A ciumenta

– Você, Roberto, olha para todas as mulheres, na rua; delas não tira os olhos.

– Eu não olho para outra mulher além de você, Ju. Eu tenho olhos só para você. Não seja ciumenta. Você acha que eu olho para todas as mulheres e me trata como se eu fosse um homem vadio, que nunca viu um rabo-de-saia.

– E você não olha para as outras mulheres, não? Você não arregala os olhos quando vê uma bonitona?

– Não. Não olho, não. Não arregalo os olhos, não.

– E hoje à tarde, hein!?

– O que aconteceu hoje à tarde? E onde?

– Na frente da loja ***.

– O que aconteceu lá? Não olhei para nenhuma mulher.

– Não?

– Não. Olhei para alguma mulher? Que eu saiba, não.

– E a bonitona?

– Que bonitona?

– A de bicicleta.

– Que bonitona de bicicleta? Você está se referindo àquele pedaço de mal caminho, a loira de um metro e oitenta, de camiseta branca com estampa da Scarlet Johansson, short azul marinho bem agarrado com estampas de personagens de desenhos animados japoneses, chinelos-de-dedos azuis com adornos em forma de flores e pulseiras multicoloridas iridescentes nos dois braços? Àquela loira de pés pequenos, coxas grossas, com uma cicatriz na coxa esquerda e duas manchas pequenas, uma, na ilharga esquerda, uma, na coxa direita, e de lábios realçados com batom vermelho fosco, cabelos compridos presos com uma tiara preta, unhas esmaltadas de vermelho framboesa, e com uma tatuagem no ombro esquerdo, atrás, de uma borboleta azul, vermelha, amarela e verde, e um piercing na sobrancelha esquerda?

– É. É a ela que estou me referindo.

– Confesso, querida: Eu a vi. Olhei para ela, mas nela não prestei atenção.

– Não prestou atenção nela!? Você não prestou atenção, canalha, naquela mulher!?

– Não, ciumenta. Nela eu não prestei atenção. Eu apenas atentei para o short que ela usava. Que mal há em olhar para um short? Eu queria ver quais personagens estavam estampados no short. Você sabe que eu gosto de personagens de desenhos animados japoneses, não sabe? Então… Deixe de ser ciumenta.

Em lados opostos

– Você não me acreditará, Feliciano. Você irá me chamar de mentiroso. A Jaqueline está no papo. A gata é minha. Fez-se de difícil, a maldita, mas caiu na lábia do garanhão. Feri-lhe o ego. Mulher vaidosa, ela não suportou ser passada para trás, e cedeu aos meus desejos. Que mulher! Nunca tive em meus braços mulher tão bela! Eu e ela principiamos o namoro na sexta-feira. Ela pensava que não cairia em meus braços. A felina recolheu as garras. Eu a terei em meus braços sempre que a desejar. Ela irá satisfazer todos os meus desejos e todas as minhas fantasias. Eu disse para você que eu conquistaria a Jaqueline. Aquela gata não poderia me escapar, e não me escaparia, e não me escapou. Ela é minha. No domingo, eu e ela fomos pra Ubatuba. Você tinha de ver como os marmanjos olhavam pra ela. Babavam de desejo. Você tinha de ver com que cara eles ficavam ao me ver passando o bronzeador e o protetor solar na Jaqueline. Eles não queriam acreditar no que viam. A Jaqueline pensou que eu não a conquistaria. Sem falsa modéstia, sou irresistível. Sei como convencer uma bela mulher a ceder aos meus desejos. Tenho as minhas artimanhas. Nenhuma mulher que desejei resistiu ao meu charme. E não seria a Jaqueline que resistiria. Eu convidava a Jaqueline para jantar, e ela, soberba, nariz empinado, rejeitava os convites. Eu a convidava para almoçar; ela rejeitava os convites. Eu a convidava para um passeio; ela recusava os convites; não os recusava, rejeitava-os, e tratava-me como capacho. Ela, uma vez, me humilhou diante da Vilma. Foi constrangedor. O sorriso da Jaqueline… Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Aquele sorriso… Veneno de uma víbora. O sorrisinho da Jaqueline, e o da Vilma… Não desisti. Eu tinha de fazer jus à minha masculinidade. Convidei a Jaqueline para ir ao teatro, ao cinema, ao zoológico, à praia, e para almoçar, lanchar, jantar; mas ela, soberba, rejeitou todos os convites que lhe fiz. Ora, o ditado não diz que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Portanto, insisti, e insisti, e insisti. Demorei para me convencer de que, ou a pedra era dura demais, ou o ditado está errado. Foi aí que vi que os ditados são inúteis e reconheci que a minha estratégia de conquista estava errada. A abordagem direta era inútil. Eu teria de usar outra abordagem. Matutei. Inspirado pelos prazeres que eu prelibava… Gostou desta? Poético, não? Eu, inspirado pelo desejo da carne, criei outra estratégia: Abordagem indireta. Eu sitiaria a Jaqueline. Eu iria ferir a vaidade dela. As mulheres bonitas são vaidosas, você sabe. Elas querem que os homens as reverenciem. Jaqueline ficava, é certo, orgulhosa, cheia de si, quando eu me derretia por ela. Ela se considerava a mulher mais desejável do mundo. Eu mostraria pra ela que ela não é a mulher mais importante do mundo. Eu não a convidaria mais. Eu a esnobaria. Eu a ignoraria solenemente, nem olharia pra ela; se ela estivesse próxima de mim, mas não conversando comigo, e eu conversasse com outra pessoa, eu elogiaria a beleza, os encantos, os atrativos de outras mulheres. Eu tinha casos com a Adriana, com a Cinira e com a Andressa. Usei-as pra provocar a Jaqueline. Eu as beijava gulosamente sempre que a Jaqueline olhava pra mim. Eu elogiava todas elas, principalmente a Andressa, que é uma gata; não tão bonita quanto a Jaqueline, mas uma gata… A Jaqueline, eu via nos olhos dela, ficava fula, mordia a língua. Ela sentiu, na carne, a dor do desprezo; e a vaidade falou mais alto. Ela começou a se insinuar pra mim. Eu fingia que não percebia, que não era comigo. Eu a ignorava solenemente. Ela me abordava, contendo-se, e perguntava-me se eu tinha compromisso, ou na hora do almoço, ou à noite, ou no final de semana, mas nunca me dizia porque me fazia tal pergunta. Eu sempre lhe dizia que sim, que, ou tinha um compromisso, ou um encontro. Eu sabia que a fortaleza enfraquecia-se, e que, com uma investida certeira, eu a destruiria, e teria acesso a prazeres indescritíveis… Era tudo uma questão de tempo. Quando eu menos esperasse, e sem que a Jaqueline desconfiasse que eu lhe manipulava os sentimentos e a induzia a fazer o que eu desejava que ela fizesse, ela se lançaria aos meus braços, e se me ofereceria, e eu usufruiria dos prazeres mais sensacionais que eu jamais poderia imaginar. A Jaqueline abordava-me, insinuava-se, e eu a rejeitava, e dava-lhe a entender que eu preferia outra mulher. Eu ia à balada com a Natália, com a Úrsula, com a Arlete. Quando a Jaqueline estava por perto, eu elogiava a Natália, a Arlete, a Úrsula, a Andressa, a Adriana, a Cinira. Eu declarava que não conhecia mulheres tão bonitas quanto elas, e a minha voz chegava aos ouvidos da Jaqueline. Dentre elas, Natália era a que eu mais elogiava. Natália! Que loirinha! Eu sabia que ela e a Jaqueline não se bicam. Elas se detestam. O mundo é pequeno demais para as duas. A Jaqueline irritava-se sempre que me via com a Natália. A Natália é bonita, atraente, desejável. Todavia, não se compara com a Jaqueline; eu, no entanto, dava a entender o contrário. E a Jaqueline mordia-se de raiva! Na sexta-feira, os episódios desta novela sucederam-se num ritmo vertiginoso. Eu estava na minha casa, sozinho, quando a campainha soou. Você é capaz de adivinhar quem premiu a campainha? Abri a porta. O tempo parou. Meu queixo caiu. A Jaqueline, vestida para matar, aproximou-se de mim, abraçou-me, e beijou-me. Foi uma noite maravilhosa. O início do meu namoro com a Jaqueline, auspicioso. A Jaqueline é minha, inteiramente minha, exclusivamente minha. Não quero mais saber de outra mulher. Quero a Jaqueline, apenas a Jaqueline. Não preciso de outra mulher. A Jaqueline satisfaz-me em todos os sentidos e todos os meus sentidos. Não preciso de outra mulher. Sou apaixonado pela Jaqueline. Meu coração é dela, e o dela é meu. Conquistei a Jaqueline. Conquistei a mulher dos meus sonhos. Ela é minha. Inteiramente minha. Exclusivamente minha. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

*

– Daiane, os homens são patéticos. Eles acreditam que sempre estão por cima; que são os conquistadores; que são espertos. Eles acreditam que são mais espertos do que as mulheres, as controlam e as obrigam a satisfazer-lhes todos os desejos. Eles vivem no mundo da fantasia! Eles se recusam a entender que o mundo pertence às mulheres e que a eles cabe o papel de coadjuvantes. Esqueça Casanova e Dom Juan, dois gabolas mentirosos. Você acredita nas histórias que eles escreveram? Eles são famosos, mas qual deles foi poderoso? Pompadour e Cleópatra foram poderosas. Casanova e Dom Juan eram conquistadores baratos. E a Marilyn Monroe, que conquistou os Kennedys e um escritor famoso, cujo nome não lembro. E um escritor americano escreveu uma biografia dela. Não a li. Um escritor americano… Não foi o Roth, nem o Vidal. Li cinco livros dele. O nome dele estava na ponta da minha língua; de repente, desapareceu, como num passe de mágica. Uma graça, a Marilyn, você não acha? Ela é mais bonita e mais cheia de graça do que a Bardot e a Sophia. Cá entre nós, ela parecia uma bonequinha de luxo. Lembrei-me: Norman Mailer. Sou fã da Marilyn. Tenho todos os filmes dela. Como eu dizia, Casanova e Dom Juan, gabolas ridículos, desprezíveis, diziam, com os exageros de praxe, aos quatro cantos do mundo, que iam para a cama com todas as mulheres. Fie-se nas histórias que eles contaram e que deles contam! A Pompadour e a Cleópatra ficaram poderosas. Eles, não. As mulheres são mais sutis, astutas e espertas do que os homens, e sabem usar as suas armas, aquelas que as têm, muito melhor do que os homens usam as deles. Uma delas é a beleza; a outra, a sensibilidade; a outra, a inteligência. Os homens recusam-se a entender que não podem resistir, mesmo se o desejarem, aos ataques das mulheres que possuem essas três armas. Raras as possuem. Eu as possuo. O que eu disse pode soar arrogante aos seus ouvidos, mas não é. Sou bonita. Sou inteligente. Sou sensível. Não quero me gabar: possuo as três mais poderosas armas femininas. E sei usá-las. Usando-as, conquistei o Leandro. Ele é um gato. Ele me abordou, em diversas ocasiões, mas eu, que tenho o meu orgulho, me fiz de difícil. Eu não queria ser mais uma mulher na lista dele. Eu sabia que ele, indiscreto, contava, com todos os pormenores, para o Feliciano, o confidente dele, tudo o que se sucedia sob os lençóis, e o Feliciano anunciava, em rede nacional, tudo o que o Leandro lhe relatava. Discreto ele, né? Eu soube que o Leandro ficava, um dia, com a Cinira, no outro, com a Andressa, no outro, com a Natália, e com outras mulheres. A lista é extensa. Eu não permitiria que o Leandro me reduzisse a um nome na agenda dele. Eu sabia que ele me desejava. Ao contrário das outras mulheres, eu o desprezei. Ele me convidou para almoçar, jantar, ir ao cinema, ao zoológico, ao parque, à praia. Recusei todos os convites. Fui, reconheço, malvada com ele. Arrependi-me de dispensar-lhe tal tratamento… Eu o via com aquele olhar… Eu pensava em parar com o meu joguinho, e ceder ao Leandro… Eu o desejava. Ele é um gato. Ele é inteligente. Ele é elegante. Ele é charmoso. E aquele sorriso derrete-me. Aquele olhar… Minhas pernas tremiam sempre que o Leandro aproximava-se de mim. Meu corpo ardia de prazer, mas eu tinha de conter o desejo que me assaltava sempre que ele, tão perto e tão longe… Você não imagina como foi difícil resistir às abordagens do Leandro… Eu desejava dizer sim a todos os convites que ele me fazia. Eu o desejava, mas eu não queria ser reduzida a um nome na agenda dele. Meu nome seria o único nome de mulher na agenda do Leandro. O Leandro, esnobado, desprezado, provocava-me. Para me provocar, ele ficava com a Úrsula, com a Andressa, e com a Natália, aquela… Sei que ele sabia que eu e a Natália não nos gostamos uma da outra. O bobo pensou que me provocava. Ele, sempre que eu estava perto dele, e ele conversava ou com o Feliciano, ou com o Milton, ou com o Adriano, ou com o Arthur, ou com o César, falava da Natália e a elogiava. O propósito dele: provocar-me ciúme. A Natália é bonita, reconheço, mas ela não é tão bonita como o Leandro falava que ela é. Ora, não sou cega. Quando vejo uma mulher bonita, admiro-lhe a beleza, e até a invejo. A Tábata, por exemplo. Ela é linda. Eu gostaria de ter os olhos azuis dela, e as maçãs do rosto também. A cinturinha… Nossa! Nunca vi outra mulher com tal cinturinha! A Tábata é a mulher mais bonita que já vi. Tem um corpo perfeito. Ela é mais bonita do que eu, reconheço. A Natália… Ela não é mais bonita do que eu. Ela não é inteligente, nem espirituosa. Não digo isso por despeito. Digo isso porque é a verdade. Se quiser confirmar o que digo, converse com ela por alguns minutos. Bastam alguns minutos de conversa com ela para você se convencer de que digo a verdade. E sucederam-se os capítulos desta novela. Percebi que o Leandro estava desesperado. Ora, se ele saía com a Natália, minha desafeta, minha arquiinimiga, para me provocar, era porque ele estava desesperado, e apaixonado, apaixonado por mim, obviamente. E o que fiz? Eu o abordei. Eu me insinuava. Eu me aproximava dele e me fazia presente e atenciosa, mas dele conservava distância respeitosa. Eu lhe provava, assim, que eu não era como as outras mulheres, e o meu nome não seria mais um nome na agenda dele, e a minha foto não figuraria no álbum de fotos dele ao lado das fotos de dezenas de outras mulheres. Notei uma mudança, imperceptível, no comportamento do Leandro: Ele raramente saía de casa, ia às baladas uma vez ou outra, afastou-se das outras mulheres, desmanchou o namoro com a Natália. Vamos dizer a verdade: não era namoro; era apenas um caso. O Leandro usava a Natália para me provocar. Eu… Cheguei numa encruzilhada. Na sexta-feira, ao anoitecer, fui à casa do Leandro. Apertei a campainha, e o esperei. Assim que ele abriu a porta, eu o beijei na boca. Ele não resistiu. Eu o conquistei. O gato é meu. Falei para ele: “Jogue no lixo a agenda com os números dos telefones de todas as mulheres que você já conheceu e as fotos de todas elas. Agora só há uma mulher na sua vida: Eu.” Ele jogou a agenda e as fotos de todas as mulheres no lixo. Em seguida, dei-lhe uma agenda nova, entreguei-lhe uma caneta, e disse-lhe para escrever o meu nome e o número do meu telefone. Ele os escreveu. Dei-lhe uma foto minha, e ele a colou na agenda. O meu nome é o único nome na agenda do Leandro. A minha foto é a única foto na agenda dele. O Leandro é meu, exclusivamente meu, inteiramente meu. O coração dele me pertence. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

Quem com ferro fere com ferro será ferido

Certo domingo, estávamos, na praça Emílio Ribas, conversando, eu, Marcelo, Paulo e João. Os filhos de Paulo, Cláudio e Rodrigo brincavam de pega-pega. Não eram dez horas da manhã. Havíamos nos retirado da Igreja de Santa Teresinha vinte minutos antes. E na praça nos detivemos. De repente, ouvimos alguém gritar:

– Olha o gordo!

Voltamos a nossa atenção para a direção da qual chegou-nos a exclamação. Era Mauro, que, do outro lado da rua, gritava, apontava João, e gargalhava.

Mauro tem um metro e sessenta e cinco centímetros de altura. Branco – não de todo; e loiro – não totalmente. Magro – não direi magro; nem esbelto é. Não é bonito; e nem feio é. Não agrada as mulheres, e não lhes inspira repulsa. Para muita gente ele é irritante, intragável; mas há gente que com ele se simpatiza.

– Esse gordo é muito gordo – prosseguiu Mauro, apontando João. – Gordo! Bolo fofo! Rolha de poço! Precisam de você, na represa, para tampar a rachadura. Bolo fofo! Elefantinho da mamãe.

João, furioso, exibiu um gesto obsceno para Mauro. Paulo, eu e Marcelo pedimos-lhe que não se deixasse levar pelas provocações, mas ele, ignorando-nos, afastou-se de nós, andou na direção de Mauro, exibindo-lhe gestos obscenos e acenando-lhe para que ele se detivesse, que lhe daria boas lições. Mauro provocava-o. Paulo, eu e Marcelo pedimos, em vão, a João que ignorasse Mauro. João dele aproximou-se. Preparou-lhe um soco. Mauro esquivou-se, agachando-se, sorrindo, e afastou-se, passos acelerados, de João; dele distava uns três metros quando pôs-se a gargalhar, e a provocá-lo.

– Quando eu pegar você, Mauro – ameaçou João -, quebrarei seu nariz.

– Pegar-me? – desafiou-o Mauro. – Pegar-me, barril de banha? Você é mais lento do que uma lesma obesa, reservatório estratégico de gordura. Venha me pegar, pança de panda.

E afastava-se Mauro, sorrindo, de João, que o fitava, cenho franzido, furioso, contendo-se. João, ao olhar para a sua direita, viu uma pedra, pegou-a, e voltou-se para Mauro, que, passos apressados, dele afastou-se, zombando. João largou a pedra na calçada, e foi, extremamente irritado, até Paulo, Marcelo e eu.

Permanecemos, na praça Emilio Ribas, durante mais quinze minutos, e rumamos, cada um de nós para a sua casa.

Naquele mesmo domingo, no bar do Gonzaga, um pouco depois das quatro horas da tarde, assistíamos ao jogo de futebol entre o Corinthians e o São Paulo. Eram mais de vinte os homens dentro daquele pequeno bar, todos a olhar, vidrados, para a tela da televisão, e a esbravejar, e a disparar obscenidades contra o árbitro, os jogadores, os técnicos, os bandeirinhas e os gandulas. Alguns dentre nós éramos corinthianos; outros, sãopaulinos.

Ouvimos, em certo momento, um grito:

– Maranhão!

E olhamos, todos os que estávamos no bar, para a porta, e deparamo-nos com Mauro. Houve aqueles que, previdentes, desafetos de Mauro, retiraram-se do bar, por uma porta, enquanto no bar Mauro entrava por outra porta e encostava-se ao balcão. Maranhão, cujo nome é Vitoriano, estava na outra extremidade do balcão, distante de Mauro quatro metros. Fitou-o, olhar seco, de poucos amigos. Entreolhamo-nos muitos dentre nós. E Gonzaga solicitou a Mauro que não provocasse Vitoriano. Antevi a briga. Vitoriano é oriundo do estado do Maranhão, daí o seu apelido. Quase todos os que o conhecemos o chamávamos por tal alcunha; codnome, diz o Gonzaga, de agente secreto. Vitoriano é robusto, de pele áspera curtida de sol, atarracado, mãos enormes, calosas, de dedos grossos e nodosos, e braços de musculatura pétrea.

Enquanto assistíamos ao jogo de futebol, em clima de flaflu, Mauro zombava de Vitoriano, do seu tipo físico, da sua calvície precoce e pronunciada, da sua estatura baixa, da sua pele, do seu sotaque, do formato da sua cabeça. Para surpresa de todos nós, Vitoriano conservou-se, no banco, sentado, ao balcão, degustando da loirinha gelada e dos petiscos de palitinho. Mauro ridicularizava-o, e o silêncio de Vitoriano fê-lo intensificar as chacotas. Pedimos a Mauro que cessasse as provocações. Ele, no entanto, ouvidos moucos, seguia com elas, até que disse as palavras que desencadearam a fúria de Vitoriano:

– Como você nasceu, Maranhão? Quando você nasceu, a sua mãe olhou para você, e gritou: “Meu Deus! Padim Ciço, proteja-me! Que horror! Como essa criatura monstruosa entrou em mim? Não é meu filho. Eu estava bêbada quando o pai dele o fez em mim.”

Uma garrafa riscou, como um míssil, os quatro metros que separavam Vitoriano de Mauro, e estilhaçou-se na parede. Mauro, que mal teve tempo de se mexer, deslocou-se alguns centímetros para a direita, o suficiente para sair da trajetória da garrafa. Vitoriano abriu passagem, como um touro, por entre nós, deslocando-nos com os braços, e foi na direção de Mauro, que tratou de girar sobre os calcanhares e passar sebo nas canelas. Correu Mauro uns dez metros, e voltou-se para trás, para ver, à porta do bar, Vitoriano, parado, fitando-o, e acenou-lhe, debochando.

Vitoriano prometeu, para si mesmo, que um dia agarraria Mauro pelo pescoço e fender-lhe-ia o ventre com uma peixeira.

Encontrei-me com Mauro, na fila do banco C…, na segunda-feira, e falei-lhe da promessa que João e Vitoriano fizeram. Mauro deu de ombros.

– Eles só ameaçam – disse Mauro, sorrindo. – São idiotas, aqueles dois. O João é gordo; o Maranhão é nordestino. Ambos são mais burros do que uma porta. Não vou esquentar a minha cabeça com aqueles dois imbecis fracassados.

Uma semana depois, no Clube Esportivo São Benedito, Mauro aproximou-se de um grupo de homens, saudou-os – muitos dentre eles o saudaram de má-vontade -, e deteve-se em Guilherme, de estatura um pouco maior do que a dele, magro, na altura dos trinta anos, cabelos repartidos ao meio, de óculos de lentes grossas. Mauro, sorrindo, fitava-o como se o examinasse. Guilherme fez que não o viu, e não interrompeu a sua conversa com Vinicius, que se sentiu incomodado com a atitude provocativa de Mauro.

– Pelo amor de Deus. – exclamou Mauro, fitando Guilherme, que não se voltou para ele. – De qual planeta você veio? – perguntou-lhe, tocando-o no ombro, e só então Guilherme e Vinicius interromperam a conversa, e Guilherme voltou-se para Mauro. – Você parece um alienígena com esses óculos, Guilherme. E esses cabelos! Que penteado horroroso! Cruz credo! Você não nasceu! Você foi cuspido! – e gargalhou, dobrando-se sobre si mesmo.

Guilherme, para surpresa de Mauro, disse-lhe, com voz calma, em tom firme:

– Você já se olhou no espelho? Você parece um rebento do cruzamento de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, com o Sméagol, o monstrinho do Senhor dos Anéis.

Mauro, de imediato, disparou-lhe um soco; Guilherme aparou-o, e encaixou-lhe um soco no peito, e se pôs de modo a dissuadi-lo de querer uma briga. Mauro, ciente de que não poderia sobrepujar Guilherme, mão direita a massagear o peito no ponto que Guilherme lho atingira, afastou-se dele, esbravejando:

– Idiota! Imbecil! Idiota! Nunca mais zombe de mim! Vá para o inferno, vagabundo! Vá para o inferno!

E Mauro abriu espaço pela multidão, e retirou-se do clube.

O homem que tinha boa memória

– Hoje aconteceu-me uma coisa muito interessante, Gustavo. Fui à farmácia comprar um remédio. Ao balcão, a mocinha, uma loirinha simpática, que me atendeu, perguntou-me o que eu desejava. Pensei em dizer-lhe o que, naquele momento, eu desejava, mas, como eu sou um cavalheiro, disse-lhe eu que eu desejava um remédio. E ela perguntou-me: “Qual remédio?”. “Qual remédio!?”, indaguei, no meu tom de voz habitual, mais para mim do que para ela. “É um comprimido”, disse-lhe eu, gracejando, tentando lembrar-me o nome do maldito remédio. E a loirinha perguntou-me, com aqueles olhos tão doces a olharem-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Aquela loirinha era uma gracinha ao falar específico. Nunca vi uma mulher falar específico com tanta graça. E disse-lhe eu: “Posso. O nome do remédio começa com a letra R”. A loirinha sorriu, e perguntou-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Que graça ela falar específico! “Mais específico do que estou sendo, impossível”, respondi-lhe, e ela sorriu. E eu, que havia me esquecido o nome do maldito remédio, disse à loirinha que eu iria telefonar para a minha esposa. E a loirinha, a educação e a simpatia em pessoa, esperou-me, pacientemente, completar a conversa com a Samantha, e dizer-lhe à ela, a loirinha que me atendeu, o nome do remédio. Disse-lho eu, e desliguei o telefone. E a loirinha providenciou-me o remédio; e paguei por ele, no caixa, retirei-me da farmácia, fui para casa o mais rápido que pude, e entreguei o remédio para a Samantha – e após uma curta pausa, para beber da cerveja, prosseguiu: – Gustavo, você sabe o que mais me chamou a atenção nesta história? A minha boa memória. Quando, ao telefone, a Samantha disse-me o nome do remédio que ela me pedira que eu lho comprasse, dele lembrei-me de imediato. Incrível, não? Que boa memória a minha!

O segredo

Uma história do Joãozinho

O pai de Joãozinho diz para Joãozinho.

– Joãozinho, amanhã será o aniversário de tua mãe. Estou preparando uma festa surpresa para ela, mas nada lhe digas, está bem?

– Está bem – respondeu Joãozinho.

Vinte minutos depois, chega à casa a mãe de Joãozinho. Joãozinho pula-lhe aos braços, e, após dela receber um beijo caloroso, lhe diz:

– Mamãe, a senhora sabia que papai está te preparando uma festa surpresa?

– Não era para lhe contar, Joãozinho – censurou-o o pai.

– Não lhe contei – defendeu-se Joãozinho. – Eu só lhe perguntei se ela sabia que o senhor está lhe preparando uma festa surpresa.

 

O canarinho e Charles Darwin

Uma história do Joãozinho

Encontravam-se, na casa do Joãozinho, além de Joãozinho e dos pais do Joãozinho, os avós do Joãozinho – os maternos e os paternos – e um tio materno do Joãozinho. Conversavam, à mesa da sala-de-estar, animados, na manhã daquele sábado de calor intenso, a degustarem dos docinhos, das bolachas de nata e dos biscoitos de vento que a avó materna do Joãozinho havia preparado com todo o amor e carinho que lhe animava o espírito.

O pai do Joãozinho narrou algumas peripécias da sua juventude. A mãe do Joãozinho contou um episódio que protagonizou: seu pai a ensinava a andar de bicicleta, e ela, desajeitada, deu uma pedalada, e a bicicleta rumou, em linha reta, em direção à uma árvore; contra ela não colidiu porque seu pai a segurou a tempo de evitar a colisão. Riram, todos.

E todos narraram episódios hilários da juventude.

– São engraçados, hoje – comentou o avô paterno do Joãozinho. – Agora, que os recordamos, rimos. Mas nos preocupamos, na época em que se deram.

E as suas observações produziram muitos comentários, e inspiraram a evocação de dezenas de outros episódios, engraçados, diziam. E riram. E gargalharam.

E Joãozinho, que ria a bom rir, e narrava, com a desenvoltura que lhe era peculiar e o desembaraço que todos lhes reconheciam, algumas das suas aventuras, e assim que sua mãe fez referência ao canarinho, dele falou, animado, e todos o ouviram, atentamente.

– Um dia, já faz tempo, vi um canarinho amarelo, bem amarelo, na jabuticabeira. Ele estava com fome, e queria jabuticabas. Como a jabuticabeira não tinha jabuticabas, fui até à cozinha, e peguei um pedaço de mamão, e o pus, no chão, perto da jabuticabeira. Sentei-me, para esperar o canarinho comer do pedaço de mamão, no banquinho, que está no rancho, e não me mexi. Depois de um tempão, o canarinho desceu no chão, e comeu do mamão, dando bicadinhas com seu bico, que é bem pequeno, pequenininho. Depois de comer do mamão, ele foi embora.

– E para onde ele foi? – perguntou-lhe a avó materna.

– Não sei – respondeu Joãozinho. – Eu queria vê-lo novamente, então, no dia seguinte, pus um pedaço de mamão, um gomo de laranja e um pedaço de melão, no mesmo lugar que, no dia anterior, eu havia posto um pedaço de mamão.

– Você serviu um banquete ao canarinho – observou o avô paterno do Joãozinho.

– Empanturre-o, que ele engordará, Joãozinho – comentou o pai do Joãozinho, rindo.

– E o canarinho desceu para comer das frutas? – perguntou para Joãozinho a sua avó paterna.

– Sim – respondeu Joãozinho. – Fiquei, quieto, sem me mexer, e nem um dedo mexi, e nem piscar, pisquei, sentado, no banquinho, no rancho. Transformei-me em uma estátua. À espera do canarinho… E ele apareceu. E desceu, no chão, perto da jabuticabeira, e comeu do mamão, do melão e da laranja, dando bicadinhas, e olhando para os lados. Parecia assustado com alguma coisa.

– E depois? – perguntou-lhe a avó materna.

– O canarinho foi embora, e nunca mais voltou? – perguntou-lhe o avô materno.

– Voltou, sim – respondeu Joãozinho. – E eu dei frutas para ele: mamão, jabuticaba, limão, carambola, caqui, melão, melancia, banana, maçã, pêra, açaí, morango, cereja, caju, coco e pitanga.

– Você empanturrou o canarinho – observou o tio do Joãozinho.

– Não – defendeu-se Joãozinho. – Não o empanturrei, não. Eu, em um dia, dei-lhe mamão, no outro dia, morango, e em outro dia, maçã. Um pedaço de fruta em cada dia, e em todo dia ele desceu, perto da jabuticabeira, para comer de um pouco de fruta que eu lhe levei um pouco depois do meio-dia.

– Todos os dias – perguntou-lhe o avô paterno – o canarinho vai à jabuticabeira para comer as frutas que você lhe deixa?

– Sim – respondeu Joãozinho. – Ele sempre vai comer das frutas, todos os dias, um pouco depois do meio-dia.

– São dez e meia – anunciou o pai do Joãozinho.

– Daqui a pouco levarei um pedaço de fruta para ele – disse Joãozinho. – Tem melão, mamãe?

– Sim – respondeu-lhe a mãe. – E tem, também, banana e maçã.

– Vou levar-lhe um pedaço pequeno de cada – anunciou Joãozinho.

Joãozinho retirou-se da sala-de-estar, e, célere, rumou à cozinha, abriu a geladeira, e preparou a refeição do canarinho. Minutos depois, anunciou aos seus familiares a sua ida ao quintal, para levar a refeição ao canarinho. Seu tio e seu avô materno o acompanharam na jornada. Minutos depois, regressaram à sala-de-estar, Joãozinho, animadíssimo.

Neste momento, o pai do Joãozinho e o avô paterno do Joãozinho falavam de Charles Darwin e da teoria da evolução das espécies, enquanto suas avós e sua mãe falavam de culinária.

Joãozinho sentou-se no sofá, e intrometeu-se na conversa com perguntas que revelavam a sua curiosidade.

– Quem foi Charles Darwin?

– O que é evolução das espécies?

Essas foram as duas primeiras perguntas de Joãozinho. E seus avós, seu tio e seu pai apresentaram-lhe a biografia de Charles Darwin e explicaram-lhe, como puderam, a teoria da evolução.

– Os animais mudam de características com o passar do tempo – disse, em um momento da conversa, o tio do Joãozinho. – Eles evoluem. O que é evolução? É um processo natural pelo qual todos os animais passam, abandonando certas características, e assumindo outras, que os ajudam a viver melhor. Adquirem, como eu direi?, poderes que os ajudam a viver mais, a gerar descendentes, e a fortalecerem-se, para enfrentarem os seus inimigos, e vencê-los, e para obter alimentos. Um exemplo: Alguns passarinhos de bico fino migram para uma região distante, onde há frutas de casca grossa, e para quebrá-las é necessário que os passarinhos tenham bico grosso. E o que acontece? Morrem todos os passarinhos que não evoluem, isto é, que não desenvolvem o bico, para torná-lo grosso; com o bico fino não consegue romper a casca, que é grossa, das frutas, e morrem de fome.

– Todos os passarinhos morrem de fome? – perguntou-lhe Joãozinho, intrigado e entristecido, a imaginar muitos passarinhos a morrerem de fome.

– Não, Joãozinho – respondeu-lhe o tio. – Os passarinhos que evoluem não morrem de fome. Eles transformam o bico, que, de fino, torna-se grosso, e com ele os passarinhos rompem a casca grossa e dura das frutas, e, assim, sobrevivem.

– Os passarinhos ficam maiores e mais fortes? – perguntou Joãozinho.

– Sim – respondeu-lhe o tio. – É a evolução. Para enfrentar os predadores, o ambiente hostil, e obter alimentos, eles se transformam em espécies maiores, mais fortes, mais poderosas. Eles evoluem. É a evolução das espécies.

– E foi o Charles Darwin que inventou a evolução das espécies? – perguntou Joãozinho.

Todos caíram na gargalhada.

Passados alguns minutos do meio-dia, Joãozinho retirou-se, correndo, da sala-de-estar, e, indagado pelo seu tio, disse que iria ao rancho esperar pelo canarinho.

Trinta minutos depois, Joãozinho regressou, correndo, à sala-de-estar, a anunciar:

– O canarinho evoluiu! O canarinho evoluiu!

E pôs-se a falar, apressadamente, comendo sílabas, trocando palavras.

Pediram-lhe que tomasse fôlego, e, depois, dissesse-lhes o que havia ocorrido.

– O canarinho evoluiu – disse, por fim, Joãozinho, e todos o compreenderam.

– O quê? – indagou-lhe o tio. – O canarinho evoluiu?

– Sim – respondeu Joãozinho. – O canarinho evoluiu. Fui ao rancho, e esperei por ele; esperei um tempão. E eu o vi.

– O canarinho evoluiu? – perguntou-lhe o avô materno, intrigado.

– Evoluiu, vovô – respondeu-lhe Joãozinho. – Ele evoluiu. Eu vi. Eu estava, no rancho, sentado no banquinho, esperando o canarinho descer perto da jabuticabeira, para comer da maçã, do melão e da banana, e eu o vi. Ele evoluiu. Eu vi o canarinho descendo perto da jabuticabeira, e comer das frutas. O canarinho evoluiu. Está maior e mais forte. Ele se transformou num corvo.