Eu confio! Eu confio! Eu confio!


– Eu confio no martelo.
– Quê?! Tu confias no martelo?
– Sim. No martelo eu confio. O martelo prega pregos na parede.
– Confiar no martelo! E se uma pessoa empunhar um martelo e dar-te uma boa marretada, marretada não, martelada na cabeça, abrindo-te uma cratera até o cérebro, esmagando-o?!?
– Eu não tinha pensado em tal possibilidade.
– Pense.
– Eu confio no tijolo.
– Quê?! Tu confias no tijolo?
– Sim. No tijolo eu confio. O tijolo constrói casas, muros, prédios.
– Confiar no tijolo! E se uma pessoa pegar um tijolo e dar-te uma boa pedrada, pedrada não, tijolada na testa, esmagando-te nariz e olhos?!?
– Eu não tinha pensado em tal possibilidade.
– Pense.
– Eu confio no espeto-de-churrasco.
– Quê?! Tu confias no espeto-de-churrasco?
– Sim. No espeto-de-churrasco eu confio. O espeto-de-churrasco prepara churrasco de dar água na boca, suculento.
– Confiar no espeto-de-churrasco! E se uma pessoa empunhar um espeto-de-churrasco e dar-te uma boa facada, facada não, espetada no ventre, furar-te, desviscerar-te?!?
– Eu não tinha pensado em tal possibilidade.
– Pense.
– Eu confio no serrote.
– Chega! Chega! Basta! ‘tá doido, moleque!? Confiar em objetos! Em objetos?!? O que tens na cabeça?!

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Bolsonaro, a inflação e a deflação. E os antibolsonaristas.

Cena 1: passado – a inflação está corroendo o poder de compra dos brasileiros.
Comentário do esquerdista: Bozonaro e Guedes, fascistas e nazistas! Querem matar todo mundo de fome! Genocidas!
Cena 2: presente – a deflação forçará, por tempo indefinido, os brasileiros a adiarem as compras, o que provocará uma depressão econômica.
Comentário do esquerdista: Bozonaro e Guedes, fascistas e nazistas! Querem matar todo mundo de fome! Genocidas!
Cena 3: futuro – a estabilidade dos índices de preços ao consumidor representa falta de dinamismo da economia brasileira.
Comentário do esquerdista: Bozonaro e Guedes, fascistas e nazistas! Querem matar todo mundo de fome! Genocidas!

A Estrela-salame

Têm os cientistas fama de gente sisuda, carrancuda, e maluca. Que de maluquice, ou, melhor, de loucura, todo cientista tenha um pouco, ninguém ignora. Conhecemos o Einstein, que era um doido-de-pedra; e o Newton, que, dizem por aí, também não batia bem dos pinos. E o tal de Nash, que gostava de brincar com a Teoria dos Jogos e com outros instrumentos lúdicos que os meio gênios e meio malucos apreciam manusear. Que haja um quê de louco nos gênios científicos, sabemos; todavia, em muitos casos são as esquisitices deles manias estranhas apenas – de espantar todo filho-de-Deus, não podemos negar. E há cientistas que são espirituosos; sabem tirar das horas dedicadas à ciência momentos, mesmo que raros, para brincar, divertir-se, e alegrar muitas outras pessoas, e desgostar um bom punhado delas. Conheci, há poucos dias, um caso, tão hilário! tão engraçado! que eu só não digo de dobrei-me de tanto rir porque o fiz, isto é, dobrei-me de tanto rir, em pensamento apenas. Diverti-me à beça com o episódio.
Quem é o protagonista do capítulo ao qual faço alusão? É ele um cientista francês, cujo nome de batismo é Étienne Klein, homem que ocupa o cargo de chefe da Comissão Francesa de Energia Atômica. É um homem de grande responsável. E espirituoso.
Nestes dias, soubemos os homens comuns que o telescópio James Webb fotografou o universo, não sei de qual perspectiva e qual território dele. Mas fotografou, é certo. Por estes mesmos dias, o conterrâneo de Asterix publicou, em sua conta no Twitter, uma foto com o que ele afirmava ser um retrato, sobre fundo preto, da estrela mais próxima do Sol (e que dele está muito longe, a 4,2 anos-luz de distância – mediram com uma trena interestelar), a Proxima Centauri – que é próxima só no seu nome, pois está longe pra dedéu. Nos dias subsequentes, a publicação recebeu dezessete mil curtidas. Até aqui, nenhum porém.
Qual é a graça nesta história? O que se deu após a repercussão da foto da estrela. Étienne Klein, o cientista que publicou a foto revelou a verdadeira natureza da Proxima Centauri: era uma fatia de salame. Sim! Que danadinho o descendente de Napoleão, não?! A estrela fotografada era, na verdade, apenas uma rodela de salame. Que peça – a Emília, do Lobato, diria pêta – o Panoramix aplicou em meio mundo! E foi o próprio monsieur Étienne quem revelou o teor de sua brincadeira, adicionando um comentário, em outras palavras: que as pessoas não confiem acriticamente nos especialistas (pode-se dizer, também, cientistas). Sensato, e jocoso, é o francês. Sua exortação, engraçada, e educativa. Se pensarmos que cientistas já criaram o tal Homem de Piltdown, suposto elo perdido, temos de reconhecer que o cientista francês traquinas deu-nos uma lição edificante.

Músicas que ouvi neste final de semana.

Não sou uma pessoa que está sempre a ouvir músicas, todavia, se com vontade de aproveitar o tempo a ouvir algumas canções dedico-me àquelas que me soam bem aos ouvidos, e cujo ritmo agrada-me – e não me ocupo da letra, que em muitos casos estão em idioma que desconheço. E agrada-me, mais do que tudo, nas músicas, a voz do cantor. Se a voz dele me cativa, deixo-me encantar por ela, sem impôr-lhe nenhuma resistência; digo que a ela me entrego; e que ela me absorve, me domina, me escraviza – e eu jamais penso em me alforriar. Dentre as vozes que me aprisionaram estão a de Luciano Pavarotti, a de Louis Armstrong e a de Edith Piaf. São irresistíveis.
O que eu entendo de música? Nada. Dou-me ao direito, e poucas vezes, de ouvir músicas, e sempre que ouço as do meu agrado esqueço onde estou, e quem sou; e o tempo – não digo que voa, que se esvai -, digo, e digo mal, é o tempo, e eu dele não tomo conhecimento.
Aqui, nesta nota breve, sem comentários outros além dos que estão nas linhas acima, a lista das músicas (título da música seguido do nome do cantor) que, neste final de semana, de olhos fechados, ouvi: Bongo Cha Cha Cha, Caterina Valente; Volare (Nel blu dipinto di blu), Domenico Modugno; Funiculi, Funiculà, Luciano Pavarotti; Somewhere Over The Rainbow, Israel Kamakowiwo’ole; La Bohème, Charles Aznavour; Fly Me To The Moon, Frank Sinatra; Pepino, The Italian Mouse, Lou Monte; I Say a Little Prayer, Aretha Franklin; e duas versões de La vien en rose, uma na voz de Louis Armstrong e uma na de Edith Piaf.

Em um Reino Encantado, o desencanto.

Era uma vez, em um reino maravilhoso, de jóias mil, e povo gentil, um herói portentoso que, vindo à luz, espargiu-lhe o deus dos deuses, no belo e formoso corpo infantil, de textura sedosa, o elixir da sabedoria e o dom da santidade, que lhe ficariam marcados, e para todo o sempre, até ele exalar o derradeiro suspiro de sua heróica e imaculada existência, na ausência, em uma de suas mãos, do dedo mindinho. Era este o emblema, o símbolo inconfundível, de tão poderoso ser, que era um amálgama de santo e herói, uma entidade semi-divina, a alma sem pecados, cujo avatar, a idéia, a idéia por si mesma, de maravilhar todo homem e toda mulher, fez de uma cativante mulher uma sílfide com o poder de armazenar e controlar os ventos sempre que saudava, alegre, e religiosamente, a mandioca, em rituais mágicos que a conectavam com os espíritos da natureza. Foi neste Reino Encantado, que o mais heróico e divino dos seres governou durante uma era grandiosa, que o povo, mesmo com o encanto que lhe inspiravam o divino herói de nove dedos e a divina mulher que tinha o poder de pôr sob seu comando os ventos, suspeitou que as maravilhas que presenciava eram obras de um inigualável prestidigitador, de um ilusionista sem rival, de um feiticeiro poderosíssimo, que, com seu tangolomango escalafobético, mesmerizava-o, ludibriava-o. Vozes dentre os homens do povo elevaram-se acima do vulgo, e fizeram-se ouvir por todos. E os heróis divinos e seus devotos crentes, não podendo ignorar as vozes que se elevavam poderosas, e tampouco o povo, que, as ouvindo, e a concordar com a essência delas, as ecoavam, e fitavam, cada vez com mais firmeza e segurança, desconfiados e desiludidos, o homem que era a mais imaculada das almas, e sua criatura, que fazia saudações à mandioca, e todos os seus mais fiéis seguidores, decidiram, em vão, aterrorizá-lo com todas as armas que tinham à disposição. Estava desfeita a ilusão. Sabia, agora, o povo, que eram as lendas histórias do arco-da-velha. Aos olhos do povo, a verdadeira silhueta daqueles seres aos quais dedicava ele sincera admiração. Desfeita a ilusão, no Reino Encantado admirou-se o povo, que, a movê-lo vontade férrea, avançou, corajoso, contra as criaturas que, enganando-o, o seviciavam, e as despojou de suas vestes esplendorosas, delas revelando-se a nudeza repugnante.
Decidido a jamais se deixar maltratar por tipos tão reles, tão sórdidos, o povo principiou um novo capítulo de sua história, alvissareiro.

Vacinados e não-vacinados. E esquema vacinal completo.

No parágrafo abaixo deste, entre as aspas, um trecho de uma publicação da Prefeitura do Município de Pindamonhangaba, na página desta no Facebook, publicação na qual se dá notícias concernentes aos casos de infecções e mortes por covid-19, em Pindamonhangaba, no período que se iniciou no dia 21 de Julho e se encerrou no dia 27 do mesmo mês, seguido de comentários meus, que publiquei na caixa de comentários da mesma publicação.
“Vale destacar que 100% dos óbitos ou não foram vacinados ou não completaram esquema vacinal.” Nesta frase, põe-se juntas as pessoas que não se vacinaram e as que, mesmo vacinadas, não o estavam com todas as doses que se convenciou considerar obrigatórias para se respeitar o esquema vacinal completo. Mas quantas doses são exigidas, hoje, para se completar o esquema vacinal? Quatro? E assim que lançaram no mercado a quinta dose, as pessoas vacinadas, então, com quatro doses estarão incluídas no grupo das pessoas que não estão com o esquema vacinal completo? E quando lançarem a sexta dose? Não sei se entendi a questão. Corrijam-me, por gentileza, se eu estiver errado: ao se aglomerar as pessoas não-vacinadas e as que não completaram o esquema vacinal no mesmo grupo, está-se a se considerar as que não completaram o esquema vacinal pessoas não-vacinadas. Seria o correto a prefeitura separar em grupos distintos as pessoas não-vacinadas das pessoas vacinadas com uma dose, e das vacinadas com duas doses, e das vacinadas com três doses.

Bolsonaro, o presidente que o Brasil precisa.

Era no tempo do rei.
Assim começa Manuel Antônio de Almeida a aventura de Leonardo Pataca, seu herói, no admirável Memórias de um Sargento de Milícias.
Mas a história que hoje contarei nesta crônica não se passou no tempo do rei; deu-se há três anos, na república, sob o governo Bolsonaro, e dela só ontem eu tomei conhecimento. Por que, então, ó, autor – pergunta-me, curioso, o leitor -, vós falais do Almeida e do Pataca? Por nada, não – respondo -, querido eleitor. Eu apenas gosto de tal frase; acho-a simplória e sofisticada, plebéia e aristocrática.
Encerrado o intróito desta crônica, que é curta, digo para o que vim.
É esta a história que o nosso querido Capitão Bonoro – Bomnosares, para os íntimos – protagonizou:
Estava o presidente Jair Messias Bolsonaro montado na sua motoca, tal qual um nobre cavaleiro de antanho, agaloado com exuberante indumentária, montado em seu alazão ricamente ajaezado, a parlamentar com seus eleitores, quando, de repente, surpreendo-o, chega aos seus ouvidos presidenciais, saída da boca de um seu inimigo, a pergunta: “E o Queiroz?” E o presidente, com a fleuma de um gentleman, para orgulho da Rainha Elizabeth, responde-lhe: “Ele ‘tá com a sua mãe.”

… e tem início a Terceira Guerra Mundial. Finalmente.

Agora vai!
Após adiarem vezes sem conta o início da Terceira Guerra Mundial, os Estados Unidos da América, terra sagrada do Tio Sam, e a China, terra sagrada do Confúcio, que, dizem por aí, era indiano – e eu não meto o bedelho em tal história -, e a Rússia, terra sagrada do Pushkin, bombardear-se-ão, e não com bolinhas-de-gude, mas com devastadores artefatos nucleares.
Agora vai!
Encerraram, se é que algum dia existiram, os encontros diplomáticos entre os representantes oficiais do alto escalão do governo dos três países, todos a parlamentarem, animadamente, intercalando suas falas com deliciosos e suculentos comes-e-bebes de dar água na boca e fazer todo católico lamber o beiços.
Agora vai!
É guerra! A guerra será pra valer, anunciam as vozes midiáticas, apocalípticas. Agora não há mais retorno! Ou vai, ou racha!
O admirável Putin – Putinho, para os íntimos -, para decepção dos profetas do Apocalipse (ou do Ragnarok, querem os fãs da mitologia nórdica – Morte a Balder! Que venha a Serpente de Midgard!), não bombardeou, com o seu mefistofélico Satã, Washington, e com os filhos de tal demônio, Londres, Paris, Berlim, Roma, e as outras capitais das nações européias. Mas Xi Jinping, ao contrário do seu colega eslavo, não irá decepcioná-los.
A querida e amada dona Nanci, saída de Washington, rumou, de avião, para a Ásia, e declarou, para contrariedade dos chineses, que iria, depois de passear por Singapura e Tailândia, descer em Taiwan. Xi Jinping torceu o nariz, e ameaçou rachar a cabeça da dona Nanci com uma bomba, e daquelas bem grandes. Será a visita da americana à ilha formosa o estopim da Terceira Guerra Mundial.
Agora vai!
Cá entre nós, o casus belli da guerra que irá dizimar a espécie humana e, provavelmente, exterminar toda vida que há na Terra, é de um mal gosto de dar engulhos em todo bastardo. Bons tempos aqueles em que era a razão de ser das guerras o rapto de mulheres divinas. Que o digam os gregos e os troianos.
*
Nota: Agora vai! Agora vai! Não foi. Não foi desta vez que o mundo assistiu a um espetáculo feérico, bombas atômicas a explodirem nos ares de todo o globo terrestre, tais quais fogos-de-artíficio em noite de reveilão. Que tristeza…

A Difícil Arte de Arrumar no Prato o Arroz e o Feijão.

– Bom dia.

– Bom dia.

– O senhor pode nos conceder um minuto do seu tempo para nos responder uma pergunta a respeito dos seus hábitos alimentares?

– Sim.

– O senhor já almoçou, hoje?

– Já.

– O que o senhor comeu?

– Tomate, ervilha, ovo frito, cebola, e um bife, e arroz e feijão.

– O senhor comeu arroz e feijão?

– Sim.

– O senhor pôs o arroz em baixo, ou em cima, do feijão?

– Em cima.

– O senhor conhece os estudos sociológicos e antropológicos a respeito da disposição do arroz e do feijão no prato?

– Não.

– O senhor sabe qual é o simbolismo que a disposição, no prato, do arroz em cima do feijão representa?

– Não. Existe um símbolo?

– Sim. Existe, sim, senhor. O senhor sabia que é a mensagem implícita o ódio que o homem branco sente pelas pessoas negras? Sendo o senhor um homem branco…

– Que!? Absurdo! Eu não odeio os negros.

– Odeia, sim.

– Não odeio, não. Tenho muitos amigos negros. E uma das minhas duas cunhadas é negra. E ela é mulher honesta, esposa exemplar de meu irmão, mãe dedicada, amorosa. Mulher respeitável, adorada, e com ela dou-me muito bem.

– O senhor não sabe que odeia os negros, mas os odeia. O sentimento de ódio está implícito no ato de pôr, num prato, o arroz em cima do feijão. Estar em baixo é o mesmo que inferioridade, e estar em cima, superioridade. No subconsciente coletivo de um povo branco patriarcal, de passado escravocrata, todo ato carrega uma carga emocional de preconceito racial, inscrito nos genes do homem branco; sem o saber, deixa-se transparecer tal valor racista nos mais simples gestos. O senhor já se perguntou porque o senhor põe o arroz em cima do feijão?

– Mas o feijão que eu como não é preto; é marrom, carioquinha, e marrom bem claro, quase branco.

– No inconsciente coletivo, o feijão representa a pessoa negra.

– Eu nunca pensei tal pensamento. Que eu saiba, feijão é feijão, seja o carioquinha, que eu como todo dia, seja o preto, que eu como, nos churracos, nos fins-de-semana.

– O senhor nunca pensou no simbolismo da disposição do arroz e do feijão, no prato, o arroz em cima do feijão, porque o senhor herdou de seus ancestrais brancos o preconceito do homem branco pelo homem negro.

– Para mim, feijão é feijão, e arroz arroz. Não há homem branco e homem negro em tal história; há apenas arroz e feijão.

– Realizamos interessantes estudos de comportamento a respeito dos hábitos das pessoas brancas. O senhor não imagina a carga emocional de ódio ao negro que o senhor carrega no seu subconsciente.

– Eu não odeio os negros.

– Odeia, sim.

– Eu, que me conheço há cinquenta anos, sei que não os odeio, e você, que nunca vi mais gordo, quer me dizer que me conhece melhor do que eu me conheço?!

– Estudei, na faculdade, sociologia,antropologia, e psicologia. Tenho amplos conhecimentos de psicologia social e de sociologia da psicologia, sociologia da história, sociologia genética, antropologia social, e outras disciplinas do campo de humanas. Sei ver além do que as pessoas sem instrução conseguem, e podem, ver: todas as pessoas brancas, já é do conhecimento de todos os estudiosos de humanas, carregam, no mais íntimo de seu ser, o ódio preconceituoso pelos negros. E no ato de pôr o arroz em cima do feijão está implícito tal preconceito racial.

– ‘tá bom. Você me convenceu. A partir de amanhã, irei pôr o feijão em cima do arroz.

– O senhor sabe qual mensagem está implícita em tal disposição, o arroz em baixo do feijão? O senhor tem idéia do valor simbólico do arroz em baixo do feijão?

– Sei: a de que eu gosto de comer feijão e arroz.

– Qual é a mensagem implícita na disposição, no prato, do arroz em baixo do feijão?

– Mensagem implícita!? E há mensagem implícita?!

– Há.

– E qual é? Diga-me, sabichão.

– Eu já disse ao senhor que o feijão é o símbolo da pessoa negra; e o arroz, digo, é o da pessoa branca. Ao pôr o feijão em cima do arroz, o homem branco, ao se pôr a comer do almoço, irá, primeiro, comer o feijão, que está em cima do arroz, e, depois, se a fome ainda lhe alimentar espírito, irá comer o arroz, que está em baixo do feijão. O senhor não percebeu o símbolo racial que tal disposição do arroz e do feijão representa. Fosse o senhor um homem instruído, o detectaria, no ato. Veja: se está o feijão, que representa a raça negra, em cima do arroz, que representa a raça branca, então, a pessoa, ao pôr-se a comer do que há no prato, leva à boca, primeiro, o feijão, que representa, repito, a raça negra; é, portanto, o corolário: mata-se a gente negra, primeiro; se a fome persistir, mata-se a gente branca; se não, a gente branca salva-se. Mas os negros sempre são sacrificados.

– Que absurdo.

– Absurdo?! O senhor não faz idéia dos significados raciais do simples ato de arrumar, no prato, arroz e feijão. E não fazendo idéia, não pode alcançar seu espírito, de homem branco de uma sociedade de passado escravocrata, e assim jamais empreenderá esforço sincero para apreender a mensagem implícita em todos os seus atos de herdeiro cultural de uma sociedade racista. Ao pôr o arroz em baixo do feijão, está-se, sem o saber, a indiciar que se está disposto a, é o desejo subjacente, sacrificar o povo negro, e talvez avançar contra o povo branco, ato, este, simbolizado no apetite, que talvez não seja tão feroz quanto se pensou que fosse ao preparar o prato; aqui, o homem branco, deixando, no prato, de resto, o arroz, está a comunicar seu desejo de livrar da morte os brancos.

– Eu jamais deixei restos… Não desperdiço comida.

– Não vem ao caso, se o senhor deixa, ou não, restos. O simbolismo do sacrifício dos negros está implícito no ato de pôr o feijão em cima do arroz, independentemente de o homem branco comer, ou não, todo o arroz.

– Tudo bem, amigão, tudo bem. Não irei pôr o feijão em cima do arroz. A partir de amanhã, melhor, a partir de hoje, à noite, se eu jantar, irei pôr o feijão no lado direito do prato, e o arroz no esquerdo.

– O senhor já pensou no simbolismo implícito de tal ato?

– Que simbolismo implícito!?

– É unânime, entre os historiadores, que o nazismo e o fascismo são ideologias políticas situadas à direita do espectro político; portanto, ao se pôr o feijão à direita do arroz, associa-se a raça negra ao fascismo e ao nazismo; sabendo-se que tais ideologias as defendem tipos humanos inescrupulosos, sórdidos, genocidas, associa-se os negros à sordidez, ao genocídio.

– Então, irei pôr o feijão à esquerda do arroz.

– O senhor não está me entendendo.

– Não?!

– Não. Veja bem. Há duas ideologias políticas: a da esquerda e a da direita. A da direita é extremista, intolerante, radical, fascista e nazista, e racista. Persegue, e mata, as pessoas da esquerda, para dizimá-las. A esquerda, que é democrática, é defensora da justiça social. Ao separar o feijão, no prato, à esquerda, e, à direita, o arroz, cria-se um símbolo de segregação racial, isolando-se dos brancos os negros, assim facilitando, pelos brancos, que são racistas, a identificação dos negros, o que favorece a perseguição e a morte destes por aqueles. Está implícita tal mensagem em tal disposição, no prato, do arroz e do feijão. É um símbolo…

– Já entendi, amigo, já entendi. Amanhã, no almoço, eu farei o seguinte: em vez de pôr o feijão à esquerda, ou à direita, e o arroz, à direita, ou à esquerda, irei pôr o feijão na metade do prato mais distante de mim, e o arroz na metade mais próxima.

– Se o senhor entendesse a mensagem implícita em tal símbolo, que está implícito…

– E há símbolo implícito, neste caso, também?!

– Sim. Há. O senhor nunca estudou simbologia da culinária, da cultura da alimentação, e da associação umbilical entre os alimentos e a cultura história dos povos. Infelizmente, muitas pessoas preferem ignorar tal assunto, e zombar de quem se dedica a estudá-lo, do que reconhecerem-se ignorantes. Estudei o assunto racial durante vários anos. E sei o que digo. E entendo as mensagens implícitas nos atos mais comuns dos homens, que ignoram o real, verdadeiro símbolo deles. O senhor não faz idéia de qual é a mensagem implícita em se pôr, no prato, mais distante da pessoa, o feijão do que o arroz.

– E qual é a mensagem implícita? Estou curioso para saber qual é.

– É a mensagem implícita à do desprezo do homem branco pelo homem negro.

– Você está me dizendo que eu desprezo os negros?

– Sim.

– Eu já disse para você, cara, que tenho amigos negros e uma cunhada negra. E eu os amo.

– O senhor pensa que os ama. O senhor quer acreditar que os ama, mas o senhor os odeia.

– Eu os odeio!?

– Sim. O senhor os odeia. O senhor não sabe que os odeia. Mas eu sei que o senhor os odeia. Os meus estudos, em faculdade renomada, garantem-me a certeza da minha asserção. O feijão, no prato, na metade mais distante de quem arrumou o prato, é o símbolo do desejo dos homens brancos manter os homens negros longe, distantes, pois o contato do corpo dos brancos com o corpo dos negros, enoja os homens brancos, que não desejam sequer sentir o odor corporal dos negros. Os homens brancos, com tal disposição do feijão e do arroz no prato, é o símbolo representado, quer manter os homens negros afastados, pois os despreza.

– Então, eu irei pôr o feijão na metade do prato que estiver mais próxima de mim.

– O senhor quer manter os negros à rédea curta, não é mesmo?

– Que!? Ora, eu ponho o feijão mais perto…

– E por que o senhor irá pôr o feijão mais perto do senhor? Não nos esqueçamos: o feijão é o símbolo da raça negra. O feijão mais perto, no prato, de quem no prato o arruma, indica que o homem branco quer que os negros fiquem ao alcance de suas mãos, para mais facilmente capturá-los caso eles queiram fugir; e o arroz, no prato, na metade mais distante, indica o homem branco, que impede a fuga do homem negro, cercando-o.

– Eu nunca pensei em tudo o que você me disse. Se separar, no prato, o arroz e o feijão é ato reprovável, condenável, então, na minha próxima refeição, que se dará, hoje, à noite, no jantar, ou amanhã, no almoço, ao meio-dia, irei misturar o arroz e o feijão. E a partir de então, eu não mais irei separá-los. Ficarão misturados para sempre.

– Na mistura do arroz com o feijão está implícito o desejo de promover a miscigenação.

– E não é bom?! Assim, todos miscigenados,não havendo brancos e negros, não haverá atritos entre negros e brancos, que, juntos e misturados, constituirão uma, e só uma, e apenas uma, raça. E teremos harmonia entre os povos. Não haverá mais guerras raciais.

– O senhor se engana.

– Engano-me!?

– Sim. Engana-se. O senhor foi seduzido pelo discurso do brasileiro gentil que acredita numa idéia falaciosa: a da democracia racial. Tal idéia promove a extinção, dentro de quatro, cinco, seis gerações de miscigenados, da raça negra. Ora, sabe-se que, os da primeira geração de um casal composto por um negro e uma branca, ou por um branco e uma negra, tem pele mais clara do que a do genitor, ou genitora, negro, negra, e se este produto miscigenado da primeira geração conjuga-se com um branco, ou com uma negra, a geração seguinte terá pele ainda mais clara do que a do seu ascendente imediato. Com o passar das gerações, os negros desaparecerão. E é este o símbolo da miscigenação, símbolo que está implícito na mistura, no prato, de arroz e feijão. É a sua mensagem implícita o genocídio da raça negra.

– Parece-me que você entende de símbolos e mensagens implícitas.

– Sim. Entendo. Estudei, eu já disse, e repito, sociologia e antropologia e psicologia. Tenho formação intelectual apropriada para saber o que alimenta o ser dos seres humanos. O senhor prova, ao acreditar que é a miscigenação benéfica à sociedade, que não entende seus desejos e pensamentos.

– Eu não sei o que desejo e penso? A miscigenação…

– O senhor não tem o preparo intelectual para se analisar, para se conhecer, e tampouco avaliar o que está no seu subconsciente.

– Quer saber de uma coisa, amigão?! Eu jamais irei comer arroz com feijão. Irei pôr, no prato, a partir de agora, apenas arroz, e só arroz.

– O senhor, assim agindo, dará uma mensagem: a de que os negros devem ser extintos.

– O quê!? Eu, desejar a extinção dos negros!? Longe disso! Conheço muitas pessoas negras. Por que eu lhes desejaria a morte?

– É o que o símbolo indica.

– Que símbolo!?

– O da presença de arroz, unicamente arroz, no prato. Se o arroz é o símbolo do homem branco, e o feijão do homem negro, então a ausência, no prato, de feijão representa a exclusão social do homem negro, ou, melhor, de sua extinção, pois a única maneira de excluí-lo definitivamente do convívio social se faz dizimando-o.

– Pôxa vida! Está implícita tal mensagem na participação exclusiva do arroz no prato?!

– Sim. Está.

– Então, o meu prato jamais verá um grão de arroz. Agora, só feijão. Só feijão.

– E a mensagem implícita que tal símbolo representa?!

– Quê!? Você ‘tá de brincadeira! Há mensagem implícita, neste caso, também?!

– Sim. Há.

– E qual é?

– O desejo do homem branco de manter cativos na senzala os negros. Neste caso, o prato representa o cárcere, e o cárcere dos negros é a senzala. E é o proprietário da casa grande o homem branco. É o símbolo, em tal caso, o desejo do homem branco em ter os negros sob seu domínio; assim, pode o homem branco vergastá-los, no pelourinho, ao seu bel-prazer sádico, desumano.

– Você venceu, amigão. Você venceu. Jogo a toalha. Fui à nocaute, aceito. Admito a derrota. Entendi o recado: o arroz representa a raça branca, e o feijão a negra. Entendi. Não irei incorrer em outro ato preconceituoso e racista ao comer feijão e arroz. Melhor, ao pôr arroz e feijão no meu prato. Jamais. Nunca. E sabe por quê?

– Não. Não sei.

– Você quer saber por quê?

– Sim. Eu gostaria de entender o que o senhor me disse. Se puder me fazer tal gentileza…

– Sim. Posso. Eu não irei, nem hoje, tampouco amanhã, menos ainda em todos os outros dias que me restarem de vida, comer arroz e feijão. Nunca mais. Não comerei arroz com feijão, nem o arroz, e só o arroz, e muito menos o feijão, e só o feijão. Estou mudando os meus hábitos alimentares. Será outra a minha dieta, e nesta não entrarão o arroz e o feijão; nenhum dos dois. Meus pratos jamais verão arroz e feijão. Jamais me prepararei pratos que tenham, no cardápio, arroz e feijão. Jamais. Você está satisfeito?!

– Você conhece a mensagem implícita…

– Que mensagem implícita!? Não irei pôr arroz em cima do feijão, e nem feijão em cima do arroz, e nem o arroz à esquerda do feijão, e nem o arroz à direita do feijão, e nem… Ora, que mensagem implícita, se no meu prato haverá de tudo, até pedra e tijolo, menos arroz e feijão?!

– Se o senhor estivesse intelectualmente preparado para captar as sutilezas simbólicas dos atos corriqueiros do homem branco, detectaria a mensagem racista que se transmite ao não se pôr arroz e feijão no prato. A ausência simultânea, no prato, de arroz e feijão, simboliza uma artimanha, concebida pela raça branca, de simulação de igualdade entre as raças, sendo que, na verdade, indica o desejo de os brancos induzirem os negros a neles acreditarem, e assim os negros, confiando nos brancos, não se praparam para revidar os ataques que os brancos irão lhes desferir.

– Ah! Pelo amor de Deus! Cansei-me desta conversa, que eu deveria ter encerrado antes de iniciá-la. Dê-me licença. Perdi muito tempo ouvindo suas asneiras. E tenha um bom dia.

– O senhor disse que no seu prato não haverá arroz e feijão, mas haverá pedra e tijolo. O senhor sabe qual é a mensagem implícita…

– Sei. Sei, amigão. Sei. A mensagem implícita está no meu subconsciente: irei esmagar sua cabeça com pedradas e tijoladas. Soterrarei você sob uma tonelada de tijolos e pedras, que são, as pedras e os tijolos, símbolos do meu poder. Agora, suma da minha frente. É uma ordem, cuja mensagem explíta é…

Pensamento Nacional-Socialista de [Opressão] Direitos [Desumanos] Humanos. Nova Linguagem

Nota: Os trechos entre colchetes estão rasurados no manuscrito.
Estamos cientes da dominação da linguagem padrão, que é burguesa, nas escolas brasileiras, linguagem que está a corroer o pensamento dos brasileiros. A Língua Portuguesa, [patrimônio que nos legou Portugal, a pátria-mãe] [maravilha, flor do Lácio], como sabemos, é um instrumento de lobotomização, que perpetua, no pensamento dos brasileiros, a mentalidade dos portugueses, do império [que erigiu um país imenso] colonizador, que assolou a África, escravizou os negros, e enviou-os, com navios negreiros fétidos, para o Brasil, sua colônia, explorada, maltratada e seviciada. Para a felicidade da Nação, [Princesa Isabel, Joaquim Nabuco, e outros artífices da liberdade] Zumbi dos Palmares, [escravocrata crudelíssimo, que, herdeiro legítimo da cultura ditatorial de governantes das nações africanas, erigiu, no coração das matas brasileiras, um quilombo, e dominou, com mãos de ferro, os quilombolas, seus súditos, seus escravos, transplantando, para o Brasil, a crudelíssima cultura dos reis africanos], o verdadeiro libertador dos negros, que, subjugados pelos portugueses, comiam o pão que o diabo amassou, nobre, de caráter ilibado, inspirado por ideais humanitários, conquistou a alforria do seu povo sofrido.Em substituição ao idioma do império opressor, substituiremos o idioma português padrão, instrumento que Portugal até hoje maneja para nos oprimir, submete-nos à cultura européia, que nos sufoca, nos vergasta, nos escraviza, pela Língua Brasileira, falada pelos brasileiros.

Defendemos, com [unhas e dentes, a ferro e a fogo] a foice e o martelo, o estabelecimento da linguagem brasileira, da gema do povo, como padrão oficial da Língua Brasileira, escrita e falada, com raízes na autêntica, pura, cultura popular brasileira, isenta de influências externas, e não a importada de adventícios escravizadores e colonizadores. Anacolutos e metáforas futebolísticas serão obrigatórias nos textos oficiais e nos manuais de redação.

O Partido conduz o povo brasileiro [à guerra civil, e à miséria, e à podridão moral e ética] ao paraíso comunista. Mao Dzedong, é bom que se diga, não é mau; é revolucionário [humanicida] humanitário. E Deng Xiao Ping – é inadmissível o trocadilho Deng e dengue; todos os trocadilhos desrespeitosos e desabonadores envolvendo os nomes dos excelsos e lídimos revolucionários serão proibidos -, que defendia a idéia, como ele expressou não raras vezes, que ensina que o gato tem de caçar os ratos, fosse qual fosse a cor deles, e matá-los, esqueceu-se, involuntariamente – conquanto sábio, equivocando-se, tomou uma decisão contraproducente -, que os inimigos da revolução comunista poderiam empregar – e empregariam – contra os gatos os cachorros.

Estabelecemos, também, a obrigatoriedade da apresentação, diária, dos [tediosos, insossos, e injustificadamente extensos, intermináveis] magistrais e animadores discursos do comandante Fidel e de Hugo Chaves aos alunos brasileiros.

Nas escolas, substituiremos as ciências química, física e biológica, criadas pelos burgueses, por similares inspiradas nas [asneiras marxistas] verdades reveladas por Karl Marx. E à astronomia incorporaremos a estética comunista, e não a [religião] inspirada nas superstições cristãs [concebida por homens da Igreja, que enriqueceram, enormemente, tal ciência, sendo a contribuição deles inestimável]. E a engenharia, e a medicina, e a advocacia, e a arquitetura, a pintura, enfim, todas as ciências, todas as artes, terão de, obrigatoriamente, abandonarem a estética burguesa, e adotarem a comunista. E serão alterados o mapa astral, o mapa estelar e o calendário, três obras, sabemos, criadas pela classe média capitalista ocidental.

No calendário atual, os doze meses, todos concebidos em homenagem a doze imperadores romanos, aludem aos doze apóstolos. No calendário comunista que iremos criar haverá treze meses, que receberão nomes [de genocidas, anti-cristãos, assassinos, psicopatas] dos heróis do movimento comunista internacional: Marx, Engels, Proudhon, Mao, Lênin, Stalin, Pol Pot, Che Guevara, Prestes, Sartre, Trotsky, Gorki e Castro.Aboliremos a cor branca, que é a fusão de todas as cores, e o prisma, e a teoria de Isaac Newton, pois estes três elementos, a cor, o objeto e a teoria newtoniana, pertencem à ideologia [democrática] capitalista opressora.

Estabeleceremos o vermelho como a cor oficial do Brasil – e a camisa da seleção brasileira de futebol será vermelha.

Aboliremos o samba, pois a maledicência e a malemolência ferem os nossos brios [patrióticos] marciais e revolucionários.

O ano estelar se iniciará no dia correspondente ao do nascimento de Karl Marx, e se encerrará no correspondente ao da morte dele. E o ano 1 da era marxista coincidirá com o do nascimento de Karl Marx.

Interpretaremos todos os eventos sob a ótica marxista, e desconsideraremos todas as interpretações que contestam o movimento. E todos os eventos têm de se conjugarem com a proposta do Partido; os que não possuem vínculo com o Partido estarão irrevogavelmente errados.

A propriedade é um roubo, excetuando a dos líderes revolucionários que servem à causa do Partido.

Estabeleceremos apenas um tipo sanguíneo, o R C M (Revolucionário comunista marxista), pois as distinções de tipos sanguíneos são idéias burguesas, capitalistas.

Avante camaradas!De Leninevitch Stalininski

Bolsonaro é culpado – um exemplo da mentalidade antibolsonarista

Rodolfo, meu grande amigo, eu não entendo, juro – juro, com uma das mãos às costas, fazendo figas -, o que há na cabeça dos mais fervorosos críticos de Jair Messias Bolsonaro, o presidente e o homem. Parece que estão eles doentiamente apaixonados pelo nosso querido Mito, também alcunhado Capitão Bonoro, e por alguns chamado Bomnosares, mas, inscientes do que lhes vai no espírito, vituperam catilinárias verborrágicas, a revelarem a alma demencial que lhes inspira todas as atitudes, contra o homem que miram, para alvejá-lo roubando-lhe, se não a vida, o amor à vida.
Erro em chamar tais criaturas de críticos do presidente Bolsonaro, pois críticos dele eles não são. Atribuem, sempre com as suas proverbiais presunção e estupidez neles já identificadas, apanágios de seres desprezíveis, ao presidente todos os males do mundo, e o condenam, a ferverem de ódio, ao fogo do inferno, sem sequer lhe oferecerem, o que para eles é inadmissível, o direito de falar uma palavra que seja em sua defesa. Estamos em um tribunal, e neste são os antibolsonaristas o acusador, o advogado de acusação, o juiz, o promotor, o procurador, as testemunhas, o júri, e, no banco dos réus, sentado, algemado, amordaçado, Jair Messias Bolsonaro, que antes mesmo de passar pelo enquadramento da porta principal do tribunal ouvira o veredicto: culpado. Kafkaniano, o processo.
É esta a mentalidade dos antibolsonaristas: Bolsonaro é culpado porque é culpado; se ele é culpado; se sabemos que ele é culpado; então, ele não tem o direito de dizer que ele não é culpado.
Chama-me a atenção – e o que me chama a atenção não me surpreende – o senso de justiça dos antibolsonarista: Bolsonaro e todos os seus aliados são culpados de todos os crimes que lhes imputam; os inimigos dele jamais cometem crimes. Para os que odeiam Jair Messias Bolsonaro – e estou a falar de não poucas pessoas de meu convívio – há, assim eu interpreto o pensamento deles, no Brasil, duas Constituições Federais, dois Códigos Civis, dois Códigos Penais, dois Direitos Criminais, dois, enfim, sistemas jurídicos, um, que existe para julgar, exclusivamente, Jair Messias Bolsonaro e seus aliados, e a condená-los, infalivelmente, o outro a julgar os inimigos dele, e a inocentá-los, invariavelmente.

 Há não muito dias, ouvi um antibolsonarista, professor de filosofia, a declamar, com o fervor dos fanáticos, um poema antibolsonarista cujos versos defendiam uma tese extraordinariamente perspicaz – na opinião dele: o Bozonazi (é assim que ele se refere ao presidente) e seus filhos são criminosos, milicianos, porque a imprensa publica muitas reportagens que tratam dos crimes que eles cometeram. Perguntei ao distinto herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles se a imprensa é tribunal. Ele me fitou com cenho franzindo, ar de poucos amigos. E permanecemos ambos os dois em silêncio por um curto momento. E seguiu-se um diálogo, que nas linhas abaixo eu reproduzirei o mais fielmente possível:
– A imprensa é tribunal? Tem a imprensa poderes legais?
– Bozominion – falou-me, agressivo, quase aos berros, a ponto de se atirar sobre mim, e esganar-me -, você é gado do Mitonazi. A imprensa pública fatos, apenas fatos. E não foi só um jornal, uma televisão, uma revista, um site, que publicou reportagens que falam dos crimes da Família Bozofascista Miliciana Genocida Negacionista. Foram vários.
– Mas – falei, medindo as palavras -, a imprensa já publicou, e não há muito tempo, acerca do seu político de estimação, o (e citei-lhe o nome) muitas reportagens a respeito dos crimes dele.
– E ele respondeu aos processos, e provou-se inocente.
– Eu sei. Mas a imprensa publicou as reportagens. Com as publicações, provou que ele era culpado? Não. Os casos foram aos tribunais, que o inocentaram. Se ele pôde contratar advogados, e defender-se, nos tribunais, de todas as acusações que lhe fizeram, o Bolsonaro também pode. Até prova em contrário, o presidente é inocente. Eu não sou jurista, mas sei que ao acusador, e não ao acusado, cabe o ônus da prova, que deve ser apresentada, nos tribunais, diante do juiz, dos advogados, do promotor, do júri. Toda pessoa tem direito à legítima, ampla, defesa. Segundo a justiça, o que vale para o Chico vale para o Francisco. E não se tira de um peso duas medidas. O Bolsonaro….
– O Bozonazi é miliciano genocida. Matou mais de seiscentas mil pessoas de covid. O governo dele é o mais corrupto da história do Brasil.
– Mas ele tem direito a…
– Fascistas têm direitos, gado!? Fascista nem gente é!
E tratei de encerrar a conversa, que só me traria mais aborrecimentos do que os que até então eu já tivera.
‘Ta’í, meu amigo, um exemplo da mentalidade antibolsonarista.

O Descobrimento do Brasil – uma redação do Carlinhos.

A professora de história, Tábata Jandira Marilena do Rosário, da Escola Estadual Fulano de Tal, uma semana antes, pediu aos seus educandos uma redação cujo tema é o Descobrimento do Brasil. De todas as redações que os seus vinte e nove alunos lhe entregaram, chamou-lhe a atenção uma delas, a do Carlinhos. Admirada com o teor de tal obra, falou, dela, emocionada, e apresentou-a como um modelo a ser seguido por todos os educandos, na sala-de-aula.
Abaixo do ponto final que o Carlinhos imprimiu, à mão, na folha, para dar fim à redação, a professora anotou: “Carlinhos, a sua redação é brilhante. Você se revelou pessoa humana de espírito original, criativo, insubmisso. Você deu provas de que não é um educando oprimido, que se curva diante dos detentores do grande capital e da opressora norma culta da língua portuguesa. Você tem senso crítico. Apreendeu todo o ensinamento que ensina toda pessoa a conhecer o seu universo. Parabéns. Você é um aluno exemplar. Para você, com louvor, um 10.”
Nas linhas que seguem, reproduzimos a redação do Carlinhos.

Pedro Alves Cabráu, após cair em depressão profunda, e aprofundar-se na depressão, pensou, deprimido, angustiado, deprê: “Vou me suicidar a mim mesmo.” E subiu à Torre do Tombo, que até hoje não tombou. Tem tombo a torre só no nome. Cristiano Ronaldo, o rei de Portugal – país que, além de ser um dos mais importantes países da Escandinávia, é banhado pelo estreito de Bering, que é mais estreito do que o estreito do Iraque -, que naquele momento passeava por Barceloana, viu-o, em pé, a chorar como uma cachoeira em época de cheia, e perguntou-se para si mesmo o que se passava com aquele gajo, e foi até ele. Pedro Alves Cabráu, à pergunta do rei de Portugal, respondeu: “Minha muié largô dimin, meu rei. Não tenho mais motivo pra viver, e nem onde cair morto. Vou partir desta pra melhor. Tiau, meu rei. Hasta la vista, baby.”  E o rei de Portugal logo lhe disse: “Peraí, Pedrão. Não jogue a sua vida fora, assim, sem mais nem menos; se você deseja jogá-la fora, jogue-a, mas por um bom motivo. Descubra o Brasil.” “Quê, meu rei?! Fale mais alto, para que eu possa orelhar o que vossa majestade imperial do Reino Unido de Portugal, Algarves e Real Madri, diz com vossa real boca. O que vossa alteza me disse, meu rei?” ” “Meu rei!”, “Meu rei!”. Pedrão, você é da Baia?!” “Quê!?” “Há um país para ser descoberto, Pedrão: o Brasil, que até hoje ninguém descobriu. Ofereço a você uma viagem até lá, acompanhado de um padre, o bispo cardeal Bartolomeu Dumont, filho do Papa Nicolau, e outros homens desocupados, numa canoa movida à energia limpa, renovável. E chegando ao Brasil, você, gajo, fincará a bandeira de Portugal na areia da praia de Ubatuba, e entrará para a história universal de todo o cosmos terrestre como o descobridor do maior e mais rico país da América do Sul, continente asiático situado ao sul do norte da Terra. E no Maracanã você poderá assistir a um flaflu, e com direito de ver em carne e osso o Galinho de Quintino. Aceita a proposta, Pedrão?” “Mas é claro que aceito, meu rei. Vossa majestade imperial manda, eu, vosso serviçal súdito, obedeço. Diz o ditado: Pode, quem manda e obedece.” No dia seguinte, os tripulantes da canoa Santa Maria Pinta a Nina lançaram-se ao oceano marítimo. Cansado de tanto remar, Pedro Alves Cabráu disse para os outros tripulantes: “Vamos à África pegar um escravo afrodescendente. E que ele reme até o Brasil.” Dito, e feito. Chegados ao litoral da África, viram os tripulantes da canoa mais famosa da história universal da Terra global um afrodescendente, e aproximaram-se dele. E Pedro Alves Cabráu lhe propôs: “Reme com o remo até o outro lado do oceano marítimo. E lá chegando darei a você, meu bom homem, uma garrafa de cachaça da mais pura cana que se cultiva em terras do Brasil.” “Mé! Mé!”, exclamou o afrodescendente, lambendo os beiços. “Mé! Puro malte! Vamos nos pirulitar pelo oceanis dos marisquis, e depoisis que passarmos a nós mesmos pela Atlântidis, chegar ao Brasilsis. Vamos, portuga. Vamos, Cabrauzis! Forévis!”  E o africano afrodescendente pulou dentro da canoa, tirou um remo das mãos do padre, o bispo cardeal Bartolomeu Dumont, e remou até o Brasil, onde chegaram, uma semana depois, num dia qualquer de um ano qualquer. “Terra à vista!”, exclamou, entusiasmado, Pedro Alves Cabráu, que logo tratou de enviar um zap para o rei Cristiano Ronaldo, com as seguintes palavras: “Meu rei, terra à vista.” E o rei de Portugal respondeu-lhe, também via zap: “À vista, não, Pedrão. A prazo.” E o rei de Portugal deu o calote. Não pagou nem a primeira prestação. E o Brasil se ferrou. Este é o primeiro capítulo da história do Brasil.

Crimes do Bolsonaro

1 – Mandar a serpente entregar a maçã proibida para a Eva;
2 – Arremessar contra a Terra o meteoro que exterminou os dinossauros;
3 – Causar a extinção dos unicórnios;
4 – Afundar Atlântida;
5 – Trair Leônidas, rei de Esparta;
6 – Matar os pais de Bruce Wayne;
7 – Furar o olho de Camões;
8 – Atear fogo em Roma;
9 – Destruir Krypton;
10 – Afundar o Titanic;
11 – Queimar várias folhas do manuscrito de Almas Mortas, de Nikolai Gogol;
12 – Matar o príncipe Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro;
13 – Derrubar o Colosso de Rodes;
14 – Despejar duas bombas atômicas nas cidades japoneses de Hiroxima e Nagasaki;
15 – Matar Gwen Stacy;
16 – Roubar do Museu do Louvre a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci;
17 – Afundar Lemúria;
18 – Sequestrar Helena de Tróia;
19 – Causar a erupção do vulcão Krakatoa;
20 – Criar desavenças entre os Káuravas e os Pândavas;
21 – Matar o tio Ben; e,
22 – Mandar Dalila seduzir Sansão e cortar-lhe os cabelos.

Pensamento Nacional-Socialista de [Opressão] Direitos [Desumanos] Humanos. China

Nota: Os trechos entre colchetes estão rasurados no manuscrito.
Antes de tratar da China, um prefácio, no qual comento as perniciosas transformações pela quais passam o mundo capitalista sórdido, crudelíssimo, [o enriquecimento] de eliminação de pessoas [elevadas] reduzidas à miséria mais abjeta. O progresso tecnológico redunda, com a mecanização e robotização, não apenas das indústrias, mas, e principalmente, das famílias burguesas [livrando-as de tarefas árduas, rotineiras, estafantes, concedendo-lhes tempo para se dedicarem á tarefas mais criativas] e, consequentemente, expande o lucro, produto da exploração da mão-de-obra operária, enriquecendo os capitalistas, e empobrecendo o trabalhador, demitidos, estes, porque dispensáveis, como peças substituíveis.

A mecanização e a robotização, dizem os sórdidos capitalistas, melhoram o ambiente de trabalho e elevam o padrão de vida do trabalhador. Tal discurso, peça de propaganda para ludibriar os trabalhadores, que eles exploram desde a Revolução Industrial. A mecanização e a robotização do projeto capitalista burguês [que eleva o padrão de vida das pessoas, que não se ocupam mais de tarefas árduas, que lhe ocupam tempo que elas poderiam dedicar a tarefas que lhes oferecem bem-estar e lhes permitissem o aprimoramento dos seus talentos, da sua criatividade, da sua inteligência, propiciando o desenvolvimento da civilização, o enriquecimento da humanidade, criando novas indústrias, novas tecnologias, como ocorre desde os primórdios da civilização] revelam a face sórdida dos capitalistas, que coincide com a que Karl Marx descreveu, fielmente, [na bíblia comunista] no Capital, fonte de sabedoria proletária, e o projeto, desumano, de eliminação de trabalhadores, as vítimas preferenciais dos capitalistas.

Encerrado, aqui, uma síntese do objetivo dos capitalistas com a ininterrupta mecanização e robotização das fábricas e da sociedade [que redundou no enriquecimento geral e no progresso da civilização], passo, agora, a considerar os efeitos deletérios do setor de serviços na vida dos trabalhadores operários.

Com a redução da mão-de-obra operária, que se deu com a mecanização e a robotização das fábricas, os capitalistas, ávidos pelo lucro, criaram o setor de serviços, e neste setor os trabalhadores não são proletários autênticos; são trabalhadores cooptados pela burguesia. Não trabalham; exercem função servil aos capitalistas, ao atendê-los nas suas fantasias consumistas; e não percebem que [não trabalham em ofícios insalubres e não exaurem as forças em tarefas desumanas] são por eles explorados, alienados, tratados como seres servis, sem [alma, inteligência] consciência proletária, a qual eles lhes extraem, ao oferecerem-lhes mordomias pequeno-burguesas, desvirilizando-os, emasculando-os. E decorre de tal política [mercantil – o bem-estar da população das nações ocidentais capitalistas e o das nações orientais sob intensa influência ocidental] o hedonismo, o narcisismo dos frequentadores – trabalhadores operários (mesmo que eles não sejam operários, mas prestadores de serviços) e estudantes -, vadios e desocupados todos eles, dos shopping-centers e dos cinemas-pipoca, que lhes oferece, unicamente, produtos para consumo e entretenimento, desviando-lhes a atenção para atividades irrelevantes, dispensáveis, que lhes devastam [o espírito] a inteligência trabalhadora. E no bojo de tal política [libertária, humanista, de constante e ininterrupto progresso e melhoria do padrão de vida], que exalta os prazeres, o consumismo, a crueza de caráter, a insensibilidade, a insensatez, a inconseqüência, a irresponsabilidade, o descompromisso, há a [liberdade] libertinagem sexual. Os burgueses capitalistas ocidentais ludibriam os trabalhadores ao lhes fornecerem argumentos capciosos, que os persuadem, ludibriando-os, a abandonarem o trabalho árduo de constituição da sociedade proletária, de concretização do comunismo, do socialismo, e a ocuparem tempo e a consumirem energia a gozarem prazeres, dentro eles os de consumirem adornos pequeno-burgueses, os quais eles podem adquirir devido o aumento do salário mínimo, que lhes aumenta o poder de consumo e os afastam dos movimentos proletários.

Todos os pontos tratados acima, mecanização e robotização das fábricas e da sociedade, o setor de serviços, o salário mínimo, participam do projeto capitalista burguês ocidental de demolição da liberdade socialista. E a China, antes tão sábia, caiu na armadilha que lhes prepararam. A China, até há vinte e tantos anos tão zelosa na manutenção do ideal [humanicida e liberticida] humanitário e libertário, como o registram os livros de história (e um dos emblemáticos episódios que registram tal zelo [genocida] social-comunista libertário é o [da matança] da contenção da ação dos contra-revolucionários ocidentalizados na Praça da Paz Celestial), abandonou [a sua cultura milenar, budista e taoísta, fontes de sabedoria] a sua política humanitária de inspiração comunista. Prestou-nos desserviço ao baratear o preço dos produtos no mercado internacional, principalmente os produtos eletrônicos. Favorece o capital, o governo e a indústria estadunidense, ao abandonar práticas econômicas socialista. E os Estados Unidos transferem o trabalho braçal então executado pelos estadunidenses aos chineses e concentram-se no desenvolvimento de projetos de novas tecnologias cuja margem de lucro é maior do que a do trabalho braçal, e investem o lucro no desenvolvimento de tecnologia burguesa mais sofisticada, superior à chinesa. A China deu um tiro no próprio pé. A burguesia cresce na China. A classe média chinesa é composta de 300 milhões de pessoas, e muitas delas estudaram em universidades estadunidenses e aprenderam sutilezas ideológicas do neoliberalismo estadunidense, e estão a coonestar projetos criminosos de dominação do capital, enfraquecendo, portanto, o trabalhador (operário e agricultor) chinês, e enriquecendo e aumentando o poder de consumo da classe média burguesa chinesa, favorecendo esta, em prejuízo daquele, que [sofre nos campos e nas regiões mais pobres] atualmente, usufrui de [baixo] elevado padrão de vida, [inferior] superior ao dos países capitalistas ocidentais.

Não incorreremos no mesmo erro no qual incorreu o governo chinês [que permitiu que o povo chinês se enriquecesse ao adotar práticas econômicas capitalistas, se convertessem em consumidores consumistas e abandonassem o chão das fábricas e trabalhos degradantes, e estudassem em universidades estadunidenses, aprendendo, nelas, conceitos de ideais liberais, e de respeito às liberdades dos indivíduos]. Não admitiremos que multinacionais estadunidenses instalem-se no Brasil, [e assim gerem empregos no Brasil, enriquecendo os brasileiros], enfraquecendo o movimento proletário e fortalecendo a burguesia capitalista esnobe, favorecendo o consumismo desenfreado e o conseqüente endividamento do povo brasileiro trabalhador. Para a nossa sorte, o povo brasileiro, jovem, não tem o orgulho dos provectos e insensatos chineses, que, rivais do Grande Império Capitalista do Norte, produziram dois efeitos contrários aos propósitos do partido: Aumentaram a burguesia chinesa; e liberaram os estadunidenses de trabalhos braçais, concedendo-lhes tempo livre para se concentrarem em projetos de desenvolvimento tecnológico, que lhes aumentam, formidavelmente, a renda e o poder.

Avante, camaradas!

De Leninevitch Stalininski

Peixe de água doce e peixe de água salgada

Fui a peixaria, e tão logo um de seus funcionários atendeu-me, eu lhe disse: “Pediram-me para eu comprar peixe de água doce, e não de água salgada. Quais de água doce vocês têm?” E ele apontou-mos: eram três, ou quatro. E eu, sem titubear, perguntei-lhe: “E os outros são de água salgada?” E ele respondeu-me que sim, que os outros eram de água salgada. Não demorei para entender a minha tolice; e assim que paguei pelos peixes que pedi, já afastando-me da peixaria perguntei-me, rindo de mim mesmo, se havia peixe que não vive em água doce, tampouco em água salgada. O funcionário, que me atendeu, da peixaria tratou-me com o mais profundo respeito e de mim não riu – acho que não, pois a máscara que lhe cobria a cara não me permitia ver-lhe o rosto. Uma pulga, no entanto, está a coçar-me a orelha: Assim que me retirei da peixaria, aquele funcionário, rindo a bandeiras despregadas, contou a história que protagonizei a todos os outros funcionários, uns seis.

É racismo, sim!

Há um mundo, mundo de gente bizarra, grotesca, anômala, mundo que os homens comuns, que representam a maioria dos indivíduos da espécie humana, os bípedes implumes mais inteligentes do universo, não desejam conhecer, e do qual recebem, queiram ou não, inúmeras, incontáveis, notícias, que a gente estranha que nele vive não se vexa de lhes dar, e com a pachorra e a presunção de seres superiores, investidos de autoridade moral e intelectual e cultural e civilizacional que só os escolhidos possuem. E há poucos dias, alguns homens comuns tiveram a graça de receber duas notícias do estranho, bizarro mundo em cujas terras jamais desejaram pisar, e não sonham em tê-las sob os seus pés, e de cujos habitantes querem manter distância segura, mas nem sempre o conseguem, e a vida os obriga a com eles conviver, o que é deveras desgastante, doído, sofrido, angustiante, frustrante, irritante. Uma das duas notícias traz informações do balacobaco, uma inusitada leitura de um, não sei se digo certo, esporte popular, ou, simplesmente, uma atividade lúdica popular, que se pratica em cima de mesas de bilhar, a sinuca – não sei se se diz mesa de bilhar, ou mesa de sinuca, e não sei diferenciar bilhar de sinuca (da mesma forma que não sei distinguir truco de pôquer), pois não sou adepto de nenhum dos dois jogos, e não faço idéia se talvez sejam “bilhar” e “sinuca” dois nomes do mesmo jogo. O ponto mais importante da interessante notícia acerca do jogo popular que no mundo dos homens comuns se pratica, e com muito gosto, e que no mundo de gente bizarra do qual a notícia chegou recebeu a atenção de um daqueles seus típicos habitantes, personagem que aos homens comuns causam espanto de tão esquisitos, grotescamente esquisitos, estranhos, bizarramente estranhos, anômalos, escalafobeticamente anômalos; o ponto mais importante, prossigo – e eu fiquei a ponto de perder o fio da meada -, da interessante notícia é uma informação que o distinto adventício transportou ao mundo dos homens comuns: é a sinuca um jogo racista. Racista!? Sim. Racista. E explica, para que nenhuma dúvida persista na mente de nenhum homem comum, o caro alienígena (alienígena, aqui, sinônimo de ‘aquele que vem de fora’, e não de extraterrestre, embora seja ele um lunático de marca maior), o seu perspicaz pensamento: “É racista a sinuca, afinal todos os seus elementos constituintes apontam para a luta de classes racial: é a principal bola do jogo a branca, agente da ativa, a mais poderosa, que cumpre o papel de empurrar a bola preta, agente da passiva, removendo-a, com um taco, à força, para dentro da caçapa – e estampa a bola preta o número oito. É a caçapa símbolo da senzala; a mesa, da casa grande; a bola branca, da raça branca; a bola preta, da raça negra; o taco, do chicote; o número oito, de algemas. Todo o jogo é um instrumento de opressão, a carregar mensagens subliminares, símbolos que, aos poucos, e sem que as pessoas se dêem conta, fazem a cabeça do povo, que, habitando a sociedade ocidental, de matriz européia, helênica, cristã, colonizadora, paternalista, patriarcal, binária, é facilmente sugestionável, influenciável, e de tal influência não pode escapar. Desta forma, cientes da influência deletéria, na mente do povo, do hábito deste praticar tal jogo, exigimos, dele, para o bem da humanidade, a proibição, e a consequente supressão de todos os documentos históricos que lhe dão conhecimento.” É este o teor da idéia, brilhante idéia, produto da inteligência sagaz do bizarro habitante do mundo que o homem comum não deseja habitar, e cujos habitantes estão constantemente a atormentá-lo a ponto de fazê-lo perder a sanidade e com os quais é ele obrigado a conviver.
Da outra notícia, tão espantosamente inusitada, e da qual digo pouco, quase nada, para dar fim a esta crônica, que escrevi, não digo a contragosto, mas para expor o mal que aos homens comuns fazem os que, do outro mundo neste se manifestando, dizem lhe querer o bem, lhe fazer o bem, escrevo apenas: é urgente proibir-se a comercialização de palmito, ou, então, que se mude o nome de tal substância comestível, pois é, dele, a primeira sílaba sexista, machista, a extravasar masculinidade tóxica.
As criaturas que do mundo bizarro, estranho, as do outro mundo possível, as do mundo melhor, oferecem os seus préstimos aos homens comuns, e estão a assediá-los, querem, deles, a salvação, e não medem esforços para dar-lhas, e estão dispostos, até, para salvá-los, matá-los, se eles rejeitam, intransigentes, irredutíveis, a oferta.

Covid, o bode expiatório.

Parece piada, mas não é uma piada. Ou é, e de mal gosto?! Penso mal, e imensamente mal, ao concluir, após ler notícias, cujos títulos, em letras garrafais, estamparam, na primeira página de sites de notícias e sob ícones de vídeos de sites de vídeos, que as autoridades de organizações mundiais de saúde contaram, entre si, nos suntuosos salões, uma piada, pra lá de hilária, e caíram na gargalhada, e decidiram dá-la a público, com ar de seriedade, a imprensa, escudada por autoridades médicas e científicas, a disseminá-la como se fosse algo respeitável, prova cabal da responsabilidade de organizações internacionais preocupadas com o bem-estar coletivo? E qual piada elas contaram? A seguinte: todas as mortes causadas por falta de atendimento médico-hospitalar, durante os dois anos de vigência de política sanitária de combate ao vírus, e por depressão, são debitadas na conta do covid. Então, ficamos assim: governadores e prefeitos decretaram: a partir de agora, e enquanto vigir o estado emergencial de saúde pública para enfrentamento ao coronavírus, os atendimentos médico-hospitalares ficarão restritos às pessoas infectadas pelo novo coronavírus – que, até onde se sabia até há poucas semanas, tinha nascido em um laboratório chinês, e agora fala-se que talvez seja sua origem ucraniana, seu berço um laboratório neste país erguido e administrado por entidades americanas. E as pessoas flageladas por outras doenças foram relegadas a segundo plano – as adoecidas pelo covid merecedoras de atendimento preferencial, em detrimento de todos os outros doentes. E não se pode ignorar que muitas pessoas afetadas por algum mal cardíaco, cientes de que necessitavam de tratamento médico, não procuraram, em decorrência do medo-pânico que a campanha midiática, que aterrorizou a todos, e poucos foram os que bravamente lhe resistiram, nos hospitais, pelos médicos, temendo vir a nos hospitais serem infectados pelo covid. E as que morreram de males cardíacos, sejam as que tiveram adiada, indefinidamente, às calendas gregas, a consulta com o cardiologista, ou a cirurgia, ou a operação, sejam as que afugentaram de seus pensamentos uma ida ao médico, temerosas de virem a morrer pelo vírus do qual fugiam como o diabo foge da cruz, agora, segundo os órgãos competentes – competentíssimos, diga-se de passagem, os mesmos que desde o início da tragédia covidiana trocaram os pés pelas mãos -, são dadas como vítimas, não de políticas equivocadas – pode-se dizer criminosas – de governadores e prefeitos, e profissionais da saúde, e burocratas de organizações globais, mas do coronavírus. É o coronavírus o bode expiatório perfeito para inocentar os verdadeiros assassinos, que – para usar uma expressão popular, de nenhuma elegância, de imagem suja – estão a tirar o seu da reta. Dizem, agora, que são os mortos, durante os dois últimos anos, por falta de atendimento médico, vítimas indiretas do covid. Pergunto-me, sem saber a resposta correta: o que consta no atestado de óbito de quem, durante a vigência do estado emergencial, não recebendo atendimento médico, morreu de ataque cardíaco? Ataque cardíaco, ou morte indireta por covid?! Inventaram uma nova doença: a morte indireta por um determinado mal. Os desavisados, ingênuos, facilmente sugestionáveis – e para concordar com sandices basta que estas estejam assinadas por cientistas e médicos renomados, e autoridades eminentes, e chanceladas por organizações mundiais – encontram sentido em tal coisa, que não tem sentido algum, mas se lhe darmos uma explicação jocosa, eliminando da narrativa o tom artificialmente sério a ela emprestada, percebe-se, facilmente, o ridículo que ela ilustra. Um pouco hiperbólico, e caricatural, feito unicamente com o propósito de destacar o ponto principal da farsa, ponto ao qual querem dar um ar de seriedade, eu o faço com um exemplo qualquer: “Jesualdo, diabético, na doçaria, come uma tonelada de doces, e levanta-se da cadeira, para se retirar do estabelecimento. Neste momento, à porta, um bandido anuncia o assalto, e, sem piscar, dispara quatro tiros contra o peito de Jesualdo, que tomba para trás, e jaz morto antes de atingir o chão. No seu atestado de óbito, registra o médico a causa da morte: morte indireta por consumo excessivo de açúcar.” Ridículo!? Sim! Ridículo! O raciocínio, a lógica, que usei neste exemplo ridículo, num tom jocoso, é o que está a se usar para se dizer que é correto imputar ao covid as mortes, durante o estado emergencial, por problemas cardíacos, e depressão, e outros.

Dor de dente

Faz, já, algum tempo, que eu, dor de dente a atormentar-me, fui consultar uma dentista. Falei-lhe do meu caso, do dente, da dor, e, sentado na cadeira de tortura, à solicitação da dentista, abri a boca para ela examinar os dentes que ainda me restam, principalmente o que me doía. E deu a dentista o prognóstico, seguido das seguintes palavras: “Vamos extraí-lo.” E ela mo extraiu, com todo o carinho do mundo. Sai do consultório, a cara inchada. Eu retornaria àquele consultório, para nova consulta, uma semana depois. E assim foi. No dia aprazado lá estava eu, sentado na cadeira de tortura, ajeitando-me quando a dentista pergunta-me: “E o dente? Está doendo?”, referindo-se ao dente que me extraíra sete dias antes. Tão logo me fez a pergunta, comentou, rindo: “Como sentir dor no dente que eu arranquei semana passada?!”. Eu sorri, divertido.

Pensamento Nacional-Socialista de [Opressão] Direitos [Desumanos] Humanos. Escritores geniais

Nota: Os trechos entre colchetes estão rasurados no manuscrito.
Os nossos literatos, produzidos pela nossa ideologia, encantam multidões em todo o mundo. Representam a [fraqueza] [debilidade] força do nosso pensamento: Gabriel Garcia Marques e José Saramago são, respectivamente, o maior escritor das Américas e o maior escritor da península ibérica. José Saramago, Nobel de Literatura (o maior erro da sua vida foi aceitar a premiação concedida pela burguesa Academia Sueca; fiel ao ideal comunista foi Sartre, que a rejeitou) escreveu livros de altíssima qualidade, muito bem acolhidos, inclusive, pelos burgueses capitalistas europeus. Perdoamos-lhe o deslize: o de aceitar o dinheiro oferecido pela Academia Sueca, [excelente], que [promove] embora favoreça literatura [de elevado valor] burguesa, obrigou-se a reconhecer o talento ímpar do escritor lusitano que melhor traduziu a [horrenda] [nobreza] superioridade moral da ideologia socialista [malsã] promotora de [injustiças e miséria e morticínio] justiça social. Perspicaz, ele demoliu a pontuação, invenção burguesa, e criou um novo estilo literário irrivalizado. Outro deslize que ele cometeu: o qual também lhe perdoamos, foi o do anúncio de criticas ao [ditador] comandante Fidel, que [havia mandado matar três jornalistas], em defesa do ideal social-comunista, e para impedir uma contra-revolução tardia, na manutenção [do sistema totalitário que ele, secundado por Che Guevara, um covarde e traidor, que mereceu morrer nas selvas bolivianas, instituiu, em Cuba, oprimindo três gerações de cubanos] da integridade de Cuba, foi forçado a desfechar um golpe certeiro em profissionais da mídia burguesa, que almejavam a sua queda e a implantação do capitalismo na mais importante ilha caribenha. Entendemos que, Saramago, provecto – infelizmente, ele não é dotado de fibra equivalente à do [inescrupuloso] comandante Fidel -, fraquejou, como se sucede com os valetudinários, ao perder, momentaneamente, a têmpora e a sanidade. Insanidade passageira superada, recuperada a lucidez, ele escreveu Caim, um produto legítimo da [idiotice intelectualóide de escritores engajados] ideologia revolucionária.

Avante, camaradas!

De Leninevitch Stalininski

Pensamento Nacional-Socialista de [Opressão] Direitos [Desumanos] Humanos. [Deseducação] Educação

Nota: Os trechos entre colchetes estão rasurados no manuscrito. 
A educação é imprescindível ao sucesso do estabelecimento [do governo autoritário] da libertação do povo. Os pensamentos de todas as pessoas têm de convergir para o bem comum [que será alcançado com a tomada de poder pelos comunistas do mundo unidos], desejo de todas as pessoas que desejam a paz universal.A união faz a força, e a força, o poder, e o poder, o poder.

Nossa doutrina educativa pedagógica freiriana dos [chorões reivindicadores espasmodicamente convulsionados] oprimidos enervam os burgueses capitalistas das democracias liberais ocidentais. Elevará as crianças [vocábulo que temos de, obrigatoriamente, eliminar dos dicionários, pois remete às eras tétricas antediluvianas (antemarxinianas, antestalinianas e antimaoeanas)], que, hoje, nos países burgueses capitalistas ocidentais, espojam-se no monturo [moral] ideológico judaico-cristão, greco-romano, a mente entorpecida com ópio popular oferecido nos templos católicos (católicos bons são os insignes Frei Beto e Leonardo Boff, e os integrantes da CNBB), [à condição de insensíveis e desumanas máquinas de matar] ao paraíso socialista [comunista liberticida] libertário humanista (eis um pleonasmo, patente, o qual eu poderia evitar; no entanto, decidi salientar, no meu amor pelo socialismo democrático – pleonasmo que eu também poderia evitar, mas não o evitei para salientar o meu amor pelo marxismo) e as conscientizará do férreo poder da esquerda mundial e da capacidade singular de os vermelhos fazerem deste mundo [um inferno] um lugar [pior] melhor para se viver. Outro mundo é possível, sabem todos os comunistas genuínos [e neste outro mundo os comunistas exterminaremos todas as pessoas que não são obedientes ao Partido]. Nos países comunistas há democracia até demais, sabem os comunistas autênticos. Camaradas do mundo, nunca antes na história do mundo, houve um [Apedeuta] Grande Líder tão maravilhoso, ciente do [mal] bom anúncio de seu nascimento. Três [profetas] revolucionários, Stalin, Lênin e Trotski, testemunharam o seu nascimento, alvissareiro. Ele, [o Apedeuta], o Grande Líder, o Ungido, prestidigitador justo, de porte [hercúleo] marxista, dotado, o demiurgo do sertão, de talentos comunistas irrivalizados, erigirá, na Terra [o inferno dos Gulag, o paraíso], a civilização socialista [humanicida] humanitária. No transcurso de dez anos, avançamos em nosso [avanço] projeto para o estabelecimento do [nosso projeto democrático] governo mundial, com o apoio da F.A.R.C. [e do P.C.C.], sob a égide da O.N.U. e das O.N.G.S., às expensas do erário público, do tesouro nacional, e da capitação de recursos por meio da [extorsão] cobrança do Imposto de Renda, manancial da qual extraímos recursos [extorquidos dos] oferecidos por [cambada de otários] benévolos e gentis cidadãos das [repúblicas democráticas] nações socialistas e comunistas cientes de que, para a ereção do outro mundo possível é imprescindível a convergência à causa comum, a instalação do Governo Comunista Mundial, da energia de todos os [otários e imbecis] cidadãos exemplares e da dedicação à causa [totalitária] democrática socialista e a conjugação dos verbos aprender e ensinar (gramática, atividade dos burgueses desocupados insensíveis, é [imprescindível à educação], prescindível [para a idiotização] à ereção de uma sociedade [injusta e desigual] justa e igualitária).Neste artigo, e nos que se seguirão a este, apresento as minhas contribuições para a [miséria e o sofrimento] felicidade dos humanos de todo o mundo, que se dará com a indispensável contribuição dos [bichotários, ambientários, ecologistários] ecologistas [humanicidas] humanitários do G.R.E.E.N.P.E.A.C.E.. A minha [valiosa] humilde contribuição é apenas uma pá de areia para a construção do edifício do Comunismo Mundial.

Não posso sonegar a informação: Contribuíram para o meu trabalho as teses concebidas pelo vigoroso intelecto de Marilena Chauí, intelectual da intelligentsia [tupinambá] tupiniquim, mulher [feminina] feminista, dotada de simpatia natural e [feiúra repulsiva] encantos inúmeros, e Emir Sáder, autor da melhor biografia jamais escrita do Getulho, dentre outros renomados [intelequituais] intelectuais da intelligentisia [da pátria] do comunismo [brazileiro] brasileiro. Essas [cabecinhas de ostra] cabeças pensantes representam o que há de [pior] melhor na [baixíssima] elevadíssima cultura comunista [mundial] do globo terrestre, cuja configuração esférica impediu que a [fantasmagórica] crise econômica burguesa e capitalista originada nos Estados Unidos da América do Norte atravessasse o oceano Atlântico e desembocasse na Pátria [Odiada] Amada, como tsunamis. Era apenas marolinha, a crise econômica. Os estadunidenses brancos, loiros e de olhos azuis, sórdidos capitalistas inescrupulosos [enriqueceram] devastaram dezenas de países para acumularem a fortuna do universo, quiçá a da galáxia, a de Cuba, a da Coréia do Norte e a do Irã. Estadunidenses invejosos! Não pretendo me estender em demasia neste artigo. Não discorrerei com argumentos minuciosos. Serei sucinto, pois nós comunistas [, que desprezamos a cultura ocidental] não temos tempo a perder com a leitura de textos extensos, que nos provocam azia. Deixemos os intransigentes burgueses capitalistas ocidentais da ultradireita, moralistas folclóricos, com os livros, recheados de inutilidades, escritos por pessoas que fracassaram na vida e refugiaram-se na leitura das obras de escritores e políticos desocupados, burgueses insensíveis, sujeitos insignificantes de mente carcomida. Que se extraviem, os malditos burgueses capitalistas da ultradireita extrema.

Vamos ao tema que me pôs a caneta entre os indicador e o polegar da mão direita: Inculcar nas crianças a hostilidade às práticas capitalistas burguesas de [de construção de nações ricas e prósperas, que oferecem ao povo bens que os países socialistas não podem ofertar-lhe] devastação do meio ambiente e do avanço da humanidade insensível à Mãe Gaia. [Ave, James Lovelock!] James Lovelock! Traidor! Herege! Ao evocar tal nome, sinto borborigmos no estômago. Vide o Japão. Insensível ao curso da natureza, estorvou – ecologicamente criminoso – o avanço das águas do oceano sobre as ilhas japonesas, obliterando, assim, as mudanças da evolução da Mãe Gaia. Com as tecnologias de que dispõe, a Nação do Sol Nascente (e do Sol Poente), impede a Mãe Gaia de empreender, no seu [santificado] natural corpo celeste, a salvação da vida. Para o [inferno] Gulag os japoneses, criaturas ignóbeis, reincidentes na agressão à Mãe Gaia. Louvemos os haitianos e os filipinos, que jamais impuseram empecilhos à ação [divina] natural, revolucionária, da Mãe Gaia rumo à perfeição.

Avante, camaradas!

De Leninevitch Stalininski

Igualdade entre os homens

– Eu sou a favor da igualdade entre os homens – diz o carinha que não quer que os nerds tenham um Colt.45.

Eu, a refeição.

Ao passar, hoje de manhã, um pouco antes do almoço, pelas bordas da feira, à praça da Liberdade, nas proximidades do Mercado Municipal, a carregar duas sacolas, minutos após retirar-me do banco, onde eu pagara quatro boletos, ouvi, de um homem de estatura mediana, um pouco mais baixo do que eu, rosto de pele morena, curtida de sol, acobreada – não digo que era marrom, cor de terra -, de, presumo, uns cinquenta anos, uma sentença – que ele dirigiu a todos os que se encontravam no raio de sua possante voz -, que me assustou, obrigando-me a voltar para ele a atenção, e nele detê-la, o que fiz durante alguns segundos, poucos, e logo tratei, célere, de me afastar, confuso, e perplexo, e assustado, e preocupado; e ao chegar à esquina, olhei para trás, à procura – meus olhos esgazeados, acredito – daquele homem de quem trato nesta crônica, que é curta, e não o encontrando, segui meu caminho, pensativo. Anunciava o homem temperos, que ele carregava, seis deles, acondicionados em saquinhos transparentes, de plástico, dispostos sobre uma bandeja de plástico, branca, que ele carregava com a destreza de um equilibrista. Em quatro dos pequenos sacos havia pó, em um, verde, em outro, preto, em outro, amarelo, em outro, branco, e nos outros dois havia, em um, grãos, não me lembro de que cor, e no outro, folhas picotadas. Eram temperos, segundo o personagem que os anunciava à venda. Temperos. E há mal em se anunciar, em praça pública, temperos, para um público numeroso? Não. Não há. O que aquele homem disse, e no tom em que ele disse o que disse, sim, vi um mal, mas me pergunto, agora, na minha casa, calmo, à escrivaninha, lapiseira à mão, a escrever estas palavras, se entendi o que ele disse, se ouvi o que pensei ter ouvido, se a minha imaginação, excitada, me fez dele ouvir palavras que ele não disse, melhor, me fez ouvir as palavras que ele disse e emprestar-lhes significados que não possuíam.

Naquele personagem, que é o principal desta minha crônica, vi, ao observá-lo de uma certa perspectiva, um botocudo, e dos mais ferozes, com os seus singulares paramentos, e de outra, um aimoré indomável, de olhar petrificante, e de outra, um tupinambá pronto para avançar sobre Hans Staden. Parecia-me ele o Boaventura da Costa, personagem de um conto de Aluísio Azevedo, mas diferente dele, que aos olhos de uns era um ancião que já havia recebido a extrema-unção, e aos de outros um recém-nascido no instante em que levava do obstetra um tapinha inofensivo, eu via, no meu personagem, índios, melhor, silvícolas ameríndios, nativos da América, aqueles homens asselvajados que, à chegada dos portugueses, ainda viviam na idade da pedra – não sei se da polida, se da lascada -, a cobrirem-lhes as vergonhas as vestes que a natureza lhes deu, a manejarem instrumentos de caça e com a desenvoltura de matadores profissionais; nele eu vi antropófagos, monstros canibalescos, criaturas dos pesadelos que atormentam os seres humanos desde o nascer do universo.

Mas o que, afinal, pergunta-me o leitor, aquele homem disse que me fez ver, nele, um tipo humano que me provocou reação tão negativa. Três palavras, paciente leitor, apenas três palavras, e nenhuma outra além delas. E assustaram-me e intrigaram-me tais palavras. Quais palavras, insiste o leitor em conhecê-las. Digo: estas: “vamos”, “temperar”, “gente”. E ao recordar tal episódio da minha vida de um homem que está às portas da segunda casa dos “enta”, pergunto-me, repetindo pensamento que apresentei em alguma linha acima desta, se ouvi o que ouvi, o que, melhor, pensei ter ouvido. Peguei uma pulga, e a sentei atrás da minha orelha, e pedi-lhe que me ajudasse a pensar acerca de tão intrigante episódio. Disse aquele homem, ao anunciar os produtos que oferecia à venda, “Vamos temperar gente.”, ou “Vamos temperar, gente!”? Se é a interpretação correta das palavras dele a segunda opção, então, obrigo-me a concluir que ele dizia às pessoas que, se o desejassem, lhe comprassem temperos, para condimentar suas refeições. Se é a primeira, então ele se preparava para deliciar-se com uma refeição, que, penso, seria digna dos deuses, dos deuses ameríndios, obviamente; resta-me saber se ele já havia preparado a carne para receber o tempero, ou se estava à caça de uma que lhe atendesse ao paladar – eu, que não pretendia saber qual era a resposta correta, tratei, e logo, instintivamente, de passar sebo nas canelas, e dele afastar-me o mais rapidamente que podia. Fiz bem, acredito.

Pensamento Nacional-Socialista de [Opressão] Direitos [Desumanos] Humanos. [Morte] Ato de Liberdade pós-Natal

Nota: Os trechos entre colchetes estão rasurados no manuscrito.
Há políticas prementes a se estabelecer, [se necessário enviando os recalcitrantes aos campos de concentração], para construir, na Terra, [o céu, o paraíso], a utopia socialista, e oferecer ao povo, que [será esmagado pela] usufruirá da igualdade [perante o partido] de condições, de todos os bens [criados pelo livre-mercado] construídos pelos operários. Inúmeros são os pontos da nossa política liberticida] libertária. Destacaremos, hoje, um deles, que é imprescindível à [demolição da civilização cristã] ereção [do paraíso] da utopia socialista sonhada pelo insigne Karl Marx: o [da Morte] do Ato de Liberdade pós-Natal. Qual a razão de nos dedicarmos à esta [matança sangrenta] política humanitária? Para compreendermos a [sem-razão] razão da atenção que dedicamos ao tema, recuaremos, no tempo, para apresentar a origem da história da civilização ocidental, [a única civilização que ofereceu aos homens a liberdade], que oprime os homens e as mulheres, distinguindo-se da [terrível civilização opressora] humanitária e libertária civilização islâmica. Os livros de História Universal ensina-nos que nasceu, há mais de dois mil anos, em uma região sáfara, um menino, que veio a receber o nome de [Nosso Senhor] Jesus Cristo, cujo nascimento anunciou-o a estrela de Belém, e três [feiticeiros] magos o presentearam com mirra, incenso e ouro. E [Nosso Senhor] Jesus Cristo, já adulto, perambulou por uma vasta região, e disseminou as suas [palavras de sabedoria] sandices, tomadas pelos seus seguidores como palavras de sabedoria, as quais os evangelistas trataram de disseminar por todo o planeta, [libertando] corrompendo os homens e as mulheres [educando-os para o amor a si mesmo e o amor ao próximo, libertando-os, portanto, de pensamentos que lhes esmagavam coração e mente]. O ponto culminante da civilização ocidental foi a Revolução Industrial, [que enriqueceu a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, duas nações cristãs que elevaram o padrão de vida dos seus respectivos povos], que debilitou, e desvirilizou, e emasculou, e entibiou homens e mulheres.

Apresentado este resumo da história [da bem-sucedida e vitoriosa civilização ocidental] do cristianismo, e da sua [bondade inerente] sordidez, bem sucinto, como se lê, compreendemos a origem do pensamento [libertário] liberticida inculcado nos povos [livres] escravizados do ocidente.

Com a política [da Morte] do Ato de Liberdade pós-Natal, [mataremos milhões de infantes] salvaremos milhões de mulheres, [amadas] oprimidas pelos homens, [que as amas e as adoram], que as detestam, e as acorrentam os verdugos, e as vergastam [no ambiente do lar] nas casas, que são senzalas, cárceres, enxovias, ergástulos moralmente fétidos. A política [da Morte] do Ato de Liberdade pós-Natal poderá ser executada em qualquer época do ano, não obrigatoriamente após à [belíssima, encantadora] sórdida comemoração natalina burguesa-capitalista do nascimento de [Nosso Senhor Jesus Cristo] um judeuzinho ranhento em um monturo, nascimento testemunhado por três [reis] vagabundos errantes que atendiam, um, pelo nome de Gaspar, outro, pelo de Belchior, e outro, pelo de Baltazar. Poderá ser executada, também, antes do Natal, ou antes, ou depois, de qualquer outra efeméride [religiosa] burguesa da ultradireita radical, conservadora, fundamentalista e fascista cuja mentalidade está impregnada de valores inquisitoriais da era das [luzes] trevas medievais (tais como a Páscoa – os coelhos capitalistas burgueses põem ovos de chocolate -, a quarta-feira de cinzas, o dia da Independência – que, na verdade, é o dia da dependência aos Estados Unidos – e o dia da Proclamação da República, que foi financiado pela CIA). E, saliente-se, não é imprescindível a sua execução na véspera ou no dia subseqüente às efemérides; pode-se executá-la, na antevéspera, ou três dias, ou quatro dias, ou qualquer dia antes ou depois delas.

Em que consiste [a Morte] o Ato de Liberdade pós-Natal? [A morte] O Ato de Liberdade pós-Natal é um dos pontos principais do projeto [liberticida e genocida] socialista de [corrosão da sociedade cristã] libertação das mentes [dos indivíduos] do povo, subjugado pelo capitalismo, que [gerou riqueza e garantiu as liberdade dos indivíduos] aumentou a desigualdade de renda e matou milhões de pessoas de fome e [liberta] oprime povos em todo o mundo. E [oprime] defende as mulheres, libertando-as das correntes conservadoras de fundo cristão fundamentalista – perdoem-me o pleonasmo. Sabemos que desde o nascimento, na manjedoura, de [Nosso Senhor Jesus Cristo] um judeu ranhento, que, diuturnamente, sujava os cueiros, as mulheres são [respeitadas] oprimidas e [bem-tratadas] mal-tratadas. Inspirados pelas idéias [benéficas] maléficas daquele ilustre personagem, teólogos, filósofos e políticos elaboraram doutrina que [eleva] rebaixa a condição da mulher a objeto dos prazeres luxuriosos dos homens, que passam a ser os seus proprietários. E o enlace matrimonial é a corrente que [liberta] oprime as mulheres. E o corpo das mulheres tornou-se, então, propriedade do homem, que dele pode usar o abusar quando bem entender. E os homens deles usam e abusam quando bem entendem. A mulher, defendemos, [proprietária de seu corpo], tem um corpo, que não é propriedade sua, pois a propriedade como idéia é um [valor que muitos benefícios] ideal corrosivo de [alma] inteligência dos humanos; o corpo da mulher é um bem comum, [para uso e abuso de todos os socialistas – tal ideal é desejado pelos revolucionários que almejam a aniquilação da civilização judaico-cristã, e o corpo da mulher é um instrumento de corrosão], e a mulher não pode usá-lo como bem entender, como o defendem os incautos, pois, sendo bem comum, tem de ser usado com vista à criação da sociedade [libertária genocida] igualitária socialista. [Considerando essa propriedade exclusiva] Tendo em vista o seu uso comum, e não compartilhável com um homem apenas, a mulher pode alterá-lo, seguindo, sempre, o ideal socialista que [a oprime e a despreza] visa a sua libertação do jugo masculino. De seu corpo a mulher pode fazer-se e desfazer-se como bem entender; ela nada deve aos homens, nem satisfações, nem explicações. Ciente desta condição, a mulher, portanto, pode em seu corpo inserir o que desejar, e dele retirar o que lhe desagradar, o que a incomodar. E o ideal socialista, ao contrário da civilização judaico-cristã, concede-lhe esse direito. Milhões de mulheres submetem-se a cirurgias plásticas para alterar aspectos, que as desagradam, de seu corpo, e o direito de fazê-lo é inalienável. Todavia, os cristãos fundamentalistas, os conservadores antiquados – perdoem-me o pleonasmo – não desejam conceder-lhes o direito de [matar crianças em seu estágio intra-uterino] se livrarem de corpos estranhos que lhes adentram, em muitos casos sem o consentimento delas, em outros sem elas os desejarem, os corpos, e se lhes alojam no útero. E as mulheres, então, são obrigadas a carregarem [uma criança] um corpo estranho, uma coisa, com elas durante nove longos e desgastantes meses, podendo vir a falecerem para conservá-lo dentro delas. [Matar as crianças embrionárias] Libertar as mulheres deste fardo é a proposta [de Morte] do Ato de Liberdade pós-Natal. [A Morte] O Ato de Liberdade pós-Natal é [liberticida e infanticida] libertário e humanitário. Todas as mulheres, grávidas ou não, providas de senso-comum socialista, comunista, progressista, stalinisticamente e maoisticamente corretos, têm de apoiar tal política, [ou o Partido as fuzilará ao paredón, sem perder a ternura, ou as enviará para o Gulag], se assim o desejarem; e as recalcitrantes serão persuadidas a apoiarem-na ao compreenderem as razões para a sua implementação.[No seu avanço gradativo de imposição dos ideais socialistas liberticidas, com a ocupação gramsciana dos espaços nas universidades, na mídia, no cinema, na literatura, remunerando, regiamente, blogueiros, o Partido, elimina toda força de resistência ao seu projeto de poder absoluto; no entanto, ainda não obteve a censura da mídia e a centralização da polícia sob comando do executivo federal. Estamos a dois passos de estabelecermos o inferno socialista na Terra. Oprimindo] Libertando as mulheres de fardos que lhes exaurem as forças, concedemos-lhes o usufruto de seu corpo, para o seu benefício e bem-estar. [A morte] O Ato de Liberdade pós-Natal é uma das medidas do programa de adoção dos ideais socialistas, [que dizimaram cem milhões de almas humanas], que libertaram milhões de seres humanos do jugo capitalista ocidental de inspiração judaico-cristã.

Avante, camaradas!

De Leninevitch Stalininski

Vírus e caminhões

Há certos títulos de reportagens jornalísticas que conservam enigmas, e indecifráveis, mistérios, daqueles bem misteriosos, para os quais ninguém tem sequer uma explicação plausível, ou mensagens cifradas cujas substâncias estão além do entendimento humano. Li, há poucos dias, o título de duas reportagens, ambas de canais de notícias, ambos do Youtube, ambos a dar ao público informações importantes – assim penso, pois, sou obrigado a confessar, eu, um pecador impenitente, não acessei tais reportagens para lhes conhecer o teor -, ambas a guardarem, e no título, dados intrigantes. E não me dei ao trabalho de anotar os nomes dos canais que dão-nos a conhecer valiosíssimas pérolas jornalísticas. E por que eu o faria!? Entendi importante os títulos das reportagens, e não o que elas contêm. E são os títulos intrigantes, enigmáticos: “Vamos ter que conviver com o vírus com inteligência.”; e, “Motorista de caminhão bêbado destrói 31 carros em acidente na….” – neste segundo ficam as reticências, pois não me interessei em conhecer-lhe toda a extensão. Que o vírus – e trata a reportagem, presumo, do covid-19, vírus que tem a seu serviço o melhor relações públicas com o qual um vírus jamais contou – é inteligente não me resta dúvidas, afinal, ele selecionou, sabemos, seu público alvo e atacou-o, e foi bem-sucedido em sua ação, em certas horas do dia, em certos dias da semana, em certos locais, driblando, sempre, a vigilância sanitária, que, em vão, e a esmo, atacou-o diuturnamente; e que processem o caminhão, que bebeu antes de dirigir, melhor, dirigir-se (não sei se tal caminhão é um criminoso de ficha policial quilométrica, ou um “dimenor”, ou um suspeito, ou apenas um menino, uma vítima da sociedade – confesso que não sei qual é o seu estado civil, mas seja qual for que o caminhão não saia impune de sua ação inconsequente).
Ocupei-me em demasia com tais enigmas misteriosos, charadas indecifráveis. Eu poderia dedicar-me à leitura das reportagens que os títulos anunciam, mas decidi, não sei porquê, resumir a minha atividade intelectual a conhecer-lhes a substância lendo-lhes os títulos, unicamente. Foi-me impossível conhecê-las. Deixo-as para estudo dos homens dotados de intelecto privilegiado.

Pensamento Nacional-Socialista de [Opressão] Direitos [Desumanos] Humanos. Lei da Palmada

Nota: Os trechos entre colchetes estão rasurados no manuscrito.
Em defesa da Lei da Palmada, a minha contribuição:

Agredir crianças é um atentado contra a humanidade. Nas burguesias capitalistas ocidentais e nas neoliberais e [humanitárias] desumanas sociedades judaicas e cristãs, o pai [no uso de sua legítima autoridade natural], defensor intransigente do pátrio poder, e a mãe, defensora histérica do mátrio poder, não admitem, que o Estado lhes [usurpem a autoridade natural] [oprimam] eduquem os filhos, usando, para tanto, de [técnicas abusivas] métodos pedagógicos de vanguarda, [convertendo-os em agentes revolucionários fiéis ao Partido e voltando-os contra seus pais], aprimorando-lhes os talentos. Os [espiões cubanos] agentes especiais [infiltrados] que trabalham no ocidente registraram cenas grotescas das torpezas das famílias pequeno-burguesas e das pequenas famílias burguesas capitalistas ocidentais, de pais e mães a agredirem crianças indefesas com bastões de baseball, cabos de vassoura, cabos de rodo, chinelos, mangueiras, e, pasmem, camaradas, com as palmas das mãos, a lhes ferirem as nádegas [angelicais] infantis. [Estamos cientes de que casos de violência familiar corresponde à ínfima parcela das famílias ocidentais; todavia, destacamos os casos existentes, e, com apoio da grande imprensa, que é-nos aliada, damo-los como retrato fidedigno da cultura pequeno-burguesa capitalista ocidental de inspiração cristã]. No nosso país, que, almejamos, se converterá [num paraíso] numa civilização comunista socialista [humanicida] humanitária, educaremos as crianças, sem agredi-las, [usando-as] como instrumento da destruição da sociedade burguesa. Explico-me: Assim que um pai burguês (ou mãe burguesa) empunhar um cabo de vassoura (instrumento bélico encontrado em todos os lares burgueses), acionaremos os nossos agentes (O.N.G.S., C.N.B.B., O.N.U., G.R.E.E.N.P.E.A.C.E., etc.), que pressionarão o Estado para adicionar, nas leis do desarmamento, a obrigatoriedade do direito de entregar tais apetrechos bélicos às autoridades. Não podemos, no laborioso trabalho de ereção do edifício comunista, admitir a posse, pelos cidadãos burgueses, de armas tão letais. Letais, sim! O pai (ou a mãe), punhos cerrados, fúria nos olhos, desfere, com o cabo de vassoura, no lombo, na cabeça, do pequenino e indefeso filho (ou filha) pancadas violentíssimas. A agressão é desmesuradamente violenta e injustificada. Na técnica comunista-socialista de educação, por mim concebido com a minha legítima cabeça [de mentalidade totalitária] [opressora] stalinista e maoísta, conjugo a educação das crianças com a demolição da sociedade pequeno burguesa, abrindo espaço para o avanço da civilização comunista [genocida] por nós sonhada desde Karl Marx. Acompanhem a lógica de tal método pedagógico [nefasto, desumano] inspirado pelos luminares do socialismo e do comunismo: O meu inédito, singular (inusitado, diriam os burgueses capitalistas ocidentais, indivíduos desprovidos de lógica progressista) método, pode ser resumido em poucas palavras, pois, como todo aplicado estudioso do socialismo científico e das obras de Noam Chomsky e Paulo Freire, conheço o significado exato das palavras. (Sabemos que, na semântica esquiva dos burgueses capitalista, guerra é guerra, paz é paz, escravidão é escravidão, liberdade é liberdade. Nada mais falso. Nosso mentor, Orwel, com o seu diptíco, construiu a verdadeira obra comunista [totalitária e liberticida] libertária e coletiva de respeito aos humanos). No seu desejo, vão, os burgueses, para desmerecer nosso [liberticida] trabalho humanista, aventam as críticas mais [sensatas] absurdas. Não nos surpreendem, pois, não ignoramos, é o desejo deles, inconfessado, exibir elegância intelectual e erudição filosófica e política, unicamente. Os intelectuais comunistas [alimentam o desejo de exterminar todos os dissidentes] [de eliminar todos os que não se lhes são servis], dotado de senso crítico irrivalizado e os burgueses, destituídos de cultura revolucionária marxista, jamais apreenderão tal pendor analítico, detectam, e avaliam, o pensamento ignóbil subjacente à elegância do linguajar burguês capitalista, ocidental, judaico-cristão, escancarando, deles, a iniqüidade inata.

Provido, portanto, de pendores socialistas, escrevo, sem mais tardar, convicto da veracidade da ideologia [liberticida] libertária marxista.

Um pai (ou mãe) utiliza um instrumento, o cabo de vassoura, para punir o filho transgressor.

Destaque-se: o agressor: o pai; o instrumento de agressão: o cabo de vassoura; a vítima: o filho.

O meu método, simples na aplicação, mas complexo na sua elaboração, e rico no seu teor filosófico socialista e progressista, que raros indivíduos, privilegiados (os formados nas escolas marxistas de pensamento) apreenderão em sua totalidade, consiste em: O pai (educador) agarrar o filho, ou pela cabeça, ou pelos pés, caso ele transgrida as leis socialistas, demonstrando voluntariamente – e sempre é voluntária – e conscientemente – e sempre é consciente – desprezo pela verdade socialista universal, e o brandir como um cabo de vassoura, contra um burguês capitalista. Assim, para citar um ditado popular, ele mata duas cobras com uma cajadada. O raciocínio: A criança transgressora, brandida como um bastão, é o instrumento de educação de um burguês capitalista ferrenho e intransigente defensor da cultura capitalista opressora; o pai é o agente da educação do oprimido: a criança, influenciada pelas propagandas de empresas de bolachas e desenhos animados; o burguês é o educando insurgente hostil ao socialismo [liberticida] libertário e refratário à [mentira] verdade do realismo marxista científico de inspiração [humanicida] humanitária. Não é difícil perceber: na [educação] opressão capitalista burguesa, o pai é um [educador] agressor, o cabo de vassoura, o instrumento da opressão, e o filho, a vítima indefesa, que nasceu pura, livre de pensamentos pequeno-burgueses, capitalistas, ocidentais e judaico-cristãos, os quais ele introjetou durante a convivência com indivíduos conservadores ultra-direitistas, num ambiente poluído por ideologia [humanitária] humanicida, [libertária] liberticida, de [livre-comércio] servilidade ao capitalismo, [liberdade] de opressão religiosa, [liberdade] de censura de imprensa. No meu método pedagógico, o pai é o educador; a criança, simultaneamente instrumento de educação de si mesma e de um terceiro envolvido no processo; e o burguês capitalista, o educando. Aqui está, em rápidas pinceladas, o sistema educacional de promoção do progresso socialista para a ereção de sociedade [totalitária] libertária.

Um adendo: A Lei da Palmada e a Lei Nacional-Socialista de [Opressão] Direitos [Desumanos] Humanos são imprescindíveis à ereção, na Terra, da [opressão] libertação dos povos.

Encerro, aqui, esta missiva cujo teor surpreenderá até mesmo o mais aplicado estudioso da ideologia comunista. Um abraço, em apoio à ereção da construção do edifício [liberticida] libertário em prol da [desumanidade] humanidade dos humanos, que merecem a [prisão] liberdade num Gulag progressista de inspiração soviética e stalinista.

Avante, camaradas!De Leninevitch Stalininski.

Os males covidianos.

Os especialistas, de acordo com o que as pesquisas indicam, descobriram que o covid causa, naqueles que ele infecta, aneurisma, leishmaniose, alergia à lactose, blefarite, bicho-do-pé, astigmatismo, hipermetropia, mutismo, surdez, fotofobia, cegueira, calvície, úlcera gástrica, cólica renal, diarréia, prisão de ventre, impotência sexual, vampirismo, cólera, febre amarela, doença de Chagas, miopia, pressão alta, pressão baixa, disenteria, dente encavalado, estrabismo, tuberculose, síndrome do pânico, alergia à maltose, anorexia bulímica, alergia à sacarose, tecnofobia, hipertensão, varizes, depressão, nanismo, obesidade mórbida, raquitismo, piromania, sonambulismo, atrofia muscular, autismo, esquizofrenia, mal de Alzheimer, elefantíase, pneumonia, anemia, dupla personalidade, transtorno obssessivo-compulsivo, necrofilia, velhice e feiúra. E descobriram, também, que a máscara faz dos feios bonitos, e dos magricelas e dos balofos esbeltos, modelos perfeitos da beleza humana.

Tipos Humanos Autenticamente Brasileiros.

É o Brasil o país da mistureba racial, fenômeno civilizatório que os sociólogos, os antropólogos, os etnólogos e os paleontólogos denominam miscigenação, que, não se sabe com exatidão porquê cargas-d’água, manifesta-se, não com exclusividade, na terra do mico-sagui e da vitória-régia, com intensidade infinitamente superior à que se vê em outros países, e desde que nas suas terras pisaram os lusitanos Pedro Álvares Cabral e Pero Vaz de Caminha – contou-me um passarinho (e estou a vender o peixe pelo preço que dele eu o comprei – a sequência de três palavras com inicial em ‘p’ não é do meu agrado, mas fica) que estes dois ilustres personagens da história da Ilha de Vera Cruz não pisaram nas terras do país do carnaval e do futebol (que naquela era imemorial eram desconhecidos por estas plagas), mas ocuparam-se, unicamente, de pisar nas areias do litoral da Bahia.

Nesta terra em que se plantando tudo dá, até foca de cabelo colorido e ser híbrido de traíra e marreco – duas quimeras a pedirem nome de batismo, científico, em latim -, germinaram inúmeros tipos humanos de características inexistentes nas outras duzentas e tantas nações que ocupam as terras emersas do planeta Terra. E eu vim a da existência deles inteirar-me após décadas de dedicação (não me agrada esta sequência de três palavras com inicial em ‘d’, mas fica) ao estudo de tão inusitado fenômeno, único, singular, em toda a longa história da espécie humana. Compulsei calhamaços pesadíssimos e alfarrábios vetustos, impressos, estes e aqueles, quando Matusalém era um bebê mimoso e rechonchudo, cujos vagidos encantavam sua progenitora, e estudei arte rupestre encontrada em dezenas de cavernas espalhadas pelos rincões do Brasil, e manuscritos com caligrafia esmerada e floreada de inextrincável emaranhado de atavios, até que, enfim, compensando todo o meu esforço e a minha dedicação – inéditos na história da humanidade, digo, sem falsa modéstia, e sem me vangloriar, e sem me vexar, pois é o que digo a mais pura verdade -, consegui – fui bem-sucedido em meu propósito – elaborar uma lista, que dou a conhecer aos interessados em tão intrigante assunto, nas linhas abaixo da que encerra este parágrado (Eu escrevi “intrigante tema”, que não fica, pois a junção da última sílaba de “intrigante” com a primeira de “tema” não me agradou, não me soou bem aos ouvidos – feriu-mos), com todos os tipos humanos autenticamente brasileiros que identifiquei em todas as obras literárias que me chegaram ao conhecimento – as gravadas em papel e as gravadas em pedras e as gravadas nas paredes e nos tetos e no chão de cavernas. Caso o leitor, se estudioso da história da civilização, jamais deixa de cumprir as suas incumbências intelectuais, notar, na lista que eu forneço a seguir, a ausência de algum tipo humano autenticamente brasileiro, que me faça a gentileza de mencioná-lo, chamando-me a atenção para a minha negligência imperdoável. Eis a prometida lista de tipos humanos autenticamente brasileiros:

1) afro-brasileiro;

2) euro-brasileiro;

3) americano-brasileiro;

4) asiático-brasileiro;

5) australopiteco-brasileiro;

6) asteca-nipônico-brasileiro;

7) etíope-viking-brasileiro;

8) boliviano-árabe-brasileiro;

9) franco-sifilítico-magiar-brasileiro;

10) eslavo-troiano-kriptoniano-brasileiro;

11) neozelândes-tártaro-shakesperiano-brasileiro;

12) aimoré-anglo-saxônico-equino-brasileiro;

13) sírio-jupiteriano-nórdico-brasileiro;

14) turco-burlesco-nudista-estóico-brasileiro;

15) lusitano-maia-hipocondríaco-saariano-brasileiro;

16) otomano-pigmeu-paquistanês-ungulado-brasileiro;

17) angolano-marsupial-albino-suburbano-brasileiro;

18) guatemalteco-sioux-achocolatado-insosso-brasileiro;

19) argelino-paraquedista-faquir-elefantino-brasileiro,

20) são-paulino-vietnamita-paraplégico-bérbere-arborícola-brasileiro;

21) helênico-gótico-frankensteiniano-cosmonauta-leporino-brasileiro;

22) moçambicano-carijó-belfo-calipígio-ovíparo-brasileiro;

23) taiwanês-neurótico-valetudinário-elegíaco-sudanês-brasileiro;

24) chileno-bielorusso-polissilábico-seráfico-caboverdiano-brasileiro;

25) argentino-iraquiano-lacônico-peripatético-prognato-brasileiro;

26) marroquino-ucraniano-anfíbio-selenita-afegão-brasileiro; e,

27) paraguaio-vulpino-rubro-negro-napoleônico-arabesco-netuniano-crocodiliano-rocambolesco-plutônico-ermitão-palmeirense-cigano-romeno-brasileiro.

Imagem de Uma Pequena Cidade

O dia amanheceu radiante, ensolarado. Ele acordou. E meditou, à escuridão do quarto. Ouviu cantar um galo da vizinhança. E pouco tempo depois, chegaram-lhe aos ouvidos palavras de dois bem-te-vis a dialogarem, animados.

Uma cidade de cento e quarenta mil habitantes conserva os seus encantos. Perdeu muito do seu aspecto rústico de há cinquenta anos; e não assumiu a figura de metrópole mastodôntica. Amálgama de duas criaturas distintas, adquiriu aspectos que, não pertencendo à nenhuma delas, conferem-lhe fisionomia que provoca, simultaneamente, maravilhamento e estranhamento. Na área urbana, há casas construídas há cem anos, e outras, de construção recente, erguidas no centro da cidade, cujo desenho arquitetônico é inspirado nas casas antigas. Os munícipes conservam muitos costumes antigos, a cultura rústica, e o linguajar do tempo dos avós, com as suas expressões típicas, acaipiradas, proverbiais. O progresso industrial e tecnológico influencia, não há o que contestar, os costumes. A sua força, no entanto, não é tão impactante quanto se diz. Muita gente conserva os valores antigos – antiquados, dizem os moderninhos –, os quais recebeu de seus genitores, que os receberam de seus genitores, que os receberam de seus genitores, e cujas origens perdem-se no tempo. Superestimado, o progresso encanta, maravilha, penetra nas casas, e modifica os hábitos dos seus moradores. Que o progresso tecnológico modifica os hábitos e os costumes, é inegável; que modifique os valores, é discutível; que altere a essência dos homens, é questionável – não estou convencido de que a tecnologia insere novos valores morais e éticos, ou altera os existentes. A internet, dizem sociólogos e psicólogos, distanciam as pessoas umas das outras, interferem no relacionamento entre elas, tornam-las insensíveis, frias, desumanas. Conversa para boi dormir, dizem, hoje, num linguajar de eras antediluvianas, que se perde nas sombras do tempo, os adeptos da tecnologia. Atribui-se à tecnologia o que ela não pode fazer: mudar a essência humana. Os tecnofóbicos, para a conservação da espiritualidade e a renovação da harmonia entre o homem e a natureza, querem a destruição de todas as máquinas – e jamais reconhecem que estas melhoraram a condição de vida dos homens.

Na vizinhança, prossigo, encerrada a digressão, o galo anuncia, altivo, para que o mundo inteiro o ouça, toda manhã, infalivelmente, o nascer do dia.

Levanta-se da cama, banha-se, e saboreia, na cozinha, só, um frugal café-da-manhã. Num solilóquio silencioso, o semblante tranqüilo, pensa: A vida em áreas urbanas, nesta pequena cidade, conserva muitos aspectos da vida no campo: saudações; relações pessoais; rusticidade no falar arrastando os erres; carroças rangentes puxadas por um cavalo cujas ferraduras ressoam no asfalto. Nas ruas, veículos puxados por um cavalo, quase sempre moribundo, e veículos modernos, de alta tecnologia, impelidos por dezenas de cavalos. E charruas e rodas de carroças enfeitam jardins de casas de famílias ricas que vivem, no interior de suas casas, imersas num oceano de tecnologia – e tais famílias encantam-se, alumbram-se, com a rusticidade dos mecanismos, das mobílias, das ferramentas, das vestimentas, da arquitetura, do linguajar rurais de um tempo que não conheceram.

E retira-se da sua casa. A andar pelas ruas, atento às pessoas, classifica-as: gerentes de bancos; homens do campo; cabeleireiros; dentistas; agentes imobiliários; engenheiros; médicos; contadores; professores; arquitetos; vaqueiros; pedreiros; estudantes; farmacêuticos; mecânicos; serralheiros; policiais. Algumas delas vergam a indumentária típica da sua profissão; outras, não.

Ao encerramento do expediente, o Sol posto, a escuridão dominando, ele regressa para a sua casa. E na manhã seguinte, canta o galo de uma casa da vizinhança. E durante o dia ressoam os motores dos veículos que abafam a música da natureza, que ainda resiste ao avanço indiscriminado do progresso.

E seguem-se os dias.

E o galo a cantar toda manhã.

E o progresso ininterrupto…

E o galo a cantar…

E colidem-se o rural e o urbano, que se mesclam, e retroalimentam-se.

E a vida prossegue…

E o futuro a Deus pertence.

Paçoca de Amendoim e Pamonha de Milho

Confesso que não sei se o que eu envio para dentro de meu estômago voraz – glutão é meu estômago, e não eu – é o que eu acredito que seja. Não sou de acreditar na veracidade das informações inscritas nos rótulos dos produtos alimentares dos quais retiro substâncias, que não sei quais são, que me servem de energia para manter o corpo a funcionar a pleno vapor; aliás, eu sequer leio os rótulos; dos poucos que eu li, conclui que as informações que trazem coisa nenhuma me esclarecem, e de nada me servem; lendo-os, não venho a saber se são os produtos amargos, azedos, agridoces, se atendem ao gosto do meu paladar; sei, apenas, que são os produtos compostos de coisas, que eu não tenho a mínima idéia do que sejam, de nomes impronunciáveis umas, outras de nomes copiados dos de personagens de desenhos animados.
Há um mês comprei paçoca, e, assim que cheguei em casa, comi, dela (da paçoca, e não da minha casa), um bom bocado – estou a me perguntar desde então se os ingredientes dela eram amendoim, sal e açúcar, ou serragem, pó de carvão e fumaça de pedregulho. De amendoim sequer o cheiro eu senti. Que havia sal naquele pó, havia, acredito, mas não estou certo se era sal, mesmo, ou minúsculos cacos de vidro, do tamanho de grãos de areia. E se a pamonha que eu comi não sei há quantos dias era de milho, não sei. Pareceu-me aquela massa massa de modelar amarela – dessas com as quais as crianças do jardim-de-infância brincam – banhada em chá de inhame e batata, e os pedaços de queijo que a recheavam, poucos, giz encharcado. Esquecia-me: a mais famosa pamonha é a de Piracicaba. E o pão de leite que eu comi dia destes não continha leite, nem um pingo sequer, acredito. Eram os seus ingredientes, suspeito, cal, terra, pó de grafite e folhas de sulfite brancas desfeitas em água. E há não muitos dias comi um pedaço de rapadura, que era, assim penso, lama prensada, que se me tornou digerível após eu lhe adicionar uma boa quantidade de açúcar de cana, cana-de-açúcar, uma das riquezas brasileiras. E hoje mandei para dentro de meu estômago uma goiabada cujos ingredientes eram, presumo, chuchu – ou é com “x”? – berinjela – com “j” ou com “g”, não sei -, casca de banana nanica, espiga de milho e fígado de boi (ou de vaca, sei lá).
Com o propósito de documentar para a posteridade aspectos da saudável culinária dos tempos modernos, registro, com a seriedade que me é habitual, as palavras que o leitor leu, com a atenção que o assunto pede, nas linhas acima desta. É este meu texto um documento de valor histórico, valioso, inestimável. E não posso encerrá-lo sem dizer o seguinte: Aquela coxinha de frango que na semana passada eu comi tinha jeito de ser uma perna de sapo.

O anti-Bolsonaro, anti-Trump, anti-EUA, pró-Biden.

– O Trump, aquele gringo safado, capitalista, já se foi dos Estados Unidos. Ótimo. Agora, tem o Brasil de se livrar do Bozonazista.

– Você dizia, lembro-me muito bem, desde antes de o Trump ser eleito presidente dos Estados Unidos, que ele, além de provocar a terceira guerra mundial, iria destruir a economia americana. Não me lembro se você dizia que primeiro ele destruiria a economia americana, ou daria o tiro que iria começar a terceira guerra. Não me lembro. Mas, nem uma coisa aconteceu, nem a outra. E a economia dos Estados Unidos, durante o governo dele, estava indo de vento em popa…

– De vento em popa ia a economia do Trump, bozominion?! Você é um negacionista mal informado, que vive de fake news. No ano passado, a economia americana caiu mais de quatro por cento. Informe-se.

– Nos três anos anteriores, o produto interno bruto americano cresceu consideravelmente, e o mercado de trabalho americano atingiu o pleno emprego, ou ficou a ponto de atingi-lo. A economia americana cresceu imensamente nos três primeiros anos do governo Trump. Além disso, os Estados Unidos estavam recuperando, sob a influência positiva das políticas do Trump, a pujança econômica de décadas antes.

– No ano passado, foi um fracasso a economia dos Estados Unidos. O Trump a destruiu.

– No ano passado, o mundo enfrentou uma epidemia. Não vem ao caso se foi a epidemia real, ou fabricada.

– Bozominion, você se diz patriota, mas idoltrada o gringo laranja.

– No ano passado, a economia da Argentina, de Alberto Fernández, e a do Canadá, de Justin Trudeau, e a da Alemanha, da Ângela Merkel, e a da França, de Emmanuel Macron, caíram consideravelmente.

– E o coronavírus, bozominion!? No ano passado, eles tiveram de enfrentar uma epidemia de coronavírus, esqueceu!?

– O Trump também. O coronavírus atingiu todos os países.

– Você é um falso patriota, bozominion. Elogia o Trump. Você quer entregar o Brasil para o Trump. E o seu ídolo, o Mitonazi, o falso messias, aquele nazifascista miliciano genocida da extrema-direita?! O que você tem a dizer dele?! A economia brasileira caiu um tombo de quatro por cento.

– No ano passado, sim; neste ano, não. Recupera-se a economia brasileira. E no ano passado, o Brasil, um dos países localizados no planeta Terra, também se deparou com o coronavírus…

– Não queira defender, bozominion, aquele racista hitlerista supremacista branco disseminador de fake news e discurso de ódio. Ele e o Trump são da mesma laia. Dois fascistas, dois nazistas, dois genocidas. O Trump tinha de sair, e saiu; e o Bozonazi tem de sair, e irá sair.

– Agora os Estados Unidos, sob a direção do Biden, enfrenta problemas imensos: aumento da violência, e é preocupante o aumento dos casos de homicídios; e a imigração desenfreada na fronteira dos Estados Unidos com o México, e deporta milhares de imigrantes ilegais; a crise na economia, que desanda, e os preços de alimentos e combustíveis a subirem, e muito. O Biden está destruindo os Estados Unidos.

– E tem de destruir, mesmo, a terra dos gringos, aqueles capitalistas fascistas!

– Você critica o Trump porque ele estava fazendo os Estados Unidos grande outra vez e elogia o Biden porque ele está destruindo os Estados Unidos. Você não deseja o bem aos americanos, mas mal a eles, a destruição deles.

– É claro, bozominon, é claro. Eles têm de sofrer, mesmo. Que os Estados Unidos se explodam! 

– Mas você criticava o Trump porque, você dizia, ele iria destruir a economia americana. Então, destruir a economia americana, segundo você, era algo ruim; e agora que o Biden está destruindo a economia americana você diz que destruí-la é algo bom.

– Se é ruim para os gringos é bom para o mundo.

– Mas vocé dizia que sob governo do Trump a economia americana iria de mal a pior, então…

– Você e sua lógica fascista, burguesa, de supremacista branco genocida. Você é igual o Bozo, aquele curandeiro, aquele obscurantista. Vocês se merecem. Ele é nazista e fascista.

– Por que ele é nazista?

– Porque ele bebeu leite durante uma “live”.

– Beber leite faz dele um nazista?

– Sim. É um ato simbólico! O leite é símbolo da supremacia branca. E ele bebeu leite ao vivo! Provocação! E não queira, bozominion, fingir que não entendeu o significado simbólico do ato dele.

– E o presidente Bolsonaro é fascista? Por que ele é fascista?

– Porque ele passeou de moto e montou à cavalo. Igual o Mussolini, aquele fascista. Estude simbologia política bozominion. Estude!

– Penso que para provar a sua tese, a de que é o presidente Bolsonaro nazista e fascista, você tem de dar a definição de nazismo e de fascismo, indicar os principais representes teóricos destas duas vertentes de pensamento, dar um apanhado geral das idéias deles, falar das políticas de Hitler e das de Mussolini, e elencar as do presidente Bolsonaro, e comparar as dele com as…

– Bozominion, não queira me convencer que é o Bozonazi homem respeitável. Não perca o seu tempo! Nem gente ele é! A sua lógica burguesa fascista é coisa de racistas e genocidas.

– Não entrarei no mérito das questões que você levantou; de tão complexas, elas estão além do meu entendimento. Mas você há de reconhecer que neste ano de 2021, a economia brasileira recupera-se, e no ano que vem…

– Vamos quebrar a economia brasileira, bozominion, para que o Bozofascista genocida não seja reeleito. Vamos impedi-lo de se reeleger, custe o que custar.

– Os índices de homicídios caíram, e…

– Tchau, bozominion, eu não perderei mais nem um segundo do meu tempo com você. Você não sabe argumentar.

Vamos criticar, e criticar, e criticar…

– Na teoria que aprendi, ninguém, e nenhuma idéia, está além da crítica. Tudo pode ser criticado; nada merece elogio, tampouco respeito.

– Tal teoria, penso, que ensina a criticar, e a criticar tudo, é um desserviço à inteligência humana, pois, ninguém sensato ignora, muitas coisas, e coisas de valor, que os humanos criaram merecem elogios, e seus criadores prêmios.

– A crítica à teoria que aprendi, crítica que você apresentou, não merece atenção, é infundada, e favorece a ausência de crítica e a submissão dos humanos a certas pessoas e idéias.

– A crítica que você fez à crítica que eu fiz à teoria que você defende não me parece sensata. A teoria que você defende estimula o que há de pior no ser humano, que, se seguir os ditames dela, teoria que você entende ser o suprassumo da inteligência humana, nada cria, tudo critica, e critica para destruir.

– Você apresentou uma crítica injustificável à teoria que defendo, teoria que defende uma idéia bem simples: tudo pode ser criticado, tudo, absolutamente tudo.

– Tal teoria não produz nada de valor, e tudo corrói, e tudo destrói.

– A teoria se sustenta em seus elementos básicos.

– Ela pode ser criticada da mesma forma que se critica outra teoria qualquer.

– Não, não pode. Se ela é criticada, e tem revelada suas inconsistências, caso as possua, perde o seu valor intrínseco.Mas se a ela não se admite critica, então ela não tem valor intrínseco algum, pois se se parte do pressuposto de que tudo o que existe pode ser criticado, então ela, a teoria que você defende, que existe, e porque existe, pode ser criticada. E quem a criou tambêm. E você tambêm pode ser criticado.

– É aí que você se engana, pois quem a pensou é intelectual, e eu tenho preparo intelectual, e você não, afinal, li os livros dele, do intelectual que concebeu a teoria que eu defendo, intelectual que é reconhecido internacionalmente, por inúmeras instituições renomadas, como um dos mais importantes pensadores modernos, e seus livros estão nas bibliotecas das universidades, autênticas guardiãs da inteligência humana.

– As bibliotecas tambêm guardam os livros que tal intelectual critica fazendo uso da teoria que ele inventou, portanto, os livros dele tambêm podem ser criticado, e ele também.

– Não. Não podem.

– É claro que podem. Para que a teoria dele tenha consistência deve-se admitir que ele e a teoria dele sejam passíveis de crítica.

– Mas a teoria dele perde valor se submetida à crítica.

– Por que perde valor? Ela é inconsistente? Tem falhas?

– Não. É perfeita.

– Se é perfeita, que seja criticada; assim, resistindo às críticas, retirando-se ilesa do confronto, prova-se perfeita.

– Não. Nada disso. Que ninguém a critique!

– Você está me saindo àquela gente que diz que tudo é relativo, mas confrontado com uma objeção, que aponta que a idéia que ensina que tudo é relativo, sendo relativa, admite que ela seja absoluta, perde as estribeiras, e descarrega um turbilhão de insultos em cima de quem a questiononou.

– Você tem diploma?! Não tem! Então, cale a boca! Você não tem preparo intelectual. Imbecil! Mostre-me o seu diploma! Mostre-me o seu diploma! Não tem! Não tem!

O que o trabalhador produz ao trabalhador pertence. Boa idéia.

Após encerrado o expediente, o trabalhador admira os cem produtos que ele produziu naquele mês. De peito estufato, vai até o capitalista:

– Ô, explorador, o meu salário, faz favor.

– Aqui está.

– Que!? Só!? Mil e quinhentos!? Tudo o que produzi vale quanto?

– Quarenta mil.

– Então, explorador, então! E você me paga com mil e quinhentos!? É escravidão que diz?!

– Ora, rapaz. Tenho de pagar os fornecedores de matéria-prima, o contador, a empresa de fornecimento de energia elétrica, a de fornecimento de água, os impostos que o governo me arrancam, e…

– Não me interessa. Eu, eu, eu produzi aqueles cem produtos. E eles valem quarenta mil. Quarenta mil, e não mil e quinhentos. Ouviu?! Entendeu?!

– Ora, eu sei quanto eles valem. Fiz as contas. E o seu salário está embutido no preço final. E tenho de tirar minha margem de lucro, para recuperar o capital inicial.

– Quero quarenta mil.

– Que!? Que absurdo. E eu recuperarei o que investi?!

– Não me interessa! Quero quarenta mil!

– E viverei de quê?! Diga-me.

– Você está me explorando. Se eu produzi aqueles produtos, eles são meus, e não seus.

– Para produzi-los, você usou as minhas máquinas, o meu estabelecimento, a energia que eu pago.

– Deixe de conversa fiada, explorador. O que produzi é meu.

– É justo que você receba os quarenta mil pelo que você produziu, se você produziu o que produziu com as matérias-primas que eu comprei?!

– É. É claro que é. O que eu produzo é meu. Se o que produzi vale quarenta mil, e não mil e quinhentos, então você me deve quarenta mil.

– O que você produziu é seu?

– É.

– Você produziu aqueles cem produtos?

– Produzi.

– Então leve-os para a sua casa.

– O quê!? Que absurdo!

– São seus aqueles cem produtos, não são?

– Sim. São meus. Eu os produzi, são meus, portanto.

– Trate, portanto, de retirá-los do meu depósito.

– Quê!? Como farei isso!? Não tenho como tirá-los daqui.

– Problema seu. O depósito é meu. E eu não quero os seus produtos aqui.

– Mas eu não tenho como tirá-los…

– Se quiser, mantenho-os aqui, mas você terá de me pagar aluguéis mensais.

– Aluguéis?? Mas não tenho dinheiro.

– Não é problema meu. Pague-me aluguel, ou tire-os daqui.

– Mas… Mas o que farei com eles?! Eles não me servem de nada.

– Venda-os.

– Que. Vendê-los?! Mas eu não sei vender produtos; sei apenas produzi-los.

– Contrate um vendedor.

– Quê!? Contratar um vendedor!?

– Sim. E pense: O produto é de quem produz, ou de quem o vende?

– Mas… Mas… E o meu salário!?

– Já está pago.

– Tá pago?? Como assim?!

– Os produtos são seus; você os produziu. Não devo mais nenhum tostão a você.

– Mas.. e se eu não os conseguir vender?!

– Nada posso fazer. É assunto seu, e não meu.

– Mas eles não têm valor, para mim, se guardados em minha casa. E se ninguêm comprá-los?!

– Não quero saber. Não me intrometo em assunto que não me diz respeito.

– Mas… Se ninguém comprá-los, eles não têm valor, pois ficarão encalhados na minha casa.

– Não quero saber.

– Se eu não vender nenhum deles, eu não terei os meus quarenta mil.

– Por gentileza, retire do meu depósito os seus produtos.

– Espere um pouco, senhor.

– Diga, e logo. Tenho de ir-me. Espera-me a minha esposa.

– Tenho uma proposta para fazer ao senhor.

– Sou todo ouvidos.

– Compre-me os meus cem produtos.

– Mil e duzentos. É pegar ou largar.

– O quê!? Mas… Mas… Mas…

– Retirei-os daqui. Já. Imediatamente. Ou pague-me aluguel. Diária: cinquenta.

– Mas… Mas… Mas…

– Retire-se. E carregue com você os seus produtos.

– Mas… Mas… Mas… Tudo bem… Aceito… Aceito os…

– Mil e duzentos. Aqui estão.

– Obrigado.

– Disponha.

Bolsonaro na ONU: sucesso retumbante.

Ontem, dia 21 de Setembro de 2021, o presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, no discurso de abertura da reunião anual da Organização das Nações Unidas, apresentou, assenhoreado pela ambição, nobre e humana, de um aguerrido, destemido, voluntarioso e abnegado combatente da Democracia, da Liberdade e da Justiça, em um pouco mais de dez minutos, numa oratória límpida, num estilo primoroso, com a dicção dos mestres helênicos da arte do bem falar, numa retórica vazada nos moldes clássicos do exercício correto e justo da exposição das idéias, as suas políticas, que se coadunam com as dos vanguardistas do espírito humano; e encerrado o seu discurso, ovacionaram-lo e o aplaudiram, estrondosamente, em pé, os chefes-de-estado presentes no prédio da Organização das Nações Unidas, todos eles, enquanto ele discursava, a ouvirem-lo, atentamente, embevecidos, alumbrados com a ínsigne postura do líder nato da nação mais rica e próspera da América do Sul; e os efusivos aplausos os congêneres do representante brasileiro os estenderam até se cansarem, durante quarenta e quatro minutos. Nas horas que se seguiram e no dia de hoje, jornais de todo o mundo e sites e emissoras de televisão estamparam a venerável figura do presidente da República Federativa do Brasil, acompanhada do discurso magistral que saira da boca dele, um estadista, o personagem de maior importância de toda a história da nação que se formou a partir da amálgama, em seus primórdios, de lusitanos, africanos e nativos ameríndios pré-colombianos, com a contribuição posterior de ingredientes étnicos e culturais de outros povos. Estas palavras, poucas, estão aqui inscritas para enaltecer o valoroso presidente do Brasil, um herói de escala universal. Não nos estenderemos, neste artigo, os louvores ao senhor Jair Messias Bolsonaro, coquanto ele mereça todos os concebíveis, e, esculpida em bronze, uma estátua titânica de sua portentosa, apolínea e hercúlea figura. Aqui encerrado o parágrafo que dá aos nossos leitores a conhecer a participação do lídimo e legítimo representante do povo brasileiro na reunião anual da Organização das Nações Unidas neste 2021, reproduzimos, no parágrafo subsequente, dele, o eloquente discurso, discurso, este, uma obra-prima da retórica política que merece atentas e reverentes leituras e releituras. Eis o discurso do ilustríssimo presidente da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro:

Amigues, hoje, eu, o presidente do Brasil, estou, aqui, para anunciar a todes as políticas politicamente corretas, comunistas, socialistas, de ideologia de gênero, marxistas e leninistas, que estou, eu, Jair Messias Bolsonaro, proponente da extinção das soberanias nacionais, a voz do Estado brasileiro, eu, Jair Messias Bolsonaro, o Estado, eu, Jair Messias Bolsonaro, a Opinião Pública Brasileira, obediente ao Governo Mundial, a implementar, em todo o território brasileiro, punindo todo cidadão brasileiro recalcitrante com o fuzilamento, as políticas que irão fazer do Brasil um paraíso socialista tecnocrata transhumano e cientificista. Fuzilei, fuzilo e fuzilarei ao paredão todo indivíduo hostil, de mentalidade fascista e nazista, de temperamento genocida, capitalista, ocidental, supremacista branco e cristão fundamentalista e intolerante. A religião é o ópio do povo. Deus é um personagem do tempo do nunca, do arco-da-velha, das histórias da carochinha de nossos avós brutos e asselvajados, adorado pelos energúmenos medievalistas, preconceituosos e fanáticos crentes que estão sempre a sobraçar o livro, que eles têm na conta de sagrado, recheado de baboseiras folclóricas, lendárias, de um povo rude, bárbaro, inculto e ignaro. A família, esta instituição opressora, burguesa, capitalista, favorece o exercício autoritário, ditatorial, totalitário do patriarcado sexista e machista, e dela tira seu poder máximo o homem cristão, ocidental, branco, loiro e de olhos azuis. A religião é o ópio do povo. O Grande Satã tem de ser aniquilado. Todo o poder aos proletários! Abaixo a burguesia! Eu odeio a classe média! Há lógica no assalto. Proletários de todo o mundo, uni-vos! Vivas à revolução! Para salvarmos a Terra urge extirpar-lhe o tumor cancerígeno maligno que muito mal lhe faze: a espécie humana. Vivas à Mãe Gaia! O Estado sou eu! A opinião pública sou eu! Iniciemos o processo de renovação da natureza removendo do útero das fêmeas da espécie humana o amontoado de células, coisa inerte e sem vida, bizarra e anômala, que, no interior dele, os homens inserem numa quantidade que elas ignoram. Todo o poder às mulheres empoderadas! Às pessoas sem vagina, dotadas de masculinidade tóxica, o paredão, destino reservado a todos os seres que não sabem qual é o seu papel na história, papel que o partido lhes reserva. Salvemos as baleias! Salvemos os pandas! Salvemos as tartarugas marinhas! Regulamentemos a mídia e a internet para que elas não disseminem dos conservadores fascistas e nazistas e genocidas fakes news e discursos de ódio. Exterminemos o gabinete do ódio conservador! Todo poder aos soviétes e aos chins! Fidel Castro e Che Guevara, olhai por nós! Marx e Engels, orai por nós! Lênin e Stalin, olhai por nós! Mao e Pol Pot, orai por nós! Não há dois sexos. Há setecentos e noventa e quatro gêneros, ensinam-nos os heróis do movimento. Abaixo a ditadura dos capitalistas opressores! Que os filhos libertem-se dos grilhões com que seus pais lhes manietam os movimentos! Fim aos tabus! Enalteçamos o amor intergeracional! Louvemos os novos tipos de família! Abaixo a família tradicional, arcaica, opressora, liberticida, pecadora! Vivas ao amor com os animais, com as plantas, com os objetos, com os cadáveres! Que aos inúteis à paz socialista seja oferecida a morte digna via injeção letal, ou por envenenamento, ou enforcamento, ou fuzilamento. Enviemos os inimigos da paz universal aos campos de reeducação, instrução e treinamento. Que as crianças não vivam na companhia de seus pais, seres opressores, que as maltratam durante sessões diárias de tortura psicológica de inspiração cristã! Que nenhuma pessoa tenha direito à legítima defesa! Que a educação e a segurança fiquem a cargo do Estado, exclusicamente do Estado. Fiquemos em casa; a economia veremos depois. Que ninguém se retire, à rua, de sua casa, até segunda ordem. Prisão aos refratários aos decretos estatais. Internacionalizemos a Amazônia, e o Pantanal, e o Mangue, e a Chapada Diamantina, e os Lençóis Maranhenses, e Fernando de Noronha, e a ilha de Marajó, e Parintins, e o Recôncavo Bahiano. O homem branco é racista; é racista de espírito; é mal; é iníquo. Amigues, sei que estas minhas palavras, poucas, ecoam no espírito de todes vocês. Unidos, iluminaremos, guiados por cientistas renomados, a mente dos humanos; e aos que optarem por permanecerem à escuridão oferecemos um paredão e um cárcere e lhes daremos o direito de escolher o que entenderem que lhes seja a melhor das duas opções, que lhes deixaremos à disposição. Tenhamos um bom dia, amigues. Fidel Castro e Che Guevara, olhai por nós! Marx e Engels, orai por nós! Lênin e Stalin, olhai por nós! Mao e Pol Pot, orai por nós!

*

Nota de rodapé: Inútil é dizer, digo, todavia: o discurso aqui apresentado é uma peça de ficção; e o Jair Messias Bolsonaro que o proferiu não existe – se existisse, cá entre nós, amá-lo-iam e o idolatrá-lo-iam onze de cada dez de seus inimigos.

… e Pindamonhangaba progride.

Pindamonhangaba era uma cidade atrasada. Repito: Pindamonhangaba era uma cidade atrasada. E por que digo que era Pindamonhangaba uma cidade atrasada, e não digo que ela é uma cidade atrasada? Ora, porquê!? Há poucos dias, inauguraram aqui em Pindamonhangaba, a minha querida Princesa do Norte, um estabelecimento comercial, um supermercado, que tem, em seu interior, uma escada rolante. E que funciona. Na verdade, é uma rampa rolante, e não uma escada rolante. Mas tal detalhe não vem ao acaso. É a primeira escada – quero dizer, rampa – rolante erguida aqui em Pibdamonhangaba. Agora, todos os pindamonhangabenses podemos, orgulhosos, bater no peito, e anunciar aos quatro ventos: “Temos escada rolante!” E Pindamonhangaba converte-se numa das raras cidades do interior de São Paulo que entraram, e de cabeça, na modernidade. É o progresso. Não é uma escada rolante, eu sei; é uma rampa rolante; para todos os efeitos, todavia, é a rampa uma escada, e rolante. Viva o progresso!

Um herói

Hoje, 12 de Março de 2.021, de manhã, um pouco depois das onze horas, fui ao centro daqui de Pindamonhangaba, às proximidades da Praça Monsenhor Marcondes.
Dia quente. Temperatura acima de vinte e cinco graus. Sol de rachar a cabeça.
Abordou-me um homem de idade avançada, miúdo – tem ele, se muito, um metro e sessenta -, magriço, de cabelos, poucos, totalmente brancos. Sua compleição, de cansaço. Andava lenta e cuidadosamente. Máscara não lhe cobria o rosto, de traços suaves, repleto de vincos. Falou-me num tom de voz que, de tão baixo, quase inaudível, obrigou-me a me aproximar dele, e curvar-me para ouvi-lo. Nossas cabeças quase se tocaram; não distavam uma da outra dez centímetros. E eu o ouvi dizer-me: “Moço, você viu um homem magrinho, de cabelo curto, e de olhos um pouco arregalados, e de camisa e calças sujas, pretas. Calças pretas; e camisa meio marrom e meio cinza?” “Não. Não vi”, respondi-lhe. E observei-o, sem saber o que lhe dizer. “Na segunda-feira – prosseguiu o velhinho -, ele pediu-me… Foi ali, naquela esquina – e apontou-me o outro lado da rua. – Ele me pediu que eu lhe comprasse comida; estava com fome. Eu não trazia comigo nem sequer um tostão, eu lhe disse. E ele me olhou, sabe? triste, e disse-me que estava tudo bem e que eu fosse com Deus. Estava encostado na parede. Eu fui embora. E desde então estou pensando nele. Ele estava com fome. E eu não pude ajudá-lo. E terça, e quarta, e ontem, e hoje, vim encontrá-lo. Mas não o encontrei. Não sei quem ele é. E eu não o encontro.” E calou-se, voz embargada, lábios trêmulos. Engoli em seco; fitei-o em silêncio, e o esperei retomar a palavra, o que ele não tardou a fazer: “Eu venho, desde aquele dia, pensando naquele homem, que precisou da minha ajuda; e eu não pude ajudá-lo. Que Deus me perdoe. Deus queira que ele tenha conseguido comida; que alguma alma cristã tenha-o ajudado.” E calou-se, visivelmente constrangido, entristecido. Fitou-me, orvalhados seus olhos. E despediu-se de mim: “Que Deus te acompanhe, moço.” E afastou-se de mim, lenta e cuidadosamente, detendo-se a curtos intervalos, sempre a olhar ao redor, à procura do homem que dias antes lhe pedira ajuda.

Quando eu terei a minha vida de volta? – Uma fábula do tempo do coronavírus.

Capítulo 1

– Fique duas semanas na sua casa, protegido. Nela, o coronavírus nenhum mal poderá fazer a você. Não saia da sua casa. O coronavírus está la fora, na rua. Proteja-se. Fique na sua casa durante duas semanas. É a orientação de médicos e cientistas renomados. Para a sua proteção. Assim que passarem as duas semanas, você terá de volta a sua vida. Fique em casa.

– Sim, senhor.

Capítulo 2

– Senhor, já se passaram as duas semanas. Posso ter a minha vida de volta?

– Não. Não pode. Evite aglomerações e use máscara em locais públicos e nos estabelecimentos comerciais, nas igrejas, nos consultórios médicos, nos escritórios de advocacia; enfim, em todo lugar.

– Mas, senhor… Por quê?

– Médicos e cientistas renomados, após novos estudos, descobriram que evitar aglomerações e usar de máscara são essenciais para o combate ao coronavírus.

– Mas, senhor, durante quanto tempo deverei usar máscara e evitar aglomerações?

– Seis meses.

– E depois de seis meses terei a minha vida de volta?

– Sim. Evite aglomerações e use máscara. E em seis meses você terá de volta a sua vida. Use máscara. Evite aglomerações.

– Sim, senhor.

Capítulo 3

– Senhor, passaram-se os seis meses. Posso ter a minha vida de volta?

– Não.

– Não!?

– Não. Você terá de se vacinar.

– Vacinar-me!? Mas o senhor me disse que…

– Cientistas e médicos renomados, após novos estudos, descobriram que o coronavírus é mutante e provoca ondas epidêmicas, uma, duas, várias, e que o único meio de vencê-lo é vacinando-se, para se adquirir imunidade.

– Entendi, senhor. E a máscara!? Posso descartá-la!?

– Não. Use-a. Para a sua proteção. Durante os novos estudos, médicos e cientistas renomados descobriram que o uso contínuo e ininterrupto de máscara reforça a proteção e a imunidade. Continue a usá-la.

– E aglomerações…

– Evite-as. Evite-as.

– Senhor, eu poderei, após vacinar-me, dispensar a máscara?

– Sim. Vacine-se.

– Sim, senhor.

Capítulo 4

– Senhor, eu me vacinei. O senhor me dá a minha vida de volta?

– Não posso. Cientistas e médicos renomados, após novos estudos, descobriram que o coronavírus ainda não foi embora.

– Não foi!?

– Não.

– Mas… Senhor, eu quero comemorar o aniversário de meu filho mais novo. Ele faz seis anos, na próxima semana. Minha esposa e eu queremos lhe dar uma festinha… convidar os amigos…

– Não pode. Aglomeração de pessoas favorece o coronavírus, que se transmite, rapidamente, entre as crianças.

– Entendo, senhor, entendo.

– Ótimo.

– Mas… Mas, senhor, agora que estou vacinado, e imunizado contra o coronavírus, não preciso usar máscara…

– Precisa, sim. Precisa.

– Preciso!? Mas… Senhor…

– Médicos e cientistas renomados descobriram, após novos estudos, que o uso de máscara é indispensável. O coronavírus está mais forte do que nunca. Use máscara.

– Durante quantos dias?

– Dias, não. Meses. Durante seis meses. Use máscara.

– Sim, senhor.

Capítulo 5

– Senhor, passaram-se os seis meses. Posso ter a minha vida de volta?

– Ainda não.

– Não!? Por quê!?

– Cientistas e médicos renomados descobriram, após novos estudos, que o coronavírus voltou com força total. Irá matar milhões de pessoas, se nos descuidarmos, se afrouxarmos as medidas de segurança.

– E o que tenho de fazer, senhor?

– Vacinar-se.

– Vacinar-me!? Mas, senhor, eu já me vacinei.

– Você precisa de mais uma dose. A segunda.

– Mais uma dose!?

– Sim. Médicos e cientistas renomados dizem que é necessário fortalecer o sistema imunológico. O coronavírus sofreu mutação, e está muito forte. Vacine-se. Vacine-se com uma outra dose, a segunda.

– Sim, senhor.

Capítulo 6

– Senhor, eu me vacinei duas vezes. Duas doses. Posso ter a minha vida de volta?

– Não.

– Não!?

– Não. Cientistas e médicos renomados descobriram, após novas pesquisas, que o coronavírus é resiliente, muito resiliente. Não morreu.

– E o que eu tenho de fazer, senhor?

– Ficar em casa, evitar aglomerações, respeitar o distanciamento social, e usar máscara. E vacinar-se.

– Vacinar-me!?

– Sim. É preciso vacinar-se. Você tem de tomar a terceira dose da vacina, para reforçar o seu sistema imunológico.

– Mas, ficar em casa…

– Fique em casa, para evitar aglomerações.

– E a máscara…

– Use máscara.

– Mas, e a minha vida!?

– Você a terá de volta se ficar em casa, usar máscara, evitar aglomerações, respeitar o distanciamento social, e vacinar-se.

– E em quanto tempo terei a minha vida de volta?

– Seis meses. Fique em casa, evite aglomerações, mantenha o distanciamento social, use máscara, e vacine-se.

– Sim, senhor.

Capítulo 7

– Senhor, passaram-se os seis meses. O senhor me devolve a minha vida?!

– Não posso.

– Não pode!? Não!? Mas o senhor…

– Não podemos relaxar as medidas de combate ao coronavírus.

– Mas já se passaram os seis meses.

– Eu sei. Mas cientistas e médicos renomados descobriram, após novas pesquisas, que o coronavírus se fortaleceu. Agora, ele consegue entrar nas casas das pessoas.

– Mas, então… Então, senhor… Então, de que adianta eu me trancar em minha casa, se o coronavírus está lá dentro?!

– O coronavírus que está fora da sua casa é mais forte.

– Mas…

– Não seja um negacionista. Respeite a ciência.

– Mas…

– Agora terei de instalar câmaras dentro da sua casa.

– Câmaras dentro da minha casa!? Mas…

– O que você teme?

– Eu!?

– Sim. Você. O que você teme? Você maltrata seus filhos?

– Não.

– Você espanca sua esposa?

– Não.

– Você pratica, dentro da sua casa, alguma atividade criminosa?

– Não.

– Quem não deve, não teme.

– Mas, senhor minha esposa, meus filhos e eu temos a liberdade…

– Vocês não têm o direito de serem individualistas egoístas num momento em que toda a sociedade sofre por causa de um vírus mortal, para cujo combate se fazem necessárias políticas de interesse coletivo, que se sobrepõem aos, e anulam os, desejos egoístas dos indivíduos. Entendeu?

– Sim, senhor. Entendi.

– Todos, para o bem-comum, temos de fazer a nossa parte; todos temos de sacrificar um pouco da nossa liberdade, para o bem de todos.

– Entendi.

– Instalarei câmaras de vigilância em todos os cômodos da sua casa, onde você, sua esposa e seus filhos terão de respeitar o isolamento social e evitar aglomerações. Dois de vocês não poderão se conservar, ao mesmo tempo, no mesmo cômodo. Terão de estabelecer regras de conduta, para não se cruzarem nos corredores de sua casa. Entendeu?

– Sim, senhor. Entendi, sim, senhor. Mas, senhor, as câmaras não ficarão na minha casa para sempre, ficarão?

– Não. Ficarão, lá, apenas durante seis meses, até o coronavírus se enfraquecer; para ele se enfraquecer, basta vocês respeitarem o isolamento social dentro da sua casa e evitar aglomerações. Respeite tais medidas, que em seis meses você terá a sua vida de volta.

– Sim, senhor.

Capítulo 8

– Senhor, passaram-se os seis meses. O senhor me devolve a minha vida?

– Não posso.

– Por quê, senhor!? Por quê!?

– Cientistas e médicos renomados descobriram, após novos estudos, que o coronavírus se fortalece, dia após dia, porque há muitos seres humanos no planeta Terra, cujos recursos naturais estáo saturados, e que se enfraquece, debilita-se. E os humanos consomem muitos produtos naturais.

– Mas os recursos naturais não se renovam, senhor?!

– Não seja um negacionista fanático, intolerante, radical!

– Mas, senhor, o que tiramos da terra à terra restituímos.

– Você é um negacionista intransigente. Terá de ser reeducado. Você, e sua esposa e seus filhos. Vocês terão de assistir aos programas e documentários educativos oficiais cujo teor considera as descobertas científicas de médicos e cientistas renomados, e não de charlatães obscurantistas, religiosos medievalistas fanáticos, inquisitoriais. E tiraremos de você, de sua esposa e de seus filhos acesso a meios de comunicação e livros que não reproduzem a política oficial elaborada, nas organizações internacionais, por médicos e cientistas renomados. Você, sua esposa e seus filhos permanecerão recolhidos à sua casa durante seis meses. E as câmaras serão de imprescindível utilidade para educar vocês, impedir que vocês incorram em algum desatino, que possa jogar por terra todo o nosso esforço e recursos que empregamos no combate ao coronavírus. Você entende a importância de persistirmos em nossa política de contenção do coronavírus?

– Sim, senhor. Entendo…

Capítulo 9

– Senhor, já se passaram os seis meses. O senhor me devolve…

– Não posso.

– Não!?

– Não. O coronavírus é resiliente. E resistente. E mais resistente do que se pensava. Cientistas e médicos renomados descobriram que, agora, devido o adoecimento da Terra, causado pelos seres humanos, que são numerosos, o coronavírus fortaleceu-se. Compreenda: Enfraquece-se a Terra; fortalece-se o coronavírus. Há uma relação direta entre o fortalecimento do coronavírus e o enfraquecimento da Terra. Não podemos descuidar. E os cientistas e médicos renomados propõem a redução da população humana; assim, havendo menos seres humanos, a Terra recupera sua energia, e fortalece-se, e o coronavírus enfraquece-se, consequentemente. Todos temos de fazer a sua parte de sacrifício, participar do esforço de eliminar o coronavírus, e para tanto é indispensável que a Terra se fortaleça.

– E o que devo fazer, senhor?

– Após seis meses educado pelos nossos programas educativos, você está apto a, compreendendo a periclitante situação atual, praticar atos que condizem com a de homens abnegados, responsáveis, que têm compromisso com o bem-comum, homens que, honrados, põem a saúde da coletividade acima de seus interesses mesquinhos. Você terá de suprimir à vida sua esposa e seus filhos, para libertá-los do terror em que o mundo se converterá caso a Terra se enfraqueça, e, consequentemente, o coronavírus se fortaleça. O governo mundial oferecerá a vocês todos os instrumentos mecânicos, e legais e morais para você executar a inadiável tarefa. Você entende a importância de seu gesto, não entende?

– Sim, senhor, entendo.

– Então, não permita que sua esposa e seus filhos vivam num mundo assustadoramente devastado pelo coronavírus. Dê a eles uma digna morte.

– Sim, senhor.

Capítulo 10

– Senhor, minha esposa e meus filhos estão num outro estado existencial. Libertei-lhes os espíritos da prisão carnal. Salvei-os. O senhor me dá minha vida de volta??

– Não posso. Cientistas e médicos renomados descobriram que a Terra ainda está fraca, e o coronavírus, forte. Não podemos afrouxar as medidas de contenção do coronavírus.

– E o que devo fazer, senhor? Diga-me. O que devo fazer para ter a minha vida de volta?

– Mate-se.

– Sim, senhor.

… e todos viveram felizes para sempre.

Fim.

… e ninguém desejará nascer branco.

Personagem A: Você é branco, certo?
Personagem B: Certo.
P.A.: Por que você nasceu branco?
P.B.: Porque eu nasci… Ora, nasci branco porque nasci branco.
P.A.: Por que você nasceu branco, e não negro?
P.B.: Ora, porquê!? Porque nasci assim, o filho mais bonito da minha mãe. Sou filho único, o que…
P.A.: Você nasceu branco porque não quis nascer negro.
P.B.: Como é que é!? Cupim comeu o seu cérebro?! Explique-me a sua teoria.
P.A.: Você é racista.
P.B.: Quê!? Que papo besta é esse!? Desmiolou-se?!
P.A.: O sentimento racista está implícito na sua alma, daí você, não querendo nascer negro, nasceu branco.
P.B.: Caçamba! Quanta caraminhola! Eu sabia que eu ia nascer, e quis nascer branco?!
P.A.: Sim! O preconceito racista que anima o seu espírito anímico antecede a sua concepção. Estava inscrito na sua alma espiritual, que transcende o seu estado material, antes de você retirar-se do útero de sua genitora.
P.B.: Carambolas e jabuticabas! E você fala difícil, hein!?
P.A.: E não desconverse: Você é racista!
P.B.: Macacos me mordam! E você, carinha?! Você é racista.
P.A.: Eu!? Racista, eu?! Não seja atrevido!
P.B.: Além de racista, você é burro.
P.A.: E por quê!? Responda-me.
P.B.: Por quê!? Ora bolas! Você é branco.

O mais belo gol do Pelé

Estamos nos anos 1940. Perdia o jogo o time dos aliados. O time dos alemães anotara, no primeiro tempo, quatro gols; o dos aliados, nenhum. Os jogadores do time dos aliados, mesmo em situação tão adversa, acreditaram que poderiam ganhar o jogo. E foram ao campo, para a metade final do embate. Anotaram, em poucos minutos, três gols. Pelé, contundido, sentado no banco de reservas, suplicou que o deixassem entrar em campo. Após pouca, melhor, nenhuma, resistência, deixam-lo jogar. E ele anotou um gol-de-placa, de-bicicleta, belíssima pintura, obra de arte de um gênio do esporte. E ao encerramento do jogo, a multidão, encantada com a primorosa exibição de destreza futebolística dos jogadores do time dos aliados, invadiu o campo, num vertiginoso e contagiante fervor cívico.

Nas poucas palavras do primeiro parágrafo, um esboço do trecho final do filme Fuga para a Vitótia (Escape to Victory), de John Huston. No elenco, além do Rei do Futebol, Pelé, avatar de Edson Arantes do Nascimento, que faz o papel de Luiz Fernandez, estão os conhecidíssimos Sylvester Stallone (Capitão Robert Hatch, o goleiro), Michael Caine (Capitão John Colby) e Bobby Moore (Terry Brady).
Assim que liguei a televisão, vício que às vezes me permite gratas surpresas, sintonizei em um canal qualquer e zapeando cheguei ao que transmitia o filme do John Huston – eu não o procurava, pois eu não sabia que tal filme existia. Jamais me havia passado pela cabeça que algum cineasta tivesse reunido, ou que em algum dia reuniria, no elenco de um filme, o Pelé e o Stallone, e o Michael Caine, e famosos jogadores que exibiram seu jingado de corpo há décadas, antes de eu vir à luz. Foi por acaso o achado. Na tela, vi, assim que sintonizei o canal, que não anotei, para a minha surpresa, a figura inconfundível dos eternos Rambo e Rocky Balboa, uniforme de goleiro, azul, embrulhando-o, sob e entre as traves de um gol. Curioso, li a sinopse do filme e os nomes que figuravam em seu elenco; surpreendi-me ao me deparar com o de Pelé, o Rei do Futebol, velho de guerra, mestre do ludopédio, esportista que encantou multidões nos cinco continentes e que mereceu crônicas encomiásticas de escritores ilustres e atenção de Vilém Flusser, que, nele inspirando-se, escreveu um curto tratado acerca dos mitos.
Não assisti ao filme. Dediquei-me a ver os seus vinte minutos finais. E só. Ao ver, surpreso, o Sylvester Stallone paramentado para um jogo de futebol, num campo de futebol, decidi seguir, atentamente, os minutos restantes do filme, sonhando – sim, sonhando – ver o majestoso Rei do Futebol marcar um gol, um belíssimo gol. Era essa a minha expectativa. Mas Pelé estava machucado, no banco de reservas. Todavia, acreditei que ele, impelido por alguma força misteriosa, iria regressar ao campo e anotar um gol. E não me frustrei com o que vi: Pelé marcando um gol-de-bicicleta. Gol-de-placa. E para fechar o filme com chave-de-ouro, Stallone intercepta a gorduchinha logo após um jogador alemão cobrar de pênalti.
Agora eu posso, orgulhoso, anunciar aos quatro ventos: Vi o Pelé marcar o seu mais belo gol.

Em tempos de epidemia, uma aventura assustadoramente emocionante

Saí, hoje, antes de o relógio dar doze badaladas às onze horas – o relógio está desregulado -, de casa, sem máscara a cobrir-me a bela estampa, como de hábito, e principiei a minha caminhada matinal, sem pressa, a passos lentos, e nem bem eu havia percorrido cem metros, vislumbrei, ao horizonte, aproximando-se, e rapidamente, de mim, para a minha contrariedade, duas motos, a governá-las cada uma delas um policial, ambos devidamente encapacetados, e tenso, nervoso, pensei em girar sobre os calcanhares, receando a abordagem e, era certo, a minha condução, pelos dois agentes da lei, à delegacia, e regressar à origem da minha caminhada, isto é, à minha casa. E dos policiais desviei o olhar. E eles distavam de mim vinte metros, quando apontei-lhes, segunda vez, meus olhos, num misto de temor e tremor, e vi… e vi… e vi, limpas, as caras deles, limpas e livres de máscaras. E divisei-lhes olhos, nariz, boca, sobrancelhas. Respirei, aliviado, e segui o curso da minha caminhada matinal. E os policiais passaram por mim, indiferentes à minha humilde e obscura existência. E cobri trezentos metros, calmo, tranquilo. Ao passar ao largo da praça, vi, poucos metros à minha frente, assim que dobrei a esquina, parados, conversando, dois policiais, ambos com o rosto coberto com máscara preta, na mesma calçada pela qual eu andava. Pensei comigo: “Agora me ferrei!”, em alto e bom som, meus pensamentos a me ricochetearem nos tímpanos vezes sem conta. E segui o trajeto, afugentando de minha já um pouco dilapidada cabeça de homem de quarenta e seis anos o pensamento que queria me impelir a atravessar a rua para que eu evitasse os policiais. Que fosse o que Deus quisesse. E pelos policiais passei. Eles, sem interromperem a conversa que lhes ocupava a atenção, se dignaram a me fitar com um olhar em que não se lia nada além do que nos olhares dos homens comuns está escrito. E segui, a passos lentos, a minha caminhada, sem interrompê-la. Minutos depois, regressei à minha casa, e tão logo adentrei em seus domínios, fui à sala de estudos, que serve, também, de quarto (e vice-versa), sentei-me à escrivaninha, peguei de uma caneta, e puxei de uma pilha de folhas de sulfite uma folha, e pus-me a escrever este relato da minha emocionante aventura matinal.

Em tempo de Coronavírus, comprar arroz e feijão

A telefonista do Supermercado Compre Bem e Pague Também atendeu ao telefone:
– Posso ajudar?
– Sim. Meu nome é Fábio. Estou de quarentena. Não posso sair daqui de casa. Vocês entregam arroz e feijão nas residências?
– Sim, entregamos. E por que você não pode sair da sua casa?
– Porque o Coronavírus pode me matar.
– Não podemos entregar arroz e feijão para você, não.
– Não?! Mas você disse…
– Eu sei o que eu disse. Tenho boa memória. O motoboy não vai arriscar a vida dele para entregar arroz e feijão, para você, na sua cada. Entenda: A sua vida não vale mais do que a do motoboy. Quem você pensa que você é? O vírus pode matar você, e pode matar o motoboy também.
– Olha, eu…
– Não olho nada, não. Você tem alguma doença grave?
– Não.
– É idoso?
– Não.
– Então, venha buscar o arroz e o feijão.
– Mas…
– Nem mas, nem meio mas. Basta lavar bem as mãos com água e sabão…
– Água e sabão?!
– Se quiser, use soda cáustica.
– Você está sendo grosseira.
– Sempre fui. A grosseria é uma das minhas virtudes. De nascença. Eu a herdei de meu pai, que a herdou do pai dele, que a herdou… Você entendeu: a grosseria é uma virtude da minha família.
– Você está sendo desrespeitosa. Quero falar com o gerente. Chame-o.
– E o que você…
– Quero lhe fazer uma reclamação.
– Tudo bem. Vou chamá-lo. Pai, tem um homem aqui ao telefone querendo falar com o senhor.
E o Fábio desligou o telefone.

Três filmes inspiradores: Matar ou Morrer (com Gary Cooper); El Cid (com Charlton Heston); e, Perdido em Marte (com Matt Damon).

Três filmes inspiradores. Perdido em Marte (de Ridley Scott; estrelado por Matt Damon); Matar ou Morrer (de Fred Zinnemann; estrelado por Gary Cooper e Grace Kelly); e, El Cid (de Anthony Mann; estrelado por Charlton Heston e Sophia Loren).
Em Perdido em Marte, Mark Watney (Matt Damon), astronauta americano, se vê, só, no planeta vermelho. Para a sua subsistência, cultiva, em uma estufa, batatas. Bem-sucedido, consegue, no decorrer de alguns dias de cultivo, colher uma boa quantidade de tal tubérculo. Um dia, porém, um acidente destrói a estufa, e, por consequência, a plantação de batatas. E Mark Watney depara-se com uma situação desesperadora: Terá de permanecer em Marte, à espera de resgate, um tanto de dias, mas não poderá colher batatas para renovar o seu estoque. Controla-se. E pensa, preocupado e calmo. E principia-se um novo capítulo de sua peripécia pela sobrevivência, sem se deixar governar pelo medo, pela desesperança. E uma de suas medidas foi reduzir o consumo diário de batatas, seu único alimento. Mensura o seu estoque de batatas. E verifica quantos dias terá de, em Marte, esperar pelo resgate. E faz os cálculos. E divide as batatas em tantas partes, para comer uma certa quantidade de partes de batatas (e nunca uma batata inteira) por dia. O seu esforço é sobrehumano; disciplina-se; não se deixa sucumbir ao desespero. E enfrenta um inimigo avassalador: a fome. Não esmorece. E é bem-sucedido. A sua luta pela sobrevivência, heróica. Ao final de suas aventuras em Marte, está magérrimo, esquelético; e seu amor pela vida, intacto. E é resgatado. E regressa ao seu lar, a Terra.
Em Matar ou Morrer, o xerife Will Kane (Gary Cooper), recém-casado com Any Kane (Grace Kelly), recebe uma notícia, que o preocupa: a vinda à Hadleyville, cidade do Novo México, de Frank Miller (Ian MacDonald), um bandoleiro que ele, Will Kane, anos antes, capturara e enviara à prisão. E Frank Miller e seus comparsas iriam se vingar de Will Kane. Exortam os cidadãos de Hadleyville o xerife Will Kane a ir-se, em lua-de-mel, embora; que ele salvasse a própria pele. Will Kane principia a viagem; todavia, em um certo ponto, decide regressar à Hadleyville, para defendê-la de Frank Miller e seus comparsas. Solicita ajuda aos moradores. Suplica-lhes ajuda. E é por eles abandonado. Oferecem-lhe ajuda um bêbado e um garoto, ajuda que ele sensatamente rejeita, respeitoso. Em nenhum momento, pensa em desistir. Decidido a enfrentar os seus inimigos, o faz, e só, certo de que poderia vir a morrer. Enfrenta-os. E recebe a ajuda de sua esposa. Vitorioso no embate com os seus inimigos, retira-se, na companhia de sua esposa, de Hadleyville.
Em El Cid, o herói, Rodrigo Diaz de Bivar, o El Cid (Charlton Heston), em batalha contra o emir Ben Yussuf (Herbert Lom), lidera os espanhóis. E é ferido de morte. Mesmo em situação tão dramática, certo de que das mãos da Morte não escaparia, ciente de sua responsabilidade e de que a sua presença, no campo de batalha, à frente de seu exército, era imprescindível para a vitória dos espanhóis, rejeita os conselhos dos que lhe pediam recolhimento, e decide seguir combate. Morre. E lidera, montado em Babieca, seu cavalo, à cela amarrado, e ladeado por Rei Afonso (Johm Fraser) e Al-Mu’tamin (Douglas Wilmer), os espanhóis, que, vendo-o, animam-se, e, animados, entregam-se à batalha, e arremetem-se, bravos, destemidos, contra os invasores. El Cid vislumbrara a morte, e decidira, heroicamente, enfrentá-la. A sua coragem inspirou ao seu povo a vontade de persistir combatendo os invasores. E a vitória foi a recompensa.
Nestes três filmes, os homens assumem postura heróica. Conservam-se, apesar da situação desesperadora, calmos, serenos. São homens fortes. Da têmpera do aço. São heróis. Em Perdido em Marte, Mark Watney luta pela sua sobrevivência. Em Matar ou Morrer e em El Cid, Will Kane, herói daquele, e Rodrigo Diaz de Bivar, herói deste, lutam pela sobrevivência, cada qual, de seu povo, dispostos a perderem a própria vida em defesa, Will Kane, da vida de ingratos, que o abandonam, Rodrigo Diaz de Bivar, o El Cid, da de um povo que o ama. Will Kane sobrevive; El Cid morre. Destes três heróis, o maior é Rodrigo Diaz de Bivar, que, mesmo morto, luta, e conduz seu povo à vitória.

Em quarentena, com os amigos

– Não terei o que fazer nestes quinze dias de quarentena, Sergio. Acho que vou enlouquecer. Aqui em Pindamonhangaba quase todas as lojas estão fechadas. Serei obrigado a ficar em casa, preso, olhando para o nada. O governador já decretou o fechamento de inúmeros estabelecimentos comerciais até a primeira semana de abril. Irei enlouquecer. Duas semanas trancafiado, em casa, sem ter o que fazer… E você, Sergio?! E você?!
– Eu!? Não me preocupo. Não me incomodo em ter de permanecer em casa nas próximas duas semanas. Nem um pouco. Terei muitos amigos comigo. Brasileiros, argentinos, americanos, portugueses, espanhóis, franceses, russos, alemães, suecos, dinamarqueses, poloneses, japoneses, gregos, italianos. Durante os próximos quinze dias, conversarei com Platão e Aristóteles, dois sábios gregos que muito já me ensinaram e que muito ainda têm para me ensinar. E de Sófocles e Ésquilo, Eurípedes e Aristófanes, quatro geniais contadores de histórias, ouvirei contos fantásticos. O Ésquilo já me narrou a história de Prometeu; Sófocles já me falou de Édipo. Pedirei a estes quatro contadores que me contem algumas histórias que já me contaram e outras para mim inéditas. E retomarei a minha conversa com os romanos, conversa há muito tempo interrompida. Conversarei com Ovídio, Cícero e Virgílio. Este me contará histórias fabulosas dos deuses romanos. E passarei bons momentos em companhia de Boccaccio e Dante. Com eles terei um bom dedo de prosa. Boccaccio sabe como se vive durante uma peste: na companhia de amigos. Suas histórias inspiram-me esperança e me divertem. Ele é jocoso. Espirituoso. E Dante… Dante me dará relatos, que dele já ouvi, de uma extraordinária, fascinante aventura que ele, ciceroneado por Virgílio, empreendeu no Inferno, no Purgatório e no Paraíso. E terei uma boa prosa com Manzoni e Lampedusa e Svevo. Ah! Esquecia-me: Homero. Ao falar dos gregos, dele eu não me lembrara. E nem de Hesíodo. Lembrei-me a tempo… Zeus não me perdoaria se deles eu não me lembrasse. Deles eu pedirei um relato das aventuras dos deuses e dos heróis gregos, aventuras que eles sabem contar melhor do que ninguém, com o talento que lhes fez a fama. A da guerra de Tróia é extraordinariamente espantosa. Acomodado numa cadeira, ouvirei as palavras de Santo Tomás de Aquino, e as de Santo Agostinho, e as de São Gregório de Nazianzo, e as de São Clemente de Alexandria, e as de São Bernardo de Claraval. Estou feliz. Você não pode imaginar o tamanho da minha felicidade. Terei estes amigos, divinos amigos, na minha casa, fazendo-me companhia pelos próximos quinze dias. Deles ouvirei palavras confortadoras, palavras de sabedoria que Deus lhes inspirou. Serão horas e horas de paz. E dos Estados Unidos vieram visitar-me o Twain, e o Melville, de quem já ouvi uma emocionante aventura de caçada à uma baleia. E da terra do Tio Sam também estarão em minha companhia o Whitman, o Emerson, o Henry James, o Faulkner. E da França vieram o Proust, o Balzac, o Hugo, o Stendhal. E da Espanha, o Cervantes, o meu querido Miguel de Cervantes Saavedra, que, em três outras ocasiões, narrou-me as divertidas peripécias de Dom Quixote de La Mancha e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Você já ouviu falar da história dos moinhos-de-vento? É divertidíssima. O Cervantes é a única pessoa no universo que a sabe contar. E da Suécia recebi a visita de Selma Lagerlof. São tantos os meus amigos, que não posso me lembrar de todos. Vêm-me à memória o nome de Suetônio, romano, e o de Edgar Allan Poe, americano. Poe já me contou muitas histórias extraordinárias, do grotesco e do arabesco, tão extraordinárias que, se eu as contar para você, você coçará a cabeça certo de que é impossível uma pessoa só criar tantas aventuras inacreditáveis. E da Polônia estará comigo o Sienkiewicz. E da Dinamarca, o Andersen e o Pontoppidan. E da Romênia, Noica e Ionesco. E da terra da Rainha Elizabeth, um exército de amigos: Shakespeare, Stevenson, Conan Doyle, Dickens, Kipling, Defoe e Swift. Todos eles são bons contadores de histórias. Deles já ouvi as aventuras de Macbeth, Doutor Jekyll e Mister Hyde, Sherlock Holmes, David Copperfield, Mogli, Robinson Crusoé, Gulliver. E muitas, muitas outras aventuras. E deles ouvirei dezenas de outras. E esquecia-me Rabelais. Um amigo francês que, certa vez, narrou-me as aventuras de Gargântua e Pantagruel. E esquecia-me de outro francês: Moliére, homem divertidíssimo, dono de uma espirituosidade incomum. Irá me divertir, e muito. Irei rir, e rir muito. E gargalhar. E nas minhas conversas com ele o tempo irá parar, literalmente. Estou a imaginar, e a me divertir enquanto imagino, uma conversa minha com Moliére, Cervantes, Aristófanes, Boccaccio, Shakespeare, Swift e Gogol. Gogol! Russos! Reunidos na minha casa, veja você, Gogol, Dostoiévski, Tolstói, Tchekov, Pushikin. Todos eles donos de inesgotável repertório de contos empolgantes. E da Alemanha vieram o Goethe, o Kafka e o Schiller. E não posso me esquecer dos meus amigos latino-americanos: Borges, Rulfo, Garcia Marquez, Cortazar, Arguedas. Ah! Esquecia-me! Winston Churchill, um dos mais nobres súditos da Rainha Elizabeth. Homem de fibra. Destemido. Dono de uma oratória que só se rivaliza com a do… E esquecia-me: Demóstenes, o grande Demóstenes. Demóstenes e Churchill, meus amigos, na minha casa. E do Oriente vieram, da Índia, Tagore; do Japão, Yasunari Kawabata e Yukio Mishima. São tantos os meus amigos, que eu não posso nomeá-los um por um. É impossível. E de Portugal, Camões. Você o conhece? Ele me contou a história do Gigante Adamastor. E vieram, também, o Gil Vicente, o Herculano, o Eça, o Camilo. Estou muito feliz em tê-los na minha casa durante os próximos quinze dias. E quais outros amigos estarão comigo? o Asimov, o Karel Capek, o Bradbury, o Sturgeon. O Le Carré e o Forsyth. E o Koestler. E o Leibniz. E os meus queridos amigos brasileiros. Queridos e amados. O Machado, o José de Alencar, os irmãos Azevedo, o Gustavo Corção, o Lobato, o Gonçalves Dias, o Herberto Sales, o Meira Penna, o Oliveira Lima, o Bonifácio, o Nabuco, o Rui, o Cyro dos Anjos, o Coelho Neto, o João Camilo, o Reale, o Graciliano, o Gilberto, o Padre Antonio Vieira, e muitos, muitos outros, muitos outros amigos queridos, amigos cujas amizades estimo imensamente. São amigos para sempre. Estou feliz em tê-los ao meu lado, na minha casa, fazendo-me companhia neste momento de tensão e medo. Amparam-me. Confortam-me. Orientam-me. Tranquilizam-me. Contar-me-ão histórias extraordinárias passadas em outras eras, em outros povos, em outros mundos, em outros universos. Histórias de um passado distante e histórias de um futuro longínquo. História de reis e rainhas, de heróis e vilões, de criaturas divinas e criaturas demoníacas, de entidades celestiais e de monstros. Estou feliz em tê-los ao meu lado nesta hora tão escura.

Um escritor atormentado

O escritor escreveu um conto de quatro mil palavras, de cabo a rabo, em duas horas. Releu-os. Corrigiu-o. Releu-o. Suprimiu-lhe dezenas de palavras e adicionou-lhe centenas de outras palavras. No conto executou inúmeras alterações, conservando, sempre, a idéia original, que muito o agradava. Assim que o deu por definido, largou as folhas sobre a escrivaninha, feliz da vida. E pôs-se a lê-lo, alegre, contente. Encerrada a leitura, feliz com o resultado, lembrou-se de um detalhe que lhe havia escapado. Qual era o título do conto? Procurou por ele, e não o encontrou. Qual título daria ao conto? Pensou. Matutou. Remoeu seus pensamentos. Ruminou suas idéias, e não encontrou um bom título para o seu conto, que muito o agradava. Contrariado, atormentado, guardou o conto numa pasta, da qual ele o tiraria assim que lhe encontrasse um bom título. E na pasta jaz o conto há dois anos.
Dias depois, o escritor criou, enquanto se banhava, sob água fria, que despejava de uma ducha, um título para um conto. Assim que, banhado, e enxugado, retirou-se do banheiro, correu, célere, ao escritório, pegou um lápis e uma folha de sulfite, e nesta anotou o título do conto. Releu-o. Era um bom título para um conto. Mas, e o conto? Sentou-se na cadeira, à escrivaninha, fincou os cotovelos na escrivaninha, olhos fitos na folha de sulfite, coçou a cabeça. Atormentou-se. Não encontrou um conto para aquele título de um conto, título muito bom, que muito o agradava. Enfim, guardou, a contragosto, a folha de sulfite na pasta, da qual não a retirou até hoje.

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