Orquestra Maluca (You’re Darn Tootin’ – 1928) – com O Gordo e o Magro

Em quinze minutos, Ollie (Oliver Hardy) e Stan (Stan Laurel) são capazes de empreender uma série de disparates de deixar de queixo caído o Barão de Münchausen e boquiaberta a Mula-Sem-Cabeça. De estontear todo e qualquer filho de Deus. Num concerto, fora de compasso, a os dois personagens que formam a dupla mais atrapalhada do oeste enervam o maestro, que, furibundo, fisionomia carregada, aborda-os, e chama-lhes a atenção, repreende-os com severidade. E de que adianta reprová-los? Ambos os da dupla mais divertida do cinema não se emendam, seguem com as suas ações amalucadas, e causam confusões do balacobaco. Expulsos da orquestra, desempregados, e despejados do hotel, sem um tostão no bolso, vão ter à rua, onde, no exercício da arte musical, exibem talento invejável, não para a música, mas para a confusão, a ponto de envolverem multidão de homens numa divertida troca de socos e caneladas de constranger Homero, que em seus épicos jamais narrou cenas de luta que contasse com ações tão heróicas e másculas e viris. É Orquestra Maluca um filme divertido.

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Coma – A Dimensão do Futuro (2019) – direção: Nikita Argunov

Em uma dimensão cuja realidade é constituída de fragmentos de memórias de pessoas em estado-de-coma, os protagonistas enfrentam os ceifeiros, seres tétricos, pretos, fantasmagóricos, horripilantes, agentes da morte. É tal dimensão caótica; não tem um centro de gravidade, um planeta; tem pedaços de locais da Terra dispostos num espaço a constituir um mundo fantástico cuja configuração lembra a do cérebro – a das representações, muito populares, dos neurônios e suas conexões. Há cenas em que uns personagens estão caminhando por uma rua, fragmento de uma cidade, num tiroteio com pessoas que estão num plano, em terreno paralelo, ambos os planos de cabeça para baixo em relação um para o outro. O visual é fascinante. Os personagens pulam de um terreno para outro, e para outro, os terrenos sem conexões por terra. É um mundo irreal, criado pela reunião de lembranças dos personagens, que, repito, estão em estado-de-coma. E neste mundo é o protagonista Viktor (Rinal Mukhametov), o Arquiteto, que, após um acidente de carro, desperta, a sua mente a aventurar-se pela dimensão criada pela sua memória e pelas memórias de outras pessoas, dentre elas, Fly (Lyubov Aksyonova), Phantom (Anton Pampushnyy), Astro (Miloš Biković), Yan (Konstantin Lavronenko), Spirit (Polina Kuzminskaya), Tank (Vilen Babichev), Gnome (Rostislav Gulbis) e Cable (Leonid Timtsunik), todos eles reunidos, em um grupo de aventureiros, sob o governo de Yan e o comando de Phantom, à procura de um lugar seguro, além do alcance dos ceifeiros.
A história não se resume às façanhas dos protagonistas na dimensão que a mente deles concebeu. Há um mundo real no qual eles vivem, e neste mundo real a Viktor revela-se sua real condição, e a sua relação com Fly e o papel de Yan na trama.
É “Coma – a Dimensão do Futuro” um filme intrigante, e fascinante, uma aventura surrealista agradável.

As Aventuras de Sherlock Holmes – série de televisão – Os Seis Napoleões (The Adventures of Sherlock Holmes).

Sherlock Holmes (Jeremy Brett) e seu fiel escudeiro, o doutor John Watson (David Burke), investigam o caso de invasões de residências por um homem que furtava bustos de Napoleão Bonaparte e quebrava-os à marteladas.
No início, Pietro Venucci, atrabiliário, verborrágico, escandaloso, discute com sua irmã, Lucrezia, na presença do pai de ambos, desanca-a, ofende-a, humilha-a com insultos impublicáveis, e encara seu pai, que lhe ordena o fim das ofensas à irmã, e vai, passos firmes, até onde se encontra Beppo, o homem que a desonrara, e ameaça-o. E os dois homens lutam, com facas. Beppo esfaqueia Pietro, que sobreviveria, e foge, e adentra um depósito de estatuetas, onde há, dentre muitas, as seis que representam Napoleão Bonaparte. Policiais o capturam, e prendem-lo.
O que havia em tais estatuetas, que despertava o interesse obsessivo de quem as furtava das residências, e, à marteladas, as reduzia à pó? Intrigava o mistério Sherlock Holmes, que se dedica à investigação do caso até seu término. E ao final, dá-se a explicação da trama assim que o morador do número 221B da Baker Street tem às mãos dos seis bustos de Napoleão o único que não havia sido quebrado. O que havia nas estátuas de tão valioso?

Poirot – série de televisão – A Caixa de Chocolates – episódio 6, temporada 5 (Agatha Christie’s Poirot – The Chocolate Box – 1993)

Está Hercule Poirot (David Suchet), num restaurante, na companhia de um querido amigo, Chantalier (Jonathan Hackett), e do inspetor chefe Japp (Philip Jackson), a reconstituir, nostálgico, um antigo caso, que havia investigado, quando cruza seu caminho o conde Xavier St. Alard (Geoffrey Whitehead), seu desafeto. Hercule Poirot, após evento tão constrangedor, segue a narrar o antigo caso para o inspetor Japp e para Chantalier, e é um dos personagens de tal história Xavier St. Alard, homem sobre o qual o detetive mais famoso da Bélgica havia lançado suspeitas infundadas. Tal episódio da vida de Hercule Poirot se deu quando era ele um aspirante à oficial. Sua intuição o havia impelido a contrariar uma ordem de seu superior, e a dedicar-se a investigar a morte de Paul Deroulard (James Coombes) após testemunhar, em um tribunal, Virginie Mesnard (Anna Chancellor) levantar-se para clamar aos quatros ventos que Paul Deroulard, viúvo de sua prima Marianne Deroulard (Lucy Cohu), não havia morrido devido ao infarto que, concluíra-se, lhe ceifara a vida. E dedica-se Hercule Poirot à investigação, e com sua proverbial perspicácia de investigador, que não se revela infalível, depara-se com detalhes que lhe apontam uma explicação para o caso que não corresponde à conclusão a que chegara a polícia ao fim de suas investigações. Uma caixa de chocolates pôs-se no caminho de Hercule Poirot; e os restos de chocolate reunidos no fundo da caixa ele os levou a um amigo, para que este os examinasse à procura de veneno. Depois de se deparar com alguns contratempos, e saber que se equivocara em certas respostas que dera a algumas perguntas que havia aventado, e manter um relacionamento platônico com Virginie Mesnard, Hercule Poirot conclui as investigações, o caso da morte de Paul Deroulard esclarecendo-se, e, por consequência, o da de Marianne Deroulard. Ao fim, encerrado o relato do antigo caso, o filme prende-se ao tempo presente. E após muitos anos encontra-se Hercule Poirot com Virginie Mesnard, mulher de sorriso deslumbrante, que tanto o havia cativado.

O Homem-Morcego (The Bat – 1959) – com Vincent Price

Em uma antiga mansão ocorrem crimes inusitados. É a mansão propriedade de John Flemming (Harvey Stephens), cujo sobrinho, Mark Flemming (John Bryant), aluga-a para Cornelia van Gorder (Agnes Moorehead), escritora de tramas policiais, famosa e popular e admirada, que na mansão vive com Lizzie (Lenita Lane), sua governanta, e Warner (John Sutton), seu mordomo. Espalha-se que nos arredores comete crimes horrendos um homem vilanesco e crudelíssimo que atende pelo codnome Morcego.
Estão numa casa, num campo, John Flemming e o doutor Malcolm Wells (Vincent Price), e aquele a este revela um segredo: roubara, de seu próprio banco, um milhão de dólares, em títulos bancário, e escondera-os na mansão. O doutor Wells, a excitá-lo a ganância, mata John Flemming, e faz queimar a casa com fogueira que pode ser vista à distância. Espalha-se a notícia. E não demora muito tempo, o Morcego invade a mansão do Flemming, onde estão a escritora, sua governanta e seu mordomo, e os ameaça. É chamado para investigar o caso o tenente Andy Anderson (Gavin Gordon), que decide permanecer na mansão para proteger os inquilinos. No desenrolar da aventura, os olhares de suspeitas entre o tenente e o doutor Malcolm Wells, e os diálogos entre eles, dão a entender que o tenente dele desconfia, e recai sobre o doutor todas as suspeitas, afinal, ele, ciente do ato criminoso de John Flemming, matara-o. E as descobertas que faz o tenente das pesquisas do doutor Wells com morcegos e das desconfianças que o mordomo lhe inspira, e as atitudes e insinuações entre os personagens revela-se que são três os suspeitos de envergarem a vestimenta do Morcego e usarem, na mão esquerda, uma luva preta com garras de aço: Warner, o mordomo; Andy Anderson, o tenente; e, Malcolm Wells, o médico. Quem dentre eles é o temido Morcego, vilão cruel e sanguinário? Ou é o Morcego personagem que habita os pesadelos da escritora e de sua governanta? E onde estão os títulos bancários que John Flemming dissera haver roubado de seu banco? Existem?

Ragnarok (Ragnarok – 2013) – direção: Mikkel Brænne Sandemoso

O arqueólogo Sigurd Svendsen (Pål Sverre Hagen), nostálgico de uma era que ele não viveu, a de remotos antepassados vikings, após decifrar uma antiga inscrição, em pedra, nórdica, que seu amigo Allan (Nicolai Cleve Broch) encontrara e entregara-lhe, segue, o amigo Allan a secundá-lo, e acompanhado do filho Brage (Julian Podolski) e da filha Ragnhild (Maria Annette Tanderø Berglyd), e de Elisabeth (Sofia Margareta Götschenhjelm Helin) e de Leif (Bjørn Sundquist), até o Olho de Odin, uma ilha isolada, no norte da Noruega, numa região distante da civilização. Descobrem os aventureiros que na Segunda Guerra Mundial os soviéticos haviam chegado àquela ilha e às suas vizinhanças, regiões inóspitas, praticamente inacessíveis, que havia muito tempo não via humanos. Desde que se embrenharam pela densa floresta, surpreenderam-los fenômenos misteriosos. São muitos os veículos soviéticos abandonados, corroídos pelo tempo e pelas intempéries. E encontraram Sigurd e os que o acompanhavam um bunker abandonado às aranhas. A presença de tal prédio suscitou-lhes a curiosidade, que foi-lhes estimulada pela presença, numa caverna, que eles adentraram, de esqueletos humanos e armaduras antigas, de mil anos antes, dos vikings. Qual havia sido a causa da morte das pessoas cujos esqueletos eles encotraram? Qual criatura se manifesta durante o Ragnarok? E ao depararem-se com uma criatura colossal, lendária, sentiram-se obrigados a abandonarem a ilha e irem-se embora, e imediatamente.
É Ragnarok uma aventura despretensiosa, com ingredientes comuns em número sem conta de filmes do gênero. Há mistério, que não é muito misterioso, tensão, que não é tensa, não excita os nervos, obrigando o expectador a suspender a respiração, e personagens que se encontram em onze de cada dez filmes do gênero: o pai viúvo; a filha adolescente rebelde; o amigo traiçoeiro; o ajudante inescrupuloso; a mulher que se apaixona pelo herói, que por ela se apaixona; o monstro; o filho do monstro. E a aventura se passa numa região distante da civilização, misteriosa, a guardar segredos milenares. Tem o filme algumas mortes e um pouco de emoção. E só. É Ragnarok um passatempo apenas.

Silêncio, hospital! (County, hospital – 1932) – com O Gordo e o Magro

Neste filme da dupla mais atrapalhada do universo, um hospital é o cenário animado, e divertidamente animado, por Stan Laurel e Oliver Hardy. Stan visita seu amigo Oliver, que está acamado, e tem a perna direita engessada, num quarto, quarto que ele compartilha com outro paciente, um homem histriônico, expansivo, de gargalhada fácil. Ollie não transparece ânimo à chegada do seu amigo de aventuras, que lhe leva de presente ovos cozidos e nozes; transparece contrariedade, já antevendo dores de cabeça. Stan põe-se a degustar os ovos cozidos. E não demora muito tempo, emborca uma jarra, despejando água no leito em que está Ollie deitado. E logo sucedem-se cenas tipicamente burlescas, Stan a socorrer um médico que ele mesmo pusera em apuros e a oferecer ajuda a Ollie. Dividida a sua atenção entre os dois outros personagens, enrosca-se em suas trapalhadas. A cena encerra-se com o desmantelamento da cama em que estava Ollie deitado e a entrada, no quarto, de enfermeiros. E Stan incorre em outras hilárias insanidades, até que, enfim, retiram-se do hospital os dois toleirões, Stan sob efeito de sonífero. E entram em um carro. E põe-se Stan ao volante. Se Stan em seu estado natural de consciência comete os atos mais absurdamente atrapalhados que se possa imaginar, que tolices ele irá cometer, ao volante de um carro, sob efeito de sonífero?

Chicago Fire: Heróis Contra o Fogo – temporada 5, episódio 6: Aquele Dia – 2.016.

O evento que marcou a história recente, o ataque terrorista aos dois prédios do World Trade Center – as chamadas Duas Torres, ou Torres Gêmeas -, então os prédios mais altos do mundo, em Nova Iorque. De triste e aterrorizante lembrança, é o tema central deste episódio, conquanto a ele se faça menção apenas nas cenas finais.
Narra o episódio, aventuras envolvendo bombeiros e paramédicos do Batalhão 51 do Corpo de Bombeiros de Chicago. Em uma delas, envolvem-se as paramédicas Gabriella Dawson (Monica Raymund) e Sylvie Brett (Kara Killmer); em outra, estão envolvidos os bombeiros Matthew Casey (Jesse Spencer) e Kelly Severide (Taylor Kinney). E há tramas secundárias. As paramédicas envolvem-se em um acidente, enquanto rumavam, de ambulância, Gabriella Dawson ao volante, para o local em que uma jovem, ferida, pedia por socorro. Gabriella Dawson atropela um idoso; é investigada; e um rábula pode vir a processá-la; atormenta-a a culpa, mesmo ciente de sua inocência. E os bombeiros Casey e Severide investigam um incêndio, aquele, certo de que fôra o incêndio criminoso, bate-se com seu amigo e colega. Ao final, estas duas aventuras chegam a bom termo.
Repetindo o que eu disse no primeiro parágrafo, é o tema principal deste episódio o ataque terrorista que pôs o mundo em suspenso há vinte anos. Walter Boden (Eamon Walker), o chefe do Batalhão 51, é abordado por um seu colega, que o convida para um evento na cidade de Nova Iorque, mas ele resiste: não quer ir lá, pois as lembranças o atormentam, a ele, Walter Boden, um dos bombeiros que lá estiveram logo após a derrubada das Torres Gêmeas. Enfim, ele decide, acompanhado de Matthew Casey e Kelly Severide, ir a Nova Iorque, onde encontra amigos seus, bombeiros que, tal qual ele, estiveram naquela cidade logo após a tragédia. E visitam o memorial às vítimas do atentado terrorista.
A cena em Nova Iorque, as atitudes das personagens, suas expressões, deixam transparecer a amargura, a tristeza, que o arrasador ataque terrorista inspirou aos americanos, traumatizados ainda hoje com o apocalíptico episódio. E o mundo nunca mais foi o mesmo.

Maldita Aranha Assassina (Big Ass Spider – 2013)

Neste filme – um filme trash, um filme B – de Mike Mendez há todos os ingredientes do gênero: o herói solteirão, que não é benquisto pelas mulheres, tolo e desajeitado, o aliado dele, tão ou mais tolo e desajeitado do que ele, um oponente, militar, um cientista, a mocinha, uma velhinha tarada, donzelas seminuas, inúmeras mortes, muito sangue derramado e espirrado, cenas de ação grotescas, efeitos especiais fajutos, diálogos ridículos. E no final o herói beija a mocinha. E o prefácio de outra aventura, para outro filme.
Alex Mathis (Greg Grunberg), dedetizador, é o herói desta bizarra aventura. Em um hospital, após atacado por uma velhinha insinuante e mordido por uma aranha, sai à caça de uma criatura, que ninguém sabe de qual espécie se trata, e o auxilia Jose Ramos (Lombardo Boyar), segurança do hospital. Enquanto os dois heróis, que se envolvem em diálogos ridículos, caçam o bicho peçonhento, que já fez vítimas humanas, ao hospital chegam os militares, comandados pelo major Braxton (Raymond Herbert “Ray” Wise), que é auxiliado pela tenente Karly Brant (Clare Kramer). Não demora muito tempo, Alex Mathis encontra a aranha e a mocinha, tenente Karly Brant. E logo tem o herói conhecimento de que é a aranha que ele caçava uma criatura fruto de uma experiência científica cujo fim era a amálgama de genes de criatura marciana com um tomate, e dentre do tomate, ignoravam os cientistas, havia um aranha. E este foi o início do desastre. A aranha cresce, assume dimensões gigantescas, e aterroriza os cidadãos de Los Angeles, até que, enfim – e não estou a revelar o final, pois todos sabem como filmes de tal gênero terminam -, matam o monstro.
Não é o filme uma obra-prima da sétima arte; diverte de tão absurdo, ridículo.

Hércules, Sansão e Ulisses (Ercole sfida Sansone – 1963) – com Kirk Morris e Iloosh Khoshabe.

Eu jamais tinha ouvido falar da existência de tal filme. E jamais pensei que houvesse um que trazia em seu panteão de heróis, os nomes de Hércules e Sansão, heróis, aquele, grego, este, hebreu, aquele, de poemas helênicos, este, do Velho Testamento, heróis que, até onde se sabe, jamais cruzaram-se os caminhos em suas andanças pelas terras inóspitas da nossa querida esfera celeste.

À procura de um filme, acessei o Youtube, e digitei Hércules, a evocar os filmes, que eu, há mais de trinta anos, então um garoto imaginoso, assisti, estrelados por Lou Ferrigno, fisioculturista cuja chama se rivaliza com a de Schwarzenegger. E apareceram-me filmes e desenhos, e, dentre eles, o que dá título a esta resenha. Curioso ao ver os nomes Hércules e Sansão, e mais o de Ulisses, no título de um filme, decidi à obra do cinema italiano (do gênero – vim a saber depois, após uma rápida pesquisa em site de busca – que se popularizou como filme de espadas e sandálias) assistir. Não é o filme uma obra-prima; nem memorável é; tem, no entanto, os seus atrativos: os dois heróis, que se batem em certo capítulo da épica aventura; as paisagens, deslumbrantes; o esmero das cenas e das vestes das personagens.

De início, são naves maritímas gregas atacadas por um monstro marinho, que vem a causar o naufrágio delas. Um dia, decidem Hércules (Kirk Morris) e Ulisses (Enzo Cerusico) singrarem os setes mares à caça do monstro que tanto mal causava aos gregos. E é o destino dos heróis gregos, após o confronto com a criatura marinha, o naufrágio e a chegada deles à terra dos judeus, onde deparam-se com os danitas; na sequência, vêm a ter com Seren (Aldo Giuffrè), o rei filisteu, no palácio deste, e com Dalila (Liana Orfei), mulher diabolicamente astuta, que é bem-sucedida em urdir uma trama que põe em rota de colisão o herói grego e Sansão (Iloosh Khoshabe). Antes desta cena, Hércules mata, com as mãos, um leão, o que faz com que pensem que é ele Sansão, herói em cujo encalço estava o rei filisteu. A cena mais aguardada, a da luta entre os dois heróis, se dá um pouco antes do encerramento do filme. E batem-se o herói grego e o danita, ambos a se emularem em força física, e nenhum deles a se sobressair frente ao seu oponente.

É o filme uma agradável aventura.

Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea – 1965) – episódio 1 – Jonas e a Baleia

Durante uma pesquisa, está Alexi, no interior de um batiscafo, em pleno mar, submerso. Ataca-o uma baleia gigantesca, de tamanho incomum, que pôs a todos os cientistas boquiabertos. No ataque da baleia à embarcação submarina Alexi vem a morrer afogado. Não desistem os cientistas em resgatá-lo, à frente o almirante americano Harriman Nelson (Richard Basehard), sempre prudente, de bom-senso, a pedir calma à sua rival, a cientista russa, doutora Katya Markova (Gia Scala), mulher de temperamento agressivo. Envolvem-se em rusgas enervantes o almirante e a cientista, digladiam-se em palestras hostis, aquele, sensato, esta, insensata, aquele, a dar à cada vida humana valor inestimável, esta, a revelar-se crua e nua materialista intransigente. Mal o cadáver de Alexi havia se esfriado, devido à insistência da doutora Katya Markova, o almirante Harriman Nelson, acompanhado pela cientista russa, empreende nova expedição ao fundo do mar. Submersos, a baleia que dias antes atacara o batiscafo, ataca-o, e engole-o. No interior do veículo, que está no estômago do imenso animal marinho, conflagram-se em discussões acaloradas o almirante e a cientista, e durante as discussões, além da exposição dos dois temperamentos impermeáveis, revelam-se – sendo eles os símbolos – a mentalidade dos americanos e a dos russos – os estereótipos que o filme vende, a mentalidade americana, que dá valor à vida de toda pessoa, e a russa, que não entende ser um mal o sacrifício de algumas vidas em nome do progresso científico. Ao fim – o que não é de surpreender – resgatam o almirante Harriman Nelson e a doutora Katya Markova.
É uma aventura despretensiosa este episódio de uma das séries de televisão mais populares há cinquenta anos.

O Valente Treme-Treme (The Paleface – 1948) – com Bob Hope e Jane Russell.

Foi no Velho Oeste. Libertam Calamity Jane (Jane Russell), bandoleira temida, da prisão, e negociam-lhe o perdão pelos crimes se ela investigasse um caso escabroso, que envolvia venda de armas para os índios. Após a persuadirem da vantagem que ela obteria com a proposta, ela decide cumprir a incumbência da qual a haviam encarregado. No meio do caminho, conhece Peter Potter (Bob Hope), o dentista alcunhado Indolor, homem falastrão, medroso e trambiqueiro, que troca os pés pelas mãos com a sem-cerimônia de um sujeito alienado, um rematado tolo. A inusitada união entre a temida bandoleira e o pusilânime dentista oferece cenas de humor cativante, engraçadíssimas, disparatadas, de fazer dobrar de rir quem se dedica a assistir a esta comédia irresistível.

Amos Oz, Fernando Sabino, Rodrigo Gurgel, Dostoiévsli, Kafka, Monteiro Lobato, Mário de Andrade. Gianfrancesco Guarnieri. Notas brevíssimas.

Sumri, de Amos Oz, é um livro cativante, sensível.

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Martini Seco, conto, que aqui não conto, de Fernando Sabino, é uma divertida sátira dos romances policiais. A cena final, hilária.

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Para Rodrigo Gurgel, professor, escritor e crítico literário, são os três escritores fundamentais da literatura brasileira Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Graciliano Ramos.

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Após a leitura de Crime e Castigo, de Dostoiévski, e O Processo, de Kafka, não se recupera jamais a sanidade.

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Pergunto-me se Jeca Tatu e Macunaíma eram tipos brasileiros comuns, ou se, de tão raros, atraíram a atenção, o primeiro, de Monteiro Lobato, o segundo, de Mário de Andrade, ou se são criações literárias que simbolizavam as leituras singulares que seus criadores faziam da realidade.

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Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, é um panfleto ideológico apenas. Em tal peça, condena-se o homem que não se submete à classe à qual dizem que ele tem de pertencer e que sonha com sua ascensão social.

Venom (2018)

Não é um filme de aventuras; não é um filme de ficção científica; não é um filme de ação; não é um filme de terror. Não é um filme de super-herói. É uma sequência de cenas grotescas dotadas de algumas pinceladas, e muito mal aplicadas, de elementos de inúmeros gêneros e de nenhum gênero. Cada pessoa vê não se sabe o que em tal filme – se de filme se pode chamar tal obra sem valor, um horror em todos os aspectos, de constranger todo aquele que aprecia a Sétima Arte, de enervar os mais exigentes, de fazer os irmãos Lumière se remexerem no túmulo (e que nenhuma alma penada de além-túmulo ouse lhes falar da existência deste… desta… Não sei o quê). É Venom um caça-níquel. Explora a fama de um dos mais populares, entre os jovens, personagens de quadrinhos de super-heróis americanos. E nada mais. Se caçou muitos níqueis, não sei. Abusa de alguns efeitos visuais grosseiros, e grotescos, para contar um capítulo da vida do repórter investigativo Eddie Brock (Tom Hardy), o homem que vive em simbiose com Venom, o alienígena – um simbionte – que, a bordo de uma espaçonave do Instituto Vida, empresa de exploração espacial do multibilionário Carlton Drake (Riz Ahmed), chega, aprisionado num artefato tecnológico, à Terra.
Carlton Drake, inescrupuloso, realiza experiências que redundam na morte de suas cobaias humanas – uma delas, amiga de Eddie Brock – que não tinham organismo compatível com o dos alienígenas.
Não foi o simbionte Venom o único que foi trazido à Terra. Um outro, após parasitar dois corpos de humanos e o de um cachorro, ocupou, enfim, um que lhe era compatível, o de Carlton Drake.
Há no filme cenas violentas que, de tão mal executadas, inspiram riso; de perseguição, Eddie Brock (e Venom) de moto, seguido por agentes sob as ordens de Carlton Drake – e que nenhuma tensão possui; de humor, humor?, que não fazem rir; e, ao final, de luta, grosseira, grotesca, destituída de atrativos, entre os dois simbiontes, o que estava com o corpo de Eddie Brock e o que dominava o de Carlton Drake.
Venom, não se sabe porque razão, ao saber que o outro simbionte queria empreender uma expedição até seu planeta natal e trazer à Terra milhões dos da sua espécie, para colonizá-la, decidiu confrontá-lo. E assim fez, e foi por ele suplantado. Todavia, seu antagonista morre (morre? estamos falando de estória de super-herói), dentro de um foguete, numa explosão – os simbiontes não são invulneráveis ao fogo.
E Eddie Brock e Anne Weying (Michelle William), que só agora é apresentada nesta resenha, vivem felizes para sempre, ao modo deles, ele a seguir sua vida errática, ela, em comum com o doutor Dan Lewis (Reid Scott).
A biografia de Venom – é este adendo um brinde para os meus poucos leitores – é das mais inusitadas: Na série Guerras Secretas, de Jim Shooter, Mike Zeck e John Beatty, é Venom um material alienígena que compõe o uniforme preto do Homem-Aranha; depois, ele assume ares de um agente parasitário que suga seu hospedeiro, o sobrinho da Tia May, moço que, nas horas vagas, é o Amigão da Vizinhança, Peter Parker, que dele se livra ao som de um sino de uma igreja (emblemático: Peter Parker livra-se de seu demônio em uma igreja); em seguida, apossa-se o simbionte de Eddie Brock; enfim, converte-se em um anti-herói (da estirpe de Deadpool) que não hesita em matar humanos, um personagem grotesco, horripilante, repulsivo, asqueroso – hoje em dia, um herói. E orbitando-o criou-se um panteão de personagens tão horripilantes quanto ele; e é seu antagonista Carnificina.

Projeto Gemini (Gemini Man – 2019) – Direção: Ang Lee. Com Will Smith.

Não há muito o que dizer deste filme, que assisti atraído pelos nomes de Ang Lee e Will Smith, duas personalidades populares, ambas respeitadas pelos amantes da Sétima Arte.
Henry Brogan (Will Smith), assasino de elite, o melhor de todos, profissional irrivalizado, é traído por Del Patterson (Ralph Brown) e tem a sua cabeça dada a prêmio pelos inescrupulosos Clay Varris (Clive Owen) e Lassiter (Linda Ermond), superiores da agência de espionagem para a qual Henry Brogan trabalha. Não pôde gozar de sua merecida aposentadoria Henry Brogan, que, com a ajuda de Baron (Benedict Wong) e Danny (Mary Elizabeth Winstead), enfrenta os assassinos enviados para matá-lo. Mas apenas um assassino poderia matar Henry Brogan: Henry Brogan. Mas ele não podia ir no encalço de si mesmo. Não podia; e foi. Não o Henry Brogan original, primeiro e único, mas seu clone, mais jovem, dotado do talento de Henry Brogan para operações de assassinato. E não apenas um clone seu Henry Brogan encarou; enfrentou dois deles, o segundo, mais jovem do que o primeiro, e mais poderoso do que ele, um garoto, quase uma criança, era um ser humano aperfeiçoado, máquina de matar, sem espírito humano, criado para substituir soldados humanos nos campos de batalhas – questão, esta, explícita nas palavras de Clay Varris.
Ótimas, as cenas de ação do filme. O roteiro, simples. Estranhou-me o rosto de Will Smith, rejuvenescido por computadores, nas figuras dos clones dele. Por mais sofisticada que seja a tecnologia de efeitos especiais, ela ainda não pode emprestar ao rosto humano a sua natureza – irreproduzível por máquinas?Está na ordem do dia o transhumanismo, que, para os seus proponentes, é o aperfeiçoamento, o melhoramento do ser humano, a conversão dele num ser superior, que se obtêm suprimindo-lhe a essência transcendental; o filme, removido o seu teor fictício, faz de tal questão o seu estribilho. A controvérsia existe, conquanto muita gente a evite, dela se esquive, e a maioria a ignore: É possível melhorar o ser do ser humano? O clone de Henry Brogan, o primeiro deles, após o encerramento de sua aventura, segue uma vida de um ser humano. O clone, pergunta-se, tem alma? E muitas perguntas se seguem: Se não tem, é humano? Se tem, então, o que a alma é, se o clone é um produto da ciência humana? O clone é criação dos humanos, e estes são criaturas de Deus, então o que os humanos criam está contemplado nos desígnios divinos? A alma existe, ou é uma abstração filosófica e teológica? Que ninguém queira encontrar tal discussão em Projeto Gemini, que é única e exclusivamente uma obra de entretenimento. Ou não?

Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais (Law & Order: Special Victims Unit – Temporada 18; episódios 20, Sonho Americano (American Dream), e 21, Santuário (Sanctuary)

Na trama, desenrolada em dois episódios, 20 e 21, respectivamente, Sonho Americano (American Dream) e Santuário (Sanctuary), da temporada 18, a equipe da SVU, Unidade de Vítimas Especiais (Special Victims Unit), de Nova Iorque, liderada pela tenente Olívia Benson (Mariska Hargetay) e que tem entre seus membros os detetives Odafin Tutuola (Ice-T), Amanda Robbins (Kelli Giddish) e Dominick “Sonny” Carisi Jr. (Peter Scanavino), empreende uma caçada aos estupradores de duas mulheres, ambas imigrantes, árabes, muçulmanas, e ao assassinato de uma delas. De início, as suspeitas recaem sobre um parente delas, que, além de muçulmano, é homossexual e imigrante ilegal, e, simultaneamente, e sucessivamente, sobre um porto-riquenho, também imigrante ilegal, marido e pai de duas filhas. O árabe muçulmano e homossexual temia sua deportação para o seu país, pois, sabia, ao pôr, nele, os pés, comeria o pão que o diabo amassou; e os porto-riquenhos temiam serem deportados, pois a familia se desfaria, afinal os pais seriam deportados, e as filhas, nascidas na terra do Tio Sam, ficariam em solo americano. Enfim, os investigadores, escudados pelo promotor-assistente de Nova Iorque, Rafael Barba (Raúl Esparza), encontram os autores dos horrendos crimes originalmente imputados aos imigrantes ilegais, o árabe homossexual e ao porto-riquenho casado e pai de duas filhas: dois norte-americanos, ambos brancos.

Chamaram-me a atenção, sem que houvessem me surpreendido, a caracterização dos suspeitos e a dos crimininosos: os suspeitos, imigrantes ilegais, vítimas, nos Estados Unidos, de uma política imigratória (os episódios são de 2017, não me escapou tal informação – e Donald Trump já era o presidente dos Estados Unidos) alcunhada xenófoba, e tida como sórdida, cruel, desumana, são bons, pacatos; e os criminosos, ambos, repito, americanos e brancos, destilam ódio aos imigrantes e exibem, abertamente, seus sentimentos supremacistas.

O filme vende idéias prejudiciais à imagem, não apenas do presidente americano, objeto de ódio de onze em cada dez esquerdistas, dos Estados Unidos enquanto nação e dos americanos enquanto povo. O emblema do mal está colado na testa dos homens brancos.

O árabe muçulmano temia a deportação, pois, sabia, assim que pisasse em solo de seu país de origem, seria escorraçado; aqui, nesta questão, pedia-se uma condenação dos produtores do filme aos muçulmanos, que maltratam, segundo o que se apreende do roteiro, os homossexuais, mas o que se vê é condenação ao governo americano, que, indiferente ao destino dele, deporta-o. Fica-se com a sensação de que são os vilões da história os Estados Unidos, reduzidos à pessoa do presidente Donald Trump, os americanos, povo crudelíssimo, e os homens brancos, seres iníquos por natureza.

É tal estória uma panfleto ideológico anti-americano; para olhos atentos, é uma descarada, desabusada propaganda anti-americana que induz muitos americanos a se envergonharem de sua pátria e os outros povos a verem, nos americanos, homens desprovidos dos mais nobres sentimentos humanos.

Poirot – série de televisão – episódio 5, temporada 3 – A Tragédia na Mansão Marsdon (Agatha Christie’s Poirot – The Tragedy at Marsdon Manor – 1991).

Chamado à vila de Marsden por um dono de um hotel, Samuel Naughton (Desmond Barret), que lhe solicita ajuda na investigação de um caso policial, caso inusitado e intrigante, Hercule Poirot (David Suchet) – a acompanhá-lo o capitão Arthur Hastings (Hugh Fraser) -, ao receber das mãos dele papéis com o relato do caso, com todas as minúcias, e inteirado de sua natureza, contrariado, e visivelmente irritado, rejeita a proposta, mas, instado por Samuel Naughton, dedica-se a investigá-lo, e em pouco tempo, com pouca, ou nenhuma, dificuldade, resolve-o. E fala de sua descoberta a Samuel Naughton. E diz-lhe quem é o autor do crime. E chega aos ouvidos do êmulo de Sherlock Holmes notícia da morte de Jonathan Maltravers (Ian McCulloch). E dedica-se o investigador a estudá-la. Visitara, pouco antes, uma casa de bonecos de cera, onde, ao encerramento do filme, já concluída a investigação, dá-se uma cena de humor divertidíssima, que só não é mais divertida do que a história – esta, impagável – que Samuel Naughton protagoniza. No princípio da investigação do caso da morte de Jonathan Maltravers, contam-lhe a triste história da morte trágica de uma mulher, que havia saltado, para a morte, do alto de uma árvore, e cujo fantasma aterrorizava Miss Robinson (Anita Carey). Movido por sua inigualável perspicácia, não acolhe de imediato a conclusão dada ao caso. Intrigado, e a secundá-lo o capitão Arthur Hastings e o inspetor-chefe Japp (Philip Jackson), investiga-o até chegar à resposta certa. E a verdadeira causa da morte de Jonathan Maltravers vem à tona.
A trama é simples; mais do que ela, e a recriação do ambiente da época em que se dá a história, o que mais me agradou foi o cômico Samuel Naughton, personagem divertidíssimo.

Wu Kong – Contra a Ira dos Deuses (2017) – direção: Chi-Kin Kwok

Sun Wu Kong (Eddie Peng), o Rei Macaco, confronta os celestiais, que muito tempo antes destruíram o monte Huaguo, seu lar. No reino celestial, conhece os imortais Ah Zi (Ni Ni), linda, meiga e simpática – no início da aventura, estranham-se os dois, mas, obrigados ao convívio comum, eles se apaixonam -, Tian Peng (Hao Ou), habilidoso no uso de armas afiadas, Juan Lian (Qiao Shan), inventor de parafernálias, que nem sempre funcionam a contento, e que durante a batalha com um demônio, revela-se dotado de talento inventivo inigualável, Hua Ji (Yu Feihong), a imortal suprema, e o mestiço Erlang Shen (Shawn Yue), filho de imortal e humano.
Bate-se, no Reino Celestial, Sun Wu Kong com Tian Peng e Erlang Shen. É aprisionado num calabouço. Em segundo embate com os imortais, vem a cair, juntamente com Tian Peng, Erlang Shen, Ah Zi e Juan Lian, na Terra, num vilarejo, onde – agora todos eles sem os poderes de que eram dotados quando habitavam o Reino Celestial – unem-se para salvar os habitantes do vilarejo, atacado por um demônio, e contra este lutam bravamente. E Tian Peng encontra Ah Yue (Zheng Shuang), mulher que ele amava e da qual havia sido afastado muitos anos antes.
É o filme uma aventura chinesa mística, mítica, épica. Tem ótimas cenas de luta, ao estilo chinês, que nos causa certo estranhamento; e humor, em boa dose, simples, inocente – dir-se-ia bobo -, nas cenas que de Juan Lian protagoniza, principalmente. Chamou-me a atenção a beleza das mulheres, o esmero das vestimentas dos protagonistas, e os bem cuidados cenários – o do vilarejo, em especial, simples, de pessoas pobres, não peca pela feiúra, tampouco pela sujeira.
Prendeu-me a atenção a batalha final entre Sun Wu Kong e os imortais.
A aventura do Rei Macaco diverte, anima, entretêm.

Na Noite do Crime (Woman on the run – 1950) – estrelando Ann Sheridan e Dennis O’Keefe

Neste filme noir, em preto e branco, de 1950, o inspetor Ferris (Robert Keith) sai à caça de Frank Johnson (Ross Elliott), a única testemunha do assassinato de Joe Gordon (Tom Dillon), que iria testemunhar contra Freeman Fattened, um gangster.

O assassinato ocorre à noite, Joe Gordon, dentro de um carro, após saudar um homem, Danny Boy – e este nome, ao ser mencionado pela segunda vez, na metade do filme, revela a verdadeira identidade do assassino.

Frank Johnson, ilustrador, trabalha na loja Hart e Winston, do doutor Maibus (John Qualen). Passeava, com seu cachorro de estimação, Rembrandt; testemunha o crime, e o assassino dispara em sua direção dois tiros, errando ambos. À cena do crime chegam os policiais, e o inspetor Ferris, que pede a Frank Johnson informações acerca do ocorrido e lhe diz que ele, Frank Johnson, teria de testemunhar, descrever o assassino de Joe Gordon – e seria esta a única informação que teria a polícia numa investigação que tinha como alvo o gangster Freeman Fattened. Ao ouvir tais revelações, Frank Johnson decide, à distração dos policiais, e temendo pela sua vida, homiziar-se em qualquer lugar, para a sua segurança. Ao saber da ação de Frank Johnson, o inspetor Ferris principia a caçada a ele. Na sua ânsia de vir a efetuar a prisão de Freeman Fattened, e certo de que para chegar até ele teria de descobrir a identidade do assassino de Joe Gordon, e que para identificá-lo era imprescindível o testemunho de Frank Johnson, não mede esforços, aborda Eleanor Johnson (Ann Sheridan), esposa de Frank Johnson.

Toda a investigação do inspetor Ferris concentra-se, o que é inusitado, na caçada, não ao assassino, tampouco ao gansgster, mas à testemunha do assassinato de Joe Gordon, Frank Johnson, a única pessoa que poderia adicionar alguma informação à investigação.

Eleanor Johnson é uma personagem cativante – e é ela a protagonista da aventura, e é seu coadjuvante Dan Legget (Dennis O’Keefe), repórter do Graphic. Ácida e sarcástica, nos seus diálogos com o inspetor Ferris e nos com Dan Legget, além de revelar traços de sua personalidade multiforme, sua inteligência fina, de uma pessoa de língua afiada, exibe sua indiferença pelo marido e a si mesma; suas primeiras palavras a respeito do homem com quem vivia sob o mesmo teto são desdenhosas, de desprezo por ele.Atormentada com a abordagem, que lhe restringe os movimentos, do inspetor Ferris, driba-lhe a vigilância, e inicia, coadjuvada pelo onipresente Dan Legget, uma aventura emocionante e tensa à procura de seu marido. Na sucessão dos capítulos que contam a sua aventura, ouve contarem-lhe episódios da vida dele, episódios que ela, esposa distante, ignorava, e surpreende-se com o que lhe dão a conhecer. Tal aspecto do enredo, que segue concomitante à perseguição que o inspetor Ferris empreende a ela e ao esposo dela e a investigação que ela e Dan Legget executam, para chegarem até Frank Johnson, é uma trama envolvente que revela, aos poucos, a consciência que Eleanor Johnson adquire de seus sentimentos pelo marido, os quais dela até então estavam ocultos.São muitos os episódios da saga de Eleanor Johnson: o do clube chinês Jardins do Oriente; o do consultório do doutor Hohler; o da loja Hart e Winston; o do Sullivan’s Grotto; o do cais; o do consultório do veterinário; o do necrotério; e, enfim, o derradeiro, o do parque, na praia, sob as instalações da montanha-russa.A partir do episódio ocorrido na loja Hart e Winston, intrigada com mensagem cifrada, que seu marido lhe enviara numa carta, “Estarei em um grande dia, sob o Sol, como no dia que lhe perdi pela primeira vez.”, Eleanor Johnson esforça-se para encontrar-lhe o paradeiro – e para ir até ele teria de decifrar a mensagem, o que ela conseguiria a duras penas.Na metade do filme, repito, a identidade do assassino, alcunhado Danny Boy, no início da trama, por Joe Gordon, é revelada durante um diálogo entre Eleanor e Dan Legget; a partir deste momento, fica-se na expectativa, ansioso para se saber se Eleanor Johnson encontraria seu marido e o ajudaria a safar-se de seu perseguidor, ou se, sem o saber, conduziria o assassino até ele.

A Lotação dos Bondes – de França Júnior

Desencontra-se num bonde lotado, durante a agitação de um dia de carnaval, Joaquim Pimenta de sua esposa Josefa Pimenta; e Ramiro de Elvira, sua filha. E Joaquim procura por sua esposa, que vai ter a uma casa; e Ramiro, por sua vez, à procura de sua filha, que fôra a mesma casa. O destino providenciou a ida das duas mulheres à mesma casa. E foram ambos os homens, que estavam à procura, um, Ramiro, de sua filha, outro, Joaquim Pimenta, de sua esposa, à mesma casa.

No desenrolar da trama, saiu da casa uma turma de foliões carnavalescos, integrantes do grupo Tenentes do Diabo, Vitorino, Ernesto, Gonzaga, Magalhães e Carneiro, menos um deles, Camilo, que, pretendente à mão de Elvira, conserva-se na casa, na companhia dela.

E na casa, Joaquim Pimenta, ao se deparar com Camilo e Josefa, juntos, conclui que ele a requestava, e ele, Camilo, acredita que Joaquim Pimenta é o pai de Elvira. Dá-se uma confusão, que se desfaz assim que Ramiro, encontrando-se com Elvira, na presença de Camilo, a este se dá a conhecer como o pai dela, esclarecendo-se o caso.

Esta peça, de um ato desenrolado em dezesseis cenas, não contêm elementos que lhe conferem humor, não faz rir; foi escrito num momento de nenhuma criatividade; nem sequer a cena que narra a confusão entre Joaquim Pimenta e Camilo lhe confere teor cômico. É desprovida dos elementos cômicos que França Júnior, com desembaraço e desenvoltura, fez bom uso nas suas melhores peças “Defeito de Família”, “O Tipo Brasileiro”, “Maldita Parentela” e “Dois Proveitos em um Saco”.

Poirot – série de televisão – episódio 1, temporada 1 – A Aventura da Cozinheira de Clapham (Agatha Christie’s Poirot – The Adventure of the Clapham Cook – 1989)

Recorre ao detetive Hercule Poirot (David Suchet) a senhora Todd (Katy Murphy), preocupada com o desaparecimento de Eliza Dunn (Freda Dowie), sua cozinheira, e solicita-lhe que investigue o caso. De início, o famoso investigador belga recusa-se a empreender tal aventura, que, segundo ele, está muito aquém de seus talentos inigualáveis. Diante da persistente senhora Todd, um tanto quanto constrangido, e despeitado, a secundá-lo Arthur Hastings (Hugh Fraser), Poirot decide atender-lhe o pedido, e não demora para ir até a residência dela, e executar um exame minucioso do local. E dá tratos à bola. Logo vem a saber, usando de um artifício sutil, onde encontrava-se Eliza Dunn, vai até ela, e com ela mantêm uma palestra esclarecedora, vindo a saber, então, da existência do personagem chave do caso, certo de que ele, além de ludibriá-la com uma história sedutora, preparava viagem para a Bolívia. O caso que Hercule Poirot Investiga cruza-se, por obra do destino, com o qual o inspetor chefe Japp (Philip Jackson) ocupava-se. Estranham-se os dois investigadores. E não demora para que eles se entendam. E resolvem-se os dois casos. E é na iminência do encerramento da trama, que Poirot, intrigado, diante de uma surpresa que o incomoda, a suspeitar que se enganara, relembra um detalhe, que quase lhe escapara, e que lhe coça o cérebro, e que lhe permite chegar à solução para o caso que investigava.
O criminoso iria para a Bolívia, ou para outro país da América do Sul?

O Monstro da Lagoa Negra (Criature from the Black Lagoon – 1954). – direção: Jack Arnold

É este filme um distante ancestral de Anaconda, que conta, no seu elenco, com a bela Jennifer Lopez, e Jon Voight, que faz a vez de um canastrão grotesco.
É O Monstro da Lagoa Negra um filme desprovido de atrativos. Conta a história de um pequeno grupo de exploradores que, após o doutor Carl Maia (Antonio Moreno) encontrar o esqueleto de uma bem conservada mão de um animal desconhecido, antiquíssimo, de era anterior à do primeiro homem que pisou na Terra, vai, a bordo do barco Rita, pelos rios da Amazônia brasileira, até a misteriosa Lagoa Negra, onde vivia o Homem-Peixe, criatura lendária e temida. Compõem o grupo de aventureiros, além do doutor Carl Maia, o mergulhador David Reed (Richard Carlson) e sua mulher Kay Lawrence (Julie Adams), e o empresário Mark Williams (Richard Denning), e o dono do barco Rita, Lucas, e os ajudantes deste.
No início do filme, o monstro, saído da água, ataca dois auxiliares do doutor Carl Maia; e no decorrer da história, mata alguns outros personagens, dentre eles Mark Williams. O filme é pobre em efeitos visuais, tem cenas desnecessárias, que estão no filme unicamente para encher linguiça, em especial as que exibem David Reed e Mark Williams a explorarem o fundo do rio e a que a bela Kay Lawrence exibe, nas águas, a sua destreza de nadadora, só, tranquilamente, em um rio fundo, numa floresta praticamente inexplorada. Há uns atritos entre os personagens centrais, comuns em filmes do gênero, o empresário ambicioso, ganancioso e inconsequente, surdo à voz da ciência, e o cientista, abnegado, a pensar exclusivamente no progresso da ciência.
E o monstro, o terrível , assustador monstro da Lagoa Negra? O que dele posso falar? É ele um nadador exímio; suas evoluções submarinas, de um desenvolvimento único. Está bem adaptado à água. E ele rapta a bela Kay Lawrence, e carrega-a consigo até sua morada. É o monstro um homem vestido com uma fantasia de um bicho misto de peixe, batráquio, anfíbio e sei lá mais o quê.
É O Monstro da Lagoa Negra uma peça curiosa. Dele ouvi falar ainda em minha não muito distante infância. Apareceu-me por acaso diante de meus olhos, dias destes, assim que acessei o Youtube. E curioso, ao filme assisti.
Para encerrar esta curta resenha, digo: A idéia que o doutor Carl Maia esposa, após vir a saber da existência do homem-peixe, era muito comum, entre os cientistas, no crepúsculo do século XIX e no alvorecer do XX: nas regiões isoladas do mundo talvez animais pré-históricos existissem. Esta idéia inspirou a Arthur Conan Doyle o tema do livro O Mundo Perdido.

Dois Proveitos em um Saco – de França Júnior

Em um ato, desenrolado em seis cenas, nesta divertida, despretensiosa e bem realizada comédia, França Júnior prova que a mulher, quando quer ludibriar os homens, ludibria-os com uma facilidade estonteante, atuando com uma sagacidade admirável, invejável. Amélia Teixeira, a protagonista desta surpreendente, em sua simplicidade, peça, participa, com seu marido, Luís, de um jogo, o Philippina, que consiste em: duas pessoas participam: na entrega de um objeto de um deles para o outro, ganha o jogo quem primeiro diz: “J’y pense”, e o perdedor fica obrigado a atender ao desejo do vencedor, desejo previamente definido. Amélia gabava-se da infalibilidade das mulheres em tal atividade lúdica. Antes de se retirar de sua casa para ir ao Rio, Luís aceitara o pedido que sua esposa lhes fizera, o de participar do jogo; ele deveria, portanto, ao regressar à sua casa, e assim que recebesse de Amélia, ou desse para ela, um objeto, se lhe antecipando, dizer “J’y pense.” Revelo, aqui, o fim do jogo, não da peça: Amélia vence Luís. Aqui, nenhuma surpresa. Ao revelar tal informação, não estou a destruir de quem me lê o prazer da leitura de Dois Proveitos em um Saco, pois o ponto principal da peça eu não revelo.

Em uma cena, apresenta-se ao proscênio um coadjuvante desabusado, Boaventura Fortuna da Anunciação – o nome contrasta com a postura de quem o carrega –, que entra, sem se anunciar, na casa de Luís e Amélia, dá notícia da sua estadia, praticamente obrigando Amélia a acolhê-lo. A entrada em cena de tal personagem causa estranheza a quem lê a peça, estranheza equivalente a provocada em Amélia. É Boaventura Fortuna da Anunciação um celibatário; ele apresenta à Amélia um livro, “Manual Prático do Celibatário”, cujo teor, diz, consiste em apresentar todos os recursos que as mulheres empregam para enganar os homens. Mal sabia Boaventura Fortuna da Anunciação que Amélia lhe iria ensinar um outro recurso, desconhecido do autor do livro.

Um Homem Célebre (de Várias Histórias) – de Machado de Assis

É o herói deste conto, Pestana, popular compositor de polcas, admirado por muitos. Conquanto gozando de sucesso e popularidade invejáveis, vivia desgostoso consigo mesmo, pois, sabia, era apenas um autor de peças efêmeras, para diversão e o prazer de público inculto, iletrado, destituído de sensibilidade musical, sensualista, que se satisfaz com qualquer obra que lhe atenda os prazeres imediatos, uns lúbricos, que usufruem nos bailes, e não o de obras imorredouras que se rivalizam com as de Beethoven, Mozart, Bach, Schumann, Haydn e outros gênios da música clássica, obras que lhe incluem o nome, eternizando-o, no panteão dos heróis da arte. O seu sucesso atormentava-o, pois era unicamente o resultado da popularidade de obras às quais ele não dava grande valor, obras que não mereciam figurar entre as criações perpétuas de músicos agraciados com o dom da música. Esforçava-se, em vão, para criar obras eternas. Após casado com Maria, viúva e tísica, bafejado com o sopro da criatividade – assim ele acreditava -, compôs um Noturno, que Maria reconheceu como sendo uma peça de Chopin. E Pestana foi obrigado a dar o braço a torcer. Ludibriaram-no sua ambição e sua memória. Reproduzira, certo de que criara uma obra original.
uma peça que não era sua. E enviúva-se Pestana. Dedica-se, durante um ano, à composição de um Réquiem, para tocá-lo numa efeméride: o aniversário de um ano da morte de Maria. Fracassado em seu propósito, envergonha-se. O seu talento dava-lhe idéias para criar polcas, polcas populares, que caíam no gosto, não muito exigente, do povo, que não primava pelo requinte, pelo apuro musical – era assim ontem, é assim hoje.
A ambição de Pestana não andava no mesmo compasso de seu talento, que lhe oferecia recursos para criar obras que os homens, pouco exigentes, amavam, e as quais ele, demasiadamente exigente consigo mesmo, ambicionando admirar seu nome no rol dos autores cuja obra é eterna, desprezava – e ele não pôde gozar de prazer que a popularidade delas lhe ofereceria caso ele não fosse tão orgulhoso, prazer que outro músico, não tão orgulhoso e pretensioso quanto ele, gozaria. Pestana queria dar passos maiores do que os que suas pernas lhe permitiam – e por isso foi um homem infeliz.

Trustália, uma quase distopia – de Magno Mello

Uma galeria de dezenas de personagens ocupa as páginas deste livro de capítulos curtos subdivididos em episódios que se desenrolam em poucas linhas, alguns destes, os mais extensos, em três, quatro páginas. Está centrada a história nos eventos sucedidos em Trustália, um vilarejo situado nas cercanias de Paraíso e de Arrabalde. Tem início o relato com um evento inusitado, um fenômeno inédito, testemunhado por sete pessoas, todas de Trustália: uma luz amarela manifestou-se nos céus do povoado; e a partir deste fenômeno os moradores de Trustália revelam o dom de ler os pensamentos alheios. Ao ler as primeiras linhas, o leitor prepara-se para ler um relato fantástico, mas o autor, Magno Mello, não lhe satisfaz as expectativas, pois prende-se em pequenos relatos de eventos ocorridos, no povoado, nos anos que antecederam o estranho fenômeno luminoso e suas consequências extraordinárias. Descreve o livro um microcosmo social, o vilarejo de Trustália, uma civilização em miniatura, onde convivem tipos humanos dotados que o autor soube descrever com inteligência ao narrar os episódios que eles protagonizam. É a narrativa um caleidoscópio, as personagens entrechocando-se e revelando-se, nas colisões entre si, detalhes ocultos até então.Coadjuvado por Seu Vincente, José Inácio, Ariana, Romão, Padre Antero, professora Poliana e outros personagens, Ualter Carlos revela-se o protagonista, que tem no Comandante seu antagonista. É Comandante, cujo nome de batismo é Evilário Mouravia Montepreto, o “dono de quase tudo”, o fundador do vilarejo Trustália, o homem que o governa com mãos de ferro. As personagens reservam muitos segredos, não raros íntimos, que conservam de todos ocultos a sete chaves, mas o dom que adquiriram após a manifestação da luz amarela, dom que lhes permite ler pensamentos alheios, trá-los à superfície, e um deles referia-se à morte dos pais de Ualter Carlos.O autor mal emprega o recurso que dá o pontapé inicial do seu relato, o talento – que todos os moradores de Trustália adquiriram à manifestação da luz amarela – de ler os pensamentos alheios; dedica-se ao relato, em recortes curtos, de eventos anteriores ao fenômeno que dotou as personagens do extraordinário talento; indica, assim, entendo, que não soube o que saber com o recurso – que me parece dispensável dado o tratamento que o autor lhe dedica – que tinha em mãos.Revela Magno Mello três virtudes: domínio da técnica narrativa, que lhe permite costurar os episódios, em curtos recortes, entremeando passado e presente; bom vocabulário; e, controle da ação de dezenas de personagens, que se contracenam.Não me agradou o livro; e nem me desagradou. Generoso com o autor, digo que o livro tem mais pontos positivos do que negativos.

Chico – de Arthur Azevedo

A pedido de seu médico e amigo, o Doutor Miranda, Chico, homem prestativo e solícito, investiga a biografia de Alexandrino Pimentel, pretendente à mão de Maricota, mulher de trinta e sete anos, solteira, irmã do Doutor Miranda. Vem Chico a descobrir que havia sido Alexandrino Pimentel, casado com a filha de Trancoso, e foi ter com este, em Copacabana, após procurá-lo em Inhaúma, de onde se transferira para Copacabana seis meses antes, e dele ouviu palavras que descreviam o pretendente à mão da irmã do Doutor Miranda como um tipo asqueroso, de baixa estirpe, iníquo, desprezível. Incrédulo, suspeitando que Trancoso, homem mal-humorado e irascível, exagerava nas tintas que usara para pintar o homem que fôra seu genro, persistiu na investigação, vindo a confirmar, ouvindo palavras saídas de outras bocas, a má reputação que de Alexandrino Pimentel o sogro deste lhe pintara. Tão logo encerrou a sua aventura detetivesca, Chico, obsequioso, tratou de transmitir ao Doutor Miranda as notícias que lhe chegaram ao conhecimento. Contou-lhe tudo que sabia, e do que soube falou para Maricota, que se enfezou, fincou pé, e, destemida, disse amar Alexandrino Pimentel. E com este casou-se Maricota, contrariando seu irmão, que se resignou, afinal, era Maricota adulta, mulher de trinta e sete anos, e cabia a ela, e apenas a ela, ciente do temperamento e da reputação de Alexandrino Pimentel, decidir se viveria, ou não, com ele, maritalmente. E o universo pregou uma peça no prestativo Chico, pois a vida em comum entre Alexandrino Pimentel e Maricota não correspondeu ao vaticínio que todos deram ao considerarem o passado de Alexandrino Pimentel.

Ilya Muromets (1956) – direção: Alexander Ptushko

Baseia-se em um conto do folclore russo, de autoria dr M. Kochnev, a estória deste filme, que não tem muitos atrativos. É o seu herói Ilya Muromets (Boris Andreyev), homem de talentos sobre-humanos; a sua força é descomunal; sua valentia, irrivalizada. Está ele, em seu lar, na aldeia Karacharovo, quando guerreiros das estepes, sob o comando do tzar Kalin, (Shukur Burhonov) atacam-la, reduzem às cinzas muitas de suas habitações, e raptam Vassilisa (N. Myshkova). Na sequência, visitam a aldeia arruinada peregrinos que haviam recebido, do espírito do cavaleiro Svyatogor, herói lendário, mítico, uma espada, que eles deveriam entregar ao homem que estava destinado a salvar a mãe Rússia. E Ilya Muromets era tal herói. Ele nada pudera fazer para salvar Karacharovo da selvageria dos invasores porque não tinha os movimentos de seu corpo, os que recuperou assim que bebera um líquido, cujo principal ingrediente era certa erva de propriedades curativas, que os peregrinhos lhe haviam oferecido. Tão logo viram que Ilya Muromets reapropriara-se de sua força, entregaram-lhe os peregrinos a espada que em tempos imemoriais pertencia a Svyatogor. E o herói russo, destinado a salvar a sua pátria, após encontrar seus pais, e pedir-lhes a benção para ir a Kiev – que os guerreiros das estepes pretendiam conquistar -, e deles recebê-la, montou em Burushka, um potro, que o acompanharia em toda a longa viagem, durante cujo transcurso ele cresce, amadurece, encorpa-se, até assumir as formas de um robusto e formoso cavalo preto. E ao chegar Ilya Muromets em uma encruzilhada, corvos apresentam-lhe três caminhos: o que o levaria à riqueza; o que o conduziria ao seu casamento; e o que o condenaria à morte. E o herói decide seguir o que lhe daria um fim trágico. Era um herói Ilya Muromets. Para salvar Kiev, recusou a fortuna e as delícias do casamento. Estava decidido a sacrificar-se numa aventura que lhe exigiria coragem, sabedoria e força de vontade para enfrentar, e superar, todos os obstáculos que encontraria em seu caminho. E seguindo o herói seu curso, depara-se com o pequeno Rouxinol, o Ladrão, um ser disforme, repulsivo, cujo sopro provocava ventanias devastadoras. E o derrota. E segue rumo às terras do príncipe Vladimir (A. Abrikosov) e da princesa Apraksya (N. Medvedeva), onde conhece Dobrynia (G. Dyomin), um herói russo, e outras personagens lendárias. E resgata Vassilisa. E contratempos o fazem ser punido pelo príncipe Vladimir, que manda que o encarcerem num calabouço lúgubre, onde, aprisionado por anos, não morre de fome e sede porque uma toalha de mesa, mágica, que lhe tecera Vassilisa, dá-lhe o alimento e a água de que necessitou durante os anos de cárcerr. E revela-se Mishatychka (S. Martinson), súdito do príncipe Vladimir, traidor, a agir em favor do tsar Kalin. E encaminha a aventura para o seu fim. Ilya Muromets e seu filho digladiam-se, em Kiev, tsar Kalin e oe seus guerreiros a atacarem-la. É sangrenta a batalha. Ao final, aparece de entre as montanhas um dragão de três cabeças.

É o filme aventura, musical, comédia, drama, épico, romance histórico. Contêm em sua fórmula ingredientes destes gêneros e de mais alguns outros. Um dos seus atrativos é a paisagem, vasta, exibida em cenas panorâmicas; outro, o humor, simples, ingênuo – em algumas cenas, involuntário. Tem o filme duas cenas engraçadas, que saltam aos olhos, a graça produzida por erros de produção. Uma se dá num campo, após uma batalha, cadáveres a cobri-lo: um dos cadáveres, supostamente morto, move o braço esquerdo, para, assim me pareceu, remover da testa alguma coisa que o incomodava. Cá entre nós, o cadáver não estava inteiramente morto; não era um autêntico defunto. A outra cena, também em um campo de batalha: um soldado russo a manejar a espada com tal displicência que fiquei com a impressão que o ator que o representava não tinha a mínima idéia do que estava fazendo.

Sei que é o filme antigo, velho de sessenta e cinco anos, e que os recursos cinematográficos do ano de sua produção – e os soviéticos não nadavam, ao contrário do que afirmava a propaganda comunista, em dinheiro – não chegavam aos pés dos atuais, mas os produtores bem que podiam ter caprichado um pouco mais na construção do dragão de três cabeças que dá o ar da sua graça nas cenas finais do filme; parece tal monstro um boneco gigante de carro alegórico de escola de samba brasileiro.

É Ilya Muromets, de Alexander Ptushko, apesar de todos os seus defeitos, que são muitos, e eu decidi mencionar apenas alguns deles, um bom entretenimento.

Novos Mutantes (The New Mutants – 2020)

Um filme de super-heróis sem super-heróis, conquanto as personagens que o animam, Illyana Rasputin (Anya Taylor-Joy), Lupina (Maisie Williams), Miragem (Blu Hunt), Míssil (Charlie Heaton) e Mancha Solar (Henry Zaga), sejam, nos gibis da Marvel, heróis. Os Novos Mutantes são os, digo, X-men do ensino médio, um grupo de mutantes criados por Chris Claremont e Bob McLeod – Claremont, que me desculpem a ousadia, padrasto, e um bom padrasto, dos mutantes mais famosos do universo, é autor de aventuras memoráveis, inigualáveis (e para escrevê-las contou com a contribuição inestimável de John Byrne, este no auge de seu talento criativo).
O filme Novos Mutantes possui algumas qualidades, poucas: um clima claustrofóbico, que prende a atenção do expectador, atraindo-lha para o constante mistério, leve, misto de terror e suspense, em doses homeopáticas, um coquetel não de todo dispensável.
Encontram-se os cinco jovens mutantes, sob a guarda de Cecília Reyes (Alice Braga), aprisionados em uma mansão, para estudos de seus poderes. Miragem (ou Moonstar) é a personagem central desta trama. Dotada do poder de fazer ver as pessoas (ela, inclusive) seus mais profundos medos, corporificando-lhes os demônios, revela, aos poucos, os dramas dos personagens que participam da aventura: o de Míssil, que matou, acidentalmente, seu pai; o de Mancha Solar, que matou, acidentalmente, sua namorada; o de Lupina, abusada sexualmente pelo Reverendo Craig (Happy Anderson); e o de Illyana Rasputin, abusada.
Enquanto estudava Miragem, concluem que ela era uma ameaça a todos, e tinha de ser sacrificada. Tal ordem partiu do superior de Cecília Reyes, o Professor Xavier, dá-se a entender, embora em nenhum momento ele seja nomeado. Causou-me estranheza tal detalhe, pois o telepata mais poderoso da Terra, em vez de pedir pela morte de uma mutante, iria, em atendimento aos seus princípios, empregar todos os recursos à sua disposição para ajudar Miragem a se conhecer e conhecer a origem e a extensão de seus singulares poderes.
Na cena derradeira, Miragem – auxiliada pelos outros jovens mutantes – enfrenta seus mais profundos medos, seus demônios, que se corporificam em um imenso urso, bestial.

A Mulher que Fugiu de Sodoma – de José Geraldo Vieira

Poucos livros agarraram-me pelo pescoço, e soltaram-me só depois de eu ler-lhe a última de suas palavras. A Mulher que Fugiu de Sodoma é um deles. Está vazado num estilo simultaneamente simples e sofisticado, de bom gosto literário. É uma narrativa cativante, o autor a retratar o seu herói com sensibilidade rara, incomum, dedicando-lhe amor e carinho paternais, severo e ao mesmo tempo meigo, a cuidar dele com desvelo, porque sabe – afinal, é-lhe o criador – que ele irá se perder, e sua onisciência fá-lo disposto a compreendê-lo, respeitá-lo, amá-lo.

Narra José Geraldo Vieira a queda do médico Mário Montemor, que se vê em apuros devido ao seu vício em jogos (de azar, para muitos; de sorte, para poucos, os escolhidos; de muita, muita sorte, para os donos da banca). Faltando à lealdade ao doutor Silva Soares, vem Mário Montemor a lhe dever uma soma impagável. Após inteirar sua esposa, Lúcia Montemor, da situação em que se pusera, ela, dedicada, sai em busca do dinheiro correspondente ao valor da dívida que ele contraíra, e teria de arrumá-lo até a data aprazada pelo credor. Recorre Lúcia Montemor à Natália Cordeiro, sua prestimosa e solícita amiga, e à sua tia Marta, que lhe dedica amor inexcedível, e, enfim, à Ana Maria, sua amiga, esposa de Nuno de Almada, empresário miliardário, magnata brasileiro, cuja riqueza se rivaliza com a dos potentados europeus. Bem-sucedida em sua empresa, livra seu marido do apuro em que ele se pusera, mas ele não se emenda. A morte do “Segundo Clichê”, menino que vendia jornais, filho de Justiniano, foi, entende Lúcia Montemor, consequência do descaso, da irresponsabilidade de Mário, de quem ela se afasta. Lúcia Montemor recorre à tia Marta, que a acolhe. Ana Maria pede à Lúcia que ela lhe seja preceptora da filha, Leonor, e ela não se faz de rogada e transfere-se para a casa dos Almada. Neste meio tempo, Mário Montemor, após vender alguns de seus pertences, e com o dinheiro da venda saldar algumas dúvidas de jogo, recorre ao seu tio Zózimo, que o repreende, exorta-o a ir à Europa estudar medicina e se compromete a sustentá-lo durante os anos de estudos. Mário aceita-lhe a oferta, e embarca para a Europa, e instala-se em Paris. No início, ele se dedica aos estudos, aprimora os seus conhecimentos; e diverte-se com a modelo Pervanche, de quem se torna amante. Mas não persiste nos estudos; logo perde-se, o jogo o excita; aposta boa soma em corridas de cavalos; contrai dívidas. E morre-lhe o tio Zózimo, que lhe enviava, mensalmente, dinheiro para o sustento. Endividado, sem rumo, reduzido, devido o seu vício do jogo, à miséria, envolve-se com criminosos; encontra moradia na rua. Adoece. Amigos o acolhem, ajudam-lo, dele cuidam. E o que lhe sucede o leitor saberá ao ler o livro.

O leitor percebeu que eu falei de Mário Montemor, mais dele do que de qualquer outro personagem, e concluiu que é ele o herói do drama que nos conta José Geraldo Vieira, e pergunta-se porque é o título do livro A Mulher que Fugiu de Sodoma. É Lúcia Montemor, esposa de Mário Montemor, a personagem que, ausente da maioria dos episódios do romance, está presente em toda a obra, da primeira à última linha, em todos os episódios, pois é a figura dela que Mário Montemor tem em seus pensamentos; ela está nos sonhos dele, nos pensamentos dele; ele a tem consigo todo o tempo. É Lúcia Montemor a personagem central do romance, seu coração, sua alma. Mulher dedicada ao marido, de alma pura, ela recusa a Sodoma que o mundo lhe oferecia, oferta que lhe redundaria, se ela a aceitasse, na perdição da alma. A cena derradeira da sua aventura ilustra a sua rejeição à Sodoma.

É o livro de José Geraldo Vieira, A Mulher que Fugiu de Sodoma, uma obra magnífica, uma obra-prima da literatura brasileira. De leitura agradável. De estilo primoroso. Anima-a personagens cativantes. Em poucas horas de leitura, segui Mário Montemor em suas desventuras dramáticas, narradas com esmero, e simpatizei-me com ele.

Apenas os mestres da literatura conhecem a fórmula mágica da criação de personagens humanos, autenticamente humanos. E José Geraldo Vieira é um deles.

Patrulheiros em Alerta (The Midnight Patrol – 1933) – com O Gordo e o Magro

A piada está no título. Alertas os dois patrulheiros mais bobos, tolos, patetas de que se tem notícia? Está aí a piada. E ao saber do título, esboça-se um sorriso no rosto de quem o lê, e já se anteve a sucessão de disparates que Stan Laurel e Oliver Hardy irão empreender com as suas proverbiais sabedoria e perspicácia, tão admiráveis, e invejáveis, que causam em todos espanto.
Estão os dois patrulheiros no interior de uma viatura policial, quando ouvem um comunicado, via telefone, da polícia: ladrões roubam o estepe da viatura policial. Ao ouvir tais palavras, quem assiste ao filme recusa-se a acreditar que os dois patrulheiros não haviam presenciado a ação dos criminosos. Resolvida – e do modo que o foi – o caso, recebem os patrulheiros outro comunicado da delegacia de polícia: em andamento uma invasão à certa residência. Conquanto atilados patrulheiros, Stan e Laurel esquecem-se do endereço em que um criminoso estava a cometer o crime. E Stan dirige-se a uma loja onde se depara com um arrombador de cofres, e com ele dedica alguns minutos de sua suspicaz atenção, mantêm com ele um diálogo, apropriado, pode-se dizer, considerando-se as circunstâncias, e, um telefone à mão, disca para a delegacia de polícia, e solicita ao seu interlocutor do outro lado da linha o endereço em que um criminoso perpetrava um crime. E anota os dados que ele lhe dá em uma folha de papel. E ele surpreendentemente atrapalha-se e perde as informações anotadas. E Oliver tem de realizar ligação telefônica à delegacia. E agora, de posse do endereço da residência que um criminoso escolhera para roubar, rumam os dois patrulheiros, de viatura policial, ao local do crime. Lá chegando, deparam-se com o criminoso com a mão na massa. As cenas que se seguem no interior da residência, até a captura do meliante e a condução dele à delegacia de polícia revelam a vocação de ambos os patruleiros para o correto exercício de homens da lei.

Uma Hora da Madrugada (One A. M. – 1916) – de Charles Chaplin

Após uma carraspana homérica – presume-se, dado o estado de embriaguez do herói da comédia -, Charles Chaplin, pra lá de Bagdá, está num táxi daqueles bem antigos. Que seja antigo o táxi não surpreende, afinal é o filme do ano de 1916. Quer o ébrio retirar-se do veículo. Mas há jeito!? O carro não quer que de si saia seu passageiro. Talvez tal pensamento tenha preenchido a cabeça de Chaplin durante o seu embate com o monstro de metal, que o havia devorado. Depois de umas atrapalhadas bem divertidas, engraçadas, que me arrancaram boas gargalhadas, livra-se o herói do seu inimigo, que não desejava deixá-lo sair de suas entranhas, e encaminha-se à sua residência. Para adentrar-lhe os domínios de nada adiantaria ele ditar “Abra-te, sésamo!”, em alto e bom som, embora estivesse, pra lá de Bagdá, em terras de Ali Babá; precisava de uma chave parar abrir-lhe a porta. Encontrou-a após superar alguns percalços – intransponíveis, dir-se-ia. E dentro da sua casa, passeou de tapetes, que não eram voadores, enfrentou dois felinos ferozes, divertiu-se com uma peralta mesa giratória, exibiu a sua destreza de alpinista, encarou um urso, foi atacado por um relógio, e entrou, finalmente, no quarto, para uma boa noite de sono. Mas a cama não se dispunha a acolhê-lo aos seus braços, tão ébrio ele estava que poderia ser expulso de sua casa e por ela mesma. Enfim, ao fim da sua longa e acidentada jornada, encontrou o herói o repouso tão acalentado.
Nos vinte e poucos minutos deste antigo filme, de mais de um século, assistindo-o, de tanto rir fica-se com dor de barriga e chora-se.

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail – 1975) – direção: Terry Gilliam e Terry Jones

A cavalgarem cavalos imaginários, que trotavam ao som de batidas de duas metades de casca de côco, Rei Arthur (Graham Chapman), secundado pelo seu servo Patsy (Terry Gilliam), chega ao castelo cujo dono é sabe-se lá quem. E numa retórica sofística elevada à enésima potência o rei bretão e um guardião do castelo palestram, o guardião no topo do muro, o rei, do lado de fora do castelo, ambos a exibirem oratória de grande fôlego, acerca de cavalos, côcos e andorinhas migratórias. E não demora muito, o rei de Camelot depara-se com camponeses mal-ajambrados, um deles a exercitar seu conhecimento político anacrônico, de luta de classes e sindicalismo e cooperativismo anárquico, ou coisa que o valha, e o faz com tal segurança, que se revela digno ancestral dos revolucionários que puseram a civilização, a partir do século XIX, de pernas para o ar – ele teria registrado seu nome na história das revoluções se algum historiador houvesse se dignado a registrar-lhe os pensamentos e se ele contasse com um razoavelmente bem aquinhoado padrinho que lhe patrocinasse as aventuras intelectuais.

E não muitos passos depois, o rei Arthur testemunha uma sofisticada disputa filosófica envolvendo Sir Bedevere (Terry Jones) e súditos do rei, andrajosos e mal-cheirosos, e cujo tema era o estatuto ontológico de uma bela jovem, que, para os que a acusavam de bruxaria, era uma bruxa, daí desejarem eles queimá-la viva, torrá-la ao fogo de uma fogueira, mas que para Sir Bedevere, dono de inexcedível talento lógico, de embasbacar e queixocair todo bípede implume, usando de filigranas silogísticas tão sutis que escapam ao comum dos homens, talvez não fosse o que diziam os acusadores dela o que eles diziam que ela era, mas era ela um pato de madeira que flutuava à superfície das águas porque tal qual uma bruxa podia queimar se lhe ateassem fogo – se entendi corretamente o raciocínio de Sir Bedevere, que fez o papel de um Sócrates redivivo, a usar com desenvoltura invejável a maiêutica que o ilustre sábio grego criara com a sua oracular ignorância, virtude do mais sábio dos homens, segundo a pitonisa de Delfos – infelizmente, os bretões, no século do Rei Arthur, não contavam com o gênio de Platão para registrar capítulo tão emblemático da história da civilização; felizmente, todavia, contavam com o Monty Python, que, sem se fazer de rogado, se encarregou de registrá-lo, e o fez com a seriedade dos historiadores clássicos. Se não entendi a substância do embate filosófico conduzido com maestria por Sir Bedevere, e é provável que eu não a tenha entendido, Sir Bedevere, no seu confronto dialético, lógico e metafísico e silogístico com os que lhe apresentaram a suposta bruxa, fê-los concluir que ela era bruxa porque, sendo o pato de madeira, suscetível de, exposto ao fogo, queimar, flutuava tal qual as mulheres, ou, então, estou a aventar outra explicação para a cristalina exposição lógica peripatética, socrática e escolástica de Sir Bedevere, são os patos bruxas porque a mulher, de madeira, além de flutuar, queima; ou, então, a mulher, de peso equivalente ao do pato de madeira, flutua, portanto, queima tal qual uma bruxa; ou, então, a madeira, que flutua, e queima, e pode ser usada na construção de pontes, que também podem ser de pedra, tem peso correspondente ao do pato, que, sendo mulher, é uma bruxa.

O leitor, ao ler as palavras do parágrafo anterior, que antece as deste que ora lê, concluiu, eu sei, que me deparei com tão sofisticada e complexa questão filosófica que sou incapaz de reproduzi-la em sua essência.

E depois de o Rei Arthur, e Patsy, seu servo, e Sir Bedevere, e os cavaleiros, que se juntaram à trupe de Camelot não sei quando, Sir Lancelot (John Cleese), Sir Robin (Eric Idle) e Sir Galahad (Michael Palin), enfrentarem, à boca de uma caverna, um coelho demoníaco, e depararem-se com os Cavaleiros que Dizem Ni, e encontrarem o feiticeiro Tim, e construírem um Coelho de Tróia, e chegarem ao castelo Aarrgh, e confrontarem o Cavaleiro de Três Cabeças – não necessariamente nesta ordem -, e superarem outros obstáculos intransponíveis, encerra-se o filme.

“E o Cálice Sagrado?!”, pergunta-me o leitor. “O Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda encontraram o cobiçado Cálice Sagrado?” Que fim levou o Cálice Sagrado tão desejado pelo rei bretão e seus fiéis cavaleiros, eu sei; melhor, acredito que sei.

É Monty Python em Busca do Cálice Sagrado iconoclasta, irreverente, disparatado, anárquico. Uma aula de história da Grã-Bretanha da era o Rei Arthur, acredite o leitor.

Ah! Esquecia-me. Se as andorinhas migram, então elas são africanas, e não européias, desde que carreguem côcos.

Liberation – filme 5 – The Last Assault (1971) – direção: Yuri Ozerov


Neste último filme da série de cinco dirigida por Yuri Ozerov, os soldados soviéticos avizinham-se do Reichstag, residência oficial de Adolf Hitler. Para dominar a Alemanha, e chegar ao objetivo que tinham em mira, restava-lhes atravessarem o rio Spree. No subterrâneo do metrô de Berlim, Tsvetayev (N. Olyalin) e Yartsev (M. Nozskin) confrontam soldados nazistas. A escaramuça, intensa. E deparam-se com multidão lá abrigada, para fugir da carnificina que ocorre na superfície, bombas a estourarem ensurdecedoramente. Na superfície, devastação indescritível. O centro de Berlim, em ruínas, reduzido a cinzas. Adolf Hitler (Fritz Diez) ordena subordinados seus que abram as comportas de contenção de água para inundar o metrô. E a multidão lá abrigada vê-se na contingência de, para se salvarem do afogamento, subirem à superfície. A cena desenrola-se, as pessoas fogem, e o subterrâneo inunda-se por completo. Enquanto tais eventos se sucedem, Hitler, no seu bunker, na companhia de Eva Braun (A. Waller) e Goebbels (H. Giese), que é apresentado com a perna direita mais curta do que a esquerda, a manquitolar, e membros do alto comando militar nazista transparecem preocupação e resignação, pois sabiam que os comunistas soviéticos aproximavam-se, ameaçadoramente, do Reichstag, e os soldados nazistas mal lhes podiam esboçar resistência. A derrota nazista era certa, sabiam. Atravessam os soviéticos o rio Spree. E Shatylov (A. Romashin) dá a Zinchenko ordem para o hasteamento, no topo do Reichstag, da bandeira da União das República Socialistas Soviéticas, e ele, Zinchenko encarrega Yegorov e Kantaria de empresa que representaria a conquista da Alemanha pelos soviéticos. E a guerra prossegue, nas ruas, Berlim em chamas, devastada, reduzida à pó, e no interior dos prédios em ruínas. Sucedem-se as mortes de soldados de ambos os exércitos. E é hasteada a bandeira soviética no topo do Reichstag.

Enquanto o derramamento de sangue segue caudaloso no centro de Berlim, Hitler, cujas mãos tremulam, caquético, casa-se com Eva Braun, e mata-a envenenada. Dizem os historiadores que Adolf Hitler suicida-se com um tiro. O filme deixa tal questão em aberto, dúvida a pairar sobre o destino dele. Hitler mata-se, ou o mataram, com um tiro? Tal ato, o derradeiro da vida dele, não é exibido. Estão Hitler e um militar nazista, numa sala, a porta fechada. E ouve-se um tiro. A cena não é exibida. Vê-se a porta pelo lado de fora da sala. E abre o militar nazista a porta da sala. E está Hitler estirado no chão, morto. Quem apertou o gatilho?
O militar diz para os que o esperavam no lado de fora da sala que Hitler se matara. Negociam nazistas e comunistas soviéticos o cessar fogo; e os soviéticos exigem a rendição incondicional de seus inimigos.

Os cenários são nus e crus; o realismo, repito o que escrevi nas resenhas aos filmes anteriores, é sóbrio.Para encerrar, duas cenas: a de Zoya (L. Golubkina), à boca do metrô, então inundado, a observar capacetes militares flutuando na água; e, a de Vasiliev (Y. Kamorny), à procura de Dorozhin. Duas cenas de sensibilidade cativante, contagiante.

E aqui encerra-se o épico de Yuri Ozerov.

… e a guerra continua…

Liberation – filme 4 – The Battle for Berlin (1971) – direção: Yuri Ozerov


E as tropas americanas avançam pelo norte da França – assistem à tela Stálin (Bukhuti Zakariadze) e Antonov (V. Strzhelchik). Incomoda Stálin o avanço dos americanos, que poderiam chegar, antes dos russos, a Berlim. Os russos conquistam terreno pelas frentes de combate na Bielorússia e na Ucrânia, sob comando de Zhukov (M. Ulyanov), Rokossovsky (V. Davydov), Orlov (B. Seidenberg), Katukov (K. Zabelin), Sokovsky (M. Postnikov), Rudenko (L. Presnetsov), Oriol, Galadzhev (L. Davlatov) e Malinin (G. Mikhailov). Em uma reunião, num salão suntuoso, ataviado com mobílias e lustre e estátuas e armaduras e vitrais, após ouvir o que tinha para lhe dizerem os generais, Zhukov dispensa-os e, pensativo, senta-se em uma cadeira e toca algumas notas num acordeão. Temiam os russos Guderian. E Zhukov e Katukov dedicam-se a pensar o que ele talvez pensava, prever-lhe os próximos passos e a ele anticiparem-se.

Enquanto os soviéticos conquistavam terreno, já entrados na cidade de Warsaw, na Alemanha anunciam os comandantes nazistas para Hitler que Eisenhower lhe sugeria armísticio de cem dias, e que as tropas alemães, derrotadas em várias batalhas, abandonaram posições. Hitler (Fritz Diez), de início abatido com as notícias, transtorna-se; e seu humor melhora ao ouvir de Guderian (H. Körbs) a sugestão de contra-atacarem os soviéticos na Pomerânia. E Keitel (G. M. Henneberg), Himmler (E. Thiede) e Wolff (J. Klose) articulam negociação com Dulles, em prejuízo da União Soviética. Na Suiça, palestram Wolff e Dulles; são ambos insinuantes; e a conversa amigável deles ambos chega ao conhecimento de Stálin (Bukhuti Zakariadze), que, em Yalta, no encontro com Roosevelt (S. Jaśkiewicz) e Churchill (Y. Durov), (a foto de tal encontro é uma das mais populares da Segunda Guerra), exibiu-lhes uma fotografia com a estampa de Wolff e Dulles e falou-lhes da desconfiança entre os três líderes Aliados. Sabia Stálin que estavam os soldados russos a sessenta quilômetros de Berlim, e os americanos a seiscentos. Assim que Stálin se levanta e se afasta dos seus dois interlocutores, o primeiro-ministro da Inglaterra diz ao presidente dos Estados Unidos que Stálin representaria uma ameaça a eles.
Em meio à guerra, um episódio animado, divertido; protagonizaram-lo Dorozhkin (. V. Nosik) e um soldado polonês, ambos a procurarem combustível para os tanques soviéticos; encontraram um vagão cheio de combustível, e dois vagões repletos de prisioneiros, no primeiro que abriram, mulheres, no segundo, homens. E são Dorozhkin e Vasiliev (Y. Kamorny) os protagonistas de um cena sensível, coadjuvando-os um casal e duas moças jovens e bonitas, animada por um leve toque de humor, discreto, acanhado.

E eu não poderia deixar de mencionar uma cena: a de Adolf Hitler com um globo terrestre. Ao vê-la, evoquei, de imediato, a hilária caricatura do líder nazista feita por Charles Chaplin.

Ao saber que os soviéticos haviam derrotado os alemães na Hungria e na Pomerânia, Hitler enfurece-se, desanca Dietrich, remove-lhe da farda as condecorações, e em seguida repreende Guderian. E a notícia da morte de Roosevelt alegra-o. E desce Hitler ao bunker – ao seu lado estão, além de outros, Eva Braun (A. Waller), Goebbels (H. Giese) e Magda Goebbels (Y. Dioshi). E comemoram o quinquagésimo aniversário do líder nazista.

E os russos cercam Berlim.

Há, neste The Battle for Berlin, menos cenas grandiosas do que nos três filmes anteriores, o que não o faz, na comparação com eles, menos interessante e espetular e admirável.

… e a guerra continua…

Liberation – filme 3 – Direction of the Main Blow (1970) – direção: Yuri Ozerov


Em Teerã, estão reunidos, para discutir os destinos do mundo, os três líderes dos Aliados, Roosevelt (S. Jaśkiewicz), Churchill (Y. Durov) e Stálin (Bukhuti Zakariadze). E o presidente americano propõe a abertura de uma frente de batalha, no norte da França, o que não desagrada os outros dois líderes. Na Túrquia, um agente nazista, infiltrado na embaixada britânica, fotografa um documento secreto cujo teor é a declaração das intenções dos Aliados de avançarem em Normandia, a segunda frente decidida, em Teerã, pelos três líderes que antagonizavam Hitler. Hitler (Fritz Diez), com as fotos em mãos, após lhe decifrarem o teor do documento dos Aliados, mostra-se desconfiado acerca da substância do documento; para ele, Churchill, um mestre da desinformação, pretendia engabelá-lo, pois, acreditava, jamais iriam os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Rússia atacar a Alemanha pelo norte da França.

Os soviéticos dão início à Operação Bagration. E avançam, contra as tropas nazistas, pela Bielorússia e Ucrânia. Coordenam tal operação Zhukov (M. Ulyanov), Bagramyan (V. Karen), Konev (Y. Legkov), Rokossovsky (V. Davydov), Chernyakhovsky (Y. Kolchinsky), Vasilevsky (Y. Burenkov), Meretskov (V. Kostenko), os principais personagens envolvidos no planejamento de operação tão grandiosa, que resulta em vitórias incontestáveis.

E para seu desgosto, e contrariedade, Hitler vem a saber que era verdadeiro o documento que o nazista (agente seu infiltrado na embaixada britânica na Túrquia) enviara-lhe.Impressionantes, as cenas das batalhas no pântano. Aliás, são impressionantes, deslumbrantes, encantadoras, neste filme, todas as cenas de batalhas; cenas de impacto a exibirem poderosas, devastadoras, assassinas, máquinas de destruição, em vastos panoramas, mas exibidas com tal arte e maestria que quem ao filme assiste esquece qual é o tema delas, cenas retratadas tão vivamente, que, em vez de provocar espanto, repulsa, encanta, fascina, deslumbra. Além dos tanques e outros veículos em terra, que se digladiam, nos céus, pilotos franceses e russos emulam seus equivalentes alemães. É o destaque deste episódio um piloto francês. E os soviéticos ocupam Potolski, Minsk e outras cidades. E seguem avançando em direção à Polônia. Há uma pausa na exibição de cenas de batalhas. E dá-se uma cena idílica entre Sergey Tsvetayev (N. Olyalin) e Zoya (L. Golubkina), cena que se encerra abruptamente.
Enquanto os soviéticos conquistam terreno no campo de batalha, na Alemanha membros do alto comando militar nazista planejam a morte de Hitler: a famosa Operação Valquíria, que falha fragorosamente. Participam da conspiração, tendo em mente estabelecer a paz com os Aliados, Herr von Kluge (H. Hasse), von Witzleben (O. Dierichs), Beck (W. Wieland), Carl Goerdeler, Friedrich Ollbricht (W. Ortmann), Werner von Haeften (E. Stecher), e Claus von Stauffenberg (A. Struwe), que ficou encarregado de levar a mala com a bomba até onde se encontrava-se Adolf Hitler. A bomba explode. Fere-se Hitler, que vê em sua sobrevida um milagre, um sinal alvissareiro, que lhe inspira ânimo em sua fúria bélica, demoníaca. E é o destino dos conspiradores trágico. E entra em cena Guderian (H. Körbs). E os russos chegam à Polônia.Não pretendo, nesta resenha, e não pretendi nas duas anteriores, e não pretenderei nas duas que irei escrever, dar o teor completo do filme. O filme tem mais, muito mais, do que o que escrevi; é maior do que eu poderia descrevê-lo. E tenho de repetir: as cenas das batalhas são deslumbrantes; os cenários, amplos, vastos, panorâmicos, magníficos. É impossível não se deslumbrar com o cenário, não se embasbacar com o que o filme oferece. Não sei dizer qual cena mais me impressionou.

… e a guerra continua…

Liberation – filme 2 – Breakthrough (1968) – direção: Yuri Ozerov

Neste segundo filme da série dirigida por Yuri Ozerov as batalhas entre alemães e russos, nazistas e comunistas soviéticos, após o ocorrido no Kursk, sucedem-se intensas, ferozes, em Kiev. Os soviéticos atravessam o rio Dnieper, com jangadas rústicas compostas de toras de madeira e por meio de cabeças-de-ponte (pontes improvisadas, de metal, sobre barcos, ao largo do rio). Os soviéticod usam de artimanhas para ludibriar os alemães, pistas falsas, avançam por um certo ponto do rio Dnieper, atraindo para este ponto a atenção dos alemães, enquanto, por outro ponto, atravessam o rio e os surpreendem. Tem papel fundamental em tão ingente tarefa Sergei Tsvetayev (N. Olyalin), que testemunha a morte de Sashka (S. Nikomenko), no bosque, logo após fugirem dos alemães passando pela vila de Lyutezh. Eram eles e outros russos iscas que os comandantes soviéticos usaram para despistarem os nazistas. Recebem os soviéticos, de Stálin (Bukhuti Zakariadze), a ordem de tirar das mãos dos nazistas Kiev, o que eles fazem até a data aprazada. Enquanto a guerra, no campo de batalha, às margens do rio Dnieper, prossegue sangrenta, os anglo-americanos avançam pela Sicília. Às cenas protagonizadas pelos britânicos e americanos alude-se; mas não são exibidas. E Hitler (Fritz Diez), enraivecido por causa dos reveses que seu exército sofrera em Kursk, e Mussolini (Ivo Garrani), abatido, amedrontado, indeciso, tímido, amedrontado, diante de seu congênere nazista, discutem, preocupados com o trágico destino dos italianos na Sicília. E o rei da Itália empreende a prisão de Mussolini, que é resgatado, numa façanha arriscada, dir-se-ia heróica, por Otto Skorzeny (F. Piersic), a mando de Hitler. E segunda discussão se dá entre os dois aliados, o alemão a se impôr ao italiano.

Ao final, encontram-se, em Teerã, Stálin, sempre sereno e ponderado, Roosevelt (S. Jaśkiewicz), sempre sorridente, e Churchill (Y. Durov), sempre a carregar um charuto à boca. E discutem os três a possibilidade de se abrir segunda frente de batalhas, na França, sugere Stálin, na Iugoslávia, propõe Churchill.

Quero destacar, aqui, a batalha que se desenrola na vila de Lyutezh, russos a fugirem, pelas suas ruas, de bombardeios alemães, que despejam, de aviões, bombas; morrem muitos russos. É um episódio de beleza visual extraordinária.

Embora o filme trate dos horrores da guerra, o diretor Yuri Ozerov não descura da estética; pode-se falar de uma estética da guerra, uma estética cinematográfica, que cativa e deslumbra quem ao filme dedica atenção. Exibe o filme a feiúra da carnificina, mas sem deixar de sensibilizar as pessoas para o que há de mais feio, de mais horrendo, de mais tétrico. Não expõe, do corpo humano, sangue e órgãos a espirram-se, para todos os lados, sempre que alvejados por algum projeto ou objeto qualquer em cenários visualmente repulsivos – o que é comum nos filmes americanos recentes, de guerra, de outro gênero qualquer.

É o filme espetáculo narrativo, cinematográfico, estético, visual.

Ao final, à meia-noite do dia 31 de Dezembro de 1943, os russos, em marcha por região coberta de neve, comemoram o alvorecer do ano de 1944.

… e a guerra continua…

Liberation – filme 1 – The Salient Ablaze (1968) – Direção: Yuri Ozerov

E aqui inicia-se o épico de Yuri Ozerov.

Na tela, um rinoceronte de metal, cinzento, alemão, em movimento. E outro, soviético, alveja-o com um disparo certeiro, perfurando-lhe a rígida carapaça. Estão os dois veículos, num campo de testes, sob os olhos atentos de Adolf Hitler (Fritz Diez), que, diante da exibição da fragilidade do veículo de guerra alemão, abatido, com apenas um tiro, por um similar soviético, decide adiar a Operação Citadel, terceira tentativa dos nazistas de conquistarem a terra dos russos.
As cenas do campo de batalha, na primeira linha de defesa soviética, dentro do território russo, são grandiosas; exibem centenas de tanques-de-guerra, em formação de ataque, correndo pelo território russo, sem encontrarem resistência digna de nome; avançam quase que sem obstáculos. Os comandantes soviéticos, visivelmente preocupados, debatem qual deve ser a atitude das forças militares soviéticas num momento tão adverso. Rokossovsky (V. Davydov), Zhukov (M. Ulyanov), Lukin (V. Sanayev), Gromov (V. Samoylov), Rybalko (D. Franco) e Vasilevsky (Y. Burenkov) são alguns personagens do alto comando soviético que se debruçam sobre a questão.
Ao proscênio, apresentam-se os heróis soviéticos. Um deles tem um fim trágico após os alemães o capturarem e o interrogarem, Maximov (V. Avdyushko), dois são os amigos Vasiliev (Y. Kamorny) e Dorozhkin (V. Nosik), e um é Sergei Tsvetayev (N. Olyalin), e a enfermeira Zoya (L. Golubkina) – estes dois, um par romântico.
Zoya, aterrorizada, socorre Sergei Tsvetayev.
Enquanto os comandantes dos exércitos dos dois países beligerantes planejam cada qual as suas ações e informam da situação no campo de batalha seus respectivos líderes, os alemães, Hitler, os russos, Stálin (Bukhuti Zakariadze), desenrolam-se batalhas sangrentas no Kursk. E logo os soviéticos anulam, numa contra-ofensiva devastadora, a vantagem nazista – é o início do fim dos nazistas.
São inúmeros os personagens envolvidos na trama, muitos deles reais – Stálin e Hitler, são dois deles.
Além das cenas das batalhas, grandiosas, que se sucedem em terras russas, há uma que se dá em região montanhosa da Iugoslávia.
E sabe-se que é prisioneiro no campo de concentração de Sachsenhausen o filho de Stálin, Yakov Dzhugashvili.
A narração segue lenta – lenta, e não tediosa. Grandiosas e impressionantes as cenas de batalha, o exército alemão a avançar com centenas de tanques-de-guerra sobre território russo, e os soldados soviéticos a contra-atacar de trincheiras. São tão numerosos os pontos que, de tão espetaculares, merecem destaque. The Salient Blaze – o primeiro de uma série de cinco filmes que narram a sangrenta escaramuça entre russos e alemães na Segunda Guerra Mundial, até a vitória russa – é de um realismo sóbrio, de impacto assombroso; não apela às cenas grotescas de imundícies, cadáveres desventrados suas vísceras a lhes escaparem de todos os poros, pedaços de corpos a juncarem o chão e cachoeiras de sangue a espirrarem de mortos e feridos. É de um realismo, repito, sóbrio, impactante, impressionante, desprovido de artíficios visuais de mau gosto.
É imperdível The Salient Blaze. Quem admira a Sétima Arte, em particular filmes de guerra, encontra nesta obra russa um espetáculo inesquecível.
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Notas: 1) Assisti aos cinco filmes, numa versão legendada em inglês (as vozes dos personagens nos idiomas originais, russo, alemão, italiano, francês, inglês e outros) da série Liberation dirigida por Yuri Ozerov; 2) Mantive o título em inglês da versão que assisti; 3) Não podemos esquecer que é o filme russo; e, 4) Não indiquei as patentes dos personagens militares, que são indicados, muitos deles, com patentes diversas, pois muitos são, de um capítulo para o outro, promovidos de posto.
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… e a guerra continua…

Three Ages (1923) – de Buster Keaton

É o amor o tema das três novelas que fazem deste filme em preto e branco, e mudo, do ano de 1923, uma peça hilária, uma comédia divertidíssima, o ator e diretor Buster Keaton a protagonizar as três aventuras, uma ambientada na Idade das Pedras, uma, em algum ano do auge do Império Romano, e uma nos tempos modernos, princípio do século XX, nos Estados Unidos. Alternam-se capítulos de cada uma das três novelas, cinco de cada, cada um de poucos minutos – tem o filme um pouco mais de uma hora de duração -, cada capítulo a contar um episódio das adversidades e peripécias rocambolescas do protagonista.

À conquista da mulher amada, sai o protagonista, nas três novelas, e tem ele de se defrontar com um rival, o da Idade da Pedra, mais forte do que ele, o da época de Roma, mais poderoso, e o dos tempos modernos, mais rico. Na Idade da Pedra tem o protagonista um animal de estimação, um ser pré-histórico, um dinossauro, que acredito tratar-se de um alossauro, ser antediluviano de pescoço mais comprido do que o das girafas – mas não sei se os produtores de Three Ages tinham em mente reproduzir, num boneco, tal criatura gigantesca. E fica-se sabendo que em tal era, a da pedra, da pedra lascada, e não da pedra polida, presumo, os nossos brutos, asselvajados ancestrais conheciam o golfe, praticado, então, com tacos rudimentares, clavas, e bolas de pedras. E no tempo dos Césares, faz-se uma leitura singular da corrida de bigas, o protagonista a comandar uma biga puxada por quatro cães, um gato a atiçá-los, e a improvisar, em vez de rodas acopladas à viatura, pranchas de veículos para uso em neve. E nos tempos modernos, assiste-se a um divertido jogo de futebol (para nós brasileiros, futebol americano). Buster Keaton, nas três eras, numa sucessão de absurdos de fazer todos dobraram-se de tanto rir, de tanto insistir em conquistar a mulher que ama, supera os contratempos. São suas aventuras picarescas, outras, disparatadas. Todas, rocambolescas. Dentre as mais divertidas, elenco a da corrida de bigas, a do protagonista na cova – que nesta ele caíra por artimanha de dois de seus inimigos – de um leão – um exemplar ferocíssimo, digno do título de rei dos animais -, a da batalha entre o protagonista e seu rival, na Idade da Pedra, e a do restaurante e do táxi, na idade moderna. E o filme, ao encerramento, exibe o casal, feliz, apaixonado, na Idade da Pedra, com sua penca de filhos, na Roma dos espetáculos sangrentos no Coliseu, com cinco filhos, e, na idade moderna, com… É tal cena, a derradeira do filme, sutil critica aos tempos modernos.

Conquanto recheado de disparates, é o filme veraz em sua essência: reconstitui, com a perspicácia só encontrada em historiadores da estirpe de Tucídides, as três era em seus traços únicos, a representar, à perfeição, a índole dos povos das eras revisitadas.

O leitor poderá, talvez, quem sabe? entender que meu comentário registrado no parágrafo anterior é uma ironia. Ou talvez, não. Quem sabe? De uma coisa eu sei, Buster Keaton fez em Three Ages uma leitura singular da história humana; é verossímil, cá entre nós, isto é, as coisas talvez tenham ocorrido como ele as narra.

E no início de Three Ages há, na primeira cena, prefácio para as três novelas que se irá contar, sentado, à mesa, um ancião de, brancos, cabelos, barba e bigodes, a ladeá-lo uma foice; e sobre a mesa, há uma caveira, um globo, uma ampulheta e um tinteiro com duas penas.

Além de Buster Keaton (um dos diretores do filme; o outro é Eddie Cline), participam de Three Ages os seguintes atores: Margareth Leahy, Wallace Beery, Joe Roberts, Lillian Lawrence, Blanche Payson, Horace Morgan e Leonel Belmore.

É Three Ages uma divertidíssima obra da Sétima Arte. Imperdível. 

O Sepulcro Indiano (Das Indische Grabmail – 1959) – de Fritz Lang


Nesta segunda e última parte do romance do arquiteto alemão Harald Berger (Paul Hubschmid) com a dançarina Seetha (Debra Paget) há uma sucessão de episódios de estontear, e prender a atenção de, quem acompanha a aventura, que se desenrola em capítulos alternados de dois cenários, que se cruzam: os protagonizados por Harald Berger e Seetha e os que ocorrem no palácio do marajá Chandra (Walter Reyer), capítulos, estes, divididos entre os animados por Chandra e o casal Rhode, Walter (Claus Holm) e Irene (Sabine Bethmann), e os que envolvem Ramigani (René Deltgen) e o príncipe Padhu (Jochen Brockmann).

Chandra, enraivecido, insiste em exigir de Walter Rhode a construção de um sepulcro, que serviria, era seu desejo, de túmulo para Seetha, mas o arquiteto não tinha a intenção de construí-lo, todavia, prisioneiro no palácio do marajá e desejoso de saber o destino de Harald Berger, seu cunhado, resigna-se, não a cumprir a ordem de Chandra, mas a conservar-se em Bengala para descobrir que fim levara o irmão de sua esposa. Enquanto os Rhodes, com o talento que fez a fama de Sherlock Holmes, investigam o caso que muito os intriga, e colhem informações que os deixam apreensivos, e tiram de um esquivo e amedrontado Asagara (Jochen Blume), que se via num dilema enervante – ou dedicava lealdade ao marajá, seu senhor, ou a Harald Berger, seu amigo – alguns dados que lhe aumentam as suspeitas acerca das intenções de Chandra, Ramigani, o irmão mais velho do marajá, trama a remoção de seu irmão do trono de Bengala, com a ajuda, indispensável, do príncipe Padhu, que, orgulhoso, não queria ver uma dançarina ocupando uma posição, a de esposa de Chandra, que outrora pertencia à sua falecida irmã, Marani. Harald Berger e Seetha viviam numa vila, em fuga, caçando-os Ramigani, e vem a serem por ele capturados. Seetha é levada ao Palácio de Chandra; e Harald Berger ao calabouço. Sucedem-se os episódios; desenrola-se a trama. A apreensão de Ramigani é visível; e ele se ocupa de criar o ambiente apropriado ao casamento de Chandra e Seetha, e para executar o seu plano precisaria do apoio do príncipe Padhu, o que ele teria se persuadisse Chandra a desposar Seetha, mas Chandra não pretendia casar-se com ela, pois sabia que ela, ao contrário do que ouvia de Ramigani, fugira com Harald Berger sem que este a coagisse à fuga. É interessante o cinismo de Ramigani, que, ao mesmo tempo que planeja a perdição de seu irmão, fá-lo acreditar que ele, Ramigani, o ama e quer-lhe a felicidade ao lado de Seetha. E Harald Berger, acorrentado, no calabouço, só, luta pela sobrevivência, e é bem-sucedido em seu ingente esforço, em nenhum momento, embora adversa a sua situação, seu ânimo vindo a esmorecer. E a história, enfim, chega ao episódio derradeiro, o do ritual de casamento de Chandra e Seetha, quando se dá a intervenção do sacerdote Yama (Valéry Inkijinoff), que se opunha ao enlace matrimonial entre o marajá e a dançarina e não apoiava a ação traiçoeira de Ramigani e Padhu, mas que, ao opor-se a Chandra, foi de auxílio imenso aos dois ladinos inimigos dele. E entra em cena o general Dagh (Guido Celano). E todos vivem felizes para sempre. Todos, não; o arquiteto alemão e a dançarina, sim – o que não surpreende ninguém; e não estou, aqui, a revelar nenhum segredo escondido a sete chaves, afinal, os heróis, em romance de tal gênero, o destino sempre os presenteia com a felicidade.

E adiciono dois pontos, que me chamaram a atenção: o destino de Chandra, para mim inusitado, que muito me surpreendeu; e a ausência de uma explicação para a origem de Seetha, se era ela de pai irlandês – tal suspeita em suspenso em O Tigre de Bengala.

É O Sepulcro Indiano uma aventura com reviravoltas verossímeis, todas a formar uma arquitetura dramática muito bem elaborada.

O Capitão dos Andes (História Pitoresca de um Caudilho) – de Raymundo Magalhães Júnior

Prendeu-me este livro a atenção, e desde a primeira página. E com a leitura, interrompida poucas vezes para a execução de algumas atividades, e para dormir uma noite, aumentava o meu apreço pelo livro, que me surpreendeu favoravelmente, e pelo autor, que se me revelou um escritor primoroso, dotado de recursos literários que lhe permitem o controle da narrativa, a correta exposição da trama, e a exibição das personagens, que se revelam em sua integridade. Pediu-me, melhor, exigiu-me, o livro leitura dedicada, atenta, o que nenhum esforço me custou, afinal, além de escrito com esmero, não descarrega informações que em nada o enriquecem. E não moveu o autor a pretensão de escrever uma obra imorredoura; ele se limitou a romancear um fato histórico sucedido, em meados do século XIX, na Bolívia.

É O Capitão dos Andes (Histórica Pitoresca de um Caudilho) um romance histórico. É pitoresca, e patética, ridícula, tragicômica, a história de Dom Manuel Mariano Melgarejo, que é identificado ora como Dom Mariano, ora como General Melgarejo. A aventura se deu em meados do século XIX, o Brasil então sob o Império de Dom Pedro II. Político aventureiro, de mentalidade totalitária, bate-se Dom Manuel Mariano Melgarejo, numa guerra caudilhista, com Isidoro Belzu e é por ele derrotado. Seu inimigo não era flor que se cheirasse. E Dom Manuel Mariano Melgarejo não se lhe sobressaía em virtudes. Embora suplantado em combate pelo seu rival, acaba por eliminá-lo numa ação arriscada, temerária, surpreendentemente bem-sucedida: o da invasão do Palácio do Governo, em La Paz, empregando artifícios grosseiros que se lhe revelaram favoráveis.

Após assumir o poder na Bolívia, Dom Manuel Mariano Melgarejo empreende ações que lhe satisfazem as ambicões totalitárias. Conhece Juanita Sanchez, moça de atrativos que o seduzem, e ele, mesmerizado pela beleza de tal moça, pobre, órfã de pai, vivendo com a mãe, na companhia de um irmão e uma irmã, e que vivia da pouca renda que auferia de um botequim, adota-a como a sua preferida, convertendo-a na Dona Juanita Sanchez, a única pessoa que tem o poder de lhe impor a vontade e impeli-lo a reconsiderar algumas de suas ações assassinas. Não demora muito tempo, enfrenta sedições, que nascem da urdidura conspiratória de Castro Arguedas (e de outros aventureiros), que o confronta em batalha sangrenta, e o derrota.

À medida que amplia-se o seu poder com a eliminação de seus adversários e com a subjugação da aristocracia de La Paz, Dom Manuel Mariano Melgarejo intensifica a política plenipotenciária, massacra os dissidentes, rouba aos nativos suas terras, deporta os insubmissos, dissipa os recursos públicos, humilha o povo; todavia, na mesma proporção do seu ganho de poder aumenta o descontentamento da população, que deseja alijá-lo do Palácio do Governo, mas que, sem os meios para empreender a ação que resultará em tal ato, resigna-se. E sucedem-se as expropriações de propriedades e de terras, sob a responsabilidade do General Antezana, que, na sua caça aos índios, invade território peruano, criando um incidente diplomático com o governo peruano. No uso da força, conquista Dom Manuel Mariano Melgarejo a lealdade da imprensa. E seguem-se as orgias, as bebedeiras, no Palácio do Governo. E para agradar Dona Juanita Sanchez, que deseja brilhar na alta sociedade, aritocrática, de La Paz e comprar-lhe jóias e vestidos suntuosos, confisca propriedades e arquiteta uma tama, que consiste numa falsa acusação de conspiração contra os aristocratas de La Paz que não se lhe haviam curvado, submissos. E tão bem urdida, que os subjuga. Após ameaçar matá-los, finge atender às súplicas das esposas deles, e liberta-os.

Tem, agora, Dom Manuel Mariano Melgarejo, os aristocratas sob sua vontade, todos a se genuflexionarem diante dele, reverentes e amedrontados, e de Dona Juanita Sanchez, que passa a ser admirada pelas aristocratas, que antes a desdenhavam. E seguem-se as deportações dos inimigos do governo. E os massacres. E os fuzilamentos.

Ao mesmo tempo que se dedica às negociações com o Conselheiro Lopes Neto, representante do Império do Brasil, acerca das demarcações fronteiriças entre a Bolívia e o Brasil, Dom Manuel Mariano Melgarejo, antes de convocar uma Assembléia Constituinte e votar nova constituição (que perderia validade logo após promulgada, pois ele considerava-a um empecilho à sua ambição de exercer plenos poderes), eliminou da vida pública, com exílio ao Chile e ao Peru, e à morte, seus adversários. Promulgada a Nova Constituição, que ele revogou após um louco atacá-lo, aproveitou, sem titubear, do incidente, e gritou aos quatro ventos que havia contra seu governo uma conspiração, que ele cuidou abortá-la em seu nascedouro. E seguiram-se massacres, fuzilamentos, expropriações de terras. E sublevações de índios. E sedições.

O povo, massacrado, humilhado, na iminência de ser dizimado, encontra forças, que se acreditava inexistentes, para reagir contra Dom Manuel Mariano Melgarejo, o homem que o maltratava com crueldade diabólica e de quem a imprensa local escrevia hagiografias.

A história do caudilho boliviano revela o que há de mais tétrico, de mais asqueroso, de mais repulsivo, de mais condenável, de mais insano, de mais doentio, na alma dos homens dotados de mentalidade revolucionária, totalitária. Narra a vida de um homem que, na presunção de entender-se um ser superior, uma entidade privilegiada provida de poderes divinos, dotado do poder de governar o mundo, revela-se, não o ser supremo que ele pensa ser, mas um sujeito reles, minúsculo, desprezível, patético, ridículo, o suprassumo da animalidade humana. É Dom Manuel Mariano Melgarejo um emblema do caudilho e de todos os homens que almejam o poder absoluto.

Merece O Capitão dos Andes (História Pitoresca de um Caudilho), de Raymundo Magalhães Júnior, leitura atenta e divulgação. É livro de escritor consciencioso. De leitura agradável. E instrutivo.

O Tigre de Bengala (Der Tiger von Eschnapur – 1959) – de Fritz Lang

Ambientada na Índia, a aventura que Harald Berger (Paul Hubschmid), alemão, engenheiro, protagoniza, é uma trama que, além de envolvê-lo, conta com a participação da mulher pela qual ele se apaixona, a dançarina Seetha (Debra Paget), do marajá de Bengala, Chandra (Walter Reyer), do irmão mais velho deste, Ramigani (René Deltgen), do príncipe Padhu (Jochen Brockmann), e de coadjuvantes, que não estão no núcleo do enredo, mas têm papel importante no desenrolar dos eventos.

Numa certa cidade da Índia, cidade cujo povo é aterrorizado por um tigre que já havia ceifado a vida de alguns de seus habitantes, vivem Harald Berger, Seetha e a serva desta, Baharani (Luciana Paluzzi). Estes três personagens seguem em comitiva para Bengala; ataca-a, no caminho, o tigre tão temido, que vem a ter próximo de suas garras e dentes Seetha; Harald Berger, sem titubear, a manusear uma tocha, de posse de inata valentia, vai em socorro da bela dançarina, e salva-a, ao afugentar o terrível felino. Recompostos do susto, retomam viagem rumo a Bengala.

Acolhida pelo marajá de Bengala, viúvo, que por ela se apaixona ao admirá-la durante evoluções numa dança, Seetha, na companhia de Harald Berger, que foi visitá-la, sentada à margem de uma fonte, evoca uma canção, de cuja letra não se lembrava, e Harald Berger diz ser a canção irlandesa e canta-a, e dela a dançarina recorda-se. Suspeita Harald Berger, então, que é o pai de Seetha irlandês; e o violão, instrumento musical ocidental, que Seetha tem consigo, uma herança deixada pelo pai dela, reforça-lhe as suspeitas. Inspira os sentimentos de Seetha a nostalgia de um tempo, sua infância, do qual ela, além da canção que, agora ela sabe, é de origem irlandesa, nada guarda nos escaninhos de sua memória.

Segue paralela à aventura de amor entre Harald Berger e Seetha e do marajá Chandra pela dançarina, a de Ramigani, que planeja a perdição de seu irmão; almeja Ramigani o trono que ora seu irmão ocupa, mas tem seus planos atrapalhados pelo príncipe Padhu, irmão de Marani, falecida, anterior esposa de Chandra. O príncipe Padhu não tem a pretensão de pôr-se entre Ramigani e seu objetivo, mas incomoda-o, e pode pôr-lhe a perder o que ele ambiciona, ao ir em prejuízo do relacionamento entre Chandra e Seetha, pois não admitia que o marajá substituísse Marani por uma dançarina, enquanto Ramigani queria que se consumasse o casamento entre eles, para poder desmoralizar Chandra e alijá-lo do trono.

São muitos os episódios da aventura em terras indianas: o sequestro de Seetha; a morte de Baharani; a luta entre Harald Berger e um tigre; e outros.

E todos vivem felizes para… Não. Não vivem. Conta O Tigre de Bengala a primeira metade da aventura de Harald Berger e Seetha, e do Tigre de Bengala, Chandra, aventura que se encerra em O Sepulcro Indiano.

Para encerrar esta resenha, duas observações: o estranhamento entre a cultura indiana e a ocidental; e a arquitetura da obra de Harald Berger, apresentada, em maquete, arquitetura moderna, desprovida de beleza, inferior à indiana, exuberante, esplendorosa, magnífica.

Padre Brown, detetive – (Father Brown) – série de televisão – temporada 6, episódio 4, O Anjo da Misericórdia (The Angel of Mercy).

“Morte digna” é o eufemismo que à eutanásia se dá, hoje em dia.
Os defensores da eutanásia, ou morte assistida, entendem que cabe a cada pessoa decidir quando, e como, querem morrer, principalmente as pessoas que enfrentam doenças incuráveis, que lhes causam dores sem fim, insuportáveis. É este o tema central deste episódio de Padre Brown, detetive (Father Brown), série da televisão britânica inspirada nos contos do personagem homônimo de G. K. Chesterton. E em apoio ao tema central, o secundário: se tem autoridade, e superioridade, moral quem, se dando o direito de assumir o papel de anjo da morte, atende aos pedidos – ou, em não raros casos, às súplicas – das pessoas que desejam, por razões as mais diversas, retirarem-se à vida.
Freda Knight (Janet Dale), acamada, debilitada por câncer, suplica à Mrs. McCarthy (Sorcha Cusak), sua amiga, que a sufoque com um travesseiro, e ela, contrariando-lhe a vontade, aterrada, rejeita-lhe, terminantemente, o pedido. Horas depois, chega ao conhecimento de Mrs. McCarthy a notícia da morte, misteriosa, de Freda Knight. E Mrs. McCarthy recorre ao Padre Brown (Mark Williams), que lhe dedica atenção. E entram em cena Bunty (Emer Kenny) e o Inspetor Mallory (Jack Deam), que, com Mrs. McCarthy, compõem uma galeria de personagens onipresentes na série, e Caitlin O’Casey (Roisin O’Neill), Ellen Jennings (Wanda Ventham) e Seth Knight (Daniel Hawksford), e personagens de menor expressão. Durante o desenrolar das investigações, sucedem-se outras mortes misteriosas, todas de pessoas que, tal qual Freda Knight, sofria de grave doença.
Enfim, com a desenvoltura de um investigador infalível, para contrariedade do inspetor Mallory, cujas teorias se revelaram incorretas, Padre Brown resolve o caso: uma das personagens que animam a trama havia atendido ao pedido de Freda Knight e de outras pessoas que desejam morrer.
O anjo da misericórdia, pessoa que entendia executar um bem, um bem inestimável, às pessoas que lhe pediam – melhor, suplicavam – que lhes tirasse a vida, justificou, nos derradeiros momentos do drama, sua ação, ação meritória, de amor à vida, acreditava.
Pessoas que, de tão doentes, e de tão tristes, desesperançadas, e sem razôes, nem vontade, para prolongar suas vidas, têm o direito de decidir irem-se desta existência, por seus próprios meios, ou por ações alheias?

Aquaman – com Jason Momoa

Aquaman (Jason Momoa), cujo nome humano é Arthur Curry, é um ser híbrido, filho de um homem humano, Tom Curry (Temura Momoa), e de uma mulher atlântida, Atlanna (Nicole Kidman).

O Rei Orm (Patrick Wilson), atlântida, ambicioso e iníquo, almeja ter sob suas mãos o domínio dos sete reinos marinhos; não titubeia em urdir artifícios – a acumpliciá-lo David Kane (Yahya Abdel-Mateen II), o Arraia Negra, que busca vingar-se de Aquaman, que se havia recusado, após luta no interior de um submarino, a atender-lhe a súplica e socorrer-lhe o pai, Jesse Kane (Michael Beach) – para justificar ataque de Atlântida às nações humanas. Antevendo o cenário apocalíptico, que se desenha, Mera (Amber Heard), uma atlântida, recorre a Aquaman, e pede-lhe que ele, o verdadeiro rei de Atlântida, confronte o Rei Orm. Neste entremeio, o Rei Orm obtêm, usando de um expediente criminoso, a aliança do Rei Nereus (Dolphi Lundgren).

A guerra entre atlântidas e humanos é iminente.

Num duelo submarino, o Rei Orm derrota Aquaman, que, Mera a auxiliá-lo, foge. Ambos, Aquaman e Mera, para solucionar um segredo guardado a sete chaves, vão dar ao Fosso, onde enfrentam as criaturas horripilantes que o habitam, e à Nação Perdida, onde uma surpresa agradável os aguarda e onde está o Tridente de Poseidon, protegido por um monstro mitológico gigantesco, Karathen. E apenas o rei de Atlântida, herdeiro do Rei Atlan, poderia empunhar o Tridente de Poseidon. E Aquaman revela-se o legítimo herdeiro do trono (usurpado por Orm) de Atlântida. E na sequência desenrola-se a guerra entre Aquaman e o Rei Orm.

Nas linhas acima, um resumo do filme do êmulo de Namor, o Príncipe Submarino. O filme é um bom entretenimento; os seus cenários submarinos, grandiosos, e os de locais habitados pelos humanos, simples.

É Aquaman um filme que entretêm; despretensioso; conta uma trama comum, que remonta à lenda do Rei Arthur.

Esquecia-me: em sua infância, Arthur Curry é treinado por Vulko (Willem Defoe); e Geoff Johns, respeitado autor de histórias em quadrinhos de super-heróis, deu seus pitacos no roteiro.

X e W – de Arthur Azevedo

Era Xisto um carioca muito feio, de olhos esbugalhados, orelhas enormes, boca deveras larga, de andar desengonçado; enfim, era Xisto um tipo que nenhuma mulher apreciava. E ele adorava a beleza feminina; não podendo ter belas mulheres aos seus braços, com elas sonhava. Em uma certa manhã, a linda viúva de trinta anos que morava na casa diante da dele convida-o a visitá-la à meia-noite. Xisto não se faz de rogado. Prelibando os prazeres que auferiria, preparou-se para a entrevista com a mulher que cobiçava. Foi à casa dela, ao encontro agendado. E realizou o seu sonho. Uma semana depois, Xisto viu-a; e ela tratou-o com indiferença, desgostando-o. Com o passar dos dias, ele se resignou à indiferença que ela lhe dedicava; recordava os quinze minutos durante os quais se entreteve com ela, no ninho das delícias cujo acesso ela lhe dera, e evocava a postura maquinal dela, distante, fria, de uma mulher que executava, dir-se-ia, unicamente, um ato mecânico. E o tratamento que ela lhe dispensou após o ato consumado intrigava-o. E a resposta para a interrogação que ele se fazia acerca da atitude esquiva dela ele a teria, passado um ano, de Wladimir. E o caso se lhe esclareceu. E a estranheza da conduta da linda viúva de Xisto e de Wladimir, o X e o W do título do conto, recebeu comentários misto de surpresa e incredulidade.

Entrei para o Clube Jácome – de França Júnior

Julião, o herói desta peça, adquiriu a mania, que transtornava sua esposa, Dorotéia, e que, suspeita-se, roubando-lhe, de Julião, a sanidade: a de adorar os cavalos, apreciar as atividades hípicas, o que o fez entrar para o Clube Jácome. Tão obcecado pela sua paixão hípica que admitiria para marido de sua filha, Francisca (Chiquinha) um homem que fosse sócio do Clube Jácome, daí rejeitar, terminantemente, a idéia de ceder a mão dela a Ernesto, cujo amor por Chiquinha era por ela correspondido, pois ele, além de não saber montar a cavalo, não era sócio do Clube Jácome.

É uma peça simples, cuja trama se desenrola, em dezoito cenas, num ato; despretensiosa, de desenlace destituído de surpresa; aos poucos personagens que a animam, Julião, Dorotéia, sua esposa, Francisca (Chiquinha), sua filha, Antônio, seu criado, Ernesto, o pretendente à mão de Chiquinha, e o Comendador Anastácio (inserido na trama, presumo, com o único propósito – que aflorou à mente do autor – de criar uma cena cômica) não se envolvem numa rede de cenas hilárias equivalentes às encontradas em outras peças de França Júnior; são pobres em suas caracterizações; suspeito que França Júnior, ao conceber tal peça, não estava em um momento de inspiração. A peça não correspondeu às minhas expectativas, que criei com a leitura das outras peças do autor. Não esperei, é óbvio, uma obra sofisticada, de estrutura complexa, personagens shakespereanos, pois as obras que dele li não me levaram a concluir que ele, neste Entrei para o Clube Jácome, tem para oferecer algo além do que oferece nas outras peças; além disso, tal gênero de obra tem a oferecer o que lhe é peculiar: uma trama simples, com personagens estereotipados, caricaturais, de cuja personalidade apenas um aspecto, destacado, é dado a conhecer ao público, para a criação de cenas divertidas numa aventura cômica; nesta peça, todavia, França Júnior não foi bem-sucedido em seu propósito.

Paulino e Roberto – de Arthur Azevedo

Narra este conto a história de Paulino, homem infortunado, flagelado por caiporismo inescapável. Pobre, une-se em matrimônio com Adelaide, mulher formosa, encantadora, vaidosa, de espírito orgulhoso, que vive de reclamar da sua vida em comum com Paulino, sempre a jogar, no rosto dele, a pobreza que a afligia, a vida de sacrifícios; ele não possuía renda que lhe permitia oferecer a ela recursos para ela satisfazer todos seus caprichos de elegância e requinte. Numa conversa com um seu amigo, amigo do peito, Vespasiano, Paulino ouve severas críticas a Adelaide, e uma confissão: que ele, Vespasiano, jamais se casaria com uma mulher com o gênio intratável de Adelaide.Certo dia, a negócios Paulino seguiu para o Rio Grande do Sul. E desembarcou em Santa Catarina, onde perdeu o paquete “Rio Apa”, e teve de esperar por outro. Enquanto esperava por outra embarcação, recebe a notícia de que o “Rio Apa” naufragara, matando todos os passageiros, e a tripulação; e em jornais lê, na lista dos nomes dos vitimados pela tragédia, o seu, e se lhe aflora, então, a idéia, adotando-a, sem pestanejar, de se silenciar a respeito, e instalar-se em Santa Catarina, adotar outro nome, e deixar que, em sua terra, o Rio de Janeiro, as pessoas de seu relacionamento – Adelaide, principalmente – recebessem a notícia de sua morte. E rumou para o interior da província, na companhia de um rico industrial teuto-brasileiro. E adotou um novo nome: Roberto. Decorridos alguns anos, agora de barba crescida e gordo, viajou ao Rio de Janeiro; sem se anunciar a ninguém, afinal estava morto. E não precisou esperar muito tempo para presenciar uma cena que jamais lhe passaria pela cabeça. Cena inimaginável. E nada mais digo.

Shazam! – (2019) – com Zachary Levi

É Shazam! um acrônimo. Cada uma das letras que o constituem corresponde à inicial do nome de um personagem lendário ou mitológico: S, de Salomão; H, de Hércules; A, de Atlas; Z, de Zeus; A, de Aquiles; e, M, de Mercúrio. Para a pessoa merecer possuir os poderes de tais personagens tem ela de ser pura de coração, abnegada, nobre de espírito.
Nas revistas em quadrinhos recebe o personagem o nome Capitão Marvel.
No princípio do filme, numa estrada: no interior de um carro estão, ao volante, Mr. Silvana (John Gloover); à sua direita, seu filho primogênito; e, no banco traseiro, Thaddeuz Silvana (Ethan Pugotto), seu segundo filho, alvo de constantes chacotas de seu irmão e de desprezo de seu pai. Um fenômeno inexplicável surpreende o menino – que poucas décadas depois se tornaria o arqui-inimigo de Shazam, o maquiavélico Doutor Thaddeuz Silvana (Mark Strong), êmulo de Lex Luthor -, que é transportado para um universo mítico; e ele se vê na presença do Mago (Djimon Hounsou), guardião do cajado cuja posse apenas o merecedor dos poderes de Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio, terá. E o menino Thaddeuz Silvana revela-se deles imerecedor.
Transcorrem-se os anos. Conhecemos, agora, a desventura de Billy Batson (Asher Angel), que, depois de abandonado por sua mãe (Caroline Palmer), vive uma vida errática até ser acolhido, num orfanato, pelos proprietários deste, o casal Vasquez, ambos egressos de orfanatos, Victor (Cooper Andrews) e Rosa (Marta Milans). E no orfanato estreita Billy Batson laços de amizade com Pedro Peña (Jovan Armand), Darla Dudley (Faithe Herman), Eugene Choi (Ian Chen), Mary Bromfield (Grace Fulton), e Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que viria a ser dos cinco internos o seu amigo mais próximo.
Após algumas peripécias juvenis, Billy Batson é transportado, por vias misteriosas, para o reino do Mago, este debilitado e envelhecido. Antes o doutor Thaddeuz Silvana, diante do Mago, não tendo a posse do cajado místico, incorporara os poderes dos demônios que representam os sete pecados capitais. O Mago, apreensivo, não se dedica a, com percuciência, paciente, avaliar os candidatos aos poderes dos seis heróis; vai de atropelo, agora que Silvana libertara e incorporara os dons dos demônios, e cede o cajado a Billy Batson, um garoto.
Ao saber possuidor de super-poderes, com ajuda de Freddy Freeman, Billy Batson, agora com o corpo de Shazam (Zachary Levi), seu alter-ego adulto, conservando sua mentalidade de garoto de quatorze anos, aprende, aos poucos, e aos trancos e barrancos, a conhecê-los, a usá-los. Os dias de aprendizado de Billy Batson, Freddy Freeman a ladeá-lo, e as rugas entre os dois garotos, rendem cenas hilárias. E em tais cenas estão uns dos poucos atrativos do filme.

É inevitável o confronto entre o herói, Shazam, e o vilão, Doutor Silvana. O universo traçou o destino de cada um deles, e os pôs em rota de colisão. E lutam herói e vilão. Mas Shazam não era páreo para os sete demônios que o seu oponente incorporara.
Ao fim, de posse do cajado místico, Shazam pede aos seus cinco amigos de orfanato que eles toquem o cajado e pronunciem a palavra de invocação dos heróis míticos, Shazam. E assim todos eles convertem-se em super-heróis de poderes equivalentes aos de Billy Batson. E ao final da aventura são vitoriosos os super-heróis e derrotado o Doutor Theddeuz Silvana.
Faço questão de registrar, nesta resenha, um comentário acerca do discurso progressista – subjacente à trama – que não muito sutilmente o filme vende. Quem não se deixou seduzir pelas cenas engraçadas e atentou para os tipos das personagens captou as mensagens razoavelmente discretas. Pensei em dizer que são as mensagens subliminares. E eu poderia declarar que elas são explícitas, escancaradamente explícitas.
São o pai e o irmão de Thaddeuz Silvana desrespeitosos com ele, e o maltratam; o pai e a mãe de Billy Batson não constituem uma família, não são a mãe e o pai dele exemplares, a mãe dele o abandonou, num parque de diversões, quando ele ainda era uma criança, e o pai dele é um criminoso; os donos do orfanato e os cinco internos são de famílias desestruturadas. Dos cinco internos, um é gordo, latino, Pedro Peña, um, menina, negra, Darla Duddley, um, oriental, Eugene Choi, um, aleijado, Freddy Freeman, e um, mulher entrando na idade adulta, Mary Bromfield. E o casal Vasquez e os internos constituem, assim se diz, uma família, uma família harmoniosa, perfeita, ideal, conclui-se.
Estas são as mensagens, duas, que o filme transmite:
Primeira: A família tradicional, constituída de pai, mãe e filhos, laços de sangue os unindo, é prejudicial, nefasta, opressora, enquanto o modelo de família propagandeada pelos progressistas é o ideal, o da reunião de pessoas de inúmeras origens e sem laços de sangue.
Segunda: Os cinco internos do orfanato são cada um deles o símbolo de uma classe oprimida pelo homem branco, ou, tambêm pode-se dizer, o de uma minoria (a dos gordos, a dos negros, a dos orientais, a dos aleijados – ou, melhor, dos portadores de necessidades especiais, para não ferir suscetibilidades – e a das mulheres), todas as cinco vítimas da sociedade arcaica, ocidental, cristã.
É Shazam! um filme razoável. E um panfleto ideológico.

Maldita Parentela – de França Júnior

Nesta peça, o autor trabalha um tema recorrente em sua obra: o desencontro entre pai e filha, aquele à procura de um consorte rico para esta, e esta apaixonada por um homem, que lhe responde à paixão, comum, sem posses, de baixa extração social, digno e correto. A trama ocorre na casa de Damião Teixeira e Raimunda; eles acolhem a nata da sociedade e parentes, para uma festa. Lá estão, para o prazer de Damião Teixeira, o Comendador Pestana, o Visconde, o Conselheiro Neves, o Chefe de Polícia da Corte, e outras personalidades da nata da sociedade fluminense, e, para o seu desprazer, e desespero, parentes de sua esposa, pessoas que ele, um homem que se tem na conta de pessoa sofisticada, mas que se revela um toleirão presunçoso, e que pede o convívio exclusivo da aristocracia, despreza. Basílio, irmão de Raimunda, e suas filhas, Laurindinha, que está sempre a achar graças de tudo e a gargalhar, e Cocota, moça ranzinza e grosseira, sempre a se queixar; e Cassiano Vilasboas, primo de Raimunda, estouvado e atrapalhado; e Desidério José de Miranda, tio de Raimunda, e sua filha, Hermenegilda Taquaruçu de Miranda, que, pernóstica, passa por ridícula com sua linguagem artificialmente sofisticada, são alguns dos parentes de Raimunda que comparecem à festa.

O dia em que se dá o evento festivo é chuvoso, e os parentes de Raimunda, todos simplórios, encontrados nas camadas baixas da sociedade, promovem cenas dignas de boas comédias, e contrastam com o ambiente social que Damião Teixeira quer emprestar à festa. Tais personagens se movem, desembaraçados, ingenuamente indiferentes à reação dos outros convidados.

Damião Teixeira deseja casar Marianinha, sua filha, com Joaquim Guimarães, homem de posses, que, segundo Damião Teixeira, é um tolo e ignorante, mas, por conveniência – ele é rico – quer dar-lhe a filha por esposa; Marianinha, por sua vez, contrariando a vontade de seu pai, quer se casar com Aurélio. Desidério José de Miranda apresenta Hermenegilda, sua filha, ao rico Joaquim Guimarães. E dá-se uma disputa silenciosa entre Damião Teixeira e Desidério José de Miranda, ambos a abordarem Joaquim Guimarães, para lançá-lo aos braços de suas filhas, aquele, nos de Marianinha, este, nos de Hermenegilda.

Durante a festa, dão-se cenas engraçadas, umas protagonizadas pelo desastrado Cassiano Vilasboas, outras por Joaquim Guimarães, e outras por Laurindinha, sempre a gargalhar, sempre a achar graça em tudo, até nos contratempos. E ao final da peça, de um ato, desembaraçado em vinte e duas cenas, França Júnior reserva ao leitor uma surpresa.

O Tipo Brasileiro – de França Júnior

Nesta comédia, França Júnior apresenta o antagonismo entre duas personagens, Teodoro Paixão, pai de Henriqueta Paixão, e Henrique, pretendente à mão de Henriqueta Paixão. É Teodoro Paixão fervoroso adorador de estrangeirismos. Compara o povo do Brasil, e sua cultura, sua língua, seus hábitos, seus costumes, com o povo da Alemanha, da França, da Inglaterra, da Itália, e a cultura, língua, hábitos e costumes deles e entende o povo do Brasil e tudo o que brota em terras brasileiras inferior aos seus similares estrangeiros. Para ele, o povo brasileiro é fútil, bárbaro, leviano, indolente, imerecedor de crédito, e seus valores desprezíveis, irrelevantes. E Henrique se lhe opõem, veemente, em defesa do Brasil e dos brasileiros. Henrique detecta, em seu antagonista e nos tipos que se lhe equivalem, um mal, de ontem e de hoje, que muito prejuízo dá ao Brasil: a ignorância que têm os brasileiros de seus heróis, seus literatos talentosos, seus compatriotas geniais, que construíram, no transcurso de suas vidas, obras meritórias, de valor imperecível. Tal crítica de Henrique aos brasileiros não perdeu, no decorrer de mais de um século após a publicação desta peça, o seu valor; os brasileiros ainda hoje valorizam muito produto estrangeiro desprovido de valor e desvaloriza os equivalentes nacionais que lhes são superiores e dá mais valor a artistas, escritores, músicos estrangeiros medíocres e desdenham os concorrentes brasileiros melhores e mais talentosos e criadores de obras superiores.
Não querendo flertar com patriotadas, há de reconhecer todo brasileiro sensato, que preserva o senso de justiça, capaz de dar a cada obra o seu valor justo, que o brasileiro produz, na literatura, na música, na ciência, obras de valor superior às de muitos estrangeiros que enaltecem, idolatram.
Abandonemos as lamúrias, e tratemos da peça de França Júnior. Desenrola-se a peça, num ato, em treze cenas. Além do desencontro das opiniões de Teodoro Paixão e Henrique acerca do tipo brasileiro, há outro ponto que promove atrito entre as duas personagens: devido ao seu desprezo mortal pelos brasileiros e seu amor irracional pelos estrangeiros, Teodoro Paixão quer que sua filha se case com Mr. John Reed, bretão, engenheiro, que pretende se lançar numa aventura empresarial. Henrique, no entanto, não desiste de seu propósito: o de se casar com Henriqueta Paixão. E para alcançar tal fim, idealiza um projeto – simultaneamente produto da perspicácia e da insensatez de um homem apaixonado -, que, pensa, irá obrigar seu rival a se exibir com sua verdadeira face aos olhos da mulher amada e do pai dela. E o projeto concebido por Henrique, projeto que segue uma direção que ele não previu, o acaso a providenciar-lhe o bom sucesso da empreitada, propicia uma cena hilária.

O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli; e, Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa

O livro de Henrique A. Orciuoli, dos dois aqui tratados o primeiro que li, está vazado numa prosa poética, que reproduz a simplicidade da poesia do biografado, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, infelizmente hoje em dia pouco lido e lamentavelmente difamado pelos seres que, além de desprovidos de talento poético, adoradores de imundícies escatológicas, odeiam o que há de melhor, mais valioso, mais belo, na cultura brasileira. A prosa do autor é em si mesma uma homenagem a Olavo Bilac. Conta-nos Henrique A. Orciuoli, numa prosa poética acessível a qualquer pessoa minimamente ilustrada, a angústia de Olavo Bilac, seu amor por Amélia, irmã de outro herói da poesia brasileira, Alberto de Oliveira, que, do mesmo modo que o autor de O Caçador de Esmeraldas, é ignorado pelos incultos e vilipendiado pelos que tiveram sua formação intelectual feita pelo que há de pior do que não sei se é certo chamar de literatura moderna. Olavo Bilac amava, apaixonada e doentiamente, Amélia, seu eterno amor. Noivaram o poeta e sua amada, também poetisa, e irmã de poetas, mas não chegaram ao enlace matrimonial por obra de Juca, irmão mais velho de Amélia, e da mãe dos Oliveiras, a viúva Dona Saninha. Os dissabores do poeta são angustiantes. Dói-se o coração de Bilac, alma sensível e imaginosa; e o poeta sofre até no leito de morte, Amélia a mover-se em sua imaginação, a agitar seu coração.

Além de falar da paixão de Olavo Bilac e Amélia, da hostilidade inexplicável de Juca, que não queria o casamento de sua irmã com o autor de Via-Láctea, Henrique A. Orciuoli reproduz poemas de Bilac e de Amélia, e dá notícia do embrião da Academia Brasileira de Letras, a casa dos Oliveiras, a “Engenhoca”, local privilegiado frequentado pela nata da cultura de então.

Resume a biografia, de um pouco mais de cem páginas, ao amor entre Bilac e Amélia, dedicando poucas palavras a outras atividades do Príncipe dos Poetas Brasileiro. Lê-se o livro como se lê um romance; aliás, é o livro um romance, um romance de personagens reais que enriquecem a história do Brasil.

Tem o livro de Osmar Barbosa, Olavo Bilac: Vida e Obra, dimensões, em páginas, próximas das do livro de Henrique A. Orciuoli, e, ao contrário do deste, não se prende ao romance de Bilac e Amélia. Apresenta um panorama mais amplo da vida do Príncipe dos Poetas Brasileiros. Dá notícia do nascimento dele, em ano em que se desenrolava a Guerra do Paraguai; e do seu tirocínio com o Padre Belmonte, e de seus estudos no Colégio Vitório; fala-lhe, rapidamente, da mãe, D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac, e do pai, Dr. Brás Martins dos Guimarães Bilac, que o queria médico e que dele se afasta devido à reprovável vida errônea e boêmia que ele, Bilac, prodigalizava na companhia de amigos. Fala, também, o autor do abandono, por Olavo Bilac, do curso de medicina, e de seu ingresso na Faculdade de Direito; e de sua amizade com Alberto de Oliveira, José do Patrocínio, Raul Pompéia, Artur Azevedo, Paula Nei, Emílio de Menezes, Coelho Neto; e da sua paixão por Amélia; e da sua admiração por Gonçalves Dias; e de suas viagens à Europa; e do seu encontro com Eça de Queirós; e de seu trabalho de inspetor escolar; e da sua participação na fundação da Academia Brasileira de Letras; e de suas conferências a favor do escotismo, do serviço militar obrigatório, da abolição dos escravos; e das adversidades enfrentadas porque desprovido de recurso pecuniários para se manter; e de suas prisões; e do seu envolvimento em duelos literários, em defesa de Gonçalves Dias, contra Lúcio de Mendonça, e na guerra entre parnasianos e simbolistas; e de sua ação a favor de José do Patrocínio e contra o Marechal Floriano Peixoto; e de seu reencontro, em 1910, na casa do Professor Hemetério dos Santos, que aniversariava, com sua amada Amélia de Oliveira, vinte e dois anos após o encontro anterior. E adiciona brindes ao leitor o autor Osmar Barbosa: algumas anedotas da vida do autor de Via-Láctea, a reprodução de uma crônica que o maior dos poetas parnasianos brasileiros escreveu acerca de seu encontro com Eça de Queirós, e um conto infantil, O Velho Rei, de autoria de Bilac.Os dois livros são de pessoas que admiravam Olavo Bilac.

Enquanto Henrique A. Orciuoli ocupa-se do amor, eterno amor, do Príncipe dos Poetas Brasileiros por Amélia, Osmar Barbosa fala de outras questões que lhe enriquecem a biografia. O primeiro foi bem-sucedido em seu objetivo ao concentrar-se no mundo do maior poeta parnasiano brasileiro, o mundo em que Amélia ocupava a mente e o coração do poeta; e o segundo, de escopo mais amplo, fez o tema do amor de Bilac por Amélia secundário. Ambos escritores de boa, bem cuidada, prosa, seduzem o leitor; transcrevem poesias de Bilac, e ensinam uma inestimável lição aos leitores: é impossível entender as poesias se não se conhecer a vida dos poetas. A poesia de Olavo Bilac é melhor compreendida se se conhecer suas atividades, e muito de sua obra poética alude à Amélia, sua Beatriz.

São O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli, e Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa, dois livros simples, que abrem aos amantes da literatura as portas que dão acesso à vida, ao coração do Príncipe dos Poetas Brasileiros. 

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