Amos Oz, Fernando Sabino, Rodrigo Gurgel, Dostoiévsli, Kafka, Monteiro Lobato, Mário de Andrade. Gianfrancesco Guarnieri. Notas brevíssimas.

Sumri, de Amos Oz, é um livro cativante, sensível.

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Martini Seco, conto, que aqui não conto, de Fernando Sabino, é uma divertida sátira dos romances policiais. A cena final, hilária.

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Para Rodrigo Gurgel, professor, escritor e crítico literário, são os três escritores fundamentais da literatura brasileira Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Graciliano Ramos.

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Após a leitura de Crime e Castigo, de Dostoiévski, e O Processo, de Kafka, não se recupera jamais a sanidade.

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Pergunto-me se Jeca Tatu e Macunaíma eram tipos brasileiros comuns, ou se, de tão raros, atraíram a atenção, o primeiro, de Monteiro Lobato, o segundo, de Mário de Andrade, ou se são criações literárias que simbolizavam as leituras singulares que seus criadores faziam da realidade.

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Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, é um panfleto ideológico apenas. Em tal peça, condena-se o homem que não se submete à classe à qual dizem que ele tem de pertencer e que sonha com sua ascensão social.

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A Lotação dos Bondes – de França Júnior

Desencontra-se num bonde lotado, durante a agitação de um dia de carnaval, Joaquim Pimenta de sua esposa Josefa Pimenta; e Ramiro de Elvira, sua filha. E Joaquim procura por sua esposa, que vai ter a uma casa; e Ramiro, por sua vez, à procura de sua filha, que fôra a mesma casa. O destino providenciou a ida das duas mulheres à mesma casa. E foram ambos os homens, que estavam à procura, um, Ramiro, de sua filha, outro, Joaquim Pimenta, de sua esposa, à mesma casa.

No desenrolar da trama, saiu da casa uma turma de foliões carnavalescos, integrantes do grupo Tenentes do Diabo, Vitorino, Ernesto, Gonzaga, Magalhães e Carneiro, menos um deles, Camilo, que, pretendente à mão de Elvira, conserva-se na casa, na companhia dela.

E na casa, Joaquim Pimenta, ao se deparar com Camilo e Josefa, juntos, conclui que ele a requestava, e ele, Camilo, acredita que Joaquim Pimenta é o pai de Elvira. Dá-se uma confusão, que se desfaz assim que Ramiro, encontrando-se com Elvira, na presença de Camilo, a este se dá a conhecer como o pai dela, esclarecendo-se o caso.

Esta peça, de um ato desenrolado em dezesseis cenas, não contêm elementos que lhe conferem humor, não faz rir; foi escrito num momento de nenhuma criatividade; nem sequer a cena que narra a confusão entre Joaquim Pimenta e Camilo lhe confere teor cômico. É desprovida dos elementos cômicos que França Júnior, com desembaraço e desenvoltura, fez bom uso nas suas melhores peças “Defeito de Família”, “O Tipo Brasileiro”, “Maldita Parentela” e “Dois Proveitos em um Saco”.

Dois Proveitos em um Saco – de França Júnior

Em um ato, desenrolado em seis cenas, nesta divertida, despretensiosa e bem realizada comédia, França Júnior prova que a mulher, quando quer ludibriar os homens, ludibria-os com uma facilidade estonteante, atuando com uma sagacidade admirável, invejável. Amélia Teixeira, a protagonista desta surpreendente, em sua simplicidade, peça, participa, com seu marido, Luís, de um jogo, o Philippina, que consiste em: duas pessoas participam: na entrega de um objeto de um deles para o outro, ganha o jogo quem primeiro diz: “J’y pense”, e o perdedor fica obrigado a atender ao desejo do vencedor, desejo previamente definido. Amélia gabava-se da infalibilidade das mulheres em tal atividade lúdica. Antes de se retirar de sua casa para ir ao Rio, Luís aceitara o pedido que sua esposa lhes fizera, o de participar do jogo; ele deveria, portanto, ao regressar à sua casa, e assim que recebesse de Amélia, ou desse para ela, um objeto, se lhe antecipando, dizer “J’y pense.” Revelo, aqui, o fim do jogo, não da peça: Amélia vence Luís. Aqui, nenhuma surpresa. Ao revelar tal informação, não estou a destruir de quem me lê o prazer da leitura de Dois Proveitos em um Saco, pois o ponto principal da peça eu não revelo.

Em uma cena, apresenta-se ao proscênio um coadjuvante desabusado, Boaventura Fortuna da Anunciação – o nome contrasta com a postura de quem o carrega –, que entra, sem se anunciar, na casa de Luís e Amélia, dá notícia da sua estadia, praticamente obrigando Amélia a acolhê-lo. A entrada em cena de tal personagem causa estranheza a quem lê a peça, estranheza equivalente a provocada em Amélia. É Boaventura Fortuna da Anunciação um celibatário; ele apresenta à Amélia um livro, “Manual Prático do Celibatário”, cujo teor, diz, consiste em apresentar todos os recursos que as mulheres empregam para enganar os homens. Mal sabia Boaventura Fortuna da Anunciação que Amélia lhe iria ensinar um outro recurso, desconhecido do autor do livro.

Trustália, uma quase distopia – de Magno Mello

Uma galeria de dezenas de personagens ocupa as páginas deste livro de capítulos curtos subdivididos em episódios que se desenrolam em poucas linhas, alguns destes, os mais extensos, em três, quatro páginas. Está centrada a história nos eventos sucedidos em Trustália, um vilarejo situado nas cercanias de Paraíso e de Arrabalde. Tem início o relato com um evento inusitado, um fenômeno inédito, testemunhado por sete pessoas, todas de Trustália: uma luz amarela manifestou-se nos céus do povoado; e a partir deste fenômeno os moradores de Trustália revelam o dom de ler os pensamentos alheios. Ao ler as primeiras linhas, o leitor prepara-se para ler um relato fantástico, mas o autor, Magno Mello, não lhe satisfaz as expectativas, pois prende-se em pequenos relatos de eventos ocorridos, no povoado, nos anos que antecederam o estranho fenômeno luminoso e suas consequências extraordinárias. Descreve o livro um microcosmo social, o vilarejo de Trustália, uma civilização em miniatura, onde convivem tipos humanos dotados que o autor soube descrever com inteligência ao narrar os episódios que eles protagonizam. É a narrativa um caleidoscópio, as personagens entrechocando-se e revelando-se, nas colisões entre si, detalhes ocultos até então.Coadjuvado por Seu Vincente, José Inácio, Ariana, Romão, Padre Antero, professora Poliana e outros personagens, Ualter Carlos revela-se o protagonista, que tem no Comandante seu antagonista. É Comandante, cujo nome de batismo é Evilário Mouravia Montepreto, o “dono de quase tudo”, o fundador do vilarejo Trustália, o homem que o governa com mãos de ferro. As personagens reservam muitos segredos, não raros íntimos, que conservam de todos ocultos a sete chaves, mas o dom que adquiriram após a manifestação da luz amarela, dom que lhes permite ler pensamentos alheios, trá-los à superfície, e um deles referia-se à morte dos pais de Ualter Carlos.O autor mal emprega o recurso que dá o pontapé inicial do seu relato, o talento – que todos os moradores de Trustália adquiriram à manifestação da luz amarela – de ler os pensamentos alheios; dedica-se ao relato, em recortes curtos, de eventos anteriores ao fenômeno que dotou as personagens do extraordinário talento; indica, assim, entendo, que não soube o que saber com o recurso – que me parece dispensável dado o tratamento que o autor lhe dedica – que tinha em mãos.Revela Magno Mello três virtudes: domínio da técnica narrativa, que lhe permite costurar os episódios, em curtos recortes, entremeando passado e presente; bom vocabulário; e, controle da ação de dezenas de personagens, que se contracenam.Não me agradou o livro; e nem me desagradou. Generoso com o autor, digo que o livro tem mais pontos positivos do que negativos.

Chico – de Arthur Azevedo

A pedido de seu médico e amigo, o Doutor Miranda, Chico, homem prestativo e solícito, investiga a biografia de Alexandrino Pimentel, pretendente à mão de Maricota, mulher de trinta e sete anos, solteira, irmã do Doutor Miranda. Vem Chico a descobrir que havia sido Alexandrino Pimentel, casado com a filha de Trancoso, e foi ter com este, em Copacabana, após procurá-lo em Inhaúma, de onde se transferira para Copacabana seis meses antes, e dele ouviu palavras que descreviam o pretendente à mão da irmã do Doutor Miranda como um tipo asqueroso, de baixa estirpe, iníquo, desprezível. Incrédulo, suspeitando que Trancoso, homem mal-humorado e irascível, exagerava nas tintas que usara para pintar o homem que fôra seu genro, persistiu na investigação, vindo a confirmar, ouvindo palavras saídas de outras bocas, a má reputação que de Alexandrino Pimentel o sogro deste lhe pintara. Tão logo encerrou a sua aventura detetivesca, Chico, obsequioso, tratou de transmitir ao Doutor Miranda as notícias que lhe chegaram ao conhecimento. Contou-lhe tudo que sabia, e do que soube falou para Maricota, que se enfezou, fincou pé, e, destemida, disse amar Alexandrino Pimentel. E com este casou-se Maricota, contrariando seu irmão, que se resignou, afinal, era Maricota adulta, mulher de trinta e sete anos, e cabia a ela, e apenas a ela, ciente do temperamento e da reputação de Alexandrino Pimentel, decidir se viveria, ou não, com ele, maritalmente. E o universo pregou uma peça no prestativo Chico, pois a vida em comum entre Alexandrino Pimentel e Maricota não correspondeu ao vaticínio que todos deram ao considerarem o passado de Alexandrino Pimentel.

A Mulher que Fugiu de Sodoma – de José Geraldo Vieira

Poucos livros agarraram-me pelo pescoço, e soltaram-me só depois de eu ler-lhe a última de suas palavras. A Mulher que Fugiu de Sodoma é um deles. Está vazado num estilo simultaneamente simples e sofisticado, de bom gosto literário. É uma narrativa cativante, o autor a retratar o seu herói com sensibilidade rara, incomum, dedicando-lhe amor e carinho paternais, severo e ao mesmo tempo meigo, a cuidar dele com desvelo, porque sabe – afinal, é-lhe o criador – que ele irá se perder, e sua onisciência fá-lo disposto a compreendê-lo, respeitá-lo, amá-lo.

Narra José Geraldo Vieira a queda do médico Mário Montemor, que se vê em apuros devido ao seu vício em jogos (de azar, para muitos; de sorte, para poucos, os escolhidos; de muita, muita sorte, para os donos da banca). Faltando à lealdade ao doutor Silva Soares, vem Mário Montemor a lhe dever uma soma impagável. Após inteirar sua esposa, Lúcia Montemor, da situação em que se pusera, ela, dedicada, sai em busca do dinheiro correspondente ao valor da dívida que ele contraíra, e teria de arrumá-lo até a data aprazada pelo credor. Recorre Lúcia Montemor à Natália Cordeiro, sua prestimosa e solícita amiga, e à sua tia Marta, que lhe dedica amor inexcedível, e, enfim, à Ana Maria, sua amiga, esposa de Nuno de Almada, empresário miliardário, magnata brasileiro, cuja riqueza se rivaliza com a dos potentados europeus. Bem-sucedida em sua empresa, livra seu marido do apuro em que ele se pusera, mas ele não se emenda. A morte do “Segundo Clichê”, menino que vendia jornais, filho de Justiniano, foi, entende Lúcia Montemor, consequência do descaso, da irresponsabilidade de Mário, de quem ela se afasta. Lúcia Montemor recorre à tia Marta, que a acolhe. Ana Maria pede à Lúcia que ela lhe seja preceptora da filha, Leonor, e ela não se faz de rogada e transfere-se para a casa dos Almada. Neste meio tempo, Mário Montemor, após vender alguns de seus pertences, e com o dinheiro da venda saldar algumas dúvidas de jogo, recorre ao seu tio Zózimo, que o repreende, exorta-o a ir à Europa estudar medicina e se compromete a sustentá-lo durante os anos de estudos. Mário aceita-lhe a oferta, e embarca para a Europa, e instala-se em Paris. No início, ele se dedica aos estudos, aprimora os seus conhecimentos; e diverte-se com a modelo Pervanche, de quem se torna amante. Mas não persiste nos estudos; logo perde-se, o jogo o excita; aposta boa soma em corridas de cavalos; contrai dívidas. E morre-lhe o tio Zózimo, que lhe enviava, mensalmente, dinheiro para o sustento. Endividado, sem rumo, reduzido, devido o seu vício do jogo, à miséria, envolve-se com criminosos; encontra moradia na rua. Adoece. Amigos o acolhem, ajudam-lo, dele cuidam. E o que lhe sucede o leitor saberá ao ler o livro.

O leitor percebeu que eu falei de Mário Montemor, mais dele do que de qualquer outro personagem, e concluiu que é ele o herói do drama que nos conta José Geraldo Vieira, e pergunta-se porque é o título do livro A Mulher que Fugiu de Sodoma. É Lúcia Montemor, esposa de Mário Montemor, a personagem que, ausente da maioria dos episódios do romance, está presente em toda a obra, da primeira à última linha, em todos os episódios, pois é a figura dela que Mário Montemor tem em seus pensamentos; ela está nos sonhos dele, nos pensamentos dele; ele a tem consigo todo o tempo. É Lúcia Montemor a personagem central do romance, seu coração, sua alma. Mulher dedicada ao marido, de alma pura, ela recusa a Sodoma que o mundo lhe oferecia, oferta que lhe redundaria, se ela a aceitasse, na perdição da alma. A cena derradeira da sua aventura ilustra a sua rejeição à Sodoma.

É o livro de José Geraldo Vieira, A Mulher que Fugiu de Sodoma, uma obra magnífica, uma obra-prima da literatura brasileira. De leitura agradável. De estilo primoroso. Anima-a personagens cativantes. Em poucas horas de leitura, segui Mário Montemor em suas desventuras dramáticas, narradas com esmero, e simpatizei-me com ele.

Apenas os mestres da literatura conhecem a fórmula mágica da criação de personagens humanos, autenticamente humanos. E José Geraldo Vieira é um deles.

O Capitão dos Andes (História Pitoresca de um Caudilho) – de Raymundo Magalhães Júnior

Prendeu-me este livro a atenção, e desde a primeira página. E com a leitura, interrompida poucas vezes para a execução de algumas atividades, e para dormir uma noite, aumentava o meu apreço pelo livro, que me surpreendeu favoravelmente, e pelo autor, que se me revelou um escritor primoroso, dotado de recursos literários que lhe permitem o controle da narrativa, a correta exposição da trama, e a exibição das personagens, que se revelam em sua integridade. Pediu-me, melhor, exigiu-me, o livro leitura dedicada, atenta, o que nenhum esforço me custou, afinal, além de escrito com esmero, não descarrega informações que em nada o enriquecem. E não moveu o autor a pretensão de escrever uma obra imorredoura; ele se limitou a romancear um fato histórico sucedido, em meados do século XIX, na Bolívia.

É O Capitão dos Andes (Histórica Pitoresca de um Caudilho) um romance histórico. É pitoresca, e patética, ridícula, tragicômica, a história de Dom Manuel Mariano Melgarejo, que é identificado ora como Dom Mariano, ora como General Melgarejo. A aventura se deu em meados do século XIX, o Brasil então sob o Império de Dom Pedro II. Político aventureiro, de mentalidade totalitária, bate-se Dom Manuel Mariano Melgarejo, numa guerra caudilhista, com Isidoro Belzu e é por ele derrotado. Seu inimigo não era flor que se cheirasse. E Dom Manuel Mariano Melgarejo não se lhe sobressaía em virtudes. Embora suplantado em combate pelo seu rival, acaba por eliminá-lo numa ação arriscada, temerária, surpreendentemente bem-sucedida: o da invasão do Palácio do Governo, em La Paz, empregando artifícios grosseiros que se lhe revelaram favoráveis.

Após assumir o poder na Bolívia, Dom Manuel Mariano Melgarejo empreende ações que lhe satisfazem as ambicões totalitárias. Conhece Juanita Sanchez, moça de atrativos que o seduzem, e ele, mesmerizado pela beleza de tal moça, pobre, órfã de pai, vivendo com a mãe, na companhia de um irmão e uma irmã, e que vivia da pouca renda que auferia de um botequim, adota-a como a sua preferida, convertendo-a na Dona Juanita Sanchez, a única pessoa que tem o poder de lhe impor a vontade e impeli-lo a reconsiderar algumas de suas ações assassinas. Não demora muito tempo, enfrenta sedições, que nascem da urdidura conspiratória de Castro Arguedas (e de outros aventureiros), que o confronta em batalha sangrenta, e o derrota.

À medida que amplia-se o seu poder com a eliminação de seus adversários e com a subjugação da aristocracia de La Paz, Dom Manuel Mariano Melgarejo intensifica a política plenipotenciária, massacra os dissidentes, rouba aos nativos suas terras, deporta os insubmissos, dissipa os recursos públicos, humilha o povo; todavia, na mesma proporção do seu ganho de poder aumenta o descontentamento da população, que deseja alijá-lo do Palácio do Governo, mas que, sem os meios para empreender a ação que resultará em tal ato, resigna-se. E sucedem-se as expropriações de propriedades e de terras, sob a responsabilidade do General Antezana, que, na sua caça aos índios, invade território peruano, criando um incidente diplomático com o governo peruano. No uso da força, conquista Dom Manuel Mariano Melgarejo a lealdade da imprensa. E seguem-se as orgias, as bebedeiras, no Palácio do Governo. E para agradar Dona Juanita Sanchez, que deseja brilhar na alta sociedade, aritocrática, de La Paz e comprar-lhe jóias e vestidos suntuosos, confisca propriedades e arquiteta uma tama, que consiste numa falsa acusação de conspiração contra os aristocratas de La Paz que não se lhe haviam curvado, submissos. E tão bem urdida, que os subjuga. Após ameaçar matá-los, finge atender às súplicas das esposas deles, e liberta-os.

Tem, agora, Dom Manuel Mariano Melgarejo, os aristocratas sob sua vontade, todos a se genuflexionarem diante dele, reverentes e amedrontados, e de Dona Juanita Sanchez, que passa a ser admirada pelas aristocratas, que antes a desdenhavam. E seguem-se as deportações dos inimigos do governo. E os massacres. E os fuzilamentos.

Ao mesmo tempo que se dedica às negociações com o Conselheiro Lopes Neto, representante do Império do Brasil, acerca das demarcações fronteiriças entre a Bolívia e o Brasil, Dom Manuel Mariano Melgarejo, antes de convocar uma Assembléia Constituinte e votar nova constituição (que perderia validade logo após promulgada, pois ele considerava-a um empecilho à sua ambição de exercer plenos poderes), eliminou da vida pública, com exílio ao Chile e ao Peru, e à morte, seus adversários. Promulgada a Nova Constituição, que ele revogou após um louco atacá-lo, aproveitou, sem titubear, do incidente, e gritou aos quatro ventos que havia contra seu governo uma conspiração, que ele cuidou abortá-la em seu nascedouro. E seguiram-se massacres, fuzilamentos, expropriações de terras. E sublevações de índios. E sedições.

O povo, massacrado, humilhado, na iminência de ser dizimado, encontra forças, que se acreditava inexistentes, para reagir contra Dom Manuel Mariano Melgarejo, o homem que o maltratava com crueldade diabólica e de quem a imprensa local escrevia hagiografias.

A história do caudilho boliviano revela o que há de mais tétrico, de mais asqueroso, de mais repulsivo, de mais condenável, de mais insano, de mais doentio, na alma dos homens dotados de mentalidade revolucionária, totalitária. Narra a vida de um homem que, na presunção de entender-se um ser superior, uma entidade privilegiada provida de poderes divinos, dotado do poder de governar o mundo, revela-se, não o ser supremo que ele pensa ser, mas um sujeito reles, minúsculo, desprezível, patético, ridículo, o suprassumo da animalidade humana. É Dom Manuel Mariano Melgarejo um emblema do caudilho e de todos os homens que almejam o poder absoluto.

Merece O Capitão dos Andes (História Pitoresca de um Caudilho), de Raymundo Magalhães Júnior, leitura atenta e divulgação. É livro de escritor consciencioso. De leitura agradável. E instrutivo.

X e W – de Arthur Azevedo

Era Xisto um carioca muito feio, de olhos esbugalhados, orelhas enormes, boca deveras larga, de andar desengonçado; enfim, era Xisto um tipo que nenhuma mulher apreciava. E ele adorava a beleza feminina; não podendo ter belas mulheres aos seus braços, com elas sonhava. Em uma certa manhã, a linda viúva de trinta anos que morava na casa diante da dele convida-o a visitá-la à meia-noite. Xisto não se faz de rogado. Prelibando os prazeres que auferiria, preparou-se para a entrevista com a mulher que cobiçava. Foi à casa dela, ao encontro agendado. E realizou o seu sonho. Uma semana depois, Xisto viu-a; e ela tratou-o com indiferença, desgostando-o. Com o passar dos dias, ele se resignou à indiferença que ela lhe dedicava; recordava os quinze minutos durante os quais se entreteve com ela, no ninho das delícias cujo acesso ela lhe dera, e evocava a postura maquinal dela, distante, fria, de uma mulher que executava, dir-se-ia, unicamente, um ato mecânico. E o tratamento que ela lhe dispensou após o ato consumado intrigava-o. E a resposta para a interrogação que ele se fazia acerca da atitude esquiva dela ele a teria, passado um ano, de Wladimir. E o caso se lhe esclareceu. E a estranheza da conduta da linda viúva de Xisto e de Wladimir, o X e o W do título do conto, recebeu comentários misto de surpresa e incredulidade.

Entrei para o Clube Jácome – de França Júnior

Julião, o herói desta peça, adquiriu a mania, que transtornava sua esposa, Dorotéia, e que, suspeita-se, roubando-lhe, de Julião, a sanidade: a de adorar os cavalos, apreciar as atividades hípicas, o que o fez entrar para o Clube Jácome. Tão obcecado pela sua paixão hípica que admitiria para marido de sua filha, Francisca (Chiquinha) um homem que fosse sócio do Clube Jácome, daí rejeitar, terminantemente, a idéia de ceder a mão dela a Ernesto, cujo amor por Chiquinha era por ela correspondido, pois ele, além de não saber montar a cavalo, não era sócio do Clube Jácome.

É uma peça simples, cuja trama se desenrola, em dezoito cenas, num ato; despretensiosa, de desenlace destituído de surpresa; aos poucos personagens que a animam, Julião, Dorotéia, sua esposa, Francisca (Chiquinha), sua filha, Antônio, seu criado, Ernesto, o pretendente à mão de Chiquinha, e o Comendador Anastácio (inserido na trama, presumo, com o único propósito – que aflorou à mente do autor – de criar uma cena cômica) não se envolvem numa rede de cenas hilárias equivalentes às encontradas em outras peças de França Júnior; são pobres em suas caracterizações; suspeito que França Júnior, ao conceber tal peça, não estava em um momento de inspiração. A peça não correspondeu às minhas expectativas, que criei com a leitura das outras peças do autor. Não esperei, é óbvio, uma obra sofisticada, de estrutura complexa, personagens shakespereanos, pois as obras que dele li não me levaram a concluir que ele, neste Entrei para o Clube Jácome, tem para oferecer algo além do que oferece nas outras peças; além disso, tal gênero de obra tem a oferecer o que lhe é peculiar: uma trama simples, com personagens estereotipados, caricaturais, de cuja personalidade apenas um aspecto, destacado, é dado a conhecer ao público, para a criação de cenas divertidas numa aventura cômica; nesta peça, todavia, França Júnior não foi bem-sucedido em seu propósito.

Paulino e Roberto – de Arthur Azevedo

Narra este conto a história de Paulino, homem infortunado, flagelado por caiporismo inescapável. Pobre, une-se em matrimônio com Adelaide, mulher formosa, encantadora, vaidosa, de espírito orgulhoso, que vive de reclamar da sua vida em comum com Paulino, sempre a jogar, no rosto dele, a pobreza que a afligia, a vida de sacrifícios; ele não possuía renda que lhe permitia oferecer a ela recursos para ela satisfazer todos seus caprichos de elegância e requinte. Numa conversa com um seu amigo, amigo do peito, Vespasiano, Paulino ouve severas críticas a Adelaide, e uma confissão: que ele, Vespasiano, jamais se casaria com uma mulher com o gênio intratável de Adelaide.Certo dia, a negócios Paulino seguiu para o Rio Grande do Sul. E desembarcou em Santa Catarina, onde perdeu o paquete “Rio Apa”, e teve de esperar por outro. Enquanto esperava por outra embarcação, recebe a notícia de que o “Rio Apa” naufragara, matando todos os passageiros, e a tripulação; e em jornais lê, na lista dos nomes dos vitimados pela tragédia, o seu, e se lhe aflora, então, a idéia, adotando-a, sem pestanejar, de se silenciar a respeito, e instalar-se em Santa Catarina, adotar outro nome, e deixar que, em sua terra, o Rio de Janeiro, as pessoas de seu relacionamento – Adelaide, principalmente – recebessem a notícia de sua morte. E rumou para o interior da província, na companhia de um rico industrial teuto-brasileiro. E adotou um novo nome: Roberto. Decorridos alguns anos, agora de barba crescida e gordo, viajou ao Rio de Janeiro; sem se anunciar a ninguém, afinal estava morto. E não precisou esperar muito tempo para presenciar uma cena que jamais lhe passaria pela cabeça. Cena inimaginável. E nada mais digo.

Maldita Parentela – de França Júnior

Nesta peça, o autor trabalha um tema recorrente em sua obra: o desencontro entre pai e filha, aquele à procura de um consorte rico para esta, e esta apaixonada por um homem, que lhe responde à paixão, comum, sem posses, de baixa extração social, digno e correto. A trama ocorre na casa de Damião Teixeira e Raimunda; eles acolhem a nata da sociedade e parentes, para uma festa. Lá estão, para o prazer de Damião Teixeira, o Comendador Pestana, o Visconde, o Conselheiro Neves, o Chefe de Polícia da Corte, e outras personalidades da nata da sociedade fluminense, e, para o seu desprazer, e desespero, parentes de sua esposa, pessoas que ele, um homem que se tem na conta de pessoa sofisticada, mas que se revela um toleirão presunçoso, e que pede o convívio exclusivo da aristocracia, despreza. Basílio, irmão de Raimunda, e suas filhas, Laurindinha, que está sempre a achar graças de tudo e a gargalhar, e Cocota, moça ranzinza e grosseira, sempre a se queixar; e Cassiano Vilasboas, primo de Raimunda, estouvado e atrapalhado; e Desidério José de Miranda, tio de Raimunda, e sua filha, Hermenegilda Taquaruçu de Miranda, que, pernóstica, passa por ridícula com sua linguagem artificialmente sofisticada, são alguns dos parentes de Raimunda que comparecem à festa.

O dia em que se dá o evento festivo é chuvoso, e os parentes de Raimunda, todos simplórios, encontrados nas camadas baixas da sociedade, promovem cenas dignas de boas comédias, e contrastam com o ambiente social que Damião Teixeira quer emprestar à festa. Tais personagens se movem, desembaraçados, ingenuamente indiferentes à reação dos outros convidados.

Damião Teixeira deseja casar Marianinha, sua filha, com Joaquim Guimarães, homem de posses, que, segundo Damião Teixeira, é um tolo e ignorante, mas, por conveniência – ele é rico – quer dar-lhe a filha por esposa; Marianinha, por sua vez, contrariando a vontade de seu pai, quer se casar com Aurélio. Desidério José de Miranda apresenta Hermenegilda, sua filha, ao rico Joaquim Guimarães. E dá-se uma disputa silenciosa entre Damião Teixeira e Desidério José de Miranda, ambos a abordarem Joaquim Guimarães, para lançá-lo aos braços de suas filhas, aquele, nos de Marianinha, este, nos de Hermenegilda.

Durante a festa, dão-se cenas engraçadas, umas protagonizadas pelo desastrado Cassiano Vilasboas, outras por Joaquim Guimarães, e outras por Laurindinha, sempre a gargalhar, sempre a achar graça em tudo, até nos contratempos. E ao final da peça, de um ato, desembaraçado em vinte e duas cenas, França Júnior reserva ao leitor uma surpresa.

O Tipo Brasileiro – de França Júnior

Nesta comédia, França Júnior apresenta o antagonismo entre duas personagens, Teodoro Paixão, pai de Henriqueta Paixão, e Henrique, pretendente à mão de Henriqueta Paixão. É Teodoro Paixão fervoroso adorador de estrangeirismos. Compara o povo do Brasil, e sua cultura, sua língua, seus hábitos, seus costumes, com o povo da Alemanha, da França, da Inglaterra, da Itália, e a cultura, língua, hábitos e costumes deles e entende o povo do Brasil e tudo o que brota em terras brasileiras inferior aos seus similares estrangeiros. Para ele, o povo brasileiro é fútil, bárbaro, leviano, indolente, imerecedor de crédito, e seus valores desprezíveis, irrelevantes. E Henrique se lhe opõem, veemente, em defesa do Brasil e dos brasileiros. Henrique detecta, em seu antagonista e nos tipos que se lhe equivalem, um mal, de ontem e de hoje, que muito prejuízo dá ao Brasil: a ignorância que têm os brasileiros de seus heróis, seus literatos talentosos, seus compatriotas geniais, que construíram, no transcurso de suas vidas, obras meritórias, de valor imperecível. Tal crítica de Henrique aos brasileiros não perdeu, no decorrer de mais de um século após a publicação desta peça, o seu valor; os brasileiros ainda hoje valorizam muito produto estrangeiro desprovido de valor e desvaloriza os equivalentes nacionais que lhes são superiores e dá mais valor a artistas, escritores, músicos estrangeiros medíocres e desdenham os concorrentes brasileiros melhores e mais talentosos e criadores de obras superiores.
Não querendo flertar com patriotadas, há de reconhecer todo brasileiro sensato, que preserva o senso de justiça, capaz de dar a cada obra o seu valor justo, que o brasileiro produz, na literatura, na música, na ciência, obras de valor superior às de muitos estrangeiros que enaltecem, idolatram.
Abandonemos as lamúrias, e tratemos da peça de França Júnior. Desenrola-se a peça, num ato, em treze cenas. Além do desencontro das opiniões de Teodoro Paixão e Henrique acerca do tipo brasileiro, há outro ponto que promove atrito entre as duas personagens: devido ao seu desprezo mortal pelos brasileiros e seu amor irracional pelos estrangeiros, Teodoro Paixão quer que sua filha se case com Mr. John Reed, bretão, engenheiro, que pretende se lançar numa aventura empresarial. Henrique, no entanto, não desiste de seu propósito: o de se casar com Henriqueta Paixão. E para alcançar tal fim, idealiza um projeto – simultaneamente produto da perspicácia e da insensatez de um homem apaixonado -, que, pensa, irá obrigar seu rival a se exibir com sua verdadeira face aos olhos da mulher amada e do pai dela. E o projeto concebido por Henrique, projeto que segue uma direção que ele não previu, o acaso a providenciar-lhe o bom sucesso da empreitada, propicia uma cena hilária.

O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli; e, Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa

O livro de Henrique A. Orciuoli, dos dois aqui tratados o primeiro que li, está vazado numa prosa poética, que reproduz a simplicidade da poesia do biografado, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, infelizmente hoje em dia pouco lido e lamentavelmente difamado pelos seres que, além de desprovidos de talento poético, adoradores de imundícies escatológicas, odeiam o que há de melhor, mais valioso, mais belo, na cultura brasileira. A prosa do autor é em si mesma uma homenagem a Olavo Bilac. Conta-nos Henrique A. Orciuoli, numa prosa poética acessível a qualquer pessoa minimamente ilustrada, a angústia de Olavo Bilac, seu amor por Amélia, irmã de outro herói da poesia brasileira, Alberto de Oliveira, que, do mesmo modo que o autor de O Caçador de Esmeraldas, é ignorado pelos incultos e vilipendiado pelos que tiveram sua formação intelectual feita pelo que há de pior do que não sei se é certo chamar de literatura moderna. Olavo Bilac amava, apaixonada e doentiamente, Amélia, seu eterno amor. Noivaram o poeta e sua amada, também poetisa, e irmã de poetas, mas não chegaram ao enlace matrimonial por obra de Juca, irmão mais velho de Amélia, e da mãe dos Oliveiras, a viúva Dona Saninha. Os dissabores do poeta são angustiantes. Dói-se o coração de Bilac, alma sensível e imaginosa; e o poeta sofre até no leito de morte, Amélia a mover-se em sua imaginação, a agitar seu coração.

Além de falar da paixão de Olavo Bilac e Amélia, da hostilidade inexplicável de Juca, que não queria o casamento de sua irmã com o autor de Via-Láctea, Henrique A. Orciuoli reproduz poemas de Bilac e de Amélia, e dá notícia do embrião da Academia Brasileira de Letras, a casa dos Oliveiras, a “Engenhoca”, local privilegiado frequentado pela nata da cultura de então.

Resume a biografia, de um pouco mais de cem páginas, ao amor entre Bilac e Amélia, dedicando poucas palavras a outras atividades do Príncipe dos Poetas Brasileiro. Lê-se o livro como se lê um romance; aliás, é o livro um romance, um romance de personagens reais que enriquecem a história do Brasil.

Tem o livro de Osmar Barbosa, Olavo Bilac: Vida e Obra, dimensões, em páginas, próximas das do livro de Henrique A. Orciuoli, e, ao contrário do deste, não se prende ao romance de Bilac e Amélia. Apresenta um panorama mais amplo da vida do Príncipe dos Poetas Brasileiros. Dá notícia do nascimento dele, em ano em que se desenrolava a Guerra do Paraguai; e do seu tirocínio com o Padre Belmonte, e de seus estudos no Colégio Vitório; fala-lhe, rapidamente, da mãe, D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac, e do pai, Dr. Brás Martins dos Guimarães Bilac, que o queria médico e que dele se afasta devido à reprovável vida errônea e boêmia que ele, Bilac, prodigalizava na companhia de amigos. Fala, também, o autor do abandono, por Olavo Bilac, do curso de medicina, e de seu ingresso na Faculdade de Direito; e de sua amizade com Alberto de Oliveira, José do Patrocínio, Raul Pompéia, Artur Azevedo, Paula Nei, Emílio de Menezes, Coelho Neto; e da sua paixão por Amélia; e da sua admiração por Gonçalves Dias; e de suas viagens à Europa; e do seu encontro com Eça de Queirós; e de seu trabalho de inspetor escolar; e da sua participação na fundação da Academia Brasileira de Letras; e de suas conferências a favor do escotismo, do serviço militar obrigatório, da abolição dos escravos; e das adversidades enfrentadas porque desprovido de recurso pecuniários para se manter; e de suas prisões; e do seu envolvimento em duelos literários, em defesa de Gonçalves Dias, contra Lúcio de Mendonça, e na guerra entre parnasianos e simbolistas; e de sua ação a favor de José do Patrocínio e contra o Marechal Floriano Peixoto; e de seu reencontro, em 1910, na casa do Professor Hemetério dos Santos, que aniversariava, com sua amada Amélia de Oliveira, vinte e dois anos após o encontro anterior. E adiciona brindes ao leitor o autor Osmar Barbosa: algumas anedotas da vida do autor de Via-Láctea, a reprodução de uma crônica que o maior dos poetas parnasianos brasileiros escreveu acerca de seu encontro com Eça de Queirós, e um conto infantil, O Velho Rei, de autoria de Bilac.Os dois livros são de pessoas que admiravam Olavo Bilac.

Enquanto Henrique A. Orciuoli ocupa-se do amor, eterno amor, do Príncipe dos Poetas Brasileiros por Amélia, Osmar Barbosa fala de outras questões que lhe enriquecem a biografia. O primeiro foi bem-sucedido em seu objetivo ao concentrar-se no mundo do maior poeta parnasiano brasileiro, o mundo em que Amélia ocupava a mente e o coração do poeta; e o segundo, de escopo mais amplo, fez o tema do amor de Bilac por Amélia secundário. Ambos escritores de boa, bem cuidada, prosa, seduzem o leitor; transcrevem poesias de Bilac, e ensinam uma inestimável lição aos leitores: é impossível entender as poesias se não se conhecer a vida dos poetas. A poesia de Olavo Bilac é melhor compreendida se se conhecer suas atividades, e muito de sua obra poética alude à Amélia, sua Beatriz.

São O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli, e Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa, dois livros simples, que abrem aos amantes da literatura as portas que dão acesso à vida, ao coração do Príncipe dos Poetas Brasileiros. 

O Defeito de Família – de França Júnior

Divertida comédia de França Júnior, um mestre do humor. O autor deveria figurar no panteão dos heróis das letras nacionais. Ele sabe, com a desenvoltura dos mestres da comédia, desenrolar, graciosamente bem, uma simples, despretensiosa trama animada por tipos hilários. Espirituoso, nesta peça de um ato, desembaraçado em vinte e cinco cenas, França Júnior presenteia os seus leitores com um conto de humor, um, pode-se dizer, causo folclórico, que se resume à gostosa confusão originada de suspeitas infundadas. Protagonizam a aventura três pessoas de uma família, Matias Novais e Gertrudes Novais, marido e mulher, e Josefina Novais, a filha do casal, e um criado da família, de nome impronunciável, Ruprecht Somernachtstraumenberg, e Artur de Miranda, noivo de Josefina Novais, e André Barata. Há, para se revelar, indica a peça no seu título, um defeito de família, na família dos Novais, defeito que é conservado oculto do público a sete chaves.
França Júnior urdiu, inspirado, uma trama simples, divertidíssima, sem ingredientes que lhe emprestem ar artificial. É a trama simultaneamente verossímil e inverossímil.
Criador de personagens inesquecíveis sobrecarregados de traços facilmente identificáveis em tipos singulares encontrados na sociedade, dando provas de sua perspicácia de observação, e de seu talento para avaliar as pessoas, e destacar, delas, os aspectos que melhor as identificam para transfigurá-las em personagens de suas comédias, França Júnior apresenta, nesta peça, Matias Novais, homem de hábitos simplórios, pouca formação intelectual, dotado de escassa, ou nenhuma, inteligência, inculto, bom marido e bom pai. É do elenco pequeno a personagem mais cativante, desenhada pelo autor com poucos traços, os suficientes para apresentá-lo ao leitor em toda a sua integridade.
E o desfecho desta comédia, impagável, parece saído dos filmes do Gordo e o Magro, e de Os Três Patetas.

Stuart Little – de E. B. White

É Stuart Little o segundo filho dos senhores Little; é seu irmão George. Tem o pequeno Stuart a aparência de um camundongo. E vive em Nova York. É amado pelos seus pais e seu irmão; e não goza da estima do felino da família, o Bolo-de-Neve, um gato branco que almeja dar-lhe fim.
Tem mais de três anos de idade quando resolve experimentar fortes emoções. Sai da sua casa, certa manhã, e ruma ao Central Park, onde, a marinheiro, no tanque dos veleiros, participa de uma corrida de veleiros em miniatura. Comanda a escuna Vespa, miniatura de escuna, adornada com uma bandeira dos Estados Unidos da América e munida de um canhão, e cujo dono é o doutor Paul Carey, dentista e construtor de miniaturas. É seu oponente um menino, Le Roy, de doze anos, gordo e mal-humorado, que governa o veleiro Lilian B. Vomrat.
Anos depois, além de outros capítulos de sua vida atribulada, estabelece amizade com Margalo, fêmea de passarinho, que salva-o, certo dia, quando ele, após sair de sua casa a passeio de patins, para fugir de um terrier irlandês esconde-se numa lata de lixo, é despejado, junto com o conteúdo desta, num caminhão de lixo, e, depois, numa barcaça de transportar lixo – estava Stuart nesta embarcação, sendo carregado não sabia para onde, quando sua amiga vem em seu socorro. E em outro episódio, Margalo, informada, por um pombo, que Bolo-de-Neve e uma angorá pretendiam devorá-la, foge. E Stuart Little sai-lhe à procura. E pede ajuda ao doutor Carey, que o presenteia com um carro em miniatura movido à gasolina que conta com o recurso da invisibilidade. E aqui tem início as aventuras do pequeno Stuart.
A edição da Editora Martins Fontes, que li para escrever esta resenha, tem mais de oitenta ilustrações, em preto e branco, de Garth Williams.

Poder Global e Religião Universal – de Juan Claudio Sanahuja – Ecclesiae – 1ª edição – Maio de 2.012

É esquiva a linguagem que os Senhores do Universo, que ambicionam o poder absoluto, usam com o fim de ocultar, dos povos de todo o mundo, seus verdadeiros objetivos, criminosos, assassinos, que eles escondem atrás do véu das, assim dizem, boas intenções, políticas humanitárias. Tais potentados jamais são explícitos em seus propósitos, pois, se o fossem, os revelariam ao mundo, e sofreriam a rejeição imediata, contrária, hostil daqueles que eles almejam submeter aos seus desejos recrimináveis; daí empregarem artifícios semânticos para de suas vítimas escondê-los, coonestando-os, e assim persuadindo-as a abandonarem suas crenças milenares, seus valores mais estimados, seu amor pela família, sua paixão pelo chão que pisa, do qual retira o alimento que as sustenta, cooptando-as a ingressarem, sem que o percebam, no exército que irá roubar-lhes tudo o que elas têm de mais precioso, destruí-las, matá-las.

Ao ouvirem o canto das sereias politicamente corretas de indivíduos que se proclamaram Senhores do Universo, muitas pessoas, ingênuas, sugestionáveis, pelo canto politicamente correto seduzidas, entregam-lhes a própria vida. E tal canto vem protocolado por organizações globais que gozam de autoridade moral, conquistada por meio de sórdida campanha midiática mundial, que delas vendem ao mundo, que o compra sem barganhar, uma imagem falsa, mentirosa. E povos de todo o mundo, crentes que terão o paraíso que tanto desejam, viverão no inferno que os Senhores do Universo lhes reserva.

Juan Claudio Sanahuja, neste pequeno livro de duzentas páginas, bosqueja a estrutura do poder global totalitário, numa apresentação recheada de informações, indispensáveis para, se não o total entendimento da ação em curso de uma política desumana, assassina, um vislumbre de compreensão dos meios sutis que os trilionários universais, que, se achando acima do comum dos mortais, pretendem concentrar em suas mãos o poder de vida e morte sobre todas as pessoas e reservar pra eles unicamente todos os bens da Terra, empregam com destreza exemplar, obtendo resultados que lhes são favoráveis, e um dos recursos que eles, desinibidos, empregam é o da corrupção semântica; higienizam o vocabulário, adornam-lo com um requinte falso, com uma sofisticação inexistente não para esclarecer um assunto, expor a essência de suas políticas, nefastas, assassinas, mas para subverter valores, confundir as pessoas, induzi-las a irem contra os próprios princípios ao adotarem a linguagem corrompida, deturpada, como se fosse a reprodução fiel das ações promovidas pelos Senhores do Universo – e as pessoas, viciadas por um vocabulário espúrio, por uma linguagem que perdeu o seu sentido real, verdadeiro, sem perceberem a ruptura aberta entre o significado das palavras e o das ações que elas supostamente designam, compram políticas assassinas certas de que estão, na inocência de seus corações, promovendo o bem.

O autor não economiza, considerando-se as pequenas dimensões do seu livro, informações acerca do vocabulário que organizações mundiais empregam, na promoção de suas políticas desumanas, para a concretização de um projeto de poder global, que visa a imposição de um discurso único, de raiz anti-cristã, com o objetivo de submeter as pessoas a um credo universal, a uma religião biônica, mistura exótica de inúmeras religiões milenares, retiradas, delas, a essência, e delas conservadas apenas aspectos insignificantes, e incontáveis práticas místicas esotéricas. Querem estabelecer os Senhores do Universo um mundo onde estão excluídos os valores transcendentes, o amor pela família, o apego à pátria, e destruídas as soberanias nacionais, e convertidos os Estados nacionais em títeres deles, representantes, não do povo sob sua guarda, mas dos homens, os donos do mundo, que de fato governam as instituições globais; os presidentes, os primeiro-ministros, os deputados, os senadores, os governadores, criaturas sem liberdade de ação, são, neste cenário, mantidas nos altos escalões da burocracia estatal nacional com um único objetivo: o de chancelar as políticas elaboradas pelos não-eleitos da organização global, centrada na ONU; os presidentes locais, neste cenário, já real, estão convertidos apenas em carimbadores de documentos redigidos, no exterior, por homens cujos nomes são desconhecidos de todos e cujas figuras ninguém imagina quais sejam; e os povos de todo o mundo, à revelia de todo processo político, acreditam, ingênuos, que os políticos que elegeram com o voto são seus representantes, legítimos defensores de seus valores, de seus princípios, de seus desejos.

As palavras sofrem tal mutação, que seus significados originais desaparecem, e elas adquirem significados espúrios que servem de instrumentos de sustentação, em nome do bem-estar dos povos, de uma política desumana, assassina; e assim altera-se o consenso social, para tornar as pessoas refratárias aos bens espirituais, aos valores e sentimentos que as beneficiam, e dóceis aos que as prejudicam; e estão criados novos consensos, fabricados, por engenheiros sociais, em laboratórios nos quais os ratos-de-laboratório são os seres humanos. Os engenheiros sociais falam de “autonomia reprodutiva”, “direitos sexuais”, saúde psíquica da mãe”, “saúde sexual”, “livre orientação sexual”, “paternidade responsável”, “saúde sexual e reprodutiva”, para vender, como ato meritório, um direito inalienável, o do assassinato de seres humanos que, ainda no interior do ventre de suas mães, indefesos, em seu estágio embrionário uns, outros já formados, não são, na ótica dos defensores de tal política, seres humanos; são, unicamente, coisas, pedaços do corpo das mulheres que os carregam dentro de si, fetos, um amontoado de células, e não seres que, dependentes de um corpo adulto feminino, são únicos, outros corpos, de outros seres humanos. E dá-se, numa linguagem profilática, cientificista, o nome de feto ao ser humano em formação, e o de aborto à prática assassina, que o rouba à vida antes de ele vir à luz – e tal política não atende ao bem comum, como salientam os seus defensores, os seus promotores, os seus financiadores, mas aos interesses de quem almeja o controle absoluto de todos os bens que a Terra pode ofertar. A política de controle populacional, de “desenvolvimento sustentável do planeta”, no jargão politicamente correto, é um artefato bélico de destruição em massa apontado contra o homem comum. E para os donos do mundo, e seus empregados bem-remunerados, a eutanásia é “morte digna”. E as religiões milenares, “religiões dogmáticas”, “fundamentalistas” – daí proporem, sabe-se lá no uso de quais mecanismos, um sincretismo religioso, que irá criar, com a mistura de práticas da New Age (Nova Era), a maçonaria, profecias de Zoroastro, o Alcorão, Confúcio, budismo, taoísmo, xintoísmo, Bhagavad-Gita, uma “ética cósmica”, e estará criada, neste mundo de paz entre as religiões, uma “sociedade tolerante” centrada na religião universal, e deste mundo estará excluída a transcendência das religiões milenares.

Outro dado interessante, que o livro de Juan Claudio Sanahuja apresenta aos seus leitores, diz respeito às políticas ambientalistas, que, em nome da salvação do planeta, promovem o assassínio, por meio de políticas de “controle de natalidade”, “saúde reprodutiva da mulher”, de pessoas ainda no ventre de suas mães, e o estímulo ao sexo desenfreado, descompromissado, irresponsável, e a ereção de novos tipos de família. A Carta da Terra, aponta o autor, ataca, frontalmente, a religião cristã; vende uma religiosidade sem transcendência, panteísta, uma “ética universal da vida sustentável” para o “desenvolvimento sustentável”, a “sustentabilidade”; é o ecologismo, cujos agentes, partindo de uma preocupação legítima, que alerta para a saturação dos recursos naturais, propõem uma reformulação das religiões, das leis, das culturas, num movimento forçado, destruindo os humanos no processo, para a formação de um sincretismo religioso de laboratório, de uma mentalidade relativista disruptiva, com a consequente aniquilação das religiões milenares.

O livro dá preciosas informações a respeito do papel da ONU, de ongs, e de fóruns de debates e congressos financiados pelos Rockfeller, nas políticas de uma “ética universal”, uma religião universal, que cria seres dóceis, sugestionáveis, manipuláveis.

E Juan Claudio Sanahuja fala do “Report of the Comitte of Inquiry into Human Fertilization and Embriology”; do comitê de monitoramento de “Convenção Internacional para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (CEDAW, 1979); do comitê de monitoramento do “Tratado Internacional contra a Tortura”; e do “Diálogo das Civilizações”; e da Anistia Internacional; e do Clube de Roma; e do Human Rights Watch; e do World Wide Fund for Nature (WWF); e da UNESCO; e da “Cúpula Mundial de Líderes Espirituais e Religiosos para a Paz”; e da “United Religions Initiative (Iniciativa das Religiões Universais – URI); e da participação, no esforço de ereção da sociedade global, de Kofi Annan, Desmond Tutu, Fernando Henrique Cardoso, Jimmy Carter, Nelson Mandela, George Soros, Noam Chomsky, José Saramago, Gabriel Garcia Márquez, Ted Turner, Leonardo Boff, Isabel Allend, Barack Obama, Tony Blair, e outras personalidade de fama mundial.

E presenteia os seus leitores com a reprodução, em dois anexos, de textos de outros autores, o primeiro, “Obama e Blair. O messianismo reinterpretado”, conferência de Michel Schooyans, proferida, em 2.009, no dia 1 de março, na Cidade do Vaticano; e o segundo, “A Terra e seu caráter Sagrado”, da Irmã Donna Geernart, SC, conferência realizada, em 2.007, no mês de Maio, em Roma, no Plenário da União Internacional de Superioras Gerais, acompanhada de comentários.

Poder Global e Religião Universal, de Juan Claudio Sanahuja, traz inestimáveis informações acerca do movimento anti-cristão que move o mundo, faz a cabeça dos poderosos dotados de insaciável sede de poder, inimigos figadais dos seres humanos.

Conclui-se da leitura do livro que nos altos escalões das organizações globais estão seres humanos que se têm na conta de deuses, dotados de poder de vida e morte sobre todas as pessoas – eles excluem Deus da história, do universo, para se fazerem de deuses, e entre estes deuses de carne e osso persiste uma auto-imagem favorável, falsa, que muito os envaidece, a de seres superiores, inestimáveis, imprescindíveis para a ereção, na Terra, de um mundo perfeito, o “outro mundo é possível” dos discursos politicamente corretos, e o que eles criam é apenas caos, miséria, sofrimento e mortes.

Nas primeiras linhas desta resenha, falei da linguagem esquiva dos donos do poder, os Senhores do Universo; e é só alterando o significado das palavras, vendendo aos povos uma nova linguagem, um novo vocabulário, novas expressões, palavras antigas com significados deturpados, que eles conseguem subverter valores, e, com a subversão dos valores, produzir pessoas dóceis, sugestionáveis, obtendo, destas, a lealdade, e expulsar do convívio social os indomados, e indomáveis, que, firmes na defesa dos valores que herdaram de seus ancestrais, resistem à agressão psicológica, à manipulação semântica.

A linguagem é o campo de batalha dos Senhores do Universo. Deturpando-a, e impondo a linguagem deturpada aos povos de todo o mundo, eles podem coonestar suas politicas desumanas, assassinas, criminosas, e explorar os humildes, que não lhes impõem resistência, pois deles foram arrancados, por aqueles que se dizem seus libertadores, os instrumentos que lhes dariam meios de ponderar a respeito das coisas do mundo dos homens.

É Poder Global e Religião Universal, de Juan Claudio Sanahuja, um livro de valor inestimável.

Quo Vadis? – de Henryk Sienkiewicz

As primeiras páginas deste livro não me prenderam a atenção; persisti, no entanto, na leitura da aventura de amor entre Marco Vinício, cônsul romano, sobrinho de Petrônio, autor de Satiricon, e Lígia, cristã, filha do rei dos lígios, capturada pelos romanos, e serviçal de Pompônia Grecina cujo filho, Aulo, estava sob seus cuidados.

O autor inicia o relato dos desencontros entre o cônsul romano e a filha do rei dos lígios, com a descrição de um panorama da sociedade romana, de sua cúpula de poder, do imperador Nero e de quem lhe é próximo, de seu círculo político circunvizinho. Ao ter diante de seus olhos a bela Lígia, Marco Vinício apaixona-se por ela de imediato, e, recorrendo ao seu tio, Petrônio, obtêm, de Pompônia Grecina, o direito de fazer da filha do rei dos lígios sua mulher. Lígia, no entanto, foge, protegida por Ursus, um lígio de força descomunal, inigualável, um Hércules lígio.

Estamos nos tempos do imperador Nero, tempo em que ainda caminham pela Terra os apóstolos Pedro e Paulo de Tarso, não muitos anos, portanto, após a crucificação, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Para raptar Lígia, Marco Vinício recorre a Chilon Chilonides, um grego perspicaz e interesseiro, que, no decorrer do relato, revela sua personalidade traiçoeira e covarde. Após inúmeros contratempos, consegue para si Lígia, perturbado ao compreender as diferenças, que não podem ser extintas, entre as duas crenças, a dele, pagã, romana, herdeira do politeismo grego, e a de sua amada, Lígia, cristã, que convive com os apóstolos Pedro e Paulo de Tarso. Para o sucesso de seu empreendimento, tem de pisar em ovos, pois é sua querida e adorada Lígia cristã. Viviam ambos numa época em que os cristãos não gozavam de nenhum direito civil em Roma; eram párias; a condição humana deles não era respeitado pelos romanos, principalmente por aqueles que detinham o poder em Roma; eram malvistos. Eram, enfim, inimigos do império romano.

Durante o decurso de sua ação para tirar Lígia de sob os cuidados dos cristãos e da proteção de Ursus, Marco Vinício, sob influência da personalidade amável dela, do ambiente, vivendo em meio aos cristãos, que recendia à bondade, o amor pelas pessoas, vêm a reconsiderar suas idéias. Queria Lígia consigo, mas sem forçá-la a ir com ele; que ela o amasse, e só assim se decidisse viver com ele sob o mesmo teto. A conduta de Lígia, e, também, a de Ursus, seu fiel e leal protetor, e a dos apóstolos movem o senador romano a acolher Jesus Cristo em seu seio.Nas primeiras linhas desta resenha, declarei que a obra Quo Vadis? não me prendeu a atenção. E não ma prendeu, de fato; o que me levou a fazer do livro uma leitura descuidada – mas não até a última de suas linhas -, espaçada; deixei o livro, fechado, durante vários dias, sem tirá-lo de sobre a escrivaninha, sem a ele dedicar nenhum interesse; assim, acabei por perder o fio da meada, conquanto algumas cenas estivessem bem gravadas em minha memória; e quando retomei a leitura após a interromper vários dias antes – duas semanas, talvez – o fiz disposto a ir até o final, mas, neste tempo, de mim já se me havia escapado da cabeça alguns detalhes, que, no entanto, não prejudicaram a leitura, que se arrastou até o capítulo que narra o imperador Nero a atear fogo em Roma. Aqui, a leitura esquentou – e que me perdõem o trocadilho infame. O relato, até então insosso, assumiu outro tom, não se prendeu, em seu primeiro plano, nos desencontros e encontros de Marco Vinício e Lígia, caso, este, que, agora, se reduz a um dado irrelevante, desimportante. A narrativa assume ares épicos, trágicos, heróicos. Lê-se Nero a atear fogo em Roma e a iniciar uma caçada aos cristãos, indicados, por ele, como os culpados pela destruição de Roma. E seguem-se cenas grandiosas dos eventos que se dão na arena, os cristãos martirizados, encontrando a morte nas garras e dentes de feras selvagens, que lhes rasgam o ventre, lhes fazem em tiras, para a diversão do populacho, que se entretêm com espetáculos sangrentos indescritíveis, animalescos – e animalescos, aqui, não foram apenas as ações selvagens das feras, mas, também, a selvageria dos romanos, tanto a do povatéu, quanto a dos das classes dominantes. Prendeu-me a atenção as páginas que trazem o relato da tragédia dos romanos, e, mais do que a destes, a dos cristãos. São as trezentas, aproximadamente, páginas que compõem a segunda parte do livro, que tem – na edição que li, um pouco menos de setecentas páginas de leitura cativante. Da leitura do livro de Henryk Sienkiewicz tiramos uma idéia do tipo humano que foi Nero, homem cruel, insano, sanguinário, e da mentalidade dos romanos, e de sua cultura – civilizada? ou bárbara?E nas páginas finais do livro, revela-se que Pedro, o apóstolo, é a pedra inaugural, angular, da Igreja. Ele ouve, do próprio Cristo, palavras, poucas, que o obrigam a cumprir o destino que Deus lhe reservara: o de Pai da Santa Igreja.

Apologia de Sócrates – de Platão

Sócrates é um emblema do homem do povo que, conhecedor de sua ignorância, melhor, buscando conhecer sua ignorância, descobre-se, no confronto com os reputados sábios, que ostentam títulos e fortuna, para sua surpresa, que é ele o sábio, e eles os tolos, que não se dedicam ao cultivo da sabedoria, pois criam de si mesmos uma imagem que lhes satisfaz a vaidade, imagem irrealista, e que fogem à tarefa de se dedicarem ao estudo de si mesmos, para se conhecerem, e ocupam-se de avaliar os outros – mas o fazem, claro, sem inteligência, pois não se conhecem, e acabam por projetar nos outros o que são, escudando-se atrás dos títulos e da fortuna que tão orgulhosamente ostentam.

Na sua apologia, Sócrates, segundo Platão, declara que ouviu da pitonisa de Delfos palavras que lhe soaram oraculares, palavras que, em síntese, o apontam como o mais sábio dos homens. Intrigou-o tal revelação. Seria Sócrates, um ignorante, ele assim se entendia, o sábio dos sábios? Ele, um homem sem títulos; ele, apenas um cidadão de Atenas, o mais sábio dos atenienses? Sábios, sabia ele, eram aqueles homens que, nas praças, apresentando-se ao público, vendiam seus conhecimentos para aqueles que lhos pudessem comprar por um bom punhado de moedas. Mas ele, Sócrates, um sábio!? Ora, foi a pitonisa do oráculo de Delfos que lhe dera tal notícia; ela transmitira-lhe uma revelação do Oráculo de Delfos. E o Oráculo de Delfos era infalível. Sempre revelava aos homens o que destes os deuses conservavam oculto. Errou o Oráculo de Delfos, que era infalível? Sócrates encasquetou-se; intrigado, coçou a cabeça. Cabia a Sócrates, agora, e a ele apenas, tirar a prova dos nove. Se o Oráculo de Delfos disse que era Sócrates o mais sábio dos homens, então era Sócrates o mais sábio dos homens. Sócrates, então, impelido pelo demônio que lhe animava o espírito, decidiu ir à praça abordar os sábios da Grécia e submetê-los à sabatina, usando de um instrumento, o diálogo, mas não um diálogo proposto de uma forma qualquer, desordenado, como se os que dele participassem jogassem as palavras ao vento; ele, Sócrates, tinha de extrair a verdade das questões discutidas; e tinha um meio, meio só seu: fazer-se de parteiro da verdade, e o recurso que usou foi a maiêutica, obra de seu demônio interior. E abordava Sócrates um dos doutores da época, reputado sábio, e com ele entabulava, despretensiosamente, uma conversa, e à pergunta que lhe fazia ouvia-lhe a resposta, e seguia-se outra pergunta, e outra pergunta, e outra, até que o caso se esclarecesse, e a verdade acerca do tema tratado se lhes revelasse. E abordava Sócrates outro de seus contemporâneos reputados sábios, e fazia a vez de um ignorante em busca da compreensão das coisas do mundo. E abordava outro cidadão ateniense respeitável, dono de conhecimento das coisas do mundo físico e metafísico. E outro. E outro. E assim, sempre no papel de ignorante, Sócrates revelava a ignorância alheia, a dos reputados sábios, pessoas que sabiam falar, e falar bem, e persuadir as que as ouviam de que o que lhes falavam era a sabedoria dos deuses. E tais sábios, feridos no ego, deparando-se com um homem que ousava, destemido, revelar, deles, a ignorância, ressentidos, rancorosos, enraivecidos, ensandecidos, arquitetaram-lhe a morte, a de Sócrates, homem que os desmascarava em praça pública, constrangendo-os, enodoando-lhes a reputação. Jamais admitiriam que um joão-ninguém se lhes sobressaísse na arte na qual eles se consideravam lídimos representantes e seguisse a arregimentar um exército de admiradores, um sem número de seguidores, que, lhe reconhecendo a superioridade, desdenhavam-los; os pretensos sábios, feridos na vaidade de homens reputados superiores, em razão da aventura intelectual de Sócrates, e no confronto com este revelando-se tolos, tinham de dar-lhe cabo.

No confronto com os sábios revelou-se Sócrates sábio, não porque era o seu desejo sobressair-se aos seus rivais, mas porque desejava, unicamente, intrigado, entender o teor da revelação, para ele enigmática, do oráculo de Delfos; e sobressaindo-se, repito, não porque era esse o seu propósito, aos seus oponentes, estes, afamados sábios, que, ao emularem-lo, revelaram-se pequenos, risíveis, conquistou-lhes a inimizade, e a de muitas outras personagens, que nele identificaram uma ameaça à ordem por eles estabelecida. E Sócrates, caluniado, foi acusado, por Meleto, de ser hostil aos deuses da cidade de Atenas e corruptor dos jovens atenienses. E secundaram Meleto Anito e Lícon.

E Sócrates usa, em sua defesa, a mais poderosa arma à disposição dos homens: A palavra. E a palavra de Sócrates é poderosa. Tão poderosa que, mesmo não conquistando o coração do júri, que não o inocentou dos crimes que Meleto lhe imputara e condenou-o à morte, obrigando-o a ingerir cicuta, sobreviveu a vinte e cinco séculos. E hoje a façanha de Sócrates está, registrada em todos os idiomas, à disposição de todos os homens que se movem pelo mesmo espírito que o animava.

Além de, ao reconhecer-se ignorante, e revelar-se um sábio, era Sócrates audaz, corajoso, um modelo de abnegação, de vida dedicada a algo maior do que a sua existência; e era tal a sua consciência do valor, autêntico valor, da liberdade do homem que preferiu ele morrer a suplicar aos juízes que lhe poupassem a vida; não se traiu; não se curvou diante de seus algozes. Honrou-se ao conservar-se altivo em sua humildade. E outro de seus talentos revelou Sócrates, segundo o relato de seu mais famoso discípulo: o da profecia: vaticinou sofrimento indizível aos homens que o condenaram. E a história ensina que o destino deles corresponde ao profetizado pelo mais sábio dos homens.

É Apologia de Sócrates um livro indispensável para quem deseja conhecer o que é a coragem de um homem talentoso diante dos medíocres, de um homem que prefere, por amor à verdade, a morte, e sabe que, obtendo-a, conquista a liberdade.

Amor com amor se paga – de França Júnior

Nesta peça, França Júnior narra uma singela trama em que se entrecruzam dois casos de amores ilícitos, que não se consumam, conservando-se os amantes no universo platônico do encantamento pela beleza e pelo ideal de amor imaginário – no caso, uma das personagens, romanesca, tem suas idéias amorosas inspiradas nas obras de Byron e Chateaubriand. Dois casais animam a peça: o Coutinho, Eduardo e Emília; e o Carneiro, Miguel e Adelaide; e com eles contracena Vicente do Amparo, um serviçal. Em um ato, em quatorze cenas, curtas, principia-se a peça – que não se prolonga além de quinze páginas numa sala, a mesa preparada, por Vicente do Amparo, para um encontro entre Eduardo Coutinho e Adelaide Carneiro. Na sequência, na sala retirando-se Eduardo Coutinho, e nela presente apenas Vicente do Amparo, entra, esbaforido, Miguel Carneiro, fugindo à caça que lhe promovem alguns moradores da vizinhança. Aqui, narra Miguel Carneiro os contratempos que enfrentara durante os preparativos para o seu encontro com a sua amada, que, sabe-se logo depois, é Emília Coutinho. E assim que se anuncia o regresso de Eduardo Coutinho, agora acompanhado de Adelaide Carneiro, Miguel Carneiro, antecipando-se à entrada deles na sala, esconde-se embaixo da mesa, e, escondido, ouve-lhes a conversa, e reconhece a voz de sua esposa, que revela seu amor pelo marido e sua leviandade ao, deixando-se seduzir pelas idéias românticas dos livros, concordara com o encontro com Eduardo Coutinho. Maldiz, então, Miguel Carneiro, os livros românticos, que estão a virar a cabeça de sua esposa.
Abro um parêntese: É recorrente na literatura romântica a idéia do mal que a literatura faz às mulheres, principalmente às suscetíveis, de imaginação fantasiosa, que facilmente se excitam com a leitura de aventuras amorosas, encantadas pelas narrativas dos mestres do romantismo. E aqui fecho o parêntese.
E nesta peça, singela e divertida, de França Júnior, é Adelaide Carneiro a mulher que representa o tipo frágil e inocente que, deixando-se seduzir por obras românticas, espelha-se nas suas personagens, e alimenta o desejo, irrefreável, de levar à realidade façanhas dignas de dramas romanescos saídos da cabeça de escritores.

Uma sombra na janela (L’ombre chinoise) – de Georges Simenon

Uma sombra na janela atende às exigências de todo apreciador da literatura policial.

Nas suas primeiras linhas, o leitor se vê na cena do crime, que se sucedeu, em um escritório de um laboratório, onde se fabrica soros do Dr. Revière (e onde fôra encontrado o cadáver do Sr. Raymond Couchet), do Place des Vosges, nº 61, à noite fria de um dia 30, e tem diante de si o comissário Maigret, que, momentos antes, recebera, da Sra. Bourcier, porteira do Place des Vosges, telefonema misterioso.

E insere-se, na cena do crime, o Sr. Martin, funcionário de um cartório, servil à Sra. Martin, sua esposa; e Nine Moinard, que, deduziu o comissário Maigret ao estudar-lhe a maquiagem, o vestido, o olhar e o modo de segurar a bolsa, era mulher de teatro de Revista e amante do Sr. Raymond Couchet; o Sr. Philippe, diretor do laboratório, homem na altura dos quarenta anos, bem arrumado, barba castanha, mãos metidas em luvas de camurça pérola; e o Sr. de Saint-Marc.

Os suspeitos estão apresentados.

Quem matou o Sr. Raymond Couchet?

Algumas descrições e informações instigam o leitor, que, à leitura das primeiras páginas, não decide apontar o dedo acusador para nenhum dos suspeitos: a Sra. Bourcier, a última pessoa a ver o Sr. Raymond Couchet vivo; Nine Moinard, que, indagada pelo comissário Maigret se o Sr. Raymond Couchet tinha um testamento, diz que não sabia; o Sr. e a Sra. Martin, ambas de comportamento inusitado; o Sr. Philippe, a única pessoa que, além do Sr. Raymond Couchet, possuía a chave e a senha do cofre; e o Sr. de Saint-Marc.

O médico-legista aponta, em um relatório verbal: O Dr. Raymond Couchet morreu com uma bala no tórax e teve seccionada a aorta; e foi fulminante a morte; distava dele o assassino três metros, no momento do disparo; e a bala era de calibre 6,35 mm. E outras informações o autor fornece ao leitor: o Sr. Raymond Couchet tinha o costume de permanecer, sozinho, no escritório, após o expediente; há vinte e oito locatários no edifício; o Sr. Martin retira-se do seu apartamento, tarde da noite, e tem atitude suspeita; o Sr. Raymond Couchet lançou as pesquisas do Dr. Revière, que morrera cinco anos antes; trezentos e sessenta mil francos foram roubados do cofre do laboratório; Nine Moinard insinua que o Sr. Raymond Couchet frequentava, em Meulan, uma certa villa.

Aqui, o leitor pode suspeitar de que o criminoso é um personagem que o autor ainda não apresentou, e da esposa do Sr. Raymond Couchet, que talvez tenha descoberto que seu marido era amante de Nine Moinard. As suspeitas maiores recaem sobre Nine Moinard, Sr. Philippe e a esposa, agora viúva, do Sr. Couchet. E eram dois os criminosos, um ladrão e um assassino, presumiu o comissário Maigret.

O relato que se segue na manhã seguinte agarra o leitor, pelo pescoço, surpreendendo-o, e inserindo-o em uma trama intrincada. Em visita à Nine Moinard, o comissário Maigret vem a saber que um dos vizinhos dela, Roger Couchet, é filho do Sr. Raymond Couchet e da Sra Martin, e enteado do Sr. Martin. E no Quai dês Orfèvres, o comissário Maigret conversa com a Sra. Martin. Durante a entrevista, ela lhe diz que ela sofreu durante os três anos que viveu com o Sr. Couchet e que ele abandonou o filho e jamais lhe pagou pensão alimentícia. E apresentadas as fichas policiais dos envolvidos no caso, sabe-se que Nine Moinard fôra, certa vez, detida por prostituição (suposta); que Roger Couchet estava sob observação da Brigada de Jogo e da Brigada de Tóxicos; e que Céline, que vivia com Roger Couchet, era prostituta.

Quem matou o Sr. Raymond Couchet? E quem roubou os trezentos e sessenta mil francos?

E outras personagens são inseridas na trama. E sucedem-se eventos envolventes que enredam o leitor, forçando-o a desconfiar de todas as personagens. Enfim, aproxima-se o encerramento da aventura do comissário Maigret, que, em um ônibus, ouve de um passageiro notícias de cédulas de mil francos boiando na barragem de Bougival e descendo o rio Sena… E Maigret acha um revólver…

Encerrada a leitura do livro, reconheci que de muitos dentre os detalhes que anotei eram irrelevantes e infundadas as minhas suspeitas.

George Simenon sabe envolver o leitor, mesmerizando-o. Não lhe sonega informações.

Encerro, aqui, a resenha. Se eu lhe adicionar mais uma palavra, roubarei ao leitor o prazer de ler a trama protagonizada pelo comissário Maigret.

A Salvação da Alma (Contos de Aprendiz) – de Carlos Drummond de Andrade

Ao Carlos Drummond de Andrade poeta prefiro o contista. Eu não sou um bom leitor de poesias.

No primeiro conto do volume Contos de Aprendiz, narra Carlos Drummond de Andrade um relato de Augusto Novais, irmão de Miguel, o primogênito, Édison, Tito e Ester. É Augusto o mais novo dos meninos. Os quatro vivem às turras, sempre às voltas com brigas por qualquer miudeza; quando não havia razões para se estapearem, esmurrarem-se, arrumavam um pretexto qualquer, e socavam-se. As brigas, que se sucediam diariamente, não indicavam que os quatro meninos odiavam-se; gostavam-se, mas não se negavam o direito de se baterem. O mais velho deles, Miguel, é o modelo que os outros seguiam à risca; mais experiente, ele lhes ensinava valiosos palavrões e xingamentos. Dentre Miguel, Édison e Tito, este era o que mais se envolvia em brigas com Augusto, um ano mais novo, e quem mais lhe batia; era-lhe mais forte. E os quatro irmãos, ladinos, vendiam para Ester muitos dos objetos e guloseimas que ela apreciava, pastilhas de hortelã, caixas vazias de sabonete, extorquindo-lhe o dinheiro que o pai, generoso com ela, e jamais com os quatro meninos, dava-lhe com facilidade que os boquiabria.

Um dia, visita a cidade padres, que pregavam no púlpito e confessavam os munícipes. Os quatro meninos Novais eram “hereges”, que na linguagem local é sinônimo de cristãos desleixados, que não se dedicam aos rituais cristãos, não vão à missa, não promovem obras de caridade.

Miguel, Édison, Tito, Augusto e Ester se confessam com o padre. No início da viagem de regresso à casa, Tito puxa para junto de si Augusto, com ele entabula conversa, e  andam, tranquilos, os dois, pela única rua da cidade, afastados dos outros. Tito, então, diz ao seu irmão que não mais lhe bateria, e diante da incredulidade dele, promete-lhe não lhe bater e pede-lhe que ele o humilhe, que lhe faça algo de mal, pois quer ser humilhado. Augusto, após um momento de hesitação, decide pedir a Tito que este se pusesse de quatro e se fizesse de burro, e nele Augusto montaria, e Tito o carregaria até a casa. Tito aceita a proposta. Augusto serve-se dele de burro. Percorridos alguns metros, Augusto, deliciando-se com a humilhação que aplicava ao seu irmão – este, resignado, não se queixava, e cumpria, sem pestanejar, a promessa -, decide fazer a ele outra exigência: que a cada cinquenta passos, ele gritasse “Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim!” Tito não reclama. E corresponde ao pedido, que lhe soa como uma ordem, do irmão. Augusto, entretanto, não se deu por satisfeito. Deliciava-se com a humilhação que infligia ao irmão. No desejo de aproveitar-se da situação que ele lhe propiciava para dele se desforrar de todas as surras que ele lhe dera, aplicou dois golpes simultâneos, com os calcanhares, como se o esporeasse, numa região do corpo, tão sensível, que fê-lo dobrar-se de dor, esbravejar, encolerizar-se, e esquecer-se da promessa feita.

Conto divertido. Carlos Drummond de Andrade descreve, com singeleza, além dos irmãos Novais, outros personagens, caracterizando-os com rápidas pinceladas, suficientes para apresentá-los, em sua inteireza, numa narrativa simples e cativante, ao leitor.

Introdução à Nova Ordem Mundial – Alexandre Costa

I
É este um livro que oferece aos leitores informações que lhes permitem conceber as dimensões da arquitetura do poder mundial. Claro que – e nenhum leitor será tolo para conclui o contrário -, em suas poucas palavras, não descreve, e tampouco tem o autor a pretensão de o fazer, toda a estrutura do poder que nos oprime ao mesmo tempo que nos seduz ao ofertar-nos produtos e serviços que atende aos nossos sonhos, aos nossos mais baixos instintos. À leitura dos três primeiros capítulos, empreendida, hoje, 16 de agosto de 2019, interrompida na sessão que trata, em poucas palavras, da família Rothschild, à esta dedicando uma página, dá o autor uma amostra, ao mencionar, numa visão geral, a ação dos Rothschild na guerra entre a Inglaterra e a França, esta nação então sob o comando de Napoleão Bonaparte. Além destas informações, há outras, que ajudam a quebrar falsas idéias e destruir pensamentos ingênuos acerca da política mundial.
Nas primeiras páginas de sua obra, trata o autor dos três esquemas globalistas, idéia muito cara ao filósofo Olavo de Carvalho (citado pelo autor): o esquema islâmico, do Califado Universal – esta denominação não empregada pelo autor, mas é de uso corrente por Olavo de Carvalho -; o russo-chinês (eurasianismo); e o globalista financeiro, ocidental, idealizado pelo Consórcio, segundo o já mencionado Olavo de Carvalho, cujos estudos são de valor inestimável e cujo nome é onipresente nos trabalhos de estudiosos respeitáveis, comprometidos com a verdade, dedicados à ciência, e não nos dos cujo único bem é a má-fé, fruto da má-vontade, inspirada, esta, pela inveja, rancor e ressentimento que deles alimentam o ódio o qual eles, em vão, esforçam-se para ocultar sob uma camada (película translúcida facilmente rasgável que eles acreditam um bloco de concreto a conservar ocultas de todos suas almas carcomidas) de simulação de amor pelo conhecimento, pela ciência e pela verdade e de falsa preocupação com o destino da humanidade.
A Nova Ordem Mundial – segundo Alexandre Costa um sonho concebido deste tempos imemoriais, que remontam os primórdios da civilização – está em vias de ser concretizado. Com o bombardeio de informações desencontradas, estímulos à conduta desregrada, descompromissada, por meio da ONU, visam os financiadores da NOM a aniquilação da civilização ocidental, seu inimigo visceral; para tanto, almejam suprimir da História todos os traços do cristianismo e a demolição dos edifícios das soberanias nacionais. E é a mensagem de Jesus Cristo o principal alvo dos idealizadores da Nova Ordem Mundial, pois tem ela poder para sustentar a civilização em que vivemos. O poder disruptivo da NOM manifesta-se em todo lugar, em todos os países. Para se substituir a civilização atual, erguida sobre três alicerces – cristianismo, a filosofia grega e o direito romano (dos quais nascem a alta cultura, produto da mente de indivíduos de talentos singulares, excepcionais dedicados ao misticismo, à arte (literatura, pintura, escultura, música, teatro, arquitetura e cinema – se faz, obrigatoriamente, a necessidade de eliminar os valores que a sustentam, ou gradativamente, ou com a promoção de uma ruptura violenta, por meio de guerras, se necessário, o que fariam os potentados sem pestanejar, sem nenhum peso na consciência, financiando conflitos que venham a ceifar a vida de milhões, de dezenas, de centenas de milhões, talvez de bilhões, de seres humanos – apenas números nas estatísticas de organizações mundiais que os globalistas financistas, banqueiros internacionais. A guerra que os idealizadores da NOM financiam é contra, acima de tudo, o cristianismo, o Corpo Místico Cristão, que tem de se ver contra três frentes de combate, os quais, embora antagônicos nos pontos essenciais, de longo prazo, são aliados de ocasião nas questões imediatas, prontos para se entredevorarem assim que pisotearem o cadáver putrefato do inimigo comum, a Civilização Ocidental. Muito sangue irá correr pelos rios do mundo antes de se tornar realidadr o tão sonhado admirável mundo novo dos Rothschild, Rockefeller e outros apaniguados auto-intitulados donos do mundo. Se eles serão engolidos pelo leviatã global que estão a alimentar é outra história.
*
Adendo 1: hoje, 29 de setembro de 2019, ao digitar o texto acima, deparei-me com uma incorreção. Afirmei que o nome de Olavo de Carvalho é onipresente no trabalho de estudiosos sérios e não nos dos inescrupulosos. Reconsidero: o nome Olavo de Carvalho está onipresente, também, nos trabalhos destes últimos, irrelevantes, de nenhum valor literário e filosófico, pois tais criaturais, não tendo nenhum apreço pelo estudo sério, impelidas pela inveja e ódio que as consomem, ao se referirem ao mais influente intelectual brasileiro vivo, cospem as suas diatribes diabólicas, expondo-se, inteiramente, com as suas mendacidade moral e miséria intelectual, tendo em mente um, e apenas um objetivo: ferir a reputação de um homem que lhes é superior em todos os aspectos, infinitamente superior (e que todos compreendam esta hipérbole).
Adendo 2: as primeiras páginas deste livro de Alexandre Costa e outros textos inspiraram-me um pensamento: os liberais, que se declaram autênticos defensores da liberdade, atuam contra o Estado, encontrando nesta instituição o opressor encarnado – o que, entendo, é uma rematada tolice, pois o Estado, tão amaldiçoado por eles, pode ser, também, a depender de quem ocupa os postos chaves de sua burocracia, o libertador. Mas o ponto que quero mostrar, aqui, é outro: os liberais têm no Estado, e só no Estado, o agente de opressão; e não entendem, ou não querem entender, que as empresas podem – e são – tão ou mais opressivas que o Estado; além disso, em defesa de seus interesses – muitos deles escusos – financiam Estados autoritários, ditatoriais, totalitários. Conhecem os liberais este traço da realidade?
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II
Dando sequência à leitura, hoje, segunda-feira, dezenove de agosto de 2019, do livro de Alexandre Costa, Introdução à Nova Ordem Mundial, e interrompendo-a na página 49, encerrando, portanto, o capítulo 4, Os Círculos do Poder, obtive conhecimento de um conjunto considerável de informações acerca de famílias dinásticas, poderosíssimas, cuja fortuna e poder são inimagináveis, e, também, de sociedades iniciáticas, sociedades secretas e personalidades que influenciaram o destino da humanidade, alterando o curso da História (aqui, emprego, unicamente, uma figura de linguagem, afinal a História não segue dois, ou mais, cursos, mas apenas um, o dos eventos ocorridos). Mesmo sendo o livro de Alexandre Costa uma introdução ao tema da NOM, o leitor, dedicado à leitura, se de imaginação fértil, e dotado de um pouco de perspicácia – estes dois talentos associados a um conhecimento prévio, mesmo que precário, do assunto – pode conceber a imensidão (não em sua amplitude, e certo de que muitos dados estão além de seu entendimento e de sua capacidade de imaginação, lhe são desconhecidos), do poder concentrado nas mãos de algumas dezenas de famílias dinásticas, pode satisfazer-se com a ampliação de sua visão, ciente de que pouco, quase nada, consegue ver, e o que vê, desconfia, talvez não seja real. Numa condição paradoxal, sabendo mais, está certo de que sabe menos do que sabia antes da leitura do livro, pois, sabe, agora, que, em relação ao que acredita que existe para se conhecer, sabe pouco, quase nada, pois o conhecimento adquirido com a leitura dos primeiros capítulos do livro de Alexandre Costa ampliou-lhe a consciência do que há para se conhecer.
Algumas informações fornecidas pelo autor não me era desconhecida. Cito uma delas, e nela me prendo: a maçonaria promoveu a Independência do Brasil, informação, esta, da qual eu, há uns vinte dias, tomara conhecimento durante a leitura de Bonifácio, livro de Otávio Tarquínio de Sousa, historiador brasileiro de primeira ordem. Os nomes de personagens de sociedades secretas e ocultistas, tais como os de Helene Blavatsky e Aleister Crowley, já eram do meu conhecimento; do mesmo modo o eram, já, os nomes de George Bernard Shaw e Herbert George Wells e os Webb, todos integrantes das hostes da Fabian Society; e o de George Soros, patrocinador da Open Society. Os nomes de inúmeras fundações mencionadas, no livro, nas poucas páginas que li, hoje, também não eram do meu desconhecimento. E alguns dados surpreenderam-me: os relacionados aos Illuminati da Baviera (criados pelo ex-jesuíta Adam Weishaupt, financiados por Amschel Mayer Rothschild, até caírem na clandestinidade) que participaram da Revolução Francesa, para aniquilar os nobres franceses, e do Iluminismo, para dar cabo da Igreja Católica;
E povos de todo o mundo têm de se haver com criaturas obscuras que manipulam os fios que controlam os agentes da História, criaturas que, não poucas, não é errado dizer, emergirem das profundezas do inferno. E Anton Lavey, discípulo de Aleister Crowley, e fundador, nos EUA, da Igreja do Diabo, não me deixa mentir.
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Adendo: escrevo, hoje, 1 de outubro de 2019: muitas das informações fornecidas pelo autor parecem saídos de um roteiro de filme de espionagem moderno, de uma história de teoria da conspiração. Temos de entender que soam-nos absurdas porque somos manipulados pelos meios de comunicação e pelo sistema educacional, instituições que – sabe quem, experiente, acredita em Papai Noel e Coelinho da Páscoa, mas não em lendas modernas concebidas por engenheiros sociais, sociólogos, psicólogos, historiadores, filósofos (melhor intelectuais, muitos deles desonestos, muitos insanos, dementes), cientistas e profissionais de outras áreas do conhecimento, todos a se arvorarem sábios infalíveis, muitos ignorando sua condição servil, de soldado de um exército que anuncia o apocalipse – sonegam ao mundo as informações que lhes poderiam permitir conceber a História humana com aspectos que mais a aproximam da realidade doa fatos
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III
Seguindo, hoje, 20 de agosto de 2019, na leitura do livro de Alexandre Costa até a página 62, encerrando o capítulo 5, que amplia o tema e dá a conhecer, agora entrando no mérito do projeto de poder dos idealizadores da Nova Ordem Mundial (financistas, multibilionários europeus e americanos, banqueiros miliardários, detentores de riqueza jamais vista, integrantes de dinastias centenárias) para cuja implantação urdem eles as tramas mais sórdidas, numa artimanha sofisticadíssima, cujos pormenores não podem sequer ser vislumbrados pelo comum dos mortais; e é o objetivo dos idealizadores da NOM a eliminação dos valores cristãos do coração dos homens e a criação de um novo senso comum que está em consonância, não com os valores dos seus patrocinadores, mas com os interesses deles, individuos que, numa busca doentia pelo poder absoluto, dispõem-se, literalmente, a vender a alma ao Diabo. Para tanto, empregando os meios mais sórdidos, manipulando consciências, deturpando valores, subvertendo-os, fazendo dos vícios virtudes e das virtudes vícios, criam, na ignorância das pessoas que eles subjugam, um novo consenso social cuja substância consiste na valorização dos sete pecados capitais, dados como virtudes, assim corroendo as almas dos homens e, consequentemente, rasgando o tecido social. Empregam os mais sofisticados meios tecnológicos que a inteligência humana já concebeu (informática, mídia, cinema, e outros meios de entretenimento), para conduzir os povos de todo o mundo ao abatedouro. Fica em aberto, pois o futuro a Deus pertence, se serão bem-sucedidos em sua laboriosa tarefa de, tudo pervertendo, criar o caos, e erigirem uma civilização aferrada ao materialismo mais chão, destituída de qualquer resquício da civilização de matriz cristã, tutelada por uma burocracia tecnocrática global, totalitária, o Leviatã planetário.
Em um trecho afirma o autor que é factível a eclosão de uma guerra, que redundará na destruição de Israel, evento culminante de um projeto que se arrasta desde a fundação do estado judeu, e que será o pontapé inicial de uma guerra de alcance global sobre cujas ruínas se erguerão as tétricas edificações da Nova Ordem Mundial. O futuro não é alvissareiro, se se concretizar o sonho dos idealizadores da NOM, criaturas que, não é exagero dizer, emergindo das profundezas do inferno, estão a perturbar o sono dos justos.
Todas as ideologias coletivistas (comunismo, socialismo, nazismo e fascismo), irmãs, vieram à luz de uma criatura escatológica, para nutrir os homens de escuridão: o movimento revolucionário, de fundo totalitário, de matriz anti-cristã. O futuro que os donos das maiores riquezas já acumuladas nos reservam é um inferno. Eu diria um inferno dantesco, mas presumo que seja pior.
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IV
Ainda no dia 20 de agosto, decidi, após escrever os comentários acima, ler a página 63 e o trecho inicial da 64, encerrando a leitura ao término da sessão “FED”, do capítulo 6, “Tentáculos”. Nesta sessão, tive contato com informações, inéditas para mim, que me obrigaram a eliminar a confusão que eu fazia acerca da real natureza do Federal Reserve e da sua criação, o que me permite formular um pensamento, se não exato, mais próximo da realidade no que se refere ao poder dos banqueiros no destino de povos e nações. As famílias dinásticas, não há dúvidas, detêm poder imensurável, jamais sonhado pelos antigos imperadores e pelos faraós; aliás, talvez eles tenham sonhado com tal poder; todavia, para a consecução de um projeto que lhes permitisse obtê-lo eles não possuíam os recursos necessários. Os metacapitalistas – uso, aqui, um termo caro a Olavo de Carvalho – almejam a predominância global, o domínio de todas as nações, de todos os povos, o controle da mente de todas as pessoas. É impressionante, em todos os aspectos imagináveis, a malícia diabólica dos nababos internacionais.
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Adendo: escrevo, hoje, 4 de outubro de 2019: nenhuma pessoa que se dedica ao estudo da política mundial e nenhuma pessoa que, não sendo estudiosa do assunto, curiosa, lê livros e artigos de estudiosos, para conhecer, uma parcela que seja, das coisas do mundo, ignora a complexidade das regras do jogo que se joga na política mundial, mesmo desconhecendo-as quase que completamente. O que afirmo não é absurdo; pode ser paradoxal, mas absurdo não é. Em sua ignorância, e ciente dela, desejando entender as engrenagens que movem os mecanismos da política mundial, certo de que só poderá, por mais que se debruce sobre os livros que tratam do tema, conhecer uma ínfima parcela dos dados que há para se conhecer, alcançará, não o entendimento de todos os elementos neles envolvidos, mas a certeza, que só o bom senso permite possuir, de que, sendo um ignorante, é capaz de, em imaginação, com os dados que lhe chegam ao conhecimento, conceber uma idéia, sem saber se ela está correta, que lhe oferece um ponto a partir do qual pode pôr-se a pensar, com segurança, e titubeando, acerca do assunto, a política mundial, que lhe desperta o interesse.
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V
Foram tantas as informações que colhi, hoje, dia 21 de agosto de 2019, da leitura que empreendi de poucas páginas do capítulo 6, Tentáculos, encerrando-o, que fui obrigado a interromper a leitura e registrar estes comentários para mastigá-las, digeri-las, associando-as com outras informações do meu conhecimento as quais tirei de outros livros, de artigos, e de vídeos; dentre os artigos, muitos – publicados no site Mídia Sem Máscara – de autoria de Olavo de Carvalho, filósofo. E associando-as, posso conceber, em imaginação, uma imagem do panorama, que em escorço se me revela aos olhos, melhor, à mente. As informações que tirei das poucas páginas que li na última hora obrigam-me a concluir que vivemos na ignorância abissal acerca das mãos (de cuja existência sequer suspeitamos) que manuseiam os cordões que nos movem, manipulando-nos ao seu bel-prazer. Somos apenas bonecos manipuláveis. E só resta àqueles que, de espírito indomável, estudam, com afinco, a questão, alertar o povo dos perigos que o assaltam sem que ele saiba. Infelizmente, tais pessoas recebem, não raro, a ingratidão, o desprezo, o desdém, e ouvem comentários desabonadores, não raros ofensivos, e risos de mofa, de tolos soberbos que, envaidecidos por auto-imagem irrealisticamente favorável, que lhes afaga o ego e abafa-lhes a vocação, em todos inata, para o auto-conhecimento.
Conhece-se, à leitura das páginas aqui comentadas, as entidades – ONU, CFR (Council Foreign Relations), Comissão Trilateral, Diálogo Interamericano, Foro de São Paulo, Clube Bilderberg, Bohemian Club – e alguns de seus principais integrantes, políticos eminentes, e magnatas, sendo um deles o onipresente David Rockefeller, e as agências de inteligência, e órgãos científicos, cujos recursos incalculáveis recebem uso que o discurso oficial não contempla. Tais entidades, muitas delas financiadas por magnatas, associadas com a imprensa, as universidades, os serviços de inteligência – e até a NASA – são agentes de transformação social, cujo objetivo prioritário é a criação de um novo imaginário, um senso comum de inspiração anti-cristã, anti-religiosa. Patrocinam movimentos sociais progressistas, políticas de ações afirmativas, e de controle populacional, e de aborto. E participam muitos de seus integrantes de sociedades iniciáticas, secretas.
Estendi-me, neste comentário, além do que eu pretendia; não reclamo, pois, ao expor, nestas poucas linhas, os pensamentos que a leitura inspirou-me, consegui, assim acredito, organizá-los, além de amadurecer a consciência que eu tenho do assunto Nova Ordem Mundial, certo de que acerca dele quase nada sei (para não ir ao extremo de dizer que nada sei).
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Adendo: hoje, dia 10 de outubro de 2019, escrevo: no Brasil, a pessoa atenta, mesmo a que não se dedica ao labor intectual e não está antenada – para usar uma expressão popular moderna – nas questões políticas, já detectou a promiscuidade entre bancos, empresas, governos, organizações não-governamentais, meios de comunicação, instituições culturais, escolas, entidades de classe (OAB, UNE, sindicatos), organizações de direitos humanos, movimentos sociais, ONU, setores da Igreja Católica, e da Protestante; sabe que, por algum meio, tais entidades retroalimentam-se, pois identificou uma identidade em comum entre todas elas: o pensamento anti-cristão, que se ramifica em inúmeras políticas, aparentemente dissociadas umas das outras, muitas delas antagônicas (antagônicas, sim, mas atendendo aos interesses de seus financiadores, que são aliados).
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VI
Ontem, 21 de agosto de 2019, após redigir o texto acima, dediquei alguns minutos à leitura da sessão “Os influenciadores”, do capítulo 7, “Personagens”. E fui logo levado a informações acerca de grosseiros erros conceituais, involuntários, de três filósofos modernos, Ockam, Descartes e Kant, e de Hegel, o deste proposital, que promoveram as misérias, unidas a outros fatores, intelectual e moral que hoje em dia nos idiotiza, nos estupidifica, convertendo-nos em criaturas desprovidas de vontade própria, destituídas de personalidade, de integridade, de espírito, de alma, do seu ser.
Hoje, dia 22, dediquei uma hora e meia à leitura do restante do capítulo 7 e das primeiras páginas do capítulo 8, “Estratégias, táticas e métodos”, encerrando-a ao fim da página 95. São de tal monta as informações fornecidas pelo autor, que eu, contrariado, tive de abandonar o meu desejo de seguir com a leitura até o encerramento do capítulo 8, e concentrar-me na redação desta nota, auxiliando-me as anotações que fiz durante a leitura, anotações que me permitem relembrar algumas informações, as que, entendendo-as como relevantes, eu selecionara para não me sentir obrigado a copiar todo o livro. No capítulo 7, toma-se conhecimento do valor, para a ereção dos edifícios da Nova Ordem Mundial, cujos alicerces e estrutura já estão erguidas, de idéias de personagens, além das quatro que mencionei linhas acima já conhecidas de toda pessoa minimamente informada: Marx, Lênin, Gramsci, Lukács, Adorno, Marcuse, Horkheimer, Foucault, Derrida, Paulo Freire, Dewey, Mesmer, Kardec, Crooker, Pavlov, Albert Pike.
Está claro, no livro, que o objetivo principal dos idealizadores e financiadores da NOM é construir, na Terra, o paraíso de Satã; para tanto, eles pretendem a aniquilação do Ocidente, o que só será concretizado com a sublevação das massas, que se dará, caso se dê, com a subversão dos valores, por meio do relativismo, com a ascensão de valores que se opõem aos da moral cristã, do direito romano e da filosofia grega, os três principais nutrientes da cultura ocidental, que sustentam a sociedade ocidental e boa parte da oriental. Tais revelações não surpreendem toda pessoa de bom-senso, que entende – em sua razão espontânea, diria Olavo de Carvalho, isto é, seu instinto, seu subconsciente, desprezado por muitos intelectuais, mas valorizado pelo filósofo brasileiro – que entende, sigo, que a guerra que se trava, no mundo, desde os seus primórdios, se dá, em embates ferozes, sangrentos, entre o Bem e o Mal.
É impossível, indica o autor – e ninguém sensato ousará levantar-lhe objeção -, acompanhar todas as ações das principais personagens que planejam e disseminam a obra macabra que é a criação de uma nova civilização de matriz coletivista, totalitária, sob a égide de organizações globais comandadas por seres mal intencionados. Para atingir o seu objetivo, usam tais personagens da rede se ensino, dos meios de comunicação, de fundações filantrópicas, da estrutura dos estados nacionais, para destruir a inteligência dos homens, eliminando-lhes o senso das proporções, o princípio da equivalência, a consciência da realidade, ampliando-lhes a dissonância cognitiva – das pessoas sãs, maduras, virtuosas, de nobreza de caráter, é óbvio, e não dos dementes, dos cruéis, dos insanos, dos cavaleiros do apocalipse.
As dimensões da NOM estão além do conhecimento de toda pessoa. Seus principais propugnadores atuam, diuturnamente, inspiradas suas ações em cultos luciferinos, no submundo, não é exagero dizer, do crime. Tramam planos nefastos, mirando um propósito: fazer do mundo um inferno. A teia de conexões pessoais dos financiadores da NOM é extraordinariamente complexa, inabarcável.
Para concretizar a sua utopia totalitária, uma distopia orweliana, os globalistas usam da novilíngua, destruindo, assim, ao subverter o sentido das palavras, a linguagem, e, consequentemente, a inteligência humana.
E o mais aterrador: a Igreja Católica pode, corroída, ser um dos agentes, senão o principal, da aniquilação da civilização que ela ajudou a erguer e que ainda mantêm em pé apesar de debilitada de tão agredida nos últimos séculos.
O cenário é desolador, o livro indica. A sociedade ocidental é agredida de todos os lados. Os seus inimigos estão em toda parte, infiltrados em todas as suas instituições, inclusive, e principalmente, naquelas que usufruem da confiança pública – daí serem elas as mais perigosas.
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Adendo 1: hoje, dia 12 de outubro de 2019, escrevo: em um vídeo, publicado no Youtube, Olavo de Carvalho, tendo ao seu lado Rodrigo Gurgel, professor de literatura e crítico literário, discorrendo acerca da matriz cultural do Ocidente, salientou um ponto: que há quatro séculos as três pilastras do Ocidente, a religião cristã, a filosofia grega e o direito romano, foram derrubadas pela mentalidade técnico-científica, que, oferecendo soluções para todos os problemas do homem moderno e respostas para todas as suas perguntas, assume ares de entidade transcendental onipotente e onissapiente, capaz de ofertar todos os bens de que ele não prescinde. Tal mentalidade está a escravizar o ser humano, que se apequena voluntariamente, sem o saber, atendendo às veleidades que tanto o seduzem.
Adendo 2: vê-se, hoje em dia, a corrosão de todas as instituições públicas, a Igreja Católica, inclusive. No Brasil, assistimos, incrédulos, abismados, a desfaçatez de personalidades que integram o Congresso, o Senado, o STF, a OAB, o Ministério Público, os meios de comuniicação, a rede de ensino, personagens que deveriam garantir a saúde de tais instituições, mas, corruptos, estão a corroê-las, a reduzir-lhes a já baixa, quase inexistente, credibilidade, o que poderá vir a, desacreditando-as aos olhos do povo, excitar paixões violentas, que poderão vir a culminar em subleções populares incontroláveis, redundando em caos. E chamo a atenção para o verbo auxiliar ‘poder’ que, prudentemente, insisti em inserir neste comentário.
Adendo 3: Estamos assistindo ao Sínodo para a Amazônia, evento controverso que muitas polêmicas, incontornáveis, está estimulando. Não são poucos os estudiosos, os leigos e membros da Igreja que suspeitam do Papa Francisco, que assume posição favorável à Teologia da Libertação e à polìtica ambientalista, descuidando da doutrina da Igreja e da saúde moral dos cristãos.
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VII
As questões consideradas no capítulo 8, que li, hoje, 23 de agosto – uma sexta-feira de clima instável, chuvoso no período ds manhã, carregado à tarde, em alguns momentos o céu coberto de nuvens escuras, em outros o sol anunciando uma tarde ensolarada, que em nenhum momento se fez presente – não são do meu conhecimento; acerca delas eu lera artigos, principalmente, e assistira vídeos, alguns ilustrativos, imperdíveis, ricos de conteúdo em suas óbvias limitações.
Trata o capítulo 8, em poucas palavras, como um livro de introdução se propõe a fazer, das artimanhas dos globalistas para realizar o admirável mundo novo sobre os escombros da civilização: desinformação; corrupção da linguagem e de sua importância, imprescindível, para a revolução dos costumes, a subversão dos valores; politicamente correto; vulgarização da cultura de infantilização das massas; cavalos de Tróia (ações afirmativas); Relatório Iron Mountain; Estratégia Cloward-Piven; ONU, instrumento da subversão social, destruição dos valores milenares, da alteração da cultura alimentar dos povos, e da medicina, e os seus artifícios de manipulação da população mundial, tornando-as dóceis aos interesses maléficos, demoníacos, dos globalistas; programas de eugenia e de controle populacional; False Flag; HAARP; chemtrails.
São tantas informações reunidas em tão poucas páginas, em rascunho, nas anotações que fiz às pressas, que me perco, encontrando dificuldades para redigir um texto que se conheça pela clareza na exposição do meu pensamento.
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Adendo 1: escrevo, hoje, 18 de outubro de 2019, entre 6 e 7 da manhã: a respeito da alteração dos hábitos alimentares, li, há um bom tempo, um artigo de autoria de Olavo de Cavalo e assiti a um vídeo dele; diz Olavo de Carvalho que a onda da cultura da alimentação “saudável” com a exclusão do cardápio de carnes vermelhas (de origem bovina) e a inclusão de grãos reduziu a fertilidade dos homens; recordo-me de um detalhe: Olavo de Carvalho, evocando uma visita que, nos anos 1990, fizera aos EUA, sentira-se um anão numa terra de gigantes, e que hoje em dia percebe-se uma considerável redução da estatura dos americanos.
Pode-se perceber que há, de fato, uma política mundial de alteração dos hábitos alimentares dos humanos; para tanto, basta atentar para as campanhas em favor da alimentação “saudável”, que se resume a vegetarianismo e veganismo, e a demonização, principalmente, da carne vermelha.
Adendo 2: acerca dos chemtrails, rastros químicos, no céu, produzidos por aviões, assisti, há alguns meses, no Youtube, um interessante vídeo de Débora G. Barbosa.
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VIII
Deixei para hoje, segunda-feira, 26 de agosto, a redação do texto que, no dia 23, sexta-feira última, comprometi-me a escrever.
Li, sexta-feira, o capítulo 8, a partir da sessão “Dividir para Conquistar” (página 96), que trata do estímulo que se dá, hoje em dia, à fragmentação da sociedade em pequenas agremiações, tribos urbanas. Os integrantes de cada tribo encontram razões para a criação de uma identidade comum, distinguindo-se do restante da sociedade, à cuja margem vivem, no desejo, vão, de com ela romperem todo contato, dela prescindindo.
O esforço à constituição da personalidade individual se dá em função da subserviência de toda pessoa à tribo com a qual cada uma se identifica; e é tão radical a identidade grupal, que os membros de uma tribo hostilizavam os de todas ss outras, fragmentando a sociedade, atomizando-a. À promessa de libertar as pessoas da opressão nelas exercida pela sociedade – o que se dá, mas a ela se empresta um poder avassalador inexistente – associa-se o desejo de oprimi-las por outros meios. É tal promessa uma artimanha para submetê-las a grupos – e jogando-os uns contra os outros, num conflito mútuo e interminável que produz o caos social. Em tal sociedade fragmentada, bloqueia-se de cada pessoa o processo natural de amadurecimento da personalidade; a pessoa, aqui, só existe em razão dos aspectos culturais que o grupo lhe impõe, mas que a ela não são inerentes, conquanto elas acreditem que o sejam.
No processo de engenharia social implementado pelos idealizadores da Nova Ordem Mundial, sob os auspícios de organizações globais, de mentalidade coletivista, tecnocrática, totalitária, lançam mãos os seus diabólicos orquestradores e propugnadores dos mais sórdidos meios de engenharia social e técnicas de persuasão e manipulação imagináveis. Para tanto, usam a imprensa para manipular as massas e a cultura pop para emburrecer todas pessoas que se encontram no raio de ação de sua maquinaria satânica.
Palavras de ordem sem pé nem cabeça associadas a estímulos múltiplos, contraditórios, produzem a destruição da personalidade e à submissão da pessoa à coletividade. O resultado: a insanidade coletiva.
Além de empobrecer a linguagem, destruindo-a, reduzindo-a a sons guturais de seres simiescos, antediluvianos, adultera-se o significado convencional das palavras; substitui-se as de uso comum, por outras, vazias, criadas em laboratório de engenharia social, às quais emprestam um significado qualquer, que esteja em consonância com o discurso politicamente correto; e estas tornam-se de uso comum, e o significado delas foge ao conhecimento de todos que as empregam; podem receber múltiplos significados a depender da conveniência de quem as manuseia; se com destreza e desembaraço, e com um bom punhado de maledicência, convertem-se em arma de destruição em massa da inteligência humana.
Vulgariza-se a cultura, debilita-se a inteligência; as letras das músicas resumem-se a onomatopéias e estímulo à sexualidade desenfreada; no cinema, enaltece-se os tipos mais execráveis e pessoas de personalidade fragmentada – e os diálogos são destituídos de coerência.
Para dominar e destruir a sociedade ocidental usam os inimigos dela Cavalos de Tróia: as ações afirmativas, políticas que sobrecarregam as instituições governamentais, saturam os serviços públicos – ensina a Estratégia Cloward-Piven, dos discípulos de Saul Alinsky, Richard Cloward e Francis Piven.
Criou-se um inimigo dos Estados Unidos, imaginário, os alienígenas, pois, entendiam os estudiosos, o Tio Sam não podia persistir na sua política externa de constantes ataques a um inimigo real, o que poderia culminar num conflito real – daí a profusão de filmes com a temática ‘invasão alienígena’: “Alien, o Oitavo Passageiro” (baseado num livro de Alan Dean Foster), de Ridley Scott; “Guerra dos Mundos”, de Spielberg; “Independence Day”, de Roland Emmerich, e muitos outros. E a natureza também foi convertida num inimigo dos homens; ela ‘quer’ nos matar porque destruímos a camada de ozônio, provocamos o fim da água potável e patrocinamos outras maldades. E a natureza, a Terra, deseja, portanto, vingança. Desta idéia brotam as políticas ecoterroristas.
E a ONU pretende, além de outras maldades, alterar a conduta humana ao modificar dos homens seus hábitos alimentares, excluindo-se da culinária certos ingredientes, proibidos pelos censores culinários, e tornando obrigatória a presença de outros. A manipulação genética dos alimentos à revelia das pessoas é fato, e as pessoas ignoram o que estão consumindo.
Outra arma disparada contra os humanos é a indústria farmacêutica.
Outros pontos interessantes do livro estão nas sessões “Truque dos Três Estágios” e “Seis passos para aprovar uma proposta absurda” e “Pressão de cima + pressão de baixo” – a segunda aqui mencionada resume um artifício já do meu conhecimento prévio, ‘a janela de Overton’.
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IX
O capítulo 9, que li, ontem, 26 de agosto, trata, como o nome indica, dos meios de controle social, meios, estes, empregados pelos que têm o objetivo de erigir o governo ditatorial totalitário global. Exequível tal governo? Improvável. As forças que atuam no universo social humano são tão vastas e a variedade de tipos humanos tão imensurável que nenhuma inteligência pode obter os meios apropriados para construí-lo. Para erigir tal governo, acreditam os seus idealizadores, basta criar um novo tipo de homem, uniforme, homogêneo, massa coletiva amorfa, e matar o proteiforme, da natureza, dotado de inúmeras potências, provido de rico repertório de talentos. Este é o tipo que eles desejam reduzir às dimensões minúsculas de uma coisa desprovida de vontade, um objeto manuseável e moldável.
Os que se arvoram donos do mundo, da vida de todos os seres, de todos os fenômenos universais, travestiram-se de deuses, acreditam-se encarnações de entidades celestiais onipotentes. Darão com os burros n’água, pois o projeto que almejam concretizar não será concretizado. Manuseiam forças que não podem controlar. Infelizmente, muitos sofrimentos eles irão produzir durante o processo de ereção da natimorta Nova Ordem Mundial.
Ao mesmo tempo que oferecem às pesssoas comodidades, via tecnologia avançada, impensável há um século, com ela lhes cerceia a liberdade; o bem que fazem não raro são involuntários; não foi considerado no plano original. Tiveram de admiti-lo a contragosto.
É o Estado um dos elementos que os que se têm na conta de donos do mundo usam para oprimir o povo. É um mal necessário o Estado, que não é a fonte do problema. É o Estado uma abstração, e nele não está o mal, que existe na mentalidade de quem financia, promove, os indivíduos que o controlam.
Os meios de controle de pessoas aprimoram-se, sofisticam-se; assumiram aspectos tão complexos, que estão além da compreensão do comum dos mortais, e, também, não é exagero, tampouco absurdo, afirmar, dos potentados que os financiam com a sua riqueza ilimitada.
A internet permitiu a liberdade das pessoas, melhor, a fuga delas à opressão que as flagelava até antes de sua popularização. O seu acolhimento pelas pessoas dos países livres propiciou uma elevação inimaginável na capacidade de disseminação de conhecimento, de meios para o compartilhamento de idéias em todos os campos do conhecimento, aproximando pessoas distantes, povos distintos; no entanto, é inegável, também amplificou os meios de ação de grupos terroristas, de seres que, vivendo à margem da sociedade, desejam destruí-la. Boas e más idéias entrechocam-se na aldeia global. Transferiram para o mundo virtual o conflito eterno entre o Bem e o Mal (e o virtual é real também, mas em outro meio).
Todas as informações que, sem o saber, os usuários da internet, ingenuamente, disponibilizam na rede global de computadores, são reunidos, em poderosíssimos supercomputadores, e a elas dá-se uso que atende aos interesses de metacapitalistas, banqueiros internacionais, políticos. Os humanos estamos catalogados nos supercomputadores de órgãos governamentais e de empresas multibilionárias.
Informações interessantes, no livro, são as referentes à criação, pelo Pentágono, da internet, cujo nome de batismo era ARPANET, acrônimo de “Advanced Research Projects Agency Network”; ao CANIVORE; ao BEAST, acrônimo de “Brussels Eletronic Accounting Surveillance Terminal”; ao JFCOM9; ao Programa MK Ultra; ao Instituto Tavistock; à Inteligência Artificial.
Pesquisadores do Programa MK Ultra e do Instituto Tavistock empreenderam experimentos, dos quais participaram psicólogos, médicos, químicos e profissionais de outras áreas, todos objetivando aprimorar técnicas da ciência da persuasão, do controle do pensamento, utilizando substâncias químicas – uma delas, a dietilamida do ácido lisérgico, LSD -, promovendo música, sexo e drogas para a juventude, idéias de Herbert Marcuse. São os pais putativos da geração Woodstock e “Sexo, drogas e rock and roll”. Um dado final, para encerrar o texto de hoje: “Programação Monarca” é técnica de controle mental capaz de substituir a personalidade de uma pessoa por outra personalidade.
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Adendo 1: hoje, 31 de outubro de 2019, escrevo: quanto às políticas de controle e fiscalização o mais controverso e assustador é o do crédito social empregado pelo governo chinês, comunista, com uso massivo de tecnologia de reconhecimento facial, e já em estágio embrionário no Brasil.
Adendo 2: livros recomendados: O Jardim das Aflições, de Olavo de Carvalho; e, A Teoria da Dissonância Cognitiva, de Leon Festinger.
Adendo 3: vídeos recomendados, no Youtube: de Débora G. Barbosa, MĶ Ultra – O Que é e Como Funciona?; de Casando o Verbo, O Assombroso Advento da Internet Quântica; e, Vigilância em Massa nas Fronteiras.
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X (último)
No capítulo 10 – escrevo, hoje, 28 de agosto, quarta-feira, às oito da manhã -. o autor limita-se a reproduzir trechos de falas, livros e discursos de protagonistas da Nova Ordem Mundial. Presidentes dos Estados Unidos; financiadores da Nova Ordem Mundial; idealizadores do governo global, ou apenas simpatizantes do projeto; chefes de estado; e outras personagens, umas populares, outras não. Tais citações reforçam as idéias esposadas pelo autor – e ninguém irá dizer que ele é um teórico da conspiração, um sujeito com um parafuso a menos.
Nas “Notas Finais” e em “Passe Adiante”, o autor reforça uma idéia que permeia todo o livro, idéia que é o objetivo inconfessado dos idealizadores e financiadores da NOM: a aniquilação do cristianismo. Para a ereção da nova civilização – que se dará sobre os escombros da atual -, totalitária, coletivista, tecnocrática, a moral cristã tem de desaparecer, e ser substituída por uma religiosidade vazia, materialista, destituída de qualquer apreço por valores trancendentais, resumindo-se a inteligência humana à mecânica, capaz, unicamente, de oferecer respostas condicionadas a estímulos artificiais criados por engenheiros sociais com o uso de técnicas psicológicas de persuasão.
O futuro vaticinado pelo autor é nebuloso; se realizados os sonhos dos poderosos do mundo, será o mundo, num futuro próximo, convertido no reino de Lúcifer. O autor, todavia, mesmo antevendo um futuro terrível se o avanço dos projetos dos construtotes da Nova Ordem Mundial não for barrado, afirma, em tom de orientação aos seus leitores, que há um meio de evitar que tal se dê: disseminar o conhecimento, expôr a NOM, tirar as pessoas da ignorância.
Ao final, o autor premia os seus leitores com um artigo escrito a quatro mãos, “Project Syndicate: o oráculo de George Soros”, de Cristian Derosa e Alex Pereira, no qual eles tratam da concentração dos meios de comunicação nas mãos de meia dúzia de afortunados poderosos, e da homogenização da notícia e das abordagens pré-fabricadas que os fatos, selecionados à mão, recebem, para que se possa condicionar o pensamento de pessoas em todo o mundo.
E para auxiliar o leitor que se interessa pelo assunto Nova Ordem Mundial, o autor fornece uma lista de livros, documentários, entrevistas disponíveis na internet e filmes.
É o livro de Alexandre Costa uma introdução, como indica seu título, ao estudo da Nova Ordem Mundial; um guia para mentes inconformadas, e determinadas, que têm disposição, e coragem, para se debruçarem sobre livros e documentos.
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Adendo: escrevo, hoje, 8 de novembro de 2019: pensei em reescrever a resenha, sintetizando o conteúdo do livro em poucas linhas, mas decidi conservar a redação original, uma espécie de diário de leitura.

A roupa nova do imperador – de Hans Christian Andersen

Esta é uma das histórias mais famosas de todos os tempos. E não é a única de Hans Christian Andersen que fê-lo conquistar admiradores nos quatro quadrantes do universo. O enredo é conhecido de todos: Em um reino, um imperador vaidoso, que adora roupas deslumbrantes, caras, ouve a notícia da chegada de dois talentosos tecelões capazes de tecer tecidos invisíveis aos olhos dos tolos e dos incompetentes. Logo pensou o imperador que, se os dois tecelões confeccionassem uma roupa com tal tecido, e a exibissem para os cortesãos, secretários e ministros, estariam desmascarados os que, incapazes de a ver, se revelariam faltos de sabedoria, indignos, portanto, dos cargos que ocupavam na Corte. Não perdeu tempo o imperador. Contratou os dois tecelões, e entregou-lhes tear, fios de seda e fios de ouro, e à disposição deles deixou uma sala para eles trabalharem no maravilhoso tecido, que apenas eles poderiam confeccionar. Mal sabia o imperador que eram dois vigaristas os dois tecelões. Estes aproveitaram-se da vaidade de todos os da Corte, que, ao ver, na sala, o tear vazio, diziam ver um tecido deslumbrante. A notícia da confecção da nova roupa do imperador espalha-se pela cidade, chegando aos ouvidos de todas as pessoas. Impaciente, o imperador, em visita aos tecelões, disse ver o maravilhoso tecido, mentindo, pois, certo de que no tear havia um tecido, não podia confessar que o não via; se o fizesse, estaria provado que era ele, imperador, um tolo, e indigno de seu título. Conservou a mentira, e encomendou aos tecelões uma roupa para com ela ir, domingo, à praça do torneio. Todos os da comitiva do imperador subscreveram-lhe os comentários de louvor, de admiração, ao fabuloso tecido, invisível, acreditavam, para os tolos e os indignos de seu cargo na Corte. Ninguém disse que não via o tecido, pois quem o fizesse se confessaria tolo e incompetente. Todos, então, mantêm a mentira. E chega o domingo. E os dois tecelões vestiram no imperador a roupa inexistente; o imperador, fitando-se ao espelho, e vendo-se nu, teceu louvores à roupa que não via, fingindo vê-la. E os cortesãos subscreveram-lhe os elogios à roupa que os tecelões não confeccionaram. Enfim, saiu o imperador à rua; vergava a roupa que não existia; estava sob um dossel de seda carregado por soldados de gala. Exibia-se, orgulhoso de sua nova roupa, à multidão, que, já conhecedora dos dons mágicos da roupa, finge admirar o imperador trajado com a mais exuberante veste imperial. E o cortejo segue em direção à praça do torneio. No trajeto, um menino, surpreendendo a todos, diz que o imperador está nu. E prorrompe a multidão em gargalhadas e apupos que vão ter aos ouvidos do imperador, que se apruma, conservando a rigidez de sua postura orgulhosa, ciente de que fôra enganado por dois vigaristas, que se haviam passado por tecelões. E segue o cortejo imperial até a praça do torneio.

A Cigarra – de Tchekov

Conta Tchekov neste conto a história de Olga, mulher que apreciava o convívio com celebridades, pintores, músicos, literatos, atores de ópera. Casou-se com Ossip Dymov, médico legista, profissional dedicado, homem boníssimo, abnegado, marido exemplar, pacato, que, ao contrário de sua esposa, não primava pelo desembaraço no convívio com os artistas, não possuía nenhuma desenvoltura em tal meio. Tocava piano, pintava, e esculpia. Frequentava teatro e concerto, desacompanhada do marido, sempre ocupado com tarefas que lhe exigiam dedicação integral.

Não era rico o casal Ossip Dymov e Olga; todavia, sua renda permitia a Olga o gozo do prazer extraído do convívio com os atores de teatro, pintores, violoncelistas, literatos, ilustradores, pessoas que ela idolatrava, dentre elas Riabóvski, pintor de vinte e cinco anos, belo, que produzia quadros de paisagens, cenas de costumes e animais.

Tinha Olga vinte e dois anos; e Ossip Dymov, trinta e um. Nas primeiras semanas de vida conjugal, usufruíram de felicidade contagiante. Após alguns dissabores decorrentes de doenças que afetaram Ossip Dymov, a vida em comum do casal segue o seu curso natural.

Olga, e pintores, dentre eles Riabóvski, permanecem semanas, num chalé, dedicados aos estudos da pintura. Ossip Dymov visita-os, certo dia, surpreendendo, favoravelmente, a esposa. Semanas depois, a bordo de um vapor, Olga parte em uma excursão, pelo rio Volga, com pintores, excursão que duraria em torno de dois meses. E é nesta aventura que Riabóvski declara-lhe seu amor, e ela lhe corresponde; e inicia-se, então, um caso amoroso entre os dois. Passam-se os dias. Um entrevero, ainda em excursão pelo Volga, entre Olga e Riabóvski, faz com que ela antecipe o seu regresso à sua casa, para junto do seu marido, para quem pensa ela confessar seu caso com Riabóvski, mas retrocede em seu propósito, nada lhe revelando. Ossip Dymov, no entanto, desconfia que ela lhe estava traindo. Os dias seguintes, desconfortáveis para o casal. O convívio, desarmonioso. Ossip Dymov dedicava seu tempo a conversas com Korosteliov, médico, seu colega, acerca de casos relacionados com a medicina, conservando, assim, Olga excluída da conversa. E Olga atormentava-se, entre o seu amor pelo marido e o seu amor pelo amante. Enciumava-se ao suspeitar que Riabóvski mantinha relações amorosas com outras mulheres. Certo dia, ao visitá-lo no ateliê dele, notou a presença de uma outra mulher. Mordeu-se de ciúmes. Humilhou-se diante de Riabóvski. Fê-lo comparecer-lhe à casa, e na presença do marido e de Korosteliov, e com ele discutiu livremente, e as duas testemunhas não ignoraram a razão das discussões. Enfim, Ossip Dymov adoeceu de difteria. Acamou-se. Dedicaram-lhe cuidados o amigo Korosteliov e outros médicos. De nada adiantou. Ossip Dymov não convalescia. Seu destino já estava traçado. Encontraria a morte, na cama, em seu gabinete.

Atrai a atenção do leitor a passividade, dir-se-ia indiferença, de Ossip Dymov ante a exibição de amor de Olga por Riabóvski, na casa do casal, na presença dele. Ele se resignou ao caso, uma fatalidade contra a qual nada podia. Entende o autor que a bonomia de Ossip Dymov e a sua dedicação à medicina são sinônimos de tolerância à traição de Olga, sujeição à peça que a vida lhe pregava, correspondendo a ele a obrigação de aceitá-la. Não move nenhum dedo em defesa de sua honra. Faz a bondade um homem tão pacato, tão indiferente aos erros de sua esposa e ao descaramento do amante dela?

As Vespas – de Aristófanes

Conta o comediógrafo eventos que se sucedem na casa de Filoclêon, confinado este à sua casa por seu filho, Bdeliclêon e os escravos Xantias e Sosias. No princípio, está Bdeliclêon, no terraço, mergulhado no sono, e, à frente da porta, guardando-a para impedir que por ela saísse Filoclêon, os dois escravos, um a dormir, o outro entre a vigília e o sono, e assim que o que estava a dormir desperta, entabulam ambos um diálogo, e narram cada qual o seu sonho, vindo a receber o de Xantias interpretações contrastantes. Logo, Filoclêon trata de tentar a fuga, já ciente o leitor de que o filho dele conserva-o na casa, suprimindo-lhe a liberdade, que ele tanto estima, para poupá-lo de chafurdar-se no vício que tanto lhe reprova, o de frequentar, com assiduidade, o tribunal, servindo de juiz nos julgamentos, para receber os três óbolos de pagamento pelo trabalho prestado à cidade, e, infalivelmente, condenar o réu, atendendo, assim, um vaticínio que lhe fizera o deus de Delfos: Filoclêon morreria se um acusado lhe escapasse das mãos, absolvido. Tinha Filoclêon, portanto, de ir ao tribunal, depositar, na urna, seu voto, pela condenação de Dracontidas, que viria a ser absolvido do crime que lhe imputavam. Usa de uma artimanha para escapar ao confinamento ao qual o filho o obrigara: enveredou pelos canos e calhas. Impedem-lo de empreender a fuga. Persiste Filoclêon: Entra no forno da chaminé. Num diálogo hilário com seu filho, que lhe pergunta quem ele é, diz ser fumaça de lenha de figueira. Bdeliclêon não se deixa ludibriar por artimanha tão absurda. Persiste Filoclêon, que urdiu outro estratagema: Diz que irá vender jumentos. E esconde-se sob o jumento. E aqui se dá a paródia à Odisséia. Indagado quem é, responde ser Ninguém, tal qual Ulisses responde ao Ciclope, no épico Odisséia, de Homero, vate helênico cuja existência é controversa.

Na sequência, anunciam-se os velhos juízes, as vespas, que recorrem a Filoclêon para eles irem ao tribunal assistir ao julgamento de Laques, e depositarem, na urna, um voto, de condenação. À frente da casa de Filoclêon pronunciam-se os juízes, que à ela não têm acesso, e clamam pela presença de Filoclêon. Bdeliclêon intervêm, e segue uma briga – homérica, digo, com um sorriso a enfeitar-me o rosto – entre Bdeliclêon e escravos contra os juízes. Para dar fim à contenda, propõem um debate entre Filoclêon e Bdeliclêon, aquele argumentando em defesa de seu trabalho, nobre, essencial para a conservação da ordem, este, em oposição ao trabalho de juiz, que são, entendia, escravos dos homens que de fato detinham em suas mãos o poder. Ficou acertado que se Bdeliclêon os persuadisse de que eram os juízes escravos, insignificantes, os juízes reconhecer-lhe-iam a vitória e abandonariam o projeto de conduzir Filoclêon ao tribunal. Contrastam as duas teses, a do pai e a de seu filho. Filoclêon, orgulhoso de suas incumbências, enaltece sua profissão, e é nítida a sua soberba, e o tom despeitado que emprega em sua exposição. É clara a sua arrogância; e o seu apreço pela profissão de juiz resume-se ao que dele auferia: prestígio, poder; nenhuma palavra ele pronuncia em favor da dignidade do cargo que ocupa; seu amor ao seu trabalho resume-se às exterioridades, ao título e à riqueza, ao poder adquirido, à proteção e aos favores que recebia dos soberanos, e à sua reputação, que se equivalia à dos deuses do Olimpo. Opõe-se-lhe à tese Bdeliclêon a sua: O juiz é apenas escravo, e é mal remunerado, recebendo mísera parcela dos impostos que os poderosos extorquiam ao povo, e ele, Filoclêon, limitava-se a obedecer quem lhe pagava o salário, isto é, as pessoas que dele exigiam o voto de condenação aos acusados, voto que ele jamais lhes recusava; era, portanto, Filoclêon, um serviçal, um insignificante serviçal, uma peça de um maquinismo cujas dimensões ele desconhecia. Ao encerramento da exposição de Bdeliclêon, reconhece-lhe o coro a vitória. Ainda assim, deseja Filoclêon ir ao tribunal; agora, seu filho reconhecendo-lhe o desejo indomável, propõe-lhe, no que ele concorda, simular, na casa dele, um julgamento. Providencia Bdeliclêon as urnas, as plaquetas, e ramos de incenso e de mirto para a invocação dos deuses, para que Filoclêon seja clemente com os acusados, e não com os acusadores. E dois homens pronunciam-se, ambos fantasiados de cachorros; destes, um é acusado de roubar queijo da Sicília. E a pena seria a de submetê-lo a uma coleira bem apertada. E teria Filoclêon de proferir a sentença, ou de condenação, ou de absolvição, após ouvir os argumentos de defesa e os de acusação. A cena que se desenrola é de humor impagável. E é sucedida por outra cena de equivalente teor cômico, agora Filoclêon, embriagado, exibindo um espetáculo de indecência e insolência de ruborizar Calígula, a vilipendiar e a maltratar os convivas. Livre de um vício, cai Filoclêon em outro vício, apesar das sábias exortações de seu filho.

Encerra-se o leitor a leitura desta antiga comédia grega certo de que Aristófanes não reconhecia virtudes nos juízes, que para ele eram apenas criaturas tolas a serviço de homens poderosos, e acreditava na imutabilidade dos tipos humanos, sendo os propensos aos vícios insensíveis aos apelos da razão e da sabedoria.

A princesa que enganou a morte – e outros contos indianos

É o livro ‘A princesa que enganou a morte – e outros contos indianos’, da coleção Contos Mágicos, publicado, em 2.009, pela editora Aquariana, um bom apanhado de histórias indianas. Em suas um pouco mais de cem páginas, há estórias extraídas dos poemas épicos hindus Mahabharata e Ramayana e do folclore indiano. Protagonizam-las príncipes, deuses, monstros, demônios, mágicos, gigantes, ninfas, guerreiros, espíritos e outras entidades comumente encontradas em obras de tal gênero. São contos mágicos. Fenômenos sobrenaturais, inexplicáveis e inexplicados, dão o tom das aventuras.
Dos treze contos reunidos neste volume, nove são adaptações de estórias do Mahabharata e um do Ramayana. Os que mais me agradaram foram o que dá nome ao título do livro ‘A princesa que enganou a morte (A história de Savitri)’ e ‘O brâmane e sua noiva, ambos extraídos do Mahabharata. No primeiro, a protagonista é uma rival de Sheherazade, personavem central de ‘As mil e uma noites’; no segundo, há a encantadora e tocante história de amor de Ruru, jovem brâmane, por sua amada Pramadarva.
Os contos têm o doce sabor de ‘As mil e uma noites’. Animam os espíritos que não sucumbiram ao vigente materialismo chão, infértil, pobre de criatividade, que destrói o espírito humano, aniquila-o com suas questiúnculas e mesquinharias. Ampliam a imaginação. São a porta de entrada para o mundo mágico da literatura clássica indiana.

O Mapa do Tempo – de Félix J. Palma

Dividido em três partes, o livro narra três histórias, que, entrelaçadas, concentram-se na pessoa de Herbert George Wells, autor de quatro dos livros mais populares de todos os tempos: A Máquina do Tempo, O Homem Invisível, Guerra dos Mundos, e A Ilha do Doutor Moreau. Na primeira parte, narra-se a história de amor de Andrew Harrington e Marie Kelly, história de final trágico; na segunda, outra história de amor, esta de desenlace feliz, entre Tom Blunt e Claire Haggerty; e, na terceira a caçada, empreendida por um jovem inspetor da Scotland Yard, Colin Garrett, a um assassino que ainda não havia nascido.

Deixando os comentários acerca de um aspecto da narrativa, que me desagradou porque me parece gratuito – a inserção na história de dois personagens, ambos escritores, Henry James e Bram Stoker, autores, respectivamente, de A Volta do Parafuso e Drácula, extraídos da vida real e convertidos em personagens da excelente trama concebida pela mente criativa de Félix J. Palma -, concentro a minha atenção na primeira parte da história, e, na sequência, na segunda, e na terceira – e ao tratar desta, direi do meu desagrado e das expectativas, elevadas, que as duas primeiras partes inspiraram-me, que esta me frustrou.

É Andrew Harrington o protagonista da parte que abre o livro. Moço de pouco mais de vinte anos, certo dia, na residência de Charles Winslow, seu primo, com quem se dava muito bem, admira uma pintura, que exibe uma formosa mulher, Marie Kelly, que, veio a saber, era uma prostitua, que vivia em Whitechapel, imundo bairro de Londres. E a vida pregou uma peça em Andrew Harrington, que se apaixona por Marie Kelly. Estamos no ano de 1888. Era o ano de Jack, o Estripador, que aterrorizava os ingleses; o famoso Jack, o Estripador, ainda hoje uma lenda, dono de uma biografia envolta em mistérios.

Andrew Harrington, ocultando de seus familiares, parentes e amigos o seu propósito, inusitado, insensato, insano, vai, certa noite, a Whitechapel, e contata a mulher com quem se deliciaria em várias noites, seguidas horas, num leito de prazeres indizíveis. Apaixonado por Marie Kelly, decidido a se casar com ela, fala de seu projeto ao seu pai, e deste recebe uma bofetada e é expulso da família. E corre, então, Andrew Harrington, ao encontro de sua amada Marie Kelly; e para o seu horror, encontra-a, estirada, retalhada, morta, no quarto dela, onde várias noites passara em sua deliciosa companhia. E o seu sonho desfez-se, num átimo, diante de si o cadáver da mulher que tanto amava. Sabia que era o assassino o personagem que aterrorizava Londres, Jack, o Estripador, cujo nome era desconhecido de todos. Temendo vir a ser encontrado, no quarto, diante do cadáver de Marie Kelly, do quarto retirou-se. A partir de então, viveu uma vida errante, num capítulo obscuro, dramático, de sua biografia, que culminaria com o seu suicídio, em 1896, no quarto de Marie Kelly, se o seu primo, e amigo, e fiel escudeiro, Charles Winslow não interviesse, livrando-o da morte. Falou-lhe o primo de um meio, fantástico, que em Andrew Harrington inspiraria desconfiança, que poderia vir a salvar Marie Kelly. Tal notícia provocou estranheza em Andrew Harrington. Como poderiam salvar Marie Kelly, se ela morrera oito anos antes?! Para suprimir-lhe da cabeça toda estranheza, Charles Winslow falou-lhe de viagem através do tempo, da empresa Viagens Temporais Murray, de Oliver Tremanquai, dos junquianos, de Herbert George Wells, do ano 2.000, da máquina do tempo. O incrédulo Andrew Harrington ouviu-o com uma pulga atrás da orelha. Mas era tamanho o seu desejo de renovar a sua vida com Marie Kelly, que Andrew Harrington, animado pelo seu primo, veio a acreditar na história que ele lhe contara, e, na companhia dele, ruma à residência de Herbert George Wells, em cuja máquina do tempo entraria, e viajaria ao ano de 1888, momentos antes da morte de Marie Kelly, para matar Jack, o Estripador. E Andrew Harrington empreende a fantástica expedição, cujo desenlace não foi do seu agrado. E resignou-se ao destino que o universo lhe reservou. E aqui encerro a síntese da primeira parte. Cuidei não revelar os detalhes que roubaria ao leitor o desejo de descobrir por si mesmo os mistérios que envolvem o encerramento da trama protagonizada por Andrew Harrington, e esclarecida, deslindada, pelo único personagem que podia compreendê-los: Herbert George Wells, a maior autoridade em viagens através do tempo.

Escritas as últimas palavras do comentário que se acercam da primeira parte do livro, principio os que tratam da segunda.

No início desta resenha eu disse que conta a segunda parte do livro de Félix J. Palma o romance de Tom Blunt e Claire Haggerty.

Claire Haggerty, moça orgulhosa, caprichosa, que não cedia às abordagens de seus incontáveis pretendentes, requestada por inúmeros súditos da rainha, na companhia de Lucy Nelson, sua amiga, a alma excitada pela história que envolvia a Viagens Temporais Murray, que prometia uma fantástica aventura ao dia 20 de maio do ano 2.000, dia em que se daria a batalha final, que decidiria o destino dos humanos, entre os humanos e os autômatos, aqueles liderados pelo capitão Derek Shackleton, estes por Salomão, um autômato, compareceu à Viagens Temporais Murray, e participou de uma expedição ao futuro, a bordo do Cronotilus, a máquina do tempo que conduziria os passageiros à data da batalha final entre humanos e autômatos. Outros passageiros de Cronotilus são, além de Lucy Nelson, amiga de Claire Haggerty, Charles Winslow, primo de Andrew Harrington, o protagonista do romance da primeira parte, e Colin Garrett, o jovem inspetor da Scotland Yard que na terceira parte da trama urdida por Félix J. Palma assumirá o protagonismo, e Nathan Ferguson, fabricante de autômatos. Durante a expedição, Claire Haggerty, que, entediada em sua época, pretendia refugiar-se no ano 2.000, em um determinado momento da expedição ao futuro, todos os passageiros do Cronotilus conhecedores do desfecho da batalha entre humanos e autômatos, testemunhas do derradeiro embate entre o capitão Derek Shackleton, o herói humano, e Salomão, o líder dos autômatos, já regressando os cidadãos do século XIX ao Cronotilus, para a viagem de regresso ao seu tempo de origem, desgarrou-se de Lucy Nelson, e afastou-se dos outros passageiros, e procurou abrigo em um lugar qualquer, suplicando aos céus que ninguém do Cronotilus lhe notasse a ausência. Surpreendendo-a, apareceu-lhe, garboso, diante de seus olhos, o Capitão Derek Shackleton. E admirou-lhe a beleza apolínea e dionisíaca, máscula, bruta, e de imediato, a mulher dos fins do século XIX apaixonou-se, perdidamente, por um homem do ano 2.000, e não por qualquer homem; mas pelo Capitão Derek Shackleton, o maior herói de todos os tempos, o herói que, num embate heroico com os autômatos, liderou a espécie humana numa guerra que lhe evitou a extinção. Quis o destino que Claire Haggerty encontrasse, no futuro, o homem dos seus sonhos. E quis o destino que ela, não muito tempo após a viagem de regresso ao século XIX, encontrasse Tom Blunt, o homem dos seus sonhos. E desenrola-se a história de amor, os protagonistas a experimentarem emoções indescritíveis, coadjuvando-os Herbert George Wells, Gilliam Murray, o visionário proprietário da Viagens Temporais Murray, e Mike Spurrell, Jeff Wayne, Bradley e Martin Tucker, e outros figurantes.

O final deste romance, eu afirmei nas primeiras linhas desta resenha, é feliz, mas que ninguém conclua que o romance é isento de drama, de tristeza, de amargura, de angústia; para o desenlace feliz entre os dois pombinhos apaixonados, estes tiveram de superar muitos obstáculos, enfrentar inúmeras adversidades. E não se pode deixar de dizer que a participação de Herbert George Wells foi indispensável para o feliz desenlace do conto de amor entre Tom Blunt e Claire Haggerty.

E agora chegamos à terceira parte da trama arquitetada por Félix J. Palma, das três a única que, com um pouco de constrangimento, confesso, não gostei; digo que o faço, confessando, com constrangimento, porque, repito o que já revelei linhas acima, frustrou-me a terceira parte a expectativa que as duas primeiras deste ótimo livro me inspirara. Se a leitura das duas primeiras partes da obra de Félix J. Palma não me houvessem me surpreendido, e favoravelmente, eu, é provável, teria abandonado a leitura ao encerramento da leitura da segunda parte, e restituído o livro à prateleira, ou, se persistisse na leitura até o ponto final da história, eu o faria de muito má vontade, e não me frustraria, é óbvio, com o que iria ler na terceira parte, que narra a caçada que Colin Garrett, o jovem inspetor da Scotland Yard, empreende a um assassino que nasceria, décadas depois, pois as duas primeiras partes nenhum agrado me haveria de despertar. Não foi, todavia, o que se deu. Agradou-me o livro, e desde a primeira linha; daí, eu me constranger-me ao ter de criticar-lhe a terceira parte, que não me contentou; e o faço em poucas linhas, no desejo de conservar comigo o prazer da leitura deste livro surpreendente, que não perde seu valor por causa de seus pontos, poucos, que me descontentaram.Colin Garrett, jovem inspetor da Scotland Yard, deparou-se com um caso de assassinato, que o intrigou sobremaneira, envolto em mistério. Estudou o caso, e concluiu que a arma utilizada na perpetração do homicídio não poderia ser encontrada em seu tempo, mas no futuro, no ano 2.000, ano que, numa expedição a bordo do Cronotilus, conhecera, e não muitos dias antes, e o assassino seria, ou o Capitão Derek Shackleton, ou um dos seus soldados humanos, que, coadjuvando-o, combatiam os autômatos liderados por Salomão, o autômato que era o arquiteto da destruição da civilização humana e da aniquilação dos humanos. Não muitos dias após o primeiro assassinato misterioso, sucederam-se outros dois, sendo que as duas vítimas tiveram as suas vidas ceifadas, do mesmo modo que a primeira, por uma arma que não existia em fins do século XIX. Mas poderia o inspetor jovem da Scotland Yard prender pessoas que ainda não haviam nascido, pessoas que ainda não existiam? As leis britânicas que regem a sociedade de fins do século XIX poderiam ser invocadas para julgar pessoas que que, nascidas no século XX, cometeram crimes no século XIX, isto é, antes de nascerem?
Nesta terceira parte do romance de Félix J. Palma, o tom é distinto dos que lhe antecedem; não repete, aqui, penso, o autor o êxito do enredo com que ele desenvolve as duas partes anteriores. A qualidade da narrativa é a mesma. É Félix J. Palma um exímio narrador, tem o domínio da técnica narrativa. Estou me antecipando ao motivo que projetei escrever para o encerramento da resenha.
Dando fim à curta digressão, trato de um ponto ao qual aludi em outras linhas desta minha resenha: O que se refere à participação de Henry James, autor de A Volta do Parafuso, e Bram Stoker, autor de Drácula. A presença de ambos os personagens, teletransportados, por Félix J. Palma, da realidade para a ficção, na galeria de personagens que animam o livro parece-me obra do desejo de Félix J. Palma homenagear escritores que admira. Não encontro uma razão plausível para a existência deles na trama. O autor inseriu-os para elogiá-los, presumo; todavia, a trama não pede a participação deles; Henry James e Bram Stoker podem ser excluídos da história que esta nada perde em valor; ganha valor, acredito. E nesta história faz-se presente Herbert George Wells. E com estas poucas palavras, encerro os meus comentários acerca da terceira parte do livro.Mapa do Tempo é um romance de leitura agradável. O estilo de Félix J. Palma é cativante, envolvente, exuberante; é detalhista, minucioso, sem ser insosso; prende a atenção do leitor da primeira à última linha. O leitor lê uma trama envolvendo personagens tirados da realidade, Herbert George Wells, Bram Stoker, Henry James, e Jack, o Estripador, e Joseph Merrick, o Homem-Elefante, e personagens saídos da imaginação do autor. Acompanha os dramas de Andrew Harrington, Marie Kelly, Charles Winslow, Tom Blunt, Gilliam Murray, Claire Haggerty, Colin Garrett, e mais uma dezena de personagens de uma galeria de tipos cativantes. Herbert George Wells, conquanto secundário nas primeira e segunda parte, é o protagonista do livro – e é o seu antagonista Gilliam Murray, o proprietário da Viagens Temporais Murray.Félix J. Palma oferece aos seus leitores uma trama bem arquitetada, e não é triturado por aberrações que os paradoxos temporais que tal gênero – o da viagem através do tempo – proporciona, pois soube trabalhar o tema com destreza incomum.

E há muito mais no livro. E é-me impossível, na extensão de uma resenha, dar a conhecer toda a substância desta obra que muito me agradou. E um dos seus ingredientes é a mensagem, que uma ruiva misteriosa entregou a Herbert George Wells, mensagem escrita numa caligrafia que ele tão bem conhecia.

O Tartufo, ou O Impostor – de Molière

Molière é um escritor de imerecida má reputação. É criador de um panteão de tipos humanos universais facilmente identificados nos quatro cantos do universo. Neste “O Tartufo, ou o Impostor”, Tartufo, Dona Pernelle, Orgon, Dorina e Cleante são modelos humanos comuns. O Tartufo, hipócrita, picareta, oportunista, sujeito de má-fé, desleal, é desprovido dos ingredientes que fazem um Homem – assim, mesmo, com a inicial em maiúscula. Dona Pernelle e Orgon, seu filho, pessoas crédulas, inocentes, sem maldade no espírito, são facilmente ludibriados por tipos sórdidos; nesta obra, eles caem nas garras do Tartufo, tipo iníquo, capaz de perpetrar todo tipo de deslealdade e corrupção que só as mentes mais sórdidas são capazes de conceber e as quais nem sequer resvalam a mente de pessoas de espírito puro e coração nobre, caso de Dona Pernelle e de Orgon. Orgon, que herdou de sua mãe o coração ingênuo, desanca, irritado, indignado, Damis, seu filho, após este lhe dizer que é Tartufo um tipo reles e que ele resquestava Elmira, sua esposa (de Orgon), e vai em defesa de Tartufo. Dorina, dama de companhia de Mariana, cuja mão seu pai, Orgon, ofereceu ao Tartufo, tem a argúcia de identificar, de imediato, a dissimulação e a maldade dos tipos execráveis; chama a atenção de Orgon para a sordidez de Tartufo; Orgon dela desconfia; sendo Dorina apenas uma criada, suas palavras não ecoam nos ouvidos dele. Em Orgon, Dorina não encontra uma pessoa receptiva a voz da verdade, acessível à razão; aliás, dele ela recebe o desprezo, afinal é ela apenas uma dama de companhia. E Cleante, cunhado de Orgon, é o sábio, homem sensato e ponderoso; com as suas percucientes exortações, ele restaura a paciência das personagens que, destemperadas, trocam os pés pelas mãos, chamando-as à razão.

É interessante perceber a força na criação dos tipos das personagens de Molière, homem dotado de perspicácia que só os gênios possuem. Tão extraordinário escritor criou, nesta peça teatral, de menos de cem páginas, que se desenrola em cinco atos, uma trama ao mesmo tempo simples e complexa, com a desenvoltura e maestria que raros literatos alcançam. A trama, urdida com esmero, revela os atritos entre vários tipos molièreanos, todos universais. A força da descrição da personalidade do Tartufo, o hipócrita, o impostor, é impressionante; revela, dele, com traços exatos, de força extraordinária, toda a iniquidade; tão sórdido, tão maledicente, tão sedutor é o Tartufo que ele fez um pai, Orgon, voltar-se contra um de seus filhos, Damis, e a mãe dele (dele, Orgon), Dona Pernelle, voltar-se contra Orgon, seu filho.

Há três falas, na peça, todas interessantes, que me chamaram a atenção: uma de Elmira, na cena 3, do ato IV (página 93); uma do Tartufo, na cena 5, do ato IV (página 98); e uma de Dona Pernelle, na cena 3, do ato V (página 108). A de Elmira é “Somos facilmente enganados pelo que amamos, e o amor-próprio nos leva a nos enganarmos a nós mesmos.”; a de Tartufo “O mal está todo no barulho que se faz. O escândalo do mundo é que faz a ofensa, e pecar em silêncio não é pecar.”; e a de Dona Pernelle: “Nós devemos julgar pelo que vemos.” A de Elmira é uma síntese de idéias que nenhuma pessoa talvez há de objetar: a vaidade, o ego inflado, a auto-imagem é o mais ameaçador e perigoso inimigo de uma pessoa – na peça, explorando o amor-próprio de Tartufo, Elmira pretendia levá-lo a, desguarnecido, e envaidecido, perder-se e revelar-se em toda a sua inteireza de homem hipócrita, de impostor, a Orgon, então de Tartufo oculto sob uma mesa; a de Tartufo revela dele e de outros de seu tipo a hipocrisia (para tais pessoas, pecados podem ser cometidos, desde que não sejam revelados a público; assim, elas os justificam para si mesmas, e conservam limpa a consciência, e não têm motivos para se constrangerem, afinal eles não vieram a público); e a de Dona Pernelle revela a alienação de uma pessoa que, para defender uma tese, ou uma pessoa que admira, nega-se a se respeitar, e rejeita os seus sentidos, despreza a sua inteligência e adota uma postura insensata.

Nesta obra-prima da literatura universal, Molière, que merece mais respeito e admiração do que recebe, traça um drama humano que ilustra a história dos humanos desde a sua origem. E o herói da aventura, Orgon, só não fica em maus lençóis porque foi em seu socorro um príncipe consciencioso, nobre de caráter, inimigo dos homens maus, de boa índole e coragem férrea.
Usei, para escrever esta resenha, a edição O Tartufo, ou O Impostor, Molière, traduzido por Roberto Leal Ferreira, publicado pela Martin Claret (Coleção A Obra-prima de Cada Autor, número 128 – ano 2009, impressão).

A Linha da Sombra – de Joseph Conrad

Joseph Conrad, cujo nome de batismo é Józef Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski, célebre escritor ucraniano de pais poloneses, é o autor do popular O Coração das Trevas (Heart os Darkness), que serviu de base para o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola. Escreveu inúmeras obras, em língua inglesa – idioma que dominava com maestria -, muitas delas inseridas no rol de obras-primas da literatura universal.
O livro A Linha da Sombra (The Shadow Line: A Confession), uma pequena obra de um pouco mais de cem páginas, é um exemplar do seu magistral talento narrativo, simultaneamente simples e exuberante, poderoso, vigoroso, e inventivo, e rico de expressões e de evocações de cenas dramáticas e trágicas. Não é esta novela uma das suas obras mais conhecidas. As mais populares são Lord Jim, Nostromo e a já citada O Coração das Trevas; mesmo assim, ela merece figurar no cânone das obras literárias mais valiosas de todos os tempos. É uma pequena obra-prima esta novela cujo protagonista, um jovem marujo que se vê nomeado, pelo Capitão Ellis, comandante do vapor Melita, tem de enfrentar enervantes desafios, desafios que massacram os homens de espírito fraco. Bangkok é o destino de sua primeira viagem. E o herói contracena com uma galeria de personagens: John Nieven; Hamilton; Capitão Giles; Capitão Ellis; Burns, o imediato; Ransome, o cozinheiro; Gambril; e outros figurantes. Além destes, e do herói – cujo nome não é mencionado – da aventura, há um outro personagem – cujo nome também não é mencionado -, o predecessor do protagonista no comando do vapor Melita, personagem, este, que havia morrido, numa viagem anterior, na embarcação e cujo corpo foi enterrado, por Burns, o imediato, no Golfo de Sião, na latitude 8*20′, norte, em local que estava na rota do vapor Melita. Conta-se que o falecido capitão era um homem de sessenta e cinco anos, obstinado, severo, introspectivo, que, trancafiado no camarote, tocava violino durante horas, ininterrupta e obsessivamente, e que mantinha a embarcação à deriva, sendo seu propósito, presumiam os tripulantes, o de jamais regressar à terra. E é este personagem, cujo nome, repito, não é indicado pelo autor, objeto de obsessão de Burns, o imediato.
Lançado Melita ao mar, os seus tripulantes adoecem de uma moléstia, que os alquebram, excetuados o capitão (o herói da aventura) e Ransome, o cozinheiro, acutilado, este, por alguma afecção cardíaca. Enquanto Burns, o imediato, e Gambril, e o segundo piloto e os outros tripulantes estavam acamados devido à febre que os prostrava, o capitão e Ransome desdobravam-se para se desincumbirem de suas árduas, desgastantes, tarefas; e estes dois personagens estavam sempre às voltas com os delírios de Burns, o imediato, que atribuía a febre malsã que debilitava os tripulantes do Melita ao espírito do falecido capitão. E Burns febricitava, delirava, presenciava, em sua mente perturbada, fantasmagorias.

Somando-se à febre que acometeu os tripulantes, o clima desfavorável, as trevas que envolveram a embarcação e a tempestade dificultaram o já difícil trabalho do capitão, o herói que não deu a público o seu nome. E o impacto das previsões agourentas do imediato no capitão não foi irrelevante: fê-lo, em algumas ocasiões, suspeitar, sob influência do medo, da tensão, das incertezas decorrentes dos contratempos, de sua sanidade, e a vislumbrar, em momento tão caótico, tão crítico, e em ambiente tão adverso, criaturas demoníacas, teratológicas, onde havia apenas humanos.
Se eu persistir na redação desta resenha, incorrerei, inadvertidamente, num pecado imperdoável: o de revelar o desenlace de tão intrigante aventura marítima concebida por um mestre da narrativa, dono de um estilo exuberante, másculo. No desejo de não cometer ato de tal gravidade, encerro-a com estas palavras: Joseph Conrad apresenta, nesta pequena obra-prima, um pouco de sua experiência de marinheiro; e dá ao mundo um presente do tamanho de seu imensurável talento, que tem as dimensões da vastidão dos sete mares.

Cântico de Natal – de Charles Dickens

É este conto uma das mais famosas histórias de Natal da literatura universal. É seu autor Charles Dickens, escritor de obra volumosa, um dos grandes nomes da literatura universal, criador dos amados Oliver Twist e David Copperfield. Neste seu Cântico de Natal é o herói o sovina, ranzinza e taciturno Ebenezer Scrooge, proprietário da casa comercial Scrooge & Marley. Principia-se a história na antevéspera do Natal de um ano qualquer. O herói de Charles Dickens despede-se, rudemente, de seu sobrinho e dispensa, grosseiramente, as pessoas que lhe vão solicitar auxílio aos pobres. Em sua loja, numa noite fria, só, recebe a visita do espectro de Jacob Marley,  seu antigo sócio, falecido dois anos antes, com ele mantêm um curto diálogo e ele lhe diz que o visitariam três espíritos, um em cada noite. E desperta, sobressaltado. Pouco depois, apareceu-lhe aos olhos um espírito, o espírito do Natal passado, o primeiro dos três que o espírito do seu falecido sócio lhe anunciara. Tem ele aparência idosa e infantil; usa túnica branca e cinto luminoso; e adorna-lhe a cabeça um ponto de luz. Numa viagem através do tempo, para o passado, o espírito conduz Ebenezer Scrooge para os anos de infância dele, até uma localidade rural, o campo então coberto de neve. E passa diante dos olhos de ambos os viajantes imagens do tempo de menino de Ebenezer Scrooge, tempo de alegria – e ele chora; e em seguida, ele se vê moço, na cidade, numa véspera de Natal, no interior de um armazém, propriedade de Fezziwig, seu patrão, a desincumbir-se, juntamente com outro empregado, seu amigo, Dick Wilkins, de algumas tarefas. Encerrado o expediente, Ebenezer Scrooge, o seu amigo e o seu patrão, animados, convertem o armazém num salão de baile, preparando-o para a festa que nele se daria à noite. À festa comparecem, além da esposa e das filhas de Fezziwig, empregados dele e outros convidados. Divertem-se todos. É a alegria contagiante até o final do baile. E seguem através do tempo a dupla de viajantes mais alguns anos: agora está Ebenezer Scrooge mais velho, transparecendo no rosto sinais de avareza e preocupação; e Belle dele se separa porque ele, insensível e indiferente, estava apaixonado pelo vil metal. E dão outro salto no tempo o herói e seu guia espiritual até a véspera de um Natal. E aos olhos deles aparecem imagens do interior de uma casa. Nela está um casal, ele, feliz, ela, Belle, também feliz; e os filhos deles, buliçosos, abrem os pacotes de presentes. Atormentado pelas imagens que se desenrolam diante de seus olhos, e emocionado a ponto de debulhar-se em lágrimas, Ebenezer Scrooge pede para o espírito não mais lhe mostrar tais cenas.

E vai-se embora o espírito do Natal passado.

E para o herói apresenta-se o segundo espírito, o do Natal presente, um gigante bonachão, que, mesmo de elevada estatura, pode entrar nas casas pequenas, menores do que ele. Carrega o espírito consigo um archote aceso, à cintura um cinto antigo e, vazia, uma bainha enferrujada. No quarto, magicamente modificado, em que se encontra Ebenezer Scrooge, há, nas paredes e no teto, folhagens, e, no chão, alimentos de inúmeros gêneros. Ao tocar o manto do espírito, o herói é transportado, de imediato, às ruas da cidade, repletas de gente animada, feliz, encantadoramente alegre, sob a neve, na manhã de Natal. Ao toque dos sinos, o povo recolhe-se à igreja; e pobres, de becos e vielas, abrigam-se às padarias, para o jantar. E o espírito do Natal presente abençoa a todos. Em seguida, ele e o seu companheiro de viagens dirigem-se à casa do caixeiro deste, Bob Cratchit, que, fica-se sabendo, sendo por ele mal remunerado, mal consegue responder às obrigações de sua numerosa família. A cena sucedida no interior da casa de Bob Cratchit, Charles Dickens narra-a, em poucas páginas, com a maestria que lhe fez a fama, e cria um símbolo da iconografia ocidental, um ícone que representa, em toda a sua autenticidade, a família íntegra, cristã, indissolúvel; contempla a beleza de uma família, que, mesmo numa vida de necessidades, encontra razões para agradecer a Deus o bem que Ele lhe faz. É tocante a cena. E não se ouve da boca de nenhum dos membros da família de Bob Cratchit palavras de descontentamento, de rancor, de ressentimento, de raiva – o único momento em que o clima festivo se desfaz se dá quando o patriarca menciona Ebenezer Scrooge, que não é benquisto na casa.

E o espírito e Ebenezer Scrooge dão sequência à peregrinação: visitam um charco, onde há mineiros, uma cabana onde há um casal de velhos e seus filhos e netos, um farol a léguas da costa no qual há dois guardas, e um navio, no qual há marinheiros e oficiais da guarda. Em todos estes locais, as pessoas, entusiasmadas, cantam canções natalinas, rememoram histórias passadas, divertem-se.
E chegam na casa do sobrinho de Ebenezer Scrooge, onde os convivas participam de conversas animadas e brincadeiras divertidas. E enquanto assiste ao espetáculo encantador que eles proporcionam Ebenezer Scrooge anima-se.

E seguem viagem os nossos dois personagens. Eles passam por hospitais, terras longínquas, asilos. E o espírito envelhece. E de suas túnicas retiram-se duas crianças  esquálidas, um rapaz e uma garota: é ele a Ignorância, e ela a Miséria, ambos filhos da desgraça humana.

E vai-se embora o espírito do Natal presente.

E aparece a Ebenezer Scrooge o terceiro espírito, o espírito do Natal futuro, que é assustadoramente silencioso e se lhe revela envolto em manto preto. E seguem ambos para o centro da cidade, onde, aproximando-se de alguns homens, que conversam, ouvem-lhes as palavras – eles falam, indiferentes, de um homem que falecera dias antes; e em outro ponto da cidade, ouvem a conversa de dois negociantes, que gozavam de considerável poder e influência – eles também falam do homem então falecido, com indiferença, desinteressados. E rumam para um ponto miserável e imundo da cidade, de ruelas e becos fétidos, até uma loja cuja aparência não desperta nenhuma simpatia e cujo proprietário, Joe, um homem de uns setenta anos, recebe a visita de três pessoas – duas mulheres e um homem, elas, uma jornaleira e uma lavadeira, ele, um agente funerário – que a ele levam objetos que haviam surrupiado da casa abandonada, disseram, desdenhosos, de um morto, que, segundo eles, era um tipo odioso, desprezível. Ao assistir à cena que se lhe descortina diante dos olhos, Ebenezer Scrooge se convence de que aquelas quatro personagens falavam do falecido do qual outras pessoas falavam e concluiu que fôra ele em vida um homem desprezível.

E rumam os heróis de nossa história para uma casa, na mesma cidade – e Ebenezer Scrooge vê, num quarto, abandonado, um cadáver. E dirigem-se ao interior de outra casa, cuja esposa, rodeada de filhos, aguarda, ansiosa, pelo regresso do marido, que, chegando, fala de Ebenezer Scrooge, que por eles não é citado, cuja morte alegrava-os – eles eram devedores dele.

E vão ter à casa de Bob Cratchit, onde estão mãe e filhos, e para onde regressa Bob Cratchit de uma visita ao cemitério; e sabe-se, aqui, que Tim, o filho do casal, está morto.

Em seguida, passam à frente da casa de Ebenezer Scrooge, e este, ao olhar para o interior dela, vê que era outra a mobília que a adornava e que, no escritório, outro, e não ele, era o homem sentado à mesa.

E chegam, então, à última estação da viagem: o cemitério. Ao ler o seu nome numa pedra tumular, Ebenezer Scrooge compreende o significado da sua experiência, certo de que o morto, um homem odiado, de quem todos falavam com indiferença e desdém, era ele, Ebenezer Scrooge.

E vai-se embora o espírito do Natal futuro.

E no derradeiro capítulo deste maravilhoso conto, Ebenezer Scrooge, tocado pela experiência mística que tanto o impressionara, transmuda-se num homem generoso, bondoso, e envia um peru assado a Bob Cratchit, cujo ordenado ele aumenta; e entrega donativos para o homem que, em sua loja, lhe solicitara auxílio e ele o enxotara; e vai à igreja; e brinca com as crianças; e entretêm os mendigos; e vai à casa de seu sobrinho, para jantar; e estreita relações com o pequeno Tim, filho do casal Cratchit. Ele esbanja tanto dinheiro e sorrisos, causando tal espanto e admiração nas pessoas, que pensaram, até, em pô-lo numa camisa-de-força e arremessá-lo num hospício. Tocado pelo espírito do Natal, ele deixa de ser o avarento tristonho e mal-humorado e se converte num homem bondoso, generoso, de alegria contagiante.

É este conto de Charles Dickens, uma obra-prima da literatura, perfeita reprodução do espírito natalino; daí a sua boa fama, que se perpetuará até o fim dos tempos. Uma história natalina mais bela do que esta pode ser lida no Novo Testamento.

O Método Pedagógico dos Jesuítas (Ratio Studiorum) – do Padre Leonel Franca, S.J.

A má fama dos jesuítas, injustificada, é produto de uma época inimiga figadal da arte superior, da moral, da distinção clara de valores, e amiga fraternal do relativismo, da negligência, da desídia, da indisciplina, da desordem, do niilismo, do caos, da mentalidade revolucionária e anárquica.

Os inimigos da Companhia de Jesus, e da Igreja, disseminaram dos jesuítas a reputação de homens brutos no trato com os povos que contataram. É esta uma idéia fora da realidade – no Brasil, ninguém desconhece o nome de José de Anchieta, cuja biografia foi enodoada por estudiosos desonestos a serviço dos inimigos da Igreja, e cuja obra junto aos silvícolas brasileiros, povos pré-cabralinos, é valiosa, inestimável, vindo Anchieta a estudar o idioma tupi e a verter para tal idioma a Bíblia, e a catequizar os povos com os quais manteve contato, mas o propósito de sua obra recebeu tratamento injusto dos inimigos da Igreja. Devido à imerecida má fama dos jesuítas – estes, apenas mencionados, despertam ódio visceral, irracional, em quem lhes ouve o nome, e, não raro, reação intempestiva, violenta, inclusive de gente que se tem na conta de culta, respeitosa, tolerante, desprovida de preconceitos e amiga da Igreja -, devido à imerecida má fama dos jesuítas, prossigo, ninguém ousa dedicar-se ao estudo dos atos da Companhia de Jesus, ao da biografia do maior de seus heróis, Inácio de Loyola, e ao das de outros jesuítas, menores, e mesmo assim de elevada estatura moral, e ao da influência do pensamento dos jesuítas na formação da cultura ocidental – preferem muitos dar ouvidos aos inimigos da Companhia de Jesus e adotarem como verdadeiras todas as difamações e calúnias que eles contra ela arremessam do que dar voz à razão e revelar boa-vontade em conhecer-lhe a história, a verdadeira história.

O livro do padre Leonel Franca auxilia a pessoa interessada na valiosa obra dos jesuítas a saber o que eles promoveram em seus colégios, com o seu método pedagógico, o Ratio Studiorum, uma obra de valor inestimável.

Privilegiam os jesuítas, em sua pedagogia, o amor à linguagem correta, usada com esmero, obtendo-a os alunos com a leitura dos clássicos gregos e latinos, e o bom falar, que os alunos adquirem com exercícios de retórica.

São exercícios literários dos alunos, no processo de aprendizagem do bom uso do idioma, da expressão clara, límpida, traduzir os clássicos gregos e latinos para o idioma vernáculo nacional e retraduzir a tradução em vernáculo para o idioma original; e copiar as obras gregas e latinas; e redigir textos imitando-lhes o estilo.

Compreendem os jesuítas o valor da emulação entre os alunos, emulação saudável, que visa o aprimoramento contínuo, assim a todos beneficiando com a elevação do padrão cultural; e o da memorização; e o do rigor da obediência,

Ao contrário do que reza a lenda, não são os jesuítas brutos, desumanos, homens de coração de pedra; na sua pedagogia, os jesuítas contemplam o castigo corporal, mas como último recurso, esgotados todos os outros. Primam os jesuítas pela compreensão, espirituosidade, paciência e inspiração. Sabem que é essencial, na formação da pessoa, o engrandecimento da alma; só assim se forma, acreditam, o homem pleno, de espírito íntegro, uma fortaleza moral.

Têm os professores dos colégios jesuítas boa cultura literária e ótima formação filosófica.

A formação dos saídos dos colégios jesuítas é primorosa. Nomes respeitáveis da literatura e da filosofia universais foram educados pelos jesuítas. Para ilustrar tal afirmação, menciono alguns de merecida fama universal: Cervantes, Lope de Vega, padre Antonio Vieira, Molière, Bossuet, Goldoni; e os brasileiros Cláudio Manuel da Costa e Rocha Pita.

É inestimável a contribuição dos jesuítas para a cultura universal. Infelizmente a obra deles é desconhecida do público, que lhes tem horror, não porque os conhece, mas por, desconhecendo-os, forma, deles, uma imagem repulsiva, considerando, não a obra deles, mas a propaganda difamatória, caluniosa, financiada pelos inimigos da igreja, propaganda que lhes emprestam a figura dos seres mais iníquos da história universal.

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