O escritor que era original

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos buscou a originalidade durante quase toda a sua vida, que se estendeu por setenta e dois anos. Certo dia, reconheceu, após muitas horas de reflexão, que todas as narrativas que havia escrito os gregos, os romanos, os espanhóis, os italianos, os franceses, os russos, etc., etc., já as haviam contado séculos antes, e, então, certo de que se consumiu em trabalho infrutífero, reconheceu que havia desperdiçado, inutilmente, décadas da sua vida, mas estava feliz, pois entendia, agora, qual era a atitude apropriada para o labor literário, iluminado pela sabedoria universal. Decidiu queimar todos os seus textos. Arremessou resmas e resmas de papel à fogueira, e sentiu-se livre da opressão de todos os sentimentos angustiantes que o sufocaram durante as décadas que antecederam o seu ato de alforria, ciente de que conhecia, agora, a fórmula da excelência literária. A fogueira ardeu durante quatro horas. E a partir desse dia, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não leu sequer um livro, pois não queria que o influenciassem em sua obra que estava por escrever Homero, Boccaccio, Cervantes, Victor Hugo, Machado de Assis, Proust, Dostoiévski, Tolstoi, Turgueniev, e outros escritores influentes. Que eles influenciassem outros escritores; ele, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, não. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos sabia, agora, inspirado pela sabedoria universal, que a excelência literária encontra-se na simplicidade das coisas do mundo, e, atendendo aos seus anseios, sublimados pelas forças inspiradoras do universo – que estão além do alcance da mente debilitada das pessoas contaminadas pela civilização tecnológica na qual estão imersas -, poderia haurir da sabedoria da natureza, pois estava preparado para, sem açodamento, fruir do aroma natural das coisas do mundo, e escrever a sua obra perene. Não mais leu livros dos grandes mestres da literatura. Eles não eram imprescindíveis, como declaram inúmeros estudiosos, todos eles presunçosos, pernósticos, soberbos eruditos encastelados em torres de marfim. Desfez-se Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos dos seus livros. Não os cedeu para bibliotecas públicas, e nem para as universitárias; não os vendeu para livreiros, nem para bibliófilos, tampouco os doou para alguma instituição. Queimou-os. Sim. Queimou-os. Eram todos os livros, e os clássicos dentre todos, perniciosos para a inteligência humana, acreditava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. Debilitavam-na os livros. Impediam o florescimento da sabedoria, da criatividade, da originalidade, que, para ele era, até então, inalcançável. As suas reflexões conduziram-lo para a elevação da sua mente sob a inspiração benéfica da sabedoria universal, e soube, então, o que tinha de fazer, e o que tinha de fazer era inadiável. Já havia desperdiçado muitos anos da sua vida com leituras, que o oprimiram, o impediram de pensar, de criar, de conceber tramas e personagens originais. Os escritores e os estudiosos aos quais atribuem sabedoria e genialidade sufocam os espíritos dos homens, são nocivos ao desenvolvimento da originalidade, estava convencido Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. E não os condenam à fogueira. Enaltecem-los. Entoam loas para eles. Até hoje, Júlio César é difamado por ter ateado fogo à Biblioteca de Alexandria. Júlio César, segundo Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, merecia o reconhecimento da humanidade por haver tê-la livrado de obras que lhe roubariam a liberdade de espírito, que lhe propiciaria a originalidade de pensamento e de criação literária, científica, filosófica e política.

Recluso, em busca da originalidade, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos evitava contato com as pessoas, principalmente com os escritores. Viveu em busca da originalidade perdida, da originalidade que a humanidade perdeu, esta humanidade industrial, tecnológica, que se nega ao direito inalienável de usar de todo o seu poder mental, ao desconectar-se da natureza e de sua simplicidade inerente.

E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos reconheceu que todo o legado cultural da civilização é desprezível e emasculador.

Nas raras vezes que abandonava a sua reclusão, e dignava-se a olhar para um indivíduo da sua espécie, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos falava, e falava apenas o que considerava dever falar, não se interessando se os seus interlocutores, melhor, os seus ouvintes, estavam interessados no que ele lhes dizia; e os comensais, no almoço, no jantar, eram obrigados a ouvi-lo, em silêncio. E quando um deles esboçava um movimento a indicar-lhe o desejo de falar, ele o silenciava com um gesto, o cenho franzido, o olhar fixo, a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, o que lhe emprestava um aspecto inquisitorial. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não se dispunha a ouvir o que as pessoas desejavam lhe dizer, as histórias que elas desejavam-lhe relatar, os casos que elas desejavam-lhe narrar, as idéias a respeito dos mais diversos assuntos dos quais elas desejam-lhe inteirar e com ele debater; pois, acreditava, o espírito iluminado pela sabedoria universal e pela simplicidade da natureza, que lhe inspiravam pensamentos profundos e iluminadores, que as idéias que lhe queriam apresentar impedi-lo-iam de alcançar a tão almejada originalidade, e, alcançando-a, escrever a sua obra-prima, a sua obra suprema, celestial, porque sorvia da simplicidade da natureza, ainda não corroída pela civilização tecnológica, decantada esta em prosa e verso pelos industriais, pelos capitalistas ocidentais, pelos materialistas insensíveis. E a originalidade ele a alcançaria se não tivesse contato com idéias estranhas ao seu espírito, à sua alma, à sua condição primeva em contato com a natureza, condição que herdara dos seus mais antigos ancestrais, que jornadeavam pela Terra antes do advento da civilização, que desumanizou os humanos, deles eliminando o vínculo com a natureza. As pessoas que o ouviam, ouviam-no atentamente, fascinadas, embevecidas com tão excelsa sabedoria, com palavras de tão ardente vigor sapiencial, pronunciadas com a veemência encantadora de um venerável profeta antediluviano, e curvavam-se, reverentes, diante de tão extraordinária exibição de inteligência superior. Não o contestavam. Silenciavam-se. E admiravam-lo, alumbrados. Raros os que o criticaram. E estes os admiradores de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos repudiaram, e cortaram com eles as relações; excluíram-los do círculo de amizade e camaradagem. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era um gênio da literatura moderna, diziam dele os seus admiradores. As idéias dele iam de boca em boca; disseminavam-las, e rapidamente, nos círculos intelectuais, universitários, literários, em todos os quadrantes do Brasil. As suas palestras, sempre repletas de ouvintes embevecidos. Nas universidades, ouviam-lo, maravilhados. Nas academias, reverenciavam-lo, curvados, joelhos no chão, a cabeça sobre o peito. Consagraram-lo o maior gênio das letras nacionais. E não atentaram para um detalhe: De Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não havia nem um livro publicado, e ninguém jamais leu um texto de sua autoria. E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, após haver lançado ao fogo todos os seus textos, os quais escreveu, segundo ele, durante as décadas em que se desencaminhou, influenciado por idéias equivocadas, que o angustiavam, e ele vivia, macambúzio, nos recantos sombrios da sua biblioteca e do seu espírito, em busca da arte literária que os livros não poderiam lhe ensinar, nenhum outro texto escreveu. Pensava as suas idéias, com esforço intelectual incomum, rara na história da espécie humana, e mentalmente as reelaborava, diuturnamente, exaustivamente, e incansavelmente, e as escreveria quando, e se, atingisse o ápice da expressão literária, perfeita, irretocável. Os seus admiradores desejavam que tal dia não tardasse a chegar. Laurearam as academias Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos com títulos de prestigio. Durante as palestras, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era infatigável – aludia à sua obra-prima, que daria à luz assim que atingisse a perfeição, fruto da originalidade almejada, dizia, e traria luz à medíocre literatura brasileira moderna, e, também, à literatura mundial, conquanto acreditasse que ela, principalmente a européia e a norte-americana, fosse infensa à simplicidade, à originalidade, corroída que estavam por técnicas narrativas modernas, dessensibilizadoras, hostis à verdadeira arte literária, que nasce da natureza humana em comunhão com a natureza, num vínculo imarcescível, diferindo, portanto, da literatura brasileira, da literatura latino-americana, da literatura africana, da literatura árabe e da literatura do sul da Ásia, as quais, embora tenham absorvido alguns vícios da literatura moderna, conservam, latentes, a beleza intrínseca do seu contato com a natureza. E arrancava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos ovações grandiloquentes e aplausos ensurdecedores do público, que, em estado letárgico, ouvia-o, mesmerizado.

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos granjeou reputação de beletrista provido de intelecto prodigioso.

Em vida, nada publicou. Morto, os admiradores da sua obra inexistente difundiram o seu nome, envolvendo-o com a aura de gênio original, universal.

Homenagearam-lo as academias.

No túmulo de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, o epitáfio: “Aqui jaz o autêntico gênio da literatura brasileira, ignorado pelo público iletrado, admirado por homens superiores que souberam reconhecer-lhe a excelência literária e apreciar-lhe a obra, que, de tão original, ele nunca a escreveu, e ninguém a conheceu”.

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Monólogo de um doido varrido

Debilitou-me uma doença psicológica bacteriana de origem vegetal pelos psicólogos denominada patologia, isto é – traduzindo para a linguagem de gente que pensa com o próprio cérebro, manuseia os objetos com as mãos, corre com os pés, olha com os olhos, ou com um olho só, caso se trate de um ciclope, e ao se ajoelhar dobra os joelhos -, patologia, dizia eu, doença da qual estou acometido, é a doença das pessoas obcecadas em estudar patos e congêneres. Congêneres, explico, para as pessoas que não sabem o que tal palavra significa, e também para as pessoas que desconhecem dela o significado, é o plural de congênere. Dadas estas explicações, esclarecedoras, que eliminam toda e qualquer dúvida quanto à acepção da palavra da qual estou a tratar, e, ao tratar dela, trato dela, não com a negligência que muitas pessoas das palavras tratam, seja a da qual tratei, seja de qualquer outra palavra, mas com a seriedade que compete aos gênios nos quais a vida infligiu dores provenientes da patologia, em decorrência da ingestão de penas, bicos, cascas de ovos, pés de patos, e, também, de marrecos, gansos, paturis, donaldes, patinhas e gastões, espécies, estas, de bípedes dotados de indumentária que, embora apropriada, é inapropriada para os indivíduos de sua espécie, mesmo que pertençam à espécie alheia, prossigo: A patologia, dizia eu, doença psicológica bacteriana de origem vegetal, derivada das poções mágicas da Maga Patológica, que, com o auxílio da Madame Mim, concebeu receitas compostas dos mais inusitados ingredientes, pertence à família das doenças da classe das categorias aparentadas com a síndrome de Estocolmo – detectada, pela primeira vez, em Helsinque, num laboratório situado em Berlim e localizado em Tóquio –  e com os processos jurídicos do corredor polonês. E quem é o corredor polonês? Desconheço-lhe o nome. Sei, no entanto, e todavia, que é ele natural da Polônia, embora tenha nascido na Hungria, numa noite de lua cheia no Japão; e assistiu ao seu nascimento um homem, o parteiro, grego da ilha de Creta, que lutou, na companhia de Aquiles e Odisseu, na guerra de Tróia, e foi um dos construtores do cavalo de madeira, o famosíssimo Cavalo de Tróia, que era, na verdade, um burro de eucalipto sintético; além disso, ele concebeu um sistema filosófico racionalista, teleológico, mecanicista, heliocêntrico, holístico, que seu aprendiz, o Eleutério, que não é um elemento da tabela periódica, disseminou em todo o mundo, reservando-o para si, sem que o tenha transmitido para outra pessoa qualquer. Mas a sua filosofia, é certo, e quanto a isso não restam dúvidas, foi disseminada em todo o mundo, pois, afinal, ele, isto é, o Eleutério, a aventou aos furacões, ciclones, tufões, que de tempos em tempos varrem a costa leste do litoral e o litoral da costa leste do continente americano banhado pelo Oceano Atlântico, cujas águas são salgadas, e nelas vivem baleias; e Eleutério não se limitou a apenas, e tampouco unicamente, aventá-la aos furacões, tufões, ciclones; ele também a externou para as águas dos oceanos, que a espalharam por todo o planeta. E quem é o Eleutério? Não sei. Eu nunca o vi mais gordo, e nem mais magro, e nem mais alto, e nem mais baixo. E eu nunca ouvi falar dele, e acerca dele nenhuma palavra eu li. Mas o Eleutério não é importante; importante é a distância entre a Terra e a Lua. A Lua, explico, para eu mesmo, para que eu possa entender a minha idéia que me apresento, quando se aproxima da Terra dela fica mais próxima, e quando dela distancia-se dela fica mais distante, e a Terra, ao distanciar-se da Lua quando a Lua dela distancia-se, dela afasta-se, e quando dela aproxima-se ao mesmo tempo em que ela de si aproxima-se encurta-se a distância que há entre elas. Tal fenômeno ainda não foi inteiramente, e tampouco parcialmente, compreendido pelos seres humanos que o estudaram, e muito menos pelos seres desumanos que nunca se dedicaram ao seu estudo. É inexplicável, e inexplicável será até o dia em que alguém o compreenda, e, compreendendo-o, o entenda, e, entendendo-o, formule as explicações que o explique, e explique, também, a relação de causa e efeito entre a extinção dos tiranossauros rex e o milésimo gol do Pelé. Por que o seu milésimo gol Pelé o marcou numa cobrança de pênalti, e não numa cobrança de escanteio? Há uma relação de causa e efeito, e de princípio, meio e fim, entre os dois eventos, afinal, pois, os tiranossauros rex tinham dentes, e o Pelé tem dentes também; e a existência de dentes na boca do Pelé e nas bocas dos tiranossauros rex indica similaridades fenomenológicas existencialistas entre o ludopédio, isto é, o futebol, ou soccer, como dizem os norte-americanos, e os filmes de Steven Spielberg. Além disso, um tiranossauro rex, dias atrás, invadiu-me a televisão, e surrupiou-me das mãos o controle remoto, e, antecipando-se a mim, premiu do controle remoto um botão, e teletransportou-se para outra galáxia, onde encontrou, num planeta piramidal, no sopé de uma montanha, um ovo cósmico, que explodiu no mesmo instante em que Moisés rachou-o com um machado, matando o tiranossauro rex, mas não se matando no processo, pois, afinal, ele, o Moisés, em decorrência do deslocamento de ar da explosão explosiva, foi arremessado à Terra, e caiu, no topo do cume da ponta do Everest onde encontrou o Homem das Neves Abomináveis e o Abominável Homem das Neves a confabularem acerca da relatividade do tempo absoluto, a tempo de ouvir o Homem das Neves Abomináveis comentar, dando por encerrada a sua entrevista com o Abominável Homem das Neves: “O tempo, sendo relativo, não pode ser compreendido como tempo relativo, afinal, pois, sendo relativo, o tempo é, portanto, absoluto, pois, afinal, a sua condição temporal não é atemporal, afinal, pois, ele existe como fenômeno cósmico, portanto, real, dotado de propriedades absolutas, conquanto elas não eliminem as suas propriedades relativas, afinal, pois, a relatividade do tempo, ao mesmo tempo que define o tempo da relatividade, perpetua a noção absoluta do tempo relativo conjugada à noção relativa do tempo absoluto conquanto a sincronia dos eventos simultâneos coordenados pelas cordas que compõem a infinitude do tecido cósmico do universo observado de dentro de um prisma desmaterialize as partículas de nêutrons, que estão a singrar o oceano sideral há bilhões de anos e cujo destino é desconhecido de todos. Sabe-se, apenas, até o presente momento, que, em decorrência da eclosão do Big Bang, os italianos inventaram o spaghetti, os franceses a guilhotina, os alemães o salsichão, os gaúchos o churrasco, e o Bethoveen a surdez”. E aqui, uma avalanche arrastou Moisés até uma aldeia ameríndia txucarramãe onde um índio tupinambá indagou-lhe: “A Capitu capitulou?”, e de Moisés não obtendo resposta, o índio tupinambá entregou-lhe duas placas rochosas com inscrições que Moisés não soube decifrar, e cujo significado o silvícola desconhecia, e o silvícola exortou Moisés a ir até o Egito procurar por Champollion, que poderia lhe prestar consultoria, e ajudá-lo a traduzir as inscrições. Moisés entendeu que o destino o chamava a empreender uma tarefa que ele, e apenas ele, e ninguém mais, poderia empreender, e principiou a jornada; no entanto, todavia, porém, devido a sérios problemas no intestino, teve ele de adiá-la. Não sei se ele foi, ou não, bem sucedido em sua empreitada; só sei que eu, exausto de tanto pensar, tenho, e já, de encerrar as minhas reflexões para eu não vir a enlouquecer, pois, afinal, eu enlouquecerei caso eu não cesse, e já, de pensar, para não vir a carecer de forças que conservem a minha sanidade mental. E agora vou dormir, para poder acordar amanhã cedo, preservadas todas as minhas faculdades mentais, e dar seqüência aos meus pensamentos. Desejo-me bons sonhos. E boa noite.

Dois tiros

Quarta-feira. Temperatura amena.

Celso, imerso em seus pensamentos, andava, tranquilamente, pela avenida Dom Pedro II.

– Entregue-me a carteira – ameaçou-o um jovem alto, espadaúdo, moreno, de cabelos desgrenhados, que lhe encostou a ponta de uma faca na ilharga direita.

Celso sentiu a ponta afiada da faca, e, automaticamente – com movimentos robóticos, dir-se-ia -, retirou a carteira do bolso posterior direito da calça, e entregou-a ao jovem, que arrancou-lha da mão, com violência, e correu, e o seu comparsa, jovem magro, loiro, branco, de um metro e setenta de altura, o acompanhou. Desapareceram no meio da multidão. Celso levou a mão direita ao peito, e sentiu o coração bater descompassado. Aos poucos, recuperou o controle de si. Demorou para entender o que ocorrera; e suspirou, aliviado. Uma mulher, que testemunhou o assalto, de Celso aproximou-se, e aconselhou-o a ir à delegacia de polícia.

Na delegacia, vinte minutos depois, Celso descreveu aos policiais os dois assaltantes.

Transcorreram-se os dias. Em frente à loja Novidades, Celso e um seu amigo, Edson, conversavam quando aquele entreviu, indo em direção a eles, os dois jovens que lhe roubaram a carteira, e empalideceu, e aceleraram-se-lhe os batimentos cardíacos. Os dois jovens seguravam, cada um, uma corrente pela alça; um dos jovens trazia consigo um rottweiller; o outro, um pitt-bull.

– O que houve? – perguntou Edson a Celso, ao surpreender-lhe a brusca mudança de voz e a palidez repentina.

Um dos jovens, o loiro, gritou o nome de Edson. Edson voltou-se, saudou-o. Os dois jovens aproximaram-se. Reconheceram Celso. Sorriram. Saudaram, com apertos de mãos, Edson, e Celso, que, pálido, trêmulo, saudou-os, constrangido, intimidado. Conversaram com Edson, durante cinco minutos, a respeito dos cachorros que levavam com eles. Despediram-se. Fitaram Celso, sorridentes, desejaram-lhe felicidades, e afastaram-se.

– Eles me assaltaram, na semana passada – disse Celso, assim que os dois jovens distavam cinquenta metros.

– O Osvaldo e o Ricardo? – perguntou Edson, surpreso.

– Sim – respondeu Celso. – Eles roubaram a minha carteira. Você sabe onde eles moram?

Edson forneceu-lhe o endereço de Osvaldo.

No dia seguinte, Celso pegou o revólver de seu pai.

– Aqueles vagabundos me pagarão caro – rosnou Celso. – Vou enviá-los para o inferno – e rumou para a casa de Osvaldo.

Quinze minutos depois, chegou ao seu destino. Premiu a campainha. Ouviu os latidos dos cachorros. Ricardo atendeu à porta, reconheceu Celso, encarou-o, e sibilou:

– O que você quer, idiota?

Celso franziu o cenho.

Os cachorros intensificaram os latidos.

Celso apontou o revólver para a cabeça de Ricardo, que, de imediato, emudecido, surpreso, arregalou os olhos, e recuou dois passos.

Celso, com voz cavernosa, ameaçadora, deu-lhe a ordem:

– Entre!

Ricardo obedeceu-o, prontamente, mesmerizado pelo revólver apontado à sua cabeça.

Recrudesceram os latidos do rottweiller e do pitt-bull.

No interior da casa estava Osvaldo, que, ao ver Ricardo e Celso, não esboçou nenhum gesto. Fitou-os, em silêncio.

Celso pôs os dois à mira do revólver.

– Vim buscar a minha carteira – sentenciou Celso.

O rottweiller e o pitt-bull latiam, infatigáveis.

Osvaldo entregou a carteira para Celso, que, com brusquidão, retirou-lha da mão, e perguntou-lhe, ríspido:

– E o dinheiro?

– Gastamos… – respondeu, voz trêmula, Osvaldo.

– Malditos cães! – esgoelou-se Celso, que apertou o gatilho duas vezes. Com o primeiro tiro, matou o rottweiller; com o segundo, o pitt-bull.

E correu, célere.

O conto e o prefácio

Pedi, há um mês, para um amigo meu um prefácio para um conto que escrevi. Antes não lhe tivesse pedido. Ele dissecou o conto, cortou-o em fatias, e o resumiu. Antes de publicar o conto, detive-me, e perguntei-me porque eu o publicaria, se o prefácio apresenta, em síntese, toda a sua trama. Eu repetiria, com a publicação do conto, o que está no prefácio, e o leitor ao lê-los esbravejaria: “Maldito sejas, Sergio! Li duas vezes a mesma história. Tu me fizeste perder o meu tempo. Vá para o inferno. Tenho mais o que fazer, imbecil!”. E eu teria de dar-lhe razão, e calar-me, e reconhecer a minha insensatez. E eu me perguntei uma vez mais porque eu publicaria o conto, se o conto conta o que o prefácio já contou. E decidi publicar apenas o prefácio que para o meu conto o meu amigo escreveu. Decidido, então, a publicar apenas o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, perguntei-me se o conto poderia, um dia, se encontrado por alguém, vir a ser publicado; e decidi, sem pensar duas vezes, queimá-lo, e queimei-o. Queimado o meu conto, nenhum risco existe de ele vir a ser publicado. E perguntei-me, não muito tempo depois, se eu publicaria o prefácio que para o meu conto, que eu queimara, meu amigo escreveu. Sim, eu o publicaria. E para mim justifiquei a minha decisão, que para o leitor é, presumo, uma insensatez: Prometi ao meu amigo – o autor do prefácio – que eu publicaria o prefácio que lhe pedi para o meu conto. Ele o escreveu. E eu, para não faltar com a promessa que lhe fiz e não perder o amigo, o publicaria. E prometi-me nunca mais pedir para um amigo meu, ou para qualquer outra pessoa, um prefácio para um conto meu. Eu escreverei um prefácio para os meus contos. Aliás, um prefácio para qualquer conto meu eu jamais escreverei. E se eu, no prefácio, incorrer em atitude similar à do meu amigo que escreveu para um conto meu um prefácio, e tiver de, repetindo no prefácio a trama do conto, abandonar o conto? Prefiro não arriscar. E o meu amigo, o prefaciador, perguntou-me, há uma hora, do meu conto, e eu lhe disse que eu o queimara, e ele, horrorizado ao ouvir-me, exigiu-me explicações. Dei-lhas; e ele disse que, como o meu conto não seria publicado, ele não permitiria que eu publicasse o prefácio que ele escreveu para o meu conto. E discutimos. E assim que se acalmou, meu amigo pediu-me o prefácio que me havia escrito, para relê-lo. Dei-lho. E ele, para a minha surpresa, correu, e tirou do bolso da camisa uma caixa de fósforos, e ateou fogo às folhas com o prefácio. Assim que me dei conta do que se passava, as chamas já haviam consumido todas as folhas. E queimados o meu conto e o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, a humanidade – triste humanidade! – jamais terá o prazer de ler o meu conto e o prefácio que para ele escreveu o meu amigo.

O dia mais triste

Na altura dos seus setenta anos era meu avô um homem de físico vigoroso e porte altivo. Calvo nas têmporas, rareavam-lhe as cãs no topo da cabeça – fios esparsos e curtos mal cobriam as manchas vermelho-amarronzadas que lha salpicavam. Dizia-nos ele, para mim e para seus outros netos, que tais manchas eram sujeirinhas que os anjinhos, peraltas e traquinas, arremessavam, do céu, para a Terra, para irritar os velhinhos.

Tinha um hábito meu avô: Sempre que íamos passear, antes de se retirar da sua casa, enchia ele o bolso esquerdo da camisa com balas, para distribuí-las para as crianças.

Certo dia, perguntei-lhe:

– Vovô, por que o senhor põe as balas no bolso esquerdo, e não no bolso direito?

E respondeu-me ele com a serenidade costumeira:

– Para as balas ficarem mais perto do coração.

Satisfiz-me com a resposta, que me agradou, animou-me, e sorri.

Embora mal chegado aos seis anos, tinha eu sensibilidade para captar os sentimentos que as palavras de meu avô traduziam.

Um dia, entristeceu-se meu avô. Que dia? Não me recordo. A minha memória não me permite evocar, com exatidão, o dia, a hora, o local em que se deu o evento que entristeceu meu avô. E tais detalhes são irrelevantes. Relevante foi o que se sucedeu, naquele dia, idos, já, trinta anos. Gravei, no recanto mais fundo da minha alma, os detalhes essenciais.

Estava meu avô, como lhe era hábito, vestido de calça social preta, sapatos pretos e camisa branca de dois bolsos, o bolso esquerdo estufado de balas, e meu avô esvaziava-o aos poucos, tirando uma bala, para dá-la a uma criança, e outra bala, para dá-la à outra criança… E repetia meu avô o ritual: Saudava a criança, perguntava-lhe o nome, perguntava-lhe se era ela obediente, passeava-lhe a mão direita pela cabeça, ajeitava-lhe os cabelos, fazia-lhe graça no queixo, e presenteava-a com uma bala, e brilhavam os olhos da criança e os de meu avô, que irradiava felicidade, como se admirasse um anjo.

Estava, já, quase vazio o bolso esquerdo da camisa de meu avô, quando, após atravessarmos a rua, aproximou-se meu avô de um menino de três, talvez quatro, anos, e uma mulher, sua mãe, e meu avô, ao mesmo tempo em que enfiava a mão esquerda no bolso esquerdo da camisa para dele tirar uma bala, e estendia a mão direita na direção da cabeça do menino, e abria a boca para perguntar ao menino o nome, o menino, cenho franzido, olhar maldoso, fitou meu avô, e disparou, ríspido, destilando ódio:

Fidaputa!

Uma flecha envenenada alvejou, no coração, meu avô, que se petrificou e empalideceu, estupidificado. Não conseguiu meu avô recompor-se; conservou-se ele inclinado para a frente, a mão esquerda dentro do bolso esquerdo da camisa, o braço direito estendido na direção do menino, os dedos quase lhe tocando a cabeça, e, na boca entreaberta, presas, as palavras.

Fidaputa! – repetiu, olhos fixo em meu avô, o menino, num tom mais elevado, e firme, e cortante.

E a mãe do menino, curvando-se, aproximou sua cabeça da dele, e pousou-lhe, nas costas, intimidada, e cautelosamente, a mão esquerda, e disse-lhe, constrangida, voz débil, como a suplicar-lhe:

– Querido, não fale assim com o vovozinho. Você é um menino bonzinho.

Enquanto assim dirigia-se a mulher ao seu filho, meu avô recompôs-se, de dentro do bolso esquerdo da camisa tirou a mão esquerda vazia, e recolheu o braço direito, sem desviar o olhar; olhava, entristecido, rosto lívido, sentindo profunda dor no peito, para o menino.

Senti cessar o coração de meu avô.

– Querido, diga bom-dia para o vovozinho – suplicou a mãe ao menino.

Fidaputa! – proferiu o menino, firme, a acutilar meu avô com aquele olhar diabólico, que gelou-me a espinha.

– Não diga isso, querido – suplicou-lhe a mãe, em tom débil, servil. – Seja bonzinho.

– Não! – respondeu-lhe o menino, ao mesmo tempo em que desferiu-lhe um tapa no rosto.

E a mãe massageou o rosto, fitando, com olhar servil, amedrontado, seu filho; curvada, pegou-lhe as mãos, e disse-lhe, em tom débil, a suplicar-lhe que andasse.

O menino, ao dar os primeiros passos, sobrancelhas dobradas sobre os olhos, então no fundo de crateras abismais, que lhe emprestavam ao rosto o semblante de um demônio, fitou meu avô, e rosnou, cavernoso:

Fidaputa!

E afastaram-se de meu avô e de mim a mãe e seu filho.

Encheram-se de lágrimas os olhos de meu avô, e um fio de lágrimas, que reluziu à luz do Sol, escorreu-lhe do olho esquerdo, e caiu-lhe dentro do bolso esquerdo da camisa.

Segurei a mão de meu avô, e apertei-lha, firmemente, para ampará-lo.

E rumamos para casa, a passos lentos, meu avô cabisbaixo, e eu a fitá-lo a curtos intervalos, e ler-lhe no semblante dor profunda.

Passados, já, trinta anos, falecido meu avô a dezesseis, sempre que deste episódio me recordo, pergunto-me: Quem merecia ouvir censuras, o menino, ou sua mãe?

Língua Portuguesa e Matemática: Essenciais.

… e o governo Temer apresentou uma reforma na Educação. Mais uma das muitas que o Brasil já viu. Desta vez, a reforma irá melhorar a educação brasileira? Não conheço os detalhes da proposta do governo; não entrarei, portanto, no mérito da questão. Limito-me a dizer que são essenciais a Língua Portuguesa e a Matemática. Se não se aprende, e bem, estas duas disciplinas, não se aprende, e bem, nenhuma outra. E das duas, a principal é a Língua Portuguesa. Não se conhecendo o Idioma Pátrio (infelizmente negligenciado nas escolas), não se pode ler, e tampouco compreender o que se lê. É impossível entender um enunciado de um problema de Matemática se se desconhece a Língua Portuguesa. Não se pode entender um texto de História, Geografia, Sociologia, Filosofia, enfim, de qualquer disciplina, se se desconhece a Língua Portuguesa. E as ciências exatas (Física, Engenharia, e outras) dependem da Matemática. E quantos professores, e bem preparados, de Língua Portuguesa e de Matemática tem o Brasil? Sabendo-se que há duas gerações a Educação brasileira desceu abaixo da linha da mediocridade, pode-se concluir que o Brasil, para reconstruí-la (diga-se a verdade, a Educação brasileira nunca foi uma das sete maravilhas do mundo), terá um trabalho hercúleo pela frente, trabalho que se estenderá pelas próximas três décadas, no mínimo, afinal, não se reergue, em pouco tempo, a Educação de um país devastado pela imoralidade, pela desfaçatez, de indolência moral, e pela idiotização e imbecilização produzidas pela instituição que deveria educar: a Escola.

Más notícias… Quem aguenta?

Ligo o telejornal (de qualquer emissora) e lá vem um tsunami de más notícias, todas desimportantes: bandido assaltou uma lojinha lá onde Judas perdeu as botas, e matou uma pessoa; um desbarrancamento, na cidade Tal, perto da cidade onde Judas perdeu as botas, matou uma pessoa; na cidade que fica perto do inferno um homem flagrou sua esposa com o Ricardão, aos beijos e amassos, mais amassos do que beijos, matou os dois, e matou-se em seguida com um tiro na testa; na cidade Qual, que fica nas proximidades de um lugar que não está no mapa, mulher matou, com três facadas, a amante do marido; e na cidade Talqual um homem, pra lá de Bagdá, matou, à pedradas, um cachorro vira-lata, que lhe tirou das mãos, com uma dentada, o pedaço de pão… E dá-lhe pormenores!!! Quem vive bem injetando, direto na veia, quero dizer, no cérebro, uma dose diária de más notícias?