã seguinte, ao café-da-manhã, Lucrécia disse para Marta, sua filha, que, através da janela da sala, a vira beijando, apaixonadamente, um rapaz alto, espadaúdo e bonito.

– Mãe, tu me espionastes? Trabalhas para a CIA, ou para a KGB?

– Trabalho para a Duarte Investigações Secretas – respondeu-lhe Lucrécia, ao mesmo tempo que lhe apertou a bochecha -, a melhor agência de espionagem do mundo. A CIA é um desastre. Leste aquele livro, cujo título esqueci, sobre a CIA? Falha-me a memória.

– Tu precisas de fosfato.

– De ômega 3. Fosfato é personagem de história da carochinha. Ultimamente, a minha memória tem me deixado em apuros, com freqüência preocupante. Necessito, urgente, de ômega 3 e boas noites de sono. De dois meses para cá, mal dormi. Mas não mudemos de assunto. Qual é o nome do bonitão?

– Dálton.

– Tu estás lacônica. Não tens informações importantes para dar-me? Se não mas oferecer, eu as extrairei de ti. Aplicarei métodos inusuais e ortodoxos. Não te esqueças: sou espiã da Duarte Investigações Secretas. Saibas, queridinha, que tortura não está fora de cogitação. Imersão da cabeça numa bacia de água fria é um método que dá os resultados desejados, tu sabes.

– Mãe, tu és tão cruel. Denunciar-te-ei ao Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.

– Este território não está sob jurisdição de tal tribunal.

A conversa prolongou-se por duas horas durante as quais Marta disse à sua mãe que conhecera Dálton na festa de aniversário de Luciana, e que fôra amor à primeira vista, e perdeu-se em elogios a ele, moço forte, inteligente, bonito, educado, elegante, charmoso, espirituoso, estudioso, trabalhador. Resumindo: um homem perfeito. Lucrécia reprovou-lhe o ânimo exaltado, pediu-lhe ponderação, e disse-lhe que não se deixasse levar pelas primeiras impressões e pelas aparências. Marta disse-lhe que as primeiras impressões são as que ficam, e ela completou:

– Até que as segundas impressões as apaguem.

Naquele mesmo dia, ao anoitecer, Dálton foi à casa de Marta. Marta apresentou-o para seu pai, Floriano, para sua mãe, para sua irmã, Nair, e para seu irmão, Lucas. Advogados, Floriano e Lucrécia, ele, civil, ela, trabalhista, falaram, durante a conversa, de alguns casos que se popularizaram no Brasil e no exterior, aludiram ao corporativismo dos advogados, e disseram que desejavam, um dia, vir as pessoas que exerceriam a advocacia – e apontaram para Marta, que prestaria o exame vestibular no final do ano – usufruir da liberdade, atualmente inexistente, de se associarem à corporação jurídica que desejassem. Ignorante da questão, intrigado, Dálton revelou-lhes o seu desconhecimento da ausência de liberdade de associação dos advogados, e pediu-lhes esclarecimentos a respeito. Eles o ciceronearam através da história do Brasil, desde o império, para ilustrar os exemplos que apresentavam e iluminar a questão, para que ele compreendesse as razões de haver, no Brasil, instituições burocráticas nefastas, malsãs. Dálton ouviu-os atentamente. A conversa prosseguiu, após o jantar, na sala-de-visitas, até às vinte e três horas. Trataram de política, da nacional e da municipal, de eventos, sucedidos em outros países, de repercussão e envergadura planetárias: a crise econômica mundial, catástrofes naturais, a guerra no Iraque e no Afeganistão, as escaramuças entre os Estados Unidos e a Rússia. E não negligenciaram trivialidades. E falaram de esportes, filmes e novelas.

Dálton e Marta despediram-se de Floriano e Lucrécia, e de Lucas e Nair, e foram à casa de Luciana. Minutos depois, à casa de Luciana chegaram Patrícia e Roberto. E não muito tempo depois, de carro, Roberto ao volante, foram os cinco à discoteca. Divertiram-se até às três horas da madrugada.

Sucederam-se os dias. O namoro de Dálton e Marta, entrecortado de rusgas passageiras, era alvissareiro. De Ulisses, Vilma Helena e Claudionor não passaram despercebidas – e tampouco de familiares e amigos da família e amigos de Dálton – as significativas mudanças do comportamento de Dálton. Diziam, jocosos, que Marta, com a sua candura, pusera na linha aquele moço buliçoso, briguento, de sangue quente e pavio curto. O relacionamento de Dálton e Claudionor melhorou; todavia, este receava com aquele manter amizade, a qual não nutria, pois suspeitava que ele lhe ocultava as verdadeiras intenções. Os sorrisos cativantes de Dálton e a voz macia dele no trato com Claudionor não eliminaram, deste, os resquícios de desconfiança, que lhe persistiam incrustados no íntimo; não podia Claudionor, conquanto o desejasse, suprimir da sua memória as injúrias que seu irmão lhe cuspira inúmeras vezes, e criar um vínculo de amor fraternal com ele.

– Não está longe o dia em que irão ao altar, na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso – comentou Vilma Helena, referindo-se a Dálton e Marta, certa ocasião, fitando Ulisses com o canto dos olhos.

Em um domingo, durante conversa, no almoço, na casa de Ulisses e Vilma Helena, reuniram-se Ulisses, Vilma Helena, Dálton, Marta, Claudionor, Floriano, Lucrécia, Nair, Lucas, Roberto, irmão de Vilma Helena, e Neusa, esposa de Roberto.

À mesa, Roberto, segurando um copo com cerveja, disse, fitando Dálton:

– Olhe para mim, Dálton – e chamou a atenção dos comensais para si. – Atente para o que te direi: Um conselho de tio, de homem experiente, que, embora experiente, caiu na esparrela de uma mulher cheia de artimanhas: Casei-me. Ouça-me, atentamente, o que tenho para te dizer: não estragues a tua vida. Antes de casar-me com a tua tia – e apontou para Neusa -, eu era esbelto, tinha cabelos, não tinha rugas, nem olheiras, tampouco pés-de-galinha. Agora… olhe para mim, meu querido sobrinho, olhe atentamente. Responda-me: Como estou? Minha barriga parece a de mulher grávida de nove meses; minha cabeça está depenada. Restam-me, na cabeça, se muito, cinquenta fios de cabelos. Conte-os. Tu não precisarás nem de um minuto para contá-los. E os pés-de-galinha! São enormes. Não são de garnisé. São de… Não são de galinhas; são de avestruzes. Cruzes! E as rugas! Do tamanho do Kilimanjaro. Eu era bonitão, Dálton. Agora, tu me vês, estou um bagaço. Casei-me com a tua tia, e a minha vida desandou.

Durante o discurso, Neusa, de cenho franzido, fitava Roberto; assim que ele deu por encerrada a explanação, antecipou-se à Marta, que, ao afastar da boca o copo de vidro com refrigerante, preparava-se para falar, e disse, num misto de seriedade e humor, apontando o dedo para Roberto e a curtos intervalos olhando para todos os presentes:

– Roberto, tu não queres admitir que estás ficando velho. O tempo está passando, e a cada dia que passa maior fica a tua calvície, a tua barriga e os teus pés-de-galinha. E não falei das olheiras. Tu estás velho, Roberto, e gagá. Estás enrugado, calvo e barrigudo. Eu sempre te disse para parar de beber cerveja. Mas tu, cabeça-dura, nunca me deste ouvidos, e agora estás com essa barriga monstruosa. Dálton, não dês ouvidos para o teu tio. Ele está velho, sempre conta uma história absurda e distorce a realidade para atribuir ao casamento a decadência dele. O casamento, posso dizer, impediu que ele se reduzisse a um caco. Ele só não é uma múmia ambulante porque eu o impedi de fazer muitas besteiras. Sigas o conselho de tua tia, Dálton: não sigas o conselho do teu tio. Pergunte para tua mãe o que teu tio fazia na juventude. Ele era destrambelhado, desmiolado, vivia às turras com teus avós, envolvia-se nas confusões do Diabo. Teu avô sempre disse que teu tio não morreu por milagre. O santo da família é muito forte, saiba. Um herói. Um Hércules. Um Sansão. O anjo da guarda de teu tio, Dálton, tem a paciência de Jó, é onipresente, e nunca tirou férias. Se ele movesse um processo trabalhista contra teu tio, ganharia em primeira instância, e teu tio, além de ter pagar-lhe uma nota preta, seria trancafiado no xadrez, e veria o sol quadriculado durante um século.

Todos gargalharam e teceram comentários zombeteiros.

– Teu tio tem miolo mole – comentou Neusa, em certo momento da conversa, dirigindo-se a Dálton. – Tua namorada é linda, fofa, e, estou certa, será uma ótima esposa para ti. Casa-te com ela, e sejas-lhe um ótimo marido. Vós sois bonitos, jovens e saudáveis. Sigas o meu conselho: casa-te com essa moça linda – foi até Marta, segurou-lhe a cabeça, com ambas as mãos, e beijou-lhe o rosto esquerdo. – A pele dela é macia – e apertou-lhe a bochecha. – Veja! Que linda! Ficou ruborizada. Que fofa! O meu sexto sentido e a minha intuição feminina dizem que vós nascestes um para o outro. Sois almas gêmeas. Sereis um casal perfeito; e tereis lindos filhos. E comemoraremos as vossas bodas de ouro. Sois lindos. Esqueças o que teu tio te disse, Dálton. Ele põe minhoca na cabeça de todo mundo, o velho desmiolado de cérebro recheado de caraminholas. Ele é um velho cabeça dura que não quer reconhecer que está velho. Perdeu um parafuso da cabeça, o mentecapto. Está para aquele velho andaluz, espanhol, sei lá eu, que, acompanhado de um gordinho estúpido, percorre a Catalunha em suas aventuras sem pé nem cabeça – e todos gargalharam, mas Neusa não se deu conta da razão da graça, em especial do sorriso aberto de Ulisses, Vilma Helena, Dálton e Claudionor. – Conheceis a história dos dois aventureiros, um magricela escanifrado e um gordinho barrigudo, ambos montados em pangarés, que, Deus me livre, não agüentam nem com o peso dos próprios ossos. Dálton, teu tio, meu marido, homem que livrei do inferno, está… Vou… Vou vos revelar um segredo – e achegou-se a Dálton e Marta, atraindo-os para si, até aproximar as três cabeças, conservando-as uma distante da outra não mais do que vinte centímetros, e disse, como se sussurrasse, mas para todas as pessoas à mesa ouvi-la, em tom de confidência: – Teu tio já chegou à menopausa. – Todos dobraram-se de rir. E sucederam-se comentários jocosos e provocações.

Transcorreram-se os dias, as semanas, os meses.

Certo dia, em dezembro, Marta prestou exame vestibular para o curso de advocacia. Classificou-se. À festa de comemoração, num domingo, a partir do almoço, até às vinte e duas horas, na sua casa, compareceram familiares e amigos. Após o encerramento da festa, Dálton, Marta, amigos e primos foram à uma lanchonete; depois, à uma discoteca, da qual retiraram-se às quatro horas da madrugada.

No início do ano seguinte, Marta e Dálton foram à faculdade de Direito. Marta não cabia em si de contentamento, embora receasse a abordagem de alunos veteranos, que poderiam vir a submetê-la a brincadeiras grosseiras, constrangedoras. Para inibi-los, acolhera uma sugestão de Camila, sua prima, que lhe dissera que usasse trajes que lhe conferissem elegância, dignidade, e lhe emprestassem a figura de uma profissional respeitável. O porte de Marta era o de uma ministra do Supremo Tribunal Federal, brincou Lucrécia ao vê-la retirando-se de casa. O dia transcorreu sem contratempos. Alunos veteranos abordaram Marta e Dálton, e ameaçaram submetê-la a brincadeiras constrangedoras. Ríspida, interpretando, com desenvoltura, o papel de uma autoridade, ela lhes disse que retirara-se, uma hora antes, do escritório de advocacia no qual trabalhava, ao qual regressaria assim que se matriculasse na faculdade. Os alunos veteranos pouparam-na de constrangimentos, e abordaram outros calouros, outros “bixos”; alguns, no entanto, insistiam em abordá-la; Dálton, todavia, dissuadiu-os de a obrigarem a submeter-se às agressões, as quais eles viam como brincadeiras inofensivas. Veteranos alvoroçados davam ordens para calouros, que, no cruzamento de duas ruas, abordavam motoristas de carros e solicitavam-lhes dinheiro; alguns motoristas entregavam-lhes moedas, e eles as entregavam aos veteranos, que, nos bares próximos, com elas compravam cerveja e, ou bebiam da cerveja, ou emborcavam a latinha, despejando a cerveja na cabeça de um calouro, ou mandavam um calouro abrir a boca e beber da cerveja que lhe era despejada. Incomodou Marta tal espetáculo degradante. Livres dos veteranos, ela e Dálton entraram no prédio da faculdade. Marta não precisou de muito tempo para preencher todos os formulários de matrícula. Agora era oficial: Marta era uma aluna da faculdade de Direito. Dali um pouco mais de um mês entraria na sala-de-aulas para assistir às primeiras aulas. Antes de irem-se embora, Dálton comentou:

– Nas proximidades da faculdade há quatro bares e nenhuma livraria. Interessante.

Nas férias que antecederam o início do ano letivo, de Minas Gerais foram, em visita aos familiares, Luiza, irmã de Vilma Helena, seu marido, Marco Antonio, suas filhas solteiras, Jéssica, de dezessete anos, e Vanessa, de dezesseis anos – Renato, seu filho, e Marcela, sua nora, permaneceram em Belo Horizonte, e suas filhas casadas, Madalena, a primogênita, e Márcia, e seus genros, Vicente e Josias, permaneceram, Madalena e Vicente, no Rio de Janeiro, e Márcia e Josias, em Fortaleza. Assim que chegaram à cidade, visitaram José e Francisca, pai e mãe de Luiza, em cuja casa encontraram, além deles, sua irmã e seu cunhado, Teresinha e Mateus, e as filhas deles, Joyce e Nicole, meninas de doze e onze anos de idade, respectivamente.

Luiza, extrovertida, estreitou, com abraços calorosos, a todos ao seu corpo robusto de mulher às portas dos sessenta anos; saudou-os com felicitações natalinas e de fim-de-ano, atrasados, ela dizia. Marco Antonio agiu com o desembaraço que lhe era habitual; anunciou a sua chegada em altos brados, e enveredou pelos cômodos da casa com a sem-cerimônia de quem a conhecia como conhecia as palmas das próprias mãos. José e Francisca os recepcionaram sem reservas. As conversas, animadas. Marco Antonio não contou poucas anedotas.

A musa inspiradora

O homem encapuzado atravessou dois prédios, e caiu sobre um carro, cujos vidros estilhaçaram-se e cujos pneus estouraram. Uma mulher de longos cabelos brancos presos com uma tiara dourada, embrulhada em um colante prateado reluzente, surgiu do céu, desceu sobre o carro, e estudou o corpo que ali caíra uma fração de segundo antes.

Dentre as pessoas que compunham a multidão, uma se destacou, fascinada com a beleza da mulher, e clamou, eufórica:

– A Mulher de Prata!

Ouviu-se um prolongado “Oooh” misto de admiração e espanto.

A Mulher de Prata inclinou-se para a frente, segurou, pelo pescoço, o homem encapuzado, ergueu-o como se erguesse uma folha de papel, manteve-o suspenso, elevou-se no ar, como se flutuasse, e, como um raio, desapareceu, deixando atrás de si um rastro de luz prateada.

Dispersou-se a multidão.

Na manhã seguinte, os principais jornais do país estamparam, na primeira página, a foto da estupenda Mulher de Prata.

*

O relato que se leu nas linhas anteriores é a síntese da cena final de uma história em quadrinhos de super-heróis, cujo autor – também o criador dos personagens, o roteirista e o desenhista – era um jovem de vinte anos, Josué Souza de Lima e Silva, apaixonado por histórias em quadrinhos, sendo as de super-heróis americanos as suas prediletas. Ambicioso, almejava criar os mais famosos super-heróis do Brasil. Não carecia de talento. E todos os que conheciam o seu trabalho anteviam-lhe uma carreira bem-sucedida.

Josué desenha desde os cinco anos. Cursou escolas de artes e estudou as obras dos célebres mestres da pintura; com mais dedicação, as de Michelângelo, Leonardo da Vinci, Goya e Caravaggio, os gênios que ele mais admirava. Idolatrava-os. Reverenciava-os.

Gosta de desenhar corpos humanos. Não se interessa pela pintura moderna, concentrada, segundo Josué, em figuras geométricas, cenários esvaecidos, e obcecada por manchas e borrões. Reproduziu, a partir de fotos publicadas em revistas de arte, as pinturas: de Botticelli, A Primavera e O Nascimento de Vênus; de da Vinci, a Dama do Arminho; de Tiziano, Vênus de Urbino; de Rubens, O Rapto das Filhas de Leucipo, As Três Graças, Diana e Suas Ninfas Surpreendidas pelos Sátiros; de Rembrandt, A Lição de Anatomia do Doutor Tulp; de Boucher, Diana Saindo do Banho; de Murillo, Menino Despiolhando-se; de Goya, Maja Desnuda; de Ingres, O Banho Turco; e dezenas de outras pinturas.

A partir de fotos, reproduziu, em desenhos, de vários ângulos, as esculturas que mais o encantam: Poseidon do Cabo Artemision; Discóbolo; Apolo Sauróctono; Suicídio de Gálata; As três Graças; O Bom Pastor; Davi (o de Michelângelo e o de Bernini); Pietá; Moisés; O Gênio da Vitória; O Rapto das Sabinas; O Gigante dos Apeninos; Persepo; Êxtase de Santa Teresa; Apolo e Dafne; O Rapto de Perséfone; Cupido e Psiquis.

As mulheres representadas por alguns dos gênios da pintura não desagradam Josué; embora não correspondam ao seu ideal de beleza feminina, servem de contrapeso ao ideal de beleza feminina difundido pelos estilistas e pela mídia. O rosto da Dama do Arminho encanta-o sobremaneira. Deslumbra-o. Fascinam-no o seu sorriso cativante e o seu olhar celestial, mais, até, do que o sorriso enigmático de Gioconda. Transportaram-no para além da matéria a moça sorridente de Os Felizes Azares do Balouço e as duas meninas angelicais de As Filhas do Pintor Caçando Uma Borboleta. O rosto da Conceição do Escorial, o mais encantador, mais belo de quantos Josué jamais presenciou, fá-lo transcender aos céus, a crer nos poderes celestiais, e confere-lhe paz de espírito. Josué recortou uma reprodução desse belíssimo quadro de Murillo, emoldurou-o, e conserva-o, à parede, no seu estúdio, diante de seus olhos, e admira-o, todos os dias. Tal quadro tem o poder de inspirar-lhe belas personagens e histórias fascinantes.

O ideal de beleza feminina de Josué é um composto do rosto da Conceição do Escorial e do sorriso da Dama do Arminho. E o corpo? Os das mulheres de Goya, Ingres, Rubens, Honthorst, Tintoreto, Tiziano e Botticelli não correspondem ao seu ideal de beleza feminina, que não é o grego, nem o renascentista, tampouco o das passarelas dos desfiles de modas e o das capas de revistas e o das novelas e o do cinema.

Além de estudar os gênios da pintura, Josué estudou modelos vivos e os criativos traços de Will Eisner, Earl Norem, John Buscema, Neal Adams, Frank Cho, Milo Manara, Barry Windsor-Smith, Collonese, Alex Ross, John Byrne, Bryan Hitch, Hal Foster, Ivan Reis, Winsor McCay, Ed Benes e Serpieri. Possui vários gigabytes de memória com desenhos dos seus artistas e personagens prediletos.

Para criar a Mulher de Prata Josué buscou inspiração em modelos, atrizes, atletas e nas mulheres que conhece, mas nenhuma delas correspondeu ao seu ideal de beleza feminina. Das mulheres desenhadas pelos melhores desenhistas, Josué, para a concepção de Mulher de Prata, extraiu, das mulheres desenhadas por Manara, os lábios; das desenhadas por John Buscema, o busto; das desenhadas por John Byrne, as pernas; das desenhadas por Frank Cho, os quadris; das desenhadas por Collonese, os olhos; das desenhadas por Hitch, o nariz; das desenhadas por Ivan Reis, os cabelos. O conjunto, entretanto, não o agradou.

Josué acreditava que jamais encontraria uma mulher que correspondesse ao seu ideal de beleza feminina; para a sua surpresa, encontrou-a: Uma prodigiosa morena cor de jambo de pernas compridas, coxas firmes e busto bem feito. Atraído por tão extraordinária formosura, Josué andou na direção dela. Ela entrou em uma banca de jornais. Pouco depois, retirou-se, e passou por Josué, que andava em sua direção, e dele se afastou.

Josué desejava segui-la, queria falar-lhe, mas sua língua petrificou-se e seus pés enterraram-se no chão.

Recompôs-se assim que a lindíssima moça dobrou a esquina. Sua cabeça era um turbilhão caótico de pensamentos desordenados. Andou, lentamente, para a sua casa. Iria, no dia seguinte, andar pelas proximidades da banca de jornais, para, se a sorte o favorecesse, encontrar a  bela morena.

Em seu estúdio, eufórico, inspirado, concebeu dezenas de personagens para as suas estórias de super-heróis. Sem perceber, emprestou ao rosto da Mulher de Prata as feições da bela jovem que havia admirado.

Nos dias seguintes, caminhou pelas ruas próximas da qual encontrara a bela morena. Foi à banca comprar gibis. Assim que conquistou a simpatia da mulher que lá trabalha, perguntou-lhe da bela morena, mas ela não a conhecia.

*

Mulher de Prata, com uma rajada de energia cósmica, anulou o campo de força que protegia o Homem-Molécula, que, numa velocidade surpreendente, atacou-a pela retaguarda, e arremessou-a contra um prédio. Mulher de Prata atravessou-o, recompôs-se imediatamente e, antes que o Homem-Molécula percebesse o que se passava, envolveu-o em um estreito abraço, e disparou, pelas mãos, gás tóxico, que o pôs desacordado. Ato contínuo, conduziu-o à prisão especial para super-vilões, na ilha artificial AA-35 – na qual encarceraram em uma cela dotada de mecanismos que lhe anulavam os poderes -, e rumou para a sua casa. Pouco depois, desfazendo-se da vestimenta prateada e da tiara dourada, assumiu a sua identidade original, Karen Sylvia Rodrigues Lacerda, astrofísica de renome internacional.

*

Os leitores da revista Mulher de Prata notaram que Karen Sylvia Rodrigues Lacerda e Mulher de Prata, nas duas edições mais recentes de Mulher de Prata, foi representada com características físicas distintas das originais, e de Josué exigiram explicações a respeito. Por que o cabelo de Karen não é mais branco? Por que ela está um pouco menor? Por que ela está mais esbelta? Por que suas sobrancelhas estão mais finas e menos arqueadas? Por que seu pescoço está mais curto? Por que suas coxas estão mais grossas? Por que sua cintura está mais fina? Por que seus lábios estão mais carnudos? Por que as maçãs de seu rosto estão maiores? Por que seu rosto está mais arredondado? Por que seus pés e suas mãos estão menores? Por que seus quadris estão mais largos? Por que seus cabelos estão mais compridos? Por que suas nádegas estão maiores? Por que seus peitos estão menores e mais empinados? Os leitores não admitiram tergiversações. Josué teve de dar as devidas explicações. Ele percebeu que não era coincidência que a elevação das vendas do gibi Mulher de Prata dava-se na proporção com que Karen (Mulher de Prata) assumia as feições e o tipo físico da bela morena que o fascinara. Ao perceber isso, insistiu nas mudanças da figura da personagem, e tais mudanças mereciam uma explicação plausível. E ele a deu, nas aventuras, e agradou aos leitores; os mais exigentes não a engoliram – desconfiavam que havia outras razões, inconfessadas, por trás das rápidas mudanças no aspecto físico de Karen (Mulher de Prata).

*

Durante uma batalha com a Rainha das Trevas – feiticeira demoníaca que assolava, havia dias, com seu poder hipnótico, a cidade de São Paulo -, Mulher de Prata, acometida de uma síncope, retirou-se de São Paulo, e voou, por duas horas, até o laboratório do doutor Abdul, localizado em Hyderabad, Índia. Assim que o doutor Abdul saudou-a “Karen, que prazer em revê-la.”, ela se lhe largou aos braços. O doutor Abdul conduziu-a, imediatamente, à câmara tonificante. Ao recompor-se, Karen dele ouviu as explicações concernentes à síncope que a acometera: Karen sofrera modificações em sua estrutura genética, decorrentes, suspeitava o doutor Abdul, de alterações, provocadas por raios cósmicos, na composição da atmosfera terrestre.

– Norrin Radd nunca enfrentou problemas similares – comentou Karen, bem-humorada.

*

Mulher de Prata fazia mais sucesso à medida que Josué modificava-lhe a figura. A sua nova aparência agradou ao público masculino, que correspondia a noventa e cinco por cento dos leitores da revista.

Certo dia, Josué vislumbrou a bela morena, em meio à multidão, na praça Central. Acelerou os passos. Controlando a ansiedade, que o avassalava, perguntou-lhe o nome: Jussara. Dias depois, convidou-a para trabalhar com ele, como modelo das personagens das suas revistas em quadrinhos. Jussara hesitou. Aceitaria ou não o convite? Ela conhecia o gibi da Mulher de Prata e admirava Josué, mas receava expor-se.

Josué, com sua lábia irresistível, convenceu-a a trabalhar para ele.

*

Em Júpiter, Mulher de Prata entrou em colapso. Fragmentou-se em milhões de partículas minúsculas. Poucas horas depois, seu corpo recompôs-se, maior do que antes. Mulher de Prata sentia-se mais poderosa. Seus cabelos estavam pretos; sua pele, morena. Com fúria incontida, rumou, à velocidade da luz, à esquadra dos kxwys, povo guerreiro oriundo de Andrômeda, destroçou-a, e evitou a destruição da Terra.

*

Esta saga, cujo título era A Fênix de Prata, estendeu-se por quatro edições da revista Mulher de Prata, que, ao final da saga, teve o seu título modificado para Fênix de Prata. O sucesso, estrondoso. E as comparações com Jean Grey e a Saga da Fênix foram inevitáveis, e as perguntas a respeito das semelhanças entre as duas sagas, incontornáveis. Josué, não podendo esquivar-se delas, apontou as dessemelhanças entre as duas personagens e as duas sagas. Karen Sylvia Rodrigues Lacerda não era uma mutante; não integrava nenhum grupo de super-heróis; os seus poderes provinham das forças cósmicas; não tinha poderes telecinéticos; e não morreu: seu corpo dissipou-se – os átomos que o compunham desagruparam-se e, ao reagruparem-se, deram-lhe outra forma. E, o mais relevante, Fênix de Prata não sucumbiu ao seu lado negro, que, aliás, não possuía.

Alguns leitores compararam Fênix de Prata, no que diz respeito a altivez, à Lara Croft. Outros diziam que Karen Sylvia é tão bela quanto Sara Pezzini. Não foram poucas as comparações feitas entre Karen e Druuna, Sonja, Ororo, Wanda Maximoff, Elektra, Diana Price, Jessica Drew, Jeniffer Walters, Dinah Laurel Lance, Felícia Hardy, Selina Kyle e Mary Jane. Qual delas é a mais bonita? O site ***.com promoveu concurso para eleger a mulher mais bonita dos quadrinhos. O resultado foi surpreendente: Karen Sylvia Rodrigues Lacerda e Fênix de Prata, o seu alter-ego, desbancaram as belíssimas Felícia Hardy, segunda colocada; Diana Price, terceira; Lara Croft, quarta; e Sara Pezzini, quinta.

*

Amazonas.

Iaci, a moça-lua, embrenhou-se na floresta, no encalço de um contrabandista de animais, que, certo de que das garras dela não escaparia, deteve-se, revólver em punho, e virou-se para a direção da qual, acreditava ele, Iaci dele aproximava-se, premiu o gatilho, e disparou. O projétil riscou o ar, e foi alojar-se em uma sumaumeira. O estrondo ecoou pela floresta. Pássaros voaram, aterrorizados. O contrabandista, olhar assustado, olhos arregalados, coberto de suor, as mãos trêmulas, mal conseguindo segurar o revólver, olhava em todas as direções à procura de Iaci. Um vulto passou à sua direita, atraindo-lhe a atenção. O contrabandista premiu o gatilho. O projétil alojou-se em um galho de uma árvore pequena. Assustado, o contrabandista esgoelava-se. Descarregou o revólver. No momento em que premiu o gatilho, e ouviu-se um estalo surdo, Iaci apareceu à frente dele, como um espírito fantasmagórico, de olhar severo, cravou-lhe as unhas afiadas no peito esquerdo, e arrancou-lhe o coração. O contrabandista tombou, pesadamente, no chão juncado de folhas e de insetos. Os insetos devoraram-no. Iaci abraçou uma árvore, e desapareceu.

*

Com o sucesso de Fênix de Prata, Josué criou outras personagens, todas inspiradas em Jussara, e lançou, com sucesso, outros títulos de revistas em quadrinhos. O número um de Iaci, a moça-lua, vendeu, em uma semana, cinquenta mil exemplares. E a primeira saga, concluída na edição 7, vendeu, em média, cada edição, duzentos e vinte mil exemplares.

Josué assinou contrato com um estúdio de animação para produzir dois longa-metragens, um protagonizado por Fênix de Prata; o outro, por Iaci, a moça-lua. Para cada longa, o estúdio comprometeu-se a investir vinte milhões de reais.

Os leitores de Fênix de Prata e Iaci, a moça-lua, perguntavam a Josué quem era a sua musa inspiradora. Josué sonegava-lhes informações. Com o lançamento de outros dois gibis, A Maravilha de Júpiter e Diamante, ambos de autoria de Josué, cujas protagonistas eram mulheres belíssimas, os leitores intensificaram o assédio. Quem era a musa inspiradora de Josué? A protagonista de A Maravilha de Júpiter, Diana, era uma jupiteriana de quatro metros de altura e cabelos avermelhados; e a de Diamante, Laurën, usava uma vestimenta ultra-resistente munida de armamentos dotados de inteligência artificial. Os leitores mais atentos notaram que Diana e Laurën tinham muitas semelhanças físicas com Iaci e Karen, e exigiram crossovers entre as personagens. Josué prometeu uma saga com as suas quatro principais personagens, mas não estabeleceu um prazo para a publicação. Mãos à obra, deu início à concepção da saga Matéria Escura, na qual apresentaria atuais conceitos sobre multiuniverso, viagem através do tempo, passagens interdimensionais, extravagantes concepções do nascimento e da morte e teorias sobre múltiplas personalidades. Nos quatro títulos de sua editora, Josué, como preâmbulo para Matéria Escura, criou uma trama extraordinariamente complexa na qual interligavam-se as aventuras de Iaci, Fênix de Prata, Diamante e Maravilha de Júpiter. Dezenas de outras personagens, todas concebidas por Josué, foram introduzidas neste universo. Uma delas, Superpoderosa, de coadjuvante logo passaria a protagonizar as suas próprias aventuras em sua própria revista.

*

Para a felicidade dos fãs, o primeiro número de Matéria Escura chegou às bancas de todo o país. Foram vendidos cinquenta mil exemplares em quatro horas. Três novas tiragens foram impressas nas duas semanas seguintes. Cada uma com cem mil exemplares. Em dois meses, esgotou-se a décima quinta tiragem, perfazendo dois milhões e quinhentos mil exemplares vendidos.

No número um, no primeiro capítulo, quatro vilões e Fênix de Prata digladiam-se; no segundo capítulo, Superpoderosa depara-se com distúrbios sociais provocados por um fanático religioso de talentos hipnóticos; no terceiro capítulo, Diamante enfrenta uma criatura incorpórea composta de matéria desconhecida; no quarto capítulo, Diana regressa a Júpiter para evitar o extermínio dos jupiterianos, cujas cidades estavam sendo arrasadas por fenômenos desconhecidos; e no quinto capítulo, Iaci enfrenta criaturas compostas de elementos desconhecidos, mas tão fabulosos, tão extraordinários, que passaram por sobrenaturais.

A saga Matéria Escura estendeu-se por quinze edições, cada uma com cento e cinquenta páginas; as dez primeiras edições estão divididas em cinco capítulos; da décima primeira edição em diante – todas as cinco personagens (Iaci, Maravilha de Júpiter, Fênix de Prata, Diamante, Superpoderosa) atuam em grupo -, cada edição compõe-se de um capítulo. Na edição final dá-se o derradeiro confronto entre super-heróis e super-vilões. Os leitores acompanharam, com interesse, encantados, o desenrolar da magnífica saga, e surpreenderam-se com as revelações, as reviravoltas, a violência explícita, o erotismo e a sensualidade intensas.

E Superpoderosa sobrepujou todas as outras personagens, assumiu o primeiro plano, e converteu-se na personagem central da trama.

O sucesso de Matéria Escura foi retumbante. A saga, revolucionária. Josué Souza de Lima e Silva amealhou todos os principais prêmios distribuídos pela Academia dos Quadrinistas: Melhor roteiro, melhor desenhista, melhor saga, melhor arco de estórias, melhor arte-finalista, melhor colorista, melhor capa, melhor super-herói, melhor super-heroína, melhor super-vilão, melhor super-vilã, melhor roteiro original, melhor concepção artística de personagens, melhor concepção de cenário original e melhor personagem coadjuvante.

Os leitores desejavam, agora mais do que nunca, conhecer a musa inspiradora de Josué.

– Vocês querem saber quem é a minha musa inspiradora? – perguntou Josué, em uma noite de autógrafos, no pátio da sua editora, para os seus fãs alvoroçados. – Vocês querem conversar com ela? Daqui uma semana darei a resposta para vocês.

Ouviram-se assobios altissonantes.

Assim que chegou na sua casa, Josué foi tratar do assunto com Jussara. Antes de lhe falar do desejo insaciável dos seus admiradores, admirou-a, alumbrado.

– Jussara, os admiradores da Superpoderosa, da Iaci, da Fênix de Prata, da Maravilha de Júpiter e da Diamante querem te conhecer – disse Josué, com voz suave, tímido, silabando as palavras. Ele vivia um drama inconcebível para o comum dos mortais. – Eles querem que eu te apresente para eles. Não podemos ignorá-los. Eles merecem te conhecer. Nosso sucesso se deve aos leitores dos gibis. Eles adoram a Fênix de Prata. Eles adoram a Maravilha de Júpiter. Eles adoram a Iaci. Eles adoram a Diamante. Eles adoram a Superpoderosa. A paixão dos leitores pela Superpoderosa é maior do que a que sentem pela Laurën, pela Iaci, pela Karen e pela Diana. A Superpoderosa é o teu retrato. Iaci, Karen, Diana e Laurën são inspiradas em ti. A Superpoderosa, não. A Superpoderosa és tu. E os admiradores dela desejam te conhecer. E merecem te conhecer, afinal eles fizeram a nossa fortuna. Hoje possuímos esta casa imensa, com todo o conforto que o mundo pode oferecer, porque nossos leitores te adoram. E eles querem te conhecer – coçou o nariz, e prosseguiu: – Estou pensando em uma entrevista coletiva. O que tu achas? Ou poderemos promover uma feira de quadrinhos – interrompeu-se, atraído pelo vôo de um beija-flor, e prosseguiu: – Para os leitores, tu és uma deusa. Os leitores te reverenciam. Tu és cultuada. Tu és reverenciada. Os leitores querem te conhecer. E eles merecem te conhecer. Ficamos assim: Tu responderás à vinte perguntas. Ficarás, durante duas horas, à disposição dos nossos admiradores. Na feira de quadrinhos haverá debates, palestras, apresentações de vídeos sobre os novos projetos da editora. E programarei a entrevista para o último dia do evento.

Na manhã seguinte, Josué reuniu promotores de eventos, comunicou as emissoras de televisão e editoras de jornais e revistas sobre a feira de quadrinhos e a entrevista coletiva que Jussara concederia, e deu a notícia no site oficial da sua editora.

Na inauguração, esgotaram-se os ingressos em quarenta minutos. O evento, concorrido, atraiu a atenção de profissionais da área artística, em especial de roteiristas e desenhistas de revistas em quadrinhos, e de apreciadores da nona arte. Os admiradores de Fênix de Prata, Iaci, Diamante, Maravilha de Júpiter e Superpoderosa lotaram a sala especialmente preparada para a entrevista com Jussara.

O organizador do evento, Silvio Ulisses Riachuelo, popular entre leitores de revistas em quadrinhos, apreciadores de games e rpg, fez, eufórico, o discurso de recepção a Jussara e a Josué Souza de Lima e Silva.

– Hoje é o grande dia! Hoje, o dia em que o mundo conhecerá a musa inspiradora de Josué. Jamais o mundo conheceu mulher tão bela. Nem os antigos gregos, gênios da beleza, nem os romanos, nem os nórdicos, nenhum povo antigo, jamais conheceu tão imensa maravilha. Esqueçam Angelina Jolie! Esqueçam Brigitte Bardot! Esqueçam Marylin Monroe! Esqueçam a garota de Ipanema! Esqueçam Cleópatra! Esqueçam Aishwarya Rai! Esqueçam Aki Ross! Esqueçam Jessica Rabbit! Esqueçam Jasmin! Esqueçam Betty Boop! Esqueçam as sereias! Esqueçam as deusas do Olimpo! Esqueçam as deusas de Asgard! Esqueçam Mary Jane! Esqueçam Lara Croft! Esqueçam Gong Li! Esqueçam as deusas de Hollywood! Esqueçam as deusas de Bollywood! Lembrem-se da deusa, a deusa suprema, a musa inspiradora de Josué.

Abafaram-lhe a voz ovações ensurdecedoras. Abalaram a estrutura do prédio os aplausos estrondosos. Silvio pediu silêncio; assim que o silêncio foi restabelecido, retomou o seu discurso inflamado:

– Meus amigos! Minhas amigas! Hoje teremos o prazer de conhecer a musa inspiradora de Josué, o nosso querido Josué, que nos ofereceu, com as suas brilhantes sagas quadrinísticas, horas e horas e horas de alegria e prazer. Pudemos sonhar com a Fênix de Prata, com Iaci, a moça-lua, com Diamante, com a Maravilha de Júpiter, e com a Superpoderosa. Daqui a pouco, conheceremos a musa inspiradora de Josué, nosso querido Josué, o gênio brasileiro dos quadrinhos. Paciência, amigos impacientes. Paciência. Tenham um pouco de paciência, meus amigos. Logo, logo, admiraremos a musa inspiradora de Josué.

O público berrava. Por mais de cinco intermináveis minutos, Silvio mal pôde proferir uma palavra, e as que proferiu ninguém as ouviu. Insistiu em pedir silêncio; enfim, teve êxito. E ele prosseguiu:

– Chegou, meus queridos amigos, o momento pelo qual todos ansiávamos. Com vocês, para a felicidade geral da nação, Josué e a sua musa inspiradora!

Elevaram-se à alturas que vozes humanas jamais alcançaram os gritos altissonantes. Apagaram-se as luzes, e um cone de luz foi projetado no centro do palco, iluminando Josué e a sua musa inspiradora. Silêncio opressivo tomou conta de todos, que, estupefatos, surpreendidos pela fascinante aparição, emudecidos, perguntavam-se:

– Por que Josué está abraçado a um bloco de mármore?

O vulto

Segunda-feira. 23:00.

Sob a escuridão da noite, nuvens cinzentas anunciando violenta borrasca, eclipsando a lua, Ana Verônica andava, apreensiva, a bolsa abraçada ao peito. Os seus passos, pesados, firmes, apressados, ecoavam no silêncio das ruas mal iluminadas. Seus olhos, alertas. Olhava Ana Verônica de um lado para o outro. O ruído de uma folha seca caindo, e os ouvidos de Ana Verônica, aguçados pelo medo e pelo que se pode chamar de instinto de conservação, ou instinto de sobrevivência, captavam-no, e sobressaltava-se Ana Verônica, e crispavam-se-lhe os pêlos de todo o corpo, a prova do medo e da apreensão que a assaltavam.

Ana Verônica, mulher bonita, dedicada à família e aos estudos, sonhadora, vaidosa, estudiosa, almejava seguir carreira de arquiteta respeitada e bem-sucedida; dedicada aos estudos, sacrificava os seus dias de lazer, feriados e finais-de-semana. Superava obstáculos que detém muita gente menos perseverante. A sua beleza, incomparável. Atraente, seu corpo enfeitiçava qualquer homem. Andava, todas as noites, por ruas mal iluminadas, temendo a investida de um ladrão, de um assassino, de um estuprador. Rogava ao Senhor que nenhum facínora lhe cruzasse o caminho.

Naquela noite de calor insuportável, trajava um vestido florido, que lhe modelava as perfeitas formas femininas. Seu corpo, belo e atraente em vestes comuns, sublimou-se com tal vestido. A vaidade, sentimento tão natural, poderia vir a perdê-la. Seu corpo, puro, poderia vir a ser enxovalhado, profanado – e talvez conservasse a beleza, cuja pureza, no entanto, não mais possuiria.

Diários, a apreensão e o medo de ser agarrada por um estuprador, por um assassino. Na sua casa, seu pai e sua mãe preocupavam-se com ela; enquanto ela à casa não regressava, eles não se recolhiam, para dormir, ao quarto. Conservavam-se acordados à espera da filha, a única filha, que lhes era querida.

A lubricidade de muitos homens aguçava-se quando eles deparavam-se com Ana Verônica. Havia algum homem espreitando Ana Verônica de detrás dos postes, das árvores, dos automóveis, oculto pela escuridão, à espreita, para avançar contra ela, agarrá-la e, ardendo de desejo, arrastá-la, para algum lugar imundo, e violentá-la?

Ana Verônica estava apreensiva, naquela noite, que prenunciava, aziaga, torpezas. Corajosa, o coração a pinotear, dava passo após passo. Ecoava, lúgubre, o bater da sola dos seus sapatos de saltos altos nas calçadas e nas ruas esburacadas e com raízes de árvores expostas.

Atingiram-na golpes de vento de uma corrente de ar frio. Calafrio percorreu-lhe o corpo. À sua frente, um vulto atravessou a rua, da direita para a esquerda, e desapareceu atrás de uma árvore. Ana Verônica estacou, olhos fitos na árvore, aguçadas a visão e a audição. Distinguia o contorno da árvore, e nada mais. Seu coração cabriolava. Sua boca secou-se. A sua bela fisionomia, suspensa, deformada, refletia o medo que a invadira. O sangue abandonou-lhe a face. Abraçou-se, abraçando-se à bolsa ao seu colo, apertando-a contra si como se a protegesse e por ela fosse protegida.

Andou, lenta e cuidadosamente. Recriminou-se. Por que usou um vestido que lhe sublimava os atrativos e esparziu-se perfume tão aromático, tão sedutor?

Passou pela árvore atrás da qual escondera-se o vulto, que desapareceu.

Não abandonaram Ana Verônica o medo e a apreensão; recrudesceram, à presença do vulto, que se moveu atrás dela, correndo, pelo meio da rua e detendo-se atrás de um carro.

Ana Verônica acelerou os passos, o coração a saltar, as pernas a tremerem, o corpo a trepidar. Pela sua mente transcorreu a sua vida até o presente, e ela anteviu o que lhe aconteceria nas mãos do vulto ao qual ela deu uma constituição física, um corpo humano masculino; até então, o vulto era-lhe uma entidade etérea, que já a havia assombrado em outros dias; desta vez, assumiu-lhe a consistência de um homem. Em sua mente, convergiram o passado, o presente e o futuro, que se fundiram numa coisa só. Evocou seu pai e sua mãe. Invocou-os. Orou. Solicitou a ajuda dos anjos.

Sentiu respiração ofegante atrás de si. Agitou os cabelos. Seu coração, acelerado, a ponto de explodir. De seus olhos escorreram fiozinhos de lágrimas, que secaram, instantaneamente, no rosto lívido.

Agrediam-lhe os ouvidos os assustadores ruídos dos passos do vulto. Tensa, seu corpo enrijeceu-se.

Notou que o vulto afastou-se de si, e desapareceu. Não afugentou de si o medo. Não lhe aliviava o espírito a escuridão lúgubre. O medo acompanhou-a até uma rua movimentada bem iluminada. A tensão abandonou-a. Renovou-se-lhe a beleza. Afrouxou o abraço à bolsa. Os braços moveram-se-lhe às laterais do corpo, como um pêndulo. Os seus passos, lentos, calmos, tranqüilos. Sorriu, aliviada, e logo suprimiu do rosto o sorriso. Seu coração, no compasso de música melodiosa. Deu os últimos passos até a sua casa. Enfiou a chave na fechadura, e abriu a porta, e na sua casa entrou. Na sala, sorriu para seu pai e sua mãe. Sua mãe abraçou-a, beijou-a nas duas faces, disse-lhe que tomasse um banho, afagou-lhe as bochechas. Ana Verônica banhou-se. Na cozinha, ela, seu pai e sua mãe, à mesa, compartilharam da última refeição do dia. Desejou Ana Verônica boa-noite ao seu pai e à sua mãe. Pediu-lhes a benção, e foi ao quarto. Substituiu as roupas por uma camisola, enfiou-se sob o lençol, apagou as lâmpadas. E dormiu profundamente.

*

Terça-feira. 23:00 horas.

Sob a escuridão da noite, nuvens cinzentas…

A incrível história do homem que se dissipou

Antenor morreu. Morreu. Sem eufemismo. Eu não disse, e não direi, que ele bateu as botas, abotoou o paletó, partiu desta para a melhor, dorme sete palmas abaixo da terra, conquistou o seu lote no céu, está junto de Deus, não vive mais entre nós. Antenor não vive mais entre nós, é verdade. Mas viveu entre nós. Ele viveu entre nós? Ele viveu? Quem disse que ele viveu? Eu o conheci… Eu o conheci? Quem disse que eu o conheci? Mal me conheço! Desde o tempo de Pitágoras os homens ouvem o conselho: “Conheça-te a ti mesmo.” É a exortação que os sábios mais repetem, e a que, presumo, ninguém, até hoje, conseguiu respeitar. Quem conhece a si mesmo? E exultantes, declaramos que conhecemos outras pessoas. Se uma pessoa mal se conhece, o que dirá de conhecer outra pessoa? Sou presunçoso ao declarar que conheci o Antenor. Mal me conheço! Muitas vezes vejo-me em apuros porque eu disse algo que não devia ter dito e faço coisas das quais arrependo-me. Há alguém que, nesse quesito, distingue-se de mim? Não sou igual a ninguém. Há certos fenômenos que fazem de todas as pessoas uma só. Na morte, todas as pessoas fundem-se umas às outras, principalmente as que se encontram enterradas bem próximas. Para escapar, após a morte, à influência deletéria de outros cadáveres há quem, no testamento, estabelece o material do seu caixão, no qual não entra nem sai um virus, uma bactéria. Os miliardários constróem templos tumulares; e os seus familiares, herdeiros e amigos os cultuam. Isolados dos outros cadáveres, acreditam, os átomos que compõem seus corpos com os deles não se misturarão. Há mais sob o céu e a Terra do que sonha a sua filosofia, que não é vã – há quem diga que é -, escreveu um homem sábio, homem que, muita gente acredita, nunca existiu e é a personificação amalgamada de vários homens, ou a de um filósofo renomado, mais inteligente, até, do que a personagem (Macbeth ou Hamlet? Sempre os confundo) que disse a famosa frase, frase que muita gente diz não ser dele, mas de outra pessoa, pessoa que ninguém conhece. Neste curto trecho citei Pitágoras, Hamlet e Macbeth. Este texto não é um tratado acadêmico repleto de citações e alusões. É um relato dos últimos dias da vida de Antenor, o homem que se dissipou. Incrível é a história dele. Eu quase escrevi que Antenor era incrível. Ele não o era. Incrível foi a história dos seus últimos dias de vida. “Que absurdo é esse?”, “Que homem se dissipou?”, perguntem-me. Ora, acabei de dizer: o Antenor. Testemunhei a sua degeneração. Presenciei a sua dissipação. E é da sua degeneração que trato neste texto em cujo final apresentarei a sua morte. Morte? Ele morreu? Ele viveu? A respeito do Antenor não escreverei um livro de mil páginas, tampouco um de quarenta páginas. Escrevo estas palavras porque desejo expulsar de mim as imagens que me atormentam o espírito. Acredito que ao registrar o que me ocupa a mente, as imagens de tão estranho fenômeno não mais me atormentarão. Como pode um tipo tão insignificante dar título a uma história tão incrível? Não tenho a resposta. Não a desejo. É salutar para mim e para todos os humanos existentes no universo que ninguém a possua. Por que eu a desejaria? Por que alguém a desejaria? A resposta a ninguém traria benefício. Chega de conversa fiada. Vamos à incrível história do Antenor, um homem que não conheci; acredito que ninguém o conheceu, nem mesmo ele, apesar de Pitágoras. O Antenor conhecia a filosofia do Pitágoras, a do Sócrates e a de Shakespeare? Neste país abençoado por Deus, Antenor foi um dos poucos brasileiros que leram alguma coisa deles. Os brasileiros da gema conhecemo-los de ouvido, o que não é a mesma coisa, embora muita gente diga que é. O nosso jeitinho, tão decantado nas músicas populares, que tecem loas aos marginais… Não estou escrevendo um tratado antropológico, pois nada sei de antropologia, tampouco da cultura brasileira. Sou um brasileiro, mas não me identifico com a maioria dos aspectos da cultura pátria, os quais, dizem os intelectuais, compõem a identidade do brasileiro legítimo. Chega de embromação. Vamos ao Antenor. Escreverei, em poucas linhas, a incrível história do Antenor, o homem que se dissipou. Ele se dissipou há duas horas. A morte do Antenor… Um cientista poderia explicar, com palavras exatas, o processo de dissipação do Antenor. Não irei, nem tentarei, desenvolver, aqui, uma explicação de tal processo, que se precipitou na morte do Antenor. Deixarei essa história pra lá. Irei falar do Antenor, do que aconteceu com ele, de como ele era; melhor, de como eu acho que ele era. Direi aquilo que dele acredito ter conhecido durante o nosso curto relacionamento. Não trocamos muitas palavras. Ele falava pouco, quando falava. Era lacônico, e enervava-me. Os loquazes também não se dão a conhecer. A tagarelice deles, penumbra que os envolve, e visualizamos deles unicamente imagens difusas. Antenor não se abria com ninguém e nunca falava da própria vida. Se ele tivesse se aberto comigo, eu o conheceria? Todos que com ele travamos relações, conhecê-lo-íamos se ele falasse mais de si mesmo? Não escreverei o que dele outras pessoas disseram-me – se elas não se conhecem, quanto mais conhecer o Antenor. Se Antenor não se conhecia, e pouco dele conheci… Melhor, dele nada conheci. Não me conheço. Não considero, aqui, o que ouvi a respeito do Antenor; dele trato apenas do que conheci; melhor, do que acredito haver conhecido. Preencherei algumas linhas, que atrairão a atenção de alguém… Esta história é tão estranha, tão incrível, tão absurda… É real… Este relato não é uma história de Poe, nem de Stoker, nem de Shelley, nem de Stevenson. Ela não é minha! É do Antenor. Este relato, para meu desgosto, acumula digressões, e não sai do lugar. Como posso concentrar-me no que escrevo, com tantas imagens desconexas na cabeça? A minha mente está um caco. Tenho de concentrar-me, e tratar do Antenor, e dele apenas, sem citar Pitágoras, Poe, Shakespeare, Stoker, criaturas que não têm relação com a história dele. Por que as evoco? Meu Deus! E o Antenor? Ah! Sim. O Antenor. Antenor… Evoco-o. Invoco-o. Quero expurgar todas estas imagens que me atormentam. Antenor… Conheci o Antenor… Quem disse que eu o conheci? Não o conheci. Ninguém o conheceu. Ele não se conheceu. Como uma pessoa como o Antenor pode se conhecer? Quem se conhece e quem conhece outra pessoa? Não desejo resposta para esta pergunta. Por que eu a quereria? Ela de nada me serviria. Por que temos sede de saber, se do que sabemos fazemos mal uso? Destruímos o nosso mundo; dizem que ele é de Deus. Por que neste mundo ocorrem tragédias? Este mundo está um caos! Um caco! Deus, se Ele realmente existe, não estima Suas criações. Guerras. Terrorismo. Dengue. Febre amarela. Malária. Aids. Quantos flagelos nos infligem sofrimentos sem fim? Vulcões. Enchentes. Avalanches. Genocídios. Epidemias. Quantos flagelos? Rejeito as teorias místicas. Afinal, do que trato aqui? E o Antenor? Ah! O Antenor morreu. Não é da sua morte que desejo escrever; desejo escrever de um processo que se estendeu desde quando não sei e culminou na morte dele – e isso é incontestável. O Antenor morreu. Ele não vive mais entre nós. Suspeito que ele nunca viveu entre nós. Desconfio que ele nunca viveu. Como o Antenor dissipou-se? Tenho de tratar do Antenor? Tenho. Não posso me furtar a fazê-lo. Narrarei a história desde o início. Apresentarei, no relato, o dia em que o conheci; melhor, o dia em que nele esbarrei-me, em algum lugar, nesta cidade, não faz muito tempo. Não me recordo, mesmo que eu puxe pela memória, onde nele esbarrei, e quando. Nele esbarrei, em algum lugar, não sei onde. Sabendo isso, já se sabe muita coisa. O Antenor morreu de modo tão… Como direi? Singular. O que pretendo dizer com isso? Quero eliminar de mim as imagens que me atormentam. Acredito que, se eu as registrar, as esquecerei. Não quero me lembrar mais delas. Nunca mais. Como eu escrevia, esbarrei no Antenor. Esbarrei nele, e de leve. O contato, frio. O que quero dizer com isso? Provavelmente, nada. Estou apenas eliminando de mim o que me incomoda. Pois, não é que esbarrei no Antenor! Ainda não saí disso! Esbarrei no Antenor. Trocamos olhares o Antenor e eu; falamos de qualquer coisa. Do quê? Ora, como saberei? Já se passaram mais de dois anos. Ou mais de três anos? O Antenor pediu-me desculpas. Desculpas pelo quê? Antenor era, assim o interpretei: um sujeito tímido, acanhado, ensimesmado. Essas as impressões que ele me deixou logo de início. Curvado diante das pessoas, sempre a lamentar-se, a recolher-se em si mesmo. Antenor era assim, ou assim pensei que ele fosse. Antenor e eu tomamos conhecimento um do outro. Tomamos conhecimento um do outro? Quem disse tal sandice? Eu? Retiro o que eu disse. Não! Não retiro o que eu disse. Conservo o que eu disse. E o Antenor? Ah! Antenor. O Antenor era único e não era único. Era autêntico e não era autêntico. Confundia-se o tempo todo a respeito de si mesmo e não sabia quem era e ninguém o ajudou a se conhecer. As pessoas não se conhecem cada qual a si mesma. Se elas não se conhecem cada qual a si mesma, como ajudariam Antenor a se conhecer a si mesmo? Elas o impediram de se conhecer. O Antenor não se entendia com seu irmão, um sujeito que sempre ia de encontro a ele. O irmão do Antenor nunca ia ao encontro do Antenor – ia, sempre, de encontro a ele. Eles não se entendiam. Antenor não se entendia com seu pai, sua irmã, sua mãe e seu irmão. Eles o sufocavam. Eles o desprezavam. Antenor sempre recolhia-se, nunca protestava. Assim ele vivia a sua vida. Incomodava as pessoas; as pessoas o incomodavam. Eu fui uma das pessoas incômodas que ele incomodou. Vi como o irmão dele o tratava. “Maricas”, gritava-lhe, em público, e Antenor recolhia-se. Por que Antenor não revidava? Por que ele não protestava? Por que ele se resignava? Antenor era alvo de chacotas, na sua casa, na escola, nas ruas, aqui no escritório. Faziam dele gato sapato. Era um fracassado, na vida, no trabalho, no amor. Todos o desprezavam. Antenor sempre evitava o confronto. Conquanto ciente de que as pessoas tinham a intenção de derrubá-lo, ele não se protegia; deixava-se jogar quando não conseguia esquivar-se a tempo de evitar a colisão. “Ele não fez por mal. Ele não fez por mal”, dizia Antenor, acovardado. Ele recuava, sempre. Nunca protestava. A cada colisão, ia para o chão. E assim ele viveu a sua vida. Ele sempre caía. Aqueles que o jogavam para o chão e nele pisavam eram mais fortes do que ele. “Ele não fez por mal”, desculpava-se Antenor. “Ele não fez por mal”. Encolhia-se. Evitava o confronto. Quando as pessoas que o hostilizavam e por ele nutriam repulsa visceral – e a acídia de Antenor lhas insuflava – fitavam-no com olhos injetados de ódio, Antenor desculpava-se por ter-se deixado agredir. “Não foi de propósito”, defendia-se. Havia pessoas que o hostilizavam. Havia pessoas que, embora estranhando-o, buscavam entendê-lo. E uma dessas pessoas fui eu. Desde que o conheci – melhor: desde que penso tê-lo conhecido -, senti-me atraído pelo seu tipo calado, ensimesmado. Presumo que ele era inteligente, pois a sua aparência era a de uma pessoa inteligente. Ele era dotado de sensibilidade artística incomum – falava de literatura, em especial da italiana, com conhecimento. Ele não ostentava erudição que não possuía. Ele gostava de falar, além de literatura italiana, da pintura renascentista. Seus ídolos: Leonardo da Vinci e Miguelângelo. E que não se falasse dos modernistas para ele. “Os modernistas são vigaristas”, dizia ele. E tampouco dos cubistas. “Os cubistas são embusteiros”, dizia ele. Antenor era lacônico. E sensato, presumo. Não sei se ele ostentava sensatez. Possuía as suas palavras de efeito e as suas frases penetrantes. Gravei algumas delas fundo na memória: “Apenas os estúpidos ostentam sabedoria”, “Apenas os ignorantes ostentam erudição”. Pergunto-me se, ao dizê-las, ele não ostentava sabedoria. Muitas dentre as frases de sábios célebres não foram proferidas por sábios, mas, em algum lugar, por ilustres desconhecidos. Quantas frases ‘de sabedoria profunda’ foram ditas por ignorantes e estúpidos? Muitas frases correntes ditas por estúpidos e insensatos são atribuídas aos sábios; aliás, às pessoas às quais se atribui sabedoria. Não sei porque incluí estes pensamentos aqui. Não é de sabedoria que trato aqui. Aqui trato do Antenor. Antenor era um tipo inteligente e criativo – presumo -, recolhido em si, e dele ninguém se aproximava. Silencioso, persuadia-nos a não nos atrever a puxar conversa com ele, pois, se o fizéssemos, atrapalhá-lo-íamos em suas meditações. Antenor, na maior parte do tempo – presumo – apenas devaneava a respeito de qualquer coisa. Mas aquele olhar! Acreditávamos que ele pensava questões imprescindíveis ao entendimento das coisas deste mundo. Ele meditava? Ele devaneava? É impossível falar de Antenor sem presumir muitas coisas a respeito dele. Ele era dotado de sensibilidade literária e artística, mas não persistiu nos estudos de literatura e de arte (estudou literatura na Universidade *, por um ano, e artes, na Universidade Y, durante três meses). Ele nunca me disse o que o levou a abandonar os estudos. Ele vivia concentrado nos seus pensamentos. Ninguém desejava atrapalhá-lo. Mas ele realmente pensava a respeito de qualquer assunto, ou apenas devaneava? Não sei. Atiçados pela curiosidade, perguntávamo-nos os que acreditávamos conhecer o Antenor no que ele pensava. No escritório, alguns dentre nós o hostilizavam abertamente, e o humilhavam, e nele pisavam, sem pena nem dó. E Antenor não reagia. Ouvi pessoas a exortá-lo a mudar de comportamento. “O que você ganhará com os livros e com a arte?”, interrogavam-no reprovando-o. “O mundo pertence às pessoas de ação. Abandone os livros. Esqueça a Monalisa. Arte e literatura são ocupações de maricas”, e casquinavam. Antenor disse-me, certa vez, que todas as pessoas o desprezavam e que se sentia deslocado em nosso meio. Antenor gostava de pintura e de literatura. Era desastrado para as coisas práticas. Ninguém o respeitava. Quando ele expunha os seus gostos e as suas preferências o fazia sem energia e não as defendia das críticas acerbas que infalivelmente ouvia. Negava-se a apresentar argumentos favoráveis às suas idéias e às suas preferências artísticas; ia ao cúmulo de negar-se a si mesmo, rejeitar as próprias idéias e, para evitar atrito, a concordar com o que lhe diziam. Arrumava muitos pretextos para não se defender e para justificar as violências que sofria. Sempre que eu lhe dizia que ele tinha de se manifestar em sua defesa, erguer o tom de voz, ele desconversava, e justificava a sua prostração. Tenho de reconhecer: Antenor era muito persuasivo ao justificar a sua covardia. Ele recuava, sempre que o agrediam. Escondia-se dentro de si, numa concha impenetrável, e lá ficava, longe do mundo, caricatura patética de O Pensador. Mas ele pensava, ou devaneava? Como as aparências enganam! E eu tinha a impressão de que alguma coisa, nele, ia, com o passar do tempo, desaparecendo. De início, não atentei para o fenômeno, que não me chamou a atenção. Com o passar dos dias, passei a notar o que acontecia. Fiquei horrorizado ao ver Antenor, certo dia. A sua aparência, repulsiva. Ele foi um mistério para todas as pessoas. Antenor era um mistério para Antenor. E ele ficava diferente à medida que transcorriam os dias, as semanas, os meses. “O que está acontecendo com você, Antenor?”, perguntei-lhe, em algumas ocasiões. Ele não sabia ao que eu me referia. E era sincero; não se fazia de desentendido. Se ele não sabia o que lhe acontecia, o que eu poderia saber? Eu ignorava o que acontecia com ele, do mesmo modo que ele ignorava o que acontecia consigo. Transcorreram-se os dias. Transcorreram-se as semanas. Transcorreram-se os meses. Um dia, fitei Antenor, e notei que ele estava menor e faltava-lhe um pedaço do nariz e das orelhas, e os cabelos dele estavam mais curtos. Quanto aos cabelos, ele poderia tê-los cortado. E quanto às orelhas e ao nariz? Cortara-os também? Pareceu-me que ele estava uns dois centímetros mais baixo e uns dez quilos mais leve. E ele exalava um odor indefinível, que nos incomodou a todos nós. O que estava acontecendo com Antenor? Entreolhávamo-nos. Um dia, criei coragem e disse-lhe: “Antenor, o que se passa com você? Ultimamente de você está escapando um odor que nos dá engulhos”. “Explique-me o que você quer dizer”, pediu-me ele. Calei-me. O que eu lhe diria? Tentei desconversar, mas não pude. Ele me olhava com aquele olhar ao mesmo tempo penetrante e vago. Tive de me explicar para ele. Eu não desejava desentender-me com ele. Ele era meu amigo – assim eu o considerava. Não sei se ele me tinha na conta de seu amigo. É verdade: nós mal nos conhecíamos. Mas, e daí? Ele era meu amigo. O que ele pensava de mim eu nunca soube – ele nunca me disse o que pensava de mim, nem de si, nem de ninguém. Ele me ouviu, calado. Acabei com as dúvidas, presumo, que ele tinha a respeito do que eu pensava dele. Não sei se a minha peroração foi elucidativa. Acredito que o tenha sido. Antenor nada me disse depois que a encerrei. O que lhe sucedia? Antenor não sabia o que se passava com ele. Deduzi que ele iria verificar o que eu lhe dissera. Acredito que ele nunca notara o que se passava com ele. As pessoas à volta dele notávamos que ele modificava-se. E hoje ele chegou ao escritório quase sem cabelo! E ele notara a calvície; tentara disfarçá-la. De repente, ele começou a transformar-se à nossa frente. Partículas escapavam-lhe do corpo. Ele berrava. Debatia-se. Nós – quem eram as outras pessoas presentes? – testemunhamos o fenômeno. Antenor dissipava-se. Desfazia-se em partículas. Todos ficamos horrorizados. Foi horrível! Horrível! Que horror! Um homem a dissipar-se! Enfim, ele se dissipou. No chão, os vestígios de Antenor: a cueca, a calça, as meias, a camisa, os sapatos. E nada mais. Permaneci petrificado durante não sei quanto tempo. Até que me vi, aqui, a escrever este relato. E dou-o por encerrado.

Demônios

Abel premiu o gatilho do revólver. O projétil riscou o ar e alvejou um demônio enorme, alojando-se-lhe entre os dois olhos, um pouco acima do focinho. O demônio, cujas cerdas grossas cobriam-lhe o corpo volumoso, nenhum gemido emitiu. Tiro certeiro. Morte instantânea. Do buraco aberto pelo projétil escorreu sangue em profusão. O corpo sem vida tombou no piso do corredor do oitavo andar do prédio no qual Abel morava com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos, Cláudio e Gustavo.
– Enfim, morto – balbuciou Abel, respirando com dificuldade, acocorado ao lado do corpo gigantesco. – Você nunca mais me assustará, demônio dos infernos – e bateu-lhe, na cabeça, o revólver; embora recomposto, seu peito ardia, febricitado, e seu cérebro fervilhava, num turbilhão indomável de pensamentos e sentimentos.
Recuperou o governo de si, levantou-se, e olhou ao redor. Pisou, involuntariamente, na poça de sangue. Onde estavam os outros três demônios? Nenhum ruído chegou-lhe aos ouvidos. Os demônios, ou se invisibilizaram, ou ocultaram-se nas sombras. Com o revólver em punho, Abel arrastou-se à parede salpicada de sangue, andou pelo corredor, braço esquerdo retesado, o dedo indicador no gatilho, revólver apontado para a frente, olhos arregalados, braços firmes, à procura dos outros demônios.
– Não me escaparão – disse para si, encorajando-se.
Chegou ao fim do corredor. Ouviu ruídos atrás de si. Voltou-se, rapidamente. Divisou a silhueta indistinta de um demônio acocorado ao lado do cadáver do que matara.
– Pare! – gritou Abel, assustado, com o revólver apontado para o demônio, que, ao voltar-se para ele, emitiu um grunhido cavernoso, mais de tristeza que de fúria, misto de sofrimento e ira.
O demônio pôs-se de pé, e arreganhou a bocarra. Exibiu dentes afiadíssimos, e urrou, ameaçador, os olhos abrasados de cólera.
Arrepiaram-se os cabelos de Abel. Crisparam-se-lhe os pêlos.
Abel, petrificado, apontava, com as mãos trêmulas, o revólver para o demônio, que correu em sua direção, urrando de fúria.
Abel premiu o gatilho.
Reboou o disparo. O projétil alvejou o demônio no peito esquerdo, na altura do coração. O demônio tombou, arrastou-se, sob convulsões espasmódicas. Guinchava, estridente, frenético. Sangue ensopou-lhe a pelagem. Cessaram as convulsões. Abel conservou-se, o revólver apontado para o demônio, onde estava. Ao averiguar que os movimentos do demônio cessaram – ele estava morto, persuadiu-se Abel -, andou, cauteloso, até ele, os ouvidos e os olhos apurados, pronto para reagir a ataque de outro demônio. Curvou-se diante do corpo inerte. Para averiguar se ele estava morto, encostou-lhe no peito o cano do revólver. O demônio descerrou as pálpebras. Abel prorrompeu em maldições. Ergueu-se. Encarou o demônio. Apontou-lhe o revólver à cabeça.
Encontraram-se os olhos do demônio e os de Abel. O demônio cuspia sangue e berrava de dor. Os olhos de Abel irradiavam ódio.
Com a arma apontada para a cabeça do demônio e a fisionomia deformada pelo ódio que lhe corroia o espírito, Abel esbravejou:
– Demônio dos infernos! Volte para o inferno, demônio maldito!
O demônio esboçou um gesto, entreabriu os lábios, estendeu o braço e a mão direitas, emitiu um grunhido inaudível. Abel premiu o gatilho. Um projétil cravou-se na testa do demônio, que morreu, instantaneamente.
No mesmo instante, Abel divisou um demônio, que corria em sua direção, apontou-lhe o revólver para o peito esquerdo, e premiu o gatilho. O demônio esquivou-se, com agilidade insuspeita, do projétil, que se lhe resvalou o ombro esquerdo. Levou a mão direita ao ferimento, e deteve-se; e voltou a palma da mão para si, e viu-a manchada de sangue. Olhou para Abel, que lhe apontava o revólver; antes que ele premisse, mais uma vez, o gatilho, correu em disparada. Abel pulou por sobre os cadáveres dos demônios que jaziam na poça de sangue, e correu atrás dele. Seguiu o rastro de sangue, até a segunda porta à direita de cujo enquadramento deteve-se um pouco antes. Cauteloso, encostado à parede, olhou para a sala, para os móveis. Passou, cauteloso, pelo enquadramento da porta. Ouviu barulho atrás de si, vindo do corredor. Voltou-se, e deparou-se com um demônio. Arregalou os olhos, rilhou os dentes. O demônio, antecipando-se-lhe, vibrou o braço esquerdo, e desferiu-lhe um soco, na cabeça, arremessando-o para trás. Abel caiu, o nariz a sangrar. Apossou-se-lhe do espírito terror-pânico. Sentiu a consciência a se lhe desvanecer. Levou a mão esquerda ao nariz, e cobriu-o. Gemia de dor. Cuspiu sangue. O demônio aproximou-se de Abel, deu-lhe um pontapé na ilharga, pulou sobre ele, e fincou-lhe, no pescoço, as garras afiadas. Esvanecia-se a consciência de Abel. Com a visão embaciada, Abel viu diante de si um vulto indistinto. A sua audição falhava. Captava sons, distorcia-os, fundia-os, contraía-os, dilatava-os. Contraiu-se-lhe de dor o rosto. O demônio abriu a bocarra; exibiu seus dentes enormes, afiados. Exalava hálito nauseante. Seus olhos, injetados de cólera, penetraram a alma de Abel, sugando-lhe as escassas energias que lhe restavam. Abel, num esforço hercúleo, encostou, na têmpora esquerda do demônio, o cano do revólver, no mesmo instante em que ele lhe acertou, na face, um potente soco, roubando-lhe a consciência, e premiu o gatilho. O projétil atravessou a cabeça do demônio, e foi alojar-se na parede. O demônio tombou para a direita, morto.
Com as mãos no pescoço, tossindo, convulsivamente, Abel recuperava as cores naturais do rosto deformado por dores aflitivas. Restava, agora, um demônio. Quatro demônios haviam se instalado no oitavo andar. Abel despachou três deles para as entranhas do inferno. O remanescente, ferido, não lhe imporia dificuldades, previa. Não se desacautelou, todavia. Sabia que enfrentava uma criatura demoníaca, que poderia matá-lo com seu hálito venenoso e suas unhas e dentes afiados.
Descerrou as pálpebras. Olhou para o demônio caído ao lado. Ondas de calafrio percorreu-lhe a espinha.
Levantou-se com dificuldade visível. Massageou a ilharga. Removeu, com as costas das mãos, o sangue do nariz. Mordeu o lábio inferior, para conter os gemidos decorrentes da dor que o afligia. Sentia dores na perna esquerda. Amparou-se na parede. Tateando-a, foi na direção para a qual o demônio correra, ferido. Seguiu o rastro de sangue, pela sala, entre os móveis, até uma porta cujos maçaneta e batente estavam manchados de sangue. Cauteloso, apurou os ouvidos. Moveu, lentamente, a maçaneta. Abriu a porta, cuidadosamente. Na mão direita, o indispensável revólver, que, em menos de cinco minutos, aniquilou três demônios. Naquele compartimento reinava a escuridão. Abel mal podia ver o que havia diante de si. Via os objetos que estavam até a dois metros à sua frente; além disso, distinguia os contornos de alguns móveis; os outros estavam ocultos sob espessa penumbra e as trevas predominantes. Ao enquadramento da porta, preparado para atacar, ou para revidar a um ataque, premiu o interruptor. Acenderam-se as duas lâmpadas fluorescentes.
O tapete estava salpicado de sangue.
Abel abriu um sorriso tímido e contido.
Empunhava o revólver com mãos firmes e músculos retesados. Apurou os ouvidos. Enveredou pela sala, pé ante pé, seguindo o rastro de sangue no tapete.
Ouviu ruídos inaudíveis, de passos, indo, até ele, do compartimento contíguo, para o qual o rastro de sangue o conduzia. Cuidadoso, passos medidos, curtos, chegou ao enquadramento da porta, e relanceou os olhos pela sala. Nada viu. Ouviu ruídos. Recuou. Assim que cessaram os ruídos, olhou para a sala. Divisou, levantando-se, três metros à sua frente, de costas para si, o demônio, que se virou ao pressentir Abel, que premiu o gatilho quatro vezes. Um projétil alvejou o demônio, no peito esquerdo; um cravou-se-lhe na testa; um, no pescoço, e um no nariz. O demônio tombou pesadamente, morto.
Encostado à parede, ofegando, com o coração descompassado, os olhos esbugalhados, os braços estendidos, as mãos com os dedos retesados segurando o revólver fumegante, Abel fitava o cadáver repulsivo.
– Vá para os infernos, demônio – bradou, triunfante.
Abel abaixou a cabeça, e encostou o queixo no peito. Cerrou as pálpebras, largou os braços; segurava o revólver com a mão esquerda. Levou a mão direita aos olhos, e massageou-os com o polegar e o índice. Encheu os pulmões de ar, e esvaziou-os. Descerrou as pálpebras, fitou o cadáver do demônio. Regozijou-se. Triunfou. Matou quatro demônios. Era um vitorioso.
Enfim, após verificar que o demônio estava morto, retirou-se do apartamento. Qual foi a sua surpresa ao deparar-se com demônios que, à espreita, no enquadramento da porta de outros apartamentos, berravam, ameaçadores. Abel regressou ao apartamento. Ouviu passos, que lhe chegaram do compartimento no qual matou o último dos quatro demônios. O demônio ressuscitara? Os quatro demônios haviam ressuscitado? Um demônio apareceu ao enquadramento da porta. Abel premiu o gatilho. O projétil alojou-se na parede, atrás do demônio, que, com um salto, foi para trás de um sofá. Abel premiu o gatilho três vezes. Na terceira vez, ouviu um estalo. Acabaram-se os projéteis. Agora teria Abel de enfrentar os demônios em lutas corpo-a-corpo. O demônio que pulara para trás do sofá levantou-se e avançou contra Abel, que, petrificado, viu-o indo em sua direção. Outros quatro demônios entraram pela porta que dava ao corredor, e correram na direção de Abel. Eram altos, fortes, maiores do que os quatro que Abel matara. Eles o agarraram, imobilizaram-no, arremessaram-no ao chão, puseram-no deitado de barriga para baixo, e torceram-lhe os braços às costas.
Um demônio, com o joelho esquerdo prensando Abel no chão, rosnava e rilhava os dentes. Outro, apertava-lhe, com um pé, o pescoço. E um demônio sentenciou:
– Abel, você está preso pelos assassinatos de seu pai, sua mãe e seus irmãos.

Obsessão

07 de janeiro de 2…. Uma linda moça, a morena cuja formosura encantou-me. Sua pele é de um tom claro que brilha à luz do sol. Seus lábios vermelhos, realçados pelo batom, e seu nariz, seus olhos, seu queixo, suas sobrancelhas e suas maçãs do rosto compõem um conjunto perfeito. Se Fídias a admirasse, esculpiria a mais bela de todas as estátuas. Infelizmente, nem ele, nem Michelângelo, a conheceram. Vênus Calipígia! Seus cabelos pretos brilham ao sol, deslizam-lhe pelas costas, espraiam-se-lhe pelos ombros. Seu busto, esplendoroso! Suas pernas, sublimes! Seu andar, suave. Ela caminhava sobre as nuvens. Trajava um longo vestido vermelho decotado, que lhe modelava o corpo bem feito. Dela não tirei os olhos até ela entrar em um carro de vidros escuros. Fugiram-me as palavras. Encantado com tão linda moça…

08 de janeiro. Pensando na linda moça que ontem me encantou, dormi. Sonhei com ela. No sonho, ela, vergando vestes diáfanas, passeava por um jardim edênico. Seu corpo esplendoroso brilhava, cegando-me, sempre que dela eu me aproximava. Na mesma hora em que, ontem, passei pela rua *, passei hoje. O meu propósito: cruzar o caminho da linda moça de vestido vermelho. Andei vagarosamente. Olhei, atentamente, de um lado para o outro, na esperança de vislumbrar a Vênus rediviva. Não a encontrei, para meu desgosto. Mas a encontrarei, se não hoje, amanhã, ou depois. Aquela moça celestial cuja beleza esplêndida transfigurou-se, aos meus olhos, num espectro divino… Olhei de um lado para o outro. Não encontrei a linda moça. Contrariado, exausto, regressei à minha casa, três horas depois. Ao me olhar ao espelho, deparei-me com um rosto irreconhecível, disforme, repulsivo.

09 de janeiro. Não consigo tirar de minha cabeça a imagem da linda moça de vestido vermelho. Pelo meu corpo correu indescritível sensação de prazer, à noite. Raras vezes senti tão prazerosa sensação! Na cama, virei-me de um lado para o outro. Acordado, imaginei fantasias lúbricas, concebi sensacionais aventuras amorosas com a linda moça cujo nome desconheço e cuja beleza fascinou-me.

15 de janeiro. Ao acordar, hoje de manhã, banhei-me, e fui à cozinha. Na prateleira, não havia pães; na geladeira, não havia leite. Peguei da carteira, a abri, vi que nela havia dinheiro, e fui ao supermercado. Não eram dez horas quando lá cheguei. Fazia muito calor. Para a minha felicidade, não havia muitas pessoas no supermercado. Ao passar por entre as estantes do setor com produtos de limpeza, vi, de relance, para minha surpresa e alegria, a linda moça, que, com uma cestinha pendurada à junta do cotovelo, olhava para os frascos de detergente. Meu coração vibrou, acelerado. Arregalei os olhos. Mordi o lábio inferior. Lambi o lábio superior. Fitei a linda moça. Estudei-lhe o porte. Embevecido, alumbrado, admirei-a, fascinado com tão deslumbrante beleza. Andei por aquele corredor, na direção da moça que há dias eu procurava. Ela trajava uma saia azul marinho translúcida, que lhe modelava as coxas e as nádegas estonteantes, e uma camisa branca decotada. Seus olhos, azuis; suas sobrancelhas, finas, acastanhadas, arqueadas; seus cílios, compridos; seus lábios, carnudos, escarlates; seus cabelos, compridíssimos, pretíssimos, volumosos, penteados para trás, emolduravam-lhe o rosto de traços perfeitos. Detive-me três metros à sua esquerda. Puxei da prateleira uma caixa de sabão em pó, cuja data de validade fingi procurar e cujo preço fingi avaliar. Devolvi a caixa de sabão em pó ao seu lugar de origem, e dei ou dois, ou três, passos na direção da linda moça. Eu dela distava uns dois metros quando ela se curvou para a frente, de frente para mim, exibiu-me o tesouro fabuloso que entrevi no decote, e, com a sedosa mão esquerda de dedos melindrosos adornados de unhas compridas de esmalte violeta, puxou os cabelos, que lhe haviam caído ao rosto, para trás, e acocorou-se. Meu coração vibrou, acelerado. Meu corpo pulsou de desejo. A linda moça, ignorando-me, puxou da prateleira um frasco de água sanitária, devolveu-o à prateleira, pouco depois, e retirou outro frasco de água sanitária o qual restituiu ao local de origem, e pousou a cestinha no chão, e de dentro da cestinha retirou uma tiara transparente, e ajeitou-a na cabeça, com a mão direita, enquanto ajeitava, com a mão esquerda, os cabelos para trás. Ato contínuo, ajeitou a saia, passando, suavemente, as mãos por ela, olhou para a prateleira, enquanto puxava, com a mão direita para cima, a alça direita da camisa, que lhe escorrera do ombro. Ela segurou as alças da cestinha, e ergueu-se. Desviei dela o olhar. Dois homens passaram pelo corredor, conversando; ao verem a linda moça, cessaram a conversa, e fitaram-na, maravilhados; passaram por ela, e voltaram-se para trás, e fitaram-na, devorando-a com os olhos. Enciumado, pensei em esmurrá-los. Que direito têm eles de olhar para moça tão linda, tão pura? Eles a enodoavam, ao admirá-la. Rilhei os dentes. Sujeitos atrevidos! Eles se afastaram, e retiraram-se daquele corredor, para sorte deles.

A linda moça, que ignorou os dois sujeitos repulsivos, andou até os frascos de sabão líquido. Andei na sua direção. Fingi interesse por detergentes, numa prateleira de um lado do corredor; ela, no outro lado do corredor, de costas para mim, distando de mim um pouco mais de um metro, curvou-se, e eu, involuntariamente, sem pensar no que fazia, agachei-me; acocorado, tirei da prateleira um frasco – do que, não sei – enquanto eu olhava, a ponto de perder a consciência, para a linda moça, cujas coxas eram estonteantes, e pude ver-lhe a parte inferior das nádegas. Senti-me desfalecer. O tempo parou. Suspendi a respiração. Eu iria me beliscar, para me despertar daquela realidade onírica. Era como se eu participasse de um conto de fadas, e interpretasse o papel do ogro, do monstro das profundezas do oceano, dos subterrâneos das montanhas, um habitante dos reinos infernais, à espreita, para me lançar sobre as fadas, as princesas, as dríades, as hamadríades, e a linda moça interpretasse a inocente, ingênua, bela, celestial, indefesa vítima dos meus caprichos hediondos, dos meus desejos lúbricos animalescos; ela era a princesa, que, expulsa, pela madrasta sórdida, repulsiva, de um castelo suntuoso, perambulava pela lúgubre floresta habitada por criaturas demoníacas, monstros asquerosos e ciclopes antropófagos. Contive-me. Não me lancei sobre a linda moça. Minha mente, entorpecida, inebriada, eliminou de meu cérebro a faculdade de pensar. Meu corpo não atendia aos meus desejos. Meus braços e mãos, minhas pernas e pés não me obedeciam.

Embora eu tenha admirado a beleza exuberante da linda moça durante uma fração de segundo, a sua imagem perpetuar-se-á, na minha mente, no meu espírito, na minha alma, pela eternidade. Ao pôr na cestinha um frasco de sabão líquido, ela se recompôs, e, de costas para mim, andou até o final do corredor. Despertei, quando ela, ao desaparecer atrás da prateleira, retirou-se do meu campo de visão.

Restitui à prateleira o frasco; levantei-me; passos acelerados, andei até o fim do corredor, receando perder de visa a linda moça. Eu a entrevi, de cabeça abaixada, no setor de doces, bolachas, chocolates, balas e chicletes, atrás de uma gorda desgraciosa que empurrava um carrinho-de-compras cheio de frascos, caixas e pacotes dos mais variados produtos. Desacelerei os passos. A linda moça andou por quatro setores – o de bebidas, o de produtos dietéticos, o de perfumaria e o de artigos para animais. Eu a segui, dela conservando distância de cinco metros.

Enfim, ela se dirigiu ao caixa. Acelerei os passos. Fui ao refrigerador, e peguei um litro de leite. Voltei-me. Olhei para o caixa. Na fila estava a linda moça. Ato contínuo, fui ao balcão da padaria, e pedi quatro pães à moça que me atendeu. No desejo de não perder de vista a linda moça, eu olhava, a cada dois segundos, para a fila na qual ela estava. Tão logo recebi o pacote com quatro pães, virei-me, e andei, a passos acelerados, até a fila na qual estava a linda moça. Duas mulheres, mãe e filha, entraram na fila, à minha frente. Pouco depois, a filha disse à mãe que haviam se esquecido de comprar açúcar e trigo, e ambas retiraram-se da fila. E me vi atrás da linda moça, inebriado com a fragrância sedutora que ela recendia e com a exuberância do seu talhe. O pacote com os quatro pães se me escapou das mãos. Agachei-me para pegá-lo, e olhei para as pernas esplendorosas da linda moça. Um homem fitou-me, e olhou para ela. Senti meu rosto ferver.

Uma lâmpada vermelha acendeu-se próximo da moça do caixa, e ouviu-se um apito estridente. A linda moça andou até a caixa, e ficou de frente para mim. Admirei-lhe, fascinado, o busto esplêndido. Ela curvou-se para pôr a cestinha, agora vazia, no chão, próximo de mim, e ofereceu-me aos olhos seus peitos fartos. A caixa passou as mercadorias pelo leitor de código de barras. A linda moça entregou-lhe uma nota de vinte reais, recebeu da caixa o troco, e andou um pouco para a frente. Ansioso, antes de a caixa premir um botão sob a caixa registradora, para acionar o apito estridente e acender a lâmpada vermelha, andei, e entreguei-lhe o pacote com os pães, e a caixa de leite. Ela os passou pelo leitor de código de barras. Paguei-lhe os R$ 3,25 que eu já havia separado.

A linda moça pegou as duas sacolinhas de plástico com os produtos que comprara, e retirou-se. Eu, rapidamente, pus o pacote com os pães, e a caixa de leite, numa sacolinha de plástico, e a segui, a certa distância. Ela se deteve, na esquina; esperou os carros e as motos passarem. Aproximei-me. Detive-me à sua direita. Começamos a travessia da rua.

Uma das sacolas que ela carregava rasgou-se nos fundos, e dela caíram um tablete de chocolate, uma lata de doce de leite, e um pacote de bolachas de maisena. Curvei-me, e peguei o tablete de chocolate, a lata de doce de leite e o pacote de bolachas. Ao erguer-me, eu os entreguei à linda moça, que me agradeceu. E ela andou até um carro prateado; para minha surpresa, pediu-me que eu segurasse os produtos. Eu a atendi, prontamente. Ela remexeu na bolsinha que trazia na mão, e dela tirou a chave do carro. Assim que abriu a porta do carro, pediu-me os produtos. Entreguei-lhos. Sorrindo, exibindo-me seus dentes brilhantes, agradeceu-me a ajuda, e despediu-se. Embasbacado, acompanhei-a entrar no carro, pôr a chave na ignição, e dar a partida. Andei, com as pernas bambas e o coração aos pinotes. Eu mal raciocinava. Dei-me um tapa na testa. Censurei-me: “Imbecil! Idiota! Por que você não perguntou o nome àquela beldade celestial? Imbecil! Tolo!”

Eu andava, cabisbaixo, quando ouvi buzina a estrondear. Olhei para a direção da qual chegaram-me as buzinadas. Ao meu lado, um carro prateado com o vidro abaixado. A linda moça, inclinada sobre o banco do carona, chamava-me. Curvei-me para poder vê-la. Sorri. Ela sorriu. Disse-me que iria ao bairro *, onde mora, e perguntou-me para onde eu iria. Eu lhe disse que moro no mesmo bairro. Ela me disse a rua em que se localiza a sua casa. Eu lhe dei a localização da minha casa – na verdade o endereço da casa de um amigo meu -, uns duzentos metros adiante. Ela me perguntou se eu desejava uma carona. Eu, controlando a ansiedade e a excitação que me atormentavam, agradeci, e disse-lhe que aceitaria a carona, se não fosse inconveniência aceitá-la. Ela me disse para entrar no carro. Não me fiz de rogado. Entrei no carro, e sentei-me no banco, um pouco sem jeito.

Ela dirigia bem. Para ser sincero, não posso avaliar a sua destreza ao volante – não atentei para isso. Eu dela admirava a beleza. Ela disse que sentia muito calor. Eu lhe disse que hoje, durante o dia, faria mais calor do que o calor de todos os outros dias do ano, até hoje. Ela me disse que, talvez, fosse ao litoral. Imaginei-a, na praia, de biquíni fio-dental, banhando-se ao sol. Em certo momento, ela puxou, com a mão direita, a alça do sutiã e a alça da camisa para cima, pôs a mão esquerda sob o peito direito, e empurrou-o para cima. Agiu com naturalidade, como se eu não estivesse ao seu lado.

Viramos uma esquina, e outra, e outra, e seguimos por uma rua sinuosa. Ao contornarmos à direita, e, em seguida, à esquerda, e à esquerda, chegamos à rua da sua casa. Com um controle, ela acionou o portão eletrônico da casa. Eu lhe disse que iria embora, agradeci-lhe pela carona, e sai do carro, mas não fui embora. Esperei a linda moça guardar o carro na garagem. Ela saiu do carro, e acenou para mim, pedindo-me que eu a esperasse. Esperei-a. Ela carregou a sacolinha de plástico com os produtos que comprara no supermercado até uma mesinha, no jardim, e andou, suavemente, em minha direção. Eu a admirava, embevecido. Ela, próxima do portão, curvou-se para a frente, e do chão apanhou um envelope. Arregalei os olhos, diante daquela esplendorosa maravilha que o decote revelou-me. Ao erguer-se, ela avaliou o envelope, e disse-me tratar-se de uma propaganda de uma empresa que ela detesta. Ao encerrar os comentários, sorrindo, perguntou-me qual é o meu nome. Disse-lho: Roberto. E ela me disse o dela: Júlia.

Conversamos durante um bom tempo. Para encerrar a conversa, ela me disse que teria de desincumbir-se de algumas tarefas.

Despedimo-nos.

Andei mais de cinco quilômetros até a minha casa.

29 de janeiro – Passei de bicicleta em frente à casa da Júlia.

Júlia, de short branco com estampas de flores vermelhas e amarelas, e uma camisa branca sem estampas, empunhando uma mangueira de borracha, espirrava água no chão da varanda. Detive-me. Atravessei a rua. Júlia olhou para mim. Sorriu. Ela, curvada para a frente, fechou a torneira. Admirei-lhe, maravilhado, os peitos cobertos por uma película. Júlia abriu a porta. Conversamos durante alguns minutos. Enfim, eu lhe disse que iria embora, que a visitaria em momento apropriado. Ela me pediu que não me fosse. E eu lhe disse que, para não ser inconveniente, eu a ajudaria a lavar a varanda. Ela aceitou a minha oferta de ajuda, e à varanda ofereceu-me acesso.

Enquanto lavávamos a varanda, conversávamos, animadamente.

Eu não sabia o que admirar na Júlia, mulher tão pródiga de atrativos! De repente, ouvimos um barulho. Era a mãe da Júlia, Lúcia, que chegava. Ela abriu a porta, saudou a filha, e cumprimentou-me. Aí eu soube de quem Júlia herdou a estonteante beleza. Mulher de uns quarenta anos, Lúcia está muito bem conservada, e é muito atraente. Linda, como a filha. Ela entrou na casa, após pedir licença para mim e para Júlia.

Encerrada a limpeza da varanda, Júlia convidou-me para um café. Não me fiz de rogado. Eu, ela e Lúcia conversamos durante muitas horas. Retirei-me antes de o sol se pôr. À porta, eu e Júlia cruzamos o caminho de Pedro, seu pai, homem tímido e simpático, que me saudou, sorridente. Dele Júlia herdou o sorriso espontâneo e os gestos suaves. Ele nos disse que estava com pressa, pois tinha de se arrumar para comparecer à uma reunião dali uma hora. Pediu-me compreensão, lamentou não poder conversar comigo por mais alguns minutos, e disse-me que, em outra ocasião, conversaríamos e conhecer-nos-íamos melhor, e entrou na casa. Simpatizei-me com ele. Educado, polido, de poucas palavras, cativou-me. Júlia e eu nos entreolhamos. Ela me disse que seu pai era um estudioso incansável, profissional rigoroso, trabalhador infatigável. Perguntei-lhe qual a profissão dele. Arquiteto, disse-me Júlia, que me perguntou, sorrindo, como se soubesse a resposta que eu lhe daria, qual era o prédio desta cidade cujo desenho arquitetônico mais me atrai a atenção. Eu lho disse. E Júlia, sorrindo, perguntou-me: “E tu, Roberto, sabes de quem é a assinatura do desenho arquitetônico?” Sorri, fitei-a. Seus olhos irradiavam felicidade. Seu sorriso transparecia orgulho. “Eu sempre me perguntei quem desenhou aquele prédio”, eu lhe disse. “Nunca imaginei que um dia o conheceria, tampouco que um dia eu conheceria a filha dele”. Júlia não cabia em si de felicidade. Seu sorriso ia de orelha à orelha. Exibia-me duas fileiras de dentes branquíssimos. Eu lhe ia perguntar o que ela faria à noite, mas a voz não me saiu nítida. Júlia, com um gracioso movimento das sobrancelhas, indicou-me que não me ouvira. Sorri. Levei, involuntariamente, a mão direita ao pescoço, como que para desentravar as palavras. Desviei o olhar. Pouco depois, eu, certo de que recuperara o governo dos meus pensamentos e da minha voz, fitei-a, para lhe falar, mas emudeci ao deparar-me com aquele sorriso gracioso. Ela me perguntou o que eu lhe desejava falar. Eu lhe disse que me faltava voz. Ela não suprimiu do rosto o sorriso, que me enfeitiçou, e perguntou-me, zombeteiramente graciosa: “Se te falta voz, como me disseste que te falta voz?” Encabulado, num tom de voz tímido – intimidado, eu diria – perguntei-lhe se ela iria ficar na casa dela, naquela noite, ou se iria sair com seu pai e sua mãe, ou com amigos e amigas. Ela me disse que não iria a nenhum lugar, naquela noite; aliás, ela me disse que não pretendia sair da sua casa, nem com seu pai, nem com sua mãe, nem com amigos e amigas, porque não tinha para onde ir – e deu-me a entender que, se alguém a convidasse para ir ou ao cinema, ou à pizzaria, ou ao restaurante, ela aceitaria o convite. Sorri. Perguntei-lhe se ela desejava ir ao cinema. Ela me perguntou quais filmes estão em cartaz. Eu lhos disse: Um filme de ação; um de terror; uma comédia romântica; dois filmes de aventuras; e um filme brasileiro. Ela aceitou o convite. De imediato, excluiu da lista o filme brasileiro, o de terror e a comédia romântica. Indecisa, não sabia se escolheria ou o de ação, ou um dos de aventuras. Eu lhe disse que o de ação, segundo comentários de amigos e de críticos de cinema, era péssimo, e eu não perderia o meu tempo assistindo-o, e tampouco desperdiçaria o meu dinheiro, e um dos filmes de aventura, misto de ficção científica e espionagem, era ótimo, e a respeito dele nenhum comentário negativo eu ouvira, apenas ressalvas quanto aos efeitos especiais e à interpretação de dois atores, aquém do exigido para um filme com aquela produção. Do outro filme – uma aventura com toques de comédia -, eu soubera que era uma aventura hilária de uma trupe atrapalhada, repleta de cenas de ação irrealizáveis em cenários fantásticos. Júlia disse-me que Samantha e Raquel, suas amigas, haviam assistido a este filme, e o elogiaram. Então, decidimos: iríamos assisti-lo. Combinamos a hora do encontro. Eu iria à sua casa, às dezenove horas. Assistiríamos ao filme da sessão das vinte horas. E despedimo-nos.

Eram dezenove horas e dez minutos quando premi a campainha da casa da Júlia. Ninguém atendeu à porta. Premi a campainha uma vez mais. Não transcorreu um minuto, Júlia apareceu na varanda. Ela trajava saia preta comprida e camisa multicolorida com decote discreto. Estava com os cabelos soltos. Seus lábios, realçados com batom vermelho framboesa. Nas orelhas, trazia brincos dourados de motivos angelicais. Eu a elogiei. Ela, envaidecida, fez um muxoxo, disse que sou bobo, e deu-me um tapa carinhoso no ombro. Entramos no carro. Rumamos para o cinema. O filme superou as nossas expectativas. Os atores, ótimos; o figurino, impecável; os efeitos especiais, primorosos; os personagens, cativantes; o roteiro, bem escrito; o desenrolar da história, no ritmo adequado, com cenas de ação espetaculares entremeadas de cenas cômicas irresistíveis, diálogos inteligentes e engraçadíssimos. Ao encerramento do filme, na lanchonete, enquanto comíamos, Júlia, um bauru, e eu, um beirute, e bebíamos, eu, refrigerante de uva, e Júlia, refrigerante de guaraná, conversavamos a respeito do filme. Elegemos a melhor personagem, a cena mais engraçada, a mais emocionante, a mais tensa. Não chegamos a um consenso. Satisfeitos com a refeição, retiramo-nos da lanchonete, e fomos à casa da Júlia. Despedimo-nos com um beijo no rosto. Ela abriu a porta, e entrou. Trancou-a por dentro, mandou-me um beijo com a mão direita, e virou-me às costas; na varanda, voltou-se para mim, sorriu, acenou, e entrou na casa. Suspirei. Enfiei as mãos nos bolsos da calça. Permaneci, imóvel, na frente da casa da Júlia. Rememorei o passeio, até que, enfim, andei até o carro, e vim pra casa.

15 de março – Enfim, eu e Júlia nos estreitamos num abraço caloroso. Unimos os lábios. Nossas línguas dançaram, lúbricas. Senti o calor do belo e irresistível corpo de Júlia. Passeei minhas mãos pelo seu belo corpo, e as desci pelo seu traseiro. Ela as ergueu. Ao sentir minha mão direita sobre seu peito esquerdo, ela dele a removeu, afastou-me de si, e disse-me: “Acalme-se, Roberto. Vamos com calma.” Sorri. Pedi-lhe desculpas. Disse-lhe que eu não pretendia desrespeitá-la. Ela aceitou os pedidos de desculpas.

22 de abril – Diante da minha insistência irrefreável, Júlia disse-me, sem meias palavras, num tom firme, que me inibiu (enquanto ela me falava, esbocei um sorriso; e ela me fitou com olhar severo; e suprimi, de imediato, o sorriso do rosto, e pedi-lhe desculpas), que iria se resguardar para o casamento; que as minhas investidas não surtiriam os efeitos que eu desejava, e exigiu-me respeito e compreensão. Confesso: Fiquei contrariado. Respeitei-a, todavia. Não desejo ferir-lhe suscetibilidades. Desejo a Júlia, com todo o ardor de meu corpo e de meu espírito.

07 de junho – Nos casamos, eu e Júlia, na Igreja Nossa Senhora de Aparecida.

09 de junho – A lua de mel, maravilhosa, apesar do início tenso. Eu e Júlia nos entendemos maravilhosamente bem. Desfrutamos de prazer inexprimível. Que corpo lindo, o da Júlia! Pródigo de encantos. Júlia, recatada, não admitiu participar das minhas fantasias lúbricas. Ficou horrorizada ao ouvir-me descrever as mais ousadas. Perguntou-me como pode haver pessoas, se há – ela duvidou do que eu lhe disse -, que fazem o que lhe propus. Repudiou as minhas propostas. Não insisti.

17 de outubro – De recatada e resguardada, que desejava conservar-se pura para o enlace matrimonial, Júlia tornou-se uma ninfomaníaca insaciável. Chego na nossa casa, e Júlia, voluptuosa, insinuante, provoca-me; com desenvoltura de uma felina, pula em cima de mim, agarra-me, desembaraça-me das roupas, e desembaraça-se das roupas (caso esteja vestida). E nos saciamos um com o corpo do outro. Deleitamo-nos até nos saciarmos, todos os dias.

22 de outubro – Minhas mãos lascivas avaliaram o corpo da Júlia, enquanto ela sonhava com os anjos.

29 de outubro – Durante o sexo, Júlia geme, sussurra palavras excitantes e obscenidades. Seu corpo é muito flexível. Ela se põe nas posições mais extravagantes, mais bizarras.

07 de novembro – Não posso acompanhar o ritmo da Júlia. Ela é insaciável. Para atenuar a tensão que a consome, e para não se privar da sua vontade, ela aplaca o desejo com brinquedinhos que comprou, sem o meu consentimento, em um sex-shop. Ela me disse, enraivecida, hoje, ao entardecer, durante uma discussão: “Tu não me satisfaz!” Berrou-me, fora de si: “Quero um homem!”. E deu-me um tapa, que suportei, resignado. Ela era tão doce! Tão meiga! O que se passa com ela? Uma metamorfose inexplicável, surpreendente! Seu corpo me atrai, agrada-me, mas a Júlia por quem me apaixonei, atraído pelo seu corpo esplêndido… O que está acontecendo com ela? Ouvi muitas ofensas. Júlia humilhou-me, nestes últimos dias.

12 de novembro – Júlia conversava, animadamente, com o Carlos, tocava-o nos braços, e gargalhava, hoje à tarde. Abordei-os. Carlos despediu-se de nós, e retirou-se. Em casa, eu e Júlia discutimos. Encerramos a discussão, de costas um para o outro.

20 de novembro – Surpreendi Júlia saciando-se com um brinquedinho fálico movido à pilha.

27 de novembro – Eu e Júlia tivemos um ótimo dia. Nos amamos três vezes. Nos reconciliamos da briga de ontem, quando dormi no sofá da sala.

04 de dezembro – Ciúme corrói-me a alma. Júlia almoçou com o Lúcio. Eu e Júlia discutimos. Brigamos. Nos reconciliamos, na cama.

14 de dezembro – Júlia, indiscreta, revelou a nossa intimidade para a Carla, sua amiga, que espalhou a notícia, dada por Júlia, de que não me encontro sempre disponível. Ouvi insinuações maldosas. Mateus, rindo, zombeteiro, perguntou-me se eu precisava de ajuda, na minha casa, e ofereceu-se para se encarregar das tarefas domésticas as quais Júlia exigia-me mas eu não as conseguia cumprir adequadamente. Se as tarefas, perguntou-me Mateus, me eram demasiadas, ele, disse-me, com sorriso escarninho estampado no rosto, encarregar-se-ia, e de muito boa-vontade, e sem remuneração, de uma parte delas, aliviando-me de tão exaustivo encargo. Esmaguei seu nariz com um soco. Se não me segurassem, não sei o que eu faria com ele. Matá-lo-ia com uma cadeira, ou com uma faca. Fatiá-lo-ia, e jogaria as fatias para os cães vadios que infestam a cidade.

02 de janeiro de 2…. – Segui a Júlia. Nada de comprometedor. Outra discussão. Ela me deu um tapa. Revidei.

07 de janeiro – Eu e Júlia nos reconciliamos, após dias durante os quais nem sequer nos olhamos um nos olhos do outro. Nos expandimos em excitantes modalidades sexuais. A imaginação, excitada pelo desejo, impeliu-nos a deixar o pudor de lado, e a extravasarmos. Uma das melhores noites que eu e Júlia passamos juntos. Realizei todas as minhas fantasias; e a Júlia, as dela. E como ela é criativa…

16 de janeiro – Ouvi comentários depreciativos sobre a reputação da Júlia. Perturbado, imaginei-a nos braços de Mateus, nos de Carlos, nos de Lúcio, nos de todos os homens.

22 de janeiro – Eu e Júlia passeamos pelo parque. Ela, com roupa provocante, atraía a atenção de todos os homens. Meu sangue ferveu ao deparar-me com um homem que, atrevido, encarava-a, lambia os beiços e babava de desejo. O seu olhar, tão lúbrico! A sua postura, tão lasciva! Pensei ter ouvido os seus pensamentos. Fui até ele, e o esmurrei. Rolamos pelo chão aos socos e pontapés. Ambos fomos conduzidos à delegacia. Na nossa casa, eu e Júlia discutimos durante duas horas. Ela me disse que não me aturaria mais, e iria embora. Retive-a. Disse-lhe que ela não podia ir-se embora, falei-lhe do meu medo de perdê-la, de ser privado da sua companhia. Eu a atraí, com voz suave, macia, arrependido. Dormimos, eu, na sala, ela, no quarto.

15 de fevereiro – Agredi a Júlia. Ela revidou. Rasguei a sua camisola. Júlia arranhou-me. Eu a quis possuir à força. Se era homem forte que Júlia desejava, ela me teria. “É um homem forte que você quer, Júlia? Eu sou o seu homem forte.” Agarrei-a pelos braços. Ela tentou se desvencilhar. Empurrei-a sobre a cama. Ela me deu pontapés, arranhou-me, deu-me tapas, em vão. Arranquei-lhe a camisola. Possuí Júlia à força. Eu a submeti à minha vontade. Ela gritou de dor. Com as mãos, abafei-lhe os berros. Ao recompor-se, ela ameaçou ir-se embora. Arrependido, pedi-lhe perdão. Ela não quis ouvir-me, e retirou-se. Cai no chão do corredor, encolhido, e chorei, sinceramente arrependido. Dormi. Despertei, hoje, na cama. Como fui até lá?

21 de fevereiro – Não posso viver sem a Júlia. Telefonei-lhe, todos os dias. Ela não retornou as ligações. Abordei-a, nas ruas, nas lojas, em todo lugar. Eu soube que o Mateus deseja namorar com ela. Pressionei-o contra a parede, e encostei-lhe o cano de um revólver na têmpora. “A Júlia é minha!”, eu lhe disse, “Atreva-se a encostar um dedo nela, que estourarei os seus miolos. Afaste-se dela! Afaste-se dela!”. Mateus obedeceu-me. Depois, ameacei o Carlos. Ele não me obedeceu.

08 de março – Matei o Carlos. Dois tiros, um entre os olhos, outro no peito esquerdo.

09 de março – Fui ao enterro do Carlos. A Júlia chorava aos cântaros. Ela me viu, e fingiu não me ver. À primeira oportunidade, aproximei-me dela. Abri os braços, para abraçá-la. Ela recuou, de frente para mim; ao afastar-se uns quatro metros, virou-se nos calcanhares, e correu.

22 de março – Encontrei-me com a Júlia. Abordei-a. Eu lhe disse que desejava me reconciliar com ela. Ela me pediu que eu me fosse embora. Não me movi. Ela me perguntou se eu sabia quem matou o Carlos. Fulminei-a com os olhos. Ela tremeu, aterrorizada. Empalideceu. Seus lábios, trêmulos. De seus olhos escorreram lágrimas em abundância.

09 de abril – Minha! A Júlia é minha. Minha! Ninguém mais a terá! Ninguém! Ela me pertence! Seu corpo me pertence! É meu! Meu! Pertence-me! Seu corpo existe para a satisfação dos meus desejos! Seu corpo é meu! Eu o terei sempre que o desejar! É meu! O corpo da Júlia é meu! Eu o adoro! Adoro a Júlia! A Júlia é a única mulher que adoro! Devoto-lhe minha vida! O corpo da Júlia é meu! Pertence-me! Só eu tenho a posse do corpo dela! Só eu! Eu! Eu!

A travessia

Era uma segunda-feira do mês de fevereiro. E na loja de materiais de construções Moreira & Moreira, José Luiz desincumbiu-se das suas tarefas não sem dificuldades; para o exercício de algumas delas não pôde dispensar o auxílio de outros funcionários.

Não foi um dia de trabalho muito proveitoso. O proprietário da loja, Roberto Moreira, nervoso – raros, nele, o nervosismo e, dizia José Luiz, a brabeza -, distribuiu broncas para todos os funcionários. Muitos dentre eles desejavam que ele os esquecesse, ou que deles não se lembrasse, mas ele conhecia-os todos, chamava-os pelos nomes, e sabia qual era a função de cada um deles. Os funcionários perguntavam-se a razão do nervosismo, da braveza, da rudeza no trato, da sequidão da voz, que não admitia réplicas, do olhar compenetrado, da fisionomia carregada, rígida, pétrea, de Roberto Moreira. Aventaram inúmeras hipóteses; algumas, sérias; outras, jocosas; raras as maledicentes – estas as aventaram os desafetos de Roberto Moreira, os que o detestavam. José Luiz, que conhecia Marcelo, um dos filhos de Roberto Moreira, soubera, contou-lhe Marcelo, que, no domingo, Cláudia, tia dele, irmã de Roberto, fora atropelada, e essa seria, estava certo, declarou José Luiz, a razão da brabeza do chefe, como a Roberto Moreira referiam-se os funcionários da Moreira & Moreira. Discordou Amauri, que, conhecedor da história do atropelamento de Cláudia, disse que ela passava bem, dissera-lhe Vinicius, marido dela. A razão da postura taciturna e carrancuda de Roberto Moreira e da sua rudeza no trato devia-se, portanto, a outro motivo, que não o aventado por José Luiz.

O trabalho, desgastante. Foi um dia incomum. José Luiz não se recordava de, em outro dia, desde que começou a trabalhar naquela loja, um ano e sete meses antes, haver tantos clientes a comprar materiais de construções. Desdobrou-se para executar todas as tarefas para as quais o encarregavam. Desgastou-se de manhã, durante quatro horas ininterruptas de trabalho, sob sol inclemente – atenuou o desgaste com um copo de água a cada hora. No momento em que cessou o seu trabalho, para almoçar de uma marmita e de um copo de refrigerante que a loja forneceu-lhe, suava, em bicas, a camisa encharcada de suor. Ele dela despiu-se, e abandonou-a sobre os tijolos, para secá-la. A marmita continha uma boa porção de arroz e feijão, bife e batatas, verduras e legumes. Era um almoço reforçado. Encerrado o almoço, José Luiz deitou-se sob um caminhão, e puxou uma palha durante vinte minutos – a soneca foi-lhe salutar. Levantou-se. À pia próxima do monte de areia lavou o rosto, para despertar de vez; vestiu a camisa, e tornou ao batente.

No período da tarde, o trabalho foi mais estafante do que no período da manhã. O sol exauriu-lhe as forças. Se José Luiz não fosse dotado de vontade férrea, músculos resistentes e organismo apropriado para as tarefas que lhe exigia Roberto Moreira, sucumbiria ao esforço. Desempenhava as suas incumbências com desenvoltura; ao final de um dia de expediente a carregar tijolos, vigas, telhas, areia, pedras, sem cessar, ia para a sua casa, banhava-se, degustava de alguns minutos na companhia de Camila, sua esposa, grávida de seis meses, e Paulo Renato, seu filho, menino de dois anos, que, diziam os familiares e os amigos, tinha a cara da mãe e o focinho do pai; e antes das dezenove horas, rumava para a Escola Técnica Nikola Tesla, para assistir às aulas do curso de eletroeletrônica; e regressava à sua casa as onze horas e trinta minutos da noite. E acordava, na manhã seguinte, as cinco horas.

Naquela segunda-feira de fevereiro, José Luiz desgastou-se além do habitual, e, uma hora antes de encerrado o expediente, acreditava, não conseguiria prosseguir com o trabalho até dali uma hora, ao crepúsculo, às dezoito horas, mas agüentou o tranco, disse, assim que se retirou da loja, exausto, mas em pé, e disposto a enfrentar quatro horas de aula, na Escola Técnica Nikola Tesla. Despediu-se dos seus colegas de trabalho. Na companhia de Gustavo, o Gordo, de Maurício, o Pernambuco, de Nelson, o Lagarto, e de Daniel, o Dejota, foi até o cruzamento das ruas José de Anchieta e Dom João VI, onde deles despediu-se, e seguiu, só, rumo à sua casa, distante da loja três quilômetros. Intensificava-se o trânsito. Veículos iam e veículos vinham, rápidos, apressados os motoristas, ou José Luiz tinha a sensação de que todos eles estavam apressados, e também os ciclistas, e os pedestres, menos ele, que seguia no ritmo habitual. E um caminhão a descarregar fumaça apretejada obrigou José Luiz a tampar o nariz com os dedos indicador e polegar da mão esquerda, prender a respiração, cerrar as pálpebras, e mover a cabeça para o lado oposto ao pelo qual passou o caminhão. Em pensamento praguejou José Luiz, e desacelerou os passos. Segundos depois, recomposto, retomou o seu passo na velocidade que lhe era habitual, para, logo em seguida, cobrir os olhos com a mão esquerda em pala, protegendo-os do reflexo dos raios solares, que lhos feriam, no vidro posterior de um carro estacionado poucos metros à sua frente. Ao passar pelo carro, abaixou o braço. Contornou a esquina à direita, e seguiu por cem metros; deteve-se em frente da casa lotérica, e preparou-se, sobre a calçada, parado, a olhar de um lado para o outro, aguardando os carros passarem, para atravessar a rua. Era a hora do rush. Passou um carro. E outro carro. E uma caminhonete. E outro carro. E uma moto. E outra moto. E um caminhão. E um carro. E outro carro. Todos iam no sentido bairro-centro – enquanto, na pista contrária nenhum veículo passava. Assim que viu que na faixa sentido bairro-centro apenas um veículo, um carro, aproximava-se, José Luiz pôs o pé esquerdo na rua, e logo da rua o retirou assim que viu uma fileira de carros se lhe aproximando no sentido centro-bairro, em velocidade considerável – setenta quilômetros por hora, mensurou José Luiz. Um carro passou por ele. Vermelho. E outro carro passou por ele. Prateado. E outro carro prateado. E outro carro prateado. E passou por ele uma caminhonete. E outra caminhonete. E três motos – a primeira, preta; a segunda, azul; e verde, a terceira. E outro carro. Alaranjado. E aproximaram-se dele duas motos, ambas pretas, e atrás delas nenhum veículo. José Luiz desceu o pé esquerdo na rua, e olhou para à sua esquerda, para a faixa sentido bairro-centro, e viu próximo de si, e deslocando-se rapidamente, uma fileira de veículos, e recuou o pé esquerdo, e afastou-se do paralelepípedo à aproximação de um caminhão branco, imenso, que, pareceu-lhe, iria engoli-lo. O caminhão passou por ele, e seguiam-no, como que atraídos pela sua força gravitacional, dezenas de veículos, entre carros e motos. E agora as duas faixas da rua estavam tomadas por veículos. E José Luiz resmungou, e esbravejou, discretamente. Pressionou as mandíbulas uma contra a outra, e cerrou o punho esquerdo, dobrando o cotovelo, como que ameaçando esmurrar alguém, e executou gestos involuntários que dele revelavam a irritação. Olhou de um lado para o outro. E viu carros e mais carros, caminhões e mais caminhões. E ônibus. E caminhonetes, e mais caminhonetes. E motos, muitas motos. E um tanque-de-guerra, que rumava, acreditava José Luiz, do Batalhão Borba Gato para o Batalhão de Engenharia e Combate. E a terra tremeu-lhe sob os pés à passagem do encouraçado, um rinoceronte de metal, como aos tanques-de-guerra referiam-se José Luiz e os soldados que com ele conviveram durante um ano de serviço militar – conquanto a conscrição fosse obrigatória, José Luis e muitos outros recrutas alistaram-se por vontade própria, no desejo, sincero, de prestar uma contribuição ao Brasil, e sacrificar-se pelo país, se necessário.

Há mais de cinco minutos parado na calçada, José Luiz, preparado para atravessar a rua, sempre que nela punha um pé, certo de que poderia atravessá-la, veículos aproximavam-se dele, em alta velocidade, e até bicicletas, de todas as direções, impedindo-o de atravessá-la, irritando-o. Cerrava os punhos, tensionava todos os músculos do corpo, abria os braços num gesto de impaciência. Em certo momento, os veículos como que havendo desaparecidos por encanto, preparou-se José Luiz para atravessar a rua; desceu o pé esquerdo na rua; e ao pôr, nela, o pé direito, ouviu uma buzina, e recuou. Era a buzina de uma cadeira-de-rodas motorizada. Pilotava-a Tião Pé-de-Cabra, encastelado no assento de couro, e um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça achatada, e cujas sobrancelhas – de coruja, diziam – de tão espessas podiam ser entrevistas a um quilômetro de distância.

– Tarde, seu menino – Tião Pé-de-Cabra saudou José Luiz. – Mande um abraço meu para o senhor vosso pai, o velho Moreno, e acenda uma vela pela alma de vosso avô, o velho Marcondes – e seguiu o seu caminho, sem se deter.

José Luiz acenou-lhe, e prometeu-lhe dar o recado para o destinatário dele e acender a vela.

E sorriu José Luiz, atenuada a sua irritação, e relaxados seus músculos. E abanou a cabeça. E olhou de um lado para o outro. Carros, motos, caminhonetes, caminhões e ônibus passavam, em ambos os sentidos da rua. Mordeu José Luiz a língua, para não amaldiçoar Tião Pé-de-Cabra.

José Luiz, pouco tempo depois, certo de que nenhum carro aproximava-se de si, olhou para a direita, e, ao pôr o pé esquerdo na rua, viu, para a sua surpresa, um carro, em alta velocidade, indo em sua direção, e recuou, para a calçada, abrindo os braços, as mãos espalmadas, e as bateu nas coxas, com força, ao mesmo tempo que proferiu uma obscenidade. Contrariado, esperou o carro passar, após o qual passaram duas motos e um ônibus. Quando da sua direita nenhum carro ia em sua direção, olhou para a esquerda, pôs um dos pés na rua, preparou-se para atravessá-la, e recuou ao ver um carro a aproximar-se de si.

Impacientava-se José Luiz. Levantava os braços, irritado, todas as vezes que lhe frustravam a tentativa de atravessar a rua. Irritava-se. Executava movimentos bruscos com os braços, e, as mãos espalmadas, batia-as, enraivecido, nas coxas. E evocava a figura inconfundível de Tião Pé-de-Cabra e a sua cadeira-de-rodas, e o amaldiçoava. Antes não tivesse recuado à calçada quando ele buzinou. Parecia-lhe a ele, José Luiz, que, transcorrendo o tempo, mais difícil tornava-se atravessar a rua. Da direita e da esquerda iam os veículos, dezenas deles. Não havia intervalo de tempo entre dois veículos que lhe permitisse atravessar a rua. José Luiz punha um pé, ou os dois pés, na rua, certo de que poderia atravessá-la, e recuava, logo em seguida, ao ouvir o soar de uma buzina, ou um grito, e tornava à calçada, irritado, contrariado.

E passavam-se os minutos. E José Luiz consultava o relógio no mostrador do telefone celular. E praguejava. Se não atravessasse, e logo, a rua, se atrasaria para as aulas do curso de eletroeletrônica.

Sob o sol, que já ia se pondo, José Luiz viu, há cinquenta metros de distância, na mesma calçada, da sua direita, indo em sua direção, um homem, que – José Luiz concluiu ao atentar para os gestos e os passos dele, vacilantes – estava bêbado. O homem, tipo acaboclado, baixo, troncudo, barrigudo, as pálpebras semi-cerradas, de roupas amarfanhadas, imundas, cabelos desgrenhados, barba por fazer, olhos avermelhados, fundos, órbitas dos olhos apretejadas, pés embrulhados em sapatos surrados – o esquerdo com uma falha que lhe deixava expostos três dedos -, a coçar, incessantemente, a cabeça, andava trançando as pernas e arrastando-se pelas paredes, e ora detinha-se, perdido, a olhar de um lado para o outro, e para o céu, e para o chão à sua frente, e quase ia ao chão; para surpresa de todas as pessoas que assistiam a espetáculo tão deplorável, antecipando, em pensamento, a queda do ébrio, e preparando a gargalhada, que explodiria tão logo ele desse com o nariz no chão, ele não caia, indo contra todas as leis da natureza; conservou-se ele, contra todos os prognósticos, em pé, tão firme quanto um prego fincado na areia – incrédulos, os curiosos não acreditavam que ele conseguia em pé manter-se por muito tempo. E ele não caia, para frustração daqueles que o acompanhavam com os olhos. Ele perdia o equilíbrio, mas não caia. Tinha-se a impressão de que ele cairia, mas ele não caía; ora ele encostava-se à parede de alguma casa, para manter-se em pé; ora ele detinha-se, e, não se sabe como, dava um passo, ou para a frente, ou para trás, ou para a direita, ou para a esquerda, e conservava-se em pé. O seu estado, deplorável. José Luiz lamentava-o. O bêbado ia em direção de José Luiz. Resmungou qualquer coisa ao perder o equilíbrio, e bater com a cabeça na parede. No outro lado da rua, dois garotos, ambos de bicicleta, cada um deles em uma bicicleta, gritaram-lhe, provocando-o. Conheciam-no. E ele esbravejou. Proferiu maldições e obscenidades de ruborizar até o diabo. Incompreensível o que ele disse assim que abaixou o tom de voz. Engrolava as palavras. José Luiz dividia a sua atenção entre o trânsito e o bêbado, esperando que ele de si não se aproximasse. José Luiz detestava bêbados. Os bêbados irritavam-no; havia um alcoólatra na sua família, seu tio, Mauro, irmão de seu pai. Mauro, sóbrio, era gentil, amigável, bem-humorado, espirituoso, cativante; ébrio, era indiscreto, inconveniente, inconsequente, e dele José Luiz não se aproximava; evitava-o; dele fugia como o diabo foge da cruz.

O bêbado não foi até José Luiz, como que lhe atendendo as preces. Deteve-se, de repente, próximo do paralelepípedo, para alívio de José Luiz, a trinta metros de distância dele, e com gestos de mãos caóticos, alheio à realidade, acenou para os motoristas dos veículos que passavam pela rua, e na rua desceu, quase vindo a cair – para surpresa de todos, conservou-se em pé -, e, passo após passo, empreendia a travessia da rua. José Luiz anteviu o atropelamento. Algum veículo atropelaria o bêbado. Para a surpresa de José Luiz, os carros, as motos, os caminhões, as caminhonetes, os ônibus, ou paravam, e deixavam o bêbado passar, ou desviavam-se dele. E ele, com passos incertos, indo e vindo, dois passos para a frente, mas não em linha reta, e um passo para trás, seguia rumo à calçada oposta à da qual partira. E os carros, e as motos, e os caminhões, e os outros veículos, e um tanque-de-guerra, que seguia, do Batalhão de Engenharia e Combate para o Batalhão Borba Gato, e Tião Pé-de-Cabra, a cederem-lhe passagem. E o bêbado, enfim, chegou, são e salvo, ao outro lado da rua.

José Luiz, boquiaberto e queixocaído, olhos arregalados, dedos a coçarem-lhe a cabeça, perguntava-se… Na verdade, incrédulo, nenhuma pergunta se fazia; limitava-se a fitar o bêbado, que, no outro lado da rua, rumava… Para onde? E José Luiz, na calçada, a querer atravessar a rua. Pensou em simular embriaguez. Afugentou de si tal pensamento. Sóbrio, não poderia ignorar o perigo que os veículos representavam-lhe. E o bêbado, no outro lado da rua; e José Luiz, irritado, vendo passarem diante de seus olhos carros, motos, ônibus, caminhonetes, bicicletas e caminhões. E um tanque-de-guerra. E Tião Pé-de-Cabra.

O tiro

Testemunhei, ontem, ao entardecer, um dos mais horrendos espetáculos que a vida poderia me proporcionar. Indescritível. Inenarrável. Inominável. Não encontro as palavras adequadas para dar a dimensão das profundas impressões que o evento me deixou no espírito de homem pacato que nunca testemunhara cena tão horripilante e que não deseja testemunhar outra igual. Digo, na ausência de uma expressão que traduza melhor os meus sentimentos: carregarei para o túmulo imagens, tão impactantes, que dissolveram meu espírito. Eu gostaria de jamais haver testemunhado tão… Como eu direi? Estranho? Inusitado? Grotesco? Horripilante? Nenhum desses adjetivos dá a dimensão do que testemunhei. Eu gostaria de poder me expressar com palavras que reproduzissem com exatidão as impressões que o evento me gravou na memória, no espírito, na alma.

Por que não intervi… O que eu, assustado, impressionado, estupefato, poderia fazer? Não sou clarividente. Eu não sabia como o evento se desenrolaria, e tampouco como se encerraria. Encerramento tão… Inusitado? Imprevisível? Absurdo? Eu, um observador petrificado diante de uma cena inédita, mantive-me distante dos dois protagonistas desta história, desde o início do evento, que transcorreu num ritmo vertiginoso. Aproximei-me deles, curioso, na expectativa, sem ter consciência de que deles eu me aproximava. O que eu poderia fazer contra um homem que empunhava um revólver? Telefonei para a polícia. Naquelas circunstâncias, na companhia da Laura, a minha namorada, esta era a única providência que eu poderia tomar. Passou-me pela cabeça o desejo de bancar o herói. Tal pensamento foi-se embora tão logo se me aflorou ao cérebro. Não sou um herói. Seria uma rematada tolice interferir na discussão daqueles dois homens, que prodigalizaram um espetáculo que não está no gibi. Um deles empunhava um revólver. Eu, a Laura e não sei quantas outras pessoas assistimos à cena entorpecente. Nenhum filme nos proporciona cena tão impactante.

Após relatar o horrendo evento para o Ulisses, a Zulmira, o Júlio César, respectivamente, pai, mãe e irmão da Laura, e, depois, para a Adriana, a Zuleica, o Milton e o Osvaldo, amigos meus e da Laura, despedi-me da Laura, e vim para a minha casa. Aqui, narrei o ocorrido ao meu pai, à minha mãe e às minhas irmãs. Curiosos, ouviram-me atentamente. Prendi a atenção deles porque lhes narrei uma tragédia, gênero narrativo mesmerizante. Todas as atenções convergiram para mim durante o jantar, e depois. Meu pai não assistiu ao noticiário, e minha mãe e minhas irmãs não assistiram à novela. Sou um jovem extraordinariamente poderoso: fiz com que minha mãe e minhas irmãs perdessem um capítulo da novela. Esta é a explicação para a borrasca que despencou, ontem, em todo o estado. Pediram-me a repetição da cena derradeira. Não me fiz de rogado. Narrei-a. E a comentei. Perguntaram-me o que fiz, se fiquei nervoso, com medo. Perguntaram-me da Laura, se ela tremeu de medo (medrosa do jeito que ela é, disseram), se ela correu, e se escondeu dentro de uma loja. A Jéssica quis que eu lhe dissesse porque o protagonista deste episódio agiu como agiu, e exigiu-me explicações. Não lhas dei, obviamente. Se eu as tivesse! Ela não se satisfez com o meu silêncio a respeito. Minha mãe e meu pai vieram em meu socorro, chamando-a à razão; perguntaram-lhe como eu poderia saber o que se passava dentro da cabeça de um desmiolado. Depois de ouvir as minhas ponderações sensatas, as de papai e as de mamãe, a Jéssica insistiu em querer me extrair uma explicação plausível para a conduta do indivíduo ao qual minha mãe se referiu como um desmiolado. Não lha forneci, mas não me furtei a conjecturar algumas hipóteses – cinco ou seis, todas erradas, certamente. Não satisfiz a curiosidade intelectual de minha irmã – ela será uma psicóloga, pois tem o hábito de fazer perguntas para as quais ninguém conhece a resposta certa; melhor, ela faz perguntas para as quais não se deve perder tempo procurando por uma resposta, pois há mais entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia. Após minha mãe pôr a Jéssica para dormir, e a Tábata sair com a Luciana e a Rafaela, recolhi-me ao quarto. Pouco depois, banhei-me. Comi torradas, uma fatia de bolo de laranja, uvas, e bebi leite com baunilha em pó. Conversei com meu pai, durante uns dez minutos, sobre futebol, e despedi-me dele. Voltei para o quarto, bocejando, sonolento, exausto. Exauriram-me as energias a tensão, a apreensão e o medo de horas antes. Deitei-me, na cama. Pressionei o interruptor à cabeceira da cama – e apagou-se a luz. Fez-se a escuridão. Ajeitei o travesseiro. Aconchegado, no esforço de suprimir da mente as horrendas imagens que testemunhei, pensei na Laura, no desenho animado e nos vídeos de mulheres aos quais assisti, na internet. Nem as mulheres conseguiram afugentar de minha cabeça as cenas que testemunhei à tarde. Virei-me, na cama, de um lado para o outro. Deitei-me com o lado direito para cima. Deitei-me com o lado direito para baixo. Deitei-me de barriga para cima. Deitei-me de barriga para baixo, e enfiei a cara no travesseiro. Não consegui respirar, e ergui a cabeça. Não recomendo esta prática, para se buscar o sono, a ninguém. É sufocante. De nada me adiantou contar carneirinhos. Não sou um pastor. Muitos carneirinhos desgarraram-se do bando, e os lobos os devoraram. E a cerca por sobre a qual eles pulavam era eletrificada. Tempos modernos. Eletrificada para dissuadir ladrões, lobos e raposas de invadir a minha fazenda, mas acabou por matar, carbonizados, alguns carneirinhos. Resumindo: revirei-me na cama e não consegui pregar o olho. E para dormir não me injetei na veia a substância que Leonardo de Caprio se injeta, naquele filme do Christopher Nolan. Tentei sonhar que sonhava – para fazer isso eu teria de dormir. E quem disse que eu conseguia dormir! Morfeu não me visitou nesta noite. Não entrei no País das Maravilhas. Neste reino onírico eu entrava quando era criança, e protagonizava aventuras para lá de fantásticas. Notabilizei-me como rei e monarca e faraó e gênio nestas aventuras oníricas. Mas, nesta noite, o sono não me veio. Passei a noite em claro. As terríveis cenas que testemunhei, ontem, à tarde, repetiam-se, incessantemente, em meu cérebro. Sobrepunham-se as imagens. Intercalavam-se, entrecortadas. Imbricavam-se. Justapunham-se. Fundiam-se. Não pude afastá-las de minha mente. Era como se elas estivessem incrustadas em todos meus neurônios, dos quais não poderiam ser removidas sem que, com a remoção, não destruíssem minha mente. Agora, com a esferográfica à mão, debruçado sobre a mesa, sustentando a cabeça com a mão direita, escrevo, sonolento, bocejando a intervalos curtos, esta narrativa. As imagens afluem, incessantes, à minha mente, avassalam-me a alma, preenchem todos os interstícios de meu cérebro, este órgão de aparência tão repulsiva. Parece nozes. Mas não é comestível. Quem dirá isto para Hannibal Lecter? E as imagens afluem à minha mente, em profusão. Repetem-se. E repetem-se. Decidi relatar o evento da véspera, para que, assim, penso, registrando-o, eu o esqueça, e ele não me atormente mais, e eu possa dormir, na noite de hoje, tranquilamente, e sonhar sonhos idílicos. O impulso de escrever, irrefreável. Encerrarei a redação após narrar o horrendo episódio que testemunhei, ontem, na companhia da Laura. Até agora limitei-me a aludir ao evento, desordenadamente. Afinal, a qual evento referi-me desde o início deste manuscrito? Terei de conter-me no meu ímpeto de escrever, e organizar meus pensamentos. Principiarei do começo a narrativa, como, zombeteiramente, declaramos, antes de iniciar o relato de uma aventura que protagonizamos.

Fui à casa da Laura às quatro horas da tarde. Conversamos, não sei durante quanto tempo, com a tia da Laura, Maria Elizabeth, que viera, dois dias antes, do Rio Grande do Sul, onde mora, para visitar os familiares. Ela nos deu muitas notícias que nos alegraram e algumas entristecedoras: a morte de um primo e a de uma sobrinha, cujos nomes não me recordo. Josias e Jennifer, se não me engano. Ou Nicole? Não me recordo. Jennifer e Nicole são irmãs. Uma delas foi assassinada. Notícia entristecedora. Lágrimas vieram aos olhos de Maria Elizabeth. Os outros que a ouvíamos nos silenciamos. Não eram seis horas da tarde quando eu e a Laura nos despedimos de sua mãe e de sua tia. Não tínhamos outro objetivo além do de andar pelas calçadas do centro da cidade, olhar para as roupas, os calçados, os computadores, os chocolates, expostos nas vitrines das lojas, e, se nos desse vontade, determo-nos em uma sorveteria, para chuparmos sorvetes; picolés, não; não os aprecio, e Laura também não.

Andávamos, tranquilamente, em meio ao azáfama reinante. Crianças com uniforme escolar, acompanhadas de um adulto, e jovens sobraçando cadernos, iam de um lado para o outro. O trânsito, caótico. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de calçados. Laura apontou os calçados que desejava comprar, todos inacessíveis ao seu pai e à sua mãe. Na loja vizinha, à direita, quatro manequins exibiam vestidos deslumbrantes pelos quais Laura, disse ela, apaixonou-se. Ela também disse que pediria para sua mãe comprar-lhe um vestido; não o pediria ao seu pai, pois dona Zulmira é, nas palavras da Laura, mão aberta, e seu Ulisses, mão fechada, mão de vaca, unha de fome. O Ulisses não é mão de vaca, como diz a Laura. Ele é parcimonioso, diria meu tio Washington, sempre mergulhado nos livros, com o nariz, como diz tia Luiza, esposa dele, enfiado entre as linhas, os olhos grudados nas folhas, e os ouvidos a ouvir a voz interior enquanto decifra os indecifráveis segredos daqueles misteriosos livros de filosofia. À direita da loja de vestidos femininos, há uma loja de calçados à frente da qual detivemo-nos eu e Laura. Alguns calçados eram, direi, atraentes; outros, de um mal gosto de provocar engulhos até no diabo. E a Laura, mais uma vez, para não perder o costume, disse que pediria para sua mãe, mulher generosa, comprar-lhe este e aquele par de sapatos pelo qual se apaixonou, e não os pediria ao seu pai, porque ele não abre a mão nem para dar tchau. Andamos alguns metros. Expostas à vitrine de uma loja, roupas íntimas femininas. Arregalei os olhos. Expressei uma interjeição. Não escondi da Laura o meu interesse por aqueles sutiãs e aquelas calcinhas (obviamente, interessei-me pelas roupas íntimas femininas não para eu as usar, mas para a Laura cobrir-se com elas. Cobrir-se com roupas tão minúsculas!?). Detive-me. Laura puxou-me pela mão, a passos pesados. Esbocei resistência. Laura beliscou-me, e ameaçou dar-me um tapa. Deixei-me levar por ela, sorrindo, divertidíssimo. Laura irritou-se, franziu o cenho, disse-me que me quebraria o nariz com um soco se eu me detivesse diante daquela loja, e mandou-me suprimir o sorriso do rosto. Andamos alguns metros. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de roupas femininas. Dos quatro vestidos expostos, a Laura apaixonou-se por três; pediria, disse, para sua mãe, mulher generosa e mão aberta, comprar-lhos. Informo: O mais barato dos três vestidos estava à venda por R$ 250,00. Diante da vitrine desta loja permanecemos por mais tempo do que diante da das outras lojas. Laura amou – disse ela – os vestidos, que lhe inspiraram aventuras mais comuns aos contos de fadas do que à realidade. Disse que queria entrar na loja para ver quais outros vestidos haviam lá, mas queria vê-los ‘com as mãos’, e puxou-me pelo braço. Foi neste momento que nos chegou aos ouvidos barulho de pneus cantando no asfalto. Viramo-nos, simultaneamente, para a nossa esquerda, a tempo de assistir à colisão de dois carros, um vermelho e um prateado. Laura exclamou: “Nossa!”, arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão esquerda, e, soltando-me o braço, com a mão direita cobriu a mão esquerda. Arregalei os olhos. Vi várias pessoas, todas com o olhar convergindo para os dois carros que se envolveram no acidente. Por sorte, ambos os motoristas frearam a tempo de impedir uma colisão destruidora. Nenhum dos dois carros teve danos significativos. Do carro prateado ficou quebrado o farol dianteiro; do carro vermelho, a porta ficou amassada. Ajuntou uma pequena multidão de curiosos nas proximidades. Ninguém, no entanto, aproximou-se dos dois carros. Os curiosos, expectantes, aguardamos o desenrolar do evento. O que haveria a seguir? Os dois motoristas se insultariam, se engalfinhariam, se arrancariam sangue um do outro? Do carro vermelho retirou-se um homem robusto, de um metro e oitenta de altura, barba rapada, cabelos curtos, queixo quadrado, sobrancelhas espessas, lábios finos, descoloridos, quase indiscerníveis. Trajava uma calça jeans e uma camisa de um time espanhol de futebol. Com o olhar assustado, deteve-se; coçou a cabeça, e olhou, apalermado, para o motorista do carro prateado. A colisão roubara-lhe o governo de si. Presumo que foi a primeira vez que ele se envolveu em um acidente de carro, daí a sua imobilidade. Ele não sabia quais providências tomar, o que dizer, nem para o motorista do carro prateado, nem para si mesmo. Estava constrangido. Sorriu, acanhado. Indisfarçável, o seu constrangimento. Coçou o nariz com a ponta do dedo indicador direito, premiu as narinas, e olhou ao redor. O motorista do carro prateado, nesse meio tempo, ao desvencilhar-se do cinto de segurança, abriu a porta do carro, e do carro retirou-se, bufando de raiva, rilhando os dentes. Fitou o motorista do carro vermelho, bateu a porta do carro, fungando, furioso. Visível a raiva contida em seu rosto. Era um homem de estatura mediana. De um metro e sessenta, se muito. De trinta anos de idade, presumo. Trajava uma bermuda verde-abacate e camisa regata; nos pés, tênis azul com faixas brancas e amarelas. Era magro, mas não era desprovido de músculos salientes; os vasos sanguíneos destacavam-se. De lábios grossos, queixo pontudo. Tinha, na orelha direita, dois brincos (um, argola; o outro, uma estrela azul); na narina esquerda, um piercing; e um piercing na extremidade externa da sobranceira direita. Carregava cabelos compridos pretos, presos, num rabo-de-cabelo, com elásticos; no ombro, no braço e no antebraço esquerdos tinha uma tatuagem, ou várias tatuagens; não pude distinguir a figura (ou figuras) representada. Ele andou, a passos pesados, na direção do motorista do carro vermelho. Não o agrediu, no entanto, como, presumo, desejava fazer, pois o motorista do carro vermelho era maior e mais forte do que ele. Irritado, enraivecido, com os punhos cerrados, esbravejou e ofendeu o motorista do carro vermelho, mantendo dele a distância de dois metros. Os curiosos, expectantes, antevíamos uma briga corpo-a-corpo entre os dois motoristas. Ansiávamos por uma briga. Queríamos assistir à luta do século, ao vivo, e em cores, entre aqueles dois homens. Quais regras eles respeitariam? Nenhuma. Ninguém arbitraria a luta. Eles, previ, prodigalizariam uma luta inesquecível. O motorista do carro vermelho e o motorista do carro prateado entrariam para a história universal como os protagonistas da luta do século. Perguntei-me, em silêncio, porque o motorista do carro vermelho, com os seus um metro e oitenta de altura e punhos de aço não cerrava os punhos e não nocauteava o baixinho do carro prateado. Por que ele o ouvia, calado, constrangido, e olhava de um lado para o outro, enquanto o motorista do carro prateado intensificava os insultos, e punha-lhe o dedo indicador em riste diante do nariz? Vários curiosos atiçavam o motorista do carro vermelho contra o motorista do carro prateado; diziam-lhe que lhe quebrasse o nariz; que não levasse desaforos para casa; que o golpeasse com um soco. Exclamaram “Quebre ele!”, “Esmague o nariz dele!”, “Não deixe barato, não, cara. Arrebente ele!”. Mas o motorista do carro vermelho não lhes deu ouvidos. Ao contrário, buscou entender-se com o motorista do carro prateado, pedia-lhe que se acalmasse. Seus gestos, serenos, indicavam que ele desejava o entendimento, por meios pacíficos, mas o motorista do carro prateado queria proporcionar ao público um espetáculo inesquecível que seria narrado em prosa e verso por todas as testemunhas repetidas vezes e perpetuar-se-ia por gerações. Enquanto assistia à agressão verbal do motorista do carro prateado contra o motorista do carro vermelho, perguntei-me qual deles causara a colisão.

A multidão acercou-se dos dois motoristas, aproximou-se deles. Eu e a Laura a acompanhamos; conservamo-nos mais perto do motorista do carro prateado, dele distando três metros. Eu estava com a mão direita pousada no ombro direito da Laura, que me enlaçava, pela cintura, com o braço esquerdo, a mão esquerda na minha ilharga esquerda. Assistíamos, curiosos, expectantes, ao desenrolar do episódio. O motorista do carro prateado, olhos esbugalhados, punhos cerrados, esbravejava, esgoelando-se, insultava o motorista do carro vermelho, que, era visível, estava constrangido. Após uma sequência de obscenidades, numa série que, parecia, seria interminável, sucedeu-se o imprevisível. Eu poderia reproduzir as obscenidades que o motorista do carro prateado cuspiu sobre o motorista do carro vermelho. Todavia, não o farei. O pudor mo impede. Quero, no entanto, reproduzi-las. Não o farei, entretanto. Elas são impublicáveis. Eu as substituirei por eufemismos. Ei-los: “Imbecil! Idiota! Você é débil mental, asno retardado? Não viu o sinal vermelho, mocorongo? Idiota! Olhe para o meu carro! Olhe! Viu o que você fez, burro filho-de-uma-égua!? Viu o que você fez!? Anta! Você tem titica de galinha na cabeça, cérebro de ameba!? Você tem inteligência de lombriga! Idiota! Filho-de-uma-égua! Você tem cérebro de ameba. Quantos neurônios você tem na cabeça!? Dois. Apenas dois. Um estava com a data de validade vencida no dia que você foi concebido e um queimou-se no dia que você nasceu. Asno! Débil mental! Filho-da-polícia! Filho-de-uma-égua!” Ato contínuo, cuspiu no motorista do carro vermelho, que se enfezou, e deu dois passos firmes e decididos na sua direção. O motorista do carro prateado recuou três passos, e, para surpresa de todos, principalmente do seu antagonista, retirou, de sob a camisa e do cós da calça, um revólver calibre 38, e apontou-lho, o braço estendido, para a cabeça. O motorista do carro vermelho arregalou os olhos, escancarou a boca, e recuou. Todas as testemunhas suspendemos a respiração. Eu não quis acreditar no que meus olhos viam: Um homem, com uma arma apontada para a cabeça de outro homem, ameaçava apertar o gatilho, e estourar-lhe os miolos. Até ontem, vi cenas assim apenas nos filmes. Antevi a tragédia: O motorista do carro prateado aperta o gatilho, e o motorista do carro vermelho cai, morto, com uma bala alojada na cabeça, na testa, entre os olhos, e o cadáver do motorista do carro vermelho a esvair-se em sangue, e os curiosos, apavorados, aterrorizados, a correr, em disparada, e o caos instalado no centro da cidade. Não pensei duas vezes: tirei, com as mãos trêmulas, o meu telefone celular do bolso da minha camisa, e telefonei para a delegacia de polícia. Despi-me do medo que me avassalava. A Laura puxou-me, para nos afastarmos dos dois motoristas; eu, imóvel, não a percebi me puxar, mas senti sua mão pressionando-me o braço e o antebraço direitos. O motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu três passos – ou quatro, ou cinco, não sei – na direção do motorista do carro vermelho, que recuou. Muitos dentre os curiosos afastaram-se, muitos agacharam-se. Alguns procuraram chamar o motorista do carro prateado à razão. O motorista do carro vermelho, assustado, olhos arregalados, recuava e pedia, mãos erguidas, calma ao motorista do carro prateado, que, fora de si e surdo aos rogos dele, ameaçava matá-lo. Ao policial que me atendeu à ligação relatei, em poucas palavras, o que eu via, e dei-lhe a nossa localização, e desliguei o telefone. Não desviei do motorista do carro prateado e do do carro vermelho o meu olhar. Nem piscar, pisquei. O revólver mesmerizava-me. Prendiam-me a atenção os berros do motorista do carro prateado. A Laura rogava-me afastarmo-nos dos motoristas. Não a atendi, e aproximei-me deles. A minha curiosidade, atiçada; e eu desejava saciá-la; eu queria assistir ao desenlace da história. O motorista do carro vermelho recuou até encostar-se no seu carro, mãos espalmadas à frente de si, palmas voltadas para o motorista do carro prateado, rogando-lhe que abaixasse a mão que empunhava o revólver. Dobrou-se para trás, sobre o carro. O motorista do carro prateado renovou as ameaças, elevou a voz, que ricochetou no interior de meus ouvidos, que a amplificou, aterrorizando-me. O motorista do carro vermelho meneava a cabeça, balbuciava palavras que não ouvi; a sua fisionomia transparecia o pavor que o revólver e a voz ameaçadora do motorista do carro prateado infundiam-lhe. Aproximei-me do motorista do carro prateado. Eu queria ver-lhe o rosto. A Laura puxava-me para trás e pedia-me que eu me afastasse. Não a ouvi. E ela aplicou mais força em meu braço e antebraço direitos. E o motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu um berro ensurdecedor, que abafou todos os outros sons, todas as outras vozes, e apontou o revólver para si, encostou-o em sua têmpora, e apertou o gatilho. Ouviu-se o detonar do revólver. O motorista do carro prateado caiu, pesadamente. O seu olhar encontrou-se com o meu. Após espasmos, sob dores excruciantes, esvaiu-se-lhe a consciência, cessaram-lhe os batimentos cardíacos. Morreu.

 

Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

Dois tiros

Quarta-feira. Temperatura amena.

Celso, imerso em seus pensamentos, andava, tranquilamente, pela avenida Dom Pedro II.

– Entregue-me a carteira – ameaçou-o um jovem alto, espadaúdo, moreno, de cabelos desgrenhados, que lhe encostou, na ilharga direita, a ponta de uma faca.

Celso, sentindo a ponta afiada da faca, retirou, automaticamente – com movimentos robóticos, dir-se-ia -, a carteira do bolso posterior direito da calça, e entregou-a ao jovem, que arrancou-lha da mão, com violência, e correu, e o comparsa deste, jovem magro, loiro, branco, de um metro e setenta de altura, acompanhou-o. Desapareceram ambos no meio da multidão. Celso levou a mão direita ao peito, e sentiu o coração bater descompassado. Aos poucos, recuperou o controle de si. Demorou para entender o que ocorrera; e suspirou, aliviado. Uma mulher, que testemunhara o assalto, aproximou-se de Celso, e aconselhou-o a ir à delegacia de polícia.

Na delegacia, vinte minutos depois, Celso descreveu aos policiais os dois assaltantes.

Transcorreram-se os dias. Em frente à loja Novidades, Celso e um seu amigo, Edson, conversavam quando aquele entreviu, indo em direção a eles, os dois jovens que lhe roubaram a carteira, e empalideceu, e aceleraram-se-lhe os batimentos cardíacos. Os dois jovens seguravam, cada um, uma corrente pela alça; um dos jovens trazia consigo um rottweiller; o outro, um pitt-bull.

– O que houve? – perguntou Edson a Celso, ao surpreender-lhe a brusca mudança de voz e a palidez repentina.

Um dos jovens, o loiro, gritou o nome de Edson. Edson voltou-se, saudou-o. Os dois jovens aproximaram-se. Reconheceram Celso. Sorriram. Saudaram, com apertos de mãos, Edson, e Celso, que, pálido, trêmulo, saudou-os, constrangido, intimidado. Conversaram com Edson, durante cinco minutos, a respeito dos cachorros que levavam com eles. Despediram-se. Fitaram Celso, sorridentes, desejaram-lhe felicidades, e afastaram-se.

– Eles me assaltaram, na semana passada – disse Celso, assim que os dois jovens distavam cinquenta metros.

– O Osvaldo e o Ricardo? – perguntou Edson, surpreso.

– Sim – respondeu Celso. – Eles roubaram a minha carteira. Você sabe onde eles moram?

Edson forneceu-lhe o endereço de Osvaldo.

No dia seguinte, Celso pegou o revólver de seu pai.

– Aqueles vagabundos me pagarão caro – rosnou Celso. – Vou enviá-los para o inferno – e rumou para a casa de Osvaldo.

Quinze minutos depois, chegou ao seu destino. Premiu a campainha. Ouviu os latidos dos cachorros. Ricardo atendeu à porta, reconheceu Celso, encarou-o, e sibilou:

– O que você quer, idiota?

Celso franziu o cenho.

Os cachorros intensificaram os latidos.

Celso apontou o revólver para a cabeça de Ricardo, que, de imediato, emudecido, surpreso, arregalou os olhos, e recuou dois passos.

Celso, com voz cavernosa, ameaçadora, deu-lhe a ordem:

– Entre!

Ricardo obedeceu-o, prontamente, mesmerizado pelo revólver apontado à sua cabeça.

Recrudesceram os latidos do rottweiller e do pitt-bull.

No interior da casa estava Osvaldo, que, ao ver Ricardo e Celso, não esboçou nenhum gesto. Fitou-os, em silêncio.

Celso pôs os dois à mira do revólver.

– Vim buscar a minha carteira – sentenciou Celso.

O rottweiller e o pitt-bull latiam, infatigáveis.

Osvaldo entregou a carteira para Celso, que, com brusquidão, retirou-lha da mão, e perguntou-lhe, ríspido:

– E o dinheiro?

– Gastamos… – respondeu, voz trêmula, Osvaldo.

– Cães malditos! – esgoelou-se Celso, que apertou o gatilho duas vezes. Com o primeiro tiro, matou o rottweiller; com o segundo, o pitt-bull.

E correu, célere.

Testemunha ocular

Presenciei, não faz muito tempo, um acidente de trânsito.

Parado, no cruzamento das ruas João XXIII e Duque de Caxias, atento aos veículos, eu me preparava para atravessar a rua João XXIII. E diante de meus olhos sucedeu um acidente envolvendo dois carros, um, vermelho, tendo, ao volante, um homem barbudo, que desrespeitou o vermelho do semáforo, e um carro preto, cujo motorista, atento ao semáforo, verde para ele, atravessava o cruzamento, quando se deu a colisão, após a freada e os pneus dos dois carros cantarem no asfalto. Ensina-nos a lei da física: Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. À colisão, que não causou grandes estragos nos carros, seguiu-se forte estrondo. Além de mim, quem mais – desconsiderando o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho – testemunhou o acidente? Eu fui a sua única testemunha ocular. Olhei de um lado para o outro, à procura de outra pessoa que o testemunhara. Não havia, lá, além de mim, do motorista do carro vermelho e do motorista do carro preto, nenhuma outra alma viva, nenhum outro filho de Deus, nenhum outro descendente de Adão e Eva, que testemunhara a colisão entre os dois carros. Eu não era a única pessoa presente nas proximidades do cruzamento da João XXIII com a Duque de Caxias; era eu, no entanto, a única pessoa que estava de frente para os dois carros envolvidos no acidente no instante em que o acidente se deu. E eu lamentei tal privilégio. A exclusividade testemunhal não me agradava.

Várias pessoas, atraídas pelo barulho da colisão, voltaram-se para o entroncamento da João XXIII com a Duque de Caxias, e, açulados pela curiosidade, pousaram os olhares no homem barbudo que estava no carro vermelho e no motorista do carro preto. Todas aquelas pessoas, excitadas pela curiosidade agora, estavam, no instante da colisão dos dois carros (saliento este ponto, certo do que escrevo – e a atitude delas corroboram o que escrevo), de costas para a intersecção da João XXIII com a Duque de Caxias, e ninguém, estou ciente disso, encontrava-se em uma posição tão privilegiada quanto à minha, e ninguém, ninguém, repito uma vez mais, além de mim, poderia apresentar um depoimento fiel ao desenrolar dos eventos. Eu, e apenas eu, assisti à colisão, e com meus olhos, olhos que os vermes hão de comer após eu bater as botas, abotoar o paletó, deitar de pés juntos sete palmos abaixo da Terra. Aproximaram-se dezenas de pessoas, curiosas todas elas, dos dois carros parados no meio da rua. Eu, não. Conservei-me imóvel. Vi que o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho não se feriram no acidente. Não me preocupei com eles; aliás, com eles preocupei-me, mas não pelas razões comuns em casos tais; eu não queria que eles me vissem; eu queria invisibilizar-me – e assim que policiais chegassem ao local, que ninguém se lembrasse de mim, apontasse-me, e declarasse que vi o que ocorreu, e os policiais, então, me dirigissem a palavra, e pedissem o meu depoimento. Eu queria evitar-me transtornos.

O motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho apearam dos carros, então rodeados de multidão de curiosos. Ouvi as vozes dos motoristas, que praguejavam. Culpavam-se um ao outro pelo acidente. Se ninguém interviesse, eles se engalfinhariam, e proporcionariam um espetáculo inesquecível, comum entre pessoas civilizadas, aos curiosos. O motorista do carro preto levaria a pior. O motorista do carro vermelho, forte, começou a impor-se ao motorista do carro preto, que, por sua vez, não abaixou a crista – afinal, ele não desejava amargar prejuízo; além do mais, com ele estava a razão. O que mais me chamou a atenção não foi a conduta dos dois motoristas, que era compreensível; foi o testemunho dos supostos espectadores do acidente. Havia um flagrante contraste ente a realidade e a ficção apresentada pelos que diziam que testemunharam o acidente, e apenas eu o notava; afinal, fui a única testemunha ocular do acidente. A imprudência do homem barbudo culminou com a colisão, que não acabou em tragédia porque o motorista do carro preto ia em baixa velocidade. Algumas pessoas que rodearam os carros, os motoristas envolvidos no acidente e os dois policiais que compareceram ao local defenderam o motorista do carro vermelho, e outras defenderam o motorista do carro preto. Eu, que era a única testemunha ocular do acidente, e poderia oferecer um relato imparcial e objetivo do que ocorreu, calei-me, dei dois passos para trás, e permaneci, calado, braços para trás, dedos cruzados, a acompanhar, atento, as controvérsias. Eu já disse, e repito, mais uma vez, e não me cansarei de repetir quantas vezes forem necessárias: Fui a única testemunha ocular do acidente. Os dois policiais colheram testemunhos desencontrados. O motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho trocaram desaforos. A multidão aguçou a audição. Pressentiu que, à troca de ofensas verbais seguir-se-ia socos e pontapés, e a excitou a perspectiva de assistir à uma luta livre. O círculo fechou-se em redor dos motoristas. Os policiais intervieram, e amansaram o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho, desagradando ao público sedento de sangue.

Repito uma vez mais. Fui a única pessoa que testemunhou o acidente. E eu era, repito, a única pessoa que poderia prestar um depoimento detalhado, fiel aos eventos, e encerrar a confusão que os depoimentos daquelas pessoas que não testemunharam o acidente e o do motorista do carro preto e o do motorista do carro vermelho criaram, mas não atuei para encerrá-la. Tratei, antes que eu me revelasse aos motoristas envolvidos no acidente, de me retirar de lá, e de fininho. Eu não queria para mim dores de cabeça. E para evitá-las, fui-me embora, antes que Anselmo, o motorista do carro vermelho, e Dâmocles, o motorista do carro preto, ambos meus amigos, me vissem.

Polifonia Literária

Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

divinoleitao.in

Rede pessoal de Divino Leitão.

Reflexões para os dias finais

Pensamentos, reflexões, observações sobre o mundo e o tempo.

PERSPECTIVA ONLINE

"LA PERSPECTIVA, SI ES REAL, EXIGE LA MULTIPLICIDAD" (JULIÁN MARÍAS)

Pensei e escrevi aqui

— Porque nós somos aleatórias —

On fairy-stories

Fantasia, Faërie e J.R.R. Tolkien

DIÁRIO DE UM LINGUISTA

Um blog sobre língua e outros assuntos

Brasil de Longe

O Brasil visto do exterior

Cultus Deorum Brasil

Tudo sobre o Cultus Deorum Romanorum, a Antiga Religião Tradicional Romana.

Carlos Eduardo Novaes

Crônicas e outras literatices

Coquetel Kuleshov

um site sobre cinema, cinema e, talvez, tv

Leituras do Ano

E o que elas me fazem pensar.

Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

LER É UM VÍCIO

PARA QUEM É VICIADO EM LEITURA

Velho General

História Militar, Geopolítica, Defesa e Segurança

Espiritualidade Ortodoxa

Espiritualidade Ortodoxa

Entre Dois Mundos

Página dedicada ao livro Entre Dois Mundos.

Olhares do Mundo

Este blog publica reportagens produzidas por alunos de Jornalismo da Universidade Mackenzie para a disciplina "Jornalismo e a Política Internacional".

Bios Theoretikos

Rascunho de uma vida intelectual

O Recanto de Richard Foxe

Ciência, esoterismo, religião e história sem dogmas e sem censuras.

.

.

Prosas e Cafés

(...) tudo bem acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar - Caio Fernando Abreu

OLAVO PASCUCCI

O pensamento vivo e pulsante de Olavo Pascucci

Clássicos Traduzidos

Em busca das melhores traduções dos clássicos da literatura

Ensaios e Notas

artes, humanidades e ciências sociais

Minhas traduções poéticas

Site de tradução de poesias e de letras de música

Além do Roteiro

Confira o podcast Além do Roteiro no Spotify!

Farofa Filosófica

Ciências Humanas em debate: conteúdo para descascar abacaxis...

Humanidade em Cena

Reflexões sobre a vida a partir do cinema e do entretenimento em geral

resistenciaantisocialismo

Na luta contra o câncer da civilização!

História e crítica cultural

"Cada momento, vivido à vista de Deus, pode trazer uma decisão inesperada" (Dietrich Bonhoeffer)

Devaneios Irrelevantes

Reflexões desimportantes de mais um na multidão com tempo livre e sensações estranhas

Enlaces Literários

Onde um conto sempre puxa o outro!

Ventilador de Verdades

O ventilador sopra as verdades que você tem medo de sentir.

Dragão Metafísico

Depósito de palavras, pensamentos e poesias.

%d blogueiros gostam disto: