Os sete guerreiros

Eram sete os homens que se apresentaram, altivos, imperiosos, à convocação do patriarca daquela pequena tribo. Os mais vigorosos, os mais rápidos, os mais ágeis, os mais habilidosos no manejo do bastão, do arco-e-flecha, da funda, do machado. Eram os mais valorosos homens da tribo. A coragem deles todos lhas reconheciam. Provaram-na ser dela possuídos nos campos de batalhas, nas caçadas, no desbravamento de florestas desconhecidas. Disse-lhes o patriarca que da tribo avizinhavam-se inimigos oriundos de plagas distantes. Eram bárbaros, homens asselvajados crudelíssimos. Vaticinou o patriarca a aniquilação da tribo pelos bárbaros. Não poderiam confrontar os inimigos, que se aproximavam, e rapidamente. Eram eles duas centenas de homens poderosos, e desumanos. E na tribo, de pouco mais de uma centena de almas, havia apenas sete guerreiros, sete guerreiros que, mesmo valorosos, não poderiam confrontar, num embate direto, os inimigos, que avançavam em direção à tribo. Pediram os sete guerreiros ao patriarca a ordem, que ele, patriarca, dissesse a eles, guerreiros, qual tarefa eles teriam de empreender, que eles a empreenderiam. E o patriarca, num tom altivo, que transparecia as dores de um coração confrangido, deu-lhes a ordem: Os sete guerreiros permaneceriam na tribo, enfrentariam os bárbaros que da tribo se aproximavam, enquanto ele, patriarca, já octogenário, e os enfermos, e as crianças, e os jovens, e as mulheres, e os velhos, rumariam para uma região segura, longe do alcance dos bárbaros. Os sete guerreiros acolheram a ordem patriarcal. O destino deles estava traçado: Os sete guerreiros encontrariam a morte no fio dos machados dos seus inimigos. E prontamente principiaram os preparativos para a longa jornada de todos os da tribo para uma terra segura. E ergueram armadilhas. E os sete guerreiros despediram-se do patriarca após dele receberem a benção. E despediram-se de suas esposas e de seus filhos, e dos amigos, enfim, de todos da tribo. Escorreram lágrimas dos olhos de todos; dos olhos dos guerreiros e do patriarca, não; estes guardaram no peito a dor, e no rosto exibiam coragem e altivez. E principiaram os da tribo a expedição. E da tribo afastaram-se, sob os olhares dos sete guerreiros. E da tribo aproximava-se a horda de bárbaros, ameaçadora, que trazia consigo, guiando-a, a morte; e os sete guerreiros, certos de que morreriam no confronto com eles, prepararam-se para enfrentá-los, e retardar-lhes o avanço, dando tempo para os da tribo da tribo distanciarem-se, e preservarem a vida. E principiou-se o embate na segunda noite após o dia em que o patriarca convocou os sete guerreiros para dar-lhes a notícia da aproximação dos bárbaros. Os da tribo já iam longe, mas não tão longe que os bárbaros não os pudessem alcançar em menos de um dia, e os alcançariam se não lhes tivessem interrompido o caminho os sete guerreiros. Surpreendidos pelas armadilhas preparadas pelos sete guerreiros, os bárbaros foram obrigados a deterem-se, e a recuarem. E logo nos primeiros minutos de combate, oito bárbaros despencaram, no chão, mortos, todos esmagados por troncos de árvores, então pendurados, por cipós, no topo das árvores. Esbravejaram os bárbaros, confusos, e agitados, e furiosos; esgoelavam-se; proferiam ameaças, com vozes tonitruantes. Eram guerreiros. Não temiam a morte. Cautelosos, após se recomporem-se da surpresa inicial, esquadrinharam os arredores com seus olhos de visão penetrante, à procura daqueles que os atacaram, e deles não viram nem uma silhueta, nem um vulto. Os sete guerreiros estavam ocultos aos olhos deles. Eram mais de duzentos os bárbaros, e apenas sete os guerreiros, mas naquele princípio do confronto a vantagem era destes, que conheciam a região, e aqueles não, e os haviam surpreendido. Tal vantagem, todavia, os sete guerreiros não a manteriam por muito tempo. O destino já lhes havia reservado a morte. Dilatou-se o embate entre os sete guerreiros e os bárbaros. Estes em vão tentavam anular a vantagem daqueles. E os da tribo, em jornada ininterrupta, distanciavam-se do local em que dias antes havia uma tribo. E três dezenas de bárbaros encontraram a morte, fendido o pescoço pelo fio cortante de um machado uns, transpassado o coração por uma flecha outros, esmigalhada a cabeça por um bastão outros, rachada a fronte por uma pedra pontiaguda uns. E diante dos contratempos, e das mortes que se seguiram, os bárbaros recuaram alguns metros, cessaram o arremesso de flechas contra inimigos, que lhes eram invisíveis, e reagruparam-se, e planejaram um ataque a eles, seus inimigos, os quais eles não sabiam quantos eram, e cuja localização ignoravam. Iriam induzi-los a se lhes revelarem. E dispersaram-se. E transcorreram-se três dias do início do confronto, e o plano traçado pelos bárbaros produzia, após a morte de vinte e dois bárbaros desde que a puseram em prática, uma reviravolta. Revelaram-se aos seus inimigos três guerreiros. E os combates corpo-a-corpo principiaram-se após um curto interregno. E bateram-se os bastões. E entrechocaram-se os machados. E nove homens tombaram, mortos. Seis bárbaros, e três guerreiros. E os quatro guerreiros remanescentes não suportariam por muito tempo mais o assédio dos bárbaros. Sentiam, já, os efeitos da fome, da sede, do cansaço. Tombariam. Mas resistiriam o quanto pudessem. Invocavam, em imaginação, os da sua tribo, e se conservariam em pé, armas em punho, lutando, e poriam fora de combate vários de seus inimigos. E principiou, enfim, o epílogo do embate. E a luta, renhida, entre os quatro guerreiros e os quase duzentos bárbaros persistiu durante a manhã e a tarde de um dia. Entrechocaram-se os machados. Bateram-se os bastões. Romperam o céu flechas e pedras. E além de trinta e oito bárbaros, tombaram os quatro guerreiros, cobertos de ferimentos, cravejados de flechas, rubros de sangue, lutando, machado em punho, calcando seus inimigos sob os pés, encarando-os, desafiando-os. Os guerreiros, tão heróicos, tão valentes, que os bárbaros, em sua rudeza de costumes, ofereceram-lhes enterro condigno. E os bárbaros na tribo agora devastada permaneceram, após enterrar todos os bárbaros mortos, dois dias. E seguiram jornada por sobre o rastro abandonado pelos da tribo. Estes já haviam transposto rios, superado montanhas, não sem adversidades. Alguns dos da tribo encontraram a morte. Os enfermos sucumbiram ao desgaste que o esforço da empresa cobrou-lhes. Os que encontraram forças para seguir viagem até uma região acolhedora além de um imenso mar, fora do alcance dos bárbaros, que ignoravam a tecnologia náutica, foram agraciados com uma vida longeva, e descendentes, e viram sua sociedade progredir. E transcorridos cinco mil anos, seus descendentes escrevem narrativas épicas, cujos heróis são os sete guerreiros que se sacrificaram por amor aos seus entes queridos.

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Sob o domínio do desejo

Ludmila, jovem de olhar meigo e sorriso encantador, é uma das mulheres mais sedutoras que já pisou na face da Terra. Para seduzir o homem que deseja, ela não emprega nenhum artifício. Ela nasceu para seduzir. Sua beleza deslumbrante, seu sorriso cativante, seu corpo vistoso, seu olhar divino e seu pudor angelical seduzem todos os homens. Há mulheres mais belas e mais atraentes; nenhuma é tão sedutora.

Os homens, ao admirá-la, perdem a cabeça. As mulheres, principalmente as bonitas, invejam-na, e esforçam-se para entender a atração que ela exerce nos homens, e dela copiam as roupas, o penteado, o perfume, o timbre da voz, o sorriso, o andar, o olhar, mas não conseguem copiar-lhe o poder de sedução; algo, na postura de Ludmila, lhes escapa.

Certo dia, Ludmila conheceu um homem que resistiu ao seu poder de sedução, aos seus encantos.

Quem é o homem que resistiu aos encantos de Ludmila?

A história teve início numa quente manhã de segunda-feira.

Ludmila caminhava pela avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso. Usava um vestido decotado cujas orlas inferiores mal desciam até a metade de suas coxas; o decote generoso deixava à mostra a parte superior de seu busto esplêndido. Os homens embasbacavam-se, boquiabriam-se ao admirá-la. Não foram poucos os que assobiaram para Ludmila, expressando todo o desejo que ela lhes inspirava. Queixocaídos diante de tão esplendorosa maravilha, atoleimados, mergulhavam num abissal estado letárgico do qual emergiam muito tempo após Ludmila sair do campo visual deles, mas a imagem daquele corpo deslumbrante perdurava-lhes no espírito.

Em frente da loja Casa Futurística, Ludmila viu um homem de óculos, um pouco mais alto do que ela, bonito, atraente, esbelto, de cabelos castanhos penteados para trás. Ele atraía a atenção de todas as mulheres, que suspiravam ao admirá-lo. Uma vez ou outra, quando uma mulher encarava-o com insistência e indiscrição, provocando-o, ele sorria, deliciado, e exibia seus dentes brancos. Ludmila percebeu que ele a viu, fitou-a por uma fração de segundo, e por ela não deu mostra de interesse. Após passar por ele, Ludmila, depois de alguns passos, voltou-se para trás e, fingindo olhar para as vitrines da loja Perfumes, fitou-o, e viu, para seu desgosto, que ele não se voltou para trás, para admirá-la, como faziam todos os homens, e irritou-se. À noite, ela não conseguiu conciliar o sono, pois a indiferença daquele belo espécime incomodou-a.

Quem era aquele belo homem? Nos dias seguintes, Ludmila pensou nele, obcecada. À noite, com pálpebras cerradas, desperta, evocava-o, e usufruía de sensações que nunca experimentara.

Nos dias seguintes, sozinha, Ludmila caminhou pelas ruas do centro da cidade à procura do belo homem que abalara a sua confiança em si mesma. Transcorreram-se duas semanas. Ela não o encontrou. Por onde ele andaria? Seria ele um morador da cidade? Qual a idade dele? Qual o nome dele? O coração de Ludmila vibrava rápido sempre que o evocava em pensamentos, ao acordar, ao almoço, ao banhar-se, ao pentear os cabelos, enquanto trabalhava, enquanto atendia aos clientes.

*

Ludmila caminhava pela praça Gilberto Freyre. Usava saia curta e camisa decotada. Atraía todos os olhares. Os homens a admiravam. As mulheres a invejavam e suspiravam, não de desejo, como os homens, mas de raiva. Ludmila dava-se conta da atração que exercia sobre os homens. Viu, para sua surpresa, andando em sua direção, conversando com uma japonesa, o belo homem que a atraíra, que nela exercera irresistível atração, e que a ignorara, dezoito dias antes. Suspendeu a respiração, sentiu aperto no coração e falta de ar. Desacelerou os passos. Cravou os olhos no belo homem, que exibia, num sorriso encantador, que deixou Ludmila deslumbrada, belos dentes brancos. Encarou-o, indiscreta. Aproximou-se dele. Passeou as mãos pelos cabelos. Do belo homem não desviou os olhos. Um pouco antes de cruzar o caminho dele, os olhos dele e os seus encontraram-se. Ele sorriu. Ludmila abriu um sorriso tímido, intimidada. Poucos metros adiante, ela sentou em um banco da praça e, fingindo procurar qualquer coisa na bolsa, olhou para o belo homem e para a japonesa, que se afastavam. Ele não olhou para trás, nem uma vez, para olhar para Ludmila, que mordeu-se de raiva, ferida em seu orgulho.

Depois do almoço, Ludmila foi ao banco, na rua do Encilhamento. Na fila, o belo homem, para quem, percebeu Ludmila, três mulheres olhavam, apaixonadas. Ludmila deteve-se atrás dele. Esperava que ele voltasse para trás e a olhasse, a admirasse, e se encantasse com ela. Ele, em certo momento, voltou-se para trás, e viu Ludmila. Nela deteve o olhar por uns poucos segundos, o suficiente para estudar-lhe o rosto e o busto. Ludmila sentiu o sangue ferver. Moveu a cabeça, jogou os cabelos para trás, puxou-os para a frente, e empinou o busto. O belo homem, contrariando as expectativas de Ludmila, não se interessou por ela, e voltou a sua atenção para uma mulher que passava por ele.

Cinco minutos depois, uma loira aproximou-se do belo homem.

– Lauro – disse-lhe ela -, aqui está o troco da conta que paguei no banco A**.

– Obrigado, Tereza. Aonde você vai?

– À loja Íntima e Decente. Tenho de pagar uma conta.

– Irei ao restaurante Bom Almoço, assim que eu me retirar daqui.

– Você ainda não almoçou?

– Não. E você?

– Já. Mas farei companhia para você. Até mais.

– Tchau. Não demorarei aqui.

– Não conte com isso.

Despediram-se.

Ludmila não perdeu nenhuma palavra deste diálogo. Esperou por uma oportunidade para puxar conversa com Lauro. Aproveitou a primeira que se lhe ofereceu assim que Lauro se virou para trás.

– Que calor! – comentou Ludmila. – O banco, lotado, parece um forno.

– Já enfrentei uma fila, hoje, pela manhã – comentou Lauro. – Um inferno!

– Infelizmente, os bancos não contratam caixas. Veja, há apenas dois.

– Sairemos daqui às três da tarde.

– Se tivermos sorte – Ludmila sorriu.

– Talvez tenhamos sorte, hoje. Detesto bancos.

– Além dos banqueiros, quem gosta de bancos?

A conversa prosseguiu, descontraída, até vinte e oito minutos depois, quando Lauro foi atendido por um caixa. Durante esse tempo, Ludmila esperou que ele lhe pedisse o nome, mas ele não lho pediu, para seu desgosto, e, para seu maior desgosto, Lauro não se mostrou seduzido pela sua beleza.

Ludmila foi atendida pelo outro caixa. Ela pagou uma conta, e retirou-se do banco antes de Lauro, e esperou-o à porta. Para que ele não soubesse que o esperava, fingiu procurar alguma coisa na bolsa que trazia a tiracolo.

Lauro saiu. À porta do banco, encontrou-se com Ludmila e com ela encetou conversa. Em nenhum momento perguntou-lhe o nome, nem demonstrou-se por ela seduzido. A sua postura, ao mesmo tempo que irritou Ludmila, ao feri-la na vaidade de mulher atraente e sedutora, fê-la admirá-lo.

– Vou comer um lanche – disse Ludmila. – Estou com fome.

– Em qual restaurante? – perguntou Lauro.

– No Bom Almoço.

– Que coincidência. Vou me encontrar, lá, com a Tereza. Se você quiser, faça-nos companhia.

Dirigiram-se ao restaurante Bom Almoço. Tereza aguardava Lauro. Lauro apresentou Ludmila para Tereza e Tereza para Ludmila. Sentaram-se à mesa. Lauro almoçou. Tereza e Ludmila comeram, cada uma, um lanche, e beberam, Tereza, laranjada, Ludmila, suco de uva. Os três conversaram, descontraidamente. Em nenhum momento Lauro agiu como se Ludmila o houvesse seduzido. E ela notou que ele era muito atencioso com Tereza, que não era bonita.

O telefone celular de Tereza vibrou. Ela o atendeu; ao fim da conversa, anunciou a sua retirada do restaurante.

– Terei de ir, Lauro. O dever me chama. Deixarei vocês aqui. Comportem-se, hein. Tchau, Lauro. Tchau, Ludmila. Gostei de conhecer você. Você é muito simpática.

– Você também – saudou-a Ludmila, que se levantou, ao mesmo tempo que Tereza curvava-se um pouco para a frente, e despediu-se dela com dois beijos, um em cada face (sem encostar os lábios no rosto e estalando os lábios ao descolá-los) – Nos veremos, qualquer dia.

– Tchau, Tereza – despediu-se Lauro. – Passarei na sua casa, à noite.

– Esperarei por você. Tchau – e Tereza beijou-o no rosto.

Assim que Tereza retirou-se, Ludmila comentou:

– Simpática, a Tereza.

– Conheço-a desde o pré-primário. Tivemos um namorico aos quinze anos. E hoje somos bons amigos.

– Ela é muito animada.

– Ela sempre foi assim, de bem com a vida.

– Gosto de gente assim.

– Ela é esperta, brincalhona, divertida. Para ela, não há tempo ruim. Faça chuva, faça sol, ela está sempre com um sorriso no rosto, a despeito de todas as tragédias que viveu.

Lauro falou da vida de Tereza, atribulada, repleta de tragédias: a morte do irmão caçula e a da irmã; o acidente sucedido com sua mãe, que ficou paraplégica; as aventuras extraconjugais de Mário, de quem divorciou-se e quem a infectou com o virus HIV. Ludmila, admirada e surpresa ao ouvir tais relatos, disse que entendia porque ele, Lauro, admirava a Tereza, e se convenceu de que, para conquistar Lauro, teria de, além de usar de sua beleza, de seu natural poder de sedução, empregar artifícios para atraí-lo, pois ele não dava valor à beleza física, mas, sim, ao caráter e à força de vontade, e perguntou-se o que tinha a oferecer-lhe além de um belo corpo.

Retiraram-se do restaurante após as cinco horas da tarde. Andaram pela rua dos Expedicionários e pela avenida Dom João VI, e entraram na rua José de Anchieta, e andaram até a casa de Lauro, detiveram-se diante do portão, e Ludmila levou sua mão direita ao rosto de Lauro, puxou-o para si, e beijou-o, ardentemente, apaixonadamente.

Três horas depois, encontraram-se na casa de Ludmila, onde passaram uma noite de intensa paixão.

*

– Garanhão, conte-me o que ocorreu, ontem, à noite – exigiu Tereza, ávida por revelações indiscretas, na tarde do dia seguinte, na praça Gilberto Freyre. – Conte-me, bandido. O que aconteceu? Conte-me a história, tintim por tintim. Não quero perder nenhum detalhe.

– Por que tanta animação?

– Ajudei você a ir para a cama com a Ludmila. Tenho o direito de saber o que aconteceu.

– Você e a japinha.

– É verdade. A Maura também. Ela merece a sua gratidão. Conte-me: A diaba cedeu aos seus desejos, às suas fantasias?

– Realizei todas as minhas fantasias.

– Quando você diz “todas as minhas fantasias” você quer dizer todas as suas fantasias?

– Exatamente. “Todas as minhas fantasias” é todas as minhas fantasias.

– A Ludmila não reconheceu você?

– Não.

– Também pudera! Você era tão feio! O tempo passa… Nenhuma mulher, nunca, iria namorar você, se você continuasse feio do jeito que era.

– Você me anima, Tereza.

– Mas agora você é muito bonito. E deu uma lição na Ludmila. Você seduziu a sedutora. Um dia é da caça; o outro, da caçadora. A Ludmila, tão cheia de si, desde que a conheço… Ela não nos reconheceu. Ela não me reconheceu.

– Ela nunca reconheceria você, Tereza. Nunca. Ela não conversava com ninguém, lembra-se? Tão cheia de si, a Ludmila, que se bastava a si mesma. Com quem ela conversava, na escola? Com a Míriam e com a Larissa, as duas mulheres mais chatas e arrogantes que conheci. A Ludmila, lembra-se?, disse-me, no colegial, quando a pedi em namoro, que não namoraria comigo porque eu era feio e pobre. E ela também me disse que nunca iria para a cama comigo, porque sentia nojo de mim.

– O que aconteceu depois… Hoje, pela manhã… Conte-me.

– Ela me disse que me conquistara, e estava muito feliz com isso.

– Ela conquistou você? Foi isso o que ela disse?

– Foi. Ela inverteu os papéis. Ela ficou caidinha por mim. Quando cruzei o caminho dela, perto da loja Casa Futurística, ela me viu, e eu a ignorei. Ontem, quando eu e a Maura passamos por ela, ela não tirou os olhos de mim. Depois, no banco, enquanto eu e você conversávamos, ela nos ouviu falar do restaurante Bom Almoço, e, esperta, não perdeu a oportunidade… Caiu nas garras do gostosão.

– Você está se achando o maior conquistador do mundo.

– Que nada! Sem as suas dicas, eu não teria êxito. Você me disse para eu desprezar a Ludmila, que ela cairia na minha rede. Dito e feito. Tereza, contei para a Ludmila que não me chamo Lauro, mas Gumercindo, e perguntei-lhe se ela se lembrava desse nome. Ela fez cara de espanto. Aí, evoquei o dia em que a pedi em namoro, e perguntei-lhe se ela se lembrava do que disse sentir por mim. Ela arregalou os olhos, Tereza. Você tinha de estar lá para ver. Ela me disse: “Você! Gumercindo! Você está tão diferente!” E eu lhe disse que cresci, melhorei minha aparência, e fiquei bonito, e rico, e coisa, e tal, e disse-lhe que eu a atraíra e a seduzira. Ela não me quis acreditar, e expliquei-lhe o que aconteceu desde o primeiro momento em que eu e ela cruzamos um o caminho do outro. E disse-lhe que eu desejava uma noite de prazer com ela. E a conseguira. Perguntei-lhe se ela sentia nojo de mim, ou dela. Ela ficou fula da vida! Conteve-se, para não fazer escândalo. Estou certo de que ela deseja devorar-me vivo.

Enfim… o fim.

Quero escrever um conto.

Há horas, na biblioteca, na minha casa, à mesa, esferográfica à mão, papel em branco sobre a mesa, e eu a devanear.

Enfim, achei uma idéia para um conto: um homem apaixona-se por uma mulher, que não corresponde ao amor que por ela ele sente.

Como darei início ao conto? Transpus uma barreira. Contente, eufórico, avancei – poucos passos, mas avancei. Vejo-me, agora, petrificado. Persistirei. Insistirei. Quero escrever um conto. A idéia eu a tenho. Como a desenvolverei?

Com a idéia na cabeça, agora resta-me escrever o conto. Quem é o protagonista? Qual é o seu nome? O que ele sente? O que ele pensa? Qual a relação dele com as outras personagens? Quem são os seus amigos?  Quem são os seus desafetos? Qual é a sua idade? Ele é jovem, adulto, ou velho? Qual é o nome da mulher pela qual ele se apaixonou? À qual classe social ambos pertencem? Eles são solteiros? Casados? Viúvos? Ela é jovem, adulta ou velha?

Penso nestas questões e em muitas outras – todas, unidas num vórtice, assediam-me e imobilizam-me.

Escrevo estas linhas para tomar conhecimento das dificuldades com as quais me deparo.

Interrompi a redação deste texto, para beber de um pouco de água. O calor – infernal – liquefaz-me. Sinto-me como se eu estivesse no Saara, ou à boca de um vulcão em erupção, ou nas fornalhas do inferno.

Saciei a minha sede.

Agora, sentado, à mesa, esferográfica à mão, ponho-me à redação do conto, cujo início é:

Segunda-feira. O dia amanhece quente e abafado. João Carlos acorda às quatro horas e cinquenta minutos, dez minutos antes de o despertador estridular. Com os olhos remelentos, os cabelos despenteados, o rosto inchado, as pálpebras semi-cerradas, desorientado, aciona o botão interruptor, e, automaticamente, protege os olhos com os braços, contrai os músculos do rosto, e cobre a cabeça com a colcha. Espreguiça-se. Estremunhado, retira-se de sob a colcha, empurrando-a, com os pés, aos pés da cama, levanta-se e dirige-se ao banheiro.

Após o banho, vestido, ruma à cozinha, e prepara lauta refeição da manhã. Come uma banana, duas peras, um pedaço de melancia, uvas, jabuticabas, três morangos, ameixas, um pão francês com duas fatias de queijo-prato e geléia de pêssego, sequilhos, biscoitos-de-vento, e bebe café-com-leite e laranjada.

Ao retirar-se da sua casa, às seis horas, ao volante do carro que comprara há três meses, seu rosto transparecia o ânimo que o propelia para mais uma exaustiva jornada de trabalho, das oito às dezoito horas – trabalhava como um cavalo para, ao final do mês, receber um salário de mula.

Comentários:

Empolgado com as idéias que me assaltaram a mente, escrevi, rapidamente, estes três parágrafos. Interrompi a redação da narrativa para registrar observações a respeito das minhas dúvidas quanto ao teor do que escrevi.

Fiz uma lista com mais de cinquenta nomes. Desta lista, selecionei oito nomes: Paulo, Vicente, Antonio, João Carlos, Sergio, Roberto, Djalma e Lauro. Selecionados estes nomes, perdi preciosos minutos pensando qual deles é o mais apropriado para o meu personagem. Escolhi João Carlos, nome que, todavia, não me agradou. Se não me agradou, por que, então, o escolhi para o meu personagem? Se eu soubesse o que há nos escaninhos do meu cérebro! João Carlos é o nome do meu personagem. Embora eu o tenha escolhido dentre vários outros nomes, estou à procura de outro nome, que me seja mais simpático. Pergunto-me: Quais são os meus critérios para batizar os meus personagens com um nome, e não com outro? Alguma coisa – o quê?, não sei – indica-me um nome, e o procuro, muitas vezes sem saber que nome é esse. É como se houvesse algo no meu interior que me dissesse que este, e não aquele, é o nome apropriado para o personagem A, e não para o personagem B. É uma sensação estranha – direi indefinível. Não posso explicá-la. Já escrevi contos com personagens que de mim receberam o nome de José, Sebastião, Gumercindo, Paulo, Evandro, Humberto, Godofredo, Washington, Murilo, Lúcia, Stéfani, Larissa, Verônica, Maria, Tábata e Angelina. Como se vê, nomes comuns e nomes incomuns. Por que me decido por uns, e não por outros, não sei explicar. Penso comigo: Tal personagem tem cara de Godofredo. Godofredo! Como é um homem chamado Godofredo? Não sei, não conheço nenhum Godofredo. Então, vou mudar o exemplo: Tal personagem tem cara de José. Conheço vários José. José é o nome mais comum, no Brasil, de homens, e também de mulheres. Conheço várias Maria José. Como é um homem chamado José? Os Josés que conheço não se parecem uns com os outros. Conheço-os baixos, altos, gordos, magros, calvos, cabeludos, negros, brancos, cafuzos, mamelucos, pardos, e até japoneses e árabes. Quero dizer: brasileiros descendentes de japoneses e brasileiros descendentes de árabes. Fica a pergunta: O que vejo num personagem masculino, enquanto o concebo, para vir a batizá-lo de José, e não de Ariovaldo? Essa questão, como se pode concluir, dá muito pano pra manga.

Pergunto-me: Conservo o início do conto? Apresentei João Carlos acordando, banhando-se, tomando o café-da-manhã, saindo da sua casa, de carro, na manhã de uma segunda-feira, para ir ao trabalho. Cena tão trivial não despertará no leitor a curiosidade, tampouco a vontade de dar sequência à leitura. Que conto sairá deste início tão insosso!? Um conto banal, é certo. Tenho de modificá-lo. Ou, se não modificá-lo, narrar, na sequência, um evento que desperte a curiosidade do leitor; não se faz imprescindível um evento grandioso, fantástico, como um ataque de alienígenas à Terra, ou a detonação de uma guerra termonuclear, mas, sim, um evento que prenda a atenção do leitor, e o agrade, além de agradar-me; que lhe excite a curiosidade; e que inspire-me novas cenas para a sequência da narração.

Narro, agora, um evento chocante (decidirei, depois, se conservarei os três parágrafos iniciais do conto):

Ao passar pelo cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco, José Carlos atropelou uma loira que atravessava a rua.

Comentários:

Decidi substituir João Carlos – nome que não me agradou – por José Carlos. Pergunto-me se, em vez de uma loira, a mulher atropelada não pode ser uma morena, ou uma negra, ou uma mulata. Queimo as pestanas pensando nisso. Para ao mesmo tempo complicar e descomplicar a questão, penso em outra alternativa, que é a que mais me agrada: substituir a loira por uma ruiva. As ruivas são exóticas, pitorescas. Eu já vi quantas ruivas? A última ruiva que vi, há mais de dois anos… Isso não vem ao caso. Decidi: Modificarei o início do conto. Excluirei os três primeiros parágrafos, e o quarto parágrafo eu o modificarei – para melhor, presumo. Substituirei a loira por uma ruiva. E faço-me as seguintes perguntas: Por que o acidente ocorreu no cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco? Não poderia ter ocorrido no cruzamento da rua Oliveira Lima com a Euclides da Cunha? Ou, então, no da rua Gilberto Freyre com a Machado de Assis? Ou no cruzamento da avenida José de Alencar com a rua Washington Luis? Ou no da avenida Oswaldo Cruz com a Emílio Ribas? Não é, como aparenta, tão simples tomar uma decisão a respeito desses detalhes, que não são irrelevantes.

O início do conto fica assim:

7:00. José Carlos retira-se da sua casa, de carro. Duzentos metros depois, distraído, ouvindo uma canção de Noel Rosa, chegou ao cruzamento da avenida Emílio Ribas com a avenida Oswaldo Cruz. De repente, do nada, surgiu-lhe, à frente do carro, provocando-lhe intensa onda de calafrios, uma ruiva jovem, bonita, atraente. Instintivamente, José Carlos afundou o pé no pedal do freio. O carro parou a um palmo da ruiva, que, petrificada, os olhos arregalados, a boca escancarada, fitou José Carlos, que, num átimo, desafivelou o cinto de segurança, abriu o carro, e saiu, com o coração aos pinotes – no seu cérebro entrechocavam-se miscelâneas de pensamentos. Eram poucas as pessoas que testemunharam o evento. Dois homens levaram as mãos à cabeça; um deles proferiu um “Quase!”, e elogiou José Carlos, enquanto o outro limitou-se a empinar o corpo como se o carro tivesse ido em sua direção, e não em direção à ruiva. Diante da padaria, uma jovem levou a mão direita ao peito esquerdo. No jardim, sentados em um banco, dois homens teceram comentários desabonadores: “Mocinha lerda”, disse um deles, um sujeito de cabelos desgrenhados, barba hirsuta, roupas amarfanhadas, chinelos-de-dedos surrados; e o outro, tipo esdrúxulo, corcunda, calvo nas têmporas, de nariz volumoso de abas largas – a direita adornada com uma verruga roxa -, sobrancelhas espessas projetadas sobre os olhos, quase os cobrindo completamente, lábios descoloridos, orelha esquerda de abano, queixo pontudo, mãos calosas e pele coberta de pêlos grossos, que lhe emprestava aspecto simiesco, comentou: “A palerma está dormindo! A idiota não acordou!”, e tossiu duas vezes, e completou: “Se eu fosse o motorista, passaria por cima dela, para ela aprender a não ser burra”.

Comentários:

Tenho várias observações para apresentar a respeito das modificações que fiz, dos trechos que suprimi e das personagens que acrescentei. Exclui os dois primeiros parágrafos nos quais eu apresentava o protagonista despertando, banhando-se e degustando um lauto café-da-manhã. Conclui que tais parágrafos, para o conto que tenho em mente, são irrelevantes, portanto, prescindíveis. Suprimi-los foi a decisão correta, acredito. Talvez eu reconsidere esta minha decisão. Outro ponto a se considerar: eu havia escrito que o protagonista acordou dez minutos antes das cinco horas da manhã, e saiu da sua casa às 6:00 para iniciar o expediente de trabalho às oito horas. Ao pensar em outras idéias, as quais anotei à parte, conclui que manter o terceiro parágrafo implicaria em outras idéias, que não me agradam, as quais eu teria de inserir neste conto; refiz, portanto, o parágrafo, e apresentei o protagonista retirando-se da sua casa às sete horas. Na versão que abandonei, eu apresentaria o protagonista rumando para a empresa, localizada na cidade vizinha, distante cento e cinquenta quilômetros da sua casa, para a qual ele regressaria às 20:00, ou às 20:30. Abandonei essas idéias. Escreverei, na versão atual do conto, que a empresa na qual o protagonista trabalha localiza-se na cidade na qual ele reside; ele, portanto, não precisará retirar-se da sua casa às seis horas para ir à empresa na qual trabalha. Saindo de sua casa às sete horas, ele chegará, com quinze minutos de antecedência, na empresa.

Outra observação: O nome José Carlos não me é simpático, mas não sei se o substituirei por outro nome. Pensei, hoje, nos seguintes nomes para o meu personagem: Charles, Davi, Heródoto, Rubens e Gustavo, e, ontem à noite, pensei nestes nomes: Frederico, Henrique, Cauã, Salomão, Demócrito, Lúcio, Felipe, Ulisses e Laércio.

Agora, ao ponto mais importante de todas as modificações e acréscimos que fiz: as pessoas que testemunharam o evento. Antes, eu não me referira à nenhuma testemunha, pois escrevi que o evento se sucedera no cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco, situado num bairro residencial de pouco movimento às seis horas da manhã. Agora, relatei o evento sucedendo-se, às sete horas da manhã, no cruzamento das duas principais avenidas da cidade, a Emílio Ribas e a Oswaldo Cruz, situado no centro da cidade. Às sete horas da manhã, há, lá, muitos transeuntes. Primeiro, limitei-me a aludir às testemunhas. Considerei, depois de algumas ponderações, inadequado limitar-me à alusão às testemunhas e, sem entrar em pormenores, dar sequência à narrativa. Foi, então, que concebi as cinco testemunhas; para duas delas emprestei características físicas de dois mendigos bêbados, ambos feios, desgraciosos; os seus comentários a respeito da ruiva eu os ouvi – para não ferir suscetibilidades, não os reproduzi com exatidão – há dois meses, na véspera do aniversário de uma amiga inestimável, a Érica, ao entardecer. Relato o episódio: Chegou-me, de trás de mim, o som de freada brusca. Ao olhar por sobre o ombro direito, entrevi, à frente de um carro parado no meio da rua, uma roda e o guidão de uma bicicleta vermelha e a cabeça de um garoto de cabelos compridos repartidos ao meio. Uma fração de segundo depois, vi dois mendigos de aparência repulsiva atravessando a rua; eles teceram comentários desabonadores em tom de voz elevado. Não reproduzi, como comentários à ruiva, os comentários que eles fizeram ao garoto, pois são irreproduzíveis. Outros escritores – para os quais as obscenidades são como o sangue que lhes corre pelos vasos sanguíneos – os escreveriam. Eu, atendendo ao meu desejo, reservo-me o direito ao requinte do vocabulário. Declarei que este é o ponto mais importante que eu consideraria aqui. Não o é, entretanto. Há outro ponto de equivalente grau de importância. José Carlos, o protagonista, não atropelou a ruiva. Na versão anterior, José Carlos atropelou a loira – que substitui por uma ruiva. Antes, o protagonista atropelou a loira; agora, ele não atropelou a ruiva.

Encerrados os comentários, escrevo a sequência do conto:

– Tu estás bem? Estás machucada? – perguntou José Carlos, com voz quase sumida, à ruiva. Ansioso, com o coração aos pulos, fitava a ruiva com olhar perdido. Não sabia se se aproximava dela, pegava-a ao colo, punha-a no carro, para conduzi-la ao pronto-socorro, ou se dela mantinha distância respeitável. Tocou-a no ombro com as pontas dos dedos da mão esquerda. A ruiva, emudecida, moveu a cabeça para cima e para baixo, lentamente, dando a entender que se sentia bem e não se machucara.

José Carlos pediu-lhe que entrasse no carro. Disse-lhe que a conduziria ao pronto-socorro. Ela disse, em tom baixo, ao mesmo tempo que levava ao peito a mão direita aberta, que não precisaria ir ao pronto-socorro, pois sentia-se bem. Estava lívida. José Carlos, atencioso e preocupado, conduziu-a à calçada. Ato contínuo, foi ao carro, manobrou-o até à margem da rua, estacionou-o próximo da ruiva, retirou-se do carro, dirigiu-se à ruiva, cujo nome era Verônica.

Comentários:

Estes dois parágrafos apresentam o que eu quis expressar: uma cena corriqueira, na qual os dois personagens principais entabularam conversa. Desconsiderando alguns detalhes, como o nome da ruiva (pensei em Ludmila, Larissa, Verônica, Laura, Jaqueline, Inês, Natasha, Íris e Yulia – e decidi-me por Verônica), o texto agradou-me. Sinto-me extremamente contente por ter dado sequência à narração, tendo em vista que despendi, para este curto trecho, três horas de um dia ensolarado. Suspeito que foi uma tarde proveitosa e me regozijo com a redação deste conto, que se encorpa, lentamente, gradativamente, mais lentamente do que eu gostaria; e vou encontrando soluções para as complicações inerentes à trama; soluções que, se não me agradam, preenchem as lacunas, e dão corpo ao texto.

Prossigo:

Algumas pessoas aproximaram-se de José Carlos e de Verônica. Umas, consolavam-na; outras, estudavam as atitudes de José Carlos e observavam Verônica. Alguns homens, que não foram lá para prestar auxílio a Verônica, não se interessavam pelo que lhe ocorrera – admiraram-lhe a formosura do porte.

Comentários:

Até aqui o texto encaminha-se bem. As personagens que representam a multidão eu as apresentei superficialmente, mas da maneira adequada, acredito. Algumas dentre elas são solícitas e prestativas; outras, homens animalescos, estavam lá para satisfazer a lubricidade. E José Carlos devotou à Verônica a sua atenção. Foi atencioso, mostrou-se preocupado, e insistiu em conduzi-la ao pronto-socorro; os seus gestos e as suas palavras revelam os seus bons sentimentos.

À sequência do conto:

José Carlos disse para Verônica que a conduziria ao pronto-socorro. Ela lhe disse, mais uma vez, que não se machucara, que apenas se assustara com o sucedido, e pediu-lhe que não se preocupasse; gracejando, disse-lhe que ele estava mais nervoso do que ela, e que ele, e não ela, precisava ir ao pronto-socorro. José Carlos sorriu.

Aos poucos, Verônica foi recuperando a cor natural do rosto. José Carlos, cujos sentimentos confundiam-se, fitava-a, embevecido, atraído pela sua beleza. Preocupava-se com Verônica ou dedicava-lhe tanta atenção por que ela era uma mulher bonita e atraente?

Comentários:

Destes dois parágrafos gostei apenas do primeiro; do último, não. Quais sentimentos Verônica despertou em José Carlos? Insinuei que, assim que Verônica recuperou as cores naturais do rosto, aflorou à mente de José Carlos pensamentos que não correspondiam à sua índole, à que lhe atribui nos parágrafos precedentes. A interrogação ao final do último parágrafo dá a entender que José Carlos não é um homem sincero, bem-intencionado, mas, sim, um canalha. O último parágrafo, se eu o conservar, inspirará no leitor certas expectativas quanto à conduta de José Carlos, expectativas que não pretendo lhe inspirar, pois desejo respeitar a trama original, a qual apresentei no princípio deste texto. José Carlos – é o que tenho em mente – impelido pelos ditames de um coração generoso, não pode misturar sentimentos censuráveis ao seu sincero desejo de prestar auxílio à Verônica. Excluirei, portanto, o último parágrafo. E dou sequência à narração:

A ruiva recuperou a cor natural do rosto. Inspirou e expirou como se removesse de dentro de si pensamentos que lhe pesavam no espírito.

Conquanto se persuadisse de que ela não se machucara, José Carlos insistiu em conduzi-la ao pronto-socorro.

– Qual é o teu nome? – perguntou-lhe José Carlos.

– Veruska – respondeu a ruiva.

– Veruska, se tu quiseres ir ao pronto-socorro…

– Não. Obrigada. Não me machuquei…

– José Carlos.

– José Carlos, não me machuquei. O carro nem encostou em mim. Acredite-me – sorriu.

– Bem… então… Queres que eu telefone para alguém? Para teu pai? Para tua mãe?

– Não, José Carlos. Obrigada. Estou bem. Acredite, estou bem.

Comentários:

Decidi modificar o nome da ruiva. Pensei, além de Veruska, em Zuleika, Fabíola, Ariadne, Marianne, Dayanne, Paola, Samantha, Pâmela, Dorotéia e Gislaine, além dos que mencionei linhas atrás. Decidi-me por Veruska porque este nome, melhor do que os outros, encaixou-se, à perfeição, na personagem ruiva. É como se houvesse um vínculo entre Veruska e as ruivas. Como se, como direi?, todas as ruivas, por serem ruivas, se chamassem Veruska. Não consigo imaginar uma ruiva chamada Maria, ou Elisabete. Já imaginei ruivas chamadas Yulia e Natasha, nomes incomuns, aqui, no Brasil, mas comuns, presumo, na Rússia e na Ucrânia. Mas Yulia e Natasha não são os nomes ideais para a ruiva. Veruska, sim, é. Por quê? Não sei. Sempre que imagino uma ruiva, penso em nomes pitorescos. Decidi, também, mudar um detalhe significativo: Antes eu mantivera José Carlos ignorante do nome da ruiva; agora, decidi fazê-lo tomar a iniciativa de perguntar à ruiva o nome. Dei, assim, um toque mais íntimo à cena.

Dou sequência ao relato:

Veruska disse que estava em condições de ir até o escritório de contabilidade no qual trabalhava. José Carlos ofereceu-lhe carona. Veruska a recusou, com gentileza; disse-lhe que iria, a pé, até lá. José Carlos insistiu em conduzi-la até o escritório e disse-lhe que não aceitaria um ‘não’ como resposta. Fitaram-se. Veruska sorriu, constrangida; após alguns segundos de silêncio, disse para José Carlos que aceitaria a carona.

Entraram no carro.

Durante o trajeto, falaram de filmes e espetáculos musicais.

Chegaram ao escritório de contabilidade dez minutos depois.

– Queres que eu explique para a tua patroa o que aconteceu e porque tu estás atrasada? – perguntou José Carlos.

– Não, José Carlos – respondeu Veruska. – A Lúcia sabe que tive um bom motivo para me atrasar.

Comentários:

Mais uma vez, não me simpatizo com um nome que escolhi para uma personagem: Lúcia, o da patroa da Veruska. Pensei em outros três nomes: Renata, Paula e Felícia. Optei por Lúcia. Por quê? Não sei. Mas será Lúcia o nome da patroa da Veruska. Outro ponto relevante: o sexo do superior hierárquico imediato da Veruska. No início, pensei em um homem, cujo nome seria, ou Fabiano, ou Rodolfo, ou Ulisses, ou Zacarias, ou Isaias. Foram esses os cinco nomes que me vieram à cabeça. Abandonei-os ao decidir-me por uma mulher. Preferi uma patroa para a Veruska, e não um patrão. E ficará assim.

Retomo a narração:

Veruska retirou-se do carro. À porta do escritório de contabilidade, voltou-se, e acenou para José Carlos, que lhe retribuiu o aceno, esperou-a entrar no escritório, e retirou-se.

Durante o dia, José Carlos pensou em Veruska. Reviu-a diante do carro – tentou dimensionar o medo que lhe avassalara o espírito -, assustada, com a boca escancarada e os olhos tão abertos que, parecia, iriam pular das órbitas.

– Terra chamando Zé Carlo. Terra chamando Zé Carlo. Atenda, Zé Carlo. Câmbio. Atenda, Zé Carlo. Câmbio. Terra chamando Zé Carlo – disse, bem-humorado, Eduardo, ao mesmo tempo que dava um tapa na nuca de José Carlos.

– O que tu desejas, Eduardo? – perguntou José Carlos.

– Em qual planeta tu estavas?

– O quê?

– Em qual galáxia tu estavas?

– Eu estava aqui, com os meus pensamentos.

– Sei. Pensavas em uma mulher. Ela é bonita?

– Não me incomode, Eduardo. Vamos trabalhar.

Comentários:

Este trecho agradou-me. Concebi o personagem Eduardo e, automaticamente, entendi que ele é um personagem apropriado para este trecho do conto; de imediato, suprimi o que eu escrevera, trecho demasiadamente sério, desprovido de humor. Conheci pessoas como Eduardo, pessoas sempre bem-humoradas e de bem com a vida, mesmo que tenham passado por maus bocados e comido o pão que o diabo amassou. Um dos meus amigos, Josué, um tipo avoado, é assim. Ele está sempre de bom humor, e perde, com freqüência, a noção da realidade – é impossível manter com ele uma conversa séria por mais de trinta segundos –, e não sei se os eventos que ele narra sucederam-se como ele diz, pois ele insere, nas narrativas dos eventos que protagonizou, detalhes fictícios oriundos dos labirintos de uma mente extraordinariamente criativa. E mais uma vez me implico com o nome que escolhi para um personagem. Para o amigo de José Carlos escolhi o nome Eduardo, após abandonar o nome Marcelo, pois batizei com este nome um personagem que criei para outro conto, e os nomes Roberto, Fábio, Danilo e Daniel.

Retomo a narração:

Eduardo, durante a conversa, disse para José Carlos ir ao escritório onde Veruska trabalha, e aconselhou-o a convidá-la para jantar.

– Não é todo dia que se encontra uma ruiva – disse Eduardo. – Irás deixá-la escapar, Zé Carlo?

– Não confundas as coisas, Eduardo – censurou-o José Carlos. – Quase a atropelei. Depois, como eu disse, eu a levei até o escritório de contabilidade, e vim trabalhar.

– Sei, Zé Carlo – disse Eduardo, em tom zombeteiro. – Tu não te interessaste por ela? Tu queres te enganar? Quem tu queres enganar? Eu? Ou tu? Se tu queres me enganar, saibas que não conseguirás. Se tu queres te enganar, engana-te. Mas saibas que, se tu te deixares enganar por ti, serás um otário.

– Tu não entendeste, Eduardo. A Veruska… Eu não a conheço. Eu a vi, e pela primeira vez, hoje, e numa ocasião… Como eu diria?

– Adequada para o início de um romance.

– Não digas asneiras…

– Asneiras!? Quais asneiras eu disse? Da minha boca, até agora, nenhuma asneira saiu. Zé Carlo, tu não assistes filmes? A maioria dos romances… Como se diz? Romances profícuos? Não. Como é que se diz? Não encontro a palavra adequada…

– O que queres me dizer, Eduardo? Que eu e a Veruska nos casaremos, e viveremos felizes para sempre?

– Exatamente. Tiraste as palavras da minha boca, mas não todas elas.

– Tu confundes a realidade com um conto de fadas. Não sou um príncipe, e a Veruska não é uma princesa.

– Ela pode não ser uma princesa, mas te enfeitiçou. E tu és um sapo. E o que acontece quando uma princesa beija um sapo? Cospe, o rosto a transparecer, em esgares que o deformam, o nojo que lhe avassala o espírito, nojo que deixará de sentir ao beijar um príncipe, ou duas horas após chamar o Hugo. Queres saber, Zé Carlo: Não queiras dissimular os teus sentimentos. O teu olhar, o teu rosto e o teu sorriso revelam-me a paixão que tu sentes pela Veruska.

– Não digas asneiras.

– Nunca falei tantas verdades na minha vida, sabes disso. Estou surpreso comigo. Nunca me imaginei no papel de Cupido. Como eu dizia, mas tu me interrompeste, nos filmes, principalmente nas comédias românticas, uma história de amor começa, infalivelmente, com uma trombada dentro de uma loja. Nunca viste tal cena? É infalível: Uma linda mulher, em um shopping center, após comprar, numa de suas lojas, roupas e calçados, anda, carregando sacolas e uma pilha de caixas, pelos corredores, e, ao passar em frente à porta de outra loja, esbarra-se em um homem, as caixas escapam-lhe das mãos, e esparramam-se, abertas, umas, fechadas, outras, pelo chão, e ela faz um gesto de surpresa e de contrariedade; ao olhar para o homem no qual se esbarrou, arregala os olhos, surpresa com a beleza do bonitão, que a enfeitiça, e o enfeitiça, e os dois, enfeitiçados, agacham-se para recolher do chão as caixas, a linda mulher, encabulada, sorrindo à toa, e o bonitão, elegante, sorridente, exibindo dentes branquíssimos, a admira, elogia-lhe o rosto formoso, o sorriso cativante e os olhos lindíssimos. Recolhidas do chão as caixas, levantam-se, conversam, sorrindo ambos à toa, ele, ávido de desejo, querendo se lançar nos braços dela, e beijá-la, e ela, sedenta de desejo, querendo lançar-se nos braços dele, e beijá-lo, e estreitá-lo num estreito amplexo… Gostaste? Amplexo. Li esta palavra num livro de José de Alencar; se não foi num livro dele, foi num livro de outro escritor. Como eu dizia, o bonitão e a linda mulher agem com discrição, para não se exibirem como levianos e indecentes um para o outro. Resumindo o enredo: eles se encontram, casualmente ou não, num outro dia, e dão início a um relacionamento entre tapas e beijos. No final, antes do famoso The End, eles se casam, e vivem felizes para sempre.

– Um ótimo roteiro para um filme de Hollywood – comentou José Carlos, sorrindo.

– Eu sei. Mas não apenas para um filme de Hollywood. Muitos relacionamentos profícuos… É assim que se diz? Li esta palavra num romance do Lima Barreto; se não foi num romance dele, foi num do Machado de Assis, ou num de outro escritor. A história que contei é roteiro de filme? Pode ser. Ora, Zé Carlo, como sabemos, a arte imita a vida, e a vida imita a arte. Convenhamos, a vida imita mais a vida do que a arte, e a arte imita mais a arte do que a vida. Muitos romancistas fundem, numa personagem, características de uma personagem de outro escritor com as de pessoas que conheceram e as de pessoas que conhecem. As pessoas, ao tomarem uma decisão, consideram o que outras pessoas lhes disseram e o que soube que outras pessoas fizeram em situações semelhantes. Zé Carlo, como eu dizia, a vida não imita a arte, e a arte não imita a vida. Elas se imitam. Vida e arte estão imbricadas. Imbricadas! Em qual romance li esta palavra? Foi num romance do Camilo Castelo Branco? Se não foi num romance dele, foi num romance do Aluísio Azevedo. Se não foi num romance de nenhum deles, então não sei em qual romance a li, mas tenho certeza de que a li num romance, se não brasileiro, português; se nem brasileiro, nem português, então foi num romance francês, ou inglês, ou russo, ou americano. Zé Carlo, tu viste… Do que eu falava?

A estrondosa gargalhada de José Carlos ecoou pelo escritório.

Comentários:

Eu escrevera um relato telegráfico, como se diz, de um diálogo de José Carlos e Eduardo. Um falava seis ou sete palavras, e cedia a palavra para o interlocutor, ou o interlocutor interrompia-o, impedindo-o de completar os comentários. Para mim, tal diálogo não expressava, como eu o desejava, a personalidade expansiva e bem-humorada de Eduardo, um sujeito bonacheirão e tagarela. Suprimi o diálogo. Debruçado sobre a mesa, com a caneta esferográfica à mão, sustentando a cabeça com a mão esquerda, pensei no que escreveria em substituição ao diálogo suprimido. Após uns minutos durante os quais rabisquei a folha de sulfite à minha frente e escrevi o meu nome dezenas de vezes, decidi retirar-me daqui. Fui à sala, mexi em jornais e revistas, para logo retirar-me, e ir ao quintal, onde andei em círculos sob o abacateiro; enfim, regressei à biblioteca, e escrevi o diálogo que se lê nas linhas precedentes.

As melhores idéias me vêm à mente durante a redação do texto o qual modifico à medida que vou desenrolando a história; não foi isso o que me ocorreu hoje, ao me sentir incapaz de criar um diálogo de José Carlos e Eduardo. Escrito o diálogo, satisfeito com o que escrevi, após corrigi-lo durante duas horas e trinta minutos, interrompi a redação da narrativa para registrar estes comentários. O diálogo é perfeito para o que tenho em mente. Agora encerro os comentários, e dou sequência ao conto, que se encaminha para o encerramento:

Durante a manhã, Eduardo, sempre que se lhe oferecia uma oportunidade, falava, sorrindo, para José Carlos ir ao escritório no qual Veruska trabalhava, e convidá-la para um jantar romântico à luz de velas. No almoço, realçou as suas exortações. José Carlos divertia-se com as narrativas que Eduardo lhe contava, com o propósito de o persuadir a ir ao escritório de contabilidade, e convidar Veruska para um jantar romântico à luz de velas, nas quais inseria princesas, fadas, semi-deuses, atrizes famosas e personagens de romances e de revistas em quadrinhos.

Durante à tarde, até o encerramento do expediente, Eduardo renovou as exortações com os mais sensatos e os mais disparatados argumentos.

Ao retirarem-se do escritório, antes de se despedirem, Eduardo disse para José Carlos:

– Zé Carlo, a Veruska, estou certo, pensou em ti. Tu pensaste nela, então ela pensou em ti.

– O que tu dizes não faz sentido.

– Não faz sentido?

– Não. Ela pensou em mim porque pensei nela? Isso não faz sentido, Eduardo.

– Não faz sentido! Essa é boa. Tu me surpreendes, Zé Carlo. Tu me surpreendes. Como assim, o que eu disse não faz sentido!? Em que mundo tu vives? Tu nunca ouviste falar de energias cósmicas? Tu nunca ouviste falar de simulacros cosmogônicos? Tu nunca ouviste falar da teoria das supercordas? Tu nunca ouviste falar do princípio da incerteza? Tu nunca ouviste falar de ressonância mórfica? Tu nunca ouviste falar de paralaxe cognitiva? Tu nunca ouviste falar do teorema de Pitágoras?

– Do que…

– Não me interrompas, Zé Carlo. Tu nunca ouviste falar do irresistível poder de atração dos átomos dotados de sentimentos afins?

– O quê? Átomos têm sentimentos?

– Têm. Do que os nossos corpos são compostos? De átomos. Temos sentimentos, não temos? Como os nossos sentimentos são produzidos? Não sei como são produzidos, mas sei que são os átomos que os produzem. Os átomos do teu corpo e os do corpo da Veruska compartilham os mesmos sentimentos, e desde a criação do mundo, como está escrito no Gênesis.

Com os mais estapafúrdios argumentos, Eduardo conseguiu, por meios incompreensíveis à inteligência humana, persuadir José Carlos a ir ao escritório de contabilidade no qual Veruska trabalhava.

Parado ao cruzamento da rua Dom João VI com a avenida Abraham Lincoln, José Carlos olhou para o escritório de contabilidade no qual Veruska trabalhava, distante uns cem metros. Havia vários carros e motos estacionados em toda a extensão da rua. O trânsito, intenso; o barulho, infernal. Ansioso, José Carlos se perguntou se Veruska já se retirara do escritório e fora-se embora. Tamborilava o volante e alternava a sua atenção entre o semáforo, que, parecia-lhe, fora desativado, e a porta do escritório de contabilidade. Entreviu duas mulheres saindo do escritório. Uma loira alta e Veruska. José Carlos pensou em pisar no acelerador, e transgredir uma lei de trânsito. O semáforo abriu para ele. José Carlos viu Veruska e a loira se despedindo com beijos nos rostos. Ao aproximar-se de Veruska, buzinou, e chamou-a pelo nome. Veruska voltou-se para ele, e acenou-lhe. José Carlos, com a mão direita, fez-lhe sinal para ela entrar no carro. O motorista do carro que ia logo atrás do de José Carlos buzinou. Veruska, passos acelerados, foi até o carro, e José Carlos abriu-lhe a porta do carro, e pisou no acelerador tão logo ela se sentou e fechou a porta. Veruska deu início à conversa ao perguntar-lhe do seu trabalho. José Carlos reconstituiu o dia, e falou, rindo, dos comentários de Eduardo a respeito dos sentimentos afins dos átomos. Veruska sorriu, e exibiu duas fileiras de dentes branquíssimos. Seu rosto encantador transpareceu a alegria que a contagiava. O rubor realçou-lhe a beleza cativante.

À frente da casa de Veruska, ainda dentro do carro, José Carlos perguntou para Veruska se ela queria ir com ele, ou a uma pizzaria, ou a um restaurante. Veruska, encabulada, abriu um largo sorriso, disse-lhe que não tinha compromisso para aquela noite e não havia razão para não ir com ele ou para uma pizzaria ou para um restaurante, dando a entender que dele gostaria de receber um convite. José Carlos percebeu que Veruska, enquanto falava, ajeitava os cabelos, avaliava as unhas, fitava-o, e, encabulada, desviava o olhar, e não suprimia do rosto, cujas maçãs salientes destacavam-se, e o rubor as realçava, o sorriso cativante. Os olhares de ambos encontraram-se. O silêncio que se seguiu, constrangedor, de indisfarçável significado. Ambos desviaram o olhar, e olharam para a frente. Nenhum deles sabia como dar sequência à conversa. Enfim, após encher os pulmões, e expirar, controlando-se, lentamente, José Carlos, com voz suave, perguntou para Veruska:

– Queres jantar comigo, Veruska?

Veruska ajeitou os cabelos, abriu um largo sorriso, olhou para José Carlos com olhar de indisfarçável paixão, e disse, com a voz tão baixa que, para ouvi-la, José Carlos não precisou da audição, mas apenas de paixão:

– Quero.

Marcaram o encontro.

Às vinte horas, José Carlos foi à casa de Veruska. Veruska mirava-se ao espelho e dava os últimos retoques no vestido. Enquanto a esperava na sala-de-estar, José Carlos conversou com Mateus, pai de Veruska, e Berenice, mãe dela. Ele, de porte majestoso, barba e bigodes rapados, cabelos penteados para trás, de temperamento tranquilo, silabava, corretamente, as palavras; ela, magnífica mulher de quarenta anos, robusta, ruiva, de voz suave, cabelos compridos. Ambos elegantes. Ambos de impecável formação intelectual, inteligentes, decentes e trabalhadores. José Carlos impressionou-se com o porte físico e a postura deles, com a elegância que eles exibiram, e com a hospitalidade, o bom-humor, e o conhecimento que possuíam da cultura brasileira e da de outros países. Durante a conversa de menos de uma hora, José Carlos ouviu comentários a respeito da obra de filósofos e romancistas cujos nomes jamais ouvira. Dentre os mencionados, os mais enaltecidos foram Ludwig von Mises, Mário Ferreira dos Santos, Gilberto Freyre, Liév Tolstoi e Dostoiévski, cujas obras, declararam Mateus e Berenice, são, dentre das de outros raros intelectuais e romancistas de inteligência vigorosa, inegável sabedoria e honestidade intelectual, de leitura obrigatória para todas as pessoas que desejam compreender a civilização moderna.

Veruska, enfim, apareceu à sala-de-estar. José Carlos fitou-a, maravilhado. Berenice não titubeou:

– Tu estás linda, filha.

– Linda ela sempre foi – comentou Mateus. – Hoje, ela está exageradamente linda.

Encabularam-na tais comentários. Ruborizou-se-lhe o rosto, cujas maçãs destacaram-se.

José Carlos sentiu o coração vibrando violentamente.

Berenice deslizou, suavemente, suas mãos macias pelos cabelos sedosos de Veruska, e deu-lhe um beijo suave no rosto.

– A benção, mamãe.

– Deus te abençoe.

Ao aproximar-se de seu pai, Veruska pediu-lhe a benção.

– Deus te abençoe – e ele lhe pousou a mão esquerda, de leve, mal a tocando, na face direita, e beijou-lhe o rosto esquerdo.

José Carlos despediu-se de Berenice e Mateus.

Naquela noite, José Carlos e Veruska começaram a namorar.

Oito meses depois, casaram-se, na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Transcorridos quatorze meses, Veruska deu à luz Renato, menino rechonchudo e saudável. Transcorridos outros dezessete meses, nasceu Samantha, que herdou de sua mãe os cabelos ruivos.

Há oito anos José Carlos e Veruska vivem em lua-de-mel. Renato e Samantha crescem, belos e repletos de saúde e de alegria.

Comentários:

Farto dos finais tristes dos romances modernos, perguntei-me se não seria melhor eu encerrar este conto com um final feliz. Abandonei a idéia original, que não era original, e escrevi o final que me agrada. Não é original; todavia, satisfaz os meus anseios.

As senhas

Os segredos mais bem guardados do universo.

Ricardo, aos vinte e seis anos, era um homem de um metro e oitenta, magro, de ombros largos. Era casado com Suzanne e tinha duas filhas, Márcia e Adriana. Eu o conheci na festa de aniversário de um amigo comum, Marco Antonio. Ricardo era um ótimo contador de histórias e humorista irrivalizado. As pessoas, na festa, acercavam-se dele para dele ouvirem as histórias mais hilárias das quais se têm notícia, algumas picarescas, outras bocaccianas (narradas com sutileza e requinte, para não ferir suscetibilidades, nem constranger alguém), algumas de puro nonsense, outras quixotescas. Hilárias, todas elas. Era impressionante. E ele não se limitava a narrar as suas histórias; ele as animava com gestos – era ele um mímico versátil –, que vinham com tantos pormenores, que me fazem evocar os personagens de Charles Dickens. Direi – e sou ousado ao dizer – que ele era o Charles Dickens redivivo, o avatar do melhor escritor da era vitoriana. Tinha o talento literário do autor de David Copperfield e Oliver Twist, não na escrita, mas na narrativa oral. Cativante, animado, entreteve o aniversariante e todos os seus convidados durante quatro horas daquele sábado de verão. Assim que ele anunciou que teria de ir-se, pedimos-lhe que ficasse um pouco mais, insistimos, mas ele tinha de ir à casa de seu pai, então acamado, em auxílio à sua mãe, que lhe dedicava cuidados.

Dias depois, encontrei-me com Ricardo, em uma fila de banco. Ele contou tantas histórias engraçadas, que não percebemos que havíamos nos conservado quarenta minutos na fila (desejo que nenhum banqueiro leia este relato, que pode vir a inspirar-lhe a contratação de contadores de histórias para entreter as pessoas que, durante horas, permanecem, nas filhas das agências bancárias, à espera de atendimento). Depois daquele dia, encontramo-nos eu e Ricardo, em cinco ocasiões, num prazo de um ano. Encontramo-nos, na casa de Marco Antonio, há dois anos, no casamento de Marco Antonio e Neide, a sua segunda esposa (a primeira esposa dele, Tereza, falecera dois anos antes, em um acidente de moto). E Ricardo falou-nos da sua viagem aos Estados Unidos, à Inglaterra, do seu trabalho em uma empresa de engenharia eletrônica, e de outros capítulos de sua vida atribulada. Já conhecíamos todas as histórias que ele contou-nos antes de ele no-las contar, naquele dia; delas ele havia publicado, no Facebook, fotos e vídeos, mas ouvi-lo narrá-las era muito melhor. Acercamo-nos dele, para ouvi-lo. E ele entremeava o relato com comentários jocosos, alguns sarcásticos, e descrevia-nos personagens com os quais conviveu, alguns grotescos, aparentados com o Quasímodo, outros, hilários, saídos dos filmes de Harold Lloyd e Buster Keaton. Rimos gostosamente. Gargalhamos. Choramos de tanto rir. Em um certo momento da conversa, assediaram Ricardo duas crianças, Marcelo e Eliane, ele, de sete anos, ela de seis, ele, filho de Vinicius, primo de Marco Antonio, e Fabíola, ela, filha de Tadeu e Larissa, vizinhos de Marco Antonio, que lhe perguntaram qual era a senha da conta do Facebook e a do e-mail dele. E Ricardo disse-lhes:

– Sei guardar segredos. Sou o guardador dos segredos mais bem guardados do universo. Não os revelo para ninguém. A minha senha do Facebook e a minha senha do e-mail são segredos secretos. Eu nunca, nunca, nunca, e nunca, contarei para vocês quais são as minhas senhas. Vocês nunca saberão que ornitorrinco é a senha da minha conta do Facebook. Vocês nunca saberão.

E todos rimos.

E Marcelo gargalhou. E cessada a gargalhada, dirigindo-se a Ricardo, disse-lhe:

– Você disse.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo, simulando não haver compreendido a declaração de Marcelo.

– Você disse a sua senha do Facebook – respondeu Marcelo, mal conseguindo proferir as palavras.

– Eu? – indagou Ricardo, simulando surpresa. – Eu disse a minha senha do Facebook!? Não disse, não. Eu, a dizer a minha senha!? Nunca. Jamais. Ninguém sabe qual é a minha senha do Facebook, e ninguém jamais saberá. Jamais!

– Eu sei qual é a sua senha do Facebook – declarou Eliane. – Você disse a senha.

– Você sabe qual é a minha senha? – perguntou Ricardo, “incrédulo”. – Não sabe, não. Eu não disse qual é.

– Disse, sim – afirmou Eliane.

– Eu não disse, não – retrucou Ricardo.

– Disse – afirmou Marcelo. – E eu também sei qual é a sua senha do Facebook.

– Vocês não sabem qual é a minha senha do Facebook – disse Ricardo, que prosseguiu, desafiador: – Se sabem, então digam qual é.

E Marcelo e Eliane disseram, ao mesmo tempo:

– Ornitorrinco.

E Ricardo, simulando espanto, disse, olhos arregalados:

– O quê!? Como vocês descobriram qual é a minha senha do Facebook?

– Você a disse – declararam, sorrindo, Marcelo e Eliane.

– Eu? – perguntou Ricardo, interpretando o seu papel. – Eu? Eu nunca disse para ninguém que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. Nunca.

– Você disse de novo – exclamaram Marcelo e Eliane, e gargalharam.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo.

– A senha: ornitorrinco – disseram Marcelo e Eliane, e choraram de tanto rir da fisionomia, surpresa e assustadiça, de Ricardo, e da confusão dele.

– A senha? Eu disse a senha? – exclamou Ricardo, a simular espanto e incredulidade, arregalados os olhos, a passear as mãos pelo rosto, a fisionomia a exibir o horror que a revelação inspirara-lhe. – Vocês sabem a minha senha – e roeu as unhas. – Como vocês descobriram a minha senha? Vocês são espiões.

– Não somos espiões, não – defendeu-se Marcelo a si e a Eliane. Eliane não se agüentava de tanto rir, não conseguia falar, mal conseguia respirar; temiam que ela engasgasse com o pedaço de bolo que levara à boca.

– São espiões, sim – declarou Ricardo, alterando as suas expressões, fingindo olhá-los a Marcelo e a Eliane como a olhar para pessoas suspeitas, ar carrancudo, ferocidade estampada no olhar, sobrancelhas franzidas. – Vocês dois são espiões – e alterou o timbre da voz, fazendo-o áspero, cortante. – Espiões. Vocês são espiões. Vocês trabalham para o James Bond. Eu nunca disse que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. E eu nunca direi que orangotango é a minha senha do e-mail. Vocês dois nunca saberão qual é a minha senha do e-mail. Nunca! Nunca!

– Orangotango! – gritaram, simultaneamente, Marcelo e Eliane, a gargalharem; e todos gargalhamos.

– O quê!? – gritou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Quem contou para vocês que orangotango é a minha senha do e-mail? Quem?

– Você – disseram, a chorarem de tanto rir, Marcelo e Eliane.

– Eu!? – exclamou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Eu!? Eu!? Vocês – e apontou para Marcelo e Eliane – são espiões. Vou telefonar para a polícia – e tirou do bolso posterior direito da calça o telefone celular, e “discou” para a delegacia de polícia, e encetou conversa com o delegado.

A brincadeira estendeu-se por trinta minutos. As gargalhadas, tão intensas, que abalaram a estrutura das casas do quarteirão.

Decorridas duas semanas, encontramo-nos eu e Ricardo, na festa de aniversário de Mariângela, nossa amiga em comum, e lá, na casa dela, Ricardo disse, durante animada conversa com Marcos e Rúbia, filhos de Mariângela e Gustavo, com Geraldo, filho de Carlos Roberto e Madalena, e com Cauã, filho de Isaías e Isis:

– Sou um homem esperto, atilado, mais esperto do que o mais esperto de todos os homens que já pisaram na face da Terra. Eu nunca direi para ninguém que orangotango é a minha senha do e-mail e ornitorrinco é a minha senha da conta do Facebook. Ninguém nunca saberá quais são as minhas senhas! Nunca!

E Rúbia, antecipando-se a Marcos, Geraldo e Cauã, disse, rindo:

– As senhas são orangotango e ornitorrinco.

– O quê!? – exclamou Ricardo, simulando espanto, surpresa, admiração. – Como você descobriu quais são as minhas senhas? Quem as disse para você? Vocês são espiões? Vocês são espiões. Vocês descobriram as minhas senhas. Vou telefonar para a polícia, e vou falar para o delegado prender vocês – e pegou o celular, e “telefonou” para a polícia, e seguiu-se a brincadeira.

As crianças não se agüentavam de tanto rir. E os adultos, sob influência das gargalhadas das crianças e da mímica histriônica de Ricardo, riam de orelha a orelha.

Um mês não havia transcorrido, encontramo-nos Ricardo e eu, no clube de campo ***, onde, na presença de crianças, Ricardo repetiu a Brincadeira das Senhas, como codnominaram a brincadeira, que, infalivelmente, Ricardo promovia sempre que encontrava-se com crianças. Não haviam decorrido dez dias, Ricardo veio a falecer, pouco depois de um assalto. O assassino disparou contra ele, a queima-roupa, três vezes. Morreu Ricardo, na ambulância, a caminho do hospital. Compareci ao sepultamento. Reinava a tristeza. Apresentei condolências à mãe e ao pai do Ricardo, à Suzanne, e às órfãs, Márcia e Adriana. Lágrimas escorreram-me dos olhos, em uma golfada. Não as removi. Das minhas lágrimas não me envergonho.

Nos dias seguintes, freqüentei a casa de Suzanne, e ajudei-a a ajeitar algumas coisas que Ricardo deixara para trás. Um dia, na casa dela, estávamos Suzanne, Márcia, Adriana, o pai de Suzanne, Cristóvão, a mãe dela, Maria da Conceição, e o tio dela, Rubens, e outros familiares e amigos da família, quando alguém – não me recordo quem -, lembrou-se de acessar o computador, à procura de documentos, projetos e relatórios de Ricardo. Suzanne, no escritório de Ricardo, ligou o notebook, e clicou no ícone do e-mail, e, na sequência, no do Facebook. Para acessar as duas contas digitou, no campo reservado às senhas, na conta do e-mail e na do Facebook, a data de nascimento de Ricardo. Acesso negado. E digitou a data de nascimento de Ricardo com os números alterados, primeiro o ano, depois o mês, e o dia. Acesso negado. Digitou a sua data de nascimento. Acesso negado. Digitou o seu nome. Acesso negado. Digitou o nome de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome das filhas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento delas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Teófilo, pai de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dele. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Maria Amélia, mãe de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dela. Acesso negado. Digitou o nome de Albert Einstein, o cientista que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou o nome de Fibbonacci. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Fibbonacci, o matemático que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Fibbonacci. Acesso negado. Após o Facebook e o e-mail negarem-lhe o acesso trinta e quatro vezes, Suzanne desligou o notebook e, acompanhada de todos nós, retirou-se do escritório de Ricardo, e rumou, irritada, a ponto de debulhar-se em lágrimas, que, parecia, subiam-lhe para os olhos, em torrente, e em uma enxurrada se lhe despencariam dos olhos, para a sala-de-visitas, onde nos reunimos, e Cristóvão e Maria da Conceição pediram-lhe paciência, que, depois, descobririam a senha da conta do e-mail e a da conta do Facebook de Ricardo. Ele, era certo, as havia anotado em algum papel. Em qual? E onde o deixou? Ou, sugeriu Cristóvão, em algum arquivo, no computador, ou, sugeri, para descontrairmos um pouco, em algum arquivo particular no Facebook, ou em um rascunho no e-mail.

Na sala-de-estar, a conversar permanecemos, em tom baixo, respeitoso, durante um bom tempo. Maria da Conceição, preocupada com a saúde de sua filha, à ela dedicou toda a sua atenção até o instante em que Cristóvão soltou uma gargalhada, tão repentinamente, que assustou-nos a todos nós – e a ele também, presumo -, e bateu as mãos, na cabeça, uma, duas, três vezes, como que a se punir por algum pecado. Suspendemos a respiração, de imediato, a fitarmo-lo, abismados. Enlouquecera o velho? Um parafuso desconectara-se-lhe da massa cinzenta? Desmiolhara-se-lhe a cabeça? Liquefizera-se-lhe o cérebro? Coitado do ancião! O que lhe sucedia? Doeu-lhe o ventre de tanto gargalhar. Esparramou-se no sofá, o matusalém. Enfim, ele cessou as gargalhadas, e removeu, com um lenço que tirara do bolso traseiro da calça, as lágrimas dos olhos, e acenou para nós, pedindo-nos que o acompanhássemos. Não lhe exigimos explicações. Entreolhamo-nos, e levantamo-nos, curiosos, do sofá, e seguimo-lo. E ele entrou no escritório que havia sido do seu falecido genro. E ligou o notebook. E digitou a senha da conta do Facebook do Ricardo e a da conta do e-mail dele: ornitorrinco e orangotango.

Relatos de um correspondente de guerra

 – Chamai-me Emanuel. Na semana passada, Rodolfo, o meu empregador, solicitou à Kátia, a sua secretária, que me transmitisse uma mensagem sua: um convite para um almoço. Enquanto ouvia a Kátia da mensagem inteirar-me, estudei-lhe, com uma pulga atrás da orelha, a fisionomia. Esbocei um interrogatório, que encerrei ao dela ouvir a resposta para a primeira pergunta que lhe fiz. E ela perguntou-me se eu aceitaria o convite. E eu o recusaria? Rodolfo me pediria uma tarefa, que eu não me disporia a empreender. Ele, todavia, presumi, e eu estava certo, tinha bons argumentos para convencer-me a empreendê-la. Ele não me inflaria o ego, pois sabe que sou infenso aos elogios e às bajulações. E não me ofereceria dinheiro. E também não me ofereceria privilégios. Pensativo, perguntei-me, durante aquele dia e à noite, na cama, antes de conciliar o sono, quais surpresas ele me preparara. Fui ao escritório dele, no dia seguinte, na hora aprazada. A Kátia acompanhou-me até dois metros da mesa. Rodolfo, que falava ao telefone, despediu-se do seu interlocutor, desligou o telefone, saudou-me com a reserva que lhe é comum, pediu-me que eu puxasse a cadeira, e apontou-ma, e me sentasse. Descontraído, falou-me da empresa. Enquanto o ouvia, eu seguia-lhe os pensamentos. Desconfiei de qual era a proposta que ele me faria assim que ele fez referências aos recentes conflitos bélicos que estouraram em alguns países. Com o preâmbulo, deu-me a entender que desejava que um jornalista fosse para um campo de batalha. Mas para qual campo de batalha? Rodolfo estudava as minhas reações. Eu lhe estudava as palavras, no desejo de antecipar-me ao que ele me diria, para que ele não me surpreendesse. Falei-lhe, em duas ocasiões, do que eu pensava dos conflitos que ele comentava, mas não lhe perguntei se ele desejava enviar-me para um dos países conflagrados, e tampouco ofereci-lhe os meus serviços. Dele eu queria ouvir as propostas. Enfim, ele se deteve no cruento conflito entre os A… e os B…, que, há dois meses, assola C…. Eu sabia que nenhum jornalista, eu inclusive, se ofereceria para documentar tão cruento conflito. Como, então, Rodolfo me convenceria a empreender trabalho tão arriscado? Esperei, e não por muito tempo, que ele me falasse das suas intenções. Ele me disse que obtinha informações diárias sobre o estado de coisas em C…, e temia o recrudescimento da conflagração, que poderia vir a ultrapassar as fronteiras do país, e, ao avançar aos países limítrofes, assumir proporções imprevisíveis. Intensificava-se a guerra. Vacilavam as potências mundiais. Os líderes das organizações internacionais, sempre que se pronunciavam a respeito da conflagração, acirravam os ânimos dos beligerantes, e o conflito recrudescia. Rodolfo estendeu-se ao tratar das notícias da antevéspera e da véspera. E eu o ouvi, certo de que ele me queria em C…. Falou-me dos riscos inerentes à tarefa de registro dos combates e da realidade do campo de batalha. E eu, enquanto o ouvia, perguntava-me se eu era provido de coragem para encarar tal desafio, inédito para mim. Malgrado o meu desejo de não me envolver neste crudelíssimo episódio da história humana e preservar minha vida, o desejo de empreender tão árdua tarefa enviou-me para cá, para registrar eventos que me propiciarão emoções inéditas. Não me ofereci para a tarefa. Rodolfo, todavia, munido de um arsenal de argumentos, persuadiu-me a vir para C…, de onde apresento este relato, registrar, arriscando minha vida, os embates entre os A… e os B…, e mostrar para o mundo a realidade deste país, a existência de milhares de humanos vitimados pela crueldade de governantes crudelíssimos. Estou numa das poucas áreas que bombardeios não devastaram. Metros à minha frente, ruas rubras de sangue. Os beligerantes abandonaram um rastro de destruição e miséria, desesperança e ódio. Aqui não há, além de mim, jornalistas. A imprensa mundial não os envia para cá. E os jornalistas independentes que arrumaram as malas para vir para esta área conflagrada, as desfizeram ao receberem a notícia da morte de vinte e dois jornalistas nos seis primeiros dias de conflitos. Muitos dentre eles foram alvejados pelos beligerantes, que tinham o propósito de dissuadirem outros jornalistas de vir para este país devastado. Muitas pessoas não desejam que os eventos que se sucedem aqui sejam do conhecimento do mundo. Há muitos interesses envolvidos, muitos deles inconfessados. Os donos da guerra não desejam que as suas identidades sejam reveladas. Logram os seus intentos, os malditos carniceiros! Os medrosos e covardes ocidentais (como dizem os combatentes e os que os instigam aos combates) carecem de coragem guerreira, e temem a morte, e malgrado os esforços para evitá-la, um dia defrontar-se-ão com ela num campo de batalha. E aqui estou, nas proximidades de um campo de batalha da mais feroz guerra moderna. Hordas de guerreiros sanguinários, personagens de lendas clássicas, oriundos de plagas desconhecidas, situadas em regiões inacessíveis, distantes da civilização, devastaram os impérios da antiguidade; asselvajados combatentes, rudes, ignorantes, amantes da guerra, bebedores de sangue, grotescos, incivis, bárbaros, promovem este conflito, para repetir, hoje, as ações de seus ancestrais bárbaros. Seres saídos das trevas, agourentos, vaticinam a aniquilação da civilização. Das trevas para a luz, não para usufruir dos prazeres que a luz nos oferece, mas para eliminar o que à luz dá origem. Os selvagens bárbaros modernos têm à disposição armamentos que seus antepassados jamais imaginaram. Com a fusão inconcebível da arte bélica antiga e dos artefatos bélicos modernos engendram carnificina sem precedentes… Abandono a digressão, e inicio o relato do que ocorre ao meu redor. Dou os primeiros passos, firmes. Ouço estrondos. Nuvens escuras no horizonte. Chegam-me aos ouvidos berros indistintos. Detenho-me. Atrai-me a atenção um ponto no céu, não sei a quantos quilômetros de distância, ao noroeste. Um avião rasga o horizonte, executa uma curva para o sudoeste, e desaparece atrás de uma nuvem. Chega-me aos olhos uma nuvem preto-acinzentada, que eleva-se e encorpa-se, de detrás de uma colina, há uns dez quilômetros de distância. Aos ouvidos chega-me o estrondo de uma detonação. Da minha esquerda, vejo uma nuvem de fumaça a uns cinco quilômetros de distância. Chega-me, aos ouvidos, não sei de qual direção, outro estrondo. Olho de um lado para o outro. Mísseis atingem áreas urbanas, vejo com o binóculo. Sobressaem-se, por sobre as colinas, os prédios mais altos. Não posso ver as dimensões da devastação. Rumo, sem vacilar, em direção à explosão à minha esquerda a uns cinco quilômetros de mim. Desloco-me mais de cem metros. Os sinais da devastação: carros de cabeça para baixo, queimados, casas destruídas, paredes de prédios esburacadas, ruínas em toda a extensão da rua, árvores carbonizadas. Dois cachorros famintos, ossudos, de olhos esgazeados, correm, e detêm-se, e fuçam qualquer coisa atrás de pilhas de tijolos, e, ganindo, correm, e o que vai na frente dá um ganido mais elevado do que o que emitia até então, e pula, e cai, e desaparece do meu campo de visão, atrás de um tronco de árvore carbonizado. O outro cachorro, assustado, de pelagem preta, com inúmeras falhas, a orelha machucada, a pele do flanco direito exposta, acelera a corrida, e muda a direção que segue. Cauteloso, ando, com passos firmes, na direção do cachorro que pulou e caiu. Não atino com a razão que o levou a pular e cair e o outro a disparar, assustado. A minha curiosidade, excitada, e o meu desejo de conhecer a resposta para o evento impelem-me até o cachorro que pulou e caiu. Não negligencio cuidados. Agi com imprudência, reconheço, agora, ao me deparar com o cadáver ensangüentado do cachorro escanifrado, um esqueleto banhado em sangue. Examino-o à procura da causa da sua morte. Com uma pedra cilíndrica coberta de saliências e cavidades, mexo-lhe a cabeça. Seus olhos, esgazeados; sua boca, entreaberta; sua língua, para fora. Mexo-lhe mais um pouco. Viro-lhe a barriga para cima; suas vísceras se lhe escorrem, numa poça de sangue, e esparramam-se no chão. O animal, grotesco. Uma quimera; não um cachorro. Falta-lhe uma perna. O que lha arrancou? As vísceras escorrem do corpo sem vida. A causa da morte do cachorro está próxima do cadáver: Um projétil, alojado numa pedra. Dou-me conta de que me expus, inadvertidamente, à morte. Fui imprudente. Não sei se o cachorro ficara sob a mira de um revólver, ou se o projétil, por obra do acaso, o alvejara. Olho em torno de mim. A disposição da pedra e a do cachorro não me orientam. O cachorro, atingido, dera um salto de um metro de altura, e a pedra, é certo, antes de o projétil atingi-la, não estava onde a encontrei. Fico com as minhas interrogações. Estou certo de que não me precavi como deveria ter feito. Expus-me ao perigo. Sei dos riscos que corro aqui. Eu deveria me precaver, e não me lançar, em busca da glória, com tal ímpeto inconsequente, suicida. Serei mais cauteloso. Não quero abreviar minha vida. Não quero que me abreviem a vida. Sou jovem, conquanto os esparsos cabelos grisalhos e as rugas exibam a figura de um homem de seus quarenta anos. Não quero ir para o inferno. Os seres das profundezas rejubilar-se-iam com a minha majestosa presença. Pretendo viver mais alguns anos neste inferno. Aqui, diante de mim, o cadáver de um cachorro. Abandono-o, em respeito à sua alma. Curvado, ando, com passos firmes, até uma pilha de pedras, que, acredito, me servirá de escudo. Onde estou com a cabeça? Atrás desta pilha de pedras. Minha cabeça ainda está sobre meu pescoço. Um míssil ou uma rajada de metralhadora pode pulverizar estas pedras e minha cabeça. Não tenho opções. Retiro-me de detrás desta pilha de pedras. Ouço um barulho. Detenho-me, curvado, com as pontas dos dedos da mão direita pousadas no chão. Vejo um avião, a mais de mil quilômetros por hora, sobrevoando o céu a uns duzentos metros à minha frente, a cem metros de altura, da minha direita para a minha esquerda. Os ruídos dos motores ofendem-me os ouvidos, que eu cubro com as mãos. O avião aos meus olhos reduz-se às dimensões de um ponto preto insignificante, a não sei quantos metros de distância e a quantos metros de altura. Uma explosão. Bombas atingiram um prédio a duzentos metros à minha direita. Duas pessoas saltaram do prédio, ou do prédio foram arremessadas, de uma altura de vinte metros. Seguem-se quatro explosões. Não vi de que direção partiram os disparos, e se de aviões, se de tanques de guerra, se de carros de combate. Agora, o silêncio é ensurdecedor. Ao longe, na mesma linha de visão, uma explosão de um avião, a não sei quantos metros de altura e a quantos metros de distância, e o rastro de fogo e fumaça que o avião abandona, na curva descencional rumo ao solo. O estrondo da explosão não me chega aos ouvidos. Eleva-se no céu a nuvem de fogo e fumaça. Nas proximidades do ponto em que o avião caiu, rasgam o céu dois aviões, vindos não sei de onde, e rumam em minha direção. As suas dimensões ampliam-se aos meus olhos enquanto de mim se aproximam. Deito-me. Dos aviões não desvio meu olhar. Os aviões executam uma curva; passam, a uns quinhentos metros de altura, a mais de mil metros de distância; deslocam-se a mais de mil quilômetros por hora. Ouço o rugido dos seus motores. Segue-se a calmaria. Acocorado, desloco-me, desajeitadamente, uns vinte metros. Precipita-se o crepúsculo. Anuncia-se a noite. Parece-me que o tempo se acelerou, como se um mecanismo planetário afetasse os ponteiros de um relógio cósmico com força suficiente para movê-los com velocidade superior à normal. Não consulto o relógio porque algo me chama a atenção: sapatos, atrás de um carro. Considerando a disposição dos sapatos, há pés dentro deles. Olho ao redor. Nenhum avião. Perscruto os arredores à procura de combatentes. Não os vejo. Vou, corpo arqueado, passos acelerados, até o par de sapatos. Como presumi, há pés dentro deles. Vejo os calcanhares, os tornozelos, as pernas, os joelhos, as coxas, e um corpo de homem. Foi-lhe rasgado o ventre e retalhado o rosto. Examino-o. Do corpo desviscerado foi extraído o coração. Os homicidas, crudelíssimos, tiveram o desplante de, com as vísceras, escreverem uma palavra à direita do corpo. Que desumanidade! Quem perpetrou tão horrendo crime? Tento desenhar, na minha mente, a figura original do rosto deste cadáver desfigurado. O sangue que corre pelas veias e artérias do perpetrador de tal crime é da constituição do gelo glacial, e seu rosto, da de um sujeito animalesco de expressão malévola. O homem, aqui, a desfazer-se em sangue. Vermes deslocam-se em meio às suas vísceras. Este homem não foi alvejado por projéteis; mataram-no mãos humanas, que o agarraram, cortaram-lhe o pescoço e o braço direito, e o desvisceraram, e extraíram-lhe o coração. É o corpo de um homem robusto de um metro e oitenta de altura e oitenta quilos. Era ele um dos combatentes? Ou ele era um civil, que entrou, inadvertidamente, no caminho dos combatentes das hordas inimigas? Nada, nele, indica tratar-se de um combatente. Ele não verga uniforme, e tampouco ostenta insígnias militares. Não concluo, no entanto, tratar-se ele de um civil. Os combatentes, muitos deles mercenários financiados por estados patrocinadores de organizações terroristas, não vergam uniformes militares. Sucedem-se explosões, não muito distantes de mim. Olho em torno. Devastação. Não há viv’alma no campo que meus olhos alcançam. Cães correm, ao longe, aos bandos. São oito, ou dez, todos doentios. Desaparecem dentro de uma casa em ruínas. Observo, pela última vez, o cadáver à minha frente. Curvado, afasto-me; cauteloso, desloco-me, contornando escombros e carros carbonizados. O cenário devastado parece um mural de um pintor moderno. Contorno uma casa em ruínas da qual restam pedaços das paredes. Vejo, a poucos passos de mim, um túmulo coletivo a céu aberto. Aproximo-me. Olho ao redor. Dois aviões passam ao longe. Uma explosão à minha direita, a mais de um quilômetro de distância. À minha frente, à esquerda, veículos deslocam-se, a mais de quinhentos metros, num ponto mais elevado do que o no qual me encontro, e afastam-se, rapidamente. Aproximo-me dos cadáveres. A disposição dos corpos indica que foram fuzilados à queima-roupa. São doze cadáveres, todos nus. Cinco homens. Quatro mulheres. Três crianças. Todos com olhar terrivelmente aterrorizado. Uma das mulheres, além do tiro na cabeça, foi alvejada no ventre. Piso num mar de sangue e massa encefálica. Aproximo-me dos cadáveres. Examino-os, detidamente. Não são de combatentes; são de civis. Combatentes os capturaram, e os espancaram. As mulheres e as crianças eles as estupraram. Os homens eles os espancaram até esmigalharem-lhes os ossos das mãos. Hematomas cobrem-lhes o corpo de ébano. Gritos atraem-me a atenção. Olho para a direção da qual chegaram-me aos ouvidos. Quatro homens correm; todos eles empunham rifles. São homens enormes. Correm para a mesma direção. Aproximam-se de mim. Deito-me na sujeira, no sangue, nas vísceras, na massa encefálica. Elevam-se os gritos. Aproximam-se de mim os quatro homens. Empunho a pistola que trago a tiracolo. Não sei se as aulas de tiro me serão de alguma utilidade. Uma série de detonações provoca a reação imediata dos quatro homens, que se abrigam atrás de escombros e, com saraivada de tiros, revidam ao ataque. Prendo a respiração. Não quero atrair-lhes a atenção. Aceleram-se os meus batimentos cardíacos. As explosões os abafam. Cessam os tiros. Apuro os ouvidos. Não mexo nem um dedo, nem as pálpebras. Predomina o silêncio. De repente, gritos e tiros. Enfim, cessam os gritos e os tiros. Predomina o silêncio sufocante, opressivo. Nenhum ruído chega-me aos ouvidos. Olho para a minha direita. Olho para a minha esquerda. Cauteloso, levanto-me, lentamente, Não quero que um projétil atinja-me a cabeça. Afasto-me, curvado, ziguezagueando por entre pilhas de escombros, dos doze cadáveres. Desloco-me, por entre os escombros, por uns cem metros. Recuo dois passos ao divisar uma cabeça movendo-se lentamente, e ponho-me, acocorado, atrás de um carro carbonizado. Ouço sussurros, resmungos, gemidos de dor. Olho para o homem que, à minha frente, chapinha numa poça de água estagnada numa cratera escavada, por uma bomba, presumo, no asfalto de uma ampla avenida. O homem retira-se da cavidade, e arrasta-se, fazendo das mãos pés, pois seus pés estão imobilizados e deles escorre sangue em profusão. Ele se detêm. Seu olho direito está rubro de sangue; acredito que não há olho na sua cavidade ocular esquerda, mas pasta de sangue, sujeira, pele e ossos. Ao dar um passo, emito, ao pisar num objeto de metal, ruídos, que atraem a atenção do homem que se arrasta. Ele me encara. Encaro-o. Sua figura, repulsiva, a de uma alimária, não conserva semelhanças com a figura humana. Ele se desloca, arrastando-se, como os répteis. Seu rosto, o de um ciclope desprovido de simetria. Uma figura destituída de peculiaridades humanas. Kafkiana. A guerra extraiu-lhe todas as características humanas. É um animal rastejante. Não desceu à condição de inseto, mas à de um réptil. Seu olhar, petrificante, vazio de vida, de humanidade. O que ele pensa, se pensa? Ele conserva a capacidade de pensar, ou a perdeu? Fita-me, como se olhasse para uma criatura fantasmagórica que se corporificou diante de seus olhos. A minha presença extraiu-lhe o que lhe restava de sopro divino. A face dele adquiriu consistência pétrea; ele perdeu os traços de ser vivo (não direi os de um humano), que ainda conservava, e cedeu ao peso de sua cabeça. Deteve em mim seu olho bom. Esvaiu-se o sangue daquele corpo sem vida. Andei até ele. Este cadáver não pertencia a um homem, pertencia a um macho de uma outra espécie de vida, de vida rastejante, primitiva. Diante de mais este espetáculo de horror, pergunto o que esta guerra reserva-me. Dou-me conta, agora, da noite, que se precipita. Entretido com os eventos até aqui relatados, não notei que o tempo seguiu, sem cessar, a sua jornada. Sei que, chegada a noite, os conflitos recrudescerão. Os combatentes intensificarão os bombardeios. Estou muito exposto, aqui. Tenho de encontrar um abrigo. À minha volta, ninguém. No céu, nenhum avião. Chegam-me aos ouvidos cantos de pássaros, que se destacam, e destoam do ambiente. Inusitados. Incomuns. Singulares. Surrealistas. Os pássaros são as excrescências deste cenário de horror. São as pústulas deste corpo perfeitamente tétrico. Procuro por um abrigo. Olho de um lado para outro. Diviso escombros. Ao longe, espocam luzes, de explosões, no céu e na terra. Riscos luminosos rasgam o céu. São de disparos, não sei de quais armamentos. Sucedem-se as explosões. Arrasto-me, com o coração aos pulos, bombeando, com vigor, o sangue, a ponto de estourar-me a caixa torácica. Envolve-me a escuridão; tão de repente, que me surpreende. Detenho-me. Olho em redor. Nada vejo. Não vislumbro nem meus pés, nem minhas mãos. Tateando os escombros, acocorado, desloco-me não sei para onde. A insegurança me consome. Sinto que não posso permanecer aqui. Retiro do bolso a lanterna. Ouço vozes, que me chegam da minha direita. Agacho-me. Com a lanterna na mão, detenho-me, ouvidos atentos e olhos apurados; nada vejo, entretanto. Não vejo nem a ponta de meu nariz. As vozes que me chegam aos ouvidos pertencem a três homens, que falam um idioma que desconheço. São vozes graves, cavernosas. Sussurro, agora. Os três homens aproximam-se de mim. Calo-me… Os três homens distanciam-se… Não me viram, para a minha felicidade. Afastam-se. Cauteloso, desloco-me, tateando os escombros. Não quero provocar ruídos. Duas detonações, não muito longe de mim. Ouço berros ensurdecedores. Vejo cilindros de luz cem metros à minha frente. Ouço detonações, uma, duas, três, quatro… Uma rajada de detonações, de duas ou mais armas. Sucessivas e simultâneas. De armas de modelos diferentes. Deito-me, de barriga para baixo, e pouso as mãos sobre a nuca, para me proteger. Não sei de que direção são dados os tiros. Os disparos não me são dirigidos. Não sou o alvo dos atiradores. Nenhum projétil assobia aos meus ouvidos, nem atinge os escombros próximos de mim. Nada vejo. Escuto detonações, que se sucedem de diversas direções. Sinto-me exausto, debilitado. Procuro controlar meus batimentos cardíacos. Sucedem-se explosões ensurdecedoras. Não são de disparos de revólveres, pistolas, rifles, metralhadoras. São disparos de mísseis. A terra treme sob meu corpo. Pedras atingem-me os braços, as costas, as pernas. Cerro as pálpebras. Mordo os lábios. Entrelaço os dedos das mãos e os comprimo uns contra os outros e contra a cabeça. Retesados, todos meus músculos. Segue-se silêncio lúgubre, que ruídos de motores de veículos interrompem. Afrouxo os dedos das mãos. Nenhum ruído. Nenhuma voz. Aviões sobrevoam a região não sei há quantos metros de altura. Desentrelaço os dedos das mãos. Passo as mãos, da nuca para o queixo. Deito sobre as mãos a cabeça. Ouço vozes de homens, de mulheres e de crianças. Homens, mulheres e crianças conversam, sussurrando, num idioma que desconheço; e afastam-se de mim. Não me movo. Penso em me levantar, em acionar a luz da lanterna. Empunho a lanterna. Não sei se a aciono. E se combatentes virem a luz da lanterna? As pessoas que estão próximas de mim estão armadas? Elas me ajudarão? Ou me matarão? Elas são combatentes? Dirão aos combatentes, ou aos A…, ou aos B…, de mim? Prefiro conservar-me, aqui, deitado, e, sussurrando, registrar este relato… Despertam-me detonações. Dormi não sei durante quantas horas. O céu, claro. A luz do sol atinge-me da cintura para baixo. Sucedem-se explosões. Um avião passa ao longe, a dois quilômetros de distância e oitocentos metros de altura. Alvejam-no projéteis. O avião explode. Com a consciência um tanto lenta, debilitada, afetada pelo resquício do sono que me dominou, e conservou-me no seu domínio não sei durante quanto tempo, ergo-me, e ponho-me sobre os joelhos. Olho ao redor. Diviso escombros, e escombros, e prédios fumegantes, e veículos dos quais escapam línguas de fogo. O que se sucedeu à noite? Consulto o relógio. Dormi durante mais de dez horas. À minha esquerda, cadáveres. Não estavam lá, ontem, antes de eu pregar as pálpebras. São quatro cadáveres, três, de homens, um, de mulher. Os quatro vergam trajes civis dos A…. A mulher, de cabelos compridos, jaz estirada numa poça de sangue, sob um homem deitado de bruços, de través, com um rombo no crânio, e de cuja testa escorre massa encefálica. Os outros dois cadáveres são, um, de um homem na idade de aproximadamente trinta anos, e o outro, de um homem de uns quarenta anos de idade, de barbas e bigodes espessos. Os quatro foram alvejados, cada um deles, por dois ou mais tiros. Não vejo cápsulas próximas deles. Concluo que os tiros partiram de longe. Chegam-me vozes aos ouvidos. Agacho-me. Vozes aproximam-se de mim. Os homens que as pronunciam não elevam o tom de voz. Aproximam-se de mim, lentamente. Acocorado, afasto-me dos cadáveres. À minha frente, um carro. Contorno-o. Ouço vozes de regozijo. Olho através do vidro do carro. São três homens. Não. Quatro. Cinco. Entrevejo armas. Rifles. Um homem carrega, a tiracolo, uma pistola. São seis homens. Dois deles, magros. Um, alto e musculoso, de voz roufenha, aparência tourina e músculos bem definidos. Seu tom de voz, de comando; os outros parlamentam com ele. Com um binóculo, ele esquadrinha o horizonte, e diz qualquer coisa. Um deles, magro, sobe em escombros e, com as mãos em pala, vasculha o horizonte. Dois homens andam na minha direção. Agacho-me. Arrasto-me para trás de escombros. Enfio-me por entre tijolos e vigas de ferro. Réstia de luz penetra nesta caverna, e revela-me o cadáver de uma criança decapitada, cujos olhos fitam-me, como se me repreendessem e suplicassem-me uma explicação ao que se sucede em C… Vejo, por uma frincha, o carro, e dois homens, que se detêm e remexem no carro. Aproxima-se deles um homem barbudo, que lhes exibe, ostentando-os com orgulho, os despojos que suprimiu, presumo, dos quatro cadáveres: dois relógios, um cinto, pulseiras e outros objetos. Aproximam-se do carro outros três homens. Riem. Gargalham. O grandalhão verga uma jaqueta preta, a qual retirou de um dos cadáveres, e exibe dois pares de sapatos e óculos de lentes pretas, e sorri, exibindo-se aos outros homens, que gargalham. A detonação de um projétil. Um dos homens que se acercaram do carro cai, alvejado por um projétil, presumo. Os outros homens põem-se de sobreaviso. Dois deles correm em minha direção, e abrigam-se nos escombros sob os quais estou. Seguem-se estrondos. Ouço gritos. Seguem-se estrondos. Sucedem-se gritos mistos de medo, raiva e dor. Explosões. Saraivadas de tiros. Aviões sobrevoam a região. Disparos. Gritos. Explosões. Estrondos. Passos acelerados. Várias pessoas correm, aos berros, próximas de mim. Vejo pés descalços ensangüentados passando por mim, rapidamente. Gritos. Choros. Gritos de desespero. Gritos de raiva. Gritos ameaçadores. Gritos de súplica. Entrevejo um homem carregando ao colo uma criança ensangüentada. Uma mulher ampara uma velha. Uma explosão. Nuvem de fumaça ganha o céu. Detritos invadem esta caverna. Cerro as pálpebras. Cubro o nariz, comprimindo as abas, para não aspirar detritos… Assentaram-se os detritos. Recupero a respiração. Descerro as pálpebras. Dissipou-se a nuvem. Não sei quanto tempo permaneci de pálpebras cerradas. Não ouço vozes. Não ouço ruídos. Nenhum som me chega aos ouvidos. Hesito. Quero retirar-me de sob estes escombros, que me protegeram, mas é uma armadilha. Por sorte, não ruíram, e não me soterraram. Apuro os ouvidos. Nenhuma voz, nenhum ruído, chega-me aos ouvidos. Lentamente, cauteloso, arrasto-me, evitando gestos bruscos, os ouvidos apurados para captar todo e qualquer ruído que me indique a presença de pessoas nas proximidades. Nada ouço. Movo-me, lentamente. Detenho-me. Ouvi ruídos de pedras caindo de grande altura. Segue-se o silêncio. Movo-me, lentamente, para me retirar deste abrigo, que poderá vir a se converter numa guilhotina e ceifar-me a vida. Censuram-me os olhos da criança decapitada. Fito-a pela última vez, e retiro-me de sob estes escombros. Olho em torno de mim. A paisagem foi enormemente modificada. O carro foi reduzido a ferro retorcido; mal há vestígios da sua forma original. Cadáveres juncam o chão a dez metros de mim. Há partes de corpos espalhados nos arredores. Braços. Pernas. Cabeças. Uma cabeça de mulher numa cavidade cheia de sangue. Ossos. Um mar de sangue. Quantos cadáveres há num raio de cinquenta metros que meu olhar alcança? Não sei para onde andar. Para onde me viro, vejo destruição e cadáveres. Sigo em direção às colinas, mais para o coração de C…, de onde chegam-me línguas de fogo e torres de fumaça, que se vergam ao sabor dos ventos, de mais de duzentos metros de altura. A batalha, lá, é mais intensa, encarniçada, do que aqui. Desloquei-me mais de vinte metros. Passei por cadáveres e escombros. Sigo em frente. Um veículo atrás de mim. Agacho-me. O veículo passa ao largo. Ergo-me. Neste terreno acidentado, repleto de obstáculos, corro, contornando-os, até um prédio em ruínas. Enveredo-me pelos seus domínios. Atravesso-o. Deparo-me com um cenário mais devastado do que o com o qual deparei-me antes de entrar neste prédio, que deixo para trás. Que… O que… O que é isto… O que é isto no meu braço direito? Um pernilongo. Criaturazinha maldita! Suga-me o sangue, a maldita! Sua barriga, repleta de sangue. Sangue! Sangue! Meu sangue! Criatura maldita! Enerva-me. Não me sugarás o sangue, maldita! Dou-te um tapa! Esmaguei-te, criatura maldita! Oh! Meu sangue! Mancha-me o braço meu sangue. Meu sangue! Oh! Meu sangue! Meu…

Emanuel desmaia. Aqui encerra-se o relato do correspondente de guerra.

Ivã, o Terrível

Ele era um homem incomum, rebelde, encrenqueiro e desajustado. Viveu vinte e dois anos. Nasceu no dia 17 de novembro de 1993, e morreu no último dia vinte e dois. Uma perda lamentável. No velório, choraram sua mãe, seu pai, seu irmão – o gênio, o cérebro, futuro Einstein brasileiro, porventura o novo Einstein planetário – sua irmã – a primogênita, a Gustave Rodin, a Michelângelo, a Leonardo da Vinci da família, talvez do Brasil – familiares e amigos. Os familiares receberam as condolências, algumas sinceras; muitas polidas, por respeito e consideração à família; e não foram poucas as fingidas; e houve quem, insensível, não dissimulou a sua indiferença e insensibilidade, e desafeição ao falecido.

– Ele teve o que mereceu – comentou um homem, que aparentava quarenta anos, às pessoas ao seu redor. – Sempre se arriscou em aventuras amalucadas. Não nasceu para viver muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, era previsível, morreria em uma das suas aventuras arriscadas. – Depois, ofereceu as suas condolências aos familiares do falecido, beijou o rosto da mãe dele, e abraçou-a. Tal homem ignorava a causa da morte do homem de quem falava com tanta insensibilidade.

De quem estou a tratar, afinal? À minha mão uma edição do jornal de anteontem, que traz o obituário do homem que tão imprevistamente morreu; sua morte, uma fatalidade. Quem imaginaria que ele teria tal morte!? Os leitores do jornal sabem de quem trato aqui. De um amigo. O início da nossa amizade deu-se no jardim de infância. Tempos bons aqueles. Nostálgico, rememoro aquela época, e suspiro de saudades. Nossos atos, para nós, eram destituídos de conseqüências, brincadeiras inofensivas. Quem diz que o meu querido amigo, falecido no dia 22 último, e eu não tínhamos consciência dos nossos atos não tem consciência do que diz. As crianças não têm consciência dos seus atos, dizem. Se tal afirmação procedesse, todas as crianças escalariam os muros das suas casas, e se lançariam, e de cabeça, no chão, e as que vivem em um apartamento do quinto andar saltariam para a calçada, vinte metros abaixo; se fossem desprovidas da consciência de seus atos, jamais recusariam sugestões e conselhos de adultos inconseqüentes, que as estimulam a arriscarem-se em atividades perigosas; em muitos casos, as crianças se machucariam seriamente se acolhessem as “sensatas” sugestões de “experientes e prudentes” adultos; mas elas, sábias, as rejeitam, terminantemente.

Agora, evocando aquela época, a da minha infância, que não se perdeu nos escaninhos da minha memória, mas esvai-se-me, lentamente, com a passagem do tempo, o faço, nostálgico, sorriso a estampar-me, não o rosto, mas o espírito, que se diverte, repleto de saudades.

Minha vida é atribulada. Tenho de encará-la. Intimida-me as minhas lembranças. Não quero falar de mim. Não foi para falar de mim que principiei os registros destas memórias, que se me esvaem; foi para falar do amigo que perdi que debrucei-me sobre a folha de papel em branco à minha frente, a poucos centímetros de meus olhos e ao alcance de minhas mãos. Caneta em punho, registro fragmentos de episódios da vida do meu amigo falecido.

Principio a redação da biografia de uma pessoa que viveu intensamente a vida. Ela atendia pelo nome de Ivã, e pelo codinome O Terrível. Seu patronímico; seu apelido. Ivã, o Terrível. Sim, ele era terrível. Ele era o Ivã. Ele era o Terrível. A sua reputação fazia jus ao seu nome. Ivã, o Terrível. Se os pais dele soubessem que tal nome daria ao primogênito deles um temperamento tão, como diz a mãe dele, esquentado, com tal nome jamais o batizariam. Estou a pensar bobagens. Ivã é um nome, apenas um nome. Dona Elizabete! Seu Roberto! Eu gostaria de poder abraçá-los, oferecer-lhes as minhas condolências, e também aos queridos Eduardo, Dudu, o Einstein, e Beatriz, Bia, a Leonardo da Vinci. Hoje tive a notícia do falecimento e do enterro de Ivã, meu amigo.

No jardim de infância principiamos Ivã e eu uma amizade, que perdurou até a morte dele, embora não nos tenhamos visto nos dezoito meses que a antecederam. Falávamo-nos, no entanto, via telefone e via internet. Podíamos nos ouvir, nos ver – o meu monitor não é dos melhores, e eu não tinha imagem nítida do Ivã.

Recordo-me do dia em que Ivã e eu nos conhecemos. O princípio da nossa história não foi alvissareiro. Como o episódio foi-me de grande impacto, recordo-me dele com clareza. Penetrou-me, profundamente, no cérebro. Há psicológicos que, porque leram apostilas, na faculdade, e repetem as patacoadas que leram, e as que ouviram, nas salas de aula, dos professores, autoridades demiúrgicas, declaram que as pessoas, involuntariamente, ocultam de si mesmas os episódios tristes, ou impactantes, que lhes amedrontaram, no fundo da mente (eles nunca se referem à alma, ou ao espírito; falam de ego, id, superego, e outros vocábulos que inventam para uso deles, atribuindo-se, ao usá-los, inteligência sapiencial), e de lá não os retiram – e tais episódios as influenciam por toda a vida, e unicamente sessões de hipnotismo e outros rituais inusitados podem fazê-los emergir, e se revelarem, para que os psicólogos, e não as pessoas que a ales recorrem, os interpretem e compreendam a influência deles no comportamento delas. Considerando os capítulos da minha vida, esta tese não procede, pois lembro-me dos eventos que me fizeram sofrer, e não me recordo dos dias rotineiros que vivi, durante os quais não houve um evento incomum, impactante. Para encerrar esta curta digressão, declaro que o preâmbulo da amizade minha e do Ivã não me causou sofrimento, mas foi-me de grande impacto, e quando eu e Ivã evocávamos a nossa infância, e eu relatava aquele dia em que nos conhecemos, ele dizia que não se lembrava, confirmando a minha tese: a de que eventos de grande impacto, na vida de uma pessoa, gravam-se na mente dela, e não ficam ocultas no seu subconsciente. E por que, então, alguém me perguntaria, tal episódio Ivã não o recordava? A resposta encontra-se nas linhas seguintes, mas antecipo-me, e dou-lha: O episódio não provocou grande impacto em Ivã; provocou-o em mim; daí eu lembrar-me dele, e o Ivã, não.

Foi no jardim-de-infância, à tarde. Na Escola de Educação Infantil Reino das Águas Claras. Tímido, sai do carro, e detive-me diante da escola. Petrifiquei-me. Olhei, de um lado para o outro, observando as crianças e os adultos que as acompanhavam. As crianças, todas elas, com o uniforme da escola, que trazia, na camisa, a estampa de peixinhos, da Emília e do Visconde de Sabugosa, e, na calça, a da Dona Benta. Ouvi choros, recordo-me. Uma menina, morena, de cabelos ondulados, agarrada às pernas de sua mãe, chorava aos cântaros. Lembro-me de seu olhar suplicante, de seu rosto contraído, de seus lábios trêmulos. Minha mãe, enfim, segurou-me a mão esquerda, e encaminhamo-nos à escola. Passei pelo enquadramento da porta, e, ao mesmo tempo fascinado, deslumbrado e assustado, olhos arregalados, segurando a mão de minha mãe, detive-me, e, os olhos a circunvagarem pelo pátio, vi um parque de diversões repleto de crianças, que promoviam balbúrdia infernal.

Andamos minha mãe e eu. Em um certo momento, ela soltou-me a mão, para cumprimentar uma sua amiga, e eu dei dois, ou três, passos para a frente, tropecei, e cai sobre um menino franzino, que, curvado, à minha frente, amarrava o cadarço do tênis. Levantei-me, assustado, e fite-o. Ele levantou-se, rapidamente, e voltou-se para mim, furioso, o braço erguido, o punho cerrado, pronto para desferir-me um soco. Tremi, olhos fixos nele. Eu era mais alto do que ele, mais encorpado; causaram-me, dele, profunda impressão o olhar, ameaçador, o cenho, carregado, e a agressividade, que se lhe transparecia no rosto.

– Ivã, não bata no menino. Tadinho dele – (Tadinho de mim? Eu era maior que o terrível, endiabrado Ivã. Quem o censurou foi a mãe dele, mulher alta, magra, de cabelos curtos). – Não faça mal para o menino. Deixe-o em paz.

– Ele bateu em mim – esbravejou Ivã, a devorar-me com um olhar que intimidou-me.

– Foi sem querer – disse-lhe a mãe.

– Não foi, não – rosnou Ivã.

– Ele tropeçou, Ivã. Foi sem querer… Não foi de propósito – persistiu dona Elizabete (Dona Elizabete é a mãe do Ivã).

– Foi, sim – replicou Ivã, a dardejar-me olhar de fúria. – Vou dar um murro nele. Na cara. Vou quebrar o nariz dele. E vou dar um chute nele.

– Não faça isso, Ivã – censurou-o dona Elizabete, o tom de voz elevado, emprestando-lhe autoridade. – Não seja malvado. Você é um menino bonzinho.

– Não sou, não. Sou mal. Sou Lex Luthor.

Hoje, ao evocar esta cena, divirto-me. Quando Ivã disse que ele era o Lex Luthor, assustei-me. Ora, como queriam que eu me comportasse? Eu sabia, aos meus seis anos, quem era Lex Luthor. Até o Super-Homem tinha medo dele (Se Ivã tivesse dito que era ou o Coringa, ou o Duende Verde, eu não sentiria tanto medo).

Repreendeu-o dona Elizabete. Fitou-me Ivã, emburrado, como a querer moer-me de pancadas. Não sei se ele avançaria contra eu, e, se nos engalfinhássemos, eu o sobrepujaria. Eu era maior do que ele, e mais forte, mas ele era mais agressivo do que eu, estava muito irritado, e era dotado de temperamento briguento, que anularia, era certo, a vantagem que ma concederia o porte meu superior ao dele. Fica no campo das especulações o desenlace de uma luta entre Ivã e eu. Não brigamos, naquele dia. Não me recordo se, durante aquele dia, estranhamo-nos, no jardim-de-infância, um jardim com os seus ogros, monstros, ciclopes, bruxos, quimeras e alimárias, e princesas e rainhas, e príncipes e reis, e heróis e guerreiros. O mundo infantil é encantador, e assustador também.

Quem poderia prever que com tais preliminares seríamos amigos eu e Ivã? E quem adivinharia que a nossa amizade seria duradoura? Se dona Elizabete não contivesse o Ivã, eu e ele nos engalfinharíamos, naquele mesmo dia, e a nossa inimizade seria eterna. Talvez. Quem sabe?

Transcorreram-se os dias.

Não sei identificar quais fenômenos naturais e sobrenaturais aproximaram-me de Ivã, e ele de mim. Éramos de temperamentos tão distintos! Não éramos unha e carne. Éramos água e óleo; eu, a água; ele, o óleo. E nos entendemos. Há coisas que só a filosofia explica, ou Freud explica, ou Shakespeare explica, ou Cervantes, ou Conan Doyle, ou Daniel Defoe. Como entenderam-se Dom Quixote e Sancho Pança? Como entenderam-se Sherlock Holmes e Watson? Como entenderam-se Robinson Crusoé e Sexta-feira? Há mais entre o céu e a terra…

Brincávamos, no jardim-de-infância, todos os dias, Ivã e eu. E Paulo e Denise, meu pai e minha mãe, e Roberto e Elizabete, pai e mãe de Ivã, notaram a amizade. E eles principiaram amizades, que se perpetuam.

Eu frequentava a casa de Ivã; e ele a minha.

E assim, com alguns desentendimentos, com brigas corpo-a-corpo, alimentamos Ivã e eu a nossa amizade.

Ele era muito briguento, mas franzino; às vezes, apanhava algumas surras, e, depois, urdia, em conluio, ou comigo, ou com outros meninos, a vingança. Eu nunca fugia da briga. Ora, Ivã era meu amigo. Para que existem os amigos!? Para se apoiarem nas horas difíceis. E por quantas horas difíceis Ivã passou!

Estudamos o primário na escola Mário Bulcão Giudice. A professora de matemática, Bianca, vesga, era o nosso alvo de chacotas. Meu Deus! Ivã não lhe dava sossego. Bianca, o Monstro Vesgo, chamava-a Ivã. O defeito ocular foi a maldição dela. Que Deus a guarde. Ela morreu, no ano passado, em junho, de ataque cardíaco fulminante. Devo, para ser fiel aos acontecimentos, dizer que todos os professores eram alvos da maldade de Ivã. Ele não os perdoava. Para ele, os professores o impediam de andar de skate, de bicicleta, jogar vôlei, e brigar com outros meninos, e, também, com algumas meninas, tão briguentas quanto ele. E Júlia, com quem ele discutia, na sala-de-aula, todos os dias, e puxava-lhe os cabelos, e ela o unhava, e durante o recreio engalfinhavam-se não raras vezes, e provocavam-se, e corriam um em perseguição ao outro quase que todos os dias, era a sua amiga inseparável. Gostavam-se um do outro, e muito, e discutiam, e brigavam, e quando um deles não ia à escola, o outro sentia-lhe a falta. Há mais entre o céu…

Rememoro inúmeros episódios sucedidos no capítulo jardim-de-infância. Se eu os relatasse com os pormenores dos quais me recordo, debruçar-me-ia sobre o papel, dez lápis sobre a mesa, uma pilha de folhas de sulfite ao lado, e escreveria, durante dez horas por dia, pelos próximos dois anos, um romance que superaria em extensão a obra-prima de Marcel Proust. Como me concederam apenas algumas linhas, terei de me concentrar naqueles episódios da vida de Ivã, os quais, segundo eu, são os mais significativos. Escrevi que eu teria de ser sucinto; risquei este trecho do meu testemunho, pois sucinto não serei; e tampouco serei prolixo. A leitura deste texto não exigirá muito tempo do leitor, e tampouco o enfadará. Desejo, com palavras precisas, relatar apenas os eventos memoráveis, que são muitos; não poderei, entretanto, tratar de todos eles. Tenho de selecionar dentre todos os episódios os mais significativos. É um trabalho exaustivo, penoso, o de resumir a vida de personagem de biografia tão rica.

Com um salto no tempo, escrevo: Aos onze anos, Ivã transferiu-se, com a sua família, para o bairro Campo Alegre, e seus pais matricularam-no na escola João Pedro Cardoso. Conservamos a amizade Ivã e eu. Não morávamos no mesmo bairro, e não estudávamos na mesma escola, mas conversávamos quase que todos os dias – quando eu não ia à casa dele, ele ia à minha casa.

Na idade de doze anos, Ivã pediu Valquíria em namoro, e disse-me, o namorador precoce, certo dia, quando me inteirou do seu namoro com ela, constrangendo-me:

– Arrume uma namorada para você. Por que você ficou vermelho, idiota? Bestão – e deu-me um tapa na testa. Era esse o seu jeito de ser amigável. Eu não me incomodava com as suas atitudes bruscas, os seus rompantes de bravura.

Foi naquele dia que ele me confidenciou os seus desejos íntimos. Falou-me, lascivo e brincalhão, de Valquíria, e do beijo que lhe dera. E na boca! E de mais de cinco minutos! Acreditei na história. Era bravata de Ivã, eu soube, dias depois, contou-me a Valquíria. Foi apenas um selinho. Desejei perguntar para a Valquíria o que ela sentira; ela, que gosta de falar, disse-me, antecipando-se-me, que o beijo tinha sido esquisito, sem graça.

Valquíria e Ivã namoraram durante seis meses. Ele rompeu o namoro com ela, e principiou namoro com a Verônica. Foi um rompimento unilateral, brusco e seco, vi com meus olhos e ouvi com meus ouvidos. Eis as palavras de Ivã:

– Val, nosso namoro acabou. Não quero namorar com você. Tchau. Vou para a casa da Verônica – virou-lhe as costas, dela afastou-se, e rumou à casa da Verônica.

Valquíria ouviu-o, boquiaberta. Vi-lhe os olhos dela a encherem-se de lágrimas. Não suportei olhá-la… Virei-me, e dela afastei-me, entristecido, constrangido.

Dois meses depois, Ivã rompeu, via telefone, o namoro com a Verônica. Eu não estava presente quando Ivã teve o atrevimento de romper o namoro com ela do modo que o fez. Ouvi comentários. Disseram-me que Ivã foi terrível, cruel. E por que ele rompeu o seu namoro com a Verônica?

– A Verônica é muito chata – disse-me Ivã. – É quadrada.

– Ela é bonita – comentei, constrangido. – É inteligente. De boa família…

– E daí? – interrompeu-me Ivã, bruscamente. – Qual homem deseja mulher bonita, inteligente e de boa família? A Verônica é uma santa! – disse, sarcástico. – Verônica, a santa… Que chatice… – ele não falou dos seus pensamentos, dos seus sentimentos. Eu o conhecia, e bem. Verônica não lhe cedera aos impulsos.

Um mês depois, Ivã principiou namoro com a Veruska.

– Você só namora garotas com nomes que começam com “v”- dizia Beatriz, irmã do Ivã. – Você é viciado na letra “v”. Quais garotas você namorará, após dar fim ao namoro com a Veruska, daqui uma semana, ou daqui um mês? A Vitória, a Vanessa, a Vera, a Valeska, a Valéria, a Vilma, a Valentina, a Vicentina, a Veridiana e a Virgínia?

Enveredávamos pela puberdade, e pela juventude. Sensações novas, garotas, hormônios…

Para Ivã, a juventude foi-lhe difícil. O seu temperamento ardoroso, agitado, impaciente e contestador, não raras vezes sem razão, fê-lo desentender-se com pessoas que lhe queriam bem, e trouxe-lhe inúmeros contratempos e dissabores, os quais evitaria se não fosse, como dizia seu pai, tão cabeça dura. Além disso, arriscava-se em aventuras perigosas e esportes radicais.

– Quero sentir a adrenalina entupindo-me a cabeça – sentenciava Ivã, ao dar início à uma aventura, que nem sempre encerrava-se bem.

Se Ivã vivesse, na Grécia, mil anos antes de Cristo, ou em era anterior, seria ele um êmulo de Perseu, Teseu, Hércules, Odisseu e Aquiles. Conquanto não fosse nem um semi-deus, nem um herói, arrostaria vagalhões, mares revoltos, tempestades diluvianas; e apresentar-se-ia para a guerra contra os troianos, ou se alistaria no exército troiano e lutaria contra os gregos. E iria ao Peloponeso, às Termópilas, à Maratona. E arrostaria o Ciclope e o Minotauro. E singraria os mares a bordo do Argos. E iria em busca do Velocino de Ouro. Se vivesse na era mongol, combateria Genghis Khan, ou, o que seria mais provável, aliado dos mongóis, ajudaria Genghis Khan a devastar a Europa. Se vivesse na era heróica da Grã-Bretanha, seria ele um dos cavaleiros da Távola Redonda. Se vivesse, na Espanha, no início do século XVII, acompanharia Dom Quixote em suas perambulações disparatadas. Se vivesse, no século XIX, nos Estados Unidos, iria à caça de Moby Dick. Ivã, em qualquer outra época, lançar-se-ia em aventuras inusitadas, almejando a realização de façanhas extraordinárias e proezas épicas. Uma coisa era certa: ele jamais se enfurnaria em uma biblioteca.

Ivã falava muitas gírias e muitos palavrões. Enraivecido, irritado, ele chutava o balde, distribuía socos, pontapés e obscenidades para todas as pessoas que se encontravam ao alcance de suas mãos e de seus pés, e de seu campo visual. Ao tecer comentários sobre qualquer assunto, disparava exclamações explosivas entremeadas de palavrões. E dá-lhe palavrões! Palavrões eram-lhe como o sangue que lhe corria nas veias.

E o tempo passou.

Os esportes prediletos de Ivã: skate, canoagem, montanhismo, balonismo, paraquedismo e surf. Esportes autênticos, dizia Ivã, que também dedicava-se às suas paixões esportivas clandestinas: rachas com carros e motos, na via expressa. Antes de ele se dedicar aos rachas, nos finais-de-semana, à noite, ele teve de aprender a dirigir, e aprendeu, com seu primo, Rogério, filho de sua tia materna, Maria Vitória. Ambos, no carro do pai de Rogério, Vinicius (Uma nota: O pai e a mãe de Rogério são divorciados), circulavam, pelas ruas dos bairros periféricos, para fugir dos meganhas, diziam eles, desdenhosos e debochados, ao referirem-se aos policiais, ecoando vozes soturnas, cínicas, de intelectuais anarquistas e de transgressores.

Deu-se em um sábado um episódio, que não posso sonegar ao mundo, e que narrarei nas linhas que se seguem à esta. Não me estenderei e não serei superficial. Deter-me-ei em tal episódio, e dedicar-me-ei à narração durante algumas linhas.

Em um sábado, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, Ivã e Rogério, na ausência dos pais de Ivã, decidiram dar um rolê, não no carro do pai de Rogério, Vinicius, mas no jeep de seu Roberto, sem o consentimento deste – seu Roberto seria inteirado, não muitas horas depois, da aventura de seu filho e de seu sobrinho.

Ivã e Rogério foram à garagem, viram o jeep, e aflorou-lhes à mente uma idéia brilhante: dirigir o jeep. Onde estava a chave? Ivã sabia onde seu pai a guardava: Na primeira gaveta do criado-mudo. Sem hesitar, foi ao quarto de seus pais, abriu a gaveta do criado-mudo, pegou a chave do jeep, regressou à varanda, e entregou à chave a Rogério. Minutos depois, estavam, na rua, Rogério ao volante do jeep, e Ivã, agitado e impaciente, querendo dirigir o jeep, contrariado, esperando Rogério ceder-lhe a direção. E Rogério, tão animado, tão entusiasmado, não lha cedia. Havia muito tempo ele sonhava em dirigir o jeep do seu tio; agora que o conseguiu, não o entregaria para ninguém. Ivã, no entanto, persistente, contrariado, reclamou, e Rogério irritou-se, e prometeu ceder-lhe o volante, não nas ruas do centro da cidade, mas no bairro do Campo Feliz. E Ivã cobrou-lhe a promessa, irritantemente, exasperando Rogério, que, enraivecido, ceder-lhe-ia o volante, mas o faria ao seu modo, com a concordância de Ivã, que o achou excitantemente perigoso.

Rogério, então, ao volante do jeep, rumou ao bairro Campo Feliz, e à ladeira Getúlio Vargas.

– Ivã, prepare-se – disse Rogério, assim que avistou o princípio da ladeira, e adiante deles o vazio. – Estamos quase lá. Vou pular para o banco de trás, e você tomará o volante. Prepare-se.

Ivã não teve tempo de preparar-se. Rogério, ao encerrar a frase, saltou para o banco de trás, e Ivã, açodado e desajeitado, sentou-se, no banco do motorista, praguejando, olhos arregalados, proferindo palavrões como uma metralhadora, o jeep a descer a ladeira, descontrolado, e Rogério a gargalhar, divertindo-se com o medo estampado no rosto de seu primo, e a gritar:

– Segure o volante, idiota! Segure o volante, imbecil! Segure o volante, besta!

Ivã a muito custo segurou o volante, que parecia dotado de vontade própria e esquivava-se-lhe das mãos, e Rogério a gritar:

– Segure o volante! Pise no freio! Pise no freio! Olhe o poste! Olhe o poste! – e o jeep a ziguezaguear de um lado para o outro, e a descer a ladeira.

Confundiam-se os gritos de Rogério e os de Ivã.

Controlado o jeep, Ivã freou, e, esbravejando, disparou uma saraivada de palavrões contra Rogério – que gargalhava – e, punhos cerrados, ameaçando socá-lo até reduzi-lo a pó, subiu, incontinenti, no banco traseiro, e lançou-se contra Rogério, que, gargalhando, desceu do jeep, e Ivã foi-lhe no encalço ladeira acima. A perseguição estendeu-se, pela rua transversal, por duzentos metros. Ao desistir da perseguição, Ivã iniciou os passos de regresso ao jeep. Ao chegar à esquina, deteve-se, e gritou:

– Rogério, o jeep sumiu!

Rogério não acreditou no que lhe disse Ivã, pois suspeitava que ele queria engabelá-lo para dele aproximar-se.

– Idiota, você acha que irei engolir a mentira? – perguntou-lhe Rogério, a rir.

– Não é mentira, não, Rogério – disse Ivã, voltando-se para Rogério, distante dele uns cinco metros. – O jeep sumiu.

Rogério sabia que Ivã, péssimo ator, dizia-lhe a verdade; acelerou os passos; chegando-se a Ivã, olhou para a ladeira. O jeep não estava onde Ivã o deixara. E agora, o que fariam? Foram até onde o jeep havia sido deixado, à procura de um sinal que lhes indicasse aonde o jeep teria ido.

– O jeep foi abduzido por alienígenas – comentou Rogério. Censurou-o Ivã.

– Roubaram o jeep – sentenciou Ivã. – Agora, sim, estamos ferrados.

– Assinamos a nossa sentença de morte – sentenciou Rogério.

– O que faremos?

– Iremos à delegacia.

E rumaram à delegacia.

Quarenta minutos depois, principiaram o depoimento, alterando os papéis que protagonizaram. Rogério disse, e Ivã secundou-o, que ele, Rogério, dirigia o jeep, e Ivã, provocando-o, dizendo-lhe palavrões, ofendendo-o porque ele não lhe cedia o volante, irritou-o a ponto de, em um certo momento, levá-lo a, nervoso, frear o jeep e ameaçar dar em Ivã uma surra, e do jeep Ivã desceu, no que foi por Rogério seguido. E deu Rogério inicio à perseguição a ele. Correram uns duzentos metros, e, regressando à ladeira, viram, para surpresa deles, que lá o jeep não estava. O policial que colheu o depoimento ficou com uma pulga atrás da orelha: suspeitava que Rogério e Ivã haviam vendido o jeep e inventaram aquela história sem pé nem cabeça. O interrogatório de Ivã e Rogério não havia se encerrado quando na delegacia entraram seu Roberto, pai de Ivã, e Marcos, irmão de seu Roberto, e com eles um homem algemado ladeado por dois policiais. Seu Roberto, ao ver Ivã e Rogério, surpreendeu-se, e foi até eles. E nos trinta minutos seguintes foi inteirado de como se deu o roubo do jeep pelo ladrão.

– E eu – disse seu Roberto, na delegacia, na frente de Ivã, Rogério, Marcos e do policial que colhera os depoimentos de Ivã e Rogério – chamei o ladrão de mentiroso quando ele me disse que encontrou o jeep abandonado na ladeira Getúlio Vargas! O ladrão é ladrão, mas é honesto. Falou-me a verdade, o maldito! Merece ouvir de mim um pedido de desculpas. E o meu filho e o meu sobrinho… Ah! Dois vagabundos… Pegaram-me o jeep… Que foi de meu pai… A única herança que ele me deixou… E estes dois pestes…

O policial pediu-lhe moderação nas palavras, e seu Roberto, que rilhava os dentes de fúria, mordeu a língua. E Ivã e Rogério dobraram-se, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, às censuras de seu Roberto, dona Elizabete, dona Maria Vitória e seu Vinicius.

Mas como seu Roberto soube do roubo do jeep? É preciso retroceder alguns minutos para se conhecer este capítulo simultâneo à ida de Rogério e Ivã à delegacia e ao depoimento deles ao policial.

No bairro XV de Novembro, Marcos, marceneiro, em visita a um cliente, para quem levaria quatro cadeiras, ao deter-se, no semáforo, no cruzamento das ruas Gonçalves Dias e Guimarães Rosa, avistou, na rua perpendicular, parado, atrás de um carro prateado, esperando o sinal abrir, o jeep de seu Roberto, e, ao volante, um homem que ele jamais tinha visto mais gordo; ensimesmado, certo de que seu irmão não permitiria que nenhuma outra pessoa dirigisse o jeep, tirou do bolso da calça o telefone celular, e discou para ele. Enquanto o esperava atender a ligação, seguiu o jeep. Ligação atendida, inteirou seu irmão do que vira. Contataram a polícia, e Marcos seguiu o jeep, até o motorista com ele entrar em uma casa, e à casa dois policiais chegaram minutos depois, e não muito tempo depois chegou seu Roberto. E os quatro homens ouviram do ladrão a história, e nele ninguém acreditou.

Encerrado o caso, Marcos retomou o seu trabalho. O ladrão foi preso, e Ivã e Rogério, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, ouviram o sermão…

E encerro, aqui, este episódio.

Não haviam se passado três meses do episódio relatado linhas acima, Ivã empreendeu outra aventura memorável.

Certa noite, ele apossou-se da chave do carro de seu pai, e foi, com os amigos, para um racha. Com os amigos! Quero esconder a verdade? Tenho de contar a verdade: Participei desta aventura. Sou fiel aos fatos: Fui cúmplice do Ivã. Eu, ele, outros dois amigos nossos, Fernando e Cauã, participamos da sandice. Fomos irresponsáveis, inconseqüentes, estúpidos.

Dói-me o peito ao recordar aquele dia… Ivã, ao volante do carro, aos 16 anos… Onde eu estava com a cabeça quando concordei com aquela idéia estúpida? Ivã, que mal sabia dirigir, ao volante de um carro, num racha, à noite. Ele dirigiu o carro da casa de seus pais até a Via Expressa, uma rua de quase um quilômetro de extensão, onde, reunidos com outros amigos e pessoas as quais nunca havíamos visto mais gordas, os “pilotos” chegaram a um acordo quanto às regras das corridas. Seriam quatro desafios, dizíamos. Ivã participaria do terceiro. Ele assistiu aos dois primeiros desafios, impaciente, inquieto, e, antes de lhe anunciarem a participação dele no terceiro, ele já havia entrado no carro. Eu, Cauã, Fernando, e outras pessoas, antecipamo-nos aos dois participantes do desafio, e rumamos para o final da Via Expressa, onde eles teriam de executar manobras, em grande estilo, para agradar ao público, e iniciar o percurso de regresso ao ponto de partida. Não precisamos esperar muito tempo para conhecermos o encerramento do episódio, que aterrorizou-nos. Em pé sobre um carro, vi os dois carros aproximando-se, o carro preto e, metros atrás, o carro de Ivã. O carro preto deu um cavalo-de-pau, e principiou a jornada de regresso ao ponto de partida. E Ivã… Meu Deus! Ao executar o cavalo-de-pau, ele perdeu o controle do carro. Meu coração ficou a ponto de explodir. Vi o cadáver de Ivã, quando o carro deu cambalhotas. O tempo parou. Suspendi a respiração. Corremos para acudir Ivã, que perdera os sentidos. Em que enrascada nos metemos! Ivã despertou, e gritou de dor. Dele estavam quebradas as pernas, um braço, três costelas, o nariz e vários dedos, e na sua testa havia um corte. Pode-se conceber o que ocorreu nas horas seguintes, no hospital, na casa de seu Roberto e dona Elizabete. Meu pai e minha mãe, ao mesmo tempo decepcionados, irritados, preocupados, repreenderam-me, e condoeram-se de mim… Nos dias seguintes, Ivã viveu confinado à cama e à cadeira de rodas. Enfim, meses depois, recomposto, ele retomou a sua vida. Aliás, não é correto dizer que ele “retomou a sua vida”. Ele viveu um capítulo da vida dele naqueles meses de confinamento, capítulo que o desagradara, mas teve ele de resignar-se. Recomposto, sim, ele viveu a vida dele, conforme o seu temperamento, a vida que desejava para si, uma vida de prazeres e dores. E ele não se acertou, como muitos previram, contrariando o desejo de sua mãe. Ivã era o Ivã, o Terrível. E jamais deixaria de sê-lo. Jamais.

Ivã, diziam dele, “não tomou jeito”, “não ganhou juízo”. A experiência desagradável fê-lo mais inconsequente, mais irresponsável, conquanto mais amadurecido e cauteloso. Quê!? Se aprendêssemos com a nossa própria experiência, seríamos sábios, impecáveis, infalíveis, antes dos quarenta anos de idade.

Recuperado, o que fez Ivã? Encerrado o seu namoro com Veruska, namorou Vanessa e Vera. Um ano depois do acidente de carro que quase o matou, ele foi para Minas Gerais. Ao pular de pára-quedas, caiu de mal jeito, e quebrou as pernas. E em quantas brigas envolveu-se Ivã? E em quantas brigas ele me envolveu? Ele se desentendeu com seu pai e sua mãe, e foi, em duas ocasiões, morar na casa de seus avós paternos. Da escola ele foi expulso duas vezes. Feriu-se, várias vezes, ao executar manobras de skate. Fraturou ossos das pernas e dos braços, três vezes, recordo-me, uma vez, na pista de skate da cidade; outra, na rua, ao manobrar para executar uma curva; e a outra, na praça Carlos Chagas.

– Ivã, não brinque com o skate – exortavam-no sua mãe, seu pai, seus avós, seus tios. Da família, apenas os primos de temperamento similar ao dele o apoiavam.

– Sou dono do meu nariz – replicava-lhes Ivã. – Não tenho de ouvir baboseiras.

E Ivã quase morreu afogado, em Ubatuba, na Praia Grande. E em outra ocasião, bêbado, ao volante de um carro que um amigo emprestara-lhe, colidiu contra um poste, e quebrou o nariz.

Paralelamente aos namoros sérios, oficiais, Ivã aventurava-se com mulheres com iniciais em A, B, C, D e todas as outras letras do abecedário.

Um dia, chegou aos ouvidos de dona Elizabete notícias das aventuras de Ivã com mulheres ditas fáceis. A conduta dele ia contra todos os princípios dela. E dona Elizabete falou a respeito com Ivã, que lhe disse que não se preocupasse: ele sabia cuidar de si mesmo. Sabia… Naquele mesmo dia, dois policiais, à uma hora da madrugada, premiram a campainha da casa de seu Roberto e dona Elizabete. Seu Roberto atendeu à porta. Os policiais pediram-lhe que os acompanhasse até à delegacia. Ivã envolvera-se em uma briga. Seu estado, deplorável. Trazia, quebrado, o nariz, roxo, o olho esquerdo, e vários hematomas no corpo. Eu tentara apartar os briguentos. Conto a história pela metade. Tenho que retroceder algumas horas. Desde a manhã daquele dia, Ivã dizia que iria cobrir o Murilo de socos e pontapés, e quebrar-lhe-ia o nariz, os braços, as pernas, e furar-lhe-ia os olhos, e rachar-lhe-ia a cabeça, no meio, com uma barra de ferro, e abrir-lhe-ia o crânio, e arrancar-lhe-ia o cérebro, e o jogaria de alimento para o Mancada, um vira-latas medroso, lerdo e desengonçado de uma orelha quebrada que costumava andar com apenas três pés no chão, conservando uma perna erguida.

– Dizem que cérebro tem bastante mocotó – dizia Ivã, naquele dia -, que é bom pra saúde. Tem proteínas, vitaminas, fibras e carboidratos. O cérebro do Murilo, se não estiver estragado, fará bem para o Mancada.

À noite, nos bares, bebeu Ivã cerveja, caipirinha, whisky e cachaça. E no bar do João Portugal, viu, ao passar pelo enquadramento da porta, Murilo e dois amigos dele, e não hesitou: foi até ele, a rosnar, empurrou-o, e encaixou-lhe um soco no nariz.

E atracaram-se Ivã e Murilo.

Durante o dia, eu fizera de tudo, e mais um pouco, para impedir que Ivã encontrasse Murilo, e desdobrei-me para acalmá-lo e fazê-lo esquecer Murilo – não me lembro o que Murilo lhe fizera que o irritara tanto.

Enquanto Ivã desancava Murilo, não intervi na briga; mas Ivã estava embriagado, e Murilo, após conseguir recompor-se da surpresa do ataque que Ivã lhe desferira, sobrepujou-o, e foi então que decidi, para meu prejuízo, apartar os briguentos. A minha interferência foi desastrada e desastrosa. O Ivã acertou-me um soco no nariz. Ouvi gargalhadas. Vi Ivã, encostado à parede, e Murilo a esmurrá-lo, levantei-me, fui até eles, agarrei Murilo, e afastei-o de Ivã. Neste momento, alguém empurrou-me e deu-me um pontapé. A partir daí, o caos.

Quatro policiais chegaram ao bar do João Portugal não sei quantos minutos depois, e encaminharam-nos, eu, Ivã, Murilo, e mais uns três ou quatro homens, não me recordo, à delegacia. A sequência deste episódio eu a registrei, em poucas palavras, linhas acima. Dona Elizabete, seu Roberto, meu pai e minha mãe repreenderam-nos durante horas. Foi uma lição inesquecível. E o que Ivã aprendeu com ela? Nada. A lição entrou-lhe por uma orelha, e saiu-lhe pela outra. No dia seguinte, domingo, ele gargalhava ao narrar-nos o episódio.

Contra todas as expectativas, Ivã, concluído o colegial, decidiu cursar advocacia. Alegou querer melhorar o Brasil, defender a Justiça.

– Tenho de me arrumar na vida – disse, certo dia, durante o almoço. – Tenho dezoito anos. A Bia, a Leonarda da Vinci, está com o futuro feito; o Dudu, o crânio da família, é o Einstein redivivo. E eu? O que fiz da minha vida? Arruaças, brigas, mentiras, traições. Viverei a mentir e a brigar durante quanto tempo mais? Além deste maluco – e deu-me um tapa na nuca -, quem mais me atura? Tenho de me arrumar na vida.

Para surpresa de todos, Ivã aplicou-se nos estudos, namorou Valeska, arrumou emprego, numa loja de telefones, de vendedor, para custear os estudos, e prestou o vestibular. Classificou-se entre os melhores. No ano seguinte, ele e Valeska rumaram para São Paulo, e lá instalaram-se em um apartamento, que alugaram com o dinheiro obtido do trabalho dela e dele. Sagaz, versátil, inteligente, de raciocínio rápido, muito acima da média, Ivã foi bem-sucedido. A sua ascensão, meteórica. Admiravam-no, e respeitavam-no. Nas férias, ia às aventuras: Montanhismo, paraquedismo, balonismo, esquiagem. Viajou para Pernambuco, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, para a África, a Ásia e à Europa. Foi, duas vezes, aos Estados Unidos. Escalou os Alpes, o Himalaia, os Andes.

– Ivã, você se arrisca demais. – comentou sua mãe, em diversas ocasiões. Ivã tranqüilizava-a com palavras carinhosas, inteirando-a dos cuidados que tomava, sob orientações de instrutores, na véspera e durante as aventuras, arriscadas, ele sabia, e emocionantes.

Há quatro dias, Ivã veio em visita à sua família e aos seus amigos. Há três dias, eu, meus pais, meu irmão, minhas irmãs, a minha cunhada, meu cunhado e meu sobrinho, e Ivã, Valeska, seu Roberto, dona Elizabete, Eduardo e Beatriz, almoçamos, na minha casa. Conversamos e brincamos das dez horas às vinte horas.

Anteontem, pela manhã, Ivã, descontraído, retirou-se, de bicicleta, da casa de seus pais. Ao chegar à esquina, duas crianças, a brincar de pega-pega, atravessaram, correndo, a rua, à frente de Ivã, que freou a bicicleta, perdeu o equilíbrio, caiu, e bateu com a cabeça num paralelepípedo. E morreu.

Que a alma de Ivã descanse em paz.

O estranho mundo de Djidhikalji

São Paulo, Brasil. 17 de maio de 2134.

Instituto de Estudos de Vida Extraterrena.

Há dez anos Amanda Siqueira Martinez, cientista chefe do Departamento de Estudos de Civilização Extraterrena, estuda a presumível existência de vida inteligente em outra região do universo. Com afinco e perseverança, confiante, em nenhum momento pensou em desistir do seu propósito, nem nos momentos mais difíceis, naqueles em que ouviu a zombaria de colegas de trabalho. Encontraria vida inteligente, ou em outro planeta da Via-Láctea, ou em outro local do universo, ou além. Era sonhadora e visionária. Estava além do seu tempo, e não a compreendiam os seus contemporâneos. Desprezaram-la os amigos. Três pessoas, apenas três pessoas, a apoiavam.

Amanda acreditava que as noções de tempo e espaço concebidas pelos humanos mal representavam as forças que atuam no universo. As teorias científicas não concebem os aspectos mais complexos do cosmos – ou a sua simplicidade, inconcebível pelos humanos. Para a construção de um aparelho de transporte de indivíduos através do tempo e através do espaço são indispensáveis a descoberta das forças que atuam no universo e a compreensão de como elas interagem entre si e a invenção de tecnologia apropriada. Para muita gente, viagem através do espaço e através do tempo são fantasias de escritores providos de imaginação apurada, que se eleva às raias do absurdo; para alguns cosmólogos, viagens através do espaço e através do tempo são possíveis (Há cientistas, filósofos, teólogos que não acreditam na existência do tempo, considerando-o em termos cosmológicos; o tempo é, para eles, uma ilusão da mente humana – ainda há, pensam, muito o que se descobrir a respeito da existência da vida em si, da realidade e das forças que mantêm o universo coeso, impedindo-o de se encolher e de se desintegrar, causando uma singularidade, que venha a destruí-lo, ou a transformá-lo em algo que impede a existência de vida similar à humana).

Susana, Natacha e Everaldo eram os três cientistas que apoiavam Amanda, incondicionalmente. Contribuíam, com suas inteligências, sua sensível aptidão para a abstração e com amplos conhecimentos em matemática avançada para a formulação da ciência que permitiria viajar através do tempo e através do espaço. Dos três, Natacha, descendente de ucranianos, dotada de extraordinária e inigualável capacidade mnemônica – alcunharam-na os amigos Computador de Última Geração -, era a que estava imbuída de maiores conhecimentos em matemática aplicada e cosmologia. Na idade de vinte e seis anos, era uma das mais renomadas cientistas do mundo. Desde criança, dedica-se à ciência astronômica e à matemática, sob influência de seu pai, Fiódor, um gênio da física quântica, e de sua mãe, Mônica, uma bela italiana que, aos quarenta e seis anos de idade conservava a beleza da juventude, eminente cosmóloga, autora de seis livros, sendo um deles interessante relato, mescla de ficção e as mais recentes teorias sobre a criação do mundo, e um outro, escrito para leigos, que contêm a história da astronomia desde as mais antigas civilizações.

Natacha era o braço direito de Amanda. Tinha armazenada em seu cérebro incalculável quantidade de informações; era capaz de citar milhares de nomes de galáxias, de estrelas, de planetas, descrever-lhes as características, e localizá-las no espaço.

Everaldo e Susana, não tão excepcionais quanto Natacha, eram indispensáveis para o empreendimento; sem eles, Amanda não daria sequência às suas experiências, à construção das máquinas que criou e as quais aperfeiçoava.

Os recursos que Amanda obtinha para empreender os seus estudos vinham de sonhadores como ela, muitos deles milionários excêntricos que desejavam viajar através do tempo e através do espaço, conhecer o universo, e sonhavam com seus nomes inscritos entre os humanos mais importantes do seu tempo, e, quem sabe, da história da civilização; queriam legar à posteridade conhecimentos imprescindíveis para a compreensão da vida. Sem o dinheiro deles o projeto Viajante Espaço-Temporal jamais seria concretizado.

A máquina Viajante Espaço-Temporal era o mais sofisticado equipamento – dir-se-ia um veículo – construído para empreender viagens através do espaço e do tempo. A invenção de Amanda, Natacha, Susana e Everaldo superaram as dos cientistas rivais. Patentearam a máquina e todos os outros equipamentos. E ninguém além deles conhecia o projeto Viajante Espaço-Temporal. Conservaram-no oculto das outras instituições científicas, longe dos olhos dos espiões, que proliferavam nos institutos de pesquisa. Flagraram, em duas ocasiões, no laboratório, pessoas desautorizadas; eram elas espiões, um, de uma empresa rival, australiana, outra, de uma empresa canadense.

*

Sozinha, às três horas da madrugada, no laboratório 1-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, Amanda fazia testes com o Viajante Espaço-Temporal. Imperava silêncio absoluto. Amanda trajava um vestido azul claro decotado cuja borda inferior descia até à metade de suas cochas, usava uma tiara à cabeça, contendo os cabelos lisos, compridos e finos, que, se soltos, escorregar-se-lhe-iam pela testa e pelas laterais da cabeça, e incomodá-la-iam, obrigando-a a, de tempos em tempos, passar por eles as mãos e recolhê-los à cabeça. Apesar da fadiga, das noites em claro, da energia gasta nos anos anteriores, das chacotas que ouviu e do desprezo dos seus pares, conservava a sua beleza amorenada. Seu rosto, de traços suaves, e seus belos olhos irradiavam beleza tão profunda que encantava a todos.

Naquele dia, Susana, adoentada, não foi ao laboratório, e Everaldo socorreu sua mãe, que, acometida de dores no peito, teve de ser hospitalizada.

Eram quatro horas da madrugada, quando Natacha apresentou-se à Amanda.

– Oi, Natacha – saudou-a Amanda, que mexia, na ocasião, em alguns fios, e avaliava os dados que apareciam em um dos cento e vinte monitores. – Demoraste.

– Desculpe-me, Amanda. Choveu demais hoje. O trânsito, caótico. Nunca me acostumarei… Na Ucrânia não é diferente. Em Kiev, em Kharkiv, em Odesa, em Dnipropetrovs’k e em Donets’k enfrenta-se transtornos também.

Não eram ainda seis horas da manhã quando Amanda e Natacha, olhos fundos, puseram uma maçã no Viajante Espaço-Temporal, para um teste. A maçã viajou através do tempo e através do espaço; ao regressar, trouxe consigo a marca de uma dentada, que não se assemelhava a de nenhum animal terreno. Minutos depois, enviaram um coelho para um planeta distante, numa distante galáxia; ao regressar à Terra, ao Viajante Espaço-Temporal, o coelho trazia consigo uma mancha azul na cabeça – tratava-se de fluído segregado por algum animal -, e uma pequena criatura acompanhava-o.

Natacha e Amanda isolaram a maçã, o coelho e a criatura em compartimentos herméticos.

Poucos minutos depois do meio-dia, Amanda e Natacha, com fome, após vinte e quatro horas sem ingerir nem um grão de arroz, interromperam os testes, para uma refeição.

Amanda e Natacha não se continham de alegria. Os dois testes foram bem-sucedidos. Elas desejavam entrar no Viajante Espaço-Temporal, e viajar através do tempo e através do espaço. Seriam os primeiros humanos, sonhavam, a realizarem tal proeza.

– Quem irá primeiro, eu ou tu? – perguntou Natacha, radiante.

– Iremos as duas, Natacha – respondeu Amanda – Nenhuma de nós terá o privilégio do pioneirismo. Não correremos risco de morte. O Viajante Espaço-Temporal está pronto. Estou plenamente confiante no nosso sucesso.

– Iremos para onde? – perguntou Natacha, sorridente e animada.

– Escolha o nosso destino – disse-lhe Amanda. – Tu, melhor do que eu, apontarás um planeta qualquer em uma galáxia qualquer, sem acorrer aos dados do computador.

Natacha mencionou um planeta e em qual galáxia se situa.

Amanda e Natacha programaram o Viajante Espaço-Temporal, e nele entraram. No início, nada sentiram; minutos depois, sentiram náuseas e fraqueza, e desmaiaram, e recuperaram os sentidos minutos depois.

Luzes multicoloridas cruzaram o espaço. Amanda e Natacha viram estrelas, galáxias, aglomerados estelares, aglomerados galácticos, até que, enfim, chegaram ao destino. O Viajante Espaço-Temporal, sem sair do laboratório I-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, chegou ao distante planeta Djidhikalji.

Os detectores da nave avaliaram o ambiente. A atmosfera de Djidhikalji não representava perigo para Amanda e Natacha. O ar, respirável. O planeta, acolhedor. Os radares não captaram a presença de nenhuma criatura num raio de cem quilômetros. Amanda e Natacha, porta do Viajante Espaço-Temporal aberta, dele não saíram. Imobilizaram-las o medo, a apreensão, a ansiedade. Recuperavam-se das enfermidades que a atingiram durante a viagem. Recompostas, admiraram, deslumbradas, o panorama que se lhes descortinava.

Permaneceram, caladas, durante um bom tempo, no interior da nave, a olhar, fascinadas, a beleza esplendorosa dos arredores.

Entreolharam-se.

Amanda e Natacha, passos lentos, retiraram-se da nave.

O solo, macio. Tinham elas a sensação de pisar sobre um colchão macio, que se lhes cedia ao peso. Seus pés não afundavam no solo. Tiveram dificuldades para se manterem em pé. Olharam para trás, e viram o Viajante Espaço-Temporal afundado, no solo, que se curvava sob o seu peso, mas não afundava a ponto de desaparecer. Adiante, uma cachoeira. Notaram que nela a água não descia a encosta da montanha, mas a subia. Deram os primeiros passos, com dificuldade. Deslocaram-se cem metros. Acostumadas, já, com o solo, confiantes, caminharam, seguras de si. A sensação, agradável. Riam à toa, como se participassem de uma brincadeira infantil. Esqueceram-se – por pouco tempo – de que estavam em um planeta desconhecido.

De repente, uma imensa sombra envolveu a região. Natacha e Amanda viram-se mergulhadas nas trevas. Não sorriam mais, não se divertiam mais. Ensombreceram-se-lhes os semblantes. Vasculharam o céu à procura da causa de tal sombra tenebrosa e funesta, que logo dissipou-se. Não souberam explicar o fenômeno. Como a sombra apareceu sem que um corpo se interpusesse entre o planeta e a estrela que o iluminava? Entreolharam-se Amanda e Natacha, o coração aos pulos.

Refeitas do medo, andaram. De repente, surpreendeu-as uma criatura estranha de corpo segmentado, filamentos a destacarem-se-lhe da cabeça em forma de cubo, e três olhos cuja disposição formavam um triângulo isósceles, com um círculo no seu núcleo, a adornarem-lhe a face anterior, e duas saliências, que se aparentavam com orelhas de elefantes, a destacarem-se-lhe das faces laterais. A cabeça era ligada ao pescoço, que não tinha mais do que a grossura de um dedo mindinho de um recém-nascido e a extensão de cinquenta centímetros. Cada olho era composto de quatro círculos concêntricos, sendo branco o interno, e roxo o externo, e os dois intermediários eram, o maior, de uma cor que se assemelhava ao azul, e o menor, alaranjado. Tal criatura surgiu do solo – de algum modo o atravessara. De onde saíra nenhuma cavidade havia. Era como se se constituísse da substância que compunha o solo. E ele começou a flutuar. Fitou, com seus olhos estranhos, Amanda e Natacha, e provocou-lhes calafrio. Elas se imobilizaram, esbugalharam os olhos e escancararam a boca. A criatura, os olhos fixos nelas, elevou-se, no céu, até que, inexplicavelmente, desapareceu, sem deixar vestígios. Entreolharam-se Amanda e Natacha. Logo depois, uma criatura surgiu nas proximidades do Viajante Espaço-Temporal. Emitia um ruído estranho, que se parecia com o de motor de um carro pipocando. Amanda e Natacha a compararam com um jacaré; não sabiam de onde ela havia surgido. O “jacaré”, desprovido de cauda, tinha asas que alcançavam, cada uma delas, mais de três metros de comprimento. Do mesmo modo que a criatura de cabeça de cubo, flutuou, e desapareceu, inexplicavelmente, sem deixar vestígios.

Amanda e Natacha inspecionaram a região, o ânimo recomposto, certas de que eram pacíficas as criaturas daquele mundo estranho. Poucos metros à frente de Amanda e Natacha, o solo era vermelho escuro.

Detiveram-se Amanda e Natacha.

Do solo vermelho escuro minava água, que ia para cima, como se o solo fosse nuvem e chovesse em sentido contrário. Viram Amanda e Natacha, ao se voltarem para a cachoeira, que a água, nela, ia de baixo para cima, escalava a montanha, em cujo topo desembocava. E concluíram que o rio nascia no oceano, se algum oceano havia no planeta, e morria no alto das montanhas. Atentaram para o solo vermelho escuro, e decidiram nele pisar. No solo pisaram, e afundaram.

Caíam Amanda e Natacha. A sensação de queda, indescritível. Tinham a sensação de que subiam. Tentaram se equilibrar. Conseguiram. E continuaram a cair. Caiam? Olharam para cima – ou para baixo? – sobre suas cabeças – ou para baixo delas? Viram que no céu havia “peixes” e outros animais, que “nadavam”. Os “peixes” tinham caudas de mais de dez metros de comprimento e eram desprovidos de olhos; os animais parecidos com serpentes tinham duas cabeças e três caudas; e havia animais parecidos com tartarugas, de três cabeças, duas caudas e seis pés.

Enfim, Amanda e Natacha pousaram, suavemente, no solo. Olharam para o solo sob seus pés: era água; e nela elas não afundaram. Amanda agachou-se e, de cócoras, enfiou o dedo indicador da mão direita no solo; o dedo afundou; da abertura que fez, saiu um líquido espesso. Assustada, Amanda retirou do solo o dedo, e o líquido, cessando de escoar, formou uma “bolha”, que se desprendeu do solo e flutuou para a região de onde Amanda e Natacha desceram (ou subiram?). Natacha apontou, assustada e maravilhada, para algo que se mexia sob o solo aquoso; era reluzente, e assemelhava-se a uma redoma, e em seu interior, pareceu-lhe, havia seres e naves voadoras. A redoma, imensa. No interior dela, deduziu Natacha, havia uma megalópole. Expressou Natacha a sua vontade de ir até lá. Como? perguntou-se e perguntou para Amanda.

Natacha disse para Amanda que, quando ela, Amanda, enfiara o dedo no solo, abriu-se uma cavidade; talvez enfiando um dedo, e, depois, a mão, e os braços, e, por fim, o corpo, elas pudessem passar para o outro lado do solo. Amanda e Natacha, mãos dadas, enfiaram as mãos no solo aquoso, e nele enfiaram-se, e o atravessaram. Mergulhadas no solo, viram algumas criaturas estranhas desprovidas de olhos. A substância que compunha o solo era clara e, parecia, irradiava luz. Elas não precisavam mover os membros e nem se esforçar para mergulhar (mergulhar?) até a megalópole a vários metros de profundidade (profundidade?). À medida que dela se aproximavam, tomavam conhecimento da sua amplitude. Era maior do que todas as megalópoles humanas. Enfim, tocaram em algo sólido. Era a barreira que separava a megalópole do mundo exterior aquoso. Uma redoma transparente, que se abriu. Amanda e Natacha entraram. Assustaram-se, abismadas, com o que viram. A “megalópole” não tinha mais de cem metros de raio. As criaturas que nela viviam eram um pouco maiores do que gatos, tinham cinco patas, duas cabeças e três caudas de cinquenta centímetros de comprimento cada. Amanda e Natacha caminharam, as criaturas a darem-lhes passagem, por ruas estreitas, e chegaram ao outro lado da cidade, e caminharam pelas ruas.

Entreolharam-se Amanda e Natacha, maravilhadas e assustadas. Haviam presumido, enquanto aproximavam-se da cidade, que chegariam à uma megalópole; depararam-se, no entanto, com uma cidade minúscula, que não tinha nem mil habitantes. Detiveram-se no centro da cidade, onde havia um orifício no solo, por onde saíam e entravam criaturas estranhas, todas idênticas. Amanda disse que pelo orifício elas Amanda e Natacha, poderiam sair da cidade. Natacha disse que não sabia onde sairiam, e perguntou para Amanda e para si mesma que teriam de sair de lá, mas não sabiam como; além disso, elas teriam de se retirar daquele planeta. Não tinham outra alternativa, ou se arriscavam por aquele orifício, ou viveriam naquele mundo indiferente à presença delas.

Pularam, abraçadas, dentro do orifício. Não desejavam saírem, cada uma delas, em um lugar. Envolveu-as a escuridão. Os corações a baterem acelerados, os corpos trêmulos, a respiração ofegante, choraram, imaginando que a vida delas dissipava-se. Estreitaram-se, num abraço apertado. Encerrada a travessia pelo orifício, apenas um corpo surgiu; não era nem o de Amanda, nem o de Natacha. Era um corpo de mulher, e dentro dele havia duas mentes, a de Amanda e a de Natacha. Um corpo, duas mentes. Amanda e Natacha dialogavam, confusas, sem saberem o que lhes ocorrera. Transcorreram-se vários minutos antes de elas perceberem que habitavam um corpo, que resultou da fusão dos corpos delas. Fundiram-se os corpos; as mentes, não.

De repente, o corpo atravessou uma parede escura, e chegou ao Viajante Espaço-Temporal.

– A nave – disse Natacha.

– Natacha, nós permanecemos dentro do mesmo corpo – comentou Amanda.

Amanda-Natacha foi até o Viajante Espaço-Temporal. Perguntavam-se cada uma para si mesma e uma para a outra durante quanto tempo compartilhariam o mesmo corpo.

– Quando nos retirarmos deste planeta – presumiu Amanda -, recuperaremos, eu, o meu corpo, tu, o teu.

Amanda-Natacha entrou na nave, e acionou os comandos, e rumou à Terra. Na Terra, do veículo retirou-se uma mulher, Amanda-Natacha.

*

Amanda-Natacha, que se apresentou como Amanda, mostrou o disco, no qual havia gravadas cenas da viagem, para outros cientistas, que lhe indagaram porque ela mudou de aparência. Amanda disse que o planeta provocara-lhe mudanças no seu aspecto físico. Perguntaram-lhe de Natacha. Com as mãos ao rosto, Amanda chorou convulsivamente. Olharam-la, enternecidos. Dias depois, celebraram o enterro simbólico de Natacha. Amanda relatou a sua aventura e de Natacha para platéias de todo o mundo. Todas as leis da física, da química, da biologia os cientistas as reconsideraram à luz das imagens da viagem de Amanda e Natacha ao planeja Djidhikalji.

Nas viagens subseqüentes do Viajante Espaço-Temporal, Amanda-Natacha não foi a Djidhikalji, planeta que, acreditavam Amanda e Natacha, havia desaparecido, pois dias depois de seu regresso à Terra, elas programaram o Viajante Espaço-Temporal com as coordenadas de Djidhikaji, e não o encontraram. Ou o planeta desaparecera, ou deixara de existir, ou, então, se vivo, dotado de consciência, deslocara-se para outra galáxia, ou para outro universo, ou para outra dimensão, para que os humanos não o encontrassem.