A Morte do Tiziu – mensagem do Barnabé Varejeira

Bão dia, meu querido amigo, amigo do peito, Cérjim, que tá no meu coração. Com a graça de Deus, Cérjim, hoje eu tô digitano, cos meus dedo, no meu celulá, esta mensage po cê, e estou muinto animado, muinto feliz, feliz pruque tô vivo, pruque minha óra ainda não chegô. Tô vivo, e a mia muié tamém, e tamém os meu fio, pruquê Deus ansim quis, e ansim quer. É d’Ele a vontade de me dexá vivo até agora. Que Deus seja lovado. Quando Ele achá que tá na óra de eu í desta pa onde Ele achá que devo í, vô. Que escoia eu tenho?! Manda quem pode; obedece quem tem juízo. E quem pode é Deus. Então, pa mim, resta-me o juízo.

Já faz um bom tempo, né, Cérjim, que nós não se fala pelo Uatesape. Um bom tempo. Eu mando um bão dia po cê, com desenhinho animado, e tamém mando ba noite, e ocê devórde bão dia e ba noite cos desenhinhos animado, figurinhas alegre, e só. Mas hoje eu tirei um tempo da mia vida atarefada pa contá po cê uma instória divertida, divertida pa dedéu, que aconteceu hoje cedo, mas que não começô o seu começo hoje; o começo da instória começô ônte à noite; e a instória terminô hoje cedo, cedinho. Foi um acontecimento muinto engraçado. Engraçado pa dedéu. Ocê nem imagina o que aconteceu. Nem imagina. Foi por demais engraçado. Não me guento de tanto ri. Não me guento. E tenho obrigação de contá po cê o que aconteceu de tão engraçado. Ocê tem de sabê o que foi. Não me guento de tanto ri, Cérjim. Não me guento. Não me guento. Os meu sorriso vão de uma oreia à ôtra, e vórta da pa qual foi pa da qual saiu. Vão e vórta de uma oreia pa ôtra, sem pará. Foi engraçado demais, Cérjim, muinto engraçado, o que se deu hoje cedo. Muinto engraçado. Ocê tinha de vê. Foi muinto engraçado. Meu Deus do Céu! Cada uma que acontece, aqui, que ocê nem querdita. Ri tanto, tanto, mas tanto, que os botão da mia camisa arrebentáro, e a fivela da cinta estorô. E eu soei três litro de suor, de tanto que ri. Fiquei encharcado. Jesus Cristo Nosso Siôr, Fio de Deus! É cada uma, Cérjim, que só Deus veno! É cada coisa que acontece. Não consigo digitá direito as palavra da instória. Se ocê vê os meu erro de prutuguês, com letra fora do lugar, uma letra engolino ôtra, desconsidere os erro, e me perdõe. Não consigo segurá o celulá, de tanto estô rino. Parece, inté, que aconteceu ônte o que tenho pá contá po cê, mas num aconteceu ônte, não; aconteceu hoje, hoje cedo, um pôco depois de o Garrincha cantá o nascer do sór. E canta que é uma beleza, o meu garnizé, que já tá véinho, coitado. Mas ainda canta, e canta tal qual um tenor intaliano, daqueles gordo, cheio de ar nos purmão. É cada uma que acontece, que a gente contano, todo mundo pensa que é mentira. E eu tô só embruiano a instória. E não tô contano ela po cê. Vâmo deixá de enrolação, de lerolero, e vâmo pa instória que nos interessa, instória muinto engraçada. É engraçada pa dedéu, ocê vai vê.

O seu António, o nosso Tóninho, óme bom e trabaiadô, casado ca dona Lulu, muié trabaiadêra que só veno, tem quatro fio, dois óme e duas muié. Um dos óme é o Fernando, o Nandinho, bicho branco inguar arroz descascado; a gente, só de pirraça, chama ele de Tiziu; e o ôtro fio do Tóninho e da dona Lulu é o Lúcio, óme tão pequeno, menor que pé-de-arface, que parece um canarinho, e tem cabelo espetado; e chamamo ele de Urubu; ele é branco, o coitado, mais branco do que o irmão, e não gosta que a gente chama ele de Urubu, mas a gente, mermo ansim, só pa arrumá encrenca e deixá ele bufano de raiva, com vento nas fuça, chama ele de Urubu.

E agora conmeça a instória de hoje cedo, instória que começô ônte à noite. Quero dizê: a instória já aconteceu, e aconteceu hoje cedo, e parece que foi ônte, e agora coméço a contá-la po cê, po cê conhecê-la. Até agora eu só escrevi a introdução; agora, vâmo à instória intêra.

O Tiziu sumiu. Sim. Ele sumiu. O que não é de espantá ninguém; e todos já estamo habituado com os sumiço dele; não é a primêra vez que ele some, e não será a úrtima. E não sumiu hoje; sumiu ônte à noite. Era onze da noite, o céu ia condecorado de estrela, e tudo ia carmo, na santa paz. E a dona Lulu começô a percurá pelo fio desaparecido, nas redondeza, ino de casa em casa, pedino notícia do dito cujo pa todas as pessoa. E ninguém lhe dava notícia do fio, que tomara chá-de-sumiço, era certo, mais certo do que dois e dois ser quatro, e uma dúzia ser doze. E onde tava o Nandinho, o nosso Tiziu? Ele, Cérjim, é óme feito, mas não regula bem da cabeça, não tem cabeça boa, não. Diz o ditado que quano a cabeça não pensa, o corpo padece. Quem foi o primêro óme que ditô o ditado, e pa quem o ditô, não sei. Sei que o ditado se encaixa, à perfeição, no Tiziu. Parece, inté, que foi inscrito pa ele. Enquanto a dona Lulu percurava o fio sumido, o seu Tóninho bebia cerveja, co Grilo e co Gafanhoto, irmãos gêmeo que se parecem um co ôtro e são unha e carne, e a corda e a caçamba, e comigo e co Ruivo, no bar do Zé Carrapato, e não tava nem aí ca órde do dia. Tava sossegado o seu Tóninho. Mas o sossego dele acabô ansim que a dona Lulu entrô no bar, toda esbaforida, suano em bicas, de óios arregalado inguar trasêro de vagalume, o coração dano pinotes, e falô, com voz esganiçada, po marido dela, que ela desposô, na santa igreja, diante do padre:”Tónho, o nosso fio sumiu.” E o seu Tóninho arrespondeu-lhe, carmo: “Não se percurpe, muié. Logo o Nandinho aparece.” E nem percisô a dona Lulu falá que quem sumira fôra o Tiziu pa o seu Tóninho sabê de quem se tratava. É só o Tiziu que some. O Urubu, embora não bata muinto bem dos pinos,tem juízo. Ansim parece. E o seu Tóninho, a tranquilidade em pessoa, bebeu de um pôco de cerveja, enquanto a dona Lulu, de óios arregalado, cas mão no peito, percurpava-se com o fio desaparecido. Enfim, todos fômo cada um pa sua casa. E o Zé Carrapato fechô as porta do bar. Já era bem tarde. Passava das meia-noite. A dona Lulu varô a noite em claro, percurpada com o fio desaparecido, que não aparecia de jeito nenhum, não dava sinal de sua beleza po mundo. E o seu Tóninho drumiu inguar pedra, pois sabia que o Tiziu ia aparecê mais cedo ô mais tarde; sempre que some,o Tiziu quase sempre aparece mais tarde. E desta vez não foi diferente. Ô foi? O Garrincha cantô. E cantô bonito. Parecia, inté, que havia marcado um gol. E nós, eu, mia muié, os gêmeos Grilo e Gafanho, e a dona Maria dos Doce, e a dona Quitéria, e o seu Janjão, e o Zé da Botica, e a dona Natinha, e a Vó Preta, e inté o Zé Carrapato,fomo pa casa do seu Tóninho e da dona Lulu sabê notícia do desaparecido Tiziu. Tava todo mundo percurpado; mais percurpado ca saúde da dona Lulu do que co Tiziu, que, todos sabia, ia aparecê, mais cedo ô mais tarde. E era umas nove óra aparece na casa do seu Tóninho e da dona Lulu o Tião do Cemitério, que é segurança, que não segura nada. E pode ele segurá arguma coisa com aquela pança de muié prenha!? Não pode. É imporssíve. E o Tião, cos passo medido, ca cara vexada, tímido, falô pa dona Lulu e po seu Tóninho estas palavra: “Seu Tónho, dona Lulu, eu tenho uma coisa pa contá po ceis dois, mas tô um pôco vexado de contá. É uma instória triste, tão triste que me dói o coração. O fio do ceis, o Fernando, tá lá no cemitério.” Foi um deus-nos-acuda, Cérjim. A dona Lulu desmaiô nos braço do seu Tóninho. E corre um daqui, pa pegá cadêra, e corre ôtro dali, pa pegá água pa dona Lulu; e um acóde ela; e ôtro presigna-se e pede a Deus a sarvação da arma do Tiziu. Todos ficamo tonto ca notiça. A dona Lulu acorda do desmaio, bebe de um pôco de água do copo que arguém, não me alembro quem, lhe ofereceu, e, o coração parado, preguntô po Tião do Cemitério: “De que ele morreu, Tião?”, e o Tião, apalermado, respondeu-lhe: “O Fernando morreu!? Ele não morreu, não, dona Lulu. Eu o encontrei, agorinha cedo, deitado, perto do túmulo do Prefeito, vivinho-da-silva. Ninguém encomendô a arma dele, não, dona Lulu. Ele tá dormino, lá,perto do túmulo do Prefeito, e fedeno cachaça.” E todos gargaiamos, de alívio. Tá vivo o Tiziu, aquele manguaça. Que susto ele deu em nós, se nem magina, Cérjim.

É esta é a instória que eu queria contá po ce. E contei. É triste, e divertida tamém.

Mande mensage pa mim, Cérjim. Dê notícia daí da cidade. Ansim que eu tivé ôtra instória pa te contá, conto. Fique co Deus Nosso Senhor Menino Jesus, fio de José e da Santa Maria. E tenha um bão dia. Té breve.

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Maldita Valéria! – mensagem de Barnabé Varejeira.

Bão dia, Cérjim, meu amigo, amigo do peito, amigo que muito bem eu quero, amigo do coração, do coração de ouro, de ouro de oito que late. Que Deus Nosso Siôr Jesu Cristo Menino, Fio do Zé i da Santa Maria, proteja ocê sempre, i sempre, i pa todo o sempre. Amém.
Transandônte, anteônte, i ônte, i ôje, Cérjim, eu ovi uma instória daquelas de arrepiá os cabelo de ovo de pata. Meu Deus do Céu! Tem gente neste mundão de Deus Nosso Siôr que só sabe fazê disgrama das bem desgraçada. Que os diabo as carregue pus quinto dos inferno. E que Deus Nosso Siôr me perdõe se cometi, i cometi, uma heresia imperdoáve. Mas não dá pa guentá tanta mardade das pessoa. Não dá. Não tenho paciência de Jó. Deus me livre! Deus deu, Cérjim, um inspírito pa cada fio-de-Deus, um só, unzinho só, um pa cada uma das pessoa de duas perna; todavia, entanto, há pessoas que têm dois inspírito: o que Deus deu, e o que o cão deu, e o cão deu o inspírito-de-porco. Deus me livre de tanta disgrama! Cérjim, eu ovi, já disse eu, i repito, ônte, i anteônte, i transandônte, i ôje, i osso às veiz, à quarqué hora do dia i da noite, uma daquelas notiça de doer no coração de todo ômi de bom coração.
Óia, Cérjim, ocê sabe tão bem quanto eu, o até mais, pruque ocê é um ômi estudado, que há um bão tempo nóis sofre pruque um sino-chinês comeu, lá pras banda dos ómi de óio fechado, parente próximo, um primo, i quase irmão, dos japa-nipônico, um morcego, i cru. Daí, a instória é de conhecimento de todo os ómi. O sino-chinês ficô ruim pa dedéu, i antes de í po beleléu, gurspiu, o mal-encaminhado, um caroço de catarro com o vírus, aquele bichinho que os fio-de-Deus, não o veno, vê, i o estrupício, o tal bichinho, vuô, i vuô, foi de lá pra cá, o bandido, i infectô uns punhado de sino-chinês, de japa-nipônico, de viéti-vietnã, de gringo-americano, de portuga-lusíada, de ítalo-romano, i ôtras raça de gente de otros praneta, até que, enfim, infectô um brasilêro, i, depois disso, arrasô cas vida de muinto de nosso povo. I que Deus Nosso Siôr Jesu Cristo Menino, Fio do Zé i da Santa Maria, sarve as arma de todos ele, i dêxe elas í pô céu. I que tenha misericórdia de todo os ômi.
Pois bem, Cérjim, nós sofreu à beça. Sofrêmo muito. Mas tâmo nos livrano do mardito mocorongovírus, que fez uma disgrama que só veno. Mas a vida segue. Temo de segui, sem insmorece. Temo que arregaçá as manga, i pôr mãos à obra. Fazê o quê?! Se é ansim, é ansim. Deus Nosso Siôr sabe o que faz.
Agora, veja bem, Cérjim. Ocê veja como as pessoa não qué que a gente respire nem um gole de ar puro, pa espairece, renová as energia, pa podê pegá no batente, i segui em frente pruque atrás vem gente, i já dão um jeito de fazê as pessoa ficá cas perna bamba de tanto medo. Ô gente coisa-ruim! Nem mal nos livrâmo do mocorongovírus, i já trosséro ôtro bichinho pa nos atazaná a cabeça, i nos deixá de cabelos em pé, i o coração apertado, de tanto susto, susto atrás de susto. Deus me livre. Primêro, um sino-chinês cóme carne de morcego, crua, i o mar se espáia pela terra de Nosso Siôr, fazeno muinto mar pa toda as pessoa; i agora, uma tar de Valéria cóme carne de macaco, má-passada, passa mar, e górspi um catarro tão tamanhudo, de assustá até abantesma, sofre um piripaque, i parte desta pa mió, i da massa catarruda que ela gurspiu brota um bichinho, que, tal qual o mocorongovírus, não o veno, todo mundo o vê, i espaia-se de um fio-de-Deus para ôtro, i pa ôtro, i pa ôtro, i pa ôtro, i põe toda as pessoa de cabelo em pé.
Óie ocê, Cérjim, i ossa bem: as muié são danada pa trazê disgrama no mundo. Primêro, a senhora Eva, de triste memória, come uma das maçã da maciêra, instragada, i agora a tar da Valéria come carne de macaco, má-passada. Mardita Eva! Mardita Valéria!

A sofisticação do verbo “ouvir”.

De todos os verbos da Nossa Língua Portuguesa, “ouvir” é o mais sofisticado. Permite duas conjugações no presente do indicativo da primeira pessoa do singular: “osso” e “ovo”. Exemplos: “Eu osso músicas do Pixinguinha.” e “Eu ovo músicas do Sílvio Caldas.”

Carne de Vaca e Carne de Porco – Um Debate Epistemológico. Com a Participação dos Filósofos João Osso de Boi e Paulo Espinha de Peixe – transcrito por Zeca Quinha, e publicado no Zeca Quinha Nius.

O Zeca Quinha Nius, o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre e de todos os outros orbes deste e de outros universos, tem a honra de apresentar aos seus leitores, que habitam os quatro cantos do orbe terrestre, em transcrição, a íntegra do debate, de cunho filosófico, antropológico, histórico, geográfico, psicológico, sociológico, teológico, parapsicológico, químico, físico, alquímico, metafísico, astrológico, astronômico, geológico, bovino, suíno, galinácio e ictiológico, do qual participaram dois nobres intelectuais brasileiros, os senhores João Osso de Boi e Paulo Espinha de Peixe. Antes de dar aos leitores do Zeca Quinha Nius, o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre, o teor do debate, cuja substância são as palavras que os debatedores pronunciaram durante o debate, e não outras, que não foram ditas por eles, apresentamos breve, muito breve, brevíssima biografia deles, uma de cada um, pois cada um deles tem uma, e apenas uma, biografia, embora ninguém até o momento desta publicação tenha escrito, e tampouco publicado, a biografia deles, biografia que trata da vida deles, e não da de outras pessoas, que também podem ter uma biografia, ou mais de uma, a depender de quantas existam.

O senhor João Osso de Boi, dos dois debatedores o primeiro de quem falamos, e não o mais importante, é graduado e pós-graduado, gradualmente, em Linguística Alimentar, pela Faculdade dos Nomes Próprios Impróprios, Apropriados e Desapropriados, da Universidade Federal do Município de Pindamonhangaba do Norte-Nordeste. Escreveu sete obras grandiosas, cada uma delas com mais de dois milhões de palavras, e elaborou, com a sua inteligência invejável, a Teoria das Palavras Ditas e Não-Ditas Que Dizem as Ditas o Que Não Querem Dizer e Não Dizem as Não-Ditas o Que Querem Dizer Independentemente de Quem as Diz e as Não Diz, teoria que está exposta em um livro de mais de cinco milhões de palavras, uma obra monumental. E o senhor Paulo Espinha de Peixe, dos dois o segundo de quem falamos, e não o menos importante, é graduado, pós-graduado, doutorado e mestrado em Psicologia Parapsicológica do Pensamento Linguístico Humano Com e Sem Palavras, pela Faculdade de Antropologia Labial das Línguas Idiomáticas das Pessoas Falantes e Tagarelas, da Universidade Estadual do Município de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, e doutor honoris causa da Universidade Universal Terrestre e Terráquea da Cidade Indiana Pindamonhangabakrishnan. É autor de um livro em cuja capa há uma ilustração com um elefante, um sagui, uma ostra, uma estrela-do-mar, um pinguim, todos eles comendo batatas fritas, à mesa redonda, a participarem de uma confabulação linguística poliglota.

Agora que os leitores já leram, caso as tenham lido, as biografias, em resumo bem resumido, das duas ínsignes autoridades intelectuais, damos, nas linhas que seguem este parágrafo, a transcrição do histórico debate entre elas, que são eles, dois homens. Pedimos aos leitores que não se apressem na leitura, pois ainda não digitamos a transcrição; e que a leia na medida em que a digitarmos.

– A carne – disse João Osso de Boi, após as apresentações da lista de títulos, e muitos tíitulos, dos dois debatedores. – O que é a carne, e o que se diz da carne, e o que a carne é e não é é a questão que nos interessa, a mais importante em nossa civilização, a sociedade moderna, laica, cientificista, industrial e tecnológica em que vivemos. É a carne carne. É da essência da carne a sua substância carnuda. E é da carne que se origina a carnificina, a carnagem, a carnefilia, a carnefobia, o carnívoro e a carnívora, o carniceiro, a encarnação e a reencarnação, e o desencarnado, e a dona Maria da Encarnação. A carne em si, metafisicamente falando e dizendo ontológicamente, é laica; precede a existência da definição e do conceito de carne e as substâncias substanciosas que dela procedem. Não existisse a carne, não existiria o conceito de carne, e nem a definição dela, e tampouco a definição do seu conceito e o conceito da sua definição, tanto do que a carne é quanto do que são o conceito e a definição da carne. A existência da carne obrigou os humanos a pensar acerca da sua substância e das origens da linguagem cujo eixo de pensamento é a carne.

– Penso, meu amigo – disse Paulo Espinha de Peixe -, que, inexistindo a carne a existência da definição e do conceito de carne existiria, ou não, a depender dos estímulos intelectuais que os humanos porventura sofreriam no mundo em que a carne inexistisse. O intelecto humano é tão complexo e maleável que, mesmo desconhecendo a inexistência do inexistente e conhecendo a existência do existente, pensa na existência inexistente e na inexistência existente a ponto de conceber a entidade, em abstração, que associa a coisa ao objeto, independentemente se é o objeto uma coisa e a coisa um objeto; portanto, é o escólio, inexistindo, em concreto, a coisa, o objeto, em abstrato, inexiste, porque é a sociedade laica.

– O que me faz pensar, meu amigo, evocando, metafisicamente e ontologicamente e noologicamente e antropologicamente e etnologicamente e linguisticamente, os artigos e substantivos que se usa para designar, existencialmente e fenomenologicamente, a carne em suas inúmeras acepções, eles dela transcendem a materialidade; a carne seria carne mesmo se não existisse. Vejamos um exemplo: diz-se carne de vaca e diz-se carne de porco, sem se considerar a laicidade da carne e a sexualidade do açougueiro.

– Há açougueiros que, corroídos pela masculinidade tóxica, não compreendem, e não querem compreender, que a flatulência das vacas e dos bois interferem negativamente no clima terrestre, elevando a temperatura global, e ocasionando, consequentemente, maremotos e terremotos, interferindo, assim, automaticamente, nos ecossistemas do universo, com ressonâncias antropológicas e paleológicas que ecoam nos sistemas ecológicos dos outros sistemas estelares da Via-Láctea.

– Você tocou em um ponto sensível, que pode ser desdobrado em inúmeros pontos e estendidos em várias linhas, linhas retas e linhas curvas, pontuadas de pontos pontudos apontados em pontos curvos e pontos retos. Quero chamar a atenção para outro ponto, que também pode ser desdobrado, e esticado, e curvado e recurvado, aleatória e randomicamente, seguindo trilhas a esmo, em conformidade com a Teoria das Supercordas e em consonância com os postulados da Teoria da Relatividade Geral conectada às regras elementares da culinária japonesa. É o da designação das carnes. É a carne de vaca, entendem os dotados de preconceito linguístico da sociedade patriarcal, medievalista, feudal, de vaca, e a de porco, de porco. A carne de vaca não é necessariamente de vaca, pode ser de boi, e a de porco, de porca, e não obrigatoriamente de porco. A carne, considerando o ambiente laico da sociedade moderna, sendo carne, tem propriedades de carne, e são seus componentes carne, e de carne são as suas essências material e metafísica, e o nome “carne” transcende a carne, pois não compartilha com ela suas materialidade e concretude, pois a carne, para existir, independe do nome que a denomina e a identifica. A carne, portanto, em suas partes constituintes e em seu todo, sendo de vaca, é de boi, e sendo de boi é de vaca, e sendo de porco é de porca, e sendo de porca é de porco, e, por conseguintemente falando, e linguisticamente observando, não a carne, mas os nomes que a nomeiam, conclui-se que a sociedade não abandonou de todo os preconceitos linguísticos, herança de uma cultura bárbara, supersticiosa, de uma era que antecede a sociedade laica moderna, industrial e tecnológica, que tem na carne carne independentemente das suas existência e inexistência. É a carne um fenômeno extra-sensorial, um epifenômeno existencialista e parapsicológico devido à inconsistência da sua estrutura fenomenológica. E astrologicamente está a carne sob o reino de Plutão, e coroado por Júpiter, e amparado por Vênus, e justaposto a Urano, e alinhado a Mercúrio e Marte.

– O que se destaca nos nomes das carnes é a subjacente mentalidade discriminatória do povo conservador que, identificando na carne substância digerível, não atenta para a linguagem binária, o uso dos pronomes masculino e feminino, objetos culturais de sociedades corroídas pelo preconceito linguístico binário, e mal percebe a substância cosmológica de subsistência da civilização que existe sob a égide do capitalismo anárquico neoliberal e patriarcal, sob estrutura mercadológica cujo único fim é a exploração dos explorados em benefício dos exploradores, que têm na carne o símbolo etéreo e fluídico do domínio do lucro das empresas lucrativas, cujos proprietários se arvoram em árvores vetustas e milenares dotadas de vínculo umbilical com a natureza, e, portanto, revestidos com a sabedoria da Mãe Gaia, entidade celestial, suprema, divina, cuja divindade prescinde de transcendência teológica e metafísica. É impressionante o prejuízo que o senso comum do homem comum cuja essência está apodrecida por causa da masculinidade tóxica, que lhe fere o ser do seu ser, ser metamórfico, polimorfo, multifacetário. Enquanto não se derem conta da estupidez humana que faz da carne objeto de culto culinário e da nomeação binária, a sociedade não irá progredir.

– Se astrologicamente está a carne sob o signo dos astros, zodiacalmente ela está na substância concreta dos símbolos dos signos. No horóscopo há bichos, animais, todos de carne, e a libra, cujas balanças podem ser usadas para medir a extensão do peso das carnes, em equilíbrio, ou em desequilíbrio, e o aquário, que pode conter animais aquáticos, os peixes, ou outros animais, também compostos de carne, sendo, portanto, tanto o aquário, quanto a libra, objetos empregados para atuar em atividades humanas que têm na carne um fim em si mesmo. E na simbologia dos signos do horóscopo detecta-se a prevalência da ordem da desordem ordenada segundo a desordem cósmica da ordem cosmológica dos padrões parapsicológicos do magnetismo animal dos animais simbolizados pelos signos, cujas imanências conduzem e reconduzem os homens às eras terciária e quaternária das primícias dos prolegômenos inscritos no frontispício dos tratados noéticos, cujo patrono é Noé, escravocrata, o primeiro bípede implume a explorar o trabalho braçal dos animais da era paleozóica, o ser humano ainda a engatinhar em suas andanças pela Terra.

– Em se tratando de magnetismo animal, os animais o possuem em larga escala, em especial, e principalmente, os animais animalescos, cuja carne desencarna e reencarna segundo os estágios dimensionais da metempsicose ariana e marciana; sabe-se, também, que a carne dos animais, além de intimamente dotada, em sua quintessência, de magnetismo animal, tem alta dose de eletromagnéticas voltagem e amperagem no seu microscópico sistema elétrico, hidrelétrico e fotoelétrico, independentemente da consistência dos pólos da Terra, situados, um, em seu norte, um, no seu sul, um no seu leste, um, no seu oeste. E os vegetais e os minerais não são dotados de magnetismo animal, e nem os planetas.

– O tema, amigo, é um dos mais complexos sobre os quais os humanos nos debruçamos, dedicados a desentranhar-lhes os mistérios, que remontam às mais antigas sociedades obscurantistas e esotéricas do misticismo egípcio e das sociedades iniciáticas teosóficas e que estão inscritos nos tratados de magia negra concebidos por alquimistas e quiromantes e prestidigitadores, todos a corroerem a alma humana com seus exóticos e escalafobéticos tanglomanglos. É “carne” acrônimo de Consciência dos Animais Racionais Nativos do Exterior; em outras palavras, é a carne substância alienígena proveniente dos reptilianos que vivem, no centro da Terra Oca, além da Abóbada Celeste.

Palavras de fina sabedoria do Zeca Quinha

Se fossem formigas, os elefantes não seriam serpentes.
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Abacateiros dão abacates porque os crocodilos não são legumes.
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Era uma vez um peixe…
Esqueci o resto da história.
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Se na Terra existisse uma substância que derretesse, em um segundo, um bloco de ouro de uma tonelada, ela existiria.
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No deserto do Saara há trilhões e trilhões e trilhões de partículas de areia, e nenhuma delas é maior do que a Terra.
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Um mais dois são três e dois mais um são três porque três é um algarismo.

Novas Palavras de Sabedoria Do Zeca Quinha – publicadas no Zeca Quinha Nius

O homem prevenido vale por dois, se os dois homens estiverem desprevenidos.

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O pior cego não é aquele que não quer ver, mas aquele que vê, pois se o pior cego fosse o melhor cego ele não veria nada.

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É sensata toda pessoa que não é atingida, no café-da-manhã, por um meteoro.

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Os dinossauros foram extintos porque eles não compreendiam a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein.

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Para se viver bem é aconselhável que se viva bem.

O Processo Legal – escrito por Zeca Quinha – publicado no Zeca Quinha Nius

Na noite de ontem, às duas horas da madrugada, os menores T.N.C.B.C. e P.Q.P.C.M., impelidos por um desejo de corrigir as injustiças sociais das quais foram vítimas, cientes de que a sociedade brasileira infligiu-lhes, nos dezesseis anos de vida que eles mal viveram nas comunidades periféricas das caóticas metrópoles urbanas em cujas ruas e avenidas trafegam automóveis, símbolos capitalistas do consumismo ocidental e da irresponsabilidade ecológica, agentes poluidores e causadores do efeito estufa e do aquecimento global, fenômeno, este, cataclísmico, que culminará na aniquilação da vida na Terra, decidiram transpor o muro da discórdia, da opressão, da segregação social, étnica e racial que os mantêm afastados dos bens de consumo com os quais sempre sonharam, mas dos quais a sociedade brasileira sempre os manteve afastados, da rua passando para o interior de uma propriedade, que é um roubo imposto, pela classe privilegiada, à classe desprivilegiada. E no interior da propriedade da casta opressora, avançaram os menores, empunhando revólveres, andando, nas pontas dos pés, tranquilamente. De repente, atacaram-los dois cães imensos, ferozes, ensandecidos, descontrolados, com fúria nos olhos, e ódio mortal nos latidos, que ecoaram como explosões de artefatos bélicos, assustando-os; e os menores T.N.C.B.C. e P.Q.P.C.M, aterrorizados, surpreendidos pelo avanço injustificável dos cães – instruídos, estes, pelos seus donos a atacarem qualquer cidadão que adentrasse a casa, na calada da noite, para reivindicar compensações pelas injustiças que a sociedade brasileira lhes inflige -, apavoraram-se, perderam o auto-controle e, com os nervos à flor da pele, à aproximação das duas alimárias demoníacas que babavam de ódio, apertaram, involuntariamente, o gatilho dos revólveres que empunhavam com mãos trêmulas de menores desnutridos das comunidades periféricas das raças injustiçadas, e dispararam projéteis; para tristeza deles, um dos projéteis que P.Q.P.C.M. disparou atingiu T.N.C.B.C. no ombro direito. E os cães, movidos pelo ódio insano aos membros das classes sociais inferiores, sem que nenhum projétil os houvesse atingido, seguiram de encontro aos menores, cujo córtex pré-frontal ainda não está inteiramente desenvolvido, e os atacaram, e os morderam, ferindo-os. Os dois cães eram enormes; pesavam, um, setenta e sete quilos, o outro, setenta quilos; e os dois menores pesavam, T.N.C.B.C., cinquenta e quatro quilos, e P.Q.P.C.M., cinquenta e um quilos. E os cães, ferozes, usaram de força desproporcional contra os menores. Impeliam os cães a vontade de matar; agiam, na alma dos menores, o desejo de corrigir injustiças sociais. Em sua fúria homicida, os cães dariam cabo da vida dos menores se o proprietário da casa, Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira e seus dois filhos, Paulo Roberto de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira e Roberto Paulo de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira, não os contivessem.
Encaminhados à delegacia, o delegado abriu inquérito para apurar o caso. Um representante da Defesa dos Menores processou Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira por incitamento ao ódio canino e posse de dois instrumentos, os cães, letais, que poderiam vir a provocar, se Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira os conservasse em sua posse, a morte de algum cidadão reivindicador de compensações legítimas. O imbróglio estender-se-ia, indefinidamente, se um representante da Instituição da Paz, informado do caso, não interviesse e não chamasse Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira, que perdia as estribeiras, à razão. Sentaram-se à mesa o delegado, o representante da Defesa dos Menores, o representante da Instituição da Paz e Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira. E após quatro horas de negociações exaustivas e desgastantes, ficou estabelecido, em consenso, para se evitar a aplicação de mais uma injustiça contra os menores P.Q.P.C.M. e T.N.C.B.C. e a prisão de Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira, o sacrifício dos dois cães, que, ferozes, assustadores, intimidadores, impedem menores de idade de exercerem o direito à reivindicação de compensações aos sofrimentos que a sociedade brasileira lhes inflige, e a aquisição, por Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira, de um cão de pequeno porte, inofensivo e pacato. E todos os envolvidos no caso ficaram satisfeitos com o resultado.À porta da delegacia, o representante da Instituição da Paz declarou aos jornalistas:- Evitamos conflitos desnecessários. Explicamos ao senhor Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira a importância da solução pacífica do caso. E todos saímos ganhando. Logramos sucesso. A sociedade só tem a alegrar-se.

A origem das guerras

Era uma vez, dois meninos sapecas levados da breca, Caim e Abel. Um dia, Abel, de posse de uma caneta esferográfica azul, rabiscou o álbum de figurinhas de Caim, que, enraivecido, tomou de um trabuco, e disparou contra o peito de Abel, que caiu, mortinho da silva.

E assim começaram as guerras.

Nota de rodapé: dizem por aí que a coisa não se deu assim. Para maiores informações, o Gênesis.

A Terceira Guerra Mundial – escrito por Joaquim Beltrano da Silva Fulano Cicrano de Souza – publicado no Zeca Quinha Nius

O corresponde estrangeiro do Zeca Quinha Nius – o maior e mais popular hebdomadário do orbe terrestre – nos Estados Unidos, residente na cidade americana de Pindamonhangabaiórque, e o corresponde estrangeiro do Zeca Quinha Nius – o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre – na Rússia, residente na cidade russa de Pindamonhangabavostóque, são, ambos, aquele e este, a mesma pessoa. Eles vivem no Brasil, e no Brasil lêem notícias em noticiários americanos e russos, e delas extraem as informações mais relevantes, as selecionam, e nô-las transmitem, do exterior, para nós do Zeca Quinha Nius – o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre. É de origem russa o nome russo do nosso correspondente na Rússia, e o nome americano do nosso correspondente nos Estados Unidos é de origem americana. Mas ambos os correspondentes são um brasileiro, cujo nome, brasileiro, de origem brasileira, é português, e não americano, tampouco russo.

As informações colhidas e recolhidas, e unidas e reunidas pelos correspondentes estrangeiros do Zeca Quinha Nius – o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre – permitem-nos compreender a configuração da geopolítica do orbe terrestre e antever a sua reconfiguração, programada e reprogramada pelos homens mais poderosos, embora tais informações nenhum contato tenham com ela; mesmo assim, todavia, no entanto, porém, entretanto, nós do Zeca Quinha Nius – o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre -, jornalistas dotados de inúmeros diplomas universitários, documentos que confirmam a, e dão provas da, nossa inigualavelmente superior intelectualidade, formação cultural e vigor e rigor morais, fornecem-nos os meios e os recursos e os instrumentos teóricos e práticos para detectarmos as informações, dentre as que nos chegam ao conhecimento, que nos permitem elaborarmos do panorama geopolítico do orbe terrestre um desenho exemplarmente bem elaborado, cientes de que todas as informações são inúteis; no entanto, todavia, porém, entretanto, os nossos diplomas universitários são mais do que suficientes para nos persuadir de que podemos entender tudo o que se passa e o que ocorre e o que se sucede na geopolítica mundial do orbe terrestre. E aqui registraremos o que aqui ainda não registramos. Registraremos, neste artigo, cujas palavras contêm informações, que não são desprezíveis, tampouco indispensáveis para a exata e correta compreensão da política do orbe terrestre, nas linhas que sucedem a esta – o leitor e o autor deste artigo não sabem, até este momento preciso e exato, quais informações este artigo contêm porque o autor ainda não as registrou, mas assim que as registrar saberão quais são, o autor assim que as digitar, e o leitor assim que as ler – caso as leia (se não as ler não saberá quais são).

Informam-nos os nossos correspondentes estrangeiros que o governo dos Estados Unidos e o da Rússia pretendem iniciar a terceira guerra mundial porque duas guerras mundiais já ocorreram no orbe terrestre, portanto, a próxima, a que pretendem deflagrar, será, obrigatoriamente, a terceira, e não a quarta, e tampouco a quinta, muito menos a sexta, e que ninguém pense que será a sétima. Estão os governos de ambas as duas nações envolvidas em sofisticadas negociações. Estão os governos de ambas as duas nações envolvidas em sofisticadas negociações. Não sei porque reescrevi esta frase. Seja qual tenha sido a minha razão para reescrevê-la, eu não a suprimirei do artigo, afinal se eu a escrevi e a reescrevi logo na sequência, eu o fiz por alguma razão, e uma razão racional que se encontra, mas que eu não encontrei, no meu subconsciente, que está sob a jurisdição da minha consciência. Negociam o governo dos Estados Unidos e o da Rússia o envolvimento de outras nações na terceira guerra, que pretendem seja mundial. Querem um e outro varrerem-se do mapa, a Rússia varrer os Estados Unidos e os Estados Unidos a Rússia, de modo que outros país do mapa também sejam varridos, e não uma e outra nação, mas todas elas, pois se querem seja mundial a guerra, a terceira, então todas as nações do orbe terrestre têm de nela se envolverem, e, o que é o ideal, todas serem varridas do mapa. Enquanto não convencerem todos os outros chefes-de-Estado a aceitarem tal idéia, não irão iniciar a guerra. Outras informações colhidas e recolhidas, e unidas e reunidas pelos correspondentes estrangeiros do Zeca Quinha Nius, o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre, dão conta de que a Rússia e os Estados Unidos envolver-se-ão numa conflagração particular, e lançarão mísseis contra as outras nações, e desconversarão os governos das duas nações se questionados a respeito; limitar-se-ão a declarar que oocorreram falhas nos sistemas militares; que uma fagulha provocou uma pane nos computadores; que um hacker invadiu o sistema e disparou os mísseis; que alienígenas telepatas invadiram o cérebro dos comandantes militares e os controlaram; que o presidente da Rússia, ao ingerir vodka estragada, alucinado, agiu num repente súbito de insanidade, e apertou, em seu acesso de fúria enlouquecida, botões quaisquer, inconsciente do que fazia, e apenas soube de seus atos após recuperar o governo de sua mente; que o presidente dos Estados Unidos, num acesso de sonambulismo, perambulou pela Casa Branca, foi ao Salão Oval, abriu a maleta que contêm os códigos dos mísseis, e os digitou; que durante a comemoração pela vitória da seleção de basquete dos Estados Unidos o comandante do porta-aviões USS qualquer coisa, involuntariamente, ligeiramente embriagado, premiu, com um dos seus dois cotovelos, um botão de acionamento de mísseis. E assim Rússia e Estados Unidos varreriam do mapa outras nações. E as nações não atingidas pelos mísseis se veriam na contingência de atacar os Estados Unidos e a Rússia antes que fossem por eles atacados, o que redundaria na ampliação do cenário de guerra – e assim Estados Unidos e Rússia, atingindo o objetivo de envolver na guerra todas as nações do orbe terrestre, criariam a terceira guerra mundial. Mas, e a guerra propriamente dita quando começará? Quando se iniciar, se se iniciar, principiando-se, o que se dará, se se der, e quando se der, se uma das duas nações, Estados Unidos e Rússia, atacar a outra; caso tal não se dê, tal não se dando, não se dará a guerra, e assim não assistiremos à guerra mundial, que será a terceira das guerras mundiais porque antes dela ocorreram outras duas, a primeira antes da segunda, e esta depois daquela. Oxalá tal guerra seja deflagrada para que nós do Zeca Quinha Nius – o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre – possamos publicar reportagens acerca da terceira guerra mundial, que entrará para a História e dela jamais irá sair. 

Biobibliografia de Rui Barbosa – escrito por Zeca Quinha – publicado no Zeca Quinha Nius

Rui Barbosa nasceu, viveu, e morreu.

Nota de rodapé: Após ler dezenas de livros de Rui Barbosa e de biógrafos dele e documentos antigos e entrevistar inúmeros historiadores, conclui que a biografia dele, do mesmo modo que a de todas as pessoas, resume-se ao nascimento, à morte e às ações que ele praticou entre o nascimento e a morte. Após ler estas devidas explicações, o leitor concluirá que eu da vida e da obra de Rui Barbosa escrevi os únicos dados relevantes.
Outra nota de rodapé: Caso o leitor queira ler dados irrelevantes da vida e da obra de Rui Barbosa, que procure uma biografia dele, uma daquelas bem extensas, repleta de fotos e informações detalhadas.

Não Se Pode Desprezar o Que Não Merece Desprezo – escrito por Zeca Quinha – publicado no Zeca Quinha Nius

Tendo-se em vista as recentes manifestações de parlamentares conservadores contra os gastos públicos – e os parlamentares conservadores destilam veneno letal à democracia e ao estado democrático de direito -, os intelectuais das universidades brasileiras acharam por bem apresentarem um abaixo-assinado clamando pela valorização do corpo burocrático do funcionalismo público, há séculos explorados por capitalistas, como nos ensinam os intelectuais Karl Marx e Friedrich Engels, e os estudiosos da Escola de Frankfurt, incluídos os professores universitários, todos eles estarrecidos com a desfaçatez e sem-cerimônia com que os parlamentares conservadores, insensíveis ao bem-estar dos cidadãos brasileiros, desprezíveis todos eles, defenderam, de viva voz, sem recear represálias, práticas que não são onerosas aos cofres públicos. Os intelectuais, audazes, com o abaixo-assinado, arrostaram os defensores de maléficos valores que conduziriam, se adotados, o Brasil à bancarrota, como os seus congêneres estadunidenses e israelenses à bancarrota conduziram os seus respectivos países. Não entendem – melhor, não querem entender – os parlamentares conservadores – a serviço, todos eles, não desconhecemos, de agências de espionagens estadunidenses -, cujos ideais são inspirados nas teorias da conspiração de um injustamente renomado astrólogo embusteiro, que, após fugir do Brasil, instalou-se na nação que representa todos os valores que denigrem a humanidade, que as idéias que apresentaram reduzirão o desperdício de dinheiro público, redundando, portanto, em políticas que produzirão sofrimento e miséria. Eles almejam o pior para o Brasil, pois para eles o pior (pior para os brasileiros, obviamente) é o melhor (melhor para os parlamentares conservadores, não nos esqueçamos). Os intelectuais brasileiros explicitam, no abaixo-assinado, o descontentamento da categoria no que concerne à proposta dos parlamentares conservadores, todos anti-patriotas, que declararam que os funcionários públicos gozam de privilégios, que, salientaram, oneram os cofres públicos. Ora, sabemos que os funcionários públicos têm privilégios porque os merecem; são bem-remunerados porque o governo brasileiro, nas três esferas do poder, a municipal, a estadual e a federal, os remunera bem; do contrário, bem não os remunerariam, e eles de privilégios não gozariam. A obviedade do raciocínio é patente. E apenas indivíduos que odeiam a liberdade e a democracia simulam ignorância a respeito da estrutura do poder governamental. E temos de destacar um ponto, e, além de destacá-lo, sublinhá-lo e salientá-lo: sendo o povo incapaz de administrar a própria riqueza, os funcionários públicos têm de administrá-la. Salta aos olhos tal obviedade! Negam-se a vê-la aqueles que lucram com a eliminação, ou, como dizem, a redução do funcionalismo público, que, ninguém o ignora, conserva milhões de pessoas empregadas e bem-remuneradas.Que a voz dos sábios intelectuais brasileiros prevaleça; que a proposta dos parlamentares conservadores, nefasta para o Brasil, seja arquivada; que os defensores da política apresentada pelos parlamentares conservadores caíam no ostracismo; que a categoria do funcionalismo público atente para as ameaças que a cercam; que a imprensa abandone a letargia em que se encontra; que os artistas manifestem-se e impeçam que a censura retome o seu poder; que o povo brasileiro arregace as mangas e quebre a espinha dorsal dos autointitulados defensores do Brasil, que são – sabemos, nós, os esclarecidos – da Pátria inimigos. Que a Pátria Maior não se curve diante deles.

Mensagem de Barnabé Varejeira – Halloween. Black Friday. Palavrões.

Bão dia, Cérjim. O sór tá um pôco desanimado ôje. Parece inté que tá desacorçoado. Percisa de um pôco de café-da-manhã bem reforçado pa te força pa inluminá o dia. Tá fraquinho, que só veno. À noite, choveu, e choveu, e choveu sem pará. Parecia inté um dinlúvio. Pará a chuva parô, mas só por um tiquinho ansim de tempo. Choveu pá dedéu. A terra tá moiada, encharcada. E parece que o sór não tá com vontade de dá as cara ôje, não. Vâmo vê se até antes de eu encerrá esta mensage ele se anima e taca fogo no mundo. Vâmo vê. Se não, ele só vai parecê de noite. Este é o dia de ôje cedo, bem cedo, então, vâmo trabaiá, faça sór, ô faça chuva. Mas, antes de i trabaiá, vô terminá de concluí está mensage. O cê que é um óme da cidade já deve tê ovido as pessoa falá uns palavrão que vem do estrangero. Se o cê fala os palavrão, eu não sei, e nem quero sabê; eu nunca ovi palavrão saí da sua boca. Eu às vez pregunto pa pessoa que fala comigo, quano ela fala os palavrão, se elas sabe falá língua de gente, e elas ri achano graça, achano que tô contano piada, e há quem dentre elas que emburra, fecha a cara, óia torto, óia pa mim como se oiásse pô tinhoso, os óio a chispar fogo dos inferno. Mas que diabo! Perdão, Menino Jesus! Perdão! Não presta falá ansim. Meu Deus do céu! Parece que as pessoa perdêro a qualidade de falá; passáro por uma mentamorfose, e viráro bicho. Veja o cê, Cérjim, o que ovi, transondonteonte, aí, em Piamoangaba. Tava eu passano perto da fêra, e ovi um jóve falano pá ôtro jóve: “No bléquefraude o meu fáder vai comprá pa mim um rômetíte por trinta ófi, maibróde.” E o amigo dele disse pá ele, ansim: “Da hora. E o que cê vai fazê no raloín?” E adespois faláro mais arguns palavrão, mais o menos ansim: “O tal – e falô um nome não sei de quem, se de um primo, o de um tio -, agora trabaia de róme alface. Lôco. Não sai de casa pa trabaiá. Óquei, máifrendi! Beleza! O bagúio é lôco!” Não entendi o que eles disséro. E mais adiante, ovi uma bela moça, muito bonita, diga-se de passage, falá que a irmã dela foi no féchauique, e rélpi! rélpi! e istópi, istópi, e taime, um taime, e uíquende, o uiquente, não sei, e chópi, e otros palavrão que Deus me livre! E o cê não sabe o que ovi das conversa dos óme lá na praça, falano de computador e firme: rarduér, sofituér, espaidermem, áiromem, e ôtros palavrão que não falo, nem escrevo. Se aquelas gente falasse um indioma, tudo bem, afinar seria coisa nossa, a quar nos deixô os índio. Que tem arguma coisa errada, Cérjim, neste mundo, tem. Tão pondo comida estragada no prato das pessoa, não é possíve! Parece, Cérjim, que o sór tá se animano. Parece. Já esquentô um poquinho. Agora, vâmo trabaiá. Fique com Deus Nosso Senhor Jesus Cristo. Inté mais, Cérjim.

Mensagem do Barnabé Varejeira – Os bobões da cidade

Mensagem do Barnabé Varejeira – Os bobões da cidade

Cérjim, meu amigo, amigo do peito, agora eu tô, no Uátesápe, côs meus dedo caloso, enviano mensage pa mia muié e pa mia fia, que tão aqui do meu lado, à mesa, bebeno o café-da-manhã. Pa mia muié eu mandei mensage de amô, e ela gostô; sorriu, inté, a malandrinha, e me mandô um coração bem vermeio; eu vi os sorriso no rosto bonito da mia patroa. Eu vi. A patroa gostô da mensage de amô que mandei pa ela. Aquele sorrisinho, sorrisinho bonito que eu conheço muito bem… E pa mia fia eu mandei mensage de carinho de pai, com dois coraçãozinho.
Mas eu não quero falá, Cérjim, das mensage que mandei pa mia muié e pa mia fia; quero falá do mocorongovírus, um bicho-papão que veio da China, que fica perto de onde Judas perdeu as bota. Ora, quem viu o mocorongovírus!? Ninguém viu. Os ómi das cidade são uns bobão, todos eles. Todos bobão. Lê livros, e acha que são sabido. Vai pas facurdade, e vira cabeçudo. Não usam a massa cinzenta que Deus enfiô nas cabeça deles. Até em Pinamoangaba, a maió metróple deste e de ôtros praneta, os ómi que vive nas facurdade são bobão, querdita em quarqué bestêra. Se as bestêra tá nos livro, eles querdita que é verdade; se os cientista falá bestêra, eles querdita que é coisa séria. Se os cientista diz: “Tatu voa.”, Eles querdita. E pru que eles querdita!? Pruque cientista têm diproma uvinersiotário. Os ómi das cidade grande acha que o conhecimento das coisa da vida tá na fôia de papér que traz inscrivido “diproma”. Grande porcaria!
E o mocorongovírus, quem viu!? Ninguém viu ele. O mocorongovírus tem pernas!? Ninguém sabe se tem. Ninguém viu ele. Ele tem braços, cabeças, olhos, narizes e pestanas?! Ninguém sabe. E testa ele tem?! E quantas? Ninguém sabe. E pru que tá todo mundo co medo dele? Pruque são bobão. Pruque, dizem, ele mata gente. Ora, mas a vida mata gente; a gente tá vivo pa morrê um dia; e só Deus Nosso Senhor sabe quano. Nóis ómi não é eterno, nem imortal; nóis morre; só Deus é imortal, é eterno, vive desde antes de Ele criá o mundo e viverá até depois de Ele destruí o mundo. Os ómi, não; os ómi morre. E os ómi, e as muié tamém, da cidade tamém morre; não são eterno. Eles percisa entendê isso, e isso é a verdade verdadeira.
E ôtra coisa: Pa se vivê bem tem que se gostá e buscá o ar livre, e o sór, e, tamém, e é o mais importante, tê o gosto de vivê, e tê famia e amigos. E tê espreança de vivê bem. E como os ómi da cidade tão viveno!? Tão viveno!? Não tão, não! Tão trancado nas suas casa, Não toma sór; não toma ar fresco; não se mexe; fica todos parado, assistino tebelisão, todo isolado uns dos ôtro; não se abraça, não se dão aperto de mão. E perdêro a espreança. Querem vivê trancado em casa; e qué que todas as pessoa fique trancada. É pa matá todo mundo, é!? E eu percebi, Cérjim, que os ómi dipromado, que tem diproma pregado na parede, ómi de vida mansa, têm medo do mocorongovírus, bicho que eles nuca viro, e ri da gente da roça pruque a gente querdita em curupira, lobisómi e bicho-papão. É vredade. Nóis querdita mermo, mas nóis enfrenta eles; enchemo os peito de força, de energia de Deus, pegamo os trabuco, e encaramo os bicho. Inté em onça e porco-do-mato eu já disparei uns tiro, e pa matá, mermo. Mas errei os tiro.
E hoje é só Cérjim. Ôtro dia eu mando ôtra mensage po cê. Inté.
E fique com Deus Nosso Senhor.

Palavras De Sabedoria Do Zeca Quinha – publicadas no Zeca Quinha Nius

Na sua luta contra os egípcios, Moisés não usou uma metralhadora porque James Cook ainda não havia chegado na Austrália.

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Se os mudos não falam, os cegos não veem e os surdos não ouvem, não há razão para a existência das tartarugas.

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O Sol ilumina porque ilumina; se não iluminasse não iluminaria.

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A tampa tampa, a roda roda, a bóia bóia, a pinga pinga, mas a pia não pia.

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A corda não acorda, a palha de aço não é palhaço, a palha assada não é palhaçada, e as formigas vivem nos formigueiros.

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Se os leões fossem peixes não seriam leões.

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O homem sábio é sábio porque é sábio e não porque é sábio.

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O nível de inteligência de um homem é diretamente proporcional ao tamanho do chapéu que ele usou três dias antes.

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Deve-se usar cadarços sempre que os cadarços devam ser usados.

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A melhor esposa do mundo é aquela que é casada com o seu marido.

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Os pais nascem antes dos filhos e depois dos avós porque os avós nascem antes dos pais e depois dos bisavós.

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É lei da natureza a natureza da lei.

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Além de cabelos os humanos têm unhas porque se tivessem cabelos e não tivessem unhas não teriam unhas mas teriam cabelos.

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Os castelos foram construídos pelos construtores de castelos.

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O maior prédio do mundo foi construído pelas pessoas que construíram o maior prédio do mundo.

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Há certas coisas que todo mundo sabe. Por exemplo: Escrever por exemplo sempre que se dá um exemplo que seja um exemplo.

Resenha do livro A Teoria dos Pensamentos Randômicos, de José Carlos da Silva Quinha – por Joaquim Beltrano da Silva Fulano Cicrano de Souza – publicada no Zeca Quinha Nius.

O Zeca Quinha Nius, o maior e melhor, mais famoso e mais popular, hebdomadário digital do orbe terrestre – astro celeste que orbita o Sol, estrela que, além de iluminá-lo, ilumina outros oito planetas, e separa da noite o dia, – tem o prazer de publicar, hoje, especialmente hoje, e não ontem, e nem amanhã, uma resenha de um livro, A Teoria dos Pensamentos Randômicos, de autoria de José Carlos da Silva Quinha, para os íntimos Zeca Quinha, nosso querido e amado, primeiro e único fundador do Zeca Quinha Nius, e seu editor-chefe e chefe do seu editor.

São proverbiais, sabem os leitores do nosso bem reputado hebdomadário digital, Zeca Quinha Nius, a sabedoria e a primorosa formação intelectual de José Carlos da Silva Quinha – para os íntimos, Zeca Quinha -, seu primeiro e único fundador e editor-chefe, homem que, dotado de inúmeros e incontáveis diplomas universitários, prova de sua insígne constituição mental, psicológica, literária, filosófica, histórica, geográfica, gramatical, metafísica, sociológica, etnológica, antropológica, astronômica, cosmonáutica, biológica, química, venatória, astrológica, física e astrofísica, aritmética, geométrica e algébrica, exibe, magistralmente, nos artigos de sua autoria, todos extraordinariamente excepcionais, recheados de erudição, escritos em estilo primoroso, ático e barroco, parnasiano e clássico, romântico e gótico, numa retórica soberba, de estética impecável, todos os ingredientes, formidáveis, que lhe compreendem a personalidade, de ânimo imarcescível, de espírito aguerrido, de um valente e destemido guerreiro, de um altivo lutador da liberdade de imprensa e da de opinião. As suas fama e popularidade, popularmente famosas, desobriga-nos de escrever um bosquejo histórico minucioso, contando sua vida desde o dia em que veio ao mundo no dia que ao mundo veio do ventre de sua mãe, da sua biografia, já mundialmente conhecida, e reconhecida como uma das mais meritórias da atualidade de hoje em dia, nestas palavras de introdução à resenha do seu livro A Teoria dos Pensamentos Randômicos, obra de valor incalculável, de inestimável contribuição à valiosa cultura filosófica brasileira, desta ampliando exponencialmente o valor.

Na sua primeira obra-prima – e que não será a última, desejamos – à qual se dedicou, durante vários dias consecutivos, num labor diário extraordinariamente desgastante e simultaneamente prazeroso e gratificante, José Carlos da Silva Quinha, o nosso querido e amado Zeca Quinha, primeiro e único fundador do Zeca Quinha Nius, hebdomadário digital de enorme popularidade em todo o orbe terrestre, cujos artigos são de autoria de jornalistas dotados de vários diplomas universitários, presenteia-nos um pensamento que, de tão original e sofisticado, derruba o queixo de todas as pessoas que, de olhos esgazeados durante a leitura, tem-lhe contato ao lê-la. É um exercício intelectual valiosíssimo o seu A Teoria dos Pensamentos Randômicos.

Consiste tão intelectualmente bem formulada teoria, uma obra intelectual que representa o auge do poder criativo da espécie humana, na detecção de coerência e incoerência, conexão e desconexão, de pensamentos associados e dissociados que seguem sem seguir uma trilha racional e irracional destituída de lógica intrínseca adaptada à ilogicidade extrínseca à essência da lógica em sua formulação abstrata racional em cuja cerebrina elucubração metafísica não está incluída a racionalidade de raiz dialética do transcendentalismo imanente ao pensamento-em-si-e-por-ele-mesmo, pensamento, aqui, no singular, pensamento que, em síntese resumida, sintetiza, e resume, o pensamento-em-si dos pensamentos plurais, que se encadeiam num encadeamento que se origina no primeiro pensamento que lhe dá origem e origem aos pensamentos encadeados, e encerra-se, terminante e concludentemente, no pensamento que dá fim ao raciocínio, conquanto inexista o elo dialético que os encadeiam num pensamento coeso. Assim apresentada em tão poucas palavras, a teoria que José Carlos da Silva Quinha – o primeiro e único fundador e editor-chefe do hebdomadário digital Zeca Quinha Nius, o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre, o único orbe terrestre de todos os tempos – concebeu apresenta elementos paradoxais, que, sendo e não sendo seus, revelam-se apropriados e inapropriados ao exame detido e aprofundado da realidade que nos cerca e na qual estamos, sem de tal nos conscientizarmos, imersos – dos pés à cabeça aqueles que nela penetrou primeiro os pés, e da cabeça aos pés aqueles que nela mergulhou primeiro a cabeça. Não transparece tal aspecto da teoria à mente dos desavisados, que, desprovidos de formação intelectual requintada comum às pessoas providas de diplomas universitários, são incapazes de apreendê-lo; e se lhes aflora à cabeça o desconforto que a estranheza intrínseca à imanência ontológica da teoria lhes inspira. E nesta confusão, compreensível, mas não justificável, os de formação intelectual aquém do exigido pela Teoria dos Pensamentos Randômicos, não a compreendendo em sua inteireza, tampouco uma parcela ínfima do seu teor, concluem que José Carlos da Silva Quinha, a mente privilegiada que a concebeu, é homem de inteligência superior, um espírito irrivalizado, um gênio universal e cósmico, não porque lhe compreende o talento, o gênio, mas porque, incapaz de compreendê-lo, simula compreensão, no desejo, reprovável, de não se revelar um asnático ignorante, um azêmola intelectualmente desqualificado, um alarve despudorado, um javardo ridículo.

Para desfazer confusões voluntárias e involuntárias, ilustra o autor desta resenha ao A Teoria dos Pensamentos Randômicos, do ilustre José Carlos da Silva Quinha, Zeca Quinha para os íntimos e admiradores (e muitos de seus admiradores são seus íntimos e muitos de seus íntimos são seus admiradores), com um exemplo, esclarecedor, clarificante e ilustrativo, no parágrafo subsequente a este.

Há, numa casa, além das duas pessoas que nela residem, em um aquário (com água ou sem água, não vem ao caso), um tatu, e, no galinheiro, um pato; há, portanto, em tal casa, quatro animais, dois seres vivos humanos e dois seres vivos não-humanos. E no quintal há uma pedra. Há, na casa, portanto, desconsiderando todos os outros dados – que não são dados, e tampouco dados – que não são úteis para este exemplo, cinco objetos (quatro seres vivos: dois humanos, um tatu e um pato) e um ser, a pedra, que não é um ser vivo, mas um ser, para efeito de explicação, morto. Dadas estas informações, concluí-se: as girafas não sabem ler os livros de Shakespeare e o Taj Mahal não está dentro de um formigueiro.

Lendo-se o parágrafo anterior, que ilustra a Teoria dos Pensamentos Randômicos, ilumina-se o cérebro do leitor, que, até o momento envolvido em trevas, apreende a essência do pensamento de José Carlos da Silva Quinha, nosso querido e adorado Zeca Quinha, o primeiro e único fundador do Zeca Quinha Nius, o mais popular e respeitável hebdomadário digital do orbe terrestre, a mente privilegiada que a concebeu, ao detectar-lhe a constituição da sua lógica ilógica e a sua dialética escalafobética, diabólica de tão singular e simplesmente complexa.

Nas derradeiras palavras desta resenha, reproduzimos a frase, que está gravada no frontispício do livro A Teoria dos Pensamentos Randômicos, de autoria de José Carlos da Silva Quinha, – Zeca Quinha, para os íntimos -, frase que lhe serve de epígrafe e de cuja substância é o livro uma paráfrase: “Há angu neste caroço.”

A Luta Entre Dois Lutadores Que Ao Final Da Luta Do Octógono Saíram Com Dores – escrito por Alessandro Cassarrato – publicado no Zeca Quinha Nius

Ontem, à noite, na cidade de Pindamonhangaba do Sul, após o filme O Hómi de Aço, lutaram Bartolomeo Esmagamiolo, natural de Pindamonhangaba do Sudeste, e Francenildo Quebraperna, natural de Pindamonhangaba do Noroeste, os dois melhores lutadores que lutam acertando-se um no outro socos e pontapés com as mãos e com os pés. Uma multidão de pessoas compareceu ao estádio para assistir à luta, que foi um espetáculo para ninguém botar defeito. No início, encararam-se Esmagamiolo e Quebraperna, ambos os dois carrancudos como touros enfezados, feios como o diabo, o capeta e o satanás. Os olhos deles chispavam fogo, como o fogo das labaredas do inferno. Era de arrepiar o cangote, inclusive o do mais bravo dos homens. Assim que o árbitro, um sujeito grandalhão, maior do que os dois lutadores que lutariam, deu o sinal para o início da luta, Esmagamiolo e Quebraperna deram início ao espancamento mútuo e recíproco. Não havia mulher no estádio que não apreciasse o esmurramento, e os acotovelamentos, e as pontapeadas, e as bordoadas que os lutadores acertaram-se durante vinte minutos. E digo, com as minhas palavras: as mulheres apreciaram a luta, que foi boa pra caramba. Mas não é das mulheres que eu vou escrever; é da luta entre Esmagamiolo e Quebraperna. Uma luta para entrar para a história e para dela jamais sair. Logo no início da luta, Esmagamiolo acertou um soco nas fuças de Quebraperna, arrancando-lhe um litro de sangue, que dele espirrou igual cachoeira. Foi um espetáculo dantesco, de mesmerizar o mais desatento dos torcedores. Quebraperna, no entanto, não deixou por menos. Espirrado de si o sangue, tratou, e logo, antes de Esmagamiolo acertar-lhe outra bordoada, de pular, e pulou, acertando-lhe, com as solas dos pés, na cara, os pés, quebrando-lhe o nariz avantajado, desavantajando-o. E os torcedores foram ao delírio. Espirra-se sangue daqui; espirra-se sangue dali. E todo o octógono manchou-se de sangue, Esmagamiolo e Quebraperna, a esmagarem-se o miolo e a quebrarem-se as pernas. Ao final da luta, Quebraperna esmagou o miolo de Esmagamiolo, e Esmagamiolo quebrou a perna de Quebraperna. E os dois lutadores, ensanguentados, quase nenhum pingo de sangue restando-lhes no corpo, foram, de maca, carregados para o hospital, distante cinco quilômetros do estádio. E o árbitro, todo ensanguentado, não com o próprio sangue, mas com o sangue de Esmagamiolo e o de Quebraperna, disse que, por pontos, Quebraperna ganhou a luta, uma luta que entrará para a história e dela não sairá jamais. Daqui trinta dias, Bartolomeo Esmagamiolo enfrentará, na cidade de Pindamonhangaba do Nordeste, o invicto Joaquim Rachacabeça, e Francenildo Quebraperna, na cidade de Pindamonhangaba do Centro-Oeste, Robson Esmigalhacostela. Serão duas lutas para entrar para a história e dela não saírem jamais. É ver para crer.

Minoria Injustiçada – escrito por Zeca Quinha – publicado no Zeca Quinha Nius

A maior injustiça que se pode cometer contra as minorias é a resultante de incorreções comportamentais derivadas de preconceitos milenares, que, há milhares de anos, brotaram, nas regiões áridas além do Canal de Suez, às margens de um rio supostamente sagrado – sagrado, sabemos, para os povos rudes que nele banham-se. E uma injustiça, que a nós legaram as religiões milenares, que estão na origem dos males civilizacionais (são forças disruptivas), e a enaltecem a burguesia capitalista ultradireitista, que, desumana, explora os recursos naturais dos países ainda não corroídos, mas em vias de sê-lo, pelos valores que de há muito deviam ter desaparecido, e cujas influências são nefastas para o nosso ambiente cultural, é a que concerne às piadas. Em um país como o Brasil, cuja origem perde-se no tempo – os historiadores recusam-se a admitir que povos oriundos de regiões distantes habitavam, há milhares de anos, estas plagas, e dão como início da história do Brasil o dia em que nestas terras aportaram embarcações de sórdidos, crudelíssimos, insensíveis e desumanos povos conquistadores -, as injustiças permeiam todas as camadas sociais, mas são mais comuns na classe média, corroída pelos valores milenares originários de povo rude, discriminador, que se auto-intitula o único povo filho do ser divino, povo ímpar, escolhido, pelo homem celestial, para prevalecer, na Terra, sobre todos os outros povos.A classe média burguesa ultradireitista, neocapitalista fanática e neoliberal fundamentalista detesta e despreza a cultura autêntica do povo das comunidades, em especial as que brotam, livres, do chão dos morros das cidades litorâneas e das cidades das regiões ásperas, que a elite burguesa abandonou, e que recebem, do generoso governo brasileiro, vultosos recursos de programas sociais igualitaristas, que reduzem a desigualdade de renda e as injustiças sociais. A classe média, burguesa e neoliberal, em políticas de higienização social, construiu muralhas entre as classes sociais, conservando-se nas regiões ricas e prósperas, e mantendo o povo – que é a classe que produz a riqueza, com o apoio do governo brasileiro, e engrandece o País – nas regiões miseráveis, carentes de recursos. E de muralhas a classe média burguesa entende; ela construiu uma muralha para separar os burgueses dos Estados Unidos dos miseráveis da América Latina – que oxalá! venha a se converter na Pátria Maior; e outra ela a construiu para isolar, nas áreas ricas e prósperas, os israelenses, e, nas áreas miseráveis, os palestinos (e os israelenses, sabem as pessoas bem informadas, surrupiaram, dos palestinos, as terras onde hoje é o Estado de Israel). E os burgueses da classe média, além de construírem muralhas de pedras, tijolos, cimento e concreto, construíram outras muralhas, as muralhas culturais, segregacionistas, criando, assim, duas classes sociais, a privilegiada – a dos burgueses, que têm acesso a todas as riquezas, a todos os recursos, a todos os benefícios, a todos os privilégios, a todas as facilidades – e a dos desassistidos, dos miseráveis – que é isolada em bolsões de miséria, desprezada, tratada como lixo, e que, quando ousa entrar em shopping centers, templos consumistas dos burgueses, deles é enxotada como se cão fosse. E tais muralhas não são concretas; são ideológicas. E compõem-na o preconceito lingüístico, o preconceito musical, o preconceito cinematográfico, o preconceito que se vê em muitas formas de expressão artística e cultural. Não há área da arte em que os burgueses não tenham inserido os seus preconceitos ideológicos, que são onipresentes, e estão infiltrados em todos os campos da sociedade, em todas as manifestações populares, e, pode-se ver, mas raras pessoas atentam para a questão, nas piadas, as mais comuns e espontâneas formas culturais que o povo concebeu e aprimorou com a sua inteligência natural isenta dos vícios exclusivos da burguesia, mas que vem, no entanto, para surpresa geral, desde a década de oitenta do século vinte, sofrendo nefasta influência do humor preconceituoso da classe média burguesa – e nós, homens e mulheres do povo a odiamos. A infiltração dos valores burgueses nas piadas descaracterizou as mais singelas manifestações culturais populares, eliminando, delas, o que as engrandeciam, reduzindo-as a categorias culturais irrelevantes desprovidas de todo senso estético, artístico e cultural, e delas eliminando a criatividade intrínseca.Até há pouco tempo, as piadas refletiam a aguda penetração psicológica do povo brasileiro; agora, resumem-se à exibição de sentimentos rasteiros de repulsa às minorias, e uma das minorias mais agredidas, pelos burgueses capitalistas, em tom de piada – e muita gente, devido a isso, não detecta a sua sordidez -, é a da população negra brasileira, que não é mais protagonista de histórias que enaltecem o bom humor da sua classe. Contam-se, atualmente, piadas cujas protagonistas são loiras, e loiras unicamente; as piadas apresentam-las nas situações mais engraçadas e divertidas, emprestando-lhes os piadistas ares de pessoas bem-humoradas, cativantes e boas companhias. Ora, as mulheres negras, que são duplamente discriminadas pela sociedade burguesa, estão, nas piadas, extintas; elas adquirem, assim, a identidade de pessoas ranzinzas, desgraciosas, sem espírito esportivo – como se diz em linguagem popular. Há, no Brasil, “Piada de Loira”. Todos os brasileiros conhecemos inúmeras delas, e há, até, inclusive nas pequenas cidades brasileiras, campeonatos de “Piada de Loira”, mas não há, em todo o território brasileiro, campeonato de “Piada de Negra”. Há décadas não se ouve, no Brasil, uma piada cuja protagonista é a mulher negra, cuja ausência nas piadas de loira é a prova cabal da decadência da sociedade brasileira. Para evitar a queda do País no fundo do poço – um poço que, parece, não tem fundo –, e impedir que a injustiça social se perpetue no Brasil, é producente criar-se mecanismos que eliminem as fontes das desigualdades de classes, e as sociais, e as raciais. E uma das medidas a se implementar, e que contará, é certo, com a chancela dos movimentos sociais, das organizações não-governamentais e das organizações globais de defesa dos direitos humanos, é a do estabelecimento de cotas para mulheres negras nas piadas de loiras, pois as loiras, hoje, são hegemônicas neste gênero de manifestação cultural – e tal situação não pode perpetuar-se.Cabe aos dirigentes do Brasil, aos congressistas, ao Judiciário, aos advogados e aos líderes religiosos abraçarem esta causa, para a redução, ou eliminação – e a eliminação é o nosso objetivo –, da injustiça centenária que infelicita milhões de brasileiros.Oxalá a Razão ilumine os nossos dirigentes.

Nota de rodapé: Este artigo foi escrito em algum dia do passado, de um passado que passou há uns dias, mais concretamente há anos, como pode concluir toda pessoa que chegar a essa conclusão. 

Uma ponte que cai – escrito por Joaquim Beltrano da Silva Fulano Cicrano de Souza – publicado no Zeca Quinha Nius

Muitos fatos aconteceram, neste país, nos dias em que eles aconteceram. Diante da quantidade imensurável de fatos que se sucederam em nosso querido país, tivemos de laboriar, diuturnamente, em três turnos, desde a manhã até a noite, para redigirmos um artigo no qual expressássemos, apenas, e unicamente, o que é do interesse dos brasileiros interessados nos acontecimentos que acontecem, sem que muitos brasileiros saibam que eles aconteceram, e deles tomam conhecimento com a leitura do Zeca Quinha Nius, cientes do valor do nosso trabalho. Nós do Zeca Quinha Nius, corresponderemos ao que de nós os leitores esperam, e corresponder-nos-emos uns com os outros, e com os leitores do nosso hebdomadário digital, correspondendo-nos por meio de correspondências, que nos permitirão corresponder-nos com os leitores que vivem no Brasil, e em outro país, e que apreciam este hebdomadário digital que lhes chega às mãos. Ofereceremos relatos de fatos importantes selecionados por jornalistas profissionais, todos com diploma universitário. Nos relatos, que são significativos e relevantes, que publicamos, neste hebdomadário digital, são revelados aspectos intrínsecos a este pais, às suas peculiaridades, que lhe dão a aparência única entre todos os países existentes no orbe terrestre e em outros orbes, desde os mais próximos deste orbe, que tanto maltratamos, aos mais distantes, muito mais distantes, orbes que nossos olhos não podem ver, e tampouco podem vê-los os mais potentes telescópios construídos pelos seres humanos, que promovem o aquecimento global e consomem os recursos naturais deste orbe generoso, que no-los fornece generosa e amavelmente sem pedir-nos em troca nada além de respeito; os seres humanos, no entanto, ingratos, retribuem-lhe com desprezo, ódio, desdém e maus-tratos. Encerro este prólogo, e relato, de todos os eventos sucedidos, que se sucederam, neste pais, que tanto amamos, os mais relevantes e significativos.Foi há três dias, na cidade de Pindamonhangaba do Oeste, localizada em um local desconhecido do Brasil, que se sucedeu o fato que lá se sucedeu e em nenhum outro lugar. Não eram seis horas da manhã quando Marcolino Joaquim e Manuel Mocorongo ao caminharem por cima da ponte ouviram um estalo; e ao primeiro estalo, seguiu-se outro estalo; e cinco segundos depois de ouvirem este segundo estalo, mais intenso do que o primeiro, os senhores Marcolino e Mocorongo ouviram outro estalo, que foi o terceiro estalo que ouviram; estalo, este, que foi seguido por um outro estalo, que foi o quarto estalo, que, por sua vez, precedeu o quinto estalo, que antecedeu o sexto estalo. Perceberam Joaquim e Manuel que o estalo que sucedia ao estalo que o antecedia era sempre mais forte e que de estalo em estalo, mais fortes eram os estalos. Marcolino e Mocorongo, ouvindo-os, concluíram que a ponte iria ruir. Dito e feito. A ponte ruiu, carregando para baixo os azarados, infortunados, senhores Joaquim e Manuel, que caíram no rio, afundaram-se, e morreram afogados. Os dois cadáveres, mortos e sem vida, os encontraram três pescadores, João das Bananeiras de Ponta-Cabeça, Pedro Peito de Pombo e Bartolomeu do Pó Líquido. Das águas do rio, eles retiraram os defuntos cadavéricos, e os carregaram ao necrotério municipal, na ocasião cheio de cadáveres, todos mortos, eviscerados alguns, sem cabeça outros. E identificados os donos dos cadáveres mortos, que eram os próprios defuntos, a identidade de Marcolino Joaquim e Manuel Mocorongo se fizeram conhecer. E souberam todos os que tomaram conhecimento do caso que um deles era lavrador e o outro lenhador. Naquele mesmo dia, especialistas em construção foram convocados à pequena cidade de Pindamonhangaba do Oeste, pacata e acolhedora, para encontrar as causas do desabamento da ponte. Mal eles começaram o estudo, o prefeito pronunciou-se: “A ponte desabou por uma razão óbvia, que esta à vista de todos; e todos podemos ver, não com os olhos da cara, mas com os olhos da razão: a força da gravidade atraiu a ponte para baixo, pois ela, a força da gravidade, atrai para o centro da Terra tudo o que há, e a ponte é uma ponte que há; aliás, ela é uma ponte que havia; agora, no entanto, no leito do rio ela de nada nos serve; então, por que nos preocupar com ela, por que gastarmos tempo e dinheiro público com ela? Ela ruiu porque tinha de ruir. Foi uma fatalidade. Se a força da gravidade, em vez de atrair para o centro da Terra tudo o que há (e a ponte que havia e agora não há mais, não sendo, portanto, agora, mais uma ponte, continua a ser puxada, pela força da gravidade, para o centro da Terra), repelisse tudo o que há, afastando do seu centro tudo o que há, a ponte não ruiria. E digo mais: a culpa, meus senhores e minhas senhoras pindaoestianas, é dos britânicos. Foram aqueles malditos saxões que inventaram a tal da força da gravidade. E agora que todas as pontes estão a ruir e a desabar, e ruidosamente, temos de exigir da Inglaterra e daquela rainha, aquela baranga colonialista, aquela mocréia imperialista, ressarcimento pelo prejuízo que tivemos.” Encerrada a explicação, aplaudiram-lo, calorosamente, os técnicos em engenharia, que no dia seguinte regressaram às suas cidades. E o caso encerrou-se. E Pindamonhangaba do Oeste retomou a sua rotina rotineira.

Mensagem do Barnabé Varejeira – Teste de Alergia

Tenho, hoje, Cérjim, meu amigo do peito, pa contá po cê uma lembrança mia, de um fato que conteceu há um bom par de anos. Era o meu fio varão, o Bézinho, então um meninote robusto, encorpado; parecia ele um leitão engordado pa ceia de Natal. Tava bonitão, forte e pançudo o herdêro do meu sangue. Puxô pelo pai, a criança. Mas a mia muié, não sei pruque cargas d’água, encasquetô na cabeça que o fio dela e meu tava doente, e percisava fazê uns teste, teste de alergia. Não sei bem pruque, Cérhim, a mia muié tava animada com tar idéia, mas desconfio o que se assucedeu pa ela ficá tão presa numa idéia só, como um boi na canga: umas madame da cidade disséro pa ela que o nosso herdêro tava meio adoentado. Pronto! Foi o suficiente pa muié ficá preocupada. “Tá preocupada à toda.”, disse eu pa ela. E acrescentei: “Pare, muié, de dá ovido pas madame da cidade. Elas só põe fio doente no mundo, e acha que todos os fio das ôtras muié que não os das madame da cidade são doente tâmém. E elas cerca os fio com muito dengo, com muito abraço e bêjo, e estraga eles; estraga as criança. Dêxe de bobagem. O fio nosso tá bão. Esquece o palavrório das madame da cidade. Elas não sabe nem cozinhá, não sabe passá café no coadô, nem escoiê o feijão, não sabe nem o que é uma panela, e nem limpá bumbum de nenê elas sabe. E elas qué ensiná o cê a cuidar do seu fio! Intão, muié, esqueça. Quem deu os peito po seu fio tirá leite? O cê, ou as madame da cidade? O cê. Que as madame da cidade vá pos quinto e nunca mais vórte. Intão, esqueça o que as madame da cidade disséro. Esqueça. O nosso fio tá bão, pançudo, forte.” As mia palavra entráro por um ovido da mia consorte, e saíro po otro, fáci, fáci. Não encontráro obstáculo pela frente. Nenhum. Não teve jeito, Cérjim. Mia muié quis segui os conseio das madame da cidade. O fio ia tê que fazê os teste, teste de alergia. Que bêstera, meu Santo Deus Nosso Senhor Menino Jesus! E custava os óio da cara os teste: Cento e vinte barão. Barão não dá em árvre; e não chove barão na mia horta. E eu não ia gastá cento e vinte barão pa fazê uns teste sem propósito, teste que não serve pa nada. Teste que gente da cidade faz, e faz pruque é fraca. Mania de gente da cidade estraga gente da roça. Teste pa sabê se o menino tia alergia à formiga e à abeia e à açúcar e à casca de laranja e à leite, e a ôtros bicho. Cento e vinte barão! Não pago, não. Meu fio tava forte, robusto, pançudo, de peito bom, pernas forte. Mas, se a patroa queria fazê o teste, intão, pensei, vô fazê os teste, mas sem gastá um tostão. Eu não ia perder cento e vinte barão só pruque mia muié tava com idéia de madame da cidade. Mas não ia gastá, mermo, e de jeito maneira. Eu não ia, não. Não fiquei lôco pá queimá dinhêro, assim, sem mais, nem menos. Dinhêro não cai do céu. No ôtro dia, fui inté um abacateiro velho, que jâ morreu, onde havia, intão, uma coméia, e, com todo o cuidado do mundo, peguei uma abeia; e procurei meu herdêro; achei ele, falei pa ele esticá o braço; ele me obedeceu, e eu, prontamente, aticei a abeia no braço dele, e ele soltô um berrêro danado de infernal assim que a abeia picô ele com toda a vontade que o Menino Jesus deu pá ela. Foi um Deus nos acuda! Não demorô um piscar dos óio, a mãe dele apareceu, esbaforida, co os óio arregalado, como se tivesse visto uma sombração, uma abantesma, uma alma penada, de ôtro mundo, e acudiu ele. “O que aconteceu, Barnabé?”, perguntô ela pa mim.”Uma abeia mordeu o braço do nosso fio.”, respondi. “Abeia?!”, perguntô ela, surpresa. “É, muié, abeia. Eu peguei uma abeia, pus ela no braço dele, e aticei a bichinha pa ela mordê…”, dizia eu, mas não pude completá a frase pruque a mãe dos meu fio me interrompeu, intrigada: “Pru que o cê fez isso, ómi?” “Foi um teste de alergia. Pá vê se o sangue do nosso fio tá bão; se aguenta veneno de abeia.” “Agora o fio tá chorano.”, disse ela.  E arrespondi: “Eu sei. Tô veno e ovino. Deus Nosso Senhor Menino Jesus me deu óios pa eu vê e ovidos pa eu ovi. Não sô nem cego, nem surdo.” “E agora, o que vâmo fazê pa ele pará de chorá?”, perguntô ela. E arrespondí, já irritado com a muié, sem pensá no que falava: “Dá dois cascudo nas oreia dele que ele pára de chorá. Ou dêxa ele comigo. Três cintada resórve.” A muié afastô, sem pensá duas vez,o fio de mim. Depois, já acalmada dos nervo, ela foi me procurá pa uma conversa, conversa de marido e muié. E conversa vai, e conversa vem, resorvemo esperá dois dia pa vê o que ia acontecê co braço do menino, e prometi pa ela que eu não ia fazê mais nenhum teste de alergia com ele. No dia seguinte, o braço do menino tava co uma bruta brotoeja vermelhuda de dá arrepio; e eu esqueci a promessa que fiz pa muié pa qual prometi, na Igreja, diante de Deus, vivê na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até o dia que a morte nos separasse. A promessa que fiz, na Igreja, com a testemunha de Deus e de todos os santos, irei cumprí; a otra, não; esqueci que a fiz. Saí de casa pa umas andanças e vortei de tardezinha, as galinha e os galo já empoleirado, e perguntei do nosso fio pa mia muié, que oiô pa mim, desconfiada, e preguntô o que eu trazia, nas mão, às costa. Muié é bicho danado de peçonhento: não querdita no marido. Eu disse pa ela que não era nada; e ela foi até a mia frente, com trocentas purga atrás das oreia, e empacô; e não havia cristão que a fizesse arredá pé de da minha frente. “O que o cê tem nas mão? Diga, ómi. Daqui não saio até o cê dizê o que diabos tá o cê planejano ca sua cabeça oca.”, cobrô ela de mim explicação. E eu, já enfezado de tanta atormentação, retruquei: “Foi a mia cabeça oca que fez eu casá co cê.” “Não arrédo pé.”, replicô ela. “Vô fazê um teste de alergia co nosso fio.”, respondi. “Teste de alergia!? O cê prometeu pa mim que não iria fazê mais nenhum teste de alergia co ele.”, observô ela. Muié tem boa memória, reconheço, mas só usa a boa memória pa lembrá o marido das coisa errada que ele faz. “Prometê, prometi. Mas não com o testemunho de Deus.”, repliquei, bufando. “Deus vê tudo, ómi. Deus vê tudo.”, regogô a mãe dos meu fio. “Ele só vê as promessa que a gente faz se a gente estivé dentro da Igreja.”, retruquei. “Dêxe de falá asneira, descrente. E basta! O que o cê tem, às costa, nas mão? O que o cê tá escondeno de mim? Sou sua muié; o cê não pode escondê nada de mim.”, exigiu ela; e eu, não teno ôtra opção, levei as mão pa frente da mia barriga, e mostrei pa mia muié o que tava comigo. “Um pote de vidro! O que tá dentro do pote de vidro?!”, perguntô ela, preocupada. E arrespondi: “Não tá veno, não, muié? O cê é cega, é? Deus deu po cê dois óio po cê vê. O que tá dentro do pote?! Veja, muié, cos seus óio: Uma cascavér!” A mãe dos meu fio desmaiô. Que sufoco passei nas hora seguinte! Eu tinha de ressuscitá mia muié. Meu Deus do céu! Foi um Deus nos acuda. Diz o ditado que Deus faz o certo por linhas torta. E é vredade. Adespois da experiência, a mia muié e eu chegâmo a um acordo. E ela desistiu dos teste de alergia que aprendeu cas madame da cidade, muié que só têm idéia que estraga as muié da roça.Cérjim, é esta a instória que eu me alembrei.Tenha um bom dia, Cérjim. Fique com Deus Nosso Senhor. Ôtro dia conto ôtra instória po cê. Intê.

O Assalto Ao Banco – escrito por Denilson Pontadefaca – publicado no Zeca Quinha Nius

Às onze horas da noite de ontem, em Pindamonhangaba do Norte, cidade situada no sul do Brasil, após um telefonema anônimo à delegacia de polícia, dois policiais, Roberto Trincaosso e Alexandre Chinfrim, numa viatura policial, rumaram rumo ao local do crime em que se envolveu os bandidos e as vítimas – vítimas dos bandidos, obviamente -, crime que se sucedeu na interseção da rua Do Bode Velho com a Do Cabramacho. Lá chegando, os policiais depararam-se com uma turbamulta de arrepiar os cabelos e os pelos do corpo de todas as pessoas que a testemunhassem. Os policiais, Roberto Trincaosso e Alexandre Chinfrim foram atacados pelos moradores que não admitiam policiais no bairro mal afamado Ponto do Pontal e conhecido de todos os pindanortistas. Protegendo-se como podiam, os policiais apontaram os revólveres aos moradores e ameaçaram atirar em quem os atrapalhasse. Nem todos se acalmaram. Um rapaz pegou uma faca, e alçou vôo para cima de Alexandre Chinfrim, que reagiu e, para a sua sorte, aparou os golpes, e desarmou o elemento meliante, aquele menor de idade, que, os policiais tem de entender, é uma vítima da sociedade, e não um criminoso. Pouco depois, um homem das redondezas exclamou:
– O Pedrinho é louco pracarai!
– Vam’bora – gritou alguém, e Roberto Trincaosso correu no encalço dele, mas não o pegou.
Acalmados dos nervos, Roberto Trincaosso e Alexandre Chinfrim, certos de que os moradores do bairro não interviriam no trabalho deles, andaram até os dois cadáveres, ambos mortos e esparramados no meio da rua, um deles com a cabeça rachada no meio por um machado, o outro com dois furos de bala nos peitos. Nenhum deles respirava, verificaram os policiais.
– Eles estão mortos, policiais – disse um homem, que aparentava trinta anos. – Tão mortinhos da silva os dois.
Enquanto Roberto Trincaosso colhia o depoimento de todos os moradores, Alexandre Chinfrim avaliava os cadáveres dos mortos e os arredores à procura de sinais dos assassinos, de pista deles. Alexandre Chinfrim encontrou marca de sapato nas poças de sangue, catarro e duas bitucas de cigarro – dos bandidos, provavelmente, ou de outra pessoa, não restava dúvida a ele.
– Aí, ele deu um soco no Dóiqueédoce – disse um morador, no depoimento a Roberto Trincaosso, apontando para o cadáver com a cabeça rachada. – Aí, Dóiqueédoce empurrou ele; aí, ele gritou; aí, Dóiqueédoce gritou de volta; aí, ele deu um tapa na cara do Dóiqueédoce; aí, ele deu um pontapé na barriga do Dóiqueédoce; aí, ele disse que queria a parte do dinheiro do assalto ao banco; aí, Dóiqueédoce correu; aí, ele correu atrás do Dóiqueédoce; aí, ele, Mortadela, chegou – e apontou para o cadáver com dois buracos de tiro nos peitos -; aí, Dóiqueédoce e Mortadela correram; aí, eles gritaram; aí, ouvi dois tiros; aí, ele pegou o machado; aí, ele rachou a cabeça do Dóiqueédoce; aí, Dóiqueédoce e o Mortadela morreram; aí, eles ficaram aí onde estão até agora.
– E por que eles foram mortos? – perguntou Roberto Trincaosso.
E o homem disse, numa sentença, não necessariamente respondendo à pergunta que Roberto Trincaosso lhe fez:
– Eles estavam vivos; tinham de morrer qualquer dia, né, doutor!? Morreram hoje. E quero acrescentar, doutor: Não fui com a cara dele.
– Com a cara de quem? – perguntou, curioso, intrigado, Roberto Trincaosso.- Do homem que matou o Dóiqueédoce e o Mortadela. É muita maldade para um homem só. Ele saiu do inferno, de um inferno bem infernal.
Recolhidos os cadáveres dos mortos, que tinham nome quando estavam vivos, ao necrotério, os policiais Roberto Trincaosso e Alexandre Chinfrim procuraram o assassino pelo mal afamado bairro do Ponto do Pontal, auxiliado por outros cinco policiais. Não o encontraram. Está ele escondido num esconderijo que os policiais não conhecem.
O delegado, o senhor Celso Xerlóquerrómes, inveterado fumador de cachimbo, disse, indagado pelos jornalistas, que em breve o caso estará resolvido. 

Entrevista com o senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito – parte 3 de 3 – publicada no Zeca Quinha Nius

INÚTIL DE SOUZA: Estamos acordados.

ENTREVISTADOR: Sim, estamos acordados. Agora, senhor candidato, diga o que o senhor pensa dos seus concorrentes à cadeira de prefeito da nossa cidade, os senhores Nulo da Silva e Zero à Esquerda.

INÚTIL DE SOUZA: O senhor Nulo da Silva é um zero à esquerda e o senhor Zero à Esquerda é uma nulidade. São dois inúteis, tipos desclassificados; dois vermes, tipinhos ridículos, patéticos. Sob a direção de qualquer um deles, os cidadãos desta cidade irão comer o pão que o diabo amassou, e amassou duas vezes, e o moeu, e o remoeu. Contenho-me para não dizer, com o vocabulário que me vem à mente, o que penso destes dois paspalhos, vagabundos, patifes, que nada mais pretendem, se eleitos prefeitos, do que se locupletarem, encherem as burras de ouro, e arrumarem sinecuras rendosas à esposa, aos filhos, aos parentes e aos amigos e aliados.

ENTREVISTADOR: Mas o senhor, senhor candidato, não irá ceder cargos municipais a familiares, parentes, amigos e aliados?

INÚTIL DE SOUZA: Sim, mas há uma diferença fundamental entre as pessoas que eu nomearei funcionários públicos e as que os senhores Nulo da Silva e Zero à Esquerda nomearão.

ENTREVISTADOR: E qual é?

INÚTIL DE SOUZA: A honestidade daquelas que eu nomearei e a desonestidade daquelas que eles nomearão. As que eu nomearei são honestas, trabalhadoras, cultas e competentes; as que eles nomearão, não. Eles nomearão a ralé, bichos nocivos, peçonhentos, saídos do esgoto, do esgoto mais fétido que há: a cloaca das genitoras delas.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, não perca a compostura.

INÚTIL DE SOUZA: Não a perderei. Não a perderei. E nem as estribeiras. Sou obrigado a declarar, todavia, que ao evocar as figuras repugnantes, asquerosas, repulsivas, de me dar engulhos, daqueles dois energúmenos diabólicos e luciferinos e satânicos ferve-me o sangue nos vasos sanguíneos e ficam-me à flor da pele os nervos. Eu e aqueles dois escorpiões somos como água e óleo; não nos misturamos. Somos seres distintos; eles não merecem viver  entre os justos; são duas abantesmas, duas quimeras oníricas cujo único propósito de vida é perturbar o coração dos justos.

ENTREVISTADOR: E qual política o senhor pretende, senhor candidato, implementar, para gerar empregos e melhorar o padrão de vida dos cidadãos desta cidade?

INÚTIL DE SOUZA: Políticas que os beneficiam e gerem empregos. Criarei mecanismos regulatórios de fiscalização que impedirão a malversação do dinheiro público e o mau uso do dinheiro privado. Regulamentos, necessários porque imprescindíveis ao bom e correto andamento das políticas municipais de combate ao desemprego, à doença, à insegurança e à violência.

ENTREVISTADOR: De concreto, o que o senhor irá fazer?

INÚTIL DE SOUZA: Pontes, viadutos, prédios, praças, parques, campos de futebol. Irei, tal qual Juscelino, construir prédios imensos, todos de concreto, e entrar para a História como um administrador público construtor de grandes obras, obras faraônicas. Infelizmente, o Niemeyer não está mais entre nós; ele, se ainda vivesse entre nós, poderia desenhar imensos e fabulosos prédios de concreto com linhas retas e linhas curvas, prédios que fariam desta cidade uma das maiores maravilhas arquitetônicas do mundo. Talvez um dia eu concretize tal sonho. E estou passando tal informação, e em primeira mão, ao Zeca Quinha Nius.

ENTREVISTADOR: E não nos esqueçamos, senhor candidato: O Zeca Quinha Nius é o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre e o senhor Zeca Quinha o seu primeiro e único fundador e editor-chefe e chefe do editor.

INÚTIL DE SOUZA: Não me esqueci. Não me esqueci.

ENTREVISTADOR: E o que o senhor, senhor candidato, pensa da atual política municipal, e da estadual, e da nacional e da internacional?

INÚTIL DE SOUZA: Penso muitas coisas, muitas, e com a minha cabeça, e não com a de outra pessoa. E penso bem, às vezes; em outras vezes, mal. Independentemente se bem, se mal, penso. E de tanto pensar a respeito da política, seja da municipal, seja da estadual, seja da nacional, seja da internacional, entendo que os meus pensamentos restringem-se ao que penso, e o que penso não raras vezes coincide, em tipo e grau, com o que outras pessoas pensam. É interessante pensar a respeito. E não raro os meus pensamentos, únicos, não coincidem com o pensamento de ninguém, o que prova que se pode pensar muitas coisas a respeito do que se está a pensar, ou do que já pensou, ou do que irá pensar. Chama-me a atenção um ponto: a política municipal, a estadual, a nacional e a internacional estão intrinsecamente conectadas, fundidas num todo que, embora heterogêneo, é homogêneo, e um dos seus postulados é a multiplicidade na unidade, e vice-versa. E o que posso dizer de mais sensato é: as políticas municipal, estadual, nacional e internacional correspondem a quatro círculos concêntricos, englobados por um círculo globalizante, cada uma delas um círculo, sendo o menor o da política municipal, e o maior o da internacional, e os outros dois, o da política estadual e o da nacional, intermediários, o da nacional maior do que o da estadual. E tais políticas entrechocam-se constantemente, embora os círculos que as representam não tenham contato uns com os outros; tais como linhas paralelas, não se tocam, mas, neste caso, as linhas são curvas, e não retas, e tão bem curvadas que formam, cada uma delas, um círculo.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, estamos nos aproximando do fim da entrevista cujo fim foi o de extrair do senhor os seus pensamentos, as suas idéias, as suas propostas políticas, o que obtivemos, e com agrado, o senhor a revelar boa-vontade desde o início, melhor, desde as consultas que ao senhor fizemos há duas semanas, quando ao senhor solicitamos uma entrevista, e o senhor, tão animado, aceitou a solicitação, sem se fazer de rogado. Agora, senhor candidato, iremos propor ao senhor um jogo de perguntas e respostas que consiste em dois ingredientes: as perguntas, que serão feitas pelo entrevistador, no caso, eu; e as respostas, que serão dadas pelo entrevistado, no caso, o senhor.

INÚTIL DE SOUZA: Mas isso já estamos fazendo desde o início da entrevista.

ENTREVISTADOR: Sim, senhor candidato, sim. Bem observado. Mas agora, senhor candidato, melhor, a partir do momento que iniciarmos o jogo que irei propor ao senhor, a entrevista assumirá outro aspecto, outra configuração, que não consistirá em perguntas com interrogações e em respostas; as perguntas se reduzirão à uma palavra, e as respostas em uma palavra.

INÚTIL DE SOUZA: Todas as perguntas se reduzirão a uma palavra e todas as respostas a uma palavra!? Neste caso, que se faça uma pergunta apenas, que eu darei uma resposta. Se as perguntas consistem em uma palavra, não há razão para se repetir a mesma palavra, portanto, a mesma pergunta, então…

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, eu não me fiz compreender.

INÚTIL DE SOUZA: Faça-se compreender.

ENTREVISTADOR: Eu direi uma palavra qualquer, e o senhor, ao ouvi-la, dirá, com apenas uma palavra, o que vêm à sua mente.

INÚTIL DE SOUZA: Pingue-pongue.

ENTREVISTADOR: Sim, senhor candidato. Conhece?

INÚTIL DE SOUZA: Sim, conheço. E quem não conhece!?

ENTREVISTADOR: Posso começar?

INÚTIL DE SOUZA: À vontade.

ENTREVISTADOR: Fruta.

INÚTIL DE SOUZA: Batata.

ENTREVISTADOR: Carro.

INÚTIL DE SOUZA: Morcego.

ENTREVISTADOR: Cidade.

INÚTIL DE SOUZA: Unha encravada.

ENTREVISTADOR: Filme.

INÚTIL DE SOUZA: Tuberculose.

ENTREVISTADOR: Futebol.

INÚTIL DE SOUZA: Marmita.

ENTREVISTADOR: Revista.

INÚTIL DE SOUZA: Furúnculo.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, obrigado por nos conceder a entrevista, esclarecedora, inestimável contribuição ao debate político público. Tenha um bom dia.

INÚTIL DE SOUZA: O prazer é todo meu. E para encerrar, digo: Sonho administrar esta cidade e pô-la nos trilhos. E não quero sonhar com um pesadelo: ver um dos meus concorrentes sentado na cadeira de prefeito. E que todos tenham um bom dia.

Entrevista com o senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito – parte 2 de 3 – publicada no Zeca Quinha Nius

ENTREVISTADOR: E quais são?

INÚTIL DE SOUZA: Quais são, não sei; eu apenas sei que as executo diariamente, dia sim, outro também, durante os dias, as semanas, os meses e os anos. As minhas atividades diárias ocupam-me o tempo durante o tempo que me ocupo com elas, executando-as. Durmo, almoço, acordo, assisto à televisão, bebo água, banho-me, janto, não necessariamente nesta desordem; e converso com minha esposa, meus filhos, e com amigos e parentes, não necessariamente nesta ordem. São inúmeras as minhas atividades diárias. Há dias que me ocupo com algumas delas, e não com outras. Em um dia ocupo-me com as atividades A, B, C e D, nesta sequência, e em outro com as atividades C, A, B, D, nesta ordem, e mais as atividades E, F, G, H, nesta sequência, ou noutra, e em outro dia ocupo-me, se me dá na telha, com as atividades A, B, C, D, E, F, G e H. Usei as letras A, B, C, D, E, F, G e H para me referir às minhas atividades diárias, mas não a todas elas, pois usei apenas oito letras do alfabeto, que tem mais de vinte letras, vinte e seis, para ser exato, e não todas elas; além disso, o número de atividades que me ocupam o dia supera as vinte e seis; sendo assim, faltando-me letras para indicá-las, tenho de recorrer à combinação de duas ou mais letras para indicar as atividades além das vinte e seis. Por exemplo, AB, CD e EF, ou, então, usar uma dupla, ou um trio, com a mesma letra, AA, ou AAA, BB, ou BBB, CC, ou CCC, e assim por diante. Se você entende ser muito complexo este meu sistema de listagem de atividades diárias, fique à vontade para usar outro, para você, além de mais simples, mais compreensível e de mais fácil visualização. Há quem prefira enumerar as atividades, indicando-as com algarismos numa lista que pode ir de 1 a 1.000, ou a 1.000.000, a depender da quantidades de atividades diárias disponíveis com as quais se ocupa durante as vinte e quatro horas de um dia.

ENTREVISTADOR: Se eleito prefeito, senhor candidato, qual sistema de lista de atividades diárias dos funcionários públicos o senhor irá implementar?

INÚTIL DE SOUZA: Ainda não me decidi por nenhum deles. Há inúmeras opções, umas simples, outras complexas, outras misto de simplicidade e complexidade, todas exequíveis desde que quem pretenda executá-las as execute. Para tratar do assunto, consultarei especialistas em adminitração pública. Terei de resolver tal imbróglio, e terminantemente. Pretendo criar um grupo de estudos para estudar tal questão, que, de tão extraordinariamente complexa, exigirá, no mínimo, vinte pessoas a ela dedicadas em tempo integral, light e diet, todas muito bem remuneradas, de minha inteira confiança, e inteligentes.

ENTREVISTADOR: E a quem o senhor, senhor candidato, entregará tal função?

INÚTIL DE SOUZA: Não poderei, você há de concordar comigo, delegar tal tarefa para qualquer pessoa, pessoa que, se desconhecida, isto é, pessoa que eu não conheço, irá sabotar o meu projeto de governo. Terei de entregar a responsabilidade de execução de tal tarefa para pessoas que eu conheço, e há muito tempo, pessoas em quem eu confio, por elas ponho a mão no fogo. E não nos esqueçamos: O grupo de estudos exigirá, para o bom andamento dos estudos, vinte pessoas, no mínimo; e todas estas pessoas têm de ser de minha inteira confiança; não poderei nomear qualquer pessoa para tal grupo de estudos.

ENTREVISTADOR: E quais nomes vêm, senhor candidato, à sua mente?

INÚTIL DE SOUZA: O da minha mulher, o do meu irmão, o do meu primo, e o de meu outro primo, e o de meu outro primo, e o da minha prima, e o da minha outra prima, e o do meu tio, e o da minha tia, e o da minha outra tia, e o de minha outra prima, e o do meu outro tio, e o de um amigo que estudou comigo no jardim-de-infância, e o de um pedreiro, que construiu a casa de um amigo meu, e o deste meu amigo, e o de outro amigo meu, amigo do peito, de longa data, com quem eu jogava futebol num campinho-de-várzea do bairro do Cantagalo, e o da irmã de um amigo meu, e o deste meu amigo.

ENTREVISTADOR: O senhor, senhor candidato, disse que vêm à sua mente o nome de um amigo com quem o senhor estudou no jardim-de-infância. Quero, senhor candidato, chamar a atenção do senhor para um detalhe: num jardim-de-infância não se estuda; brinca-se. Posso concluir, portanto, que no jardim-de-infância o senhor não estudou com o seu amigo cujo nome o senhor lembrou ao pensar em nomes que irão ocupar cargos relevantes no grupo de estudos que estudará a metodologia apropriada para a listagem das atividades diárias dos funcionários públicos.

INÚTIL DE SOUZA: É verdade. É verdade. Você fez bem, para mim e para os leitores do Zeca Quinha Nius, em chamar-me a atenção para este ponto.

ENTREVISTADOR: Não é um ponto, senhor candidato; é um detalhe.

INÚTIL DE SOUZA: É verdade. É verdade. É um detalhe, e não um ponto.

ENTREVISTADOR: E não podemos, senhor candidato, deixar de dizer que o Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre, é o primeiro e único hebdomadário digital criado pelo senhor Zeca Quinha, seu primeiro e único fundador e seu editor-chefe e chefe do editor.

INÚTIL DE SOUZA: Não nos esqueçamos deste ponto.

ENTREVISTADOR: Agora, sim, trata-se de um ponto.

INÚTIL DE SOUZA: E é um ponto bem pontual, que aponta para a importância do senhor Zeca Quinha para o jornalismo digital nacional, e também para a do mundial.

ENTREVISTADOR: E do extra-galáctico.

INÚTIL DE SOUZA: Sim. E do extra-galáctico. E aproveito o anzol, um dispositivo rudimentar apropriado à captura de assuntos relevantes cuja abordagem tem de vir acompanhada de uma premissa desacompanhada de uma conclusão, embora a preceda, para tratar de uma questão, que não diz respeito ao anzol: Para evitar confusões e mal-entendidos, e desentendimentos, e não perder tempo com questões que, de tão inúteis, ocupem-nos demasiado tempo e promovam confrontos que, ao redundarem em conflitos, terminem em guerra interminável, tenho de esclarecer um ponto: Para a lista de nomes do grupo de estudos ao qual já nos referimos e do qual falamos e tratamos há pouco, lembrei-me de nomes de pessoas de minha inteira confiança, o que não quer dizer que tais nomes irão exercer as tarefas diárias; exercerão as tarefas diárias as pessoas cujos nomes me veio à mente. Quero deixar bem claro este ponto.

ENTREVISTADOR: Não é um ponto, senhor candidato; é um detalhe.

INÚTIL DE SOUZA: Serei sincero: Não estou certo se é um ponto, se um detalhe; seja um ponto, seja um detalhe, o certo é esclarecê-lo para evitar atritos desnecessários.

ENTREVISTADOR: Neste ponto, senhor candidato, com o senhor estou de pleno acordo.

Entrevista com o senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito – parte 1 de 3 – publicada no Zeca Quinha Nius

Concedeu-nos entrevista o senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito pelo P.O.R.C.A.R.I.A. (Partido dos Operários Revolucionários Comunistas e dos Anarquistas Revoltosos e dos Intelectuais Anti-americanos). Falou-nos, sempre espirituoso, de bom-humor, durante as quatro horas que se dispôs, amigável e gentilmente, a, dedicado ao repórter do Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre, responder-lhe às perguntas que ele lhe fez, de suas propostas, e de propostas que não são suas, e de sua vida, e de seus sonhos pesadelos, e dos seus concorrentes, e das atuais políticas municipal, estadual, nacional e mundial, e de suas atividades diárias. Hoje, especialmente hoje, e em nenhum outro dia, nem antes, nem depois, publicamos um trecho – que é o primeiro de uma série, que se encerrará assim que publicarmos o último trecho, que, sendo o derradeiro, o encerra – da entrevista cujo fim foi o de recolhimento, pelo repórter do Zeca Quinha Nius, do senhor Inútil de Souza infornações que deste revelam segredos que, dados a público, exibem aspectos de sua personalidade multifacetada, única e singular, que apenas a ele, e a ninguém mais, pertence. À leitura, querido leitor, da esclarecedora entrevista.
ENTREVISTADOR: Senhor candidato, por que o senhor se candidatou a prefeito?
INÚTIL DE SOUZA: Porque a minha mulher pediu-me dinheiro para comprar vestidos caros; além disso, ela quer viajar à Europa, aos Estados Unidos, a Dubai, à Finlândia, à Austrália. E tem mais: ela quer morar em um castelo de vidro transparente, moderno. E tem mais: Ela quer que eu lhe compre, todo ano, um carro, e colar de pérolas. E para satisfazer as vontades de minha doce e amanda consorte, preciso de algumas toneladas de din-dins, barões, cascalhos, bufunfas.
ENTREVISTADOR: Mas, senhor candidato, hoje em dia o dinheiro é digital; não se fazem mais necessárias moedas e cédulas, objetos obsoletos.
INÚTIL DE SOUZA: Dinheiro digital não ocupa espaço; é fantasmagórico. Eu não sei se existe, se é invenção de escritores de livros de ficção cientítica. Quero cascalho, din-din. Quero ver o dinheiro, pegá-lo, cheirá-lo, mordê-lo. Quero dinheiro concreto, e não inconcreto.
ENTREVISTADOR: Dinheiro não é concreto; é metálico… e de papel.
INÚTIL DE SOUZA: Dinheiro de papel é coisa criada por mentecaptos. Traças o comem. Quem foi o dito cujo que teve a brilhante idéia de inventar dinheiro de papel!? Imbecil dos infernos. Bons tempos os de antigamente, quando existia apenas moedas. Sonho com um mundo em que só exista moedas, moedas de ouro, moedas de prata, moedas de bronze… e barras de ouro; sonho com um mundo sem dinheiro de papel… e sem dinheiro digital, outra invenção de mentecaptos, que, além de mentecaptos, são energúmenos, sandeus e paspalhos.
ENTREVISTADOR: Por que, senhor candidato, o senhor sonha com tal mundo?
INÚTIL DE SOUZA: Porque eu durmo.
ENTREVISTADOR: O senhor sonha com tal mundo, senhor candidato, porque ele não existe; se existisse, o senhor não sonharia com ele?
INÚTIL DE SOUZA: Eu nunca pensei em tal questão, que, reconheço, é muito interessante, interessantíssima, tão interessante que, agora, pensando nela, vêm-me à mente pensamentos que eu jamais havia pensado porque eu nunca me havia detido para pensar nela. Pergunto-me se eu sonharia com algo que não existe caso existisse e com algo que existe se não existisse. O mundo dos meus sonhos não existe, mas já existiu, não apenas no meu sonho, mas de fato, há muitos séculos, e eu, ciente de que tal mundo já existiu, e dele sendo sabedor, sonho com ele, e às vezes tal sonho se torna pesadelo.

ENTREVISTADOR: Por que, senhor candidato?
INÚTIL DE SOUZA: As moedas enferrujam-se.
ENTREVISTADOR: Até as de ouro!?
INÚTIL DE SOUZA: Sim. Até as de ouro. E as que não se enferrujam, derretem-se.
ENTREVISTADOR: Como isso é possível, senhor candidato!?
INÚTIL DE SOUZA: Não sei. Mas nos meus pesadelos, e não em todos eles, as moedas de ouro derretem-se. E tem mais: As traças comem as moedas de ouro.
ENTREVISTADOR: Traças geneticamente modificadas, senhor candidato!?
INÚTIL DE SOUZA: Provavelmente; ou improvavelmente, não sei. Sei apenas que nos meus pesadelos, e não em todos eles, mas apenas nos quais há moedas de ouro e traças, as traças devoram as moedas de ouro. E há um detalhe interessante, que eu não posso deixar de dizer: Às vezes, e não raras vezes, enquanto estou dormindo, e dormindo tão pesadamente que se quebram as pernas da cama, alguns dos meus sonhos convertem-se em pesadelos e alguns dos meus pesadelos em sonhos.
ENTREVISTADOR: Quebram-se apenas as pernas da cama? Os pés dela não?
INÚTIL DE SOUZA: Os pés da cama, não. Só as suas pernas.
ENTREVISTADOR: As minhas pernas!?
INÚTIL DE SOUZA: As suas, não; as da cama. Atente para as minhas palavras, para que repórteres que talvez queiram o seu emprego no Zeca Quinha Nius, inescrupulosa, e ladinamente, não quebrem as suas pernas.
ENTREVISTADOR: Por que eles quebrariam as pernas da cama!?
INÚTIL DE SOUZA: As da cama, não; as suas. Você está muito distraído, e, distraído, você não entende o que digo, e, não entendendo o que digo, além de não entender o que digo, faz observações sem sentido, o que estimulará os seus inimigos jornalistas a ousarem se apresentar ao Zeca Quinha, seu chefe e proprietário do Zeca Quinha Nius, e apontar as inconveniências das suas atitudes, falar do seu despreparo para o exercício do jornalismo, e se lhe apresentarem como tipos superiores de tão baixos, rasteiros e ladinos, e roubarem de você o seu emprego.
ENTREVISTADOR: Não podemos nos esquecer, senhor candidato, que o Zeca Quinha Nius é o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre e o senhor Zeca Quinha o seu primeiro e único fundador e seu editor-chefe e chefe do editor.
INÚTIL DE SOUZA: Eu sei. Eu sei. Eu sei. E o trabalho dele à frente do Zeca Quinha Nius me traz à mente as minhas atividades diárias.

Entrevista com o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – parte 5 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

ENTREVISTADOR: Mas a crise econômica, senhor candidato, prejudicará muita gente.
ZERO À ESQUERDA: É óbvio! É uma crise econômica; e crises econômicas prejudicam muitas pessoas, mas não todas as pessoas; as pessoas que não forem prejudicadas pela crise econômica provocada pelo coronavírus, bichinho pequeno, muito pequeno, minúsculo, muito minúsculo, invisível a olho nu, não irão reclamar; reclamarão apenas as prejudicadas; e, saiba, muitas pessoas prejudicadas não se sentirão prejudicadas; então, terei de ouvir quatro tipos de pessoas: as que, sendo prejudicadas, sentem-se prejudicadas; as que, não sendo prejudicadas, sentem-se prejudicadas; as que, não sendo prejudicadas, não se sentem prejudicadas; e as que, sendo prejudicadas, não se sentem prejudicadas. E após ouvi-las, determinarei as políticas que atenderão aos meus interesses políticos.
ENTREVISTADOR: E quantos aos empregos!?
ZERO À ESQUERDA: Que que tem!?
ENTREVISTADOR: Muita gente recorre às agências de emprego e ao departamento municipal de amparo ao trabalhador, e tambêm ao estadual, e ao federal, à procura de emprego. Desempregados em decorrência da epidemia, vivem de benesses estatais, que exigem recursos com os quais os governos estaduais, o governo federal e os governos municipais não contam.
ZERO À ESQUERDA: Entenda, caro entrevistador: os índices de desemprego estão elevados porque as pessoas, à procura de emprego (refiro-me às desempregadas), recorrem às entidades privadas e públicas, e nestas cadastram-se; assim, desenho, para que você entenda, inflam os dados colhidos por tais entidades, que as reúnem num banco de dados, e todos nos alarmamos com a quantidade de pessoas desempregadas, o que nos dá incômoda sensação de insegurança e desesperança, que nos inibe, desanima, constrange e tortura. Diante de tão negativo cenário, gritante em sua crueza, terei de tomar uma, e apenas uma, decisão: proibir as pessoas desempregadas de recorrerem aos órgãos, públicos e privados, de auxílio aos trabalhadores; com tal medida, não teremos como saber quantos são os desempregados; sendo assim, não terei com o que me preocupar; afinal, não havendo estatísticas oficiais acerca dos desempregados, não haverão desempregados. E veio-me à mente uma idéia genial. Decretarei a destruição do banco de dados oficial concernente aos dados econômicos municipais. Sem tais dados, que inexistirão, não existirá crise econômica, e tampouco desemprego, e nem empresas falidas, e menos ainda rombo nas contas públicas. E a crise econômica será apenas um detalhe nos discursos de gente desavisada, de má-fé, de gente que terá apenas um objetivo: prejudicar a minha carreira política. E antes de conceder a você a palavra, digo que já se estendeu demais a entrevista.
ENTREVISTADOR: Vamos, senhor candidato, ao pingue-pongue. Eu digo uma palavra, e o senhor diz o que ela ao senhor inspira.
ZERO À ESQUERDA: Vamos lá.
ENTREVISTADOR: Futebol.
ZERO À ESQUERDA: Gramado verde.
ENTREVISTADOR: Mulher.
ZERO À ESQUERDA: Espinafre.
ENTREVISTADOR: Carro.
ZERO À ESQUERDA: Casca de laranja.
ENTREVISTADOR: Escola.
ZERO À ESQUERDA: Campo de várzea.
ENTREVISTADOR: Robótica.
ZERO À ESQUERDA: Meleca.
ENTREVISTADOR: Farmácia.
ZERO À ESQUERDA: Fumaça.
ENTREVISTADOR: Estátua.
ZERO À ESQUERDA: Tijolo.
ENTREVISTADOR: Obrigado por nos conceder a entrevista.
ZERO À ESQUERDA: Rosbife.
ENTREVISTADOR: Senhor candidato, já encerramos o pingue-pongue. Agradecemos ao senhor a sua disposição para se dedicar integralmente à entrevista durante cujo andar o senhor se dispos a se pôr a nosso dispor.
ZERO À ESQUERDA: Disponha. E que o Zeca Quinha Nius desempenhe, com imparcialidade, o seu papel jornalístico, e não publique matérias que favoreçam os meus concorrentes e me desfavoreçam. Sejam profissionais.

Entrevista com o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – parte 4 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

ZERO À ESQUERDA: Saiba que a imprensa tem de ser imparcial.

ENTREVISTADOR: Nós do Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre, somos imparciais, senhor candidato.

ZERO À ESQUERDA: Não me parece.

ENTREVISTADOR: Não entendemos, senhor candidato, o porquê da sua observação.

ZERO À ESQUERDA: Na minha observação não tem “porquê”. Eu disse, simplesmente, uma frase bem simples, compostas de três palavras: abre aspas: Não me parece. E feche aspas. Nesta frase tem algum “porquê”?

ENTREVISTADOR: Não, senhor candidato. Queríamos dizer que a sua observação não procede; é injustificada, e absurda. Somos imparciais. Nenhum candidato a prefeito apoiamos.

ZERO À ESQUERDA: Espero que você não esteja faltando com a verdade.

ENTREVISTADOR: Não estamos.

ZERO À ESQUERDA: Não me forcem a recorrer à justiça eleitoral, e processar vocês; e jamais publiquem matérias que me desfavoreçam e favoreçam os meus concorrentes. Eu não as admitirei. Estou de olhos bem abertos ao que vocês publicam.

ENTREVISTADOR: Entendemos, senhor candidato. E conte com a imparcialidade e objetividade do nosso jornalismo.

ZERO À ESQUERDA: Não me dêem razões para processar vocês. Nenhuma.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, nós…

ZERO À ESQUERDA: Você me disse que eu não serei eleito prefeito…

ENTREVISTADOR: Não, senhor candidato, eu não disse que o senhor não será eleito; eu disse, senhor candidato, que não sabemos se o senhor será eleito prefeito.

ZERO À ESQUERDA: Se você disse que não sabe se eu serei eleito, então quis diz que sabe que o eleito será um dos meus concorrentes.

ENTREVISTADOR: Não, senhor candidato.

ZERO À ESQUERDA: É o que está implícito na sua afirmação.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, o senhor não me compreendeu.

ZERO À ESQUERDA: Você me diz que eu não compreendi o que você me disse, mas entendi, sim; entendi; e independentemente de você entender, ou não, que eu entendi o que você me disse, eu entendi, sei que entendi o que eu entendi. Deixemos esta questão para mais tarde, um para momento oportuno, e falemos da que falávamos: da crise econômica provocada pela epidemia decorrente do avanço indiscriminado do coronavírus.

ENTREVISTADOR: Sigamos.

ZERO À ESQUERDA: Antes de mais nada, temos de saber que o coronavírus é um bicho pequeno, muito pequeno, minúsculo, muito minúsculo, menor do que podemos imaginar que ele seja, tão pequeno que não o vemos; e não o vemos de tão pequeno ele é; se ele fosse dez vezes maior, seria, mesmo assim, pequeno, minúsculo, e invisível aos nossos olhos; e se cem vezes maior, ele seria, mesmo assim, menor do que teria de ser para que os humanos pudéssemos vê-lo; e se mil vezes maior, seria pequeno, pequeno demais, demasiadamente pequeno, tão pequeno que não poderíamos vê-lo. É o coronavírus um bichinho danado de pequeno. Ele entra no nosso corpo pela boca, pelo nariz, pelos olhos, pelas orelhas, pelos poros.

ENTREVISTADOR: Qual a sua proposta para evitar, senhor candidato, a crise econômica?

ZERO À ESQUERDA: Deportarei o coronavírus.

ENTREVISTADOR: Deportá-lo!?

ZERO À ESQUERDA: Sim.

ENTREVISTADOR: E como o senhor pretende…

ZERO À ESQUERDA: Assinarei um decreto em cujo texto decretarei a extradição do coronavírus, que terá, por bem ou por mal, de se exilar em alguma outra cidade.

ENTREVISTADOR: Mas nenhuma cidade irá acolhê-lo, senhor candidato.

ZERO À ESQUERDA: Aqui, nesta cidade, ele não viverá enquanto eu me sentar na cadeira de prefeito; isto é: ele jamais regressará a esta cidade; ele que procure uma que o acolha.

ENTREVISTADOR: E quanto à crise econômica!?

ZERO À ESQUERDA: Que que tem a crise econômica?

ENTREVISTADOR: Qual política o senhor, senhor candidato, pretende implementar para impedir o aprofundamento da crise econômica, que já está a causar alguns estragos nas contas públicas municipais?
ZERO À ESQUERDA: Que fique bem claro: Foi o coronavírus que causou o inferno astral que nos queima, que nos torra a paciência e as nossas economias, e não eu; que ninguém me venha, portanto, falar besteira. E digo mais: Não terei a obrigação de resolver problemas que eu não provoquei; eu irei solucionar, entenda bem, apenas os problemas que eu criarei.

Entrevista com o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – parte 3 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

ENTREVISTADOR: Fale-nos, senhor candidato, da razão que levou o senhor a conceber tal proposta.
ZERO À ESQUERDA: Imbecil! Não fiquei grávido para conceber a proposta. Gravidez é fenômeno comum às mulheres fecundadas durante uma relação sexual com um homem. Elas, elas, as mulheres, concebem; os homens, não.
ENTREVISTADOR: Fale-nos da sua proposta, senhor candidato.
ZERO À ESQUERDA: Irei falar dela quando, e se, eu achar que devo; antes, porém, tenho a dizer, respondendo à questão anterior, que nada me levou à proposta, nenhum carro, nenhuma bicicleta, tampouco um avião, menos ainda um navio; a proposta, de tão boa, brilhante, escolheu-me para que eu a apresentasse ao mundo. Ela não é tola, insensata, idiota e estúpida para se apresentar para qualquer bípede de duas pernas e dois pés da espécie humana e se lhes oferecer, sabendo que poucas pessoas, apenas as de gênio superior, podem compreendê-las, e pô-las em prática; e foi por esta razão, e não outra, que tal proposta escolheu-me, e não aos meus dois concorrentes. A proibição, agora esclareço a proposta, de venda e compra de melancia com mais de cinquenta semente atende às mais elevadas e sofisticadas exigências fitossanitárias, elaboradas pelas organizações mundiais de saúde, indispensáveis ao bom funcionamento do organismo social multifacetado cujas formação e constituição consiste num amálgama caleidoscópico de fenômenos aleatórios cujas conexões e associações são de inacreditável variedade e de componentes variegados de difícil mensuração. Não me peça para explicá-la, pois eu, no curto tempo de uma entrevista, não poderei explaná-la com propriedade considerando as diretrizes científicas estabelecidas pelas áreas da biologia, química e física conjugadas com a astronomia e a geologia, e suas equações profiláticas de enorme complexidade. Apenas homens de gênio superlativo, e eu sou um dos agraciados com tão extraordinário, e raro, dom, têm inteligência para apreender o valor da pedra angular que dá sustentação ao fim colimado pelo exercício de tal medida política, inédita nos anais da história.
ENTREVISTADOR: Senhor candidato, estamos enfrentando, neste ano de 2.020, uma epidemia viral que dizimou milhões de empregos mundo afora e provocou uma crise econômica sem precedentes. Aqui em nossa cidade, dezenas de empresas, em decorrência de tal surto epidêmico, faliram e milhares de pessoas perderam o emprego. O que o senhor, senhor candidato, propõe para gerar emprego e impedir que se aprofunde a crise econômica?
ZERO À ESQUERDA: Proponho que se faça o que tem de ser feito.
ENTREVISTADOR: E o que tem de ser feito, senhor candidato?
ZERO À ESQUERDA: Tem de ser feito o que tem de ser feito.
ENTREVISTADOR: O senhor, senhor candidato, pode ser explícito?
ZERO À ESQUERDA: Se explícito, serei obsceno.
ENTREVISTADOR: O senhor, senhor candidato, pode nos detalhar a política que o senhor implementará, se eleito prefeito, para evitar a catástrofe econômica, que de nós se avizinha?
ZERO À ESQUERDA: Primeiro, uma observação: Eu serei eleito prefeito desta cidade.
ENTREVISTADOR: Não sabemos, senhor candidato.
ZERO À ESQUERDA: Você está em campanha por outro candidato?
ENTREVISTADOR: Não, senhor candidato. Não.

Entrevista com o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – parte 2 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

ZERO À ESQUERDA: Antes de falar das minhas propostas de governo, digo que elas são minhas, e não dos outros dois candidatos, concorrentes meus à cadeira de prefeito, que é minha por direito divino. Se o povo se negar a me eleger seu governante; se o povo decidir negar-me o que é meu; se o povo não entender que as minhas propostas de governo são melhores do que às dos meus dois concorrentes, e decidir eleger prefeito um deles, e não eu, dará provas cabais de que não tem cérebro, de que tem, no interior da caixa craniana, uma substância fétida. E repito: São minhas as minhas propostas; minhas, e de mais ninguém. E que isso fique claro, bem claro. Não admito que me tirem o que é meu por direito divino. As minhas propostas de governo eu as pensei tendo em mente o bem-estar do povo que irei governar, povo incapaz de assumir responsabilidades, povo inculto, insensato e estúpido, que, talvez, tenha, no dia da eleição, um lampejo de sabedoria, e eleja-me seu governante; e caso o povo não seja agraciado, por um instante que seja, com a virtude da sabedoria, que seja governado por um dos meus dois adversários, tipinhos patéticos e ridículos.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, uma das suas propostas de governo contempla a proibição de venda de melancia com mais de cinquenta sementes. Fale-nos um pouco dela.

ZERO À ESQUERDA: Você está me pedindo para falar da melancia, ou da minha proposta de governo?

ENTREVISTADOR: Da sua proposta de governo.

ZERO À ESQUERDA: Não seja ambíguo. Faça-me perguntas claras e diretas, sem duplo sentido. Se é seu desejo solicitar-me informações acerca de uma das minhas propostas de governo, digne-se a dirigir-me uma pergunta objetiva, sem usar de termos que produzem ruídos na comunicação, prejudicando-a. Eu não gosto de perder meu tempo, e tampouco fazer com que as pessoas percam o tempo delas, seja o tempo delas muito, ou pouco, ou nenhum.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, a sua proposta…

ZERO À ESQUERDA: Eu não me esqueci da pergunta que você me fez. Se você, ao me chamar a atenção para a minha proposta, a respeito da qual antes de você, me perguntando, chamar-me atenção para ela, proposta que diz respeito à proibição de venda de melancia com mais de cinquenta sementes, teve a intenção, e sei que foi a sua intenção, de se fazer de importante e superior, e de me humilhar, dando a entender que eu tenho deficiências de memória, saiba que entendi o que você fez, e que, se eleito, eu darei um fim à sua carreira de jornalista e às atividades do jornaleco para o qual você trabalha.

ENTREVISTADOR: Trabalho para um hebdomadário digital, e não para um jornal.

ZERO À ESQUERDA: Não me interessa para que tipo de imprensa você dedica o seu tempo e a sua pouca inteligência. Não me interessa! Você me faltou com o respeito. E de você exijo retratação. Caso você se negue a se retratar, processarei o jornaleco que a você paga pelos seus serviços de gentinha estúpida.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, eu não posso me retratar: Não sou fotógrafo.

ZERO À ESQUERDA: Não se faça de desentendido, paspalho.

ENTREVISTADOR: Eu não faltei, senhor candidato, com respeito ao senhor. Ao insistir na pergunta acerca da sua proposta, eu quero apenas manter o foco, do qual o senhor afastava-se.

ZERO À ESQUERDA: Você está me dizendo, zé-mané, que eu sou desfocado?

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, entenda…

ZERO À ESQUERDA: Já entendi, zero à esquerda.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, zero à esquerda é o senhor.

ZERO À ESQUERDA: Não permito trocadilhos com o nome da minha família, nome de uma família de nobres, de pessoas renomadas, decentes, que muitos bens fizeram ao povo, povo ingrato, desta cidade, povo que, segundo a mais recente pesquisa de intenções de voto, irá eleger seu governante um dos meus dois oponentes. Retrate-se, inútil!

ENTREVISTADOR: Inútil, senhor candidato, é um dos outros dois candidatos.

ZERO À ESQUERDA: Verme! Você insiste em me faltar com o respeito que me deve!? Se prefeito, irei regulamentar as atividades jornalísticas, aqui, nesta cidade, e dar cabo de você e de tipinhos iguais a você, para, assim, melhorar a nossa decadente democracia. Você e outras espécimes da sua raça são tumores cancerígenos metastáticos a matar a Liberdade, a Justiça e a Democracia.

Neste momento, o senhor Zero à Esquerda, visivelmente alterado, bufando de raiva, com o dedo em riste no nariz do entrevistador, fuzilando-o (o entrevistador – e também o nariz dele) com seu olhar furibundo, levantou-se da cadeira, pronto para desfechar uma saraivada de impropérios, e catilinárias e filípicas, e maldições, contra o entrevistador e toda a equipe do Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre; a tempo, contivemo-lo de descarregar a catadupa de ofensas e palavrões antevista pelo nosso sempre atento editor-chefe e chefe do editor do Zeca Quinha Nius, e seu primeiro e único fundador, o senhor Zeca Quinha.Já acalmado dos nervos o senhor Zero à Esquerda e orientado por nós o entrevistador, retomamos a entrevista.

ZERO À ESQUERDA: Uma das minhas preciosas propostas de governo, e é minha a proposta, e de nenhum dos meus concorrentes, e não admitirei, em hipótese alguma, que eles ma roubem, consiste na proibição de venda de melancia com mais de cinquenta sementes, e não apenas proibirei a venda de melancia com mais de cinquenta sementes; proibirei, também, a compra de melancia com mais de cinquenta sementes. Eu não faço só a metade de um trabalho; eu o faço por inteiro.

Na próxima edição do hebdomadário digital Zeca Quinha Nius, o maior e melhor do orbe terrestre, publicaremos a terceira parte da entrevista que o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito, nos concedeu.

Entrevista com o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – parte 1 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

 O Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre e de todos os outros orbes, tem o prazer de, hoje, especialmente hoje, publicar a entrevista que o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito pelo P.O.D.R.E. (Partido Organizado da Democracia Revolucionária Estudantil), concedeu-nos, recentemente, em algum dia do passado. Publicaremos a entrevista, na íntegra, neste nosso hebdomadário digital, o maior e melhor do orbe terrestre, em não sabemos quantas partes, pois ainda não transcrevemo-la por inteiro, mas sabemos que o seu todo, independentemente da extensão que venha a adquirir, e de quantas partes o completem, será, a depender da transcrição dos trechos que ainda está por se fazer, menor, maior ou igual à soma das suas partes. Nas últimas palavras deste parágrafo (que é o primeiro deste artigo) de apresentação aos leitores deste renomado e respeitável hebdomadário digital, o maior e melhor do orbe terrestre, da entrevista, em sua versão transcrita, que nos concedeu o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito de nossa querida cidade, parágrafo que, além de ser deste artigo o primeiro, é dele o único que lhe serve de abertura à entrevista nele anunciada, declaramos que o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito, entregando-se de corpo e alma ao entrevistador, expôs, com clareza e objetividade e franqueza incomuns as suas propostas, que não são poucas, de governo, esclarecendo-nos, e de muito boa vontade, os seus pontos obscuros, e explicando-nos os seus pontos controversos, com a seriedade e a honestidade que o identificam. Encerramos, aqui, para não entediarmos os nossos leitores, que desejam ler a entrevista, em sua versão transcrita, que o senhor Zero à Esquerda concedeu ao Zeca Quinha Nius, o maior e melhor e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre, e não um extenso e entediante parágrafo de apresentação. À leitura, então, da entrevista.

ENTREVISTADOR: Senhor Zero à Esquerda, que fim levou o senhor a se candidatar a prefeito?

ZERO À ESQUERDA: Não cheguei ao fim da candidatura; estou no começo de uma história vitoriosa da minha vida.

ENTREVISTADOR: Reformulo a pergunta, senhor candidato: O que motivou o senhor a lançar a sua candidatura a prefeito?

ZERO À ESQUERDA: O meu amor pelos cidadãos desta cidade, que, infelizmente, foi mal, muito mal administrada, por todos os vermes que ousaram se sentar na cadeira do prefeito, cadeira que a mim está reservada desde tempos imemoriais. Estou predestinado a ocupá-la a partir do primeiro dia do ano que se sucede ao corrente ano até o fim dos meus dias. Sei, e quando digo que sei eu quero dizer que sei, mesmo, que não há ninguém melhor do que eu para, sentado na cadeira do prefeito, iluminar a inteligência dos cidadãos, para conduzi-los ao bem comum, que só eu conheço. Os cidadãos não têm conhecimento, e tampouco formação intelectual, para saber o que lhes é benéfico e o que lhe é maléfico; só eu tenho. Estão os cidadãos desorientados. E quem poderá orientá-los? Eu, o único ser neste mundo capaz de exercer à perfeição o papel de governante municipal. 

ENTREVISTADOR: O que faz o senhor, senhor candidato, pensar que os cidadãos estão desorientados e que precisam de um guia?

ZERO À ESQUERDA: A experiência me ensinou…

ENTREVISTADOR: A experiência de quem?

ZERO À ESQUERDA: Minha. A experiência me ensinou que apenas homens superiores conhecem as coisas do mundo e sabem o que é bom para todo mundo. E eu sou um dos raros homens superiores que, humildes, se dispõem, por amor à humanidade, a descer do suntuoso edifício que por direito divino ocupam ao chão dos homens comuns, que são tolos, estúpidos, imbecis e idiotas a ponto de não saberem o que lhes é bom e lhes faz bem, e se dignarem a lhe dedicar momentos preciosos de sua existência. Sacrificamos os homens superiores horas, dias, meses, anos, de nossa vida para administrarmos as coisas que os homens comuns produzem; fossem estes guarnecidos de bom-senso e inteligência aqueles seriam dispensáveis; e eu estou incluído no grupo daqueles, daí ser eu imprescindível ao governo desta cidade, à administração de seus recursos, que, nas mãos de outro homem, seriam mal empregados, e à condução do povo ao que é bom e correto. E os cidadãos, de tão estúpidos, não merecem a minha atenção; eu, todavia, bondoso, generoso, homem de espírito superior (um ser que, não sendo prepotente e presunçoso, revela pendores, que me são inatos, caridosos e generosos), disponho-me, sob as ordens de minha consciência benigna, a sacrificar, para atender àqueles que não merecem a minha atenção, os cidadãos desta cidade, muitos dias da minha vida.

ENTREVISTADOR: Fale-nos, senhor candidato, de algumas das suas propostas de governo.

Aqui encerramos a primeira parte da entrevista. Estamos, nós do hebdomadário digital Zeca Quinha Nius, o maior e melhor de todo o orbe terrestre, tão atarefados, que, além de nos dedicar à transcrição da entrevista que o senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito, concedeu-nos, temos de nos ocupar com a nossa maquiagem, o corte de nossos cabelos e unhas, a leitura do horóscopo (tarefa inescapável, pois todos os jornalistas do Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre, têm um, no mínimo um, signo), o nosso descanso, as nossas horas de lazer e as nossas refeições. Os leitores, que se contam na casa das centenas de bilhões, do nosso hebdomadário digital entendem, sabemos, os percalços com os quais nos deparamos neste ano de pandemia epidêmica, que provocou um pandemônio infernal e escatológico inédito e jamais sucedido, durante todos os anos que se seguiram ao Big Bang, no orbe terrestre. Certos da compreensão dos leitores, prepararemos a segunda parte da transcrição da entrevista que o senhor Zero à Esquerda concedeu-nos e em breve a publicaremos, aqui, mesmo, no Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre e de todos os outros orbes.

Entrevista com o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito – parte 5 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

Satisfeita a gula, o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu) regressou à sala de entrevistas, onde o entrevistador, apático, seguia a olhar o vazio desde o momento em que da sala retirara-se o senhor Nulo da Silva. O senhor Nulo da Silva sentou-se na cadeira que lhe estava reservada, e aguardou o entrevistador emergir da letargia em que mergulhara minutos antes. Decorridos alguns minutos, o entrevistador, imóvel, alheado, a olhar o vazio, o senhor Nulo da Silva levantou-se, foi até ele, e sapecou-lhe um tapa na nuca:

NULO DA SILVA: Acorde, besta!

ENTREVISTADOR: Hã! Quê! É o senhor, senhor candidato?

NULO DA SILVA: Não, bronco. É o papa Chiquinho, o metido à pobretão.

ENTREVISTADOR: Onde estávamos?

NULO DA SILVA: Você estava aqui; eu, na outra sala, fazendo uma boquinha.

ENTREVISTADOR: Não… É… Quero dizer… A entrevista. Em que ponto estávamos, na entrevista?

NULO DA SILVA: No ponto em que moí o seu cérebro você com a revelação de verdades que você não deseja conhecer.

ENTREVISTADOR: Então…

NULO DA SILVA: Então, eu darei as cartas neste atual trecho da entrevista, pois já vi que você está num estado de total alheamento mental, e não tem condições de apresentar-me uma pergunta sequer.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Falávamos da política dos políticos. Que frase esclarecedora! Os políticos, como eu dizia, senhor perguntador, entregam ao povo muitas benesses, após, claro, não podemos ignorar, e nem esquecer, surrupiarem-lhe boa parte da riqueza que ele cria com o suor do próprio rosto. Décadas após décadas, geração após geração, enfia-se, na cabeça do povo, idéias, que lhe debilitam a fibra, e o fazem abandonar o desejo de viver, plenamente, a vida, e a perder a vontade de lutar em defesa de seus próprios interesses. E como se faz isso? Com a inserção sub-reptícia, sorrateira, de valores que lhe são prejudiciais, persuadindo-o a adotá-los, e contra ele mesmo, contra seu bem-estar, até criar um consenso, que é falso, artificial, acerca de todas as questões, em especial da moral, que deixa de ser a antiga, a milenar, a universal, e passa a ser a nova, a moderna, a politicamente correta, enfim, a comunista. Enfim, o resultado de tal política é a acefalia do povo, que perde critérios para avaliar as coisas da vida; cria-se, assim, uma cultura amorfa, tola, desprovida de substância moral.

ENTREVISTADOR: É tão simples assim?

NULO DA SILVA: Não. Aparentemente é simples. Mas não é, daí a necessidade de muita paciência, e décadas de ininterrupta propaganda comunista, que nem sempre está abertamente apresentada como comunista, mas como democrática, em defesa da justiça social, e dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos homossexuais, e hostis ao Ocidente, apresentadas de modo a impedir que os ocidentais percebam que são o alvo dos ataques e a induzi-los a adotar os novos valores como se fossem seu próprios, e não dos seus inimigos.

ENTREVISTADOR: E…

NULO DA SILVA: E, também, com a ampliação dos poderes do Estado. Aumenta-se o setor público, contratando muita gente, inchando o Estado, que desperdiça bilhões e bilhões de recursos públicos; e para manter a burocracia estatal em pleno funcionamento, isto é, desperdiçando dinheiro público, cobra-se impostos, e muitos impostos, do povo, que sempre paga a conta.

ENTREVISTADOR: Ciente de que a ampliação dos gastos públicos prejudica o povo, o senhor os reduzirá?

NULO DA SILVA: Você despertou, mas ainda continua a ser uma anta, a mesma de sempre.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Claro que não reduzirei os gastos públicos. Se eu o fizer perderei apoio político daquelas organizações que me sustentam e me apóiam.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Você ainda não despertou. Sua voz, tatibitate. Uma das ferramentas, e muito eficaz, de opressão é a socialização das pessoas, forçada, diga-se, desde os primeiros anos escolares. Os alunos não aprendem matemática, língua portuguesa, história; aprendem a socializar-se, e jamais a respeitar a sua própria individualidade. Censura-se a introspecção; louva-se a extroversão. Ser um indivíduo, único, autêntico, é censurável; todos têm de pertencer ao grupo, submeter-se ao grupo.

ENTREVISTADOR: Eu nunca havia pensado nisso.

NULO DA SILVA: Não me surpreende. E digo: O povo só aprende a ouvir discursos, e jamais a avaliá-los, e tampouco é instruído a conceber o que se passa nos bastidores, e a detectar identidade entre o teor dos discursos e a prática daqueles que discursam.

ENTREVISTADOR: É verdade.

NULO DA SILVA: Enfim, parece-me, o seu cérebro está adquirindo consistência. E digo: O assassinato de reputações de pessoas honestas, de fibra, de moral ilibada é uma arma extraordinariamente poderosa; destrói quem tem coragem, e desmoraliza quem o apóia e o defende. É tiro e queda.

ENTREVISTADOR: Sei…

NULO DA SILVA: Você ainda está tonto. Metade de seu cérebro continua a ser inteiramente de paçoca; a outra metade começa a adquirir consistência. Há… Direi as últimas palavras deste trecho da nossa entrevista, para, depois de mais uma boquinha, encerrarmo-la.

ENTREVISTADOR: Já estamos no final?

NULO DA SILVA: Esta é a penúltima parte; a próxima será…

ENTREVISTADOR: A última?

NULO DA SILVA: Gênio! O seu cérebro está funcionando. Digo, para encerrarmos esta parte da entrevista: Consultarei o povo só quando eu tiver a certeza de que ele me apoiará em minhas políticas; do contrário, sancionarei uma lei, que atende os meus interesses e os daqueles que me financiam e me sustentam, de modo que o povo jamais saiba o que fiz; e para ser bem-sucedido, conto com a mídia, que é chapa-branca. Outro ponto muito importante, essencial para a manutenção do meu poder, e da classe política, é conservar o simulacro de debate, de oposição entre eu e meus adversários. A oposição entre eu e eles se passa no proscênio de um teatro. E o que se passa nos bastidores? Só quem está lá sabe. Há unidade ideológica na pluralidade de partidos. O povo não sabe identificar a essência dos partidos políticos; deles só vê os logotipos e as siglas, e dos políticos ouve os discursos; e assiste às propagandas. E para arrematar: Eu sou sincero. Se não gosta o povo de um político sincero, que vote nos insinceros, que implementarão as mesmas políticas que eu disse que irei implementar. Meus adversários dizem que irão fazer o oposto do que farei, mas farão o mesmo. Vote no Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo PEIDEI – mas não fui eu. Para muita gente, votar no Nulo é o mesmo que jogar o voto na lata de lixo. Cá entre nós, é preferível jogar o voto na lata de lixo do que na rede de esgoto.


Nota: O senhor Nulo da Silva levantou-se da cadeira, deu um tapa na nuca do entrevistador, então petrificado, tirando-o de sua imobilidade, e puxou-o, pelas mãos, levantando-o. E ambos rumaram, o senhor Nulo a gargalhar e o entrevistador a rir constrangido, para a sala contígua, para um lanchinho.

*

Publicamos o último trecho da entrevista que concedeu-nos o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu):

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, para encerrarmos a nossa entrevista, fale-nos, em mais detalhes, da política de segurança à qual o senhor fez referência enquanto degustávamos do comes-e-bebes.

NULO DA SILVA: Eu o farei, e de muito boa-vontade.

ENTREVISTADOR: Fique à vontade.

NULO DA SILVA: Já estou. A violência é um dos maiores males que assolam a nossa sociedade. Os índices de violência, no Brasil, são elevadíssimos, um dos maiores do mundo. E é alto, também, a taxa de homicídios.

ENTREVISTADOR: De aproximadamente trinta assassinatos para cada grupo de cem mil habitantes, por ano.

NULO DA SILVA: Exatamente.

ENTREVISTADOR: É uma das maiores taxas do mundo.

NULO DA SILVA: Exatamente.

ENTREVISTADOR: E nada se faz para reduzi-la.

NULO DA SILVA: Você, perguntador de araque, me deixará responder à pergunta que você me fez? O entrevistado é você, ou eu?

ENTREVISTADOR: Desculpe-me, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Não desculpo, não. E feche a matraca. E deixe-me responder à pergunta. As taxas de homicídios, no Brasil, aumentam ano após anos, e o governo não implementa políticas para reduzi-las. Quando muito, põe em prática uma política para inglês ver. E a mídia enaltece-se os políticos que a implementam. Mas de efetivo nada ocorre. São apenas peças de propaganda. Então, me perguntei: O que poderei fazer para reduzir os índices de assassinatos nesta cidade? E concebi um projeto perfeito: O agendamento de assaltos.

ENTREVISTADOR: Agendamento de assaltos?

NULO DA SILVA: Sim.

ENTREVISTADOR: Em que consiste?

NULO DA SILVA: Consiste num tiro na sua testa, se você não parar de me interromper a todo instante. Explico: Muitos assassinatos ocorrem durante assaltos às residências, ou roubos à mão armada, na rua. Então, sancionarei uma lei que obrigará todo cidadão a afixar uma placa, no muro de sua residência, com os seguintes dizeres: Os moradores desta casa estarão ausentes, no dia (e informa-se o dia), de tal hora até tal hora (e informa-se a hora).

ENTREVISTADOR: É absurdo!

NULO DA SILVA: Por quê? Evitando-se o confronto entre assaltantes e assaltados reduziremos as taxas de homicídios, que ocorrem, quase sempre, quando os assaltados reagem, e, consequentemente, irritam os assaltantes, que, por sua vez, perdem o auto-controle, e matam os assaltados.

ENTREVISTADOR: Absurdo, senhor candidato!

NULO DA SILVA: Que absurdo, o que! É uma fórmula mágica, cujo resultado será a redução significativa dos homicídios.

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: Outro ponto da minha política de segurança consiste em permitir que os cidadãos tenham o direito de optar em não ter as suas residências assaltadas; para tanto, terão, quem assim o desejar, de pagar à prefeitura uma taxa de Direito ao Não-assalto.

ENTREVISTADOR: Quê! Absurdo!

NULO DA SILVA: Absurda é a sua carência de sabedoria política.

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: Cale a boca, desgraçado! Os cidadãos que não desejarem participar desta política, que visa a redução dos índices de violência, terão de se dirigirem à Secretaria de Combate à Insegurança, e requererem o Certificado de Cidadão Isentos de Assaltos.

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: Alguns detalhes desta proposta, que estão sendo discutidos pelos meus assessores: Um cronograma de assalto: Ou por sorteio; ou por seleção das residências: por exemplo: na segunda-feira, algumas casas, todas de números ímpares; na terça-feira, casas de números pares; e assim, por diante, alternativamente. Assim, haverá ordem.

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: Todos os cidadãos têm o direito de serem agraciados com a presença de assaltantes nas suas residências.

ENTREVISTADOR: Quê! Absurdo!

NULO DA SILVA: Poderemos, também, subsidiar a ida dos cidadãos às pizzarias, aos restaurantes, aos shoppings na hora do assalto. Assim, os moradores ausentes de suas residências, os assaltantes poderão invadi-las sem que ocorra um confronto, que poderá resultar na morte dos assaltados, não por ação dos assaltantes, mas devido à ataques cardíacos. Além do mais, as pessoas, ao não passarem pela terrível experiência de serem assaltadas e terem para si apontadas o cano de revólveres, não desenvolverão nenhum transtorno mental, não sofrerão de depressão, não desenvolverão síndrome do pânico…

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: Não me interrompa. A prefeitura irá economizar um bom bocado de dinheiro público com a minha política de segurança.

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: É uma política de igualdade. Ora, muitas pessoas têm as suas residências invadidas inúmeras vezes; outras, nunca. Então, com a minha política de agendamento de assaltos às residências todas as pessoas terão as suas residências invadidas por assaltantes. Haverá igualdade perante a lei. É a igualdade de oportunidades. Há pessoas que vivem oitenta, cem anos, e nunca têm a oportunidade de terem as suas residências invadidas…

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: Não me interrompa, besta! Com esta política mato dois coelhos com uma cajadada só. E farei uma exigência aos bandidos: Que eles não abordem, de arma em punho, ou faca, ou qualquer outro instrumento de trabalho, pessoas, nas ruas, pois elas poderão se assustar, ou reagir, e assim frustrarem-lhes o propósito, e provocarem-lhes uma reação violenta, que poderá redundar na morte de alguém. Normalmente, nestes casos, são os assaltados que morrem, mas pode ocorrer, e raramente ocorre, uma fatalidade indesejada, e o assaltante vir a ser morto.

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: Para encerrar esta questão: Todos os assaltantes terão, segundo a minha política, direitos trabalhistas assegurados. Terão carteira de trabalho assinada, registro no INSS, aposentadoria por periculosidade. Todos eles terão direitos trabalhistas assegurados por lei.

ENTREVISTADOR: Absurdo, senhor candidato! Absurdo! A sua política é estupidamente absurda! Bandidos terão direitos trabalhistas assegurados por lei!?

NULO DA SILVA: E por que não? Se os políticos os têm, por que os bandidos não podem tê-los?

ENTREVISTADOR: Já ouvi muitos absurdos na minha vida, mas essa é demais!

NULO DA SILVA: Já está na hora de encerramos a entrevista, não, senhor perguntadorzinho de cérebro de minhoca?

ENTREVISTADOR: Sim. Sim, senhor candidato. Vamos ao ping-pong.

NULO DA SILVA: Ping-pong?

ENTREVISTADOR: É. Ping-pong. Eu digo uma palavra, e para ela o senhor dá outra palavra. Dirá o que o senhor prefere, gosta. Por exemplo: Eu digo: Cachorro; e o senhor diz: Dálmata; uma espécie de cachorro que o senhor, senhor candidato, aprecia.

NULO DA SILVA: Entendi.

ENTREVISTADOR: Posso começar o ping-pong?

NULO DA SILVA: Pode.

ENTREVISTADOR: Esporte.

NULO DA SILVA: Truco.

ENTREVISTADOR: Truco é esporte?

NULO DA SILVA: É.

ENTREVISTADOR: Está bem… Livro.

NULO DA SILVA: Um que se encaixe perfeitamente no vão entre o chão da cozinha e o pé quebrado da mesa.

ENTREVISTADOR: Pintor.

NULO DA SILVA: O Carlos, meu vizinho. Ele pintou toda a minha casa, e de graça. É um amigão. Se eleito, eu arrumarei para ele um emprego na prefeitura.

ENTREVISTADOR: Escritor.

NULO DA SILVA: Eu. Eu sei escrever.

ENTREVISTADOR: Encerro o ping-pong.

NULO DA SILVA: Já?

ENTREVISTADOR: Já. Senhor candidato, foi um prazer entrevistá-lo.

NULO DA SILVA: Papo furado! Você não teve nenhum prazer em entrevistar-me, imbecil. Você está bem diante de meus olhos, estendendo-me a mão para um cumprimento, exibindo-me o seu semblante, que transparece raiva contida. Você deseja quebrar-me o nariz com um soco, eu sei. Deixe de fingimento, vagabundo!


Nota: Engalfinharam-se o entrevistador e o senhor Nulo da Silva. Socaram-se. Pontapearam-se. Arrancaram-se os cabelos um os do outro. Foi uma luta de gladiadores romanos. Gastamos mais de três horas para apartá-los. E todos carregamos hematomas em todo o corpo. Foi um espetáculo de doer!

Entrevista com o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito – parte 4 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

Publicamos mais um trecho da entrevista que nos concedeu o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu).

ENTREVISTADOR: Qual será a sua política educacional, senhor candidato, se eleito prefeito?

NULO DA SILVA: Melhorarei as estatísticas.

ENTREVISTADOR: O senhor pode esclarecer… Melhorar as estatísticas… O que o senhor quer dizer com melhorar as estatísticas?

NULO DA SILVA: Melhorar as estatísticas quer dizer melhorar as estatísticas.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Não se irrite, senhor entrevistador. Eu queria irritar você. E você se irritou. Mas não se irrite. Melhorar as estatísticas!? O que quer dizer melhorar as estatísticas? A sua pergunta diz respeito à educação, então… Pense, burro asnático. Pense. Então, as estatísticas referem-se à educação. E quais são as estatísticas na área educacional que se costuma divulgar? A da evasão escolar, a repetência e as avaliações.

ENTREVISTADOR: E como o senhor irá melhorar tais estatísticas?

NULO DA SILVA: Que falta de imaginação, jornalistazinho lobotomizado de cérebro repleto de caraminholas progressistas e patranhas esquerdopatas! Sabe-se, é público e notório: No Brasil são altas as taxas de evasão escolar e a de repetência, e baixas as notas dos alunos nas avaliações de Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia; enfim, em todas as disciplinas, o desempenho dos alunos brasileiros é sofrível. E não sou eu quem digo isso. São institutos nacionais e internacionais de avaliação.

ENTREVISTADOR: E o que o senhor propõe para alterar o cenário educacional brasileiro?

NULO DA SILVA: Farei o mais fácil, que é mais visível, e ao que políticos, intelectuais e mídia dão destaque, isto é, reduzirei as taxas de evasão escolar, e a de repetência, e melhorarei o desempenho dos alunos nas sabatinas, como se dizia antigamente.

ENTREVISTADOR: E como será a política?

NULO DA SILVA: Você não tem imaginação, mesmo. Como se reduz a taxa de evasão escolar? Como se reduz a taxa de repetência? Como se melhora o desempenho dos alunos nas provas? Para a primeira pergunta, respondo: Todos os professores serão obrigados a dar, nas aulas, como presentes todos os alunos, e quando eu digo todos os alunos incluo os ausentes. Para a segunda pergunta, respondo: Todos os professores serão obrigados a fazer tudo ao seu alcance para evitar a repetência de alunos.

ENTREVISTADOR: Irão ministrar-lhes aulas de reforço?

NULO DA SILVA: Não. Pra quê? Os professores entregarão duas folhas, no dia das provas, para os alunos, uma, com as perguntas; outra, com as respostas. E orientará os alunos. Para que ninguém desconfie dos professores, que usarão de tal artifício, os alunos, respondidas as perguntas, entregarão as duas folhas aos professores, que queimará as folhas que têm as respostas.

ENTREVISTADOR: Haverá suspeitas, se todos os alunos responderem corretamente todas as questões.

NULO DA SILVA: Que falta de imaginação, senhor entrevistador. Eu já pensei nisso. O professor ou combinará com os alunos, orientando-os a escreverem, para duas ou três perguntas, respostas errada, a critério de cada aluno, ou, na folha de respostas, incluirá algumas respostas erradas, não as mesmas para todos os alunos; como esta opção é muito trabalhosa, embora mais engenhosa do que a primeira, é provável que adotemos a primeira.

ENTREVISTADOR: E se algum aluno contar para os pais…

NULO DA SILVA: Ai! Meu Deus do céu! Dai-me paciência. Tenho de explicar tim-tim por tim-tim para esta anta! Nenhum aluno dará com a língua nos dentes. Com tal pergunta você prova-me que desconhece o que se passa nas salas-de-aula. Os alunos formam um público cativo dos professores, que não são por eles questionados, e injetam-lhes cabeça adentro todas as idéias que desejam. E se os alunos questionarem o professor, este lhes dirá: “Querem fazer uma prova bem difícil para tirar zero? E vocês terão de apresentar o boletim para seus pais, que… O que os seus pais dirão para vocês, se abrirem o boletim, e só verem notas zero?” Qual aluno, ao ouvir tal ameaça, ousará desafiar o professor, senhor entrevistador? E, antes que você me pergunte, os pais não verão nada de estranho ao ver só notas azuis, e nenhuma vermelha, nos boletins escolares de seus filhos; eles abrirão um sorriso de felicidade, de uma orelha à outra, contentíssimos, certos de que seus filhos são estudiosos, e têm futuro brilhante, e espalharão a notícia nos quatro cantos do universo. E os alunos irão de uma série para a outra, e para a outra, e para a outra, e, após longa ornada estudantil, serão agraciados com o tão suado diploma. O que eles aprenderão? Nada. Todavia, estarão felizes, pois têm diploma para ostentar. E quem deseja saber o que os professores ensinaram e o que os alunos aprendem? Felizes os alunos, que ganharão diploma, os professores que veem diplomados os seus pupilos, e os pais, olhos brilhando de alegria, o diploma à mão dos filhos. E a harmonia está estabelecida. Felizes, os pais nada encontrarão de errado. E por que encontrariam algo de errado nos seus “filhos estudiosos”? Ocupados com os seus afazeres diários, trabalhando do nascer até o pôr do sol para ganhar o dinheiro para comprar o arroz-e-feijão de todo santo dia, e sendo que muitos dentre eles são analfabetos e semianalfabetos, não se ocuparão em pôr à prova seus filhos.

ENTREVISTADOR: Muito maquiavélico.

NULO DA SILVA: Grato!

ENTREVISTADOR: E quanto à terceira pergunta: Melhorar o desempenho dos alunos.

NULO DA SILVA: As respostas que dei às duas primeiras respondem à terceira.

ENTREVISTADOR: E se os alunos participarem de avaliações nacionais e internacionais…

NULO DA SILVA: Proibirei as inscrições de alunos do sistema de educação municipal em tais avaliações, ou, então, apresentarei as notas dos alunos, os boletins, para persuadir os representantes dos organismos nacionais e internacionais do alto desempenho dos alunos. Usarei de todo o meu arsenal de floreiros oratórios, que é inexaurível, para persuadi-los do que digo.

ENTREVISTADOR: E se não os persuadir?

NULO DA SILVA: Caso eu não possa contornar a situação, e evitar a inscrição de alunos deste município, nas avaliações que não estão sob o meu controle, terei de improvisar um artifício, ou selecionar para as provas apenas os alunos que escaparam da influência da minha política, e apresentá-los às provas, dando-os como espécimes comuns.

ENTREVISTADOR: E qual objetivo o senhor pretende atingir com tão nefasta política?

NULO DA SILVA: Qual objetivo, não; quais objetivos, sim. E por que você me pergunta, em tom de censura e indignação, que objetivo pretendo atingir? Atingirei dois objetivos, que por outros meios outros políticos já os atingiram.

ENTREVISTADOR: Quais?

NULO DA SILVA: Emburrecer e idiotizar o povo; e granjear reputação de político competente e dedicado à instrução do povo.

ENTREVISTADOR: É mentira que outros políticos já tenham atingido tal objetivo.

NULO DA SILVA: Mentira, anta? Você, educado, ou melhor é dizer deseducado?, você, já emburrecido e idiotizado, não está em condições de avaliar o mal que a você fizeram, nas escolas.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Vamos a um lanchinho, para recompor as energias cerebrais. Antes, porém, digo: Por que eu instruiria o povo? Por que eu iria oferecer ao povo ferramentas para ele usá-las, depois, contra mim? Para que torná-lo culto, e capaz de pensar com a própria cabeça? Para ele me contestar, e, consequentemente, pôr-me em maus lençóis? Olhe para a minha testa. Nela está escrito idiota? Os políticos emburrecemos o povo para dominá-lo.


Nota: O entrevistador levantou-se, abruptamente, e retirou-se, a passos pesados, da sala, e bateu a porta. E sorria o senhor Nulo da Silva…

*

Após o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu), degustar do lanchinho, e o entrevistador regressar à sala, retomamos, após alguns contratempos, que contornamos não sem dificuldades, a entrevista:

ENTREVISTADOR: Dadas as suas idéias, que são absurdas, acerca da educação, e o seu comentário acerca dos males que os políticos já praticam por outros meios que não os que o senhor propõe, explique-me, senhor candidato, do seu ponto de vista de político tarimbado, como o senhor diz, a política que se promove, no Brasil, política que, diz o senhor, mas não com as palavras que usarei, só está disseminando o mal.

NULO DA SILVA: Uma frase, que resume toda a política brasileira: Os políticos brasileiros, à força, arrancam, com a mão esquerda, o pão das mãos dos brasileiros, e, com a direita, dão-lhes, generosamente, segundo eles, migalhas.

ENTREVISTADOR: Explique-se, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Explico-me, senhor entrevistador, e de muito boa vontade. Os políticos, ao cobrar impostos, e muitos impostos, dos brasileiros, tiram-lhes das mãos o dinheiro que eles, brasileiros, ganharam com o suor do próprio rosto.

ENTREVISTADOR: Mas os políticos oferecem direitos…

NULO DA SILVA: Que direitos o quê!? Você não entende de política coisíssima nenhuma, asno.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Quais direitos têm os brasileiros? Nenhum. A liberdade, que é o maior bem de que os brasileiros gozam, foi conquistada, após muitas lutas, muitas guerras. É fruto do esforço de muita gente, que, nos últimos milênios, sacrificaram a própria vida para conquistá-la. Ela não veio de bandeja, não. Ninguém presenteou os humanos com a liberdade. E os brasileiros não gozamos da liberdade porque políticos ma concederam. A liberdade foi uma conquista. A liberdade não é um direito; é uma conquista, e tem de ser defendida, diuturnamente. Todos que prezam a liberdade de que gozam têm de se manter vigilantes. E quanto aos direitos…

ENTREVISTADOR: E os direitos que os políticos oferecem ao povo não são conquistas? O povo não os conquistou após muita luta?

NULO DA SILVA: Quais direitos?

ENTREVISTADOR: Direito à educação gratuita, direito á saúde gratuita, direito à creche…

NULO DA SILVA: Direitos!? Não são direitos!? Estas idéias, as de direitos que as pessoas têm, são ferramentas, que os políticos manejam para pôr todo o povo no colo deles…

ENTREVISTADOR: Absurdo!

NULO DA SILVA: Absurdo! Se você não tivesse a cabeça cheia de caraminholas e carambolas, e de paçoca, entenderia o que eu disse.

ENTREVISTADOR: Explique-se, então, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Explicar-me-ei, senhor entrevistadorzinho de metade de meia-tigela.

ENTREVISTADOR: Senhor, candidato…

NULO DA SILVA: Eu disse, no início da retomada da nossa entrevista, após você, ofendidinho, sair, nervosinho, daqui, bater a porta, irritadinho, e regressar, calminho…

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Eu disse que os políticos tiram, com a mão esquerda, o pão das mãos do povo, e, depois, com a cara mais lavada do mundo, entregam-lhe, com a mão direita, migalhas. Ora, o que eu quis dizer com isso? Os políticos cobram impostos, retirando das mãos das pessoas o dinheiro delas, dinheiro que elas ganharam com o suor do próprio rosto, e criam normas absurdas, que dificultam a vida de todos; além disso, disseminam, com as suas políticas, valores que vão de encontro aos mais caros valores do povo. Ouça, atentamente, jornalistazinho de meia-tigela de cérebro de caramujo…

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, seja respeitoso…

NULO DA SILVA: Esforço-me… Esforço-me. É quase impossível respeitar uma pessoa, você, que tem cérebro de muar…

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, não falte com a civilidade…

NULO DA SILVA: Você não fala; você relincha, orneja, zurra…

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Não fique nervosinho, mamífero quadrúpede ungulado.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, por favor. Mantenha a compostura.

NULO DA SILVA: Você ouviu-me, atentamente, senhor entrevistador? Eu disse que os políticos disseminam valores que vão de encontro aos valores do povo. Entendeu? Eu disse que “vão de encontro aos”, e não “ao encontro dos”.

ENTREVISTADOR: Entendi, senhor candidato, prossiga.

NULO DA SILVA: Os seus zurros ferem os meus ouvidos sensíveis.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Estou acostumado a ouvir Mozart, Beethoven, Berlioz, e agora sou obrigado a ouvir um bucéfalo… 

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Se você fosse descendente do cavalo do grande Alexandre, rei da Macedônia, eu não reclamaria.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Se Incitatus, senador romano, fosse seu ancestral…

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, não me ofenda.

NULO DA SILVA: A história registra os nomes de Bucéfalo e Incitatus, dois nobres e valorosos membros da sua espécie, senhor entrevistador.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Vamos aos finalmentes. Já perdemos muito tempo… Os políticos brasileiros, eu já disse, e repito, empobrecem as pessoas ao cobrarem-lhes impostos, reduzindo-lhes, portanto, o poder aquisitivo.

ENTREVISTADOR: Mas os políticos restituem o que lhe s tirou por meio de impostos…

NULO DA SILVA: Restituem, é, besta quadrada? Em primeiro lugar: Os políticos têm a permissão do povo para lhe cobrarem tantos impostos? Têm? Não têm. Em segundo lugar: O que os políticos restituem ao povo é apenas uma pequena parcela do que lhe tiraram, à força, à força da lei, que oprime, oprime, sim, afinal, quem sanciona as leis? São os políticos. A maior parte do dinheiro que os políticos retiram, à força, das mãos do povo, perde-se a burocracia estatal municipal, estadual e federal. É, ou não é assim? Os impostos, no Brasil, são empregados para se atingir dois propósitos: empobrecer o povo; e elevar o poder dos políticos, que usam do dinheiro que retirou ao povo para implementar políticas favoráveis aos políticos.

ENTREVISTADOR: E os direitos…

NULO DA SILVA: Meu Deus do céu! Você não pensa… Aliás, você pensa com a cabeça de um asno. Existe almoço grátis? De onde os políticos tiram o dinheiro que empregam na oferta de “direitos” ao povo? Do bolso do próprio povo, das mãos do próprio povo, e sem pedirem-lhe permissão.

ENTREVISTADOR: Mas…

NULO DA SILVA: Mas você tem de retirar-se desta sala, usar o pouco que resta a você de massa cinzenta dentro da sua cachola oca, do seu bestunto vazio, e… Diga-me: Como se mantêm creches públicas? Com dinheiro de impostos. Como se mantêm escolas públicas? Com dinheiro de impostos. Como se mantêm hospitais públicos? Com dinheiro de impostos. Como se… Entendeu? Não preciso apresentar outros exemplos, preciso? A opressão, só para encerrar esta etapa da entrevista, e eu quero fazer outro lanchinho, a opressão, dizia eu, não se faz com canhões de tanque de guerra apontados para a cabeça de todos os cidadãos, não, senhor perguntador. Se faz emburrecendo e idiotizando os cidadãos. E onde se idiotiza e emburrece os cidadãos? Nas escolas públicas, e não apenas nas públicas. Os políticos brasileiros oprimem os cidadãos brasileiros, perguntadorzinho de araque. Enfie isto não sua cabeça, asno.


Nota: O senhor Nulo da Silva levantou-se, altivo, da cadeira, e caminhou, como um guerreiro romano após uma batalha vitoriosa, e foi até a sala de refeições. Enquanto isso, o entrevistador, estupidificado, fitava, como um tolo, o vazio…

Entrevista com o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito – parte 3 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

Todos de barriga cheia, de todos satisfeita a gula (e o senhor Nulo da Silva comeu como um frade), serenados os ânimos (para tranquilizar a alma nada melhor do que um banquete opíparo), pudemos retomar a entrevista. E o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu), antecipando-se ao entrevistador, respondeu a uma pergunta, que ele não lhe fez:

NULO DA SILVA: Os políticos sabemos (aqueles que sabem, obviamente; muitos, ignorantes e incultos – a maioria – ecoam, acriticamente, lugares-comuns, que os ventos lhes levam até a cabeça oca, que não pode, devido à sua ocacidade, impor-lhe resistência, e oscilam, caoticamente, de um lado para o outro) os políticos sabemos, prossigo, quais políticas beneficiam o povo, enriquecem-lo, quais contribuem para a sua riqueza cultural e intelectual, e as evitamos, melhor, não as implementamos, e torcemos e retorcemos a realidade, e apresentamos como favoráveis ao povo aquelas políticas que o prejudicam, enormemente.

ENTREVISTADOR: O senhor pode dar-nos alguns exemplos?

NULO DA SILVA: Se posso!? Milhares de milhões de exemplos nosso dar a você e a quem mais mos pedir. Em síntese, digo: Todas as políticas, que, dizem os políticos, beneficiam o povo, na verdade o prejudicam. Se o povo não acolhesse os discursos dos políticos como reproduções fiéis das intenções deles, mas apenas como ferramentas de persuasão, que nenhuma relação têm com os reais propósitos de quem os pronunciam, não seria tão facilmente ludibriado por quem só quer lhe retirar das mãos as riquezas. Um exemplo clássico: Passagens de ônibus gratuitas para velhinhos, ou idosos, ou, como é de bom tom dizer politicocorretamente, as pessoas da terceira idade. Políticos adoram se apresentar como benfeitores do povo quando estão a prejudicá-lo. Para oferecer aos velhinhos encanecidos, de pele enrugada, despelancados, flácidos e desmiolados…

ENTREVISTADOR: O senhor está sendo desrespeitoso com os idosos, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Vá tomar banho no Tietê, senhor perguntador. Desrespeitoso é a sua avó. Os políticos prejudicam, enormemente, o povo, e, depois, e ao mesmo tempo, oferecem-lhe uma ajudinha, que em nada o favorece, e apresentam-se, nas propagandas, como benévolos governantes, generosos benfeitores, idôneos bom-samaritanos, pessoas de alma impoluta.

ENTREVISTADOR: E os idosos não são beneficiados ao receberem passagens de ônibus gratuitas tendo-se em vista a aposentadoria que recebem, todo mês?

NULO DA SILVA: Você é uma anta, e daquelas bem quadradas. Vá ser burro lá onde Judas perdeu as botas, cabeça de ostra desmiolada! Você já se perguntou porque o poder aquisitivo das aposentadorias é tão baixo? Os velhinhos, pense, bestalhão, empatam boa parte de seus recursos com remédios e cuidados médicos, certo? Pergunto: Qual é a incidência de impostos nos remédios e nos serviços médicos?

ENTREVISTADOR: O governo administra farmácias populares…

NULO DA SILVA: Raciocínio típico de uma besta quadrada, e daquelas bem quadradas. Você é uma anta besta elevada à décima potência.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: O governo encarece os remédios e os serviços médicos, dificultando, portanto, a vida do povo, e atribui aos capitalistas todos os males que eles, políticos, produzem, e, depois, oferecem-lhe alguns beneficiozinhos, e apresentam-se como benfeitores, pessoas de boa índole, de bom coração, coração de ouro, e protetores, impedindo-o que ele caía nas garras dos gananciosos empresários, sempre os malditos empresários, no caso, os da indústria farmacêutica.

ENTREVISTADOR: Mas…

NULO DA SILVA: Mas você tem de calar sua boca, e deixar-me concluir o meu pensamento acerca das passagens de ônibus gratuitas.

ENTREVISTADOR: Fique à vontade.

NULO DA SILVA: Já estou. Dizia eu: Os políticos impõem aos empresários do setor de transporte de pessoas normas que os impedem de oferecer ao povo serviços de boa qualidade, e cobram-lhes impostos, e mais impostos, e mais impostos, e não apenas deles; cobram muitos impostos dos seus fornecedores de ônibus, peças sobressalentes, combustíveis, e dos mais variados serviços: mecânica, contabilidade, limpeza, e inúmeros outros, e lhes impõem uma legislação trabalhista, que tira-lhes, melhor, arranca-lhes,  os olhos da cara. Assim, impedem que mais empresários invistam no setor, criando uma reserva de mercado para alguns poucos empresários, e grandes empresários, os que têm laços estreitos com os políticos, e estes empresários, ao mesmo tempo que gozam de tal benefício, a inexistência de concorrência, têm de aceitar certas práticas que os impedem de atuar, livremente, no setor, cerceados, pelos políticos, que intervêm nas empresas, em sua liberdade de fazer uso de sua própria propriedade. O resultado de tal aliança é o encarecimento do serviço. E aqui entra, na história, os movimentos sociais, que, hostis, à propriedade privada dos meios de produção e ao lucro, movimentos sociais que almejam destruir o livre-mercado – o pouco que há – e defendem ideologias estatistas, e comunistas revolucionárias, manifestam-se em defesa, ou da gratuidade das passagens de ônibus, se não para todos os passageiros, para os estudantes e para os desparafusados valetudinários da terceira idade, e quando os empresários do setor anunciam o aumento do preço das passagens de ônibus, entram em ação, e partem para o quebra-quebra. E os empresários insistem no amento do preço das passagens, e os manifestantes quebram tudo o que encontram pela frente, e entram em cenas os políticos. Resumo da ópera: Para convencer os empresários a não aumentarem os preços das passagens de ônibus os políticos lhes oferecem subsídios, e eles, os empresários, recuam da política de reajuste de preços, e todos vivem felizes para sempre. Todos, não; quero dizer os empresários, que recebem os subsídios, os políticos, que atuam, em benefício do povo, segundo as propagandas oficiais, protegendo-o da sanha capitalista dos empresários, e os manifestantes, que seguem sendo financiados pelas mesmas pessoas contra quem eles batem-se e os aliados delas. Nesta história, só o povo perde, pois os subsídios que os políticos pagam aos empresários saem do seu, do povo, bolso, e para manter os subsídios os políticos inventam mais alguns impostos, elevam as alíquotas dos já existentes, criam alguns impostos ocultos, aqueles que ninguém vê mas que todo mundo paga, altera a fórmula de cálculo de alíquotas de impostos de modo a elevar a arrecadação.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, o senhor falava da oferta, pelas empresas de ônibus, para os idosos…

NULO DA SILVA: Ai meu Deus do céu! Dai-me paciência, Senhor. Senhor entrevistador, vá ser burro no quinto dos infernos! Peste! Por que Deus deu a você uma cabeça, ô, ameba?

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, esclareça o seu argumento…

NULO DA SILVA: Mas que diabos! Você quer que eu esclareça o que está claro!? Diabos! Pense, peste! Por que os idosos têm direito à passagens de ônibus gratuitas? Dado tudo o que eu já disse, a resposta é óbvia: Os empresários e os políticos são aliados, não leais, claro, pois a aliança é forçada, pois os políticos têm mais poder do que os empresários, afinal, são eles que ditam as regras, afinal, eles têm o poder nas mãos, e os empresários que a eles se aliam caem do cavalo e têm de dançar conforme a música que os políticos tocam, pois estes dependem de subsídios e têm de amansar a ânsia dos políticos por mais intervenção nas empresas e mais regulamentações no setor. E os políticos, agora que os empresários do setor de transporte de pessoas comem-lhes nas mãos, criam políticas sociais para beneficiar, segundo eles, claro, os idosos, isto é, as passagens de ônibus gratuitas para os velhinhos desocupados. E ai dos empresários se eles reclamarem. Se reclamam, os políticos implementam, no setor, regras que os prejudicam, tais como aumento de alíquotas de impostos, inventam impostos, e deles disseminam imagem negativa, de capitalistas inescrupulosos, sórdidos, insensíveis aos sofrimentos dos velhinhos malucos, que, coitados, mal têm dinheiro para comprar o feijão-com-arroz de todo dia.

ENTREVISTADOR: Entendi, senhor candidato. Então o senhor, senhor candidato, irá implementar, no setor de transporte de pessoas, uma política que beneficiará de fato os idosos, e não supostamente; isto é, o senhor reduzirá os impostos para os empresários do setor, criará regras que favoreçam a concorrência…

NULO DA SILVA: Você é burro, demasiadamente burro.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Você é um asno.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Você tem cabeça de lesma e inteligência de caramujo.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: No lugar do cérebro você tem paçoca.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Você é um intelejumento.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Você quer que eu dê um tiro no meu pé? Eu criarei normas para dificultar a vida dos empresários do setor de transporte de pessoas, para encarecer o serviço, e os empresários me solicitarão subsídios, e eu lhos concederei, e estenderei o alcance das garras da prefeitura, e ampliarei os programas de gratuidade de passagens para os velhinhos… Enfim, ganharei dividendos políticos com a desgraça alheia. E serei aplaudido, ovacionado. Para muita gente serei um benfeitor.


Nota: O entrevistador perdeu as estribeiras, e, os nervos à flor da pele, levantou-se da cadeira, e avançou, como um touro desembestado, na direção do senhor Nulo da Silva, que sorria, vitorioso, ao vê-lo tão irritado e descomposto, e enviou-lhe um beijinho de desprezo. Interceptamos o entrevistador, impedindo-o de pular sobre o senhor Nulo da Silva. Foi um Deus nos acuda!

*

Deus acudiu-nos! Não se engalfinharam o entrevistador e o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu). Após contermos o decomposto e enraivecido entrevistador, e persuadirmos o senhor Nulo da Silva a tratá-lo com mais civilidade, pudemos dar sequência à entrevista. E ao senhor Nulo da Silva perguntou o entrevistador:

ENTREVISTADOR: Quais são as políticas, senhor candidato, que, se implementadas, beneficiarão o povo?

NULO DA SILVA: Antes de responder à pergunta, digo: Sei quais são, e não as implementarei, pois elas não me trazem dividendos políticos.

ENTREVISTADOR: Mas, senhor candidato, se o senhor não as implementa, perde apoio popular.

NULO DA SILVA: Esforço-me para não ofender você. Quero, do fundo do meu coração, ver em você uma pessoa inteligente, mas diante de mim só há um asno.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Não implementarei as políticas que beneficiam, de fato e não supostamente, o povo, por duas razões: Não ganho dividendo políticos, isto é, não obterei apoio de outros políticos e organizações que me financiam, e potenciais financiadores; e o povo não tem opções: ou votam em mi, ou em políticos, que se dizem meus adversários, que implementam, mesmo que não o digam com a franqueza com que eu o faço, políticas, não direi semelhantes, idênticas às minhas. O povo não sabe que vota não importa em quem vote, sempre a favor da mesma política, que o oprime. Desviamo-nos da pergunta que você me fez; retomo-a, e dou-lhe a resposta. Eu sei quais políticas beneficiam o povo, e apresento uma pequena lista com elas: redução dos impostos, da burocracia estatal e de regulamentos; respeito à propriedade privada; a criação de mecanismo, na área educacional, que concedam aos professores irrestrita liberdade para, cada qual, criar os seus métodos pedagógicos, e, o mais importante, o essencial, incutir, na cabeça de cada pessoa, o respeito por si mesmo, instigando-o a fazer uso da sua inteligência para seu próprio benefício e da sociedade, em vez de desestimulá-lo a agir por si mesmo, e induzi-lo a jamais tomar uma iniciativa a respeito da sua própria vida e a recorrer ao estado para obter benesses: creche de graça, escola de graça, tratamento médico de graça, remédios de graça, passagens de ônibus de graça, meia-entrada no cinema, e inúmeras outras.

ENTREVISTADOR: E por que o senhor não implementará as políticas que beneficiam o povo, se sabe quais são?

NULO DA SILVA: Eu e muitos políticos sabemos quais políticas beneficiam o povo, mas não as implementamos porque não queremos atirar nos nossos próprios pés. E há políticos que não sabem quais políticas beneficiam o povo, pois são burros e incultos, e, mesmo que sejam intencionados, implementam as políticas que prejudicam o povo, certos, mas estão errados, de que o beneficiarão.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: E entenda o seguinte, senhor entrevistador: Eu, um político, quero o controle da economia, da educação, da cultura, da política, enfim, quero controlar, governar o povo; e para o sucesso do meu projeto, o de governar o povo, tenho de impedi-lo de ser livre, e conheço duas maneiras de obter o que desejo: Os métodos violentos, apontando um canhão de tanque de guerra para a cabeça de cada cidadão; e os métodos suaves, controlando as fontes de informações, as manifestações culturais, e o pensamento e o comportamento de todos via um sistema educacional que a todos emburrece, e dissemina mentiras históricas. Assim, consigo apresentar-me ao povo como um benfeitor; e como benfeitores aqueles que o beneficiam: os empresários, a Igreja, a família, a sociedade.

ENTREVISTADOR: Intelectuais, segundo estudos recentes, e pesquisas, apontam o capitalismo como a causa de injustiças sociais e do aquecimento global, as indústria automobilística como vilã, e a indústria tabagista…

NULO DA SILVA: Não seja tolo, meu amigo. Quem financia as pesquisas? O capitalismo produziu, de 1900 até hoje, riqueza imensurável; todos sabemos que o socialismo produz miséria e sofrimento…

ENTREVISTADOR: Mas o sistema capitalista produz injustiça…

NULO DA SILVA: O capitalismo, melhor, o livre-mercado, não é perfeito; seres humanos o movimentam, então, comete injustiças. É compreensível, mas é o próprio livre-mercado que tem as ferramentas para se corrigir, e não os governos.

ENTREVISTADOR: Mas a família, que é patriarcal…

NULO DA SILVA: Papo furado, bestalhão. A família é o alicerce da sociedade. E todos os políticos sabemos disso. Destrua-a, e estará aniquilada a sociedade, e produzirá o caos, e a convivência entre as pessoas será impossível. E estará instituído o inferno na Terra.

ENTREVISTADOR: E as religiões…

NULO DA SILVA: As religiões! Você foi lobotomizado pelos progressistas.

ENTREVISTADOR: O senhor, senhor candidato, não é progressista, da esquerda? Então…

NULO DA SILVA: Então o que, cara pálida!? Sou progressista e esquerdista por conveniência. Ao defender políticas progressistas e esquerdistas, e confundem-se estas com aquelas, e aquelas com estas, obtenho dividendos políticos, e sobrevivo neste ecossistema onde vivem apenas os mais aptos, isto é, os psicopatas.

ENTREVISTADOR: Mas…

NULO DA SILVA: Mas você tem de assinar o seu atestado de alforria, escravo. Retomando a questão da religião, saiba que não haveria a civilização se não houvesse religiões, o judaísmo, o cristianismo, o islamismo, o xintoísmo, o budismo estão na origem das civilizações. E não condene a Igreja Católica, que erigiu uma civilização, e retirou os humanos de um estado de selvageria, de barbárie, elevando-os à condição de uma espécie superior, grandiosa. E não se deixe seduzir pelas campanhas difamatórias, que pintam a Igreja como a fonte de todo o mal que grassa na Terra.

ENTREVISTADOR: Então, o senhor, senhor candidato, apóia a Igreja?

NULO DA SILVA: Claro que não! Eu a exploro em meu benefício. Concedo-lhe alguns favores, para que ela coma nas minhas mãos, e a difamo, e abertamente, nos meus jornais, nas minhas revistas, nas minhas rádios. E se eleito prefeito, usarei os recursos púbicos para intensificar os ataques à Igreja, afinal, se fraca, débil, impotente, ela desmorona, e o povo fica ao deus-dará, e, angustiado, deprimido, desesperançoso, carecerá de arrimo espiritual, e eu lho oferecerei, mas, não o farei, digo, antecipando-me à uma pergunta, que você porventura pensou em me fazer, eu oferecerei, prossigo, ao povo, conforto material, e conselhos, que o afastem ainda mais dos princípios religiosos, e o domino, criando, nele, dependência por mim.

ENTREVISTADOR: O senhor é maquiavélico.

NULO DA SILVA: Eu sei. Você me elogia uma vez mais.

ENTREVISTADOR: Diabólico!

NULO DA SILVA: As suas palavras aos meus ouvidos são sinfonias.

ENTREVISTADOR: Pervertido!

NULO DA SILVA: Prossiga.

ENTREVISTADOR: Nefasto! Sórdido! Calhorda!

NULO DA SILVA: Prossiga. Prossiga.

ENTREVISTADOR: Desprezível!


Nota: É digno de nota o contraste entre o semblante alterado do entrevistador indignado e o semblante sereno do regozijado senhor Nulo da Silva. Pareceu-nos que este estava no céu, e aquele no inferno.

Entrevista com o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito – parte 2 de 5 – publicada no Zeca Quinha Nius

Bem-sucedidos em nosso esforço de afastar o entrevistador das garras do senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu), e este das garras daquele, publicamos a 2ª parte da entrevista que o senhor nulo da Silva gentilmente concedeu-nos.

ENTREVISTADOR: Já tratamos, senhor candidato, nesta entrevista, da sua proposta para eliminar, desta cidade, o desemprego, e da carga tributária falou-nos o senhor…

NULO DA SILVA: Sei do que já tratamos, entrevistadorzinho de araque. Não precisa me dizer o que eu já sei. Você me toma por um pessoa de memória curta, bestalhão?

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, sejamos civilizados…

NULO DA SILVA: Então não me tome como um tolo desmemoriado.

ENTREVISTADOR: Retomemos a entrevista.

NULO DA SILVA: Retomemo-la. E pense nas perguntas que você irá me fazer. Se você fizer uma pergunta que me desagrade… Já viu!

ENTREVISTADOR: O senhor está me ameaçando, senhor candidato?

NULO DA SILVA: Não. ameaçando você, não estou. Estou aconselhando você a tomar cuidado com a própria língua. Não tome muita liberdade, não…

ENTREVISTADOR: O que o senhor está insinuando, senhor candidato? O senhor sabe o que é liberdade de imprensa?

NULO DA SILVA: Sei. Sei. E é por saber o que a liberdade de imprensa é que eu a defendo, desde que os jornalistas não me incomodem com perguntas inconvenientes. E por que você acha que sou dono de jornais, rádios, revistas, e patrocino blogs e revistas? Por que respeito a imprensa, claro.

ENTREVISTADOR: A imprensa que está a seu favor é a única que o senhor respeita? E a que se opõe ao senhor?

NULO DA SILVA: Qual se me opõe? Nenhuma.  Toda a imprensa dissemina as mesmas idéias. De vez em quando aparece um jornalista engraçadinho bancando o espertalhão e fazendo-se de corajoso e independente. Mas ele não dura muito tempo na profissão. Cortamos-lhe as fontes de recursos, e as asas, e ele não voa mais. E se quiser voar, você terá de comer na minha mão. Fui sutil?

ENTREVISTADOR: O senhor está cerceando a liberdade de imprensa.

NULO DA SILVA: Não há cerceamento algum, atrevido. Estou apenas, no gozo do meu direito político, de estabelecer as normas de conduta a você, as quais você terá de respeitar durante a entrevista. Seja respeitoso. E não assuma a liberdade para me fazer uma pergunta que possa vir a constranger-me, ou pôr-me em maus lençóis.

ENTREVISTADOR: Lamento não poder atender ao seu pedido, que é uma ameaça, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Vá para o diabo que carregue você e a sua avó, imbecil dos infernos. Terei uma conversa séria, muito séria, com o seu editor.

ENTREVISTADOR: O senhor é autoritário, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Autoritário é a sua avó, cabeça de ostra.

ENTREVISTADOR: Autoritário! brucutu!

NULO DA SILVA: Farei você engolir a sua língua.


Nota: O senhor Nulo da Silva e o entrevistador arremessaram-se um contra o outro, e moeram-se de socos e pontapés. Desdobramo-nos para afastá-los um do outro, e para conservá-los distantes um do outro decuplicamos os nossos esforços.

*

Encerrada a pugna, serenados os ânimos, o entrevistador retomou a entrevista:

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, retomemos a entrevista.

NULO DA SILVA: Retomemo-la.

ENTREVISTADOR: Quais serão as suas políticas administrativas? Sabe-se que o estado, isto é, a estrutura estatal, é dispendiosa, e se faz necessária uma reestruturação nas secretarias com fim à redução de despesas. Qual será a sua política para o melhor e mais eficiente uso dos recursos públicos?

NULO DA SILVA: Darei o básico, que é o essencial. Renomearei todas as secretarias. Dou alguns exemplos: A Secretaria da Educação chamar-se-á Secretaria da Instrução Pública; a Secretaria da Cultura chamar-se-á Secretaria das Manifestações Culturais; a Secretaria da Segurança, Secretaria do Combate à Insegurança; a Secretaria de Obras, Secretaria de Construções e Edificações; a Secretaria de Esportes, Secretaria de Atividades Físicas e Afins; a Secretaria da Saúde, Secretaria do Bem-estar Físico e Mental.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, as mudanças que o senhor, se eleito prefeito, empreenderá são irrelevantes, pois…

NULO DA SILVA: Pois o seu nariz é o de um intrometido sem ser querido. Você está querendo me ensinar a administrar uma cidade?

ENTREVISTADOR: Não, mas é que…

NULO DA SILVA: É que o quê, jornalistazinho de meia-tigela!? Quem terá a obrigação de administrar a cidade, se eleito prefeito, eu ou você?

ENTREVISTADOR: O senhor, senhor candidato…

NULO DA SILVA: Então, assunto encerrado. Se eleito prefeito, eu definirei as prioridades.

ENTREVISTADOR: E é prioridade renomear as secretarias?

NULO DA SILVA: Você tem pinta de encrenqueiro.

ENTREVISTADOR: É prioridade renomear as secretarias?

NULO DA SILVA: Sim. Pesquisas de opinião pública indicam que os cidadãos desta cidade querem a renomeação das secretarias.

ENTREVISTADOR: Quais pesquisas?

NULO DA SILVA: As que eu financiei.

ENTREVISTADOR: Há uma incoerência no que disse, senhor candidato. O senhor disse que irá definir as prioridades, no seu governo, se eleito prefeito, e uma delas é a renomeação das secretarias; em seguida, declarou que os cidadãos querem a renomeação das secretarias…

NULO DA SILVA: Não prossiga, entrevistador. Você vale metade de uma moeda de um centavo. Você é mais burro do que eu pensava.

ENTREVISTADOR: Não se exalte, e não seja incivil.

NULO DA SILVA: Incivil é a sua avó. Você não entendeu o que eu disse. Desenharei o que eu disse, para que você possa me entender: Financiei uma pesquisa, cujo resultado já estava de antemão definido: O povo quer a renomeação das secretarias. Entendeu até aqui? Agora, traga à sua mente oca a minha prioridade, que declarei a pouco: Renomear as secretarias. Coincidência, não? A prioridade, segundo a pesquisa de opinião pública, é a que eu defini. Entendeu o desenho, paspalho?

ENTREVISTADOR: Entendi, senhor candidato. O senhor não é nem um pouco sutil.

NULO DA SILVA: Detesto sutilezas.

ENTREVISTADOR: E quanto às reestruturações das secretarias, para reduzir despesas, eliminar desperdício de dinheiro público? O que o senhor tem a dizer aos munícipes?

NULO DA SILVA: Olhe para a minha testa. Nela está escrito ou tolo, ou imbecil, ou paspalhão, ou idiota? Não. Não está. Não sejamos ingênuos. Você quer que eu ponha a mão no vespeiro, ô da meia tigela de araque!?

ENTREVISTADOR: Não entendi a sua insinuação, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Não me surpreende a sua declaração de estupidez e ignorância.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Não se sinta ofendido, e tampouco injustiçado. Você é só um jornalista. Não há diferenças significativas entre você e os seus colegas de profissão. Não me entendeu? Explico, para que você possa entender-me. Renomear as secretarias é simples. Alterar a estrutura da burocracia do governo municipal, não. Aqui a porca torce o rabo! Imagine: Se eu reestruturar a burocracia, para reduzir despesas, fazê-la eficiente, terei de demitir muitos funcionário, e cortar gastos, muitos gastos; ao fazê-lo, irei contrariar muitos interesses arraigados, e de muitos parasitas, que há décadas sugam o sangue público. Quantas empresas têm contratos com o governo municipal? Você já pensou nisso? Se reduzir as despesas, reduzirei, automaticamente, a compra de mercadorias, e a contratação de serviços, de empresas com as quais a prefeitura tem contrato assinado, e contrariei interesses de muitos empresários. Este é apenas um dado da equação. E os outros dados? Conquistarei inimigos aos punhados. E sofrerei pressão, se eu não criar uma forte base de sustentação para mim, para renunciar, ou retroceder, e rever as minhas decisões, e reconsiderar a minha política. Serei esmagado, trucidado, antes de fizer ‘Diabos’.

ENTREVISTADOR: Então, o senhor, senhor candidato, havendo uma forte base política para a sua manutenção na cadeira de prefeito, irá reestruturar as secretarias, para reduzir os gastos públicos?

NULO DA SILVA: Não. Claro que não. Sei onde piso. Além disso, em defesa dos meus interesses, e em defesa dos daqueles que me apóiam, e dos dos meus aliados, muitos destes de ocasião, outros com os quais tenho vínculos ideológicos, que não se rompem, eu jamais reduzirei as despesas, e tampouco enxugarei o quadro de pessoal. Quero ampliar o meu poder; para ampliá-lo, terei de atrair aliados e apoiadores, e bajuladores, muitos bajuladores, e estes estarão certos de que terão muito a ganhar comigo, se eu ampliar os gastos, e eu terei muito a ganhar com eles ao comprar-lhes a lealdade.

ENTREVISTADOR: O senhor é maquiavélico, senhor candidato.

NULO DA SILVA: O elogio me cai bem, cai-me como uma luva.

ENTREVISTADOR: Não é um elogio, senhor candidato. É um insulto.

NULO DA SILVA: Aos meus ouvidos soa como um elogio. Você está a louvar a minha inteligência de político gabaritado e tarimbado.

Nota: Interrompemos, neste ponto, a entrevista, para um lanche.

Entrevista com o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito – parte 1 de 5 – publicado no Zeca Quinha Nius

Apresentamos um trecho da entrevista que o senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu), concedeu-nos:

ENTREVISTADOR: Nesta época de crise econômica, a maior que o Brasil já enfrentou, milhões de brasileiros vivem, desempregados, na rua da amargura. Muitos, demitidos após décadas de carreira, deparam-se, hoje, na idade de sessenta anos, com as incertezas previstas devido ao futuro próximo, que não oferece razões para esperanças. Tudo indica que a crise econômica estender-se-á por mais alguns anos. Qual é, pergunto, então, senhor candidato, a sua proposta para acabar com o desemprego, nesta cidade?

NULO DA SILVA: Antes de responder à pergunta, duas observações: 1) Você é o entrevistador, e eu o entrevistado; então, cabe a você fazer-me perguntas, e eu dar às perguntas respostas; e, 2) Se você é o entrevistador, e é seu trabalho fazer-me perguntas, não precisa, antes de fazê-las a mim, dizer-me que irá a mim fazê-las.

ENTREVISTADOR: É apenas um hábito, senhor candidato.

NULO DA SILVA: Perca este hábito. É constrangedor. Não vejo razão alguma ter de avisar-me que me fará uma pergunta sendo que numa entrevista é seu dever, sendo você o entrevistador e eu o entrevistado, fazer-me perguntas.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, vamos voltar à pergunta que fiz ao senhor. Qual é a sua proposta para acabar com o desemprego, nesta cidade?

NULO DA SILVA: Responderei à pergunta por civilidade, pois tal pergunta é despropositada. Ouça bem: Fui eu que produzi a crise econômica, e, consequentemente, o desemprego? Não. Foram os norte-americanos, aqueles malditos capitalistas, que produziram uma crise econômica, em 2008, para quebrar a economia de todos os países; então, que digam aos norte-americanos que cabe a eles resolverem os problemas que eles mesmos criaram.

ENTREVISTADOR: Mas, senhor candidato, o senhor, se eleito prefeito desta cidade, terá de implementar políticas que, se não acabem, reduzam, nesta cidade, o desemprego. O senhor tem uma proposta para atrair investimentos de grandes empresários? Qual política o senhor implementará para acabar com o desemprego?

NULO DA SILVA: Você quer transferir ao prefeito um problema, que é resultado da política dos malditos capitalistas americanos?

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, por favor, responda à pergunta.

NULO DA SILVA:  Responderei. Responderei. Os candidatos a prefeito, os outros, não eu, prometem atrair investimentos de super-mega-hiper empresários paulistas, americanos, japoneses, alemães e sul-coreanos como se eles pudessem gerar empregos, e acabar com o desemprego. Conversa para boi dormir. Para acabar com o desemprego não se faz necessário produzir empregos. Ouça bem. A minha política é simples, e de rápida implementação. Apresentarei, por meio de meus aliados, na Câmara Municipal, um projeto de lei, no qual fica salvaguardado o direito, irrevogável, ao prefeito, no caso eu, se eleito, de identificar, e registrar num banco de dados todos os desempregados que vivem, nesta cidade, vadiando, os desocupados, e obrigá-los a venderem, cada qual a sua casa, e transferirem-se para outra cidade dentro de 72 horas, sob pena de morte por enforcamento se não atenderem à exigência legal.

ENTREVISTADOR: Senhor candidato, tal política é desumana. Os desempregados continuarão desempregados.

NULO DA SILVA: Eu sei. Não precisa me dizer o que eu sei. Eu, se eleito prefeito desta cidade, trabalharei para esta cidade, e não para outras cidades. Os desempregados de outras cidades não são problemas meus, pois governarei esta cidade, e não as outras.

ENTREVISTADOR: Mas os desempregados desta cidade, obrigados a irem para outra cidade, desempregados em outras cidades… Senhor candidato, o senhor irá transferir o problema desta cidade para outras cidades.

NULO DA SILVA: Querem que eu resolva os problemas desta cidade, e não os das outras. Querem que eu acabe com o desemprego, nesta cidade. Sancionada a lei, o desemprego deixará, nesta cidade, de existir em 72 horas. Problema resolvido.

ENTREVISTADOR: É antidemocrático.

NULO DA SILVA: Por que é antidemocrático? Os desempregados terão o direito de decidirem por uma de duas opções: Ou arrumam as malas, e mudam-se para outra cidade, ou permaneçam nesta cidade, e sejam condenados à morte por enforcamento. Quem decidir ficar nesta cidade o fará de livre e espontânea vontade. Como diz o ditado: Cada cabeça, uma sentença.

ENTREVISTADOR: É desumano.

NULO DA SILVA: Você, querido entrevistador, do mesmo modo que muitas outras pessoas, querem uma solução para um determinado problema, e quando a solução é dada reclamam, esbravejam, cospem perdigotos, revoltados com injustiças inexistentes, supostas desumanidades, e coisa e tal. Vá para o inferno, diabos! Vá torrar a paciência do capeta, seu… seu…

Nota: É impublicável o teor da discussão que se seguiu entre o entrevistador e o senhor Nulo da Silva.

*

Chamados à razão, após as trocas de ofensas, como demos notícias, no encerramento da primeira parte da entrevista, já publicada, o entrevistador pôde, enfim, perguntar ao entrevistado:

ENTREVISTADOR: Os cidadãos desta cidade, como é público e notório, pagam muitos impostos, empatam, como se diz na linguagem popular, uma parcela considerável da renda com impostos, tendo, assim, reduzido o seu poder aquisitivo. Pergunto, então: O senhor reduzirá a carga tributária?

NULO DA SILVA: A resposta está na ponta da língua: Não. Irei aumentar a carga tributária. Criarei novas alíquotas de impostos, alguns impostos ocultos; enfim, farei com o que o povo pague mais impostos.

ENTREVISTADOR: O povo, senhor candidato, já paga muitos impostos, que incidem sobre 40% da renda…

NULO DA SILVA:  Exatamente. 40%, e só. A renda total de cada cidadão corresponde à 100%, portanto, 60% da renda não é taxada. Taxarei estes 60% também.

ENTREVISTADOR: O povo não suportará mais impostos…

NULO DA SILVA: Suportará, sim. Menos da metade da renda é taxada, e não toda a renda. O povo reclama de barriga cheia. Você já viu, nesta cidade, um cidadão magricela, ossudo, de fome, igual aos famintos da Etiópia? Não. O povo desta cidade não está morrendo de fome. Saia às ruas, e olhe para as pessoas. Elas são robustas, e bem nutridas, e bem vestidas. As magricelas o são porque submeteram-se à dietas, a regimes alimentares absurdos, e as magrelas, e me refiro às mulheres magrelas, e não às bicicletas, porque frequentam academias e praticam pilates, e não são magras, esqueléticas de fome. E as pessoas mal vestidas têm dinheiro para comprar roupas melhores, de bom gosto; vestem-se mal, todavia, porque têm mal gosto.

ENTREVISTADOR: O povo não quer, senhor candidato, pagar mais impostos, e rejeita as propostas de elevação da carga tributária. O senhor, ao declarar, assim, tão descarado…

NULO DA SILVA: Descarado é a sua vó!

ENTREVISTADOR: Senhor candidato…

NULO DA SILVA: Não me falte com o respeito, ou mandarei os meus capangas… quero dizer, os meus advogados pôr você na linha.

ENTREVISTADOR: Peço desculpas, senhor candidato. Retomando a entrevista, o senhor, ao declarar, em alto e bom som, com firmeza, que irá aumentar os impostos, dá um tiro no próprio pé, então, por que o senhor diz que aumentará os impostos, certo de que está a pôr a sua candidatura a perder?

NULO DA SILVA: E quem disse a você que, ao fazer tal declaração, ponho a minha candidatura a perder?

ENTREVISTADOR: E não a põe a perder, não, senhor candidato?

NULO DA SILVA: Não. Não a ponho a perder, não, senhor entrevistador. Sou um político tarimbado. Sei ludibriar, como ninguém, o povo. O político bom, saiba, é aquele que declarar que prejudicará o povo, e o faz de modo que o povo não percebe, e é eleito, e cai nas graças do povo.

ENTREVISTADOR: Como isso é possível, senhor candidato?

NULO DA SILVA: A artimanha está além da sua compreensão, e da de muitos jornalistas. Explico, contando uma história, que eu inventei para ilustrar a minha atividade política. Ouça atentamente: Durante décadas dissemina-se a “verdade”: leões não existem, gatinhos inofensivos existem. Em um dia o prefeito diz: “Vou soltar, na cidade, um leão feroz.” E solta o leão. As pessoas olham para o leão, mas vêem um gatinho inofensivo. E o prefeito, tranquilo, na sua sala, despacha ordenas, enquanto o leão devora algumas pessoas, e o povo olha para o leão, e vê um gatinho inofensivo, e não vê que o leão está a devorar alguns cidadãos. Um dia, um cidadão lúcido, corajoso, diz, a plenos pulmões: “O prefeito não soltou um gatinho inofensivo. Ele soltou um leão. Vejam, o leão está devorando um homem”. E todos correm, apavorados, e reivindicam ao prefeito o imediato recolhimento do leão à jaula. E o prefeito atende à reivindicação, e o povo o aplaude, e o ovaciona. E o prefeito solta, nas ruas, outro leão, assim que a poeira abaixa, e diz: “É só um gatinho inofensivo”. E o povo olha para o leão, e vê um gatinho inofensivo. E nesse meio tempo, o prefeito, apoiado por jornalistas, blogueiros, intelectuais, artistas e professores desanca o cidadão lúcido, que alertara o povo, que, por sua vez, trata aquele que lhe dera o alerta como um doido varrido. E a história repete-se vezes sem conta.

ENTREVISTADOR: É absurdo.

NULO DA SILVA: O que é absurdo?

ENTREVISTADOR: O retrato que o senhor apresenta do povo.

NULO DA SILVA: Absurdo, é, imbecil? A minha história é uma analogia do comportamento humano. Você conhece o conto A Roupa Nova do Imperador? Preste atenção, entrevistadorzinho de araque: O povo, anestesiado, durante décadas, por discursos socialistas, comunistas, sem pé nem cabeça, que lhe destruíram a capacidade de pensar, não sabe distinguir a fantasia da realidade. E nega-se a ver a realidade quando ela lhe é mostrada. De vez em quando, sofre um surto de lucidez, que é anulado com discursos persuasivos, principalmente se proferidos por uma autoridade. Qualquer autoridade? Não. Tem de ser uma que esteja revestida de poder estatal, ou que ostenta muitos títulos, uma que a mídia vendeu ao público como pessoa independente. Geralmente, são imbecis, ignorantes e curtos de inteligência tais autoridades, mas elas têm uma aura de credibilidade, que lhe foi artificialmente posta sobre a cabeça pela mídia e pelos intelectuais. Portanto, digo que implementarei uma política que irá prejudicar o povo, que nem perceberá o mal que lhe farei, pois já perdeu a capacidade de pensar por si mesmo, e os seus cinco sentidos não apreendem a realidade. Ele sente o que lhe dizem que ele sente, e não o que sente efetivamente.

ENTREVISTADOR: A sua concepção do povo é cínica.

NULO DA SILVA: Cínica é a sua avó. Além do mais, eu não concebi o povo.

ENTREVISTADOR: O senhor é ignorante, senhor candidato. Eu não disse que o senhor concebeu o povo…

NULO DA SILVA: Ignorante é a sua avó, diabos! Dou um murro nas suas fuças, vagabundo!

Nota: O entrevistador e o senhor Nulo da Silva engalfinharam-se numa luta de gladiadores, distribuíram sopapos e pontapés como jamais se viu na história da humanidade. Para não ferir suscetibilidades, não descreverei tão lastimável cena.

Novas propostas de governo do senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

1) Criação de um sistema rodoviário para uso exclusivo das bruxas. As bruxas, sabemos todos os envolvidos, de algum modo, consciente ou inconscientemente, com os mistérios da bruxaria, utilizam, incorreta e inadequadamente, vassouras como meios de transportes. Cientes de que não há, nem aqui nesta cidade e em nenhuma outra cidade, sistema de transporte de pessoas e de cargas vassouraviário, nem individual, tampouco coletivo, mas há o rodoviário, criaremos, então, em respeito à cultura milenar valiosa dos adeptos da bruxaria, da feitiçaria e da magia, um sistema rodoviário que atenda às necessidades de tal gente, misteriosa e encontadora; para tanto, distribuiremos, gratuitamente, rodos às bruxas – e, também às feiticeiras e às magas (e aos seus congêneres masculinos) -, rodos, em troca das vassouras que elas têm em posse;
2) Construção, pelo Departamento de Obras Magníficas – a ser criado – de ruínas romanas, egípcias, gregas, vikings, troianas, chinesas e hindus. Com a ereção de tais obras, estabeleceremos novo marco histórico da gênese do povo brasileiro; ofereceremos, assim, por tal meio, louvável, todos haverão de reconhecer, aos historiadores, cujos estudos serão pela Prefeitura subsidiados, subsídios e meios e recursos que lhes permitirão provar que os portugueses não foram os primeiros construtores do Brasil;
3) Criação de um grupo de estudos para tratar do estudo das relações de causa e efeito entre as erupções do Pinatubo e os sonetos do Petrarca;
4) Criação de um instituto de pesquisas que terá no estudo do impacto ambiental da flatulência das formigas seu objetivo primordial;
5) Criação de uma repartição especial de odontologia, subordinada à Secretaria da Saúde dos Doentes, para tratamento dentário da Mula-sem-cabeça; e,
6) Criação de cotas raciais para os pedestres e os ciclistas.

Mais algumas propostas de governo do senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

Minhas novas propostas, pensadas, hoje de manhã, sob inspiração do meu amor pelo povo desta cidade, consistem na proibição de:
1) venda de cenouras alaranjadas – sendo cenouras, e não laranjas, as cenouras têm de, obrigatoriamente, ser acenouradas;
2) cotas raciais às pessoas que usam sapatos sem cadarço;
3) venda de melancias com mais de cinquenta sementes;
4) venda de bananas embananadas;
5) venda de laranjas verdes – todas as laranjas terão de ser, obrigatoriamente, alaranjadas; e,
6) andar, em espaço público, à frente da própria sombra.

Observação: A trangressão a qualquer uma destas determinações configurará, automaticamente, sem direito à defesa, ao transgressor, multa de R$ 1.000,00, ou dois anos de prisão.

Quatro propostas de governo do senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

Ontem, especialmente ontem, entregou o senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito, pelo P.O.R.C.A.R.I.A. (Partido dos Operários Revolucionários Comunistas e dos Anarquistas Revoltosos e dos Intelectuais Anti-americanos), ao Zeca Quinha Nius uma folha de sulfite contendo quatro das suas propostas de governo. Ei-las:
1) Distribuição gratuíta de óculos de grau aos cidadãos cegos – aos brasileiros natos, óculos de grau Célsius; aos inatos, de grau Farenheit;
2) Criação de um programa de logística de viagem interplanetária saída da Terra, com chegada em Júpiter, e escala em Plutão;
3) Elaboração de um projeto de estudo para a conservação da sequência dos dias da semana na sequência ordinária e tradicionalmente estabelecida: o Domingo segue sendo Domingo; a Segunda-feira, Segunda-feira; a Terça-feira, Terça-feira; a Quarta-feira, a Quarta-feira; a Quinta-feira-Quinta-feira; a Sexta-feira, Sexta-feira; e o Sábado, Sábado; e,
4) Decreto com a revogação da Segunda Lei da Termodinâmica.

Cinco propostas de governo do senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

Eu, Zero à Esquerda, candidato a prefeito pelo P.O.D.R.E. (Partido Organizado da Democracia Revolucionária Estudantil), dou a conhecer aos meus futuros eleitores e àqueles que, de tão burros e idiotas, num futuro próximo não votarão em mim, cinco propostas de governo, propostas que consistem na proibição de:
1) cortar verticalmente ou obliquamente as laranjas – dever-se-á cortar as laranjas horizontalmente. A transgressão redundará ao transgressor ou multa de R$ 500,00, ou prisão de seis meses;
2) consumo excessivo de oxigênio – cada cidadão de nossa cidade terá direito, obrigatoriamente, a inspirar um “x”, proporcional ao volume de seu corpo, de metros cúbicos diário de oxigênio. A transgressão redundará ao transgressor ou multa de R$ 500,00, ou prisão de seis meses;
3) andar nas calçadas com passos que superem os oitenta centímetros de comprimento. A transgressão redundará ao transgressor ou multa de R$ 500,00, ou prisão de seis meses;
4) beber água em copos de vidro. A transgressão redundará ao transgressor ou multa de R$ 500,00, ou prisão de seis meses; e,
5) leitura de livro cuja publicação não conte com a autorização do prefeito. A transgressão redundará ao transgressor ou multa de R$ 500,00, ou prisão de seis meses.

Breves notas acerca da vida do senhor Inútil de Souza, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

Nasceu o senhor Inútil de Souza em algum momento de sua vida anterior ao dia em que completou um ano de existência. Por esta época, ele não sabia falar, tampouco escrever seu nome. Era pequeno, bem pequeno; tinha menos de um metro de altura; e seu peso não chegava aos vinte quilos. Foi soberbamente amamentado pela sua genitora, que lhe dava de mamar quatorze vezes ao dia; e ela definhou a olhos vistos – de virago robusta e carnuda converteu-se numa esquálida matrona ossuda, famélica, despeitada, de olhos fundos e rosto encaveirado, cadavérico. Aos seis anos, matriculado na creche, comia e bebia como um imperador onipresente, e arrancava, aos puxões violentos, os cabelos de todos os seus coleguinhas e os das professoras. Aos sete anos, ingressou numa escola, que frequentou até os dezessete anos, e nela assistiu às aulas de Português, Matemática, História, Geografia, Química, Física, Biologia e Inglês, vindo a se tornar, ao final de suas experiências escolares, um agente inconsciente do movimento revolucionário, um idiota útil, e inútil, anti-americano renhido, anti-capitalista intransigente, feminista intolerante, anti-cristão fanático, e nada sabendo de Português, Matemática, História, Geografia, Química, Física, Biologia e Inglês. Aos dezoito anos, arrumou um bom emprego, que lhe fez muito mal; e aos dezenove, outro bom emprego, melhor do que o anterior, que lhe fez um mal ainda maior; e, enfim, estabeleceu-se em um que lhe exigia a execução de tarefas que ele, não sabendo quais eram, não pôde executá-las – e em decorrência de sua falta de conhecimento, foi sumariamente demitido. A partir deste dia, errou de emprego e emprego, sem conseguir uma ocupação digna, que lhe enobrecesse a figura. E após inúmeras experiências desgastantes e adversas, que lhe serviram de lições inesquecíveis, persuadido de que viveria à míngua e comeria o pão e o biscoito e a bolacha e o pretzel que o diabo amassou se persistisse em obter um bom emprego, que, estava ciente, exigindo-lhe dedicação ao trabalho, lhe faria muito mal, decidiu, peremptoriamente, candidatar-se a prefeito de nossa cidade.

Bosquejo biográfico do senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

Apresentamos, hoje, em primeira e segunda mãos – o autor deste artigo usou as duas mão para digitá-lo -, neste nosso Zeca Quinha Nius, o maior e melhor hebdomadário digital do orbe terrestre, breve nota biográfica do senhor Zero à Esquerda, candidato a prefeito pelo P.O.D.R.E. (Partido Organizado da Democracia Revolucionária Estudantil).
O senhor Zero à Esquerda, nascido há quarenta anos e mais alguns dias antes da publicação deste minucioso bosquejo biográfico, que ora damos a público, de sua biografia, é herdeiro de uma família de gente nobre, o primeiro da sua terceira geração (que sucedeu à segunda, que, por sua vez, foi subsequente à primeira).
Na escola, cabulava, sensato que era, todas as aulas, e os professores sempre lhe anotavam a presença. Passou, e com louvor, todos os anos letivos, até à graduação, na faculdade. Nos seus boletins escolares, nenhuma nódoa. Ao final da sua carreira estudantil, a sua ignorância era maior do que a que ele exibia no dia da sua matrícula no pré-primário, o que muito o regozijava, e o envaidecia, e orgulhava os seus familiares, em especial seus genitores – e, cá entre nós, o engrandece, pois, sabe toda pessoa que conhece a filosofia de um famoso jogador de futebol da antiga Grécia, o homem sábio é ignorante, e quanto mais ignorante mais sábio, e mais culto, e não há, no orbe terrestre, ninguém mais ignorante, e, portanto, mais sábio e mais culto, do que o senhor Zero à Esquerda. O diretor da escola de primeiro e segundo graus em que ele estudou, amigo íntimo de um deputado federal e do governador do estado, reconhecendo-lhe a inigualável inteligência, singular, incomum, dispensou-o de todas as provas, pois, estava ciente, ele nascera sabendo tudo de todas as matérias escolares, afinal ele era o primeiro da terceira geração de uma família nobiliárquica que só não possui títulos de nobreza imperial porque, na sua gênese, o Brasil já era uma república. “Maldito seja, Dom Pedro II.”, amaldiçoava Zero à Esquerda Sênior I o imemorial imperador. Na faculdade, com nenhuma dificuldade se deparou para conquistar, e com louvor, o seu diploma.
Aos dezoitos anos, conseguiu uma sinecura numa autarquia municipal, o de diretor da Sub-secretaria de Planejamento Desnecessário (subordinada à Secretaria de Turismo), inexistente até então, criada especialmente para acolhê-lo porque ele, desempregado, precisava, urgentemente, de um emprego, pois ele havia engravidado a filha de um vereador, homem muito próximo do então prefeito. A filha do aludido vereador, jovem amorosa, discreta, amiga de todos os homens, donzela acanhadíssima, carregando no ventre seu herdeiro, exigira, batendo os pés e fazendo beiço com a graça e a simpatia que lhe eram comuns, de seus pais, um belo e exuberante enxoval e recursos que lhe permitissem oferecer ao filho comodidades e conforto – e seu amável pai não se fizera de rogado, e tratara do caso com o prefeito, amigo leal e fiel.

O nome do senhor Zero à Esquerda, nome de jovem dedicado à vadiagem, é proverbial, legado de sua nobre família; o seu talento para o exercício de tão louvável profissão, admirável.
Aplicado no, e dedicado ao, exercício de seus afazeres na ditetoria da Sub-secretaria de Planejamento Desnecessário da Secretaria de Turismo, jamais faltou ao recebimento de seus estipêndios, salário modesto, de subsistência, que corresponde a dez salários míninos, merecida remuneração pelo indispensável e valioso trabalho ao qual, abnegadamente, concentra sua força intelectual.
Tem Zero à Esquerda, sob o seu comando, vinte funcionários (subordinados seus, todos familiares, parentes e amigos de políticos da cidade), que, de tão atentos são cada um deles aos seus vencimentos, jamais lhe viram a figura.
Hoje, aos quarenta anos, ele se apresenta ao proscênio da política municipal ao lançar a sua candidatura a prefeito.

Três propostas de governo do senhor Nulo da Silva, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

O candidato a prefeito, pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu), o senhor Nulo da Silva dá a conhecer três propostas da sua plataforma de governo:

1 – Conceder a todo munícipe cirurgia plástica gratuita para a reconfiguração da cabeça, moldando-a na forma piramidal. Tal proposta nasceu do reconhecimento da devassidão moral em que a sociedade imergiu em decorrência da disseminação do materialismo consumista de inspiração capitalista. Cientes de que para se resgatar e elevar acima do materialismo os valores espirituais e místicos é essencial que eles sejam incutidos na cabeça de todo cidadãos aflorou-nos à mente de nós do Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu) o projeto aqui apresentado. Ao alterar a cabeça dos munícipes, emprestando-lhes a forma piramidal, concedemos a todos poder para assimilar a sabedoria mística dos antigos egípcios, que a armazenavam nas pirâmides, e assim elevar-se-á a capacidade intelectiva de todos, ampliando-a, enormemente, a ponto de todos apreenderem a inteligência que mantêm a ordem no cosmos;

2 – Concessão a todo homem casado o direito de pular a cerca. Para pôr em prática esta política, derrubaremos todos os muros de todas as casas deste município, e no lugar deles construiremos cercas, afinal, os homens casados só poderão pular cercas se houver cercas para serem puladas; e,

3 – Concessão a todo cidadão formado no sistema educacional oficial o título de Burrildo Asnático, título que todos os estudantes formados merecem, mas que lhes é negado pelos governantes, que não desejam reconhecer que o trabalho deles, governantes, atingiu o objetivo almejado: o de emburrecer e idiotizar a todos.

Nota: As três propostas acima apresentadas são disparates sem paralelo na história do universo; revelam-se, no entanto, sensatas e exequíveis se comparadas com as dos outros candidatos a prefeito.


Outra nota: Há prefeitos que desperdiçam dinheiro público recapeando ruas e avenidas do centro da cidade, sempre às vésperas de eleições municipais, e remendando praças, e desconfigurando-as. O senhor Nulo da Silva, entendemos, também desperdiçará dinheiro público, mas não o fará com obras tão inúteis. 

Síntese Biográfica de Nulo da Silva, candidato a prefeito – publicado no Zeca Quinha Nius

Lançou, ontem, pelo Partido Extraordinário de Inteligentes Democratas e Eminentes Intelectuais (PEIDEI – mas não fui eu), a sua candidatura a prefeito o senhor Nulo da Silva.

Apresentamos, e em primeira mão, uma síntese da biografia, jamais escrita, de tão insigne personagem, cujo nome é desconhecido de todos.

Nasceu o senhor Nulo da Silva há cinquenta anos, num dia, à noite, à luz de estrelas longínquas. Era sua mãe mulher; e seu pai, homem. Não tem irmãos, e nem irmãs. Sua infância foi triste e sofrida, pois seu pai e sua mãe não lhe deram a bicicleta que ele tanto desejava, e nunca lhe permitiram tocar fogo no rabo do gato do vizinho. Na juventude, foi um delinquente juvenil igual a todos os jovens que delinquiram. Casou-se com uma pequena mulher, pequena na estatura, mas grande se se lhe acrescentar à estatura a espessura das solas dos sapatos que ela usava. O casal não deu à luz nenhum filho, mas adotou seis cachorros, Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Stalin e Mao, criaturas fofinhas como o são os seus respectivos homônimos humanos. Nunca leu um livro nos seus cinquenta anos de existência. Cursou inúmeras faculdades, e ostenta, com orgulho incomum, os seus títulos de graduação, doutorado e mestrado em filosofia, economia, sociologia, antropologia, paleontologia, psicologia, geologia, astrofísica, bioquímica, cosmologia, astronomia, mecânica, hotelaria, culinária, farmacologia, jornalismo, eletroeletrônica, psicopatologia, biologia, arquitetura, serralheria e marcenaria. Conhece muitos ideais, tais como socialismo, comunismo, eurasianismo, globalismo, arianismo, iluminismo e marxismo. Compreende tudo o que está ao alcance de sua inteligência, certo de que nada existe além do alcance dela.

Disse, certa ocasião, numa exibição inegável de sabedoria:- É fácil ser político bem-sucedido, no Brasil. Basta embrulhar, nos discursos, alhos e bugalhos. Ninguém entende nada. E para não se passarem por burros e ignorantes, todos dizem que entendem tudo.

Aqui encerramos a apresentação da síntese da biografia, jamais escrita, do candidato a prefeito, o senhor Nulo da Silva, que, se eleito, irá recapear, em 2024, as ruas do centro da cidade.

A síntese, nas linhas acima apresentadas, da biografia, nunca escrita, do senhor Nulo da Silva, indica que ele tem o preparo indispensável para exercer, com desenvoltura e desembaraço, as funções de prefeito.

O homem que valoriza os índios – entrevista publicada no Zeca Quinha Nius

Pindamonhangaba, a quinta maior metrópole do Vale do Paraíba, a quarta maior metrópole do Estado de São Paulo, a terceira maior metrópole do Brasil, a segunda maior metrópole das Américas, a maior metrópole do orbe terrestre, sendo uma metrópole, e não cinco, foi o palco de uma entrevista fértil e enriquecedora, que muitos bens imateriais, que redundarão na produção de bens materiais, fornece ao Brasil, enriquecendo o universo intelectual nacional, e, quiçá, o internacional, e, ainda mais quiçá, o interplanetário, ao se disseminar, de geração após geração, uma geração após a outra, até o final dos tempos, que se dará quando, e se, todos os tempos, os pretéritos, os presentes e os futuros, convergirem para um mesmo tempo, que será o tempo derradeiro dos tempos que, existentes até então, não mais existirão.

No desejo de não nos prolongarmos neste intróito, que, servindo de prolegômeno, introduz o leitor na leitura da entrevista que ora publicamos no Zeca Quinha Nius, o nosso renomado hebdomadário digital, cujos jornalistas, todos providos de diplomas universitários, provas da alta qualidade intelectual e mental de sua equipe, que o equipa com recursos jornalísticos de monta e imensuráveis, abreviamos o prefácio. Para não adiar o prazer da leitura, que será imensuravelmente prazerosa, encerramos, por ora, os prolegômenos, e, nesta introdução, apresentamos aos nossos leitores, inúmeros, existentes em todo o orbe terrestre, a personalidade cativante e superior, e sui generis, do doutor Jurandir Iracemo Lindóyo Paraguaçu da Silva Bezta Kuadradha, estudioso, dono de muitos títulos, reconhecido internacionalmente e nacionalmente, aqui no Brasil e em outros países, como um dos melhores e mais bem preparados intelectuais modernos – e os diplomas universitários, de valor incalculável, que ele possui, e os quais ostenta com o devido e justo orgulho são as provas de sua inigualável e incomparável força e qualidade intelectuais, cognitivas e mnemônicas que não têm igual, e nenhuma que se lhe compare, em todo o orbe terretre. Sem mais delongas, oferecemos aos leitores do Zeca Quinha Nius, hebdomadário digital cujos artigos são de autoria de autores dotados de diplomas universitários e cujas entrevistas são conduzidas por seus jornalistas, os mesmos que escrevem os artigos que neste hebdomadário digital se publica, um bosquejo biográfico do valoroso, requintado, sofisticado, nobre e estimado entrevistado.

O doutor Jurandir Iracemo Lindóyo Paraguaçu da Silva Bezta Kuadradha é brasileiro nato, nascido, há quarenta anos, num hospital situado no município de Pindamonhangaba do Oeste, cidade situada no noroeste do Estado de Pindamonhangaba do Norte, localizado no sul do país. É filho de pais putativos, cujas reputações são as de lendários nobiliarcas herdeiros de dinastias dinásticas oriundas de nações estrangeiras. A sua formação intelectual inicial foi primorosa. Estudou nas melhores entidades de ensino de seu tempo. Recebeu o fluxo e o refluxo do sabor adocicado do saber agridoce de seus mestres, todos estes donos de inúmeros diplomas universitários e intelectuais renomados. Na fase adulta de sua vida de sucessos, conquistou o título de Graduação, pela Universidade Federal do Município de Pindamonhangaba do Sul, em Astrologia Piramidal, e, dois anos depois, pela Universidade Federal do Município de Pindamonhangaba do Nordeste, o título de Doutor em Psicologia Quântica Aeroespacial, e o de Mestre, em Parapsicologia Antropológica Automobilística, pela Universidade Federal do Município de Pindamonhangaba. Todos os seus títulos o engrandecem, e agigantam o nosso país, que, agigantado e engrandecido, assume a figura, ao ter o doutor Jurandir Iracemo Lindóyo Paraguaçu da Silva Bezta Kuadradha na lista de seus heróis nacionais, de um gigante gigantesco.

É o doutorJurandir Iracemo Lindóyo Paraguaçu da Silva Bezta Kuadradha o nosso entrevistado desta edição, que ora publicamos, do nosso mundialmente famoso hebdomadário digital Zeca Quinha Nius.

O tema da entrevista é: “O índio, sua origem, sua história, sua cultura, sua religião.”

Desejamos aos nossos leitores, fiéis e assíduos leitores, uma leitura proveitosa. Fiquem, a partir de agora, com o nosso querido e renomado doutor Jurandir Iracemo Lindóyo Paraguaçu da Silva Bezta Kuadradha.

– Doutor Jurandir Iracemo Lindóyo Paraguaçu da Silva Bezta Kuadradha, por que o senhor decidiu se dedicar ao estudo dos índios?

– Eu não decidi, e não me decidi, a estudar os índios; os índios, decididos a se deixarem estudar, atraíram-me a atenção, obrigando-me, logicamente, a estudá-los, e eu, então, movido por tal força, a de estudá-los, irresistível, os estudei, e, estudando-os, aprendi a valorizá-los.

– E quando e como se deu o seu primeiro contato com eles?

– Eu nunca os contatei. E jamais vi um índio; e tampouco li um livro de autoria de índios. O que sei dos índios é matéria infusa. Veio-me, naturalmente, por meios artificiais, assim que, nas aulas de Parapsicologia Antropológica Automobilística, entendi, ao absorver, sem grandes esforços, e consumindo quase nenhuma energia, a sabedoria milenar da natureza, que o conhecimento chega-nos por si só, dispensando-nos o dispêndio de tempo com leituras de livros tediosos e enervantes. O máximo que se deve fazer de esforço, para se acumular conhecimento, é ingerir algum inebriante, que nos abre a mente para as coisas essenciais da existência; um estupefaciente que alarga a consciência humana, que, amplificada, tem o poder de assumir a condução da ação de obtenção e acúmulo de conhecimento independentemente de o ser que a possua ter, ou não, consciência dos fenômenos que naturalmente lhe governam a existência.

– O que o senhor aprendeu, por este admirável e infalível processo de estudos, acerca da cosmogonia e cosmologia dos índios?

– Para se aprender seja o que for é indispensável que a pessoa deseje aprender o que quer aprender e ame o seu objeto de aprendizado. Esta foi a primeira lição que assimilei durante os anos que me dediquei, na Universidade Federal do Município de Pindamonhangaba do Nordeste, ao estudo de Psicologia Quântica Aeroespacial. Dito isso, aprendi, ao estudar os índios, a valorizá-lo, e só após aprender a valorizá-los, eu pude apreender o valor deles, em especial o das suas cosmogonia e cosmologia, que se fundem, e se confundem, de tal maneira, e de muitos modos, que é impossível separá-las. Conquanto vão o esforço de separar da cosmogonia indígena a sua cosmologia, e desta aquela, pude, todavia, entender que, se humilde, eu entenderia o que eu poderia entender, e nada mais eu entenderia. Sem a pretensão, portanto, de querer entender o que eu sabia que eu não entenderia, executei rituais, no interior das salas-de-aulas e nos campus universitários, que me foram inspirados por entidades, que se corporificaram dentro de meu cérebro assim que ingeri a dose apropriada de estupefaciente, que me estimulou o poder mental, e grandemente, e consideravelmente, e enormemente. E vim, então, a saber que Kuala Lumpur, o deus dos deuses indígenas, tem poderes celestiais; é onipresente, omnissapiente; é o Alfa e o Ômega do Cosmos Celestial. Está num confronto eterno com Zânzibar, seu irmão siamês, o Ômega e o Alfa do Cosmos Celestial, o oposto do oposto, o negativo do positivo, o parasita do universo. Do embate sempiterno entre os dois deuses gêmeos siameses, romperam-se as portas do reino da natureza transcendente da floresta amazônica, o das profundezas das culminâncias da Epistemologia, realidade quântica da metafísica fenomenológica existencialista, onde vivem, em espírito fantasmagórico e quimérico, a Mãe Gaia e o Pai Gaio; e de tal reino emergiram à realidade Telêmaco, Poincaré e Pancha Tantra, criaturas demoníacas bestiais, que estimulam a luxúria, a comilança e o pecado da gula espiritual. Kuala Lumpur é identificado com um objeto que tem sempre às mãos e com o qual penteia os cabelos, infalivelmente, e sempre, ao amanhecer e ao entardecer, para conservar o universo em constante, uniforme e ininterrupto equilíbrio, impedindo que Zânzibar, seu irmão siamês, destrua o Cosmos Celestial: um pente cujo eixo principal, grosso, é confeccionado de talo de penas de orangotango, e cujos dentes, perpendiculares ao eixo grosso, finos, são afiadas espinhas de espinafre, uma espécie de batráquio que vive nas águas cristalinas do Rio São Francisco. Esta é a síntese da cosmogonia, que se confunde com a cosmologia, e esta com aquela, dos índios. O assunto, demasiadamente complexo, mal se pode resumir em uma entrevista.

– O senhor disse que o pente, que identifica Kuala Lumpur, o deus dos deuses indígenas, é composto de penas e espinhas. Os índios confeccionam muitos objetos com penas e espinhas. Seguem o modelo do adorno principal de Kuala Lumpur, não?

– Sim. E é interessante tal questão. Interessantíssima. Mais interessante do que as questões que lhe são menos interessantes, questões, estas, que porventura despertem nos interessados algum interesse, ou nenhum. Os índios, sob o exemplo do deus de seus deuses, usam penas, nos seus adornos, de animais de diversas espécies, penas que vão desde as de aves até as de pássaros, passando pelas de répteis, de mamíferos e de anfíbios.

– Quais tribos indígenas o senhor, em suas viagens sob influencia de estupefacientes, contatou?

– Inúmeras. Muitas. Várias. Inumeráveis. Empreendi expedições transcendentais ao âmago do núcleo da essência do espírito da alma dos índios e deles apreendi as sabedoria e sapiência milenares cujas origens se perdem na gênese criadora dos tempos. Com os índios tupinambás, itaquaquecetubas, estadunidenses, caiapós e amendoins, aprendi a valorizar a essência do essencial da existência natural panteísta sob a égide da sapiência oracular do deus Krakatoa, ser abismal e abissal, insaciável devorador de maquinismos construídos pelos seres humanos, que devastam as florestas derrubando-lhes as árvores. E com os índios tupiniquins, urucubacas, pindamonhangabas e moçambiques, aprendi a valorizar os artefatos ecologicamente sustentáveis feitos de madeira e plástico reciclados, e não de penas de urubus, canários, lhamas, abutres, equidnas, araras, flamingos e salamandras – ao não se arrancar as penas de tais animais, isto é, ao não se os depenar, evita-se que eles involuam, e, consequentemente, não se lhes promove o genocídio, impedindo-os de se transformarem em aracnídeos, répteis e anfíbios. E com os índios aimorés, anhangabaús, periquitos, araras, itamaracás, tucunarés e salamaleques, adquiri a consciência da importância dos rituais de iniciação, integração e comunicação para a constituição das constituições indígenas e a consequente formulação de leis consuetudinárias da constituição da identidade comum que aos índios propiciam a harmonia ingênita, que lhes é inata. E com os índios pangarés, cupins, cateretês e rebimbocas, aprendi um ritual que consiste em andar em círculos, bater os pés, firmemente, em terra batida, e gritar, ininterruptamente, “Hu-hu! Hu-hu! Hu-hu!”, tendo, na cabeça, cobrindo-a, uma cuia de casca de côco. Após estas minhas valiosas experências, aprendi a valorizar os índios. E de tão alto valor eu lhes concedo, que toda minha ação contempla, como fim único, o bem-estar deles, pois se assenhoreou de meu espírito o amor por eles. E sou, hoje, um diligente estudioso das coisas dos índios. Eu valorizo os índios e tudo o que eles criam. Tenho, nos meus braços, duas tatuagens, uma em cada um, no esquerdo os dízeres “Viva o índio” e no direito “Morte ao invasor!” E uso, para prender meus longos cabelos, uma tiara de penas de plástico, multicoloridas, que imitam penas de pássaros e aves nativas da Amazônia, e estou, quase que todo dia, com o tronco coberto com uma camisa em cuja estampa frontal se lê: “O índio é o verdadeiro dono destas terras sem dono.” Eu valorizo os índios, e muito. E tanto os valorizo que alterei meu nome ao adicionar-lhe três nomes de guerreiros indígenas, Iracemo, Lindóyo e Paraguaçu, cada um destes nomes pertencente a um índio nobre, valente e destemido.

– Fale-nos, para encerrarmos a entrevista, proveitosa e fértil, e muito ilustrativa, da importância dos índios para o Brasil.

– A importância dos índios para o Brasil é muito importante, daí falarmos, sempre, ao nos referirmos aos índios, da importância deles para o Brasil, e não apenas à sua formação, mas, também, e principalmente, à constituição de sua gênese e à gênese de sua constituição culturais, religiosas, intelectuais, artísticas, étnicas e científicas. A inserção dos índios no espectro mental brasileiro é de suma importância e tem de ser devidamente registrada para que não suma dos registros que não a registram. Eu valorizo os índios, e espero que todos os meus compatriotas, para o bem do Brasil, também os valorizem.

O Dia do Pico – Em tempos de epidemia, uma poesia em versos livres, leves e soltos.

O Dia do Pico
Hoje é o Dia do Pico.
Ontem foi o Dia do Pico.
Amanhã será o Dia do Pico.
Todo dia é o Dia do Pico.
De tanto pico daqui,
E pico de lá,
E pico dali,
e pico de acolá,
que todo mundo ficou picado.
*
Nota esclarecedora, pelo Editor:
“Picado”, na poesia, tem duplo sentido: Quer dizer que ou todo mundo ficou picado de tão picado todo mundo foi, ou que todo mundo está picado porque picado foi todo mundo.

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