Na Noite do Crime (Woman on the run – 1950) – estrelando Ann Sheridan e Dennis O’Keefe

Neste filme noir, em preto e branco, de 1950, o inspetor Ferris (Robert Keith) sai à caça de Frank Johnson (Ross Elliott), a única testemunha do assassinato de Joe Gordon (Tom Dillon), que iria testemunhar contra Freeman Fattened, um gangster.

O assassinato ocorre à noite, Joe Gordon, dentro de um carro, após saudar um homem, Danny Boy – e este nome, ao ser mencionado pela segunda vez, na metade do filme, revela a verdadeira identidade do assassino.

Frank Johnson, ilustrador, trabalha na loja Hart e Winston, do doutor Maibus (John Qualen). Passeava, com seu cachorro de estimação, Rembrandt; testemunha o crime, e o assassino dispara em sua direção dois tiros, errando ambos. À cena do crime chegam os policiais, e o inspetor Ferris, que pede a Frank Johnson informações acerca do ocorrido e lhe diz que ele, Frank Johnson, teria de testemunhar, descrever o assassino de Joe Gordon – e seria esta a única informação que teria a polícia numa investigação que tinha como alvo o gangster Freeman Fattened. Ao ouvir tais revelações, Frank Johnson decide, à distração dos policiais, e temendo pela sua vida, homiziar-se em qualquer lugar, para a sua segurança. Ao saber da ação de Frank Johnson, o inspetor Ferris principia a caçada a ele. Na sua ânsia de vir a efetuar a prisão de Freeman Fattened, e certo de que para chegar até ele teria de descobrir a identidade do assassino de Joe Gordon, e que para identificá-lo era imprescindível o testemunho de Frank Johnson, não mede esforços, aborda Eleanor Johnson (Ann Sheridan), esposa de Frank Johnson.

Toda a investigação do inspetor Ferris concentra-se, o que é inusitado, na caçada, não ao assassino, tampouco ao gansgster, mas à testemunha do assassinato de Joe Gordon, Frank Johnson, a única pessoa que poderia adicionar alguma informação à investigação.

Eleanor Johnson é uma personagem cativante – e é ela a protagonista da aventura, e é seu coadjuvante Dan Legget (Dennis O’Keefe), repórter do Graphic. Ácida e sarcástica, nos seus diálogos com o inspetor Ferris e nos com Dan Legget, além de revelar traços de sua personalidade multiforme, sua inteligência fina, de uma pessoa de língua afiada, exibe sua indiferença pelo marido e a si mesma; suas primeiras palavras a respeito do homem com quem vivia sob o mesmo teto são desdenhosas, de desprezo por ele.Atormentada com a abordagem, que lhe restringe os movimentos, do inspetor Ferris, driba-lhe a vigilância, e inicia, coadjuvada pelo onipresente Dan Legget, uma aventura emocionante e tensa à procura de seu marido. Na sucessão dos capítulos que contam a sua aventura, ouve contarem-lhe episódios da vida dele, episódios que ela, esposa distante, ignorava, e surpreende-se com o que lhe dão a conhecer. Tal aspecto do enredo, que segue concomitante à perseguição que o inspetor Ferris empreende a ela e ao esposo dela e a investigação que ela e Dan Legget executam, para chegarem até Frank Johnson, é uma trama envolvente que revela, aos poucos, a consciência que Eleanor Johnson adquire de seus sentimentos pelo marido, os quais dela até então estavam ocultos.São muitos os episódios da saga de Eleanor Johnson: o do clube chinês Jardins do Oriente; o do consultório do doutor Hohler; o da loja Hart e Winston; o do Sullivan’s Grotto; o do cais; o do consultório do veterinário; o do necrotério; e, enfim, o derradeiro, o do parque, na praia, sob as instalações da montanha-russa.A partir do episódio ocorrido na loja Hart e Winston, intrigada com mensagem cifrada, que seu marido lhe enviara numa carta, “Estarei em um grande dia, sob o Sol, como no dia que lhe perdi pela primeira vez.”, Eleanor Johnson esforça-se para encontrar-lhe o paradeiro – e para ir até ele teria de decifrar a mensagem, o que ela conseguiria a duras penas.Na metade do filme, repito, a identidade do assassino, alcunhado Danny Boy, no início da trama, por Joe Gordon, é revelada durante um diálogo entre Eleanor e Dan Legget; a partir deste momento, fica-se na expectativa, ansioso para se saber se Eleanor Johnson encontraria seu marido e o ajudaria a safar-se de seu perseguidor, ou se, sem o saber, conduziria o assassino até ele.

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Uma Hora da Madrugada (One A. M. – 1916) – de Charles Chaplin

Após uma carraspana homérica – presume-se, dado o estado de embriaguez do herói da comédia -, Charles Chaplin, pra lá de Bagdá, está num táxi daqueles bem antigos. Que seja antigo o táxi não surpreende, afinal é o filme do ano de 1916. Quer o ébrio retirar-se do veículo. Mas há jeito!? O carro não quer que de si saia seu passageiro. Talvez tal pensamento tenha preenchido a cabeça de Chaplin durante o seu embate com o monstro de metal, que o havia devorado. Depois de umas atrapalhadas bem divertidas, engraçadas, que me arrancaram boas gargalhadas, livra-se o herói do seu inimigo, que não desejava deixá-lo sair de suas entranhas, e encaminha-se à sua residência. Para adentrar-lhe os domínios de nada adiantaria ele ditar “Abra-te, sésamo!”, em alto e bom som, embora estivesse, pra lá de Bagdá, em terras de Ali Babá; precisava de uma chave parar abrir-lhe a porta. Encontrou-a após superar alguns percalços – intransponíveis, dir-se-ia. E dentro da sua casa, passeou de tapetes, que não eram voadores, enfrentou dois felinos ferozes, divertiu-se com uma peralta mesa giratória, exibiu a sua destreza de alpinista, encarou um urso, foi atacado por um relógio, e entrou, finalmente, no quarto, para uma boa noite de sono. Mas a cama não se dispunha a acolhê-lo aos seus braços, tão ébrio ele estava que poderia ser expulso de sua casa e por ela mesma. Enfim, ao fim da sua longa e acidentada jornada, encontrou o herói o repouso tão acalentado.
Nos vinte e poucos minutos deste antigo filme, de mais de um século, assistindo-o, de tanto rir fica-se com dor de barriga e chora-se.

Dois Birutas na Legião Estrangeira (Beau Hunks – 1931) – com O Gordo e o Magro

Dizem os saudosistas que hoje em dia não se faz comédias como antigamente. E eles estão corretos; não há o que se lhes refutar: as comédias modernas, inclusive as animadas por atores engraçados, são apelativas; constrangem familiares tímidos, acanhados, se a família, avós, pais, filhos e netos, assistem ao filme, em casa, na sala, reunidos, num dia de confraternização. O mesmo não se pode dizer dos filmes de O Gordo e o Magro, personagens interpretados, respectivamente, por Oliver Harvey e Stan Laurel, a dupla mais atrapalhada, divertida e engraçada da história do cinema, ícones da sétima arte, figuras que só encontram rivais nos comediantes seus contemporâneos: Charles Chaplin, Harold Lloyd, Buster Keaton, e os Três Patetas, Moe, Curly e Larry.

Neste Dois Birutas na Legião Estrangeira, Ollie e Stan, sob a direção de James W. Horne, seguindo roteiro de H. M. Walker, por vias não muito nobres, vão ter a um posto da Legião Estrangeira. Moveu-os ao alistamento uma desilusão amorosa de Ollie, cuja amada, Jeannie-Weenie (Jean Harlow), mulher que viajou pelo mundo inteiro e era amada por todos, via telegrama, informou-o o rompimento do noivado. Ollie, desgostoso, desiludido, decidido a afagar as suas mágoas, a dedicar-se a tarefas que lhe ocupem os pensamentos, desviando-os da mulher que lhe destroçara o coração, arrasta consigo Stan ao posto da Legião Estrangeira, e alistam-se. E não tardam as atrapalhadas da dupla mais divertida do cinema. E tão logo veio a descobrir, no alojamento dos legionários, que a sua querida Jeannie-Weenie não era a santa, meiga e correta, imaculada mulher que ele, em sua ilusão de homem doentiamente apaixonado, acreditava ser, ciente, agora, de que ela era amada por todos, sofre Ollie segunda desilusão; e na companhia de seu companheiro de todas as horas, dirige-se à sala do comandante e pede-lhe o desligamento, dele, Ollie, e de Stan, da Legião Estrangeira. E do comandante os dois atrapalhados legionários ouvem uma resposta que não os agradou, que os descontentou: Ollie e Stan seguiriam alistados na Legião Estrangeira. E na sala do comandante viram Ollie e Stan, à parede, uma foto de Jeannie-Weenie, igual à que ela enviara a Ollie. E seguem-se cenas hilárias, encantadoramente engraçadas, de fazer dobrar-se de rir a estátua de Moisés esculpida por Michelângelo.

Anunciado o cerco, por muçulmanos, do Forte Árido, ruma os legionários, pelo deserto, chamados a cumprir o dever de irem em socorro a outros legionários, e no deserto Ollie e Stan exibem toda a sua extraordinária falta de destreza no manejo de equipamentos úteis ao avanço dos legionários pelo deserto violento, rigoroso. Durante uma tempestade de areia, enceguecidos, perdem Ollie e Stan a trilha, desgarram-se da companhia de legionários, e andam em círculos; mesmo assim, saem do lugar, sabe-se lá por quais meios, e alcançam o Forte Árido, um feito inusitado, inédito, inexplicável, fantástico, fabuloso, extraordinariamente absurdo. E no Forte Árido sucedem-se as atrapalhadas dos dois novos recrutas. E invadem os muçulmanos o Forte Árido. E dá-se o conflito entre os legionários e os invasores. E o desenlace da picaresca aventura é surpreendentemente cômico, graciosamente engraçado, irresistivelmente divertido.

Neste filme de um pouco menos de quarenta minutos, Oliver Hardy e Stan Laurel oferecem momentos de humor irresistível, cenas impagáveis de tão disparatadas.

E pensar que a divertida aventura começou com uma desilusão amorosa!

Don’t be foolish – (1922) – de Billy West

As comédias antigas, do tempo do cinema em preto e branco, e mudo, têm um toque de humor – humor pastelão – irrivalizado. São simples, ingênuas, tragicômicas. Contêm sucessão de cenas hilárias gostosamente absurdas. De um nonsense disparatado. E este Don’t be Foolish, de Billy West, um filme de quase um século de vida, é um belo exemplar de uma época em que os cineastas que se dedicavam a contar estórias engraçadas revelavam talento e amor à vida (amor à vida, sim, pois o humor que faz rir, gargalhar livremente, nasce do prazer de viver e de fazer viver), que os intitulados comediantes de hoje em dia não herdaram.

A aventura do protagonista tem seu início, numa praça, ele sentado num banco, a descascar bananas e a arremessar as cascas – sem o saber – na cara de policiais. Chamado por eles à razão, ele corre, e eles o perseguem. E ele os despista; todavia, pouco depois, encontra-se com eles, e a perseguição prossegue. E depara-se com uma mulher cujo rosto foi esculpido por um amante do grotesco, do horripilante. E escapa-lhe das garras. E os policiais o perseguem, e o capturam, e ele lhes escapa. E o capturam uma vez mais, e ele lhes escapa segunda vez. E prossegue a perseguição. E ele chega, por vias acidentais, ao apartamento da mulher de cujas garras escapara, e dela foge à abordagem. E sucedem-se cenas divertidíssimas, até que, enfim, o caso se resolve.

Sei que esta resenha nada conta do filme. Mas dele nada há para se contar além do que contei. E tenho de escrever, para encerrar: Só quem está de mal com a vida não se diverte ao assistir Don’t be Foolish.

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