Vídeos caseiros

– Ontem, no ônibus, vi uma gata de parar o trânsito! Ela não usava sutiã; usava um vestido decotado! Meu Deus! Que mulher! Filmei-a com o telefone celular. Mário, a gata não percebeu que a filmei. Você quer assistir ao vídeo? Filmei uma gata de parar o trânsito! Você quer vê-la?

– Quero. Deixe-me vê-la, Adriano. Ligue o computador. Quero ver a gata. Quero vê-la.

– Acalme-se. Controle-se. Controle-se. Tenho de ligar o computador.

– Ligue-o, Adriano. Ligue-o. Quero ver a gata. Ligue o computador.

– Você verá a maior gata da cidade. Um avião! Violão! Morena! Deliciosa! Uma sereia. Esqueça as mulheres das revistas que você tem na sua casa. Esqueça-as. Comparadas com a morena que filmei, elas são bruxas com uma verruga horripilante na ponta do narigão. A gata que vi, hoje, põe no chinelo todas as mulheres famosas que aparecem nas fotos das revistas. Elas são mulheres fotochopadas, falsificadas. A gata que filmei, não. Ela é mulher de carne e osso. Você irá babar de desejo ao assistir ao vídeo.

– Pare de falar, e ligue o computador.

Mário e Adriano, na casa de Adriano, no quarto dele, diante do computador, sentados, cada um em uma cadeira giratória, olhavam para o monitor que o pai de Adriano comprara no Natal.

Dos quinhentos gigabytes do disco rígido, cento e oitenta e cinco armazenavam vídeos caseiros que Adriano, Mário e os seus amigos gravaram, nos dois anos anteriores, com câmeras de telefones celulares e com filmadoras.

Computador ligado, Adriano clicou sobre o ícone da pasta dos seus vídeos caseiros, e digitou a senha. Apareceram centenas de ícones de arquivos de vídeos.

Clicou, duas vezes, rapidamente, sobre o ícone que trazia a data do dia anterior. No monitor apareceu uma morena voluptuosa de vestido verde, que lhe modelava o corpo, realçando-lhe os atrativos. Ela se destacava num oceano de mulheres desprovidas de beleza.

Mário, embasbacado, arregalou os olhos e escancarou a boca. A morena era uma mulher cuja beleza superava a de todas as mulheres que ele já havia visto e imaginado. Adriano provocava-o, dava-lhe cotoveladas no ombro, dizia-lhe que o melhor estava por vir, exortava-o a parafusar o queixo, que se desprenderia da cabeça e cairia no chão, se ele não tomasse tal providência.

Em diversos trechos do vídeo aparecia o asfalto, os pisos da calçada, carros, pessoas que passavam por Adriano. Em outros, o vídeo escurecia, e nada se via. Mário protestava, insultava Adriano, que, defendendo-se, explicava-lhe o que ocorreu em certos momentos durante os quais gravava o vídeo. Mário, que não queria ouvir explicações, queria admirar a deusa dos trópicos, aquele pedaço de mal caminho, esbravejava, e desferia tapas na nuca de Adriano e encaixava-lhe socos no ombro, e ele revidava – a escaramuça assemelhava-se às cenas de pastelão do cinema mudo. Estapearam-se, até que atraíram-lhe a atenção imagens nítidas da morena de vestido verde.

Embora houvesse se deparado com dificuldades imensuráveis, Adriano filmara, durante, aproximadamente, trinta minutos, a estonteante morena de vestido verde, de cujo corpo obtivera imagens nítidas, reveladoras; as mais excitantes ele as obtivera a partir do momento em que ela parou em um ponto de ônibus. A partir deste trecho os olhares dos dois jovens convergiram para o monitor. Sentados, curvaram-se, fincaram os cotovelos nos joelhos, e sustentaram o queixo, Mário, com as palmas das mãos abertas e os dedos cobrindo o rosto, Adriano, com os dedos entrelaçados.

Passou despercebida da morena de vestido verde a atitude de Adriano, que, parado ao lado dela, o telefone celular à mão, fingindo procurar o número de um telefone, filmava-lhe o belo rosto e o decote revelador. Quando ela se curvou para a frente, e coçou o joelho direito, Adriano dela registrou imagens dos peitos quase inteiramente nus. Mário, estupefato, levou, automaticamente, as mãos, espalmadas, à testa, puxou os cabelos para trás, encostou-se ao encosto da cadeira, desencostou-se, curvou-se, fincou os cotovelos nas coxas e com as mãos cobriu a boca. Adriano divertia-se com a atitude dele. Ria, zombava dele. Mário deu-lhe um tapa na nuca, desfazendo-lhe o penteado, que Adriano, rindo, ajeitou.

Além de Adriano e da morena de vestido verde, havia duas pessoas no ponto de ônibus: um homem avançado em idade, concentrado na leitura de um catálogo de loja de eletrodomésticos, e uma garotinha de uns dez anos que cantava uma canção infantil. Após uns três minutos registrando, com intervalos, imagens do busto da morena de vestido verde, Adriano recuou alguns passos, posicionou-se atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, filmou o que a morena escondia sob o vestido verde, cuja franja mal descia-lhe à metade das coxas, e revelou a calcinha que cobria o espaço estreito entre as nádegas bem esculpidas. Agitaram-se os dois garotos. Moviam as pernas para os lados, para cima e para baixo. Mário levava as mãos à cabeça, cobria, com as mãos, a boca, e mordia, ora o lábio inferior, ora o lábio superior. Adriano ria da atitude de Mário, que o mandava calar-se.

Um ônibus parou no ponto de ônibus. A menina subiu no ônibus; em seguida, o homem, que até então lia o catálogo de loja de eletrodomésticos, subiu; após ele, a morena de vestido verde. Adriano, atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, e dela revelou, com maior nitidez, a parte inferior do corpo. Como o ônibus estava lotado, a morena de vestido verde teve de deter-se assim que pousou os pés no primeiro degrau. Adriano, aproveitando das facilidades que a situação oferecia-lhe, gravou imagens reveladoras das formas bem arredondadas e firmes das nádegas e do tecido fino que cobria o espaço entre elas. Vibraram de volúpia os dois garotos.

Os passageiros apertavam-se dentro do ônibus.

Para conseguir entrar no ônibus, Adriano pôs-se ao lado da morena de vestido verde, e dela gravou imagens do rosto e do decote. Temia que alguém o surpreendesse filmando-a, e, com indiscrição, revelasse, para todas as pessoas presentes no ônibus, o que ele fazia.

O ônibus pôs-se a andar. Sacolejava ao passar por ruas esburacadas.

Saíram do ônibus várias pessoas; entraram quatro.

Adriano, assim que o ônibus retomou a viagem, telefone celular na mão, registrou imagens do corpo da morena de vestido verde. Ao parar no ponto de ônibus seguinte, o ônibus recebeu mais cinco passageiros, e mais de dez passageiros desceram. Os passageiros que estavam em pé puderam se deslocar pelos estreitos espaços vazios. A morena de vestido verde andou uns dois metros, abrindo espaço entre os passageiros em pé. A sua beleza irradiante e o seu porte exuberante atraíram a atenção dos homens, que, libidinosos, a devoravam com o olhar, cobiçando-a. Adriano seguiu-a, cuidadoso; receava – notou os olhares dos homens convergindo para a estonteante morena de vestido verde – que alguém o flagrasse filmando-a. A morena de vestido verde deteve-se, e do banco mais próximo a mulher que o ocupava levantou-se, e pediu-lhe licença. Carregava ao colo uma caixa e a tiracolo uma sacola branca com o nome fantasia de uma loja de calçados. A morena de vestido verde cedeu-lhe passagem. A mulher deslocou-se, desajeitadamente, pedindo licença; os passageiros abriam-lhe passagem, espremendo-se uns nos outros. A morena de vestido verde sentou-se no banco desocupado, ajeitou o vestido, passeou as mãos pelos cabelos, puxou-os por sobre o ombro direito, e os soltou. Esparramaram-se-lhe pelo busto e pelo ombro os cabelos sedosos. Adriano, em pé, ao lado dela, fitava-a, mordia os lábios quando ela, com movimentos suaves, para ajeitar os cabelos, ou o vestido, revelava uma pequena parte a mais dos peitos e das coxas. Filmava-a. Pensava que agia com discrição ímpar. Duas mulheres, sentadas no banco atrás do qual a morena de vestido verde estava sentada, entenderam o que Adriano fazia, entreolharam-se, e sorriram, maliciosas; e à direita de Adriano um homem, que olhava para a morena de vestido verde, sorriu ao ver a imagem dela na tela do telefone celular na mão de Adriano.

A viagem durou um pouco mais de vinte minutos. O ônibus parou na rodoviária. A morena de vestido verde levantou-se. Adriano permitiu que ela lhe passasse à frente, e filmou-a de trás, por baixo do vestido.

Todos os passageiros desceram do ônibus. Adriano seguiu a morena de vestido verde, à distância de cinco metros, durante uns cinco minutos, até uma casa, cujo portão ela abriu, e entrou.

As imagens excitaram os dois garotos, que teciam os comentários mais obscenos que a imaginação inspirou-lhes.

Mário, eufórico, ao fim do vídeo, perguntou para Adriano:

– Que tal ir até à casa da morena?

– Não é má idéia – comentou Adriano, eufórico. – Não é má idéia. Se ela mora naquela casa, e acho que ela mora lá… Vamos lá. Quem sabe, se dermos sorte…

– Que beleza, Adriano! Gata! Mulherão! Cara! A gata é um pedaço de mal caminho!

– Eu disse para você que ela é uma gata. Você não me quis acreditar.

– Vamos assistir ao vídeo mais uma vez, mais duas vezes, mais três vezes, mais mil vezes.

– Espere um pouco. Vou lançar o vídeo na internet. Quero que todos vejam a maravilhosa morena de vestido verde. O mundo tem de conhecê-la.

– Vamos assistir ao vídeo.

– Assim que eu lançar o vídeo no Youtube, o assistiremos mais mil vezes.

Mário e Adriano assistiram ao vídeo duas vezes.

*

Nas duas semanas seguintes, Mário e Adriano procuraram pela morena de vestido verde. Não a encontraram – mas eles não perdiam a viagem. Tiveram a felicidade de encontrar outras mulheres bonitas as quais ou trajavam calças justas, ou saias, ou minissaias, ou vestidos, e usavam decotes profundos – e gravaram vídeos revelando delas as roupas íntimas, as que as usavam. Mário e Adriano, embasbacados, assistiram aos vídeos várias vezes. Deleitavam-se. Divertiam-se gravando vídeos. Enfrentaram alguns dissabores enquanto os gravavam: Uma mulher, ao virar-se bruscamente, viu Adriano com o telefone celular na mão, desconfiou do que ele fazia, e exigiu-lhe explicações, Adriano desconversou, ela enfureceu-se, e ele deu meia-volta, e dela afastou-se, antes que as obscenidades que ela cuspia chamassem a atenção de muita gente; um grandalhão enfureceu-se ao ver Mário atrás de uma loira, filmando-a com o telefone celular, e encaixou-lhe um murro no nariz, e Mário, ao recompôr-se, sangue se lhe escorrendo em profusão do nariz, correu como nunca havia corrido, e, ao encontrar-se com Adriano, exibiu-lhe o nariz quebrado como se exibisse um troféu.

Mário e Adriano diziam que a profissão de videoamador era muito arriscada, muito perigosa, mais perigosa e mais arriscada, até, do que a de correspondente de guerra e a de jornalista investigativo. Diziam, gracejando, que poderiam, inadvertidamente, vir a se deparar com uma filha de dom Corleone, ou com a de um mafioso russo ou a de um membro da yakusá.

Transcorreram-se dois meses. Mário e Adriano não encontraram a morena de vestido verde. Esqueceram-na, depois de tantos dias sem vê-la.

*

– Adriano! Mário! – exclamou Gilberto, entusiasmado. – Vocês não vão acreditar. Vi um mulherão de derrubar o queixo! Enviei o vídeo para o seu computador, Mário. Vocês não vão acreditar! Meu Deus! Mário, vá à sua casa, e acesse o arquivo *¢. Tá lá, o vídeo da loiraça! Meu Deus! Loiraça de parar o trânsito e fechar o comércio! Loira usando camisa decotada e shortinho agarradinho! Imaginem a loiraça. Vocês não podem imaginá-la. Que melões! Não são limõezinhos, como os da Paola; nem laranjas, como os da Cláudia; nem ovos fritos, como os da Fabiana, que de bom só tem a bunda; nem melancias, como os da Samantha. Melões! Melões! Adriano, você, que gosta de peitos, vai se deliciar! Vocês não vão acreditar! Não perca tempo, Mário. Vá à sua casa, ligue o computador, e acesse o arquivo *¢. Vá com o Mário, Adriano. Você não perderá a viagem.

Ao chegarem à casa de Mário, Adriano e Mário, mal conseguindo conter o ânimo que as palavras de Gilberto atiçaram correram ao quarto. Mário ligou o computador. Acessou o arquivo *¢. Mário e Adriano esfregaram as mãos. O monitor exibiu o vídeo. No início, apareceram imagens desfocadas. Gilberto proferia obscenidades e filmava o próprio rosto. Corria, afobado. Ia, dizia ele, atrás de uma loira de bicicleta. Tropeçou. Desequilibrou-se. Caiu. Recompôs-se rapidamente. Mário e Adriano gargalharam.

– Palerma! – exclamou Mário. – Bicho desengonçado! Bizarro! Aberração da natureza!

– Smeágol! – gargalhou Adriano.

No vídeo, cenas caóticas. Pessoas, carros, bicicletas. Ouvia-se a voz de Gilberto; era impossível compreender a maior parte do que ele dizia, e a parte que se compreendia era quase toda composta de palavrões e comentários sobre os atrativos da loira de bicicleta.

Mário e Adriano ficaram na expectativa. Ao virar a esquina, Gilberto, filmando a si mesmo, disse, eufórico, que a loira estava a poucos metros dele. Parou de correr. Estava com o rosto vermelho; suava copiosamente. Estava exausto. Disse que a loira, que havia descido da bicicleta, estava em frente de um supermercado. Gilberto desacelerou os passos. Filmou a loira. As imagens não eram nítidas. A loira estava um pouco distante. Dela notava-se apenas o short amarelo, as pernas compridas, a camisa branca de manga curta e os cabelos loiros compridos. Mário e Adriano quase nada conseguiam ver. Protestaram. Gilberto aproximava-se da loira. Focalizou-a. Nas imagens apareceram, nítidas, as bem torneadas pernas dela. Depois, apareceram, para satisfação de Mário e Adriano, as nádegas dela, cobertas pelo short amarelo, uma película. Boquiabriram-se Adriano e Mário. A loira do guidão da bicicleta tirou uma corrente com cadeado, abriu o cadeado, ajeitou a bicicleta ao poste de ferro, e curvou-se para a frente. Mário e Adriano levaram as mãos à cabeça. Gilberto passou, andando devagar, pela loira, dela não desviando a câmera do telefone celular. Mário e Adriano, excitadíssimos, viram um busto extraordinariamente deslumbrante. Lamberam os beiços.

Após passar a tranca na bicicleta, a loira caminhou até o supermercado. De repente, escureceram-se as imagens; viam-se apenas manchas e riscos dançando no monitor. Adriano e Mário esbravejaram. Mário, irritado, ofendeu até a quinta geração de Gilberto, e deu duas pancadas no monitor. Poucos minutos depois, apareceu o busto da loira, que, curvada para a frente, mexia na corrente que unia a bicicleta ao poste de ferro.

Ao remover a corrente, a loira, com um movimento brusco, ergueu a cabeça, e olhou para a câmera.

Adriano saltou da cadeira, arremessou-a para trás, e deu um berro misto de surpresa e espanto:

– Diabos! É a minha irmã!

O Reino de Ouro e o Reino de Cobre

Havia, há milhares de anos, dois reinos, o Reino de Ouro, e era seu rei o Sábio, e o Reino de Cobre, e era seu rei o Estúpido. Um dia um camponês encontrou, num recanto do Reino de Ouro, um ovo de dragão, e no Reino de Cobre um caçador encontrou, numa região distante, um ovo de dragão. E aos reis dos dois reinos deram a notícia das descobertas, o camponês ao rei Sábio, e o caçador ao rei Estúpido. E o rei Sábio deu a ordem aos seus súditos: “Destruam o ovo”, e eles o destruíram. E o rei Estúpido disse, desdenhoso, imprevidente, aos seus súditos: “Não se preocupem. É só um ovo”, e o ovo foi deixado intacto. E sucederam-se os dias, e eclodiu o ovo de dragão que o rei Estúpido não permitiu que destruíssem, e do seu interior saiu um pequeno e inofensivo dragão, que, no decorrer de trinta anos, cresceu, encorpou-se, e tornou-se um dragão adulto, poderoso. E chegou o dia em que o dragão atacou o Reino de Cobre e dizimou a sua população.

Sábio, rei do Reino de Ouro, ciente de que o rei do Reino de Cobre era um estúpido, informado de que ele não deu aos súditos dele ordem para destruírem o ovo de dragão, e certo de que os dragões não respeitam as fronteiras territoriais convencionadas entre os reinos, construiu, no decurso dos trinta anos que se seguiram às descobertas dos ovos de dragões, mecanismos para a defesa do Reino de Ouro e para a guerra, que seria encarniçada, contra o dragão.

E o dragão, após destruir o Reino de Cobre, rumou para o Reino de Ouro, e não o destruiu, pois encontrou um reino preparado para enfrentá-lo.

A guerra entre o Reino de Ouro e o dragão estendeu-se por muitos anos, até que, enfim, dela saiu vitorioso o Reino de Ouro, e morto o dragão.

Os sete guerreiros

Eram sete os homens que se apresentaram, altivos, imperiosos, à convocação do patriarca daquela pequena tribo. Os mais vigorosos, os mais rápidos, os mais ágeis, os mais habilidosos no manejo do bastão, do arco-e-flecha, da funda, do machado. Eram os mais valorosos homens da tribo. A coragem deles todos lhas reconheciam. Provaram-na ser dela possuídos nos campos de batalhas, nas caçadas, no desbravamento de florestas desconhecidas. Disse-lhes o patriarca que da tribo avizinhavam-se inimigos oriundos de plagas distantes. Eram bárbaros, homens asselvajados crudelíssimos. Vaticinou o patriarca a aniquilação da tribo pelos bárbaros. Não poderiam confrontar os inimigos, que se aproximavam, e rapidamente. Eram eles duas centenas de homens poderosos, e desumanos. E na tribo, de pouco mais de uma centena de almas, havia apenas sete guerreiros, sete guerreiros que, mesmo valorosos, não poderiam confrontar, num embate direto, os inimigos, que avançavam em direção à tribo. Pediram os sete guerreiros ao patriarca a ordem, que ele, patriarca, dissesse a eles, guerreiros, qual tarefa eles teriam de empreender, que eles a empreenderiam. E o patriarca, num tom altivo, que transparecia as dores de um coração confrangido, deu-lhes a ordem: Os sete guerreiros permaneceriam na tribo, enfrentariam os bárbaros que da tribo se aproximavam, enquanto ele, patriarca, já octogenário, e os enfermos, e as crianças, e os jovens, e as mulheres, e os velhos, rumariam para uma região segura, longe do alcance dos bárbaros. Os sete guerreiros acolheram a ordem patriarcal. O destino deles estava traçado: Os sete guerreiros encontrariam a morte no fio dos machados dos seus inimigos. E prontamente principiaram os preparativos para a longa jornada de todos os da tribo para uma terra segura. E ergueram armadilhas. E os sete guerreiros despediram-se do patriarca após dele receberem a benção. E despediram-se de suas esposas e de seus filhos, e dos amigos, enfim, de todos da tribo. Escorreram lágrimas dos olhos de todos; dos olhos dos guerreiros e do patriarca, não; estes guardaram no peito a dor, e no rosto exibiam coragem e altivez. E principiaram os da tribo a expedição. E da tribo afastaram-se, sob os olhares dos sete guerreiros. E da tribo aproximava-se a horda de bárbaros, ameaçadora, que trazia consigo, guiando-a, a morte; e os sete guerreiros, certos de que morreriam no confronto com eles, prepararam-se para enfrentá-los, e retardar-lhes o avanço, dando tempo para os da tribo da tribo distanciarem-se, e preservarem a vida. E principiou-se o embate na segunda noite após o dia em que o patriarca convocou os sete guerreiros para dar-lhes a notícia da aproximação dos bárbaros. Os da tribo já iam longe, mas não tão longe que os bárbaros não os pudessem alcançar em menos de um dia, e os alcançariam se não lhes tivessem interrompido o caminho os sete guerreiros. Surpreendidos pelas armadilhas preparadas pelos sete guerreiros, os bárbaros foram obrigados a deterem-se, e a recuarem. E logo nos primeiros minutos de combate, oito bárbaros despencaram, no chão, mortos, todos esmagados por troncos de árvores, então pendurados, por cipós, no topo das árvores. Esbravejaram os bárbaros, confusos, e agitados, e furiosos; esgoelavam-se; proferiam ameaças, com vozes tonitruantes. Eram guerreiros. Não temiam a morte. Cautelosos, após se recomporem-se da surpresa inicial, esquadrinharam os arredores com seus olhos de visão penetrante, à procura daqueles que os atacaram, e deles não viram nem uma silhueta, nem um vulto. Os sete guerreiros estavam ocultos aos olhos deles. Eram mais de duzentos os bárbaros, e apenas sete os guerreiros, mas naquele princípio do confronto a vantagem era destes, que conheciam a região, e aqueles não, e os haviam surpreendido. Tal vantagem, todavia, os sete guerreiros não a manteriam por muito tempo. O destino já lhes havia reservado a morte. Dilatou-se o embate entre os sete guerreiros e os bárbaros. Estes em vão tentavam anular a vantagem daqueles. E os da tribo, em jornada ininterrupta, distanciavam-se do local em que dias antes havia uma tribo. E três dezenas de bárbaros encontraram a morte, fendido o pescoço pelo fio cortante de um machado uns, transpassado o coração por uma flecha outros, esmigalhada a cabeça por um bastão outros, rachada a fronte por uma pedra pontiaguda uns. E diante dos contratempos, e das mortes que se seguiram, os bárbaros recuaram alguns metros, cessaram o arremesso de flechas contra inimigos, que lhes eram invisíveis, e reagruparam-se, e planejaram um ataque a eles, seus inimigos, os quais eles não sabiam quantos eram, e cuja localização ignoravam. Iriam induzi-los a se lhes revelarem. E dispersaram-se. E transcorreram-se três dias do início do confronto, e o plano traçado pelos bárbaros produzia, após a morte de vinte e dois bárbaros desde que a puseram em prática, uma reviravolta. Revelaram-se aos seus inimigos três guerreiros. E os combates corpo-a-corpo principiaram-se após um curto interregno. E bateram-se os bastões. E entrechocaram-se os machados. E nove homens tombaram, mortos. Seis bárbaros, e três guerreiros. E os quatro guerreiros remanescentes não suportariam por muito tempo mais o assédio dos bárbaros. Sentiam, já, os efeitos da fome, da sede, do cansaço. Tombariam. Mas resistiriam o quanto pudessem. Invocavam, em imaginação, os da sua tribo, e se conservariam em pé, armas em punho, lutando, e poriam fora de combate vários de seus inimigos. E principiou, enfim, o epílogo do embate. E a luta, renhida, entre os quatro guerreiros e os quase duzentos bárbaros persistiu durante a manhã e a tarde de um dia. Entrechocaram-se os machados. Bateram-se os bastões. Romperam o céu flechas e pedras. E além de trinta e oito bárbaros, tombaram os quatro guerreiros, cobertos de ferimentos, cravejados de flechas, rubros de sangue, lutando, machado em punho, calcando seus inimigos sob os pés, encarando-os, desafiando-os. Os guerreiros, tão heróicos, tão valentes, que os bárbaros, em sua rudeza de costumes, ofereceram-lhes enterro condigno. E os bárbaros na tribo agora devastada permaneceram, após enterrar todos os bárbaros mortos, dois dias. E seguiram jornada por sobre o rastro abandonado pelos da tribo. Estes já haviam transposto rios, superado montanhas, não sem adversidades. Alguns dos da tribo encontraram a morte. Os enfermos sucumbiram ao desgaste que o esforço da empresa cobrou-lhes. Os que encontraram forças para seguir viagem até uma região acolhedora além de um imenso mar, fora do alcance dos bárbaros, que ignoravam a tecnologia náutica, foram agraciados com uma vida longeva, e descendentes, e viram sua sociedade progredir. E transcorridos cinco mil anos, seus descendentes escrevem narrativas épicas, cujos heróis são os sete guerreiros que se sacrificaram por amor aos seus entes queridos.

O estranho mundo de Djidhikalji

São Paulo, Brasil. 17 de maio de 2134.

Instituto de Estudos de Vida Extraterrena.

Há dez anos Amanda Siqueira Martinez, cientista chefe do Departamento de Estudos de Civilização Extraterrena, estuda a presumível existência de vida inteligente em outra região do universo. Com afinco e perseverança, confiante, em nenhum momento pensou em desistir do seu propósito, nem nos momentos mais difíceis, naqueles em que ouviu a zombaria de colegas de trabalho. Encontraria vida inteligente, ou em outro planeta da Via-Láctea, ou em outro local do universo, ou além. Era sonhadora e visionária. Estava além do seu tempo, e não a compreendiam os seus contemporâneos. Desprezaram-la os amigos. Três pessoas, apenas três pessoas, a apoiavam.

Amanda acreditava que as noções de tempo e espaço concebidas pelos humanos mal representavam as forças que atuam no universo. As teorias científicas não concebem os aspectos mais complexos do cosmos – ou a sua simplicidade, inconcebível pelos humanos. Para a construção de um aparelho de transporte de indivíduos através do tempo e através do espaço são indispensáveis a descoberta das forças que atuam no universo e a compreensão de como elas interagem entre si e a invenção de tecnologia apropriada. Para muita gente, viagem através do espaço e através do tempo são fantasias de escritores providos de imaginação apurada, que se eleva às raias do absurdo; para alguns cosmólogos, viagens através do espaço e através do tempo são possíveis (Há cientistas, filósofos, teólogos que não acreditam na existência do tempo, considerando-o em termos cosmológicos; o tempo é, para eles, uma ilusão da mente humana – ainda há, pensam, muito o que se descobrir a respeito da existência da vida em si, da realidade e das forças que mantêm o universo coeso, impedindo-o de se encolher e de se desintegrar, causando uma singularidade, que venha a destruí-lo, ou a transformá-lo em algo que impede a existência de vida similar à humana).

Susana, Natacha e Everaldo eram os três cientistas que apoiavam Amanda, incondicionalmente. Contribuíam, com suas inteligências, sua sensível aptidão para a abstração e com amplos conhecimentos em matemática avançada para a formulação da ciência que permitiria viajar através do tempo e através do espaço. Dos três, Natacha, descendente de ucranianos, dotada de extraordinária e inigualável capacidade mnemônica – alcunharam-na os amigos Computador de Última Geração -, era a que estava imbuída de maiores conhecimentos em matemática aplicada e cosmologia. Na idade de vinte e seis anos, loira, pele branca, era uma das mais renomadas cientistas do mundo. Desde criança, dedica-se à ciência astronômica e à matemática, sob influência de seu pai, Fiódor, um gênio da física quântica, e de sua mãe, Mônica, uma bela italiana, que, aos quarenta e seis anos de idade, conservava, a beleza da juventude, eminente cosmóloga, autora de seis livros, sendo um deles interessante relato, mescla de ficção e as mais recentes teorias sobre a criação do mundo, e um outro, escrito para leigos, que contêm a história da astronomia, desde as mais antigas civilizações.

Natacha era o braço direito de Amanda. Tinha armazenada em seu cérebro incalculável quantidade de informações; era capaz de citar milhares de nomes de galáxias, de estrelas, de planetas, descrever-lhes as características, e localizavá-las no espaço.

Everaldo e Susana, não tão excepcionais quanto Natacha, eram indispensáveis para o empreendimento; sem eles, Amanda não daria sequência às suas experiências, à construção das máquinas que criou e as quais aperfeiçoava.

Os recursos que Amanda obtinha para empreender os seus estudos vinham de sonhadores como ela, muitos deles milionários excêntricos que desejavam viajar através do tempo e através do espaço, e desejavam conhecer o universo, e sonhavam com seus nomes inscritos entre os humanos mais importantes do seu tempo, e, quem sabe, da história da civilização; queriam legar à posteridade conhecimentos imprescindíveis para a compreensão da vida. Sem o dinheiro deles o projeto Viajante Espaço-Temporal jamais seria concretizado.

A máquina Viajante Espaço-Temporal era melhor do que a de todas as outras instituições científicas. Amanda, Natacha, Susana e Everaldo superaram todas as experiências dos cientistas rivais. Patentearam a máquina e todos os outros equipamentos. E ninguém além deles conhecia o projeto Viajante Espaço-Temporal. Conservaram-no oculto das outras instituições científicas, longe dos olhos dos espiões, que proliferavam nas instituições acadêmicas e científicas. Flagraram, em duas ocasiões, no laboratório, pessoas desautorizadas; eram elas espiões, um, de uma empresa rival, australiana, outra, de uma empresa canadense.

*

Sozinha, às três horas da madrugada, no laboratório 1-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, Amanda fazia testes com o Viajante Espaço-Temporal. Imperava silêncio absoluto. Amanda trajava um vestido azul claro decotado cuja borda inferior descia até à metade de suas cochas, usava uma tiara à cabeça, contendo os cabelos lisos, compridos e finos, que, se soltos, escorregar-se-lhe-iam pela testa e pelas laterais da cabeça, e incomodá-la-iam, obrigando-a a, de tempos em tempos, passar por eles as mãos e recolhê-los à cabeça. Apesar da fadiga, das noites em claro, da energia gasta nos anos anteriores, das chacotas que ouviu e do desprezo dos seus pares, conservava a sua beleza amorenada. Seu rosto, de traços suaves, e seus belos olhos irradiavam beleza tão profunda que encantava a todos.

Naquele dia, Susana, adoentada, não foi ao laboratório, e Everaldo socorreu sua mãe, que, acometida de dores no peito, teve de ser hospitalizada.

Eram quatro horas da madrugada, quando Natacha apresentou-se à Amanda.

– Oi, Natacha – saudou-a Amanda, que mexia, na ocasião, em alguns fios, e avaliava os dados que apareciam em um dos cento e vinte monitores. – Demoraste.

– Desculpe-me, Amanda. Choveu demais hoje. O trânsito, caótico. Nunca me acostumarei… Na Ucrânia não é diferente. Em Kiev, em Kharkiv, em Odesa, em Dnipropetrovs’k e em Donets’k enfrenta-se transtornos também.

Não eram ainda seis horas da manhã quando Amanda e Natacha, olhos fundos, puseram uma maçã no Viajante Espaço-Temporal, para um teste. A maçã viajou através do tempo e através do espaço; ao regressar, trouxe consigo a marca de uma dentada, que não se assemelhava a de nenhum animal terreno. Minutos depois, enviaram um coelho para um planeta distante, numa distante galáxia; ao regressar à Terra, ao Viajante Espaço-Temporal, o coelho trazia consigo uma mancha azul na cabeça – tratava-se de fluído segregado por algum animal –, e uma pequena criatura acompanhava-o.

Natacha e Amanda isolaram a maçã, o coelho e a criatura em compartimentos herméticos.

Poucos minutos depois do meio-dia, Amanda e Natacha, com fome, após vinte e quatro horas sem ingerir nem um grão de arroz, interromperam os testes, para uma refeição.

Amanda e Natacha não se continham de alegria. Os dois testes foram bem-sucedidos. Elas desejavam entrar no Viajante Espaço-Temporal, e viajar através do tempo e através do espaço. Seriam os primeiros humanos, sonhavam, a realizarem tal proeza.

– Quem irá primeiro, eu ou tu? – perguntou Natacha, radiante.

– Iremos as duas, Natacha – respondeu Amanda – Nenhuma de nós terá o privilégio do pioneirismo. Não correremos risco de morte. O Viajante Espaço-Temporal está pronto. Estou plenamente confiante no nosso sucesso.

– Iremos para onde? – perguntou Natacha, sorridente e animada.

– Escolha o nosso destino – disse-lhe Amanda. – Tu, melhor do que eu, apontarás um planeta qualquer em uma galáxia qualquer, sem acorrer aos dados do computador.

Natacha mencionou um planeta e em qual galáxia se situa.

Amanda e Natacha programaram o Viajante Espaço-Temporal, e nele entraram. No início, nada sentiram; minutos depois, sentiram náuseas e fraqueza, e desmaiaram, e recuperaram os sentidos minutos depois.

Luzes multicoloridas cruzaram o espaço. Amanda e Natacha viram estrelas, galáxias, aglomerados estelares, aglomerados galácticos, até que, enfim, chegaram ao destino. O Viajante Espaço-Temporal, sem sair do laboratório I-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, chegou ao distante planeta Djidhikalji.

Os detectores da nave avaliaram o ambiente. A atmosfera de Djidhikalji não representava perigo para Amanda e Natacha. O ar, respirável. O planeta, acolhedor. Os radares não captaram a presença de nenhuma criatura num raio de cem quilômetros. Amanda e Natacha, porta do Viajante Espaço-Temporal aberta, dele não saíram. Imobilizaram-las o medo, a apreensão, a ansiedade. Recuperavam-se das enfermidades que a atingiram durante a viagem. Recompostas, admiraram, deslumbradas, o panorama que se lhes descortinava.

Permaneceram, caladas, durante um bom tempo, no interior da nave, a olhar, fascinadas, a beleza esplendorosa dos arredores.

Entreolharam-se.

Amanda e Natacha, passos lentos, retiraram-se da nave.

O solo, macio. Tinham elas a sensação de pisar sobre um colchão macio, que se lhes cedia sob o peso. Seus pés não afundavam no solo. Tiveram dificuldades para se manterem em pé. Olharam para trás, e viram o Viajante Espaço-Temporal afundado, no solo, que se curvava sob o seu peso, mas não afundava a ponto de desaparecer. Adiante, uma cachoeira. Notaram que nela a água não descia a encosta da montanha, mas a subia. Deram os primeiros passos, com dificuldade. Deslocaram-se cem metros. Acostumadas, já, com o solo, confiantes, caminharam, seguras de si. A sensação, agradável. Riam à toa, como se participassem de uma brincadeira infantil. Esqueceram-se – por pouco tempo – de que estavam em um planeta desconhecido.

De repente, uma imensa sombra envolveu a região. Natacha e Amanda viram-se mergulhadas nas trevas. Não sorriam mais, não se divertiam mais. Ensombreceram-se-lhes os semblantes. Vasculharam o céu à procura da causa de tal sombra tenebrosa e funesta, que logo dissipou-se. Não souberam explicar o fenômeno. Como a sombra apareceu sem que um corpo se interpusesse entre o planeta e a estrela que o iluminava? Entreolharam-se Amanda e Natacha, o coração aos pulos.

Refeitas do medo, andaram. De repente, surpreendeu-as uma criatura estranha de corpo segmentado, filamentos a destacarem-se-lhe da cabeça em forma de cubo, e três olhos cuja disposição formavam um triângulo isósceles, com um círculo no seu núcleo, a adornarem-lhe a face anterior, e duas saliências, que se aparentavam com orelhas de elefantes, a destacarem-se-lhe das faces laterais. A cabeça era ligada ao pescoço, que não tinha mais do que a grossura de um dedo mindinho de um recém-nascido e a extensão de cinquenta centímetros. Cada olho era composto de quatro círculos concêntricos, sendo branco o interno, e roxo o externo, e os dois intermediários eram, o maior, de uma cor que se assemelhava ao azul, e o menor, alaranjado. Tal criatura surgiu do solo – de algum modo o atravessara. De onde saíra nenhuma cavidade havia. Era como se se constituísse da substância que compunha o solo. E ele começou a flutuar. Fitou, com seus olhos estranhos, Amanda e Natacha, e provocou-lhes calafrio. Elas se imobilizaram, esbugalharam os olhos, e escancararam a boca. A criatura, os olhos fixos nelas, elevou-se, no céu, até que, inexplicavelmente, desapareceu, sem deixar vestígios. Entreolharam-se Amanda e Natacha. Logo depois, uma criatura surgiu, nas proximidades do Viajante Espaço-Temporal. Emitia um ruído estranho, que se parecia com o de motor de um carro pipocando. Amanda e Natacha a compararam com um jacaré; não sabiam de onde ela havia surgido. O “jacaré”, desprovido de cauda, tinha asas que alcançavam, cada uma delas, mais de três metros de comprimento. Do mesmo modo que a criatura de cabeça de cubo, flutuou, e desapareceu, inexplicavelmente, sem deixar vestígios.

Amanda e Natacha inspecionaram a região, o ânimo recomposto, certas de que eram pacíficas as criaturas daquele mundo estranho. Poucos metros à frente de Amanda e Natacha, o solo era vermelho escuro.

Detiveram-se Amanda e Natacha.

Do solo vermelho escuro minava água, que ia para cima, como se o solo fosse nuvem e chovesse em sentido contrário. Viram Amanda e Natacha, ao se voltarem para a cachoeira, que a água, nela, ia de baixo para cima, escalava a montanha, em cujo topo desembocava. E concluíram que o rio nascia no oceano, se algum oceano havia no planeta, e morria no alto das montanhas. Atentaram para o solo vermelho escuro, e decidiram nele pisar. No solo pisaram, e afundaram.

Caíam Amanda e Natacha. A sensação de queda, indescritível. Tinham a sensação de que subiam. Tentaram se equilibrar. Conseguiram. E continuaram a cair. Caiam? Olharam para cima – ou para baixo? – sobre suas cabeças – ou para baixo delas? Viram que no céu havia “peixes” e outros animais, que “nadavam”. Os “peixes” tinham caudas de mais de dez metros de comprimento e eram desprovidos de olhos; os animais parecidos com serpentes tinham duas cabeças e três caudas; e havia animais parecidos com tartarugas, de três cabeças, duas caudas e seis pés.

Enfim, Amanda e Natacha pousaram, suavemente, no solo. Olharam para o solo sob seus pés: era água, mas não afundaram. Amanda agachou-se e, de cócoras, enfiou o dedo indicador da mão direita no solo; o dedo afundou; da abertura que fez, saiu um líquido espesso. Assustada, Amanda retirou do solo o dedo, e o líquido, cessando de escoar, formou uma “bolha”, que se desprendeu do solo e flutuou para a região de onde Amanda e Natacha desceram (ou subiram?). Natacha apontou, assustada e maravilhada, para algo, que se mexia sob o solo aquoso. Algo reluzente, parecia uma redoma, e em seu interior, pareceu-lhe, havia seres e naves voadoras. A redoma, imensa. Tratava-se, deduziu Natacha, de uma megalópole. Expressou Natacha a sua vontade de ir até lá. Como?, perguntou-se e perguntou para Amanda.

Natacha disse para Amanda que, quando ela, Amanda, enfiara o dedo no solo, abriu-se uma cavidade; talvez enfiando um dedo, e, depois, a mão, e os braços, e, por fim, o corpo, elas pudessem passar para o outro lado do solo. Amanda e Natacha, mãos dadas, enfiaram as mãos no solo aquoso, e nele enfiaram-se, e o atravessaram. Mergulhadas no solo, viram algumas criaturas estranhas desprovidas de olhos. A substância que compunha o solo era clara e, parecia, irradiava luz. Elas não precisavam mover os membros e nem se esforçar para mergulhar (mergulhar?) até a megalópole a vários metros de profundidade (profundidade?). À medida que dela se aproximavam, tomavam conhecimento da sua amplitude. Era maior do que todas as megalópoles humanas. Enfim, tocaram em algo sólido. Era a barreira que separava a megalópole do mundo exterior aquoso. Uma redoma transparente, que se abriu. Amanda e Natacha entraram. Assustaram-se, abismadas, com o que viram. A “megalópole” não tinha mais de cem metros de raio. As criaturas que nela viviam eram um pouco maiores do que gatos, tinham cinco patas, duas cabeças e três caudas de cinquenta centímetros de comprimento cada. Amanda e Natacha caminharam, as criaturas a darem-lhes passagem, por ruas estreitas, e chegaram ao outro lado da cidade, e caminharam pelas ruas.

Entreolharam-se Amanda e Natacha, maravilhadas e assustadas. Presumiram, enquanto aproximavam-se da cidade, que chegariam à uma megalópole; depararam-se, no entanto, com uma cidade minúscula, que não tinha nem mil habitantes. Detiveram-se no centro da cidade, onde havia um orifício no solo, por onde saíam e entravam criaturas estranhas, todas idênticas. Amanda disse que pelo orifício elas Amanda e Natacha, poderiam sair da cidade. Natacha disse que não sabia onde sairiam, e perguntou para Amanda, e para si mesma, que teriam de sair de lá, mas não sabiam como; além disso, elas teriam de se retirar daquele planeta. Não tinham outra alternativa, ou se arriscavam por aquele orifício, ou viveriam naquele mundo indiferente à presença delas.

Pularam, abraçadas, dentro do orifício. Não desejavam saírem, cada uma delas, em um lugar. Envolveu-as a escuridão. Os corações a baterem acelerados, os corpos trêmulos, a respiração ofegante, choraram, a imaginar que a vida delas dissipava-se. Estreitaram-se, num abraço apertado. Encerrada a travessia pelo orifício, apenas um corpo surgiu; não era nem o de Amanda, nem o de Natacha. Era um corpo de mulher, e dentro dele havia duas mentes, a de Amanda e a de Natacha. Um corpo, duas mentes. Amanda e Natacha dialogavam, confusas, sem saberem o que lhes ocorrera. Transcorreram-se vários minutos antes de elas perceberem que habitavam um corpo, que resultou da fusão dos corpos delas. Fundiram-se os corpos; as mentes, não.

De repente, o corpo atravessou uma parede escura, e chegou ao Viajante Espaço-Temporal.

– A nave – disse Natacha.

– Natacha, nós permanecemos dentro do mesmo corpo – comentou Amanda.

Amanda-Natacha foi até o Viajante Espaço-Temporal. Perguntavam-se, e perguntavam uma para a outra durante quanto tempo compartilhariam o mesmo corpo.

– Quando nos retirarmos deste planeta – presumiu Amanda -, recuperaremos, eu, o meu corpo, tu, o teu.

Amanda-Natacha entrou na nave, e acionou os comandos, e rumou à Terra. Na Terra, do veículo retirou-se uma mulher, Amanda-Natacha.

*

Amanda-Natacha, que se apresentou como Amanda, mostrou o disco, no qual havia gravadas cenas da viagem, para outros cientistas, que lhe indagaram porque ela mudou de aparência. Amanda disse que o planeta provocara-lhe mudanças no seu aspecto físico. Perguntaram-lhe de Natacha. Com as mãos ao rosto, Amanda chorou convulsivamente. Olharam-la, enternecidos. Dias depois, celebraram o enterro simbólico de Natacha. Amanda relatou a sua aventura e de Natacha para platéias de todo o mundo. Todas as leis da física e as da biologia foram reconsideradas à luz das imagens da viagem de Amanda e Natacha ao planeja Djidhikalji.

Nas viagens subseqüentes do Viajante Espaço-Temporal, Amanda-Natacha não foi a Djidhikalji, planeta que, acreditavam Amanda e Natacha, havia desaparecido, pois, programado o Viajante Espaço-Temporal com as coordenadas de Djidhikaji, não o encontraram. Ou o planeta havia desaparecido, ou havia deixado de existir, ou, então, se vivo, dotado de consciência, havia se deslocado para outra galáxia, ou para outro universo, ou para outra dimensão, para que os humanos não o encontrassem.