Um Homem Célebre (de Várias Histórias) – de Machado de Assis

É o herói deste conto, Pestana, popular compositor de polcas, admirado por muitos. Conquanto gozando de sucesso e popularidade invejáveis, vivia desgostoso consigo mesmo, pois, sabia, era apenas um autor de peças efêmeras, para diversão e o prazer de público inculto, iletrado, destituído de sensibilidade musical, sensualista, que se satisfaz com qualquer obra que lhe atenda os prazeres imediatos, uns lúbricos, que usufruem nos bailes, e não o de obras imorredouras que se rivalizam com as de Beethoven, Mozart, Bach, Schumann, Haydn e outros gênios da música clássica, obras que lhe incluem o nome, eternizando-o, no panteão dos heróis da arte. O seu sucesso atormentava-o, pois era unicamente o resultado da popularidade de obras às quais ele não dava grande valor, obras que não mereciam figurar entre as criações perpétuas de músicos agraciados com o dom da música. Esforçava-se, em vão, para criar obras eternas. Após casado com Maria, viúva e tísica, bafejado com o sopro da criatividade – assim ele acreditava -, compôs um Noturno, que Maria reconheceu como sendo uma peça de Chopin. E Pestana foi obrigado a dar o braço a torcer. Ludibriaram-no sua ambição e sua memória. Reproduzira, certo de que criara uma obra original.
uma peça que não era sua. E enviúva-se Pestana. Dedica-se, durante um ano, à composição de um Réquiem, para tocá-lo numa efeméride: o aniversário de um ano da morte de Maria. Fracassado em seu propósito, envergonha-se. O seu talento dava-lhe idéias para criar polcas, polcas populares, que caíam no gosto, não muito exigente, do povo, que não primava pelo requinte, pelo apuro musical – era assim ontem, é assim hoje.
A ambição de Pestana não andava no mesmo compasso de seu talento, que lhe oferecia recursos para criar obras que os homens, pouco exigentes, amavam, e as quais ele, demasiadamente exigente consigo mesmo, ambicionando admirar seu nome no rol dos autores cuja obra é eterna, desprezava – e ele não pôde gozar de prazer que a popularidade delas lhe ofereceria caso ele não fosse tão orgulhoso, prazer que outro músico, não tão orgulhoso e pretensioso quanto ele, gozaria. Pestana queria dar passos maiores do que os que suas pernas lhe permitiam – e por isso foi um homem infeliz.

O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli; e, Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa

O livro de Henrique A. Orciuoli, dos dois aqui tratados o primeiro que li, está vazado numa prosa poética, que reproduz a simplicidade da poesia do biografado, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, infelizmente hoje em dia pouco lido e lamentavelmente difamado pelos seres que, além de desprovidos de talento poético, adoradores de imundícies escatológicas, odeiam o que há de melhor, mais valioso, mais belo, na cultura brasileira. A prosa do autor é em si mesma uma homenagem a Olavo Bilac. Conta-nos Henrique A. Orciuoli, numa prosa poética acessível a qualquer pessoa minimamente ilustrada, a angústia de Olavo Bilac, seu amor por Amélia, irmã de outro herói da poesia brasileira, Alberto de Oliveira, que, do mesmo modo que o autor de O Caçador de Esmeraldas, é ignorado pelos incultos e vilipendiado pelos que tiveram sua formação intelectual feita pelo que há de pior do que não sei se é certo chamar de literatura moderna. Olavo Bilac amava, apaixonada e doentiamente, Amélia, seu eterno amor. Noivaram o poeta e sua amada, também poetisa, e irmã de poetas, mas não chegaram ao enlace matrimonial por obra de Juca, irmão mais velho de Amélia, e da mãe dos Oliveiras, a viúva Dona Saninha. Os dissabores do poeta são angustiantes. Dói-se o coração de Bilac, alma sensível e imaginosa; e o poeta sofre até no leito de morte, Amélia a mover-se em sua imaginação, a agitar seu coração.

Além de falar da paixão de Olavo Bilac e Amélia, da hostilidade inexplicável de Juca, que não queria o casamento de sua irmã com o autor de Via-Láctea, Henrique A. Orciuoli reproduz poemas de Bilac e de Amélia, e dá notícia do embrião da Academia Brasileira de Letras, a casa dos Oliveiras, a “Engenhoca”, local privilegiado frequentado pela nata da cultura de então.

Resume a biografia, de um pouco mais de cem páginas, ao amor entre Bilac e Amélia, dedicando poucas palavras a outras atividades do Príncipe dos Poetas Brasileiro. Lê-se o livro como se lê um romance; aliás, é o livro um romance, um romance de personagens reais que enriquecem a história do Brasil.

Tem o livro de Osmar Barbosa, Olavo Bilac: Vida e Obra, dimensões, em páginas, próximas das do livro de Henrique A. Orciuoli, e, ao contrário do deste, não se prende ao romance de Bilac e Amélia. Apresenta um panorama mais amplo da vida do Príncipe dos Poetas Brasileiros. Dá notícia do nascimento dele, em ano em que se desenrolava a Guerra do Paraguai; e do seu tirocínio com o Padre Belmonte, e de seus estudos no Colégio Vitório; fala-lhe, rapidamente, da mãe, D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac, e do pai, Dr. Brás Martins dos Guimarães Bilac, que o queria médico e que dele se afasta devido à reprovável vida errônea e boêmia que ele, Bilac, prodigalizava na companhia de amigos. Fala, também, o autor do abandono, por Olavo Bilac, do curso de medicina, e de seu ingresso na Faculdade de Direito; e de sua amizade com Alberto de Oliveira, José do Patrocínio, Raul Pompéia, Artur Azevedo, Paula Nei, Emílio de Menezes, Coelho Neto; e da sua paixão por Amélia; e da sua admiração por Gonçalves Dias; e de suas viagens à Europa; e do seu encontro com Eça de Queirós; e de seu trabalho de inspetor escolar; e da sua participação na fundação da Academia Brasileira de Letras; e de suas conferências a favor do escotismo, do serviço militar obrigatório, da abolição dos escravos; e das adversidades enfrentadas porque desprovido de recurso pecuniários para se manter; e de suas prisões; e do seu envolvimento em duelos literários, em defesa de Gonçalves Dias, contra Lúcio de Mendonça, e na guerra entre parnasianos e simbolistas; e de sua ação a favor de José do Patrocínio e contra o Marechal Floriano Peixoto; e de seu reencontro, em 1910, na casa do Professor Hemetério dos Santos, que aniversariava, com sua amada Amélia de Oliveira, vinte e dois anos após o encontro anterior. E adiciona brindes ao leitor o autor Osmar Barbosa: algumas anedotas da vida do autor de Via-Láctea, a reprodução de uma crônica que o maior dos poetas parnasianos brasileiros escreveu acerca de seu encontro com Eça de Queirós, e um conto infantil, O Velho Rei, de autoria de Bilac.Os dois livros são de pessoas que admiravam Olavo Bilac.

Enquanto Henrique A. Orciuoli ocupa-se do amor, eterno amor, do Príncipe dos Poetas Brasileiros por Amélia, Osmar Barbosa fala de outras questões que lhe enriquecem a biografia. O primeiro foi bem-sucedido em seu objetivo ao concentrar-se no mundo do maior poeta parnasiano brasileiro, o mundo em que Amélia ocupava a mente e o coração do poeta; e o segundo, de escopo mais amplo, fez o tema do amor de Bilac por Amélia secundário. Ambos escritores de boa, bem cuidada, prosa, seduzem o leitor; transcrevem poesias de Bilac, e ensinam uma inestimável lição aos leitores: é impossível entender as poesias se não se conhecer a vida dos poetas. A poesia de Olavo Bilac é melhor compreendida se se conhecer suas atividades, e muito de sua obra poética alude à Amélia, sua Beatriz.

São O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli, e Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa, dois livros simples, que abrem aos amantes da literatura as portas que dão acesso à vida, ao coração do Príncipe dos Poetas Brasileiros. 

Plebiscito, de Artur Azevedo; O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto; e, O Homem da Cabeça de Papelão, de João do Rio

Três contos de humor, de três escritores brasileiros que estão entre os melhores que o Brasil produziu, contos que revelam, cada um deles, um aspecto negativo da gente e da sociedade brasileiras; unidos, constituem um amplo cenário do que foi o Brasil ontem e do que é o Brasil hoje – e do que será o Brasil amanhã?

O de Artur Azevedo, Plebiscito, o mais simples e curto do três contos aqui nomeados, conta um constrangedor capítulo – e hilário aos olhos do leitor – da vida do senhor Rodrigues, que, abordado por Manduca, seu filho, que lhe pergunta o que é ‘plebiscito’, em vez de lhe dizer que ignora o significado de tal substantivo, bate pé, faz-se de ofendido, e, ao fim, após consulta ao pai dos burros, dá-lhe a explicação pedida, e a complementa com um comentário que revela sua orgulhosa ignorância.

O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto, talvez o mais popular conto da literatura brasileira, narra a aventura, bem-sucedida, sem percalços, do senhor Castelo, que, vendo-se sem meios, decide, para obter um bom emprego, atender a uma exigência de órgãos públicos, e dedica-se a estudar um idioma que ele não sabia que existia, o javanês. Ele não aprende, é óbvio, tal idioma; dá apenas uma lambida em livros que dão a conhecê-lo – mesmo assim, obtêm uma sinecura, que lhe enche as burras de ouro, e dá-lhe acesso à aristocracia, e empresta-lhe fama que lhe permite gozar de prazeres mundanos. Toda a sua carreira de homem que sabia javanês é um embuste, mas no meio social em que vive não são males a sua ignorância e a sua incultura, pois os integrantes de tal meio, tão ignaros e incultos quanto ele, também vivem de aparências.

É o menos conhecido dos três contos aqui apresentados em breves comentários o de João do Rio, O Homem da Cabeça de Papelão. E é o mais emblemático deles. Enquanto o de Artur Azevedo cuida da ignorância soberba de um homem e o de Lim Barreto da corrupção de um homem de princípios reprováveis vivendo em um meio social que atende à sua natureza corrupta, o de João do Rio dá-nos a conhecer a perdição de uma alma íntegra, a de Antenor, Antenor, que, num meio social corrupto, de gente leviana, de mundanos, incompreendido, amargurado, angustiado, decide, certo dia, converter-se em outra pessoa, pessoa que era o oposto dele; a partir de então se faz, de um homem impoluto, um ordinário estróina, que se ocupa em satisfazer seus mais baixos prazeres, animalescos, assim vindo a ser popular entre os da sociedade mundana, de gente de conduta tão degenerada quanto à dele. E ao final da história, tendo a oportunidade de recuperar sua alma original, recusa-se a fazê-lo. Perde-se.

Os três contos fornecem ao leitor ingredientes para a compreensão do espírito brasileiro e da constituição da sociedade brasileira. São imperdíveis.

Pobres liberais! – de Arthur Azevedo

É este conto de Arthur Azevedo divertidíssimo. Uma comédia impagável de um mestre do humor brasileiro. No tempo do império, como o narrador salienta, um presidente de província, o Doutor Francelino Lopes, em excursão pelo interior, em visita à certa cidade, é recepcionado com pompa e luxo pelos munícipes e potentados locais, que em sua homenagem executam o Hino Nacional num ritmo que não lhe era apropriado à seriedade e tampouco a nobreza do homenageado. Enfim, converteu o povo a visita do Doutor Francelino Lopes em uma festa barulhenta, espalhafatosa. Serviram ao visitante banquete suntuoso repleto de delícias capazes de satisfazer o mais exigente dos paladares. Promoveram um baile durante cujo desenrolar o doutor Francelino Lopes dançou com a Baronesa de Santana, esposa de um rico fazendeiro, chefe do partido proeminente na cidade, e após cujo encerramento ele se recolheu ao quarto a ele destinado onde lhe entregou o bacharel Pinheiro um exemplar de A Opinião Pública, jornal do partido conservador, em cujo corpo constava uma biografia do Doutor Francelino Lopes. Saídos todos do quarto, encontrando-se, neste, só, o Doutor Francelino Lopes pôs-se a ler a matéria, que trazia um retrato seu xilografado, no periódico que à mão lhe pusera o bacharel, até o instante em que uma força da natureza, indomável, invencível, fê-lo interromper a leitura e procurar uma vasilha para cujo interior poderia descarregar o que lhe incomodava as vísceras a ponto de desesperá-lo. E foi à procura de um receptáculo para a carga que lhe feria o intestino. Não a encontrou em nenhum lugar daquele compartimento da casa. Aventou a vontade de solicitar aos seus hospitaleiros e solícitos anfitriões uma vasilha; todavia, tão logo se lhe aflorou tal idéia à mente, abandonou-a. Seria constrangedor um homem de sua posição recorrer à tal artifício. Em seu desespero, decidiu, então, abrir, no chão, o A Opinião Pública, sobre o qual despejaria a matéria que seu organismo acumulara. E assim fez. Obrou, como se diz. Concluída a obra, embrulhando-a com o A Opinião Pública, arremessou-a, pela janela, à rua, e foi, de consciência limpa, banhar-se. Em seguida, dormiu. E o seu sono foi encerrado, de manhã, por turbamulta promovida por uma pequena multidão de pessoas indignadas, dentre elas o bacharel Pinheiro. E foi ver o que ocorria: Haviam encontrado o exemplar de A Opinião Pública, no estado imundo em que o presidente da província, forçado por invencível força da natureza, o deixara.
As linhas que encerram o conto são de humor irresistível.
Toda a cena dos apuros em que o presidente da província (província cujo nome não é mencionado pelo narrador) se viu está num vocabulário discreto, educado, que empresta à narrativa comicidade impagável. Fosse Arthur Azevedo escritor desprovido de talento literário, e narrasse o drama de Francelino Lopes com um vocabulário explícito, o conto perderia o seu – vou assim dizer – charme.É este conto imperdível.

Ingleses na Costa – de França Júnior

Em quinze cenas, nesta peça de um ato, França Júnior desenha a desfaçatez e o cinismo de um grupo de moços desocupados, desajustados, velhacos e caloteiros. São eles Félix, Silveira e Feliciano, estudantes, já homens feitos. Ao retratá-los, em caricaturas reveladoras, o autor dá uma pequena amostra da sociedade brasileira do século XIX, sem pretensões a psicólogo profundo; é ele, aliás, analista superficial; na criação de tipos emblemáticos, no entanto, é correto, considerando-se, é claro, os limites de uma despretensiosa comédia de costumes criada para entreter um público não muito exigente. Além de, com o seu dom de comediógrafo, revelar traços deselegantes dos estudantes, o autor reproduz um aspecto do pensamento corrente, então, o da aversão que os brasileiros (pelo menos de uma parcela deles), naquele período da história nacional, nutriam pelos ingleses, os credores do Brasil.
Toda a comédia está ambientada em um quarto de hotel – e personagens relatam cenas sucedidas em outros locais, sendo uma delas a do almoço, na casa do Barão de Inhangabaú, para o qual foi convidado Félix, um dos estudantes, sobrinho de Luís de Castro.
Os três estudantes que protagonizam esta peça, todos levianos, sem um tostão no bolso, estão diante de duas situações difíceis: não têm dinheiro para o almoço; e têm dívidas a saldar. Salva Félix da fome o convite para o almoço na casa do Barão de Inhangabaú; e Silveira e Feliciano, Lulu, amiga deles, que, na companhia de Ritinha, os visita no quarto deles. Aqui se mostra a sem-cerimônia de Félix ao ir à casa do Barão de Inhangabaú (com quem possuía divergência política), não porque se simpatizava com ele, mas para filar um almoço, e, assim, matar a fome que o atormentava, e a de Lulu e Ritinha, que se movem com desembaraço num quarto de homens.
Encaminhando-se a peça para o seu encerramento, anuncia-se Luís de Castro, tio de Félix, que, do Rio de Janeiro, rumara para São Paulo com o propósito de ditar um sermão ao seu sobrinho, mas que, surpreendido por Lulu e Ritinha, que o abordam, atenciosas e mal-intencionadas, e Silveira e Feliciano, o primeiro apanhando-o numa armadilha e chantageando-o, acaba por não empreender o seu propósito original. Outro personagem que dá o ar de sua graça nesta comédia do talentoso França Júnior é Teixeira (credor de Silveira), caolho, alvo das anedotas dos três estudantes.
Assim como em Meia Hora de Cinismo, os personagens desta peça são estudantes desocupados, caloteiros, velhacos, às voltas com dívidas. O microcosmo estudantil brasileiro da época de França Júnior era, se se dar crédito ao autor de Ingleses na Costa e Meia Hora de Cinismo, constituído de criaturas desobrigadas das responsabilidades individuais elementares. O Brasil não mudou muito nestes quase dois séculos.

A “Não-Me-Toques”! – de Arthur Azevedo

São as personagens centrais deste conto de Arthur Azevedo, Antonieta (a Não-Me-Toques), filha do Comendador Costa e D. Guilhermina, e José Fernandes, empregado da casa deste casal desde antes do nascimento de Antonieta, de cujas infância e juventude e princípios da vida adulta foi testemunha privilegiada. De seus pais, Antonieta recebeu educação esmerada, de uma aristocrata, que lhe nutriu a personalidade orgulhosa, suscetível, que a ensinou a se considerar uma entidade superior de cujas mãos nenhum homem era digno. Antonieta Rejeitava todos os seus pretendentes. E o tempo passava. E Antonieta amadurecia. E não se enlaçava em matrimônio com nenhum homem que a requestava, a todos rejeitando, o que desgostava seus pais.
Após um malfadado empreendimento financeiro vem o Comendador Costa a contrair dívidas, que quase o arremessaram na miséria, obrigando-o a assinar concordata. Recuperava-se do golpe quando a morte o abateu, deixando ele viúva e filha em situação embaraçosa, da qual retirou-as José Fernandes ao associar-se a D. Guilhermina numa firma, a Viúva Costa & Fernandes, que prosperou, restabelecendo a situação econômica da família anterior à fracassada aventura financeira do patriarca falecido.
E o destino pregou outra peça em Antonieta: Faleceu-lhe a mãe. Agora, órfã, Antonieta sentiu-se obrigada a propôr casamento a José Fernandes, que, ao ouvir, dela, a proposta, regozijou-se, pois iria, enfim, realizar o seu sonho, o de casar-se com a mulher que, em segredo, amava. E casaram-se José Fernandes e Antonieta. A vida em comum com sua consorte reservou a José Fernandes surpresas desagradáveis, que muito o entristeceram. E o fim dele, trágico, foi a consequência de uma alma decepcionada.

Uns Braços (Várias Histórias) – de Machado de Assis

Um conto singelo de Machado de Assis, escritor que, muita gente entende, era desprovido de imaginação, e dono de uma obra que peca pela ausência de paixões humanas, no dizer daqueles que não a apreciam. Uns Braços, do volume Várias Histórias, impressiona todo leitor sensível. É seu tema a paixão platônica de um jovem de quinze verões pelos braços de uma mulher de vinte e sete primaveras. Este é o fio condutor do enredo. Em certo trecho da aventura, revela-se a confusão de sentimentos da mulher pelo jovem que lhe admira, apaixonado, os braços. Sente-se a mulher amada, e insegura, ao saber do amor que ele lhe tem. É o herói da história, Inácio; e o objeto de sua paixão, D. Severina, que vive maritalmente com Borges. A vida do jovem Inácio, que mora na casa de Borges, para quem trabalha, é solitária, rotineira, entediante, e dela ele pretende fugir, indo-se embora; todavia, ele, atraído pelos braços de D. Severina, permanece na casa, aturando os impropérios e as descomposturas do irascível, grosseiro e mal-humorado Borges, sujeito intragável. Sob as ordens deste, desimcumbe-se – nem sempre a contento, pois mergulha, com frequência, em devaneios nos quais se perde, gostosamente, animando-os os braços nus de D. Severina – Inácio de seus afazeres, nas visitas a cartórios, em suas relações com distribuidores, escrivães e oficiais de justiça. Um dia, D. Severina, pensativa, suspeita da causa da distração de Inácio; e esforça-se para afastar de si tal suspeita -, em vão, pois a realidade lha confirma. Modifica, a partir de então, o seu trato com o jovem Inácio; com rispidez responde-lhe; e por poucos dias conserva tal postura; logo põe-se a tratá-lo com desvelo de mãe e carinho de irmã mais velha. Em um certo domingo, dormia a sono solto Inácio, estendido, em seu quarto, numa rede, a porta aberta, e à porta pôe-se D. Severina, que fica a observá-lo em sono profundo. E sonhava Inácio. E era D. Severina a sílfide que lhe animava o sonho, que lhe traduzia os mais íntimos desejos. E no sonho colaram-se os lábios de Inácio e os de D. Severina. E não apenas no sonho. Foi simultâneo, no sonho e na realidade, o beijo. E para Inácio existiu o sonho, o sonho unicamente, sonho do qual recordaria, muitos anos depois, com agrado.
Neste conto, Machado de Assis conserva-se num plano mais elevado do que o nos quais se encontram os seus rivais. Não desce ao sentimentalismo insensato ao descrever o que vai na alma dos amantes, recheando-o de imagens piegas para traduzir os sentimentos das suas personagens, e tampouco é vulgar na exposição de cenas que animam a imaginação lúbrica de Inácio, jovem de quinze anos cuja mente concebe cenas repletas de luxúria, sob inspiração da figura de uma bela mulher pródiga de encantos; limita-se a descrever-lhe o que lhe vai no espírito, sem a pieguice e excesso de sentimentalismo dos românticos exaltados e sem a vulgaridade obscena dos realistas depravados.
Nesta segunda década do século vinte e um, época em que as mulheres exibem, publicamente, as costas, os pés, as pernas, a barriga, as coxas, e não apenas a cabeça, as mãos e os braços, e as desinibidas, ausentes de pudor, desembaraçadas, seminuas, expõem, e não unicamente no litoral, durante um banho de sol, mas em qualquer ambiente, o corpo, constrangendo os que lhes fitam, o criador de Simão Bacamarte, se vivo, jamais escreveria um conto tão singelo. Talvez.

Entre Santos (Várias Histórias) – de Machado de Assis

Conto inusitado, para um escritor inscrito na escola realista – o que me faz pensar o que querem dar a entender os críticos literários por realismo em literatura de ficção. No caso de Machado de Assis, o seu pessimismo!? Não digo que ele fosse pessimista. Ele era um descrente!? Talvez. Não sei se o era. Considerando este conto, unicamente, o Bruxo do Cosme Velho, criador de obras imortais da literatura brasileira, apresenta-se-me como um homem descrente das virtudes humanas, seres, para ele, incapazes de cumprir os mais simples deveres morais, pois sucumbem aos vícios da carne, aos desejos materiais, para gozarem de veleidades, às quais não podem resistir e elevarem-se à condição superior de seres de dons que, tendo origem na alma, transcendem o corpo. Para o criador de Capitu, o corpo é mais poderoso do que a alma.
No início, eu disse que é este conto, do volume Várias Histórias, inusitado, se se entender seu autor da escola realista. E inusitado é, independentemente do rótulo que se cola em quem o imaginou, tendo-se em vista as suas peculiaridades, que, entendo, fazem dele obra de um literato dotado de mais criatividade do que nele reconhecem.
O conto está em primeira pessoa. Um padre velho narra um episódio de sua biografia: capelão de S. Francisco de Paula, em uma noite – as portas da igreja fechadas – viu, por sob uma delas, luz no interior da igreja. Surpreso, assustado, decide, hesitante, amedrontado, de posse de uma lanterna, averiguar o que se dava nos domínios da igreja, desarmado, tremendo tal qual vara verde. Ouve vozes. Acredita tratarem-se de de ladrões. E anuncia o narrador evento assombroso, extraordinário, que, suspeito, nenhum leitor, antes de chegar neste ponto do relato, imaginara. E aqui está o inusitado. As imagens dos santos São José, São Miguel, São João Batista, São Francisco de Sales e São Francisco de Paula, descidos cada qual de seu nicho, sentados nos altares, parlamentavam. E o capelão refugia-se num canto escuro, e ouve a conversa dos santos.
Linhas acima eu afirmei, com outras palavras, que tenho no criador do Quincas Borba um homem descrente no poder do espírito sobre o corpo, e aqui, em poucas palavras, reforço a minha afirmação: evocando as duas histórias contadas, pelos santos, a primeira, a de uma adúltera, por São José, e a segunda a de um usurário e avarento, por São Francisco de Sales, em ambas as duas histórias, os fiéis, a adúltera e o usurário e avarento, que haviam recorrido aos santos em busca de indulgências, oravam, mas, enquanto oravam, perdiam-se em pensamentos reprováveis, a adúltera evocando o seu amante, o usurário e avarento o seu dinheiro. Ao caso deste o autor dedicou mais linhas do que ao daquela; revelou a mesquinhez de Sales, que recorrera ao santo para São Francisco de Sales para que ele intercedesse pela esposa, doente de erisipela em uma das pernas. Sales amava-a, deveras, mas sacrificava seu coração à outra paixão… Deixo as reticências.
Neste conto o criador de Brás Cubas exige leitores atentos. Não é Machado de Assis um escritor que deixa suas idéias explícitas aos leitores. Ele pede leitores que detectam as sutilezas de seu estilo narrativo inconfundível.

Meia Hora de Cinismo – de França Júnior

Nesta peça de um ato o comediógrafo França Júnior, um dos mais populares autores brasileiros do século dezenove, infelizmente esquecido, descreve as aventuras inconsequentes de um pequeno grupo de segundanistas e um primeiranista de uma escola de Direito. São os segundanistas Nogueira, Frederico, Macedo e Neves alunos relapsos, vadios, que vivem de atormentar Trindade, o primeiranista, calouro orgulhoso de seu sucesso ao ingressar, saindo-se maravilhosamente bem na sabatina, na escola de Direito. Trindade irrita-se com os apupos que os veteranos lhe disparam, ferindo-lhe a vaidade de homem em seus primeiros passos na vida adulta, a ponto de fazê-lo perder as estribeiras e ameaçar agredi-los; mas em nenhum momento ele executa os seus propósitos concebidos quando o sangue lhe ferve nas veias sempre que eles o fazem alvo de gozações. Vai ao ponto de preparar a sua transferência da república que os segundanistas ocupam para outra, mas é dissuadido de o fazer por eles, e com eles, comemorando a reconciliação, bebe de duas garrafas de vinho, e, embriagado, oferece um espetáculo constrangedor.
O ambiente em que se movem Trindade e os segundanistas Nogueira, Frederico, Macedo e Neves, e Albuquerque, Inácio e Martins, e Taborda e Vilares, estes cinco mencionados por outro personagem, mas em nenhum momento dando o ar de suas graças, é de desleixo, os alunos, despreocupados, a se deliciarem com uma vida de aventuras irresponsáveis e inconsequentes, afundados em carraspanas a ponto de, a mente em torvelinho, perderem a consciência de seus atos, exibindo espetáculos grotescos,- nada diferente da juventude atual, que, nas faculdades, perdem-se em aventuras alucinógenas, sexo desenfreado, desprezo pelo conhecimento e desamor pela verdade.
Os personagens são dados com um misto de descrição realista e caricatural, salientados alguns, ou um, dos principais traços deles, para criar um clima de atritos entre eles, no que é bem-sucedido o autor. É possível imaginar em movimento Trindade, Macedo, Frederico, Nogueira e Neves, e Jacó, credor de Macedo, personagem que ao proscênio se dá nas cenas finais da peça. E é Jacó o antagonista dos segundanistas. Aqui, destaca-se, na relação entre os segundanistas e Jacó, a ambiguidade moral dos primeiros: entendem eles que Macedo, de boa família, não tem responsabilidade nenhuma pela dívida que contraíra, num jogo, ao assinar uma ‘letra’ para Jacó, que é, segundo Nogueira, um ladrão, que usa de papéis, pena e tinta para roubar as suas vítimas. A peça, simples, de vinte páginas, representa, magistralmente, com despretensão, em tom jocoso, a corrupção moral de estudantes, um microcosmo social em que os papéis estão invertidos, ou travestidos em outro, numa confusão demoníaca. Não condena nenhuma personagem o autor. Ele descreve, unicamente, tal minúsculo mundo. Anima as personagens, movimenta-as com a destreza de talentoso escritor, dono de senso de humor incomum, rival de Martins Pena e Artur Azevedo, outros mestres da comédia brasileira. Algumas cenas são impagáveis; a reação de Trindade às zombarias de seus colegas, exagerada, revela o seu caráter fraco, sua personalidade frágil, sua debilidade psicológica, dai ele cair facilmente num estado de semiconsciência, entorpecido pelo vinho, a oferecer um espetáculo grotesco de tão patético, de tão ridículo. De temperamento suscetível ao meio, por este não passa incólume; é por ele derrotado, e a ele sucumbe, sem esboçar reação. É ao final, ele, convertendo-se num trapo, é feito pelos colegas de gato sapato, como diz o dito popular. França Júnior foi certeiro ao apontar o relativismo moral de estudantes e a debilidade psicológica de uma personalidade sensível, imatura, orgulhosa e pretensiosa. Descreve, com despretensão e perspicácia, em quatorze cenas, o microcosmo estudantil do século dezenove, microcosmo que, em sua essência, não se distingue do microcosmo estudantil do século vinte e um.

A Cartomante (Várias Histórias) – de Machado de Assis

A Cartomante é o primeiro conto do volume Várias Histórias, de Machado de Assis. Está narrado no ritmo inconfundível do Bruxo do Cosme Velho, ponderado e ausente de emoções, embora trate de emoções, e de fortes emoções, dos três personagens principais, Camilo, o protagonista, e Vilela e Rita, seus coadjuvantes. Além destes três, há dois personagens secundários, a cartomante e o cocheiro, este, um figurante, aquela, de papel fundamental no desenlace da trama.
Camilo, cético, não crê em poderes místicos, em forças que transcendem a realidade. Contrariara a vontade de seu pai, que o queria médico, e amargava uma vida de desocupado, até obter, por intervenção de sua mãe, já viúva, que lhe viera ao socorro, uma sinecura. Vilela, seu amigo desde a infância, agora magistrado, reencontrara-o após regressar, casado com Rita, moça bela e tonta, da província.
Em decorrência da morte de seu pai,  Camilo renova os vínculos de amizade com Vilela, e estabelece amizade com Rita, que o consola, e passa a frequentar, com assiduidade, a casa do casal de amigos, e é tal a sua intimidade com Rita que, desconsiderando sua amizade fraternal com o marido dela, com ela estreita os laços de amizade, que se convertem em amor mútuo.
Recebe, certo dia, uma carta anônima, misteriosa, insultuosa, que lhe anuncia conhecer-lhe o segredo, que não é mencionado. Decide, então, intrigado, presumindo que Vilela sabia de seu caso com Rita, distanciar-se do casal, cessando as visitas à casa. E é neste ponto da trama que Rita, curiosa para conhecer as causas do procedimento distante de Camilo, decide consultar a cartomante.
E Camilo recebe outras duas cartas, que o põem de sobreaviso.
E parlamentam Camilo e Rita, que preparam meios para tirarem de Vilela, então taciturno, respostas que dele esclarecesse a conduta sombria.
Um dia recebe Camilo uma carta de Vilela, carta que trazia poucas palavras: “Vem, já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Tais palavras transtornam o espírito suscetível de Camilo, que se amedronta, suspeitando que seu amigo estava ciente da traição.
Passando, de tílburi, pela Rua da Guarda Velha, então bloqueada por uma carroça, Camilo vê a casa da cartomante, e após um momento de hesitação, perturbado, decide adentrar-lhe as entranhas e consultar a cartomante, de quem ouve palavras alvissareiras, que ele nada temesse.
Nas linhas seguintes, Machado de Assis, falando da barcarola cantada pela cartomante e repetindo a frase desta “ragazzo innamorato”, que, dita por ela, fizera Camilo abandonar os pensamentos sombrios que o fustigavam, envolve o leitor, preparando-o para o desenlace da trama. E foi Camilo, atendendo ao pedido – que lhe soou, então, como uma solicitação de ajuda, urgente – de Vilela, à casa dele. Lá chegando, abre a porta… Aqui, são indispensáveis as reticências.
Machado de Assis, com a sua proverbial sutileza, que lhe fez a fama, trata, neste conto, de adultério, sem descer às minúcias que outros escritores, desbragados e faltos de talento literário, descrevem gostosamente, e de paixões humanas incontroláveis.
É A cartomante um conto imperdível, para o gosto dos apreciadores de boas tramas de suspense.
Polifonia Literária

Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

divinoleitao.in

Rede pessoal de Divino Leitão.

Reflexões para os dias finais

Pensamentos, reflexões, observações sobre o mundo e o tempo.

PERSPECTIVA ONLINE

"LA PERSPECTIVA, SI ES REAL, EXIGE LA MULTIPLICIDAD" (JULIÁN MARÍAS)

Pensei e escrevi aqui

— Porque nós somos aleatórias —

On fairy-stories

Fantasia, Faërie e J.R.R. Tolkien

DIÁRIO DE UM LINGUISTA

Um blog sobre língua e outros assuntos

Brasil de Longe

O Brasil visto do exterior

Cultus Deorum Brasil

Tudo sobre o Cultus Deorum Romanorum, a Antiga Religião Tradicional Romana.

Carlos Eduardo Novaes

Crônicas e outras literatices

Coquetel Kuleshov

um site sobre cinema, cinema e, talvez, tv

Leituras do Ano

E o que elas me fazem pensar.

Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

LER É UM VÍCIO

PARA QUEM É VICIADO EM LEITURA

Velho General

História Militar, Geopolítica, Defesa e Segurança

Espiritualidade Ortodoxa

Espiritualidade Ortodoxa

Entre Dois Mundos

Página dedicada ao livro Entre Dois Mundos.

Olhares do Mundo

Este blog publica reportagens produzidas por alunos de Jornalismo da Universidade Mackenzie para a disciplina "Jornalismo e a Política Internacional".

Bios Theoretikos

Rascunho de uma vida intelectual

O Recanto de Richard Foxe

Ciência, esoterismo, religião e história sem dogmas e sem censuras.

.

.

Prosas e Cafés

(...) tudo bem acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar - Caio Fernando Abreu

OLAVO PASCUCCI

O pensamento vivo e pulsante de Olavo Pascucci

Clássicos Traduzidos

Em busca das melhores traduções dos clássicos da literatura

Ensaios e Notas

artes, humanidades e ciências sociais

Minhas traduções poéticas

Site de tradução de poesias e de letras de música

Além do Roteiro

Confira o podcast Além do Roteiro no Spotify!

Farofa Filosófica

Ciências Humanas em debate: conteúdo para descascar abacaxis...

Humanidade em Cena

Reflexões sobre a vida a partir do cinema e do entretenimento em geral

resistenciaantisocialismo

Na luta contra o câncer da civilização!

História e crítica cultural

"Cada momento, vivido à vista de Deus, pode trazer uma decisão inesperada" (Dietrich Bonhoeffer)

Devaneios Irrelevantes

Reflexões desimportantes de mais um na multidão com tempo livre e sensações estranhas

Enlaces Literários

Onde um conto sempre puxa o outro!

Ventilador de Verdades

O ventilador sopra as verdades que você tem medo de sentir.

Dragão Metafísico

Depósito de palavras, pensamentos e poesias.

%d blogueiros gostam disto: