Meu irmão morreu – Uma história do tempo do coronavírus

Encontraram-se, às onze horas da manhã de hoje, nas proximidades da igreja Nossa Senhora de Fátima, no entroncamento das avenidas José Bonifácio e Joaquim Nabuco, na calçada à frente de uma loja de cosméticos, João Carlos e Roberto Carlos, colegas de trabalho que há alguns dias não se viam. João Carlos gozava, havia dez dias, de férias. Retirara-se havia um minuto da igreja Nossa Senhora de Fátima, e caminhava, lentamente, cabisbaixo. Roberto Carlos saíra do escritório minutos antes, e rumava para um restaurante, distante uns cem metros de onde ele e João Carlos encontravam-se. Saudaram-se. E Roberto Carlos não precisou de mais de um segundo para notar a tristeza estampada nos olhos do seu colega.

– O que se passa contigo, João?! – perguntou-lhe. – As férias não te fazem bem?! Por que a cara tristonha?! O que houve?! Que bicho te mordeu, homem?!
João Carlos não lhe respondeu de imediato; tremeram-lhe os lábios. Fitou Roberto Carlos, que estava ciente de que dele não ouviria boa notícia. E respondeu-lhe:

– Saímos da igreja há pouco meus pais, minha irmã e eu. Eles foram para a casa deles. Eu lhes disse que eu iria caminhar um pouco. Assistimos à missa de sétimo dia da morte de meu irmão.

– Meu Deus! – exclamou Roberto Carlos, sinceramente condoído. – Aceite meus pêsames, João. Seu irmão é mais uma vítima do covid, este maldito vírus.

– Covid!? Não. Meu irmão não morreu de covid.

– Não!? De que mais ele poderia morrer?! – perguntou Roberto Carlos, visivelmente surpreso. As suas palavras incomodaram João Carlos, que tratou de lhe responder.

– Ele não morreu de covid. Ele foi assassinado. Dois ladrões invadiram-lhe a casa. Renderam-lo. Amarraram-lo. Espancaram-lo. Cortaram-lhe, à faca, as mãos e os pés, e a língua, e as orelhas; e esmigalharam-lhe, à marreta, os joelhos, e a cabeça. Mataram-lo.

– Assassinado!? Ele foi assassinado!? Ufa! Que alívio! Alegro-me saber que ele não morreu de covid.

O Julgamento – Uma história do tempo do coronavírus

João Fulano da Silva invadiu uma casa, e estuprou e matou mãe e filha. E policiais o capturaram e o prenderam.
No tribunal, perguntou-lhe o juiz, educadamente:

– João Fulano da Silva, o senhor já tomou a vacina contra o coronavírus?

– Tomei, sim, senhor doutor. Tomei – respondeu-lhe, humildemente, João.

E seguiu-se a conversa:

– E o senhor – perguntou o juiz -, senhor João, usava máscara enquanto estuprava e matava aquelas duas mulheres?

– Sim, senhor, eu usava máscara, e uma de três camadas.

– O senhor é um homem de responsabilidade social. Respeita a saúde pública. Tem empatia coletiva. Pelos poderes a mim conferidos pelas leis deste mundo, concedo ao senhor João Fulano da Silva a liberdade.

– Posso, senhor doutor, fazer uma pergunta?

– À vontade.

– Posso estuprar e matar outras mulheres e também matar e estuprar mulheres?

– Matar, e depois estuprar?! – perguntou o juiz, intrigado.

– Sim. Eu gosto de…

– Entendi. Não preciso dos detalhes. Você, um cidadão responsável, exemplar, comprometido com a saúde coletiva, tem o direito de viver a sua vida como bem entenda, desde que não se esqueça de usar máscara.

– Não esquecerei, não, senhor doutor. E eu uso máscara de três camadas.

– Então, vá. Você é um homem livre. Divirta-se. E não se esqueça da máscara.

– Obrigado, senhor doutor. Obrigado. Até breve.

A Denúncia – Uma história do tempo do coronavírus

Eram vinte e duas horas de um sábado.
Em sua casa, na varanda, sentado numa cadeira de plástico, branca, Joaquim, máscara multicolorida a cobrir-lhe o rosto desde o nariz até o queixo, olhava à rua, sem se deter em nenhum ponto; sempre que uma pessoa se lhe passava diante dos olhos, ele, cidadão consciente e responsável, verificava se ela trazia, no rosto, uma máscara ajeitada, corretamente, a cobrir-lhe nariz e boca, e acompanhava-a com o olhar até ela sair-lhe do campo de visão. Havia duas horas, só, exercia a sua tarefa, a de policiar a conduta das pessoas que à rua saíam de suas casas. Sacrificava, pelo bem comum, de sua vida, muitas horas por dia, dedicado que era à coletividade.
Não haviam transcorrido quinze minutos após as vinte e duas horas, aos seus olhos surgiram três pessoas, dois homens e uma mulher. A mulher trazia, cobrindo-lhe nariz e boca, máscara cor-de-rosa. Um dos homens tinha uma máscara preta a ocultar de olhos alheios nariz e boca; e o outro, sem máscara, tinha, desnudo, o rosto. Joaquim arregalou os olhos, e levantou-se da cadeira. O homem sem máscara, indo da direita para a esquerda, passou pela mulher, e pelo outro homem, que a seguia, a poucos metros de distância. Estavam distantes do homem sem máscara o homem e a mulher mascarados uns vinte metros quando este homem, o mascarado, acelerou os passos – ao mesmo tempo que retirou do bolso da calça um canivete, que abriu, dele exibindo a lâmina afiada, que brilhou à luz da lâmpada do poste – na direção da mulher, que lhe ignorava a presença, e, numa sequência de movimentos rápidos, com a mão esquerda cobriu-lhe a boca, impedindo-a de emitir qualquer gemido, e enfiou-lhe, na ilharga direita, o canivete, e retirou-o de dentro dela, e enfiou-lho no pescoço. Caíram a mulher e o homem que a esfaqueva, ele por sobre ela.
Joaquim, aterrorizado, alternava a sua atenção entre as duas cenas: a que lhe exibia o homem sem máscara e a que lhe revelava o homem e a mulher, ambos de máscaras, ele a matá-la com um canivete. Com as mãos trêmulas, tirou do bolso na camisa o telefone celular, e, sem pensar duas vezes, discou para a delegacia de polícia; assim que uma policial atendeu-o, disse-lhe, rapidamente, imensamente assustado:

– Mandem, e logo, uma viatura policial para cá, rua George Orwell. Imediatamente! É urgente! Mandem dois policiais, e rápido. Rápido! Há, aqui, na rua, um homem. Ele está sem máscara! Venham logo, antes que ele fuja! Mandem dois policiais! É urgente! Urgente! Urgente! Antes que ele fuja!

O Início do Fim do Mundo. Ou: Em Tempo de Epidemia e Quarentena.

Eram oito horas da manhã.
– Hospital Municipal. Posso ajudar?
– É do hospital? – perguntou uma voz aterrorizada, feminina.
– Sim, senhora. É do Hospital Municipal – informa a telefonista, atenciosa, alertada pelo tom de voz da sua interlocutora. – Posso ajudar a senhora?
– O meu marido teve um treco, e caiu no chão – principiou a mulher o seu relato, confuso. – E está morre, não morre. Está com a mão no peito e com os olhos arregalados. Acho que o coração dele pifou. Foi um piripaque.
– Minha senhora, diga-me o seu nome e o seu endereço; e eu irei solicitar uma ambulância para a senhora.
– Eu não preciso de ambulância. Quem precisa de ambulância é o meu marido.
– Senhora, diga-me, por favor, o seu nome e o seu endereço.
– Eu sou a Maria Elizabeth, a Maria da Quitanda. O meu marido vai morrer. Ele está com os olhos arregalados, iguais os olhos de peixe morto…
– Minha senhora, qual é o seu endereço? Diga-me o seu endereço.
– Se ele morrer – referia-se ao seu marido -, o que será de mim!? O que, meu Deus!? Os pés dele estão dando pulos. Parece até que foram picados por saúvas. E ele está com os olhos arregalados. O que aconteceu com ele? Ele teve um treco.
– Minha senhora, o seu endereço…
– Rua Carlota Joaquina… Não, não é… Rua Carlota Joaquina é o endereço da minha irmã… Aqui é Rua Dona Leopoldina. O número?! Ai, meu Deus! Esqueci. Qual é o número?!
– Minha senhora…
– Cinco mil… Não… Seis… Não. Cinco mil e seiscentos e… Ai, meu Deus! Cinco mil e quatrocentos e oitocentos e… Cinco mil e quatrocentos e oitenta e… e seis. É. É cinco mil e quatrocentos e oitenta e seis. No bairro do Barão.
– Bairro do Barão?…
– Sim. Do Barão. É assim que a gente daqui diz. É o bairro Fazendeiro Antônio. O fazendeiro Antônio era, no tempo do onça, quando eu era, ainda, menina, o manda-chuva da cidade. Aqui ele mandava e desmandava. Dava ordens até para o prefeito e para o padre. Fazia e acontecia. Até chuva ele fazia. E a gente de antigamente chamava ele de Barão.
– Senhora, uma ambulância já está indo à casa da senhora.
– E que venha logo. O meu marido não aguenta muito tempo, não. Tá vai, não vai. Que Deus nos ajude. E que perdõe todos os pecados do meu marido. E são muitos os pecados dele.
– Acalme-se, minha senhora. Paramédicos…
– Não tem de parar os médicos, não. Eles têm de vir, e logo.
– Eu quero dizer que a ambulância já está a caminho da casa da senhora.
– Ah! Sim. Entendi. Eu fiz confusão. Desculpe. Estou muito nervosa. Esperarei pelos médicos. Vou desligar o telefone, para ajudar o meu marido. Ele não pode morrer sem se confessar. Não pode.
E desligaram o telefone Maria Elizabeth e a telefonista do Hospital Municipal.
A ambulância retirou-se do pátio do Hospital Municipal e principiou a jornada de quatro quilômetros rumo à casa de Maria Elizabeth. Não havia percorrido quinhentos metros, a ambulância sacolejou; e ouviu-se um estouro. E fumaça escapou de sua dianteira. E o motorista esforçou-se para conservar-lhe o governo, no que foi bem-sucedido.
Saíram da ambulância, incontinenti, o motorista e o paramédico. Ambos verificaram o que havia sucedido com o veículo. E concluíram que teriam de solicitar outra ambulância para socorrer Maria Elizabeth. O motorista telefonou para o Hospital Municipal, e inteirou a telefonista a respeito do ocorrido; e a telefonista lhe informou que a outra ambulância retirara-se do pátio do hospital, para socorrer uma vítima de acidente doméstico, no outro lado da cidade. O motorista, então, após desligar o telefone, discou para um mecânico.

– Mecânica Gonzalo – disse o homem que atendera ao telefonema.
– Preciso – declarou, de imediato, o motorista da ambulância -, com urgência, que o senhor faça um reparo na minha ambulância. Não sei o que aconteceu. Alguma pane no motor, provavelmente.
– Não poderei ajudar você, amigo. Desculpe-me. O meu carro está sem gasolina.
– Vá a um posto de combustível, por favor. É urgente. Temos de atender um homem, que teve um ataque cardíaco, é certo.
– Lamento, amigo. Não posso. Os postos de combustíveis estão fechados. Não têm combustíveis. Os tanques estão vazios. Lamento. Eu gostaria de ajudar você, mas não posso.
– Mas… Os seus vizinhos não podem tirar gasolina do tanque dos carros deles?
– Não. Todos eles estão com os carros com os tanques vazios. Não têm nem um pingo de gasolina, nem de álcool, de nada. Agorinha, mesmo, pedi um litro de gasolina para o seu Estevão, que mora numa casa do outro lado da rua, e ele me disse que o tanque do carro dele está mais seco do que o deserto do Saara. Eu peço desculpas, amigo. Não posso ajudar você. Só peço a Deus que você consiga consertar a ambulância e ajudar quem está precisando da sua ajuda.
– Obrigado, senhor – agradeceu o motorista da ambulância, desconsolado.
– Disponha.
E Gonzalo, o mecânico, e o motorista da ambulância desligaram o telefone quase que ao mesmo tempo.
O motorista da ambulância e o paramédico trataram, e logo, de contatar outros mecânicos, e todos eles lhes deram as mesmas notícias: Não tinham combustível no tanque do carro e os postos de combustíveis estavam fechados. Perderam ambos preciosos minutos telefonando para oficinas mecânicas. Enquanto eles desdobraram-se para encontrar uma solução para o problema que lhes ocupava os pensamentos, o Hospital Municipal recebeu um telefonema:
– Hospital Municipal. Posso ajudar?
– Não precisam me mandar uma ambulância. Não precisam – disse uma voz embargada, de uma mulher em prantos.
– Senhora, o que…
– O meu marido já bateu as botas. O finado Jerônimo…
– Minha senhora… Qual é o nome da senhora?
– Maria Elizabeth, a Maria da Quitanda. O meu marido partiu desta para a melhor. Deus já veio buscá-lo. Ou o Diabo, não sei. O finado Jerônimo não se confessou. Morreu pagão. Não preciso da ambulância.
– Minha senhora, eu…
– E… Eu preciso que venham tirar o corpo do finado.
– Minha senhora, não temos ambulâncias…
– E o que eu faço, moça?! Deixo o meu marido, aqui, apodrecendo, até os urubus sentirem-lhe o fedor e comerem-lhe da carne?!
– Minha senhora, acalme-se…
– Acalmar-me!? Logo, logo, o finado Jerônimo, que nunca foi um homem bem asseado, começa a feder, e eu terei de aturar-lhe o fedor. E por quanto tempo, moça?! Hein!? Quero uma ambulância aqui.
– Não temos…

– E o que eu faço, então, hein, moça?! O que eu faço?!
– Senhora…
– Eu já sei, querida, o que fazer. Não temos carro eu e o meu marido. Mas o Carlos Renato, da funerária, tem. Ele é amigo nosso. Pedirei para ele vir buscar o corpo do finado e levá-lo para… Não sei para onde.
– Tem de trazê-lo, para a autópsia.
– Eu sei. Vou telefonar para o Carlos Renato.
E desligou o telefone Maria Elizabeth. E a telefonista do Hospital Municipal seguiu-lhe o exemplo.
Ato contínuo, Maria Elizabeth telefonou para Carlos Renato, o agente funerário.
– Carlos Renato?! – perguntou Maria Elizabeth, antecipando-se a quem atendera à ligação, assim que ouvira ruídos advindos do outro lado da linha.
– Sim. Sou eu… Quem é que…
– Sou eu, Carlos Renato, a Maria da Quitanda.
– Oi, dona Maria. Bom dia. Como a senhora está? Tudo bem? E o seu Jerônimo, como vai ele?
– O Jerônimo morreu, Carlos Renato.
– Quê!? Como foi isso, dona Maria?!
– Não sei o que aconteceu. Ele estava aqui, coonversando comigo… E de repente, mais que de repente… Ele teve um treco… E foi-se…
– Meu Deus, dona Maria. Que tragédia! Eu não consigo acreditar. Ontem, o seu Jerônimo estava tão bem, tão feliz, esbanjando saúde, bebendo cervejinha, lá no bar do Costa Quente, e falando bastante abobrinhas, e jogando bilhar… Ele ganhou uma boa grana…
– Ele me contou. Mostrou-me o dinheiro.
– O seu Jerônimo é fera no bilhar. Ganhou de todo mundo. De mim, duas vezes, e tirou-me do bolso duzendos reais. Ele é o nosso Rui Chapéu.
– Você pode me ajudar, Carlos Renato?
– Diga-me, dona Maria. Estou às suas ordens.
– Telefonei para o Hospital Municipal, e solicitei uma ambulância, mas todas as ambulâncias estão quebradas. O hospital não pode me ajudar. E eu tenho de tirar, daqui da sala, o corpo do finado Jerônimo. O finado Jerônimo não pode ficar aqui. Você pode me fazer o favor de vir tirá-lo e levá-lo, não sei para onde, para que se faça, nele, os estudos de… de… Você me entendeu, né, Carlos Roberto?
– Entendi, dona Maria. Entendi. A senhora sabe que eu quero ajudar a senhora, dona Maria, mas… Eu quero muito bem a senhora e o seu Jerônimo… Mas… Estou constrangido em ter de dizer à senhora que não poderei ajudá-los. A senhora e o seu Jerônimo me ajudaram tantas vezes… Mas… Eu não posso. O meu carro está sem combustível. Há uns minutos, eu pedi ao Sergio, o meu vizinho da direita, o carro emprestado, para eu ir socorrer a minha irmã, e ele me disse que o carro dele está sem combustível, e todos os postos de combustíveis estão fechados. Está um inferno, dona Maria, a cidade, um inferno. E ontem eu não pude socorrer um amigo meu. E eu conversei, anteontem, ontem e hoje cedinho, com alguns amigos, e com o meu pai, e com dois primos, por telefone, e todos eles me disseram que não têm combustível. Peço desculpas, dona Maria…
– Eu entendo, Carlos Renato. Eu entendo. Infelizmente, é esta a triste realidade.
– Eu estou constrangido em não poder…
– Não se preocupe, Carlos Renato, não se preocupe. Eu entendo. Todos estamos passando por uma hora difícil.
– E perdoe-me, dona Maria. Que falta de educação a minha! Eu ainda não desejei à senhora condolências. Desculpe-me, dona Maria.
– Você não tem que me pedir desculpas, Carlos Renato.
– Mas… Dona Maria, e quanto ao arroz e feijão? Sei que não é hora… A senhora tem arroz e feijão?
– Tenho.
– E alface, chicória, tomate, pimentão?
– Pimentão, não tenho. Mas tenho alface, chicória e tomate, e rúcula, agrião, quiabo e couve-flor.
– Que bom. E frutas a senhora tem?
– Tenho laranjas, maçãs, pêras, bananas e uma goiaba e um abacaxi.
– Que bom. E carne a senhora tem?
– Não. Carne eu não tenho.
– Não!?

 

Intermundos

Não eram sete horas da manhã daquele domingo ensolarado, quente, de verão, quando João, após uma prolongada noite de sono, acordou, sobressaltado, atormentando-o um pesadelo, animado por uma criatura extraordinariamente horripilante, e cujo teor emergiu-o das profundezas desconhecidas da alma, na superfície tranquila, no fundo agitada, e ergueu-se, sem se retirar de sob o fino lençol que o cobria durante a noite, protegendo-o do assédio de pernilongos irritantes, todos a lhe cantarem aos ouvidos canções que lhe feriam os tímpanos e atormentavam-lhe o espírito não o permitindo conciliar o sono, ao qual sucumbiu devido o cansaço que lhe roubara, no dia anterior, uma parcela significativa de suas energias, e sentado, agitado o coração, arregalados os olhos, nada podendo ver, pois reinava, no quarto, escuridão absoluta, perguntou-se, confuso, se acordara, ou se ainda vivia em um universo onírico, cuja realidade, fantástica, envolvia-o, perturbando-o, e procurou, circunvagando o olhar pela escuridão reinante, à procura de uma explicação aos eventos que em sonho vivera durante ou segundos, ou minutos, ou horas, os quais ele suspeitava reais, mas acreditava fictícios, uma resposta que o norteasse, certo de que encontraria, nas trevas que o envolviam, o monstro que lhe ia no encalço, numa região lúgubre, mas, reconheceu, tinha em torno de si apenas a escuridão, e, superando a linha tênue que separava do sonho a realidade, pôde tomar consciência de que se encontrava, nu, no seu quarto, sobre a cama, sentado, sob um lençol, o coração alvoroçado em decorrência do terror que o assaltara durante o sono, e refeito do susto, o qual lho inspirou um ser fantástico, organizou os seus pensamentos, e, recuperando o governo de seu corpo, controlou os batimentos de seu coração, retirou-se de sob o lençol, e andou, passos firmes, até o interruptor, localizado à direita da porta, premiu-o, e dominou o quarto a luz proveniente da única lâmpada que lá havia, no teto, enceguecendo-o a ele, João, que, então habituado à escuridão que no quarto reinava, levou, de imediato, a mão esquerda aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras, e assim que as descerrou, os olhos ainda sob a sombra projetada pela mão, e à luz se acostumando, viu, diante de si, uma criatura extraordinariamente horripilante, que abriu a bocarra, engoliu-o antes de ele atirar o grito que o terror lhe inspirara, e premiu o interruptor… e as trevas reconquistaram o seu reino.

Demônios

Abel premiu o gatilho do revólver. O projétil riscou o ar e alvejou um demônio enorme, alojando-se-lhe entre os dois olhos, um pouco acima do focinho. O demônio, cujas cerdas grossas cobriam-lhe o corpo volumoso, nenhum gemido emitiu. Tiro certeiro. Morte instantânea. Do buraco aberto pelo projétil escorreu sangue em profusão. O corpo sem vida tombou no piso do corredor do oitavo andar do prédio no qual Abel morava com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos, Cláudio e Gustavo.
– Enfim, morto – balbuciou Abel, respirando com dificuldade, acocorado ao lado do corpo gigantesco. – Você nunca mais me assustará, demônio dos infernos – e bateu-lhe, na cabeça, o revólver; embora recomposto, seu peito ardia, febricitado, e seu cérebro fervilhava, num turbilhão indomável de pensamentos e sentimentos.
Recuperou o governo de si, levantou-se, e olhou ao redor. Pisou, involuntariamente, na poça de sangue. Onde estavam os outros três demônios? Nenhum ruído chegou-lhe aos ouvidos. Os demônios, ou se invisibilizaram, ou ocultaram-se nas sombras. Com o revólver em punho, Abel arrastou-se à parede salpicada de sangue, andou pelo corredor, braço esquerdo retesado, o dedo indicador no gatilho, revólver apontado para a frente, olhos arregalados, braços firmes, à procura dos outros demônios.
– Não me escaparão – disse para si, encorajando-se.
Chegou ao fim do corredor. Ouviu ruídos atrás de si. Voltou-se, rapidamente. Divisou a silhueta indistinta de um demônio acocorado ao lado do cadáver do que matara.
– Pare! – gritou Abel, assustado, com o revólver apontado para o demônio, que, ao voltar-se para ele, emitiu um grunhido cavernoso, mais de tristeza que de fúria, misto de sofrimento e ira.
O demônio pôs-se de pé, e arreganhou a bocarra. Exibiu dentes afiadíssimos, e urrou, ameaçador, os olhos abrasados de cólera.
Arrepiaram-se os cabelos de Abel. Crisparam-se-lhe os pêlos.
Abel, petrificado, apontava, com as mãos trêmulas, o revólver para o demônio, que correu em sua direção, urrando de fúria.
Abel premiu o gatilho.
Reboou o disparo. O projétil alvejou o demônio no peito esquerdo, na altura do coração. O demônio tombou, arrastou-se, sob convulsões espasmódicas. Guinchava, estridente, frenético. Sangue ensopou-lhe a pelagem. Cessaram as convulsões. Abel conservou-se, o revólver apontado para o demônio, onde estava. Ao averiguar que os movimentos do demônio cessaram – ele estava morto, persuadiu-se Abel -, andou, cauteloso, até ele, os ouvidos e os olhos apurados, pronto para reagir a ataque de outro demônio. Curvou-se diante do corpo inerte. Para averiguar se ele estava morto, encostou-lhe no peito o cano do revólver. O demônio descerrou as pálpebras. Abel prorrompeu em maldições. Ergueu-se. Encarou o demônio. Apontou-lhe o revólver à cabeça.
Encontraram-se os olhos do demônio e os de Abel. O demônio cuspia sangue e berrava de dor. Os olhos de Abel irradiavam ódio.
Com a arma apontada para a cabeça do demônio e a fisionomia deformada pelo ódio que lhe corroia o espírito, Abel esbravejou:
– Demônio dos infernos! Volte para o inferno, demônio maldito!
O demônio esboçou um gesto, entreabriu os lábios, estendeu o braço e a mão direitas, emitiu um grunhido inaudível. Abel premiu o gatilho. Um projétil cravou-se na testa do demônio, que morreu, instantaneamente.
No mesmo instante, Abel divisou um demônio, que corria em sua direção, apontou-lhe o revólver para o peito esquerdo, e premiu o gatilho. O demônio esquivou-se, com agilidade insuspeita, do projétil, que se lhe resvalou o ombro esquerdo. Levou a mão direita ao ferimento, e deteve-se; e voltou a palma da mão para si, e viu-a manchada de sangue. Olhou para Abel, que lhe apontava o revólver; antes que ele premisse, mais uma vez, o gatilho, correu em disparada. Abel pulou por sobre os cadáveres dos demônios que jaziam na poça de sangue, e correu atrás dele. Seguiu o rastro de sangue, até a segunda porta à direita de cujo enquadramento deteve-se um pouco antes. Cauteloso, encostado à parede, olhou para a sala, para os móveis. Passou, cauteloso, pelo enquadramento da porta. Ouviu barulho atrás de si, vindo do corredor. Voltou-se, e deparou-se com um demônio. Arregalou os olhos, rilhou os dentes. O demônio, antecipando-se-lhe, vibrou o braço esquerdo, e desferiu-lhe um soco, na cabeça, arremessando-o para trás. Abel caiu, o nariz a sangrar. Apossou-se-lhe do espírito terror-pânico. Sentiu a consciência a se lhe desvanecer. Levou a mão esquerda ao nariz, e cobriu-o. Gemia de dor. Cuspiu sangue. O demônio aproximou-se de Abel, deu-lhe um pontapé na ilharga, pulou sobre ele, e fincou-lhe, no pescoço, as garras afiadas. Esvanecia-se a consciência de Abel. Com a visão embaciada, Abel viu diante de si um vulto indistinto. A sua audição falhava. Captava sons, distorcia-os, fundia-os, contraía-os, dilatava-os. Contraiu-se-lhe de dor o rosto. O demônio abriu a bocarra; exibiu seus dentes enormes, afiados. Exalava hálito nauseante. Seus olhos, injetados de cólera, penetraram a alma de Abel, sugando-lhe as escassas energias que lhe restavam. Abel, num esforço hercúleo, encostou, na têmpora esquerda do demônio, o cano do revólver, no mesmo instante em que ele lhe acertou, na face, um potente soco, roubando-lhe a consciência, e premiu o gatilho. O projétil atravessou a cabeça do demônio, e foi alojar-se na parede. O demônio tombou para a direita, morto.
Com as mãos no pescoço, tossindo, convulsivamente, Abel recuperava as cores naturais do rosto deformado por dores aflitivas. Restava, agora, um demônio. Quatro demônios haviam se instalado no oitavo andar. Abel despachou três deles para as entranhas do inferno. O remanescente, ferido, não lhe imporia dificuldades, previa. Não se desacautelou, todavia. Sabia que enfrentava uma criatura demoníaca, que poderia matá-lo com seu hálito venenoso e suas unhas e dentes afiados.
Descerrou as pálpebras. Olhou para o demônio caído ao lado. Ondas de calafrio percorreu-lhe a espinha.
Levantou-se com dificuldade visível. Massageou a ilharga. Removeu, com as costas das mãos, o sangue do nariz. Mordeu o lábio inferior, para conter os gemidos decorrentes da dor que o afligia. Sentia dores na perna esquerda. Amparou-se na parede. Tateando-a, foi na direção para a qual o demônio correra, ferido. Seguiu o rastro de sangue, pela sala, entre os móveis, até uma porta cujos maçaneta e batente estavam manchados de sangue. Cauteloso, apurou os ouvidos. Moveu, lentamente, a maçaneta. Abriu a porta, cuidadosamente. Na mão direita, o indispensável revólver, que, em menos de cinco minutos, aniquilou três demônios. Naquele compartimento reinava a escuridão. Abel mal podia ver o que havia diante de si. Via os objetos que estavam até a dois metros à sua frente; além disso, distinguia os contornos de alguns móveis; os outros estavam ocultos sob espessa penumbra e as trevas predominantes. Ao enquadramento da porta, preparado para atacar, ou para revidar a um ataque, premiu o interruptor. Acenderam-se as duas lâmpadas fluorescentes.
O tapete estava salpicado de sangue.
Abel abriu um sorriso tímido e contido.
Empunhava o revólver com mãos firmes e músculos retesados. Apurou os ouvidos. Enveredou pela sala, pé ante pé, seguindo o rastro de sangue no tapete.
Ouviu ruídos inaudíveis, de passos, indo, até ele, do compartimento contíguo, para o qual o rastro de sangue o conduzia. Cuidadoso, passos medidos, curtos, chegou ao enquadramento da porta, e relanceou os olhos pela sala. Nada viu. Ouviu ruídos. Recuou. Assim que cessaram os ruídos, olhou para a sala. Divisou, levantando-se, três metros à sua frente, de costas para si, o demônio, que se virou ao pressentir Abel, que premiu o gatilho quatro vezes. Um projétil alvejou o demônio, no peito esquerdo; um cravou-se-lhe na testa; um, no pescoço, e um no nariz. O demônio tombou pesadamente, morto.
Encostado à parede, ofegando, com o coração descompassado, os olhos esbugalhados, os braços estendidos, as mãos com os dedos retesados segurando o revólver fumegante, Abel fitava o cadáver repulsivo.
– Vá para os infernos, demônio – bradou, triunfante.
Abel abaixou a cabeça, e encostou o queixo no peito. Cerrou as pálpebras, largou os braços; segurava o revólver com a mão esquerda. Levou a mão direita aos olhos, e massageou-os com o polegar e o índice. Encheu os pulmões de ar, e esvaziou-os. Descerrou as pálpebras, fitou o cadáver do demônio. Regozijou-se. Triunfou. Matou quatro demônios. Era um vitorioso.
Enfim, após verificar que o demônio estava morto, retirou-se do apartamento. Qual foi a sua surpresa ao deparar-se com demônios que, à espreita, no enquadramento da porta de outros apartamentos, berravam, ameaçadores. Abel regressou ao apartamento. Ouviu passos, que lhe chegaram do compartimento no qual matou o último dos quatro demônios. O demônio ressuscitara? Os quatro demônios haviam ressuscitado? Um demônio apareceu ao enquadramento da porta. Abel premiu o gatilho. O projétil alojou-se na parede, atrás do demônio, que, com um salto, foi para trás de um sofá. Abel premiu o gatilho três vezes. Na terceira vez, ouviu um estalo. Acabaram-se os projéteis. Agora teria Abel de enfrentar os demônios em lutas corpo-a-corpo. O demônio que pulara para trás do sofá levantou-se e avançou contra Abel, que, petrificado, viu-o indo em sua direção. Outros quatro demônios entraram pela porta que dava ao corredor, e correram na direção de Abel. Eram altos, fortes, maiores do que os quatro que Abel matara. Eles o agarraram, imobilizaram-no, arremessaram-no ao chão, puseram-no deitado de barriga para baixo, e torceram-lhe os braços às costas.
Um demônio, com o joelho esquerdo prensando Abel no chão, rosnava e rilhava os dentes. Outro, apertava-lhe, com um pé, o pescoço. E um demônio sentenciou:
– Abel, você está preso pelos assassinatos de seu pai, sua mãe e seus irmãos.

A rua do terror

Noite alta. Não havia viv’alma naquela rua mal iluminada, deserta. Júlio vagava, devaneava. Ao dar-se conta de onde estava, ficou apavorado. Seu coração bateu descompassado. Ouvia as palpitações, tão intensas, que ele acreditava que o coração romper-lhe-ia o tórax. Olhou em redor. Que rua era aquela, perguntou-se. Obnubilou-se-lhe a consciência. Como ele foi parar naquela rua? Lembrava-se de que caminhava, tranquilamente, por uma avenida atulhada de gente, vibrante de vida, e agora via-se naquela rua lúgubre, apavorante.

Sem se dar conta, enveredara por aquela rua, que lhe inspirou o mais terrível pavor. Uma rua que, devido ao seu aspecto sinistro, excitou-lhe os instintos que a natureza conservou ao longo de milhares de anos de evolução. Humano numa sociedade científica, conservava, latente, os instintos dos seus antepassados nômades.

Que rua era aquela? Nos postes, as lâmpadas bruxuleavam. Cones de luz fraca mal iluminavam os pés dos postes. Além dessa luz, as trevas reinavam absolutas. O silêncio, ensurdecedor. Era impossível – pensou Júlio – a existência, numa metrópole de vinte milhões de habitantes, de uma rua tão extensa e tão larga deserta àquela hora da noite. De repente, ventos frios fenderam o ar; iguais lâminas, cortaram-lhe a pele; e assobios tenebrosos chegaram-lhe aos ouvidos. Júlio pensou ouvir vozes cavernosas. Assustado, procurou pela direção da qual chegaram-lhe os ventos e os assobios. Ouviu ruídos indistintos. Aceleraram-se-lhe as palpitações do coração. Seus nervos estavam à flor da pele.

Surpreendendo-o, chegou-lhe, pelas costas, um barulho, que lhe feriu os tímpanos. Seus instintos o alertaram para o perigo que se lhe avizinhava, mas não o definiram, não lhe informaram a origem. O mistério que envolvia fenômenos tão estranhos assustou-o sobremaneira. Júlio não sabia o que pensar; não sabia como agir. Petrificou-se. Que rumo tomaria? Olhou para um lado. Não viu, no horizonte, o final da rua. Olhou para o outro lado. Qual a extensão da rua? Dois quilômetros? Dez quilômetros? Não logrou mensurar-lhe a extensão. Não viu nenhuma interseção daquela rua com outras ruas. A rua era demasiadamente extensa; não tinham fim as quadras que a circunscreviam.

Como, pensava Júlio, chegara àquela rua? De qual direção chegara? E agora, o que faria? Ficaria, lá, parado, a olhar de um lado para o outro? Ladeavam a rua extensos muros de sete metros de altura. E os prédios, e as lanchonetes, e os bares, e as agências bancárias, e as discotecas, e os teatros, e as livrarias, e as farmácias, e as bancas de jornais, e as pizzarias, e as doçarias, e as padarias, e as joalherias, e os consultórios médicos, e as lotéricas?

Transcorreram minutos. O coração de Júlio vibrava, descompassado. Júlio mal podia respirar. Suava em demasia. Sentiu esvanecer-se-lhe a mente. Esmorecia-lhe o ânimo. Imobilizado, não dava um passo. Seus pés, pareceu-lhe, enraizaram-se no asfalto.

Chegou-lhe aos ouvidos, não soube dizer de qual direção, ruído sinistro, tenebroso.

Voltou-se para a direção da qual acreditava que o ruído lhe chegara.

Arregalou os olhos. Aguçou os ouvidos. Viu trevas no horizonte e além dos muros.

Estava amedrontado, terrivelmente assustado. Suas pernas não respondiam à sua vontade. Dava-lhes ordens, em pensamento: “Mexam-se, pernas. Mexam-se, pernas”. Elas não se mexiam. O medo fê-las insubordinadas. Se o medo que afligia Júlio se exacerbasse, e Júlio se prostrasse, as pernas correriam, e abandonariam Júlio, lá, naquela rua tétrica. O tempo passava. Júlio imergia num estado letárgico, transido de medo. Seu corpo assumia a constituição de uma rocha inquebrável. Júlio a anteviu a sua morte. Veio-lhe à mente a imagem de seu coração pulsando nas mãos de uma criatura monstruosa. De sobreaviso, sentiu a aproximação de perigo. Uma ameaça rondava-o, sentia. Atormentava-o tal situação.

Olhou em redor.

As luzes bruxuleantes das lâmpadas.

Os muros.

Pareceu-lhe que a rua estreitava-se; que os muros encontravam-se no horizonte, e cercavam-no.

Silêncio. Nenhum ruído tétrico. Nenhum assobio sinistro.

Assustado, olhou em redor.

A rua, os muros, os postes cujas lâmpadas bruxuleavam.

Nenhuma alma viva. Nem a de um rato, nem a de um cachorro vadio, nem a de um mendigo esfarrapado, nem a de um bêbado maltrapilho, nem a de um transeunte desempregado.

Intrigante! Não há, nas metrópoles, uma rua deserta. Júlio não pôde dizer para si que não estava em uma rua deserta.

Que mistério era esse?

Que enigma Júlio teria de decifrar?

Júlio deu um passo, olhou em redor, coração aos pulos. Deteve-se. Estudou, os ouvidos apurados, os olhos penetrantes, o trecho da rua que seus olhos abrangiam. Ouviu apenas a sua respiração ofegante e as palpitações de seu coração.

Deu um passo. Nenhum ruído ouviu, e nenhuma voz.

Deu um passo.

O intervalo de tempo entre o terceiro e o quarto passos foi consideravelmente menor do que o intervalo entre o segundo e o terceiro e o entre o primeiro e o segundo. Esquadrinhou a rua à procura de uma criatura à espreita. Manteve-se afastado dos muros. Uma aparição sobrenatural, um fantasma, um monstro de sete cabeças, um animal feroz, uma pessoa feroz, um inumano, um homicida frio e calculista, imaginou Júlio, saltaria, não sabia de onde, sobre ele, e o mataria, faria picadinho dele, e o devoraria.

Deu passos, confiante e inseguro.

Deteve-se ao ouvir ruídos sinistros. Sussurros. Vozes humanas, pensou. De várias pessoas. O que havia lá? O que acontecia? De onde lhe chegaram os sussurros? Eram vozes humanas? Paralisado, seus olhos fixaram-se num ponto à sua frente. Viu o vazio. A tensão acelerou-lhe os batimentos cardíacos. Os sussurros chegaram-lhe aos ouvidos, não sabia de qual direção. Pareceu-lhe que se originavam de detrás do muro. De qual? Do da direita, ou do da esquerda?

Não sabia que direção tomar. E se desse um passo, e as pessoas – pessoas? – o atacassem? Para onde correria? O que havia atrás do muro à sua direita? O que havia atrás do muro à sua esquerda? O que havia nos bueiros? Os bueiros! – nesse momento Júlio atentou para os bueiros. Os bueiros! Havia um bueiro diante dele, silencioso, escuro, tétrico. Do bueiro saíam os sussurros que ouvira? Vivia gente no subterrâneo da metrópole? Humanos? Inumanos? Entes sobrenaturais? Fantasmas? Monstros? Entes malignos? Quais criaturas sondavam-no? Seguiam-lhe os passos? Preparavam-lhe um ataque? Os ruídos – sussurros, vozes humanas, acreditava Júlio – desapareceram.

Silêncio tétrico reinou.

Viu-se às portas da morte, na iminência de se deparar com o agente que lhe suprimiria a vida. Vieram-lhe reminiscências de épocas felizes. Relembrou as suas conquistas, os desafios que enfrentou, estudante, no vestibular, a sua classificação, os primeiros dias de aula na faculdade de engenharia eletrônica. Evocou a sua namorada, Beatriz, belíssima loira de um metro e sessenta. Romperam o namoro quando ela se transferiu, com o pai, a mãe e a irmã, para Belo Horizonte. Tinham dezenove anos. Foi a sua primeira experiência amorosa; a sua primeira desilusão. Pensava casar com ela, e com ela constituir uma família. Amava-a. Trocaram juras de amor eterno durante um ano, por telefone e cartas. A distância física, no entanto, afastou-os. Beatriz conheceu outro rapaz, com quem namorou. Júlio conheceu Alice, apaixonou-se por ela, e eles namoraram durante três meses – a incompatibilidade de gênios fê-los romperem o namoro. No terceiro ano na faculdade, estagiário em uma empresa de informática, Júlio conheceu Margharete. Namoraram durante dois anos. O namoro, que havia começado com juras de amor eterno, degenerou em brigas intensas, até que, enfim, decidiram seguir cada um deles o seu rumo. Evocou as desavenças com seus irmãos, seu pai e sua mãe, e os desentendimentos com alguns dos seus amigos, e os dois anos que se manteve distante de sua família, após brigar com seu pai. Evocou a sua vida vadia de três anos, perdido, nos prostíbulos, nos botecos, embriagado, caindo pelas ruas escuras da cidade, e o dia em que jovens vadios o agrediram. Assomaram-lhe à mente, numa golfada avassaladora, reminiscências do dia em que foi hospitalizado por consumo excessivo de maconha e o da sua prisão. Recapitulou o seu regresso à família, os sucessivos desentendimentos com seu pai, sua mãe e seus irmãos. Irromperam-lhe à mente imagens do seu retorno aos estudos, da sua reconciliação com seus familiares e amigos, do seu novo emprego, do sucesso obtido, da fortuna amealhada, das novas amizades. Assomaram-lhe à mente a figura de Marco Antonio, filho seu e de Fátima, garoto bonito, saudável, vistoso, que, duas semanas antes, completara um ano de vida.

Olhou em torno. Fixou a sua atenção no bueiro à sua frente. Dos bueiros saíram os ruídos, os sussurros?

Deu um passo. Deu outro passo. Deteve-se. Deu um passo. Manteve-se no meio da rua. Andou três metros. No horizonte encontravam-se os dois muros. Assustou-a ilusão.

Olhou em redor.

Andou, lentamente, poucos metros. Fixou o olhar nos bueiros pelos quais passou. Deteve-se. Olhou para a frente; não viu o fim da rua, não viu o fim dos muros.

Reinava a escuridão.

Pensou em correr. Deu dois passos. Deteve-se. Olhou para a frente. A rua não tinha fim. Andou. Quantos metros? Decidiu correr. Deteve-se. Mais uma vez, tentou correr. Deu alguns passos, largos, sempre na mesma direção. Não imprimiu velocidade. Com esforço, percorreu vários metros. Aos poucos, adquiriu confiança. Não ouvia nem um som, nem um ruído, nem uma voz. Acelerou os passos. Não suava, não respirava com dificuldade, não se sentia estrangulado, nem afobado, nem sufocado. Comandava seu corpo. Andou, com passos lentos; depois, com passos acelerados.

Correu um metro… Correu dez metros… Correu vinte metros… Cem metros… Duzentos metros… Quinhentos metros… Mil metros.

Os muros não tinham fim. Não chegou ao fim da rua. Ficou tenso, apavorado. Expandiam-se os muros. Não via o fim da rua e dos muros. Seu coração pulsou mais forte. Sentiu-se estrangulado, sufocado. Afligiam-no fortes dores de cabeça. Doíam-lhe músculos. Deteve-se. Sentiu-se desfalecer. Exausto, ofegante, curvou-se, com a mão direita ao peito esquerdo. Encolheu-se. Dobrou os joelhos. Pôs a mão esquerda no asfalto. Cuspiu. Tossiu repetidas vezes. Arrastou-se. Cerrou as pálpebras. Deitou sobre o lado esquerdo do corpo. Não tinha forças para se levantar, nem para levantar a cabeça, pousada sobre o braço esquerdo. Encolheu as pernas. Anteviu a sua morte. Tremia da ponta dos dedos dos pés até o topo da cabeça. Doía-lhe o corpo.

Adormeceu.

Despertou.

Aos seus olhos revelou-se a rua sinistra. Confuso e cansado, perguntou-se o que lhe aconteceu. Permaneceu deitado. Cerrou as pálpebras. Respirou fundo. Ouviu um grito estridente de mulher terrivelmente assustada. Deu um pulo, e preparou-se para defender-se de um ataque iminente. De qual direção chegara-lhe o grito? Olhou em redor. Pensou ter visto um vulto. Do bueiro saía uma criatura rastejante, disforme. Não lhe deu uma feição. Seu coração vibrou, descompassado. Recuou, tenso, assustado. Que coisa era aquela mancha escura disforme terrivelmente assustadora que assumiu a figura de uma criatura encapuzada, arrastava as bordas das vestes no asfalto, emitia voz sinistra, e cujos pés não se viam, e ia na direção de Júlio, que, assustado, o coração a vibrar descompassado, andava para trás, olhos fixos nela? Júlio ofegava, suava em bicas, chorava; corrente de calafrio percorreu-lhe a espinha. Eriçaram-se-lhe os pêlos. Virou-se nos calcanhares. Correu, desembestado. Tropeçou nas pernas. Caiu. Escalavrou o joelho e o cotovelo esquerdos. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, e bateu com o queixo no asfalto. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, dobrou-se sobre o seu corpo, esfolou o braço direito e torceu o pulso direito. Levantou-se. Correu. Sentiu a respiração da criatura encapuzada, que ia no seu encalço. Caiu. Agarraram-no, pelos tornozelos, mãos de unhas enormes e grossas. Gritou. Sangue escorreu-lhe dos tornozelos. Afligiram-no dores pungentes. A criatura encapuzada arrastou-o para um bueiro, cuja tampa Júlio agarrou. Outra criatura encapuzada saiu de um bueiro, do outro lado da rua, foi até Júlio, e pisou-lhe nas mãos. Júlio soltou a tampa do bueiro, e caiu às profundezas.

De um bueiro, um homem foi arremessado para a rua: Júlio. Ele estava cadavérico, e mal pôde pôr-se de pé, mal pôde abrir os olhos. Ao dar-se conta de onde estava, viu-se à esquina de um cruzamento de duas avenidas iluminadas repletas de gente. Voltou-se para trás. Atrás de si, um muro de quatro metros de altura. Voltou-se para a avenida iluminada. Andou, cambaleando, em meio à multidão alvoroçada. Ombros caídos, braços pendendo pelas laterais do corpo, respirando com dificuldade, foi para a sua casa.

A casa dos horrores

Quarta-feira. Dia quente. Ariadne chegou, às onze e meia, na sua casa, saltitando de felicidade, lindo sorriso a sublimar-lhe a beleza do rosto de traços suaves. Queria ir ao banheiro tomar um banho revigorante e, depois, almoçar; antes, porém, contaria para sua mãe, Carmem, as boas novas: 10, em História; e 9, em Biologia. Percorreu toda a casa à procura dela; não a encontrou. Contrariada, foi ao quarto. Deixou os cadernos e os livros sobre a escrivaninha, sentou-se na cama, e descalçou os pés; descalça, foi até o guarda-roupa, de cuja gaveta inferior retirou uma calcinha e um short, e uma camisa da gaveta superior. Ato contínuo, foi ao banheiro. Não trancou a porta. Pôs as roupas que retirara do guarda-roupa sobre a tampa do vaso sanitário. Despiu-se. Pôs-se sob o chuveiro. Abriu-o. Atingiu-lhe o corpo, que pedia um pouco de refresco, a água fria. Arrepiaram-se-lhe os finos pêlos dos braços. Ao acostumar-se com a temperatura da água, deixou-se molhar, deliciada.

Durante o banho, passeava as macias mãos pelo corpo sedoso. Feliz, elogiava-se, em pensamento, pelo seu desempenho nas provas de História e Biologia.

Ariadne queria seguir carreira de oftalmologista. Pretendia, no final do ano, prestar exame vestibular nas mais conceituadas universidades brasileiras. Como todos os jovens, construía suntuosos castelos no ar. Via-se, vergando o uniforme branco, em um consultório em cuja porta lia-se, em uma plaqueta: ‘Doutora Ariadne Almeida Vargas. Oftalmologista’.

A água escorria voluptuosamente pelo corpo exuberante de Ariadne, que empinava o busto e jogava a cabeça para trás, jogando, para as costas, os longos cabelos bem cuidados, permitindo, assim, que a água lhe atingisse o belo rosto. Com as pálpebras cerradas, abria a boca e a enchia com um pouco de água, soltando-a logo em seguida. Imersa no prazer que o banho permitia-lhe desfrutar, permaneceria sob o chuveiro por mais um bom tempo. De repente, ao golpear-lhe indefinível sensação de desconforto, abandonou os seus devaneios. Não saberia explicar, se alguém lha indagasse, o que a alertara para a ameaça que dela se aproximava. Descerrou as pálpebras. Voltada para a parede, de costas para a porta do banheiro, olhou por sobre o ombro esquerdo, e viu, a poucos centímetros de si, o corpo volumoso, nu, repulsivo, coberto de pêlos, de Clodoaldo, seu pai, cujos olhos, que transbordavam lascívia animalesca, miravam-na, e cuja fisionomia estampava rictus doentio, insano, crudelíssimo. Ariadne sentiu intenso calafrio percorrer-lhe o corpo e gelar-lhe a espinha. Era indisfarçável o estado de embriaguez de Clodoaldo, que exibia rosto inchado, avermelhado. O odor que ele exalava feriu o nariz de Ariadne, que, assustada, petrificada, encarou-o, olhos arregalados; ao abaixar o olhar, ela se assustou com o que viu, e, automaticamente, adivinhou as intenções de seu pai.

Clodoaldo segurou o pênis ereto e exibiu-o para Ariadne, que começou a tremer, a balbuciar palavras desconexas. Dos olhos dela escorreram lágrimas. Clodoaldo deu um passo para a frente. Ariadne preparou um berro. Clodoaldo precipitou-se sobre ela, cobriu-lhe a boca com a sua enorme mão áspera, impedindo-a de gritar, e sussurrou-lhe obscenidades, numa voz cavernosa – e de sua boca escapava hálito putrefato. Apertou-se nela. Esfregou-se nela. Buscou, com os lábios, os lábios de Ariadne, que tentou, em vão, com as mãos, afastá-lo de si. Ele a premiu à parede, enfiou-lhe as mãos entre as coxas, para forçá-la a afastar as pernas uma da outra. Ariadne resistia, mas nada podia fazer em sua defesa. Clodoaldo era corpulento, pesado, forte. Ariadne, de um pouco mais de um metro e sessenta centímetros de altura e sessenta quilos, não podia lhe opor resistência. Clodoaldo mordeu-lhe o lábio superior, ao mesmo tempo que, com a mão direita, puxava-lhe os pêlos pubianos e, com a mão esquerda segurando o pênis ereto, forçava a penetração. Os seus músculos estavam contraídos; os vasos sanguíneos, intumescidos. Ariadne não conseguiu protestar, nem clamar por socorro. Deu início a um grito sufocado, que Clodoaldo abafou cobrindo-lhe a boca com a mão direita.

Ariadne chorava, convulsivamente.

Clodoaldo, frustrado com as suas infrutíferas tentativas de violar Ariadne, emitiu um abafado urro de raiva e, ao mesmo tempo, com as coxas esforçava-se, em vão, para afastar as pernas de Ariadne uma da outra. Contrariado, surpreso com a resistência de Ariadne, retirou-a, apertando-lhe o pescoço com a mão direita e o braço direito com a mão esquerda, de sob o chuveiro. Ariadne quis resistir, mas não pôde impor resistência a um homem dez vezes mais forte do que ela.

Ariadne sentiu dor insuportável.

Clodoaldo, nervoso, irritado, impaciente, encaixou um potente soco no ventre de Ariadne, roubando-lhe o ar dos pulmões. Ariadne chorava, aterrorizada. Clodoaldo puxou-a pelos cabelos, jogou-a no chão, de costas, deitou-se sobre ela; com os lábios ardendo de bestialidade, sugou-lhe os lábios, mordeu-os, ao mesmo tempo que com a mão direita segurava o pênis ereto e forçava-o para dentro de Ariadne – enquanto com a mão esquerda puxava os cabelos dela, infligindo-lhe dores indescritíveis. A dor que Ariadne sentiu, no exato momento da penetração, quase lhe roubou a consciência. Ela sentiu o ventre rasgando-se. Clodoaldo, ávido, lascivo, desferiu estocadas violentas, indiferente à pungente dor que lhe infligia e ao seu choro convulsivo. Enquanto ejaculava, a intensa sensação de prazer que o invadiu fê-lo mais agressivo, mais bestial, mais rude, mais grosseiro, e impeliu-o a mover-se com estocadas mais furiosas, ferindo Ariadne mais profundamente. Ao sentir-se satisfeito, de Ariadne retirou-se e conservou-se, as pernas abertas e os joelhos no chão, sobre ela, exibindo-se-lhe, e ameaçando-a:

– Você, boneca deliciosa, nada contará para sua mãe. Belezinha! Gostosinha! Entendeu, brotinho? Docinho! Se você der um pio, cabacinha, matarei você. Se você abrir o bico, matarei você, boquinha lindinha do papai. Está vendo, menininha gostosinha, o que tenho nas mãos? – e esfregou-lhe o pênis flácido no rosto. – Você já experimentou o papai, peitudinha. Esta foi a primeira vez, cabacinha. E não será a última. Entendeu? Se você contar alguma coisa para sua mãe, arrebentarei você. Você é minha filha, fofurinha do papai. Com você, faço o que bem entender. Entrarei em você sempre que eu desejar. Belezinha. Filhinha do papai. Com você, faço o que quiser. O que quiser, entendeu? Se você abrir o bico, matarei você. Ai de você, vadiazinha do papaizão, vagabundinha deliciosa, se você contar para sua mãe. Sabe o que farei, se você der com a língua nos dentes, cabacinha? Arrombarei você e enfiarei uma faca no seu coração, entendeu, cabacinha? Arrombarei você. Belezurinha, entrarei pela porta dos fundos e pela porta da frente. Se você contar para alguém, cabacinha, matarei você. Terei o seu sangue nas minhas mãos. Belezinha. Cabacinha. Se você contar para sua mãe, ou para qualquer pessoa, matarei você. Matarei você! Não estou brincando, vadiazinha, depravadazinha. Não estou brincando. Arrombarei você, matarei você, farei picadinho de você, e lamberei os seus ossos, e jogarei os seus pedaços para os vira-latas. Entendeu, cabacinha? Se você contar para alguém, matarei você. Matarei você, uma, duas, três vezes. Matarei você quantas vezes eu quiser.

Ariadne, sem forças para se levantar, conservou-se deitada, a chorar convulsivamente. Todo o seu corpo doía-lhe. Vibrava-o dores insuportáveis. Ela nunca havia se sentido tão indefesa, tão impotente, tão frágil, tão desamparada, tão abandonada, tão só.

– Levante-se, bonequinha. Cabacinha do papai. Vista-se, fofurinha vadia – gritou Clodoaldo, ao mesmo tempo que puxava Ariadne pelos cabelos e jogava-lhe as roupas em cima. – Não quero que sua mãe veja você assim, nuazinha em pêlo, cabacinha. Pare de chorar, belezinha do papai. Levante-se! Enxugue as lágrimas, garotinha mimada. Levante-se! Você quer brincar mais um pouquinho com o papaizinho? – deu-lhe dois pontapés, apertou-lhe os braços e a pôs sentada, no chão, encostada à parede. O rosto de Ariadne, deformado pelo medo e pela dor, estava irreconhecível. – Pare de chorar, vagabundazinha! O mundo não desabará porque entrei em você, belezurazinha do papai. Não faça docinho, lindinha do papai. Não faça biquinho, pitéuzinho. Para o chuveiro, cabacinha! Limpe-se! Cabacinha, tire todo esse sangue daqui. Que sujeira você fez! Vagabundazinha vadia do papai! Você sujou o banheiro, cabacinha. Nunca vi tanto sangue em minha vida! Nem no açougue do Baião há tanto sangue!

Ariadne pôs-se sob o chuveiro, sentada, as pernas encolhidas. Abraçou-as. Enfiou a cabeça por entre os joelhos, mantendo-a presa entre eles. Chorava convulsivamente. Clodoaldo perdeu a pouca paciência que lhe restava, desligou o chuveiro, arrastou Ariadne, pelo braço, machucando-o, até o quarto, jogou-a sobre a cama, voltou ao banheiro, pegou uma toalha, regressou ao quarto, e pôs-se a enxugar Ariadne; admirava-lhe o corpo bem feito, apertava-lhe os peitos, sugava-lhe os mamilos e ameaçava violá-la mais uma vez.

*

Ariadne testemunhava, diariamente, discussões violentas entre seu pai e sua mãe – discussões que, infalivelmente, degeneravam em violência física. No quarto, deitada em posição fetal, chorava convulsivamente. Os seus sentimentos, confusos, indefiníveis, perturbavam-na. Certo dia, Clodoaldo surrou Carmen com tanta violência que lhe pôs hematomas em todo o corpo e quebrou-lhe o nariz e o braço esquerdo. Em outra ocasião, Clodoaldo quebrou uma vassoura nas costas de Carmen, e espancou-a, dias depois, a ponto de roubar-lhe a consciência. Ariadne ficou apavorada no dia em que viu Clodoaldo estuprar Carmen, e recolheu-se ao quarto. Não dormiu à noite. Não conseguiu afugentar de si as imagens terríveis que presenciara e as lembranças do dia em que foi estuprada. Temia que Clodoaldo invadisse o quarto, a atacasse e a violentasse.

*

A casa estava imunda. Era um antro de criaturas repulsivas. Ratos, baratas e outros animais peçonhentos circulavam, livremente, de um lado para o outro, por toda a casa, que, meses antes, brilhava de tão limpa. Ariadne, antes, caprichosa, era quem conservava o brilho da casa, com faxina diária; agora não se incomodava com a imundície.

Num certo dia, a voz embargada, durante uma conversa com sua mãe, assim que ela lhe perguntou porque estava tão triste, disse-lhe:

– Mãe, o pai me estuprou.

Carmen alterou-se de imediato; furiosa, fungando, desferiu um tapa no rosto de Ariadne, que ficou apavorada com tal reação. Carmem esbofeteou-a, cuspiu-lhe ofensas. Ariadne não reagiu; sentiu a consciência dissipar-se. Não recuou, no início, tão surpresa com a reação de sua mãe, pois acreditara que dela ouviria palavras de consolo, afinal, ela, Carmen, era sua mãe, e, além disso, Clodoaldo a havia estuprado. Como os tapas, os socos e os insultos sucederam-se, avassaladoramente, protegeu-se com os braços e os antebraços, e impôs débil resistência. Carmem puxou-lhe os cabelos, forçou-a a curvar-se, e deu-lhe tapas nas costas e no rosto.

– Você, filha… Fala de seu pai… – repreendeu-a Carmen. – Não o calunie, filha ingrata. Ele trata tão bem você. Seu pai é um homem amoroso. Ele é seu pai, cadela. Cadela! Vagabunda! Por que você fala isso de seu pai? Por que você inventa essas histórias? Por que, ingrata? Vadia! Cachorra! Não admitirei que você calunie seu pai, filha ingrata. Ele sempre tratou tão bem você! Ele sempre foi amoroso com você! Cadela vagabunda! Por que você inventou essa história?

– Não inventei história… – defendeu-se Ariadne, aos prantos. – Eu disse a verdade; você sabe que eu disse a verdade. Ele… Ele… Eu, no banheiro… Ele… Ele entrou… Ele me agarrou… Ele me deu um murro… Ele… Ele… Mãe… Ele me jogou no chão… Deu-me um murro… Ele me forçou… Mãe, ele… Eu… Ele me ameaçou… Ele me disse… Se eu contasse… Ele me disse… Ele me mataria… Ele me disse…

– Mentirosa! Vagabunda! – berrou Carmen, que, furiosa, deu um tapa em Ariadne, arremessando-a sobre uma cadeira.

– É verdade, mãe – retrucou Ariadne, aos prantos, mal conseguindo pronunciar as palavras. – Estou falando a verdade. Por que eu mentiria? Ele… Ele… – impediam-na de falar os soluços e o choro convulsionado. – Ele… Ele me ameaçou… Ele me estuprou… Ele…

– Cale a boca, vagabunda! – berrou-lhe Carmen, ao mesmo tempo que ameaçava dar-lhe um tapa. – Seu pai é um homem amoroso.

– Amoroso? Ele… Eu… Eu o vi batendo em você… – disse Ariadne, soluçando, gaguejando. – Ele deu murros na sua barriga, mãe… Com a vassoura… Ele quebrou seu nariz… Ele deu murros em você, mãe. Eu vi… Vi… Vi, um dia… na quarta-feira… ele… ele…  – mal podia falar; tremiam-lhe os lábios, convulsivamente. – Ele… Ele… Eu o vi… – Não pôde concluir a frase.

Carmen acertou-lhe, na cabeça, uma série de cinco socos. Ariadne, que já chorava, convulsivamente, agora, encolhida em posição fetal, no canto da cozinha, espremida entre a geladeira e a parede, a vibrar em espasmos de dor e de medo, chorava copiosamente, mal conseguindo respirar.

– Mentira! Mentira! Mentira! – esgoelava-se Carmen, enfurecida, enquanto esmurrava Ariadne. – Você nunca viu… Vagabunda! Nada aconteceu, filha ingrata! Cadela vagabunda! Seu pai nunca me bateu! Vagabunda! Suma da minha frente, filha ingrata! Seu pai é um homem amoroso! Pare de inventar essas histórias, vagabunda! Cadela! Vagabunda! Cadela! Piranha! Puta! Vagabunda! Você se ofereceu para seu pai, puta! Você o seduziu, vagabunda! Você se entregou para ele, puta! Puta! Você seduziu seu pai. Você se entregou para ele. Cadela! Vagabunda! Puta, suma da minha frente!

Ariadne mal conseguiu pôr-se de pé. Carmen, furiosa, olhos cheios de ódio, ergueu-a pelos cabelos, esbofeteou-a. Ariadne retirou-se da cozinha, cambaleando. Carmen arremessou-lhe um copo, acertando-lho nas costas. O copo estilhaçou-se. Ariadne, cambaleando, aos prantos, a chorar convulsivamente, andou pelo corredor até o seu quarto. Entrou. Fechou a porta, à chave. Deixou-se cair sobre a cama. Chorou, durante as seis horas seguintes, até adormecer. Do quarto retirou-se, com o rosto inchado, os olhos avermelhados, os cabelos despenteados, trajando camisa e calça amarfanhadas, ao amanhecer. Andou, sem rumo, pela cidade. Regressou, esfomeada, exausta, imunda, noite alta, entrou no quarto, trancou-o à chave, jogou-se na cama, e dormiu.

*

No seu quarto, sentada na cama, livro e caderno sobre as pernas cruzadas, um lápis na mão direita, Ariadne estudava para a prova de Matemática, marcada para o dia seguinte. Fazia alguns cálculos, recorria às explicações do livro, mordia a ponta do lápis, concentrada, de cenho franzido, nas questões propostas pela professora.

A porta abriu-se, de repente, com um golpe violento. Ariadne, assustada, os olhos esbugalhados, voltou-se para a porta, em cujo enquadramento viu, para o seu horror, Clodoaldo, que a fitava, bufando, ameaçador. Ondas de calafrio percorreram o corpo de Ariadne, que sentiu o sangue se lhe fugindo. Ariadne largou o lápis, encostou-se à cabeceira da cama, abraçou as pernas, enfiou a cabeça no espaço entre elas, e começou a gemer, a soluçar, a chorar, antecipando os eventos subseqüentes. Tremia, apavorada. Sabia o que lhe sucederia. Clodoaldo fechou a porta atrás de si, à chave, mirando Ariadne com olhos encolerizados, fisionomia carregada; andou até ela, e, num tom áspero, ameaçador, rilhando os dentes, disse-lhe:

– Cabacinha, você contou para sua mãe…

Ariadne tremia, balbuciava qualquer coisa, amedrontada.

– Cabacinha, você contou para sua mãe… – disse Clodoaldo, que se curvou sobre Ariadne, puxou-lhe, pelos cabelos, a cabeça. Dos olhos de Ariadne escorriam lágrimas copiosas, e seus lábios tremiam convulsivamente. – Não chore, queridinha do papai. Papai avisou você, fofinha, não avisou? Papai disse para você, vadiazinha, não contar para sua mãe, não disse? Papai está triste com a filhinha queridinha. Filhinha cabacinha é desobediente. Filhinha queridinha merece castigo. – Enquanto dizia-lhe isso, desabotoava-lhe a camisa. Ariadne estava paralisada pelo terror-pânico que a avassalava. Assim que, animada por alguma força oculta, principiou um grito, Clodoaldo, furioso, deu-lhe um soco na face esquerda, com tanta força, que Ariadne caiu, desacordada, o nariz a jorrar sangue. Clodoaldo, rilhando os dentes, resmungando maldições e obscenidades, rasgou-lhe as roupas, deitou-se sobre ela, e a estuprou. Após se satisfazer, não removeu o sangue que manchava os lençóis e o que enfeava Ariadne, abandonada, lá, como uma boneca imunda.

*

– Você… – gritou Carmen, com toda a força dos pulmões – … a Ariadne?

– Não – respondeu Clodoaldo, áspero. – Por quem você me toma? Sou um homem amoroso. Por que me pergunta se estuprei a Ariadne? Sou um homem amoroso, vadia.

Clodoaldo, fora de si, enraivecido, avançou para cima de Carmen, deu-lhe um forte tapa na face esquerda. Carmen caiu no chão. Não teve tempo nem de pensar em se levantar, pois Clodoaldo pulou sobre ela, surrou-a, rasgou-lhe as roupas, a pôs de bruços, e a sodomizou.

*

A casa estava imunda. Havia meses ninguém a varria, ninguém removia o pó que cobria os móveis e nem as teias de aranhas que se acumulavam em todo canto.

As aranhas criaram várias colônias, com dezenas de indivíduos em cada uma delas, em toda a casa. No chão, havia sujeiras de rato em todo lugar.

Insuportável o cheiro que empesteava a casa.

Eugênio, irmão de Ariadne, definhava a olhos vistos. Sofria nas mãos de sua mãe e nas de seu pai. Eles o surravam com freqüência, duas, três, quatro, cinco vezes ao dia. O seu corpo franzino não suportaria por muito tempo as surras que lhe eram aplicadas. Estava esquelético, cadavérico. O seu olhar, desprovido de vida. Vivia emudecido pelos cantos. Conversava e brincava com os ratos – os seus únicos amigos -, que lhe comiam nas mãos migalhas de pão, pequenos insetos mortos, legumes e verduras podres.

Ariadne não era mais aquela moça prendada que apreciava limpar a casa e conservá-la limpa para apresentá-la aos amigos. Vestia-se com desleixo. Não se aplicava nos estudos, como antes. Nas provas bimestrais, em Matemática, tirou 3,5; em Biologia, 2; em Língua Portuguesa, 1,5; Em História, 1; em Geografia, 1,5. A sua freqüência escolar, que era de 100% das aulas, despencou para 10%. Não se interessava, nem pelos estudos, nem pelos amigos – dos quais se afastou -, e não pensava mais na sua carreira, com a qual sonhava desde tenra infância. Perdeu a vontade de viver. Eugênio, três anos mais novo do que ela, tão estragado pelos castigos e pelos sofrimentos que seu pai e sua mãe infligiam-lhe, que aparentava oitenta anos mal vividos.

Ariadne não conversava com seu pai e nem com sua mãe – para eles nem olhava. Evitava-os. Provocava-lhe calafrios a  figura de seu pai; quando ele lhe descia o olhar, Ariadne tremia, incontrolavelmente, mesmo que não olhasse para ele. Era como se a sua pele queimasse, atingida pelas labaredas infernais que os olhos de Clodoaldo disparavam.

Indiferente ao estado deplorável da sua casa, Ariadne dela entrava e saía.

Ariadne abandonou os estudos. Não se interessava pelos livros. Desistiu dos seus sonhos. A oftalmologia era um assunto que não mais lhe despertava o interesse. Estabeleceu relações com ladrões, assassinos, traficantes de drogas. Envolveu-se com tráfico de drogas, estelionato, assaltos, seqüestros, contrabando de armas e prostituição. Vendia seu corpo para qualquer homem, para sustentar os seus vícios.

*

Eugênio vivia em meio às baratas, às lacraias, aos ratos, aos escorpiões e aos percevejos que infestavam o seu quarto, no qual ninguém, além dele e de Ariadne, entrava.

À noite de um sábado, após participar de um assalto a banco, consumir maconha, cocaína e crack, embebedar-se e protagonizar uma orgia sexual durante a qual estabeleceu o intercurso sexual com quatro homens, deles realizando todas as fantasias, Ariadne, vergando um vestido amarelo manchado de sangue, sêmen, bebidas, e salpicado de pós, entorpecida, andou, entrançando as pernas, tateando as paredes, pela casa, até o quarto de Eugênio, enquanto Eugênio dormia, abriu a porta, e entrou. Não se incomodou com as criaturas asquerosas que infestavam o quarto – já havia se familiarizado com elas. Aproximou-se da cama imunda em que Eugênio dormia profundamente, tendo ao lado duas ratazanas repulsivas e sobre o corpo aranhas grotescas e escorpiões, que se digladiavam.

– Eugênio – sussurrou Ariadne, curvada ao lado da cama, os joelhos pousados no chão.

Fitaram-na as ratazanas, as aranhas e os escorpiões.

Ariadne tocou Eugênio no ombro direito. Ele não acordou. Não se notava a sua respiração. A sua aparência, a de um cadáver. Eugênio exalava odor mefítico.

– Eugênio – disse Ariadne, ao mesmo tempo que o tocava no ombro.

Eugênio despertou, e voltou-se para Ariadne, que, antes que ele pronunciasse qualquer palavra, colou seus lábios carnudos, sensuais, nos lábios dele, frios e descoloridos.

Retiraram-se da cama, escalaram a parede e acomodaram-se no teto, ao canto, as aranhas e os escorpiões.

Recolheram-se ao guarda-roupas as ratazanas.

*

– Vagabunda! Ariadne, você é uma vadia! Pervertida! – ofendeu-a Carmen, e desferiu-lhe dois tapas. Ariadne não reagiu. – Puta! Puta! Suma da minha casa, vadia. Bandida! Puta!

Duas ratazanas, exibindo dentes afiados, entraram na cozinha imunda e correram na direção de Carmen, que, ao vê-las, assustou-se, e pulou sobre uma cadeira. Ariadne exibiu, num contido sorriso de satisfação, seus lindos dentes brancos. Uma ratazana, a maior delas, deu um salto sobre a cadeira em que Carmen estava, avançou à perna de Carmen, e mordeu-a. Do ponto atingido escoou sangue em profusão. A outra ratazana, no chão, olhava, detidamente, para Carmen, sem dela tirar os olhos.

Assustada, a berrar, enlouquecida, Carmen deu um pulo, caiu sobre a cadeira, desequilibrou-se, e estatelou-se no chão. A ratazana que estava no chão pulou no rosto dela, e mordeu-o na comissura direita dos lábios. Sangue escapou do ferimento.

Ao ouvirem um agudo e quase inaudível assobio, as ratazanas afastaram-se de Carmen, e retiraram-se da cozinha. Era Eugênio, que, do seu quarto, as chamava. O olhar aterrorizado de Carmen encontrou-se com o de satisfação de Ariadne, que girou nos calcanhares, e foi para o quarto de Eugênio, no qual entrou, e trancou a porta à chave.

*

Às quatro horas da tarde de um sábado, Ariadne entrou na sua casa. Não se incomodou com a imundície. Sua mãe estava na cozinha. Entreolharam-se. Carmen leu, nos olhos de Ariadne, desprezo e superioridade. Ariadne passou por ela, e foi ao quarto de Eugênio. Entrou. Trancou a porta à chave. Retirou-se do quarto, no domingo, às nove horas da manhã, trajando um vestido que lhe realçava a formosura do corpo.

*

Enormes aranhas peludas andavam pelas paredes e pelo teto da casa. Ninguém as incomodava. Havia muito lixo acumulado no quintal onde o mato e as ervas daninhas dominavam. Havia centenas de colônias de escorpiões, ratazanas, aranhas e lacraias no quintal e dentro da casa.

Clodoaldo, embriagado, chegou em casa. A sua fisionomia, de dar arrepios. Engrolava as palavras. Resmungava, ciciando, palavras impronunciáveis, obscenidades e vitupérios. Empesteou a casa com o miasma que exalava. Na cozinha, sentou-se à mesa, e segurou a cabeça com as mãos, os cotovelos fincados na mesa. Trinta minutos depois, Ariadne chegou e deteve-se ao batente da porta que dava acesso da sala à cozinha.

Detiveram-se, e fitaram Ariadne e Clodoaldo as aranhas que passeavam pela parede.

– Cabacinha vagabunda! – berrou Clodoaldo. – Cabacinha, você não é minha filha. Vagabunda! Cabacinha, você vai se arrepender! Você não é minha filha, cabacinha! Vou fazer você engolir o seu sangue. Farei picadinho de você, vadia!

Ariadne fitou Clodoaldo com olhar de desprezo, meneou a cabeça, esboçou sorriso escarninho; com andar firme, a coluna ereta, fitando-o, imperiosa, passou por ele e entrou no quarto de Eugênio.

– Aranhas malditas! Aranhas malditas! – berrou Clodoaldo, num tom enraivecido; de sua boca escorria saliva tinta de sangue. Cuspiu sobre uma aranha, que correu, e saltou para a parede, deixando atrás de si um rastro gosmento. Uma aranha seguiu-a. E ambas desapareceram atrás da geladeira.

Clodoaldo tirou do pé direito o sapato, e jogou-o contra uma aranha, que o fitava, esmagando-a na parede. A aranha caiu no chão, em contorções espasmódicas. Clodoaldo, ao levantar-se, empurrou a cadeira para trás, derrubando-a. Furioso, agarrou-a por duas pernas, e quebrou-a contra a parede. Empunhando as duas pernas da cadeira, mirou uma aranha que andava na porta da geladeira. A aranha esquivou-se dos golpes. Do nariz de Clodoaldo escorria sangue apretejado da consistência de manteiga. Quatro aranhas pularam sobre Clodoaldo, e morderam-no, no rosto, no braço esquerdo, no pescoço, e na cabeça, próximo da orelha direita. Clodoaldo caiu, escabujando. Soltou sangue pela boca, pelas narinas, pelas orelhas e pelos olhos. Pousou as mãos sobre o peito esquerdo, apertando-o num esforço para manter o coração dentro do peito. Seu corpo assumiu consistência rochosa. Carmen ouviu os gritos abafados de Clodoaldo, e correu a acudi-lo; dele afastou as aranhas. Estava transtornada, estupefata. Não acreditava no que via: o seu marido a escabujar, a expelir sangue por todos os orifícios do corpo, a cuspir jorros de sangue apretejado com saliva amarelo-esverdeada, a balbuciar palavras inaudíveis. Debruçou-se sobre ele, e pousou-lhe as mãos no rosto.

– Marido amoroso – sussurrou-lhe, apavorada.

Ariadne e Eugênio, no quarto de Eugênio, fingiam que nada ouviam. Extraíam prazer um do outro. E quanto mais elevados os lamentos de Carmen, mais prazer eles desfrutavam.

Os lamentos de Carmen e os gemidos de Clodoaldo eram afrodisíacos para Ariadne e Eugênio.

*

Clodoaldo ficou dois meses internado no hospital. Extraíram-lhe o veneno que as aranhas lhe haviam inoculado.

– Não entendo – disse o médico. – Não entendo, dona Carmen. As aranhas injetaram no seu marido veneno suficiente para matar vinte homens do tamanho dele. Não entendo. É estranho. O seu marido esteve em vias de partir desta para a melhor. Mas… Não sei o que dizer para a senhora… Confesso: este caso merece mais atenção; não posso explicá-lo. Todos os médicos os quais consultei ficaram, do mesmo modo que eu, estarrecidos; alguns deles, impressionados, embora habituados com fatos inexplicáveis, incrédulos, desconfiados, perguntaram-me se eu lhes pregava uma peça. Na mente deles associaram-se, para atormentá-los, a incredulidade e o fascínio. Não sei se me expresso com as palavras apropriadas. Peço desculpas, dona Carmen, se não me explico com clareza… Bem, dona Carmen, o seu marido convalesce. A senhora poderá levá-lo para casa… A senhora acredita em milagres? Na ausência de explicações… Não entendo… Não há explicações científicas para o caso do seu marido, dona Carmen. É inexplicável. Foi um milagre, posso dizer. Foi um milagre…

Carmen ouviu-o, em silêncio, mas não prestou atenção ao que ele lhe disse, pois olhava para uma minúscula aranha, que, do teto, a fitava, atentamente.

*

Assim que regressou à sua casa imunda infestada de criaturas repulsivas, que passeavam, livremente, pelo chão, pelo teto, pelas paredes, Carmen dirigiu-se ao seu quarto, no qual, embora imundo, nenhuma criatura entrava. Ela sabia que, se não incomodasse Ariadne e Eugênio, nenhum escorpião, nenhuma aranha, nenhuma ratazana, nenhuma lacraia a atacaria. Deitou-se na cama imunda. Exausta, o sono a surpreendeu. Berros ensurdecedores despertaram-na dez minutos depois. Sobressaltada, ouviu as obscenidades cuspidas por um homem. Sonolenta, a mente entorpecida pelo sono bruscamente interrompido, apurou os ouvidos. Chegaram-lhe aos ouvidos a voz cavernosa de um homem e a voz atrevida e provocadora de uma mulher, Ariadne.

O homem, um sujeito de má catadura, facínora, que atendia pela alcunha de Tigre, cuspia obscenidades, e empunhava uma faca cuja extremidade, afiadíssima, encostava à ilharga direita de Ariadne, ferindo-a. Tigre não atentou para a imundície e as criaturas repulsivas que infestavam a casa. Lambeu a orelha direita de Ariadne. Apalpou-lhe a nádega esquerda, apertou-a e nela cravou as grossas unhas sujas. Mordeu-lhe o lóbulo da orelha direita, puxando-o, ao mesmo tempo que lhe passeou, por entre as nádegas, o índex e o médio, e enfiou-lhe, na ilharga, a faca, extraindo-lhe sangue, que lhe escorreu pelo corpo e manchou-lhe o vestido. Ameaçou violentá-la e matá-la.

No seu quarto, Carmen ouvia o que se passava entre Ariadne e Tigre. Percorreram-lhe o corpo ondas de calafrio. A porta do quarto estava entreaberta. Carmen viu Tigre desferir, com o dorso da mão esquerda, um tapa no rosto de Ariadne, e, com as duas mãos e o peso do próprio corpo, empurrá-la sobre o sofá. Apavorada, recolheu-se ao canto do quarto, e conservou-se em completo silêncio.

Tigre esmagou, involuntariamente, dois escorpiões.

Aranhas, escorpiões, lacraias, baratas, ratazanas, acompanharam, atentamente, todos os movimentos de Tigre e Ariadne. Prepararam-se para saltar sobre Tigre, que esbofeteava Ariadne, cuspia-lhe obscenidades e ameaçava matá-la, se ela resistisse. Com Ariadne de costas para si, Tigre mordeu-lhe o pescoço; com a mão esquerda, ergueu-lhe o vestido, e, com a direita, apertou-lhe o peito. Ariadne não reagiu. Havia visto as criaturas repulsivas na sala; sabia que, bastaria um sinal seu, que todas elas saltariam sobre Tigre.

Tigre desafivelou o cinto, desceu o zíper, e abaixou a calça e a cueca.

Ariadne cerrou as pálpebras.

Dez escorpiões saltaram às pernas de Tigre, que se empinou, olhou para baixo, e os viu. Antes que pudesse emitir um grito de pavor, um escorpião cravou-lhe o ferrão no pênis. Tigre afastou-se de Ariadne. Quis gritar. Não conseguiu, tão insuportável lhe era a dor. Brandiu a faca, e soltou-a no chão. Movia-se com gestos bruscos. Soltava saliva gosmenta pela boca escancarada. Urinou sangue. Defecou fezes inconsistentes, que lhe borraram as pernas peludas. Ariadne recompôs-se. Aranhas cobriram-lhe o ferimento, estancando-lhe o sangue. Ratazanas lamberam-lhe o sangue que escorria pelas pernas e o que lhe manchava o vestido. Um escorpião feriu a mão direita de Tigre. Outro saltou-lhe à perna, escalou-a, e forçou-se para dentro do ânus dele. Tigre, imóvel, a boca escancarada, circunvagou os olhos pela sala; viu centenas de escorpiões, aranhas, ratazanas, lacraias e serpentes avançando em sua direção. Ariadne, serena, impassível, deliciava-se com o cenário, lambia os beiços, a desfrutar de prazer inconcebível.

Aranhas atiraram teias sobre Tigre, que se debatia. Escorpiões o escalaram. Ratazanas, lacraias, baratas e serpentes morderam-lhe as pernas. Aranhas pularam sobre Tigre. Serpentes enrodilharam-se-lhe às pernas, e afastaram uma da outra. Tigre perdeu o equilíbrio. Ratazanas atacaram-no e morderam-lhe o rosto, os braços, as pernas, as nádegas, a barriga. Tigre caiu. As criaturas repulsivas cobriram-no e abafaram-lhe os berros. Penetraram-lhe o corpo por todos os orifícios, e começaram a devorar-lhe a língua, os lábios, os olhos, os pés e as mãos.

Ariadne, inexpressiva, assistiu ao horripilante espetáculo.

As criaturas devoraram Tigre, de quem não sobrou nem os ossos, em menos de dez minutos, e retiraram-se da sala.

Escorpiões carregaram o revólver, a faca, a fivela da cinta, os dois anéis de ouro que Tigre trazia no dedo médio da mão direita e a pulseira reluzente até Ariadne, que os pegou, e, duas horas depois, deles se desfez por um bom preço.

Ninguém nunca mais ouviu falar de Tigre. As pessoas que o viram entrando na casa de Ariadne e não o viram de lá se retirar nada disseram a respeito.

*

Carmen perdeu a sanidade. Errava pelas ruas. Esbravejava. Relatava histórias absurdas – muitas delas verdadeiras. Falava da sua casa, de sua filha, de seu filho, do seu marido, dos ratos, escorpiões, baratas e aranhas que infestavam a sua casa. Relatou, com pormenores, o ataque das aranhas a Clodoaldo e a morte de Tigre. As pessoas que a ouviram não lhe deram atenção. Para elas, Carmem era uma louca e tinha de ser internada num hospício. Dela zombavam, ridicularizavam-na; dela espalharam histórias estapafúrdias. Certo dia, Carmen desapareceu, e dela ninguém nunca mais ouviu uma notícia.

*

Clodoaldo regressou à sua casa. Com passos pesados, cenho carregado, foi até a cozinha, onde Ariadne e Eugênio, à mesa, conversavam, animadamente, e deteve-se a dois metros de Ariadne, estupidificado com o que viu: Sobre a mesa, três ratazanas; nas paredes e no teto, escorpiões e aranhas a caminhar livremente; no chão, centenas de baratas e lacraias; ao colo de Ariadne, uma aranha peluda, e Ariadne a acariciá-la e a osculá-la carinhosamente; ratazanas grotescas nos braços e nos ombros de Eugênio e na sua cabeça cadavérica de olhos projetados para fora das órbitas.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo. Ariadne ignorou-o.

Um escorpião escalou as costas de Ariadne, e subiu-lhe à cabeça. Clodoaldo arregalou os olhos.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, enraivecido, fitando-a com olhos sinistros.

Ariadne não lhe deu atenção; ignorou-o como se não o visse, como se não o ouvisse. Gargalhava. Brincava com as aranhas, que a acariciavam.

Clodoaldo deu dois passos na direção de Ariadne. Puxou-lhe o vestido de tecido fino, que não resistiu ao puxão, e rasgou-se. A aranha que estava nas mãos de Ariadne atirou teia sobre a mão direita de Clodoaldo. As ratazanas que brincavam com Eugênio e o escorpião que se encontrava sobre a cabeça de Ariadne encararam Clodoaldo. Eugênio rilhou os dentes e, com seus olhos sinistros, fitou Clodoaldo, que não lhe deu atenção.

– Você é surda, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, aos berros, para Ariadne. – Cabacinha, perguntei onde está sua mãe – e puxou-lhe o vestido. Ariadne levantou-se, altiva. Clodoaldo puxou-lhe, novamente, o vestido, desnudando-a, e agarrou-a pelo pescoço, com a mão direita, enquanto apertava-lhe, com a mão esquerda, o peito esquerdo. – Você não quer me contar, cabacinha vadia, onde está sua mãe? Vagabunda, você não quer me contar onde está sua mãe? Então, vou arrancar as suas entranhas – e empurrou-a sobre a mesa, e debruçou-se sobre ela. De seus olhos chispavam labaredas de ódio; de sua boca escapavam perdigotos, que queimavam o corpo de Ariadne, ao atingi-lo. Clodoaldo assemelhava-se a mitológicos monstros flamívomos que aterrorizavam os povos antigos.

Milhares de escorpiões, aranhas, baratas, lacraias e ratazanas pularam sobre Clodoaldo, o cobriram, e, antes de ele esboçar um protesto, o devoraram.

*

Ariadne e Eugênio viviam com os escorpiões, as aranhas, as lacraias, as ratazanas e as baratas.

Na casa imperava a imundície.

*

No teto do quarto de Ariadne, ao canto, uma imensa bola de teia de aranha. No chão da cozinha, um enorme ninho de rato.

Numa noite de frio rigoroso, Ariadne rompeu o envoltório de teia e, nua, desceu do teto para o chão.

Na cozinha, Eugênio despertou e, nu, saiu, guinchando, do ninho.

Ariadne foi até Eugênio, envolveu-o com uma bola de teia e, com voracidade, o devorou.

De Eugênio não sobrou nem uma gota de sangue.

 

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