Maldita Aranha Assassina (Big Ass Spider – 2013)

Neste filme – um filme trash, um filme B – de Mike Mendez há todos os ingredientes do gênero: o herói solteirão, que não é benquisto pelas mulheres, tolo e desajeitado, o aliado dele, tão ou mais tolo e desajeitado do que ele, um oponente, militar, um cientista, a mocinha, uma velhinha tarada, donzelas seminuas, inúmeras mortes, muito sangue derramado e espirrado, cenas de ação grotescas, efeitos especiais fajutos, diálogos ridículos. E no final o herói beija a mocinha. E o prefácio de outra aventura, para outro filme.
Alex Mathis (Greg Grunberg), dedetizador, é o herói desta bizarra aventura. Em um hospital, após atacado por uma velhinha insinuante e mordido por uma aranha, sai à caça de uma criatura, que ninguém sabe de qual espécie se trata, e o auxilia Jose Ramos (Lombardo Boyar), segurança do hospital. Enquanto os dois heróis, que se envolvem em diálogos ridículos, caçam o bicho peçonhento, que já fez vítimas humanas, ao hospital chegam os militares, comandados pelo major Braxton (Raymond Herbert “Ray” Wise), que é auxiliado pela tenente Karly Brant (Clare Kramer). Não demora muito tempo, Alex Mathis encontra a aranha e a mocinha, tenente Karly Brant. E logo tem o herói conhecimento de que é a aranha que ele caçava uma criatura fruto de uma experiência científica cujo fim era a amálgama de genes de criatura marciana com um tomate, e dentre do tomate, ignoravam os cientistas, havia um aranha. E este foi o início do desastre. A aranha cresce, assume dimensões gigantescas, e aterroriza os cidadãos de Los Angeles, até que, enfim – e não estou a revelar o final, pois todos sabem como filmes de tal gênero terminam -, matam o monstro.
Não é o filme uma obra-prima da sétima arte; diverte de tão absurdo, ridículo.

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Hércules, Sansão e Ulisses (Ercole sfida Sansone – 1963) – com Kirk Morris e Iloosh Khoshabe.

Eu jamais tinha ouvido falar da existência de tal filme. E jamais pensei que houvesse um que trazia em seu panteão de heróis, os nomes de Hércules e Sansão, heróis, aquele, grego, este, hebreu, aquele, de poemas helênicos, este, do Velho Testamento, heróis que, até onde se sabe, jamais cruzaram-se os caminhos em suas andanças pelas terras inóspitas da nossa querida esfera celeste.

À procura de um filme, acessei o Youtube, e digitei Hércules, a evocar os filmes, que eu, há mais de trinta anos, então um garoto imaginoso, assisti, estrelados por Lou Ferrigno, fisioculturista cuja chama se rivaliza com a de Schwarzenegger. E apareceram-me filmes e desenhos, e, dentre eles, o que dá título a esta resenha. Curioso ao ver os nomes Hércules e Sansão, e mais o de Ulisses, no título de um filme, decidi à obra do cinema italiano (do gênero – vim a saber depois, após uma rápida pesquisa em site de busca – que se popularizou como filme de espadas e sandálias) assistir. Não é o filme uma obra-prima; nem memorável é; tem, no entanto, os seus atrativos: os dois heróis, que se batem em certo capítulo da épica aventura; as paisagens, deslumbrantes; o esmero das cenas e das vestes das personagens.

De início, são naves maritímas gregas atacadas por um monstro marinho, que vem a causar o naufrágio delas. Um dia, decidem Hércules (Kirk Morris) e Ulisses (Enzo Cerusico) singrarem os setes mares à caça do monstro que tanto mal causava aos gregos. E é o destino dos heróis gregos, após o confronto com a criatura marinha, o naufrágio e a chegada deles à terra dos judeus, onde deparam-se com os danitas; na sequência, vêm a ter com Seren (Aldo Giuffrè), o rei filisteu, no palácio deste, e com Dalila (Liana Orfei), mulher diabolicamente astuta, que é bem-sucedida em urdir uma trama que põe em rota de colisão o herói grego e Sansão (Iloosh Khoshabe). Antes desta cena, Hércules mata, com as mãos, um leão, o que faz com que pensem que é ele Sansão, herói em cujo encalço estava o rei filisteu. A cena mais aguardada, a da luta entre os dois heróis, se dá um pouco antes do encerramento do filme. E batem-se o herói grego e o danita, ambos a se emularem em força física, e nenhum deles a se sobressair frente ao seu oponente.

É o filme uma agradável aventura.

O Valente Treme-Treme (The Paleface – 1948) – com Bob Hope e Jane Russell.

Foi no Velho Oeste. Libertam Calamity Jane (Jane Russell), bandoleira temida, da prisão, e negociam-lhe o perdão pelos crimes se ela investigasse um caso escabroso, que envolvia venda de armas para os índios. Após a persuadirem da vantagem que ela obteria com a proposta, ela decide cumprir a incumbência da qual a haviam encarregado. No meio do caminho, conhece Peter Potter (Bob Hope), o dentista alcunhado Indolor, homem falastrão, medroso e trambiqueiro, que troca os pés pelas mãos com a sem-cerimônia de um sujeito alienado, um rematado tolo. A inusitada união entre a temida bandoleira e o pusilânime dentista oferece cenas de humor cativante, engraçadíssimas, disparatadas, de fazer dobrar de rir quem se dedica a assistir a esta comédia irresistível.

O Nome da filha de Cristiano Ronaldo. Linguagem. Filmes. Guerra na Ucrânia. Notas breves.

O nome da filha caçula do futebolista português Cristiano Ronaldo, Esmeralda, inspirou ao escritor Deonísio da Silva comentários curiosos, tratando da origem persa do nome e evocando o poeta brasileiro Olavo Bilac.

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Sob o título “Existem Níveis no Uso da Língua?”, publicado, no Facebook, dia 8 de Maio de 2.022, na página Língua e Tradição, Fernando Pestana resume um pensamento de Eugenio Coseriu, que entende que é a linguagem literária, e não a científica, a linguagem por excelência, pois ela explora em sua plenitude a jazida que é a linguagem humana, tão rica, tão vasta.

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Li, recentemente, sete textos, não sei se devo dizer resenhas, ou simplesmente comentários despretensiosos, acerca de filmes, um de autoria de Neto Curvina, um de Paulo Cursino, e cinco de Vincent Sesering. Considerarei o dos dois primeiros, textos, e não artigos, e tampouco resenhas, e ambos os textos publicados, no Facebook, nas páginas de seus respectivos autores, e os do terceiro, resenhas, publicadas, todas as cinco, no site Coquetel Kuleshov. Todos os sete textos são excelentes, e revelam de seus autores fina sensibilidade, e argúcia, para captar detalhes que de quase todos passam despercebidos. O de Neto Curvina é o tema o novo filme que tem seu personagem o mais famoso herói do escritor Ian Fleming, “007 – Sem Tempo para Morrer.”; o de Paulo Cursino comenta um filme nórdico, O Homem do Norte, do qual vi um trailer, que me prendeu a atenção e despertou-me a curiosidade e inspirou-me o desejo de assisti-lo. Diz o autor que representa o filme a figura bárbara, selvagem do herói, não se inibindo em apresentá-lo sujo, em aspecto repulsivo. E as cinco resenhas de autoria de Vincent Sesering, todas publicadas neste ano de 2.022, todas ótimas, são: do mês de Março, “Batman, Matt Reeves, 2022.”, publicado no dia 8; “A Trilogia Bourne, Doug Liman, Paul Geengrass, 2002, 2004, 2007.”, no dia 16; “Batman vs Superman: a origem da Justiça, Zack Snyder, 2016.”, no dia 3; de Abril, “Medida Provisória, Lázaro Ramos, 2022.”, publicado no dia 27; e, de Maio, “Narciso Negro, Michael Powell & Emeric Pressburger, 1947.”, publicado no dia 2.

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Emmanuel Macron, presidente francês, e o chanceler alemão, Olaf Scholz, pedem cessar-fogo na Ucrânia. E Lloyd Austin, secretário de defesa dos Estados Unidos da América, e o ministro da defesa da Rússia, Sergey Shoigu, reúnem-se, e o representante americano pediu o imediato cessar-fogo.
Aqui, detenho-me para escrever algumas, poucas, observações, acerca das notícias que me chegam aos olhos. Desde o início da conflagração deflagrada pela Rússia há um pouco mais de dois meses que a OTAN planejou, milimetricamente, nos mínimos detalhes, a guerra na Ucrânia, guerra por procuração, e de longa duração, atraindo Vladimir Putin para uma armadilha, na qual ele caiu como um patinho, uma armadilha primorosamente orquestrada, para desgastá-lo, enfraquecer a economia russa e gerar descontentamento nos oligarcas russos, que cortariam a cabeça do ex-espião da KGB. E agora vêm o presidente da França e o secretário de defesa dos Estados Unidos, num curto intervalo de tempo, pedirem pelo fim das hostilidades. Algo não me cheira bem. É só jogo de cena, ou a OTAN deu um tiro no próprio pé, perdeu o controle da situação, as coisas, degringolando-se, estão indo de mal a pior? O que a imprensa não nos conta? O Vladimir Putin já pode dizer: “Não contaram com a minha astúcia.”, ou ainda é cedo? Há dois meses os ocidentais – entenda-se: OTAN – precipitaram-se, e não foram tão astuciosos, como a mídia dava a entender? Presumia-se, então, que a Europa (melhor, Estados Unidos, França e Inglaterra, e seus satélites servis) tinham deixado a Rússia de joelhos.

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Talvez Xi Jinping visite a Arábia Saudita, para tratar da venda de petróleo saudita à China, que pagaria em Yuan, e não em Dólares, as transações financeiras por um meio que não o SWIFT, do qual a Rússia foi excluída logo no primeiro capítulo da novela das sanções otânicas ao país dos Romanofs. Estariam Rússia e China unidos para desbancar o Dólar como moeda hegemônica do comércio internacional, e secundados por Irã, Venezuela e países da antiga União Soviética? É a guerra que ora se desenrola na Ucrânia os prolegômenos de uma guerra que pedirá um Homero para cantá-la, invocando as musas?

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Os países do chamado Ocidente, inclusive os que geograficamente se situam no Oriente estão, inegavelmente, a revelarem-se, não os paladinos da Liberdade, como assim ensina a propaganda, e desde tempos imemoriais, mas autoritários, daí muitos ocidentais indiferentes aos destinos de seus países, vistos, infelizmente, como infernos na Terra, o povo, confuso, desnorteado, a confundir os seus supostos representantes com a terra em que pisam. O governo da Austrália quer vir a proibir o cultivo de alimentos em propriedades particulares, seus donos a labutarem para garantir o próprio sustento, e não para comercializarem os produtos comestíveis que extraírem de suas terras. E mesmo que os comercializassem, que mal haveria? A quem interessa a proibição do cultivo caseiro de alimentos? Os grandes empresários do ramo alimentício, que veriam os australianos comendo-lhes nas palmas das mãos, cabisbaixos, constrangidos, humilhados, a delas tirarem migalhas, que lhes são postas diante dos olhos, para emasculá-los. Tal notícia me fez evocar duas reportagens, que há um bom par de anos eu li, que traziam notícia, uma, dos Estados Unidos, outra, do Brasil, aquela a informar que uma família americana foi proibida de cultivar, no jardim de sua casa, para consumo próprio, tomates, esta a falar da proposta de um político brasileiro que sugeria algo similar ao que o governo da terra dos cangurus e dos ornitorrincos ora propõe – se não me falha a memória, em um dos entes estaduais da região sul, lá pelas bandas da terra do Érico Veríssimo. E vem-me à mente o filme O Vingador do Futuro, de Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzenegger a interpretar o protagonista. Neste filme, os marcianos, que são humanos, vivem à mercê da boa vontade de empresários cujas empresas monopolizam a distribuição de oxigênio.
Não sei se é a vida que imita a arte, se a arte que imita a vida.

Venom (2018)

Não é um filme de aventuras; não é um filme de ficção científica; não é um filme de ação; não é um filme de terror. Não é um filme de super-herói. É uma sequência de cenas grotescas dotadas de algumas pinceladas, e muito mal aplicadas, de elementos de inúmeros gêneros e de nenhum gênero. Cada pessoa vê não se sabe o que em tal filme – se de filme se pode chamar tal obra sem valor, um horror em todos os aspectos, de constranger todo aquele que aprecia a Sétima Arte, de enervar os mais exigentes, de fazer os irmãos Lumière se remexerem no túmulo (e que nenhuma alma penada de além-túmulo ouse lhes falar da existência deste… desta… Não sei o quê). É Venom um caça-níquel. Explora a fama de um dos mais populares, entre os jovens, personagens de quadrinhos de super-heróis americanos. E nada mais. Se caçou muitos níqueis, não sei. Abusa de alguns efeitos visuais grosseiros, e grotescos, para contar um capítulo da vida do repórter investigativo Eddie Brock (Tom Hardy), o homem que vive em simbiose com Venom, o alienígena – um simbionte – que, a bordo de uma espaçonave do Instituto Vida, empresa de exploração espacial do multibilionário Carlton Drake (Riz Ahmed), chega, aprisionado num artefato tecnológico, à Terra.
Carlton Drake, inescrupuloso, realiza experiências que redundam na morte de suas cobaias humanas – uma delas, amiga de Eddie Brock – que não tinham organismo compatível com o dos alienígenas.
Não foi o simbionte Venom o único que foi trazido à Terra. Um outro, após parasitar dois corpos de humanos e o de um cachorro, ocupou, enfim, um que lhe era compatível, o de Carlton Drake.
Há no filme cenas violentas que, de tão mal executadas, inspiram riso; de perseguição, Eddie Brock (e Venom) de moto, seguido por agentes sob as ordens de Carlton Drake – e que nenhuma tensão possui; de humor, humor?, que não fazem rir; e, ao final, de luta, grosseira, grotesca, destituída de atrativos, entre os dois simbiontes, o que estava com o corpo de Eddie Brock e o que dominava o de Carlton Drake.
Venom, não se sabe porque razão, ao saber que o outro simbionte queria empreender uma expedição até seu planeta natal e trazer à Terra milhões dos da sua espécie, para colonizá-la, decidiu confrontá-lo. E assim fez, e foi por ele suplantado. Todavia, seu antagonista morre (morre? estamos falando de estória de super-herói), dentro de um foguete, numa explosão – os simbiontes não são invulneráveis ao fogo.
E Eddie Brock e Anne Weying (Michelle William), que só agora é apresentada nesta resenha, vivem felizes para sempre, ao modo deles, ele a seguir sua vida errática, ela, em comum com o doutor Dan Lewis (Reid Scott).
A biografia de Venom – é este adendo um brinde para os meus poucos leitores – é das mais inusitadas: Na série Guerras Secretas, de Jim Shooter, Mike Zeck e John Beatty, é Venom um material alienígena que compõe o uniforme preto do Homem-Aranha; depois, ele assume ares de um agente parasitário que suga seu hospedeiro, o sobrinho da Tia May, moço que, nas horas vagas, é o Amigão da Vizinhança, Peter Parker, que dele se livra ao som de um sino de uma igreja (emblemático: Peter Parker livra-se de seu demônio em uma igreja); em seguida, apossa-se o simbionte de Eddie Brock; enfim, converte-se em um anti-herói (da estirpe de Deadpool) que não hesita em matar humanos, um personagem grotesco, horripilante, repulsivo, asqueroso – hoje em dia, um herói. E orbitando-o criou-se um panteão de personagens tão horripilantes quanto ele; e é seu antagonista Carnificina.

Na Noite do Crime (Woman on the run – 1950) – estrelando Ann Sheridan e Dennis O’Keefe

Neste filme noir, em preto e branco, de 1950, o inspetor Ferris (Robert Keith) sai à caça de Frank Johnson (Ross Elliott), a única testemunha do assassinato de Joe Gordon (Tom Dillon), que iria testemunhar contra Freeman Fattened, um gangster.

O assassinato ocorre à noite, Joe Gordon, dentro de um carro, após saudar um homem, Danny Boy – e este nome, ao ser mencionado pela segunda vez, na metade do filme, revela a verdadeira identidade do assassino.

Frank Johnson, ilustrador, trabalha na loja Hart e Winston, do doutor Maibus (John Qualen). Passeava, com seu cachorro de estimação, Rembrandt; testemunha o crime, e o assassino dispara em sua direção dois tiros, errando ambos. À cena do crime chegam os policiais, e o inspetor Ferris, que pede a Frank Johnson informações acerca do ocorrido e lhe diz que ele, Frank Johnson, teria de testemunhar, descrever o assassino de Joe Gordon – e seria esta a única informação que teria a polícia numa investigação que tinha como alvo o gangster Freeman Fattened. Ao ouvir tais revelações, Frank Johnson decide, à distração dos policiais, e temendo pela sua vida, homiziar-se em qualquer lugar, para a sua segurança. Ao saber da ação de Frank Johnson, o inspetor Ferris principia a caçada a ele. Na sua ânsia de vir a efetuar a prisão de Freeman Fattened, e certo de que para chegar até ele teria de descobrir a identidade do assassino de Joe Gordon, e que para identificá-lo era imprescindível o testemunho de Frank Johnson, não mede esforços, aborda Eleanor Johnson (Ann Sheridan), esposa de Frank Johnson.

Toda a investigação do inspetor Ferris concentra-se, o que é inusitado, na caçada, não ao assassino, tampouco ao gansgster, mas à testemunha do assassinato de Joe Gordon, Frank Johnson, a única pessoa que poderia adicionar alguma informação à investigação.

Eleanor Johnson é uma personagem cativante – e é ela a protagonista da aventura, e é seu coadjuvante Dan Legget (Dennis O’Keefe), repórter do Graphic. Ácida e sarcástica, nos seus diálogos com o inspetor Ferris e nos com Dan Legget, além de revelar traços de sua personalidade multiforme, sua inteligência fina, de uma pessoa de língua afiada, exibe sua indiferença pelo marido e a si mesma; suas primeiras palavras a respeito do homem com quem vivia sob o mesmo teto são desdenhosas, de desprezo por ele.Atormentada com a abordagem, que lhe restringe os movimentos, do inspetor Ferris, driba-lhe a vigilância, e inicia, coadjuvada pelo onipresente Dan Legget, uma aventura emocionante e tensa à procura de seu marido. Na sucessão dos capítulos que contam a sua aventura, ouve contarem-lhe episódios da vida dele, episódios que ela, esposa distante, ignorava, e surpreende-se com o que lhe dão a conhecer. Tal aspecto do enredo, que segue concomitante à perseguição que o inspetor Ferris empreende a ela e ao esposo dela e a investigação que ela e Dan Legget executam, para chegarem até Frank Johnson, é uma trama envolvente que revela, aos poucos, a consciência que Eleanor Johnson adquire de seus sentimentos pelo marido, os quais dela até então estavam ocultos.São muitos os episódios da saga de Eleanor Johnson: o do clube chinês Jardins do Oriente; o do consultório do doutor Hohler; o da loja Hart e Winston; o do Sullivan’s Grotto; o do cais; o do consultório do veterinário; o do necrotério; e, enfim, o derradeiro, o do parque, na praia, sob as instalações da montanha-russa.A partir do episódio ocorrido na loja Hart e Winston, intrigada com mensagem cifrada, que seu marido lhe enviara numa carta, “Estarei em um grande dia, sob o Sol, como no dia que lhe perdi pela primeira vez.”, Eleanor Johnson esforça-se para encontrar-lhe o paradeiro – e para ir até ele teria de decifrar a mensagem, o que ela conseguiria a duras penas.Na metade do filme, repito, a identidade do assassino, alcunhado Danny Boy, no início da trama, por Joe Gordon, é revelada durante um diálogo entre Eleanor e Dan Legget; a partir deste momento, fica-se na expectativa, ansioso para se saber se Eleanor Johnson encontraria seu marido e o ajudaria a safar-se de seu perseguidor, ou se, sem o saber, conduziria o assassino até ele.

Novos Mutantes (The New Mutants – 2020)

Um filme de super-heróis sem super-heróis, conquanto as personagens que o animam, Illyana Rasputin (Anya Taylor-Joy), Lupina (Maisie Williams), Miragem (Blu Hunt), Míssil (Charlie Heaton) e Mancha Solar (Henry Zaga), sejam, nos gibis da Marvel, heróis. Os Novos Mutantes são os, digo, X-men do ensino médio, um grupo de mutantes criados por Chris Claremont e Bob McLeod – Claremont, que me desculpem a ousadia, padrasto, e um bom padrasto, dos mutantes mais famosos do universo, é autor de aventuras memoráveis, inigualáveis (e para escrevê-las contou com a contribuição inestimável de John Byrne, este no auge de seu talento criativo).
O filme Novos Mutantes possui algumas qualidades, poucas: um clima claustrofóbico, que prende a atenção do expectador, atraindo-lha para o constante mistério, leve, misto de terror e suspense, em doses homeopáticas, um coquetel não de todo dispensável.
Encontram-se os cinco jovens mutantes, sob a guarda de Cecília Reyes (Alice Braga), aprisionados em uma mansão, para estudos de seus poderes. Miragem (ou Moonstar) é a personagem central desta trama. Dotada do poder de fazer ver as pessoas (ela, inclusive) seus mais profundos medos, corporificando-lhes os demônios, revela, aos poucos, os dramas dos personagens que participam da aventura: o de Míssil, que matou, acidentalmente, seu pai; o de Mancha Solar, que matou, acidentalmente, sua namorada; o de Lupina, abusada sexualmente pelo Reverendo Craig (Happy Anderson); e o de Illyana Rasputin, abusada.
Enquanto estudava Miragem, concluem que ela era uma ameaça a todos, e tinha de ser sacrificada. Tal ordem partiu do superior de Cecília Reyes, o Professor Xavier, dá-se a entender, embora em nenhum momento ele seja nomeado. Causou-me estranheza tal detalhe, pois o telepata mais poderoso da Terra, em vez de pedir pela morte de uma mutante, iria, em atendimento aos seus princípios, empregar todos os recursos à sua disposição para ajudar Miragem a se conhecer e conhecer a origem e a extensão de seus singulares poderes.
Na cena derradeira, Miragem – auxiliada pelos outros jovens mutantes – enfrenta seus mais profundos medos, seus demônios, que se corporificam em um imenso urso, bestial.

Uma Hora da Madrugada (One A. M. – 1916) – de Charles Chaplin

Após uma carraspana homérica – presume-se, dado o estado de embriaguez do herói da comédia -, Charles Chaplin, pra lá de Bagdá, está num táxi daqueles bem antigos. Que seja antigo o táxi não surpreende, afinal é o filme do ano de 1916. Quer o ébrio retirar-se do veículo. Mas há jeito!? O carro não quer que de si saia seu passageiro. Talvez tal pensamento tenha preenchido a cabeça de Chaplin durante o seu embate com o monstro de metal, que o havia devorado. Depois de umas atrapalhadas bem divertidas, engraçadas, que me arrancaram boas gargalhadas, livra-se o herói do seu inimigo, que não desejava deixá-lo sair de suas entranhas, e encaminha-se à sua residência. Para adentrar-lhe os domínios de nada adiantaria ele ditar “Abra-te, sésamo!”, em alto e bom som, embora estivesse, pra lá de Bagdá, em terras de Ali Babá; precisava de uma chave parar abrir-lhe a porta. Encontrou-a após superar alguns percalços – intransponíveis, dir-se-ia. E dentro da sua casa, passeou de tapetes, que não eram voadores, enfrentou dois felinos ferozes, divertiu-se com uma peralta mesa giratória, exibiu a sua destreza de alpinista, encarou um urso, foi atacado por um relógio, e entrou, finalmente, no quarto, para uma boa noite de sono. Mas a cama não se dispunha a acolhê-lo aos seus braços, tão ébrio ele estava que poderia ser expulso de sua casa e por ela mesma. Enfim, ao fim da sua longa e acidentada jornada, encontrou o herói o repouso tão acalentado.
Nos vinte e poucos minutos deste antigo filme, de mais de um século, assistindo-o, de tanto rir fica-se com dor de barriga e chora-se.

Three Ages (1923) – de Buster Keaton

É o amor o tema das três novelas que fazem deste filme em preto e branco, e mudo, do ano de 1923, uma peça hilária, uma comédia divertidíssima, o ator e diretor Buster Keaton a protagonizar as três aventuras, uma ambientada na Idade das Pedras, uma, em algum ano do auge do Império Romano, e uma nos tempos modernos, princípio do século XX, nos Estados Unidos. Alternam-se capítulos de cada uma das três novelas, cinco de cada, cada um de poucos minutos – tem o filme um pouco mais de uma hora de duração -, cada capítulo a contar um episódio das adversidades e peripécias rocambolescas do protagonista.

À conquista da mulher amada, sai o protagonista, nas três novelas, e tem ele de se defrontar com um rival, o da Idade da Pedra, mais forte do que ele, o da época de Roma, mais poderoso, e o dos tempos modernos, mais rico. Na Idade da Pedra tem o protagonista um animal de estimação, um ser pré-histórico, um dinossauro, que acredito tratar-se de um alossauro, ser antediluviano de pescoço mais comprido do que o das girafas – mas não sei se os produtores de Three Ages tinham em mente reproduzir, num boneco, tal criatura gigantesca. E fica-se sabendo que em tal era, a da pedra, da pedra lascada, e não da pedra polida, presumo, os nossos brutos, asselvajados ancestrais conheciam o golfe, praticado, então, com tacos rudimentares, clavas, e bolas de pedras. E no tempo dos Césares, faz-se uma leitura singular da corrida de bigas, o protagonista a comandar uma biga puxada por quatro cães, um gato a atiçá-los, e a improvisar, em vez de rodas acopladas à viatura, pranchas de veículos para uso em neve. E nos tempos modernos, assiste-se a um divertido jogo de futebol (para nós brasileiros, futebol americano). Buster Keaton, nas três eras, numa sucessão de absurdos de fazer todos dobraram-se de tanto rir, de tanto insistir em conquistar a mulher que ama, supera os contratempos. São suas aventuras picarescas, outras, disparatadas. Todas, rocambolescas. Dentre as mais divertidas, elenco a da corrida de bigas, a do protagonista na cova – que nesta ele caíra por artimanha de dois de seus inimigos – de um leão – um exemplar ferocíssimo, digno do título de rei dos animais -, a da batalha entre o protagonista e seu rival, na Idade da Pedra, e a do restaurante e do táxi, na idade moderna. E o filme, ao encerramento, exibe o casal, feliz, apaixonado, na Idade da Pedra, com sua penca de filhos, na Roma dos espetáculos sangrentos no Coliseu, com cinco filhos, e, na idade moderna, com… É tal cena, a derradeira do filme, sutil critica aos tempos modernos.

Conquanto recheado de disparates, é o filme veraz em sua essência: reconstitui, com a perspicácia só encontrada em historiadores da estirpe de Tucídides, as três era em seus traços únicos, a representar, à perfeição, a índole dos povos das eras revisitadas.

O leitor poderá, talvez, quem sabe? entender que meu comentário registrado no parágrafo anterior é uma ironia. Ou talvez, não. Quem sabe? De uma coisa eu sei, Buster Keaton fez em Three Ages uma leitura singular da história humana; é verossímil, cá entre nós, isto é, as coisas talvez tenham ocorrido como ele as narra.

E no início de Three Ages há, na primeira cena, prefácio para as três novelas que se irá contar, sentado, à mesa, um ancião de, brancos, cabelos, barba e bigodes, a ladeá-lo uma foice; e sobre a mesa, há uma caveira, um globo, uma ampulheta e um tinteiro com duas penas.

Além de Buster Keaton (um dos diretores do filme; o outro é Eddie Cline), participam de Three Ages os seguintes atores: Margareth Leahy, Wallace Beery, Joe Roberts, Lillian Lawrence, Blanche Payson, Horace Morgan e Leonel Belmore.

É Three Ages uma divertidíssima obra da Sétima Arte. Imperdível. 

Aquaman – com Jason Momoa

Aquaman (Jason Momoa), cujo nome humano é Arthur Curry, é um ser híbrido, filho de um homem humano, Tom Curry (Temura Momoa), e de uma mulher atlântida, Atlanna (Nicole Kidman).

O Rei Orm (Patrick Wilson), atlântida, ambicioso e iníquo, almeja ter sob suas mãos o domínio dos sete reinos marinhos; não titubeia em urdir artifícios – a acumpliciá-lo David Kane (Yahya Abdel-Mateen II), o Arraia Negra, que busca vingar-se de Aquaman, que se havia recusado, após luta no interior de um submarino, a atender-lhe a súplica e socorrer-lhe o pai, Jesse Kane (Michael Beach) – para justificar ataque de Atlântida às nações humanas. Antevendo o cenário apocalíptico, que se desenha, Mera (Amber Heard), uma atlântida, recorre a Aquaman, e pede-lhe que ele, o verdadeiro rei de Atlântida, confronte o Rei Orm. Neste entremeio, o Rei Orm obtêm, usando de um expediente criminoso, a aliança do Rei Nereus (Dolphi Lundgren).

A guerra entre atlântidas e humanos é iminente.

Num duelo submarino, o Rei Orm derrota Aquaman, que, Mera a auxiliá-lo, foge. Ambos, Aquaman e Mera, para solucionar um segredo guardado a sete chaves, vão dar ao Fosso, onde enfrentam as criaturas horripilantes que o habitam, e à Nação Perdida, onde uma surpresa agradável os aguarda e onde está o Tridente de Poseidon, protegido por um monstro mitológico gigantesco, Karathen. E apenas o rei de Atlântida, herdeiro do Rei Atlan, poderia empunhar o Tridente de Poseidon. E Aquaman revela-se o legítimo herdeiro do trono (usurpado por Orm) de Atlântida. E na sequência desenrola-se a guerra entre Aquaman e o Rei Orm.

Nas linhas acima, um resumo do filme do êmulo de Namor, o Príncipe Submarino. O filme é um bom entretenimento; os seus cenários submarinos, grandiosos, e os de locais habitados pelos humanos, simples.

É Aquaman um filme que entretêm; despretensioso; conta uma trama comum, que remonta à lenda do Rei Arthur.

Esquecia-me: em sua infância, Arthur Curry é treinado por Vulko (Willem Defoe); e Geoff Johns, respeitado autor de histórias em quadrinhos de super-heróis, deu seus pitacos no roteiro.

Caminhos da Floresta (Into the Wood) – Direção de Rob Marshall. Com Meryl Streep

Caminhos da Floresta (Into the Wood) é um filme exemplarmente bem produzido que a ambição, inspirada na mentalidade revolucionária do politicamente correto, de recriar contos populares destruiu.

Liguei, vício inescapável, a televisão, sintonizei um canal qualquer, e, vendo que o filme que se exibia não era do meu agrado, sintonizei outro canal, e outro, e outro, até que em um deles, não me lembro qual, vi, à tela, cantando, sorridente e alegre e feliz, uma garotinha: a Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford), que logo reconheci – sua figura é inconfundível, independentemente de qual atriz a interprete. Graciosa, ela se fazia presente num cenário deslumbrante, encantador, que me transportou, sem em mim encontrar resistência, para seu mundo de fantasia. Atraído pela figura da cativante garotinha, amada personagem de um dos contos populares mais conhecidos em todo o mundo, extasiado pela bem realizada produção cinematográfica, ouvindo as canções, que se sucediam a curtos intervalos – e é Caminhos da Floresta um musical, gênero cinematográfico que jamais me atraiu -, acompanhei o desenrolar da trama, interessado em seu desenlace, que, antecipo a informação, não me agradou. E apresentam-se populares personagens de contos universais: João (Daniel Huttlestone), o menino dos feijões mágicos; Cinderela (Anna Kendrick), e seus sapatinhos de cristal; Rapunzel (Mackenzie Mauzy), e suas tranças quilométricas. E os coadjuvantes destas estórias, o antagonista da Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau (Johnny Depp); o Príncipe Encantado (Chris Paine) da estória da Cinderela e o príncipe (Billy Magnussen) da estória da Rapunzel; e a bruxa (Meryl Streep); e a madrasta da Cinderela (Christine Baranski) e suas filhas, Lucinda (Lucy Punch) e Florinda (Tammy Blanchard). E o padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt).

Na aventura, fundem-se quatro contos populares animados pelos personagens já mencionados. Sucedem-se os eventos num bosque fantástico, de mistérios e encantos fabulosos. Um reino encantado. Dá mote ao entrecho a infertilidade da esposa do padeiro. O padeiro e sua esposa ignoravam que eram vítimas de uma bruxa que, tendo de seu jardim o pai do padeiro lhe surrupiado feijões mágicos, concretizou a maldição: o padeiro não teria descendentes. Assim que informou o padeiro e sua esposa da maldição que lhes arremessara, a bruxa, envelhecida porque seus feijões mágicos haviam lhe sido retirados do jardim, disse-lhes que desejava remoçar-se, resgatar sua beleza anterior, e que poderia desfazer a maldição que lançara contra eles, mas para tanto precisava, dentro de três luas, realizar um feitiço, para cuja execução eram indispensáveis um capaz vermelho, um sapatinho de cristal, leite de uma vaca branca e mecha de cabelos loiros. E saem à caça de tais objetos o padeiro e sua consorte.

E sucedem-se as adversidades, as personagens dos quatro contos populares cruzando-se, na floresta encantada, os caminhos uns os dos outros, encontrando-se e desencontrando-se, estranhando-se. A desconfiança entre eles era mútua. Enfim, após o Lobo Mau engolir a Chapeuzinho Vermelho e sua avó e elas lhe serem do ventre arrancadas; e João escalar, até o céu, o pé de feijão, e matar o gigante; e o príncipe libertar da torre Rapunzel; e o Príncipe Encantado conhecer a identidade da dona do perdido sapatinho de cristal, o padeiro e sua esposa obtêm os quatro objetos que a bruxa usaria no feitiço, e a ela os entregam, e assim que ela realiza o feitiço, o herdeiro do padeiro se faz crescer no ventre de sua esposa.

E encaminha-se para o seu encerramento a história… Foi o que eu pensei ao ver a cena que se seguiu, o da confraternização, num castelo, de todos os personagens, o que, entendi, indicava o fim da história, que se daria com o proverbial “E viveram felizes para sempre.” Mas não era o fim da história, que estava na sua metade. A partir deste ponto, o filme desanda. Entendi que foi o objetivo dos realizadores do filme vender uma idéia muito cara aos politicamente corretos: novas formas de família em substituição à família tradicional. Está na pauta dos progressistas politicamente corretos, sabem as pessoas razoavelmente bem informadas, a destruição da família tradicional – que tem no pai e na mãe as autoridades, família que, entendem os progressistas, opressora, é nociva às pessoas, à civilização, porque patriarcal, sustentada por preconceitos, dizem, de obscurantistas pré-diluvianos – e sua consequente substituição por outros modelos de família, estes, dizem, libertários.

Decepcionou-me Caminhos da Floresta, que, se se encerrasse, em sua metade, com um “… e viveram felizes para sempre.”, seria um primoroso conto de fadas.

Sr. Sherlock Holmes (Mr. Holmes – 2015) – com Ian McKellen

Nonagenário, vive Sherlock Holmes (Ian McKellen), na companhia da governanta, Mrs. Munro (Laura Linney) e do filho dela, Roger Munro (Milo Parker), menino de oito anos, em um recanto aprazível do litoral da Inglaterra. Estamos em algum ano logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Auxiliado pelo pequeno Roger Munro, Sherlock Holmes ocupa-se com o seu apiário. Valetudinário, revela o maior detetive da Inglaterra deficiências de memórias. E sofre. Sofre o mais famoso personagem saído da imaginação de Sir Arthur Conan Doyle.
Instigado pelo filho de sua governanta, o eterno Sherlock Holmes empreende, através do tempo, para o passado, uma viagem errática, à procura de respostas para as perguntas que seu inocente companheiro lhe fazia, perguntas que o forçou a trazer, sob muito sofrimento, à tona um triste capítulo de sua vida, do qual ele pouco recordava. Aos poucos, os fragmentos de reminiscência que encontra nos escaninhos de sua mente de idoso alquebrado pela idade, mas que ainda conserva intacto o talento que lhe fez a fama universal, permitem-lhe reconstituir, encaixando-os uns nos outros, o episódio, cuja recordação muito o amargurou. Tratava-se de um caso envolvendo Thomas Kelmot (Patrick Kennedy), que o contratara para estudar o comportamento inusitado de Ann Kelmot (Hattie Morahan), sua esposa, que sofria devido à morte de seus filhos. Tal caso, sucedido trinta anos antes e cujo encerramento, trágico, muito o perturbou, fez Sherlock Holmes abandonar a profissão que lhe deu a fama e recolher-se à sua aprazível residência.
Nesse entremeio, vem a se recordar o detetive de Tamiki Umezaki (Hiroyuki Sanada), com quem se encontrara não muito tempo após o bombardeio de Hiroshima.
Paralelo à investigação de seu longínquo passado, sob esforço indescritível e doloroso, ele, um idoso que transparecia sinais de senilidade, Sherlock Holmes estuda as propriedades regenerativas da geléia real e de uma substância extraída da planta acerca da qual Tamiki Umezaki lhe falara.
Enfrenta o detetive mais famoso de todos os tempos percalços dramáticos, que ele supera não sem sofrimento, seus lapsos de memória a constrangê-lo de tempos em tempos e dos quais ele tem plena consciência. Durante esta que é a maior de suas aventura, revela de sua personalidade traços até então ignorados por ele mesmo. E ensina-lhe a experiência que a lógica, que ele tanto enaltecia, que lhe era infalível nas investigações, um instrumento que lhe era indispensável, não responde a todas as questões humanas. O trágico fim da personagem que ele suspeitava haver ajudado ensinou-o a ver o mundo e as pessoas e a si mesmo com outros olhos.
É ótimo este filme dirigido por Bill Condon, com roteiro de Jeffrey Hatcher, adaptado de A Slight Trick of the Mind, livro de Mitch Cullin, uma trama envolvente, simples, de narrativa lenta, bem cuidada, bem desenvolvida. Mais do que uma investigação policial, é a dramática aventura de um homem em busca de seu tempo perdido.

O mais belo gol do Pelé

Estamos nos anos 1940. Perdia o jogo o time dos aliados. O time dos alemães anotara, no primeiro tempo, quatro gols; o dos aliados, nenhum. Os jogadores do time dos aliados, mesmo em situação tão adversa, acreditaram que poderiam ganhar o jogo. E foram ao campo, para a metade final do embate. Anotaram, em poucos minutos, três gols. Pelé, contundido, sentado no banco de reservas, suplicou que o deixassem entrar em campo. Após pouca, melhor, nenhuma, resistência, deixam-lo jogar. E ele anotou um gol-de-placa, de-bicicleta, belíssima pintura, obra de arte de um gênio do esporte. E ao encerramento do jogo, a multidão, encantada com a primorosa exibição de destreza futebolística dos jogadores do time dos aliados, invadiu o campo, num vertiginoso e contagiante fervor cívico.

Nas poucas palavras do primeiro parágrafo, um esboço do trecho final do filme Fuga para a Vitótia (Escape to Victory), de John Huston. No elenco, além do Rei do Futebol, Pelé, avatar de Edson Arantes do Nascimento, que faz o papel de Luiz Fernandez, estão os conhecidíssimos Sylvester Stallone (Capitão Robert Hatch, o goleiro), Michael Caine (Capitão John Colby) e Bobby Moore (Terry Brady).
Assim que liguei a televisão, vício que às vezes me permite gratas surpresas, sintonizei em um canal qualquer e zapeando cheguei ao que transmitia o filme do John Huston – eu não o procurava, pois eu não sabia que tal filme existia. Jamais me havia passado pela cabeça que algum cineasta tivesse reunido, ou que em algum dia reuniria, no elenco de um filme, o Pelé e o Stallone, e o Michael Caine, e famosos jogadores que exibiram seu jingado de corpo há décadas, antes de eu vir à luz. Foi por acaso o achado. Na tela, vi, assim que sintonizei o canal, que não anotei, para a minha surpresa, a figura inconfundível dos eternos Rambo e Rocky Balboa, uniforme de goleiro, azul, embrulhando-o, sob e entre as traves de um gol. Curioso, li a sinopse do filme e os nomes que figuravam em seu elenco; surpreendi-me ao me deparar com o de Pelé, o Rei do Futebol, velho de guerra, mestre do ludopédio, esportista que encantou multidões nos cinco continentes e que mereceu crônicas encomiásticas de escritores ilustres e atenção de Vilém Flusser, que, nele inspirando-se, escreveu um curto tratado acerca dos mitos.
Não assisti ao filme. Dediquei-me a ver os seus vinte minutos finais. E só. Ao ver, surpreso, o Sylvester Stallone paramentado para um jogo de futebol, num campo de futebol, decidi seguir, atentamente, os minutos restantes do filme, sonhando – sim, sonhando – ver o majestoso Rei do Futebol marcar um gol, um belíssimo gol. Era essa a minha expectativa. Mas Pelé estava machucado, no banco de reservas. Todavia, acreditei que ele, impelido por alguma força misteriosa, iria regressar ao campo e anotar um gol. E não me frustrei com o que vi: Pelé marcando um gol-de-bicicleta. Gol-de-placa. E para fechar o filme com chave-de-ouro, Stallone intercepta a gorduchinha logo após um jogador alemão cobrar de pênalti.
Agora eu posso, orgulhoso, anunciar aos quatro ventos: Vi o Pelé marcar o seu mais belo gol.

Don’t be foolish – (1922) – de Billy West

As comédias antigas, do tempo do cinema em preto e branco, e mudo, têm um toque de humor – humor pastelão – irrivalizado. São simples, ingênuas, tragicômicas. Contêm sucessão de cenas hilárias gostosamente absurdas. De um nonsense disparatado. E este Don’t be Foolish, de Billy West, um filme de quase um século de vida, é um belo exemplar de uma época em que os cineastas que se dedicavam a contar estórias engraçadas revelavam talento e amor à vida (amor à vida, sim, pois o humor que faz rir, gargalhar livremente, nasce do prazer de viver e de fazer viver), que os intitulados comediantes de hoje em dia não herdaram.

A aventura do protagonista tem seu início, numa praça, ele sentado num banco, a descascar bananas e a arremessar as cascas – sem o saber – na cara de policiais. Chamado por eles à razão, ele corre, e eles o perseguem. E ele os despista; todavia, pouco depois, encontra-se com eles, e a perseguição prossegue. E depara-se com uma mulher cujo rosto foi esculpido por um amante do grotesco, do horripilante. E escapa-lhe das garras. E os policiais o perseguem, e o capturam, e ele lhes escapa. E o capturam uma vez mais, e ele lhes escapa segunda vez. E prossegue a perseguição. E ele chega, por vias acidentais, ao apartamento da mulher de cujas garras escapara, e dela foge à abordagem. E sucedem-se cenas divertidíssimas, até que, enfim, o caso se resolve.

Sei que esta resenha nada conta do filme. Mas dele nada há para se contar além do que contei. E tenho de escrever, para encerrar: Só quem está de mal com a vida não se diverte ao assistir Don’t be Foolish.

O Jardim dos Prazeres (The Pleasure Garden) – de Alfred Hitchcock – 1925

A nossa falha condição humana pode nos levar ou à perdição, ou à salvação. É esta a síntese que faço deste filme em preto e branco, mudo, de Alfred Hitchcock, mestre irrivalizado dos filmes de suspense.
Moça ingênua e ambiciosa, Jill Cheyne (Carmelita Geraghty), noiva de Hugh Fielding (John Stewart), procura, para realizar seus sonhos, emprego de dançarina no teatro Pleasure Garden, cujo diretor, Mr. Hamilton (George Snell), rejeita-a; ela, todavia, persistente, dele obtêm uma oportunidade para apresentar-se; apresenta-se, e agrada ao público selecionado para avaliar as dançarinas. Assim que acordou com Mr. Hamilton sua remuneração, e após um contratempo, Patsy Brand (Virgínia Valli), convida-a a pernoitar na casa de Mr. Sidey (Ferdinand Martini) e Mrs. Sidey (Florence Helminger).
Predestinada ao estrelato, bem sucedida, distancia-se de Hugh Fielding e despreza Patsy Brand, e principia relacionamento com o Príncipe Ivan (C. Falkenburg). Vive no luxo e na abastança. Abordam-la ricaços e aristocratas. Está sempre paramentada com vestes luxuosas. Vive em um palacete.
Paralelamente à trama de Jill Cheyne, desenrola-se a de Patsy Brand, daquela independente e com ela conectada, até um certo ponto do filme, que, então, abandonando a daquela, que é relegada ao papel de figurante, concentra-se na de Patsy Brand.
Casados, Patsy Brand e Levet (Miles Manded) rumam à Itália, para a lua-de-mel. Patsy Brand deixara seu cachorro de estimação, Cuddles, aos cuidados do casal Sidey. E às margens do lago Como os recém-casados gozam de um idílio inesquecível durante algum tempo; e não tarda Levet a revelar seu temperamento rude; e deixando sua consorte na Itália, ele ruma a uma colônia britânica, onde permaneceria durante dois anos, e aonde Hugh Fielding iria. Mal sabia Patsy Brand que seu marido viveria, em tal colônia, relações ilícitas com uma jovem nativa, bela, formosa. Para justificar a ausência de comunicação epistolária com sua esposa, Levet envia-lhe uma carta informando-a de seu lastimável estado de saúde. Sobressaltada com a notícia, ela decide ir-lhe ao encontro, mas teria de conseguir, para empreender a viagem, dinheiro para a compra da passagem. Recorre, então, à Jill Cheyne, que, desdenhosa, lhe nega assistência, assistência que Patsy Brand obtêm, para sua surpresa, dos Sidey, que lhe entregam as economias que haviam reunido no decurso dos anos. Patsy Brand agradece-lhes a inestimável oferta. E vai à colônia britânica, onde vem a tomar conhecimento, para seu desgosto, do estado reprovável em que seu marido vivia com a jovem nativa, e onde lhe chega ao conhecimento o preocupante estado de saúde de Hugh Fielding, que, acamado, sofria de um mal que poderia vir a ceifar-lhe a vida.
E Levet precipita-se num estado de insanidade homicida. Delira. Vê fantasmas, que o aterrorizam. Ameaça agredir Hugh Fielding. Deseja matar Patsy Brand. Seu estado, deplorável, de um homem que, se despindo de sua essência humana, convertera-se numa alimária, horrenda, grotesca, bípede animalesco, irascível, doentio.
Patsy Brand e Hugh Fielding, enfim, regressam à companhia dos Sidey e de Cuddley.
Este é o entrecho de O Jardim dos Prazeres (Pleasure Garden), filme de um jovem Alfred Hitchcok, que se tornaria um ícone da sétima arte. Filme de quase um século, merece atenção ainda hoje, pois trata, com simplicidade, e crueza, de eternos fenômenos humanos.

Lucy, com direção e roteiro de Luc Besson, e estrelado por Scarlett Johansson e Morgan Freeman

Nesta resenha, não me estenderei, pois tal filme não merece mais do que algumas linhas, poucas.
A premissa do filme é tola: os humanos usamos apenas dez por cento da nossa capacidade intelectual.
Lucy (Scarlett Johansson), carrega, no ventre, literalmente, um pacote da droga sintética CPH4. É apanhada, e, quando surrada, rompe-se o pacote, e a droga, em contato com o organismo de Lucy, o altera, a ponto de aprimorá-lo, até que, no transcurso de horas, adquire Lucy domínio de toda (100%) a sua capacidade intelectual.
Durante o curso dos eventos, Lucy, já dotada de 40%, 50%, de seu poder cerebral, recorre, confusa, ao professor Norman (Morgan Freeman), em busca de orientações. É risível tal dado do roteiro. Por que uma pessoa, Lucy, que usa 50% do cérebro, recorreria a uma pessoa, professor Norman, que usa apenas 10%?
Enfim, ao final do filme, Lucy, numa cena que, é visível, foi criada sob influência de desenhos animados japoneses, assume, ao atingir os 100% de seu poder cerebral, aparência teratológica. Aqui, está claro, ela adquire o poder de um deus, melhor, uma deusa.
A inteligência de Deus, conclui-se, ao final do filme, é apenas dez vezes superior à humana.
O filme é uma desarrazoado sem fim, quero dizer, do começo ao fim. Apenas um panfleto progressista extraordinariamente patético.

Conspiração (Qui sème le vent, 2011, França). Diretor: Frédéric Garson. Estrelando: Laurent Lucas e Natacha Régnier.

Ninguém encontrará, neste filme de Frédéric Garson, cenas de perseguição de carros e de motos, e de lutas mirabolantes, e de explosões, todas de inspiração hollywoodianas, cenas que desrespeitam as leis da física e as do bom-senso. Não assistirá a lutas que se estendem por cinco, dez minutos, os protagonistas a se baterem, a se socarem, a se estapearem, a arremessarem uns contra os outros todos os objetos que encontram à mão, e tampouco a baterem a cabeça, testa contra testa, como se fosse este um ato sensato, inteligente, o golpe mais eficiente que durante uma luta uma pessoa pode desferir contra o seu oponente, derrubando-o, e conservando-se ilesa. E tampouco cenas em que os criminosos disparam rajadas de metralhadoras contra o carro, que o herói do filme dirige, transformando-o em queijo suíço, e do qual o herói, retirando-se sem um arranhão, com um tiro certeiro alveja o criminoso, matando-o.
Narra o filme uma sofisticada trama de política internacional, que envolve representantes dos governos da França, da China e do Níger, e os de uma empresa de exploração de urânio e os de uma ong ambientalista.
São sequestrados, no Níger, país situado no norte da África, outrora colônia francesa, dois pesquisadores de uma ong ambientalista, Jean-Michel (Frédéric Pierrot) e Coralie (Johanna Bah), que examinam o solo à procura de elementos que lhes sustentem a tese que defendiam: a de que a exploração de urânio poluía a região. E não se sabe quem são os sequestradores.
Hugo Geoffrey (Laurent Lucas), coadjuvado por Hèléne Morange (Natacha Régnier), ele, o policial francês encarregado da investigação e negociação com os sequestradores de Jean-Michel e Coralie, ela, representante da ong ambientalista para a qual trabalham os dois pesquisadores sequestrados, envolvem-se, entre tapas e beijos, e olhares de repulsa e de paixão, numa trama protagonizada por inúmeros personagens, cada um deles em defesa dos interesses ou de um governo, ou próprio, ou o de uma empresa, sendo impossível distinguir dos vilões os heróis; no filme não há espaço para maniqueismo: não há os legítimos representantes do bem e os autênticos representantes do mal. Todas as personagens envolvidas, diretamente, no caso entre governos e empresas de exploração de urânio são nebulosas, estão na penumbra, não na escuridão absoluta, tampouco iluminados por um astro radiante. E só faço uma ressalva à caracterização das personagens: numa exibição, presumo, de inegável amor, imerecido, inexplicado, injustificado, por uma visão de mundo ambientalista, melhor, onguista, as três personagens que representam a ONG ambientalista, Hèléne Morange, Jean-Michel e Coralie, são apresentados como seres abnegados, puros, imaculados. Tal detalhe, todavia, não reduz o valor do filme nem sequer em um centavo.
Enquanto se desenrola a investigação e as negociações – que se arrastam, com avanços e recuos inesperados, enervando os negociadores – com os sequestradores e com os representantes do governo do Níger, general Kassoum (Oumar Barou Quedraogo) e coronel Aboubacar (Emile Abossolo M’bo), e com os da empresa francesa Urania, que há décadas detém a licença, concedida pelo governo nigerino, de exploração das jazidas de urânio nigerinas, agora cobiçada pelo governo da China, que lança mão de expedientes reprováveis para obtê-la, Hugo Geoffrey tem contato com Yassine (Mohamad Zeidan), seu intermediário com os sequestradores, ou, melhor, com quem usa os sequestradores para fins obscuros.
O filme surpreende pelo tratamento realista dado à trama, sem concessões ao heroísmo de um indivíduo onipotente, que enfrenta, no muque, todos os seus oponentes, e pela ausência de cenas, grandiosas e desnecessárias, de perseguições mirabolantes de carros e motos pelo centro movimentado de uma cidade populosa. Não há cenas criadas unicamente para impressionar o público sugestionável e dele esconder a inexistência de uma trama bem concatenada. Prende a atenção usando, apenas, uma trama bem urdida: é impossível antecipar o seu desenlace; não se sabe quem ordenou o sequestro de Jean-Michel e Coralie e com qual propósito. Foi o governo da China? ou o da França? ou o do Níger?
Afirmei, no início, que não se encontrará em Conspiração (Qui sème le vent), cenas de explosão. De inspiração hollyoodiana, não, não se encontrará; no entanto, nos momentos finais, há uma cena de explosão, curta, de um, dois segundos, e se vê uma nuvem de fumaça elevando-se no horizonte, atrás dos prédios. E só.
É Conspiração (Qui sème le vent) um filme para quem aprecia o que de melhor a sétima arte pode oferecer.

Três filmes inspiradores: Matar ou Morrer (com Gary Cooper); El Cid (com Charlton Heston); e, Perdido em Marte (com Matt Damon).

Três filmes inspiradores. Perdido em Marte (de Ridley Scott; estrelado por Matt Damon); Matar ou Morrer (de Fred Zinnemann; estrelado por Gary Cooper e Grace Kelly); e, El Cid (de Anthony Mann; estrelado por Charlton Heston e Sophia Loren).
Em Perdido em Marte, Mark Watney (Matt Damon), astronauta americano, se vê, só, no planeta vermelho. Para a sua subsistência, cultiva, em uma estufa, batatas. Bem-sucedido, consegue, no decorrer de alguns dias de cultivo, colher uma boa quantidade de tal tubérculo. Um dia, porém, um acidente destrói a estufa, e, por consequência, a plantação de batatas. E Mark Watney depara-se com uma situação desesperadora: Terá de permanecer em Marte, à espera de resgate, um tanto de dias, mas não poderá colher batatas para renovar o seu estoque. Controla-se. E pensa, preocupado e calmo. E principia-se um novo capítulo de sua peripécia pela sobrevivência, sem se deixar governar pelo medo, pela desesperança. E uma de suas medidas foi reduzir o consumo diário de batatas, seu único alimento. Mensura o seu estoque de batatas. E verifica quantos dias terá de, em Marte, esperar pelo resgate. E faz os cálculos. E divide as batatas em tantas partes, para comer uma certa quantidade de partes de batatas (e nunca uma batata inteira) por dia. O seu esforço é sobrehumano; disciplina-se; não se deixa sucumbir ao desespero. E enfrenta um inimigo avassalador: a fome. Não esmorece. E é bem-sucedido. A sua luta pela sobrevivência, heróica. Ao final de suas aventuras em Marte, está magérrimo, esquelético; e seu amor pela vida, intacto. E é resgatado. E regressa ao seu lar, a Terra.
Em Matar ou Morrer, o xerife Will Kane (Gary Cooper), recém-casado com Any Kane (Grace Kelly), recebe uma notícia, que o preocupa: a vinda à Hadleyville, cidade do Novo México, de Frank Miller (Ian MacDonald), um bandoleiro que ele, Will Kane, anos antes, capturara e enviara à prisão. E Frank Miller e seus comparsas iriam se vingar de Will Kane. Exortam os cidadãos de Hadleyville o xerife Will Kane a ir-se, em lua-de-mel, embora; que ele salvasse a própria pele. Will Kane principia a viagem; todavia, em um certo ponto, decide regressar à Hadleyville, para defendê-la de Frank Miller e seus comparsas. Solicita ajuda aos moradores. Suplica-lhes ajuda. E é por eles abandonado. Oferecem-lhe ajuda um bêbado e um garoto, ajuda que ele sensatamente rejeita, respeitoso. Em nenhum momento, pensa em desistir. Decidido a enfrentar os seus inimigos, o faz, e só, certo de que poderia vir a morrer. Enfrenta-os. E recebe a ajuda de sua esposa. Vitorioso no embate com os seus inimigos, retira-se, na companhia de sua esposa, de Hadleyville.
Em El Cid, o herói, Rodrigo Diaz de Bivar, o El Cid (Charlton Heston), em batalha contra o emir Ben Yussuf (Herbert Lom), lidera os espanhóis. E é ferido de morte. Mesmo em situação tão dramática, certo de que das mãos da Morte não escaparia, ciente de sua responsabilidade e de que a sua presença, no campo de batalha, à frente de seu exército, era imprescindível para a vitória dos espanhóis, rejeita os conselhos dos que lhe pediam recolhimento, e decide seguir combate. Morre. E lidera, montado em Babieca, seu cavalo, à cela amarrado, e ladeado por Rei Afonso (Johm Fraser) e Al-Mu’tamin (Douglas Wilmer), os espanhóis, que, vendo-o, animam-se, e, animados, entregam-se à batalha, e arremetem-se, bravos, destemidos, contra os invasores. El Cid vislumbrara a morte, e decidira, heroicamente, enfrentá-la. A sua coragem inspirou ao seu povo a vontade de persistir combatendo os invasores. E a vitória foi a recompensa.
Nestes três filmes, os homens assumem postura heróica. Conservam-se, apesar da situação desesperadora, calmos, serenos. São homens fortes. Da têmpera do aço. São heróis. Em Perdido em Marte, Mark Watney luta pela sua sobrevivência. Em Matar ou Morrer e em El Cid, Will Kane, herói daquele, e Rodrigo Diaz de Bivar, herói deste, lutam pela sobrevivência, cada qual, de seu povo, dispostos a perderem a própria vida em defesa, Will Kane, da vida de ingratos, que o abandonam, Rodrigo Diaz de Bivar, o El Cid, da de um povo que o ama. Will Kane sobrevive; El Cid morre. Destes três heróis, o maior é Rodrigo Diaz de Bivar, que, mesmo morto, luta, e conduz seu povo à vitória.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice) – Breves observações acerca da batalha final.

Não é o meu objetivo, nesta resenha, dar um resumo do filme, tampouco dissecar a psicologia das personagens, e nem considerar os recursos técnicos e os efeitos especiais nele utilizados – estes recursos são irrelevantes; relevantes, nos filmes, são a trama e a consfiguração das personagens. Não são raros artigos e resenhas de filmes que, se prendendo na avaliação dos aspectos irrelevantes, muitos deles insignificantes, negligenciam o estudo dos relevantes, essenciais, indispensáveis. Uma boa história, seja ela a de um filme, a de um romance, a de um conto, a de uma novela, tem uma narrativa bem elaborada e personagens bem construídos. E estes são os dois ingredientes nos quais os resenhistas e os ensaistas deveriam dedicar a sua atenção ao tratar dos filmes que estudam.
Nesta resenha, o título indica, dedico-me a comentar, do filme, a batalha final, que envolve os heróis Super-Homem (Henry Cavill), Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) e o vilão Apocalipse – o coronel Zod (Michael Shannon), recriado por Lex Luthor (Jesse Eisenberg), com o sangue deste, e transfigurado numa criatura monstruosa, cujo poder supera os dos seus três oponentes somados, uma criatura quase indestrutível, que possui um, e apenas um, ponto fraco, o mesmo de seu antagonista kryptoniano. Eu não irei resumir a luta final; irei, apenas, traçar descrições, poucas, de cenas que me chamaram a atenção, adicionando-lhes breves observações, que esclarecem o meu ponto de vista.

Começo as minhas observações indicando a cena que, entendo, é a primeira cena da batalha final que revela a ausência de lógica, de consistência narrativa, e que foi concebida com o único propósito de justificar uma outra cena, que se desenrola pouco depois, cena, esta, que apresenta o poder de renovação do herói kryptoniano e sua entrada triunfal na batalha.

O Super-Homem, elevando-se no ar, carrega consigo o seu monstruoso oponente. Voa o Super-Homem; o Apocalipse, não. É o Apocalipse desprovido do talento de voar, conclui-se ao atentar para as cenas que o mostram dando saltos prodigiosos, cobrindo um espaço considerável em cada salto. Está o Super-Homem empurrando Apocalipse para além da atmosfera terrestre, e batendo-se com ele, quando na direção deles é lançado um míssil munido de artefato nuclear. E aproxima-se o míssil de Super-Homem e Apocalipse. E Super-Homem agarra-se ao seu adversário, segura-o, move-se, com ele sob seu domínio, de modo a deixá-lo entre o míssil e ele, Super-Homem, no instante do impacto, recebendo Apocalipse toda a carga da devastadora explosão. Aqui, observo um detalhe absurdo: Super-Homem voa; Apocalipse, repito, não. Apocalipse, que é incapaz de voar, encontra-se no espaço aberto; ele não poderia, portanto, mesmo que o desejasse, esquivar-se do míssil que ia em sua direção; sendo assim, nenhuma razão há para o Super-Homem conservá-lo sob seu domínio; aqui, Super-Homem, inteirado da aproximação do míssil, teria de abandonar Apocalipse, e voar, e numa velocidade superior à do Papa-Léguas, para longe de seu inimigo. E a detonação do artefato nuclear atingiria o Apocalipse, unicamente. Na sequência, chamou-me a atenção um segundo absurdo: Apocalipse cai, na Terra, em uma ilha desabitada. Ao ver esta cena (e não na primeira vez que assisti ao filme), perguntei-me porque Apocalipse, atingido, por um míssil dotado de explosivo nuclear (míssil lançado da Terra), quando ele estava fora dos domínios da atmosfera terrestre, caiu na Terra, ao invés de ser arremessado para longe dela. A cena do míssil atingindo, no espaço aberto, Apocalipse e Super-Homem, parece-me saído da cabeça de um roteirista que acreditou que é ela de grande impacto – e de fato é. E os dois antagonistas, sobrevivendo à explosão de um artefato nuclear, revelam a dimensão do poder deles, o que impressiona os espectadores.

Não muitos minutos depois, os criadores do filme presenteiam as pessoas que o assistem com outra cena ainda mais absurda. Batman, melhor, Bruce Wayne, o homem por trás da máscara do morcego, reputado homem dotado de um intelecto privilegiado (e ele é inteligente, mais inteligente do que os roteiristas do filme, roteiristas que, sem inteligência para dimensionar o valor de seu trabalho, rebaixam a personagem à estatura deles), certo de que só havia um meio de derrotar Apocalipse (fincar-lhe no corpo a lança em cuja ponta há uma pedra de kryptonita, afiada), decide atrair-lhe a atenção, deixar a ilha desabitada, e, com Apocalipse no seu encalço, ir até Gotham City, onde se encontrava a lança em cuja ponta havia uma pedra, afiada, de kryptonita. Quanta inteligência, Batman – diria, irônico, o Robin da antiga séria de televisão. Bruce Wayne conduziu um monstro de poder irrivalizado, imensurável, capaz de destruir um país inteiro, tirando-o de uma ilha desabitada, para para Gotham City. Ele deveria, aqui, rumar, incontinenti, para Gotham City, encontrar a lança, e regressar, de posse dela, para a ilha desabitada onde se encontrava o monstro kryptoniano. Mas ele decidiu, incontinente, com a astúcia, que os roteiristas lhe concederam, de Chapolin Colorado, provocar o seu poderoso oponente e conduzi-lo à cidade eternamente aterrorizada pelo Coringa, e,pelo Batman também – mais por este do que por aquele.

E observo outra cena absurda: Apocalipse, saturado de energia, expande-se, expelindo energia em todas as direções. E de tão avassaladora, a energia liberada provoca tremores nas construções circunvizinhas, derrubando-as sobre Lois Lane (Amy Adams), que fôra buscar a lança (que ela, após o encerramento da luta que travaram Super-Homem e Batman, arremessara numa funda cavidade cheia de água); em decorrência dos tremores causados por Apocalipse, as paredes do prédio em ruínas em que se encontrava Lois Lane despencam, e ela, para escapar de ser atingida pelos destroços, pula na cavidade, cheia de água, em que deixara a lança em cuja extremidade havia a pedra, afiada, de kryptonita. Tal decisão revelou-se contraproducente, insensata, pois blocos imensos caíram na cavidade em que Lois Lane procurara abrigo, impedindo–a de se retirar da água – e ela morreria afogada, se Super-Homem não fosse, pouco depois, em socorro dela. Ora, Lois Lane teria de buscar abrigo em outro local, e não numa cavidade cheia de água.

Abro um parêntese: Ao fim de sua luta com Super-Homem, Batman devia carregar a lança consigo, e não largá-la em meio às ruínas do prédio em que se dera o embate entre eles; e Lois Lane não devia tê-la arremessado, para conservá-la distante de Super-Homem, na cavidade cheia de água. Tal cena foi criada para pôr, na cena descrita linhas acima, Lois Lane em perigo, e justificar a cena em que Super-Homem vai em socorro dela. E parêntese fechado, prossigo:

Na sequência à cena de salvamento, por Super-Homem, de Lois Lane, Super-Homem, em busca da lança, mergulha na água onde ela estava, e não emerge; Lois Lane o socorre, é claro, pois Super-Homem, fragilizado devido à proximidade da kryptonita, mal consegue se mover. E segue o filme. E Super-Homem, que, imerso, próximo da lança, mal conseguia mover um dedo, agora, emerso, empunha-a, e voa, com certa desenvoltura, a lança em riste, até Apocalipse, cravando-lha, no peito, na altura do coração. Esta cena é tão absurda como as anteriores. Super-Homem não poderia, jamais, carregar a lança com ponta de kryptonita. A Mulher-Maravilha, que não sucumbe aos efeitos debilitantes da kryptonita, teria de pegar a lança, e arremessá-la contra Apocalipse, cravando-lha no peito; e, na sequência, Super-Homem, voando, iria até a lança, e, numa colisão frontal, a empurraria para dentro do monstro kryptoniano, matando-o.

Pode-se dizer que estas minhas breves observações são tolices de um crítico excessivamente exigente que não sabe dedicar-se a algumas horas de diversão assistindo, tranquila, e despreocupadamente, um filme de aventuras de super-heróis, obra criada apenas para entreter as pessoas, pois, sendo tal filme apenas uma aventura de super-heróis, não merece ser levado muito a sério. Eu concordaria, não totalmente, com tais comentários, que me soariam como reprimendas. Narra o filme, é verdade, apenas uma estória protagonizada por super-heróis; é literatura de um gênero popular que não pede complexidade de nenhum tipo; todavia, deve-se dizer que toda história, independentemente de seu gênero e das pretensões de seus criadores, tem de possuir consistência. Não há razão justificável para os roteiristas de estórias de super-heróis negligenciar o roteiro. Quem já leu estórias em quadrinhos de super-heróis escritas por John Byrne, Roger Stern, Roy Thomas e outros escritores do mesmo quilate, sabe que tal gênero literário oferece obras de elevado nível. O público de tais filmes, sei, não é muito exigente; sugestionável, contenta-se com as cenas espetaculares e os cenários grandiosos, exuberantes, que deles fazem a popularidade. Não é criterioso. É possível criar, para o cinema, uma estória de super-heróis com roteiro bem elaborado, nulos de erros grosseiros e absurdos como os apontados acima, consistente, respeitando-se os ingredientes que fizeram a fama do gênero nos quadrinhos: a sua fantástica, fascinante, fabulosa, inverossimilhança, que adquire verossimilhança nas mãos de talentosos roteiristas e desenhistas.

Incomoda-me a suspeita: um filme com tantos absurdos foi concebido, não porque Hollywood está carente de bons roteiristas, mas porque tem o objetivo de destruir a inteligência das pessoas, pois Batman vs Superman: A Origem da Justiça, não é um caso único de filme repleto de cenas absurdas, desconexas, ilógicas; é um exemplar do padrão hollywoodiano. É a regra, e não a exceção. No gênero de super-heróis e em outros gêneros, há trilhões de filmes recheados de cenas absurdas, ilógicas, patéticas em todos os aspectos imagináveis, compondo roteiros sem início, sem meio, sem fim.
Quantas pessoas que assistiram ao Batman vs Superman: A Origem da Justiça, atentaram para os aspectos absurdos das cenas aqui observadas? Tão habituados a coisas igualmente irracionais, adotaram, com indiferença e passividade, todos os absurdos aqui elencados sem se darem conta da existência deles.
É impossível, em imaginação, dimensionar o estrago que os filmes hollywoodianos atuais provocam em pessoas acostumadas a assisti-los desde o berço. Suspeito que Hollywood almeja a destruição da inteligência das pessoas, pois não acredito que hoje em dia não exista escritores talentosos que possam escrever bons roteiros de filmes; de filmes de super-heróis, inclusive. E Hollywood, uma indústria bilionária. pode, contratar, e a peso de ouro, roteiristas talentosos, escritores criativos, de qualquer lugar do mundo. Se não zela pelo bom roteiro de seus filmes, tem, presumo, outros propósitos, inconfessados, além do de amealhar uma fortuna de dar inveja aos faraós do antigo Egito.

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