O canarinho e Charles Darwin

Uma história do Joãozinho

Encontravam-se, na casa do Joãozinho, além de Joãozinho e dos pais do Joãozinho, os avós do Joãozinho – os maternos e os paternos – e um tio materno do Joãozinho. Conversavam, à mesa da sala-de-estar, animados, na manhã daquele sábado de calor intenso, a degustarem dos docinhos, das bolachas de nata e dos biscoitos de vento que a avó materna do Joãozinho havia preparado com todo o amor e carinho que lhe animava o espírito.

O pai do Joãozinho narrou algumas peripécias da sua juventude. A mãe do Joãozinho contou um episódio que protagonizou: seu pai a ensinava a andar de bicicleta, e ela, desajeitada, deu uma pedalada, e a bicicleta rumou, em linha reta, em direção à uma árvore; contra ela não colidiu porque seu pai a segurou a tempo de evitar a colisão. Riram, todos.

E todos narraram episódios hilários da juventude.

– São engraçados, hoje – comentou o avô paterno do Joãozinho. – Agora, que os recordamos, rimos. Mas nos preocupamos, na época em que se deram.

E as suas observações produziram muitos comentários, e inspiraram a evocação de dezenas de outros episódios, engraçados, diziam. E riram. E gargalharam.

E Joãozinho, que ria a bom rir, e narrava, com a desenvoltura que lhe era peculiar e o desembaraço que todos lhes reconheciam, algumas das suas aventuras, e assim que sua mãe fez referência ao canarinho, dele falou, animado, e todos o ouviram, atentamente.

– Um dia, já faz tempo, vi um canarinho amarelo, bem amarelo, na jabuticabeira. Ele estava com fome, e queria jabuticabas. Como a jabuticabeira não tinha jabuticabas, fui até à cozinha, e peguei um pedaço de mamão, e o pus, no chão, perto da jabuticabeira. Sentei-me, para esperar o canarinho comer do pedaço de mamão, no banquinho, que está no rancho, e não me mexi. Depois de um tempão, o canarinho desceu no chão, e comeu do mamão, dando bicadinhas com seu bico, que é bem pequeno, pequenininho. Depois de comer do mamão, ele foi embora.

– E para onde ele foi? – perguntou-lhe a avó materna.

– Não sei – respondeu Joãozinho. – Eu queria vê-lo novamente, então, no dia seguinte, pus um pedaço de mamão, um gomo de laranja e um pedaço de melão, no mesmo lugar que, no dia anterior, eu havia posto um pedaço de mamão.

– Você serviu um banquete ao canarinho – observou o avô paterno do Joãozinho.

– Empanturre-o, que ele engordará, Joãozinho – comentou o pai do Joãozinho, rindo.

– E o canarinho desceu para comer das frutas? – perguntou para Joãozinho a sua avó paterna.

– Sim – respondeu Joãozinho. – Fiquei, quieto, sem me mexer, e nem um dedo mexi, e nem piscar, pisquei, sentado, no banquinho, no rancho. Transformei-me em uma estátua. À espera do canarinho… E ele apareceu. E desceu, no chão, perto da jabuticabeira, e comeu do mamão, do melão e da laranja, dando bicadinhas, e olhando para os lados. Parecia assustado com alguma coisa.

– E depois? – perguntou-lhe a avó materna.

– O canarinho foi embora, e nunca mais voltou? – perguntou-lhe o avô materno.

– Voltou, sim – respondeu Joãozinho. – E eu dei frutas para ele: mamão, jabuticaba, limão, carambola, caqui, melão, melancia, banana, maçã, pêra, açaí, morango, cereja, caju, coco e pitanga.

– Você empanturrou o canarinho – observou o tio do Joãozinho.

– Não – defendeu-se Joãozinho. – Não o empanturrei, não. Eu, em um dia, dei-lhe mamão, no outro dia, morango, e em outro dia, maçã. Um pedaço de fruta em cada dia, e em todo dia ele desceu, perto da jabuticabeira, para comer de um pouco de fruta que eu lhe levei um pouco depois do meio-dia.

– Todos os dias – perguntou-lhe o avô paterno – o canarinho vai à jabuticabeira para comer as frutas que você lhe deixa?

– Sim – respondeu Joãozinho. – Ele sempre vai comer das frutas, todos os dias, um pouco depois do meio-dia.

– São dez e meia – anunciou o pai do Joãozinho.

– Daqui a pouco levarei um pedaço de fruta para ele – disse Joãozinho. – Tem melão, mamãe?

– Sim – respondeu-lhe a mãe. – E tem, também, banana e maçã.

– Vou levar-lhe um pedaço pequeno de cada – anunciou Joãozinho.

Joãozinho retirou-se da sala-de-estar, e, célere, rumou à cozinha, abriu a geladeira, e preparou a refeição do canarinho. Minutos depois, anunciou aos seus familiares a sua ida ao quintal, para levar a refeição ao canarinho. Seu tio e seu avô materno o acompanharam na jornada. Minutos depois, regressaram à sala-de-estar, Joãozinho, animadíssimo.

Neste momento, o pai do Joãozinho e o avô paterno do Joãozinho falavam de Charles Darwin e da teoria da evolução das espécies, enquanto suas avós e sua mãe falavam de culinária.

Joãozinho sentou-se no sofá, e intrometeu-se na conversa com perguntas que revelavam a sua curiosidade.

– Quem foi Charles Darwin?

– O que é evolução das espécies?

Essas foram as duas primeiras perguntas de Joãozinho. E seus avós, seu tio e seu pai apresentaram-lhe a biografia de Charles Darwin e explicaram-lhe, como puderam, a teoria da evolução.

– Os animais mudam de características com o passar do tempo – disse, em um momento da conversa, o tio do Joãozinho. – Eles evoluem. O que é evolução? É um processo natural pelo qual todos os animais passam, abandonando certas características, e assumindo outras, que os ajudam a viver melhor. Adquirem, como eu direi?, poderes que os ajudam a viver mais, a gerar descendentes, e a fortalecerem-se, para enfrentarem os seus inimigos, e vencê-los, e para obter alimentos. Um exemplo: Alguns passarinhos de bico fino migram para uma região distante, onde há frutas de casca grossa, e para quebrá-las é necessário que os passarinhos tenham bico grosso. E o que acontece? Morrem todos os passarinhos que não evoluem, isto é, que não desenvolvem o bico, para torná-lo grosso; com o bico fino não consegue romper a casca, que é grossa, das frutas, e morrem de fome.

– Todos os passarinhos morrem de fome? – perguntou-lhe Joãozinho, intrigado e entristecido, a imaginar muitos passarinhos a morrerem de fome.

– Não, Joãozinho – respondeu-lhe o tio. – Os passarinhos que evoluem não morrem de fome. Eles transformam o bico, que, de fino, torna-se grosso, e com ele os passarinhos rompem a casca grossa e dura das frutas, e, assim, sobrevivem.

– Os passarinhos ficam maiores e mais fortes? – perguntou Joãozinho.

– Sim – respondeu-lhe o tio. – É a evolução. Para enfrentar os predadores, o ambiente hostil, e obter alimentos, eles se transformam em espécies maiores, mais fortes, mais poderosas. Eles evoluem. É a evolução das espécies.

– E foi o Charles Darwin que inventou a evolução das espécies? – perguntou Joãozinho.

Todos caíram na gargalhada.

Passados alguns minutos do meio-dia, Joãozinho retirou-se, correndo, da sala-de-estar, e, indagado pelo seu tio, disse que iria ao rancho esperar pelo canarinho.

Trinta minutos depois, Joãozinho regressou, correndo, à sala-de-estar, a anunciar:

– O canarinho evoluiu! O canarinho evoluiu!

E pôs-se a falar, apressadamente, comendo sílabas, trocando palavras.

Pediram-lhe que tomasse fôlego, e, depois, dissesse-lhes o que havia ocorrido.

– O canarinho evoluiu – disse, por fim, Joãozinho, e todos o compreenderam.

– O quê? – indagou-lhe o tio. – O canarinho evoluiu?

– Sim – respondeu Joãozinho. – O canarinho evoluiu. Fui ao rancho, e esperei por ele; esperei um tempão. E eu o vi.

– O canarinho evoluiu? – perguntou-lhe o avô materno, intrigado.

– Evoluiu, vovô – respondeu-lhe Joãozinho. – Ele evoluiu. Eu vi. Eu estava, no rancho, sentado no banquinho, esperando o canarinho descer perto da jabuticabeira, para comer da maçã, do melão e da banana, e eu o vi. Ele evoluiu. Eu vi o canarinho descendo perto da jabuticabeira, e comer das frutas. O canarinho evoluiu. Está maior e mais forte. Ele se transformou num corvo.

Coisas do amor

Antenor, ao ver Angeline pela primeira vez, soube que não poderia viver sem ela. Ela seria sua – prometeu para si mesmo. Determinado a conquistá-la, tê-la-ia em seus braços, para o seu prazer, por todos os anos que lhe restavam de vida. Não a agarraria, não a trancafiaria no porão da sua casa, ou num quarto do rancho. Não queria obrigar Angeline a amá-lo. Isso seria impossível, ele sabia. Poderia vir a possuir o corpo dela, mas dela o amor não teria. Cultivou a paixão platônica nos sonhos e nas fantasias diurnas e noturnas. Admirava-a, nos clubes, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques de diversões, nas discotecas, nas lanchonetes. Como conquistaria o amor de Angeline, se ela não o conhecia? Além disso, teria de remover os estorvos que impediam o seu acesso à ela: os namorados, que se sucediam num ritmo alucinante; e os pretendentes, numerosos. E teria de destruir-lhe o espírito leviano, o temperamento esquivo. Desejava tê-la apenas para si – e tê-la-ia, prometeu. Angeline não era uma ninfomaníaca insaciável sedenta de prazer; tinha, no entanto, uma vida sexual agitada. Compreendeu Antenor que a conduta dela era um obstáculo insuperável, e ele teria de removê-lo, se quisesse ter êxito em sua empreitada amorosa. Enfim, conseguiu, um dia, entabular conversa com Angeline. Foi na festa de casamento de Pedro e Renata.

Durante a festa, Antenor e Angeline conversaram, descontraídos. Angeline era muito requisitada. Interromperam inúmeras vezes a conversa.

Angeline estava deslumbrante. Era a pessoa mais animada da festa. Atraía mais atenção dos convidados do que Renata, mulher desprovida de encantos. Possuía muitos pretendentes e muitos predicados. Os homens que a admiraram a desejaram. Antenor, contrariado, em nenhum momento a estorvou. Sempre que ela pedia licença para se afastar, na companhia de outra pessoa, dizia-lhe que não se incomodasse, e não deixava transparecer a contrariedade que o atormentava.

Para Angeline não havia assunto proibido. A sua conduta incomodou Antenor, que se perguntou, ensimesmado, como a conquistaria. Quantos comentários maliciosos ela proferiu em quatro horas durante as quais animou a festa com a sua presença!

Antes de ir-se embora, acompanhada de Bóris, um latagão bonito e charmoso, Angeline despediu-se de Antenor.

Os comentários dos homens atraídos pela beleza irresistível de Angeline exaltavam a fortuna de Bóris.

Antenor, açodado, despediu-se de Pedro e Renata e de alguns outros convidados, e retirou-se. De carro, seguiu Bóris e Angeline, durante quarenta minutos. Viu-os entrando em um motel. Bufando de raiva, foi para a sua casa. Quebrou pratos e copos, esmurrou a porta do quarto e o da sala, e chutou o sofá. Mal pôde conciliar o sono.

Antenor, três dias depois, viu Angeline admirando a vitrine de uma loja. Fingindo não tê-la visto, posicionou-se-lhe ao lado, a um metro de distância.

– Oi – disse-lhe Angeline. – Você… Conheço você. Você é amigo do Pedro… Ele me apresentou na festa… É… Amadeu… Não… Alaor…

– Antenor.

– Isso. Antenor. Que surpresa!

– Eu é que estou surpreso, Angelina.

– Angeline. Não me confunda com a esposa do Brad Pitt. Eu gostaria de ser a esposa dele. E você?

– Eu não gostaria de ser a esposa dele, não. Eu gostaria de ser o marido da Angelina.

Angeline soltou uma gargalhada contagiante. Conversaram. Entraram na loja. Antenor ajudou-a a escolher o melhor relógio e o mais sofisticado telefone celular. Negociou, com o vendedor e com o gerente, as formas de pagamento. Com o seu auxílio, Angeline economizou quinhentos reais. Como agradecimento, ela o convidou para almoçar no restaurante Pratos de Porcelana, e pagou a conta. Despediram-se. Angeline iria ao oftalmologista; Antenor, ao escritório de consultoria financeira Compre Bem.

No final de semana, Angeline e Antenor encontraram-se na discoteca À Noite Todos Os Pardos São Gatos.

Para contrariedade de Antenor, Angeline estava acompanhada de Rodrigo, o seu novo namorado.

Na segunda-feira, Angeline foi ao escritório de consultoria financeira Compre Bem. Pretendia comprar um carro. Além da consulta, deu, em tom confidencial, uma notícia a Antenor:

– O Rodrigo, lembra-se?, o meu namorado, que ficou comigo lá na discoteca? Ele me telefonou, ontem à tarde, às seis horas, e disse-me, sem me dar satisfação, que não queria mais se encontrar comigo, pediu-me que eu o esquecesse, e desligou o telefone. Que desaforo! E hoje cedo, um pouco antes das nove horas, eu, na praça José de Alencar, vi o Rodrigo, no outro lado da rua, falando ao telefone celular. Ele, ao me ver, arregalou os olhos. Parecia assustado. Correu. Dobrou a esquina, e enveredou pela rua Aluisio de Azevedo; depois, eu o vi dobrando a esquina, e indo para a rua Machado de Assis; depois, presumo, ele se precipitou na travessa Raul Pompéia. Por que o Rodrigo fugiu de mim? Eu queria conversar com ele. Sabe o que mais me chamou a atenção, Antenor? O Rodrigo estava com o braço esquerdo enfaixado, o olho direito roxo e o rosto inchado.

Antenor dedicou toda a atenção do mundo a Angeline. Foi carinhoso, meigo, afável. Angeline encantou-se com a atenção que ele lhe devotava e com a sua espirituosidade e gentileza. Almoçaram no restaurante Pratos Caseiros. Falaram de novelas, filmes, da vida de familiares e amigos. Angeline se mostrou bem informada sobre a vida alheia. E a sua maledicência sobressaiu, em diversos momentos da conversa; aos olhos de Antenor, no entanto, eram apenas comentários reveladores, não da índole de Angeline, mas da ambiguidade das pessoas de quem ela falava – e Angeline se mostrou observadora perspicaz e estudiosa sagaz do comportamento humano, capaz de iluminar, com as suas observações, os recantos mais obscuros da alma, e revelar o que se conserva oculto, inclusive da pessoa estudada.

Angeline forneceu a Antenor o número do seu telefone. Antenor não pôde conter a sua alegria. De Angeline não passou despercebido a euforia de Antenor, que a exibiu num sorriso aberto, nos olhares lúbricos, que atenderam à vaidade de Angeline, ao mesmo tempo que lhe abrasaram o rosto de mulher volúvel. Antenor telefonou-lhe, naquela noite. Marcaram o encontro para a noite seguinte. À tarde, Angeline desmarcou-o – alegou doença. Antenor não acreditou na história que ela lhe contou; nada disse a respeito das suas desconfianças, lamentou o imprevisto, e disse-lhe que marcariam, noutra hora, outro encontro. Angeline respirou, aliviada – mas temeu uma altercação via telefone, ou perguntas que a levassem à contradições. Despediram-se. Antenor, ensimesmado, certo de que Angeline mentira-lhe, prometeu para si mesmo que saberia da verdade. Nas conversas que estabeleceu com pessoas próximas de Angeline, amigas dela, ou não, veio a saber que ela marcara um encontro com Eduardo. Eles iriam à discoteca Country & Country.

Eduardo e Angeline rumavam, de carro, para a discoteca Country & Country. Na metade do trajeto, cuja extensão era de quinze quilômetros, numa rua deserta e escura, em uma região rural – a discoteca localiza-se em uma fazenda -, um veículo tomou-lhes a frente, num trecho lamacento, quando Eduardo, o motorista, tivera de reduzir a velocidade. Do carro desceram quatro homens encapuzados, que anunciaram o assalto. Roubaram relógio, telefone celular, cds, dvds, e as jóias que Angeline ostentava. Um dos assaltantes exigiu-lhe, aos brados, as roupas. Angeline, apavorada, antevendo as sevícias que os ladrões lhe infligiriam, rompeu em soluços, e lágrimas extravasaram-lhe dos olhos, e esboçou reação. Os ladrões persuadiram-na a abandonar a postura de valentia e heroísmo – mantinham Eduardo à mira de um revólver e ameaçavam matá-lo se ela não se despisse. Angeline despiu-se. Entregou aos ladrões os sapatos, a meia-calça, a camisa, a calça. E não se despiu da calcinha e do sutiã. Enquanto isso, Eduardo se despiu, e ficou de cuecas. Dois homens deram-lhe pancadas, na cabeça, com um bastão de ferro, desacordando-o, e o arremessaram no porta-malas do carro, sob o olhar apavorado de Angeline, trêmula de terror, os olhos marejados de lágrimas. Dois homens encapuzados entraram no carro, e outros dois entraram no carro de Eduardo. E abandonaram Angeline à beira da rua deserta.

Um dos homens encapuzados, Antenor, era quem dirigia um dos carros. Cinco quilômetros depois, os ladrões enveredaram por uma ramificação, até uma região desabitada. Com o auxílio de um dos seus cúmplices, Antenor retirou Eduardo do porta-malas, jogou-o no córrego, e, revólver em punho, apertou o gatilho duas vezes: um projétil alojou-se no cérebro de Eduardo; o outro, no seu coração. Ato contínuo, despiu-se da roupa, jogou-a no córrego, e vestiu roupas que tirara do banco traseiro do carro. Pagou aos seus comparsas o estipêndio combinado, despediu-se deles, e, com outro carro, rumou à rua na qual abandonaram Angeline. Angeline estava aos prantos. Antenor freou o carro. Saiu do carro, correndo, ao encontro de Angeline, que, ao reconhecê-lo, correu na sua direção, e largou-se-lhe nos braços. Antenor amparou-a, consolou-a, cobriu-a com uma jaqueta, disse-lhe que iria telefonar para a polícia; providencialmente, a bateria do telefone celular esgotou-se. Rumaram, incontinenti, para a delegacia de polícia, localizada a vinte quilômetros de distância. Angeline e Antenor responderam às perguntas que os policiais lhes fizeram. Os policiais eliminaram as discrepâncias, e redigiram um relato consistente do episódio. Liberados pelos policiais, Antenor e Angeline foram à casa dela. Angeline, insegura, pediu a Antenor que ele lhe fizesse companhia. Antenor atendeu-a. Dormiu em um sofá ao lado da cama, e admirou, durante toda a noite, o belo corpo de Angeline iluminado pela luz bruxuleante de um abajur.

No dia seguinte, Angeline e Antenor compareceram ao sepultamento de Eduardo.

Transcorreram-se os dias.

Antenor e Angeline passeavam pela praça Dom João VI. Abordaram-no um homem munido de um canivete. Antenor reagiu, desarmou-o. O bandido correu, célere.

– Antenor, você está ferido – disse-lhe Angeline, apontando-lhe o antebraço esquerdo. Estancou-lhe, com um lenço branco, o sangue que lhe escapava do ferimento.

– Vamos ao hospital – disse Angeline. – Você é o meu herói, Antenor. É a segunda vez que você me salva. Você é o Peter Parker e eu sou a Mary Jane. Ou você é o Clark Kent e eu a Lois Lane?

– Eu sou o Popeye e você é a Olívia Palito.

Gargalharam.

*

– Você não foi cauteloso, nem cuidadoso, Miguel – disse Antenor ao seu interlocutor, um homem de estatura mediana, pele curtida de sol, barba por fazer, cabelos pretos puxados para trás, olhar inexpressivo. – Você cortou meu antebraço. Escavou um Grande Canyon aqui… – e apontou o ferimento. – Oito pontos. Quase se me esvaiu todo o sangue do corpo. Aqui está o seu pagamento: R$ 492,05.

– Combinamos R$ 500,00.

– Exato. Mas não combinamos um corte no meu antebraço, combinamos? Descontei R$ 7,95 dos remédios que comprei.

*

“Vou fazer uma surpresa para o Antenor” pensava Angeline, enquanto dava os últimos retoques no vestido vermelho que lhe assentava, perfeitamente, no corpo pródigo de atrativos. “Ele merece. Vou surpreendê-lo. Nesta noite, serei dele. Ele terá uma noite inesquecível.”

Era sábado. Dez e meia da noite. A temperatura, moderada, agradável. Antenor, na sua casa, no quarto, envolvido, da cintura até os joelhos, por uma toalha, pegou o telefone celular, e discou para Angeline.

– Oi, Antenor – saudou-o Angeline, com voz melodiosa.

– Boa noite, Angeline.

– Boa noite.

– Onde você está?

– Em casa.

– Posso ir aí? Que tal irmos ao restaurante Bom de Garfo? Um ótimo cantor, talentoso, disse-me o Cláudio, se apresentará lá, hoje. Pegarei você daqui uma hora, está bem?

– Está bem. Esperarei você, Antenor.

– Tchau.

– Um beijo.

Desligaram o telefone.

Antenor despiu-se da toalha. Preparava-se para vestir as cuecas, quando ouviu um ruído. De sobreaviso, enfiou-se nas cuecas. Ouvidos e olhos apurados, captou os ruídos que soavam no interior da casa. Andou, pé ante pé, nas pontas dos pés, até à cozinha. Tirou do faqueiro uma grande faca de lâmina afiada. Divisou um vulto, no corredor, encaminhando-se à sala. Na semi-escuridão, as lâmpadas da casa apagadas, Antenor, que conhecia a disposição dos móveis, pôs-se, faca em punho, atrás da porta da sala. Ouviu o ruído da maçaneta girando, e o rangido da porta, que se abria lentamente. Deu um largo passo à frente, lançou-se sobre o vulto, e cravou-lhe a faca no peito esquerdo – ouviu um grito abafado, e unhas arranharam-no e cravaram-se-lhe nos braços. Com rapidez, removeu a faca do corpo do invasor, e cravou-lha, duas vezes, numa sequência furiosa, no peito. O invasor tombou, pesadamente, no chão. Antenor envolveu, firmemente, com as mãos, a empunhadura da faca, curvou-se sobre o corpo caído, e cravou-lhe a faca no coração.

– Morra, desgraçado! – vociferou, ao sentir-lhe a respiração. Levantou-se ao sentir o cessar da respiração do invasor. Com as pernas trêmulas, foi até o interruptor. Premiu-o. A luz emitida pela lâmpada preencheu a sala. Antenor viu o corpo, inerte, estirado à sua frente, ensangüentado, com a faca cravada no peito esquerdo.

– Angeline! – berrou, horrorizado, e caiu de joelhos, aos prantos.

Os três reis magos

Uma história do Joãozinho

Em uma segunda-feira, no início do mês de dezembro, a professora, na escola de ensino infantil, decidiu, em uma aula, falar de Natal e de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em certo momento da aula, perguntou a professora aos seus alunos:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho perguntou-lhe:

– Três reis magros?

Os alunos gargalharam.

A professora pediu-lhes silêncio, e por eles foi prontamente atendida.

– Não, Joãozinho. Três reis magos. Eu não disse três reis magros. Eu disse três reis magos – e, voltando-se para todos os alunos, repetiu a pergunta. – Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Athos, Porthos e Aramis.

Todos os alunos gargalharam.

A professora fitou Joãozinho com olhar de censura.

– Eu, Joãozinho – disse-lhe a professora -, não pedi os nomes dos três mosqueteiros. Pedi os nomes dos três reis magos.

Os alunos, os olhares a convergirem para Joãozinho, exibiam sorrisos acanhados e contidos, afinal, o olhar da professora, de Medusa, abrangia a todos eles.

E a professora, então, todos os alunos em silêncio, repetiu a pergunta:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, mais uma vez antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Moe, Larry e Curly.

Gargalhadas estrondosas preencheram a sala-de-aula.

– Joãozinho – disse a professora, a fitá-lo, semblante severo -, eu perguntei quais são os nomes dos três reis magos, e não os dos três patetas.

Os alunos principiaram uma onda de gargalhadas, as quais eles cessaram assim que sentiram o olhar petrificante da professora cair sobre eles, e encolheram os ombros.

Joãozinho sorria.

– Perguntarei, mais uma vez – disse a professora, voz gélida -: Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, a gargalhada preparada, e todos os olhares a convergirem para ele, respondeu, de imediato:

– Huguinho, Zezinho e Luizinho.

E estouraram-se as gargalhadas.

E a professora, bufando de raiva, pediu ordem aos alunos. Precisou ela de quinze minutos para conter a horda de bárbaros infantis.

A professora, os alunos em silêncio a entreolharem-se e a sorrirem, disse, irritada:

– Eu não perguntei quais são os nomes dos três sobrinhos do Pato Donald; perguntei quais são os nomes dos três reis magos. – fez uma pausa, para estudar a influência das suas palavras sobre os alunos, e prosseguiu -: Perguntarei pela última vez: Quais são os nomes dos três reis magos?

– Gaspar, Baltasar e Melquior – respondeu Joãozinho, todos os alunos a fitarem-lo.

E a professora sorriu, contente, e perguntou para Joãozinho:

– Se você sabe, Joãozinho, os nomes dos três reis magos, por que você não os disse quando eu fiz a pergunta pela primeira vez?

E Joãozinho respondeu:

– A aula estava muito chata; e eu queria que ela ficasse engraçada.

Tal resposta não a apreciou a professora; os alunos, no entanto…

– O Joãozinho é do balacobaco! – exclamou um dos alunos, em meio às gargalhadas.

– Eu mereço – disse, resignada, a professora, que sentou-se na cadeira, à mesa, fincou os cotovelos na mesa, e enterrou o queixo nas palmas das mãos, a esperar as gargalhadas cessarem; e esperou, e esperou…

Enfim, estrilou a sirene, e todos os alunos, correndo, alvoroçados, da sala-de-aula saíram, lancheiras à mão, para o recreio.

 

Os sete guerreiros

Eram sete os homens que se apresentaram, altivos, imperiosos, à convocação do patriarca daquela pequena tribo. Os mais vigorosos, os mais rápidos, os mais ágeis, os mais habilidosos no manejo do bastão, do arco-e-flecha, da funda, do machado. Eram os mais valorosos homens da tribo. A coragem deles todos lhas reconheciam. Provaram-na ser dela possuídos nos campos de batalhas, nas caçadas, no desbravamento de florestas desconhecidas. Disse-lhes o patriarca que da tribo avizinhavam-se inimigos oriundos de plagas distantes. Eram bárbaros, homens asselvajados crudelíssimos. Vaticinou o patriarca a aniquilação da tribo pelos bárbaros. Não poderiam confrontar os inimigos, que se aproximavam, e rapidamente. Eram eles duas centenas de homens poderosos, e desumanos. E na tribo, de pouco mais de uma centena de almas, havia apenas sete guerreiros, sete guerreiros que, mesmo valorosos, não poderiam confrontar, num embate direto, os inimigos, que avançavam em direção à tribo. Pediram os sete guerreiros ao patriarca a ordem, que ele, patriarca, dissesse a eles, guerreiros, qual tarefa eles teriam de empreender, que eles a empreenderiam. E o patriarca, num tom altivo, que transparecia as dores de um coração confrangido, deu-lhes a ordem: Os sete guerreiros permaneceriam na tribo, enfrentariam os bárbaros que da tribo se aproximavam, enquanto ele, patriarca, já octogenário, e os enfermos, e as crianças, e os jovens, e as mulheres, e os velhos, rumariam para uma região segura, longe do alcance dos bárbaros. Os sete guerreiros acolheram a ordem patriarcal. O destino deles estava traçado: Os sete guerreiros encontrariam a morte no fio dos machados dos seus inimigos. E prontamente principiaram os preparativos para a longa jornada de todos os da tribo para uma terra segura. E ergueram armadilhas. E os sete guerreiros despediram-se do patriarca após dele receberem a benção. E despediram-se de suas esposas e de seus filhos, e dos amigos, enfim, de todos da tribo. Escorreram lágrimas dos olhos de todos; dos olhos dos guerreiros e do patriarca, não; estes guardaram no peito a dor, e no rosto exibiam coragem e altivez. E principiaram os da tribo a expedição. E da tribo afastaram-se, sob os olhares dos sete guerreiros. E da tribo aproximava-se a horda de bárbaros, ameaçadora, que trazia consigo, guiando-a, a morte; e os sete guerreiros, certos de que morreriam no confronto com eles, prepararam-se para enfrentá-los, e retardar-lhes o avanço, dando tempo para os da tribo da tribo distanciarem-se, e preservarem a vida. E principiou-se o embate na segunda noite após o dia em que o patriarca convocou os sete guerreiros para dar-lhes a notícia da aproximação dos bárbaros. Os da tribo já iam longe, mas não tão longe que os bárbaros não os pudessem alcançar em menos de um dia, e os alcançariam se não lhes tivessem interrompido o caminho os sete guerreiros. Surpreendidos pelas armadilhas preparadas pelos sete guerreiros, os bárbaros foram obrigados a deterem-se, e a recuarem. E logo nos primeiros minutos de combate, oito bárbaros despencaram, no chão, mortos, todos esmagados por troncos de árvores, então pendurados, por cipós, no topo das árvores. Esbravejaram os bárbaros, confusos, e agitados, e furiosos; esgoelavam-se; proferiam ameaças, com vozes tonitruantes. Eram guerreiros. Não temiam a morte. Cautelosos, após se recomporem-se da surpresa inicial, esquadrinharam os arredores com seus olhos de visão penetrante, à procura daqueles que os atacaram, e deles não viram nem uma silhueta, nem um vulto. Os sete guerreiros estavam ocultos aos olhos deles. Eram mais de duzentos os bárbaros, e apenas sete os guerreiros, mas naquele princípio do confronto a vantagem era destes, que conheciam a região, e aqueles não, e os haviam surpreendido. Tal vantagem, todavia, os sete guerreiros não a manteriam por muito tempo. O destino já lhes havia reservado a morte. Dilatou-se o embate entre os sete guerreiros e os bárbaros. Estes em vão tentavam anular a vantagem daqueles. E os da tribo, em jornada ininterrupta, distanciavam-se do local em que dias antes havia uma tribo. E três dezenas de bárbaros encontraram a morte, fendido o pescoço pelo fio cortante de um machado uns, transpassado o coração por uma flecha outros, esmigalhada a cabeça por um bastão outros, rachada a fronte por uma pedra pontiaguda uns. E diante dos contratempos, e das mortes que se seguiram, os bárbaros recuaram alguns metros, cessaram o arremesso de flechas contra inimigos, que lhes eram invisíveis, e reagruparam-se, e planejaram um ataque a eles, seus inimigos, os quais eles não sabiam quantos eram, e cuja localização ignoravam. Iriam induzi-los a se lhes revelarem. E dispersaram-se. E transcorreram-se três dias do início do confronto, e o plano traçado pelos bárbaros produzia, após a morte de vinte e dois bárbaros desde que a puseram em prática, uma reviravolta. Revelaram-se aos seus inimigos três guerreiros. E os combates corpo-a-corpo principiaram-se após um curto interregno. E bateram-se os bastões. E entrechocaram-se os machados. E nove homens tombaram, mortos. Seis bárbaros, e três guerreiros. E os quatro guerreiros remanescentes não suportariam por muito tempo mais o assédio dos bárbaros. Sentiam, já, os efeitos da fome, da sede, do cansaço. Tombariam. Mas resistiriam o quanto pudessem. Invocavam, em imaginação, os da sua tribo, e se conservariam em pé, armas em punho, lutando, e poriam fora de combate vários de seus inimigos. E principiou, enfim, o epílogo do embate. E a luta, renhida, entre os quatro guerreiros e os quase duzentos bárbaros persistiu durante a manhã e a tarde de um dia. Entrechocaram-se os machados. Bateram-se os bastões. Romperam o céu flechas e pedras. E além de trinta e oito bárbaros, tombaram os quatro guerreiros, cobertos de ferimentos, cravejados de flechas, rubros de sangue, lutando, machado em punho, calcando seus inimigos sob os pés, encarando-os, desafiando-os. Os guerreiros, tão heróicos, tão valentes, que os bárbaros, em sua rudeza de costumes, ofereceram-lhes enterro condigno. E os bárbaros na tribo agora devastada permaneceram, após enterrar todos os bárbaros mortos, dois dias. E seguiram jornada por sobre o rastro abandonado pelos da tribo. Estes já haviam transposto rios, superado montanhas, não sem adversidades. Alguns dos da tribo encontraram a morte. Os enfermos sucumbiram ao desgaste que o esforço da empresa cobrou-lhes. Os que encontraram forças para seguir viagem até uma região acolhedora além de um imenso mar, fora do alcance dos bárbaros, que ignoravam a tecnologia náutica, foram agraciados com uma vida longeva, e descendentes, e viram sua sociedade progredir. E transcorridos cinco mil anos, seus descendentes escrevem narrativas épicas, cujos heróis são os sete guerreiros que se sacrificaram por amor aos seus entes queridos.

Sob o domínio do desejo

Ludmila, jovem de olhar meigo e sorriso encantador, é uma das mulheres mais sedutoras que já pisou na face da Terra. Para seduzir o homem que deseja, ela não emprega nenhum artifício. Ela nasceu para seduzir. Sua beleza deslumbrante, seu sorriso cativante, seu corpo vistoso, seu olhar divino e seu pudor angelical seduzem todos os homens. Há mulheres mais belas e mais atraentes; nenhuma é tão sedutora.

Os homens, ao admirá-la, perdem a cabeça. As mulheres, principalmente as bonitas, invejam-na, e esforçam-se para entender a atração que ela exerce nos homens, e dela copiam as roupas, o penteado, o perfume, o timbre da voz, o sorriso, o andar, o olhar, mas não conseguem copiar-lhe o poder de sedução; algo, na postura de Ludmila, lhes escapa.

Certo dia, Ludmila conheceu um homem que resistiu ao seu poder de sedução, aos seus encantos.

Quem é o homem que resistiu aos encantos de Ludmila?

A história teve início numa quente manhã de segunda-feira.

Ludmila caminhava pela avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso. Usava um vestido decotado cujas orlas inferiores mal desciam até a metade de suas coxas; o decote generoso deixava à mostra a parte superior de seu busto esplêndido. Os homens embasbacavam-se, boquiabriam-se ao admirá-la. Não foram poucos os que assobiaram para Ludmila, expressando todo o desejo que ela lhes inspirava. Queixocaídos diante de tão esplendorosa maravilha, atoleimados, mergulhavam num abissal estado letárgico do qual emergiam muito tempo após Ludmila sair do campo visual deles, mas a imagem daquele corpo deslumbrante perdurava-lhes no espírito.

Em frente da loja Casa Futurística, Ludmila viu um homem de óculos, um pouco mais alto do que ela, bonito, atraente, esbelto, de cabelos castanhos penteados para trás. Ele atraía a atenção de todas as mulheres, que suspiravam ao admirá-lo. Uma vez ou outra, quando uma mulher encarava-o com insistência e indiscrição, provocando-o, ele sorria, deliciado, e exibia seus dentes brancos. Ludmila percebeu que ele a viu, fitou-a por uma fração de segundo, e por ela não deu mostra de interesse. Após passar por ele, Ludmila, depois de alguns passos, voltou-se para trás e, fingindo olhar para as vitrines da loja Perfumes, fitou-o, e viu, para seu desgosto, que ele não se voltou para trás, para admirá-la, como faziam todos os homens, e irritou-se. À noite, ela não conseguiu conciliar o sono, pois a indiferença daquele belo espécime incomodou-a.

Quem era aquele belo homem? Nos dias seguintes, Ludmila pensou nele, obcecada. À noite, com pálpebras cerradas, desperta, evocava-o, e usufruía de sensações que nunca experimentara.

Nos dias seguintes, sozinha, Ludmila caminhou pelas ruas do centro da cidade à procura do belo homem que abalara a sua confiança em si mesma. Transcorreram-se duas semanas. Ela não o encontrou. Por onde ele andaria? Seria ele um morador da cidade? Qual a idade dele? Qual o nome dele? O coração de Ludmila vibrava rápido sempre que o evocava em pensamentos, ao acordar, ao almoço, ao banhar-se, ao pentear os cabelos, enquanto trabalhava, enquanto atendia aos clientes.

*

Ludmila caminhava pela praça Gilberto Freyre. Usava saia curta e camisa decotada. Atraía todos os olhares. Os homens a admiravam. As mulheres a invejavam e suspiravam, não de desejo, como os homens, mas de raiva. Ludmila dava-se conta da atração que exercia sobre os homens. Viu, para sua surpresa, andando em sua direção, conversando com uma japonesa, o belo homem que a atraíra, que nela exercera irresistível atração, e que a ignorara, dezoito dias antes. Suspendeu a respiração, sentiu aperto no coração e falta de ar. Desacelerou os passos. Cravou os olhos no belo homem, que exibia, num sorriso encantador, que deixou Ludmila deslumbrada, belos dentes brancos. Encarou-o, indiscreta. Aproximou-se dele. Passeou as mãos pelos cabelos. Do belo homem não desviou os olhos. Um pouco antes de cruzar o caminho dele, os olhos dele e os seus encontraram-se. Ele sorriu. Ludmila abriu um sorriso tímido, intimidada. Poucos metros adiante, ela sentou em um banco da praça e, fingindo procurar qualquer coisa na bolsa, olhou para o belo homem e para a japonesa, que se afastavam. Ele não olhou para trás, nem uma vez, para olhar para Ludmila, que mordeu-se de raiva, ferida em seu orgulho.

Depois do almoço, Ludmila foi ao banco, na rua do Encilhamento. Na fila, o belo homem, para quem, percebeu Ludmila, três mulheres olhavam, apaixonadas. Ludmila deteve-se atrás dele. Esperava que ele voltasse para trás e a olhasse, a admirasse, e se encantasse com ela. Ele, em certo momento, voltou-se para trás, e viu Ludmila. Nela deteve o olhar por uns poucos segundos, o suficiente para estudar-lhe o rosto e o busto. Ludmila sentiu o sangue ferver. Moveu a cabeça, jogou os cabelos para trás, puxou-os para a frente, e empinou o busto. O belo homem, contrariando as expectativas de Ludmila, não se interessou por ela, e voltou a sua atenção para uma mulher que passava por ele.

Cinco minutos depois, uma loira aproximou-se do belo homem.

– Lauro – disse-lhe ela -, aqui está o troco da conta que paguei no banco A**.

– Obrigado, Tereza. Aonde você vai?

– À loja Íntima e Decente. Tenho de pagar uma conta.

– Irei ao restaurante Bom Almoço, assim que eu me retirar daqui.

– Você ainda não almoçou?

– Não. E você?

– Já. Mas farei companhia para você. Até mais.

– Tchau. Não demorarei aqui.

– Não conte com isso.

Despediram-se.

Ludmila não perdeu nenhuma palavra deste diálogo. Esperou por uma oportunidade para puxar conversa com Lauro. Aproveitou a primeira que se lhe ofereceu assim que Lauro se virou para trás.

– Que calor! – comentou Ludmila. – O banco, lotado, parece um forno.

– Já enfrentei uma fila, hoje, pela manhã – comentou Lauro. – Um inferno!

– Infelizmente, os bancos não contratam caixas. Veja, há apenas dois.

– Sairemos daqui às três da tarde.

– Se tivermos sorte – Ludmila sorriu.

– Talvez tenhamos sorte, hoje. Detesto bancos.

– Além dos banqueiros, quem gosta de bancos?

A conversa prosseguiu, descontraída, até vinte e oito minutos depois, quando Lauro foi atendido por um caixa. Durante esse tempo, Ludmila esperou que ele lhe pedisse o nome, mas ele não lho pediu, para seu desgosto, e, para seu maior desgosto, Lauro não se mostrou seduzido pela sua beleza.

Ludmila foi atendida pelo outro caixa. Ela pagou uma conta, e retirou-se do banco antes de Lauro, e esperou-o à porta. Para que ele não soubesse que o esperava, fingiu procurar alguma coisa na bolsa que trazia a tiracolo.

Lauro saiu. À porta do banco, encontrou-se com Ludmila e com ela encetou conversa. Em nenhum momento perguntou-lhe o nome, nem demonstrou-se por ela seduzido. A sua postura, ao mesmo tempo que irritou Ludmila, ao feri-la na vaidade de mulher atraente e sedutora, fê-la admirá-lo.

– Vou comer um lanche – disse Ludmila. – Estou com fome.

– Em qual restaurante? – perguntou Lauro.

– No Bom Almoço.

– Que coincidência. Vou me encontrar, lá, com a Tereza. Se você quiser, faça-nos companhia.

Dirigiram-se ao restaurante Bom Almoço. Tereza aguardava Lauro. Lauro apresentou Ludmila para Tereza e Tereza para Ludmila. Sentaram-se à mesa. Lauro almoçou. Tereza e Ludmila comeram, cada uma, um lanche, e beberam, Tereza, laranjada, Ludmila, suco de uva. Os três conversaram, descontraidamente. Em nenhum momento Lauro agiu como se Ludmila o houvesse seduzido. E ela notou que ele era muito atencioso com Tereza, que não era bonita.

O telefone celular de Tereza vibrou. Ela o atendeu; ao fim da conversa, anunciou a sua retirada do restaurante.

– Terei de ir, Lauro. O dever me chama. Deixarei vocês aqui. Comportem-se, hein. Tchau, Lauro. Tchau, Ludmila. Gostei de conhecer você. Você é muito simpática.

– Você também – saudou-a Ludmila, que se levantou, ao mesmo tempo que Tereza curvava-se um pouco para a frente, e despediu-se dela com dois beijos, um em cada face (sem encostar os lábios no rosto e estalando os lábios ao descolá-los) – Nos veremos, qualquer dia.

– Tchau, Tereza – despediu-se Lauro. – Passarei na sua casa, à noite.

– Esperarei por você. Tchau – e Tereza beijou-o no rosto.

Assim que Tereza retirou-se, Ludmila comentou:

– Simpática, a Tereza.

– Conheço-a desde o pré-primário. Tivemos um namorico aos quinze anos. E hoje somos bons amigos.

– Ela é muito animada.

– Ela sempre foi assim, de bem com a vida.

– Gosto de gente assim.

– Ela é esperta, brincalhona, divertida. Para ela, não há tempo ruim. Faça chuva, faça sol, ela está sempre com um sorriso no rosto, a despeito de todas as tragédias que viveu.

Lauro falou da vida de Tereza, atribulada, repleta de tragédias: a morte do irmão caçula e a da irmã; o acidente sucedido com sua mãe, que ficou paraplégica; as aventuras extraconjugais de Mário, de quem divorciou-se e quem a infectou com o virus HIV. Ludmila, admirada e surpresa ao ouvir tais relatos, disse que entendia porque ele, Lauro, admirava a Tereza, e se convenceu de que, para conquistar Lauro, teria de, além de usar de sua beleza, de seu natural poder de sedução, empregar artifícios para atraí-lo, pois ele não dava valor à beleza física, mas, sim, ao caráter e à força de vontade, e perguntou-se o que tinha a oferecer-lhe além de um belo corpo.

Retiraram-se do restaurante após as cinco horas da tarde. Andaram pela rua dos Expedicionários e pela avenida Dom João VI, e entraram na rua José de Anchieta, e andaram até a casa de Lauro, detiveram-se diante do portão, e Ludmila levou sua mão direita ao rosto de Lauro, puxou-o para si, e beijou-o, ardentemente, apaixonadamente.

Três horas depois, encontraram-se na casa de Ludmila, onde passaram uma noite de intensa paixão.

*

– Garanhão, conte-me o que ocorreu, ontem, à noite – exigiu Tereza, ávida por revelações indiscretas, na tarde do dia seguinte, na praça Gilberto Freyre. – Conte-me, bandido. O que aconteceu? Conte-me a história, tintim por tintim. Não quero perder nenhum detalhe.

– Por que tanta animação?

– Ajudei você a ir para a cama com a Ludmila. Tenho o direito de saber o que aconteceu.

– Você e a japinha.

– É verdade. A Maura também. Ela merece a sua gratidão. Conte-me: A diaba cedeu aos seus desejos, às suas fantasias?

– Realizei todas as minhas fantasias.

– Quando você diz “todas as minhas fantasias” você quer dizer todas as suas fantasias?

– Exatamente. “Todas as minhas fantasias” é todas as minhas fantasias.

– A Ludmila não reconheceu você?

– Não.

– Também pudera! Você era tão feio! O tempo passa… Nenhuma mulher, nunca, iria namorar você, se você continuasse feio do jeito que era.

– Você me anima, Tereza.

– Mas agora você é muito bonito. E deu uma lição na Ludmila. Você seduziu a sedutora. Um dia é da caça; o outro, da caçadora. A Ludmila, tão cheia de si, desde que a conheço… Ela não nos reconheceu. Ela não me reconheceu.

– Ela nunca reconheceria você, Tereza. Nunca. Ela não conversava com ninguém, lembra-se? Tão cheia de si, a Ludmila, que se bastava a si mesma. Com quem ela conversava, na escola? Com a Míriam e com a Larissa, as duas mulheres mais chatas e arrogantes que conheci. A Ludmila, lembra-se?, disse-me, no colegial, quando a pedi em namoro, que não namoraria comigo porque eu era feio e pobre. E ela também me disse que nunca iria para a cama comigo, porque sentia nojo de mim.

– O que aconteceu depois… Hoje, pela manhã… Conte-me.

– Ela me disse que me conquistara, e estava muito feliz com isso.

– Ela conquistou você? Foi isso o que ela disse?

– Foi. Ela inverteu os papéis. Ela ficou caidinha por mim. Quando cruzei o caminho dela, perto da loja Casa Futurística, ela me viu, e eu a ignorei. Ontem, quando eu e a Maura passamos por ela, ela não tirou os olhos de mim. Depois, no banco, enquanto eu e você conversávamos, ela nos ouviu falar do restaurante Bom Almoço, e, esperta, não perdeu a oportunidade… Caiu nas garras do gostosão.

– Você está se achando o maior conquistador do mundo.

– Que nada! Sem as suas dicas, eu não teria êxito. Você me disse para eu desprezar a Ludmila, que ela cairia na minha rede. Dito e feito. Tereza, contei para a Ludmila que não me chamo Lauro, mas Gumercindo, e perguntei-lhe se ela se lembrava desse nome. Ela fez cara de espanto. Aí, evoquei o dia em que a pedi em namoro, e perguntei-lhe se ela se lembrava do que disse sentir por mim. Ela arregalou os olhos, Tereza. Você tinha de estar lá para ver. Ela me disse: “Você! Gumercindo! Você está tão diferente!” E eu lhe disse que cresci, melhorei minha aparência, e fiquei bonito, e rico, e coisa, e tal, e disse-lhe que eu a atraíra e a seduzira. Ela não me quis acreditar, e expliquei-lhe o que aconteceu desde o primeiro momento em que eu e ela cruzamos um o caminho do outro. E disse-lhe que eu desejava uma noite de prazer com ela. E a conseguira. Perguntei-lhe se ela sentia nojo de mim, ou dela. Ela ficou fula da vida! Conteve-se, para não fazer escândalo. Estou certo de que ela deseja devorar-me vivo.

Enfim… o fim.

Quero escrever um conto.

Há horas, na biblioteca, na minha casa, à mesa, esferográfica à mão, papel em branco sobre a mesa, e eu a devanear.

Enfim, achei uma idéia para um conto: um homem apaixona-se por uma mulher, que não corresponde ao amor que por ela ele sente.

Como darei início ao conto? Transpus uma barreira. Contente, eufórico, avancei – poucos passos, mas avancei. Vejo-me, agora, petrificado. Persistirei. Insistirei. Quero escrever um conto. A idéia eu a tenho. Como a desenvolverei?

Com a idéia na cabeça, agora resta-me escrever o conto. Quem é o protagonista? Qual é o seu nome? O que ele sente? O que ele pensa? Qual a relação dele com as outras personagens? Quem são os seus amigos?  Quem são os seus desafetos? Qual é a sua idade? Ele é jovem, adulto, ou velho? Qual é o nome da mulher pela qual ele se apaixonou? À qual classe social ambos pertencem? Eles são solteiros? Casados? Viúvos? Ela é jovem, adulta ou velha?

Penso nestas questões e em muitas outras – todas, unidas num vórtice, assediam-me e imobilizam-me.

Escrevo estas linhas para tomar conhecimento das dificuldades com as quais me deparo.

Interrompi a redação deste texto, para beber de um pouco de água. O calor – infernal – liquefaz-me. Sinto-me como se eu estivesse no Saara, ou à boca de um vulcão em erupção, ou nas fornalhas do inferno.

Saciei a minha sede.

Agora, sentado, à mesa, esferográfica à mão, ponho-me à redação do conto, cujo início é:

Segunda-feira. O dia amanhece quente e abafado. João Carlos acorda às quatro horas e cinquenta minutos, dez minutos antes de o despertador estridular. Com os olhos remelentos, os cabelos despenteados, o rosto inchado, as pálpebras semi-cerradas, desorientado, aciona o botão interruptor, e, automaticamente, protege os olhos com os braços, contrai os músculos do rosto, e cobre a cabeça com a colcha. Espreguiça-se. Estremunhado, retira-se de sob a colcha, empurrando-a, com os pés, aos pés da cama, levanta-se e dirige-se ao banheiro.

Após o banho, vestido, ruma à cozinha, e prepara lauta refeição da manhã. Come uma banana, duas peras, um pedaço de melancia, uvas, jabuticabas, três morangos, ameixas, um pão francês com duas fatias de queijo-prato e geléia de pêssego, sequilhos, biscoitos-de-vento, e bebe café-com-leite e laranjada.

Ao retirar-se da sua casa, às seis horas, ao volante do carro que comprara há três meses, seu rosto transparecia o ânimo que o propelia para mais uma exaustiva jornada de trabalho, das oito às dezoito horas – trabalhava como um cavalo para, ao final do mês, receber um salário de mula.

Comentários:

Empolgado com as idéias que me assaltaram a mente, escrevi, rapidamente, estes três parágrafos. Interrompi a redação da narrativa para registrar observações a respeito das minhas dúvidas quanto ao teor do que escrevi.

Fiz uma lista com mais de cinquenta nomes. Desta lista, selecionei oito nomes: Paulo, Vicente, Antonio, João Carlos, Sergio, Roberto, Djalma e Lauro. Selecionados estes nomes, perdi preciosos minutos pensando qual deles é o mais apropriado para o meu personagem. Escolhi João Carlos, nome que, todavia, não me agradou. Se não me agradou, por que, então, o escolhi para o meu personagem? Se eu soubesse o que há nos escaninhos do meu cérebro! João Carlos é o nome do meu personagem. Embora eu o tenha escolhido dentre vários outros nomes, estou à procura de outro nome, que me seja mais simpático. Pergunto-me: Quais são os meus critérios para batizar os meus personagens com um nome, e não com outro? Alguma coisa – o quê?, não sei – indica-me um nome, e o procuro, muitas vezes sem saber que nome é esse. É como se houvesse algo no meu interior que me dissesse que este, e não aquele, é o nome apropriado para o personagem A, e não para o personagem B. É uma sensação estranha – direi indefinível. Não posso explicá-la. Já escrevi contos com personagens que de mim receberam o nome de José, Sebastião, Gumercindo, Paulo, Evandro, Humberto, Godofredo, Washington, Murilo, Lúcia, Stéfani, Larissa, Verônica, Maria, Tábata e Angelina. Como se vê, nomes comuns e nomes incomuns. Por que me decido por uns, e não por outros, não sei explicar. Penso comigo: Tal personagem tem cara de Godofredo. Godofredo! Como é um homem chamado Godofredo? Não sei, não conheço nenhum Godofredo. Então, vou mudar o exemplo: Tal personagem tem cara de José. Conheço vários José. José é o nome mais comum, no Brasil, de homens, e também de mulheres. Conheço várias Maria José. Como é um homem chamado José? Os Josés que conheço não se parecem uns com os outros. Conheço-os baixos, altos, gordos, magros, calvos, cabeludos, negros, brancos, cafuzos, mamelucos, pardos, e até japoneses e árabes. Quero dizer: brasileiros descendentes de japoneses e brasileiros descendentes de árabes. Fica a pergunta: O que vejo num personagem masculino, enquanto o concebo, para vir a batizá-lo de José, e não de Ariovaldo? Essa questão, como se pode concluir, dá muito pano pra manga.

Pergunto-me: Conservo o início do conto? Apresentei João Carlos acordando, banhando-se, tomando o café-da-manhã, saindo da sua casa, de carro, na manhã de uma segunda-feira, para ir ao trabalho. Cena tão trivial não despertará no leitor a curiosidade, tampouco a vontade de dar sequência à leitura. Que conto sairá deste início tão insosso!? Um conto banal, é certo. Tenho de modificá-lo. Ou, se não modificá-lo, narrar, na sequência, um evento que desperte a curiosidade do leitor; não se faz imprescindível um evento grandioso, fantástico, como um ataque de alienígenas à Terra, ou a detonação de uma guerra termonuclear, mas, sim, um evento que prenda a atenção do leitor, e o agrade, além de agradar-me; que lhe excite a curiosidade; e que inspire-me novas cenas para a sequência da narração.

Narro, agora, um evento chocante (decidirei, depois, se conservarei os três parágrafos iniciais do conto):

Ao passar pelo cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco, José Carlos atropelou uma loira que atravessava a rua.

Comentários:

Decidi substituir João Carlos – nome que não me agradou – por José Carlos. Pergunto-me se, em vez de uma loira, a mulher atropelada não pode ser uma morena, ou uma negra, ou uma mulata. Queimo as pestanas pensando nisso. Para ao mesmo tempo complicar e descomplicar a questão, penso em outra alternativa, que é a que mais me agrada: substituir a loira por uma ruiva. As ruivas são exóticas, pitorescas. Eu já vi quantas ruivas? A última ruiva que vi, há mais de dois anos… Isso não vem ao caso. Decidi: Modificarei o início do conto. Excluirei os três primeiros parágrafos, e o quarto parágrafo eu o modificarei – para melhor, presumo. Substituirei a loira por uma ruiva. E faço-me as seguintes perguntas: Por que o acidente ocorreu no cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco? Não poderia ter ocorrido no cruzamento da rua Oliveira Lima com a Euclides da Cunha? Ou, então, no da rua Gilberto Freyre com a Machado de Assis? Ou no cruzamento da avenida José de Alencar com a rua Washington Luis? Ou no da avenida Oswaldo Cruz com a Emílio Ribas? Não é, como aparenta, tão simples tomar uma decisão a respeito desses detalhes, que não são irrelevantes.

O início do conto fica assim:

7:00. José Carlos retira-se da sua casa, de carro. Duzentos metros depois, distraído, ouvindo uma canção de Noel Rosa, chegou ao cruzamento da avenida Emílio Ribas com a avenida Oswaldo Cruz. De repente, do nada, surgiu-lhe, à frente do carro, provocando-lhe intensa onda de calafrios, uma ruiva jovem, bonita, atraente. Instintivamente, José Carlos afundou o pé no pedal do freio. O carro parou a um palmo da ruiva, que, petrificada, os olhos arregalados, a boca escancarada, fitou José Carlos, que, num átimo, desafivelou o cinto de segurança, abriu o carro, e saiu, com o coração aos pinotes – no seu cérebro entrechocavam-se miscelâneas de pensamentos. Eram poucas as pessoas que testemunharam o evento. Dois homens levaram as mãos à cabeça; um deles proferiu um “Quase!”, e elogiou José Carlos, enquanto o outro limitou-se a empinar o corpo como se o carro tivesse ido em sua direção, e não em direção à ruiva. Diante da padaria, uma jovem levou a mão direita ao peito esquerdo. No jardim, sentados em um banco, dois homens teceram comentários desabonadores: “Mocinha lerda”, disse um deles, um sujeito de cabelos desgrenhados, barba hirsuta, roupas amarfanhadas, chinelos-de-dedos surrados; e o outro, tipo esdrúxulo, corcunda, calvo nas têmporas, de nariz volumoso de abas largas – a direita adornada com uma verruga roxa -, sobrancelhas espessas projetadas sobre os olhos, quase os cobrindo completamente, lábios descoloridos, orelha esquerda de abano, queixo pontudo, mãos calosas e pele coberta de pêlos grossos, que lhe emprestava aspecto simiesco, comentou: “A palerma está dormindo! A idiota não acordou!”, e tossiu duas vezes, e completou: “Se eu fosse o motorista, passaria por cima dela, para ela aprender a não ser burra”.

Comentários:

Tenho várias observações para apresentar a respeito das modificações que fiz, dos trechos que suprimi e das personagens que acrescentei. Exclui os dois primeiros parágrafos nos quais eu apresentava o protagonista despertando, banhando-se e degustando um lauto café-da-manhã. Conclui que tais parágrafos, para o conto que tenho em mente, são irrelevantes, portanto, prescindíveis. Suprimi-los foi a decisão correta, acredito. Talvez eu reconsidere esta minha decisão. Outro ponto a se considerar: eu havia escrito que o protagonista acordou dez minutos antes das cinco horas da manhã, e saiu da sua casa às 6:00 para iniciar o expediente de trabalho às oito horas. Ao pensar em outras idéias, as quais anotei à parte, conclui que manter o terceiro parágrafo implicaria em outras idéias, que não me agradam, as quais eu teria de inserir neste conto; refiz, portanto, o parágrafo, e apresentei o protagonista retirando-se da sua casa às sete horas. Na versão que abandonei, eu apresentaria o protagonista rumando para a empresa, localizada na cidade vizinha, distante cento e cinquenta quilômetros da sua casa, para a qual ele regressaria às 20:00, ou às 20:30. Abandonei essas idéias. Escreverei, na versão atual do conto, que a empresa na qual o protagonista trabalha localiza-se na cidade na qual ele reside; ele, portanto, não precisará retirar-se da sua casa às seis horas para ir à empresa na qual trabalha. Saindo de sua casa às sete horas, ele chegará, com quinze minutos de antecedência, na empresa.

Outra observação: O nome José Carlos não me é simpático, mas não sei se o substituirei por outro nome. Pensei, hoje, nos seguintes nomes para o meu personagem: Charles, Davi, Heródoto, Rubens e Gustavo, e, ontem à noite, pensei nestes nomes: Frederico, Henrique, Cauã, Salomão, Demócrito, Lúcio, Felipe, Ulisses e Laércio.

Agora, ao ponto mais importante de todas as modificações e acréscimos que fiz: as pessoas que testemunharam o evento. Antes, eu não me referira à nenhuma testemunha, pois escrevi que o evento se sucedera no cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco, situado num bairro residencial de pouco movimento às seis horas da manhã. Agora, relatei o evento sucedendo-se, às sete horas da manhã, no cruzamento das duas principais avenidas da cidade, a Emílio Ribas e a Oswaldo Cruz, situado no centro da cidade. Às sete horas da manhã, há, lá, muitos transeuntes. Primeiro, limitei-me a aludir às testemunhas. Considerei, depois de algumas ponderações, inadequado limitar-me à alusão às testemunhas e, sem entrar em pormenores, dar sequência à narrativa. Foi, então, que concebi as cinco testemunhas; para duas delas emprestei características físicas de dois mendigos bêbados, ambos feios, desgraciosos; os seus comentários a respeito da ruiva eu os ouvi – para não ferir suscetibilidades, não os reproduzi com exatidão – há dois meses, na véspera do aniversário de uma amiga inestimável, a Érica, ao entardecer. Relato o episódio: Chegou-me, de trás de mim, o som de freada brusca. Ao olhar por sobre o ombro direito, entrevi, à frente de um carro parado no meio da rua, uma roda e o guidão de uma bicicleta vermelha e a cabeça de um garoto de cabelos compridos repartidos ao meio. Uma fração de segundo depois, vi dois mendigos de aparência repulsiva atravessando a rua; eles teceram comentários desabonadores em tom de voz elevado. Não reproduzi, como comentários à ruiva, os comentários que eles fizeram ao garoto, pois são irreproduzíveis. Outros escritores – para os quais as obscenidades são como o sangue que lhes corre pelos vasos sanguíneos – os escreveriam. Eu, atendendo ao meu desejo, reservo-me o direito ao requinte do vocabulário. Declarei que este é o ponto mais importante que eu consideraria aqui. Não o é, entretanto. Há outro ponto de equivalente grau de importância. José Carlos, o protagonista, não atropelou a ruiva. Na versão anterior, José Carlos atropelou a loira – que substitui por uma ruiva. Antes, o protagonista atropelou a loira; agora, ele não atropelou a ruiva.

Encerrados os comentários, escrevo a sequência do conto:

– Tu estás bem? Estás machucada? – perguntou José Carlos, com voz quase sumida, à ruiva. Ansioso, com o coração aos pulos, fitava a ruiva com olhar perdido. Não sabia se se aproximava dela, pegava-a ao colo, punha-a no carro, para conduzi-la ao pronto-socorro, ou se dela mantinha distância respeitável. Tocou-a no ombro com as pontas dos dedos da mão esquerda. A ruiva, emudecida, moveu a cabeça para cima e para baixo, lentamente, dando a entender que se sentia bem e não se machucara.

José Carlos pediu-lhe que entrasse no carro. Disse-lhe que a conduziria ao pronto-socorro. Ela disse, em tom baixo, ao mesmo tempo que levava ao peito a mão direita aberta, que não precisaria ir ao pronto-socorro, pois sentia-se bem. Estava lívida. José Carlos, atencioso e preocupado, conduziu-a à calçada. Ato contínuo, foi ao carro, manobrou-o até à margem da rua, estacionou-o próximo da ruiva, retirou-se do carro, dirigiu-se à ruiva, cujo nome era Verônica.

Comentários:

Estes dois parágrafos apresentam o que eu quis expressar: uma cena corriqueira, na qual os dois personagens principais entabularam conversa. Desconsiderando alguns detalhes, como o nome da ruiva (pensei em Ludmila, Larissa, Verônica, Laura, Jaqueline, Inês, Natasha, Íris e Yulia – e decidi-me por Verônica), o texto agradou-me. Sinto-me extremamente contente por ter dado sequência à narração, tendo em vista que despendi, para este curto trecho, três horas de um dia ensolarado. Suspeito que foi uma tarde proveitosa e me regozijo com a redação deste conto, que se encorpa, lentamente, gradativamente, mais lentamente do que eu gostaria; e vou encontrando soluções para as complicações inerentes à trama; soluções que, se não me agradam, preenchem as lacunas, e dão corpo ao texto.

Prossigo:

Algumas pessoas aproximaram-se de José Carlos e de Verônica. Umas, consolavam-na; outras, estudavam as atitudes de José Carlos e observavam Verônica. Alguns homens, que não foram lá para prestar auxílio a Verônica, não se interessavam pelo que lhe ocorrera – admiraram-lhe a formosura do porte.

Comentários:

Até aqui o texto encaminha-se bem. As personagens que representam a multidão eu as apresentei superficialmente, mas da maneira adequada, acredito. Algumas dentre elas são solícitas e prestativas; outras, homens animalescos, estavam lá para satisfazer a lubricidade. E José Carlos devotou à Verônica a sua atenção. Foi atencioso, mostrou-se preocupado, e insistiu em conduzi-la ao pronto-socorro; os seus gestos e as suas palavras revelam os seus bons sentimentos.

À sequência do conto:

José Carlos disse para Verônica que a conduziria ao pronto-socorro. Ela lhe disse, mais uma vez, que não se machucara, que apenas se assustara com o sucedido, e pediu-lhe que não se preocupasse; gracejando, disse-lhe que ele estava mais nervoso do que ela, e que ele, e não ela, precisava ir ao pronto-socorro. José Carlos sorriu.

Aos poucos, Verônica foi recuperando a cor natural do rosto. José Carlos, cujos sentimentos confundiam-se, fitava-a, embevecido, atraído pela sua beleza. Preocupava-se com Verônica ou dedicava-lhe tanta atenção por que ela era uma mulher bonita e atraente?

Comentários:

Destes dois parágrafos gostei apenas do primeiro; do último, não. Quais sentimentos Verônica despertou em José Carlos? Insinuei que, assim que Verônica recuperou as cores naturais do rosto, aflorou à mente de José Carlos pensamentos que não correspondiam à sua índole, à que lhe atribui nos parágrafos precedentes. A interrogação ao final do último parágrafo dá a entender que José Carlos não é um homem sincero, bem-intencionado, mas, sim, um canalha. O último parágrafo, se eu o conservar, inspirará no leitor certas expectativas quanto à conduta de José Carlos, expectativas que não pretendo lhe inspirar, pois desejo respeitar a trama original, a qual apresentei no princípio deste texto. José Carlos – é o que tenho em mente – impelido pelos ditames de um coração generoso, não pode misturar sentimentos censuráveis ao seu sincero desejo de prestar auxílio à Verônica. Excluirei, portanto, o último parágrafo. E dou sequência à narração:

A ruiva recuperou a cor natural do rosto. Inspirou e expirou como se removesse de dentro de si pensamentos que lhe pesavam no espírito.

Conquanto se persuadisse de que ela não se machucara, José Carlos insistiu em conduzi-la ao pronto-socorro.

– Qual é o teu nome? – perguntou-lhe José Carlos.

– Veruska – respondeu a ruiva.

– Veruska, se tu quiseres ir ao pronto-socorro…

– Não. Obrigada. Não me machuquei…

– José Carlos.

– José Carlos, não me machuquei. O carro nem encostou em mim. Acredite-me – sorriu.

– Bem… então… Queres que eu telefone para alguém? Para teu pai? Para tua mãe?

– Não, José Carlos. Obrigada. Estou bem. Acredite, estou bem.

Comentários:

Decidi modificar o nome da ruiva. Pensei, além de Veruska, em Zuleika, Fabíola, Ariadne, Marianne, Dayanne, Paola, Samantha, Pâmela, Dorotéia e Gislaine, além dos que mencionei linhas atrás. Decidi-me por Veruska porque este nome, melhor do que os outros, encaixou-se, à perfeição, na personagem ruiva. É como se houvesse um vínculo entre Veruska e as ruivas. Como se, como direi?, todas as ruivas, por serem ruivas, se chamassem Veruska. Não consigo imaginar uma ruiva chamada Maria, ou Elisabete. Já imaginei ruivas chamadas Yulia e Natasha, nomes incomuns, aqui, no Brasil, mas comuns, presumo, na Rússia e na Ucrânia. Mas Yulia e Natasha não são os nomes ideais para a ruiva. Veruska, sim, é. Por quê? Não sei. Sempre que imagino uma ruiva, penso em nomes pitorescos. Decidi, também, mudar um detalhe significativo: Antes eu mantivera José Carlos ignorante do nome da ruiva; agora, decidi fazê-lo tomar a iniciativa de perguntar à ruiva o nome. Dei, assim, um toque mais íntimo à cena.

Dou sequência ao relato:

Veruska disse que estava em condições de ir até o escritório de contabilidade no qual trabalhava. José Carlos ofereceu-lhe carona. Veruska a recusou, com gentileza; disse-lhe que iria, a pé, até lá. José Carlos insistiu em conduzi-la até o escritório e disse-lhe que não aceitaria um ‘não’ como resposta. Fitaram-se. Veruska sorriu, constrangida; após alguns segundos de silêncio, disse para José Carlos que aceitaria a carona.

Entraram no carro.

Durante o trajeto, falaram de filmes e espetáculos musicais.

Chegaram ao escritório de contabilidade dez minutos depois.

– Queres que eu explique para a tua patroa o que aconteceu e porque tu estás atrasada? – perguntou José Carlos.

– Não, José Carlos – respondeu Veruska. – A Lúcia sabe que tive um bom motivo para me atrasar.

Comentários:

Mais uma vez, não me simpatizo com um nome que escolhi para uma personagem: Lúcia, o da patroa da Veruska. Pensei em outros três nomes: Renata, Paula e Felícia. Optei por Lúcia. Por quê? Não sei. Mas será Lúcia o nome da patroa da Veruska. Outro ponto relevante: o sexo do superior hierárquico imediato da Veruska. No início, pensei em um homem, cujo nome seria, ou Fabiano, ou Rodolfo, ou Ulisses, ou Zacarias, ou Isaias. Foram esses os cinco nomes que me vieram à cabeça. Abandonei-os ao decidir-me por uma mulher. Preferi uma patroa para a Veruska, e não um patrão. E ficará assim.

Retomo a narração:

Veruska retirou-se do carro. À porta do escritório de contabilidade, voltou-se, e acenou para José Carlos, que lhe retribuiu o aceno, esperou-a entrar no escritório, e retirou-se.

Durante o dia, José Carlos pensou em Veruska. Reviu-a diante do carro – tentou dimensionar o medo que lhe avassalara o espírito -, assustada, com a boca escancarada e os olhos tão abertos que, parecia, iriam pular das órbitas.

– Terra chamando Zé Carlo. Terra chamando Zé Carlo. Atenda, Zé Carlo. Câmbio. Atenda, Zé Carlo. Câmbio. Terra chamando Zé Carlo – disse, bem-humorado, Eduardo, ao mesmo tempo que dava um tapa na nuca de José Carlos.

– O que tu desejas, Eduardo? – perguntou José Carlos.

– Em qual planeta tu estavas?

– O quê?

– Em qual galáxia tu estavas?

– Eu estava aqui, com os meus pensamentos.

– Sei. Pensavas em uma mulher. Ela é bonita?

– Não me incomode, Eduardo. Vamos trabalhar.

Comentários:

Este trecho agradou-me. Concebi o personagem Eduardo e, automaticamente, entendi que ele é um personagem apropriado para este trecho do conto; de imediato, suprimi o que eu escrevera, trecho demasiadamente sério, desprovido de humor. Conheci pessoas como Eduardo, pessoas sempre bem-humoradas e de bem com a vida, mesmo que tenham passado por maus bocados e comido o pão que o diabo amassou. Um dos meus amigos, Josué, um tipo avoado, é assim. Ele está sempre de bom humor, e perde, com freqüência, a noção da realidade – é impossível manter com ele uma conversa séria por mais de trinta segundos –, e não sei se os eventos que ele narra sucederam-se como ele diz, pois ele insere, nas narrativas dos eventos que protagonizou, detalhes fictícios oriundos dos labirintos de uma mente extraordinariamente criativa. E mais uma vez me implico com o nome que escolhi para um personagem. Para o amigo de José Carlos escolhi o nome Eduardo, após abandonar o nome Marcelo, pois batizei com este nome um personagem que criei para outro conto, e os nomes Roberto, Fábio, Danilo e Daniel.

Retomo a narração:

Eduardo, durante a conversa, disse para José Carlos ir ao escritório onde Veruska trabalha, e aconselhou-o a convidá-la para jantar.

– Não é todo dia que se encontra uma ruiva – disse Eduardo. – Irás deixá-la escapar, Zé Carlo?

– Não confundas as coisas, Eduardo – censurou-o José Carlos. – Quase a atropelei. Depois, como eu disse, eu a levei até o escritório de contabilidade, e vim trabalhar.

– Sei, Zé Carlo – disse Eduardo, em tom zombeteiro. – Tu não te interessaste por ela? Tu queres te enganar? Quem tu queres enganar? Eu? Ou tu? Se tu queres me enganar, saibas que não conseguirás. Se tu queres te enganar, engana-te. Mas saibas que, se tu te deixares enganar por ti, serás um otário.

– Tu não entendeste, Eduardo. A Veruska… Eu não a conheço. Eu a vi, e pela primeira vez, hoje, e numa ocasião… Como eu diria?

– Adequada para o início de um romance.

– Não digas asneiras…

– Asneiras!? Quais asneiras eu disse? Da minha boca, até agora, nenhuma asneira saiu. Zé Carlo, tu não assistes filmes? A maioria dos romances… Como se diz? Romances profícuos? Não. Como é que se diz? Não encontro a palavra adequada…

– O que queres me dizer, Eduardo? Que eu e a Veruska nos casaremos, e viveremos felizes para sempre?

– Exatamente. Tiraste as palavras da minha boca, mas não todas elas.

– Tu confundes a realidade com um conto de fadas. Não sou um príncipe, e a Veruska não é uma princesa.

– Ela pode não ser uma princesa, mas te enfeitiçou. E tu és um sapo. E o que acontece quando uma princesa beija um sapo? Cospe, o rosto a transparecer, em esgares que o deformam, o nojo que lhe avassala o espírito, nojo que deixará de sentir ao beijar um príncipe, ou duas horas após chamar o Hugo. Queres saber, Zé Carlo: Não queiras dissimular os teus sentimentos. O teu olhar, o teu rosto e o teu sorriso revelam-me a paixão que tu sentes pela Veruska.

– Não digas asneiras.

– Nunca falei tantas verdades na minha vida, sabes disso. Estou surpreso comigo. Nunca me imaginei no papel de Cupido. Como eu dizia, mas tu me interrompeste, nos filmes, principalmente nas comédias românticas, uma história de amor começa, infalivelmente, com uma trombada dentro de uma loja. Nunca viste tal cena? É infalível: Uma linda mulher, em um shopping center, após comprar, numa de suas lojas, roupas e calçados, anda, carregando sacolas e uma pilha de caixas, pelos corredores, e, ao passar em frente à porta de outra loja, esbarra-se em um homem, as caixas escapam-lhe das mãos, e esparramam-se, abertas, umas, fechadas, outras, pelo chão, e ela faz um gesto de surpresa e de contrariedade; ao olhar para o homem no qual se esbarrou, arregala os olhos, surpresa com a beleza do bonitão, que a enfeitiça, e o enfeitiça, e os dois, enfeitiçados, agacham-se para recolher do chão as caixas, a linda mulher, encabulada, sorrindo à toa, e o bonitão, elegante, sorridente, exibindo dentes branquíssimos, a admira, elogia-lhe o rosto formoso, o sorriso cativante e os olhos lindíssimos. Recolhidas do chão as caixas, levantam-se, conversam, sorrindo ambos à toa, ele, ávido de desejo, querendo se lançar nos braços dela, e beijá-la, e ela, sedenta de desejo, querendo lançar-se nos braços dele, e beijá-lo, e estreitá-lo num estreito amplexo… Gostaste? Amplexo. Li esta palavra num livro de José de Alencar; se não foi num livro dele, foi num livro de outro escritor. Como eu dizia, o bonitão e a linda mulher agem com discrição, para não se exibirem como levianos e indecentes um para o outro. Resumindo o enredo: eles se encontram, casualmente ou não, num outro dia, e dão início a um relacionamento entre tapas e beijos. No final, antes do famoso The End, eles se casam, e vivem felizes para sempre.

– Um ótimo roteiro para um filme de Hollywood – comentou José Carlos, sorrindo.

– Eu sei. Mas não apenas para um filme de Hollywood. Muitos relacionamentos profícuos… É assim que se diz? Li esta palavra num romance do Lima Barreto; se não foi num romance dele, foi num do Machado de Assis, ou num de outro escritor. A história que contei é roteiro de filme? Pode ser. Ora, Zé Carlo, como sabemos, a arte imita a vida, e a vida imita a arte. Convenhamos, a vida imita mais a vida do que a arte, e a arte imita mais a arte do que a vida. Muitos romancistas fundem, numa personagem, características de uma personagem de outro escritor com as de pessoas que conheceram e as de pessoas que conhecem. As pessoas, ao tomarem uma decisão, consideram o que outras pessoas lhes disseram e o que soube que outras pessoas fizeram em situações semelhantes. Zé Carlo, como eu dizia, a vida não imita a arte, e a arte não imita a vida. Elas se imitam. Vida e arte estão imbricadas. Imbricadas! Em qual romance li esta palavra? Foi num romance do Camilo Castelo Branco? Se não foi num romance dele, foi num romance do Aluísio Azevedo. Se não foi num romance de nenhum deles, então não sei em qual romance a li, mas tenho certeza de que a li num romance, se não brasileiro, português; se nem brasileiro, nem português, então foi num romance francês, ou inglês, ou russo, ou americano. Zé Carlo, tu viste… Do que eu falava?

A estrondosa gargalhada de José Carlos ecoou pelo escritório.

Comentários:

Eu escrevera um relato telegráfico, como se diz, de um diálogo de José Carlos e Eduardo. Um falava seis ou sete palavras, e cedia a palavra para o interlocutor, ou o interlocutor interrompia-o, impedindo-o de completar os comentários. Para mim, tal diálogo não expressava, como eu o desejava, a personalidade expansiva e bem-humorada de Eduardo, um sujeito bonacheirão e tagarela. Suprimi o diálogo. Debruçado sobre a mesa, com a caneta esferográfica à mão, sustentando a cabeça com a mão esquerda, pensei no que escreveria em substituição ao diálogo suprimido. Após uns minutos durante os quais rabisquei a folha de sulfite à minha frente e escrevi o meu nome dezenas de vezes, decidi retirar-me daqui. Fui à sala, mexi em jornais e revistas, para logo retirar-me, e ir ao quintal, onde andei em círculos sob o abacateiro; enfim, regressei à biblioteca, e escrevi o diálogo que se lê nas linhas precedentes.

As melhores idéias me vêm à mente durante a redação do texto o qual modifico à medida que vou desenrolando a história; não foi isso o que me ocorreu hoje, ao me sentir incapaz de criar um diálogo de José Carlos e Eduardo. Escrito o diálogo, satisfeito com o que escrevi, após corrigi-lo durante duas horas e trinta minutos, interrompi a redação da narrativa para registrar estes comentários. O diálogo é perfeito para o que tenho em mente. Agora encerro os comentários, e dou sequência ao conto, que se encaminha para o encerramento:

Durante a manhã, Eduardo, sempre que se lhe oferecia uma oportunidade, falava, sorrindo, para José Carlos ir ao escritório no qual Veruska trabalhava, e convidá-la para um jantar romântico à luz de velas. No almoço, realçou as suas exortações. José Carlos divertia-se com as narrativas que Eduardo lhe contava, com o propósito de o persuadir a ir ao escritório de contabilidade, e convidar Veruska para um jantar romântico à luz de velas, nas quais inseria princesas, fadas, semi-deuses, atrizes famosas e personagens de romances e de revistas em quadrinhos.

Durante à tarde, até o encerramento do expediente, Eduardo renovou as exortações com os mais sensatos e os mais disparatados argumentos.

Ao retirarem-se do escritório, antes de se despedirem, Eduardo disse para José Carlos:

– Zé Carlo, a Veruska, estou certo, pensou em ti. Tu pensaste nela, então ela pensou em ti.

– O que tu dizes não faz sentido.

– Não faz sentido?

– Não. Ela pensou em mim porque pensei nela? Isso não faz sentido, Eduardo.

– Não faz sentido! Essa é boa. Tu me surpreendes, Zé Carlo. Tu me surpreendes. Como assim, o que eu disse não faz sentido!? Em que mundo tu vives? Tu nunca ouviste falar de energias cósmicas? Tu nunca ouviste falar de simulacros cosmogônicos? Tu nunca ouviste falar da teoria das supercordas? Tu nunca ouviste falar do princípio da incerteza? Tu nunca ouviste falar de ressonância mórfica? Tu nunca ouviste falar de paralaxe cognitiva? Tu nunca ouviste falar do teorema de Pitágoras?

– Do que…

– Não me interrompas, Zé Carlo. Tu nunca ouviste falar do irresistível poder de atração dos átomos dotados de sentimentos afins?

– O quê? Átomos têm sentimentos?

– Têm. Do que os nossos corpos são compostos? De átomos. Temos sentimentos, não temos? Como os nossos sentimentos são produzidos? Não sei como são produzidos, mas sei que são os átomos que os produzem. Os átomos do teu corpo e os do corpo da Veruska compartilham os mesmos sentimentos, e desde a criação do mundo, como está escrito no Gênesis.

Com os mais estapafúrdios argumentos, Eduardo conseguiu, por meios incompreensíveis à inteligência humana, persuadir José Carlos a ir ao escritório de contabilidade no qual Veruska trabalhava.

Parado ao cruzamento da rua Dom João VI com a avenida Abraham Lincoln, José Carlos olhou para o escritório de contabilidade no qual Veruska trabalhava, distante uns cem metros. Havia vários carros e motos estacionados em toda a extensão da rua. O trânsito, intenso; o barulho, infernal. Ansioso, José Carlos se perguntou se Veruska já se retirara do escritório e fora-se embora. Tamborilava o volante e alternava a sua atenção entre o semáforo, que, parecia-lhe, fora desativado, e a porta do escritório de contabilidade. Entreviu duas mulheres saindo do escritório. Uma loira alta e Veruska. José Carlos pensou em pisar no acelerador, e transgredir uma lei de trânsito. O semáforo abriu para ele. José Carlos viu Veruska e a loira se despedindo com beijos nos rostos. Ao aproximar-se de Veruska, buzinou, e chamou-a pelo nome. Veruska voltou-se para ele, e acenou-lhe. José Carlos, com a mão direita, fez-lhe sinal para ela entrar no carro. O motorista do carro que ia logo atrás do de José Carlos buzinou. Veruska, passos acelerados, foi até o carro, e José Carlos abriu-lhe a porta do carro, e pisou no acelerador tão logo ela se sentou e fechou a porta. Veruska deu início à conversa ao perguntar-lhe do seu trabalho. José Carlos reconstituiu o dia, e falou, rindo, dos comentários de Eduardo a respeito dos sentimentos afins dos átomos. Veruska sorriu, e exibiu duas fileiras de dentes branquíssimos. Seu rosto encantador transpareceu a alegria que a contagiava. O rubor realçou-lhe a beleza cativante.

À frente da casa de Veruska, ainda dentro do carro, José Carlos perguntou para Veruska se ela queria ir com ele, ou a uma pizzaria, ou a um restaurante. Veruska, encabulada, abriu um largo sorriso, disse-lhe que não tinha compromisso para aquela noite e não havia razão para não ir com ele ou para uma pizzaria ou para um restaurante, dando a entender que dele gostaria de receber um convite. José Carlos percebeu que Veruska, enquanto falava, ajeitava os cabelos, avaliava as unhas, fitava-o, e, encabulada, desviava o olhar, e não suprimia do rosto, cujas maçãs salientes destacavam-se, e o rubor as realçava, o sorriso cativante. Os olhares de ambos encontraram-se. O silêncio que se seguiu, constrangedor, de indisfarçável significado. Ambos desviaram o olhar, e olharam para a frente. Nenhum deles sabia como dar sequência à conversa. Enfim, após encher os pulmões, e expirar, controlando-se, lentamente, José Carlos, com voz suave, perguntou para Veruska:

– Queres jantar comigo, Veruska?

Veruska ajeitou os cabelos, abriu um largo sorriso, olhou para José Carlos com olhar de indisfarçável paixão, e disse, com a voz tão baixa que, para ouvi-la, José Carlos não precisou da audição, mas apenas de paixão:

– Quero.

Marcaram o encontro.

Às vinte horas, José Carlos foi à casa de Veruska. Veruska mirava-se ao espelho e dava os últimos retoques no vestido. Enquanto a esperava na sala-de-estar, José Carlos conversou com Mateus, pai de Veruska, e Berenice, mãe dela. Ele, de porte majestoso, barba e bigodes rapados, cabelos penteados para trás, de temperamento tranquilo, silabava, corretamente, as palavras; ela, magnífica mulher de quarenta anos, robusta, ruiva, de voz suave, cabelos compridos. Ambos elegantes. Ambos de impecável formação intelectual, inteligentes, decentes e trabalhadores. José Carlos impressionou-se com o porte físico e a postura deles, com a elegância que eles exibiram, e com a hospitalidade, o bom-humor, e o conhecimento que possuíam da cultura brasileira e da de outros países. Durante a conversa de menos de uma hora, José Carlos ouviu comentários a respeito da obra de filósofos e romancistas cujos nomes jamais ouvira. Dentre os mencionados, os mais enaltecidos foram Ludwig von Mises, Mário Ferreira dos Santos, Gilberto Freyre, Liév Tolstoi e Dostoiévski, cujas obras, declararam Mateus e Berenice, são, dentre das de outros raros intelectuais e romancistas de inteligência vigorosa, inegável sabedoria e honestidade intelectual, de leitura obrigatória para todas as pessoas que desejam compreender a civilização moderna.

Veruska, enfim, apareceu à sala-de-estar. José Carlos fitou-a, maravilhado. Berenice não titubeou:

– Tu estás linda, filha.

– Linda ela sempre foi – comentou Mateus. – Hoje, ela está exageradamente linda.

Encabularam-na tais comentários. Ruborizou-se-lhe o rosto, cujas maçãs destacaram-se.

José Carlos sentiu o coração vibrando violentamente.

Berenice deslizou, suavemente, suas mãos macias pelos cabelos sedosos de Veruska, e deu-lhe um beijo suave no rosto.

– A benção, mamãe.

– Deus te abençoe.

Ao aproximar-se de seu pai, Veruska pediu-lhe a benção.

– Deus te abençoe – e ele lhe pousou a mão esquerda, de leve, mal a tocando, na face direita, e beijou-lhe o rosto esquerdo.

José Carlos despediu-se de Berenice e Mateus.

Naquela noite, José Carlos e Veruska começaram a namorar.

Oito meses depois, casaram-se, na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Transcorridos quatorze meses, Veruska deu à luz Renato, menino rechonchudo e saudável. Transcorridos outros dezessete meses, nasceu Samantha, que herdou de sua mãe os cabelos ruivos.

Há oito anos José Carlos e Veruska vivem em lua-de-mel. Renato e Samantha crescem, belos e repletos de saúde e de alegria.

Comentários:

Farto dos finais tristes dos romances modernos, perguntei-me se não seria melhor eu encerrar este conto com um final feliz. Abandonei a idéia original, que não era original, e escrevi o final que me agrada. Não é original; todavia, satisfaz os meus anseios.

As senhas

Os segredos mais bem guardados do universo.

Ricardo, aos vinte e seis anos, era um homem de um metro e oitenta, magro, de ombros largos. Era casado com Suzanne e tinha duas filhas, Márcia e Adriana. Eu o conheci na festa de aniversário de um amigo comum, Marco Antonio. Ricardo era um ótimo contador de histórias e humorista irrivalizado. As pessoas, na festa, acercavam-se dele para dele ouvirem as histórias mais hilárias das quais se têm notícia, algumas picarescas, outras bocaccianas (narradas com sutileza e requinte, para não ferir suscetibilidades, nem constranger alguém), algumas de puro nonsense, outras quixotescas. Hilárias, todas elas. Era impressionante. E ele não se limitava a narrar as suas histórias; ele as animava com gestos – era ele um mímico versátil –, que vinham com tantos pormenores, que me fazem evocar os personagens de Charles Dickens. Direi – e sou ousado ao dizer – que ele era o Charles Dickens redivivo, o avatar do melhor escritor da era vitoriana. Tinha o talento literário do autor de David Copperfield e Oliver Twist, não na escrita, mas na narrativa oral. Cativante, animado, entreteve o aniversariante e todos os seus convidados durante quatro horas daquele sábado de verão. Assim que ele anunciou que teria de ir-se, pedimos-lhe que ficasse um pouco mais, insistimos, mas ele tinha de ir à casa de seu pai, então acamado, em auxílio à sua mãe, que lhe dedicava cuidados.

Dias depois, encontrei-me com Ricardo, em uma fila de banco. Ele contou tantas histórias engraçadas, que não percebemos que havíamos nos conservado quarenta minutos na fila (desejo que nenhum banqueiro leia este relato, que pode vir a inspirar-lhe a contratação de contadores de histórias para entreter as pessoas que, durante horas, permanecem, nas filhas das agências bancárias, à espera de atendimento). Depois daquele dia, encontramo-nos eu e Ricardo, em cinco ocasiões, num prazo de um ano. Encontramo-nos, na casa de Marco Antonio, há dois anos, no casamento de Marco Antonio e Neide, a sua segunda esposa (a primeira esposa dele, Tereza, falecera dois anos antes, em um acidente de moto). E Ricardo falou-nos da sua viagem aos Estados Unidos, à Inglaterra, do seu trabalho em uma empresa de engenharia eletrônica, e de outros capítulos de sua vida atribulada. Já conhecíamos todas as histórias que ele contou-nos antes de ele no-las contar, naquele dia; delas ele havia publicado, no Facebook, fotos e vídeos, mas ouvi-lo narrá-las era muito melhor. Acercamo-nos dele, para ouvi-lo. E ele entremeava o relato com comentários jocosos, alguns sarcásticos, e descrevia-nos personagens com os quais conviveu, alguns grotescos, aparentados com o Quasímodo, outros, hilários, saídos dos filmes de Harold Lloyd e Buster Keaton. Rimos gostosamente. Gargalhamos. Choramos de tanto rir. Em um certo momento da conversa, assediaram Ricardo duas crianças, Marcelo e Eliane, ele, de sete anos, ela de seis, ele, filho de Vinicius, primo de Marco Antonio, e Fabíola, ela, filha de Tadeu e Larissa, vizinhos de Marco Antonio, que lhe perguntaram qual era a senha da conta do Facebook e a do e-mail dele. E Ricardo disse-lhes:

– Sei guardar segredos. Sou o guardador dos segredos mais bem guardados do universo. Não os revelo para ninguém. A minha senha do Facebook e a minha senha do e-mail são segredos secretos. Eu nunca, nunca, nunca, e nunca, contarei para vocês quais são as minhas senhas. Vocês nunca saberão que ornitorrinco é a senha da minha conta do Facebook. Vocês nunca saberão.

E todos rimos.

E Marcelo gargalhou. E cessada a gargalhada, dirigindo-se a Ricardo, disse-lhe:

– Você disse.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo, simulando não haver compreendido a declaração de Marcelo.

– Você disse a sua senha do Facebook – respondeu Marcelo, mal conseguindo proferir as palavras.

– Eu? – indagou Ricardo, simulando surpresa. – Eu disse a minha senha do Facebook!? Não disse, não. Eu, a dizer a minha senha!? Nunca. Jamais. Ninguém sabe qual é a minha senha do Facebook, e ninguém jamais saberá. Jamais!

– Eu sei qual é a sua senha do Facebook – declarou Eliane. – Você disse a senha.

– Você sabe qual é a minha senha? – perguntou Ricardo, “incrédulo”. – Não sabe, não. Eu não disse qual é.

– Disse, sim – afirmou Eliane.

– Eu não disse, não – retrucou Ricardo.

– Disse – afirmou Marcelo. – E eu também sei qual é a sua senha do Facebook.

– Vocês não sabem qual é a minha senha do Facebook – disse Ricardo, que prosseguiu, desafiador: – Se sabem, então digam qual é.

E Marcelo e Eliane disseram, ao mesmo tempo:

– Ornitorrinco.

E Ricardo, simulando espanto, disse, olhos arregalados:

– O quê!? Como vocês descobriram qual é a minha senha do Facebook?

– Você a disse – declararam, sorrindo, Marcelo e Eliane.

– Eu? – perguntou Ricardo, interpretando o seu papel. – Eu? Eu nunca disse para ninguém que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. Nunca.

– Você disse de novo – exclamaram Marcelo e Eliane, e gargalharam.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo.

– A senha: ornitorrinco – disseram Marcelo e Eliane, e choraram de tanto rir da fisionomia, surpresa e assustadiça, de Ricardo, e da confusão dele.

– A senha? Eu disse a senha? – exclamou Ricardo, a simular espanto e incredulidade, arregalados os olhos, a passear as mãos pelo rosto, a fisionomia a exibir o horror que a revelação inspirara-lhe. – Vocês sabem a minha senha – e roeu as unhas. – Como vocês descobriram a minha senha? Vocês são espiões.

– Não somos espiões, não – defendeu-se Marcelo a si e a Eliane. Eliane não se agüentava de tanto rir, não conseguia falar, mal conseguia respirar; temiam que ela engasgasse com o pedaço de bolo que levara à boca.

– São espiões, sim – declarou Ricardo, alterando as suas expressões, fingindo olhá-los a Marcelo e a Eliane como a olhar para pessoas suspeitas, ar carrancudo, ferocidade estampada no olhar, sobrancelhas franzidas. – Vocês dois são espiões – e alterou o timbre da voz, fazendo-o áspero, cortante. – Espiões. Vocês são espiões. Vocês trabalham para o James Bond. Eu nunca disse que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. E eu nunca direi que orangotango é a minha senha do e-mail. Vocês dois nunca saberão qual é a minha senha do e-mail. Nunca! Nunca!

– Orangotango! – gritaram, simultaneamente, Marcelo e Eliane, a gargalharem; e todos gargalhamos.

– O quê!? – gritou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Quem contou para vocês que orangotango é a minha senha do e-mail? Quem?

– Você – disseram, a chorarem de tanto rir, Marcelo e Eliane.

– Eu!? – exclamou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Eu!? Eu!? Vocês – e apontou para Marcelo e Eliane – são espiões. Vou telefonar para a polícia – e tirou do bolso posterior direito da calça o telefone celular, e “discou” para a delegacia de polícia, e encetou conversa com o delegado.

A brincadeira estendeu-se por trinta minutos. As gargalhadas, tão intensas, que abalaram a estrutura das casas do quarteirão.

Decorridas duas semanas, encontramo-nos eu e Ricardo, na festa de aniversário de Mariângela, nossa amiga em comum, e lá, na casa dela, Ricardo disse, durante animada conversa com Marcos e Rúbia, filhos de Mariângela e Gustavo, com Geraldo, filho de Carlos Roberto e Madalena, e com Cauã, filho de Isaías e Isis:

– Sou um homem esperto, atilado, mais esperto do que o mais esperto de todos os homens que já pisaram na face da Terra. Eu nunca direi para ninguém que orangotango é a minha senha do e-mail e ornitorrinco é a minha senha da conta do Facebook. Ninguém nunca saberá quais são as minhas senhas! Nunca!

E Rúbia, antecipando-se a Marcos, Geraldo e Cauã, disse, rindo:

– As senhas são orangotango e ornitorrinco.

– O quê!? – exclamou Ricardo, simulando espanto, surpresa, admiração. – Como você descobriu quais são as minhas senhas? Quem as disse para você? Vocês são espiões? Vocês são espiões. Vocês descobriram as minhas senhas. Vou telefonar para a polícia, e vou falar para o delegado prender vocês – e pegou o celular, e “telefonou” para a polícia, e seguiu-se a brincadeira.

As crianças não se agüentavam de tanto rir. E os adultos, sob influência das gargalhadas das crianças e da mímica histriônica de Ricardo, riam de orelha a orelha.

Um mês não havia transcorrido, encontramo-nos Ricardo e eu, no clube de campo ***, onde, na presença de crianças, Ricardo repetiu a Brincadeira das Senhas, como codnominaram a brincadeira, que, infalivelmente, Ricardo promovia sempre que encontrava-se com crianças. Não haviam decorrido dez dias, Ricardo veio a falecer, pouco depois de um assalto. O assassino disparou contra ele, a queima-roupa, três vezes. Morreu Ricardo, na ambulância, a caminho do hospital. Compareci ao sepultamento. Reinava a tristeza. Apresentei condolências à mãe e ao pai do Ricardo, à Suzanne, e às órfãs, Márcia e Adriana. Lágrimas escorreram-me dos olhos, em uma golfada. Não as removi. Das minhas lágrimas não me envergonho.

Nos dias seguintes, freqüentei a casa de Suzanne, e ajudei-a a ajeitar algumas coisas que Ricardo deixara para trás. Um dia, na casa dela, estávamos Suzanne, Márcia, Adriana, o pai de Suzanne, Cristóvão, a mãe dela, Maria da Conceição, e o tio dela, Rubens, e outros familiares e amigos da família, quando alguém – não me recordo quem -, lembrou-se de acessar o computador, à procura de documentos, projetos e relatórios de Ricardo. Suzanne, no escritório de Ricardo, ligou o notebook, e clicou no ícone do e-mail, e, na sequência, no do Facebook. Para acessar as duas contas digitou, no campo reservado às senhas, na conta do e-mail e na do Facebook, a data de nascimento de Ricardo. Acesso negado. E digitou a data de nascimento de Ricardo com os números alterados, primeiro o ano, depois o mês, e o dia. Acesso negado. Digitou a sua data de nascimento. Acesso negado. Digitou o seu nome. Acesso negado. Digitou o nome de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome das filhas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento delas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Teófilo, pai de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dele. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Maria Amélia, mãe de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dela. Acesso negado. Digitou o nome de Albert Einstein, o cientista que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou o nome de Fibbonacci. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Fibbonacci, o matemático que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Fibbonacci. Acesso negado. Após o Facebook e o e-mail negarem-lhe o acesso trinta e quatro vezes, Suzanne desligou o notebook e, acompanhada de todos nós, retirou-se do escritório de Ricardo, e rumou, irritada, a ponto de debulhar-se em lágrimas, que, parecia, subiam-lhe para os olhos, em torrente, e em uma enxurrada se lhe despencariam dos olhos, para a sala-de-visitas, onde nos reunimos, e Cristóvão e Maria da Conceição pediram-lhe paciência, que, depois, descobririam a senha da conta do e-mail e a da conta do Facebook de Ricardo. Ele, era certo, as havia anotado em algum papel. Em qual? E onde o deixou? Ou, sugeriu Cristóvão, em algum arquivo, no computador, ou, sugeri, para descontrairmos um pouco, em algum arquivo particular no Facebook, ou em um rascunho no e-mail.

Na sala-de-estar, a conversar permanecemos, em tom baixo, respeitoso, durante um bom tempo. Maria da Conceição, preocupada com a saúde de sua filha, à ela dedicou toda a sua atenção até o instante em que Cristóvão soltou uma gargalhada, tão repentinamente, que assustou-nos a todos nós – e a ele também, presumo -, e bateu as mãos, na cabeça, uma, duas, três vezes, como que a se punir por algum pecado. Suspendemos a respiração, de imediato, a fitarmo-lo, abismados. Enlouquecera o velho? Um parafuso desconectara-se-lhe da massa cinzenta? Desmiolhara-se-lhe a cabeça? Liquefizera-se-lhe o cérebro? Coitado do ancião! O que lhe sucedia? Doeu-lhe o ventre de tanto gargalhar. Esparramou-se no sofá, o matusalém. Enfim, ele cessou as gargalhadas, e removeu, com um lenço que tirara do bolso traseiro da calça, as lágrimas dos olhos, e acenou para nós, pedindo-nos que o acompanhássemos. Não lhe exigimos explicações. Entreolhamo-nos, e levantamo-nos, curiosos, do sofá, e seguimo-lo. E ele entrou no escritório que havia sido do seu falecido genro. E ligou o notebook. E digitou a senha da conta do Facebook do Ricardo e a da conta do e-mail dele: ornitorrinco e orangotango.