Em lados opostos

– Você não me acreditará, Feliciano. Você irá me chamar de mentiroso. A Jaqueline está no papo. A gata é minha. Fez-se de difícil, a maldita, mas caiu na lábia do garanhão. Feri-lhe o ego. Mulher vaidosa, ela não suportou ser passada para trás, e cedeu aos meus desejos. Que mulher! Nunca tive em meus braços mulher tão bela! Eu e ela principiamos o namoro na sexta-feira. Ela pensava que não cairia em meus braços. A felina recolheu as garras. Eu a terei em meus braços sempre que a desejar. Ela irá satisfazer todos os meus desejos e todas as minhas fantasias. Eu disse para você que eu conquistaria a Jaqueline. Aquela gata não poderia me escapar, e não me escaparia, e não me escapou. Ela é minha. No domingo, eu e ela fomos pra Ubatuba. Você tinha de ver como os marmanjos olhavam pra ela. Babavam de desejo. Você tinha de ver com que cara eles ficavam ao me ver passando o bronzeador e o protetor solar na Jaqueline. Eles não queriam acreditar no que viam. A Jaqueline pensou que eu não a conquistaria. Sem falsa modéstia, sou irresistível. Sei como convencer uma bela mulher a ceder aos meus desejos. Tenho as minhas artimanhas. Nenhuma mulher que desejei resistiu ao meu charme. E não seria a Jaqueline que resistiria. Eu convidava a Jaqueline para jantar, e ela, soberba, nariz empinado, rejeitava os convites. Eu a convidava para almoçar; ela rejeitava os convites. Eu a convidava para um passeio; ela recusava os convites; não os recusava, rejeitava-os, e tratava-me como capacho. Ela, uma vez, me humilhou diante da Vilma. Foi constrangedor. O sorriso da Jaqueline… Lembro-me como se tivesse acontecido ontem. Aquele sorriso… Veneno de uma víbora. O sorrisinho da Jaqueline, e o da Vilma… Não desisti. Eu tinha de fazer jus à minha masculinidade. Convidei a Jaqueline para ir ao teatro, ao cinema, ao zoológico, à praia, e para almoçar, lanchar, jantar; mas ela, soberba, rejeitou todos os convites que lhe fiz. Ora, o ditado não diz que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Portanto, insisti, e insisti, e insisti. Demorei para me convencer de que, ou a pedra era dura demais, ou o ditado está errado. Foi aí que vi que os ditados são inúteis e reconheci que a minha estratégia de conquista estava errada. A abordagem direta era inútil. Eu teria de usar outra abordagem. Matutei. Inspirado pelos prazeres que eu prelibava… Gostou desta? Poético, não? Eu, inspirado pelo desejo da carne, criei outra estratégia: Abordagem indireta. Eu sitiaria a Jaqueline. Eu iria ferir a vaidade dela. As mulheres bonitas são vaidosas, você sabe. Elas querem que os homens as reverenciem. Jaqueline ficava, é certo, orgulhosa, cheia de si, quando eu me derretia por ela. Ela se considerava a mulher mais desejável do mundo. Eu mostraria pra ela que ela não é a mulher mais importante do mundo. Eu não a convidaria mais. Eu a esnobaria. Eu a ignoraria solenemente, nem olharia pra ela; se ela estivesse próxima de mim, mas não conversando comigo, e eu conversasse com outra pessoa, eu elogiaria a beleza, os encantos, os atrativos de outras mulheres. Eu tinha casos com a Adriana, com a Cinira e com a Andressa. Usei-as pra provocar a Jaqueline. Eu as beijava gulosamente sempre que a Jaqueline olhava pra mim. Eu elogiava todas elas, principalmente a Andressa, que é uma gata; não tão bonita quanto a Jaqueline, mas uma gata… A Jaqueline, eu via nos olhos dela, ficava fula, mordia a língua. Ela sentiu, na carne, a dor do desprezo; e a vaidade falou mais alto. Ela começou a se insinuar pra mim. Eu fingia que não percebia, que não era comigo. Eu a ignorava solenemente. Ela me abordava, contendo-se, e perguntava-me se eu tinha compromisso, ou na hora do almoço, ou à noite, ou no final de semana, mas nunca me dizia porque me fazia tal pergunta. Eu sempre lhe dizia que sim, que, ou tinha um compromisso, ou um encontro. Eu sabia que a fortaleza enfraquecia-se, e que, com uma investida certeira, eu a destruiria, e teria acesso a prazeres indescritíveis… Era tudo uma questão de tempo. Quando eu menos esperasse, e sem que a Jaqueline desconfiasse que eu lhe manipulava os sentimentos e a induzia a fazer o que eu desejava que ela fizesse, ela se lançaria aos meus braços, e se me ofereceria, e eu usufruiria dos prazeres mais sensacionais que eu jamais poderia imaginar. A Jaqueline abordava-me, insinuava-se, e eu a rejeitava, e dava-lhe a entender que eu preferia outra mulher. Eu ia à balada com a Natália, com a Úrsula, com a Arlete. Quando a Jaqueline estava por perto, eu elogiava a Natália, a Arlete, a Úrsula, a Andressa, a Adriana, a Cinira. Eu declarava que não conhecia mulheres tão bonitas quanto elas, e a minha voz chegava aos ouvidos da Jaqueline. Dentre elas, Natália era a que eu mais elogiava. Natália! Que loirinha! Eu sabia que ela e a Jaqueline não se bicam. Elas se detestam. O mundo é pequeno demais para as duas. A Jaqueline irritava-se sempre que me via com a Natália. A Natália é bonita, atraente, desejável. Todavia, não se compara com a Jaqueline; eu, no entanto, dava a entender o contrário. E a Jaqueline mordia-se de raiva! Na sexta-feira, os episódios desta novela sucederam-se num ritmo vertiginoso. Eu estava na minha casa, sozinho, quando a campainha soou. Você é capaz de adivinhar quem premiu a campainha? Abri a porta. O tempo parou. Meu queixo caiu. A Jaqueline, vestida para matar, aproximou-se de mim, abraçou-me, e beijou-me. Foi uma noite maravilhosa. O início do meu namoro com a Jaqueline, auspicioso. A Jaqueline é minha, inteiramente minha, exclusivamente minha. Não quero mais saber de outra mulher. Quero a Jaqueline, apenas a Jaqueline. Não preciso de outra mulher. A Jaqueline satisfaz-me em todos os sentidos e todos os meus sentidos. Não preciso de outra mulher. Sou apaixonado pela Jaqueline. Meu coração é dela, e o dela é meu. Conquistei a Jaqueline. Conquistei a mulher dos meus sonhos. Ela é minha. Inteiramente minha. Exclusivamente minha. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

*

– Daiane, os homens são patéticos. Eles acreditam que sempre estão por cima; que são os conquistadores; que são espertos. Eles acreditam que são mais espertos do que as mulheres, as controlam e as obrigam a satisfazer-lhes todos os desejos. Eles vivem no mundo da fantasia! Eles se recusam a entender que o mundo pertence às mulheres e que a eles cabe o papel de coadjuvantes. Esqueça Casanova e Dom Juan, dois gabolas mentirosos. Você acredita nas histórias que eles escreveram? Eles são famosos, mas qual deles foi poderoso? Pompadour e Cleópatra foram poderosas. Casanova e Dom Juan eram conquistadores baratos. E a Marilyn Monroe, que conquistou os Kennedys e um escritor famoso, cujo nome não lembro. E um escritor americano escreveu uma biografia dela. Não a li. Um escritor americano… Não foi o Roth, nem o Vidal. Li cinco livros dele. O nome dele estava na ponta da minha língua; de repente, desapareceu, como num passe de mágica. Uma graça, a Marilyn, você não acha? Ela é mais bonita e mais cheia de graça do que a Bardot e a Sophia. Cá entre nós, ela parecia uma bonequinha de luxo. Lembrei-me: Norman Mailer. Sou fã da Marilyn. Tenho todos os filmes dela. Como eu dizia, Casanova e Dom Juan, gabolas ridículos, desprezíveis, diziam, com os exageros de praxe, aos quatro cantos do mundo, que iam para a cama com todas as mulheres. Fie-se nas histórias que eles contaram e que deles contam! A Pompadour e a Cleópatra ficaram poderosas. Eles, não. As mulheres são mais sutis, astutas e espertas do que os homens, e sabem usar as suas armas, aquelas que as têm, muito melhor do que os homens usam as deles. Uma delas é a beleza; a outra, a sensibilidade; a outra, a inteligência. Os homens recusam-se a entender que não podem resistir, mesmo se o desejarem, aos ataques das mulheres que possuem essas três armas. Raras as possuem. Eu as possuo. O que eu disse pode soar arrogante aos seus ouvidos, mas não é. Sou bonita. Sou inteligente. Sou sensível. Não quero me gabar: possuo as três mais poderosas armas femininas. E sei usá-las. Usando-as, conquistei o Leandro. Ele é um gato. Ele me abordou, em diversas ocasiões, mas eu, que tenho o meu orgulho, me fiz de difícil. Eu não queria ser mais uma mulher na lista dele. Eu sabia que ele, indiscreto, contava, com todos os pormenores, para o Feliciano, o confidente dele, tudo o que se sucedia sob os lençóis, e o Feliciano anunciava, em rede nacional, tudo o que o Leandro lhe relatava. Discreto ele, né? Eu soube que o Leandro ficava, um dia, com a Cinira, no outro, com a Andressa, no outro, com a Natália, e com outras mulheres. A lista é extensa. Eu não permitiria que o Leandro me reduzisse a um nome na agenda dele. Eu sabia que ele me desejava. Ao contrário das outras mulheres, eu o desprezei. Ele me convidou para almoçar, jantar, ir ao cinema, ao zoológico, ao parque, à praia. Recusei todos os convites. Fui, reconheço, malvada com ele. Arrependi-me de dispensar-lhe tal tratamento… Eu o via com aquele olhar… Eu pensava em parar com o meu joguinho, e ceder ao Leandro… Eu o desejava. Ele é um gato. Ele é inteligente. Ele é elegante. Ele é charmoso. E aquele sorriso derrete-me. Aquele olhar… Minhas pernas tremiam sempre que o Leandro aproximava-se de mim. Meu corpo ardia de prazer, mas eu tinha de conter o desejo que me assaltava sempre que ele, tão perto e tão longe… Você não imagina como foi difícil resistir às abordagens do Leandro… Eu desejava dizer sim a todos os convites que ele me fazia. Eu o desejava, mas eu não queria ser reduzida a um nome na agenda dele. Meu nome seria o único nome de mulher na agenda do Leandro. O Leandro, esnobado, desprezado, provocava-me. Para me provocar, ele ficava com a Úrsula, com a Andressa, e com a Natália, aquela… Sei que ele sabia que eu e a Natália não nos gostamos uma da outra. O bobo pensou que me provocava. Ele, sempre que eu estava perto dele, e ele conversava ou com o Feliciano, ou com o Milton, ou com o Adriano, ou com o Arthur, ou com o César, falava da Natália e a elogiava. O propósito dele: provocar-me ciúme. A Natália é bonita, reconheço, mas ela não é tão bonita como o Leandro falava que ela é. Ora, não sou cega. Quando vejo uma mulher bonita, admiro-lhe a beleza, e até a invejo. A Tábata, por exemplo. Ela é linda. Eu gostaria de ter os olhos azuis dela, e as maçãs do rosto também. A cinturinha… Nossa! Nunca vi outra mulher com tal cinturinha! A Tábata é a mulher mais bonita que já vi. Tem um corpo perfeito. Ela é mais bonita do que eu, reconheço. A Natália… Ela não é mais bonita do que eu. Ela não é inteligente, nem espirituosa. Não digo isso por despeito. Digo isso porque é a verdade. Se quiser confirmar o que digo, converse com ela por alguns minutos. Bastam alguns minutos de conversa com ela para você se convencer de que digo a verdade. E sucederam-se os capítulos desta novela. Percebi que o Leandro estava desesperado. Ora, se ele saía com a Natália, minha desafeta, minha arquiinimiga, para me provocar, era porque ele estava desesperado, e apaixonado, apaixonado por mim, obviamente. E o que fiz? Eu o abordei. Eu me insinuava. Eu me aproximava dele e me fazia presente e atenciosa, mas dele conservava distância respeitosa. Eu lhe provava, assim, que eu não era como as outras mulheres, e o meu nome não seria mais um nome na agenda dele, e a minha foto não figuraria no álbum de fotos dele ao lado das fotos de dezenas de outras mulheres. Notei uma mudança, imperceptível, no comportamento do Leandro: Ele raramente saía de casa, ia às baladas uma vez ou outra, afastou-se das outras mulheres, desmanchou o namoro com a Natália. Vamos dizer a verdade: não era namoro; era apenas um caso. O Leandro usava a Natália para me provocar. Eu… Cheguei numa encruzilhada. Na sexta-feira, ao anoitecer, fui à casa do Leandro. Apertei a campainha, e o esperei. Assim que ele abriu a porta, eu o beijei na boca. Ele não resistiu. Eu o conquistei. O gato é meu. Falei para ele: “Jogue no lixo a agenda com os números dos telefones de todas as mulheres que você já conheceu e as fotos de todas elas. Agora só há uma mulher na sua vida: Eu.” Ele jogou a agenda e as fotos de todas as mulheres no lixo. Em seguida, dei-lhe uma agenda nova, entreguei-lhe uma caneta, e disse-lhe para escrever o meu nome e o número do meu telefone. Ele os escreveu. Dei-lhe uma foto minha, e ele a colou na agenda. O meu nome é o único nome na agenda do Leandro. A minha foto é a única foto na agenda dele. O Leandro é meu, exclusivamente meu, inteiramente meu. O coração dele me pertence. Responda-me: Sou ou não sou irresistível?

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Quem com ferro fere com ferro será ferido

Certo domingo, estávamos, na praça Emílio Ribas, conversando, eu, Marcelo, Paulo e João. Os filhos de Paulo, Cláudio e Rodrigo brincavam de pega-pega. Não eram dez horas da manhã. Havíamos nos retirado da Igreja de Santa Teresinha vinte minutos antes. E na praça nos detivemos. De repente, ouvimos alguém gritar:

– Olha o gordo!

Voltamos a nossa atenção para a direção da qual chegou-nos a exclamação. Era Mauro, que, do outro lado da rua, gritava, apontava João, e gargalhava.

Mauro tem um metro e sessenta e cinco centímetros de altura. Branco – não de todo; e loiro – não totalmente. Magro – não direi magro; nem esbelto é. Não é bonito; e nem feio é. Não agrada as mulheres, e não lhes inspira repulsa. Para muita gente ele é irritante, intragável; mas há gente que com ele se simpatiza.

– Esse gordo é muito gordo – prosseguiu Mauro, apontando João. – Gordo! Bolo fofo! Rolha de poço! Precisam de você, na represa, para tampar a rachadura. Bolo fofo! Elefantinho da mamãe.

João, furioso, exibiu um gesto obsceno para Mauro. Paulo, eu e Marcelo pedimos-lhe que não se deixasse levar pelas provocações, mas ele, ignorando-nos, afastou-se de nós, andou na direção de Mauro, exibindo-lhe gestos obscenos e acenando-lhe para que ele se detivesse, que lhe daria boas lições. Mauro provocava-o. Paulo, eu e Marcelo pedimos, em vão, a João que ignorasse Mauro. João dele aproximou-se. Preparou-lhe um soco. Mauro esquivou-se, agachando-se, sorrindo, e afastou-se, passos acelerados, de João; dele distava uns três metros quando pôs-se a gargalhar, e a provocá-lo.

– Quando eu pegar você, Mauro – ameaçou João -, quebrarei seu nariz.

– Pegar-me? – desafiou-o Mauro. – Pegar-me, barril de banha? Você é mais lento do que uma lesma obesa, reservatório estratégico de gordura. Venha me pegar, pança de panda.

E afastava-se Mauro, sorrindo, de João, que o fitava, cenho franzido, furioso, contendo-se. João, ao olhar para a sua direita, viu uma pedra, pegou-a, e voltou-se para Mauro, que, passos apressados, dele afastou-se, zombando. João largou a pedra na calçada, e foi, extremamente irritado, até Paulo, Marcelo e eu.

Permanecemos, na praça Emilio Ribas, durante mais quinze minutos, e rumamos, cada um de nós para a sua casa.

Naquele mesmo domingo, no bar do Gonzaga, um pouco depois das quatro horas da tarde, assistíamos ao jogo de futebol entre o Corinthians e o São Paulo. Eram mais de vinte os homens dentro daquele pequeno bar, todos a olhar, vidrados, para a tela da televisão, e a esbravejar, e a disparar obscenidades contra o árbitro, os jogadores, os técnicos, os bandeirinhas e os gandulas. Alguns dentre nós éramos corinthianos; outros, sãopaulinos.

Ouvimos, em certo momento, um grito:

– Maranhão!

E olhamos, todos os que estávamos no bar, para a porta, e deparamo-nos com Mauro. Houve aqueles que, previdentes, desafetos de Mauro, retiraram-se do bar, por uma porta, enquanto no bar Mauro entrava por outra porta e encostava-se ao balcão. Maranhão, cujo nome é Vitoriano, estava na outra extremidade do balcão, distante de Mauro quatro metros. Fitou-o, olhar seco, de poucos amigos. Entreolhamo-nos muitos dentre nós. E Gonzaga solicitou a Mauro que não provocasse Vitoriano. Antevi a briga. Vitoriano é oriundo do estado do Maranhão, daí o seu apelido. Quase todos os que o conhecemos o chamávamos por tal alcunha; codnome, diz o Gonzaga, de agente secreto. Vitoriano é robusto, de pele áspera curtida de sol, atarracado, mãos enormes, calosas, de dedos grossos e nodosos, e braços de musculatura pétrea.

Enquanto assistíamos ao jogo de futebol, em clima de flaflu, Mauro zombava de Vitoriano, do seu tipo físico, da sua calvície precoce e pronunciada, da sua estatura baixa, da sua pele, do seu sotaque, do formato da sua cabeça. Para surpresa de todos nós, Vitoriano conservou-se, no banco, sentado, ao balcão, degustando da loirinha gelada e dos petiscos de palitinho. Mauro ridicularizava-o, e o silêncio de Vitoriano fê-lo intensificar as chacotas. Pedimos a Mauro que cessasse as provocações. Ele, no entanto, ouvidos moucos, seguia com elas, até que disse as palavras que desencadearam a fúria de Vitoriano:

– Como você nasceu, Maranhão? Quando você nasceu, a sua mãe olhou para você, e gritou: “Meu Deus! Padim Ciço, proteja-me! Que horror! Como essa criatura monstruosa entrou em mim? Não é meu filho. Eu estava bêbada quando o pai dele o fez em mim.”

Uma garrafa riscou, como um míssil, os quatro metros que separavam Vitoriano de Mauro, e estilhaçou-se na parede. Mauro, que mal teve tempo de se mexer, deslocou-se alguns centímetros para a direita, o suficiente para sair da trajetória da garrafa. Vitoriano abriu passagem, como um touro, por entre nós, deslocando-nos com os braços, e foi na direção de Mauro, que tratou de girar sobre os calcanhares e passar sebo nas canelas. Correu Mauro uns dez metros, e voltou-se para trás, para ver, à porta do bar, Vitoriano, parado, fitando-o, e acenou-lhe, debochando.

Vitoriano prometeu, para si mesmo, que um dia agarraria Mauro pelo pescoço e fender-lhe-ia o ventre com uma peixeira.

Encontrei-me com Mauro, na fila do banco C…, na segunda-feira, e falei-lhe da promessa que João e Vitoriano fizeram. Mauro deu de ombros.

– Eles só ameaçam – disse Mauro, sorrindo. – São idiotas, aqueles dois. O João é gordo; o Maranhão é nordestino. Ambos são mais burros do que uma porta. Não vou esquentar a minha cabeça com aqueles dois imbecis fracassados.

Uma semana depois, no Clube Esportivo São Benedito, Mauro aproximou-se de um grupo de homens, saudou-os – muitos dentre eles o saudaram de má-vontade -, e deteve-se em Guilherme, de estatura um pouco maior do que a dele, magro, na altura dos trinta anos, cabelos repartidos ao meio, de óculos de lentes grossas. Mauro, sorrindo, fitava-o como se o examinasse. Guilherme fez que não o viu, e não interrompeu a sua conversa com Vinicius, que se sentiu incomodado com a atitude provocativa de Mauro.

– Pelo amor de Deus. – exclamou Mauro, fitando Guilherme, que não se voltou para ele. – De qual planeta você veio? – perguntou-lhe, tocando-o no ombro, e só então Guilherme e Vinicius interromperam a conversa, e Guilherme voltou-se para Mauro. – Você parece um alienígena com esses óculos, Guilherme. E esses cabelos! Que penteado horroroso! Cruz credo! Você não nasceu! Você foi cuspido! – e gargalhou, dobrando-se sobre si mesmo.

Guilherme, para surpresa de Mauro, disse-lhe, com voz calma, em tom firme:

– Você já se olhou no espelho? Você parece um rebento do cruzamento de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, com o Sméagol, o monstrinho do Senhor dos Anéis.

Mauro, de imediato, disparou-lhe um soco; Guilherme aparou-o, e encaixou-lhe um soco no peito, e se pôs de modo a dissuadi-lo de querer uma briga. Mauro, ciente de que não poderia sobrepujar Guilherme, mão direita a massagear o peito no ponto que Guilherme lho atingira, afastou-se dele, esbravejando:

– Idiota! Imbecil! Idiota! Nunca mais zombe de mim! Vá para o inferno, vagabundo! Vá para o inferno!

E Mauro abriu espaço pela multidão, e retirou-se do clube.

O homem que tinha boa memória

– Hoje aconteceu-me uma coisa muito interessante, Gustavo. Fui à farmácia comprar um remédio. Ao balcão, a mocinha, uma loirinha simpática, que me atendeu, perguntou-me o que eu desejava. Pensei em dizer-lhe o que, naquele momento, eu desejava, mas, como eu sou um cavalheiro, disse-lhe eu que eu desejava um remédio. E ela perguntou-me: “Qual remédio?”. “Qual remédio!?”, indaguei, no meu tom de voz habitual, mais para mim do que para ela. “É um comprimido”, disse-lhe eu, gracejando, tentando lembrar-me o nome do maldito remédio. E a loirinha perguntou-me, com aqueles olhos tão doces a olharem-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Aquela loirinha era uma gracinha ao falar específico. Nunca vi uma mulher falar específico com tanta graça. E disse-lhe eu: “Posso. O nome do remédio começa com a letra R”. A loirinha sorriu, e perguntou-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Que graça ela falar específico! “Mais específico do que estou sendo, impossível”, respondi-lhe, e ela sorriu. E eu, que havia me esquecido o nome do maldito remédio, disse à loirinha que eu iria telefonar para a minha esposa. E a loirinha, a educação e a simpatia em pessoa, esperou-me, pacientemente, completar a conversa com a Samantha, e dizer-lhe à ela, a loirinha que me atendeu, o nome do remédio. Disse-lho eu, e desliguei o telefone. E a loirinha providenciou-me o remédio; e paguei por ele, no caixa, retirei-me da farmácia, fui para casa o mais rápido que pude, e entreguei o remédio para a Samantha – e após uma curta pausa, para beber da cerveja, prosseguiu: – Gustavo, você sabe o que mais me chamou a atenção nesta história? A minha boa memória. Quando, ao telefone, a Samantha disse-me o nome do remédio que ela me pedira que eu lho comprasse, dele lembrei-me de imediato. Incrível, não? Que boa memória a minha!

O segredo

Uma história do Joãozinho

O pai de Joãozinho diz para Joãozinho.

– Joãozinho, amanhã será o aniversário de tua mãe. Estou preparando uma festa surpresa para ela, mas nada lhe digas, está bem?

– Está bem – respondeu Joãozinho.

Vinte minutos depois, chega à casa a mãe de Joãozinho. Joãozinho pula-lhe aos braços, e, após dela receber um beijo caloroso, lhe diz:

– Mamãe, a senhora sabia que papai está te preparando uma festa surpresa?

– Não era para lhe contar, Joãozinho – censurou-o o pai.

– Não lhe contei – defendeu-se Joãozinho. – Eu só lhe perguntei se ela sabia que o senhor está lhe preparando uma festa surpresa.

 

O canarinho e Charles Darwin

Uma história do Joãozinho

Encontravam-se, na casa do Joãozinho, além de Joãozinho e dos pais do Joãozinho, os avós do Joãozinho – os maternos e os paternos – e um tio materno do Joãozinho. Conversavam, à mesa da sala-de-estar, animados, na manhã daquele sábado de calor intenso, a degustarem dos docinhos, das bolachas de nata e dos biscoitos de vento que a avó materna do Joãozinho havia preparado com todo o amor e carinho que lhe animava o espírito.

O pai do Joãozinho narrou algumas peripécias da sua juventude. A mãe do Joãozinho contou um episódio que protagonizou: seu pai a ensinava a andar de bicicleta, e ela, desajeitada, deu uma pedalada, e a bicicleta rumou, em linha reta, em direção à uma árvore; contra ela não colidiu porque seu pai a segurou a tempo de evitar a colisão. Riram, todos.

E todos narraram episódios hilários da juventude.

– São engraçados, hoje – comentou o avô paterno do Joãozinho. – Agora, que os recordamos, rimos. Mas nos preocupamos, na época em que se deram.

E as suas observações produziram muitos comentários, e inspiraram a evocação de dezenas de outros episódios, engraçados, diziam. E riram. E gargalharam.

E Joãozinho, que ria a bom rir, e narrava, com a desenvoltura que lhe era peculiar e o desembaraço que todos lhes reconheciam, algumas das suas aventuras, e assim que sua mãe fez referência ao canarinho, dele falou, animado, e todos o ouviram, atentamente.

– Um dia, já faz tempo, vi um canarinho amarelo, bem amarelo, na jabuticabeira. Ele estava com fome, e queria jabuticabas. Como a jabuticabeira não tinha jabuticabas, fui até à cozinha, e peguei um pedaço de mamão, e o pus, no chão, perto da jabuticabeira. Sentei-me, para esperar o canarinho comer do pedaço de mamão, no banquinho, que está no rancho, e não me mexi. Depois de um tempão, o canarinho desceu no chão, e comeu do mamão, dando bicadinhas com seu bico, que é bem pequeno, pequenininho. Depois de comer do mamão, ele foi embora.

– E para onde ele foi? – perguntou-lhe a avó materna.

– Não sei – respondeu Joãozinho. – Eu queria vê-lo novamente, então, no dia seguinte, pus um pedaço de mamão, um gomo de laranja e um pedaço de melão, no mesmo lugar que, no dia anterior, eu havia posto um pedaço de mamão.

– Você serviu um banquete ao canarinho – observou o avô paterno do Joãozinho.

– Empanturre-o, que ele engordará, Joãozinho – comentou o pai do Joãozinho, rindo.

– E o canarinho desceu para comer das frutas? – perguntou para Joãozinho a sua avó paterna.

– Sim – respondeu Joãozinho. – Fiquei, quieto, sem me mexer, e nem um dedo mexi, e nem piscar, pisquei, sentado, no banquinho, no rancho. Transformei-me em uma estátua. À espera do canarinho… E ele apareceu. E desceu, no chão, perto da jabuticabeira, e comeu do mamão, do melão e da laranja, dando bicadinhas, e olhando para os lados. Parecia assustado com alguma coisa.

– E depois? – perguntou-lhe a avó materna.

– O canarinho foi embora, e nunca mais voltou? – perguntou-lhe o avô materno.

– Voltou, sim – respondeu Joãozinho. – E eu dei frutas para ele: mamão, jabuticaba, limão, carambola, caqui, melão, melancia, banana, maçã, pêra, açaí, morango, cereja, caju, coco e pitanga.

– Você empanturrou o canarinho – observou o tio do Joãozinho.

– Não – defendeu-se Joãozinho. – Não o empanturrei, não. Eu, em um dia, dei-lhe mamão, no outro dia, morango, e em outro dia, maçã. Um pedaço de fruta em cada dia, e em todo dia ele desceu, perto da jabuticabeira, para comer de um pouco de fruta que eu lhe levei um pouco depois do meio-dia.

– Todos os dias – perguntou-lhe o avô paterno – o canarinho vai à jabuticabeira para comer as frutas que você lhe deixa?

– Sim – respondeu Joãozinho. – Ele sempre vai comer das frutas, todos os dias, um pouco depois do meio-dia.

– São dez e meia – anunciou o pai do Joãozinho.

– Daqui a pouco levarei um pedaço de fruta para ele – disse Joãozinho. – Tem melão, mamãe?

– Sim – respondeu-lhe a mãe. – E tem, também, banana e maçã.

– Vou levar-lhe um pedaço pequeno de cada – anunciou Joãozinho.

Joãozinho retirou-se da sala-de-estar, e, célere, rumou à cozinha, abriu a geladeira, e preparou a refeição do canarinho. Minutos depois, anunciou aos seus familiares a sua ida ao quintal, para levar a refeição ao canarinho. Seu tio e seu avô materno o acompanharam na jornada. Minutos depois, regressaram à sala-de-estar, Joãozinho, animadíssimo.

Neste momento, o pai do Joãozinho e o avô paterno do Joãozinho falavam de Charles Darwin e da teoria da evolução das espécies, enquanto suas avós e sua mãe falavam de culinária.

Joãozinho sentou-se no sofá, e intrometeu-se na conversa com perguntas que revelavam a sua curiosidade.

– Quem foi Charles Darwin?

– O que é evolução das espécies?

Essas foram as duas primeiras perguntas de Joãozinho. E seus avós, seu tio e seu pai apresentaram-lhe a biografia de Charles Darwin e explicaram-lhe, como puderam, a teoria da evolução.

– Os animais mudam de características com o passar do tempo – disse, em um momento da conversa, o tio do Joãozinho. – Eles evoluem. O que é evolução? É um processo natural pelo qual todos os animais passam, abandonando certas características, e assumindo outras, que os ajudam a viver melhor. Adquirem, como eu direi?, poderes que os ajudam a viver mais, a gerar descendentes, e a fortalecerem-se, para enfrentarem os seus inimigos, e vencê-los, e para obter alimentos. Um exemplo: Alguns passarinhos de bico fino migram para uma região distante, onde há frutas de casca grossa, e para quebrá-las é necessário que os passarinhos tenham bico grosso. E o que acontece? Morrem todos os passarinhos que não evoluem, isto é, que não desenvolvem o bico, para torná-lo grosso; com o bico fino não consegue romper a casca, que é grossa, das frutas, e morrem de fome.

– Todos os passarinhos morrem de fome? – perguntou-lhe Joãozinho, intrigado e entristecido, a imaginar muitos passarinhos a morrerem de fome.

– Não, Joãozinho – respondeu-lhe o tio. – Os passarinhos que evoluem não morrem de fome. Eles transformam o bico, que, de fino, torna-se grosso, e com ele os passarinhos rompem a casca grossa e dura das frutas, e, assim, sobrevivem.

– Os passarinhos ficam maiores e mais fortes? – perguntou Joãozinho.

– Sim – respondeu-lhe o tio. – É a evolução. Para enfrentar os predadores, o ambiente hostil, e obter alimentos, eles se transformam em espécies maiores, mais fortes, mais poderosas. Eles evoluem. É a evolução das espécies.

– E foi o Charles Darwin que inventou a evolução das espécies? – perguntou Joãozinho.

Todos caíram na gargalhada.

Passados alguns minutos do meio-dia, Joãozinho retirou-se, correndo, da sala-de-estar, e, indagado pelo seu tio, disse que iria ao rancho esperar pelo canarinho.

Trinta minutos depois, Joãozinho regressou, correndo, à sala-de-estar, a anunciar:

– O canarinho evoluiu! O canarinho evoluiu!

E pôs-se a falar, apressadamente, comendo sílabas, trocando palavras.

Pediram-lhe que tomasse fôlego, e, depois, dissesse-lhes o que havia ocorrido.

– O canarinho evoluiu – disse, por fim, Joãozinho, e todos o compreenderam.

– O quê? – indagou-lhe o tio. – O canarinho evoluiu?

– Sim – respondeu Joãozinho. – O canarinho evoluiu. Fui ao rancho, e esperei por ele; esperei um tempão. E eu o vi.

– O canarinho evoluiu? – perguntou-lhe o avô materno, intrigado.

– Evoluiu, vovô – respondeu-lhe Joãozinho. – Ele evoluiu. Eu vi. Eu estava, no rancho, sentado no banquinho, esperando o canarinho descer perto da jabuticabeira, para comer da maçã, do melão e da banana, e eu o vi. Ele evoluiu. Eu vi o canarinho descendo perto da jabuticabeira, e comer das frutas. O canarinho evoluiu. Está maior e mais forte. Ele se transformou num corvo.

Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

Os três reis magos

Uma história do Joãozinho

Em uma segunda-feira, no início do mês de dezembro, a professora, na escola de ensino infantil, decidiu, em uma aula, falar de Natal e de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em certo momento da aula, perguntou a professora aos seus alunos:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho perguntou-lhe:

– Três reis magros?

Os alunos gargalharam.

A professora pediu-lhes silêncio, e por eles foi prontamente atendida.

– Não, Joãozinho. Três reis magos. Eu não disse três reis magros. Eu disse três reis magos – e, voltando-se para todos os alunos, repetiu a pergunta. – Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Athos, Porthos e Aramis.

Todos os alunos gargalharam.

A professora fitou Joãozinho com olhar de censura.

– Eu, Joãozinho – disse-lhe a professora -, não pedi os nomes dos três mosqueteiros. Pedi os nomes dos três reis magos.

Os alunos, os olhares a convergirem para Joãozinho, exibiam sorrisos acanhados e contidos, afinal, o olhar da professora, de Medusa, abrangia a todos eles.

E a professora, então, todos os alunos em silêncio, repetiu a pergunta:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, mais uma vez antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Moe, Larry e Curly.

Gargalhadas estrondosas preencheram a sala-de-aula.

– Joãozinho – disse a professora, a fitá-lo, semblante severo -, eu perguntei quais são os nomes dos três reis magos, e não os dos três patetas.

Os alunos principiaram uma onda de gargalhadas, as quais eles cessaram assim que sentiram o olhar petrificante da professora cair sobre eles, e encolheram os ombros.

Joãozinho sorria.

– Perguntarei, mais uma vez – disse a professora, voz gélida -: Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, a gargalhada preparada, e todos os olhares a convergirem para ele, respondeu, de imediato:

– Huguinho, Zezinho e Luizinho.

E estouraram-se as gargalhadas.

E a professora, bufando de raiva, pediu ordem aos alunos. Precisou ela de quinze minutos para conter a horda de bárbaros infantis.

A professora, os alunos em silêncio a entreolharem-se e a sorrirem, disse, irritada:

– Eu não perguntei quais são os nomes dos três sobrinhos do Pato Donald; perguntei quais são os nomes dos três reis magos. – fez uma pausa, para estudar a influência das suas palavras sobre os alunos, e prosseguiu -: Perguntarei pela última vez: Quais são os nomes dos três reis magos?

– Gaspar, Baltasar e Melquior – respondeu Joãozinho, todos os alunos a fitarem-lo.

E a professora sorriu, contente, e perguntou para Joãozinho:

– Se você sabe, Joãozinho, os nomes dos três reis magos, por que você não os disse quando eu fiz a pergunta pela primeira vez?

E Joãozinho respondeu:

– A aula estava muito chata; e eu queria que ela ficasse engraçada.

Tal resposta não a apreciou a professora; os alunos, no entanto…

– O Joãozinho é do balacobaco! – exclamou um dos alunos, em meio às gargalhadas.

– Eu mereço – disse, resignada, a professora, que sentou-se na cadeira, à mesa, fincou os cotovelos na mesa, e enterrou o queixo nas palmas das mãos, a esperar as gargalhadas cessarem; e esperou, e esperou…

Enfim, estrilou a sirene, e todos os alunos, correndo, alvoroçados, da sala-de-aula saíram, lancheiras à mão, para o recreio.