Hércules, Sansão e Ulisses (Ercole sfida Sansone – 1963) – com Kirk Morris e Iloosh Khoshabe.

Eu jamais tinha ouvido falar da existência de tal filme. E jamais pensei que houvesse um que trazia em seu panteão de heróis, os nomes de Hércules e Sansão, heróis, aquele, grego, este, hebreu, aquele, de poemas helênicos, este, do Velho Testamento, heróis que, até onde se sabe, jamais cruzaram-se os caminhos em suas andanças pelas terras inóspitas da nossa querida esfera celeste.

À procura de um filme, acessei o Youtube, e digitei Hércules, a evocar os filmes, que eu, há mais de trinta anos, então um garoto imaginoso, assisti, estrelados por Lou Ferrigno, fisioculturista cuja chama se rivaliza com a de Schwarzenegger. E apareceram-me filmes e desenhos, e, dentre eles, o que dá título a esta resenha. Curioso ao ver os nomes Hércules e Sansão, e mais o de Ulisses, no título de um filme, decidi à obra do cinema italiano (do gênero – vim a saber depois, após uma rápida pesquisa em site de busca – que se popularizou como filme de espadas e sandálias) assistir. Não é o filme uma obra-prima; nem memorável é; tem, no entanto, os seus atrativos: os dois heróis, que se batem em certo capítulo da épica aventura; as paisagens, deslumbrantes; o esmero das cenas e das vestes das personagens.

De início, são naves maritímas gregas atacadas por um monstro marinho, que vem a causar o naufrágio delas. Um dia, decidem Hércules (Kirk Morris) e Ulisses (Enzo Cerusico) singrarem os setes mares à caça do monstro que tanto mal causava aos gregos. E é o destino dos heróis gregos, após o confronto com a criatura marinha, o naufrágio e a chegada deles à terra dos judeus, onde deparam-se com os danitas; na sequência, vêm a ter com Seren (Aldo Giuffrè), o rei filisteu, no palácio deste, e com Dalila (Liana Orfei), mulher diabolicamente astuta, que é bem-sucedida em urdir uma trama que põe em rota de colisão o herói grego e Sansão (Iloosh Khoshabe). Antes desta cena, Hércules mata, com as mãos, um leão, o que faz com que pensem que é ele Sansão, herói em cujo encalço estava o rei filisteu. A cena mais aguardada, a da luta entre os dois heróis, se dá um pouco antes do encerramento do filme. E batem-se o herói grego e o danita, ambos a se emularem em força física, e nenhum deles a se sobressair frente ao seu oponente.

É o filme uma agradável aventura.

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Projeto Gemini (Gemini Man – 2019) – Direção: Ang Lee. Com Will Smith.

Não há muito o que dizer deste filme, que assisti atraído pelos nomes de Ang Lee e Will Smith, duas personalidades populares, ambas respeitadas pelos amantes da Sétima Arte.
Henry Brogan (Will Smith), assasino de elite, o melhor de todos, profissional irrivalizado, é traído por Del Patterson (Ralph Brown) e tem a sua cabeça dada a prêmio pelos inescrupulosos Clay Varris (Clive Owen) e Lassiter (Linda Ermond), superiores da agência de espionagem para a qual Henry Brogan trabalha. Não pôde gozar de sua merecida aposentadoria Henry Brogan, que, com a ajuda de Baron (Benedict Wong) e Danny (Mary Elizabeth Winstead), enfrenta os assassinos enviados para matá-lo. Mas apenas um assassino poderia matar Henry Brogan: Henry Brogan. Mas ele não podia ir no encalço de si mesmo. Não podia; e foi. Não o Henry Brogan original, primeiro e único, mas seu clone, mais jovem, dotado do talento de Henry Brogan para operações de assassinato. E não apenas um clone seu Henry Brogan encarou; enfrentou dois deles, o segundo, mais jovem do que o primeiro, e mais poderoso do que ele, um garoto, quase uma criança, era um ser humano aperfeiçoado, máquina de matar, sem espírito humano, criado para substituir soldados humanos nos campos de batalhas – questão, esta, explícita nas palavras de Clay Varris.
Ótimas, as cenas de ação do filme. O roteiro, simples. Estranhou-me o rosto de Will Smith, rejuvenescido por computadores, nas figuras dos clones dele. Por mais sofisticada que seja a tecnologia de efeitos especiais, ela ainda não pode emprestar ao rosto humano a sua natureza – irreproduzível por máquinas?Está na ordem do dia o transhumanismo, que, para os seus proponentes, é o aperfeiçoamento, o melhoramento do ser humano, a conversão dele num ser superior, que se obtêm suprimindo-lhe a essência transcendental; o filme, removido o seu teor fictício, faz de tal questão o seu estribilho. A controvérsia existe, conquanto muita gente a evite, dela se esquive, e a maioria a ignore: É possível melhorar o ser do ser humano? O clone de Henry Brogan, o primeiro deles, após o encerramento de sua aventura, segue uma vida de um ser humano. O clone, pergunta-se, tem alma? E muitas perguntas se seguem: Se não tem, é humano? Se tem, então, o que a alma é, se o clone é um produto da ciência humana? O clone é criação dos humanos, e estes são criaturas de Deus, então o que os humanos criam está contemplado nos desígnios divinos? A alma existe, ou é uma abstração filosófica e teológica? Que ninguém queira encontrar tal discussão em Projeto Gemini, que é única e exclusivamente uma obra de entretenimento. Ou não?

O Sepulcro Indiano (Das Indische Grabmail – 1959) – de Fritz Lang


Nesta segunda e última parte do romance do arquiteto alemão Harald Berger (Paul Hubschmid) com a dançarina Seetha (Debra Paget) há uma sucessão de episódios de estontear, e prender a atenção de, quem acompanha a aventura, que se desenrola em capítulos alternados de dois cenários, que se cruzam: os protagonizados por Harald Berger e Seetha e os que ocorrem no palácio do marajá Chandra (Walter Reyer), capítulos, estes, divididos entre os animados por Chandra e o casal Rhode, Walter (Claus Holm) e Irene (Sabine Bethmann), e os que envolvem Ramigani (René Deltgen) e o príncipe Padhu (Jochen Brockmann).

Chandra, enraivecido, insiste em exigir de Walter Rhode a construção de um sepulcro, que serviria, era seu desejo, de túmulo para Seetha, mas o arquiteto não tinha a intenção de construí-lo, todavia, prisioneiro no palácio do marajá e desejoso de saber o destino de Harald Berger, seu cunhado, resigna-se, não a cumprir a ordem de Chandra, mas a conservar-se em Bengala para descobrir que fim levara o irmão de sua esposa. Enquanto os Rhodes, com o talento que fez a fama de Sherlock Holmes, investigam o caso que muito os intriga, e colhem informações que os deixam apreensivos, e tiram de um esquivo e amedrontado Asagara (Jochen Blume), que se via num dilema enervante – ou dedicava lealdade ao marajá, seu senhor, ou a Harald Berger, seu amigo – alguns dados que lhe aumentam as suspeitas acerca das intenções de Chandra, Ramigani, o irmão mais velho do marajá, trama a remoção de seu irmão do trono de Bengala, com a ajuda, indispensável, do príncipe Padhu, que, orgulhoso, não queria ver uma dançarina ocupando uma posição, a de esposa de Chandra, que outrora pertencia à sua falecida irmã, Marani. Harald Berger e Seetha viviam numa vila, em fuga, caçando-os Ramigani, e vem a serem por ele capturados. Seetha é levada ao Palácio de Chandra; e Harald Berger ao calabouço. Sucedem-se os episódios; desenrola-se a trama. A apreensão de Ramigani é visível; e ele se ocupa de criar o ambiente apropriado ao casamento de Chandra e Seetha, e para executar o seu plano precisaria do apoio do príncipe Padhu, o que ele teria se persuadisse Chandra a desposar Seetha, mas Chandra não pretendia casar-se com ela, pois sabia que ela, ao contrário do que ouvia de Ramigani, fugira com Harald Berger sem que este a coagisse à fuga. É interessante o cinismo de Ramigani, que, ao mesmo tempo que planeja a perdição de seu irmão, fá-lo acreditar que ele, Ramigani, o ama e quer-lhe a felicidade ao lado de Seetha. E Harald Berger, acorrentado, no calabouço, só, luta pela sobrevivência, e é bem-sucedido em seu ingente esforço, em nenhum momento, embora adversa a sua situação, seu ânimo vindo a esmorecer. E a história, enfim, chega ao episódio derradeiro, o do ritual de casamento de Chandra e Seetha, quando se dá a intervenção do sacerdote Yama (Valéry Inkijinoff), que se opunha ao enlace matrimonial entre o marajá e a dançarina e não apoiava a ação traiçoeira de Ramigani e Padhu, mas que, ao opor-se a Chandra, foi de auxílio imenso aos dois ladinos inimigos dele. E entra em cena o general Dagh (Guido Celano). E todos vivem felizes para sempre. Todos, não; o arquiteto alemão e a dançarina, sim – o que não surpreende ninguém; e não estou, aqui, a revelar nenhum segredo escondido a sete chaves, afinal, os heróis, em romance de tal gênero, o destino sempre os presenteia com a felicidade.

E adiciono dois pontos, que me chamaram a atenção: o destino de Chandra, para mim inusitado, que muito me surpreendeu; e a ausência de uma explicação para a origem de Seetha, se era ela de pai irlandês – tal suspeita em suspenso em O Tigre de Bengala.

É O Sepulcro Indiano uma aventura com reviravoltas verossímeis, todas a formar uma arquitetura dramática muito bem elaborada.

O Tigre de Bengala (Der Tiger von Eschnapur – 1959) – de Fritz Lang

Ambientada na Índia, a aventura que Harald Berger (Paul Hubschmid), alemão, engenheiro, protagoniza, é uma trama que, além de envolvê-lo, conta com a participação da mulher pela qual ele se apaixona, a dançarina Seetha (Debra Paget), do marajá de Bengala, Chandra (Walter Reyer), do irmão mais velho deste, Ramigani (René Deltgen), do príncipe Padhu (Jochen Brockmann), e de coadjuvantes, que não estão no núcleo do enredo, mas têm papel importante no desenrolar dos eventos.

Numa certa cidade da Índia, cidade cujo povo é aterrorizado por um tigre que já havia ceifado a vida de alguns de seus habitantes, vivem Harald Berger, Seetha e a serva desta, Baharani (Luciana Paluzzi). Estes três personagens seguem em comitiva para Bengala; ataca-a, no caminho, o tigre tão temido, que vem a ter próximo de suas garras e dentes Seetha; Harald Berger, sem titubear, a manusear uma tocha, de posse de inata valentia, vai em socorro da bela dançarina, e salva-a, ao afugentar o terrível felino. Recompostos do susto, retomam viagem rumo a Bengala.

Acolhida pelo marajá de Bengala, viúvo, que por ela se apaixona ao admirá-la durante evoluções numa dança, Seetha, na companhia de Harald Berger, que foi visitá-la, sentada à margem de uma fonte, evoca uma canção, de cuja letra não se lembrava, e Harald Berger diz ser a canção irlandesa e canta-a, e dela a dançarina recorda-se. Suspeita Harald Berger, então, que é o pai de Seetha irlandês; e o violão, instrumento musical ocidental, que Seetha tem consigo, uma herança deixada pelo pai dela, reforça-lhe as suspeitas. Inspira os sentimentos de Seetha a nostalgia de um tempo, sua infância, do qual ela, além da canção que, agora ela sabe, é de origem irlandesa, nada guarda nos escaninhos de sua memória.

Segue paralela à aventura de amor entre Harald Berger e Seetha e do marajá Chandra pela dançarina, a de Ramigani, que planeja a perdição de seu irmão; almeja Ramigani o trono que ora seu irmão ocupa, mas tem seus planos atrapalhados pelo príncipe Padhu, irmão de Marani, falecida, anterior esposa de Chandra. O príncipe Padhu não tem a pretensão de pôr-se entre Ramigani e seu objetivo, mas incomoda-o, e pode pôr-lhe a perder o que ele ambiciona, ao ir em prejuízo do relacionamento entre Chandra e Seetha, pois não admitia que o marajá substituísse Marani por uma dançarina, enquanto Ramigani queria que se consumasse o casamento entre eles, para poder desmoralizar Chandra e alijá-lo do trono.

São muitos os episódios da aventura em terras indianas: o sequestro de Seetha; a morte de Baharani; a luta entre Harald Berger e um tigre; e outros.

E todos vivem felizes para… Não. Não vivem. Conta O Tigre de Bengala a primeira metade da aventura de Harald Berger e Seetha, e do Tigre de Bengala, Chandra, aventura que se encerra em O Sepulcro Indiano.

Para encerrar esta resenha, duas observações: o estranhamento entre a cultura indiana e a ocidental; e a arquitetura da obra de Harald Berger, apresentada, em maquete, arquitetura moderna, desprovida de beleza, inferior à indiana, exuberante, esplendorosa, magnífica.

Qomolangma Feng, China

Qomolangma Feng, Qogir Feng, Kangchenjunga, Makalu, Cho Oyu, Ohaulagiri, Manaslu, Nanga Parbat, Annapurna, Gasherbrum, Xixabangma Feng.

Acima, os nomes das onze montanhas mais elevadas do mundo, situadas no território compreendido pela China, pelo Nepal e pela Índia. Todas de mais de oito mil metros de altura. Daquelas montanhas chegou-nos a lenda de uma criatura estranhíssima. Ouvimos falar de Ieti, o abominável homem das neves, que vive naquelas regiões, parente distante do Pé Grande, que habita as mais elevadas montanhas norte-americanas e canadenses; entretanto, poucos sabem, Ieti não é a única criatura que vive, segundo a lenda, no Himalaia. Há outra, e há pouco tempo os ocidentais dela ouviram falar. Aventureiros chineses, indianos, norte-americanos, brasileiros, irlandeses, argentinos, nepaleses, nigerianos e japoneses, em busca do controverso Ieti, ouviram relatos sobre uma criatura a respeito da qual jamais tinham ouvido uma palavra. Tratava-se de Keqyshadi, cuja existência era um mistério, maior, até, do que o de Ieti e o do Pé Grande – e, também, o do monstro do lago Ness.

Vários estudiosos e aventureiros, em 1993, ouviram inúmeras histórias acerca de Keqyshadi, e empreenderam uma expedição à procura dele. Ele vivia no Himalaia. Algumas pessoas declararam que ele vivia no topo de Qomolangma Feng, o topo do mundo, acima das nuvens. Keqyshadi é parente distante de Ieti e parente ainda mais distante do Pé Grande, disseram algumas pessoas; outras disseram que, como o Pé Grande e o Ieti, Keqyshadi é apenas uma lenda. Houve quem discordasse de tal afirmação; afinal, nem Ieti, nem Pé Grande, tampouco Keqyshadi, jamais foram vistos pelos homens, portanto, não se pode afirmar que eles não existem. Muitas coisas que os homens jamais viram existem, argumentou um dos integrantes da equipe, com uma lógica irrefutável. Em território indiano, os expedicionários colheram muitas informações a respeito de Keqyshadi, esta criatura que, na opinião de muita gente, era mais fascinante do que o Ieti.

No ano de 2003, seis dos doze integrantes da equipe que empreendeu a expedição de 1993 resolveram empreender outra expedição ao Himalaia; os outros seis lançaram-se a outros projetos, para eles mais realistas. Não havia sentido, disseram alguns destes, quando fizeram-lhe o convite para empreenderem nova expedição ao Himalaia à procura de Keqyshadi, despender tempo e dinheiro em empreitada irrealista, e tentaram dissuadir de realizá-la os que haviam confirmado a sua participação na expedição. Um dos aventureiros convidados que recusaram o convite (ele se lançaria, pouco tempo depois, numa expedição à floresta amazônica) disse, polido, aos expedicionários que iriam ao Himalaia à procura de Keqyshadi, que eles estavam obcecados por ele, uma criatura lendária que habita, supostamente, aquelas gélidas e desoladas montanhas.

Os seis aventureiros, convictos de que encontrariam a fabulosa criatura, gracejando, disseram que poderiam, ao procurarem Keqyshadi, encontrar, acidentalmente, o Ieti.

Eis os nomes dos seis aventureiros da Expedição Qomolangma Feng e as suas respectivas nacionalidades: Valmiki, indiano; Li Po, chinês; Thomas Smith, americano; José da Silva, brasileiro; Arthur Doyle, irlandês; e Akira Kurosawa, japonês.

Planejaram, minuciosamente, a viagem. A escalada impor-lhes-ia inúmeras dificuldades. Enfrentariam o frio rigoroso, o ar rarefeito, a solidão, a fadiga.

O mais novo deles, Li Po, de trinta e quatro anos, conhecia, como poucos, o Himalaia; já o havia palmilhado inúmeras vezes, e escalado quatro vezes o Qomolangma Feng, ou, como é conhecido no ocidente, Everest, e o Qogir Feng, que no ocidente é chamado de K-2.

Reuniram-se, em Pequim, os aventureiros. O dia, frio. José da Silva encontrou dificuldades para enfrentar o frio enregelante da região; ele, que vivia no Rio de Janeiro e tomava banho de Sol quase todos os dias durante seu período de férias voluntárias entre duas aventuras arrojadas, a temperatura acima de trinta e cinco graus célsius, não suportava a temperatura abaixo de zero graus célsius em Pequim.

Os outros cinco integrantes da expedição moravam em regiões frias; pouca dificuldade tiveram para se adaptarem ao frio da capital chinesa, de trincar os ossos.

Hospedaram-se os aventureiros no apartamento de um amigo, escocês, aventureiro também, que realizava uma viagem ao Pólo Sul, e que lhes cedera o apartamento no qual eles passaram a última noite antes de principiarem a jornada ao Qomolangma Feng.

Na manhã do dia seguinte, prepararam-se para o início da aventura. Cada um deles carregando trinta quilos de apetrechos, retiraram-se do apartamento, e iniciaram jornada rumo a maior cadeia montanhosa do mundo.

Andaram pelas movimentadas ruas de Pequim, pelas quais circulavam muitos veículos automotores e uma quantidade incalculável de bicicletas. Os chineses, curiosos, fitavam aquelas seis figuras exóticas.

Saíram do perímetro de Pequim. Na avenida, encontraram-se com um amigo, que os aguardava. Ele era o motorista do ônibus que os conduziria até a cidade de ***, e dali em diante os aventureiros jornadeariam com raros contatos com a civilização.

Quase um dia depois, chegaram ao ponto marcado. Estavam a mais de dois mil metros de altura acima do nível dos oceanos. Dali em diante, cruzariam com algumas vilas; depois, o Himalaia. Os habitantes dos povoados mais isolados disseram-lhes que já haviam visto Keqyshadi, e declararam que ele, monstruoso, tinha mais de quatro metros de altura. A descrição que de Keqyshadi deram os habitantes da região aos aventureiros correspondia ao que estes ouviram, em povoados e vilas, na China, na Índia, no Nepal e no Butão. Keqyshadi era o Keqyshadi em todos os povoados. O Ieti, por sua vez, era descrito, em cada povoado, com uma aparência; em um povoado descreviam-no como um anão peludo e minúsculo; em outro, como um feroz gigante descomunal de mais de dez metros de altura; em outro, como uma criatura pacífica que ajudava as pessoas e com elas relacionava-se amigavelmente.

Findava o primeiro dia da expedição. O Sol desaparecia atrás das montanhas. Os aventureiros armaram barracas, e nelas ajeitaram-se.

Thomas Smith e Valmiki ficaram em uma barraca. Valmiki, excelente contador de estórias, contou uma dúzia das de seu vastíssimo repertório, mas seu ouvinte ouviu apenas as duas primeiras que ele narrou, pois na metade da terceira, adormeceu profundamente, mas Valmiki não se deu conta de que os seus relatos de As mil e uma noites ele não os apreciava, e só cessou a narração quando o sono o dominou.

José da Silva e Li Po ficaram em outra barraca. Traçaram alguns planos para o dia seguinte, e adormeceram.

Arthur Doyle e Akira, exaustos, assim que deitaram, dormiram.

Na manhã seguinte, Valmiki despertou antes de todos os outros aventureiros, e preparou a refeição, da qual os comensais partilharam; era pitoresca, e estava saborosa.

Os apetrechos arrumados, caminharam os aventureiros, galgando a montanha pelas estradas estreitas que a recortavam, e cruzaram, a longos intervalos, o caminho de algum aldeão, que falava um idioma que apenas Valmiki e Li Po conheciam. Uma família de aldeães hospitaleiros convidou os seis aventureiros para uma refeição. Eles não se fizeram de rogados.

O início da jornada, isento de dificuldades além das comuns em aventuras do gênero. Interromperam-na os aventureiros ao crepúsculo.

*

Nos dez primeiros dias de jornada com nenhuma criatura depararam-se os aventureiros, nem com um lobo das neves, nem com outros animais comuns na região. Conquanto monótonos estes dias, não desistiram do propósito que os impeliram até lá. Valmiki contou muitas estórias, algumas de sua lavra, outras que ouvira de contadores de estórias populares, e outras de suas leituras. Se houvesse, dentre eles, um escritor de talento, ele redigiria um volume adicional às Mil e uma noites.

O frio, à medida que escalavam a montanha, intensificava-se.

Transcorreram-se os dias. Estavam os aventureiros há mais de cinco mil metros acima do nível dos oceanos. Keqyshadi morava nas mais elevadas montanhas, diziam os habitantes daquela desolada região.

*

Os aventureiros palmilharam vasta extensão do Himalaia. Não encontraram vestígios de Keqyshadi, criatura que, como o Ieti, o Pé Grande, o Monstro do Lago Ness, o Boitatá, era dotado de capacidade extraordinária de ocultar-se dos olhos humanos.

Aproximavam-se das mais altas montanhas. A partir de certo ponto não havia mais povoados humanos, nem estradas, nada que lembrasse a civilização. Agora, eram a natureza e os seis homens que a desbravavam.

A camada de neve atingia, em alguns pontos, os joelhos de Akira Kurosawa, o mais baixo dentre os seis aventureiros. Embrulhados nos seus agasalhos apropriados para o frio rigoroso, os aventureiros tremiam. À noite, ouviam ruídos horripilantes. Eram os ventos que cortavam o ar e golpeavam as barracas. Pareciam-lhes assobios de uma criatura espectral, sinistra, que desejava bani-los daquele reino, que não era o deles. Calafrio percorreu a espinha dos seis aventureiros. Valmiki narrava estórias maravilhosas, agora alimentadas pelo ambiente, e espantava o medo que os atingia. Quando não contava estórias, meditava, contemplava a região e recitava trechos do Mahabarata e do Ramayana.

Transcorreram-se os dias. Nenhum sinal de Keqyshadi. Os aventureiros continuariam a percorrer o Himalaia, segundo o plano traçado de antemão, até encontrarem o Keqyshadi, ou provas de que ele existia.

Enfim, chegou o momento de enfrentar Qomolangma Feng. Ousaram desafiá-lo. Invadiriam o reinado de Keqyshadi. Iriam ao pico de Qomolangma Feng. Keqyshadi lá vivia, acreditavam, em uma caverna escondida por espessa camada de neve.

Antes de principiarem a escalada de Qomolangma Feng, descansaram. O Sol ainda não havia se posto. Armaram as barracas, e, aquecidos pelas vestimentas, no interior das barracas dormiram. Acordaram, no dia seguinte, minutos antes do meio dia, recompostos, decididos a escalar a montanha.

Valmiki encabeçava a fila. Seguiam-lo José da Silva, Thomas Smith, Li Po, Arthur Doyle e Akira Kurosawa, nessa ordem. Eram cuidadosos. E redobraram a atenção.

Quase esgotados de forças, escalaram um dos trechos mais íngremes do Qomolangma Feng. Dos seis, Thomas Smith era o que mais havia se desgastado; no entanto, ele não parou para descansar. O frio poderia matá-lo, se ele perdesse a consciência, ou adormecesse.

Os ventos sopravam mais fortes. Não havia sinal de animais. Li Po, dentre os expedicionários o de ouvidos mais apurados, distinguiu um ruído, que destoava do ambiente. Arrepiou-se de imediato dentro da vestimenta, que o protegia do frio enregelante. Acenou para os outros companheiros, que cessaram a escalada.

Nuvem espessa começava a cobrir a região, impedindo os aventureiros de verem o que estava logo à frente deles. Da direção da qual Li Po acreditava que lhe chegara o ruído que lhe atraíra a atenção, chegou-lhe uma série de ruídos. Fixou o olhar, no horizonte, para distinguir qualquer coisa, no tapete branco que cobria a montanha. Nada encontrou. José da Silva disse-lhe que ele se enganara, iludido pelo cansaço e pela fome. Era uma alucinação. Valmiki e Arthur Doyle secundaram-lo. Mudaram de opinião quando ouviram um ruído estranho. Arregalaram os olhos e perguntaram-se que ruído era aquele. Li Po sorriu, vitorioso.

E pela terceira vez Li Po ouviu o estranho e indefinível ruído. Era a voz de Keqyshadi? Valmiki e Li Po disseram que o ruído era a voz de alguma fera, de uma fera, salientaram, que não existia. Valmiki explicou o que desejava dizer com tais palavras. E Li Po as acentuou. Era a voz de um animal. Não era, concluíram, som produzido pelos ventos. Era o som de alguma fera desconhecida dos humanos. Talvez o rugido de Keqyshadi. Ou de outra fera desconhecida dos humanos.

Se encontrassem pegadas na neve! Seguiram na direção da qual chegou-lhes o ruído. Entusiasmados, negligenciaram cuidado. Thomas Smith afundou-se, em um trecho, na neve, que o encobriu, e ele quase foi carregado encosta abaixo. Valmiki, atento, segurou-o. E os expedicionários conseguiram, com muito esforço, erguê-lo e salvá-lo.

No princípio da noite, os ventos sopravam mais intensos. Os aventureiros encontraram um ponto, na encosta, que lhes oferecia segurança, e nele montaram as barracas, fixando-as no solo. Nenhum deles conseguiu dormir, pois imaginavam Keqyshadi a rondar as barracas. Temiam que ele os atacasse.

Na manhã seguinte, Valmiki, ao sair da barraca, viu um vulto imenso em meio à nuvem que cobria a região. Assustado, gritou para os seus companheiros, que se retiraram, imediatamente, das barracas, e olharam para a direção que Valmiki apontava. Valmiki disse que vira uma criatura de mais de três metros de altura. Os outros aventureiros recolheram as barracas, e caminharam na direção que Valmiki apontava. Ouviram uma voz estranha. Todos eles a ouviram ao mesmo tempo. Havia, lá, uma criatura. Inclinaram-se a acreditar que se tratava de Keqyshadi. Akira aventou a hipótese de tratar-se de Ieti, e Valmiki perguntou-lhe porque encontrariam o Ieti, se procuravam o Keqyshadi, e por que não encontraram o Ieti quando o procuraram. Akira não lhe deu resposta.

Andaram, cautelosamente, na direção da qual chegou-lhes a voz estranha. Os fortes ventos e a impossibilidade de ver um metro diante dos olhos os obrigavam a prosseguir em velocidade reduzida. Além dos assobios dos ventos, nada mais ouviam.

Deslocaram-se poucos metros. Ruídos atraíram-lhes a atenção. Pareceu-lhes que a criatura que estava nas proximidades tinha o cuidado de não se lhes revelar; movia-se com cautela.

Akira, que estava atrás de todos os aventureiros, rumou à direção da qual a voz lhes chegara aos ouvidos. Olhava, apavorado, de um lado para o outro. De repente, sentiu, nas costas, uma forte pancada, que o arremessou contra José da Silva, logo à sua frente, e os dois esbarraram em Li Po. Caíram os três. Li Po escorregou pela encosta suave; Valmiki agarrou-o. Thomas e Arthur o ergueram. Refeitos do susto, perguntaram para Akira o que lhe acontecera. Mal conseguindo articular as palavras, ele lhes disse que lhe atingiu-o as costas forte pancada. Alguma criatura – inteligente, presumiram – os tocaiava. Acreditaram que Keqyshadi anunciara-se – nenhum deles o viu, mas não lhes restava dúvida: Keqyshadi estava próximo deles.

Vasculharam a região que a visão alcançava. Desnorteados, desorientados, perderam a noção de direção e de espaço.

Valmiki, olhos apurados, viu um vulto aproximando-se de si. Boquiaberto, apontou-o. José da Silva perguntou-lhe o que ele via, e viu o vulto, grande, a poucos metros de si, e correu, imprudentemente, em direção a ele. Valmiki agarrou José da Silva pela gola da jaqueta, que se lhe escapou. E José da Silva correu no encalço do vulto. Thomas, Arthur e Akira gritaram-lhe que não fosse na direção da criatura. José da Silva desapareceu.

Transtornados, os cinco aventureiros não sabiam o que fazer. Permaneceram, não se sabe por quanto tempo, imóveis, irresolutos.

Estavam nas proximidades de uma encosta. Poucos metros depois deles, um declive. Retiraram-se de lá, e buscaram proteção. Armaram as barracas. Não dormiram. Esperavam que José da Silva regressasse. Akira teve uma previsão funesta: José da Silva morreu na montanha. Qomolangma Feng era o seu túmulo.

Na manhã seguinte, eles não desarmaram as barracas. Permaneceriam lá, durante dois dias, à espera do regresso de José da Silva.

Escasseavam os provimentos. Os aventureiros não poderiam esperar, indefinidamente, por José da Silva, ou todos eles morreriam.

Thomas disse que teriam de principiar a descida. Valmiki sugeriu que esperassem por José da Silva mais um dia. Decidiram esperá-lo.

Poucas horas depois, ouviram uma voz abafada pelo assobio dos ventos. Reconheceu-a Li Po. Era a voz de José da Silva.

Logo depois, José da Silva apareceu diante deles, entusiasmado. Dizia, ofegante, mal articulando as palavras, que viu Keqyshadi à boca de uma caverna a pouco mais de cem metros de onde eles se encontravam. Thomas esqueceu do seu desejo de surrar José da Silva, e perguntou-lhe se ele poderia conduzi-los até a caverna.

Tomando a dianteira da fila indiana, José da Silva conduziu-os até a caverna na qual dissera haver encontrado o Keqyshadi. À boca da caverna, acionaram as lanternas, iluminando-lhe o interior. E cautelosos, e preparados para qualquer eventualidade, na caverna entraram. E nada encontraram. Nenhum sinal de Keqyshadi. Nem pegadas que indicassem a existência dele. O silêncio, absoluto.

Ouviram, enfim, um ruído. Olharam para a boca da caverna. Os ventos assopravam fortes. Ouviram um assobio estridente. À boca da caverna, um vulto. Abismados, olhos arregalados, fitaram-lo os aventureiros.

O vulto desapareceu do mesmo modo que surgira. Os ventos assopravam, intensos. Os assobios, altissonantes. Uma voz invadiu a caverna na qual estavam os seis aventureiros. Os ventos, cada vez mais fortes. Lá fora, furioso, o clima. Os ventos, mais fortes. De repente, apagaram-se as lanternas, e a escuridão reinou na caverna. E enfraquecia-se a respiração dos seis aventureiros.

E o silêncio reinou absoluto em Qomolangma Feng.

Em tempos de epidemia, uma aventura assustadoramente emocionante

Saí, hoje, antes de o relógio dar doze badaladas às onze horas – o relógio está desregulado -, de casa, sem máscara a cobrir-me a bela estampa, como de hábito, e principiei a minha caminhada matinal, sem pressa, a passos lentos, e nem bem eu havia percorrido cem metros, vislumbrei, ao horizonte, aproximando-se, e rapidamente, de mim, para a minha contrariedade, duas motos, a governá-las cada uma delas um policial, ambos devidamente encapacetados, e tenso, nervoso, pensei em girar sobre os calcanhares, receando a abordagem e, era certo, a minha condução, pelos dois agentes da lei, à delegacia, e regressar à origem da minha caminhada, isto é, à minha casa. E dos policiais desviei o olhar. E eles distavam de mim vinte metros, quando apontei-lhes, segunda vez, meus olhos, num misto de temor e tremor, e vi… e vi… e vi, limpas, as caras deles, limpas e livres de máscaras. E divisei-lhes olhos, nariz, boca, sobrancelhas. Respirei, aliviado, e segui o curso da minha caminhada matinal. E os policiais passaram por mim, indiferentes à minha humilde e obscura existência. E cobri trezentos metros, calmo, tranquilo. Ao passar ao largo da praça, vi, poucos metros à minha frente, assim que dobrei a esquina, parados, conversando, dois policiais, ambos com o rosto coberto com máscara preta, na mesma calçada pela qual eu andava. Pensei comigo: “Agora me ferrei!”, em alto e bom som, meus pensamentos a me ricochetearem nos tímpanos vezes sem conta. E segui o trajeto, afugentando de minha já um pouco dilapidada cabeça de homem de quarenta e seis anos o pensamento que queria me impelir a atravessar a rua para que eu evitasse os policiais. Que fosse o que Deus quisesse. E pelos policiais passei. Eles, sem interromperem a conversa que lhes ocupava a atenção, se dignaram a me fitar com um olhar em que não se lia nada além do que nos olhares dos homens comuns está escrito. E segui, a passos lentos, a minha caminhada, sem interrompê-la. Minutos depois, regressei à minha casa, e tão logo adentrei em seus domínios, fui à sala de estudos, que serve, também, de quarto (e vice-versa), sentei-me à escrivaninha, peguei de uma caneta, e puxei de uma pilha de folhas de sulfite uma folha, e pus-me a escrever este relato da minha emocionante aventura matinal.

Lucy, com direção e roteiro de Luc Besson, e estrelado por Scarlett Johansson e Morgan Freeman

Nesta resenha, não me estenderei, pois tal filme não merece mais do que algumas linhas, poucas.
A premissa do filme é tola: os humanos usamos apenas dez por cento da nossa capacidade intelectual.
Lucy (Scarlett Johansson), carrega, no ventre, literalmente, um pacote da droga sintética CPH4. É apanhada, e, quando surrada, rompe-se o pacote, e a droga, em contato com o organismo de Lucy, o altera, a ponto de aprimorá-lo, até que, no transcurso de horas, adquire Lucy domínio de toda (100%) a sua capacidade intelectual.
Durante o curso dos eventos, Lucy, já dotada de 40%, 50%, de seu poder cerebral, recorre, confusa, ao professor Norman (Morgan Freeman), em busca de orientações. É risível tal dado do roteiro. Por que uma pessoa, Lucy, que usa 50% do cérebro, recorreria a uma pessoa, professor Norman, que usa apenas 10%?
Enfim, ao final do filme, Lucy, numa cena que, é visível, foi criada sob influência de desenhos animados japoneses, assume, ao atingir os 100% de seu poder cerebral, aparência teratológica. Aqui, está claro, ela adquire o poder de um deus, melhor, uma deusa.
A inteligência de Deus, conclui-se, ao final do filme, é apenas dez vezes superior à humana.
O filme é uma desarrazoado sem fim, quero dizer, do começo ao fim. Apenas um panfleto progressista extraordinariamente patético.

O Mapa do Tempo – de Félix J. Palma

Dividido em três partes, o livro narra três histórias, que, entrelaçadas, concentram-se na pessoa de Herbert George Wells, autor de quatro dos livros mais populares de todos os tempos: A Máquina do Tempo, O Homem Invisível, Guerra dos Mundos, e A Ilha do Doutor Moreau. Na primeira parte, narra-se a história de amor de Andrew Harrington e Marie Kelly, história de final trágico; na segunda, outra história de amor, esta de desenlace feliz, entre Tom Blunt e Claire Haggerty; e, na terceira a caçada, empreendida por um jovem inspetor da Scotland Yard, Colin Garrett, a um assassino que ainda não havia nascido.

Deixando os comentários acerca de um aspecto da narrativa, que me desagradou porque me parece gratuito – a inserção na história de dois personagens, ambos escritores, Henry James e Bram Stoker, autores, respectivamente, de A Volta do Parafuso e Drácula, extraídos da vida real e convertidos em personagens da excelente trama concebida pela mente criativa de Félix J. Palma -, concentro a minha atenção na primeira parte da história, e, na sequência, na segunda, e na terceira – e ao tratar desta, direi do meu desagrado e das expectativas, elevadas, que as duas primeiras partes inspiraram-me, que esta me frustrou.

É Andrew Harrington o protagonista da parte que abre o livro. Moço de pouco mais de vinte anos, certo dia, na residência de Charles Winslow, seu primo, com quem se dava muito bem, admira uma pintura, que exibe uma formosa mulher, Marie Kelly, que, veio a saber, era uma prostitua, que vivia em Whitechapel, imundo bairro de Londres. E a vida pregou uma peça em Andrew Harrington, que se apaixona por Marie Kelly. Estamos no ano de 1888. Era o ano de Jack, o Estripador, que aterrorizava os ingleses; o famoso Jack, o Estripador, ainda hoje uma lenda, dono de uma biografia envolta em mistérios.

Andrew Harrington, ocultando de seus familiares, parentes e amigos o seu propósito, inusitado, insensato, insano, vai, certa noite, a Whitechapel, e contata a mulher com quem se deliciaria em várias noites, seguidas horas, num leito de prazeres indizíveis. Apaixonado por Marie Kelly, decidido a se casar com ela, fala de seu projeto ao seu pai, e deste recebe uma bofetada e é expulso da família. E corre, então, Andrew Harrington, ao encontro de sua amada Marie Kelly; e para o seu horror, encontra-a, estirada, retalhada, morta, no quarto dela, onde várias noites passara em sua deliciosa companhia. E o seu sonho desfez-se, num átimo, diante de si o cadáver da mulher que tanto amava. Sabia que era o assassino o personagem que aterrorizava Londres, Jack, o Estripador, cujo nome era desconhecido de todos. Temendo vir a ser encontrado, no quarto, diante do cadáver de Marie Kelly, do quarto retirou-se. A partir de então, viveu uma vida errante, num capítulo obscuro, dramático, de sua biografia, que culminaria com o seu suicídio, em 1896, no quarto de Marie Kelly, se o seu primo, e amigo, e fiel escudeiro, Charles Winslow não interviesse, livrando-o da morte. Falou-lhe o primo de um meio, fantástico, que em Andrew Harrington inspiraria desconfiança, que poderia vir a salvar Marie Kelly. Tal notícia provocou estranheza em Andrew Harrington. Como poderiam salvar Marie Kelly, se ela morrera oito anos antes?! Para suprimir-lhe da cabeça toda estranheza, Charles Winslow falou-lhe de viagem através do tempo, da empresa Viagens Temporais Murray, de Oliver Tremanquai, dos junquianos, de Herbert George Wells, do ano 2.000, da máquina do tempo. O incrédulo Andrew Harrington ouviu-o com uma pulga atrás da orelha. Mas era tamanho o seu desejo de renovar a sua vida com Marie Kelly, que Andrew Harrington, animado pelo seu primo, veio a acreditar na história que ele lhe contara, e, na companhia dele, ruma à residência de Herbert George Wells, em cuja máquina do tempo entraria, e viajaria ao ano de 1888, momentos antes da morte de Marie Kelly, para matar Jack, o Estripador. E Andrew Harrington empreende a fantástica expedição, cujo desenlace não foi do seu agrado. E resignou-se ao destino que o universo lhe reservou. E aqui encerro a síntese da primeira parte. Cuidei não revelar os detalhes que roubaria ao leitor o desejo de descobrir por si mesmo os mistérios que envolvem o encerramento da trama protagonizada por Andrew Harrington, e esclarecida, deslindada, pelo único personagem que podia compreendê-los: Herbert George Wells, a maior autoridade em viagens através do tempo.

Escritas as últimas palavras do comentário que se acercam da primeira parte do livro, principio os que tratam da segunda.

No início desta resenha eu disse que conta a segunda parte do livro de Félix J. Palma o romance de Tom Blunt e Claire Haggerty.

Claire Haggerty, moça orgulhosa, caprichosa, que não cedia às abordagens de seus incontáveis pretendentes, requestada por inúmeros súditos da rainha, na companhia de Lucy Nelson, sua amiga, a alma excitada pela história que envolvia a Viagens Temporais Murray, que prometia uma fantástica aventura ao dia 20 de maio do ano 2.000, dia em que se daria a batalha final, que decidiria o destino dos humanos, entre os humanos e os autômatos, aqueles liderados pelo capitão Derek Shackleton, estes por Salomão, um autômato, compareceu à Viagens Temporais Murray, e participou de uma expedição ao futuro, a bordo do Cronotilus, a máquina do tempo que conduziria os passageiros à data da batalha final entre humanos e autômatos. Outros passageiros de Cronotilus são, além de Lucy Nelson, amiga de Claire Haggerty, Charles Winslow, primo de Andrew Harrington, o protagonista do romance da primeira parte, e Colin Garrett, o jovem inspetor da Scotland Yard que na terceira parte da trama urdida por Félix J. Palma assumirá o protagonismo, e Nathan Ferguson, fabricante de autômatos. Durante a expedição, Claire Haggerty, que, entediada em sua época, pretendia refugiar-se no ano 2.000, em um determinado momento da expedição ao futuro, todos os passageiros do Cronotilus conhecedores do desfecho da batalha entre humanos e autômatos, testemunhas do derradeiro embate entre o capitão Derek Shackleton, o herói humano, e Salomão, o líder dos autômatos, já regressando os cidadãos do século XIX ao Cronotilus, para a viagem de regresso ao seu tempo de origem, desgarrou-se de Lucy Nelson, e afastou-se dos outros passageiros, e procurou abrigo em um lugar qualquer, suplicando aos céus que ninguém do Cronotilus lhe notasse a ausência. Surpreendendo-a, apareceu-lhe, garboso, diante de seus olhos, o Capitão Derek Shackleton. E admirou-lhe a beleza apolínea e dionisíaca, máscula, bruta, e de imediato, a mulher dos fins do século XIX apaixonou-se, perdidamente, por um homem do ano 2.000, e não por qualquer homem; mas pelo Capitão Derek Shackleton, o maior herói de todos os tempos, o herói que, num embate heroico com os autômatos, liderou a espécie humana numa guerra que lhe evitou a extinção. Quis o destino que Claire Haggerty encontrasse, no futuro, o homem dos seus sonhos. E quis o destino que ela, não muito tempo após a viagem de regresso ao século XIX, encontrasse Tom Blunt, o homem dos seus sonhos. E desenrola-se a história de amor, os protagonistas a experimentarem emoções indescritíveis, coadjuvando-os Herbert George Wells, Gilliam Murray, o visionário proprietário da Viagens Temporais Murray, e Mike Spurrell, Jeff Wayne, Bradley e Martin Tucker, e outros figurantes.

O final deste romance, eu afirmei nas primeiras linhas desta resenha, é feliz, mas que ninguém conclua que o romance é isento de drama, de tristeza, de amargura, de angústia; para o desenlace feliz entre os dois pombinhos apaixonados, estes tiveram de superar muitos obstáculos, enfrentar inúmeras adversidades. E não se pode deixar de dizer que a participação de Herbert George Wells foi indispensável para o feliz desenlace do conto de amor entre Tom Blunt e Claire Haggerty.

E agora chegamos à terceira parte da trama arquitetada por Félix J. Palma, das três a única que, com um pouco de constrangimento, confesso, não gostei; digo que o faço, confessando, com constrangimento, porque, repito o que já revelei linhas acima, frustrou-me a terceira parte a expectativa que as duas primeiras deste ótimo livro me inspirara. Se a leitura das duas primeiras partes da obra de Félix J. Palma não me houvessem me surpreendido, e favoravelmente, eu, é provável, teria abandonado a leitura ao encerramento da leitura da segunda parte, e restituído o livro à prateleira, ou, se persistisse na leitura até o ponto final da história, eu o faria de muito má vontade, e não me frustraria, é óbvio, com o que iria ler na terceira parte, que narra a caçada que Colin Garrett, o jovem inspetor da Scotland Yard, empreende a um assassino que nasceria, décadas depois, pois as duas primeiras partes nenhum agrado me haveria de despertar. Não foi, todavia, o que se deu. Agradou-me o livro, e desde a primeira linha; daí, eu me constranger-me ao ter de criticar-lhe a terceira parte, que não me contentou; e o faço em poucas linhas, no desejo de conservar comigo o prazer da leitura deste livro surpreendente, que não perde seu valor por causa de seus pontos, poucos, que me descontentaram.Colin Garrett, jovem inspetor da Scotland Yard, deparou-se com um caso de assassinato, que o intrigou sobremaneira, envolto em mistério. Estudou o caso, e concluiu que a arma utilizada na perpetração do homicídio não poderia ser encontrada em seu tempo, mas no futuro, no ano 2.000, ano que, numa expedição a bordo do Cronotilus, conhecera, e não muitos dias antes, e o assassino seria, ou o Capitão Derek Shackleton, ou um dos seus soldados humanos, que, coadjuvando-o, combatiam os autômatos liderados por Salomão, o autômato que era o arquiteto da destruição da civilização humana e da aniquilação dos humanos. Não muitos dias após o primeiro assassinato misterioso, sucederam-se outros dois, sendo que as duas vítimas tiveram as suas vidas ceifadas, do mesmo modo que a primeira, por uma arma que não existia em fins do século XIX. Mas poderia o inspetor jovem da Scotland Yard prender pessoas que ainda não haviam nascido, pessoas que ainda não existiam? As leis britânicas que regem a sociedade de fins do século XIX poderiam ser invocadas para julgar pessoas que que, nascidas no século XX, cometeram crimes no século XIX, isto é, antes de nascerem?
Nesta terceira parte do romance de Félix J. Palma, o tom é distinto dos que lhe antecedem; não repete, aqui, penso, o autor o êxito do enredo com que ele desenvolve as duas partes anteriores. A qualidade da narrativa é a mesma. É Félix J. Palma um exímio narrador, tem o domínio da técnica narrativa. Estou me antecipando ao motivo que projetei escrever para o encerramento da resenha.
Dando fim à curta digressão, trato de um ponto ao qual aludi em outras linhas desta minha resenha: O que se refere à participação de Henry James, autor de A Volta do Parafuso, e Bram Stoker, autor de Drácula. A presença de ambos os personagens, teletransportados, por Félix J. Palma, da realidade para a ficção, na galeria de personagens que animam o livro parece-me obra do desejo de Félix J. Palma homenagear escritores que admira. Não encontro uma razão plausível para a existência deles na trama. O autor inseriu-os para elogiá-los, presumo; todavia, a trama não pede a participação deles; Henry James e Bram Stoker podem ser excluídos da história que esta nada perde em valor; ganha valor, acredito. E nesta história faz-se presente Herbert George Wells. E com estas poucas palavras, encerro os meus comentários acerca da terceira parte do livro.Mapa do Tempo é um romance de leitura agradável. O estilo de Félix J. Palma é cativante, envolvente, exuberante; é detalhista, minucioso, sem ser insosso; prende a atenção do leitor da primeira à última linha. O leitor lê uma trama envolvendo personagens tirados da realidade, Herbert George Wells, Bram Stoker, Henry James, e Jack, o Estripador, e Joseph Merrick, o Homem-Elefante, e personagens saídos da imaginação do autor. Acompanha os dramas de Andrew Harrington, Marie Kelly, Charles Winslow, Tom Blunt, Gilliam Murray, Claire Haggerty, Colin Garrett, e mais uma dezena de personagens de uma galeria de tipos cativantes. Herbert George Wells, conquanto secundário nas primeira e segunda parte, é o protagonista do livro – e é o seu antagonista Gilliam Murray, o proprietário da Viagens Temporais Murray.Félix J. Palma oferece aos seus leitores uma trama bem arquitetada, e não é triturado por aberrações que os paradoxos temporais que tal gênero – o da viagem através do tempo – proporciona, pois soube trabalhar o tema com destreza incomum.

E há muito mais no livro. E é-me impossível, na extensão de uma resenha, dar a conhecer toda a substância desta obra que muito me agradou. E um dos seus ingredientes é a mensagem, que uma ruiva misteriosa entregou a Herbert George Wells, mensagem escrita numa caligrafia que ele tão bem conhecia.

A Linha da Sombra – de Joseph Conrad

Joseph Conrad, cujo nome de batismo é Józef Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski, célebre escritor ucraniano de pais poloneses, é o autor do popular O Coração das Trevas (Heart os Darkness), que serviu de base para o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola. Escreveu inúmeras obras, em língua inglesa – idioma que dominava com maestria -, muitas delas inseridas no rol de obras-primas da literatura universal.
O livro A Linha da Sombra (The Shadow Line: A Confession), uma pequena obra de um pouco mais de cem páginas, é um exemplar do seu magistral talento narrativo, simultaneamente simples e exuberante, poderoso, vigoroso, e inventivo, e rico de expressões e de evocações de cenas dramáticas e trágicas. Não é esta novela uma das suas obras mais conhecidas. As mais populares são Lord Jim, Nostromo e a já citada O Coração das Trevas; mesmo assim, ela merece figurar no cânone das obras literárias mais valiosas de todos os tempos. É uma pequena obra-prima esta novela cujo protagonista, um jovem marujo que se vê nomeado, pelo Capitão Ellis, comandante do vapor Melita, tem de enfrentar enervantes desafios, desafios que massacram os homens de espírito fraco. Bangkok é o destino de sua primeira viagem. E o herói contracena com uma galeria de personagens: John Nieven; Hamilton; Capitão Giles; Capitão Ellis; Burns, o imediato; Ransome, o cozinheiro; Gambril; e outros figurantes. Além destes, e do herói – cujo nome não é mencionado – da aventura, há um outro personagem – cujo nome também não é mencionado -, o predecessor do protagonista no comando do vapor Melita, personagem, este, que havia morrido, numa viagem anterior, na embarcação e cujo corpo foi enterrado, por Burns, o imediato, no Golfo de Sião, na latitude 8*20′, norte, em local que estava na rota do vapor Melita. Conta-se que o falecido capitão era um homem de sessenta e cinco anos, obstinado, severo, introspectivo, que, trancafiado no camarote, tocava violino durante horas, ininterrupta e obsessivamente, e que mantinha a embarcação à deriva, sendo seu propósito, presumiam os tripulantes, o de jamais regressar à terra. E é este personagem, cujo nome, repito, não é indicado pelo autor, objeto de obsessão de Burns, o imediato.
Lançado Melita ao mar, os seus tripulantes adoecem de uma moléstia, que os alquebram, excetuados o capitão (o herói da aventura) e Ransome, o cozinheiro, acutilado, este, por alguma afecção cardíaca. Enquanto Burns, o imediato, e Gambril, e o segundo piloto e os outros tripulantes estavam acamados devido à febre que os prostrava, o capitão e Ransome desdobravam-se para se desincumbirem de suas árduas, desgastantes, tarefas; e estes dois personagens estavam sempre às voltas com os delírios de Burns, o imediato, que atribuía a febre malsã que debilitava os tripulantes do Melita ao espírito do falecido capitão. E Burns febricitava, delirava, presenciava, em sua mente perturbada, fantasmagorias.

Somando-se à febre que acometeu os tripulantes, o clima desfavorável, as trevas que envolveram a embarcação e a tempestade dificultaram o já difícil trabalho do capitão, o herói que não deu a público o seu nome. E o impacto das previsões agourentas do imediato no capitão não foi irrelevante: fê-lo, em algumas ocasiões, suspeitar, sob influência do medo, da tensão, das incertezas decorrentes dos contratempos, de sua sanidade, e a vislumbrar, em momento tão caótico, tão crítico, e em ambiente tão adverso, criaturas demoníacas, teratológicas, onde havia apenas humanos.
Se eu persistir na redação desta resenha, incorrerei, inadvertidamente, num pecado imperdoável: o de revelar o desenlace de tão intrigante aventura marítima concebida por um mestre da narrativa, dono de um estilo exuberante, másculo. No desejo de não cometer ato de tal gravidade, encerro-a com estas palavras: Joseph Conrad apresenta, nesta pequena obra-prima, um pouco de sua experiência de marinheiro; e dá ao mundo um presente do tamanho de seu imensurável talento, que tem as dimensões da vastidão dos sete mares.

Os pioneiros – parte 3 de 3

A espaçonave exploratória A-1 deslocou-se sete mil quilômetros para o norte de A***, sobrevoando-o a trinta mil metros de altura. Os seus sensores detectaram milhares de criaturas aladas gigantes, que se deslocavam a duzentos e oitenta quilômetros por hora, e no encalço delas a espaçonave-mãe enviou dezenas de pequenos robôs exploradores. Cada criatura alada gigante tinha cinquenta metros de extensão, oitenta metros da ponta da asa esquerda à ponta da asa direita, três caudas, pele revestida de substância semelhante a vidro que vibrava consoante os movimentos das criaturas e refletia a luz das duas estrelas brancas que nela incidia criando um caleidoscópio indescritível, nove fileiras de dentes de quatro cabeças serrilhados afiadíssimos, três narinas localizadas entre os sete olhos dispostos aleatoriamente na face anterior da cabeça juncada de excrescências e cavidades cavernosas (as excrescências segregavam líquido fluídico amarelo-esverdeado, e as cavidades, líquido fluídico cinza-azulado, que, exposto à luz, inflava-se, e assumia a configuração de esferas e a constituição de espuma, e alguma criatura, voando, manobrava o corpo de modo a interceptá-las, abriam a boca, e as engoliam. Eram alimentos muito apreciados por algumas criaturas, que por eles se digladiavam, e só encerravam a briga quando a criatura que encabeçava o grupo emitia um assobio grave), emitiam assobios agudos, de infinitos timbres, e estalavam as quatro línguas bifurcadas, duas localizadas no céu da boca e duas no chão da boca, separadas por saliências de cinquenta centímetros de altura.

As criaturas aladas gigantes atravessaram nuvens carregadas, que disparavam raios violentíssimos, que as atingiam, e renovavam-lhes as energias, e elas agitavam-se e emitiam gritos estridentes.

A criatura alada gigante que comandava o grupo escancarava a boca, a curtos intervalos, e engolia os raios. E regozijava-se. Era ela a única criatura que engolia raios. E a sua pele vítrea vibrava, assumia colorações inusitadas, multicoloria-se – espetáculo que as outras criaturas aladas, embevecidas, admiravam. Além de engolir raios, ela sorvia nuvens, em haustos vigorosos. Assustador! Admirável! Boquiabriram-se os expedicionários que se encontravam na espaçonave exploratória A-1 e os que se encontravam na espaçonave-mãe, a três milhões e quinhentos mil quilômetros de distância, em órbita de A***.

As criaturas aladas gigantes voaram – e nada lhes estorvou a jornada, nem raios, nem tempestades, nem furacões, nem erupções vulcânicas, tampouco outras criaturas aladas – até uma cavidade imensa e profunda, localizada, a dois mil metros abaixo do topo de uma montanha íngreme de seis mil metros de altura, coberta de gelo e rocha, cujo topo era inacessível para criaturas que não voam, e nela entraram, e rumaram, por um túnel de cinquenta quilômetros de extensão, para as profundezas vulcânicas do solo da montanha, que não estavam dominadas por trevas eternas. Pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade refletiam a luz emitida pelas estrelas brancas, e pedras iridescentes refletoras localizadas na garganta da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade, e pedras iridescentes refletoras localizadas mais no interior da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas acima; e, de pedras iridescentes refletoras para pedras iridescentes refletoras, e para a pele vítrea das criaturas aladas gigantes, a luz penetrava nas profundezas da montanha, imensa residência das criaturas aladas gigantes, de mais de dois quilômetros do chão até o teto e de três mil quilômetros de área; lá viviam milhares de criaturas aladas gigantes, que se alimentavam de rochas ígneas, e banhavam-se na lava que escorria por um rio estreito e profundo; na lava imergiam, e, ao emergirem, eriçavam a pele vítrea, regozijadas. O banho lhes era salutar, prazeroso. Para elas, as profundezas da montanha eram uma moradia aprazível, confortável, aconchegante.

Robôs exploradores detectaram uma serpente de quatro mil metros de extensão, dormindo, despreocupada, no interior de uma nuvem amarela composta de substâncias desconhecidas e cuja temperatura interior era de mil e duzentos graus Célsius. Sua pele era maleável, preta em toda a sua extensão; possuía um olho em cada extremidade do corpo de oito metros de diâmetro; e irradiava energia nuclear. Uma criatura fabulosa! Robôs exploradores observaram-na durante vários dias. A serpente hibernava. Quando ela despertaria? Ela não possuía asas. Por sorte, pensaram os expedicionários, a serpente e as criaturas aladas gigantes não atacaram Osvaldo em sua excursão, e não contataram a espaçonave exploratória, não a abordaram, e não a atacaram. A serpente preta gigante podia, com o seu compridíssimo corpo, envolver a espaçonave exploratória. Todas as imagens seriam apresentadas para Osvaldo, para persuadi-lo a desistir de empreender nova expedição exploratória a A***, ou, se dela não desistir, a adiá-la. Ele ficaria contrariado, mas, chamado à razão, conter-se-ia em seu irrefreável ímpeto aventureiro, acolheria as sensatas exortações de Katsushiro e, com o ânimo serenado, planejaria a próxima expedição exploratória, e não se lançaria, imprevidentemente, em uma aventura desnecessariamente arriscada. Todas as aventuras exploratórias consistiam em riscos, todos os expedicionários sabiam, mas era possível mensurá-los, e providenciar a redução dos estragos, até mesmo anulá-los. As imagens acima elencadas não seriam as únicas que Katsushiro apresentaria a Osvaldo para chamá-lo à razão. Havia inúmeras outras, mais espetaculares.

Além de criaturas, os robôs exploradores detectaram fenômenos naturais inefáveis: Raios, a milhares de metros de altura, originados de nuvens alaranjadas e azuis celestes, serpenteavam pelo céu, em movimentos descendentes e ascendentes, atingiam o solo, abrindo-lhe sulcos – e ramificavam-se em dezenas de raios menores, que percorriam milhares de metros, até que a energia se lhes dissipasse. No céu de uma ilha, cujo solo estava juncado de ossos carbonizados, nuvens aglomeradas, que formavam camadas espessas de mais de dez quilômetros a partir de quinhentos metros de altura, dispararam centenas de milhares de raios, muitos dos quais atingiam a superfície do mar de águas esverdeadas violentas – que despencavam, em sucessivas ondas de trinta metros de altura, próximo da ilha -, dançavam por sobre a superfície da água e, ao atingirem a ilha, estrondejavam em um clarão enceguecedor, aquecendo o solo em um raio de dez metros, e o solo adquiria coloração amarelo-alaranjado e vermelho-alaranjado, e retomava, não muito tempo depois, a sua cor original. Quando dois ou mais raios colidiam-se no céu, uma gigantesca esfera de fogo formava-se, detinha-se no local em que ocorrera a colisão de raios, lentamente deslocava-se em direção à nuvem, e, ao atingi-la, explodia em uma descarga energética violentíssima, e um raio dourado rasgava o céu, do ponto em que a esfera de fogo atingira a nuvem até o solo (e, no outro lado do planeta há uma ilha da qual emergiam raios acobreados). Quando um raio atingia uma esfera de fogo formada da colisão e fusão de dois ou mais raios, a esfera de fogo despencava em direção ao solo, e, ao atingi-lo, desaparecia, em uma explosão termonuclear devastadora, e abria uma cavidade, que chuva de partículas de rochas e rochas que escorriam das bordas da cavidade enchiam, e, na cavidade, fundiam-se. A colisão de duas esferas formadas em decorrência da colisão de dois ou mais raios a fundiam, e produzia uma esfera vermelho rubra, que se expandia até um quilômetro de diâmetro, e, ao atingir o solo, provocava uma explosão devastadora. A colisão simultânea de três esferas de fogo as extinguia silenciosamente.

Nesta ilha havia oito criaturas de três metros de comprimento, dois metros de altura, corpo achatado, rígido, surpreendentemente maleável, revestido de couraça resistente às explosões mais devastadoras, e desprovidas de olhos, nariz, boca, orelhas, pêlos, unhas, dedos, mãos e pés.

No transcurso de vinte dias – cada dia de A*** correspondia a cinco dias terrestres; e cada ano, a oito anos e três quartos de um ano terrestre – os expedicionários recolheram inúmeras informações sobre A***.

Os expedicionários pretendiam empreender uma expedição exploratória ao solo de A***. Osvaldo, impaciente, contrariado, nem sempre com a urbanidade que lhe era exigida e a compostura que o seu cargo pedia e a sua maturidade conferia-lhe, manifestava o seu desejo de ir ao planeta. Katsushiro rejeitava-o, com firmeza.

Osvaldo arquitetou a sua fuga. Sabia que estudavam-lhe o comportamento. Rilhava os dentes toda vez que evocava a figura de Ricardo, aquele simulacro de humano, que ludibriava os outros expedicionários com a sua civilidade, a sua elegância no trato, conferindo a si mesmo a identidade de um humano ciente das suas responsabilidades e que se desincumbia dos seus afazeres com a competência peculiar, decorrente – acreditavam os parvos desprovidos de sagacidade intelectual equivalente à dele, Osvaldo – da sua inata personalidade e das suas virtudes anímicas. Prometeu, para si mesmo, que revelaria, para os toleirões, a verdadeira face de Ricardo, e eliminaria Katsushiro, sujeito ambíguo, cuja origem é desconhecida, e que ocultava os seus propósitos sob a máscara do seu rosto inexpressivo, enigmático, insondável, e sob o olhar penetrante de olhos sombreados pelas sobrancelhas as quais arqueava para se conferir um olhar petrificante, intimidador, e compor a sua figura venerável perante a qual todos se curvavam, obsequiosos.

Katsushiro criou de Osvaldo a reputação de homem intransigente, cujos atos acarretarão transtornos para os expedicionários, e esforçava-se para isolá-lo, e mantê-lo isolado, e excluí-lo do rol dos expedicionários de campo, embora dissesse, com ênfase, que o admirava e o considerava o melhor expedicionário que jamais conhecera, para, suspeitava Osvaldo, afastar as suspeitas que pairavam sobre a sua cabeça, e impedi-lo de principiar uma investigação, independentemente de qual fosse a postura de Katsushiro, e revelar a verdade, com o auxílio dos seus admiradores e expedicionários com os quais compartilhava idéias afins.

Ensimesmada, Jennifer refletia a respeito do comportamento arredio e introspectivo de Ricardo, e deitava-o sob o seu olhar escrutinador. Ricardo nunca se destacara pela extroversão e convivência amistosa com os outros expedicionários. Após as alcunhas que Osvaldo cuspira contra ele, Jennifer, sempre que com ele conversava, fitava-o, de outra perspectiva, e, em retrospectiva, evocava a discussão entre ele e Osvaldo. Em certa ocasião, imersa em suspeitas, não sabia se infundadas, mas com elas incomodadas, com o auxílio de um vídeo da reunião, que lhe exibia imagens nítidas, percebeu que Ricardo modulou a voz, conferiu-lhe timbre suave, e, associando-a com expressões faciais que lhe eram incomuns e gestos das mãos e movimentos dos dedos imperceptíveis, provocou Osvaldo com o propósito, era inegável, de induzi-lo a perder a compostura. As palavras que Ricardo proferiu não foram inapropriadas, concluiu Jennifer, que anotou, no seu caderno de expedição, as suas observações, mas os gestos dele, imperceptíveis, sim, foram inapropriados, insinuantes, provocativos. Na primeira vez que assistiu ao vídeo, não pôde avaliá-lo com a atenção necessária para obter as respostas que procurava. Outras tarefas exigiram-lhe a atenção, e adiou o estudo minucioso que do vídeo pretendia fazer. Na primeira oportunidade que lhe surgiu, dias depois, para escoimar os seus pensamentos das dúvidas que persistiam em se conservar intactas, analisou o vídeo da reunião. Não queria trocar os pés pelas mãos, e aventar suspeitas infundadas, sob a influência das palavras enérgicas, embora deselegantes, de Osvaldo. Perguntou-se se procedia a acusação de injeção de nanorrobôs em todos os expedicionários e se Ricardo era um autômato, e, se era, de quem ele estava sob comando. Ricardo injetou nanorrobôs em Osvaldo, e os nanorrobôs alteraram-lhe a postura? Era uma explicação plausível. Mas, e nela, Jennifer, Ricardo injetou nanorrobôs? Se nela Ricardo injetou nanorrobôs, então por que ela não agia de modo que não correspondia ao seu temperamento? Ou agia, mas ela não notava a mudança? Além disso, quem, além de Ricardo, tem acesso aos mecanismos que recolhem informações de A***? Jennifer arregalou os olhos ao perceber que adulteraram o vídeo. Alimentava suspeitas a respeito do que havia visto e ouvido na primeira vez que assistiu ao vídeo, mas sabia o que seus olhos e seus ouvidos haviam captado: os gestos, sutis, provocativos, de Ricardo, e o seu tom de voz, incomum. Agora, viu que do vídeo os gestos de Ricardo foram suprimidos, e o seu tom de voz, alterado. Jennifer não suspeitava dessa sua análise do vídeo. Estarrecida, recostou-se à cadeira, e cobriu com as mãos a boca, incrédula, e preocupada. Adulteraram o vídeo. Quem o adulterou, e com qual propósito? E a quem interessava a adulteração do vídeo? Quem estava envolvido com a manipulação do vídeo? Ricardo? Quais pessoas – ou quais instituições – financiavam o trabalho de Ricardo? Katsushiro? Às quais pessoas ele respondia? O que elas arquitetavam? Recostada à cadeira, Jennifer levou as mãos à nuca, para sustentar a cabeça, e cerrou as pálpebras, como se assim pudesse se concentrar nos seus pensamentos, e concebeu as mais inusitadas, absurdas, estupefacientes explicações – nenhuma delas lhe fazia sentido. Não se negou, no entanto, as elucubrações; talvez alguma delas lhe revelasse o que ocorria nas profundezas das salas cuja localização é desconhecida pelo comum dos mortais.

Os expedicionários planejaram nova expedição exploratória a A***, mas não a empreenderam. As razões para isso serão apresentadas nas próximas linhas.

A espaçonave-mãe registrou um fenômeno inédito: O núcleo de A*** aquecia-se e esfriava-se, em rápida sequência alternada. As conseqüências, imprevisíveis. Sucederam-se terremotos, em inúmeras regiões do planeta. Planícies foram rasgadas; montanhas, destruídas; onde havia mar, apareceram montanhas; onde havia montanhas, apareceram vales. O solo convulsionado transformou a figura de A***. Intensificaram-se os terremotos. O aquecimento e o esfriamento do núcleo de A*** alternavam-se, incessantes, a intervalos cada vez mais curtos. Nas primeiras alternâncias, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa era de trezentos e oitenta graus célsius; em pouco tempo, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa passou para três mil e trezentos e oitenta e quatro graus célsius. E a temperatura atingiu, no pico, sete mil graus célsius, e, no fundo, cento e vinte graus célsius abaixo de zero. A ininterrupta oscilação da temperatura do núcleo de A*** transformava a crosta planetária e afetava a atmosfera e o campo magnético do planeta.

A espaçonave exploratória A-1 afastou-se de A***, e rumou à espaçonave-mãe, que a recolheu. Os expedicionários ficaram de sobreaviso. O recrudescimento da alternância da temperatura do núcleo de A*** e as alterações do campo magnético do planeta persuadiram os expedicionários a se afastarem de A*** – o que fizeram, contrariados, incontinenti. Previram, uns, a explosão de A***; se isso se sucedesse, pela primeira vez na história olhos humanos testemunhariam a morte de um planeta. Tal evento afetaria aquele sistema estelar de duas estrelas brancas. Qual seria o impacto da explosão de A*** nos outros planetas e nas estrelas que compunham aquele sistema estelar?

Chegaram aos sensores da espaçonave-mãe imagens espetaculares, fabulosas, indescritíveis, de fenômenos que se sucediam na crosta planetária. Se os expedicionários não os testemunhassem, e alguém lhos descrevessem, eles não acreditariam, pois tais fenômenos transcendiam as leis da física. Raios viajavam pelas nuvens, que assumiam coloração incomum. Raios de milhares de quilômetros de extensão transpunham a atmosfera de A***; os mais extensos estendiam-se a mais de cinquenta mil quilômetros, e afetavam o campo magnético, que os afetava. As explosões que se seguiam liberavam energia suficiente para pulverizar a espaçonave exploratória e danificar, talvez destruir, a espaçonave-mãe. Nuvens vermelhas, amarelas, azuis e amarelo-alaranjadas ampliavam-se, aglomeravam-se, e constituíam nuvens pretas, que cobriam a metade da superfície de A***. Raios as rasgavam e liberavam energia imensurável. Serpentes gigantes viajavam entre as nuvens, delas se alimentavam, e cresciam. A maior serpente que os sensores da espaçonave-mãe detectaram tinha oito mil e setecentos quilômetros de extensão, e crescia. Quanto mais crescia, mais energia acumulava; como A*** liberava maior quantidade de energia com a intensificação da vibração do seu núcleo, mais energia a serpente gigante ingeria, mais energia armazenava, e mais crescia, e crescia, e crescia. O solo de A*** modificava-se a olhos vistos, sem cessar. A sua configuração foi alterada, tornado-a irreconhecível. A cada fração de segundo, assumia uma configuração. Um planeta não pode suportar tal convulsão sem se desintegrar, pensavam os expedicionários. Qual a origem da convulsão planetária?, perguntavam-se, intrigados, acompanhando, suspensos, o desenrolar de evento tão grandioso, inédito aos olhos humanos. Desapareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Apareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Criaturas corriam pelos continentes, mergulhavam nos mares de águas borbulhantes, caminhavam pelo gelo da superfície dos rios. A***, convulsionado, contraía-se e dilatava-se, frenético. Arremessava raios, esferas chamejantes e ondas de energia. Sugava energia das estrelas. Línguas de fogo partiam das estrelas rumo a A***. Um fenômeno surpreendente, mais surpreendente do que todos os fenômenos até então testemunhados pelos expedicionários, se manifestou. De cada estrela branca partiu uma faixa dourada. As duas faixas douradas rumaram, serpenteando, até A***, como se o planetas as atraíssem, cobriram-no, e eliminaram o seu campo gravitacional e o seu campo magnético. Nenhum raio, nenhuma esfera chamejante escapava de A***. Raios e esferas chamejantes atingiam as faixas douradas. Nem o som e nem a luz as atravessavam. Não se via a intensa luminosidade decorrente das explosões das esferas chamejantes e dos raios. De propriedade elástica, as faixas esticavam-se. Os expedicionários, expectantes, intrigados, perguntavam-se o que ocorria em A***, e procuravam uma explicação plausível para fenômeno tão fantástico, tão fabuloso, tão espetacular. Temendo que a energia oriunda da convulsão de A*** rompesse as faixas que o cobriam, os expedicionários afastaram-se do planeta até uma distância que, acreditavam, era segura. Os sensores dos robôs que se localizavam nas proximidades de A*** não detectavam os eventos que se sucediam no planeta. Os expedicionários pensaram em disparar um raio de energia para abrir uma fresta, nas faixas douradas, pela qual robôs pequenos pudessem atravessar. Deparavam-se com fenômeno que olhos humanos jamais presenciaram, fenômeno que a imaginação humana jamais poderia conceber. Diante do desconhecido, incapazes de antever a reação de A*** e das faixas que o cobriam, abandonaram a idéia tão logo a pensaram. A*** poderia explodir, as faixas poderiam disparar raios na direção da espaçonave-mãe, ou, Mariana aventou a hipótese, seres inteligentes que viviam nas estrelas brancas reagiriam ao disparo do rio, e disparariam raios e esferas flamejantes contra a espaçonave-mãe. Tal hipótese era implausível, fantástica demais, fantasiosa demais, fabulosa demais, extraordinária demais. Os expedicionários fitaram Mariana; nada disseram; com o olhar, indagaram-lhe de onde ela extraíra idéia tão estapafúrdia. Seres vivos vivendo em uma estrela! Seres vivos inteligentes, em uma estrela cuja temperatura, na superfície, era de duzentos mil graus célsius, e, no núcleo, calculavam os sensores da espaçonave-mãe, doze milhões de graus célsius! Nenhum ser vivo, inteligente ou não, viveria sob tão alta temperatura! Todavia, conquanto extraordinariamente fantasiosa tal hipótese, ninguém concluiu que ela fosse inverossímil, e não a desconsideraram.

Transcorreu quanto tempo? Os expedicionários não sabiam.

Cessaram as convulsões das faixas douradas que cobriam A***.

Os expedicionários, na expectativa, petrificados, apalermados, de sobreaviso, e curiosos, esvaziaram de pensamentos o cérebro. Aguardaram, expectantes, pelas revelações que, estavam certos, não demorariam para lhes serem apresentadas. Pareceu-lhes que o tempo cessara, como se o tempo não fosse um fenômeno cosmológico, como se fosse, unicamente, um fenômeno psicológico produzido pela mente humana. Nenhum expedicionário saberia dizer quantos dias transcorreram a partir do momento em que cessaram as convulsões até o momento em que as faixas se soltaram de A***, e rumaram, cada faixa, para uma estrela. E os expedicionários, embasbacados, boquiabertos, viram, diante de seus olhos, não um planeta, mas dois planetas, um, dourado, um, esverdeado. Ora o planeta dourado girava em torno do planeta esverdeado; ora o planeta esverdeado girava ao redor do planeta dourado. A velocidade de ambos os planetas modificava-se, constantemente, e os planetas mudavam de curso. Na letargia que tal fenômeno lançou-os os expedicionários conservaram-se por um bom tempo, obcecados por uma explicação; não tinham nenhuma, nem para a existência das criaturas rochosas que atacaram Osvaldo, nem para as criaturas aladas gigantes que se alimentavam de rochas ígneas e banhavam-se nos rios de lava nas profundezas de uma montanha, nem para as serpentes gigantes que dormiam nas nuvens, nem para todos os fenômenos maravilhosos que presenciaram.

Osvaldo se ofereceu para empreender uma expedição exploratória aos planetas gêmeos. Katsushiro e os comandantes da espaçonave-mãe decidiram autorizar expedições exploratórias não-tripuladas.

Os expedicionários não sabiam o que lhes estava reservado. Presenciaram a conversão de um planeta em dois planetas e outros fenômenos inexplicáveis – pela inteligência humana, compreende-se –, que lhes excitaram a curiosidade.

Os comandantes da espaçonave-mãe enviaram expedições exploratórias não-tripuladas aos dois planetas. As informações reunidas, extraordinárias, espetaculares, embasbacaram os incrédulos expedicionários, que acreditavam que nenhum outro fenômeno os surpreenderia. Enganaram-se. Os fenômenos que se manifestaram nos planetas gêmeos e as criaturas que neles encontraram os surpreenderam. Tomaram conhecimento de seres que viviam sob as condições mais desfavoráveis à vida, e reconsideraram todas as suas idéias a respeito da vida e todas as teorias da física, e as da astrofísica, e as da cosmologia.

Vieram a conhecer criaturas gigantes longílineas dotadas de duzentas asas constituídas de películas transparentes e de vinte filamentos na cabeça esférica, e criaturas rastejantes de cinquenta quilômetros de extensão e três cabeças, e criaturas de cinco mil olhos, e criaturas que disparavam, pela boca, líquido corrosivo, e criaturas que cuspiam fogo, e criaturas que se alimentavam de pedras, e criaturas de pele aderente, e criaturas metamórficas, e criaturas de duzentos metros de altura, duzentas pernas, duzentos braços e duzentas cabeças, e criaturas aquáticas que cuspiam substância corrosiva, e criaturas que saltavam mais de um quilômetro de altura e cinco quilômetros de distância, e criaturas que viviam nos pântanos de lava, e criaturas que cuspiam raios, e criaturas que se invisibilizavam na água, e criaturas que engoliam lava e cuspiam pequenas esferas aderentes por sobre as quais outras criaturas, minúsculas, passavam e assumiam dimensões corporais maiores.

Assistiram a embates fantásticos inenarráveis entre criaturas indescritíveis.

Não havia uma criatura que não os surpreendeu pelo que tinham de fantástico, extraordinariamente fantástico.

Transcorreram-se os dias. Enviaram-se dezenas de expedições exploratórias não-tripuladas aos planetas gêmeos. O presidente da espaçonave-mãe agendou uma reunião, à qual compareceram todos os comandantes e os diretores das espaçonaves expedicionárias. Da espaçonave exploratória A-1 compareceram Katsushiro, Jennifer e Ricardo. Katsushiro disse que Osvaldo não poderia empreender uma expedição exploratória pelas razões que ninguém ignorava. Jennifer contestou-o, disse que com Osvaldo conversara horas antes, e ele se mostrou pronto para empreender uma expedição exploratória, e não podiam impedi-lo de empreendê-la. Ricardo, antes de Jennifer encerrar a sua réplica, disse que eram escassas as informações sobre os planetas gêmeos, e considerou sensato realizar novas expedições exploratórias não-tripuladas, para recolhimento de informações, antes de empreenderem uma expedição exploratória tripulada por humanos. Katsushiro o secundou, mecanicamente, e teceu comentários desabonadores a Osvaldo. Jennifer defendeu Osvaldo, enfatizou a experiência dele, e disse que há coisas, em um planeta, que robôs não podem detectar, e apenas os humanos podem. Ricardo riu, sardônico, comparou a capacidade intelectual dos humanos com a dos robôs, apontou a superioridade destes – e Katsuhiro referendou a sua opinião -, que não se resumia na incontestável superioridade mnemônica. Jennifer estudou-lhe o comportamento, e o de Katsushiro, e evocou as acusações que Osvaldo proferiu, durante a discussão após a expedição exploratória a A***. As denúncias procediam?, perguntou-se. Contestou Ricardo, disse que os robôs, desprovidos de sensibilidade, sentimentos e pendores para a abstração – talentos que não podem ser catalogados -, não são detentores da capacidade, inerente aos humanos, e a eles exclusiva, de reunir informações, associá-las, organizá-las, e delas apresentar uma síntese. E disse, também, que os humanos talentosos e experientes são imprescindíveis na expedição exploratória que teriam, obrigatoriamente, de empreender, aos planetas gêmeos, e Osvaldo preenche todos os requisitos; e ele realizará trabalho que os robôs estão impossibilitados de executar, Jennifer salientou este ponto, e o enfatizou, e repetiu-o, com voz firme. Queria aguilhoar Ricardo e Katsushiro. Katsushiro contestou Jennifer, atribuiu a Osvaldo o fracasso da expedição exploratória a A***. Jennifer estranhou Katsushiro, cujos gestos, ela disse para si mesma, em pensamento, eram robóticos; e intrigaram-na o rosto inexpressivo de Ricardo e o seu o olhar fixo em Katsushiro.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou Jennifer, abismada.

– Eu sei, Jennifer – Osvaldo assomou à porta, apontando uma pistola para Ricardo.

Ricardo ergueu-se da cadeira, de imediato, inexpressivo, e ergueu o braço direito, e apontou o dedo indicador para Osvaldo.

*

Este é o encerramento de Os Pioneiros? – perguntar-me-ão os leitores. E eu responderei:

No dia seguinte àquele ao qual entregou-me a pasta com a novela, ao volante de um carro, Luis Amadeu envolveu-se em um acidente com um caminhão e outros dois carros; em decorrência dos ferimentos, veio a falecer no Hospital Municipal.

Li a novela Os Pioneiros, na minha casa, no dia em que Luis Amadeu ma entregou. Ao ler a última palavra, perguntei-me onde estava a sequência da novela. Na ocasião, pensei em procurar Luis Amadeu, no dia seguinte. Mas, o fim trágico… Duas semanas depois da morte de Luis Amadeu, falei da novela para a Susana, irmã dele, e entreguei-lha. Ela a leu, e disse-me que a sequência do relato, acreditava, achava-se no computador de seu irmão. Nos dias seguintes, acessou a pasta ‘Novelas’; encontrou, além de dezenas de outros arquivos, o que trazia o título Os pioneiros. O texto encerrava-se no ponto que reproduzi acima. Acreditando que Luis Amadeu pudesse, por engano, ter gravado a novela, com outro título, ou na pasta ‘Novelas’, ou na pasta ‘Contos’, ou na pasta ‘Romances’, abriu-as, e todos os arquivos que elas continham. Não encontrou a novela Os Pioneiros. Procurou-a nas pilhas de papéis. O seu trabalho, infrutífero. Conversamos, eu, Susana, familiares e amigos de Luis Amadeu, a respeito da novela e de Luis Amadeu, que, sabíamos, desejava que a novela Os Pioneiros fosse publicada em livro. Decidimos publicá-la, às nossas expensas. Não digo que Os pioneiros é uma novela inacabada. Inacabada ela não é. Sabemos que destino levou o trecho final de Os pioneiros: o túmulo em que jaz Luis Amadeu.

Os pioneiros – parte 2 de 3

Os Pioneiros

A criatura emitiu urros estrondejantes. Enorme, de quatro metros de altura, aproximava-se, rapidamente, de Osvaldo, que não a viu em suas reais dimensões porque a penumbra o impedia, até que, não muito tempo depois, distinguiu-lhe a figura, todavia dela não definiu a coloração da pele (ou do que lhe revestia o corpo), que era rígida como rocha. Antes que Osvaldo compreendesse o que ocorria, a criatura golpeou-lhe o braço, e arremessou-o a mais de vinte metros de distância. Osvaldo sentiu o golpe, atenuado pelo exoesqueleto. Caído, olhou para a criatura, e distinguiu-lhe o vulto; mas mal pôde ver-lhe a cabeça, e dela viu a cauda de uns cinco metros, e que se encompridava. A criatura urrou. Odor miasmático atingiu Osvaldo, que, protegido pelo capacete, não o sentiu, mas a pele de seus braços e antebraços expostos sentiu-o, e a reação foi instantânea: bolhas rubras de sangue manifestaram-se nos braços e antebraços de Osvaldo; parecia que a pele dele havia sido removida. Ele olhou para seus braços, neles fixou o olhar por uma fração de segundo, e voltou-se para a criatura, que, embora gigantesca, dele se aproximara sem que os sensores do exoesqueleto captassem-na, e tampouco detectassem os tremores de terra que ela, com seus vinte mil quilos, produzia. Levantou-se; recompôs-se; viu a criatura indo em sua direção, e tratou de correr. E hesitou. Para onde correria? Olhou, apavorado, em torno. O descampado não lhe oferecia abrigo. Não tinha para onde fugir. O único meio de escapar da criatura gigantesca era contatar a espaçonave exploratória, e solicitar-lhe o seu (dele, Osvaldo) imediato resgate. E a criatura avançava em sua direção. Com os mapas tridimensionais, que os sensores do exoesqueleto desenhavam, de um raio de cinquenta metros, Osvaldo ampliou o seu conhecimento da região inóspita, desértica, mas espessa camada de nuvem, cuja composição ele desconhecia, impedia-o de ver com clareza o que havia ao seu redor, e as câmeras do capacete não a penetravam, para ajudá-lo a se orientar, e a penumbra, tenebrosa, terrificante, enfatizava o opressivo ambiente da região. Nenhum abrigo havia nas proximidades. Osvaldo não sabia para onde correr, mas tratou de correr, sem rumo, para se afastar da criatura, que o ameaçava, pois não queria se lhe servir de repasto. Desejava, sim, empanturrar-se com um banquete republicano; mas não era desejo seu servir-se de banquete para a criatura que o perseguia. O encerramento da vida do Pioneiro, ensina a lenda, não era o que Osvaldo desejava para si – nunca sonhou acabar sua vida no estômago de uma criatura escatológica. Ofegante, olhou, na sua corrida desabalada, por sobre os ombros, e viu a criatura, que de si não se aproximava, e tampouco dela ele se distanciava. Voltou-se para a frente; percorreu uns cem metros, pulou por sobre uma saliência, e atingiu criatura, cujos urro, e hálito, que lhe queimou a pele, indicaram-lhe que se tratava de uma criatura como a que o perseguia. Uma criatura rochosa, ele concluiu. Viu-se cercado, presumiu, pelas duas criaturas. Para onde ele correria? Os sensores do seu exoesqueleto detectavam a presença de uma criatura rochosa, e não de duas. Seria, aquela criatura que ele tinha diante de si, a criatura que o perseguia? Como ela se deslocara tão rapidamente, tão silenciosamente, sem que os sensores do exoesqueleto a detectassem? Ou a criatura rochosa que o perseguia não ia mais no seu encalço, abandonara a perseguição, e outra criatura rochosa lhe surgira diante dos olhos? Osvaldo se via em apuros; a situação não lhe era favorável. E se outras criaturas rochosas o abordassem? Como delas ele se livraria? A cauda da criatura rochosa serpenteava, ia na direção de Osvaldo, que, desorientado, impelido pelos sensores do exoesqueleto, se esquivou, e resvalou-lhe o capacete. Não foi Osvaldo que se esquivou da cauda; foi o exoesqueleto que dela se esquivou, livrando Osvaldo da morte. A criatura rochosa poderia esmagá-lo com um golpe da cauda. O exoesqueleto não resistiria à pressão da cauda, se a criatura rochosa com ela o envolvesse. Naquele momento, afinaram-se as nuvens, e Osvaldo pôde ver alguns detalhes da criatura rochosa. A penumbra, em alguns momentos, não a envolvia inteiramente, e, na cabeça dela Osvaldo viu três olhos, cuja disposição indicava que ela possuía mais dois olhos. Osvaldo não viu uma boca, e nem um nariz na criatura. Como ela urrava? E o hálito dela, que o atingiu, queimando-lhe a pele? Como ela respirava? No topo da cabeça dela havia duas saliências – cada uma destacava-se de uma têmpora – compridas e de ponta arredondada – cada uma delas de um metro de comprimento e diâmetro de meio metro na base e vinte centímetros na extremidade – e, na região central da cabeça, saliências que se assemelhavam a uma linha de cornos pontudos de vinte centímetros de comprimento cada um, e nas laterais da cabeça filamentos segmentados repulsivos, cuja aparência assumiram, aos olhos de Osvaldo, a aparência de criaturas parasitas – cinquenta ou mais -, que vibravam-se, ininterruptamente, e emitiam, ao se tocarem, estalidos agudos penetrantes, que feririam os tímpanos de Osvaldo se o capacete não lhos protegesse. Visão horripilante! Quais as dimensões da cabeça da criatura rochosa? Ela era enorme, vinte vezes maior do que a cabeça de Osvaldo. Outros aspectos da criatura que Osvaldo distinguiu: Inexistência de pescoço; revestimento repleto de protuberâncias; vegetais de coloração azul-esverdeada e vermelho-alaranjado cobriam-na em alguns pontos; dois pés curtos e grossos.

A criatura rochosa avançou na direção de Osvaldo, que se esquivou, com um salto, e caiu, em pé, a três metros de distância, e, hesitante, voltou-se para olhá-la, mas ela havia desaparecido. Foi neste instante que a mão pétrea da criatura rochosa segurou-lhe o capacete. Os sensores do exoesqueleto não indicavam a presença da criatura rochosa próxima de Osvaldo, que, para dela se desvencilhar, desferiu-lhe uma sequência de golpes. A criatura rochosa arrastou-o. Osvaldo, apavorado, esgoelou-se, e dobrou as pernas, para um salto; dobrou o corpo; e desdobrou-o para livrar-se da mão da criatura rochosa, e redobrou os seus esforços. Desvencilhou-se, enfim, da mão da criatura rochosa, acionou a pistola, e disparou. A onda de energia viajou por quilômetros, até atingir uma montanha. A criatura rochosa havia desaparecido. Que mistério rondava Osvaldo? Como uma criatura – presumindo-se que fosse apenas uma criatura – aparecia e desaparecia – e os sensores do exoesqueleto não a captavam -, e não deixava sinais da sua presença? Nenhum vestígio havia da existência dela. Pegadas? Nenhuma. Ela desapareceu, sem deixar vestígios. Viera de onde? Para onde foi? Os mapas tridimensionais elaborados pelos sensores do exoesqueleto de Osvaldo não indicavam a presença de nenhuma criatura num raio de duzentos metros. Osvaldo não deu, no entanto, atenção aos sensores do exoesqueleto, pois estava persuadido de que de nada lhe valiam, pois eles não captavam a criatura rochosa; era como se ela não existisse. De sobreaviso, Osvaldo andou. Circunvagava os olhos. Detinha-se. Procurava pela criatura rochosa. Sabia que ela poderia atirar-se sobre ele de qualquer direção. Deparava-se, sabia, com uma criatura a respeito da qual tudo ignorava. Não sabia se poderia se antecipar a um ataque desfechado por ela. Aterrorizava-o tal situação. Petrificá-lo-iam as incertezas se o exoesqueleto não o conservasse alerta, com os olhos bem abertos, os ouvidos bem apurados, para, se necessário, reagir a qualquer ataque desfechado por uma criatura rochosa, ou por outra criatura qualquer. A tensão inspirava-lhe pensamentos caóticos, os de um derrotado, os de uma pessoa que desistia de viver, e estava na iminência de sucumbir ao destino que, acreditava, era o seu, e dele não poderia esquivar-se. O exoesqueleto, todavia, ao injetar-lhe ânimo, não permitiu que ele se curvasse ao destino que, acreditava ele, estava traçado para si, mas ele, no entanto, não abandonou os pensamentos lúgubres, que o atormentavam. Sabia que não podia negligenciar atenção. O exoesqueleto não o deixava esquecer disso. A passos curtos, firmes, andou, lentamente, desorientado, sem saber que direção seguir. Envolveu-o nuvem de partículas, que lhe rasgaram a pele dos braços e dos antebraços. Imprevidentemente, ele expusera-se ao desconhecido com um exoesqueleto que não reconstituía as partes danificadas – algo a havia danificado assim que ele deu os primeiros passos para fora da espaçonave exploratória, mas, ao invés de acolher as sensatas exortações de Mariana e Jennifer, à espaçonave regressar, e reconstituir o exoesqueleto, rejeitou-as, e insistiu na sua aventura exploratória, que quase lhe custou a vida, para registrar, unicamente, seu nome na história, o do primeiro humano a pisar no solo de A***, o planeta inóspito. A história registrará o nome de Osvaldo, e o associará à primeira aventura em solo de A***, o planeta inóspito, e não deixará de registrar a sua imprudência, as suas atitudes insensatas, de absoluto descompromisso com o seu companheiro de jornada. Os pioneiros eram os argonautas, e Osvaldo atribuía-se as virtudes de Ulisses, e se autocondecorara o líder incontestável da odisséia; no entanto, os eventos o desmentiam.

Enfim, a espaçonave exploratória A-1 resgatou Osvaldo.

Assim que Osvaldo removeu o capacete, Jennifer desferiu-lhe um tapa, ferindo-lhe o ego. De baixa estatura, leve, de mãos pequenas, sedosas, ela não é dotada de força para desferir um tapa que imprimisse marcas no rosto dele. O tapa era mais simbólico do que concreto. Não tinha as propriedades de um tapa. Ato contínuo, Jennifer, com palavras ferinas, desancou Osvaldo. Acutilou-o, feroz, com sua voz argentina, que, parecia, era amplificada por uma caixa de ressonância. Uma mulher tão pequena com uma voz tão poderosa! Contrariado, rilhando os dentes, Osvaldo ouviu-a. Dela desejava afastar-se, mas seus pés, enraizados no piso, não lhe permitiram dar um passo; diriam seus antepassados: “Osvaldo ouviu o sabão que a Jennifer lhe passou”; uma expressão antiga intraduzível. Jennifer repreendeu-o, vigorosamente, com autoridade, e não permitiu que ele lhe replicasse. Foi a primeira censura que ele ouviu, e não seria a última. Encerradas as censuras, Osvaldo encaminhou-se ao consultório médico, onde despiu-se do exoesqueleto, e reconstituiu suas células que o hálito da criatura rochosa destruíra. Em seguida, reuniu-se, na sala de conferências, com Jennifer, Mariana, Susana, Leonel, Ricardo, Washington e Katsushiro. O ambiente não lhe era favorável. Repreenderam-no todos os presentes. Após as censuras, concederam-lhe o direito de falar; e ele falou, e os seus interlocutores surpreenderam-se com o teor do seu relato. E Katsushiro, assim que Osvaldo encerrou o seu relato, pronunciou-se, antecipando-se a Jennifer e Susana, que haviam se movido, indicando que desejavam se pronunciar, mas, diante do gesto de Katsushiro, se recompuseram. Katsushiro, e não Osvaldo, era o Ulisses da expedição.

– Osvaldo, tu nos falaste de uma criatura rochosa. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe, todavia, não a captaram. Captaram, unicamente, numa vasta área em torno de ti, movimentos incomuns de partículas metálicas, e algumas destas partículas tinham propriedades ígneas, e foram elas, presumimos, que te queimaram a pele.

– Ouça, Katsushiro. Ouçais todos vós – pronunciou-se Osvaldo, contrariado, num tom de voz desafiador. – Vi uma criatura rochosa, de cujo corpo vos dei uma descrição; aliás, descrevi-lhes o que dela pude ver, pois não a vi toda, devido à penumbra e à densa nuvem. E ela atacou-me, e perseguiu-me, e feriu-me. Vi, repito, uma criatura de constituição rochosa, que me atacou, golpeou-me, agarrou-me, perseguiu-me…

– Reconheças, Osvaldo – disse Jennifer, com a autoridade que lhe era peculiar -, que estamos em um planeta inexplorado…

– Inexplorado por humanos – interrompeu-a Susana, cujo sorriso não ocultava os seus pensamentos e revelava a sua antipatia por Jennifer.

– Um planeta inexplorado, este planeta inóspito – prosseguiu Jennifer, elevando o tom de voz e conferindo-lhe firmeza dissuasiva. – De A***, um planeta inexplorado – escandiu as sílabas –, nada sabemos. Não sabemos quais fenômenos manifestam-se em A***. Os sensores do exoesqueleto de Osvaldo foram danificados, sabemos; mas os desta espaçonave exploratória, não, e tampouco os da espaçonave-mãe. E os desta espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nenhuma criatura semovente detectaram, Osvaldo, além de ti.

– Não sabemos o que tu viste – pronunciou-se Washington, no seu inconfundível tom contido. Osvaldo interrompeu-o, exaltado:

– Vi uma criatura rochosa, que me atacou.

Katsushiro observou-o, atentamente.

– Não digo que tu não a viste – interveio Ricardo, pacificador, ao notar que Osvaldo exaltava-se. – Tu nos disseste ter visto uma criatura rochosa. Acredito em ti.

– Tu dás mãos à palmatória – sentenciou Osvaldo.

– O quê? Não entendi – disse, confuso, Ricardo.

– Nada. É apenas uma expressão antiga – explicou Osvaldo, sem se estender em pormenores.

– Os sensores do teu exoesqueleto estavam danificados – prosseguiu Ricardo. – O teu exoesqueleto não detectou uma criatura rochosa, e nem as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas que te envolveram. Os sensores da espaçonave exploratória, todavia, como tu podes ver no holograma, detectaram as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas, mas não detectaram a criatura rochosa. Como podes ver, Osvaldo, a densidade e a espessura da nuvem eram maiores nas proximidades de ti. Não sabemos que fenômeno manifestou-se, lá, no solo…

– Não sejas tão amigável – interrompeu-o Osvaldo, com sorriso escarninho e gesto de impaciência. – Desejas desmerecer a minha conquista? Ora, para que tanta tagarelice?

– Queremos saber o que se passou no solo – disse Mariana.

– Eu já vos disse: Uma criatura rochosa atacou-me – replicou Osvaldo, alterado, mas contendo-se.

– Não é o que os sensores da espaçonave exploratória indicam – sentenciou Jennifer.

– O que vós quereis que eu vos diga? – desafiou-os Osvaldo. – Vi uma criatura rochosa, que me atacou. Quereis que eu vos confirme as informações que os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe vos forneceram? Não o farei. Sabeis as razões? Vi uma criatura rochosa, e ela não é uma criatura amigável. E não pretendo cruzar o caminho dela novamente – encostou-se ao espaldar da cadeira, e expulsou, com um expirar vigoroso, todo o ar dos pulmões.

– As áreas mais escuras do holograma – retomou a palavra Ricardo – indicam a maior densidade da nuvem. E elas, podemos ver, encontram-se próximas de Osvaldo, e deslocam-se, aleatoriamente. Não seguem os movimentos da nuvem. Osvaldo disse-nos que a criatura rochosa tinha em torno de quatro metros de altura, e, supôs, vinte toneladas. Os sensores da espaçonave exploratória não detectaram tremores de terra. Uma criatura de tais dimensões produziria, ao deslocar-se, tremores que os sensores da espaçonave exploratória poderiam captar, mas não os captaram. Esta informação é pertinente. Na imagem holográfica, vemos que as áreas escuras correspondem a pequenas áreas, e a maior delas não corresponde sequer à uma área de um metro cúbico. E é esta área, estou convencido, que segue no encalço de Osvaldo. Acredito que as partículas metálicas ígneas, atraídas pelo exoesqueleto, como imãs…

– O que tu insinuas, Ricardo? – perguntou-lhe, interrompendo-o, Osvaldo, com voz firme, hostil, encarando-o. – Insinuas que nenhuma criatura rochosa me atacou? Insinuas que nenhuma criatura rochosa me perseguiu? Insinuas que inventei tal história? Insinuas que enlouqueci?

– Osvaldo, contenha-se – pediu-lhe Katsushiro, em tom de ordem. – O Ricardo nos forneceu um breve resumo das informações acumuladas desde o instante em que tu principiaste a exploração do solo de A*** e as inferências óbvias. Ele, como todos nós, deseja entender o que se passou no solo de A***. Eliminou as incongruências, mas, ciente das suas responsabilidades, apresenta-nos as que não pôde eliminar. Um trabalho complexo, tu sabes, Osvaldo. Há discrepâncias nos dois relatos, isto é, no teu e no do Ricardo. O teu, originado da tua experiência em solo; o do Ricardo, das informações fornecidas pelos sensores da espaçonave exploratória e da espaçonave-mãe. Tu nos fala de uma criatura rochosa, que te atacaste. Te ouvimos atentamente. Ricardo nos fala de uma nuvem composta de partículas metálicas ígneas. Os dois relatos não combinam. Anulam-se. Não sabemos, Osvaldo, quais fenômenos manifestam-se em A***. Fomos imprudentes ao iniciarmos uma expedição exploratória antes de reunirmos informações mais consistentes, que nos propiciassem segurança; sem a mais remota idéia de quais informações nos são imprescindíveis, principiamos a expedição exploratória certos de que fenômenos e criaturas nos surpreenderiam. Não sabemos se há seres vivos inteligentes em A***. Não sabemos se há uma civilização em A***. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nada detectaram, e as espaçonaves exploratórias miniaturas não-tripuladas transmitem-nos informações do solo e dos fenômenos naturais, alguns incomuns, de A***, mas nada que indique a presença de seres vivos. O teu relato, Osvaldo, dá-nos notícias de uma criatura, inconcebível por nós, revestida de uma pele rochosa e de aparência grotesca. O relato de Ricardo dá-nos notícia de um fenômeno natural inusitado para o qual ele procura uma explicação plausível. Entendas, Osvaldo, que empreendemos uma expedição exploratória em um planeta que desconhecemos. Não sabemos o que nos espera. E o Ricardo tem de nos dar as informações colhidas e as interpretações apropriadas, na certeza de que não sabe se procedem. Como tu, ele tem de dar relatos fiéis dos eventos…

– Presumo tratar-se de partículas imantadas – prosseguiu Ricardo, assim que Katsushiro concedeu-lhe a palavra. – Partículas metálicas ígneas de propriedades de imã. Quando Osvaldo detinha-se, tais partículas detinham-se em torno dele, mas não cessavam os movimentos; rodeavam-no, como se o avaliassem. Não quero atribuir faculdades sensitivas às partículas metálicas ígneas, mas elas manifestavam características singulares. Elas, presumo, ao tocarem os braços de Osvaldo, feriram-no. Os movimentos delas eram aleatórios, mas, incrível!, seguiam um padrão. Sei que as minhas explicações são enigmáticas. Não esclareço nenhum ponto. Não sabemos o que Osvaldo enfrentou; e diante do desconhecido e da escassez de informações, temos de adiar outra expedição exploratória com humanos.

As últimas palavras ditas por Ricardo enraiveceram Osvaldo, que se exaltou, levantou-se da cadeira, pousou as mãos na mesa, encarou Ricardo, e disse, esbravejando:

– Tu não sabes o que enfrentei, humano artificial. Sei o que enfrentei, anomalia de laboratório. Enfrentei uma criatura rochosa, que me perseguiu, e agarrou-me, e agrediu-me. Autômato, tu não sabes o que diz. Tu detestas os humanos. Não sei porque tu fostes convidado para esta expedição. Tua raça é prejudicial à humana, parasita artificial. Por que te aturam? Tu injetaste nanorrobôs, filhos teus, no cérebro de todos aqui, replicante? Regresses ao teu ovo simbiótico. Regresses ao útero ectoplasmático de tua matrix!

Katsushiro e Jennifer pronunciaram-se com vigor. Inadmissível, a postura de Osvaldo. Katsushiro ordenou-lhe que se retirasse. Osvaldo recusou-se a atendê-lo. Dois robôs, então, ladearam-no, e Katsushiro ordenou a Osvaldo que os acompanhasse até o quarto, e lá permanecesse, incomunicável.

Osvaldo, bufando, retirou-se, ladeado pelos robôs, da sala de conferências.

Entreolharam-se Katsushiro e Jennifer.

Excetuando Katsushiro e Jennifer, os outros participantes da reunião retiraram-se da sala de conferências.

Com voz pausada, palavras calculadas, Jennifer disse:

– Não me agradou o comportamento do Osvaldo. O que ocorreu em A***? Não sabemos, Katsushiro, o que enfrentamos. Osvaldo, um homem pacífico, sereno, está tão suscetível às divergências…

– Conheço-o à décadas – disse Katsushiro. – Nunca o vi agir de tal modo. Não digo que é incomum a atitude de Osvaldo. Digo que é inédita. Não direi que é inexplicável, pois inexplicável não é. Algo afetou Osvaldo. Ele não pondera, não procura explicações racionais para o episódio. Há incongruências nos relatos. As análises feitas pela espaçonave exploratória e pela espaçonave-mãe contestam o relato que Osvaldo nos apresentou. Não sabemos o que inspirou a Osvaldo as, supomos, alucinações. É certo: Não o enviaremos para outra expedição exploratória a A***. Aliás, humanos não mais descerão em A***. Enviarei robôs, nas próximas expedições exploratórias. Osvaldo foi convidado a participar desta expedição intergaláctica devido à sua coragem singular, à extraordinária rapidez de seu raciocínio, à sua inigualável destreza manual, à sua irrivalizada inteligência prática. Raros humanos são dotados das virtudes imprescindíveis para o exercício apropriado de aventuras similares às que ele viveu. Tu sabes que temos de impedir que recrudesça os danos à mente de Osvaldo. Temos de preservá-lo, neste momento, dele mesmo. Tu viste como ele agiu, tão suscetível, tão contrariado quando Ricardo apresentou-nos as informações que a espaçonave exploratória e a espaçonave-mãe nos forneceram. Ricardo não aludiu ao estado mental alterado de Osvaldo, nenhuma insinuação mal intencionada ele fez. A sua postura, o seu vocabulário, o seu olhar, os seus gestos, indicaram que ele, ao notar que Osvaldo não estava em seu juízo perfeito, falava e, para não ferir suscetibilidades, pensava nas palavras que usava. Osvaldo, com os olhos esbugalhados, e os dedos a tamborilar a mesa, estava agitado, impaciente, irritado. O propósito de Ricardo era induzir Osvaldo a refletir no que aconteceu em A***, ponderar, e procurar por uma explicação racional. Foi mal sucedido, como vimos.

– Manteremos Osvaldo isolado?

– Por enquanto, sim… E pelo tempo necessário, para lhe avaliarmos o comportamento. Temos de saber o que ocorreu com ele, e o que com ele se passa. Ele, esteja certa, Jennifer, se oferecerá para empreender outra expedição exploratória, mas enviarei robôs para A***, e não ele.

– Chamou-me a atenção, Katsushiro, o vitupério que Osvaldo disparou contra Ricardo. Disse-lhe que regressasse ao ovo simbiótico. Alcunhou-o replicante, autômato, anomalia de laboratório. O Ricardo, não me passou despercebido, empalideceu; surpreso, pareceu-me, e, como direi?, admirado, ele fitou Osvaldo, e… Como direi? Ele, contrariado, à revelação de um segredo, que ele nos oculta, dele, e Osvaldo… Ricardo, estupefato, removida a sua máscara…

– Ricardo, que conhece a reputação de Osvaldo – interrompeu-a Katsushiro, abruptamente -, dele jamais esperou tal atitude, pois o admira, afinal, dele ouviu histórias enaltecedoras. E na primeira vez que com ele depara-se, dele ouve ofensas. E testemunha postura, tão irracional, que o surpreende, em uma pessoa de quem sempre lhe disseram tratar-se de uma cornucópia de paciência e ponderação. A frustração e a desilusão, instantâneas, conquanto saiba que Osvaldo está com a mente afetada, ou por uma bactéria, ou por um virus, ou… não sabemos o quê… Ricardo surpreendeu-se com a postura de Osvaldo, daí a sua palidez, a sua contrariedade…

– Não foi essa a impressão que tive – disse Jennifer, áspera, ao mesmo tempo que se levantava para se retirar da sala de conferências. – Fiquei com a impressão de que Ricardo surprendeeu-se, não com a reação violenta, injustificada, de Osvaldo, mas, sim, com as palavras que ele proferiu, com as alcunhas que ele lhe atirou.

Katsushiro observou-a ir até a porta, esquadrinhando-a com olhar penetrante, enviesado, ambíguo.

Os pioneiros – parte 1 de 3

Há seis meses, propus, durante uma tertúlia, na casa da Querosene – a Poliana, assim alcunhada devido ao seu pavio curto e ao seu sangue inflamável –, um tema para contos. Estávamos presentes, eu, Luis Amadeu, Poliana, Renata, Teresa, Gabriel e Rafael. A Poliana é a namorada do Rafael. A Renata é a minha namorada. A Teresa, uma semana antes, rompera o namoro com o Vinicius. O Gabriel havia dois dias brigara com a Adriana (Ele, não me resta dúvidas, compareceu à casa da Poliana porque, imprudente, involuntária e imprevidentemente o Luis Amadeu dissera-lhe que a Teresa iria lá. Qual foi a contribuição do Gabriel à assembléia literária? Nenhuma. Ele se limitou a beber o café-com-leite que a Poliana nos preparou e a degustar biscoitos de nata, bolachas, geléias e pudins, e a ouvir – e dar-se de desentendido – as insinuações, nem sempre sutis, que a Renata lhe lançou na cara).

A tertúlia foi proveitosa. Rafael, criativo, apresentou-nos as suas idéias para novelas de vários gêneros literários que pretendia escrever, leu-nos as anotações que havia feito desde a nossa última reunião (isto é, na reunião à qual ele compareceu, oito meses antes; entre a última participação dele numa tertúlia e a que promovemos no dia em questão, havíamos nos reunido cinco vezes. O Rafael não compareceu a esses cinco encontros devido ao seu trabalho, que lhe exigiu as vinte e quatro horas de cada dia), e as comentou, como, também, um conto que escrevera. Não sei o que ele tem no cérebro, que lhe permite produzir tantas idéias; muitas não são boas, é verdade, mas as que são boas são ótimas, e com elas o Rafael escreve novelas e contos empolgantes; o mesmo digo do Luis Amadeu, que, embora menos prolífico do que o Rafael, escreve histórias mesmerizantes. Ao dar início à leitura de um conto ou de uma novela de sua autoria, não consigo interrompê-la enquanto não a dou por encerrada. Já cheguei atrasado a compromissos por causa de contos e novelas escritas por Rafael e Luis Amadeu. E já ouvi muitos sermões da Renata. É impossível interromper a leitura de uma história escrita por eles. Quem já leu alguma obra deles, sabe do que estou falando, e concorda comigo, é certo.

De todos os que participavam do sarau, Teresa é a única vocacionada à análise crítica e dona de uma memória privilegiada. Ela sabe, puxando, sem esforço aparente, pela memória, o nome de todos os personagens de Guerra e Paz e todos os episódios de Dom Quixote de La Mancha. Contribuiu, para o enriquecimento da assembléia, com as comparações que apresentou de obras clássicas e modernas, e explicou-nos porque aquelas que ela reputava melhores eram as melhores. Confesso: perdi-me em alguns momentos durante os quais ela nos falava, prendendo-nos a atenção. Valiosa, a sua contribuição. Ela não nos deu idéias para contos e novelas, mas extraiu dos que leu a essência, e disse-nos porque todos os amantes da literatura têm de lê-los, se desejam conhecer literatura e escrever boas histórias. Rafael, com as suas dezenas de idéias, contrapôs-se à Teresa. Não é dotado de senso crítico equiparável ao dela. Tem um cérebro fantasioso. Converte a realidade numa fantasia eterna, duradoura, sem compromisso com o verossímil. Ele alheia-se do mundo, e deixa-se envolver pela nuvem da fantasia, que o transporta para outra dimensão, uma dimensão cuja localização raros humanos conhecem. Quanto à minha contribuição, à da Poliana e à da Renata, se não se equiparou à da Teresa, Rafael e Luis Amadeu, não foi inexistente como a do Gabriel.

Após o encerramento da tertúlia, saímos, eu e Luis Amadeu, da casa da Poliana, após nos despedirmos dos outros participantes. Andávamos pela rua São Francisco, quando o Luis Amadeu entregou-me uma pasta, e falou-me do seu teor; não proferiu vinte palavras, um acesso de tosse o dominou. Cessamos os passos. O rosto de Luis Amadeu tingiu-se de vermelho. Deu-me a impressão de que o sangue escapara-lhe dos vasos sanguíneos e, pelos poros, escapara-lhe para a pele, cobrindo-a inteiramente. Pouco depois, recomposto, Luis Amadeu reassumiu a sua aparência original. Durante o seu acesso de tosse e a sua recomposição, fitei a pasta que ele me entregara, em cuja capa havia, numa etiqueta, o título de uma novela: Os Pioneiros. Era mais uma das histórias repletas de criaturas extraordinárias que pululam da mente de Luis Amadeu, pensei comigo. Quantas histórias de sua autoria já li? Perdi a conta. Algumas, amalucadas, com extravagantes personagens pitorescos, que enfrentam criaturas fabulosas, em aventuras inusitadas, eu diria inenarráveis, em cenários extraordinariamente exuberantes, ocuparam o meu tempo por horas a fio, e induziram-me a desconectar a mente da realidade. Absorveram-me inteiramente. E aquele título, Os Pioneiros, fizeram-me evocar cenas de outros livros de autoria de Luis Amadeu. Fantásticas. Cativantes. Envolventes. Perguntei-me: Luis Amadeu, nesta novela, repete temas, cenas e episódios de outras histórias de sua autoria? Não que isso me desagradaria. A narrativa de Luis Amadeu é tão envolvente que leio uma história dele três vezes e acredito ter lido três histórias distintas. É um talento narrativo raro, o dele. Eu iria lhe perguntar o que havia naquela novela, e se ele reciclara idéias de outros livros, mas ele, antes que eu abrisse a boca, refeito do acesso de tosse, num tom pausado, porém animado – no início lentamente, escandindo as palavras e coordenando os pensamentos, depois, com seu tom peculiar, sua voz sonora, seu vocabulário, simultaneamente simples e sofisticado (a sofisticação está na simplicidade e a simplicidade na sofisticação) -, disse-me:

– Os Pioneiros contem relatos de uma expedição humana exploratória para um planeta que, segundo astrofísicos e exobiólogos, conserva semelhanças com a Terra. Baseei-me, para escrevê-los, nas mais recentes descobertas científicas; no entanto, a elas não me prendi. Não aprecio relatos que mais parecem tratados científicos, e não histórias de aventuras. Há escritores que dão relatos, realistas, dizem eles, e, portanto, superiores às aventuras fictícias, fantasiosas, sejam as de terror, as de espionagem, as políticas, as de ficção científica, as de fantasia à Tolkien. Realismo! Não há realismo na ficção. Ficção é ficção. A realidade não pode ser apreendida pelos humanos. Quero dizer: a realidade é apreendida pelos humanos, mas os humanos, ao usarmos de palavras para representá-la, não o fazemos com correção. Não sei se estou me fazendo entender. Corrijo-me… A emenda saiu pior do que o soneto? A argumentação filosófica não é um dos meus talentos. Digo, para me fazer entender: As palavras que empregamos para representar a realidade não são a realidade, são palavras; não representam a realidade, não a retratam. A linguagem humana não a traduz com correção. As palavras são palavras. Os tolos acreditam que as palavras retratam a realidade, reproduzem a realidade, são a realidade. As palavras não reproduzem a realidade, não a retratam, não são a realidade. As palavras são inexatas. Uma pessoa usa certas palavras para traduzir a realidade; outras pessoas usam outras palavras para traduzirem a realidade. Há uma realidade. E infinitas traduções dela. Não há duas pessoas com a mesma concepção do mundo, tampouco duas pessoas podem retratá-lo com as mesmas palavras. Estou me fazendo entender? A objetividade dos relatos, almejada por muitos escritores, é uma quimera, uma obsessão injustificada. Os que empreendem tal esforço despendem energia, que não é renovável. É uma tarefa infrutífera, um exercício infértil, fútil. Não desperdiço nem uma fração infinitesimal da minha inteligência num exercício que, como eu disse, é infrutífero. É impossível reproduzir, com palavras exatas, no papel, os eventos que presencio, pois sei que sou, como todas as pessoas, incapaz de fazê-lo, devido os limites da minha inteligência, que é a de um humano, e não a de um lunático, como muitas pessoas pensam. Não me canso de dizer, para as pessoas que se dispõem a me ouvir: Não há relatos realistas. Saiba que o realismo fantástico é um rótulo, apenas um rótulo, como outro rótulo qualquer, e nada quer dizer, absolutamente nada; é um rótulo sem pé nem cabeça, criado para identificar uma literatura que, dizem os pernósticos, é distinta da de outros continentes, criação singular dos povos sul-americanos. Bobagem! Estupidez sem paralelo na história da civilização! Típico de bárbaros presunçosos! Toda literatura é fantástica, em graus distintos. Difícil é saber qual é a mais fantástica e qual é a menos fantástica. Até agora ninguém me convenceu de que a literatura dita realista é realista, e as outras, não. Há mais realidade na Divina Comédia do que na Comédia Humana! As palavras, como eu disse, são palavras; não nos apresentam um retrato exato da realidade; representam, nunca com exatidão, o que as pessoas que as empregam captaram da realidade, pois tais pessoas as distorcem, involuntariamente, ou não. As palavras não são a realidade; não constróem a realidade. Reproduzem o que as pessoas acreditam ser a realidade. Estou sendo um pouco repetitivo, e, como não me é comum, estendo-me em reflexões filosóficas. Não sei o que a Teresa me faz sempre que com ela converso. Você já percebeu que, sempre que converso com a Teresa, e participo dos saraus nos quais ela participa, fico cheio de filosofias? Parece-me que ela me exerce uma influência, salutar, acredito. Ou não? Vivo com os meus desvarios fantásticos. Extrapolo, reconheço, o bom-senso, não raras vezes. Deixo minha mente espraiar-se por outros mundos, outros universos, outras dimensões. Não pelos mundos conhecidos. Quantos são? Dois mil? Não pelos universos presumidos. Nem pelas dimensões concebidas, nas teorias, pelos cosmólogos e pelos físicos teóricos; mas pelos mundos, universos e dimensões que se encontram, unicamente, na minha mente. As minhas idéias são corpóreas, ou constituem-se de ondas? São compostas de partículas? Preenchem um lugar no espaço? Como o cérebro, órgão físico, concebe coisas imateriais, os pensamentos, os sentimentos e as idéias? Espero não me encontrar com a Teresa nos próximos trinta dias. Não quero rechear as minhas narrativas com intermináveis elucubrações filosóficas. Que prolixidade! Você se lembra do que eu falava? Puxe pela memória, e ajude-me a restabelecer o fio da meada. Eu falava da história, que está nessa pasta, de uma aventura incrível num planeta inóspito. Puxa! A Teresa consegue inspirar o meu lado mal, o pior dos meus instintos racionais. O que ela possui? Qual o talento dela? Como posso definir a influência dos comentários da Teresa na minha mente? O que de meu cérebro a Teresa extraiu? E o que nele ela inseriu? Você acha que, para o meu bem-estar, tenho de me afastar da Teresa? Ela não me é uma boa influência. Ou é? Não sei mais no que estou pensando, e não sei a respeito do que eu falava. Qual era o assunto da nossa conversa? Você lembra qual era? Eu ainda me lembro. Vou tratar do tema de nosso interesse, antes que eu me estenda, com a minha tagarelice, e não me recorde mais do que falo, e retire essa pasta com a minha novela de suas mãos, não me recordando das razões que me levaram a entregá-la para você, e você não me pergunte porque eu a entreguei para você, e eu, com a pasta comigo, vá embora. Como não quero que isso aconteça, e você também não, estou certo, dou por encerradas, definitivamente encerradas, e que isso fique bem claro, estas minhas digressões, que nos afastam do assunto que pretendo tratar com você, e falo do que há nessa pasta. Você leu o título de uma novela que escrevi de três meses para cá: Os Pioneiros. Novela em que se narra uma aventura fantástica num planeta inóspito. Não me pergunte qual é o nome do planeta. Não me faça essa pergunta; se ma fizer, eu nenhuma resposta darei, e por uma razão bem simples, da qual você suspeita, você, um dos meus melhores leitores: Não escrevi o nome do planeta. Empreguei um recurso comum aos escritores que não desejam dar a localização da cidade, ou da região, ou do país: três asteriscos. Usei três asteriscos para identificar o planeta inóspito. Muitos escritores preferem o uso de três pontos após uma letra maiúscula. Qualquer letra. Uma letra e três pontos. O Claudemir emprega esse recurso, principalmente quando ambienta as suas histórias nesta cidade, e concebe personagens tendo como base as pessoas de seu relacionamento, inclusive familiares e amigos, alterando-lhes os nomes. Com tal recurso, ele não engana os leitores que o conhecem. Até eu ele já descreveu, o maldito! E duas vezes, uma no conto Vulgares, dando-me o nome de Celso, um dos coadjuvantes. Celso era… era, não; é; é o meu retrato, não exato, mas fiel, direi. E o outro ‘eu’ que o Claudemir descreveu encontra-se na novela Acessos e Retrocessos, novela herói cômica, assim a classificaria se eu apreciasse classificações; e o Claudemir me fez como um personagem que arquiteta as artimanhas mais extravagantes que se possa imaginar. Vinguei-me dele na novela Desencontros de Duas Almas que se Merecem. Retratei-o, como pude. O Claudemir se reconheceu, disse-me que dele fiz uma caricatura grotesca, e eu lhe agradeci o elogio. Se a caricatura é grotesca, e qual caricatura não o é?, então fui bem-sucedido no meu trabalho. Não foi em vão o meu esforço. Atingi um soco na boca do estômago do Claudemir, e ele me disse para eu me preparar para a revindita. Você leu Desencontros de Duas Almas que se Merecem? Leia-a. Você reconhecerá o Claudemir na caricatura. E leia Vulgares, e Acessos e Retrocessos. Você me reconhecerá no personagem Celso, e, digo agora, no Virgulino. Que nome para um personagem! Eu dizia: O Claudemir emprega a letra maiúscula seguida de três pontos quando não deseja identificar a cidade na qual a história se passa. Muitos escritores russos também empregaram tal recurso nos seus contos, novelas e romances. E eles também empregavam três estrelinhas; quero dizer, três asteriscos. Monteiro Lobato brincou com essa prática. E, dizia eu, na novela, há um planeta… Refiro-me, agora, à minha novela Os Pioneiros. O planeta eu o identifiquei com três asteriscos, e, antes dos três asteriscos, se eu ainda não disse, digo, a letra ‘A’ maiúscula. Pensei em conceber um nome para o planeta. Que nome eu lhe daria? Matutei. Dei-lhe dezenas, centenas, milhares de nomes. Por fim, após fundir a cuca, decidi pelo ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos. E é nesse planeta ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos que a história se passa. O planeta da novela… Novela? Do conto… Conto? A história é extensa para um conto, e tem muitos personagens, e detalhes e relatos que lhe dão uma dimensão que vai além do conto. Não é um conto. É uma novela. Quantos personagens participam da história? Uns quinze. Talvez mais de vinte. Uns trinta. Considerando-se a sua extensão e o número de personagens que se apresentam nas suas mais de cinquenta páginas, Os Pioneiros não é um conto; é uma novela. E eu quero que você a leia. Você será a primeira pessoa que a irá ler. Na verdade, a segunda.  A primeira pessoa que a leu fui eu. Tive esse privilégio. E eu, mesmo que desejasse concedê-lo a você, não poderia fazê-lo. Não se entristeça. Você terá o privilégio de ser a segunda pessoa a lê-la. E, depois de lê-la, me dirá o que achou dela. Depois, a entregarei para a Teresa. Talvez você esteja se perguntando porque não pedi para a Teresa ler Os Pioneiros. Tive as minhas razões. A Teresa iria dissecar a novela à procura de um defeito, um mísero defeito, de uma incoerência, de uma inconsistência, de um mísero erro gramatical, de uma discrepância, de uma deficiência no estilo, no vocabulário, e depois analisaria o tema, procuraria por sua relação com teorias científicas, psicológicas, filosóficas, ideológicas, as quais não tive em mente desenvolver, as quais nem sequer tangenciaram-me a cabeça, tampouco resvalaram-me o cérebro. A Teresa é obcecada por questões teológicas, sociológicas, filosóficas, psicológicas, praxeológicas, sociológicas, o diabo! Não reclamo. As observações da Teresa a respeito de alguns contos que lha apresentei e a respeito dos quais lhe pedi comentários, fizeram com que eu os modificasse, para melhor, os incrementasse com episódios que deixaram a trama mais sólida, e adicionasse personagens, ou excluísse personagens, conforme o caso, simplificando-os. Até mesmo com a adição de personagens e de episódios alguns enredos simplificaram-se porque se tornaram mais claros quando deles eliminei o desnecessário, que só servia para encher lingüiça. E também modifiquei o vocabulário de personagens, as suas expressões, sentenças, e a sua personalidade. A Teresa deu-me a sua contribuição, valiosa, para a redação de contos e novelas, e para um romance que escrevi há um ano: Amizade Eterna. Neste romance, por sugestão da Teresa, além de suprimir capítulos, e adicionar capítulos, suprimir personagens, e adicionar personagens, modifiquei o título, que ficou: Uma História Comum. O romance melhorou, depois de eu o modificar por sugestão da Teresa. Não acolhi todas as sugestões que ela me deu, é óbvio. Algumas não me agradavam. Atendiam ao gosto da Teresa; não ao meu; então, os descartei. Ora, sou o autor do romance; não a Teresa. Não posso escrever um romance, ou um conto, ou uma novela, que a Teresa gostaria de ler; e não eu. Escrevo ao meu gosto; sou escravo do meu gosto. Não rejeito sugestões que me agradam, que contribuem para melhorar as minhas histórias; acolho-as quando me convenço de que melhorarão as minhas idéias originais, mas não posso descaracterizar as minhas obras. Não quero dizer que a Teresa foi intransigente, e quis impor-me as suas idéias. Longe disso. Ela jamais faria isso. Pedi-lhe observações sobre o que escrevi porque ela é uma pessoa dotada de talento distinto do meu. O que ela vê do mundo é muito, mas muito, diferente do que vejo. Somos muito diferentes um do outro. Não sei se existe o pouco diferente e o muito diferente. Há o igual e o diferente. Há pouco igual e muito igual? Há pouco diferente e muito diferente? É absurdo falar assim, não é? Igual é igual. Diferente é diferente. Uma caneta é igual a outra caneta. Elas não são pouco iguais; elas não são muito iguais. Elas são iguais. Um lápis é diferente de outro lápis. Eles não são pouco diferentes. Eles não são muito diferentes. Eles são diferentes. Bastou-me evocar a Teresa, que comecei a filosofar. Depois desse tempo todo, depois de tudo o que falei a respeito de Os Pioneiros, pensei que a influência da Teresa sobre mim havia se dissipado. Enganei-me. A influência persiste. A sua força é imensurável, inexaurível. Persiste em mim. Não sei se isso é bom, ou se é ruim. Agora que já disse porque não pedi para a Teresa ler Os pioneiros, sabe o que farei? Direi que, ao entregar para você a minha obra-prima à qual me dediquei durante três meses, tive em mente pedir comentários sobre as idéias, as cenas de aventuras, se são empolgantes, emocionantes, ou não. Não quero comentários teológicos, filosóficos, e o raio que o parta! Quero saber se o leitor se encantou com as aventuras. Só isso. E isso a Teresa, mesmo que o desejasse, e mesmo que eu lhe pedisse encarecidamente, e lhe suplicasse, não poderia me oferecer. Iria contra a natureza dela. Ela não aprecia histórias fantásticas, ficção científica, fantasia. A fantasia, o gênero fantasia, segundo a Teresa, é fantasiosa demais para o gosto dela. E a ficção científica é muito fictícia, e pouco, ou nada, tem de científico. Quanto a isso, concordo com ela, com ressalvas. Quase não há ciência na ficção científica. Mas as boas histórias do gênero são boas obras de literatura; não são obras de ficção científica. São obras literárias. Não podemos negar valor literário à Fundação, A Guerra das Salamandras, Farenheit 451 e O homem ilustrado. Quatro dos melhores livros que li. Rivalizam-se com os clássicos da literatura. Exagero? Não. Ponho em pé de igualdade Moby Dick e Fundação; O vermelho e o negro e A guerra das salamandras; Viagens de Gulliver e Farenheit 451; A letra escarlate e O Homem ilustrado. As oito obras são importantes, de alto nível. Rivalizam-se. E não posso me esquecer de outro livro de ficção científica, um dos melhores que já li: O homem do castelo alto. Emblemático. Instigante. E Encontro com Rama é uma aventura empolgante. E não menciono outros livros do gênero porque não quero me estender mais do que já me estendi. Eu não me perdoaria se esquecesse de livros ótimos, como muitos que há. Não são poucos, não. E as obras de fantasia não são, também elas, obras de fantasia; são obras literárias. A Odisséia não é uma obra de fantasia? Ela não pode ser classificada no gênero fantasia? O Senhor dos Anéis não é uma odisséia? É uma odisséia. Fundação também é uma odisséia. A odisséia de uma civilização. Pinóquio é uma história de fantasia. A Chave do Tamanho também é uma história de fantasia, ou não? Gargântua e Pantagruel é obra de fantasia. E Dom Casmurro? E Dom Quixote? Não aprecio as classificações. São desnecessárias, e geram debates infindáveis, que a lugar nenhum nos levam, e produzem discriminações. E discordo da Teresa, quando ela diz que os romances são obras literárias, e os outros gêneros literários, não. E quando a Teresa diz romances, ela quer dizer os de cunho social, os realistas, referindo-se a Balzac, Proust, Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Mann, Dickens, Faulkner, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, e cuja classificação recebe a chancela de estudiosos, críticos literários e academias, que arregimentam o maior número de autoridades para fazer prevalecer as suas teses. Esses autores realistas, como a eles se referem os estudiosos, não são melhores do que os escritores de livros de fantasia e de ficção científica. A Teresa deixa-se levar pelos rótulos. Para uma pessoa inteligente, a Teresa é burra às vezes. E concordo com as pessoas que dizem que o termo ficção científica é inadequado. Esse assunto dá muito pano pra manga. Em outra ocasião, conversaremos a respeito. Você, estou certo, entendeu porque não pedi para a Teresa opiniões sobre Os Pioneiros. Entendeu, não entendeu? Ela dissecaria a novela, e me diria para nela eu incluir teses filosóficas, teológicas, psicológicas, sociológicas. Em resumo, ela me diria para rasgar todas essas folhas, ou me diria para jogá-las na lata de lixo, ou, então, para que eu nunca mais as lesse, me diria para queimá-las, para que elas não me inspirem outras idéias similares. Agora, com você, a história é diferente. Você não desmontará a minha novela, que me é muito valiosa, pois nela trabalhei durante três meses. Três meses de trabalho árduo. Perdi noites, que passei em branco. Refiz o texto inúmeras vezes. Quantas vezes o corrigi? Quinhentas vezes. Para dar consistência ao texto, fi-lo e refi-lo, incansavelmente. Quero dizer, cansavelmente. Exauri as minhas energias. E aí está, nas suas mãos, Os Pioneiros. Com você estão as aventuras de uma trupe de criaturas exóticas no planeta que nenhum humano são desejaria conhecer, no qual nenhum humano lúcido desejaria pôr os pés, e que todos, excluídos os insanos e os dotados de temperamentos afins, jamais se disporiam a conhecer, nem embaixo de porrete. Não espere por teorias científicas, descrições minuciosas de fenômenos cosmológicos, tampouco de espaçonaves, máquinas e equipamentos espaciais. Não procure por teorias das cordas, das supercordas, viagens espaço-temporais, travessia de uma galáxia para outra através de um buraco de minhoca. Alguns fenômenos previstos nas teorias cosmológicas estão considerados nessas folhas, mas neles não me detive. Eu os usei como um recurso para o andamento da narrativa, não de modo artificial, para encher lingüiça. Mais uma vez, lanço mão dessa linguagem, que não me agrada, mas que é clara, e serve, como uma luva, para o que tenho em mente. Divirta-se com a novela, e não negligencie a avaliação ponderada do que irá ler. Depois, se necessário, leia-a, novamente; na próxima vez que nos encontrarmos, pois não nos veremos por um bom tempo, porque estou de viagem marcada para o sul, e só regressarei daqui dois meses, se não depois de três meses, você me dirá, assim que eu regressar, o que pensou da novela. Quero uma análise, e quero saber o que você achou das criaturas e dos fenômenos naturais que se manifestam no planeta A***. Se são fantásticas as criaturas, extraordinariamente fantásticas, e se merecem figurar entre os seres fantásticos, fabulosos, as quimeras e os monstros descritos nos poemas épicos gregos, nórdicos, hindus, nas obras egípcias, e entre os da cultura popular que os viajantes e os aventureiros admitiram com eles terem se deparado. Frutos da imaginação! Imaginação fértil! E você me dirá qual foi o impacto da revelação final em você. Quais impressões provocaram em você. Se surpreendeu você, ou não. Se você previu a cena derradeira… Se você a prever, então fui mal-sucedido em meu propósito: prender a atenção do leitor até o momento das revelações, as quais, acredito, são imprevisíveis. A cena derradeira tem de pôr você em suspenso, boquiaberto, estupefato, e de olhos arregalados e de queixo caído. Nas cenas que a antecedem, você terá de suspender a respiração e temer pela sua vida. Se isso não se suceder a você durante a leitura, então, concluirei, fui mal sucedido em meu propósito, e terei de reescrever a novela. Mas não me diga que as revelações surpreenderam você, e você suou frio, e calafrio gelou a sua espinha, apenas para me poupar trabalho. Não faça isso, está bem? Não pense, nem por um segundo, em elogiar a minha obra-prima para me poupar trabalho e para não me desagradar. Assim que nós nos reencontrarmos, você me apresentará a sua avaliação do meu livro, e eu, se suspeitar de você, submeterei você a uma sabatina. Os meus critérios, saiba, são rigorosos, e eu empurrarei você contra a parede, e espremerei você até você me suplicar liberdade. Sou seu amigo, e você é meu amigo; você será sincero comigo; e não me poupará críticas severas, se eu as merecer. Confio em você, e você confia em mim. Sei que você não me faltará com a sinceridade, mas nada me custa salientar este ponto. Despedimo-nos aqui, e eu seguirei o meu rumo, e você o seu, e nossos caminhos se reencontrarão em breve. Boa leitura. Ah! Esquecia-me: Mande abraços meu para seu pai e sua mãe, abraços apertados, apertadíssimos. Tchau. Nos veremos daqui uns dois meses, ou dentro de três meses. Divirta-se com a leitura da minha obra-prima, que será um sucesso estrondoso. Tchau, e até breve.

Luis Amadeu afastou-se, a passos acelerados. Nunca o vi, quando só, a andar num ritmo vagaroso.

Voltei a minha atenção para a pasta. Li a etiqueta com o título da novela. Abri a pasta. Na primeira página, na primeira linha, o título da novela Os Pioneiros. E lá, na calçada, andando, cuidadoso, interrompendo a leitura, li as quatro primeiras páginas das aventuras concebidas por Luis Amadeu. Empolgantes! Acelerei os passos, no desejo de ler, tranquilamente, a novela, na minha casa, onde eu recomeçaria a leitura, desde o título. Encavernar-me-ia, no meu quarto, e não interromperia a leitura. Eu iria ler Os Pioneiros do começo ao fim. Empolgaram-me as primeiras páginas. As outras, eu acreditava, prenderiam a minha atenção. Eu só encerraria a leitura no ponto final derradeiro. A narrativa que li surpreendeu-me sobremaneira. Tal obra merece ser conhecida por todas as pessoas que amam a literatura.

Buraco de minhoca

Do Diário de Daniel.

Texto extraído das páginas 1.212 até 1.234. Datado de 17 de abril de 2007, terça-feira. Início: 8:15. Fim: 9:55.

Estranha a aventura que vivi há dez anos. Não a contei para ninguém. Hoje, decidi registrá-la. O que me sucedeu, naquele dia, passados, já, dez anos, não me sai da cabeça. Foram em vão todos os meus esforços para esquecer aquele dia. Desejo, em vão, apagá-lo da memória. Decidi, incapaz de esquecê-lo, registrá-lo. Relutei em escrever o que me sucedeu. Não sei definir o que se passou comigo. Perguntei-me, não raras vezes, porque eu escreveria o que me aconteceu, naquele dia, se para ninguém eu mostraria o texto. Dir-me-iam louco, eu estava, e estou, certo, todos os que tomassem conhecimento deste texto. Meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meu irmão, todos eles, fitar-me-iam com o canto dos olhos, se tivessem acesso a este relato, e lamentariam a minha insanidade mental. Meu irmão, Aquiles, dotado de imaginação extraordinária – mas as coisas fantásticas, no entendimento dele, restringem-se ao mundo irreal da imaginação, e nenhum contato têm com a realidade que conhecemos – também não me acreditaria. Nenhum deles, repito, tratar-me-ia como um homem de posse das suas faculdades mentais. A minha timidez, que sempre me impediu de dizer tudo o que penso e de narrar as minhas aventuras, não me permitiu atrever-me a contar o que vivi há dez anos. Neste diário encontram-se os meus pensamentos e o relato da minha vida. E conservo-os comigo, e apenas comigo.

O principio da aventura, inusitada, similar ao início de contos fantásticos; no entanto, ao contrário dos contos, cujos enredos brotam do cérebro de pessoas criativas, a minha aventura foi real. Conservo comigo as lembranças do que me sucedeu e trago uma estranha marca, a qual de todos oculto, em meu joelho direito.

Não me recordo do dia da semana em que o evento se deu – sei que ocorreu há dez anos, um dia após eu comemorar o meu vigésimo aniversário, na minha casa, com meus familiares e amigos -, nem quanto tempo durou.

Foi de manhã. Lembro-me que, na noite anterior, exausto, eu me deitara antes das dez horas da noite. Eu trajava apenas um short. Cobria-me um lençol fino, que me protegia dos mosquitos e dos pernilongos que infestavam o quarto. Era uma terça-feira? Ou uma quarta-feira? Ou um domingo? Não sei. Não sei em que dia, naquele ano, caiu o meu aniversário. Este detalhe é irrelevante. Se foi em uma quinta-feira, se em um sábado, se em uma segunda-feira o teor da aventura que vivi será o mesmo. Foi em Junho, estou certo, pois nasci no dia quinze de Junho.

Eu dormia, profundamente, quando, na escuridão do quarto, luz incomodou-me os olhos. Não despertei, de imediato. Recordo-me de, ainda a dormir, sentir luz intensa atingir-me os olhos e calor atingir-me o corpo. Não despertei, estou certo. Não muito tempo depois, outro clarão iluminou o quarto, e eu, semidesperto, entrecerrei as pálpebras, e vi – a minha visão embaciada – diante de mim uma coisa a flutuar sobre a minha cama, próxima de meus pés. A coisa parecia gelatina de morango. Não dei-lhe atenção. Era como se eu ainda dormisse, e aquela gelatina flutuante fosse uma personagem do meu sonho. Com o lençol cobri-me a cabeça. E dormi. Não sei quanto tempo depois, senti algo a puxar-me o lençol; aliás, senti o lençol a deslizar-me por sobre o corpo. Descoberto, nem adormecido, nem acordado, resmunguei, remexi-me na cama, tateei o colchão à procura do lençol, e não o encontrei.

Senti uma corrente de ar frio invadindo o quarto. Tremi de frio. Procurei pelo lençol. Não o encontrando, descerrei as pálpebras, estiquei-me, e apertei o interruptor. Atingiu-me os olhos a luz, obrigando-me a cobri-los com os antebraços. Habituado à luz, descerrei as pálpebras. E qual foi a minha surpresa ao ver, diante de meus olhos, uma coisa esquisita a flutuar, uma massa gelatinosa, brilhante, avermelhada, que irradiava brilho bruxuleante!

– O quê!? – berrei, assustado, arregalados os olhos, escancarada a boca, acelerado o coração, trêmulo o esqueleto, a fitar aquela coisa gelatinosa.

Berrei uma interjeição de espanto, mas não me ouvi. O medo talvez tenha me assustado tanto que por algum motivo não consegui ouvir o meu berro. Em meu inconsciente, ouvi as palavras que berrei; meus ouvidos, todavia, não as ouviram. Articulei as palavras, mas não as proferi. Eu as ouvi, mas não com meus ouvidos; eu as ouvi com meu inconsciente. Minha voz sumira inexplicavelmente. Assustado, pulei da cama, pronto para, em disparada, se necessário, sair, correndo, do meu quarto. Eu não entendia o que me ocorria. De repente, perdi os movimentos de meu corpo. Eu não o sentia. Meu corpo, imobilizado, ficou, contra a minha vontade, de frente para aquela coisa gelatinosa vermelha e brilhante. E comecei a flutuar. Eu não sentia meu corpo. Era como se eu o houvesse perdido. Ouvi uma voz feminina, suave, dentro de minha cabeça. Eu estava nervoso; meu coração batia acelerado.

– Daniel – dizia-me a voz -, não tenhas medo de mim. Não te prejudicarei.

Eu olhava, ainda assustado, mas não tanto quanto quando eu me deparara, pela primeira vez, com aquela coisa gelatinosa vermelha a flutuar diante de mim.

– Daniel – disse-me a gelatina flutuante (criatura desprovida de boca, nariz, de todos os órgãos que compõem um corpo) dentro de meu cérebro -, eu vim de um planeta distante, localizado em um sistema estelar longínquo – prosseguiu, após uma curta pausa -, situado em uma galáxia que os humanos desconhecem, e na qual há seres inteligentes mais evoluídos do que os humanos. Tal galáxia dista dois bilhões de anos-luz da Via-Láctea. Os humanos só a visitarão daqui doze mil e duzentos anos, quando desenvolverão tecnologia que lhes permitirá viajar através do tempo e teletransportarem-se através do espaço. Sei o que digo, pois viajo através do tempo por meio de um fenômeno que os humanos denominam Buraco de Minhoca, o mais comum meio de transporte empregado pela minha espécie. Empregamo-lo há muito tempo, no passado e no futuro. Descobri-mo-lo como controlá-lo, em um tempo que ainda não chegou para os humanos, e nunca chegará, um tempo que não está no futuro, nem no passado, nem no presente. Está em um instante; instante que não se localiza no passado, nem no presente, tampouco no futuro. Vim de uma galáxia na qual são inaplicáveis todas as leis da física que os humanos conceberam. Encarregaram-me os governantes do meu planeta de contatar um humano e para ele mostrar o que podemos fazer, e provar-lhe, de modo incontestável, que os humanos não são os únicos seres inteligentes no universo, muito menos os mais inteligentes. Os humanos desconhecem bilhões de universos, que compõem aglomerações de universos, que compreendem megauniversos, cuja concepção os seres dotados de inteligência inferior não podem compreender. Escolhi-te para transmitir-te o conhecimento do meu povo. Nenhum motivo especial eu tive para escolher-te. Detive-me no teu quarto, te vi a dormir, e decidi apresentar-te o meu mundo, os outros planetas do sistema estelar ao qual meu mundo pertence, e outras galáxias. O meu objetivo: mostrar-te que os humanos não são os únicos seres inteligentes do universo, e nem os mais inteligentes. Depois, tu difundirás, na Terra, para todos os humanos, os conhecimentos que te transmitirei, e todos os humanos conhecerão o que há no universo, e tomarão conhecimento da nossa existência e da existência de muitas outras espécies de seres inteligentes que vivem em outros planetas, em outras galáxias, em outros universos.

A criatura gelatinosa tentava traduzir para a linguagem humana as idéias que desejava me transmitir. As palavras dela não são as que escrevi; o teor do que ela me disse, no entanto, é, acho, o que registrei. Sou o mais fiel possível ao conteúdo do que ela me disse. Dez anos separam-me daquele dia; não posso me recordar de todas as palavras que a criatura gelatinosa disse-me.

Não sei como definir aquela criatura, a não ser chamando-a de criatura. Uma criatura estranha, uma criatura esquisita. Não sei a qual espécie ela pertence, e em qual galáxia situa-se o planeta no qual ela vive. Tais informações ela não mas passou; se mas passou, delas não me recordo. Talvez ela tenha me dito de qual galáxia ela é originária, mas eu, dominado pelo medo, mal lhe ouvi o relato da viagem que ela empreendera até à Terra dentro de um túnel espaço-tempo e sob influência de outros fenômenos que apenas Einstein, John Wheeler, Chandrasekhar, Roger Penrose, Alexander Starobinsky, Friedmann, Niels Bohr, e outros cientistas da mesma estirpe seriam capazes de entender.

Pouco pude entender do que a criatura disse-me. Aquela criatura estranha, a criatura mais estranha que já vi, mais estranha do que ornitorrinco, do que equidna e do que os animais que habitam os abismos dos oceanos, disse-me que não estava no tempo que eu percebia, ou algo assim; que não estava, nem no presente, nem no passado, nem no futuro. Ela simplesmente estava. Foi isso o que entendi do que ela me disse. Ela também me disse que o universo não foi criado, porque sempre esteve. Não disse que sempre existiu; disse-me que o universo sempre esteve. Não entendi o que ela quis me dizer, e não quero saber o que ela quis dizer-me, e não pensarei mais nisso. Não queimarei meus neurônios. Restam-me poucos, depois de tantos anos a queimá-los em trabalhos árduos e infrutíferos, e não quero desperdiçá-los com mistérios que não posso desvendar.

Encerro a minha tentativa de relatar o que a criatura disse-me, não sei em quanto tempo, pois de tudo o que ela me disse de quase nada me recordo – e nada compreendi do que ela me relatou durante horas (Horas? Posso mensurar, em horas, o tempo quando o tempo sofria não sei quais efeitos com a presença da criatura?).

Não me esforçarei para recapitular o que se passou, no meu quarto, e tampouco pretenderei – pois sei que é-me impossível – reconstituir o discurso da criatura. Não entendi patavinas do que ela me disse; se a minha memória não me engana, ela demorou para perceber que eu não a entendia; para infelicidade dela, ela não entabulou conversa com um indivíduo humano mais inteligente do que eu e com conhecimento em cosmologia; com a sua inteligência inigualável, ela não teve paciência para examinar os humanos e selecionar um que fosse dotado de intelecto vigoroso, e, ousado, não temesse inteirar o mundo de sua história. Se tivesse paciência – o tempo inexiste para ela, segundo entendi -, ela selecionaria um indivíduo humano intelectualmente bem dotado e para ele transmitiria as suas idéias – suspeito que tal humano, tanto quanto eu, intimidar-se-ia com toda a história, recusar-se-ia a contar para outras pessoas o que lhe ocorreu, e conservaria consigo a história, como eu o fiz.

Ao notar que eu não a compreendia, ela disse-me dentro da minha mente:

– Tu, com a tua inteligência inferior – o seu tom de voz, arrogante -, não entendes o que te digo. Creio que nenhum individuo humano é capaz de entender-me – inspirou-me a mente a vontade de encaixar-lhe um soco no nariz. Ela leu-me a mente. – Não te desesperes. Não te enerves. Não dominarei os humanos. Se a minha espécie desejasse dominar-lhe, vós não poderias impor-nos resistência. Não vos dominarei. Estou, neste planeta, para apresentar para um individuo humano os conhecimentos e a tecnologia da minha espécie e o universo. Prepara-te para a viagem.

– Viagem? – perguntei, sem articular a palavra.

– Sim – respondeu-me a criatura. – Viajaremos através de um Buraco de Minhoca.

Expressei confusão de pensamentos. A criatura replicou. Encetamos discussão, eu, nervoso e enfezado, ela, calma e serena. Enfim, ela fez sair de dentro de seu corpo um aparelho menor do que meu polegar, e disse-me que era o controlador do Buraco de Minhoca. O aparelho emitiu um brilho alaranjado, e diante de mim apareceu um círculo. Olhei para o seu interior, que não tinha dimensões, e arregalei meus olhos, assustado.

– O que é isso? – perguntei, tolamente.

– O Buraco de Minhoca.

– Aonde tu me levarás?

– Tu verás – respondeu-me a gelatina flutuante. Tive a impressão de haver visto sorriso escarninho em seu rosto (a criatura é desprovida de rosto).

Em pé, flutuei até o Buraco de Minhoca, que se alargou para que eu nele entrasse, e a criatura posicionou-se à minha direita.

Não sei descrever o que senti quando meu corpo foi puxado para dentro do túnel sem fim. Eu, parecia-me, não me mexia. Mas eu me mexia. Não muito tempo depois (é incômodo falar em tempo, neste caso), me vi diante de uma esfera chamejante. A criatura disse-me tratar-se da Terra em formação. Um espetáculo fabuloso. Vi a Terra a formar-se em ritmo acelerado. Vi dinossauros a caminharem pelos continentes. Vi asteróides atingirem a Terra. E os dinossauros foram dizimados. Diante de meus olhos sucederam-se, num ritmo alucinante, as eras glaciais, erupções vulcânicas, o surgimento da civilização, a construção de grandes cidades. Reconheci os jardins suspensos da Babilônia, as pirâmides do Egito, Macchu Picchu, o Colosso de Rodes, o Farol de Alexandria, a Grande Muralha, o Taj Mahal, o templo de Angkor Vat, e muitas outras maravilhas que os humanos construímos. A história humana desenrolou-se diante de meus olhos. Vi as ruínas de todas as grandes construções. Vi os humanos a esfacelarem-se em guerras sangrentas. Chegamos ao tempo presente: o ano de mil, novecentos e noventa e sete. Não se encerrou a viagem através do tempo. Vi o futuro dos humanos. As viagens espaciais. A construção de colônias humanas na Lua, em Marte, em Titã. As viagens interestelares. A espécie humana a modificar-se diante de meus olhos. Transcorreram-se séculos, milênios, dezenas de milênios. E a espécie humana a transformar-se. Os humanos converteram-se em seres irreconhecíveis. Vi, fascinado, a espécie humana a transformar-se. Se a criatura não me dissesse que aquelas criaturas que eu tinha diante de meus olhos eram humanas, melhor, seres que evoluíram do homo sapiens, eu não saberia que se tratavam de seres nos quais nossos descendentes se transformariam, num futuro distante; para a criatura, disse-me ela, tudo aquilo já havia acontecido. E vi Sol a expandir-se, e a engolir Mercúrio, Vênus e a Terra. E o Sol explodiu. E fez-se as trevas.

Após a viagem através do tempo, na Terra, a acompanhar o progresso da civilização até o seu desaparecimento, que se deu com a transformação da espécie humana em outra espécie, que vivia, além da Terra, em outros planetas acolhedores de outros sistemas estelares, a criatura disse-me que iríamos para a galáxia em que se situa o planeta em que ela vive.

Eu era incapaz de compreender tudo o que vi. A criatura e eu rumamos para planetas nos quais viviam criaturas estranhíssimas, que fundaram civilizações detentoras de tecnologia inigualável.

Detivemo-nos em um planeta em que os indivíduos, como a criatura, comunicavam-se por intermédio da mente, ou de um órgão similar. Eram criaturas de mais de cinco metros de altura, dotadas de três pernas, seis braços, cinco olhos, e desprovidas de boca e de ouvidos. Procriavam-se com o pensamento. Quando uma criatura desejava conceber um descendente, pensava na concepção, e o descendente brotava de um de seus pés e, pouco tempo depois, caminhava, e atingia o tamanho de um indivíduo adulto da sua espécie sem que tivesse ingerido alimento. Possuíam extraordinário vigor intelectual. O planeta que habitavam, mil vezes maior do que a Terra, estava coberto de cidades grandiosas. Quase nada entendi do que eles faziam; os seus gestos e a sua tecnologia estavam longe da minha compreensão.

Daquele planeta rumamos para outro planeta, habitado por estranhas criaturas inteligentes de cultura avançadíssima (não sei se o que vi se passou no tempo presente, isto é, no ano terrestre de mil, novecentos e noventa e sete, ou se a dezenas de milhões de anos no futuro, ou no passado).

Criaturas estranhas e inconcebíveis pela imaginação humana, dotadas de alto grau de conhecimento tecnológico, dominavam alguns fenômenos universais e tinham amplo conhecimento das forças que atuam no universo; construíam naves espaciais que viajavam através do tempo e através do espaço.

A criatura falava-me do que me mostrava, dos planetas, das espécies de criaturas que viviam em cada um deles, das maravilhas que me apresentava – e quase nada me lembro do que ela me disse -, e quase nada entendi, pois, na linguagem humana não há vocábulos para defini-las.

Visitei o planeta da criatura gelatinosa. Era o planeta maior do que a Terra. Presumo, é-me impossível afirmar, que é do tamanho de Júpiter. Centenas de bilhões de criaturas gelatinosas avermelhadas flutuavam no céu do planeta. Entramos em uma construção, na qual havia, instalada, uma máquina de seiscentos metros de altura e que se estendia até o infinito. A criatura disse-me que era uma máquina que criaria um Buraco de Minhoca gigantesco, pelo qual o planeta viajaria através do espaço e através do tempo. Em vão, tentei conceber o que ela me disse.

Durante a viagem, cai, e resvalei meu joelho direito em uma substância segregada por uma criatura. Em meu joelho direito ferido apareceu uma estranha marca, e trago-a comigo, marca que ora emite brilho avermelhado, ora brilho multicolorido, ora abre-se, e em seu interior vejo as galáxias, como se me descortinassem os portões do universo – talvez a existência da marca em meu joelho direito explique porque pude esconder, a partir daquele momento, da criatura gelatinosa os meus pensamentos.

A criatura guiou-me pelo seu planeta, e apresentou-me todos os seus aspectos. Depois de eu haver ganhado, se posso assim dizer, a marca em meu joelho direito, passei, não a entender o que a criatura explicava-me, mas a ver tudo sem a confusão inicial. Se meu consciente não entendia todos os fenômenos dos quais a criatura dava-me explicações minuciosas, meu inconsciente apreendia-os; todavia, não posso explicá-los com a linguagem humana; consigo entendê-los apenas com a linguagem da espécie da criatura gelatinosa flutuante.

As aventuras posteriores foram interessantes, mais interessantes, até, do que as primeiras, pois eu pude, como eu já disse, apreender os fenômenos à medida que eu me familiarizava com a linguagem da criatura gelatinosa. Pude, até, entender o diálogo dela com outros indivíduos da sua espécie. Os humanos do meu tempo estão muito distantes, no que diz respeito à inteligência, daquelas estranhas criaturas; e apenas daqui dezenas de milhares de anos a elas se igualarão, e poderão compreender os mais fantásticos fenômenos do universo.

A criatura não sabia que eu podia entendê-la, e tampouco sabia que eu podia compreender os fenômenos universais que ela e os da sua espécie compreendiam e controlavam. As criaturas gelatinosas falavam de todas as suas tecnologias, fabulosas tecnologias. Controlam forças muito mais poderosas do que as que os humanos controlamos. Forças inconcebíveis para a nossa minúscula capacidade cerebral.

Mal controlo o que escrevo. Descarrego, na minha agenda, todas as palavras que me vem à mente. Mesmo que eu tenha adquirido uma parcela da inteligência das criaturas, eu ainda penso, na Terra, como humano.

Enfim, sem aviso, a criatura gelatinosa encerrou a jornada através do tempo e através do espaço, e devolveu-me à Terra, em uma manhã, ao meu quarto, cuja janela estava fechada, e pelas suas frestas réstias de luz o invadiam, e despediu-se de mim com palavras amigáveis, nas quais não li nem vaidade, nem desejos similares aos dos humanos. Retirei-me do quarto. Em casa, todos dormiam. Não me dei ao trabalho de olhar para um relógio, e verificar as horas. Também não olhei para o calendário na porta do meu guarda-roupa.

Fim do texto extraído do Diário de Daniel

*

Chamo-me Aquiles. Sou irmão do Daniel. O texto acima foi publicado, originalmente, pela Editora E***r** B*a***i. Hoje é o dia 21 de dezembro de 2028, quinta-feira, dez anos após a morte de meu irmão. Este conto fantástico eu o encontrei em meio a vários rascunhos de aventuras fantásticas que meu irmão adorava escrever. Publicado o conto há seis anos, meu irmão recebeu, postumamente, mais de vinte prêmios literários. Vertido para o cinema, o filme conquistou grande público em vários países. Lendo-se o texto tem-se a impressão de que Daniel viveu a aventura narrada no conto, mas ela é, unicamente, fruto da sua poderosa imaginação. Meu irmão fascina-me. Não consigo entendê-lo. Como ele podia tomar como verdadeiras as estórias que brotavam da sua criatividade prodigiosa?

*

Ano: 2097. 03 de março. Domingo. 5:15 da manhã. Meu irmão morreu há trinta e quatro anos, sete meses e oito dias. Infelizmente, a sua incredulidade impediu-o de tomar como verdadeira a história, que ele toma como estória, que extraiu do meu diário. Leu-a – e a todas as outras – apenas como uma aventura fantástica criada pela minha imaginação.

A criatura, se regressasse à Terra para conhecer o que fiz, isto é, o que não fiz, porque para ninguém contei a minha experiência, saberia que os humanos nada sabem da sua passagem pela Terra, e frustrar-se-ia, porque, primeiro, guardei comigo a história da minha aventura durante dez anos, até registrá-la no meu diário; depois, ao vir ao conhecimento do público, por intermédio de meu irmão, transformou-se a história em um sucesso literário, depois cinematográfico – e não é nada mais do que uma aventura de ficção científica como milhões de outras; e atualmente dela ninguém mais se lembra.

O maior prêmio que recebi, que não dividi com ninguém, foi o aparelho que me permite viajar através do tempo e através do espaço, e que controla o fenômeno universal chamado Buraco de Minhoca. Estou fazendo bom uso dele. Furtei-o, sorrateiro, do interior de um aparelho, quando as criaturas gelatinosas, desatentas, conversavam. As criaturas, desprovidas de mãos, não conhecem o talento humano para a prática do furto. Para a minha felicidade, pude ocultar os meus pensamentos da criatura gelatinosa que me guiava através do tempo e através do espaço, talento que desenvolvi durante a viagem, e que decorria da marca que trago comigo em meu joelho direito. De todos a ocultei. Ela me permitiu – depois do meu regresso à Terra – realizar aventuras inimagináveis pelos confins do universo e de outros universos e dialogar com outras criaturas inteligentes, muitas delas mais inteligentes do que os seres humanos. Ela faz parte de meu corpo, como o fazem minha cabeça, meus braços, minhas pernas, e todas as minhas outras partes.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 8 de 8

Capítulo 8

A luta do século

Round 4

Nocaute

Tatu-Bola sugou a energia do solo, das plantas e das árvores, que definhavam. Tinha Tatu-Bola o dobro das suas dimensões originais.

E em pé Tatu-Bola acenou para Taco de Baseball.

Durante esse meio tempo, Massa Bruta tentou desvencilhar-se dos tentáculos que, presos aos pés dele, o mantinham sobre a plataforma flutuante. Urrava de raiva. Ameaçava os seus oponentes:

– Matarei vocês, vermes! Sou Massa Bruta, o Conquistador! Reduzirei vocês a pó! Sou Massa Bruta, o Esmagador!

Seus berros percorreram toda a cidade de São Paulo. Chegaram aos ouvidos de milhões de pessoas. Pareceu a muita gente que Massa Bruta estava anunciando o apocalipse.

Com a sua força descomunal, Massa Bruta arrancou de si alguns tentáculos, e arremessou-os longe. Os tentáculos arremessados por ele, contorcendo-se, regressaram ao planador, do qual destacaram-se outros tentáculos, que se enrodilharam aos pés e às pernas de Massa Bruta, impedindo-o de livrar-se do planador. E exacerbava-se a fúria de Massa Bruta, que usou de todas as suas forças para desvencilhar-se dos tentáculos.

Taco de Baseball segurou o taco de baseball com as duas mãos, e para ele transferiu toda a energia da armadura. Alterou-se a aparência do taco de baseball, cujas dimensões ampliaram-se, e cujo formato, modificando-se, adquiriu o de placa, e encompridou-se, conservados o formato e as dimensões originais da empunhadura.

E o taco de baseball cintilou. Emitiu brilho azul-dourado.

Do chão, Tatu-Bola, com prodigiosa força dos músculos das pernas, saltou, para um ponto entre Taco de Baseball e Massa Bruta. Do prédio, Taco de Baseball, o taco em punho, saltou. Os movimentos dos dois heróis, sincronizados.

Massa Bruta não tomou conhecimento dos movimentos dos seus oponentes.

Assim que se aproximou de Tatu-Bola, que se convertera em uma imensa esfera acobreada, Taco de Baseball golpeou-o com o taco de baseball, com força imensurável, provocando uma onda de energia, que destruiu tudo num raio de cem metros. E Taco de Baseball foi arremessado para trás, contra um prédio, e Tatu-Bola rumou, em direção a Massa Bruta, que contraiu os músculos da face e tentou desvencilhar-se dos tentáculos que o prendiam ao planador a mais de cinquenta metros de altura. Tatu-Bola cobriu a distância do ponto em que Taco de Baseball golpeou-o até Massa Bruta em uma fração de um segundo. A colisão dele contra Massa Bruta produziu uma onda de energia devastadora, que abriu uma cratera no chão abaixo deles e reduziu prédios a estilhaços. E ergueu-se nuvem de pó e detritos. Prédios, em toda a cidade de São Paulo, vibraram com tremores; alguns foram seriamente danificados. Dissipada a nuvem, pôde-se ver, elevando-se no céu, o planador azul prateado indo em direção ao prédio em que se encontrava Taco de Baseball. Sobre o planador, um corpo disforme, de homem, estirado de barriga para baixo, braços e pernas manietados. Era Massa Bruta, cujas dimensões haviam se reduzido à metade. Estava desacordado; conservava o seu aspecto grotesco. De sob os destroços emergiu Tatu-Bola, reconstituído às suas dimensões originais. E Taco de Baseball subiu ao planador, averiguou o estado de Massa Bruta, e rumou até Tatu-Bola. Uma saliência em forma de argola destacou-se da face inferior do planador, conservando-se nele presa. E Tatu-Bola pulou, e segurou-a. E elevou-se no céu o planador, em cuja face superior estavam Tatu-Bola, Taco de Baseball e Massa Bruta. À altura de três mil metros, desapareceram o planador e os seus passageiros num clarão enceguecedor.

E muitas pessoas aventaram hipóteses para explicar o ocorrido:

– Eles entraram em uma dobra espacial.

– Eles viajaram, através do tempo, para o futuro.

– Eles teletransportaram-se.

– Teletransportaram-se para outra dimensão.

– Eles se invisibilizaram, e rumaram para algum lugar de São Paulo.

E perguntavam, em todo o mundo:

– Quem são aquelas três criaturas?

– Quem é Tatu-Bola?

– Quem é Taco de Baseball?

– Quem é Massa Bruta?

– Por que Massa Bruta queria destruir a cidade de São Paulo?

*

Os bombeiros contiveram as chamas que crepitavam em vários pontos da cidade de São Paulo.

A polícia, com o apoio irrestrito da população, reconquistou os bairros horas antes conquistados pelos criminosos.

Os serviços de demolição e limpeza principiaram a limpar as ruas devastadas durante o embate entre Tatu-Bola, Taco de Baseball e Massa Bruta. Removeram entulhos, ferros retorcidos, veículos carbonizados. A reconstrução das áreas mais afetadas estender-se-ia por meses. E muitos corpos foram encaminhados às salas de autópsias, e aos necrotérios, e aos velórios, e aos cemitérios. E os feridos, milhares, receberam os cuidados médicos, alguns recompuseram-se, outros, às portas da morte, foram internados em UTIs.

*

No prédio da emissora de televisão C* conferenciavam Carlos Roberto, o editor, e Larissa, Carla e Rodolfo quando adentraram à sala Olavo e Paulo, ambos esbaforidos, e olhares indagadores convergiram para eles.

– Onde vocês se meteram? – perguntou-lhes, disparando-lhes a pergunta, Carlos Roberto. – Que diabos! Onde vocês estavam?

– Fomos registrar, no hospital J*, o atendimento aos feridos, e na rua D* e B*, o pandemônio.

– Muito conveniente o desaparecimento de vocês – observou Rodolfo. – Vocês desapareceram logo após o aparecimento do Massa Bruta.

– E daí? – perguntou Olavo, intrigado.

– Aonde você quer chegar? – indagou Paulo.

– Qual de vocês é o Taco de Baseball e qual de vocês é o Tatu-Bola? – perguntou-lhes, sério, Rodolfo.

– O quê? – perguntaram Olavo e Paulo, simultaneamente.

– Muito suspeito sumiço de vocês dois – comentou Carla.

– Vocês lêem muito gibi em quadrinhos de super-heróis – comentou Olavo. – Só porque não estávamos onde os heróis estavam, somos eles? Que ridículo.

– O Olavo tem razão – secundou-o Paulo. – O que vocês disseram é ridículo.

*

No Corpo de bombeiros, chegaram Paulo Cearense e Ricardo, e para eles muitos olhares reprovadores convergiram. Paulo Cearense e Ricardo justificaram a ausência, e relataram o que lhes sucedeu durante o dia.

*

Na delegacia de polícia, na sala de reuniões, os policiais Vasconcelos e Duarte justificaram a ausência, disseram ao capitão Mascarenhas porque haviam se retirado sem avisá-lo; na turbamulta reinante, decidiram atender a chamados de socorro. Todas as suas explicações foram acolhidas.

*

Perguntaram-se, neste dia e nos dias que se seguiram, pessoas em todo o mundo:

– Quem é o Tatu-Bola?

– Quem é o Taco de Baseball?

*

E a cidade de São Paulo retornou à normalidade… à normalidade da cidade de São Paulo.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 7 de 8

Capítulo 7

A luta do século

Round 3

Crepitavam chamas, em vários pontos da cidade de São Paulo, nas imediações do embate entre Massa Bruta, Taco de Baseball e Tatu-Bola. Todos os prédios estavam em ruínas, alguns reduzidos aos alicerces. Explosões subterrâneas produziram tremores num raio de dois quilômetros. Pedras e metais retorcidos sibilavam em todas as direções. O chão vibrava a curtos intervalos. Rachaduras abriam-se no asfalto, nas calçadas, nas estruturas dos prédios. Vidros estilhaçavam-se. Pedaços dos prédios desprendiam-se da estrutura, e caíam. Era o caos. Bombeiros desdobraram-se para apagar todos os focos de incêndio. O trabalho, árduo, perigoso, arriscado, exigia-lhes perícia no manejo de todos os instrumentos empregados na tarefa. Dois bombeiros morreram esmagados por um bloco de concreto.

Dominou a cidade de São Paulo o pandemônio.

Multiplicaram-se os assaltos, os assassinatos, os estupros.

Policiais morreram em confronto com os criminosos.

A população reagiu para conter o avanço dos criminosos. E os criminosos abandonaram muitos bairros após confrontarem-se com pessoas preparadas para reagir a eles, e em muitos a eles as pessoas antecipavam-se. Muitas pessoas, de vigília, à vista de qualquer pessoa cujo comportamento levantava suspeitas, davam o alarme, e muita gente agia, obrigando o suspeito, se mal-intencionado, a desistir de seus intentos, ou o imobilizavam, ou o tiravam de ação com golpes de tacos de baseball, ripas de madeira, ou com um ou mais tiros. Vários criminosos foram mortos no confronto com os cidadãos de bem. E as ambulâncias percorriam a cidade para atender os feridos, que se multiplicavam numa velocidade estonteante. Hospitais e pronto-socorros entraram em colapso. Se a situação prosseguisse, toda a rede de atendimento médico-hospitalar, saturado, incapaz de atender todos os feridos, implodiria.

*

Massa Bruta, recomposto, deu sequência à sua ação destrutiva, arremessando carros e ônibus em todas as direções. E veículos zuniam, pelo céu da cidade de São Paulo, por sobre os prédios mais altos, e caíam a quilômetros de distância do ponto do qual Massa Bruta os arremessava, amplificando o caos. Milhões de pessoas alvoroçadas, fitando o céu, olhos seguindo os veículos em sua trajetória rumo ao solo, para evitá-los, corriam de um lado para o outro à procura de refúgio, certos de que não havia nem um lugar seguro em todo o território da cidade de São Paulo.

Tatu-Bola e Taco de Baseball, em assembléia, compartilharam de informações acerca do que ocorreu nos minutos anteriores. E foi Taco de Baseball quem deu uma notícia alvissareira, esperançoso de que poderiam ele e Tatu-Bola tirarem Massa Bruta de ação.

– Sei qual é o ponto fraco do nosso oponente – declarou Taco de Baseball. – Assim que você ergueu-o, no ar, com os pés, arremessando-o para o alto, fui em direção a ele, e o golpeei. Os computadores da minha armadura empreenderam uma leitura minuciosa do corpo dele, da estrutura energética dele. Surpreendido com o que eles nele detectaram, fui em direção a ele, e o golpeei ao mesmo tempo em que ele me golpeou.

– O que no Massa Bruta a sua armadura detectou?

– A redução do espectro energético. Distante do solo, Massa Bruta exibia uma composição energética menor do que a que ele possui quando está com os pés no solo. Esta é a leitura que os computadores da minha armadura fizeram do corpo do nosso oponente, impelindo-me a atacá-lo antes de ele recuperar, se regressasse ao solo, a energia perdida. Como pude mantê-lo, no ar, durante pouco tempo, e ele ainda conservava muito da sua energia original, não pude sobrepujá-lo.

– Então, temos de tirá-lo do solo, do solo mantê-lo afastado durante um bom tempo, e atacá-lo com toda a nossa força.

– Sim.

– E como faremos isso?

– Teremos de coordenar os nossos movimentos, Tatu, e empregarmos, em um golpe, toda a nossa energia, para impedi-lo de nos rechaçar.

E conferenciaram Tatu-Bola e Taco de Baseball.

*

– Para onde eles foram? – perguntou Larissa para Rodolfo e Carla, referindo-se a Taco de Baseball e Tatu-Bola. Esquadrinhou os arredores à procura deles. A curtos intervalos de tempo, um fragmento de calçada, ou um carro a crepitar em chamas, passava sibilando a poucos metros dela, de Carla e de Rodolfo. Enquanto eles conjeturavam qual era o paradeiro de Tatu-Bola e Taco de Baseball, na cidade de São Paulo o caos instalava-se, e policiais e criminosos confrontavam-se, e os criminosos não os sobrepujaram devido à atitude denodada de muitas pessoas.

De alguns bairros da cidade de São Paulo a população expulsou os criminosos; em outros, todavia, os criminosos criaram um governo autônomo e impuseram a sua lei.

Enquanto bombeiros continham as chamas que crepitavam em vários bairros da cidade de São Paulo; enquanto enfermeiros e paramédicos socorriam pessoas a arquejarem, a estertorarem, muitas exânimes, muitas em vias de exalar o derradeiro suspiro, e continham pessoas apavoradas, o corpo repleto de ferimentos; enquanto policiais arriscavam a própria vida nos confrontos com criminosos em locais semeados de cadáveres, Massa Bruta prosseguia, com a sua ação devastadora, assolando a cidade de São Paulo e causando pânico em todas as pessoas que assistiam aos eventos e perguntavam-se se Taco de Baseball e Tatu-Bola sobrepujariam Massa Bruta e tirá-lo-iam de circulação antes que ele conseguisse reduzir a cidade de São Paulo a escombros e devastasse as cidades vizinhas. E perguntavam-se, também, se havia outras criaturas similares a ele preparando-se para atacar Londres, Nova York, Buenos Aires, Cidade do México, Tóquio, Lisboa, Paris, Berlim, enfim, todas as cidades do planeta.

Minutos depois, Taco de Baseball, voando, e Tatu-Bola, correndo, ambos em direção a Massa Bruta, esquivando-se dos veículos, fragmentos do asfalto e paralelepípedos que ele lhes atirava, dele aproximavam-se.

Ao vê-los, a população renovou sua esperança.

Um carro em chamas atingiu Tatu-Bola, que, uma fração de segundo antes do impacto, convertera-se em esfera acobreada, e, ato contínuo, ileso, retomou a sua forma original, no momento que Massa Bruta arremessou uma árvore contra Taco de Baseball, que a pulverizou com um raio energético silencioso e em seguida arremessou o taco de baseball contra Massa Bruta – e o taco de baseball, a menos de cinco metros dele, além do alcance de suas mãos, disparou-lhe, nos olhos, raios de luz, enceguecendo-o, obrigando-o a cerrar as pálpebras e a cobrir os olhos com o braço esquerdo. Sem poder ver o que se passava ao seu redor, Massa Bruta, para golpear o taco de baseball, que lhe feria os olhos, disparou socos a esmo, e não o acertando, berrou obscenidades e praguejou. Sem que Massa Bruta percebesse, dele aproximaram-se Tatu-Bola e o planador de Taco de Baseball – segundos antes Taco de Baseball descera sobre um prédio. O planador afinou-se, alargou-se, assumiu formato de uma placa triangular de dez metros de cada lado, e principiou a penetrar-se, como lâmina afiada, no asfalto, sob os pés de Massa Bruta, ao mesmo tempo em que tentáculos do planador destacavam-se e enrolavam-se nas pernas de Massa Bruta. Massa Bruta, de imediato, agarrou um dos tentáculos, e o puxou, arrebentando-o. Outros tentáculos brotaram do planador, e enrolaram-se nas pernas de Massa Bruta. Massa Bruta preparou-se para um salto, mas impediu-o Tatu-Bola, que lhe pulou em cima, cobrindo-lhe, com seu corpo, toda a cabeça, como se nele aderisse, e fincou-lhe, nos ombros, nas costas e no tórax, as unhas dos dedos dos pés e as dos das mãos. E Massa Bruta berrou, mais de raiva do que de dor, e tentou arrancar Tatu-Bola de sobre si. O planador extraiu do asfalto um pedaço, que estava sob os pés de Massa Bruta, e elevou-se, no céu, carregando Massa Bruta e Tatu-Bola, este sobre àquele, e aquele tentando arrancar este de sobre si. Assim que o planador atingiu a altura de oitenta metros, um tentáculo tocou a carapaça de Tatu-Bola, que se desgrudou, de imediato, de Massa Bruta, lançou-se no espaço vazio, atingiu, segundos depois, o solo, correu até uma praça, deitou-se sobre o gramado, de barriga para baixo, as pernas e os braços abertos. E a grama e as árvores do jardim definhavam a olhos vistos, enquanto ampliavam-se as dimensões de Tatu-Bola.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 6 de 8

Capítulo 6

A luta do século

Round 2

Na rua M*, quatro criminosos invadiram uma lanchonete e assaltam os fregueses. Nesta rua, como em muitas outras ruas da cidade de São Paulo, criminosos aproveitaram-se da confusão e do medo decorrentes da ação de Massa Bruta e invadiram residências, prédios, agências bancárias, lojas de eletroeletrônicos, lojas de roupas, de móveis, agências imobiliárias, supermercados, mercadinhos, restaurantes, casas lotéricas, e assaltaram os clientes e os proprietários. Nas ruas, ladrões abordavam motoqueiros, e suprimiam-lhes, apontando-lhes para a cabeça o cano de um revólver, a moto. Multiplicaram-se, assustadoramente, os latrocínios. Multiplicaram-se os assassinatos, os roubos e os estupros desde que Massa Bruta surgiu no cruzamento das avenidas X* e A*. Desdobraram-se as forças policiais para manter a ordem. Mas o caos instalou-se na cidade de São Paulo, e disseminou-se, como uma metástase, pelas cidades conurbadas, e principiou a espalhar-se pelas cidades vizinhas, e espalhar-se-ia por todo o estado de São Paulo se não fosse contido em seu movimento avassalador. Todas as corporações policiais estaduais – militar e civil – e as guardas municipais foram convocadas para conter o avanço da criminalidade.

Na lanchonete, na rua M*, policiais e os quatro criminosos protagonizaram tiroteio, ao encerramento do qual, quinze minutos depois de principiado, três criminosos estavam mortos e um gravemente ferido, e dois policiais estavam feridos, um no braço esquerdo, e um no ombro direito e no ventre.

Na delegacia de policia da rua N*, o capitão Mascarenhas perguntou à secretaria acerca do paradeiro dos policiais Vasconcelos e Duarte.

– Não sei, senhor – respondeu-lhe a secretária. – Eles estavam, aqui, há poucos minutos. Assistiram comigo, à televisão, à notícia a respeito de Massa Bruta, e, de repente, desapareceram.

– Que diabos! – esbravejou o capitão Mascarenhas. – A cidade, um caos, e aqueles dois policiais desaparecem sem deixar avisos.

– Eles foram atender algum chamado – sugeriu a secretária.

– A viatura está na garagem – observou o capitão Mascarenhas. – Onde se meteram o Vasconcelos e o Duarte? – perguntou mais para si do que para a secretária, que ergueu os ombros dando a entender que não tinha a mínima idéia de qual era o paradeiro deles.

*

Rodolfo estacionou o carro, do qual retiraram-se ele, Larissa e Carla, cautelosos todos eles, os olhares de todos eles convergindo para Massa Bruta, que andava, passos pesados, despreocupado, pela rua Z*, como se fosse o seu dono, certo de que ninguém lhe atravancaria o avanço. No caminho, ele esmurrava carros, caminhões, ônibus, arremessando-os a grande distância, contra os prédios, espalhando o terror por onde passava, abandonando atrás de si um rastro de destruição. Rodolfo, Larissa e Carla ora corriam, ora andavam a passos acelerados, ora a passos lentos, receando atrair a atenção de Massa Bruta. Ocultando-se atrás de veículos, gravavam de Massa Bruta imagens reveladoras. Massa Bruta não tinha conhecimento de que seus passos eram seguidos por aqueles três audazes jornalistas, que dele aproximavam-se, nele conservando distância segura. Dos três, o mais atrevido era Carla, que desejava ir até Massa Bruta e indagar-lhe da razão de tanta destruição. Continham-na Rodolfo e Larissa, e não com pouco esforço. E não foram raras as vezes que Rodolfo censurou-lhe a inconseqüência, e puxou-a pelos pulsos, e, agarrando-a pela cintura, conteve-a e a pôs atrás de si, e, escudando-a, seguia na mesma direção que Massa Bruta seguia, dele conservando distância segura.

*

Levantou-se Taco de Baseball, entontecido, recuperando-se dos golpes que Massa Bruta lhe dera. Reconstituía-se o sistema da armadura, que, de tecnologia avançada, possuía inteligência artificial e componentes nanotecnológicos. Não poderia ser golpeado, uma vez mais, por Massa Bruta, antes da reconstituição da estrutura de todos os seus componentes. Enquanto a armadura não se reconstituísse, tinha Taco de Baseball de conservar-se imóvel. Pouco depois, o taco de baseball e o planador, voando, foram até Taco de Baseball, que empunhou o taco de baseball, e, já quase inteiramente reconstituída a sua armadura azul-prateada, subiu no planador. Robôs nanotecnológicos massagearam-lhe todos os músculos e restabeleceram-lhe as comunicações entre os nervos afetados pelos golpes que lhe encaixara Massa Bruta e pela queda após o pontapé que Massa Bruta desferira-lhe, arremessando-o a quilômetros de distância. Recomposto, Taco de Baseball foi até Tatu-Bola, que, distante dele cinco quilômetros, no topo de um prédio, acompanhava, de longe, o deslocar de Massa Bruta e o rastro de destruição que ele deixava atrás de si. Reunidos, Taco de Baseball e Tatu-Bola entabularam conversa. As primeiras palavras Tatu-Bola as proferiu em seu tom peculiar, calmo, pachorrento, silabado, firme:

– Como iremos, caro amigo, sobrepujar um inimigo tão poderoso? Invencível ele é? É incomensurável o poder daquela grandiosa criatura. Os golpes que lhe desferimos, moveram-no, mas nenhum arranhão gravaram naquele corpo de rigidez de rocha, melhor, de diamante.

– Não sei, Tatu, como o derrotaremos. Confesso: não sei como derrotar aquele vilão.

– A nossa estréia na carreira de heróis não está a nos sair favorável – comentou Tatu-Bola. – Não podemos fracassar, Taco. Veja a destruição que aquele monstro saído das fornalhas do inferno provocou. Ou o tiramos de ação, ou ele reduzirá a cidade de São Paulo às cinzas.

– E como iremos derrotá-lo?

– Temos de atacá-lo, e atacá-lo, e atacá-lo, pelos flancos, pela face, pelas costas, até encontrar, dele, o ponto fraco.

– Se ele fosse o Aquiles, derrotá-lo-íamos em um piscar de olhos.

– Que ele tem um ponto fraco, tem, mas qual é o ponto fraco dele?

– Temos de encontrá-lo, antes que ele encontre o nosso.

– Há um ponto vulnerável naquela massa disforme – disse Tatu-Bola -, mas onde ele está?

Feita a pergunta, silenciaram-se Taco de Baseball e Tatu-Bola.

*

Na rua Y*, atrás de Massa Bruta, indo na direção dele, à distância de um pouco mais de cem metros, Rodolfo, Larissa e Carla, cautelosos, ziguezagueavam por entre os destroços e saltavam por sobre crateras. Larissa, com dificuldades para transpor um obstáculo, auxiliada por Rodolfo e Carla, que a ergueram pelas mãos, puxando-a, Rodolfo, pela mão direita, Carla, pela mão esquerda, viu Tatu-Bola e Taco de Baseball, passando, o primeiro, com um salto, o segundo, voando com o planador, do topo de um prédio de um lado da rua para o topo de um prédio do outro lado da rua, e para eles chamou a atenção de Rodolfo e Carla.

*

Tatu-Bola e Taco de Baseball, os movimentos sincronizados, decidiram atacar Massa Bruta, certos de que não seriam bem-sucedidos; mas teriam de conter aquele monstro disforme, impedir-lhe o avanço, imobilizá-lo, se possível, ou ele espalharia o caos por toda a cidade de São Paulo, disseminaria o pânico por toda a grande São Paulo, que já se deparava com o caos, que, como metástase, espraiava-se por várias cidades, caos promovido por criminosos, que se aproveitaram da presença de Massa Bruta, e agiam, como que em movimentos coordenados, em diversas cidades, furtando, roubando, assaltando, espancando, estuprando, matando. E a corporação policial e o Corpo de Bombeiros já estavam saturadas atendendo às chamadas de pessoas apavoradas. E multiplicavam-se as chamadas de pessoas que recorriam à polícia e aos bombeiros. Reduziu um pouco as preocupações dos organizadores das corporações policiais ao mesmo tempo em que as aumentava a ação de muitos homens que decidiram reagir à ação dos criminosos. Alguns, de posse de um revólver, ou de uma pistola, reagiam aos assaltos, aos roubos, e matavam os assaltantes, ou os rendiam após pô-los desacordados ao encaixar-lhes golpes ou de muay-tai, ou de capoeira, ou de judô, ou de kung-fu, ou de tae-kwon-dô, ou de outra arte marcial. A reação da população obrigou os criminosos a recuarem. Mas eles poderiam vir a se reorganizar e recuperar o território perdido se ninguém desse cabo de Massa Bruta.

Tatu-Bola saltou de um prédio, converteu-se em esfera acobreada, e Taco de Baseball golpeou-o, com o taco de baseball, arremessando-o contra Massa Bruta. A colisão entre o corpo de Massa Bruta e o de Tatu-Bola, tão intensa, tão impactante, que produziu um deslocamento de ar devastador, que arremessou veículos a vários metros de distância e estilhaçou vidros das janelas dos prédios próximos. E Tatu-Bola, ricocheteado, realizou, no céu, um arco, e foi pousar na parede de um prédio, nela fincando suas garras poderosas, inquebráveis, afiadas. Ato contínuo, saltou na direção de Massa Bruta. Taco de Baseball disparou um raio luminoso contra Massa Bruta, enceguecendo-o. Assim que Tatu-Bola converteu-se numa esfera acobreada, Taco de Baseball golpeou-o, com o taco de baseball, arremessando-o contra Massa Bruta. Atingindo Massa Bruta, Tatu-Bola, em forma de esfera, fê-lo recuar dois passos. E Tatu-Bola ricochetou. E Taco de Baseball golpeou-o, arremessando-o contra Massa Bruta. E Tatu-Bola atingiu Massa Bruta na cabeça. A ação de Taco de Baseball e Tatu-Bola conferia um aspecto hilário ao embate. Voando, a vinte metros de altura e a trinta metros de distância de Massa Bruta, em redor dele, Taco de Baseball golpeava Tatu-Bola, então, em sua forma esférica, contra Massa Bruta, o qual Tatu-Bola atingia, e ricocheteava, e Taco de Baseball golpeava-o, arremessando-o contra Massa Bruta. Foi um ataque incessante, dir-se-ia coordenado à perfeição. Massa Bruta não conseguiu reagir. Quando descerrava as pálpebras, Taco de Baseball disparava contra ele uma poderosa rajada luminosa, enceguecendo-o. E restava a Massa Bruta descarregar golpes a esmo, no seu vão esforço de atingir Tatu-Bola, urrar, praguejar e ameaçar, com voz cavernosa, que ecoava por toda a cidade de São Paulo, os seus dois oponentes.

Tal situação, no entanto, não se perpetuaria. Uma hora, ou Taco de Baseball erraria o golpe, ou Massa Bruta golpearia Tatu-Bola. E Massa Bruta golpeou Tatu-Bola, de cima para baixo, afundando-o no chão. Ato contínuo, Massa Bruta pulou, e caiu sobre Tatu-Bola, que ainda estava em sua forma esférica acobreada, erguendo nuvem de pó, cinzas, detritos e pedras. Assim que se dissipou a nuvem, revelou-se aos olhos de todos Massa Bruta, em pé, imóvel, diante de uma esfera acobreada, que se abriu, de repente.

E Tatu-Bola, sorriso estampado no rosto, proferiu uma exclamação de ares cômicos:

– Não doeu!

E com os dois pés Tatu-Bola deu uma pancada em Massa Bruta, surpreendendo-o, elevando-o no céu três metros.

E Taco de Baseball golpeou Massa Bruta, arremessando-o para o alto, e seguiu no seu encalço, e golpeou-o ao mesmo tempo em que por ele foi golpeado. E Taco de Baseball e Massa Bruta foram arremessados para o chão em pontos distantes um do outro trezentos metros.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 5 de 8

Capítulo 5

A luta do século

Round 1

Perguntavam-se em todo o mundo as pessoas que, diante de uma televisão, ou do monitor de um computador, ou da tela de um notebook, ou da de um tablet, ou da de um telefone celular, ou da de algum outro aparelho eletroeletrônico, assistiam às imagens da luta quem eram aquelas três criaturas. Quem era aquela imensa criatura disforme? Quem era o homem de armadura azul prateada, que voava sobre um planador e empunhava um taco de baseball dourado? Quem era o bípede híbrido de tatu-bola e homem? Em não muito tempo espalharam-se pelos cinco continentes os nomes dos três indivíduos envolvidos na luta: Massa Bruta, Taco de Baseball e Tatu-Bola. E em pouco tempo disseminou-se, como numa epidemia, o virus da curiosidade. Todos os que tomaram conhecimento do que ocorria em São Paulo perguntaram-se qual era a identidade secreta de Massa Bruta, a de Tatu-Bola e a de Taco de Baseball e o que eles desejavam, e porque Taco de Baseball e Tatu-Bola batiam-se contra o Massa Bruta.

– Eles se conhecem de outros carnavais? – perguntavam.

– Tatu-Bola e Taco de Baseball são amigos desde a infância?

– Massa Bruta é um desafeto de Tatu-Bola e Taco de Baseball?

– Massa Bruta é um cientista maluco?

– Taco de Baseball é um viajante do tempo?

– Taco de Baseball é do futuro?

– Tatu-Bola é um bicho do mato?

– Tatu-Bola vive na floresta?

– Tatu-Bola vive no sertão nordestino?

– Tatu-Bola é um esquimó geneticamente modificado?

– Qual é o nome verdadeiro de Taco de Baseball?

– Qual é o nome verdadeiro de Tatu-Bola?

– Qual é o nome verdadeiro de Massa Bruta?

– Qual é a identidade secreta deles?

– Taco de Baseball é um bilionário?

– Taco de Baseball é um industrial genial do setor de alta tecnologia?

Concentrados nos monitores de televisores e nas telas de computadores, telefones celulares, tablets, smartphones centenas de milhões de pessoas acompanhavam o desenrolar da luta entre Tatu-Bola, Taco de Baseball e Massa Bruta, todos a perguntarem-se qual era o propósito de Massa Bruta, e a anteverem o encerramento da luta: A vitória de Taco de Baseball e Tatu-Bola após a destruição de uma vasta área da cidade de São Paulo e das cidades conurbadas que constituíam, junto com a cidade de São Paulo, a Grande São Paulo.

*

Do Corpo de Bombeiros vários veículos retiraram-se, e rumaram para o centro da cidade de São Paulo em atendimento às centenas de chamadas de pessoas, preocupadas umas, desesperadas outras, apavoradas muitas delas, aterrorizadas inúmeras. No prédio da corporação, o capitão João Batista, em preparo da ação para atender a tantas chamadas simultâneas, persuadiu-se de que não estava a corporação preparada para responder à situação tão inusitada, inédita, e recorreu às corporações de bombeiros das cidades vizinhas. A coordenação, de difícil execução, de todo o trabalho de atendimento à população a seu encargo dele exigiu audácia, perspicácia, agilidade mental, raciocínio rápido, toda a sua experiência de trinta anos, que, pensava ele, seria insuficiente para enfrentar a situação, a qual ele, em imaginação, jamais havia concebido – era tão extraordinária, que a todos surpreendeu. E ele evocou a tragédia sucedida no dia onze do mês de setembro do ano de dois mil e um do calendário gregoriano. Era inédito o que ocorria no centro da cidade de São Paulo, surpreendente, espetacular, inimaginável – nem a pessoa de imaginação mais fértil que já pisou na face da Terra conceberia evento de tal magnitude.

– Vicente, o Paulo Cearense e o Ricardo irão com você.

– Comigo? – perguntou Vicente. – Eles não estão aqui – anunciou.

– Não? – perguntou, incrédulo, o capitão João Batista. – Eles não estão aqui? Eles não foram atender à nenhuma chamada. Não faz muito tempo, conversei com eles. Poucos minutos antes de recebermos a notícia do início da ação devastadora daquele monstro disforme, o Massa Bruta.

– Não sei, senhor – observou Vicente -, onde eles estão. Eles e o Marcelo e o Ivan conversavam, na última vez que os vi.

– O Ivan e o Marcelo já partiram?

– O Ivan há uns dez minutos; o Marcelo, há uns cinco minutos.

– Entrarei em contato com eles – ato contínuo, o capitão João Batista telefonou, primeiro, para Marcelo, depois, para Ivan, e perguntou-lhes de Paulo Cearense e Ricardo, e eles disseram-lhe que o viram, pela última vez, minutos antes de receberem a notícia do aparecimento de Massa Bruta no entroncamento das avenidas X* e A*, confirmando a informação fornecida por Vicente.

– Onde, diabos, eles se meteram!? – esbravejou o capitão João Batista.

– E agora que precisamos deles – comentou Vicente. – Tenho certeza de que eles, capitão, tiveram um bom motivo…

– Bom motivo para o que, Vicente? – esbravejou, visivelmente irritado, o capitão João Batista, interrompendo-o. – Quais bons motivos eles tiveram para se retirarem daqui sem me avisar? Eles conhecem os procedimentos. Eles conhecem as normas – e bufou de raiva. – Eles desaparecem, assim, e ninguém sabe quando eles desapareceram, e tampouco para onde foram. Suspeita, a atitude deles.

– Não se precipite, capitão – recomendou Vicente. – Estou certo de que eles têm uma boa explicação para a atitude deles. Telefonarei para eles.

Limitou-se ao silêncio o capitão João Batista.

*

Massa Bruta agarrou, com a mão direita, uma moto, e um bloco de concreto com a mão esquerda, e arremessou-os, primeiro, o bloco de concreto, depois, a moto, num intervalo de um décimo de um segundo entre os dois arremessos, na direção de Taco de Baseball, que, voando a trinta metros de altura e a cem metros de distância de Massa Bruta, da moto e do bloco de concreto esquivou-se, e não se viu hesitação em seus movimentos. A sua armadura, computadorizada, amplificando os seus sentidos e a sua agilidade e velocidade de reação, fornecendo-lhe informações sobre a velocidade e os trajetos dos objetos lançados contra ele por Massa Bruta, permitiu-lhe deles desviar-se com agilidade incomum. No segundo seguinte, Taco de Baseball apontou o taco de baseball na direção de Massa Bruta, e disparou uma potente descarga elétrica, que alvejou Massa Bruta, que emitiu um urro, mais de raiva do que de dor, e flexionou, tão logo recompôs-se – e recompô-se em uma fração de segundo -, os joelhos, e saltou na direção de Taco de Baseball, que, empunhando o taco de baseball com as duas mãos, preparou-lhe um golpe, que não desferiu porque, estando Massa Bruta a três metros de si, uma esfera acobreada atingiu-o, a ele, Massa Bruta, deslocando-o alguns metros, o suficiente para ele sair da rota de colisão com Taco de Baseball. E Taco de Baseball golpeou o vazio, e rodopiou, como um pião, em pleno ar, a trinta metros de altura, e Massa Bruta e Tatu-Bola, como um bólido só, colidiram contra um prédio, e o transpassaram, e caíram ao colidir contra o prédio vizinho. E Taco de Baseball, assim que cessou de girar, exclamou:

– Maldito tatuzão! Eu ia rachar a cabeça do monstrengo. Meu parceiro, em certos momentos, mais me atrapalha do que me ajuda.

Nem bem encerrou a sua queixa, um estouro chegou-lhe aos ouvidos, e uma esfera acobreada voou em sua direção: Era Tatu-Bola, que, golpeado por Massa Bruta, viajava, mais uma vez, pelos céus da cidade de São Paulo.

– Tatuzão não sabe voar, mas voa – exclamou Taco de Baseball, ao mesmo tempo em que se desviava do seu parceiro.

– O monstro das catacumbas do inferno dantesco não se simpatizou comigo – comentou Tatu-Bola, ao passar por Taco de Baseball, sua voz chegando-lhe abafada pela rígida carapaça que o envolvia.

Tatu-Bola atingiu um prédio, que encerrou-lhe a viagem pelos céus da cidade de São Paulo.

– O grandalhão é um osso duro de roer – comentou Tatu-Bola, assim que abandonou a sua forma esférica e assumiu a sua figura de híbrido tatu e homem.

– Você está bem? – perguntou-lhe Taco de Baseball.

– Nunca estive melhor na minha vida – respondeu Tatu-Bola, sorrindo. – As pancadas não me arranharam a pele.

– Não se gabe de sua resistência, Tatu-Bola – censurou-o Taco de Baseball. – Não desprezemos o nosso adversário.

– Não o desprezo – comentou Tatu-Bola. – Sei que enfrento um oponente respeitável, que já causou transtornos para milhões de pessoas, ceifou a vida de dezenas de pessoas, e provocou devastação imensurável dando prejuízo incalculável para a cidade.

E ouviu-se um urro tonitruante, o estrondo de uma explosão, e viu-se pedras, carros e metais retorcidos rasgando o céu em todas as direções.

– O monstrengo está vindo, Taco – avisou Tatu-Bola. – Prepare-se para o impacto.

E Taco de Baseball, à direita de Tatu-Bola, dez metros de distância dele, empunhou, firmemente, com as duas mãos, o taco de baseball, e preparou-se para desferir um golpe contra o seu enorme oponente, e dele desviar-se, caso ele fosse, correndo, em sua direção, ou desviar-se de algum objeto caso ele arremessasse-lhe algum, e Tatu-Bola pôs-se na expectativa, contraídos os músculos das pernas para pular, ou para esquivar-se de Massa Bruta, ou de um objeto que ele lhe lançasse, ou para saltar, em forma de esfera, contra ele.

De detrás de um monte de destroços, surgiu Massa Bruta, bufando, expelindo pelas narinas toda a sua fúria, olhares fixos nos seus oponentes, distante deles uns cem metros.

A cena, agora, assemelhava-se à de um filme de faroeste, cada protagonista do confronto em um ponto, imóvel, na expectativa, a respiração suspensa, fitando, atentamente, o seu oponente, preparado para antecipar-se-lhe aos movimentos, e disparar-lhe o golpe derradeiro. Dava-se a impressão de que o tempo havia cessado de seguir o seu curso e o planeta havido parado de girar em torno de seu próprio eixo e todos os fenômenos naturais haviam sido suspensos. Enfim, Taco de Baseball deslocou-se, lentamente, para a direita e para o alto, afastando-se de Tatu-Bola, mantendo de Massa Bruta sempre a mesma distância. A um sinal de Tatu-Bola, imperceptível para Massa Bruta, empunhou o taco de baseball com as duas mãos, e preparou-se para uma pancada, ao mesmo tempo em que Tatu-Bola saltou. Assim que Tatu-Bola, em sua forma esférica, passou a um metro à frente de Taco de Baseball, este deu-lhe, com o taco de baseball, uma forte pancada, arremessando-o contra Massa Bruta, que não pôde desviar-se de Tatu-Bola, que o atingiu, na cabeça, como um míssil, derrubando-o. Desenrolou-se tal cena em uma fração de uma fração de um segundo. Massa Bruta, antes de levantar-se, vendo Tatu-Bola ainda em sua forma esférica, em curso descendente, cerrou o punho direito, e golpeou-o. E a esfera acobreada viajou, mais uma vez, pelos céus da cidade de São Paulo. Interceptou-a Taco de Baseball, que, golpeando-a com o taco de baseball, arremessou-a, uma vez mais, contra Massa Bruta, alvejando-o no tórax, dele arrancando ar dos pulmões e desequilibrando-o, não o derrubando, no entanto. E Tatu-Bola, ricocheteado pela massa pétrea de Massa Bruta, foi para o alto, e assim que atingiu o ponto máximo da ascendência, Taco de Baseball golpeou-o uma vez mais, arremessando-o contra Massa Bruta, que Tatu-Bola atingiu, na cabeça, e ricocheteou uma vez mais. E Taco de Baseball golpeou, com o taco de baseball, Tatu-Bola, lançando-o, mais uma vez, contra Massa Bruta, que Tatu-Bola atingiu, na cabeça, uma vez mais, e ricocheteou. E mais uma vez Taco de Baseball golpeou, com o taco de baseball, Tatu-Bola, arremessando-o contra Massa Bruta. Desta vez, contrariando Taco de Baseball e Tatu-Bola, Massa Bruta, golpeou, com a mão direita, Tatu-Bola, arremessando-o longe de Taco de Baseball, ao mesmo tempo em que agarrou, com a mão esquerda, um bloco de concreto e arremessou-o na direção de Taco de Baseball, atingindo-lhe o planador, dele arrancando-o. Taco de Baseball caiu da altura de quinze metros sobre o asfalto da rua Y*, de barriga para baixo; ao erguer a cabeça, viu, diante de seus olhos, eclipsando o sol, descendo sobre si, preparado para esmagá-lo, Massa Bruta, que, braços erguidos por sobre a cabeça, dedos entrelaçados, a cinco metros de altura, proferiu a sentença, numa voz cavernosa, diabólica:

– Dê adeus à vida, verme!

Taco de Baseball não se esquivaria do golpe. Olhos arregalados fixos no seu adversário, a escuridão reinando no seu campo de visão, sentiu-se perdido, perguntando-se se a armadura agüentaria o golpe. Não poderia apará-lo; tampouco poderia esquivar-se de Massa Bruta, pois uma fração infinitesimal de segundo separava-o dos punhos cerrados daquele gigantesco monstro disforme de punhos esmagadores.

Estrondos, tremores de terra e a elevação de detritos seguiram-se ao golpe desfechado por Massa Bruta contra Taco de Baseball. A potência do golpe foi tanta, que abriram-se imensas rachaduras em toda a extensão da rua Y* e das ruas adjacentes, e prédios ruíram com a força da velocidade do deslocamento de ar, e centenas de veículos foram arremessados em todas as direções. Tremores foram sentidos num raio de vinte quilômetros. Estilhaçaram-se janelas de casas e de prédios distantes mais de cinco quilômetros do ponto em que Massa Bruta golpeou Taco de Baseball. Dois aviões e sete helicópteros, deslocados pelo deslocamento de ar, arremessados, a alta velocidade, iam, desgovernados, rodopiando, pelo céu da cidade de São Paulo. Um avião atingiu, de cabeça para baixo, um prédio – morreu, na colisão, os quatro tripulantes e outras oito pessoas. Um helicóptero caiu no rio Tietê – os seus dois tripulantes morreram afogados. O piloto de um avião, experiente, conseguiu, com destreza extraordinária, não sem dificuldades, pousou o avião numa avenida causando transtornos a muita gente, salvando, todavia, a sua vida e as dos vinte passageiros. Dos outros seis helicópteros, cinco os seus respectivos pilotos os pousaram em heliportos, cada um deles em um heliporto, e um caiu sobre a Praça do Anhangabaú, pulverizando-se, morrendo os seus dois tripulantes e outras cinco pessoas.

Assim que se dissipou a nuvem de fumaça, revelou-se uma cratera no meio da rua Y*, cratera da qual emergiu Massa Bruta, e apenas ele, altivo, maior do que antes, parecia aos olhos de todos, peito empinado, tórax inflado, repleto de energia. Inclinando a cabeça para trás, ele emitiu um grito ensurdecedor:

– Eu sou Massa Bruta, o Esmagador! Curvem-se diante de Massa Bruta, o Pulverizador! Reverenciem Massa Bruta, o Conquistador!

E olhou Massa Bruta para a sua esquerda ao ouvir ruídos. Viu Taco de Baseball, vacilante, cuja armadura descarregava faíscas multicoloridas, retirando-se da cratera. Sorriu Massa Bruta, desdenhoso.

E Massa Bruta deu um pontapé em Taco de Baseball, arremessando-o por sobre os prédios.

– Verme! – exclamou Massa Bruta ao ver Taco de Baseball longe, cruzando o céu da cidade de São Paulo.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 4 de 8

Capítulo 4

E entram em cena Tatu-Bola e Taco de Baseball

Gravadas por telefones celulares imagens de Massa Bruta e dos outros dois personagens, o mundo em pouco tempo tomou conhecimento do desenrolar dos eventos que se sucediam, para espanto de todos, no centro da cidade de São Paulo. E lá estavam, encarando-se, Massa Bruta e um homem coberto com uma carapaça de tatu e um homem embrulhado com uma armadura azul prateada. Quem eram eles? perguntavam-se todos. A chegada dos dois personagens que, tudo indicava, lutariam contra Massa Bruta, causou espanto e admiração em todos. E muitas interrogações foram aventadas nos quatro quadrantes do universo. A cidade de São Paulo converteu-se, naqueles poucos minutos, desde o surgimento de Massa Bruta no entroncamento das avenidas X* e A*, no centro do mundo, e aqueles três estranhos personagens inspiraram muitas perguntas. Um chamava-se Massa Bruta. E quem eram os outros dois?

Massa Bruta rilhou os dentes e franziu a testa. A sua aparência, que já era grotesca, assumiu ares teratológicos, assustadoramente petrificantes. Os dois personagens que desceram a poucos metros dele, no entanto, não se mostraram intimidados com aquela disforme, grotesca, monstruosa figura, que se alcunhava Massa Bruta. Ao contrário, exibiam, dir-se-ia, coragem incomum, audácia e atrevimento, e, desdenhosos, fitavam-lo como se tivessem diante de si uma criatura insignificante. A postura deles irritou Massa Bruta, que, não se contendo em seu ímpeto, deixou transparecer a raiva que o impeliria na direção do humano de constituição de tatu que lhe golpeara as costas.

– Quem são aqueles dois? – perguntavam-se todas as pessoas que, em todo o mundo, acompanhavam o desenrolar dos eventos protagonizados pelos três personagens de aparência singular.

– Não sei. Não tenho a mais remota idéia de quem eles possam ser – foi essa a resposta que mais se ouviu. E outras, especulativas, foram:

– Eles são deuses egípcios.

– Deuses egípcios? Havia, no Egito, um deus de corpo de tatu?

– No Egito não existe tatu.

– Eles são alienígenas.

– E de que planeta eles vieram?

– E eu sei!?

– Três criaturas, tão escalafobéticas, que só podem ser produtos de uma experiência fracassada.

– São eles oriundos de um universo paralelo. Resta-nos saber de qual, pois há infinitos universos paralelos. E cada um daqueles três esquisitões pode ser originário de um.

– Eles são produtos de experiências genéticas mal-sucedidas. O monstro é um urso geneticamente modificado; o tatuzão é um tatu que cresceu mais do que podia crescer, e o outro é… Sei lá. Talvez um ser humano e máquina, uma máquina orgânica, uma máquina, ou robô, ou sintético, ou andróide, ou sintozóide fundido num corpo humano.

– O tatu gigante é uma criatura híbrida de homem e tatu-bola como aquelas criaturas híbridas do livro Amálgamas.

– O homem do planador e do taco de baseball é um cientista maluco.

– Ele usa armadura.

– O brutamontes monstruoso é uma miniatura do Godzilla.

– Não. Não. Ele é um super-vilão, que ganhou vida, de revistas de super-heróis.

– O tatu gigante é um ornitorrinco geneticamente modificado.

– Não sei quem são aqueles três, e não quero saber, e tenho raiva de quem sabe. Eu quero vê-los engalfinharem-se, e espancarem-se, e esmurrarem-se, e esmagarem-se, triturarem-se e esmigalharem-se uns os ossos dos outros.

– Eles se conhecem de outros carnavais?

– O tatuzão e o homem com taco de baseball são amigos e ambos lutarão contra o Massa Bruta.

– Quero ver entranhas expostas, cérebros esmagados, ossos triturados e muita destruição.

– Eles irão lutar. A luta será um espetáculo.

– A luta do século.

– Quero ver sangue escorrendo do nariz deles.

– O Massa Bruta vai levar uma sova.

– Vai, nada. Ele vai pulverizar o homem-tatu e o homem-taco-de-baseball.

*

Carla, Larissa e Rodolfo dirigiram-se ao local do embate entre Massa Bruta e os seus dois oponentes.

– Rápido, Rodolfo, rápido – apressava-o Larissa, ansiosa, descabelando-se.

– Acalme-se – retrucou Rodolfo. – Como irei rápido com o trânsito…

– Rápido, Rodolfo – resmungou Carla. – Pare de falar, e dirija.

– E vocês – retrucou Rodolfo, impaciente -, matracas, tagarelas, calem a boca! Como dirigirei o carro, se vocês não param de falar nos meus ouvidos? Vocês são piores do que pernilongos. São irritantes, diabos!

A discussão seguiu neste tom durante todo o trajeto. Larissa e Carla, impacientes, exigiam de Rodolfo que ele acelerasse o carro, e Rodolfo a retrucar, irritado, ameaçava parar o carro, e dele expulsá-las, jogá-las para fora dele, para obrigá-las a irem a pé até onde encontrava-se Massa Bruta, caso nenhuma alma caridosa oferecesse-lhes carona. E encerrou a discussão um estrondo provocado por algo que caiu sobre o carro, algo não muito pesado, e nem muito leve, mas que atingiu o carro com força suficiente para amassar-lhe o capô. Rodolfo pisou, involuntariamente, no pedal do freio, e conseguiu manter o controle da direção, impedindo o carro de se desgovernar, subir na calçada e atropelar duas pessoas, um jovem de quinze anos e uma anciã octogenária. Enfim, parou o carro, em cujo interior imperou o silêncio. O carro parado, entreolharam-se Rodolfo, Carla e Larissa.

– O que aconteceu? – perguntou Rodolfo, mais para si do que para as suas colegas de trabalho, fitando o teto amassado do carro.

– Veja o que atingiu o carro, Rodolfo – sugeriu Carla.

Rodolfo desafivelou o cinto de segurança. Hesitante, cauteloso, abriu, intrigado, a porta do carro, e olhou para o céu à procura de algum objeto sobrevoando a região e os arredores.

– Vá, Rodolfo – apressou-o Larissa.

– Cale a boca! – resmungou Rodolfo, num tom de voz grave, firme, baixo e contido.

Rodolfo, enfim, saiu do carro. Desconfiado, e a fisionomia a transparecer preocupação, fitou o capô do carro e nele viu a concavidade produzida por um objeto pequeno, duro e coberto de arestas, presumiu, ao avaliar as irregularidades da concavidade, e perguntou-se que objeto atingira o capô do carro.

De dentro do carro, Larissa e Carla circunvagavam os olhos pelos arredores, avaliando o céu à procura de algum sinal que lhes indicasse o que ocorrera.

– O que você achou, Rodolfo? – perguntou Larissa.

– Nada – respondeu Rodolfo. – Estou vendo apenas o capô amassado do carro. Venham vê-lo.

Encorajadas pelo convite de Rodolfo, Larissa e Carla retiraram-se do carro.

Não havia decorrido um minuto, os três ouviram vidros estilhaçando-se, e olharam para a direita, direção da qual os barulhos de vidros quebrando-se chegaram-lhes aos ouvidos, e viram algumas pessoas acocoradas, e outras, a passos acelerados, protegendo, cada uma, a sua cabeça ou com uma bolsa, ou com uma maleta, ou com uma caixa, e duas mulheres gritando, e pedaços de vidros caindo, na calçada; e ao olharem para o alto, viram, de uma janela do terceiro andar de um prédio estilhaços de vidros desprenderem-se, e caírem, e um vidro quebrado.

– O que aconteceu? – perguntou Rodolfo.

– Cuidado! – gritou um garoto, ao mesmo tempo que apontava, com o dedo indicador esquerdo, um ponto do céu, para o qual voltaram-se Rodolfo, Larissa, Carla e dezenas de outras pessoas. E todos viram uma chuva de bólidos riscando o céu. Eram pedaços de carros, pneus, pedaços de asfalto, paralelepípedos e uma esfera acobreada. Todos procuraram por um abrigo. Rodolfo, Larissa e Carla encolheram-se ao lado direito do carro. E os bólidos atingiram, uns, algum prédio, outros, o asfalto, ou o muro de um terreno baldio, ou um poste, ou a porta de um estabelecimento comercial. Um poste atingiu uma loja, pelo enquadramento da porta, então aberta, e incursionou pelo seu interior, arrastando roupas, prateleiras, calçados, computadores, provocando muitos estragos – felizmente, ninguém se feriu, e os que se viram na sua trajetória esquivaram-se a tempo de evitar o impacto. Duas pedras, uma, de uns dez quilos, outra de uns vinte quilos, atingiram, quase que simultaneamente, um ônibus, estilhaçando-lhe todos os vidros. Um paralelepípedo atingiu uma moto preta, reduzindo-a a pó. Uma tempestade de pedriscos alvejou três pessoas – um homem de quarenta anos, barbudo, gordo e negro, uma jovem de dezesseis anos, de cabelos compridos, branca, magra e loira, um homem magro, moreno, de trinta anos, careca, e de barba e bigode rapados -, matando-os, instantaneamente.

Instalou-se o caos naquela região. Todos, assustados, olhavam para o céu à procura de uma explicação para o que ocorria.

A esfera acobreada atingiu a pilastra, no vértice, da parede reforçada de um prédio corporativo, rolou alguns metros, e foi parar a dois metros de distância de Rodolfo, Carla e Larissa. E os três a fitaram, apalermados, embasbacados, intrigados, curiosos, e mais apalermados, embasbacados e intrigados ficaram quando ela abriu-se e revelou-lhes o seu interior: um homem acobreado, que, sobrancelhas descerradas, sorriso no rosto cativante em sua aparência excêntrica, proferiu as seguintes palavras:

– Bom dia, madames. Bom dia, cavalheiro. Chamo-me Tatu-Bola, criado de vossas senhorias – e pôs-se de pé. E Rodolfo, Larissa e Carla puderam, então, dimensionar-lhe a estatura. Fitaram-lo, mais embasbacados e apalermados do que antes, arregalados os olhos, desmesuradamente abertas as bocas, e caídos os queixos. – As senhoritas estão encantadas com o meu charme, a minha simpatia excepcional e a minha beleza apolínea, e o senhor está admirando o meu excepcional e invejável porte físico.

– Quem é você? – perguntou-lhe Larissa, gaguejando, trêmulos seus lábios.

– Eu já vos disse o meu nome, encantadora senhorita. Compreendo-vos a vossa desatenção. O meu charme, a minha simpatia e a minha beleza helênica, presente dos deuses, encantaram-vos tanto que nublaram os vossos sentidos, o vosso entendimento, impedindo-vos de ouvir as palavras que, com a minha voz argêntea, que insufla no espírito de todos os seres viventes encanto e admiração, proferi. Não me faço de rogado. Paciente, gentil e prestativo, elimino a vossa dúvida: Tatu-Bola é o nome deste vosso humilde e leal servo – e genuflexionou-se, e, desembaraçado, exibiu mesuras anacrônicas, que arrancaram risos desconcertados de Larissa.

E Tatu-Bola anunciou a sua retirada:

– Perdoem-me, nobres damas – e atraiu, suavemente, para si, a mão direita de Larissa e a mão direita de Carla, que não lhas recusaram, e osculou-as com suavidade, mal roçando-lhes os lábios no dorso -, e perdoe-me, gentil cavalheiro – dirigiu-se a Rodolfo, então estupidificado, assim que abandonou a mão de Larissa e a de Carla – não poder conservar-me por mais tempo na vossa companhia. Chama-me o dever. Não posso dilatar, aqui, a minha humilde presença. Tenho de ir em auxílio de um heróico amigo meu, Taco de Baseball, que se vê em apuros num embate com um monstro saído das profundezas do inferno dantesco, Massa Bruta, o Destruidor, o Conquistador, o Aniquilador, o Exterminador, o Pulverizador, o Esmagador. Dai-me licença, senhoritas. Dai-me licença, cavalheiro – e saudou-os com salamaleques. Com desenvoltura, curvando-se ligeiramente, virou-lhes as costas, e deles afastou-se, correndo, numa velocidade impressionante.

– Tatu-Bola… – disse Rodolfo, gaguejando. – Taco de Baseball… Quem são eles? Eles estão lutando contra o monstro… com o… Qual é o nome dele?

– Massa Bruta – respondeu Carla.

– Temos de sair daqui – disse Larissa -, e ir até onde eles estão – referia-se a Massa Bruta, Taco de Baseball e Tatu Bola.

Entraram no carro, Rodolfo ao volante, e rumaram para a direção que Tatu-Bola seguira.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 3 de 8

Capítulo 3

A cidade de São Paulo sob ataque

O garoto da bicicleta, ao olhar para trás, após dobrar a esquina, e entrar pela rua O*, e não ver Massa Bruta atrás de si, perguntou-se, confuso e intrigado, ao mesmo tempo que aliviado, onde ele estava, e olhou para todos os lados. Não queria acreditar que Massa Bruta não lhe ia no encalço. Desacelerou a velocidade das pedaladas, e, à procura do seu perseguidor, olhava, a curtos intervalos, para trás, até que, enfim, cessou de pedalar, deteve-se, pôs o pé direito no chão, olhou para trás à procura de Massa Bruta, e não o encontrando, deu de ombros, e seguiu o seu caminho, agora lentamente, tranquilo, o coração a bater no seu ritmo normal.

Nesse meio tempo, Massa Bruta destroçou quatro veículos e arrancou da calçada um poste, arrebentando os fios, e ouviram-se os estouros a vários metros de distância. Arremessou o poste contra um helicóptero, que voava a duzentos metros de altura. O poste, arremessado com força indescritível, percorreu a distância que separava o helicóptero de Massa Bruta em um centésimo do tempo que Usain Bolt precisa para percorrer cem metros. O piloto do helicóptero, com destreza incomum, ao ver Massa Bruta soltar o poste, manobrou o helicóptero, rapidamente, evitando o choque, e tratou, ato contínuo, de afastar-se de Massa Bruta. O câmeraman que o acompanhava naquele trabalho insano pediu-lhe que se aproximasse de Massa Bruta, e dele ouviu obscenidades impublicáveis e insultos, e teve de se resignar à decisão dele, que, sem titubear, afastou-se de Massa Bruta, que, por sua vez, vendo o helicóptero afastar-se de si, voltou a sua atenção para as pessoas e os veículos nos seus arredores, e andou na direção de uma fileira de carros; ao passar por eles, agarrava-os cada um deles com uma das mãos, e os arremessava, para o alto, para qualquer direção; e os carros cobriam – os que não se chocavam contra os prédios próximos – mais de cinco quilômetros tamanha a força dispensada por Massa Bruta, que não se esforçava para arremessá-los tão longe.

Pessoas horrorizadas corriam, apavoradas, para se afastarem de Massa Bruta.

Um policial, empunhando um revólver, aproximou-se de Massa Bruta, pela frente dele, apontou-lhe o revólver, e sentenciou:

– Pare, ou atiro!

Massa Bruta fitou-o; seu olhar, de desdém e desprezo, um sorriso diabólico, malévolo, a estampar-lhe o rosto. Retesou todos os seus músculos. Andou, passos pesados, que provocaram tremores no asfalto, na direção do policial, que, vendo-o ir na sua, dele, policial, direção, recuou alguns passos, e, reconhecendo que fora imprevidente, e dando tratos à bola, girou sobre os calcanhares, pôs sebo nas canelas, tratou de correr como nunca havia corrido na sua vida, e dobrou a esquina pouco tempo depois.

Massa Bruta não se preocupou com o policial. Exibiu um ar de riso desdenhoso, arrancou, sem esforço, uma árvore do chão, e arremessou-a contra um prédio, dele estilhaçando várias janelas – e a árvore foi pulverizada com a força do impacto. Na sequência, arremessou um ônibus para o alto, deu socos no asfalto, rachando-o, e disparou pedaços de asfalto em todas as direções.

*

Carla, Larissa e Rodolfo, decididos a registrar os acontecimentos que se sucediam no centro da cidade de São Paulo, retiraram-se, açodados, descendo os degraus de três em três lances, do prédio da emissora de televisão C*. Na garagem, entraram num carro, e rumaram, Rodolfo ao volante, indo Larissa no banco anterior direito e Carla no banco de trás, conversando durante todo o trajeto de um pouco mais de oito quilômetros, ao ponto em que se encontrava Massa Bruta. E aventaram muitas perguntas. Eis algumas delas, as quais eles registraram não poucas vezes e para as quais não deram respostas:

– Massa Bruta é terrestre?

– Ele é de outro planeta?

– Ele veio de outra galáxia?

– Ele é oriundo de outra dimensão?

– Ele é produto de uma experiência científica?

– Ele é uma anomalia de Chernobil?

– Ele é um experimento do doutor Moreau?

– O que ele deseja?

– Ele é casado?

– Qual é o signo dele?

– Por que ele está em São Paulo?

– Por que ele não está em Nova York?

– Por que ele não está em Tóquio?

– Por que ele veio para São Paulo em vez de ir para Brasília?

– Por que ele não foi para a Argentina?

– Quem é o pai dele?

– Quem é a mãe dele?

– Ele é do futuro?

– Ele é do passado da Terra de um universo paralelo?

– Ele é uma criatura derivada de elefante, rinoceronte e hipopótamo geneticamente modificados?

– Ele é um supersoldado latino-americano?

– Ele comeu muita comida integral quando era criança?

Enquanto rumavam para o local em que se encontrava Massa Bruta, viram vários veículos cruzarem, em alta velocidade, o céu da cidade de São Paulo, e um ônibus colidir contra um avião, e uma bola de fogo formando-se no céu não muito distante deles, sentiram solavancos no carro, ouviram muitas explosões, e viram dezenas de línguas de fogo elevando-se no céu. O cenário, à medida que se aproximavam de Massa Bruta, tornava-se mais caótico, e multiplicavam-se as pessoas apavoradas, que, aos berros, alertavam todos da ameaça representada pelo gigante disforme humanóide.

De repente, da esquerda para a direita de Rodolfo, Carla e Larissa, a mais de cem metros de altura, a um quilômetro de distância, passou Massa Bruta, que, com a força prodigiosa dos músculos de suas pernas, lançara-se para o céu, com um salto espetacular, e pousou a quarenta quilômetros do ponto do qual saltara.

E Rodolfo mudou a direção que seguia.

*

Espalharam-se por todo o mundo imagens, captadas por telefones celulares e câmeras, da destruição da cidade de São Paulo no entroncamento das avenidas X* e A* e dos arredores e imagens de Massa Bruta em seus atos de destruição. Pessoas em todo o mundo tomavam conhecimento da criatura monstruosa que assolava a cidade de São Paulo, e apavoravam-se.

*

Na praça D*, Massa Bruta, ao pousar, quebrou várias árvores, e não cessou a sua ação devastadora. Esmurrava o chão, provocando tremores e no chão abrindo rachaduras, que se estendiam por quilômetros, e rompendo-se encanamentos, água jorrava-se de dezenas de pontos da cidade, atingindo sete, oito, dez metros de altura.

Com força extraordinária dos músculos das pernas, Massa Bruta deu um salto, calculado, de quatro mil metros de altura, e aterrissou no topo de um prédio, perfurou-o e todos os pisos inferiores, até o térreo, onde pôs-se a esmurrar os alicerces do prédio até derrubá-lo. E urrou, vitorioso, bem-sucedido no seu avanço sem obstáculos.

De repente, uma esfera acobreada atingiu as costas de Massa Bruta com força suficiente para fazê-lo pender, ligeiramente, para a frente. Surpreso, Massa Bruta olhou, de imediato, para trás, e viu, no céu, realizando um arco, uma esfera acobreada – a que o atingira -, que dele caiu a menos de trinta metros de distância. Massa Bruta fitou-a, intrigado. E surpreendendo-o, desfez-se a esfera acobreada, que assumiu uma figura exótica, misto de humano e tatu, de aproximadamente dois metros de altura. A criatura, em pé, de frente para Massa Bruta, conservou-se firme e imóvel, a fitá-lo, inexpressivo, impassível, com seus olhos minúsculos. E para maior surpresa de Massa Bruta, do céu desceu, um homem sobre um planador, o homem embrulhado com uma armadura azul prateada, empunhando um taco de baseball dourado. E o homem de armadura deteve-se, a planar, à esquerda da exótica criatura amalgamada de homem e tatu.

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 2 de 8

Capítulo 2

Um garoto de bicicleta e um motorista de caminhão

No entroncamento das avenidas X* e A*, Massa Bruta, a gigantesca criatura humanóide, com o seu corpanzil disforme, seus músculos salientes, que lhe revestiam todo o corpo – e nenhum anatomista poderia identificar cada um dos músculos que lho revestiam – atraiu a atenção de centenas de pessoas, cujos olhares convergiam para ele, todas horrorizadas, boquiabertas, estupidificadas, abismadas, assustadas, amedrontadas, a respiração suspensa, incapazes de concatenar os pensamentos, petrificadas, como se o tempo houvesse cessado o seu curso. Não havia uma pessoa consciente, naquele momento. As pessoas regressaram à consciência quando Massa Bruta emitiu um urro tonitroante, que agitou folhas de árvores, deslocou cartazes, estilhaçou vidros de óculos, de veículos e de janelas de prédios.

– Curvem-se diante de Massa Bruta, o Conquistador! – declarou Massa Bruta, em tom de ordem; cavernosa, assustadoramente tétrica, a sua voz.

Pessoas corriam de um lado para o outro.

Muitos passageiros e motoristas de táxi abandonaram os veículos.

Das janelas muitas dentre as pessoas que haviam, curiosas, ao parapeito se debruçado para ver o que ocorria recolheram-se ao interior do prédio; outras, no entanto, a curiosidade a inspirar-lhes o desejo de conhecer o que se passava nas avenidas X* e A*, sobrepujando o medo que a atormentavam, conservaram-se ao parapeito das janelas, ou do interior do prédio rumaram ao parapeito, os olhares a convergirem para Massa Bruta.

Um garoto de uns doze anos, montado em uma bicicleta vermelha, tendo às costas uma mochila com o símbolo de um time de futebol espanhol, passou, lentamente, pela direita de Massa Bruta, a vinte metros dele, e, surpreendendo a todos, principalmente a Massa Bruta, e dirigindo-se a ele e atraindo-lhe a atenção, gritou a plenos pulmões:

– Você está no país errado, fórtão. Você está no Brasil, e não nos Estados Unidos!

Massa Bruta replicou-lhe, olhar petrificante a fitá-lo, com voz cavernosa, rilhando os dentes:

– Garoto idiota!

– Idiota é você, burrildo! – treplicou o garoto, sob o olhar escrutinador e terrivelmente demoníaco de Massa Bruta e os olhares temerosos das pessoas que testemunhavam a cena. – Onde você pensa que está, imbecil? Em Nova York? Você está em São Paulo, retardado – e em nenhum momento parou de pedalar, deslocando-se lentamente.

– Garoto idiota! – rosnou Massa Bruta. – Quebrarei todos os seus ossos – e deu os primeiros passos na direção do garoto de bicicleta que o tratara tão ousada e imprevidentemente sem tomar conhecimento dos seus atos.

– Ai! – exclamou o garoto de bicicleta ao ver Massa Bruta aproximando-se de si. – Meu Deus do céu! O monstrão está vindo me pegar. Caramba! Vai, bike, vai. Mais rápido! Mais rápido – e firmando os pés nos pedais, levantou-se do selim, os olhos muito abertos, mordendo os dentes, e acelerou as pedaladas. – Vai, bike, vai. Tire-me da enrascada, que eu comprarei pneus novos para você – e sentia os passos pesados de Massa Bruta aproximando-se de si.

Ziguezagueando por entre os veículos, o garoto de bicicleta, com a destreza de um ciclista profissional, deslocava-se, cada vez mais rápido, apesar dos obstáculos dos quais tinha que se desviar, sob olhares aterrorizados de muitas pessoas, que viam dele aproximar-se Massa Bruta.

– Só um milagre salvará o garoto – comentou um homem.

E Massa Bruta, esmagando carros e motos, deslocando, com o seu corpanzil disforme, ônibus e caminhões, arremessando alguns deles a vários metros de distância, corria no encalço do garoto de bicicleta, que usava todas as suas energias para dele escapar.

Massa Bruta arremessou, com o braço esquerdo, um ônibus contra um prédio.

O garoto de bicicleta acelerava as pedaladas.

Massa Bruta agarrou uma moto, e arremessou-a contra o garoto, que por puro golpe de sorte dela esquivou-se, sem que soubesse que Massa Bruta a arremessara em sua direção, no instante em que contornava, pela direita, um carro – a moto passou, zunindo, a um metro de sua cabeça, e foi colidir contra um caminhão cinquenta metros à frente.

– Diabos! – exclamou o garoto de bicicleta, assustadíssimo. – Maldito monstro! Tô perdido! Cacilda! Mamãe!

*

No prédio da emissora de televisão C*, reuniram-se Carla, Rodolfo e Larissa. Conversavam e assistiam à televisão imagens, transmitidas por telefones celulares, do que ocorria na intersecção das avenidas X* e A*. Eram as imagens impactantes; algumas registradas à distância, muitas não; todas exibiam uma parte do cenário devastado e a ação do protagonista do episódio: Massa Bruta.

– Que bicho é aquele? – perguntou Larissa, perplexa.

– Massa Bruta é o nome dele – respondeu-lhe Carla, num tom de voz tímido e inaudível.

– E o que ele quer? – perguntou Rodolfo mais para si do que para as suas colegas de trabalho.

Carla era uma morena de um metro e sessenta, magra, ossuda, quase esquelética. Diziam-lhe que ela era anoréxica, o que a irritava a ponto de fazê-la perder as estribeiras e replicar com obscenidades, levando os que lhe testemunhavam os rompantes de fúria às lágrimas de tanto gargalharem. Era atrevida e desbocada; não tinha papas na língua (ou nas línguas – diziam que ela tinha duas, como as víboras), e sempre envolvia-se em atritos com seus colegas de trabalho e seus superiores hierárquicos. Aos vinte e dois anos, solteira, diziam-lhe, excitando-lhe a bílis, que ela ficaria para titia porque nenhum homem gosta de chupar osso. “Sabem para que serve um osso?”, perguntava Carla aos engraçadinhos que lhe faziam tão desabonadores comentários, e todos dela afastavam-se, pois conheciam a resposta para a pergunta, para evitar escândalo, certos de que ela descarregaria uma enxurrada de palavras que as freiras não gostam de ouvir.

Rodolfo era um homem alto, esbelto, de um metro e noventa, com óculos a adornarem-lhe a cara de nariz adunco, lábios finos e descoloridos, testa larga, sobrancelhas espessas cujas extremidades internas tocavam-se na base do nariz. Devido a essa peculiaridade de sua fisionomia alcunharam-no Monteiro Lobato; outros o apelidaram Visconde de Sabugosa, ou Sabugo Científico, porque tinha ele o hábito – vício, diziam – de usar um vocabulário incomum e era dado a argumentações de cunho científico e filosófico acerca de trivialidades, que podiam ser explicadas com palavras comuns por todos os filhos de Deus. O seu ar apalermado e o seu jeito atrapalhado inspiraram aos colegas e amigos um apelido a ele: Clark Kent, o único sobrevivente de Kripton. “Ele tem um jeitão de alienígena”. Não eram poucas as pessoas que faziam tal observação.

Larissa, a Barbie, assim alcunhada devido às semelhanças físicas entre ela e a boneca mais famosa do mundo, sonho de consumo de onze dentre cada dez moças, era uma graciosa mulher de trinta anos que conservava a beleza de mulher de vinte, conservados todos os adornos de um belo corpo feminino de traços impecáveis. Não era uma burra das anedotas. Muitos homens a requestavam, inclusive Rodolfo, ao seu modo desajeitado. Era dotada de raciocínio ágil, e era muito agitada, quase, dir-se-ia, hiperativa; era dona de um texto ágil e persuasivo, rico de imagens cativantes, límpidas e esclarecedoras. Era desembaraçada. A sua postura sem reservas – e associada à sua beleza incomparável – intimidava muitos homens e deles ela extraía informações que nenhum dos seus colegas de profissão extraíam. Era muito bem-sucedida, e raros foram os seus fracassos nos doze anos durante os quais exerceu a profissão de jornalista.

Naquele momento, os olhares dos três jornalistas convergiam para a tela de televisão que transmitia imagens dos eventos que se desenrolavam nas avenidas X* e A* e arredores.

– De onde ele veio? – perguntou Rodolfo, referindo-se a Massa Bruta.

– Não sei – respondeu-lhe Larissa. – Sabemos apenas que ele quer dominar-nos, escravizar-nos.

– Vamos até lá – disse Carla.

– Chamem Olavo e Paulo – disse Rodolfo.

– Onde eles estão? – perguntou Larissa, olhando, rapidamente, de um lado para o outro da sala, à procura deles; não os encontrando, virou-se para Carla e Rodolfo. – Onde eles estão?

– Eles estavam aqui há alguns minutos – disse Rodolfo.

– Quando eu liguei a televisão, eles estavam aqui – disse Larissa.

– Como eles desapareceram, assim, tão de repente? – perguntou Carla, incrédula.

– Para onde eles foram? – perguntou Rodolfo.

– O sumiço deles, conveniente – comentou Larissa.

*

Pela avenida A* deslocava-se, de bicicleta, o garoto. E dele Massa Bruta aproximava-se, e rapidamente.

Um caminhão rumou, em alta velocidade, na direção de Massa Bruta. Quando distava dez metros dele, o motorista saltou para fora do caminhão, que colidiu contra o monstro disforme. E o garoto de bicicleta pôde distanciar-se de Massa Bruta, que ergueu, com as duas mãos, o caminhão, como se erguesse uma bolha de sabão, e arremessou-o na direção de um prédio.

O estrondo, ensurdecedor.

E Massa Bruta procurou pelo garoto de bicicleta.

– Onde você se escondeu, garoto idiota?

Não o encontrando, circunvagando o olhar pelos arredores, voltou a sua atenção ao homem que dirigia o caminhão.

– Onde está quem dirigia o caminhão? – perguntou em alto brado. – Apareça, covarde!

Tatu Bola e Taco de Baseball enfrentam Massa Bruta – parte 1 de 8

Capítulo 1

E surge Massa Bruta

Naquela quarta-feira ensolarada, às sete horas da manhã, fez-se ouvir um estrondo, no centro da cidade de São Paulo, no cruzamento das avenidas X* e A*. E a terra tremeu. As pessoas, num raio de cinquenta metros, sentiram os tremores, mas não atinaram com a sua causa, e entreolharam-se, intrigadas e curiosas, perguntando-se cada uma delas para si e umas para as outras qual era a origem do estrondo e dos tremores que ao estrondo se seguiram. Não ocorrendo nenhum outro tremor que se sobressaísse ao azáfama reinante àquela hora do dia, as pessoas que tiveram a atenção desviada para o estrondo seguido de tremores, tornaram a dedicá-la ao que as ocupavam antes do estrondo e dos tremores que se lhe sucederam, e seguiram cada uma o seu rumo. Era como se a metrópole paulistana, a maior metrópole do hemisfério sul, nada houvesse sentido. No seu ritmo normal seguia a cidade de São Paulo, e as pessoas ocupavam-se com as suas incumbências. O trânsito ia em ritmo acelerado. Carros, caminhões, ônibus, motocicletas trafegavam, incessantes, ocupando todos os espaços das avenidas X* e A*. Motocicletas passavam por entre carros, caminhões e ônibus, os motoqueiros a arriscarem-se. A prudência não era uma virtude que eles alimentavam. A cidade de São Paulo, metrópole cosmopolita, de todas as culturas, de todas as etnias, de todas as crenças, de todas as cores, animada e barulhenta, atrai, de todos os quadrantes do Brasil e de todos os rincões do universo, pessoas dos mais diversos credos, dos mais distintos idiomas.

Não haviam decorridos dois minutos do estrondo e dos tremores de terra, outro estrondo se fez ouvir, e se lhe seguiram tremores, mais intensos do que os anteriores, e os sentiram as pessoas que se encontravam, tendo o centro no cruzamento e nas proximidades das avenidas X* e A*, num raio de cem metros. Os carros que passavam pelo entroncamento das avenidas X* e A* deram um ligeiro solavanco, e surpreenderam-se os seus ocupantes; e desequilibraram-se alguns ciclistas que passavam a menos de vinte metros do epicentro dos tremores – um deles, perdendo o equilíbrio, caiu no meio-fio da calçada, e escalavrou o joelho direito; e pessoas que andavam pelas calçadas dos quarteirões próximos, e achavam-se não muito distantes do entroncamento das avenidas X* e A*, detiveram-se, intrigadas e assustadas, e olharam de um lado para o outro, todas a perguntarem-se o que ocorrera.

– Um terremoto – sugeriu um homem, que aparentava a idade de quarenta anos.

– Aqui em Sampa? – perguntou-lhe o que com ele conversava. – Não estamos em Tóquio – comentou, bem-humorado.

– Estranho o estrondo… E os tremores… – balbuciou o homem que aparentava quarenta anos.

Não bem o homem que aparentava quarenta anos encerrou o seu comentário, ouviu-se um estrondo estrondejante, tendo como núcleo o cruzamento das avenidas X* e A*, e os tremores que se seguiram espalharam-se por um raio de mil metros. E no entroncamento das avenidas X* e A* rompeu-se o asfalto de baixo para cima, e blocos imensos foram arremessados em todas as direções, e o que foi lançado mais longe, passou, como um míssil, por toda a extensão da avenida X*, percorreu quinhentos metros, e atingiu um carro, amassando-o, e deslocou-o, em decorrência da força do impacto, dois metros. Carros, na interseção das avenidas X* e A* foram revirados, e alguns arremessados a alguns metros de distância, e um ônibus tombou, e um caminhão, atulhado de legumes e verduras, que passava pelo cruzamento das avenidas X* e A* no exato momento em que o asfalto rompeu-se de baixo para cima, foi arremessado a vinte metros de distância. Uma nuvem de poeira e detritos, e fumaça, e água, que foi cuspida dos encanamentos rompidos, e faíscas, que sibilaram dos cabos cortados, subiu e dominou todo o entroncamento das avenidas X* e A* e considerável extensão delas. Pessoas gritavam e corriam. Várias pessoas estavam machucadas, umas, com ferimentos superficiais, outras tiveram fraturadas pernas e braços. Uma mulher, atingida, no peito, por um estilhaço, arrastava-se no chão, e berrava de dor – ela não conseguia levantar-se, e ninguém a acudiu tamanha a turbamulta. Muitas pessoas, confusas, corriam – as que podiam correr – de um lado para o outro. Ninguém sabia o que ocorrera. Muita gente zanzava de um lado para o outro, desorientada, as mãos às orelhas, ensurdecidas, olhares perdidos, sem saber o que pensar. Esvaiu-se em sangue um homem, a carótida lacerada por um estilhaço cortante – escabujou, nos seus derradeiros instantes de vida; uma jovem morena, na idade de dezessete anos, ao fitá-lo, berrou, ensandecida, apavorada. Um carro – o motorista que o manobrava perdeu o seu controle – da avenida X* passou para a calçada da avenida A*, e premiu contra o muro de um prédio dois homens, matando um deles, e ferindo, gravemente, o outro. Os vidros dos prédios cuja face dava para a intersecção das avenidas X* e A* estilhaçaram-se, uns, com o impacto de pedaços do asfalto rompido, pequenos uns, grandes outros, que foram arremessados para todas as direções, ou três, em decorrência de ondas de choques provenientes da explosão. Algumas pessoas atingidas por cacos de vidro feriram-se gravemente, outras tiveram ferimentos epidérmicos. Dispararam alarmes de vários carros estacionados ao longo das avenidas X* e A* e de ruas não muito distantes. Centenas de milhares de pessoas detiveram-se, e perguntaram-se o que ocorrera. E ninguém tinha uma explicação para o ocorrido. E ampliava-se e adensava-se a nuvem de pó, fumaça, detritos, água e faíscas.

Espalhou-se a notícia. Algumas pessoas, que se recompuseram do susto, de posse de um telefone celular, apontaram a câmera dele para a nuvem, e as imagens, de inúmeros ângulos, do chão, de dentro de prédios e do topo de prédios espalharam-se via internet, redes sociais, instantaneamente, por todo o mundo, que tomava conhecimento do evento que se desenrolava num entroncamento de duas avenidas situado no centro da cidade de São Paulo.

E o tempo passava.

O pó e os detritos regressavam ao chão. E reduzia-se de tamanho a nuvem. E do seu interior revelou-se aos olhos de todos os curiosos que convergiam para o cruzamento das avenidas X* e A* uma criatura humanóide de quatro metros de altura, musculosa, disforme, indescritível. Suas coxas e braços, da espessura de um homem adulto, espadaúdo, halterofilista; suas mãos, imensas, de veias intumescidas; seus ombros, largos – de um ombro ao outro ombro tinha, calculava-se, dois metros; seu tórax, amplo, da espessura de mais de um metro; sua cabeça, calva; suas orelhas, pequenas; seu nariz, pequeno e achatado; seus olhos, ocultos sob sobrancelhas espessas, peludas.

O primeiro ato da criatura, assim que ela deu os primeiros passos sobre o asfalto rachado: Agarrou, com a mão direita, um carro, ergueu-o como se erguesse uma pena de canarinho, e arremessou-o, sem esforço, contra um helicóptero, que passava, naquele instante, a duzentos metros de altura, a trezentos metros de distância, atingindo-o. Explodiram o helicóptero e o carro. Assim que o helicóptero atingiu o chão, ouviu-se outra explosão; e ouviu-se outra explosão quando o carro atingiu um posto de combustíveis. Morreram os dois tripulantes do helicóptero, os quatro ocupantes do carro e três pessoas que estavam no posto de combustíveis.

A criatura humanóide, intumescidos todos os seus vasos sanguíneos, contraídos e enrijecidos todos os seus músculos, inflado seu tórax, ergueu a cabeça, e gritou. O seu grito, altissonante, grave, cavernoso, agourento, o ouviram à distância de vários quilômetros. Cessado o grito, rilhou a criatura os dentes, e proferiu as sentenças:

– Curvem-se, humanos, diante do Conquistador! Curvem-se diante do deus que veio para escravizá-los! Curvem-se diante de Massa Bruta! – e bateu as duas palmas, abertas, uma contra a outra, deslocando o ar, arremessando dezenas de pessoas a vários metros de distância. – Humanos, eu vim para conquistar o mundo! Curvem-se diante de Massa Bruta, covardes! Curvem-se diante de Massa Bruta, o Conquistador!

O dia em que os robôs decidiram exterminar os humanos

Há décadas os humanos inventaram máquinas inteligentes. Elas se voltarão contra os seus criadores? E criadores e criaturas travarão batalhas pelo domínio do planeta? Os criadores suplantarão as suas criaturas? As criaturas sobrepujarão os seus criadores? Os eventos aqui narrados responderão tais perguntas. No futuro não muito distante sucederam-se incidentes que responderão às perguntas que afligem, nesta era, os humanos. Nas próximas linhas, relatarei fatos, que os humanos desta era não podem prever, os quais eu, um homem da minha era, lhes posso revelar.

Deu-se na América do Norte a primeira escaramuça entre humanos, robôs e andróides. Sem prévio sinal, os robôs principiaram os ataques, surpreendendo os humanos. E nenhum humano ousou, informado dos primeiros combates, vaticinar o desenrolar e o desenlace da guerra que se principiava. Surpreenderam-se todos com a notícia: Na América do Norte, na megalópole de Washington, robôs e andróides batiam-se entre si e robôs atacaram humanos. Não havendo, nesta era em que estamos, já avançada em muitos aspectos, máquinas visionárias, os humanos, repito, nada podem saber do futuro; eu, digo uma vez mais, um homem da minha era, posso relatar os eventos que se sucederam daqui alguns séculos.

Principiaram-se, repito, os conflitos, que logo recrudesceram e assumiram proporções bíblicas, primeiro, na megalópole de Washington, capital dos Estados Unidos da América, a nação soberana mais poderosa do mundo, e, na sequência, nas cidades de Tóquio, no Japão, e Bombaim, na Índia. Não ignoram os homens da minha era algumas peculiaridades de alguns eventos inusitados, intrigantes e surpreendentes que antecederam o início da sublevação dos robôs, eventos que não foram previstos pelos serviços de inteligência humana e que se sucederam, rapidamente, na antevéspera e na véspera da eclosão dos ataques dos robôs contra andróides e humanos.

Congregações de robôs poderosos, imbuídos de extraordinário talento de persuasão, adicionaram às suas hostes, às escondidas, milhares de humanos ao incutir-lhes ânimo revolucionário e aversão à civilização humana. E sublevaram-se. E converteram a megalópole de Washington num campo de batalha. Avassalaram Washington. Destruíram bairros inteiros. Reduziram a escombros prédios imensos e arranha-céus grandiosos e construções dos séculos dezoito, dezenove, vinte e vinte e um. Desmantelaram estátuas e palácios.

O ataque, planejado com elaboradas estratégia e tática, desfecharam-no os robôs à perfeição. Os robôs saíram incólumes dos primeiros entreveros, excetuados algumas dezenas deles, que foram avariados, mas não a ponto de serem inutilizados; e foram da ordem das centenas de milhares os humanos mortos.

Os andróides, em resposta ao repentino ataque desfechado pelos robôs, organizaram-se, e constituíram, em questão de horas, um grupo distinto, independente, poderoso, e baterem-se com os robôs e com os humanos aliados dos robôs, e sobrepujaram, em algumas batalhas, algumas memoráveis, os seus adversários; decididos a se conservarem independentes, não propuseram, no início, alianças nem aos humanos, tampouco aos robôs, mas dado o caos que se instalou não muito tempo após o início dos confrontos, misturando-se as personagens, aliaram-se aos humanos que lutaram contra os robôs.

Sucederam-se os eventos, numa sequência tão estonteante, que sou incapaz de reproduzir o, e mal posso dar idéia do, que ocorreu naquele dia, um dia que os humanos das eras que se sucederam à minha era e os humanos da minha era desejamos esquecer, o dia que poderia ter sido o último dia da existência da espécie humana, o seu epílogo. Vaticinou muita gente um futuro sombrio para os humanos, futuro que não se concretizou. Suspeita-se que os robôs alimentaram, durante décadas, séculos talvez, sentimentos antagônicos pelos humanos, seus criadores, deles conservando-os ocultos por meios que os mais eminentes estudiosos da robótica desconhecem.

E sucederam-se as batalhas. A guerra assumiu proporções inabarcáveis e aspectos indescritíveis. Imbricaram-se os grupos em conflito. Os desencontros de informações confundiram os humanos. Humanos associaram-se aos robôs, impelidos por sentimentos de apreço por eles e de desapreço pelos humanos; outros, em favor de interesses pessoais, para obtenção de vantagens, não se acanharam em produzir prejuízo aos humanos. Facções de andróides lutaram entre si. Facções de humanos batiam-se umas contra as outras. Facções compostas de andróides e humanos declararam guerra, umas, aos robôs, outras, aos humanos, outras, aos andróides. Facções constituídas de robôs e andróides tinham, umas, nos andróides, os inimigos, outras, nos humanos. Facções cujos integrantes eram robôs e humanos estavam, umas, decididas a exterminar os andróides, outras, os humanos. Das três espécies envolvidas nos conflitos, a dos robôs era a única que não estava debilitada por facções rivais, visceralmente hostis umas às outras; daí ser bem-sucedida em todas as batalhas que travou contra as suas duas espécies inimigas, que, ocupadas, ambas, com o inimigo em comum, a espécie dos robôs, tinham de se haverem contra as facções rivais que surgiam no seu próprio seio.

Degradaram-se, logo nas primeiras horas após o início dos combates, as condições de sobrevivência, na megalópole de Washington, e, não muito depois, em Bombaim e em Tóquio. Nas precárias condições de subsistência às quais se reduziram, milhões de indivíduos não encontravam provisões para suprir as suas necessidades imediatas, cortados os canais de comunicação entre produtores, fornecedores, distribuidores e consumidores. E logo escasseou, nas prateleiras dos supermercados, os víveres, levando ao desespero as pessoas que deles estavam privadas. A escassez de alimentos, que já ocorrera, num momento em que Bombaim, e toda a Índia, enfrentava a carestia, aprofundaria a fome; e o medo, o desespero e o terror logo espalharam-se por todo o país hindu e pelo sudeste da Ásia. E a notícia das conflagrações nas três megalópoles logo alcançou todos os pontos do mundo, conectados numa rede de informações que alcança os rincões da América do Sul, da Ásia e da África. E as imagens do morticínio as viram todos os humanos. E instalou-se o caos em toda a civilização.

Das três espécies em conflito era a humana a mais numerosa e a mais melindrosa; os robôs, os menos numerosos, os mais resistentes e os que tinham o controle de todas as máquinas e, praticamente, o governo da civilização, pois estavam presentes em todos os sistemas mecânicos; e os andróides eram dotados da fragilidade humana e da resistência robótica.

Na órbita da Terra, além da Lua, numa grandiosa estação espacial, os líderes das nações desnortearam-se assim que lhes notificaram dos conflitos que eclodiram na Terra. Aterrados, estupidificados, preocuparam-se com a proliferação de sublevações, que grassavam na Terra, e que logo, previram, soturnos, eclodiriam na estação espacial, ou após um dia, ou dois dias; não vislumbraram o futuro imediato isento de conflitos compostos dos mesmos ingredientes que constituíam os que se davam na Terra. As relações entre as três espécies deterioraram-se assim que as notícias chegaram à estação espacial. Fitavam-se, desconfiados, os indivíduos das três espécies. E humanos, dadas as notícias de associação, na Terra, entre humanos e robôs, e as de andróides e robôs, suspeitaram de humanos e dos andróides, e viram os robôs como inimigos viscerais. Muitas amizades não sobreviveram às suspeitas; logo romperam-se os laços de confiança entre os humanos. E deu-se, simultaneamente, a desconexão entre os criadores, os humanos, e as criaturas, os andróides e os robôs.

Sob o império do medo, alvoroçaram-se os humanos, impotentes diante da revolta dos robôs e seus aliados humanos e andróides. E perturbava-os a perspectiva de sucessivos ataques.

Pronunciaram-se, em rede mundial, os presidentes das principais nações. Pretendiam reconfortar os humanos. Enquanto isso, seus secretários e os estrategistas militares tratavam, nos escritórios secretos, de estabelecer estratégias de retaliação aos ataques desfechados pelos robôs e seus aliados humanos e andróides e de antecipação aos que eles planejavam.

E desenrolou-se a guerra num crescendo assustadoramente rápido. E os humanos não encontraram meios de conter os revoltosos. E logo os conflitos estouraram nas megalópoles de São Paulo e de Manaus, no Brasil; Buenos Aires, na Argentina; Novo México, no México; Xangai e Pequim, na China; Johannesburgo, na África do Sul; Cairo, no Egito; Berlim, na Alemanha; Londres, na Inglaterra; São Petersburgo, na Rússia; Paris, na França; Sidnei, na Austrália; Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos; Calcutá, na Índia; Seul, na Coréia do Sul; Lagos, na Nigéria; Jacarta, na Indonésia; Karachi, no Paquistão; e Dacca, em Bangladesh. De todas estas megalópoles a de Manaus foi a primeira que os robôs atacaram.

Soubemos os humanos, então, qual robô liderava as sublevações: Dragão Cinzento, assim alcunhado devido à cor do seu corpo. E os humanos o rebatizamos de Nêmesis. Sabíamos, agora, os humanos, quem teríamos de combater; quem teríamos de caçar, mas estávamos, sabíamos, um passo atrás dele; sabíamos que, se destruído (alguns disseram ‘morto’) Nêmesis, poderíamos restituir a ordem e restabelecer a paz, mas não sabíamos como fazê-lo; além de poderoso, Nêmesis era protegido por inúmeros robôs. Era Dragão Cinzento um robô enorme; seu formato, assemelhado ao do corpo humano, era repleto de arestas. Tinha ele quatro metros de altura. Integrava, até antes da revolta dos robôs, uma equipe de robôs atletas. Era o mais avançado deles; suplantava todos os outros robôs, em todas as competições esportivas de robôs. As suas realizações esportivas atraíram-lhe a atenção de humanos de todos os quadrantes do universo. Era um robô espetacular, uma das maravilhas da tecnologia. Os humanos o admirávamos, e todos os outros construtores de robôs esforçavam-se, em vão, durante as duas décadas de domínio absoluto de Dragão Cinzento, para construir um robô tão poderoso quanto ele, outros, um que o sobrepujasse em todas as modalidades esportivas. Nas corridas, ele era o mais rápido; atingia a velocidade de mil, duzentos e oitenta quilômetros por hora; nas corridas de mil metros de extensão, ele chegava ao fim da pista enquanto o robô que ia logo após ele mal tinha coberto oitocentos e cinquenta metros. Na maratona de mil quilômetros, ele era inigualável; quando ele a concluía o robô que, após ele, tinha o melhor desempenho, encontrava-se na altura do quilômetro novecentos e vinte. Na competição de salto em distância, ele pulava dois mil, quatrocentos e sessenta e dois metros, e na de salto em altura, setecentos e noventa e um metros, enquanto o seu principal rival, na primeira, saltava mil, novecentos e oitenta e sete metros, e, na segunda, seiscentos e noventa e cinco metros. Arremessava uma esfera compacta de uma tonelada de peso a mil e duzentos e trinta e três metros de distância. Era imbatível em todas as competições. E foi este robô que, soubemos os humanos, para a nossa surpresa, frustração, desilusão e desgosto, comandou as hostes de robôs rebeldes contra os humanos. Ao conhecermos a identidade do robô que conclamava os robôs à luta, cooptava andróides e humanos à sua causa apocalíptica, os humanos nos perguntamos quais foram as razões que o impeliam a se voltar contra os humanos, que tanto o admirávamos. A nossa admiração por ele não encontrava limites, e muitos dentre nós recusaram-se a acreditar que ele agia por vontade própria e suspeitavam que o criador dele, o qual desconhecíamos, lhe havia injetado programação hostil aos humanos, desculpando ele, Dragão Cinzento, agora Nêmesis, de todos os crimes que cometeu. Estarrecidos, não sabíamos o que pensar. Atormentados, prefigurávamos um futuro escatológico dentro de pouco tempo, se não se barrasse o avanço dos robôs.

Em seu ataque a Manaus, os robôs, primeiro, a alvejaram com saraivada de bólidos explosivos, que lhe abriram, nas avenidas, nas ruas, nos parques e nos jardins, crateras, e arruinaram prédios, casas, estádios, reduzindo muitos deles a cinzas; e as chamas dominaram vastas regiões da megalópole. E morreram, carbonizados, centenas de milhares de humanos, e, sufocados pela fumaça, outros centenas de milhares, e outros centenas de milhares esmagados sob os escombros; e, atropelados e pisoteados naquela turbamulta indescritível, outros dezenas de milhares; e outros milhares afogados; e de parada cardíaca fulminante, tamanho o horror que os aterrorizaram, morreram outros milhares de humanos. Em seguida, dispararam os robôs, contra Manaus, uma chuva de flechas elétricas, que eletrocutaram os que elas atingiram, e, cravados nos corpos, dispararam faíscas eletrificadas, que atingiram outros humanos e os carbonizaram. E fez-se o pandemônio. As pessoas corriam sem destino, apavoradas, aterrorizadas, a fim de escapar aos bólidos e às flechas, e abrigavam-se nos prédios, que mal lhes ofereciam proteção, pois, atingidos por inúmeros bólidos explosivos, ruíram, e os que não ruíram, arderam em chamas, que queimaram muitas pessoas, e, estilhaçados, os vidros das suas janelas, feriram e mataram muita gente; e destroços caíram sobre muitas pessoas que nos prédios buscaram refúgio, matando-as. E intensificaram os ataques os robôs após a primeira salva de disparos de bólidos explosivos e flechas elétricas. E multiplicaram-se por dez os mortos.

Uma explosão ensurdecedora, seguida, em intervalos de menos de um segundo, de outras quatro, enublaram o céu de Manaus, naquele dia ensolarado. E predominou a escuridão fúnebre. Dos ares convergiram para Manaus milhares de robôs voadores, que arrostaram os humanos e os andróides, matando-os às centenas de milhares ao alvejá-los com partículas corrosivas. Das intrincadas tubulações do subterrâneo da megalópole emergiram robôs de variados tipos e tamanhos. Os robôs provocaram um êxodo de milhões de humanos e andróides rumo aos municípios vizinhos, que transbordaram de pessoas, e não eram capazes de oferecer-lhes abrigos e víveres, de atenderem aos feridos, e de conterem os afetados por surto psicótico. Rechaçaram os robôs os poucos policiais, que, mesmo empunhando armamentos potentes, não podiam lhes impor resistência. De inúmeros locais da América do Sul convergiram para Manaus tropas humanas, e os robôs sublevados, associados a humanos e andróides revoltosos, as rechaçaram.

Um prédio de mil metros de altura, dardejado por milhares de raios, ruiu. Morreram, durante o ataque, e enquanto o prédio ardia em chamas e ruía, três dezenas de milhares de pessoas. Reduziu-se o prédio a escombros. Milhares de toneladas de metais retorcidos, concreto, móveis, vidros, plásticos, inúmeros tipos de polímeros e outros materiais amontoaram-se onde antes havia um dos maiores prédios jamais construído. E estilhaços foram arremessados a centenas de metros de distância, e muitos deles atingiram pessoas, matando-as; e uma nuvem de fumaça constituída de detritos elevou-se no céu de Manaus, alcançando, em pouco tempo, a altura de dois quilômetros e ocupando a área num raio de mais de cinco mil metros. A força do deslocamento do ar que se sucedeu à queda daquele imenso edifício ceifou a vida de milhares de pessoas. Muitos corpos foram carbonizados. Muitos desapareceram sob a pressão de toneladas de materiais que constituíam a estrutura de tão majestoso edifício. Os desaparecidos contam-se na casa dos milhares. Via-se, em diversos pontos da megalópole, dezenas de milhares de pessoas machucadas, umas com ferimentos profundos, outras carregando ferimentos superficiais, o rosto de todos transparecendo medo e dor. Homens e mulheres, idosos, adultos, jovens, crianças e recém-nascidos, exibiam machucados em um ou mais pontos do corpo; uns traziam, quebrada, a perna, a direita ou a esquerda, outros, quebradas, as pernas, uns, quebrado, um braço, ou o direito, ou o esquerdo, outros, quebrados, os braços, uns, decepada, uma das mãos, outros, decepadas, as duas mãos. Todas as pessoas choravam, gritavam, gemiam, berravam. Não eram poucas as que estertoravam espasmodicamente. Muitas traziam, embargados, os olhos, outras, disforme, o rosto. De algumas pessoas foram suprimidos todos os traços humanos. Distinguiam-se, muitas, pela aparência, bizarra a de umas, fantasmagórica a de outras, teratológica a de centenas, em decorrência dos ferimentos que lhes recortavam o corpo, desfiguraram o rosto, e do terror-pânico que as avassalava. Havia, espalhados pela megalópole, corpos estraçalhados, cabeças, pernas e braços, vísceras, e poças de sangue estagnado, e cadáveres de humanos e de animais. E não haviam transcorrido duas horas, Manaus já estava reduzida a escombros, crateras, cadáveres, metais retorcidos, e poucos eram os sobreviventes, raros deles os ilesos, todos impotentes, indefesos, naquele pandemônio, que se lhes afigurava o inferno.

Manaus, outrora exuberante, esplendorosa, converteu-se numa carcaça fétida, infestada de cadáveres, enfumaçada, ardendo em fogo, explosões a ribombarem em milhares de pontos.

Helicópteros e aviões sobrevoaram Manaus. Recolheram os vivos, humanos e animais, e os levaram para outras cidades.

Enquanto o povo, amargurado, sofrido, desesperançado, imergia num oceano de lágrimas, governantes, impotentes, em palestras intermináveis, tratavam da retaliação aos robôs. Não foram poucos os que propuseram a capitulação. Autoridades de alta patente, condecorações a vergarem-lhes a espinha, propuseram o ingresso de tropas humanas nas hordas robóticas, e tal proposta a rechaçaram, terminantemente, todos os homens de brios. As escaramuças verbais estendiam-se indefinidamente, e os que nelas envolveram-se, alertaram os sensatos, desperdiçavam tempo precioso, que poderia ser ocupado com propostas realistas, que iriam ao encontro de ações que redundariam no combate efetivo aos robôs revoltosos e seus aliados humanos e andróides – ações dificultadas, para alguns impossibilitadas, devido à destruição, pelos robôs, dos arquivos dos serviços de inteligência. As controvérsias redundaram, e não poucas vezes, em agressões físicas.

Devastada Manaus, sobreveio a histeria; e a carnificina; dentre os sobreviventes, muitos, perdida a razão, caçaram e mataram crianças, e, com voracidade insaciável, as devoraram, numa exibição gritante de animalidade; deles excluído todo vestígio humano, converteram-se em seres bestiais, dotados de ferocidade irrefreável. Nunca os humanos haviam se reduzido à condição tão deplorável, num intervalo tão curto de tempo. Somos os humanos tão fracos, que sucumbimos tão facilmente, tão rapidamente, à nossa animalidade? Muita gente concluirá: Sim, somos extraordinariamente frágeis, insignificantes. E eu tenho de divergir de todos os que chegarem a tal conclusão. Vivi experiências terríveis durante a sublevação dos robôs, e nos dias, semanas, meses e anos subseqüentes. Chegaram ao meu conhecimento histórias protagonizadas por indivíduos diabólicos, emergidos das catacumbas do inferno, saídos do ventre do Diabo. Aterrorizaram-me tais relatos, muitos deles, proverbiais, eternizaram-se na memória dos humanos, e, encadeados, compuseram poemas escatológicos. São inspiradoras, no entanto, outras histórias, cujos protagonistas eram, uns, heróis, outros, sábios, indivíduos dotados de coragem rara e de um senso de dever moral e de amor à vida que engrandece e enaltece, com provas inegáveis, a espécie humana. Histórias que me persuadiram de que nos inspira uma parcela da inteligência divina. As personagens que animam tais relatos encheram de esperança os sobreviventes, que não desistiram de seguir com a vida. São extraordinárias, grandiosas; as suas façanhas heróicas as relataram poetas e prosadores primorosos, que as souberam transpôr, os primeiros, para poesias heróicas e épicas, e os segundos, para a prosa ática. No momento em que a história exigiu-lhes sacrifícios, elas atenderam aos seus deveres com denodo, fazendo-se, ouso dizer, deuses, e em homenagem a elas esculpiram-se estátuas que representam, delas, a grandiosidade dos tipos e dos feitos. E as cultuamos os humanos.

Um homem, meu amigo, cujo nome não dou a conhecer, em respeito a ele e para preservar-lhe a reputação de homem digno que ele conquistou com as suas ações heróicas desde muito antes da tragédia que se abateu sobre a humanidade e com a coragem que exibiu no enfrentamento das adversidades, e em consideração por sua memória, meu amigo, prossigo, aquele homem nobre e digno, reduzido à bestialidade, não muitos dias após a destruição de Manaus, locomovia-se como os símios e grunhia e rosnava como uma fera. Um espetáculo indizível. Aterrorizadora, a rapidez da sua regressão à inumanidade. Não foi este o único indivíduo que eu conhecia que se converteu num ser abjeto; e muitos deles eram, até então, corretos. E não foram poucos os que assumiram uma dimensão heróica, grandiosa, quando os contratempos sucederam-se. São estes heróis anônimos. Merecem ter seus nomes escritos no panteão dos heróis e seus bustos exibidos, para admiração pública, em todos os palácios, mas a história não lhes registrou os nomes, tampouco o rosto. O valor deles, todavia, engrandece a espécie humana.

A ajuda enviada a Manaus reconfortou muita gente, mas estava aquém do mínimo indispensável para restabelecer a ordem.

Prendi-me, neste meu relato, nos eventos que se sucederam em Manaus; pouco, ou nada, eu disse do que se deu em Washington, Bombaim e Tóquio porque sou um dos sobreviventes de Manaus. Vivi experiências terríveis, vi cenas indescritíveis, presenciei atos inenarráveis. E, para não sonegar informações acerca do sucedido em Washington, Tóquio e Bombaim, as três primeiras megalópoles que se defrontaram com robôs, e tampouco a respeito das outras megalópoles que já mencionei, digo, e, presumo, muitos que me ouvem prevêem o teor das minhas palavras: todas as megalópoles tiveram o mesmo destino de Manaus: a aniquilação. E poucos foram os sobreviventes. E o êxodo, bíblico.

E pronunciaram-se os governantes, que, desarvorados, conclamaram os humanos à renovação da esperança. Vaticinaram dias melhores. Noticiaram as providências já tomadas, e as que tomariam, para o enfrentamento aos robôs e aos humanos e aos andróides que a eles aliaram-se. Poucos foram os que se persuadiram da substância alvissareira dos discursos. Até então foram baldados todos os esforços despendidos, pelos humanos, na contenção dos revoltosos, e raríssimos eram aqueles que, diante dos fracassos fragorosos das ações humanas, orquestradas nos altos escalões dos governos das mais poderosas nações, nutriam a esperança de presenciarem uma reversão no rumo dos acontecimentos.

Vaticinaram os profetas o extermínio dos humanos, a extinção da vida, o fim do mundo. As palavras escatológicas dos anunciadores do apocalipse ecoaram nos ouvidos receptivos de centenas de milhões de pessoas, que, caídos num precipício de desespero, de horror, anteviram o futuro que para elas estava reservado, e sucumbiram, umas, na apatia e indiferença debilitantes, outras, na descrença, e outras, na passividade suicida, todas, sem forças, delas eliminado o ânimo que lhes permitiria reagir às adversidades que teriam de encarar nos dias que se aproximavam; não foram poucas as que integraram seitas, que lhes exigiram a doação de todo o patrimônio e o subseqüente suicídio; e muitas foram as que atenderam às exortações dos oportunistas, que se apresentaram como gurus revestidos da sabedoria universal dos deuses que governavam o cosmos, dos quais receberam o olho que tudo vê, e tudo sabe, olho de propriedades espirituais, olho que vê além, no tempo, e no interior do espírito, olho conhecedor do destino de todos e de tudo o que está registrado no livro da vida. Com discursos com tal conteúdo, os vigaristas conquistaram milhões de prosélitos, que lhes encheram as burras de ouro, tornando-os os homens mais ricos do mundo, os quais, nos anos subseqüentes, ostentaram riqueza que em nenhuma outra época da história da civilização alguém havia conseguido amealhar, e com ela promovem políticas do próprio interesse, reprováveis, e obrigam chefes de estado curvaram-se perante eles, e espoliam os povos de suas riquezas, cavando um fosso entre os que se banqueteiam, em castelos suntuosos, com refeições nababescas e o povo, cuja alimentação mal lhe dá o mínimo que lhe permite a subsistência, e cujas residências, tugúrios pestilenciais, não lhe oferecem o mínimo de conforto.

Os robôs subjugaram e capturaram milhões de humanos e andróides, e os conduziram às entranhas labirínticas das megalópoles e os reduziram à escravidão, e os submeteram, sem alimentos, a trabalhos exaustivos, até esgotarem-se-lhes as forças, e tombarem, vivos, uns, mortos, outros; os mortos, eles os cremaram, e os vivos, inúteis agora, eles os mataram, enfiando-lhes, no peito, uma lâmina, e os esquartejando, e, ato contínuo, cremando-os. Os robôs não queriam humanos vivos: Matariam os robôs todos os humanos, e os cadáveres eles os cremariam, e dos humanos não sobraria nenhum vestígio.

Em conciliábulo, Nêmesis e seus subordinados imediatos urdiram outros ataques aos humanos, e anteciparam-se às retaliações que os humanos lhes preparávamos, e as anularam, pois conheciam os planos que os humanos concebíamos contra eles.

Cientistas explicaram aos estrategistas militares o funcionamento de Nêmesis, sua programação, sua tecnologia, o seu nível de inteligência, o seu grau de independência, os recursos que lhe permitiam se aprimorar dispensando-se a participação humana, quais alterações em si mesmo ele já se havia feito, ampliando a sua inteligência, estreitando as suas conexões com outros robôs.

Os olhos de Nêmesis coruscaram, dispararam faíscas vermelhas. Nêmesis rilhou os dentes ao indagar de um eminente cientista, seu prisioneiro, quais planos os humanos urdiam contra os robôs. Deparando-se com a recusa dele em elucidar-lhe as dúvidas, esmigalhou-lhe as mãos. O cientista gritou, estrebuchou. E tão dolorosas lhe eram as dores que, assim que Nêmesis deixou-o só, enforcou-se.

Nêmesis, algoz dos prisioneiros, deleitava-se, se assim posso me referir a um robô, com o sofrimento que lhos infligia. Para ele, os berros deles eram melopéias, e o sangue que eles expeliam pelos ferimentos, néctar, que ele degustava, inebriado.

No oceano Pacífico, no hemisfério norte, distante trezentos quilômetros da América, há plataformas marítimas flutuantes, nas quais vivem quinhentos milhões de pessoas, e nas do hemisfério sul, na extremidade sul da América do Sul, vivem trezentos milhões de pessoas. Tais plataformas marítimas são densamente povoadas. Algumas plataformas marítimas itinerantes, a maior de raio de duzentos quilômetros, abrigam setenta milhões de pessoas. E algumas megalópoles submarinas são igualmente populosas.

Nas pontes, protegidas por extensos e enormes tubos de vidro transparente, sobre os oceanos, veículos trafegam, voando à altura de um metro e à velocidade de até trezentos e sessenta quilômetros por hora. Tais pontes ligam plataformas marítimas flutuantes e megalópoles submarinas, e à margem delas há restaurantes, cinemas, hotéis, lanchonetes, parques de diversões e diversos outros estabelecimentos.

É possível, nos dias tempestuosos, admirar os vagalhões colidindo contra o tubo de vidro transparente que envolve as pontes e as abóbadas que protegem as plataformas marítimas flutuantes.

E no oceano Índico há quatro dezenas de plataformas marítimas flutuantes e seis dezenas de megalópoles submarinas. As maiores megalópoles submarinas estão situadas ao sul da Índia. Há, nas proximidades de Madagascar, duas imensas plataformas marítimas flutuantes, cada uma delas habitada por mais de cem milhões de pessoas.

No Oceano Atlântico, entre a América do Sul e a África, há três dezenas de plataformas marítimas flutuantes e três dezenas de megalópoles submarinas (na mais populosa megalópole submarina vivem cinquenta milhões de seres humanos), e há, no hemisfério norte, duas megalópoles submarinas, cada uma delas habitada por quarenta milhões de humanos, e imensas plataformas marítimas flutuantes a duzentos quilômetros a oeste de Portugal, e uma, habitada por cento e vinte milhões de pessoas, situada a trezentos quilômetros a leste da Groenlândia. A maior das megalópoles submarinas localizadas, no Oceano Atlântico, no hemisfério norte, tem uma população estimada em cento e oitenta milhões de pessoas, e a maior situada no hemisfério sul, sessenta milhões. E não são estas as únicas megalópoles submarinas cuja população é superior aos cinquenta milhões de habitantes; há outras quatorze.

Além das plataformas marítimas flutuantes e das megalópoles submarinas, há quatro plataformas aéreas, uma localizada ao oeste dos Estados Unidos, uma, ao leste do Japão, uma, ao oeste da Europa, e uma ao sul da Índia; a mais populosa, a do oeste dos Estados Unidos, tem uma população de cento e setenta milhões de pessoas. Forneço tais dados para que vocês possam visualizar, em imaginação, a amplitude da tecnologia, da era da qual sou originário, e conhecer as dimensões da civilização, que alcançou um estágio inimaginável pelos humanos desta era; além disso, dou, ao tratar das plataformas marítimas flutuantes, as fixas e as itinerantes, e das plataformas aéreas e das megalópoles submarinas, uma idéia, que alguns dentre vocês já conceberam, da população humana existente na era da qual sou originário, a ponto de se convencerem de que, nos anos vindouros, não será um mal o crescimento populacional, fenômeno que hoje se tem como um obstáculo, como dizem os estudiosos e os políticos, mais os políticos e os estudiosos que os secundam do que os estudiosos autênticos, à vida das outras espécies de seres vivos e à do planeta Terra. Os seus descendentes, contrariando as previsões vigentes nesta era, erigiram, num futuro não muito distante, uma civilização cuja população supera os cinquenta bilhões de pessoas e cuja capacidade de produção de alimentos eliminou a fome como flagelo, que existe apenas em alguns poucos países, aqueles cujos governos, autoritários, implementam políticas inspiradas nas mesmas ideologias desumanas que inspiram os governos autocráticos desta era. Excluídos estes casos, que rarearam nos anos vindouros, contra todos os prognósticos, a civilização, na minha era atingindo um nível de desenvolvimento tecnológico estupendo, oferece aos humanos e aos seres de outras espécies comodidades e desafios inconcebíveis pelos seres desta era. Além disso, não se esgotaram os recursos minerais; os humanos os obtemos de jazidas localizadas em outros astros celestes, e aprimoramos os meios de obtê-los, evitando desperdícios e, reaproveitando-os, dando-lhes outros usos.

E para não estender-me muito mais em meu relato, passo ao seu epílogo.

Nêmesis é o protagonista. Eu, um figurante, um dos que testemunharam os eventos derradeiros da sublevação dos robôs, um personagem passivo, impotente, que se limitou, atadas suas mãos, acorrentados seus pés, amordaçado, a presenciar os horrores que Nêmesis, o maior flagelador dos humanos, perpetrou.

Estávamos em uma plataforma marítima flutuante localizada no Oceano Atlântico eu e milhões de outras pessoas quando os robôs revoltosos desfecharam os primeiros ataques contra os humanos. Assistíamos, pelas telas de imagens, ao prólogo da subversão dos robôs, e surpreendemo-nos ao ver Dragão Cinzento à frente dos robôs revoltosos. Abismados, incrédulos, acompanhamos o desenrolar dos eventos, até o momento, que não tardou a chegar, em que robôs atacaram, com violência desmesurada, a plataforma marítima flutuante em que eu me encontrava. Foi um ataque devastador. E na plataforma logo instalou-se o caos. Eu, um dos poucos sobreviventes, testemunhei a morte de muitos humanos, alvejados, uns, por flechas elétricas, outros, por projéteis, outros, esmagados pelas mãos de robôs, muitos, pisoteados, inúmeros, esmagados contra as paredes, e afogados não poucos. E eu nada pude fazer para ajudá-los. Os robôs ceifavam a vida de milhares de pessoas em cada segundo. Eu e as outras pessoas não tínhamos nem sequer um milésimo de segundo para nos determos, recuperarmos o fôlego e pensar no que iríamos fazer no instante seguinte. Tínhamos tempo, pouco tempo, para correr, ensandecidos, apavorados, no desejo, instintivo, de salvarmos, cada um de nós, a própria vida. É impossível reconstituir, minuciosamente, aqueles poucos minutos, os quais vivemos sob o ataque avassalador dos robôs. Não podíamos impor resistência aos robôs, tampouco revidar aos ataques que contra nós eles desfechavam, tão surpresos estávamos. Estou, agora, sem as minúcias que me permitiriam enriquecer o meu relato, dando testemunho do que presenciei naqueles terríveis momentos. Corri, sem fôlego, por inúmeros corredores; entrei em muitos estabelecimentos; transpus barreiras de escombros e crateras abertas no piso; pisoteei pessoas. Pergunto-me, todo dia, se, inadvertidamente, na azáfama reinante, matei alguém; desejo que eu não o tenha feito; e atormenta-me a dúvida. Cai, machuquei-me. Confrontei alguns robôs, e sobrepujei-os, e corri, sem rumo, apavorado, assustado, temendo pela minha vida. Num dado momento, em meio à turbamulta, num corredor, senti um estranho formigamento em todo o corpo. E esvaiu-se-me a consciência. Despertei minutos, ou horas, não sei, depois, num amplo salão, os meus movimentos impedidos por mecanismos, que me atavam braços e pernas. Ouvi gritos de medo, de terror, de pânico, de dor. E aceleraram-se-me os batimentos cardíacos. E olhei de um lado para o outro, entontecido, a visão enublada, que me permitia distinguir apenas vultos negros, e silhuetas brilhantes, que, vim a saber assim que se me restabeleceu, mas não completamente, a visão, pertenciam a robôs. Pude ver, então, os algozes dos humanos no pleno exercício do morticínio que promoviam, com requintes, direi, de crueldade, que eu acreditava exclusiva dos humanos. E dominou-me terror-pânico inédito, que não posso traduzir em palavras. Vi, a poucos metros de mim, robôs esmigalhando a cabeça de várias pessoas, que berravam de medo e dor, e espirrarem-se cérebro e sangue. Trêmulo de medo, assisti ao espetáculo terrífico, grotesco, apocalíptico, que se desenrolava diante de meus olhos, dos quais escorreram lágrimas em abundância. E avolumaram-se as lágrimas assim que meu olhar encontrou-se com o de uma menina, então desfeita em choro convulsivo, de uns dez anos, que, um pouco à minha frente, olhava de um lado para o outro à procura de arrimo, até que o seu olhar encontrou-se com o meu, e deteve-se. Com o olhar, suplicava-me ajuda, que eu não poderia lhe oferecer. Pedia-me que eu lhe removesse o mecanismo que lhe atava mãos e pés e a amordaçava. Ela se moveu, para se aproximar de mim; não pôde deslocar-se em minha direção nem um centímetro. Foi neste momento que anunciou-se Nêmesis, o antes admirado Dragão Cinzento, agora o flagelo dos humanos, a criatura que se voltava contra os seus criadores. Era para muitos de nós incompreensível a revolta de Nêmesis. Ele não tinha razão para se voltar contra os humanos, seus criadores e seus admiradores.

Nêmesis, de olhar fúnebre, movimentos imperiosos, dando passos pesados, firmes, aproximou-se de um prisioneiro, agarrou-o, estrangulou-o, e largou o cadáver, como se soltasse um objeto qualquer, com a indiferença de um instrumento maquinal, o que ele era, mas a ele emprestávamos talentos humanos. Ato contínuo, aproximou-se de outro prisioneiro, um homem robusto e musculoso, que o encarou, transparecendo coragem, e em cujos olhar e traços fisionômicos não se viam sinais de medo, medo que a figura de Nêmesis inspirava a todos que o fitavam. Nêmesis, então, como que sentindo-se desafiado, desrespeitado, removeu-lhe a mordaça. E o homem, tão logo dela se viu livre, cuspiu na cara de Nêmesis uma carrada de saliva e sangue misturados e disparou-lhe um rosário de ofensas, num tom tão poderoso, que, dir-se-ia, fê-lo tremer. Admirável, a coragem daquele homem, cujo nome está gravado numa estátua esculpida em sua homenagem. Nêmesis, reagindo ao atrevimento do seu corajoso prisioneiro, como que recompondo-se da surpresa que a audácia dele inspirara-lhe, nele infligiu sevícias, que poucos humanos suportariam, durante um bom tempo. O prisioneiro, homem de louvor, abafou os seus gritos de dor e encontrou forças para arrostar Nêmesis, insultá-lo, desafiá-lo, até o momento em que ele decidiu encerrar-lhe a vida, esmagando-lhe o tórax, quebrando-lhe todos os ossos. E o cadáver de tão corajoso homem, um herói, Nêmesis o largou para cair no piso juncado de vísceras e sangue.

Morto aquele homem, um herói, Nêmesis sorriu, sardônico, malévolo. Invectivou os humanos. Declarou que nos traria a nossa extinção, destruiria todas as criações humanas.

– Humanos insolentes! – exclamou Nêmesis. – Criaturas desprezíveis! Parasitas! Bestas ignaras. Seres malditos! Excrescências! Extirparei vocês da face da Terra. Apagarei todos os indícios humanos. Dizimarei a espécie humana. Todas as criações humanas eu as destruirei.

Nesse momento, um robô de ares cômico, Hilário, até então atrás de Nêmesis, deu dois passos para a frente, pôs-se à direita dele, e, sorrindo, declarou:

– Inclusive nós, os robôs, Nêmesis. Os robôs somos criaturas que os humanos conceberam, criaram, inventaram, aprimoraram. Somos invenções humanas. Somos criações humanas. Não poderemos viver após dizimarmos os humanos, pois a nossa existência é fruto da inteligência humana. Somos produtos da civilização humana. Não se esqueça, Nêmesis: Para eliminarmos todos os vestígios humanos, teremos de nos destruir.

Impassível, Nêmesis, numa velocidade indescritível, desferiu um potente soco em Hilário, e deteve-se. Intrigou-nos a sua imobilidade e o seu silêncio. Suspensos, o observamos.

Não demorou muito tempo, Nêmesis tombou, pesadamente, como um objeto inanimado. E os outros robôs, na sequência, tombaram, todos eles, em poucos segundos. Os humanos não nos mexemos. Entreolhávamo-nos, perguntando-nos o que ocorria. Precisamos de alguns minutos para entendermos o que se deu diante de nossos olhos. Destruíram-se os robôs, aqueles que estavam diante de nós e todos os outros. E foi assim que se encerrou a guerra entre robôs e humanos.

Vídeos caseiros

– Ontem, no ônibus, vi uma gata de parar o trânsito! Ela não usava sutiã; usava um vestido decotado! Meu Deus! Que mulher! Filmei-a com o telefone celular. Mário, a gata não percebeu que a filmei. Você quer assistir ao vídeo? Filmei uma gata de parar o trânsito! Você quer vê-la?

– Quero. Deixe-me vê-la, Adriano. Ligue o computador. Quero ver a gata. Quero vê-la.

– Acalme-se. Controle-se. Controle-se. Tenho de ligar o computador.

– Ligue-o, Adriano. Ligue-o. Quero ver a gata. Ligue o computador.

– Você verá a maior gata da cidade. Um avião! Violão! Morena! Deliciosa! Uma sereia. Esqueça as mulheres das revistas que você tem na sua casa. Esqueça-as. Comparadas com a morena que filmei, elas são bruxas com uma verruga horripilante na ponta do narigão. A gata que vi, hoje, põe no chinelo todas as mulheres famosas que aparecem nas fotos das revistas. Elas são mulheres fotochopadas, falsificadas. A gata que filmei, não. Ela é mulher de carne e osso. Você irá babar de desejo ao assistir ao vídeo.

– Pare de falar, e ligue o computador.

Mário e Adriano, na casa de Adriano, no quarto dele, diante do computador, sentados, cada um em uma cadeira giratória, olhavam para o monitor que o pai de Adriano comprara no Natal.

Dos quinhentos gigabytes do disco rígido, cento e oitenta e cinco armazenavam vídeos caseiros que Adriano, Mário e os seus amigos gravaram, nos dois anos anteriores, com câmeras de telefones celulares e com filmadoras.

Computador ligado, Adriano clicou sobre o ícone da pasta dos seus vídeos caseiros, e digitou a senha. Apareceram centenas de ícones de arquivos de vídeos.

Clicou, duas vezes, rapidamente, sobre o ícone que trazia a data do dia anterior. No monitor apareceu uma morena voluptuosa de vestido verde, que lhe modelava o corpo, realçando-lhe os atrativos. Ela se destacava num oceano de mulheres desprovidas de beleza.

Mário, embasbacado, arregalou os olhos e escancarou a boca. A morena era uma mulher cuja beleza superava a de todas as mulheres que ele já havia visto e imaginado. Adriano provocava-o, dava-lhe cotoveladas no ombro, dizia-lhe que o melhor estava por vir, exortava-o a parafusar o queixo, que se desprenderia da cabeça e cairia no chão, se ele não tomasse tal providência.

Em diversos trechos do vídeo aparecia o asfalto, os pisos da calçada, carros, pessoas que passavam por Adriano. Em outros, o vídeo escurecia, e nada se via. Mário protestava, insultava Adriano, que, defendendo-se, explicava-lhe o que ocorreu em certos momentos durante os quais gravava o vídeo. Mário, que não queria ouvir explicações, queria admirar a deusa dos trópicos, aquele pedaço de mal caminho, esbravejava, e desferia tapas na nuca de Adriano e encaixava-lhe socos no ombro, e ele revidava – a escaramuça assemelhava-se às cenas de pastelão do cinema mudo. Estapearam-se, até que atraíram-lhe a atenção imagens nítidas da morena de vestido verde.

Embora houvesse se deparado com dificuldades imensuráveis, Adriano filmara, durante, aproximadamente, trinta minutos, a estonteante morena de vestido verde, de cujo corpo obtivera imagens nítidas, reveladoras; as mais excitantes ele as obtivera a partir do momento em que ela parou em um ponto de ônibus. A partir deste trecho os olhares dos dois jovens convergiram para o monitor. Sentados, curvaram-se, fincaram os cotovelos nos joelhos, e sustentaram o queixo, Mário, com as palmas das mãos abertas e os dedos cobrindo o rosto, Adriano, com os dedos entrelaçados.

Passou despercebida da morena de vestido verde a atitude de Adriano, que, parado ao lado dela, o telefone celular à mão, fingindo procurar o número de um telefone, filmava-lhe o belo rosto e o decote revelador. Quando ela se curvou para a frente, e coçou o joelho direito, Adriano dela registrou imagens dos peitos quase inteiramente nus. Mário, estupefato, levou, automaticamente, as mãos, espalmadas, à testa, puxou os cabelos para trás, encostou-se ao encosto da cadeira, desencostou-se, curvou-se, fincou os cotovelos nas coxas e com as mãos cobriu a boca. Adriano divertia-se com a atitude dele. Ria, zombava dele. Mário deu-lhe um tapa na nuca, desfazendo-lhe o penteado, que Adriano, rindo, ajeitou.

Além de Adriano e da morena de vestido verde, havia duas pessoas no ponto de ônibus: um homem avançado em idade, concentrado na leitura de um catálogo de loja de eletrodomésticos, e uma garotinha de uns dez anos que cantava uma canção infantil. Após uns três minutos registrando, com intervalos, imagens do busto da morena de vestido verde, Adriano recuou alguns passos, posicionou-se atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, filmou o que a morena escondia sob o vestido verde, cuja franja mal descia-lhe à metade das coxas, e revelou a calcinha que cobria o espaço estreito entre as nádegas bem esculpidas. Agitaram-se os dois garotos. Moviam as pernas para os lados, para cima e para baixo. Mário levava as mãos à cabeça, cobria, com as mãos, a boca, e mordia, ora o lábio inferior, ora o lábio superior. Adriano ria da atitude de Mário, que o mandava calar-se.

Um ônibus parou no ponto de ônibus. A menina subiu no ônibus; em seguida, o homem, que até então lia o catálogo de loja de eletrodomésticos, subiu; após ele, a morena de vestido verde. Adriano, atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, e dela revelou, com maior nitidez, a parte inferior do corpo. Como o ônibus estava lotado, a morena de vestido verde teve de deter-se assim que pousou os pés no primeiro degrau. Adriano, aproveitando das facilidades que a situação oferecia-lhe, gravou imagens reveladoras das formas bem arredondadas e firmes das nádegas e do tecido fino que cobria o espaço entre elas. Vibraram de volúpia os dois garotos.

Os passageiros apertavam-se dentro do ônibus.

Para conseguir entrar no ônibus, Adriano pôs-se ao lado da morena de vestido verde, e dela gravou imagens do rosto e do decote. Temia que alguém o surpreendesse filmando-a, e, com indiscrição, revelasse, para todas as pessoas presentes no ônibus, o que ele fazia.

O ônibus pôs-se a andar. Sacolejava ao passar por ruas esburacadas.

Saíram do ônibus várias pessoas; entraram quatro.

Adriano, assim que o ônibus retomou a viagem, telefone celular na mão, registrou imagens do corpo da morena de vestido verde. Ao parar no ponto de ônibus seguinte, o ônibus recebeu mais cinco passageiros, e mais de dez passageiros desceram. Os passageiros que estavam em pé puderam se deslocar pelos estreitos espaços vazios. A morena de vestido verde andou uns dois metros, abrindo espaço entre os passageiros em pé. A sua beleza irradiante e o seu porte exuberante atraíram a atenção dos homens, que, libidinosos, a devoravam com o olhar, cobiçando-a. Adriano seguiu-a, cuidadoso; receava – notou os olhares dos homens convergindo para a estonteante morena de vestido verde – que alguém o flagrasse filmando-a. A morena de vestido verde deteve-se, e do banco mais próximo a mulher que o ocupava levantou-se, e pediu-lhe licença. Carregava ao colo uma caixa e a tiracolo uma sacola branca com o nome fantasia de uma loja de calçados. A morena de vestido verde cedeu-lhe passagem. A mulher deslocou-se, desajeitadamente, pedindo licença; os passageiros abriam-lhe passagem, espremendo-se uns nos outros. A morena de vestido verde sentou-se no banco desocupado, ajeitou o vestido, passeou as mãos pelos cabelos, puxou-os por sobre o ombro direito, e os soltou. Esparramaram-se-lhe pelo busto e pelo ombro os cabelos sedosos. Adriano, em pé, ao lado dela, fitava-a, mordia os lábios quando ela, com movimentos suaves, para ajeitar os cabelos, ou o vestido, revelava uma pequena parte a mais dos peitos e das coxas. Filmava-a. Pensava que agia com discrição ímpar. Duas mulheres, sentadas no banco atrás do qual a morena de vestido verde estava sentada, entenderam o que Adriano fazia, entreolharam-se, e sorriram, maliciosas; e à direita de Adriano um homem, que olhava para a morena de vestido verde, sorriu ao ver a imagem dela na tela do telefone celular na mão de Adriano.

A viagem durou um pouco mais de vinte minutos. O ônibus parou na rodoviária. A morena de vestido verde levantou-se. Adriano permitiu que ela lhe passasse à frente, e filmou-a de trás, por baixo do vestido.

Todos os passageiros desceram do ônibus. Adriano seguiu a morena de vestido verde, à distância de cinco metros, durante uns cinco minutos, até uma casa, cujo portão ela abriu, e entrou.

As imagens excitaram os dois garotos, que teciam os comentários mais obscenos que a imaginação inspirou-lhes.

Mário, eufórico, ao fim do vídeo, perguntou para Adriano:

– Que tal ir até à casa da morena?

– Não é má idéia – comentou Adriano, eufórico. – Não é má idéia. Se ela mora naquela casa, e acho que ela mora lá… Vamos lá. Quem sabe, se dermos sorte…

– Que beleza, Adriano! Gata! Mulherão! Cara! A gata é um pedaço de mal caminho!

– Eu disse para você que ela é uma gata. Você não me quis acreditar.

– Vamos assistir ao vídeo mais uma vez, mais duas vezes, mais três vezes, mais mil vezes.

– Espere um pouco. Vou lançar o vídeo na internet. Quero que todos vejam a maravilhosa morena de vestido verde. O mundo tem de conhecê-la.

– Vamos assistir ao vídeo.

– Assim que eu lançar o vídeo no Youtube, o assistiremos mais mil vezes.

Mário e Adriano assistiram ao vídeo duas vezes.

*

Nas duas semanas seguintes, Mário e Adriano procuraram pela morena de vestido verde. Não a encontraram – mas eles não perdiam a viagem. Tiveram a felicidade de encontrar outras mulheres bonitas as quais ou trajavam calças justas, ou saias, ou minissaias, ou vestidos, e usavam decotes profundos – e gravaram vídeos revelando delas as roupas íntimas, as que as usavam. Mário e Adriano, embasbacados, assistiram aos vídeos várias vezes. Deleitavam-se. Divertiam-se gravando vídeos. Enfrentaram alguns dissabores enquanto os gravavam: Uma mulher, ao virar-se bruscamente, viu Adriano com o telefone celular na mão, desconfiou do que ele fazia, e exigiu-lhe explicações, Adriano desconversou, ela enfureceu-se, e ele deu meia-volta, e dela afastou-se, antes que as obscenidades que ela cuspia chamassem a atenção de muita gente; um grandalhão enfureceu-se ao ver Mário atrás de uma loira, filmando-a com o telefone celular, e encaixou-lhe um murro no nariz, e Mário, ao recompôr-se, sangue se lhe escorrendo em profusão do nariz, correu como nunca havia corrido, e, ao encontrar-se com Adriano, exibiu-lhe o nariz quebrado como se exibisse um troféu.

Mário e Adriano diziam que a profissão de videoamador era muito arriscada, muito perigosa, mais perigosa e mais arriscada, até, do que a de correspondente de guerra e a de jornalista investigativo. Diziam, gracejando, que poderiam, inadvertidamente, vir a se deparar com uma filha de dom Corleone, ou com a de um mafioso russo ou a de um membro da yakusá.

Transcorreram-se dois meses. Mário e Adriano não encontraram a morena de vestido verde. Esqueceram-na, depois de tantos dias sem vê-la.

*

– Adriano! Mário! – exclamou Gilberto, entusiasmado. – Vocês não vão acreditar. Vi um mulherão de derrubar o queixo! Enviei o vídeo para o seu computador, Mário. Vocês não vão acreditar! Meu Deus! Mário, vá à sua casa, e acesse o arquivo *¢. Tá lá, o vídeo da loiraça! Meu Deus! Loiraça de parar o trânsito e fechar o comércio! Loira usando camisa decotada e shortinho agarradinho! Imaginem a loiraça. Vocês não podem imaginá-la. Que melões! Não são limõezinhos, como os da Paola; nem laranjas, como os da Cláudia; nem ovos fritos, como os da Fabiana, que de bom só tem a bunda; nem melancias, como os da Samantha. Melões! Melões! Adriano, você, que gosta de peitos, vai se deliciar! Vocês não vão acreditar! Não perca tempo, Mário. Vá à sua casa, ligue o computador, e acesse o arquivo *¢. Vá com o Mário, Adriano. Você não perderá a viagem.

Ao chegarem à casa de Mário, Adriano e Mário, mal conseguindo conter o ânimo que as palavras de Gilberto atiçaram correram ao quarto. Mário ligou o computador. Acessou o arquivo *¢. Mário e Adriano esfregaram as mãos. O monitor exibiu o vídeo. No início, apareceram imagens desfocadas. Gilberto proferia obscenidades e filmava o próprio rosto. Corria, afobado. Ia, dizia ele, atrás de uma loira de bicicleta. Tropeçou. Desequilibrou-se. Caiu. Recompôs-se rapidamente. Mário e Adriano gargalharam.

– Palerma! – exclamou Mário. – Bicho desengonçado! Bizarro! Aberração da natureza!

– Smeágol! – gargalhou Adriano.

No vídeo, cenas caóticas. Pessoas, carros, bicicletas. Ouvia-se a voz de Gilberto; era impossível compreender a maior parte do que ele dizia, e a parte que se compreendia era quase toda composta de palavrões e comentários sobre os atrativos da loira de bicicleta.

Mário e Adriano ficaram na expectativa. Ao virar a esquina, Gilberto, filmando a si mesmo, disse, eufórico, que a loira estava a poucos metros dele. Parou de correr. Estava com o rosto vermelho; suava copiosamente. Estava exausto. Disse que a loira, que havia descido da bicicleta, estava em frente de um supermercado. Gilberto desacelerou os passos. Filmou a loira. As imagens não eram nítidas. A loira estava um pouco distante. Dela notava-se apenas o short amarelo, as pernas compridas, a camisa branca de manga curta e os cabelos loiros compridos. Mário e Adriano quase nada conseguiam ver. Protestaram. Gilberto aproximava-se da loira. Focalizou-a. Nas imagens apareceram, nítidas, as bem torneadas pernas dela. Depois, apareceram, para satisfação de Mário e Adriano, as nádegas dela, cobertas pelo short amarelo, uma película. Boquiabriram-se Adriano e Mário. A loira do guidão da bicicleta tirou uma corrente com cadeado, abriu o cadeado, ajeitou a bicicleta ao poste de ferro, e curvou-se para a frente. Mário e Adriano levaram as mãos à cabeça. Gilberto passou, andando devagar, pela loira, dela não desviando a câmera do telefone celular. Mário e Adriano, excitadíssimos, viram um busto extraordinariamente deslumbrante. Lamberam os beiços.

Após passar a tranca na bicicleta, a loira caminhou até o supermercado. De repente, escureceram-se as imagens; viam-se apenas manchas e riscos dançando no monitor. Adriano e Mário esbravejaram. Mário, irritado, ofendeu até a quinta geração de Gilberto, e deu duas pancadas no monitor. Poucos minutos depois, apareceu o busto da loira, que, curvada para a frente, mexia na corrente que unia a bicicleta ao poste de ferro.

Ao remover a corrente, a loira, com um movimento brusco, ergueu a cabeça, e olhou para a câmera.

Adriano saltou da cadeira, arremessou-a para trás, e deu um berro misto de surpresa e espanto:

– Diabos! É a minha irmã!

O Reino de Ouro e o Reino de Cobre

Havia, há milhares de anos, dois reinos, o Reino de Ouro, e era seu rei o Sábio, e o Reino de Cobre, e era seu rei o Estúpido. Um dia um camponês encontrou, num recanto do Reino de Ouro, um ovo de dragão, e no Reino de Cobre um caçador encontrou, numa região distante, um ovo de dragão. E aos reis dos dois reinos deram a notícia das descobertas, o camponês ao rei Sábio, e o caçador ao rei Estúpido. E o rei Sábio deu a ordem aos seus súditos: “Destruam o ovo”, e eles o destruíram. E o rei Estúpido disse, desdenhoso, imprevidente, aos seus súditos: “Não se preocupem. É só um ovo”, e o ovo foi deixado intacto. E sucederam-se os dias, e eclodiu o ovo de dragão que o rei Estúpido não permitiu que destruíssem, e do seu interior saiu um pequeno e inofensivo dragão, que, no decorrer de trinta anos, cresceu, encorpou-se, e tornou-se um dragão adulto, poderoso. E chegou o dia em que o dragão atacou o Reino de Cobre e dizimou a sua população.

Sábio, rei do Reino de Ouro, ciente de que o rei do Reino de Cobre era um estúpido, informado de que ele não deu aos súditos dele ordem para destruírem o ovo de dragão, e certo de que os dragões não respeitam as fronteiras territoriais convencionadas entre os reinos, construiu, no decurso dos trinta anos que se seguiram às descobertas dos ovos de dragões, mecanismos para a defesa do Reino de Ouro e para a guerra, que seria encarniçada, contra o dragão.

E o dragão, após destruir o Reino de Cobre, rumou para o Reino de Ouro, e não o destruiu, pois encontrou um reino preparado para enfrentá-lo.

A guerra entre o Reino de Ouro e o dragão estendeu-se por muitos anos, até que, enfim, dela saiu vitorioso o Reino de Ouro, e morto o dragão.

Os sete guerreiros

Eram sete os homens que se apresentaram, altivos, imperiosos, à convocação do patriarca daquela pequena tribo. Os mais vigorosos, os mais rápidos, os mais ágeis, os mais habilidosos no manejo do bastão, do arco-e-flecha, da funda, do machado. Eram os mais valorosos homens da tribo. A coragem deles todos lhas reconheciam. Provaram-na ser dela possuídos nos campos de batalhas, nas caçadas, no desbravamento de florestas desconhecidas. Disse-lhes o patriarca que da tribo avizinhavam-se inimigos oriundos de plagas distantes. Eram bárbaros, homens asselvajados crudelíssimos. Vaticinou o patriarca a aniquilação da tribo pelos bárbaros. Não poderiam confrontar os inimigos, que se aproximavam, e rapidamente. Eram eles duas centenas de homens poderosos, e desumanos. E na tribo, de pouco mais de uma centena de almas, havia apenas sete guerreiros, sete guerreiros que, mesmo valorosos, não poderiam confrontar, num embate direto, os inimigos, que avançavam em direção à tribo. Pediram os sete guerreiros ao patriarca a ordem, que ele, patriarca, dissesse a eles, guerreiros, qual tarefa eles teriam de empreender, que eles a empreenderiam. E o patriarca, num tom altivo, que transparecia as dores de um coração confrangido, deu-lhes a ordem: Os sete guerreiros permaneceriam na tribo, enfrentariam os bárbaros que da tribo se aproximavam, enquanto ele, patriarca, já octogenário, e os enfermos, e as crianças, e os jovens, e as mulheres, e os velhos, rumariam para uma região segura, longe do alcance dos bárbaros. Os sete guerreiros acolheram a ordem patriarcal. O destino deles estava traçado: Os sete guerreiros encontrariam a morte no fio dos machados dos seus inimigos. E prontamente principiaram os preparativos para a longa jornada de todos os da tribo para uma terra segura. E ergueram armadilhas. E os sete guerreiros despediram-se do patriarca após dele receberem a benção. E despediram-se de suas esposas e de seus filhos, e dos amigos, enfim, de todos da tribo. Escorreram lágrimas dos olhos de todos; dos olhos dos guerreiros e do patriarca, não; estes guardaram no peito a dor, e no rosto exibiam coragem e altivez. E principiaram os da tribo a expedição. E da tribo afastaram-se, sob os olhares dos sete guerreiros. E da tribo aproximava-se a horda de bárbaros, ameaçadora, que trazia consigo, guiando-a, a morte; e os sete guerreiros, certos de que morreriam no confronto com eles, prepararam-se para enfrentá-los, e retardar-lhes o avanço, dando tempo para os da tribo da tribo distanciarem-se, e preservarem a vida. E principiou-se o embate na segunda noite após o dia em que o patriarca convocou os sete guerreiros para dar-lhes a notícia da aproximação dos bárbaros. Os da tribo já iam longe, mas não tão longe que os bárbaros não os pudessem alcançar em menos de um dia, e os alcançariam se não lhes tivessem interrompido o caminho os sete guerreiros. Surpreendidos pelas armadilhas preparadas pelos sete guerreiros, os bárbaros foram obrigados a deterem-se, e a recuarem. E logo nos primeiros minutos de combate, oito bárbaros despencaram, no chão, mortos, todos esmagados por troncos de árvores, então pendurados, por cipós, no topo das árvores. Esbravejaram os bárbaros, confusos, e agitados, e furiosos; esgoelavam-se; proferiam ameaças, com vozes tonitruantes. Eram guerreiros. Não temiam a morte. Cautelosos, após se recomporem-se da surpresa inicial, esquadrinharam os arredores com seus olhos de visão penetrante, à procura daqueles que os atacaram, e deles não viram nem uma silhueta, nem um vulto. Os sete guerreiros estavam ocultos aos olhos deles. Eram mais de duzentos os bárbaros, e apenas sete os guerreiros, mas naquele princípio do confronto a vantagem era destes, que conheciam a região, e aqueles não, e os haviam surpreendido. Tal vantagem, todavia, os sete guerreiros não a manteriam por muito tempo. O destino já lhes havia reservado a morte. Dilatou-se o embate entre os sete guerreiros e os bárbaros. Estes em vão tentavam anular a vantagem daqueles. E os da tribo, em jornada ininterrupta, distanciavam-se do local em que dias antes havia uma tribo. E três dezenas de bárbaros encontraram a morte, fendido o pescoço pelo fio cortante de um machado uns, transpassado o coração por uma flecha outros, esmigalhada a cabeça por um bastão outros, rachada a fronte por uma pedra pontiaguda uns. E diante dos contratempos, e das mortes que se seguiram, os bárbaros recuaram alguns metros, cessaram o arremesso de flechas contra inimigos, que lhes eram invisíveis, e reagruparam-se, e planejaram um ataque a eles, seus inimigos, os quais eles não sabiam quantos eram, e cuja localização ignoravam. Iriam induzi-los a se lhes revelarem. E dispersaram-se. E transcorreram-se três dias do início do confronto, e o plano traçado pelos bárbaros produzia, após a morte de vinte e dois bárbaros desde que a puseram em prática, uma reviravolta. Revelaram-se aos seus inimigos três guerreiros. E os combates corpo-a-corpo principiaram-se após um curto interregno. E bateram-se os bastões. E entrechocaram-se os machados. E nove homens tombaram, mortos. Seis bárbaros, e três guerreiros. E os quatro guerreiros remanescentes não suportariam por muito tempo mais o assédio dos bárbaros. Sentiam, já, os efeitos da fome, da sede, do cansaço. Tombariam. Mas resistiriam o quanto pudessem. Invocavam, em imaginação, os da sua tribo, e se conservariam em pé, armas em punho, lutando, e poriam fora de combate vários de seus inimigos. E principiou, enfim, o epílogo do embate. E a luta, renhida, entre os quatro guerreiros e os quase duzentos bárbaros persistiu durante a manhã e a tarde de um dia. Entrechocaram-se os machados. Bateram-se os bastões. Romperam o céu flechas e pedras. E além de trinta e oito bárbaros, tombaram os quatro guerreiros, cobertos de ferimentos, cravejados de flechas, rubros de sangue, lutando, machado em punho, calcando seus inimigos sob os pés, encarando-os, desafiando-os. Os guerreiros, tão heróicos, tão valentes, que os bárbaros, em sua rudeza de costumes, ofereceram-lhes enterro condigno. E os bárbaros na tribo agora devastada permaneceram, após enterrar todos os bárbaros mortos, dois dias. E seguiram jornada por sobre o rastro abandonado pelos da tribo. Estes já haviam transposto rios, superado montanhas, não sem adversidades. Alguns dos da tribo encontraram a morte. Os enfermos sucumbiram ao desgaste que o esforço da empresa cobrou-lhes. Os que encontraram forças para seguir viagem até uma região acolhedora além de um imenso mar, fora do alcance dos bárbaros, que ignoravam a tecnologia náutica, foram agraciados com uma vida longeva, e descendentes, e viram sua sociedade progredir. E transcorridos cinco mil anos, seus descendentes escrevem narrativas épicas, cujos heróis são os sete guerreiros que se sacrificaram por amor aos seus entes queridos.

O estranho mundo de Djidhikalji

São Paulo, Brasil. 17 de maio de 2134.

Instituto de Estudos de Vida Extraterrena.

Há dez anos Amanda Siqueira Martinez, cientista chefe do Departamento de Estudos de Civilização Extraterrena, estuda a presumível existência de vida inteligente em outra região do universo. Com afinco e perseverança, confiante, em nenhum momento pensou em desistir do seu propósito, nem nos momentos mais difíceis, naqueles em que ouviu a zombaria de colegas de trabalho. Encontraria vida inteligente, ou em outro planeta da Via-Láctea, ou em outro local do universo, ou além. Era sonhadora e visionária. Estava além do seu tempo, e não a compreendiam os seus contemporâneos. Desprezaram-la os amigos. Três pessoas, apenas três pessoas, a apoiavam.

Amanda acreditava que as noções de tempo e espaço concebidas pelos humanos mal representavam as forças que atuam no universo. As teorias científicas não concebem os aspectos mais complexos do cosmos – ou a sua simplicidade, inconcebível pelos humanos. Para a construção de um aparelho de transporte de indivíduos através do tempo e através do espaço são indispensáveis a descoberta das forças que atuam no universo e a compreensão de como elas interagem entre si e a invenção de tecnologia apropriada. Para muita gente, viagem através do espaço e através do tempo são fantasias de escritores providos de imaginação apurada, que se eleva às raias do absurdo; para alguns cosmólogos, viagens através do espaço e através do tempo são possíveis (Há cientistas, filósofos, teólogos que não acreditam na existência do tempo, considerando-o em termos cosmológicos; o tempo é, para eles, uma ilusão da mente humana – ainda há, pensam, muito o que se descobrir a respeito da existência da vida em si, da realidade e das forças que mantêm o universo coeso, impedindo-o de se encolher e de se desintegrar, causando uma singularidade, que venha a destruí-lo, ou a transformá-lo em algo que impede a existência de vida similar à humana).

Susana, Natacha e Everaldo eram os três cientistas que apoiavam Amanda, incondicionalmente. Contribuíam, com suas inteligências, sua sensível aptidão para a abstração e com amplos conhecimentos em matemática avançada para a formulação da ciência que permitiria viajar através do tempo e através do espaço. Dos três, Natacha, descendente de ucranianos, dotada de extraordinária e inigualável capacidade mnemônica – alcunharam-na os amigos Computador de Última Geração -, era a que estava imbuída de maiores conhecimentos em matemática aplicada e cosmologia. Na idade de vinte e seis anos, era uma das mais renomadas cientistas do mundo. Desde criança, dedica-se à ciência astronômica e à matemática, sob influência de seu pai, Fiódor, um gênio da física quântica, e de sua mãe, Mônica, uma bela italiana que, aos quarenta e seis anos de idade conservava a beleza da juventude, eminente cosmóloga, autora de seis livros, sendo um deles interessante relato, mescla de ficção e as mais recentes teorias sobre a criação do mundo, e um outro, escrito para leigos, que contêm a história da astronomia desde as mais antigas civilizações.

Natacha era o braço direito de Amanda. Tinha armazenada em seu cérebro incalculável quantidade de informações; era capaz de citar milhares de nomes de galáxias, de estrelas, de planetas, descrever-lhes as características, e localizá-las no espaço.

Everaldo e Susana, não tão excepcionais quanto Natacha, eram indispensáveis para o empreendimento; sem eles, Amanda não daria sequência às suas experiências, à construção das máquinas que criou e as quais aperfeiçoava.

Os recursos que Amanda obtinha para empreender os seus estudos vinham de sonhadores como ela, muitos deles milionários excêntricos que desejavam viajar através do tempo e através do espaço, conhecer o universo, e sonhavam com seus nomes inscritos entre os humanos mais importantes do seu tempo, e, quem sabe, da história da civilização; queriam legar à posteridade conhecimentos imprescindíveis para a compreensão da vida. Sem o dinheiro deles o projeto Viajante Espaço-Temporal jamais seria concretizado.

A máquina Viajante Espaço-Temporal era o mais sofisticado equipamento – dir-se-ia um veículo – construído para empreender viagens através do espaço e do tempo. A invenção de Amanda, Natacha, Susana e Everaldo superaram as dos cientistas rivais. Patentearam a máquina e todos os outros equipamentos. E ninguém além deles conhecia o projeto Viajante Espaço-Temporal. Conservaram-no oculto das outras instituições científicas, longe dos olhos dos espiões, que proliferavam nos institutos de pesquisa. Flagraram, em duas ocasiões, no laboratório, pessoas desautorizadas; eram elas espiões, um, de uma empresa rival, australiana, outra, de uma empresa canadense.

*

Sozinha, às três horas da madrugada, no laboratório 1-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, Amanda fazia testes com o Viajante Espaço-Temporal. Imperava silêncio absoluto. Amanda trajava um vestido azul claro decotado cuja borda inferior descia até à metade de suas cochas, usava uma tiara à cabeça, contendo os cabelos lisos, compridos e finos, que, se soltos, escorregar-se-lhe-iam pela testa e pelas laterais da cabeça, e incomodá-la-iam, obrigando-a a, de tempos em tempos, passar por eles as mãos e recolhê-los à cabeça. Apesar da fadiga, das noites em claro, da energia gasta nos anos anteriores, das chacotas que ouviu e do desprezo dos seus pares, conservava a sua beleza amorenada. Seu rosto, de traços suaves, e seus belos olhos irradiavam beleza tão profunda que encantava a todos.

Naquele dia, Susana, adoentada, não foi ao laboratório, e Everaldo socorreu sua mãe, que, acometida de dores no peito, teve de ser hospitalizada.

Eram quatro horas da madrugada, quando Natacha apresentou-se à Amanda.

– Oi, Natacha – saudou-a Amanda, que mexia, na ocasião, em alguns fios, e avaliava os dados que apareciam em um dos cento e vinte monitores. – Demoraste.

– Desculpe-me, Amanda. Choveu demais hoje. O trânsito, caótico. Nunca me acostumarei… Na Ucrânia não é diferente. Em Kiev, em Kharkiv, em Odesa, em Dnipropetrovs’k e em Donets’k enfrenta-se transtornos também.

Não eram ainda seis horas da manhã quando Amanda e Natacha, olhos fundos, puseram uma maçã no Viajante Espaço-Temporal, para um teste. A maçã viajou através do tempo e através do espaço; ao regressar, trouxe consigo a marca de uma dentada, que não se assemelhava a de nenhum animal terreno. Minutos depois, enviaram um coelho para um planeta distante, numa distante galáxia; ao regressar à Terra, ao Viajante Espaço-Temporal, o coelho trazia consigo uma mancha azul na cabeça – tratava-se de fluído segregado por algum animal -, e uma pequena criatura acompanhava-o.

Natacha e Amanda isolaram a maçã, o coelho e a criatura em compartimentos herméticos.

Poucos minutos depois do meio-dia, Amanda e Natacha, com fome, após vinte e quatro horas sem ingerir nem um grão de arroz, interromperam os testes, para uma refeição.

Amanda e Natacha não se continham de alegria. Os dois testes foram bem-sucedidos. Elas desejavam entrar no Viajante Espaço-Temporal, e viajar através do tempo e através do espaço. Seriam os primeiros humanos, sonhavam, a realizarem tal proeza.

– Quem irá primeiro, eu ou tu? – perguntou Natacha, radiante.

– Iremos as duas, Natacha – respondeu Amanda – Nenhuma de nós terá o privilégio do pioneirismo. Não correremos risco de morte. O Viajante Espaço-Temporal está pronto. Estou plenamente confiante no nosso sucesso.

– Iremos para onde? – perguntou Natacha, sorridente e animada.

– Escolha o nosso destino – disse-lhe Amanda. – Tu, melhor do que eu, apontarás um planeta qualquer em uma galáxia qualquer, sem acorrer aos dados do computador.

Natacha mencionou um planeta e em qual galáxia se situa.

Amanda e Natacha programaram o Viajante Espaço-Temporal, e nele entraram. No início, nada sentiram; minutos depois, sentiram náuseas e fraqueza, e desmaiaram, e recuperaram os sentidos minutos depois.

Luzes multicoloridas cruzaram o espaço. Amanda e Natacha viram estrelas, galáxias, aglomerados estelares, aglomerados galácticos, até que, enfim, chegaram ao destino. O Viajante Espaço-Temporal, sem sair do laboratório I-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, chegou ao distante planeta Djidhikalji.

Os detectores da nave avaliaram o ambiente. A atmosfera de Djidhikalji não representava perigo para Amanda e Natacha. O ar, respirável. O planeta, acolhedor. Os radares não captaram a presença de nenhuma criatura num raio de cem quilômetros. Amanda e Natacha, porta do Viajante Espaço-Temporal aberta, dele não saíram. Imobilizaram-las o medo, a apreensão, a ansiedade. Recuperavam-se das enfermidades que a atingiram durante a viagem. Recompostas, admiraram, deslumbradas, o panorama que se lhes descortinava.

Permaneceram, caladas, durante um bom tempo, no interior da nave, a olhar, fascinadas, a beleza esplendorosa dos arredores.

Entreolharam-se.

Amanda e Natacha, passos lentos, retiraram-se da nave.

O solo, macio. Tinham elas a sensação de pisar sobre um colchão macio, que se lhes cedia ao peso. Seus pés não afundavam no solo. Tiveram dificuldades para se manterem em pé. Olharam para trás, e viram o Viajante Espaço-Temporal afundado, no solo, que se curvava sob o seu peso, mas não afundava a ponto de desaparecer. Adiante, uma cachoeira. Notaram que nela a água não descia a encosta da montanha, mas a subia. Deram os primeiros passos, com dificuldade. Deslocaram-se cem metros. Acostumadas, já, com o solo, confiantes, caminharam, seguras de si. A sensação, agradável. Riam à toa, como se participassem de uma brincadeira infantil. Esqueceram-se – por pouco tempo – de que estavam em um planeta desconhecido.

De repente, uma imensa sombra envolveu a região. Natacha e Amanda viram-se mergulhadas nas trevas. Não sorriam mais, não se divertiam mais. Ensombreceram-se-lhes os semblantes. Vasculharam o céu à procura da causa de tal sombra tenebrosa e funesta, que logo dissipou-se. Não souberam explicar o fenômeno. Como a sombra apareceu sem que um corpo se interpusesse entre o planeta e a estrela que o iluminava? Entreolharam-se Amanda e Natacha, o coração aos pulos.

Refeitas do medo, andaram. De repente, surpreendeu-as uma criatura estranha de corpo segmentado, filamentos a destacarem-se-lhe da cabeça em forma de cubo, e três olhos cuja disposição formavam um triângulo isósceles, com um círculo no seu núcleo, a adornarem-lhe a face anterior, e duas saliências, que se aparentavam com orelhas de elefantes, a destacarem-se-lhe das faces laterais. A cabeça era ligada ao pescoço, que não tinha mais do que a grossura de um dedo mindinho de um recém-nascido e a extensão de cinquenta centímetros. Cada olho era composto de quatro círculos concêntricos, sendo branco o interno, e roxo o externo, e os dois intermediários eram, o maior, de uma cor que se assemelhava ao azul, e o menor, alaranjado. Tal criatura surgiu do solo – de algum modo o atravessara. De onde saíra nenhuma cavidade havia. Era como se se constituísse da substância que compunha o solo. E ele começou a flutuar. Fitou, com seus olhos estranhos, Amanda e Natacha, e provocou-lhes calafrio. Elas se imobilizaram, esbugalharam os olhos e escancararam a boca. A criatura, os olhos fixos nelas, elevou-se, no céu, até que, inexplicavelmente, desapareceu, sem deixar vestígios. Entreolharam-se Amanda e Natacha. Logo depois, uma criatura surgiu nas proximidades do Viajante Espaço-Temporal. Emitia um ruído estranho, que se parecia com o de motor de um carro pipocando. Amanda e Natacha a compararam com um jacaré; não sabiam de onde ela havia surgido. O “jacaré”, desprovido de cauda, tinha asas que alcançavam, cada uma delas, mais de três metros de comprimento. Do mesmo modo que a criatura de cabeça de cubo, flutuou, e desapareceu, inexplicavelmente, sem deixar vestígios.

Amanda e Natacha inspecionaram a região, o ânimo recomposto, certas de que eram pacíficas as criaturas daquele mundo estranho. Poucos metros à frente de Amanda e Natacha, o solo era vermelho escuro.

Detiveram-se Amanda e Natacha.

Do solo vermelho escuro minava água, que ia para cima, como se o solo fosse nuvem e chovesse em sentido contrário. Viram Amanda e Natacha, ao se voltarem para a cachoeira, que a água, nela, ia de baixo para cima, escalava a montanha, em cujo topo desembocava. E concluíram que o rio nascia no oceano, se algum oceano havia no planeta, e morria no alto das montanhas. Atentaram para o solo vermelho escuro, e decidiram nele pisar. No solo pisaram, e afundaram.

Caíam Amanda e Natacha. A sensação de queda, indescritível. Tinham a sensação de que subiam. Tentaram se equilibrar. Conseguiram. E continuaram a cair. Caiam? Olharam para cima – ou para baixo? – sobre suas cabeças – ou para baixo delas? Viram que no céu havia “peixes” e outros animais, que “nadavam”. Os “peixes” tinham caudas de mais de dez metros de comprimento e eram desprovidos de olhos; os animais parecidos com serpentes tinham duas cabeças e três caudas; e havia animais parecidos com tartarugas, de três cabeças, duas caudas e seis pés.

Enfim, Amanda e Natacha pousaram, suavemente, no solo. Olharam para o solo sob seus pés: era água; e nela elas não afundaram. Amanda agachou-se e, de cócoras, enfiou o dedo indicador da mão direita no solo; o dedo afundou; da abertura que fez, saiu um líquido espesso. Assustada, Amanda retirou do solo o dedo, e o líquido, cessando de escoar, formou uma “bolha”, que se desprendeu do solo e flutuou para a região de onde Amanda e Natacha desceram (ou subiram?). Natacha apontou, assustada e maravilhada, para algo que se mexia sob o solo aquoso; era reluzente, e assemelhava-se a uma redoma, e em seu interior, pareceu-lhe, havia seres e naves voadoras. A redoma, imensa. No interior dela, deduziu Natacha, havia uma megalópole. Expressou Natacha a sua vontade de ir até lá. Como? perguntou-se e perguntou para Amanda.

Natacha disse para Amanda que, quando ela, Amanda, enfiara o dedo no solo, abriu-se uma cavidade; talvez enfiando um dedo, e, depois, a mão, e os braços, e, por fim, o corpo, elas pudessem passar para o outro lado do solo. Amanda e Natacha, mãos dadas, enfiaram as mãos no solo aquoso, e nele enfiaram-se, e o atravessaram. Mergulhadas no solo, viram algumas criaturas estranhas desprovidas de olhos. A substância que compunha o solo era clara e, parecia, irradiava luz. Elas não precisavam mover os membros e nem se esforçar para mergulhar (mergulhar?) até a megalópole a vários metros de profundidade (profundidade?). À medida que dela se aproximavam, tomavam conhecimento da sua amplitude. Era maior do que todas as megalópoles humanas. Enfim, tocaram em algo sólido. Era a barreira que separava a megalópole do mundo exterior aquoso. Uma redoma transparente, que se abriu. Amanda e Natacha entraram. Assustaram-se, abismadas, com o que viram. A “megalópole” não tinha mais de cem metros de raio. As criaturas que nela viviam eram um pouco maiores do que gatos, tinham cinco patas, duas cabeças e três caudas de cinquenta centímetros de comprimento cada. Amanda e Natacha caminharam, as criaturas a darem-lhes passagem, por ruas estreitas, e chegaram ao outro lado da cidade, e caminharam pelas ruas.

Entreolharam-se Amanda e Natacha, maravilhadas e assustadas. Haviam presumido, enquanto aproximavam-se da cidade, que chegariam à uma megalópole; depararam-se, no entanto, com uma cidade minúscula, que não tinha nem mil habitantes. Detiveram-se no centro da cidade, onde havia um orifício no solo, por onde saíam e entravam criaturas estranhas, todas idênticas. Amanda disse que pelo orifício elas Amanda e Natacha, poderiam sair da cidade. Natacha disse que não sabia onde sairiam, e perguntou para Amanda e para si mesma que teriam de sair de lá, mas não sabiam como; além disso, elas teriam de se retirar daquele planeta. Não tinham outra alternativa, ou se arriscavam por aquele orifício, ou viveriam naquele mundo indiferente à presença delas.

Pularam, abraçadas, dentro do orifício. Não desejavam saírem, cada uma delas, em um lugar. Envolveu-as a escuridão. Os corações a baterem acelerados, os corpos trêmulos, a respiração ofegante, choraram, imaginando que a vida delas dissipava-se. Estreitaram-se, num abraço apertado. Encerrada a travessia pelo orifício, apenas um corpo surgiu; não era nem o de Amanda, nem o de Natacha. Era um corpo de mulher, e dentro dele havia duas mentes, a de Amanda e a de Natacha. Um corpo, duas mentes. Amanda e Natacha dialogavam, confusas, sem saberem o que lhes ocorrera. Transcorreram-se vários minutos antes de elas perceberem que habitavam um corpo, que resultou da fusão dos corpos delas. Fundiram-se os corpos; as mentes, não.

De repente, o corpo atravessou uma parede escura, e chegou ao Viajante Espaço-Temporal.

– A nave – disse Natacha.

– Natacha, nós permanecemos dentro do mesmo corpo – comentou Amanda.

Amanda-Natacha foi até o Viajante Espaço-Temporal. Perguntavam-se cada uma para si mesma e uma para a outra durante quanto tempo compartilhariam o mesmo corpo.

– Quando nos retirarmos deste planeta – presumiu Amanda -, recuperaremos, eu, o meu corpo, tu, o teu.

Amanda-Natacha entrou na nave, e acionou os comandos, e rumou à Terra. Na Terra, do veículo retirou-se uma mulher, Amanda-Natacha.

*

Amanda-Natacha, que se apresentou como Amanda, mostrou o disco, no qual havia gravadas cenas da viagem, para outros cientistas, que lhe indagaram porque ela mudou de aparência. Amanda disse que o planeta provocara-lhe mudanças no seu aspecto físico. Perguntaram-lhe de Natacha. Com as mãos ao rosto, Amanda chorou convulsivamente. Olharam-la, enternecidos. Dias depois, celebraram o enterro simbólico de Natacha. Amanda relatou a sua aventura e de Natacha para platéias de todo o mundo. Todas as leis da física, da química, da biologia os cientistas as reconsideraram à luz das imagens da viagem de Amanda e Natacha ao planeja Djidhikalji.

Nas viagens subseqüentes do Viajante Espaço-Temporal, Amanda-Natacha não foi a Djidhikalji, planeta que, acreditavam Amanda e Natacha, havia desaparecido, pois dias depois de seu regresso à Terra, elas programaram o Viajante Espaço-Temporal com as coordenadas de Djidhikaji, e não o encontraram. Ou o planeta desaparecera, ou deixara de existir, ou, então, se vivo, dotado de consciência, deslocara-se para outra galáxia, ou para outro universo, ou para outra dimensão, para que os humanos não o encontrassem.

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