Orquestra Maluca (You’re Darn Tootin’ – 1928) – com O Gordo e o Magro

Em quinze minutos, Ollie (Oliver Hardy) e Stan (Stan Laurel) são capazes de empreender uma série de disparates de deixar de queixo caído o Barão de Münchausen e boquiaberta a Mula-Sem-Cabeça. De estontear todo e qualquer filho de Deus. Num concerto, fora de compasso, a os dois personagens que formam a dupla mais atrapalhada do oeste enervam o maestro, que, furibundo, fisionomia carregada, aborda-os, e chama-lhes a atenção, repreende-os com severidade. E de que adianta reprová-los? Ambos os da dupla mais divertida do cinema não se emendam, seguem com as suas ações amalucadas, e causam confusões do balacobaco. Expulsos da orquestra, desempregados, e despejados do hotel, sem um tostão no bolso, vão ter à rua, onde, no exercício da arte musical, exibem talento invejável, não para a música, mas para a confusão, a ponto de envolverem multidão de homens numa divertida troca de socos e caneladas de constranger Homero, que em seus épicos jamais narrou cenas de luta que contasse com ações tão heróicas e másculas e viris. É Orquestra Maluca um filme divertido.

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Coma – A Dimensão do Futuro (2019) – direção: Nikita Argunov

Em uma dimensão cuja realidade é constituída de fragmentos de memórias de pessoas em estado-de-coma, os protagonistas enfrentam os ceifeiros, seres tétricos, pretos, fantasmagóricos, horripilantes, agentes da morte. É tal dimensão caótica; não tem um centro de gravidade, um planeta; tem pedaços de locais da Terra dispostos num espaço a constituir um mundo fantástico cuja configuração lembra a do cérebro – a das representações, muito populares, dos neurônios e suas conexões. Há cenas em que uns personagens estão caminhando por uma rua, fragmento de uma cidade, num tiroteio com pessoas que estão num plano, em terreno paralelo, ambos os planos de cabeça para baixo em relação um para o outro. O visual é fascinante. Os personagens pulam de um terreno para outro, e para outro, os terrenos sem conexões por terra. É um mundo irreal, criado pela reunião de lembranças dos personagens, que, repito, estão em estado-de-coma. E neste mundo é o protagonista Viktor (Rinal Mukhametov), o Arquiteto, que, após um acidente de carro, desperta, a sua mente a aventurar-se pela dimensão criada pela sua memória e pelas memórias de outras pessoas, dentre elas, Fly (Lyubov Aksyonova), Phantom (Anton Pampushnyy), Astro (Miloš Biković), Yan (Konstantin Lavronenko), Spirit (Polina Kuzminskaya), Tank (Vilen Babichev), Gnome (Rostislav Gulbis) e Cable (Leonid Timtsunik), todos eles reunidos, em um grupo de aventureiros, sob o governo de Yan e o comando de Phantom, à procura de um lugar seguro, além do alcance dos ceifeiros.
A história não se resume às façanhas dos protagonistas na dimensão que a mente deles concebeu. Há um mundo real no qual eles vivem, e neste mundo real a Viktor revela-se sua real condição, e a sua relação com Fly e o papel de Yan na trama.
É “Coma – a Dimensão do Futuro” um filme intrigante, e fascinante, uma aventura surrealista agradável.

O Homem-Morcego (The Bat – 1959) – com Vincent Price

Em uma antiga mansão ocorrem crimes inusitados. É a mansão propriedade de John Flemming (Harvey Stephens), cujo sobrinho, Mark Flemming (John Bryant), aluga-a para Cornelia van Gorder (Agnes Moorehead), escritora de tramas policiais, famosa e popular e admirada, que na mansão vive com Lizzie (Lenita Lane), sua governanta, e Warner (John Sutton), seu mordomo. Espalha-se que nos arredores comete crimes horrendos um homem vilanesco e crudelíssimo que atende pelo codnome Morcego.
Estão numa casa, num campo, John Flemming e o doutor Malcolm Wells (Vincent Price), e aquele a este revela um segredo: roubara, de seu próprio banco, um milhão de dólares, em títulos bancário, e escondera-os na mansão. O doutor Wells, a excitá-lo a ganância, mata John Flemming, e faz queimar a casa com fogueira que pode ser vista à distância. Espalha-se a notícia. E não demora muito tempo, o Morcego invade a mansão do Flemming, onde estão a escritora, sua governanta e seu mordomo, e os ameaça. É chamado para investigar o caso o tenente Andy Anderson (Gavin Gordon), que decide permanecer na mansão para proteger os inquilinos. No desenrolar da aventura, os olhares de suspeitas entre o tenente e o doutor Malcolm Wells, e os diálogos entre eles, dão a entender que o tenente dele desconfia, e recai sobre o doutor todas as suspeitas, afinal, ele, ciente do ato criminoso de John Flemming, matara-o. E as descobertas que faz o tenente das pesquisas do doutor Wells com morcegos e das desconfianças que o mordomo lhe inspira, e as atitudes e insinuações entre os personagens revela-se que são três os suspeitos de envergarem a vestimenta do Morcego e usarem, na mão esquerda, uma luva preta com garras de aço: Warner, o mordomo; Andy Anderson, o tenente; e, Malcolm Wells, o médico. Quem dentre eles é o temido Morcego, vilão cruel e sanguinário? Ou é o Morcego personagem que habita os pesadelos da escritora e de sua governanta? E onde estão os títulos bancários que John Flemming dissera haver roubado de seu banco? Existem?

Ragnarok (Ragnarok – 2013) – direção: Mikkel Brænne Sandemoso

O arqueólogo Sigurd Svendsen (Pål Sverre Hagen), nostálgico de uma era que ele não viveu, a de remotos antepassados vikings, após decifrar uma antiga inscrição, em pedra, nórdica, que seu amigo Allan (Nicolai Cleve Broch) encontrara e entregara-lhe, segue, o amigo Allan a secundá-lo, e acompanhado do filho Brage (Julian Podolski) e da filha Ragnhild (Maria Annette Tanderø Berglyd), e de Elisabeth (Sofia Margareta Götschenhjelm Helin) e de Leif (Bjørn Sundquist), até o Olho de Odin, uma ilha isolada, no norte da Noruega, numa região distante da civilização. Descobrem os aventureiros que na Segunda Guerra Mundial os soviéticos haviam chegado àquela ilha e às suas vizinhanças, regiões inóspitas, praticamente inacessíveis, que havia muito tempo não via humanos. Desde que se embrenharam pela densa floresta, surpreenderam-los fenômenos misteriosos. São muitos os veículos soviéticos abandonados, corroídos pelo tempo e pelas intempéries. E encontraram Sigurd e os que o acompanhavam um bunker abandonado às aranhas. A presença de tal prédio suscitou-lhes a curiosidade, que foi-lhes estimulada pela presença, numa caverna, que eles adentraram, de esqueletos humanos e armaduras antigas, de mil anos antes, dos vikings. Qual havia sido a causa da morte das pessoas cujos esqueletos eles encotraram? Qual criatura se manifesta durante o Ragnarok? E ao depararem-se com uma criatura colossal, lendária, sentiram-se obrigados a abandonarem a ilha e irem-se embora, e imediatamente.
É Ragnarok uma aventura despretensiosa, com ingredientes comuns em número sem conta de filmes do gênero. Há mistério, que não é muito misterioso, tensão, que não é tensa, não excita os nervos, obrigando o expectador a suspender a respiração, e personagens que se encontram em onze de cada dez filmes do gênero: o pai viúvo; a filha adolescente rebelde; o amigo traiçoeiro; o ajudante inescrupuloso; a mulher que se apaixona pelo herói, que por ela se apaixona; o monstro; o filho do monstro. E a aventura se passa numa região distante da civilização, misteriosa, a guardar segredos milenares. Tem o filme algumas mortes e um pouco de emoção. E só. É Ragnarok um passatempo apenas.

Silêncio, hospital! (County, hospital – 1932) – com O Gordo e o Magro

Neste filme da dupla mais atrapalhada do universo, um hospital é o cenário animado, e divertidamente animado, por Stan Laurel e Oliver Hardy. Stan visita seu amigo Oliver, que está acamado, e tem a perna direita engessada, num quarto, quarto que ele compartilha com outro paciente, um homem histriônico, expansivo, de gargalhada fácil. Ollie não transparece ânimo à chegada do seu amigo de aventuras, que lhe leva de presente ovos cozidos e nozes; transparece contrariedade, já antevendo dores de cabeça. Stan põe-se a degustar os ovos cozidos. E não demora muito tempo, emborca uma jarra, despejando água no leito em que está Ollie deitado. E logo sucedem-se cenas tipicamente burlescas, Stan a socorrer um médico que ele mesmo pusera em apuros e a oferecer ajuda a Ollie. Dividida a sua atenção entre os dois outros personagens, enrosca-se em suas trapalhadas. A cena encerra-se com o desmantelamento da cama em que estava Ollie deitado e a entrada, no quarto, de enfermeiros. E Stan incorre em outras hilárias insanidades, até que, enfim, retiram-se do hospital os dois toleirões, Stan sob efeito de sonífero. E entram em um carro. E põe-se Stan ao volante. Se Stan em seu estado natural de consciência comete os atos mais absurdamente atrapalhados que se possa imaginar, que tolices ele irá cometer, ao volante de um carro, sob efeito de sonífero?

Maldita Aranha Assassina (Big Ass Spider – 2013)

Neste filme – um filme trash, um filme B – de Mike Mendez há todos os ingredientes do gênero: o herói solteirão, que não é benquisto pelas mulheres, tolo e desajeitado, o aliado dele, tão ou mais tolo e desajeitado do que ele, um oponente, militar, um cientista, a mocinha, uma velhinha tarada, donzelas seminuas, inúmeras mortes, muito sangue derramado e espirrado, cenas de ação grotescas, efeitos especiais fajutos, diálogos ridículos. E no final o herói beija a mocinha. E o prefácio de outra aventura, para outro filme.
Alex Mathis (Greg Grunberg), dedetizador, é o herói desta bizarra aventura. Em um hospital, após atacado por uma velhinha insinuante e mordido por uma aranha, sai à caça de uma criatura, que ninguém sabe de qual espécie se trata, e o auxilia Jose Ramos (Lombardo Boyar), segurança do hospital. Enquanto os dois heróis, que se envolvem em diálogos ridículos, caçam o bicho peçonhento, que já fez vítimas humanas, ao hospital chegam os militares, comandados pelo major Braxton (Raymond Herbert “Ray” Wise), que é auxiliado pela tenente Karly Brant (Clare Kramer). Não demora muito tempo, Alex Mathis encontra a aranha e a mocinha, tenente Karly Brant. E logo tem o herói conhecimento de que é a aranha que ele caçava uma criatura fruto de uma experiência científica cujo fim era a amálgama de genes de criatura marciana com um tomate, e dentre do tomate, ignoravam os cientistas, havia um aranha. E este foi o início do desastre. A aranha cresce, assume dimensões gigantescas, e aterroriza os cidadãos de Los Angeles, até que, enfim – e não estou a revelar o final, pois todos sabem como filmes de tal gênero terminam -, matam o monstro.
Não é o filme uma obra-prima da sétima arte; diverte de tão absurdo, ridículo.

Hércules, Sansão e Ulisses (Ercole sfida Sansone – 1963) – com Kirk Morris e Iloosh Khoshabe.

Eu jamais tinha ouvido falar da existência de tal filme. E jamais pensei que houvesse um que trazia em seu panteão de heróis, os nomes de Hércules e Sansão, heróis, aquele, grego, este, hebreu, aquele, de poemas helênicos, este, do Velho Testamento, heróis que, até onde se sabe, jamais cruzaram-se os caminhos em suas andanças pelas terras inóspitas da nossa querida esfera celeste.

À procura de um filme, acessei o Youtube, e digitei Hércules, a evocar os filmes, que eu, há mais de trinta anos, então um garoto imaginoso, assisti, estrelados por Lou Ferrigno, fisioculturista cuja chama se rivaliza com a de Schwarzenegger. E apareceram-me filmes e desenhos, e, dentre eles, o que dá título a esta resenha. Curioso ao ver os nomes Hércules e Sansão, e mais o de Ulisses, no título de um filme, decidi à obra do cinema italiano (do gênero – vim a saber depois, após uma rápida pesquisa em site de busca – que se popularizou como filme de espadas e sandálias) assistir. Não é o filme uma obra-prima; nem memorável é; tem, no entanto, os seus atrativos: os dois heróis, que se batem em certo capítulo da épica aventura; as paisagens, deslumbrantes; o esmero das cenas e das vestes das personagens.

De início, são naves maritímas gregas atacadas por um monstro marinho, que vem a causar o naufrágio delas. Um dia, decidem Hércules (Kirk Morris) e Ulisses (Enzo Cerusico) singrarem os setes mares à caça do monstro que tanto mal causava aos gregos. E é o destino dos heróis gregos, após o confronto com a criatura marinha, o naufrágio e a chegada deles à terra dos judeus, onde deparam-se com os danitas; na sequência, vêm a ter com Seren (Aldo Giuffrè), o rei filisteu, no palácio deste, e com Dalila (Liana Orfei), mulher diabolicamente astuta, que é bem-sucedida em urdir uma trama que põe em rota de colisão o herói grego e Sansão (Iloosh Khoshabe). Antes desta cena, Hércules mata, com as mãos, um leão, o que faz com que pensem que é ele Sansão, herói em cujo encalço estava o rei filisteu. A cena mais aguardada, a da luta entre os dois heróis, se dá um pouco antes do encerramento do filme. E batem-se o herói grego e o danita, ambos a se emularem em força física, e nenhum deles a se sobressair frente ao seu oponente.

É o filme uma agradável aventura.

O Valente Treme-Treme (The Paleface – 1948) – com Bob Hope e Jane Russell.

Foi no Velho Oeste. Libertam Calamity Jane (Jane Russell), bandoleira temida, da prisão, e negociam-lhe o perdão pelos crimes se ela investigasse um caso escabroso, que envolvia venda de armas para os índios. Após a persuadirem da vantagem que ela obteria com a proposta, ela decide cumprir a incumbência da qual a haviam encarregado. No meio do caminho, conhece Peter Potter (Bob Hope), o dentista alcunhado Indolor, homem falastrão, medroso e trambiqueiro, que troca os pés pelas mãos com a sem-cerimônia de um sujeito alienado, um rematado tolo. A inusitada união entre a temida bandoleira e o pusilânime dentista oferece cenas de humor cativante, engraçadíssimas, disparatadas, de fazer dobrar de rir quem se dedica a assistir a esta comédia irresistível.

Venom (2018)

Não é um filme de aventuras; não é um filme de ficção científica; não é um filme de ação; não é um filme de terror. Não é um filme de super-herói. É uma sequência de cenas grotescas dotadas de algumas pinceladas, e muito mal aplicadas, de elementos de inúmeros gêneros e de nenhum gênero. Cada pessoa vê não se sabe o que em tal filme – se de filme se pode chamar tal obra sem valor, um horror em todos os aspectos, de constranger todo aquele que aprecia a Sétima Arte, de enervar os mais exigentes, de fazer os irmãos Lumière se remexerem no túmulo (e que nenhuma alma penada de além-túmulo ouse lhes falar da existência deste… desta… Não sei o quê). É Venom um caça-níquel. Explora a fama de um dos mais populares, entre os jovens, personagens de quadrinhos de super-heróis americanos. E nada mais. Se caçou muitos níqueis, não sei. Abusa de alguns efeitos visuais grosseiros, e grotescos, para contar um capítulo da vida do repórter investigativo Eddie Brock (Tom Hardy), o homem que vive em simbiose com Venom, o alienígena – um simbionte – que, a bordo de uma espaçonave do Instituto Vida, empresa de exploração espacial do multibilionário Carlton Drake (Riz Ahmed), chega, aprisionado num artefato tecnológico, à Terra.
Carlton Drake, inescrupuloso, realiza experiências que redundam na morte de suas cobaias humanas – uma delas, amiga de Eddie Brock – que não tinham organismo compatível com o dos alienígenas.
Não foi o simbionte Venom o único que foi trazido à Terra. Um outro, após parasitar dois corpos de humanos e o de um cachorro, ocupou, enfim, um que lhe era compatível, o de Carlton Drake.
Há no filme cenas violentas que, de tão mal executadas, inspiram riso; de perseguição, Eddie Brock (e Venom) de moto, seguido por agentes sob as ordens de Carlton Drake – e que nenhuma tensão possui; de humor, humor?, que não fazem rir; e, ao final, de luta, grosseira, grotesca, destituída de atrativos, entre os dois simbiontes, o que estava com o corpo de Eddie Brock e o que dominava o de Carlton Drake.
Venom, não se sabe porque razão, ao saber que o outro simbionte queria empreender uma expedição até seu planeta natal e trazer à Terra milhões dos da sua espécie, para colonizá-la, decidiu confrontá-lo. E assim fez, e foi por ele suplantado. Todavia, seu antagonista morre (morre? estamos falando de estória de super-herói), dentro de um foguete, numa explosão – os simbiontes não são invulneráveis ao fogo.
E Eddie Brock e Anne Weying (Michelle William), que só agora é apresentada nesta resenha, vivem felizes para sempre, ao modo deles, ele a seguir sua vida errática, ela, em comum com o doutor Dan Lewis (Reid Scott).
A biografia de Venom – é este adendo um brinde para os meus poucos leitores – é das mais inusitadas: Na série Guerras Secretas, de Jim Shooter, Mike Zeck e John Beatty, é Venom um material alienígena que compõe o uniforme preto do Homem-Aranha; depois, ele assume ares de um agente parasitário que suga seu hospedeiro, o sobrinho da Tia May, moço que, nas horas vagas, é o Amigão da Vizinhança, Peter Parker, que dele se livra ao som de um sino de uma igreja (emblemático: Peter Parker livra-se de seu demônio em uma igreja); em seguida, apossa-se o simbionte de Eddie Brock; enfim, converte-se em um anti-herói (da estirpe de Deadpool) que não hesita em matar humanos, um personagem grotesco, horripilante, repulsivo, asqueroso – hoje em dia, um herói. E orbitando-o criou-se um panteão de personagens tão horripilantes quanto ele; e é seu antagonista Carnificina.

Projeto Gemini (Gemini Man – 2019) – Direção: Ang Lee. Com Will Smith.

Não há muito o que dizer deste filme, que assisti atraído pelos nomes de Ang Lee e Will Smith, duas personalidades populares, ambas respeitadas pelos amantes da Sétima Arte.
Henry Brogan (Will Smith), assasino de elite, o melhor de todos, profissional irrivalizado, é traído por Del Patterson (Ralph Brown) e tem a sua cabeça dada a prêmio pelos inescrupulosos Clay Varris (Clive Owen) e Lassiter (Linda Ermond), superiores da agência de espionagem para a qual Henry Brogan trabalha. Não pôde gozar de sua merecida aposentadoria Henry Brogan, que, com a ajuda de Baron (Benedict Wong) e Danny (Mary Elizabeth Winstead), enfrenta os assassinos enviados para matá-lo. Mas apenas um assassino poderia matar Henry Brogan: Henry Brogan. Mas ele não podia ir no encalço de si mesmo. Não podia; e foi. Não o Henry Brogan original, primeiro e único, mas seu clone, mais jovem, dotado do talento de Henry Brogan para operações de assassinato. E não apenas um clone seu Henry Brogan encarou; enfrentou dois deles, o segundo, mais jovem do que o primeiro, e mais poderoso do que ele, um garoto, quase uma criança, era um ser humano aperfeiçoado, máquina de matar, sem espírito humano, criado para substituir soldados humanos nos campos de batalhas – questão, esta, explícita nas palavras de Clay Varris.
Ótimas, as cenas de ação do filme. O roteiro, simples. Estranhou-me o rosto de Will Smith, rejuvenescido por computadores, nas figuras dos clones dele. Por mais sofisticada que seja a tecnologia de efeitos especiais, ela ainda não pode emprestar ao rosto humano a sua natureza – irreproduzível por máquinas?Está na ordem do dia o transhumanismo, que, para os seus proponentes, é o aperfeiçoamento, o melhoramento do ser humano, a conversão dele num ser superior, que se obtêm suprimindo-lhe a essência transcendental; o filme, removido o seu teor fictício, faz de tal questão o seu estribilho. A controvérsia existe, conquanto muita gente a evite, dela se esquive, e a maioria a ignore: É possível melhorar o ser do ser humano? O clone de Henry Brogan, o primeiro deles, após o encerramento de sua aventura, segue uma vida de um ser humano. O clone, pergunta-se, tem alma? E muitas perguntas se seguem: Se não tem, é humano? Se tem, então, o que a alma é, se o clone é um produto da ciência humana? O clone é criação dos humanos, e estes são criaturas de Deus, então o que os humanos criam está contemplado nos desígnios divinos? A alma existe, ou é uma abstração filosófica e teológica? Que ninguém queira encontrar tal discussão em Projeto Gemini, que é única e exclusivamente uma obra de entretenimento. Ou não?

Wu Kong – Contra a Ira dos Deuses (2017) – direção: Chi-Kin Kwok

Sun Wu Kong (Eddie Peng), o Rei Macaco, confronta os celestiais, que muito tempo antes destruíram o monte Huaguo, seu lar. No reino celestial, conhece os imortais Ah Zi (Ni Ni), linda, meiga e simpática – no início da aventura, estranham-se os dois, mas, obrigados ao convívio comum, eles se apaixonam -, Tian Peng (Hao Ou), habilidoso no uso de armas afiadas, Juan Lian (Qiao Shan), inventor de parafernálias, que nem sempre funcionam a contento, e que durante a batalha com um demônio, revela-se dotado de talento inventivo inigualável, Hua Ji (Yu Feihong), a imortal suprema, e o mestiço Erlang Shen (Shawn Yue), filho de imortal e humano.
Bate-se, no Reino Celestial, Sun Wu Kong com Tian Peng e Erlang Shen. É aprisionado num calabouço. Em segundo embate com os imortais, vem a cair, juntamente com Tian Peng, Erlang Shen, Ah Zi e Juan Lian, na Terra, num vilarejo, onde – agora todos eles sem os poderes de que eram dotados quando habitavam o Reino Celestial – unem-se para salvar os habitantes do vilarejo, atacado por um demônio, e contra este lutam bravamente. E Tian Peng encontra Ah Yue (Zheng Shuang), mulher que ele amava e da qual havia sido afastado muitos anos antes.
É o filme uma aventura chinesa mística, mítica, épica. Tem ótimas cenas de luta, ao estilo chinês, que nos causa certo estranhamento; e humor, em boa dose, simples, inocente – dir-se-ia bobo -, nas cenas que de Juan Lian protagoniza, principalmente. Chamou-me a atenção a beleza das mulheres, o esmero das vestimentas dos protagonistas, e os bem cuidados cenários – o do vilarejo, em especial, simples, de pessoas pobres, não peca pela feiúra, tampouco pela sujeira.
Prendeu-me a atenção a batalha final entre Sun Wu Kong e os imortais.
A aventura do Rei Macaco diverte, anima, entretêm.

Na Noite do Crime (Woman on the run – 1950) – estrelando Ann Sheridan e Dennis O’Keefe

Neste filme noir, em preto e branco, de 1950, o inspetor Ferris (Robert Keith) sai à caça de Frank Johnson (Ross Elliott), a única testemunha do assassinato de Joe Gordon (Tom Dillon), que iria testemunhar contra Freeman Fattened, um gangster.

O assassinato ocorre à noite, Joe Gordon, dentro de um carro, após saudar um homem, Danny Boy – e este nome, ao ser mencionado pela segunda vez, na metade do filme, revela a verdadeira identidade do assassino.

Frank Johnson, ilustrador, trabalha na loja Hart e Winston, do doutor Maibus (John Qualen). Passeava, com seu cachorro de estimação, Rembrandt; testemunha o crime, e o assassino dispara em sua direção dois tiros, errando ambos. À cena do crime chegam os policiais, e o inspetor Ferris, que pede a Frank Johnson informações acerca do ocorrido e lhe diz que ele, Frank Johnson, teria de testemunhar, descrever o assassino de Joe Gordon – e seria esta a única informação que teria a polícia numa investigação que tinha como alvo o gangster Freeman Fattened. Ao ouvir tais revelações, Frank Johnson decide, à distração dos policiais, e temendo pela sua vida, homiziar-se em qualquer lugar, para a sua segurança. Ao saber da ação de Frank Johnson, o inspetor Ferris principia a caçada a ele. Na sua ânsia de vir a efetuar a prisão de Freeman Fattened, e certo de que para chegar até ele teria de descobrir a identidade do assassino de Joe Gordon, e que para identificá-lo era imprescindível o testemunho de Frank Johnson, não mede esforços, aborda Eleanor Johnson (Ann Sheridan), esposa de Frank Johnson.

Toda a investigação do inspetor Ferris concentra-se, o que é inusitado, na caçada, não ao assassino, tampouco ao gansgster, mas à testemunha do assassinato de Joe Gordon, Frank Johnson, a única pessoa que poderia adicionar alguma informação à investigação.

Eleanor Johnson é uma personagem cativante – e é ela a protagonista da aventura, e é seu coadjuvante Dan Legget (Dennis O’Keefe), repórter do Graphic. Ácida e sarcástica, nos seus diálogos com o inspetor Ferris e nos com Dan Legget, além de revelar traços de sua personalidade multiforme, sua inteligência fina, de uma pessoa de língua afiada, exibe sua indiferença pelo marido e a si mesma; suas primeiras palavras a respeito do homem com quem vivia sob o mesmo teto são desdenhosas, de desprezo por ele.Atormentada com a abordagem, que lhe restringe os movimentos, do inspetor Ferris, driba-lhe a vigilância, e inicia, coadjuvada pelo onipresente Dan Legget, uma aventura emocionante e tensa à procura de seu marido. Na sucessão dos capítulos que contam a sua aventura, ouve contarem-lhe episódios da vida dele, episódios que ela, esposa distante, ignorava, e surpreende-se com o que lhe dão a conhecer. Tal aspecto do enredo, que segue concomitante à perseguição que o inspetor Ferris empreende a ela e ao esposo dela e a investigação que ela e Dan Legget executam, para chegarem até Frank Johnson, é uma trama envolvente que revela, aos poucos, a consciência que Eleanor Johnson adquire de seus sentimentos pelo marido, os quais dela até então estavam ocultos.São muitos os episódios da saga de Eleanor Johnson: o do clube chinês Jardins do Oriente; o do consultório do doutor Hohler; o da loja Hart e Winston; o do Sullivan’s Grotto; o do cais; o do consultório do veterinário; o do necrotério; e, enfim, o derradeiro, o do parque, na praia, sob as instalações da montanha-russa.A partir do episódio ocorrido na loja Hart e Winston, intrigada com mensagem cifrada, que seu marido lhe enviara numa carta, “Estarei em um grande dia, sob o Sol, como no dia que lhe perdi pela primeira vez.”, Eleanor Johnson esforça-se para encontrar-lhe o paradeiro – e para ir até ele teria de decifrar a mensagem, o que ela conseguiria a duras penas.Na metade do filme, repito, a identidade do assassino, alcunhado Danny Boy, no início da trama, por Joe Gordon, é revelada durante um diálogo entre Eleanor e Dan Legget; a partir deste momento, fica-se na expectativa, ansioso para se saber se Eleanor Johnson encontraria seu marido e o ajudaria a safar-se de seu perseguidor, ou se, sem o saber, conduziria o assassino até ele.

O Monstro da Lagoa Negra (Criature from the Black Lagoon – 1954). – direção: Jack Arnold

É este filme um distante ancestral de Anaconda, que conta, no seu elenco, com a bela Jennifer Lopez, e Jon Voight, que faz a vez de um canastrão grotesco.
É O Monstro da Lagoa Negra um filme desprovido de atrativos. Conta a história de um pequeno grupo de exploradores que, após o doutor Carl Maia (Antonio Moreno) encontrar o esqueleto de uma bem conservada mão de um animal desconhecido, antiquíssimo, de era anterior à do primeiro homem que pisou na Terra, vai, a bordo do barco Rita, pelos rios da Amazônia brasileira, até a misteriosa Lagoa Negra, onde vivia o Homem-Peixe, criatura lendária e temida. Compõem o grupo de aventureiros, além do doutor Carl Maia, o mergulhador David Reed (Richard Carlson) e sua mulher Kay Lawrence (Julie Adams), e o empresário Mark Williams (Richard Denning), e o dono do barco Rita, Lucas, e os ajudantes deste.
No início do filme, o monstro, saído da água, ataca dois auxiliares do doutor Carl Maia; e no decorrer da história, mata alguns outros personagens, dentre eles Mark Williams. O filme é pobre em efeitos visuais, tem cenas desnecessárias, que estão no filme unicamente para encher linguiça, em especial as que exibem David Reed e Mark Williams a explorarem o fundo do rio e a que a bela Kay Lawrence exibe, nas águas, a sua destreza de nadadora, só, tranquilamente, em um rio fundo, numa floresta praticamente inexplorada. Há uns atritos entre os personagens centrais, comuns em filmes do gênero, o empresário ambicioso, ganancioso e inconsequente, surdo à voz da ciência, e o cientista, abnegado, a pensar exclusivamente no progresso da ciência.
E o monstro, o terrível , assustador monstro da Lagoa Negra? O que dele posso falar? É ele um nadador exímio; suas evoluções submarinas, de um desenvolvimento único. Está bem adaptado à água. E ele rapta a bela Kay Lawrence, e carrega-a consigo até sua morada. É o monstro um homem vestido com uma fantasia de um bicho misto de peixe, batráquio, anfíbio e sei lá mais o quê.
É O Monstro da Lagoa Negra uma peça curiosa. Dele ouvi falar ainda em minha não muito distante infância. Apareceu-me por acaso diante de meus olhos, dias destes, assim que acessei o Youtube. E curioso, ao filme assisti.
Para encerrar esta curta resenha, digo: A idéia que o doutor Carl Maia esposa, após vir a saber da existência do homem-peixe, era muito comum, entre os cientistas, no crepúsculo do século XIX e no alvorecer do XX: nas regiões isoladas do mundo talvez animais pré-históricos existissem. Esta idéia inspirou a Arthur Conan Doyle o tema do livro O Mundo Perdido.

Ilya Muromets (1956) – direção: Alexander Ptushko

Baseia-se em um conto do folclore russo, de autoria dr M. Kochnev, a estória deste filme, que não tem muitos atrativos. É o seu herói Ilya Muromets (Boris Andreyev), homem de talentos sobre-humanos; a sua força é descomunal; sua valentia, irrivalizada. Está ele, em seu lar, na aldeia Karacharovo, quando guerreiros das estepes, sob o comando do tzar Kalin, (Shukur Burhonov) atacam-la, reduzem às cinzas muitas de suas habitações, e raptam Vassilisa (N. Myshkova). Na sequência, visitam a aldeia arruinada peregrinos que haviam recebido, do espírito do cavaleiro Svyatogor, herói lendário, mítico, uma espada, que eles deveriam entregar ao homem que estava destinado a salvar a mãe Rússia. E Ilya Muromets era tal herói. Ele nada pudera fazer para salvar Karacharovo da selvageria dos invasores porque não tinha os movimentos de seu corpo, os que recuperou assim que bebera um líquido, cujo principal ingrediente era certa erva de propriedades curativas, que os peregrinhos lhe haviam oferecido. Tão logo viram que Ilya Muromets reapropriara-se de sua força, entregaram-lhe os peregrinos a espada que em tempos imemoriais pertencia a Svyatogor. E o herói russo, destinado a salvar a sua pátria, após encontrar seus pais, e pedir-lhes a benção para ir a Kiev – que os guerreiros das estepes pretendiam conquistar -, e deles recebê-la, montou em Burushka, um potro, que o acompanharia em toda a longa viagem, durante cujo transcurso ele cresce, amadurece, encorpa-se, até assumir as formas de um robusto e formoso cavalo preto. E ao chegar Ilya Muromets em uma encruzilhada, corvos apresentam-lhe três caminhos: o que o levaria à riqueza; o que o conduziria ao seu casamento; e o que o condenaria à morte. E o herói decide seguir o que lhe daria um fim trágico. Era um herói Ilya Muromets. Para salvar Kiev, recusou a fortuna e as delícias do casamento. Estava decidido a sacrificar-se numa aventura que lhe exigiria coragem, sabedoria e força de vontade para enfrentar, e superar, todos os obstáculos que encontraria em seu caminho. E seguindo o herói seu curso, depara-se com o pequeno Rouxinol, o Ladrão, um ser disforme, repulsivo, cujo sopro provocava ventanias devastadoras. E o derrota. E segue rumo às terras do príncipe Vladimir (A. Abrikosov) e da princesa Apraksya (N. Medvedeva), onde conhece Dobrynia (G. Dyomin), um herói russo, e outras personagens lendárias. E resgata Vassilisa. E contratempos o fazem ser punido pelo príncipe Vladimir, que manda que o encarcerem num calabouço lúgubre, onde, aprisionado por anos, não morre de fome e sede porque uma toalha de mesa, mágica, que lhe tecera Vassilisa, dá-lhe o alimento e a água de que necessitou durante os anos de cárcerr. E revela-se Mishatychka (S. Martinson), súdito do príncipe Vladimir, traidor, a agir em favor do tsar Kalin. E encaminha a aventura para o seu fim. Ilya Muromets e seu filho digladiam-se, em Kiev, tsar Kalin e oe seus guerreiros a atacarem-la. É sangrenta a batalha. Ao final, aparece de entre as montanhas um dragão de três cabeças.

É o filme aventura, musical, comédia, drama, épico, romance histórico. Contêm em sua fórmula ingredientes destes gêneros e de mais alguns outros. Um dos seus atrativos é a paisagem, vasta, exibida em cenas panorâmicas; outro, o humor, simples, ingênuo – em algumas cenas, involuntário. Tem o filme duas cenas engraçadas, que saltam aos olhos, a graça produzida por erros de produção. Uma se dá num campo, após uma batalha, cadáveres a cobri-lo: um dos cadáveres, supostamente morto, move o braço esquerdo, para, assim me pareceu, remover da testa alguma coisa que o incomodava. Cá entre nós, o cadáver não estava inteiramente morto; não era um autêntico defunto. A outra cena, também em um campo de batalha: um soldado russo a manejar a espada com tal displicência que fiquei com a impressão que o ator que o representava não tinha a mínima idéia do que estava fazendo.

Sei que é o filme antigo, velho de sessenta e cinco anos, e que os recursos cinematográficos do ano de sua produção – e os soviéticos não nadavam, ao contrário do que afirmava a propaganda comunista, em dinheiro – não chegavam aos pés dos atuais, mas os produtores bem que podiam ter caprichado um pouco mais na construção do dragão de três cabeças que dá o ar da sua graça nas cenas finais do filme; parece tal monstro um boneco gigante de carro alegórico de escola de samba brasileiro.

É Ilya Muromets, de Alexander Ptushko, apesar de todos os seus defeitos, que são muitos, e eu decidi mencionar apenas alguns deles, um bom entretenimento.

Novos Mutantes (The New Mutants – 2020)

Um filme de super-heróis sem super-heróis, conquanto as personagens que o animam, Illyana Rasputin (Anya Taylor-Joy), Lupina (Maisie Williams), Miragem (Blu Hunt), Míssil (Charlie Heaton) e Mancha Solar (Henry Zaga), sejam, nos gibis da Marvel, heróis. Os Novos Mutantes são os, digo, X-men do ensino médio, um grupo de mutantes criados por Chris Claremont e Bob McLeod – Claremont, que me desculpem a ousadia, padrasto, e um bom padrasto, dos mutantes mais famosos do universo, é autor de aventuras memoráveis, inigualáveis (e para escrevê-las contou com a contribuição inestimável de John Byrne, este no auge de seu talento criativo).
O filme Novos Mutantes possui algumas qualidades, poucas: um clima claustrofóbico, que prende a atenção do expectador, atraindo-lha para o constante mistério, leve, misto de terror e suspense, em doses homeopáticas, um coquetel não de todo dispensável.
Encontram-se os cinco jovens mutantes, sob a guarda de Cecília Reyes (Alice Braga), aprisionados em uma mansão, para estudos de seus poderes. Miragem (ou Moonstar) é a personagem central desta trama. Dotada do poder de fazer ver as pessoas (ela, inclusive) seus mais profundos medos, corporificando-lhes os demônios, revela, aos poucos, os dramas dos personagens que participam da aventura: o de Míssil, que matou, acidentalmente, seu pai; o de Mancha Solar, que matou, acidentalmente, sua namorada; o de Lupina, abusada sexualmente pelo Reverendo Craig (Happy Anderson); e o de Illyana Rasputin, abusada.
Enquanto estudava Miragem, concluem que ela era uma ameaça a todos, e tinha de ser sacrificada. Tal ordem partiu do superior de Cecília Reyes, o Professor Xavier, dá-se a entender, embora em nenhum momento ele seja nomeado. Causou-me estranheza tal detalhe, pois o telepata mais poderoso da Terra, em vez de pedir pela morte de uma mutante, iria, em atendimento aos seus princípios, empregar todos os recursos à sua disposição para ajudar Miragem a se conhecer e conhecer a origem e a extensão de seus singulares poderes.
Na cena derradeira, Miragem – auxiliada pelos outros jovens mutantes – enfrenta seus mais profundos medos, seus demônios, que se corporificam em um imenso urso, bestial.

Patrulheiros em Alerta (The Midnight Patrol – 1933) – com O Gordo e o Magro

A piada está no título. Alertas os dois patrulheiros mais bobos, tolos, patetas de que se tem notícia? Está aí a piada. E ao saber do título, esboça-se um sorriso no rosto de quem o lê, e já se anteve a sucessão de disparates que Stan Laurel e Oliver Hardy irão empreender com as suas proverbiais sabedoria e perspicácia, tão admiráveis, e invejáveis, que causam em todos espanto.
Estão os dois patrulheiros no interior de uma viatura policial, quando ouvem um comunicado, via telefone, da polícia: ladrões roubam o estepe da viatura policial. Ao ouvir tais palavras, quem assiste ao filme recusa-se a acreditar que os dois patrulheiros não haviam presenciado a ação dos criminosos. Resolvida – e do modo que o foi – o caso, recebem os patrulheiros outro comunicado da delegacia de polícia: em andamento uma invasão à certa residência. Conquanto atilados patrulheiros, Stan e Laurel esquecem-se do endereço em que um criminoso estava a cometer o crime. E Stan dirige-se a uma loja onde se depara com um arrombador de cofres, e com ele dedica alguns minutos de sua suspicaz atenção, mantêm com ele um diálogo, apropriado, pode-se dizer, considerando-se as circunstâncias, e, um telefone à mão, disca para a delegacia de polícia, e solicita ao seu interlocutor do outro lado da linha o endereço em que um criminoso perpetrava um crime. E anota os dados que ele lhe dá em uma folha de papel. E ele surpreendentemente atrapalha-se e perde as informações anotadas. E Oliver tem de realizar ligação telefônica à delegacia. E agora, de posse do endereço da residência que um criminoso escolhera para roubar, rumam os dois patrulheiros, de viatura policial, ao local do crime. Lá chegando, deparam-se com o criminoso com a mão na massa. As cenas que se seguem no interior da residência, até a captura do meliante e a condução dele à delegacia de polícia revelam a vocação de ambos os patruleiros para o correto exercício de homens da lei.

Uma Hora da Madrugada (One A. M. – 1916) – de Charles Chaplin

Após uma carraspana homérica – presume-se, dado o estado de embriaguez do herói da comédia -, Charles Chaplin, pra lá de Bagdá, está num táxi daqueles bem antigos. Que seja antigo o táxi não surpreende, afinal é o filme do ano de 1916. Quer o ébrio retirar-se do veículo. Mas há jeito!? O carro não quer que de si saia seu passageiro. Talvez tal pensamento tenha preenchido a cabeça de Chaplin durante o seu embate com o monstro de metal, que o havia devorado. Depois de umas atrapalhadas bem divertidas, engraçadas, que me arrancaram boas gargalhadas, livra-se o herói do seu inimigo, que não desejava deixá-lo sair de suas entranhas, e encaminha-se à sua residência. Para adentrar-lhe os domínios de nada adiantaria ele ditar “Abra-te, sésamo!”, em alto e bom som, embora estivesse, pra lá de Bagdá, em terras de Ali Babá; precisava de uma chave parar abrir-lhe a porta. Encontrou-a após superar alguns percalços – intransponíveis, dir-se-ia. E dentro da sua casa, passeou de tapetes, que não eram voadores, enfrentou dois felinos ferozes, divertiu-se com uma peralta mesa giratória, exibiu a sua destreza de alpinista, encarou um urso, foi atacado por um relógio, e entrou, finalmente, no quarto, para uma boa noite de sono. Mas a cama não se dispunha a acolhê-lo aos seus braços, tão ébrio ele estava que poderia ser expulso de sua casa e por ela mesma. Enfim, ao fim da sua longa e acidentada jornada, encontrou o herói o repouso tão acalentado.
Nos vinte e poucos minutos deste antigo filme, de mais de um século, assistindo-o, de tanto rir fica-se com dor de barriga e chora-se.

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail – 1975) – direção: Terry Gilliam e Terry Jones

A cavalgarem cavalos imaginários, que trotavam ao som de batidas de duas metades de casca de côco, Rei Arthur (Graham Chapman), secundado pelo seu servo Patsy (Terry Gilliam), chega ao castelo cujo dono é sabe-se lá quem. E numa retórica sofística elevada à enésima potência o rei bretão e um guardião do castelo palestram, o guardião no topo do muro, o rei, do lado de fora do castelo, ambos a exibirem oratória de grande fôlego, acerca de cavalos, côcos e andorinhas migratórias. E não demora muito, o rei de Camelot depara-se com camponeses mal-ajambrados, um deles a exercitar seu conhecimento político anacrônico, de luta de classes e sindicalismo e cooperativismo anárquico, ou coisa que o valha, e o faz com tal segurança, que se revela digno ancestral dos revolucionários que puseram a civilização, a partir do século XIX, de pernas para o ar – ele teria registrado seu nome na história das revoluções se algum historiador houvesse se dignado a registrar-lhe os pensamentos e se ele contasse com um razoavelmente bem aquinhoado padrinho que lhe patrocinasse as aventuras intelectuais.

E não muitos passos depois, o rei Arthur testemunha uma sofisticada disputa filosófica envolvendo Sir Bedevere (Terry Jones) e súditos do rei, andrajosos e mal-cheirosos, e cujo tema era o estatuto ontológico de uma bela jovem, que, para os que a acusavam de bruxaria, era uma bruxa, daí desejarem eles queimá-la viva, torrá-la ao fogo de uma fogueira, mas que para Sir Bedevere, dono de inexcedível talento lógico, de embasbacar e queixocair todo bípede implume, usando de filigranas silogísticas tão sutis que escapam ao comum dos homens, talvez não fosse o que diziam os acusadores dela o que eles diziam que ela era, mas era ela um pato de madeira que flutuava à superfície das águas porque tal qual uma bruxa podia queimar se lhe ateassem fogo – se entendi corretamente o raciocínio de Sir Bedevere, que fez o papel de um Sócrates redivivo, a usar com desenvoltura invejável a maiêutica que o ilustre sábio grego criara com a sua oracular ignorância, virtude do mais sábio dos homens, segundo a pitonisa de Delfos – infelizmente, os bretões, no século do Rei Arthur, não contavam com o gênio de Platão para registrar capítulo tão emblemático da história da civilização; felizmente, todavia, contavam com o Monty Python, que, sem se fazer de rogado, se encarregou de registrá-lo, e o fez com a seriedade dos historiadores clássicos. Se não entendi a substância do embate filosófico conduzido com maestria por Sir Bedevere, e é provável que eu não a tenha entendido, Sir Bedevere, no seu confronto dialético, lógico e metafísico e silogístico com os que lhe apresentaram a suposta bruxa, fê-los concluir que ela era bruxa porque, sendo o pato de madeira, suscetível de, exposto ao fogo, queimar, flutuava tal qual as mulheres, ou, então, estou a aventar outra explicação para a cristalina exposição lógica peripatética, socrática e escolástica de Sir Bedevere, são os patos bruxas porque a mulher, de madeira, além de flutuar, queima; ou, então, a mulher, de peso equivalente ao do pato de madeira, flutua, portanto, queima tal qual uma bruxa; ou, então, a madeira, que flutua, e queima, e pode ser usada na construção de pontes, que também podem ser de pedra, tem peso correspondente ao do pato, que, sendo mulher, é uma bruxa.

O leitor, ao ler as palavras do parágrafo anterior, que antece as deste que ora lê, concluiu, eu sei, que me deparei com tão sofisticada e complexa questão filosófica que sou incapaz de reproduzi-la em sua essência.

E depois de o Rei Arthur, e Patsy, seu servo, e Sir Bedevere, e os cavaleiros, que se juntaram à trupe de Camelot não sei quando, Sir Lancelot (John Cleese), Sir Robin (Eric Idle) e Sir Galahad (Michael Palin), enfrentarem, à boca de uma caverna, um coelho demoníaco, e depararem-se com os Cavaleiros que Dizem Ni, e encontrarem o feiticeiro Tim, e construírem um Coelho de Tróia, e chegarem ao castelo Aarrgh, e confrontarem o Cavaleiro de Três Cabeças – não necessariamente nesta ordem -, e superarem outros obstáculos intransponíveis, encerra-se o filme.

“E o Cálice Sagrado?!”, pergunta-me o leitor. “O Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda encontraram o cobiçado Cálice Sagrado?” Que fim levou o Cálice Sagrado tão desejado pelo rei bretão e seus fiéis cavaleiros, eu sei; melhor, acredito que sei.

É Monty Python em Busca do Cálice Sagrado iconoclasta, irreverente, disparatado, anárquico. Uma aula de história da Grã-Bretanha da era o Rei Arthur, acredite o leitor.

Ah! Esquecia-me. Se as andorinhas migram, então elas são africanas, e não européias, desde que carreguem côcos.

Liberation – filme 5 – The Last Assault (1971) – direção: Yuri Ozerov


Neste último filme da série de cinco dirigida por Yuri Ozerov, os soldados soviéticos avizinham-se do Reichstag, residência oficial de Adolf Hitler. Para dominar a Alemanha, e chegar ao objetivo que tinham em mira, restava-lhes atravessarem o rio Spree. No subterrâneo do metrô de Berlim, Tsvetayev (N. Olyalin) e Yartsev (M. Nozskin) confrontam soldados nazistas. A escaramuça, intensa. E deparam-se com multidão lá abrigada, para fugir da carnificina que ocorre na superfície, bombas a estourarem ensurdecedoramente. Na superfície, devastação indescritível. O centro de Berlim, em ruínas, reduzido a cinzas. Adolf Hitler (Fritz Diez) ordena subordinados seus que abram as comportas de contenção de água para inundar o metrô. E a multidão lá abrigada vê-se na contingência de, para se salvarem do afogamento, subirem à superfície. A cena desenrola-se, as pessoas fogem, e o subterrâneo inunda-se por completo. Enquanto tais eventos se sucedem, Hitler, no seu bunker, na companhia de Eva Braun (A. Waller) e Goebbels (H. Giese), que é apresentado com a perna direita mais curta do que a esquerda, a manquitolar, e membros do alto comando militar nazista transparecem preocupação e resignação, pois sabiam que os comunistas soviéticos aproximavam-se, ameaçadoramente, do Reichstag, e os soldados nazistas mal lhes podiam esboçar resistência. A derrota nazista era certa, sabiam. Atravessam os soviéticos o rio Spree. E Shatylov (A. Romashin) dá a Zinchenko ordem para o hasteamento, no topo do Reichstag, da bandeira da União das República Socialistas Soviéticas, e ele, Zinchenko encarrega Yegorov e Kantaria de empresa que representaria a conquista da Alemanha pelos soviéticos. E a guerra prossegue, nas ruas, Berlim em chamas, devastada, reduzida à pó, e no interior dos prédios em ruínas. Sucedem-se as mortes de soldados de ambos os exércitos. E é hasteada a bandeira soviética no topo do Reichstag.

Enquanto o derramamento de sangue segue caudaloso no centro de Berlim, Hitler, cujas mãos tremulam, caquético, casa-se com Eva Braun, e mata-a envenenada. Dizem os historiadores que Adolf Hitler suicida-se com um tiro. O filme deixa tal questão em aberto, dúvida a pairar sobre o destino dele. Hitler mata-se, ou o mataram, com um tiro? Tal ato, o derradeiro da vida dele, não é exibido. Estão Hitler e um militar nazista, numa sala, a porta fechada. E ouve-se um tiro. A cena não é exibida. Vê-se a porta pelo lado de fora da sala. E abre o militar nazista a porta da sala. E está Hitler estirado no chão, morto. Quem apertou o gatilho?
O militar diz para os que o esperavam no lado de fora da sala que Hitler se matara. Negociam nazistas e comunistas soviéticos o cessar fogo; e os soviéticos exigem a rendição incondicional de seus inimigos.

Os cenários são nus e crus; o realismo, repito o que escrevi nas resenhas aos filmes anteriores, é sóbrio.Para encerrar, duas cenas: a de Zoya (L. Golubkina), à boca do metrô, então inundado, a observar capacetes militares flutuando na água; e, a de Vasiliev (Y. Kamorny), à procura de Dorozhin. Duas cenas de sensibilidade cativante, contagiante.

E aqui encerra-se o épico de Yuri Ozerov.

… e a guerra continua…

Liberation – filme 4 – The Battle for Berlin (1971) – direção: Yuri Ozerov


E as tropas americanas avançam pelo norte da França – assistem à tela Stálin (Bukhuti Zakariadze) e Antonov (V. Strzhelchik). Incomoda Stálin o avanço dos americanos, que poderiam chegar, antes dos russos, a Berlim. Os russos conquistam terreno pelas frentes de combate na Bielorússia e na Ucrânia, sob comando de Zhukov (M. Ulyanov), Rokossovsky (V. Davydov), Orlov (B. Seidenberg), Katukov (K. Zabelin), Sokovsky (M. Postnikov), Rudenko (L. Presnetsov), Oriol, Galadzhev (L. Davlatov) e Malinin (G. Mikhailov). Em uma reunião, num salão suntuoso, ataviado com mobílias e lustre e estátuas e armaduras e vitrais, após ouvir o que tinha para lhe dizerem os generais, Zhukov dispensa-os e, pensativo, senta-se em uma cadeira e toca algumas notas num acordeão. Temiam os russos Guderian. E Zhukov e Katukov dedicam-se a pensar o que ele talvez pensava, prever-lhe os próximos passos e a ele anticiparem-se.

Enquanto os soviéticos conquistavam terreno, já entrados na cidade de Warsaw, na Alemanha anunciam os comandantes nazistas para Hitler que Eisenhower lhe sugeria armísticio de cem dias, e que as tropas alemães, derrotadas em várias batalhas, abandonaram posições. Hitler (Fritz Diez), de início abatido com as notícias, transtorna-se; e seu humor melhora ao ouvir de Guderian (H. Körbs) a sugestão de contra-atacarem os soviéticos na Pomerânia. E Keitel (G. M. Henneberg), Himmler (E. Thiede) e Wolff (J. Klose) articulam negociação com Dulles, em prejuízo da União Soviética. Na Suiça, palestram Wolff e Dulles; são ambos insinuantes; e a conversa amigável deles ambos chega ao conhecimento de Stálin (Bukhuti Zakariadze), que, em Yalta, no encontro com Roosevelt (S. Jaśkiewicz) e Churchill (Y. Durov), (a foto de tal encontro é uma das mais populares da Segunda Guerra), exibiu-lhes uma fotografia com a estampa de Wolff e Dulles e falou-lhes da desconfiança entre os três líderes Aliados. Sabia Stálin que estavam os soldados russos a sessenta quilômetros de Berlim, e os americanos a seiscentos. Assim que Stálin se levanta e se afasta dos seus dois interlocutores, o primeiro-ministro da Inglaterra diz ao presidente dos Estados Unidos que Stálin representaria uma ameaça a eles.
Em meio à guerra, um episódio animado, divertido; protagonizaram-lo Dorozhkin (. V. Nosik) e um soldado polonês, ambos a procurarem combustível para os tanques soviéticos; encontraram um vagão cheio de combustível, e dois vagões repletos de prisioneiros, no primeiro que abriram, mulheres, no segundo, homens. E são Dorozhkin e Vasiliev (Y. Kamorny) os protagonistas de um cena sensível, coadjuvando-os um casal e duas moças jovens e bonitas, animada por um leve toque de humor, discreto, acanhado.

E eu não poderia deixar de mencionar uma cena: a de Adolf Hitler com um globo terrestre. Ao vê-la, evoquei, de imediato, a hilária caricatura do líder nazista feita por Charles Chaplin.

Ao saber que os soviéticos haviam derrotado os alemães na Hungria e na Pomerânia, Hitler enfurece-se, desanca Dietrich, remove-lhe da farda as condecorações, e em seguida repreende Guderian. E a notícia da morte de Roosevelt alegra-o. E desce Hitler ao bunker – ao seu lado estão, além de outros, Eva Braun (A. Waller), Goebbels (H. Giese) e Magda Goebbels (Y. Dioshi). E comemoram o quinquagésimo aniversário do líder nazista.

E os russos cercam Berlim.

Há, neste The Battle for Berlin, menos cenas grandiosas do que nos três filmes anteriores, o que não o faz, na comparação com eles, menos interessante e espetular e admirável.

… e a guerra continua…

Liberation – filme 3 – Direction of the Main Blow (1970) – direção: Yuri Ozerov


Em Teerã, estão reunidos, para discutir os destinos do mundo, os três líderes dos Aliados, Roosevelt (S. Jaśkiewicz), Churchill (Y. Durov) e Stálin (Bukhuti Zakariadze). E o presidente americano propõe a abertura de uma frente de batalha, no norte da França, o que não desagrada os outros dois líderes. Na Túrquia, um agente nazista, infiltrado na embaixada britânica, fotografa um documento secreto cujo teor é a declaração das intenções dos Aliados de avançarem em Normandia, a segunda frente decidida, em Teerã, pelos três líderes que antagonizavam Hitler. Hitler (Fritz Diez), com as fotos em mãos, após lhe decifrarem o teor do documento dos Aliados, mostra-se desconfiado acerca da substância do documento; para ele, Churchill, um mestre da desinformação, pretendia engabelá-lo, pois, acreditava, jamais iriam os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Rússia atacar a Alemanha pelo norte da França.

Os soviéticos dão início à Operação Bagration. E avançam, contra as tropas nazistas, pela Bielorússia e Ucrânia. Coordenam tal operação Zhukov (M. Ulyanov), Bagramyan (V. Karen), Konev (Y. Legkov), Rokossovsky (V. Davydov), Chernyakhovsky (Y. Kolchinsky), Vasilevsky (Y. Burenkov), Meretskov (V. Kostenko), os principais personagens envolvidos no planejamento de operação tão grandiosa, que resulta em vitórias incontestáveis.

E para seu desgosto, e contrariedade, Hitler vem a saber que era verdadeiro o documento que o nazista (agente seu infiltrado na embaixada britânica na Túrquia) enviara-lhe.Impressionantes, as cenas das batalhas no pântano. Aliás, são impressionantes, deslumbrantes, encantadoras, neste filme, todas as cenas de batalhas; cenas de impacto a exibirem poderosas, devastadoras, assassinas, máquinas de destruição, em vastos panoramas, mas exibidas com tal arte e maestria que quem ao filme assiste esquece qual é o tema delas, cenas retratadas tão vivamente, que, em vez de provocar espanto, repulsa, encanta, fascina, deslumbra. Além dos tanques e outros veículos em terra, que se digladiam, nos céus, pilotos franceses e russos emulam seus equivalentes alemães. É o destaque deste episódio um piloto francês. E os soviéticos ocupam Potolski, Minsk e outras cidades. E seguem avançando em direção à Polônia. Há uma pausa na exibição de cenas de batalhas. E dá-se uma cena idílica entre Sergey Tsvetayev (N. Olyalin) e Zoya (L. Golubkina), cena que se encerra abruptamente.
Enquanto os soviéticos conquistam terreno no campo de batalha, na Alemanha membros do alto comando militar nazista planejam a morte de Hitler: a famosa Operação Valquíria, que falha fragorosamente. Participam da conspiração, tendo em mente estabelecer a paz com os Aliados, Herr von Kluge (H. Hasse), von Witzleben (O. Dierichs), Beck (W. Wieland), Carl Goerdeler, Friedrich Ollbricht (W. Ortmann), Werner von Haeften (E. Stecher), e Claus von Stauffenberg (A. Struwe), que ficou encarregado de levar a mala com a bomba até onde se encontrava-se Adolf Hitler. A bomba explode. Fere-se Hitler, que vê em sua sobrevida um milagre, um sinal alvissareiro, que lhe inspira ânimo em sua fúria bélica, demoníaca. E é o destino dos conspiradores trágico. E entra em cena Guderian (H. Körbs). E os russos chegam à Polônia.Não pretendo, nesta resenha, e não pretendi nas duas anteriores, e não pretenderei nas duas que irei escrever, dar o teor completo do filme. O filme tem mais, muito mais, do que o que escrevi; é maior do que eu poderia descrevê-lo. E tenho de repetir: as cenas das batalhas são deslumbrantes; os cenários, amplos, vastos, panorâmicos, magníficos. É impossível não se deslumbrar com o cenário, não se embasbacar com o que o filme oferece. Não sei dizer qual cena mais me impressionou.

… e a guerra continua…

Liberation – filme 2 – Breakthrough (1968) – direção: Yuri Ozerov

Neste segundo filme da série dirigida por Yuri Ozerov as batalhas entre alemães e russos, nazistas e comunistas soviéticos, após o ocorrido no Kursk, sucedem-se intensas, ferozes, em Kiev. Os soviéticos atravessam o rio Dnieper, com jangadas rústicas compostas de toras de madeira e por meio de cabeças-de-ponte (pontes improvisadas, de metal, sobre barcos, ao largo do rio). Os soviéticod usam de artimanhas para ludibriar os alemães, pistas falsas, avançam por um certo ponto do rio Dnieper, atraindo para este ponto a atenção dos alemães, enquanto, por outro ponto, atravessam o rio e os surpreendem. Tem papel fundamental em tão ingente tarefa Sergei Tsvetayev (N. Olyalin), que testemunha a morte de Sashka (S. Nikomenko), no bosque, logo após fugirem dos alemães passando pela vila de Lyutezh. Eram eles e outros russos iscas que os comandantes soviéticos usaram para despistarem os nazistas. Recebem os soviéticos, de Stálin (Bukhuti Zakariadze), a ordem de tirar das mãos dos nazistas Kiev, o que eles fazem até a data aprazada. Enquanto a guerra, no campo de batalha, às margens do rio Dnieper, prossegue sangrenta, os anglo-americanos avançam pela Sicília. Às cenas protagonizadas pelos britânicos e americanos alude-se; mas não são exibidas. E Hitler (Fritz Diez), enraivecido por causa dos reveses que seu exército sofrera em Kursk, e Mussolini (Ivo Garrani), abatido, amedrontado, indeciso, tímido, amedrontado, diante de seu congênere nazista, discutem, preocupados com o trágico destino dos italianos na Sicília. E o rei da Itália empreende a prisão de Mussolini, que é resgatado, numa façanha arriscada, dir-se-ia heróica, por Otto Skorzeny (F. Piersic), a mando de Hitler. E segunda discussão se dá entre os dois aliados, o alemão a se impôr ao italiano.

Ao final, encontram-se, em Teerã, Stálin, sempre sereno e ponderado, Roosevelt (S. Jaśkiewicz), sempre sorridente, e Churchill (Y. Durov), sempre a carregar um charuto à boca. E discutem os três a possibilidade de se abrir segunda frente de batalhas, na França, sugere Stálin, na Iugoslávia, propõe Churchill.

Quero destacar, aqui, a batalha que se desenrola na vila de Lyutezh, russos a fugirem, pelas suas ruas, de bombardeios alemães, que despejam, de aviões, bombas; morrem muitos russos. É um episódio de beleza visual extraordinária.

Embora o filme trate dos horrores da guerra, o diretor Yuri Ozerov não descura da estética; pode-se falar de uma estética da guerra, uma estética cinematográfica, que cativa e deslumbra quem ao filme dedica atenção. Exibe o filme a feiúra da carnificina, mas sem deixar de sensibilizar as pessoas para o que há de mais feio, de mais horrendo, de mais tétrico. Não expõe, do corpo humano, sangue e órgãos a espirram-se, para todos os lados, sempre que alvejados por algum projeto ou objeto qualquer em cenários visualmente repulsivos – o que é comum nos filmes americanos recentes, de guerra, de outro gênero qualquer.

É o filme espetáculo narrativo, cinematográfico, estético, visual.

Ao final, à meia-noite do dia 31 de Dezembro de 1943, os russos, em marcha por região coberta de neve, comemoram o alvorecer do ano de 1944.

… e a guerra continua…

Liberation – filme 1 – The Salient Ablaze (1968) – Direção: Yuri Ozerov

E aqui inicia-se o épico de Yuri Ozerov.

Na tela, um rinoceronte de metal, cinzento, alemão, em movimento. E outro, soviético, alveja-o com um disparo certeiro, perfurando-lhe a rígida carapaça. Estão os dois veículos, num campo de testes, sob os olhos atentos de Adolf Hitler (Fritz Diez), que, diante da exibição da fragilidade do veículo de guerra alemão, abatido, com apenas um tiro, por um similar soviético, decide adiar a Operação Citadel, terceira tentativa dos nazistas de conquistarem a terra dos russos.
As cenas do campo de batalha, na primeira linha de defesa soviética, dentro do território russo, são grandiosas; exibem centenas de tanques-de-guerra, em formação de ataque, correndo pelo território russo, sem encontrarem resistência digna de nome; avançam quase que sem obstáculos. Os comandantes soviéticos, visivelmente preocupados, debatem qual deve ser a atitude das forças militares soviéticas num momento tão adverso. Rokossovsky (V. Davydov), Zhukov (M. Ulyanov), Lukin (V. Sanayev), Gromov (V. Samoylov), Rybalko (D. Franco) e Vasilevsky (Y. Burenkov) são alguns personagens do alto comando soviético que se debruçam sobre a questão.
Ao proscênio, apresentam-se os heróis soviéticos. Um deles tem um fim trágico após os alemães o capturarem e o interrogarem, Maximov (V. Avdyushko), dois são os amigos Vasiliev (Y. Kamorny) e Dorozhkin (V. Nosik), e um é Sergei Tsvetayev (N. Olyalin), e a enfermeira Zoya (L. Golubkina) – estes dois, um par romântico.
Zoya, aterrorizada, socorre Sergei Tsvetayev.
Enquanto os comandantes dos exércitos dos dois países beligerantes planejam cada qual as suas ações e informam da situação no campo de batalha seus respectivos líderes, os alemães, Hitler, os russos, Stálin (Bukhuti Zakariadze), desenrolam-se batalhas sangrentas no Kursk. E logo os soviéticos anulam, numa contra-ofensiva devastadora, a vantagem nazista – é o início do fim dos nazistas.
São inúmeros os personagens envolvidos na trama, muitos deles reais – Stálin e Hitler, são dois deles.
Além das cenas das batalhas, grandiosas, que se sucedem em terras russas, há uma que se dá em região montanhosa da Iugoslávia.
E sabe-se que é prisioneiro no campo de concentração de Sachsenhausen o filho de Stálin, Yakov Dzhugashvili.
A narração segue lenta – lenta, e não tediosa. Grandiosas e impressionantes as cenas de batalha, o exército alemão a avançar com centenas de tanques-de-guerra sobre território russo, e os soldados soviéticos a contra-atacar de trincheiras. São tão numerosos os pontos que, de tão espetaculares, merecem destaque. The Salient Blaze – o primeiro de uma série de cinco filmes que narram a sangrenta escaramuça entre russos e alemães na Segunda Guerra Mundial, até a vitória russa – é de um realismo sóbrio, de impacto assombroso; não apela às cenas grotescas de imundícies, cadáveres desventrados suas vísceras a lhes escaparem de todos os poros, pedaços de corpos a juncarem o chão e cachoeiras de sangue a espirrarem de mortos e feridos. É de um realismo, repito, sóbrio, impactante, impressionante, desprovido de artíficios visuais de mau gosto.
É imperdível The Salient Blaze. Quem admira a Sétima Arte, em particular filmes de guerra, encontra nesta obra russa um espetáculo inesquecível.
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Notas: 1) Assisti aos cinco filmes, numa versão legendada em inglês (as vozes dos personagens nos idiomas originais, russo, alemão, italiano, francês, inglês e outros) da série Liberation dirigida por Yuri Ozerov; 2) Mantive o título em inglês da versão que assisti; 3) Não podemos esquecer que é o filme russo; e, 4) Não indiquei as patentes dos personagens militares, que são indicados, muitos deles, com patentes diversas, pois muitos são, de um capítulo para o outro, promovidos de posto.
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… e a guerra continua…

Three Ages (1923) – de Buster Keaton

É o amor o tema das três novelas que fazem deste filme em preto e branco, e mudo, do ano de 1923, uma peça hilária, uma comédia divertidíssima, o ator e diretor Buster Keaton a protagonizar as três aventuras, uma ambientada na Idade das Pedras, uma, em algum ano do auge do Império Romano, e uma nos tempos modernos, princípio do século XX, nos Estados Unidos. Alternam-se capítulos de cada uma das três novelas, cinco de cada, cada um de poucos minutos – tem o filme um pouco mais de uma hora de duração -, cada capítulo a contar um episódio das adversidades e peripécias rocambolescas do protagonista.

À conquista da mulher amada, sai o protagonista, nas três novelas, e tem ele de se defrontar com um rival, o da Idade da Pedra, mais forte do que ele, o da época de Roma, mais poderoso, e o dos tempos modernos, mais rico. Na Idade da Pedra tem o protagonista um animal de estimação, um ser pré-histórico, um dinossauro, que acredito tratar-se de um alossauro, ser antediluviano de pescoço mais comprido do que o das girafas – mas não sei se os produtores de Three Ages tinham em mente reproduzir, num boneco, tal criatura gigantesca. E fica-se sabendo que em tal era, a da pedra, da pedra lascada, e não da pedra polida, presumo, os nossos brutos, asselvajados ancestrais conheciam o golfe, praticado, então, com tacos rudimentares, clavas, e bolas de pedras. E no tempo dos Césares, faz-se uma leitura singular da corrida de bigas, o protagonista a comandar uma biga puxada por quatro cães, um gato a atiçá-los, e a improvisar, em vez de rodas acopladas à viatura, pranchas de veículos para uso em neve. E nos tempos modernos, assiste-se a um divertido jogo de futebol (para nós brasileiros, futebol americano). Buster Keaton, nas três eras, numa sucessão de absurdos de fazer todos dobraram-se de tanto rir, de tanto insistir em conquistar a mulher que ama, supera os contratempos. São suas aventuras picarescas, outras, disparatadas. Todas, rocambolescas. Dentre as mais divertidas, elenco a da corrida de bigas, a do protagonista na cova – que nesta ele caíra por artimanha de dois de seus inimigos – de um leão – um exemplar ferocíssimo, digno do título de rei dos animais -, a da batalha entre o protagonista e seu rival, na Idade da Pedra, e a do restaurante e do táxi, na idade moderna. E o filme, ao encerramento, exibe o casal, feliz, apaixonado, na Idade da Pedra, com sua penca de filhos, na Roma dos espetáculos sangrentos no Coliseu, com cinco filhos, e, na idade moderna, com… É tal cena, a derradeira do filme, sutil critica aos tempos modernos.

Conquanto recheado de disparates, é o filme veraz em sua essência: reconstitui, com a perspicácia só encontrada em historiadores da estirpe de Tucídides, as três era em seus traços únicos, a representar, à perfeição, a índole dos povos das eras revisitadas.

O leitor poderá, talvez, quem sabe? entender que meu comentário registrado no parágrafo anterior é uma ironia. Ou talvez, não. Quem sabe? De uma coisa eu sei, Buster Keaton fez em Three Ages uma leitura singular da história humana; é verossímil, cá entre nós, isto é, as coisas talvez tenham ocorrido como ele as narra.

E no início de Three Ages há, na primeira cena, prefácio para as três novelas que se irá contar, sentado, à mesa, um ancião de, brancos, cabelos, barba e bigodes, a ladeá-lo uma foice; e sobre a mesa, há uma caveira, um globo, uma ampulheta e um tinteiro com duas penas.

Além de Buster Keaton (um dos diretores do filme; o outro é Eddie Cline), participam de Three Ages os seguintes atores: Margareth Leahy, Wallace Beery, Joe Roberts, Lillian Lawrence, Blanche Payson, Horace Morgan e Leonel Belmore.

É Three Ages uma divertidíssima obra da Sétima Arte. Imperdível. 

O Sepulcro Indiano (Das Indische Grabmail – 1959) – de Fritz Lang


Nesta segunda e última parte do romance do arquiteto alemão Harald Berger (Paul Hubschmid) com a dançarina Seetha (Debra Paget) há uma sucessão de episódios de estontear, e prender a atenção de, quem acompanha a aventura, que se desenrola em capítulos alternados de dois cenários, que se cruzam: os protagonizados por Harald Berger e Seetha e os que ocorrem no palácio do marajá Chandra (Walter Reyer), capítulos, estes, divididos entre os animados por Chandra e o casal Rhode, Walter (Claus Holm) e Irene (Sabine Bethmann), e os que envolvem Ramigani (René Deltgen) e o príncipe Padhu (Jochen Brockmann).

Chandra, enraivecido, insiste em exigir de Walter Rhode a construção de um sepulcro, que serviria, era seu desejo, de túmulo para Seetha, mas o arquiteto não tinha a intenção de construí-lo, todavia, prisioneiro no palácio do marajá e desejoso de saber o destino de Harald Berger, seu cunhado, resigna-se, não a cumprir a ordem de Chandra, mas a conservar-se em Bengala para descobrir que fim levara o irmão de sua esposa. Enquanto os Rhodes, com o talento que fez a fama de Sherlock Holmes, investigam o caso que muito os intriga, e colhem informações que os deixam apreensivos, e tiram de um esquivo e amedrontado Asagara (Jochen Blume), que se via num dilema enervante – ou dedicava lealdade ao marajá, seu senhor, ou a Harald Berger, seu amigo – alguns dados que lhe aumentam as suspeitas acerca das intenções de Chandra, Ramigani, o irmão mais velho do marajá, trama a remoção de seu irmão do trono de Bengala, com a ajuda, indispensável, do príncipe Padhu, que, orgulhoso, não queria ver uma dançarina ocupando uma posição, a de esposa de Chandra, que outrora pertencia à sua falecida irmã, Marani. Harald Berger e Seetha viviam numa vila, em fuga, caçando-os Ramigani, e vem a serem por ele capturados. Seetha é levada ao Palácio de Chandra; e Harald Berger ao calabouço. Sucedem-se os episódios; desenrola-se a trama. A apreensão de Ramigani é visível; e ele se ocupa de criar o ambiente apropriado ao casamento de Chandra e Seetha, e para executar o seu plano precisaria do apoio do príncipe Padhu, o que ele teria se persuadisse Chandra a desposar Seetha, mas Chandra não pretendia casar-se com ela, pois sabia que ela, ao contrário do que ouvia de Ramigani, fugira com Harald Berger sem que este a coagisse à fuga. É interessante o cinismo de Ramigani, que, ao mesmo tempo que planeja a perdição de seu irmão, fá-lo acreditar que ele, Ramigani, o ama e quer-lhe a felicidade ao lado de Seetha. E Harald Berger, acorrentado, no calabouço, só, luta pela sobrevivência, e é bem-sucedido em seu ingente esforço, em nenhum momento, embora adversa a sua situação, seu ânimo vindo a esmorecer. E a história, enfim, chega ao episódio derradeiro, o do ritual de casamento de Chandra e Seetha, quando se dá a intervenção do sacerdote Yama (Valéry Inkijinoff), que se opunha ao enlace matrimonial entre o marajá e a dançarina e não apoiava a ação traiçoeira de Ramigani e Padhu, mas que, ao opor-se a Chandra, foi de auxílio imenso aos dois ladinos inimigos dele. E entra em cena o general Dagh (Guido Celano). E todos vivem felizes para sempre. Todos, não; o arquiteto alemão e a dançarina, sim – o que não surpreende ninguém; e não estou, aqui, a revelar nenhum segredo escondido a sete chaves, afinal, os heróis, em romance de tal gênero, o destino sempre os presenteia com a felicidade.

E adiciono dois pontos, que me chamaram a atenção: o destino de Chandra, para mim inusitado, que muito me surpreendeu; e a ausência de uma explicação para a origem de Seetha, se era ela de pai irlandês – tal suspeita em suspenso em O Tigre de Bengala.

É O Sepulcro Indiano uma aventura com reviravoltas verossímeis, todas a formar uma arquitetura dramática muito bem elaborada.

O Tigre de Bengala (Der Tiger von Eschnapur – 1959) – de Fritz Lang

Ambientada na Índia, a aventura que Harald Berger (Paul Hubschmid), alemão, engenheiro, protagoniza, é uma trama que, além de envolvê-lo, conta com a participação da mulher pela qual ele se apaixona, a dançarina Seetha (Debra Paget), do marajá de Bengala, Chandra (Walter Reyer), do irmão mais velho deste, Ramigani (René Deltgen), do príncipe Padhu (Jochen Brockmann), e de coadjuvantes, que não estão no núcleo do enredo, mas têm papel importante no desenrolar dos eventos.

Numa certa cidade da Índia, cidade cujo povo é aterrorizado por um tigre que já havia ceifado a vida de alguns de seus habitantes, vivem Harald Berger, Seetha e a serva desta, Baharani (Luciana Paluzzi). Estes três personagens seguem em comitiva para Bengala; ataca-a, no caminho, o tigre tão temido, que vem a ter próximo de suas garras e dentes Seetha; Harald Berger, sem titubear, a manusear uma tocha, de posse de inata valentia, vai em socorro da bela dançarina, e salva-a, ao afugentar o terrível felino. Recompostos do susto, retomam viagem rumo a Bengala.

Acolhida pelo marajá de Bengala, viúvo, que por ela se apaixona ao admirá-la durante evoluções numa dança, Seetha, na companhia de Harald Berger, que foi visitá-la, sentada à margem de uma fonte, evoca uma canção, de cuja letra não se lembrava, e Harald Berger diz ser a canção irlandesa e canta-a, e dela a dançarina recorda-se. Suspeita Harald Berger, então, que é o pai de Seetha irlandês; e o violão, instrumento musical ocidental, que Seetha tem consigo, uma herança deixada pelo pai dela, reforça-lhe as suspeitas. Inspira os sentimentos de Seetha a nostalgia de um tempo, sua infância, do qual ela, além da canção que, agora ela sabe, é de origem irlandesa, nada guarda nos escaninhos de sua memória.

Segue paralela à aventura de amor entre Harald Berger e Seetha e do marajá Chandra pela dançarina, a de Ramigani, que planeja a perdição de seu irmão; almeja Ramigani o trono que ora seu irmão ocupa, mas tem seus planos atrapalhados pelo príncipe Padhu, irmão de Marani, falecida, anterior esposa de Chandra. O príncipe Padhu não tem a pretensão de pôr-se entre Ramigani e seu objetivo, mas incomoda-o, e pode pôr-lhe a perder o que ele ambiciona, ao ir em prejuízo do relacionamento entre Chandra e Seetha, pois não admitia que o marajá substituísse Marani por uma dançarina, enquanto Ramigani queria que se consumasse o casamento entre eles, para poder desmoralizar Chandra e alijá-lo do trono.

São muitos os episódios da aventura em terras indianas: o sequestro de Seetha; a morte de Baharani; a luta entre Harald Berger e um tigre; e outros.

E todos vivem felizes para… Não. Não vivem. Conta O Tigre de Bengala a primeira metade da aventura de Harald Berger e Seetha, e do Tigre de Bengala, Chandra, aventura que se encerra em O Sepulcro Indiano.

Para encerrar esta resenha, duas observações: o estranhamento entre a cultura indiana e a ocidental; e a arquitetura da obra de Harald Berger, apresentada, em maquete, arquitetura moderna, desprovida de beleza, inferior à indiana, exuberante, esplendorosa, magnífica.

Aquaman – com Jason Momoa

Aquaman (Jason Momoa), cujo nome humano é Arthur Curry, é um ser híbrido, filho de um homem humano, Tom Curry (Temura Momoa), e de uma mulher atlântida, Atlanna (Nicole Kidman).

O Rei Orm (Patrick Wilson), atlântida, ambicioso e iníquo, almeja ter sob suas mãos o domínio dos sete reinos marinhos; não titubeia em urdir artifícios – a acumpliciá-lo David Kane (Yahya Abdel-Mateen II), o Arraia Negra, que busca vingar-se de Aquaman, que se havia recusado, após luta no interior de um submarino, a atender-lhe a súplica e socorrer-lhe o pai, Jesse Kane (Michael Beach) – para justificar ataque de Atlântida às nações humanas. Antevendo o cenário apocalíptico, que se desenha, Mera (Amber Heard), uma atlântida, recorre a Aquaman, e pede-lhe que ele, o verdadeiro rei de Atlântida, confronte o Rei Orm. Neste entremeio, o Rei Orm obtêm, usando de um expediente criminoso, a aliança do Rei Nereus (Dolphi Lundgren).

A guerra entre atlântidas e humanos é iminente.

Num duelo submarino, o Rei Orm derrota Aquaman, que, Mera a auxiliá-lo, foge. Ambos, Aquaman e Mera, para solucionar um segredo guardado a sete chaves, vão dar ao Fosso, onde enfrentam as criaturas horripilantes que o habitam, e à Nação Perdida, onde uma surpresa agradável os aguarda e onde está o Tridente de Poseidon, protegido por um monstro mitológico gigantesco, Karathen. E apenas o rei de Atlântida, herdeiro do Rei Atlan, poderia empunhar o Tridente de Poseidon. E Aquaman revela-se o legítimo herdeiro do trono (usurpado por Orm) de Atlântida. E na sequência desenrola-se a guerra entre Aquaman e o Rei Orm.

Nas linhas acima, um resumo do filme do êmulo de Namor, o Príncipe Submarino. O filme é um bom entretenimento; os seus cenários submarinos, grandiosos, e os de locais habitados pelos humanos, simples.

É Aquaman um filme que entretêm; despretensioso; conta uma trama comum, que remonta à lenda do Rei Arthur.

Esquecia-me: em sua infância, Arthur Curry é treinado por Vulko (Willem Defoe); e Geoff Johns, respeitado autor de histórias em quadrinhos de super-heróis, deu seus pitacos no roteiro.

Shazam! – (2019) – com Zachary Levi

É Shazam! um acrônimo. Cada uma das letras que o constituem corresponde à inicial do nome de um personagem lendário ou mitológico: S, de Salomão; H, de Hércules; A, de Atlas; Z, de Zeus; A, de Aquiles; e, M, de Mercúrio. Para a pessoa merecer possuir os poderes de tais personagens tem ela de ser pura de coração, abnegada, nobre de espírito.
Nas revistas em quadrinhos recebe o personagem o nome Capitão Marvel.
No princípio do filme, numa estrada: no interior de um carro estão, ao volante, Mr. Silvana (John Gloover); à sua direita, seu filho primogênito; e, no banco traseiro, Thaddeuz Silvana (Ethan Pugotto), seu segundo filho, alvo de constantes chacotas de seu irmão e de desprezo de seu pai. Um fenômeno inexplicável surpreende o menino – que poucas décadas depois se tornaria o arqui-inimigo de Shazam, o maquiavélico Doutor Thaddeuz Silvana (Mark Strong), êmulo de Lex Luthor -, que é transportado para um universo mítico; e ele se vê na presença do Mago (Djimon Hounsou), guardião do cajado cuja posse apenas o merecedor dos poderes de Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio, terá. E o menino Thaddeuz Silvana revela-se deles imerecedor.
Transcorrem-se os anos. Conhecemos, agora, a desventura de Billy Batson (Asher Angel), que, depois de abandonado por sua mãe (Caroline Palmer), vive uma vida errática até ser acolhido, num orfanato, pelos proprietários deste, o casal Vasquez, ambos egressos de orfanatos, Victor (Cooper Andrews) e Rosa (Marta Milans). E no orfanato estreita Billy Batson laços de amizade com Pedro Peña (Jovan Armand), Darla Dudley (Faithe Herman), Eugene Choi (Ian Chen), Mary Bromfield (Grace Fulton), e Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), que viria a ser dos cinco internos o seu amigo mais próximo.
Após algumas peripécias juvenis, Billy Batson é transportado, por vias misteriosas, para o reino do Mago, este debilitado e envelhecido. Antes o doutor Thaddeuz Silvana, diante do Mago, não tendo a posse do cajado místico, incorporara os poderes dos demônios que representam os sete pecados capitais. O Mago, apreensivo, não se dedica a, com percuciência, paciente, avaliar os candidatos aos poderes dos seis heróis; vai de atropelo, agora que Silvana libertara e incorporara os dons dos demônios, e cede o cajado a Billy Batson, um garoto.
Ao saber possuidor de super-poderes, com ajuda de Freddy Freeman, Billy Batson, agora com o corpo de Shazam (Zachary Levi), seu alter-ego adulto, conservando sua mentalidade de garoto de quatorze anos, aprende, aos poucos, e aos trancos e barrancos, a conhecê-los, a usá-los. Os dias de aprendizado de Billy Batson, Freddy Freeman a ladeá-lo, e as rugas entre os dois garotos, rendem cenas hilárias. E em tais cenas estão uns dos poucos atrativos do filme.

É inevitável o confronto entre o herói, Shazam, e o vilão, Doutor Silvana. O universo traçou o destino de cada um deles, e os pôs em rota de colisão. E lutam herói e vilão. Mas Shazam não era páreo para os sete demônios que o seu oponente incorporara.
Ao fim, de posse do cajado místico, Shazam pede aos seus cinco amigos de orfanato que eles toquem o cajado e pronunciem a palavra de invocação dos heróis míticos, Shazam. E assim todos eles convertem-se em super-heróis de poderes equivalentes aos de Billy Batson. E ao final da aventura são vitoriosos os super-heróis e derrotado o Doutor Theddeuz Silvana.
Faço questão de registrar, nesta resenha, um comentário acerca do discurso progressista – subjacente à trama – que não muito sutilmente o filme vende. Quem não se deixou seduzir pelas cenas engraçadas e atentou para os tipos das personagens captou as mensagens razoavelmente discretas. Pensei em dizer que são as mensagens subliminares. E eu poderia declarar que elas são explícitas, escancaradamente explícitas.
São o pai e o irmão de Thaddeuz Silvana desrespeitosos com ele, e o maltratam; o pai e a mãe de Billy Batson não constituem uma família, não são a mãe e o pai dele exemplares, a mãe dele o abandonou, num parque de diversões, quando ele ainda era uma criança, e o pai dele é um criminoso; os donos do orfanato e os cinco internos são de famílias desestruturadas. Dos cinco internos, um é gordo, latino, Pedro Peña, um, menina, negra, Darla Duddley, um, oriental, Eugene Choi, um, aleijado, Freddy Freeman, e um, mulher entrando na idade adulta, Mary Bromfield. E o casal Vasquez e os internos constituem, assim se diz, uma família, uma família harmoniosa, perfeita, ideal, conclui-se.
Estas são as mensagens, duas, que o filme transmite:
Primeira: A família tradicional, constituída de pai, mãe e filhos, laços de sangue os unindo, é prejudicial, nefasta, opressora, enquanto o modelo de família propagandeada pelos progressistas é o ideal, o da reunião de pessoas de inúmeras origens e sem laços de sangue.
Segunda: Os cinco internos do orfanato são cada um deles o símbolo de uma classe oprimida pelo homem branco, ou, tambêm pode-se dizer, o de uma minoria (a dos gordos, a dos negros, a dos orientais, a dos aleijados – ou, melhor, dos portadores de necessidades especiais, para não ferir suscetibilidades – e a das mulheres), todas as cinco vítimas da sociedade arcaica, ocidental, cristã.
É Shazam! um filme razoável. E um panfleto ideológico.

Caminhos da Floresta (Into the Wood) – Direção de Rob Marshall. Com Meryl Streep

Caminhos da Floresta (Into the Wood) é um filme exemplarmente bem produzido que a ambição, inspirada na mentalidade revolucionária do politicamente correto, de recriar contos populares destruiu.

Liguei, vício inescapável, a televisão, sintonizei um canal qualquer, e, vendo que o filme que se exibia não era do meu agrado, sintonizei outro canal, e outro, e outro, até que em um deles, não me lembro qual, vi, à tela, cantando, sorridente e alegre e feliz, uma garotinha: a Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford), que logo reconheci – sua figura é inconfundível, independentemente de qual atriz a interprete. Graciosa, ela se fazia presente num cenário deslumbrante, encantador, que me transportou, sem em mim encontrar resistência, para seu mundo de fantasia. Atraído pela figura da cativante garotinha, amada personagem de um dos contos populares mais conhecidos em todo o mundo, extasiado pela bem realizada produção cinematográfica, ouvindo as canções, que se sucediam a curtos intervalos – e é Caminhos da Floresta um musical, gênero cinematográfico que jamais me atraiu -, acompanhei o desenrolar da trama, interessado em seu desenlace, que, antecipo a informação, não me agradou. E apresentam-se populares personagens de contos universais: João (Daniel Huttlestone), o menino dos feijões mágicos; Cinderela (Anna Kendrick), e seus sapatinhos de cristal; Rapunzel (Mackenzie Mauzy), e suas tranças quilométricas. E os coadjuvantes destas estórias, o antagonista da Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau (Johnny Depp); o Príncipe Encantado (Chris Paine) da estória da Cinderela e o príncipe (Billy Magnussen) da estória da Rapunzel; e a bruxa (Meryl Streep); e a madrasta da Cinderela (Christine Baranski) e suas filhas, Lucinda (Lucy Punch) e Florinda (Tammy Blanchard). E o padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt).

Na aventura, fundem-se quatro contos populares animados pelos personagens já mencionados. Sucedem-se os eventos num bosque fantástico, de mistérios e encantos fabulosos. Um reino encantado. Dá mote ao entrecho a infertilidade da esposa do padeiro. O padeiro e sua esposa ignoravam que eram vítimas de uma bruxa que, tendo de seu jardim o pai do padeiro lhe surrupiado feijões mágicos, concretizou a maldição: o padeiro não teria descendentes. Assim que informou o padeiro e sua esposa da maldição que lhes arremessara, a bruxa, envelhecida porque seus feijões mágicos haviam lhe sido retirados do jardim, disse-lhes que desejava remoçar-se, resgatar sua beleza anterior, e que poderia desfazer a maldição que lançara contra eles, mas para tanto precisava, dentro de três luas, realizar um feitiço, para cuja execução eram indispensáveis um capaz vermelho, um sapatinho de cristal, leite de uma vaca branca e mecha de cabelos loiros. E saem à caça de tais objetos o padeiro e sua consorte.

E sucedem-se as adversidades, as personagens dos quatro contos populares cruzando-se, na floresta encantada, os caminhos uns os dos outros, encontrando-se e desencontrando-se, estranhando-se. A desconfiança entre eles era mútua. Enfim, após o Lobo Mau engolir a Chapeuzinho Vermelho e sua avó e elas lhe serem do ventre arrancadas; e João escalar, até o céu, o pé de feijão, e matar o gigante; e o príncipe libertar da torre Rapunzel; e o Príncipe Encantado conhecer a identidade da dona do perdido sapatinho de cristal, o padeiro e sua esposa obtêm os quatro objetos que a bruxa usaria no feitiço, e a ela os entregam, e assim que ela realiza o feitiço, o herdeiro do padeiro se faz crescer no ventre de sua esposa.

E encaminha-se para o seu encerramento a história… Foi o que eu pensei ao ver a cena que se seguiu, o da confraternização, num castelo, de todos os personagens, o que, entendi, indicava o fim da história, que se daria com o proverbial “E viveram felizes para sempre.” Mas não era o fim da história, que estava na sua metade. A partir deste ponto, o filme desanda. Entendi que foi o objetivo dos realizadores do filme vender uma idéia muito cara aos politicamente corretos: novas formas de família em substituição à família tradicional. Está na pauta dos progressistas politicamente corretos, sabem as pessoas razoavelmente bem informadas, a destruição da família tradicional – que tem no pai e na mãe as autoridades, família que, entendem os progressistas, opressora, é nociva às pessoas, à civilização, porque patriarcal, sustentada por preconceitos, dizem, de obscurantistas pré-diluvianos – e sua consequente substituição por outros modelos de família, estes, dizem, libertários.

Decepcionou-me Caminhos da Floresta, que, se se encerrasse, em sua metade, com um “… e viveram felizes para sempre.”, seria um primoroso conto de fadas.

Sr. Sherlock Holmes (Mr. Holmes – 2015) – com Ian McKellen

Nonagenário, vive Sherlock Holmes (Ian McKellen), na companhia da governanta, Mrs. Munro (Laura Linney) e do filho dela, Roger Munro (Milo Parker), menino de oito anos, em um recanto aprazível do litoral da Inglaterra. Estamos em algum ano logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Auxiliado pelo pequeno Roger Munro, Sherlock Holmes ocupa-se com o seu apiário. Valetudinário, revela o maior detetive da Inglaterra deficiências de memórias. E sofre. Sofre o mais famoso personagem saído da imaginação de Sir Arthur Conan Doyle.
Instigado pelo filho de sua governanta, o eterno Sherlock Holmes empreende, através do tempo, para o passado, uma viagem errática, à procura de respostas para as perguntas que seu inocente companheiro lhe fazia, perguntas que o forçou a trazer, sob muito sofrimento, à tona um triste capítulo de sua vida, do qual ele pouco recordava. Aos poucos, os fragmentos de reminiscência que encontra nos escaninhos de sua mente de idoso alquebrado pela idade, mas que ainda conserva intacto o talento que lhe fez a fama universal, permitem-lhe reconstituir, encaixando-os uns nos outros, o episódio, cuja recordação muito o amargurou. Tratava-se de um caso envolvendo Thomas Kelmot (Patrick Kennedy), que o contratara para estudar o comportamento inusitado de Ann Kelmot (Hattie Morahan), sua esposa, que sofria devido à morte de seus filhos. Tal caso, sucedido trinta anos antes e cujo encerramento, trágico, muito o perturbou, fez Sherlock Holmes abandonar a profissão que lhe deu a fama e recolher-se à sua aprazível residência.
Nesse entremeio, vem a se recordar o detetive de Tamiki Umezaki (Hiroyuki Sanada), com quem se encontrara não muito tempo após o bombardeio de Hiroshima.
Paralelo à investigação de seu longínquo passado, sob esforço indescritível e doloroso, ele, um idoso que transparecia sinais de senilidade, Sherlock Holmes estuda as propriedades regenerativas da geléia real e de uma substância extraída da planta acerca da qual Tamiki Umezaki lhe falara.
Enfrenta o detetive mais famoso de todos os tempos percalços dramáticos, que ele supera não sem sofrimento, seus lapsos de memória a constrangê-lo de tempos em tempos e dos quais ele tem plena consciência. Durante esta que é a maior de suas aventura, revela de sua personalidade traços até então ignorados por ele mesmo. E ensina-lhe a experiência que a lógica, que ele tanto enaltecia, que lhe era infalível nas investigações, um instrumento que lhe era indispensável, não responde a todas as questões humanas. O trágico fim da personagem que ele suspeitava haver ajudado ensinou-o a ver o mundo e as pessoas e a si mesmo com outros olhos.
É ótimo este filme dirigido por Bill Condon, com roteiro de Jeffrey Hatcher, adaptado de A Slight Trick of the Mind, livro de Mitch Cullin, uma trama envolvente, simples, de narrativa lenta, bem cuidada, bem desenvolvida. Mais do que uma investigação policial, é a dramática aventura de um homem em busca de seu tempo perdido.

Don’t be foolish – (1922) – de Billy West

As comédias antigas, do tempo do cinema em preto e branco, e mudo, têm um toque de humor – humor pastelão – irrivalizado. São simples, ingênuas, tragicômicas. Contêm sucessão de cenas hilárias gostosamente absurdas. De um nonsense disparatado. E este Don’t be Foolish, de Billy West, um filme de quase um século de vida, é um belo exemplar de uma época em que os cineastas que se dedicavam a contar estórias engraçadas revelavam talento e amor à vida (amor à vida, sim, pois o humor que faz rir, gargalhar livremente, nasce do prazer de viver e de fazer viver), que os intitulados comediantes de hoje em dia não herdaram.

A aventura do protagonista tem seu início, numa praça, ele sentado num banco, a descascar bananas e a arremessar as cascas – sem o saber – na cara de policiais. Chamado por eles à razão, ele corre, e eles o perseguem. E ele os despista; todavia, pouco depois, encontra-se com eles, e a perseguição prossegue. E depara-se com uma mulher cujo rosto foi esculpido por um amante do grotesco, do horripilante. E escapa-lhe das garras. E os policiais o perseguem, e o capturam, e ele lhes escapa. E o capturam uma vez mais, e ele lhes escapa segunda vez. E prossegue a perseguição. E ele chega, por vias acidentais, ao apartamento da mulher de cujas garras escapara, e dela foge à abordagem. E sucedem-se cenas divertidíssimas, até que, enfim, o caso se resolve.

Sei que esta resenha nada conta do filme. Mas dele nada há para se contar além do que contei. E tenho de escrever, para encerrar: Só quem está de mal com a vida não se diverte ao assistir Don’t be Foolish.

O Jardim dos Prazeres (The Pleasure Garden) – de Alfred Hitchcock – 1925

A nossa falha condição humana pode nos levar ou à perdição, ou à salvação. É esta a síntese que faço deste filme em preto e branco, mudo, de Alfred Hitchcock, mestre irrivalizado dos filmes de suspense.
Moça ingênua e ambiciosa, Jill Cheyne (Carmelita Geraghty), noiva de Hugh Fielding (John Stewart), procura, para realizar seus sonhos, emprego de dançarina no teatro Pleasure Garden, cujo diretor, Mr. Hamilton (George Snell), rejeita-a; ela, todavia, persistente, dele obtêm uma oportunidade para apresentar-se; apresenta-se, e agrada ao público selecionado para avaliar as dançarinas. Assim que acordou com Mr. Hamilton sua remuneração, e após um contratempo, Patsy Brand (Virgínia Valli), convida-a a pernoitar na casa de Mr. Sidey (Ferdinand Martini) e Mrs. Sidey (Florence Helminger).
Predestinada ao estrelato, bem sucedida, distancia-se de Hugh Fielding e despreza Patsy Brand, e principia relacionamento com o Príncipe Ivan (C. Falkenburg). Vive no luxo e na abastança. Abordam-la ricaços e aristocratas. Está sempre paramentada com vestes luxuosas. Vive em um palacete.
Paralelamente à trama de Jill Cheyne, desenrola-se a de Patsy Brand, daquela independente e com ela conectada, até um certo ponto do filme, que, então, abandonando a daquela, que é relegada ao papel de figurante, concentra-se na de Patsy Brand.
Casados, Patsy Brand e Levet (Miles Manded) rumam à Itália, para a lua-de-mel. Patsy Brand deixara seu cachorro de estimação, Cuddles, aos cuidados do casal Sidey. E às margens do lago Como os recém-casados gozam de um idílio inesquecível durante algum tempo; e não tarda Levet a revelar seu temperamento rude; e deixando sua consorte na Itália, ele ruma a uma colônia britânica, onde permaneceria durante dois anos, e aonde Hugh Fielding iria. Mal sabia Patsy Brand que seu marido viveria, em tal colônia, relações ilícitas com uma jovem nativa, bela, formosa. Para justificar a ausência de comunicação epistolária com sua esposa, Levet envia-lhe uma carta informando-a de seu lastimável estado de saúde. Sobressaltada com a notícia, ela decide ir-lhe ao encontro, mas teria de conseguir, para empreender a viagem, dinheiro para a compra da passagem. Recorre, então, à Jill Cheyne, que, desdenhosa, lhe nega assistência, assistência que Patsy Brand obtêm, para sua surpresa, dos Sidey, que lhe entregam as economias que haviam reunido no decurso dos anos. Patsy Brand agradece-lhes a inestimável oferta. E vai à colônia britânica, onde vem a tomar conhecimento, para seu desgosto, do estado reprovável em que seu marido vivia com a jovem nativa, e onde lhe chega ao conhecimento o preocupante estado de saúde de Hugh Fielding, que, acamado, sofria de um mal que poderia vir a ceifar-lhe a vida.
E Levet precipita-se num estado de insanidade homicida. Delira. Vê fantasmas, que o aterrorizam. Ameaça agredir Hugh Fielding. Deseja matar Patsy Brand. Seu estado, deplorável, de um homem que, se despindo de sua essência humana, convertera-se numa alimária, horrenda, grotesca, bípede animalesco, irascível, doentio.
Patsy Brand e Hugh Fielding, enfim, regressam à companhia dos Sidey e de Cuddley.
Este é o entrecho de O Jardim dos Prazeres (Pleasure Garden), filme de um jovem Alfred Hitchcok, que se tornaria um ícone da sétima arte. Filme de quase um século, merece atenção ainda hoje, pois trata, com simplicidade, e crueza, de eternos fenômenos humanos.

Good Kill – Máxima Precisão

Na sua luta contra o terrorismo, os Estados Unidos empregam drones nos ataques aos terroristas. Os pilotos dos drones, dentro de uma cabine, no deserto de Mojave, estado de Nevada, estão distantes milhares de quilômetros de seus alvos, localizados, estes, no Afeganistão, no Paquistão, no Iraque e em outros países berços de terroristas. Não visitam o campo de batalha, não olham nos olhos de seus inimigos; controlam joysticks, o olhar concentrado numa tela de computador; não arriscam a própria pele durante as incursões dos drones em território inimigo; a guerra é impessoal, assemelha-se a um jogo de videogame. Seus inimigos não são seres humanos, têm-se a impressão, seres reais, de carne e osso, de sangue; não são pessoas; são apenas personagens de um videogame.
O major Thomas Egan (Ethan Hawke), experiente piloto da força aérea americana, agora, protegido por uma cabine metálica localizada em território americano, empreende incursões, na pilotagem de drones, em território inimigo; nostálgico de seus anos de piloto de caças, amargurado, pergunta-se se está a ocupar-se de uma atividade meritória, ou se fôra reduzido a um covarde; seu drama destrói-lhe a alma, deprime-o; cumpre, maquinalmente, as ordens que seus superiores lhe descarregam no corpo, e no espírito, já combalido, de homem que não mais sabe qual é o propósito de seu trabalho, e tampouco o de sua vida. Sua postura, seu rosto sempre a transparecer a amargura que o consome, distante de sua esposa, Molly Egan (January Jones), e de seus filhos, inspira atritos com a sua consorte, que lhe sente a falta, não da presença física, pois, agora, piloto de drones, e não de caças F-16, ele está sempre presente na sua casa, em corpo, mas não em espírito. E desintegra-se a família do major Thomas Egan.
Embora Good Kill – Máxima Precisão caia na vala comum dos filmes protagonizados por um herói solitário que, num ato intemerato, decide confrontar o onipresente e onisciente sistema de poder estatal, indo contra pessoas que têm o poder de decidir o destino dos homens comuns, é notável a coragem, numa época em que o cinema se converteu em um planfeto ideológio da pior espécie, de seu diretor, Andrew Niccol, e de seus produtores e roteiristas, pessoas que tocaram, e com destreza, num tema sensível aos homens modernos: a desumanização do homem imerso num mundo de máquinas, que lhes roubam o espírito que os faz autênticos seres humanos. A guerra contra o terrorismo, empreendida pelos Estados Unidos e seus aliados após o 11 de Setembro, apenas empresta o enredo para se trabalhar um tema caro aos humanos, e desde sempre: A razão de viver.

Limpa chaminés (Dirty Work, 1933) – um filme de O Gordo e o Magro

Neste curta-metragem, de um pouco menos de vinte minutos, dirigido por Lloyd French, e com roteiro de H. M. Walker, a dupla mais engraçada, atrapalhada e divertida do cinema universal, depara-se, ao entrar num casarão, com o doutor Travão (Lucien Littlefield), cientista, proprietário do casarão, e com Jequié (Samuel Adams), o mordomo. As figuras destes dois coadjuvantes contrastam-se: cada uma segue a do figurino pitoresco estereotipado: a do doutor Travão, a do cientista louco; a de Jequié, a do mordomo esnobe, pernóstico. A do doutor Travão é encantadoramente hilária (e a voz do dublador cai-lhe bem): mirrado, careca no topo da cabeça, e de trejeitos que lembram a de um doido-varrido.

As cenas alternam-se: no laboratório, o doutor Travão está ocupado com as suas experiências, que o levam a criar a fórmula do elixir da juventude, à qual ele se dedicava havia vinte anos; e na sala da lareira, Ollie (Oliver Hardy – o Gordo) e Stan (Stan Laurel – o Magro). E Jequié transita entre as duas cenas. Na execução do trabalho de limpeza da chaminé, Ollie e Stan organizam-se – ao modo deles, obviamente; e Ollie sobe ao telhado, e vai até a boca da chaminé; e Stan permanece, no interior da casa, na sala da lareira. E a confusão, tão disparatada, tão aguardada por quem assiste ao filme na expectativa de ver cenas hilárias, dá-se num ritmo, tão alucinante! que faz o expectador perder o fôlego, e chorar, de tanto rir. As cenas, impagáveis. E é Stan, o Magro, o atrapalhado da dupla, e é Ollie quem recebe tijolos na cabeça e quase tem a cabeça arrancada por tiro de espingarda.

Em certo momento da aventura rocambolesca dos dois atrapalhados e desastrados limpadores de chaminés, está Ollie, no telhado, à boca da chaminé, e Stan, no piso, no interior da casa, à lareira. Stan, a escova enfiada na lareira, e na escova conectada um cabo, e neste cabo outro cabo, e um cabo neste – mas a escova não chega até Ollie, à boca da chaminé, no teto -, para encompridar um pouco mais o cabo conecta, na extremidade que tem consigo uma espingarda. O absurdo da cena é tal que é impossível quem assiste ao filme não antever o desastre que irá se suceder. Um pouco antes do desenrolar desta cena, Ollie, puxando pelo cabo, erguera, pela chaminé, Stan, e, em seguida, soltara-o, e ele despencara, pelo interior da chaminé, até a lareira.

Enquanto tais cenas ocorrem no telhado e na sala da lareira, no laboratório o doutor Travão segue com as suas experiências: corta, em duas, com uma tesoura, uma gota; põe um pato numa banheira cheia de água; e, com um conta-gotas pinga uma gota da solução rejuvenescedora na água da banheira, e ao final desta experiência está o pato transformado num patinho. Encerradas as suas experiências, o teste com o pato provando-lhe que a fórmula rejuvenescedora estava criada, convida Ollie e Stan para assistir, no laboratório, à uma experiência; e rumam os três personagens ao laboratório; lá chegando, o cientista explica aos seus dois apalermados convidados a experiência; e na banheira cheia de água está o patinho; e o doutor Travão pinga, com o uso de um conta-gotas, na banheira, uma gota da poção rejuvenescedora, e o resultado põe embasbacados e boquiabertos, e de queixocaídos, Ollie e Stan. E na sequência, o doutor Travão sai do laboratório, para ir em busca de Jequié, para usá-lo na experiência seguinte, que desejava realizar, e no laboratório deixa Ollie e Stan, que, na ausência dele, decidem fazer uma experiência, cujo resultado é de um nonsense de arrancar gargalhadas do mais sisudo e mal-humorado dos homens.

Na versão original do filme, o doutor Travão chama-se Noodle; e o mordomo Jequié, Jessup. E com o nome do mordomo, Jequié, na versão brasileira faz-se um trocadilho com a cidade de Jequié, bahiana.

Uma curiosidade: Nos Estados Unidos, a série estrelada pro Oliver Hardy e Stan Laurel recebe o nome destes dois atores, Laurel & Hardy; e no Brasil o de O Gordo e o Magro; e em Portugal, Bucha e Estica.

Lucy, com direção e roteiro de Luc Besson, e estrelado por Scarlett Johansson e Morgan Freeman

Nesta resenha, não me estenderei, pois tal filme não merece mais do que algumas linhas, poucas.
A premissa do filme é tola: os humanos usamos apenas dez por cento da nossa capacidade intelectual.
Lucy (Scarlett Johansson), carrega, no ventre, literalmente, um pacote da droga sintética CPH4. É apanhada, e, quando surrada, rompe-se o pacote, e a droga, em contato com o organismo de Lucy, o altera, a ponto de aprimorá-lo, até que, no transcurso de horas, adquire Lucy domínio de toda (100%) a sua capacidade intelectual.
Durante o curso dos eventos, Lucy, já dotada de 40%, 50%, de seu poder cerebral, recorre, confusa, ao professor Norman (Morgan Freeman), em busca de orientações. É risível tal dado do roteiro. Por que uma pessoa, Lucy, que usa 50% do cérebro, recorreria a uma pessoa, professor Norman, que usa apenas 10%?
Enfim, ao final do filme, Lucy, numa cena que, é visível, foi criada sob influência de desenhos animados japoneses, assume, ao atingir os 100% de seu poder cerebral, aparência teratológica. Aqui, está claro, ela adquire o poder de um deus, melhor, uma deusa.
A inteligência de Deus, conclui-se, ao final do filme, é apenas dez vezes superior à humana.
O filme é uma desarrazoado sem fim, quero dizer, do começo ao fim. Apenas um panfleto progressista extraordinariamente patético.

Conspiração (Qui sème le vent, 2011, França). Diretor: Frédéric Garson. Estrelando: Laurent Lucas e Natacha Régnier.

Ninguém encontrará, neste filme de Frédéric Garson, cenas de perseguição de carros e de motos, e de lutas mirabolantes, e de explosões, todas de inspiração hollywoodianas, cenas que desrespeitam as leis da física e as do bom-senso. Não assistirá a lutas que se estendem por cinco, dez minutos, os protagonistas a se baterem, a se socarem, a se estapearem, a arremessarem uns contra os outros todos os objetos que encontram à mão, e tampouco a baterem a cabeça, testa contra testa, como se fosse este um ato sensato, inteligente, o golpe mais eficiente que durante uma luta uma pessoa pode desferir contra o seu oponente, derrubando-o, e conservando-se ilesa. E tampouco cenas em que os criminosos disparam rajadas de metralhadoras contra o carro, que o herói do filme dirige, transformando-o em queijo suíço, e do qual o herói, retirando-se sem um arranhão, com um tiro certeiro alveja o criminoso, matando-o.
Narra o filme uma sofisticada trama de política internacional, que envolve representantes dos governos da França, da China e do Níger, e os de uma empresa de exploração de urânio e os de uma ong ambientalista.
São sequestrados, no Níger, país situado no norte da África, outrora colônia francesa, dois pesquisadores de uma ong ambientalista, Jean-Michel (Frédéric Pierrot) e Coralie (Johanna Bah), que examinam o solo à procura de elementos que lhes sustentem a tese que defendiam: a de que a exploração de urânio poluía a região. E não se sabe quem são os sequestradores.
Hugo Geoffrey (Laurent Lucas), coadjuvado por Hèléne Morange (Natacha Régnier), ele, o policial francês encarregado da investigação e negociação com os sequestradores de Jean-Michel e Coralie, ela, representante da ong ambientalista para a qual trabalham os dois pesquisadores sequestrados, envolvem-se, entre tapas e beijos, e olhares de repulsa e de paixão, numa trama protagonizada por inúmeros personagens, cada um deles em defesa dos interesses ou de um governo, ou próprio, ou o de uma empresa, sendo impossível distinguir dos vilões os heróis; no filme não há espaço para maniqueismo: não há os legítimos representantes do bem e os autênticos representantes do mal. Todas as personagens envolvidas, diretamente, no caso entre governos e empresas de exploração de urânio são nebulosas, estão na penumbra, não na escuridão absoluta, tampouco iluminados por um astro radiante. E só faço uma ressalva à caracterização das personagens: numa exibição, presumo, de inegável amor, imerecido, inexplicado, injustificado, por uma visão de mundo ambientalista, melhor, onguista, as três personagens que representam a ONG ambientalista, Hèléne Morange, Jean-Michel e Coralie, são apresentados como seres abnegados, puros, imaculados. Tal detalhe, todavia, não reduz o valor do filme nem sequer em um centavo.
Enquanto se desenrola a investigação e as negociações – que se arrastam, com avanços e recuos inesperados, enervando os negociadores – com os sequestradores e com os representantes do governo do Níger, general Kassoum (Oumar Barou Quedraogo) e coronel Aboubacar (Emile Abossolo M’bo), e com os da empresa francesa Urania, que há décadas detém a licença, concedida pelo governo nigerino, de exploração das jazidas de urânio nigerinas, agora cobiçada pelo governo da China, que lança mão de expedientes reprováveis para obtê-la, Hugo Geoffrey tem contato com Yassine (Mohamad Zeidan), seu intermediário com os sequestradores, ou, melhor, com quem usa os sequestradores para fins obscuros.
O filme surpreende pelo tratamento realista dado à trama, sem concessões ao heroísmo de um indivíduo onipotente, que enfrenta, no muque, todos os seus oponentes, e pela ausência de cenas, grandiosas e desnecessárias, de perseguições mirabolantes de carros e motos pelo centro movimentado de uma cidade populosa. Não há cenas criadas unicamente para impressionar o público sugestionável e dele esconder a inexistência de uma trama bem concatenada. Prende a atenção usando, apenas, uma trama bem urdida: é impossível antecipar o seu desenlace; não se sabe quem ordenou o sequestro de Jean-Michel e Coralie e com qual propósito. Foi o governo da China? ou o da França? ou o do Níger?
Afirmei, no início, que não se encontrará em Conspiração (Qui sème le vent), cenas de explosão. De inspiração hollyoodiana, não, não se encontrará; no entanto, nos momentos finais, há uma cena de explosão, curta, de um, dois segundos, e se vê uma nuvem de fumaça elevando-se no horizonte, atrás dos prédios. E só.
É Conspiração (Qui sème le vent) um filme para quem aprecia o que de melhor a sétima arte pode oferecer.

Capitão América: soldado invernal

No filme Capitão América: Soldado Invernal há uma cena emblemática: a em que Steve Rogers (o Capitão América) e Natasha Romanof (a Viúva Negra), numa base militar secreta, ouvem Ernin Zola, um cientista da Hidra, agora reduzida a sua inteligência a um sistema de programas de computador, inteirá-los da estratégia da Hidra para dominar o mundo.
Eu já havia assistido ao filme não muito tempo após o seu lançamento em dvd, e não me recordo se atentei, naquela ocasião, à cena que agora destaco.
A estratégia da Hidra para a dominação do mundo distingue-se, salienta Ernin Zola, da empregada, pelos nazistas, na 2a. Guerra Mundial; não consiste, como a dos nazistas, em empregar a força contra o povo que se deseja oprimir.
Os nazistas, em sua agressiva estratégia de dominação, inspira aos povos reação, em defesa da liberdade, então ameaçada, para evitar que ela lhe seja roubada; assim enfentam os nazistas revoltas, que lhes impõem derrotas, estendendo os conflitos, cujo desenlace, como se sabe, não lhes foi favorável. Os estrategistas da Hidra (que vem a ser, em tal história, uma espécie de organização nazista mais sofisticada) concebem, então, cientes das razões do fracasso de sua antecessora, uma outra estratégia, para dominar o mundo: Em vez de iniciar um empreedimento bélico contra um país, infiltra a Hidra seus agentes na SHIELD (certa de não poder desafiá-la num embate direto), organização rival, representante do mundo livre, corrompendo-a, usando dos recursos dela, e agindo em nome dela, para produzir o caos em diversos países, manipulando os povos, sem que eles o  percebam, envolvendo-os em conflitos, cujo desenlace é incerto, e os povos, amedrontados, suplicam por soluções, e será a própria Hidra (agora tendo o controle de considerável parcela da SHIELD) que lhas oferecerá, e o fará, oprimindo-os; e em tal empreendimento os converte a Hidra numa massa amorfa, maleável, sugestionável, submissa, favorável às políticas da Hidra, e em nenhum momento desconfiam que estão sendo oprimidos, pois não a têm como opressora, têm-na como protetora, libertadora. Aliás, eles não têm a Hidra como libertadora, pois da existência dela eles nem sequer desconfiam; eles têm a SHIELD como libertadora, protetora (Faço uma comparação com a realidade: os comunistas, ao decretarem a morte do comunismo, dando-se, portanto, como inexistentes, avançam em seu empreendimento sem que se lhes imponham obstáculos). E a concepção de tal estratégia, que não é uma fantasia sem respaldo na realidade, não se deu na cabeça dos roteiristas do filme; deu-se na cabeça de estrategistas políticos.
E para se ter um vislumbre da sofisticação (em sua simplicidade) e do alcance de tal estratégia é recomendada a leitura de artigos, que versam sobre o tema, de Olavo de Carvalho, que a respeito já escreveu muito; em alguns de seus artigos, ele trata da infiltração, por agentes comunistas, de organizações americanas (a história de McCarthy é um exemplo clássico) e do governo americano, e da ação, nos meios de comunicação de massa ocidentais, dos comunistas. E é recomendada, também, a leitura do livro Desinformação, de Ion Mihai Pacepa, general romeno que muitos serviços prestou aos comunistas enquanto ocupava (na sua outra vida, como ele à ela se refere) um cargo de importância na hierarquia do movimento comunista, e que, atualmente vivendo nos Estados Unidos, presta inestimáveis serviços ao mundo livre, revelando as artimanhas diabólicas dos comunistas – e os que se batem contra os comunistas podem aquilatar o valor das revelações de Ion Mihai Pacepa, reconhecendo-se os ganhos que se teve na compreensão do modo de pensar e de agir deles.
Contrariando as expectativas, e superando-as, Capitão América: Soldado Invernal, um filme de super-heróis, gênero literário para o qual muita gente torce o nariz, revela-se muito mais do que um filme – e não é exagero dizer que ele é, respeitando-se as limitações do gênero, um tratado político. Dá o filme uma trama cujos protagonistas reproduzem valores da nossa sociedade e um dos mais satânicos truques que a inteligência humana já concebeu.
E não muitos dias depois, li, de Ricardo Roveran, uma resenha do filme Capitão América: Soldado Invernal. Em um determinado trecho, refere-se ele à Teoria da Subversão, de Yuri Bezmenov; e tal teoria é a que sustenta a estratégia da Hidra.
Estou, hoje, convencido de que os filmes de super-heróis estão repletos de teorias políticas, não se resumindo, portanto, a entretenimento unicamente.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice) – Breves observações acerca da batalha final.

Não é o meu objetivo, nesta resenha, dar um resumo do filme, tampouco dissecar a psicologia das personagens, e nem considerar os recursos técnicos e os efeitos especiais nele utilizados – estes recursos são irrelevantes; relevantes, nos filmes, são a trama e a consfiguração das personagens. Não são raros artigos e resenhas de filmes que, se prendendo na avaliação dos aspectos irrelevantes, muitos deles insignificantes, negligenciam o estudo dos relevantes, essenciais, indispensáveis. Uma boa história, seja ela a de um filme, a de um romance, a de um conto, a de uma novela, tem uma narrativa bem elaborada e personagens bem construídos. E estes são os dois ingredientes nos quais os resenhistas e os ensaistas deveriam dedicar a sua atenção ao tratar dos filmes que estudam.
Nesta resenha, o título indica, dedico-me a comentar, do filme, a batalha final, que envolve os heróis Super-Homem (Henry Cavill), Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) e o vilão Apocalipse – o coronel Zod (Michael Shannon), recriado por Lex Luthor (Jesse Eisenberg), com o sangue deste, e transfigurado numa criatura monstruosa, cujo poder supera os dos seus três oponentes somados, uma criatura quase indestrutível, que possui um, e apenas um, ponto fraco, o mesmo de seu antagonista kryptoniano. Eu não irei resumir a luta final; irei, apenas, traçar descrições, poucas, de cenas que me chamaram a atenção, adicionando-lhes breves observações, que esclarecem o meu ponto de vista.

Começo as minhas observações indicando a cena que, entendo, é a primeira cena da batalha final que revela a ausência de lógica, de consistência narrativa, e que foi concebida com o único propósito de justificar uma outra cena, que se desenrola pouco depois, cena, esta, que apresenta o poder de renovação do herói kryptoniano e sua entrada triunfal na batalha.

O Super-Homem, elevando-se no ar, carrega consigo o seu monstruoso oponente. Voa o Super-Homem; o Apocalipse, não. É o Apocalipse desprovido do talento de voar, conclui-se ao atentar para as cenas que o mostram dando saltos prodigiosos, cobrindo um espaço considerável em cada salto. Está o Super-Homem empurrando Apocalipse para além da atmosfera terrestre, e batendo-se com ele, quando na direção deles é lançado um míssil munido de artefato nuclear. E aproxima-se o míssil de Super-Homem e Apocalipse. E Super-Homem agarra-se ao seu adversário, segura-o, move-se, com ele sob seu domínio, de modo a deixá-lo entre o míssil e ele, Super-Homem, no instante do impacto, recebendo Apocalipse toda a carga da devastadora explosão. Aqui, observo um detalhe absurdo: Super-Homem voa; Apocalipse, repito, não. Apocalipse, que é incapaz de voar, encontra-se no espaço aberto; ele não poderia, portanto, mesmo que o desejasse, esquivar-se do míssil que ia em sua direção; sendo assim, nenhuma razão há para o Super-Homem conservá-lo sob seu domínio; aqui, Super-Homem, inteirado da aproximação do míssil, teria de abandonar Apocalipse, e voar, e numa velocidade superior à do Papa-Léguas, para longe de seu inimigo. E a detonação do artefato nuclear atingiria o Apocalipse, unicamente. Na sequência, chamou-me a atenção um segundo absurdo: Apocalipse cai, na Terra, em uma ilha desabitada. Ao ver esta cena (e não na primeira vez que assisti ao filme), perguntei-me porque Apocalipse, atingido, por um míssil dotado de explosivo nuclear (míssil lançado da Terra), quando ele estava fora dos domínios da atmosfera terrestre, caiu na Terra, ao invés de ser arremessado para longe dela. A cena do míssil atingindo, no espaço aberto, Apocalipse e Super-Homem, parece-me saído da cabeça de um roteirista que acreditou que é ela de grande impacto – e de fato é. E os dois antagonistas, sobrevivendo à explosão de um artefato nuclear, revelam a dimensão do poder deles, o que impressiona os espectadores.

Não muitos minutos depois, os criadores do filme presenteiam as pessoas que o assistem com outra cena ainda mais absurda. Batman, melhor, Bruce Wayne, o homem por trás da máscara do morcego, reputado homem dotado de um intelecto privilegiado (e ele é inteligente, mais inteligente do que os roteiristas do filme, roteiristas que, sem inteligência para dimensionar o valor de seu trabalho, rebaixam a personagem à estatura deles), certo de que só havia um meio de derrotar Apocalipse (fincar-lhe no corpo a lança em cuja ponta há uma pedra de kryptonita, afiada), decide atrair-lhe a atenção, deixar a ilha desabitada, e, com Apocalipse no seu encalço, ir até Gotham City, onde se encontrava a lança em cuja ponta havia uma pedra, afiada, de kryptonita. Quanta inteligência, Batman – diria, irônico, o Robin da antiga séria de televisão. Bruce Wayne conduziu um monstro de poder irrivalizado, imensurável, capaz de destruir um país inteiro, tirando-o de uma ilha desabitada, para para Gotham City. Ele deveria, aqui, rumar, incontinenti, para Gotham City, encontrar a lança, e regressar, de posse dela, para a ilha desabitada onde se encontrava o monstro kryptoniano. Mas ele decidiu, incontinente, com a astúcia, que os roteiristas lhe concederam, de Chapolin Colorado, provocar o seu poderoso oponente e conduzi-lo à cidade eternamente aterrorizada pelo Coringa, e,pelo Batman também – mais por este do que por aquele.

E observo outra cena absurda: Apocalipse, saturado de energia, expande-se, expelindo energia em todas as direções. E de tão avassaladora, a energia liberada provoca tremores nas construções circunvizinhas, derrubando-as sobre Lois Lane (Amy Adams), que fôra buscar a lança (que ela, após o encerramento da luta que travaram Super-Homem e Batman, arremessara numa funda cavidade cheia de água); em decorrência dos tremores causados por Apocalipse, as paredes do prédio em ruínas em que se encontrava Lois Lane despencam, e ela, para escapar de ser atingida pelos destroços, pula na cavidade, cheia de água, em que deixara a lança em cuja extremidade havia a pedra, afiada, de kryptonita. Tal decisão revelou-se contraproducente, insensata, pois blocos imensos caíram na cavidade em que Lois Lane procurara abrigo, impedindo–a de se retirar da água – e ela morreria afogada, se Super-Homem não fosse, pouco depois, em socorro dela. Ora, Lois Lane teria de buscar abrigo em outro local, e não numa cavidade cheia de água.

Abro um parêntese: Ao fim de sua luta com Super-Homem, Batman devia carregar a lança consigo, e não largá-la em meio às ruínas do prédio em que se dera o embate entre eles; e Lois Lane não devia tê-la arremessado, para conservá-la distante de Super-Homem, na cavidade cheia de água. Tal cena foi criada para pôr, na cena descrita linhas acima, Lois Lane em perigo, e justificar a cena em que Super-Homem vai em socorro dela. E parêntese fechado, prossigo:

Na sequência à cena de salvamento, por Super-Homem, de Lois Lane, Super-Homem, em busca da lança, mergulha na água onde ela estava, e não emerge; Lois Lane o socorre, é claro, pois Super-Homem, fragilizado devido à proximidade da kryptonita, mal consegue se mover. E segue o filme. E Super-Homem, que, imerso, próximo da lança, mal conseguia mover um dedo, agora, emerso, empunha-a, e voa, com certa desenvoltura, a lança em riste, até Apocalipse, cravando-lha, no peito, na altura do coração. Esta cena é tão absurda como as anteriores. Super-Homem não poderia, jamais, carregar a lança com ponta de kryptonita. A Mulher-Maravilha, que não sucumbe aos efeitos debilitantes da kryptonita, teria de pegar a lança, e arremessá-la contra Apocalipse, cravando-lha no peito; e, na sequência, Super-Homem, voando, iria até a lança, e, numa colisão frontal, a empurraria para dentro do monstro kryptoniano, matando-o.

Pode-se dizer que estas minhas breves observações são tolices de um crítico excessivamente exigente que não sabe dedicar-se a algumas horas de diversão assistindo, tranquila, e despreocupadamente, um filme de aventuras de super-heróis, obra criada apenas para entreter as pessoas, pois, sendo tal filme apenas uma aventura de super-heróis, não merece ser levado muito a sério. Eu concordaria, não totalmente, com tais comentários, que me soariam como reprimendas. Narra o filme, é verdade, apenas uma estória protagonizada por super-heróis; é literatura de um gênero popular que não pede complexidade de nenhum tipo; todavia, deve-se dizer que toda história, independentemente de seu gênero e das pretensões de seus criadores, tem de possuir consistência. Não há razão justificável para os roteiristas de estórias de super-heróis negligenciar o roteiro. Quem já leu estórias em quadrinhos de super-heróis escritas por John Byrne, Roger Stern, Roy Thomas e outros escritores do mesmo quilate, sabe que tal gênero literário oferece obras de elevado nível. O público de tais filmes, sei, não é muito exigente; sugestionável, contenta-se com as cenas espetaculares e os cenários grandiosos, exuberantes, que deles fazem a popularidade. Não é criterioso. É possível criar, para o cinema, uma estória de super-heróis com roteiro bem elaborado, nulos de erros grosseiros e absurdos como os apontados acima, consistente, respeitando-se os ingredientes que fizeram a fama do gênero nos quadrinhos: a sua fantástica, fascinante, fabulosa, inverossimilhança, que adquire verossimilhança nas mãos de talentosos roteiristas e desenhistas.

Incomoda-me a suspeita: um filme com tantos absurdos foi concebido, não porque Hollywood está carente de bons roteiristas, mas porque tem o objetivo de destruir a inteligência das pessoas, pois Batman vs Superman: A Origem da Justiça, não é um caso único de filme repleto de cenas absurdas, desconexas, ilógicas; é um exemplar do padrão hollywoodiano. É a regra, e não a exceção. No gênero de super-heróis e em outros gêneros, há trilhões de filmes recheados de cenas absurdas, ilógicas, patéticas em todos os aspectos imagináveis, compondo roteiros sem início, sem meio, sem fim.
Quantas pessoas que assistiram ao Batman vs Superman: A Origem da Justiça, atentaram para os aspectos absurdos das cenas aqui observadas? Tão habituados a coisas igualmente irracionais, adotaram, com indiferença e passividade, todos os absurdos aqui elencados sem se darem conta da existência deles.
É impossível, em imaginação, dimensionar o estrago que os filmes hollywoodianos atuais provocam em pessoas acostumadas a assisti-los desde o berço. Suspeito que Hollywood almeja a destruição da inteligência das pessoas, pois não acredito que hoje em dia não exista escritores talentosos que possam escrever bons roteiros de filmes; de filmes de super-heróis, inclusive. E Hollywood, uma indústria bilionária. pode, contratar, e a peso de ouro, roteiristas talentosos, escritores criativos, de qualquer lugar do mundo. Se não zela pelo bom roteiro de seus filmes, tem, presumo, outros propósitos, inconfessados, além do de amealhar uma fortuna de dar inveja aos faraós do antigo Egito.

Duelo de Titãs – de John Sturges; com Kirk Douglas e Anthony Quinn

Assisti, e com muito gosto, ao filme Duelo de Titãs (no original: Last train from Gun Hill), de John Sturges, com roteiro de James Poe e argumento de Les Crutchfield, e estrelado por Kirk Douglas e Anthony Quinn.
Os protagonistas, Marechal Matt Morgan (Kirk Douglas), xerife da cidade de Pawley, e Craig Belden (Anthony Quinn), barão do gado na cidade de Gun Hill, amigos de longa data, vêem-se em lados opostos, na trama, devido ao estupro e morte da esposa de Matt Morgan por Rick Belden, filho de Craig Belden. Os dois amigos, vendo-se em posições antagônicas, assumem, cada qual, a responsabilidade que lhe compete: Matt Morgan, a justiça, prender um estuprador e assassino; Craig Belden, proteger seu filho. O antagonismo entre os dois personagens, atenuado pela amizade, respeito e admiração recíprocos que devotam um ao outro, cria um ambiente de tensão inexcedível, pois ambos desejam evitar o confronto: Craig Belden, em defesa de seu filho, esforça-se para dissuadir Matt Morgan de empreender-lhe caçada, e levá-lo a cidade de Pawley, onde o crime fôra cometido, para julgamento por estupro e assassinato;  e Matt Morgan pede a Craig Belden que não se lhe (a ele, Matt Morgan) imponha obstáculo à captura de Rick Belden.
Aqui, abro um parênteses, e chamo a atenção para um detalhe: Na capa do dvd do filme, há um quadro em que se informa o tema do filme: Vingança. Errado. Não é o tema do filme a vingança; o tema é a justiça – e este detalhe fica bem claro na cena em que Matt Morgan vai até o xerife de Gun Hill, Bartlett, e apresenta-lhe os mandatos. Matt Morgan, e desde o princípio, demonstra auto-controle invejável, pois, xerife, casado com uma índia cherokee (que foi estuprada e assassinada) – este detalhe é emblemático, e dele tratarei linhas abaixo -, pai de Petty, em nenhum momento transparece, nem na fisionomia, nem nas palavras, o desejo de se vingar do estuprador e assassino de sua esposa; tem  ele em mente a justiça, e não a vingança. Faz-se uma confusão ao dar-se como de vingança o tema do filme o fato de o agora viúvo xerife ir à caça do estuprador e assassino de sua esposa, e não aos sentimentos e valores que o inspiram à empresa.
Fecho o parênteses.
Como Matt Morgan e Craig Belden conservam-se, cada qual em sua posição, irredutíveis, nenhum deles revelando disposição para recuar sequer um passo, o confronto desenha-se, é inevitável. Mas até aonde eles irão? – perguntei-me, enquanto assistia ao filme. “Irão às últimas consequências?” Assisti ao filme; sei, portanto, qual foi o desenlace da trama, desenlace o qual eu não revelo, contendo-me em meu desejo de registrá-lo aqui. (Nota: no rascunho que fiz para este texto, eu contava o encerramento do filme).
Não mais fornecendo episódios da trama, resumindo, portanto, ao que já escrevi o que eu pretendia dar a conhecer, comento, agora, algumas cenas, que muito me prenderam a atenção: São duas: Uma, logo no começo do filme; uma, não muitos minutos depois. Na primeira, a do estupro e morte, por Rick Belden, da esposa de Matt Morgan, o estuprador e assassino, após arrancar à força, de sua vítima, as vestes, arremessa-as sobre um tronco caído de árvore, seco. Não se mostra a violência perpetrada por Rick Belden; mostra-se, unicamente, a roupa de sua vítima sobre o tronco seco de árvore, e tal discrição é o suficiente para se revelar a violência do ato. Nada é explícito. Nada é mostrado, e tudo é revelado. Na segunda cena, que se dá na fazenda de Craig Belden, conversam este e Matt Morgan. O diálogo entre eles exige atenção de quem assisti ao filme, pois eles dizem muito mais com as expressões fisionômicas, quase imperceptíveis (aos desatentos, imperceptíveis) do que com as palavras. Nesta cena, Craig Belden está em pé, e Matt Morgan, sentado: Quando Matt Morgan disse que o estuprador e assassino de sua esposa tem, no rosto, a marca de chicote, os olhos de Craig Belden movem-se, ligeiramente, para a direita, num movimento que quase não se vê de tão sútil, e altera-se, na sequência, quase não se vendo, as expressões de Matt Morgan – que está, agora, ciente de que é o filho de Craig Belden quem ele, Matt Morgan, fôra buscar -, e seu olhar, agora, está severo, e o canto de seus lábios descem, ampliando a severidade de sua expressão.
Anthony Queen e Kirk Douglas conseguem, com tal economia de expressões, e nenhuma palavra, dizer muito e revelar os sentimentos que animam o espírito de seus respectivos personagens. São extraordinários Anthony Queen e Kirk Douglas!
E concentro-me, agora, em dois aspectos que me chamaram a atenção: a posição social de Craig Belden; e a relação de Matt Morgan e uma índia cherokee. Craig Belden é um barão do gado, um homem poderosíssimo; ele, e não o xerife Bartlett, é a autoridade em Gun Hill; todos os da cidade de Gun Hill comem-lhe nas mãos. Como barão do gado, ele é, pode-se dizer, um empresário, um capitalista, um grande capitalista, o único de Gun Hill. Ele faz uso do seu poder sem que ninguém lhe levante objeção. Em Gun Hill ele manda e desmanda. O filme, ao retratá-lo como um empresário arrogante, inescrupuloso, poderia ser visto como um libelo anticapitalista, mas anticapitalista, assim eu entendo, o filme não é. Retrata a relação promíscua, criminosa mesmo, entre um grande capitalista e o governo de uma cidade. Ora, a relação promíscua entre grandes capitalistas e governos é muito mais comum, ontem e hoje, do que muita gente imagina.
O outro aspecto que me chamou a atenção, a relação de marido e mulher entre Matt Morgan e uma índia cherokee, é muito mais emblemática. Vê-se, no filme, que os moradores de Pawley não estranham a relação entre o xerife e a índia cherokee; e o filho deste relacionamento, Petey, tem um convívio amigável com as outras crianças. Além disso, quando Lee, amigo de Rick Belden, e este, referem-se, com desprezo, à esposa de Matt Morgan, Craig Belden repreende-os. Desconheço a história da formação dos Estados Unidos, tampouco sei como se deu as relações entre americanos descendentes de europeus e os nativos da América. O que sei a respeito resume-se ao que se diz: houve segregação nos Estados Unidos; os brancos dizimaram os nativos. Mas o filme deu-me o que pensar: A segregação tal como se diz que se deu nos Estados Unidos é fato histórico, ou é apenas uma invenção com a qual os que a conceberam e a disseminam têm o interesse de apresentar a sociedade americana como preconceituosa, repulsiva, desumana? No filme, retrata-se a realidade da sociedade dos Estados Unidos da época em que a história está ambientada? Ou o filme é uma peça de propaganda criada com vias a atenuar, no imaginário dos americanos (e no de outros povos) a realidade cruenta de então? No filme dá-se a saber que os nativos não eram mal-vistos pela sociedade americana, à qual estavam integrados, e tão integrados que uma índia cherokee era a esposa de um homem branco, um xerife – e as personagens que revelaram desprezo por ela foram retratados como vilões. O filme obriga-me a repensar a imagem que dos Estados Unidos, de seu povo, de sua história, de sua cultura, de sua sociedade nos apresentam os intelectuais, os livros didáticos, os livros de história, os meios de comunicação de massa e o cinema americano: segregacionista, preconceituosa, discriminadora, racista, injusta, machista, de supremacistas brancos.
Duelo de Titãs (Last train from Gun Hill) não é só mais um filme de faroeste; é um filme sobre amizade, lealdade e justiça.
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