O distraído

Marcelo chegou à sua casa às dezoito horas e trinta minutos. Retirara-se da loja de calçados na qual trabalhava de caixa minutos depois das dezoito horas, um pouco irritado devido à atitude de um cliente, que, esnobe, soberbo, tratara-o com desdém e o constrangera na frente de três clientes e dois funcionários da loja – o sangue a ferver, os punhos cerrados, Marcelo rilhava os dentes, atiçando-o pensamentos que o exortavam a se arremessar contra o cliente que o destratava; soubera conter-se, no entanto.

Chamou por Renata, sua esposa. Ela não estava na casa. Marcelo rumou ao quarto, entrou no banheiro, do qual retirou-se vinte minutos depois, banhado, chinelos-de-dedos nos pés, camisa regata e short, barbeado, de cabelos penteados, e rumou à cozinha para preparar o jantar, o seu e o da Renata, e na cozinha encontrou Renata, à pia, lavando tomates e cebolas, saudou-a, beijou-a, nos lábios, e ela censurou-o:

– Tu és muito distraído, Marcelo.

– Eu? – perguntou-lhe Marcelo, surpreso com a declaração.

– Sim. Tu.

– Por que eu sou distraído?

– E ainda me perguntas? – e sorriu Renata.

– Não sei por que me dizes que sou distraído.

– Fui ao consultório da doutora Jaqueline levar os resultados dos exames médicos, os quais ela me pediu, na semana passada, passei na agência do banco **, e saquei R$ 500,00; ao sair da agência, te vi saindo da loja, chamei-te, uma, duas, mil vezes, e tu não me ouviste. Gritei, e tu a olhar, distraído, para o outro lado da rua.

– Não te ouvi.

– Claro que não me ouviste. Estavas distraído.

– Que horas eram quando me chamaste?

– Minutos depois das seis… Há alguns minutos. Abaixavam, já, as portas da loja.

– Tive a sensação de que eu ouvia alguém a me chamar.

– Tu és muito distraído, Marcelo. Chamei-te várias vezes, e não me ouviste. E tu não estavas muito longe de mim. Ouviste, me ouviste, mas, distraído, não reconheceste a minha voz.

– Eu não estava distraído, Renata.

– Não?

– Não. E eu não sou um homem distraído.

– Tu não és um homem distraído? Claro que és, Marcelo. Tu andavas a olhar não sei para onde, e, distraído, esbarraste, eu vi, em um homem, senhor de idade, derrubando-lhe a caixa que ele trazia consigo.

– Eu fiz isso?

– Fizeste. E aquele senhor de idade te chamaste a atenção, e tu, distraído, não o ouviste.

– Não percebi o que fiz.

– Claro que não; estavas distraído.

– Eu não estava distraído, Renata.

– Estavas, sim. Distraído estavas, Marcelo. Distraidíssimo.

– Tu me ofendes, Renata.

– Ofendo-te?

– Sim. E duas vezes.

– Explica-te.

– Explicar-me-ei a ti. Ao chamar-me de distraído, sendo que distraído não sou, tu me atribuis características que não me pertencem.

– Que dramático!

– Não zombes de mim, Renata.

– Continues.

– Continuo: Além de me atribuir distração, tu, após eu dizer-te que eu não estava distraído, insististe em me chamar de distraído, chamando-me, portanto, de mentiroso, e mentiroso não sou. Tu me ofendestes, Renata, duas vezes.

– E tu não estavas distraído, não?

– Não. E provo. Tu me chamaste, e não te ouvi, e esbarrei, tu me disseste, em um senhor de idade, derrubando-lhe a caixa que ele carregava. Não foi por distração que não te ouvi e que derrubei a caixa que o senhor de idade carregava ao nele esbarrar-me e que não o ouvi recriminar-me. Naquele momento, eu estava concentrado, muito concentrado, em uma morena de um metro e setenta, de minissaia verde e camisa branca decotada, que andava, melhor, desfilava, na calçada, no outro lado da rua, e eu…

E Marcelo cessou o relato ao fitar Renata, e notar-lhe o rosto carregado e o olhar ameaçador a fuzilá-lo, e ver, na mão direita dela, uma faca. E tratou, rapidamente, de de sua esposa afastar-se. E retirou-se, correndo, da cozinha.

Declaração de Amor – parte 5 de 5

Encerradas as férias, Marta, no início do ano letivo, retomou as aulas e as suas atividades profissionais, e Dálton redobrou os seus esforços no trabalho e adicionou centenas de reais ao seu salário mensal.

A carreira de Dálton seguia em franca ascensão. Ele arrancava elogios de Durval e olhares hostis de vendedores e desafetos.

Na faculdade, Marta apreendia as lições ministradas pelos professores; no escritório, Floriano e Lucrécia ministravam-lhe lições, práticas estas, que davam suporte àquelas. Com tal auxílio, valioso, indispensável, ela avantajava-se aos seus condiscípulos; e muitos dentre eles a consultavam em busca de esclarecimentos para certas lições que não haviam assimilado na sala de aula.

Numa sexta-feira chuvosa, séries intermináveis de raios rasgavam o céu – e seguiam-se estrondos assustadores. Os ventos fustigavam as árvores, cujos galhos e tronco vergavam-se. Dálton, preocupado, telefonou para Marta, no horário de intervalo entre duas aulas, e disse-lhe que a buscaria na faculdade. Retirou-se do carro, à frente da faculdade, duas horas depois de encerrado o telefonema. Empunhava dois guardas-chuva; com a mão direita, o armado; e com a esquerda o desarmado. Andou, passos firmes e cuidadosos, pelo piso molhado, a cabeça ligeiramente inclinada, até os degraus que davam acesso ao prédio da faculdade. Ao abrigo da laje, girou o cabo do guarda-chuva aberto, de cuja capa, com a força centrífuga, removeu a água, e o desarmou. Deteve-se ao limiar da porta ampla. Não entrou no prédio. Esperaria por Marta, próximo à porta. Olhou ao redor à procura de uma pessoa conhecida. Assistiu à tempestade arrefecer. Cessaram os raios. Amainaram os ventos. Um grupo de universitários – duas mulheres e três homens, dois desleixados e um de postura formal, de terno e gravata, óculos de lentes grossas escanchados no nariz achatado de abas largas. Este era alvo de piadas. Com emprego inapropriado do jargão jurídico, tratavam-no por juiz; e ele, representando o papel que lhe atribuíam, emprestou entonação férrea à voz, e, empunhando um martelo imaginário, sentenciou um ladrão-de-galinhas à prisão perpétua, exortando-o a viver até a data aprazada para a sua soltura. Os outros alunos gargalharam. Um dos que integravam este grupo mambembe, fazendo a vez de réu, súplice, declarou-se inocente e disse que não roubara uma galinha, mas, sim, um galo, um predador sexual. A moça que se fez de advogada de defesa pediu a comutação da pena. O homem que fazia a vez de advogado de acusação declarou que o réu não roubara uma galinha qualquer, mas uma galinha preta, que seria imolada num ritual de magia negra, à luz de uma vela vermelha, numa linha de trem, numa região baldia, sob o viaduto, à meia-noite de uma sexta-feira de lua cheia. E o que interpretava o juiz adicionou mais duzentos anos à sentença de prisão perpétua e enfatizou a exortação: que o réu não morresse antes de cumprir integralmente a pena; se ele morresse, outros duzentos anos seriam adicionados à condenação; e encerrou a peroração com uma série de interjeições recheadas de latim macarrônico e elogios à obra do Mestre Janotus de Bragmardo, êmulo de Cícero, e cuja oratória está bem documentada no livro do ilustríssimo Alcofribas, abstrator de quintessência. Dálton sorriu. Divertiu-se com a caricatura grotesca que os alunos representaram, surpreso com as alusões a casos famosos, popularizados pela imprensa sensacionalista e às obras clássicas da literatura e da filosofia. Os alunos entremeavam os discursos com observações sobre a tempestade, a fúria dos ventos, que retornaram com vigor redobrado, e os raios, que rasgavam o céu escuro. Todos foram ao pátio. No pátio, Dálton estudou os detalhes das estátuas que o adornavam. Um dos alunos, o que representara o papel de advogado de acusação, citou o nome do professor Basílio, e o classificou como um predador sexual, um sedutor de alunas incautas. Uma aluna e um aluno exortaram-no a não dar ouvidos aos boateiros; e ele afirmou não se tratar de boato, e disse que o professor Basílio estava arrastando as asas para uma aluna do segundo ano, e citou o nome: Marta. Dálton, ao ouvi-lo, apurou os ouvidos, e, simulando interesse pelo alto-relevo incrustado na parede, aproximou-se do grupo.

– Que Marta? – perguntou uma das moças.

O aluno descreveu-a, nos pormenores. Dálton reconheceu Marta na descrição, e seu sangue borbulhou. Fungou, furioso, e expeliu, pelas narinas, o seu furor. Cruzou os braços ao tórax, e pôs-se a ouvir, atentamente, os comentários dos alunos, sem deixar de si escapar uma palavra sequer. Mordia os lábios, ora o superior, ora o inferior. Os detalhes que os alunos forneciam eram reveladores. Ninguém conceberia tantos pormenores para uma história inventada. Dálton acolheu como verdadeiros os relatos. A temperatura de seu corpo elevava-se à medida que os alunos adicionavam detalhes à narrativa.

Arrefeceram-se os ventos. Raios cortavam o céu a intervalos maiores. A água despencava, agora, calma e ritmada.

Dispersaram-se os alunos. As duas moças e um dos moços que haviam participado da representação teatral de um julgamento disseram que iriam embora, e retiraram-se; os outros dois alunos rumaram para a biblioteca.

Dálton remoeu os seus pensamentos. Indagou-se da veracidade dos relatos que ouvira. Marta, então, era a aluna predileta do professor Basílio? De Marta Dálton exigiria explicações; não admitiria tergiversações. O seu furor exacerbou-se ao ouvir, atrás de si, o nome de Basílio pronunciado pela voz suave de uma aluna, aluna morena de longos cabelos pretos, sorridente, de olhos radiantes. Dálton deparou-se com um homem de um metro e oitenta, ombros largos, esbelto, cabelos compridos presos num rabo-de-cavalo, barba e bigode rapados. Então, este é o professor Basílio, pensou Dálton, rilhando os dentes, fuzilando-o com os olhos injetados de cólera. A aluna desmanchava-se diante do professor Basílio, que, com um sorriso encantador, covinhas sedutoras nas laterais dos lábios e um olhar irresistível, elogiou-lhe o novo penteado, que lhe realçava a beleza natural. Ela derreteu-se, e disse-lhe que, no escritório em que trabalhava, conhecera uma ex-aluna dele: Luana. Ele puxou pela memória, para se lembrar da figura dela. A moça descreveu-lha: baixa, de cabelos alaranjados, sardenta. Ele exultou de alegria. Recordava-se de Luana, a Laranjinha – à ela se referiu – e a moça confirmou: o apelido dela era Laranjinha; e algumas pessoas chamavam-na de Narizinho devido ao minúsculo e gracioso narizinho arrebitado que ela trazia consigo desde que dera o ar de sua graça ao mundo. Dálton ouvia tais futilidades e abanava a cabeça. O professor Basílio anunciou à aluna a ida para outra sala-de-aula, e estendeu-lhe a mão. E a aluna retirou-se. Neste mesmo instante, Dálton viu Marta, Mariana e um homem indo na direção do professor Basílio, e seus pés enterraram-se no piso, e concentrou em Marta o seu olhar como se projetasse sobre ela um foco de luz, isolando-a do ambiente. O professor Basílio viu-os e saudou-os, sorridente. Dálton viu Marta, que trazia os cadernos e os livros ao busto, abrir um sorriso de orelha a orelha e estender a mão direita para o professor Basílio. Não lhe passaram despercebidos os gestos dela: o de remexer os cabelos e ajeitá-los às costas; o de empinar o corpo; o de ajeitar a camisa. No seu campo de visão, entrou a mão esquerda do professor Basílio, que tocou, suavemente, o ombro direito de Marta, o suficiente para arrancar de Marta suspiros. Sobrepujando as forças que o imobilizavam e enraizavam-lhe os pés no piso, Dálton andou, crispados os músculos, franzido o cenho, pesados os passos e cerrados os punhos, na direção de Marta, que, pressentindo-lhe, dir-se-ia, a aproximação, voltou-se para ele, viu-o, e abriu um largo sorriso. Dálton ampliou o seu campo de visão, para abranger Marta, Mariana, o aluno e o professor Basílio. Estava a um metro deles, quando Marta apresentou-o ao professor Basílio e este a ele. E o professor Basílio estendeu-lhe a mão direita, e disse-lhe:

– A Marta disse-me que tu e ela estão noivos. Parabéns.

Dálton sorriu e se disse um felizardo. Com o braço direito, Marta enlaçou Dálton pela cintura, e encostou-lhe no tórax a cabeça. O professor Basílio exigiu, deles, um convite para o casamento, consultou o relógio, e anunciou, em suas palavras, a sua retirada estratégica, pela esquerda, rumo à sala-de-aula, despediu-se deles, e deles afastou-se, a passos acelerados. Pouco tempo depois, Marta e Dálton despediram-se de Mariana e do outro aluno.

Raios e trovões anunciavam tempestade, que se precipitaria em poucos minutos. Uma série de raios seguidos de trovões persuadiram Dálton e Marta a acelerarem os passos até o carro. Grossos pingos de água os atingiram. Ao abrigo dos guarda-chuvas chegaram ao carro.

Dálton inseriu, na conversa, que principiara com observações de Marta a respeito das provas, o professor Basílio, teceu comentários favoráveis a ele e estudou a reação de Marta, que dele deu muitas informações.

Notou que ela se continha ao elogiar o professor Basílio. Enquanto a ouvia, estreitou os olhos, que quase desapareceram sob as sobrancelhas. Crispou as mãos ao volante, e acelerou o carro. Marta pediu-lhe que reduzisse a velocidade. Ele ignorou-a. Ela se lhe mostrou preocupada. Ele executou manobras arriscadas, contornou um carro, pela direita, atravessou um cruzamento com o semáforo aceso no vermelho, entrou na contramão, por uma rua de mão única, atravessou um cruzamento, sem atentar para o semáforo, e acelerou o carro. O motorista de um carro, que vinha na perpendicular, freou a tempo de evitar a colisão, e, esgoelando-se, disparou uma saraivada de obscenidades. Marta berrava, dava tapas no ombro e no braço de Dálton, e ordenava-lhe que parasse o carro. Seu coração quase foi à boca quando ele executou, em alta velocidade, uma manobra, num cruzamento, numa pista escorregadia, com poças de água estagnada e areia, para a esquerda. O carro subiu na calçada, tangenciou o muro de uma casa e resvalou um poste. Marta desmanchava-se em prantos e berros ensandecidos. Chorava. Seu rosto, deformado pelo medo. Viu a morte diante de si. Inspirava e expirava rapidamente. Arregalava os olhos. Cerrava as pálpebras. As lágrimas escapavam-se-lhe, copiosas, e escorriam-se-lhe pelo rosto deformado pelo terror que a afligia. Dálton ofendeu-a. Ela desfazia-se em prantos, tensa, apreensiva. Ele não parou o carro. Ensandecido, disparou contra Marta uma série de ofensas atordoantes, que dela extraíram o vigor e pulverizaram-lhe o espírito. Encarnava a personalidade de um alter-ego monstruoso. Seus olhos refletiam a fúria que se lhe apossara do espírito. Inclinado sobre o volante, rilhava os dentes a ponto de ferir as gengivas; quando conservava a boca aberta, pronunciava, com rictus animalesco, voz cavernosa, vaticínios lúgubres. Marta perdeu a voz quando ele manobrou, no cruzamento seguinte, para a direita, subiu com o carro na calçada, no lado oposto da rua, tangenciou uma árvore, perdeu o governo do carro – o volante escapando-se-lhe das mãos, moveu-se como se houvesse adquirido vontade própria -, que atravessou a rua, subiu na calçada, e ia colidir com o muro, mas, no último instante, Dálton recuperou-lhe o controle, e, com um brusco movimento do volante para a esquerda, direcionou-o de modo a passar entre o muro e o poste, e desceu da calçada à rua trinta metros depois, rua inclinada num ângulo de quarenta e cinco graus. Dálton acelerou o carro. A velocidade vertiginosa dava a impressão de que o carro caía em um abismo. Marta sentiu o coração subir-lhe à boca. Ao atingir o nível mais baixo da rua, Dálton afundou o pé no freio, e girou o volante. A manobra, de tão arriscada, lançou Marta para a frente, e sacudiu-a, roubando-lhe a respiração. A pressão do cinto de segurança fê-la perder os sentidos. O carro deu solavancos e quase tombou. A cabeça inerte de Marta, pendendo sobre o peito, oscilava de um lado para o outro como se fosse um pêndulo invertido. Dálton esgoelava-se em maldições e protestos, rilhava os dentes, num rictus macabro, como se houvesse coberto o rosto com uma máscara ritualística demoníaca. Berrou perguntas insanas. Não obteve resposta. Deu um tapa em Marta, ao mesmo tempo que a insultava e a ameaçava. Ela recuperou a consciência. Entontecida, alheada, com olhar vazio, indagava-se o que ocorrera e onde se encontrava. Dálton berrava-lhe insultos. Ela não compreendia as palavras, que lhes chegavam, distorcidas, aos ouvidos, como se cada uma delas lhe chegasse numa freqüência, como se uma lha invadisse o cérebro numa velocidade, e outra em outra velocidade, como se a última sílaba de uma palavra lhe chegasse antes da primeira sílaba, que tardava a chegar, ou não lhe chegava, aos ouvidos. Após passar por três cruzamentos, executar outras manobras arriscadas e dobrar duas esquinas, Dálton parou o carro, e deu socos no volante. E cuspiu obscenidades no rosto de Marta, que, com os lábios separados um do outro e a cabeça repousada no encosto do banco, fitava-o, apática, a escaparem-se-lhe dos olhos lágrimas cristalinas. Arrostava-a, esmagava-a sob uma torrente infindável de insultos e acusações; ilustrava a sua narrativa com gestos obscenos. Disse-lhe que ela protagonizava orgias sexuais e submetia-se aos caprichos de Wesley, do professor Basílio, de Lauro, de outros homens, e de Mariana, e de outras mulheres. Disse saber que ela era uma depravada. Marta soluçou, engasgou-se com a saliva. Arfava. As lágrimas não cessavam; avolumavam-se-lhe, e, escorrendo, contornavam-lhe o nariz e a boca, e despencavam-lhe do queixo para o peito. A sua postura irritou Dálton. Moveu Marta a cabeça, lentamente, para o outro lado, olhou através da janela, e cerrou as pálpebras. Uma onda de lágrimas escapou-lhe dos olhos, deslizou-lhe, como um rio em correnteza, pelo rosto, e despencou, do queixo para o peito, como uma cachoeira. Marta rogava aos céus o envio de um anjo. O olhar e as ameaças de Dálton inspiraram-lhe cenas de horror. Visualizou a sua morte nas mãos de Dálton, que a sufocaria até exaurir-lhe a energia vital e o sopro divino se lhe escapar do corpo. Estava à mercê dele. Ele ordenou-a se retirasse do carro e desatou-lhe o cinto de segurança. Ela não se mexeu. E ele berrou-lhe aos ouvidos e espargiu-lhe perdigotos corrosivos. Ela mordeu o lábio inferior, petrificada. Dálton desvencilhou-se do cinto de segurança, curvou-se sobre ela, agarrou-a pelo queixo, voltou-a para si, cravou seus olhos nos olhos dela, e gritou-lhe que saísse do carro. Ela não se mexeu. E ele passou o braço por sobre ela, destravou a porta, abriu-a. E com brutalidade empurrou Marta para fora do carro. Ao cair na calçada, ela esfolou os cotovelos. Dálton arremessou-lhe os livros, os cadernos e a bolsa. Um livro atingiu-lhe o nariz. Dálton fechou, violentamente, a porta do carro, pisou no acelerador, imprimindo, no asfalto, a marca dos pneus, e foi-se embora.

Marta precisou de um bom tempo para se restabelecer. Ao emergir do alheamento, arfando, soluçando, chorando convulsivamente, lágrimas se lhe escorrendo pelo rosto deformado pelo medo, olhou ao redor, e só então se deu conta de onde se encontrava: numa rua deserta e mal iluminada. As lâmpadas dos postes piscapiscavam, sinistras. Com as mãos trêmulas, abriu a bolsa, e procurou pelo telefone celular; ao achá-lo, sôfrega, pegou-o, telefonou para seu pai; tensa, num choro convulsivo, aguardou-o atender a chamada. Recolheu os livros, os cadernos e a bolsa. Acocorou-se, com a bolsa a tiracolo, e olhou em torno. A rua não lhe era desconhecida; todavia, não soube dizer para si mesma em qual bairro localizava-se. Andou, cambaleando, a mente entorpecida, até os degraus que davam acesso a um estabelecimento comercial – um bar (leu o letreiro) com as portas cerradas; as letras do letreiro, aos seus olhos imbricadas, ampliavam-se e reduziam-se. Sentou-se no degrau superior, e pousou os pés no degrau logo abaixo, conservando, entre as coxas e a barriga, os livros e os cadernos. Não afastou o telefone celular da orelha direita. Inclinada sobre a coxa, as costas abauladas, enterrou os cotovelos nos joelhos. Roeu as unhas dos dedos da mão esquerda. Ninguém lhe atendia ao telefone. Olhou em redor. Vislumbrou, à sua direita, próximo ao cruzamento, um vulto. Removeu, com a palma e as costas da mão esquerda, as lágrimas que lhe prejudicavam a visão, e focalizou-o. Ora arregalava os olhos, ora os comprimia cobrindo-os quase que completamente com as pálpebras e as sobrancelhas. Franzia os músculos circunvizinhos aos olhos de modo a apurar a visão, para distinguir o vulto, que, parecia-lhe, ou era um corcunda, ou um homem carregando um fardo grande e pesado às costas. Ninguém atendeu ao telefone. Repetiu a ligação. De sobreaviso, fitava o vulto aproximando-se de si. Encolheu-se. Abraçou as pernas com o braço esquerdo, abaixou a cabeça, curvou as costas, de modo a pousar o queixo sobre os joelhos; assim, pensou, sem tomar consciência dos seus pensamentos, reduzia-se aos olhos da pessoa que se aproximava; e deslocou-se um pouco para a direita, quase se encostando ao batente da porta, onde uma sombra se projetava. Um pensamento iluminou-lhe o cérebro: à sombra passaria despercebida aos olhos da pessoa que se aproximava. O vulto, cujos contornos se lhe definiram, era o de um homem, que arrastava os pés, o corpo curvado para a frente, carregando às costas uma sacola de plástico; tinha ele aparência grotesca, cabelos e barbas desgrenhados, e ele trajava calça e camisa amarfanhadas e rasgadas em vários pontos. Ele passou pelo meio da rua, sem tomar conhecimento de Marta, que o comparou a um ogro repulsivo. Floriano, enfim, atendeu ao telefonema. Marta desfez-se, de imediato, em lágrimas, e sussurrou, para não atrair a atenção do homem que passara por ela. Alarmou-se Floriano. Alterou-se. Pediu à sua filha a localização dela e aconselhou-a a acalmar-se. Ela fitava o homem, que se afastava lentamente. Era perceptível a mudança do timbre da voz de Floriano. Marta não disse coisa com coisa, não completou uma frase, abandonou inúmeras reticências, solicitou ajuda, disse que não sabia onde estava, falou de Dálton. Floriano pediu-lhe a localização. Ela não soube dizer-lha, preocupando-o. Ele, depois de alguns minutos, logrou acalmá-la o suficiente para ela lhe dar o nome do estabelecimento à porta do qual se encontrava, e perguntou-lhe se havia outro estabelecimento comercial, nas proximidades; não conhecia aquele, e pediu-lhe que fosse até a esquina, e, na placa afixada, ou na parede, ou no muro, ou sustentada por um poste de metal, ou por um poste, lesse o nome da rua. Marta intensificou o choro. Disse que estava com medo. Floriano disse-lhe que não poderia ajudá-la, se ela não lhe dissesse o nome da rua onde se encontrava. A muito custo, ela se levantou. Enquanto andava até a esquina, falava, sem dar ao seu pai um relato pormenorizado e objetivo do que a ela ocorrera. Repetia-se. Confundia-se na cronologia; aos poucos, recuperava-se – sempre que ela parava de falar, Floriano fazia-lhe uma pergunta qualquer, para que ela falasse qualquer coisa. Na esquina, ela procurou pela placa indicativa do nome da rua; não a encontrou, nem no poste, nem na parede do estabelecimento comercial. Olhou para o outro lado da rua. Viu uma placa metálica afixada no muro. Olhou em torno, e atravessou a rua, cujo nome ela o leu na placa. Floriano disse conhecê-la; iria até lá, e pediu a Marta que ela não desligasse o telefone, e passou o telefone para Lucrécia, foi ao telefone sem fio, telefonou para a delegacia de polícia, e forneceu uma síntese do episódio e o nome da rua na qual Marta estava. A telefonista prometeu providenciar, imediatamente, uma viatura, e desligou o telefone. Marta e Lucrécia conversavam. Lucrécia, de camisola, a respiração suspensa, roendo as unhas, sentada no sofá, ouvindo a narrativa caótica de sua filha, levou a mão ao peito esquerdo, para impedir que o coração abrisse caminho para fora do corpo. Floriano foi ao quarto trocar de roupas. Regressou, logo depois, trajando tênis, bermuda e camisa, e pediu à Lucrécia o telefone, e disse-lhe que fosse ao quarto, substituísse a camisola por uma roupa adequada, para ir até onde Marta estava. Lucrécia passou-lhe o telefone, retirou-se, açodada, para o quarto, do qual regressou em menos de um minuto, com chinelos nos pés, uma calça e uma camisa larga. Neste momento, Floriano já estava, na varanda, dentro do carro. Assim que Lucrécia entrou no carro, passou-lhe o telefone, e retirou da garagem o carro, retirou-se do carro, fechou a porta, e regressou ao carro, enquanto Lucrécia, ao telefone, conversava com Marta. Rumou para a rua em que Marta encontrava-se. Transcorreram-se oito minutos. Marta disse que aproximava-se de si uma viatura policial; e que da viatura retirou-se um policial, que foi até ela. Lucrécia pediu-lhe que passasse o telefone a ele; e disse ao policial que chegariam, ela, Lucrécia, e Floriano, até ele e Marta em dois ou três minutos, e que, depois, iriam à delegacia denunciar Dálton, cujos nome completo e endereço forneceu-lhe. O policial comprometeu-se a providenciar uma viatura para ir à casa de Dálton; Lucrécia agradeceu, e pediu-lhe que passasse o telefone para Marta. Ele lho passou; e ato contínuo comunicou à delegacia o ocorrido, e solicitou uma viatura policial no endereço que Lucrécia lhe fornecera e a condução de Dálton à delegacia. Transcorreram-se cinco minutos. Chegaram Lucrécia e Floriano onde Marta estava. Lucrécia desceu, açodada, do carro, correu até ela, envolveu-a com os braços, protetora. Marta chorava, convulsivamente. Os policiais afastaram-se delas, foram até Floriano, e relataram-lhe o que presenciaram desde o instante em que se depararam com Marta. Em seguida, Floriano foi até ela, e atraiu-a para si e ela aninhou-lhe ao tórax a cabeça. E deu-lhe um beijo, na metade superior da testa. Comovido, a voz trêmula, disse-lhe que se acalmasse, que logo iriam para casa.

Chegaram na delegacia vinte minutos depois.

Marta não deu um relato objetivo dos eventos, desde o início, logo após retirarem-se ela e Dálton da faculdade. Falou, como pôde – e mal pôde falar – das perguntas que Dálton lhe fizera, da postura dele, e de como ele se transtornara, e acelerara o carro, e atravessara cruzamentos, desrespeitando semáforos, e quase colidira com um carro, com postes, com o muro de uma casa; falou das manobras arriscadas, do tapa que ele lhe dera, e do empurrão, jogando-a para fora do carro. A policial que colheu o depoimento de Marta, para dar-lhe coerência a certos trechos e estabelecer uma cronologia, instou-lhe que recontasse a história uma dezena de vezes, até eliminar as incongruências. Marta soluçava; debulhava-se em prantos. Seu pai evocou o evento sucedido dias antes, em frente à sua casa, numa certa noite: ouvira Dálton ofender Marta; observara-os, e anunciara-se; Dálton, então, afastara-se, e fôra-se embora e dias depois pedira-lhe desculpas, num tom tão cândido, tão compungido, tão sincero, que, não lhe duvidando da sinceridade, dera-lhe acesso à casa. Em seguida, declarou que gostava de Dálton, que é trabalhador e estudioso, e preocupava-se com o estado dele. Marta e Lucrécia subscreveram-lhe as palavras e adicionaram argumentos favoráveis a Dálton. Floriano disse que o ciúme possessivo de Dálton vinha num crescendo desde o ano anterior. Marta falou do que se sucedera num clube e de outros episódios, corriqueiros, disse, mas que, agora, avaliados em retrospectiva, assumiam outra dimensão. Salientou Floriano: se os policiais colherem informações, na loja na qual Dálton trabalhava, a respeito dele, saberão que a reputação dele é a de um homem dedicado ao trabalho e dotado de rara inteligência. E disse que era seu desejo vê-lo bem, mas temia pela vida de Marta. Dálton apertara o pulso de Marta, imprimindo-lhe marcas, na discussão anterior. E agora poderia tê-la matado. Não o detestava, disse; afastava, no entanto, de si, os sentimentos de carinho que nutria por ele; iria, todavia, conservá-lo a uma distância da qual poderia, ao estender-lhe os braços, acolhê-lo, num abraço fraternal, e atraí-lo para o seio de sua família. Sentimentos incompatíveis colidiam-se na alma de Floriano, e repeliam-se.

Havia mais de uma hora que estavam na delegacia quando se retiraram. No corredor do térreo, cruzaram o caminho de Dálton, Ulisses e Vilma Helena. Nuvens soturnas desceram sobre todos eles. Dálton, com o olhar, fuzilou Marta, que virou o rosto e cruzou os braços ao peito. Lucrécia enlaçou-a pelos ombros, estreitando-a a si. Entreolharam-se Ulisses, Vilma Helena, Floriano e Lucrécia. Eles não articularam nenhuma palavra, e nenhum gesto esboçaram.

Marta, Floriano e Lucrécia retiraram-se da delegacia, e rumaram para casa.

Marta caiu em sono profundo assim que sua mãe cobriu-a com o lençol, e antes de ela lhe dar um beijo, na testa, e desejar-lhe boa noite.

Ulisses e Vilma Helena, e Floriano e Lucrécia conversaram, em duas ocasiões, a respeito de Dálton. Na primeira, Ulisses e Vilma Helena pediram desculpas, constrangidos, a Floriano e Lucrécia, e disseram-lhe, compungidos, que não sabiam porque Dálton agia com tão brutal violência, e que haviam contratado um psicólogo para estudar o caso dele; na segunda, renovaram os pedidos de desculpas, e disseram que Dálton havia se consultado três vezes com o psicólogo e mostrava-se arrependido do que fizera, mas era prematuro conceder-lhe permissão para encontrar-se com Marta.

Cabisbaixo, desanimado, Dálton agia com indiferença e desinteresse ao que lhe sucedia ao redor, na sua casa e na loja; na loja, o seu desempenho diminuíra, e muitas pessoas com quem trabalhava notaram-lhe a mudança de comportamento, e muitas dentre elas, ao tomarem conhecimento do que se dera entre ele e Marta, afastaram-se dele; evitavam-no, e, desconfiados, observavam-no com o canto dos olhos.

Floriano e Lucrécia consultaram Marta, dias depois, a respeito do seu noivado com Dálton. Ela lhes disse que não se casaria com ele. E tal notícia foi dada a Ulisses e Vilma Helena, que a passaram para Dálton, que a ouviu, em silêncio, inexpressivo, resignado.

Um dia, à noite, Dálton foi à faculdade, e abordou Marta, que se pôs a tremer. Mariana e dois amigos não se afastaram dela quando Dálton lhes pedira uma conversa a sós com Marta, que, com o olhar, suplicava-lhes ajuda. Constrangido, com voz aveludada, ele lhe disse que estava arrependido, e que a amava, e que lhe escreveria um soneto de amor, e lho recitaria. Ela se conservou calada, fitando o vazio, o olhar alheado. Cabisbaixo, ele se despediu, e retirou-se da faculdade.

Assim que chegou à sua casa, Marta narrou o episódio para seus pais. Floriano telefonou para Ulisses e comunicou-lhe o ocorrido.

Dias depois, na praça Santo Antonio, Dálton abordou Marta, e disse-lhe que lhe escrevera um soneto de amor, e que lho declamaria, na casa dela, se ela quisesse. Ela pediu-lhe que se afastasse. Ele renovou, numa voz pungente, os seus pedidos de desculpas, disse-lhe que estava arrependido, e que a amava, e que ela foi a única mulher que ele amou, e suplicou-lhe que reconsiderasse a decisão de romper o noivado e cancelar o casamento, e que o perdoasse; com as mãos justapostas, genuflexionou os joelhos perante ela, na frente de curiosos. Marta deteve-se, constrangida, irritada, nervosa, apreensiva; ameaçou chamar a polícia, e apontou, para a outra extremidade da praça, para uma viatura policial e dois policiais. Dálton calou-se, e enraizou os pés no chão. Marta afastou-se dele.

Floriano e Lucrécia, e Ulisses e Vilma Helena reuniram-se, num restaurante, no dia seguinte. Expuseram as suas preocupações. Em certo momento, Vilma Helena, compungida, voz sussurrante, levou as mãos aos olhos, que se marejaram de lágrimas, e falou das suas preocupações, temerosa do que Dálton poderia fazer e do bem-estar e da saúde mental dele. Aquele Dálton de quem falavam não era o Dálton que ela conhecia, seu filho, que ela amamentou, embalou, aninhou ao colo; não era o Dálton, criança traquinas, que lhe deu muitas preocupações e que não ficava um dia sem se envolver em algum ato reprovável; não era o Dálton, jovem que, como muitos jovens, contestou a autoridade paterna, transgrediu regras de convivência social e envolveu-se em atos de vandalismo e em brigas; não era o Dálton, que, apesar de todos os seus defeitos, tinha os seus pendores intelectuais, os quais ele os exibiu na escola, em casa, na loja; não era o Dálton que, apaixonado por Marta, havia se tornado um homem gentil, trabalhador, generoso, abnegado, suscetível às influências benévolas, a felicidade encarnada, construtor de castelos no ar, e que, nos paroxismos da euforia, compartilhava sua felicidade com todas as pessoas. Aquele homem de quem falavam, homem que vivia recolhido em si, tristonho, ensimesmado, andando de um lado para o outro, indiferente ao que ocorria ao redor, desinteressado da família, dos amigos, e do trabalho, e dos estudos, não era o Dálton, seu filho. Vilma Helena desejava o seu filho, Dálton, aquele moço que lhe inspirou muitos cuidados, muitas preocupações, e muita alegria, e não aquele que via, há dias, calado, taciturno, de olhar lúgubre.

Ouviram-na, respeitosos. Enquanto ela falava, Ulisses, carinhoso, passeava-lhe as mãos pelos cabelos.

Nos dias seguintes, Dálton abordou Marta à porta e nas proximidades do escritório de advocacia, e falou-lhe do seu amor por ela. Sem olhar para ele, ela acelerava os passos, até o estacionamento, entrava no carro, e abandonava Dálton em seu solilóquio angustiante.

Certo dia, ao anoitecer, Dálton abordou Marta quando ela entrava no banco para fazer um saque de trezentos reais e pagar a mensalidade da faculdade, e falou-lhe, num tom meigo, que lhe inspirou compaixão. Ela, todavia, não o fitou; limitou-se a ouvi-lo. Quando ele a tocou no ombro, recolheu-se, em sinal de repulsa. Ele lhe pediu desculpas, impressionado com os esgares que ela imprimira no rosto tão logo ele a tocara, renovou o pedido de desculpas, disse-lhe que não a incomodaria, e solicitou-lhe uma conversa; queria recitar-lhe um soneto escrito em homenagem a ela. Marta nada lhe disse. Sem obter uma resposta, ele anunciou a sua retirada, despediu-se, e foi-se embora. Marta, então, respirou, aliviada, e executou as operações bancárias.

Dálton ia ao consultório do psicólogo duas vezes por semana. Recuperava o seu gosto pelo trabalho, pelos estudos, pelas relações familiares, pelos eventos festivos e pelos amigos. Sempre que encontrava Marta, saudava-a, sem constrangê-la, e ela, que por esta época estreitava os seus laços com Tucídides, que a conhecera na faculdade, ficou insegura, indecisa. Queria namorar Tucídides, moço educado, charmoso, inteligente, de sorriso encantador, mas a figura de Dálton invadia-lhe os pensamentos, dividia-lhe a atenção e interpunha-se entre ela e Tucídides.

Um dia, Marta e Tucídides, na praça Dom Pedro II, conversavam, animadamente. De repente, Marta emudeceu, empalideceu e suspendeu a respiração ao ver Dálton indo em sua direção. Ele abriu um largo sorriso, saudou-a, e estendeu a mão direita para Tucídides, que o saudou, cauteloso, constrangido. Apertaram-se as mãos Dálton e Tucídides. Dálton apresentou-se-lhe. Entabulou conversa com ele. Confessou-lhe a felicidade, entusiasmado, com sua transferência para São Paulo. Fôra promovido a sub-gerente de vendas. Falou-lhe de seu plano de passar as férias, no mês seguinte, nos Estados Unidos, em visita à Flórida, ao Texas e à Califórnia. O seu entusiasmo, contagioso. Arrancou sorrisos de Tucídides, e de Marta, que, no início da conversa, conservara-se acanhada e acuada, mas, assim que afugentara de si os pensamentos negativos que a incomodavam, abriu-se, espontânea. Dálton, enfim, despediu-se de Marta e Tucídides, e seguiu rumo contrário ao que eles seguiram. Após andar uns dez metros, Marta olhou por sobre o ombro, e viu, já distante de si uns trinta metros, Dálton, a passos apressados e firmes, galgando as escadarias de acesso à prefeitura municipal, e sorriu.

Dias depois, Marta chegou, apressada, à sua casa, às dezenove e vinte. Açodada, ia enfiar a chave na fechadura, para entrar na casa, pegar dos livros e do caderno, e, de carro, rumar para a faculdade, quando ouviu seu nome. Era Dálton que a chamava. Ela sorriu. Saudou-o. Ele lhe falou do soneto que lhe escrevera: perfeitamente metrificado, como aprendeu a compor ao ler os de Camões. Marta sorriu, encantada.

– Quer ouvir-me recitá-lo? – perguntou-lhe Dálton. Marta sorriu, acanhada, ruborizada. Assentiu. Dálton, o rosto a reluzir alegria indizível, enfiou a mão direita sob a fímbria da camisa, e retirou um revólver de sob o cós da calça. Marta arregalou os olhos e escancarou a boca; e Dálton, inexpressivo, apontou-lhe o cano do revólver para o peito esquerdo, e apertou o gatilho. Marta caiu, sob soluços agonizantes, nos braços de Dálton, que apontou o cano do revólver para si mesmo, colou seus lábios aos de Marta, e declamou, para dentro dela, o soneto dedicado ao amor eterno, e apertou o gatilho.

Declaração de Amor – parte 4 de 5

Dias depois, Marta convidou Dálton para irem à uma festa que alunos da universidade promoveram. Disse-lhe que iria à festa, mesmo que ele não fosse, pois era a última festa do ano, e muitos dos alunos ela os veria apenas no ano seguinte, e pediu-lhe, encarecidamente, que à festa a acompanhasse. Disse-lhe, também, que muitos amigos regressariam à cidade na qual suas respectivas famílias moravam, e alguns dentre eles talvez se transferissem para faculdades situadas em outra cidade. Ele anuiu, a contragosto, ocultando-lhe os seus sentimentos e sonegando-lhe os seus pensamentos. Evocou, em pensamento, cenas que presenciara no clube. Sondou Marta à procura de pensamentos secretos, a mente a corroer-se de suspeitas que, ele queria acreditar, eram infundadas. Na tentativa, frutífera, de detectar-lhe sutis alterações na modulação da voz, verificou que ela estava eufórica. De ouvido atento, ouviu-a. E acolheu-lhe a sugestão de irem no carro de Floriano.

Rumaram para o clube.

Na metade do trajeto, um carro azul, em alta velocidade, em sentido contrário, ultrapassou um carro preto e invadiu a pista contrária. Apavorada, Marta moveu, com brusquidão, o volante, empinou o corpo, arregalou os olhos, escancarou a boca, emitiu um berro surdo, que lhe ficou travado na boca, e desviou-se do carro azul, evitando a colisão. Seu coração palpitou, descompassado. Dálton, igualmente apavorado, recompôs-se antes dela, voltou-se para ela, e passou-lhe a mão esquerda sobre a mão direita; com voz entrecortada, perguntou-lhe como ela se sentia. Lívida, ela nada lhe disse. E ele lhe perguntou se ela queria que ele dirigisse o carro dali em diante; ela inspirou, pelo nariz, em haustos vigorosos, e expirou, pela boca, várias vezes, sob o olhar atento e preocupado dele, e recomposta, deu sequência à viagem até o clube.

Luzes de lâmpadas caleidoscópicas coloriam todos os recantos do salão. E a música preenchia-lhe todo o espaço. Dálton divisou, em meio a um grupo, Wesley e Carlos Roberto, franziu o cenho, e desviou, de imediato, o olhar.

Uma universitária, Larissa, cuja reputação inspirava comentários deselegantes, cuja figura inspirava olhares cobiçosos e pensamentos lúbricos e cuja presença exercia influência em todas as pessoas, de vestido cintilante decotado, cujas fímbrias mal lhe cobriam a metade superior das coxas, e colares e pulseiras radiantes, aproximou-se de Dálton, e saudou-o. Impressionado com a beleza ofuscante – e os cabelos dela, sedosos, emolduravam-lhe o rosto belíssimo, sublimando-lhe a beleza – e a sem-cerimônia dela, ele, visivelmente embasbacado, se voltou para Marta, que o fitava com olhar reprovador, e emudeceu. Larissa passeou as mãos pelos cabelos, olhou para Marta, sorriu, e, desdenhosa, perguntou para Dálton:

– Tu estás acompanhado dela?

E Dálton disse-lhe que Marta era sua namorada. Larissa, cujas palavras, sorriso insinuante e olhar estavam repletos de sugestões, desculpou-se, disse-lhes que foi ao clube para se divertir e estabelecer novas amizades, e afastou-se de Marta e Dálton; poucos passos depois, olhou por sobre o ombro esquerdo, e, com olhar cobiçoso, fitou Dálton, então sob o olhar severo de Marta, que desviou o olhar, dele para Larissa – e os olhares delas encontraram-se no meio do caminho. Ato contínuo, Larissa fitou Dálton, e tornou a fitar Marta, e voltou a sua atenção para a direção para a qual seguia. E Marta e Dálton entreolharam-se. Intimidado, ele desviou o olhar, e fitou, por sobre o ombro dela, o vazio.

O salão encheu-se de gente. Dálton e Marta encontraram, em um canto, um sofá desocupado, e nele sentaram-se. Ela acenou para um casal de amigos, Lauro e Rúbia. Saudaram-se. Entabularam conversa. Marta apresentou Dálton para eles. Rúbia, vinte e dois anos de idade, morena, bonita, musculosa, trajava um vestido branco de alças finas e exibia os seus atributos físicos; seu esposo, Lauro, de cabeça coberta por cabelos esparsos, um pouco mais baixo do que ela, estava na idade de trinta anos. Ambos, elegantes. Lauro conduziu a conversa. Falou, com desembaraço e vocabulário sofisticado, do envolvimento de magistrados em esquemas fraudulentos e do apoio de juristas a políticas nocivas ao estado de direito. Sempre após um dos seus três interlocutores fazer-lhe uma ressalva, apresentava argumentos irreplicáveis, e dizia que, se houvesse vontade política e desejo de justiça – sentimentos dos quais careciam muitas autoridades brasileiras -, poder-se-ia preencher inúmeros buracos do queijo suíço que é o sistema legal brasileiro. Dálton aquilatou-lhe o vigor intelectual, e o de Rúbia, não tão poderoso quanto o de seu marido, mas também incomum. Regozijou-se ao ver que, na faculdade, havia alunos interessados no conhecimento, e não apenas em diversões fúteis. Lauro, apegado às minúcias, estendeu a conversa e por ela conservou o interesse dos seus interlocutores, entremeando os seus comentários com anedotas hilárias – e ele possuía um bom sortimento delas. Extraiu gargalhadas sonoras de Dálton, Marta, e Rúbia, que lhe dava pancadinhas nos braços e nos ombros, inofensivas.

Outras pessoas os saudaram e com eles estabeleceram conversa. Uma delas, Paulo Tarcísio, movia os braços ao falar, incessantemente. E mordia o lábio inferior e movia as mãos, involuntária, e ininterruptamente, e segurava o queixo, e olhava, fixo, para quem lhe falava, numa visível demonstração de impaciência, sempre que tinha de ouvir um relato extenso.

Encerrada a música, Washington, no palco, atraiu a atenção de todos para si. Era Washington um moço bem apessoado. De terno e gravata impecáveis, barba e bigode rapados, cabelos curtos penteados para trás, ele proclamou a nova era, jocoso. Declarou que, naquele recinto, encontravam-se os futuros benfeitores da humanidade. Ovacionaram-lo. A sua oratória, sedutora. Imodesto, declarou que hauriu, nos clássicos gregos, romanos, britânicos, portugueses e brasileiros, a quintessência da arte oratória. O seu discurso foi pontuado por aplausos ensurdecedores. Citou expoentes das ciências jurídicas. Interromperam-no eclosão de rajadas de assobios e aplausos estrondejantes. Cessados os assobios e os aplausos, desejou aos alunos festas animadas, felicidade e muito dinheiro no bolso. Ovacionaram-lo.

Washington afastou-se do microfone, ao qual regressou, minutos depois, com passos apressados, e anunciou o professor Josué. Seguiram-se aplausos estrondejantes, vivas estrepitosos, assobios estridentes. O professor Josué, mirrado, acenou para os alunos, com as duas mãos dançando acima de sua cabeça, e saudou Washington, que sorriu e retirou-se do palco. Seguindo à risca o figurino que concebeu para si, com acenos, pediu silêncio. Atenderam-no prontamente. Após desobstruir o esôfago, pronunciou o seu discurso, cujo teor inspirou risos de galhofa em certos alunos, que repudiaram o professor, que, para eles, era pernóstico, enfadonho, desprezível, moralista presunçoso, defensor de idéias antiquadas.

Mauro, aluno da faculdade, baixo, de rosto descarnado, cabelos encarapinhados, aproximou-se de Marta, Dálton, Rúbia e Lauro, e atormentou-os com comentários depreciativos, e esgares, arremedando, de modo caricatural, o professor Josué:

– Professorzinho ridículo. De tagarelice proverbial e idealismo irrealista. É um embusteiro, o sentinela da justiça, o guardião do cálice sagrado, o protetor dos fracos e oprimidos. Professorzinho patético! Até hoje ninguém lhe disse que o mundo pertence aos espíritos fortes. Não quero exercer a advocacia para viver na miséria. Quero viver na abastança, no luxo. Quero riqueza! Quero poder! Terei um emprego rendoso. Não rezo pela cartilha do professorzinho de araque, sujeitinho burlesco, ermitão misantropo, misógino, que enfia a mão na cornucópia de frases feitas edificantes e de lá extrai idéias irrealistas para com elas edificar uma sociedade utópica, perfeita, isto é, habitada, única e exclusivamente, por covardes samaritanos. Quero riqueza! Quero poder! O professorzinho de meia-tigela arrefece, com as suas aulas moralistas antiquadas, o ânimo dos espíritos fortes. O professorzinho bestalhão, ermitão antiquado, coroou o seu discurso com exortações à justiça, que, segundo ele, está impregnada de sabedoria eterna. Não sei quanto a vocês, mas eu quero, com a advocacia, arranjar a minha vida. Não viverei a vida de misérias de um advogadozinho debruçado sobre calhamaços, perdendo noites de sono e os prazeres que a vida proporciona. Quero riqueza! Quero poder! Viverei rodeado de mulheres estonteantes. Lograrei sucesso, poder, riqueza. Lograrei os tolos e os ignorantes. Calcarei aos pés o espírito dos pobres e beneficiarei os pobres de espírito. Jamais defenderei idéias contrárias aos meus interesses. Quero riqueza! Quero poder! Defenderei os meus interesses, egoístas, sim, mas os únicos que me interessam. Aniquilarei os justos. Que os apedeutas espumem, nas Gulags, pelos cantos da boca! Digo, sem papas na língua: me unirei aos de alto calibre. Não viverei na miséria. Bem aquinhoado, viverei a vida que desejo. Os fins justificam os meios. E as vítimas de crimes? Não me preocuparei com elas. Cada pessoa que cuide de si. Que os pobres comam o pão que o diabo amassou. Que eles se danem! Quero riqueza! Quero poder! Viverei rodeado de mulheres irresistíveis! Toda manhã, acordarei, e ao meu lado, na cama, terei uma mulher farta de atrativos. A riqueza e o poder são os pré-requisitos para uma vida feliz. Trajarei roupas de seda! Comerei caviar e filé mignon, todos os dias. Filé mignon! Caviar! Scargot! Carros luxuosos! Mansão! Mulheres belíssimas! Ilhas paradisíacas! Quero riqueza! Quero poder!

Enquanto perdia-se na sua euforia, Mauro, sem dar ouvidos aos apartes e sem atentar para o desconforto dos que o ouviam, além de constrangê-los com a defesa, sincera, de idéias que eles repudiavam, irritou-os com o estribilho, proferido num tom de voz mais elevado do que o tom de voz alterado que usava. Não passou despercebido de todos que o ouviram que ele, ao discorrer com tanta eloqüência, estava sóbrio, de posse, presumiam, de todas as suas faculdades mentais. Constataram a sua personalidade leviana, o seu temperamento hedonista, a sua devassidão moral, e abismaram-se com tanta desfaçatez, tão aberta, e tão abjeta, que os constrangeu. Boquiabriram-se, incrédulos, diante de tal ostentação de depravação moral. Aqueles que o conheciam, e dele haviam ouvido tais demonstrações de descaso à justiça, não se admiraram, tampouco se surpreenderam. Dálton, Marta, Lauro e Rúbia afastaram-se dele, mas ele, querendo por eles se fazer ouvir, não os abandonou; palrador, como de hábito, discorreu, abertamente, sobre as suas idéias. Contradisseram-no Lauro e Marta; Lauro, com vigor redobrado, quando, estupefato, ouviu-o defender, sem papas na língua, as atrocidades perpetradas por nazistas e comunistas e declarar que os nazistas são piores do que os comunistas, pois estes matam os escritores críticos do seu sistema de governo após os interrogarem, e aqueles os matam sem ler-lhes os livros.

Os alunos dispersaram-se em meio à multidão, que enchia todos os espaços do salão; muitos dentre eles exibiram, desajeitados, as suas evoluções de dança; raros, os exímios dançarinos. O professor Josué, a professora Cátia, a professora Susana, o professor Gustavo e o professor Daniel foram, pelos alunos, solicitados a dançar.

Marta dançou com o professor Daniel, com o professor Josué e com o professor Gustavo.

Mariana puxou Dálton para dançar, sob os olhares de Walter, namorado dela, e de Marta, que lhes disse, sorrindo, que se comportassem. E Marta dançou com Lauro. Dálton conservou-os sob olhares perscrutadores e cenho franzido. Não passou despercebido de Mariana o olhar dele e os traços firmes de seu rosto. Para desanuviar-lhe a mente, teceu comentários jocosos sobre a atitude de Mauro, protótipo de ditador-de-araque. Dálton sorriu, fitou-a, disse-lhe qualquer coisa, conservando, o tempo todo, Marta e Lauro sob o seu olhar vigilante.

Ao entrever Rúbia, livre, andando na direção de Lauro, Dálton soltou Mariana, ofereceu-a para Walter, afastou-se, foi até Rúbia, abordou-a, e pediu-lhe a dança. Ela o aceitou; ele pousou-lhe as mãos na cintura, e conduziu-a até Lauro, e Marta, que olhou para ele e Rúbia de modo significativo. Pouco tempo depois, Dálton entregou Rúbia para Lauro, e pediu a este, encarecidamente, uma dança com Marta, e assim que a acolheu em suas mãos, enlaçou-a pela cintura, e colou seus lábios aos dela.

A festa prosseguia animada. Dálton e Marta, enfim, encerraram a dança. Ela puxava-o, segurando-o pela mão, quando Larissa abordou-o, ignorando-a, como se ela não estivesse lá, e pediu-lhe uma dança. Dálton estacou, emudecido. Recompôs-se, rapidamente. Disse-lhe que iria descansar um pouco. Larissa insistiu, com voz açucarada e olhar meigo. Não havia como Dálton negar-lhe a dança pedida. E ele voltou-se para Marta, solicitando-lhe auxílio, ou para afastá-lo de Larissa, ou para dar-lhe permissão para dançar com ela. A contragosto, ela soltou-lhe a mão, sorriu, e disse-lhe, com voz inaudível, e sorriso amigável, que dançasse com Larissa. Dálton e Larissa afastaram-se de Marta, que andou até os bancos à parede, voltou-se e viu Dálton e Larissa, na pista de dança, ela a enlaçá-lo pelo pescoço, a tocar-lhe, com a ponta do dedo indicador esquerdo, a ponta do nariz, e a sorrir, encantada. Marta ia sentar-se, mas conservou-se de pé, e o seu olhar encontrou-se com o de Larissa.

Larissa, sorrindo, disse para Dálton que Marta mordia-se de ciúmes. Ele nada disse. Ela perguntou-lhe há quanto tempo eles namoravam, e se ele gostava dela. Ele respondeu-lhe às perguntas, e adicionou a informação de que ele e Marta se casariam em julho do ano seguinte. Larissa não se mostrou animada com a notícia; ao contrário, exibiu-lhe a sua frustração, e disse, sem meias palavras, que os frutos proibidos são os mais saborosos.

Larissa e Dálton sincronizaram os movimentos. Marta olhou os circunstantes, para verificar se alguém a fitava, e, intrigado, indagava-se porque ela permitia que Dálton dançasse com Larissa. Sentiu-se objeto da curiosidade de todos os presentes, certa de que todos eles a observavam, intrigados. Tinha a sensação de que farpas penetravam-lhe em todos os poros do corpo. Os seus pensamentos cabriolaram ao ver Larissa falar ao ouvido de Dálton, e sorrir. Pensou em ir até ela, puxá-la, dar-lhe um tapa, esganá-la, e expô-la ao ridículo. Queria humilhá-la. Conteve-se, no entanto. Roeu as unhas e rilhou os dentes, Dálton e Larissa sob o seu olhar perscrutador.

Dálton visualizou Marta, um espectro que lhe ocupou a mente, e comparou a figura dela com a de Larissa, cujos atrativos salientaram-se-lhe à mente. Larissa era mais bonita e mais atraente do que Marta. Aquele sorriso… Marta era incapaz de exibir um sorriso tão belo. Dálton pensou qual havia sido a sua intenção ao solicitar à Marta permissão para dançar com Larissa. Não queria descontentar Marta; também não desejava descontentar Larissa. Confessou, para si mesmo, que, com desinteresse, e sem esforço, apresentou resistência débil ao pedido de Larissa, porém, assim que ela lhe segurou as mãos, e suplicou-lhe, com voz veludosa e olhar suplicante, uma dança, aquele corpo mesmerizador sugando-lhe todas as faculdades intelectuais, drenando-lhe a alma, e rebaixando-o, ao extrair-lhe o espírito divino, à condição animalesca, decidiu que dançaria com ela mesmo que Marta tal não aprovasse. Autômato de cérebro positrônico, revogou as três leis da robótica, e, em prejuízo do seu relacionamento com Marta, deixou-se conduzir pelo seu desejo de conservar consigo o belo corpo de Larissa.

Dálton e Larissa falavam futilidades, provocavam-se, alheios ao que se dava ao redor. De repente, ele, ao olhar, involuntariamente, por sobre o ombro direito dela, viu Marta e Wesley conversando, e suprimiu, de imediato, o sorriso do rosto. Larissa notou-lhe a brusca alteração dos traços do rosto e os dedos crisparem-se-lhe, voltou-se, viu Marta e Wesley, e, compreendendo a razão da alteração do humor de Dálton, procurou, em vão, atrair-lhe a atenção. Pousou-lhe as mãos no rosto, e voltou-o para si. Intimidou-a o olhar dele. Larissa procurou infundir-lhe serenidade. Ele ignorou-a. Para acalmá-lo, ela disse-lhe que não queria ver derramamento de sangue, naquela festa, e que ele postergasse a decisão de triturar Wesley. Ele não a ouviu. Com os olhos, ele tentou decodificar os movimentos dos lábios e as expressões faciais de Marta e Wesley. Não detectou, no rosto dela, nenhuma evidência de sentimento de repulsa por Wesley. Viu Wesley olhando-o de relance e interpondo-se entre ele e Marta, de costas para ele. No paroxismo da fúria, abandonou Larissa, que, contendo-o, temendo que ele perdesse o controle de si, pediu-lhe serenidade e fê-lo olhar para ela. Aos poucos, ele recobrou a presença de espírito, mas parecia às tontas. Larissa notou-lhe a respiração ofegante. Dálton disse que Wesley era canalha e a ele se referiu com expressões rasteiras. Larissa concordou, sem ressalvas. Ele declarou que Wesley suscitava-lhe repulsa, e aludiu ao que ocorrera, no clube, não muitos meses antes. Ela disse que ouvira falar de tal episódio, e sabia que Wesley era um cafajeste, e que tinham de amordaçá-lo, e arremessá-lo numa masmorra fétida, e encarcerá-lo por todos os dias que lhe restavam de vida. Dálton aspirava em fortes haustos. Enchia os pulmões, inflava o tórax, e esvaziava-os, num ritmo acelerado. Cerrou as pálpebras. Enfim, levou os dedos indicador e polegar direitos aos olhos, massageou-os, abaixou a cabeça, afrouxou os músculos, exibiu um sorriso misto de irritação e ódio, meneou a cabeça, e articulou, sussurrando, no início, sílabas desconexas, depois, num timbre metálico, ameaças veladas a Wesley.

Larissa reteve Dálton consigo o quanto pôde. Ele, aparentemente sereno, disse-lhe que iria até Marta. Prometeu-lhe que não daria escândalo, e, sob o olhar preocupado dela, andou na direção de Marta e Wesley; deteve-se à direita dele, de frente para ela. Wesley saudou-o. O olhar de Dálton não era ambíguo. Expressava o que ele sentia. Uma onda de calafrio percorreu a espinha de Marta, que empalideceu. Wesley não cessou a fingida bajulação. Marta interpôs-se entre eles. De frente para Dálton, disse-lhe que queria dançar com ele. Ele conservou Wesley sob o seu olhar ameaçador. Wesley encarou-o, exibiu sorriso de deboche e, movendo os lábios, sem emitir nenhum som, quando Marta não olhava para ele, pronunciou ofensa que Dálton pensou ouvir. Wesley alcunhava-o corno. Dálton livrou-se das mãos de Marta, e antes que ela percebesse o que se passava, foi, com passos firmes e pesados, na direção de Wesley, e empurrou-o. Àquela altura, os circundantes não ignoravam o que se sucedia. Dálton encarava Wesley e tocava-lhe o peito com o dedo indicador direito. Wesley recuava, com ar de vítima injustiçada. Marta segurou Dálton pelo antebraço e suplicou-lhe paciência. As suas palavras o chamaram à razão. Ele olhou para ela, que o puxou para si e, segurando-o pelo pulso, com força incomum, afastou-o de Wesley, para quem ele olhava, ameaçador. Pouco tempo depois, Marta e Dálton trocaram palavras ferinas. E ele virou-lhe as costas, dela afastou-se, e retirou-se do salão. Ela seguiu-o. Reunidos no estacionamento, discutiram. Ele prometeu regressar ao salão e escorraçar Wesley a socos e pontapés. No decurso de meia hora, ela aplacou-lhe a raiva. A fraca claridade permitia-lhe notar as modificações do semblante de Dálton, o desanuviar-lhe dos pensamentos e a transfiguração da figura dele, então sentimentos negativos a deformá-lo, para a de um homem sereno. Ao voltar-se para trás ao ouvir passos, viu Wesley, o seu sorriso debochado, e ouviu os insultos que ele cuspiu contra Dálton. Não obstante o seu esforço para manter Wesley e Dálton distantes um do outro, eles se atracaram. Com um golpe traiçoeiro, Carlos Roberto, até então oculto aos olhos de Marta e Dálton, correu na direção de Dálton, e com um salto, as pernas e os pés justapostos, encaixou-lhe, sem lhe dar tempo para reagir, uma pancada no tórax, e caiu no chão no mesmo instante em que ele caiu sobre o capô de um carro. Wesley e Carlos Roberto, movimentos sincronizados, acercaram-se de Dálton, que, perdido, via-se defrontando-se com dois oponentes, que, unidos, o superavam em força. Estava Dálton acuado. Wesley disparou-lhe um soco; ele se esquivou, travou-lhe do braço esquerdo, arremessou-o contra uma árvore, e, ato contínuo, desajeitado e desequilibrado, disparou um soco contra Carlos Roberto, que o aparou e deu-lhe um pontapé nas costas. Recomposto, Dálton preparou um soco contra Wesley, que o neutralizou ao mesmo tempo que lhe encaixou um soco no nariz. Wesley e Carlos Roberto desancariam Dálton, se ninguém interviesse. Os gritos de Marta, histéricos, atraíram a atenção de várias pessoas. Do nariz de Dálton escorria um fio de sangue. Vários rapazes intervieram na luta e enxotaram Wesley e Carlos Roberto, que, numa saraivada de insultos, os maldisseram, difamaram Marta, insultaram Dálton, e prometeram quebrá-lo ao meio na próxima vez que o encontrassem.

Dálton disparou saraivadas de olhares penetrantes contra Wesley e desafiou-o para uma luta. Wesley exibiu-lhe gestos obscenos. Marta e outras pessoas contiveram Dálton, que delas tentou desvencilhar-se. Afastaram-se de todos Wesley e Carlos Roberto. Mariana, informada, por uma amiga, do sucedido, rumou ao estacionamento; à porta do salão, viu a pequena multidão, e a passos largos, apressados, foi até ela. Marta afastou-se de Dálton, mas conservou-o sob o seu olhar. Continham-no três rapazes e duas moças. Mariana não se surpreendeu quando lhe disseram que Wesley e Carlos Roberto brigaram com Dálton. Recomposto, aparentemente sereno, Dálton recusou o pedido de Marta para regressarem ao salão. Afastaram-se de Marta e Dálton as outras pessoas. Mariana foi a última pessoa a deixá-los a sós, e com relutância, a pedido de Marta. Voltava-se para trás, olhava para eles, detinha-se a curtos intervalos, e observava-os. Ao se convencer de que eles se entenderiam, foi até o salão à porta do qual deteve-se, voltou-se, viu-os de mãos dadas, sorriu, e entrou no salão.

Larissa fitava Dálton, de distância respeitosa. Cobiçava-o, mas não se atreveu a se aproximar dele. Aplacou os seus desejos dizendo para si mesma que não queria provocá-lo, e tampouco provocar Marta – ambos muito suscetíveis, naquele momento. Marta viu-a à porta do salão. Num monólogo silencioso, disse para si mesma que lhe daria uma lição inesquecível, se ela ousasse aproximar-se de Dálton.

Encerrou-se a festa às quatro horas da madrugada. Algumas pessoas declararam que iriam a outro clube, em busca de diversão, e lá permaneceriam até o raiar do dia. Marta deu carona para Mariana e um casal de amigos. Deixou, primeiro, os amigos na casa deles, depois, Mariana na casa dos pais dela, e rumou para a sua casa. Dálton conservou-se calado durante toda a viagem de regresso.

O carro disposto sobre a calçada, o portão fechado, Marta pediu para Dálton que ele abrisse o portão. Ele se recusou a fazê-lo e, fisionomia carregada, disse-lhe para ela abri-lo. Ela cruzou os braços à frente do peito, e, calada, ficou a olhar para a frente. Ele crispou os músculos. Com os dentes rangendo, num tom cavernoso, aludiu-lhe à conversa dela com Wesley, no salão. Ela, conservando o olhar fixo no vazio à sua frente, com voz balbuciante, disse que Wesley a convidara para dançar, e ela recusara o convite e pedira-lhe que não insistisse, mas ele persistira. Intimidaram-na o olhar sombrio e o rosto convulsionado de Dálton. Dálton, sorrindo, desdenhoso, fez-lhe implacáveis referências ao que testemunhara e às suspeitas que alimentava desde a festa, no clube, ao ouvir Wesley insinuar que ela era mais interessante quando ele, Dálton, não estava por perto, e perguntou-lhe em que pessoa ela se transformou durante um ano de convívio com aqueles universitários depravados, e evocou as cenas da festa, no clube, a tia Luiza e seus comentários a respeito da devassidão dos universitários. Gaguejando, Marta repudiou os comentários e as alusões difamatórias. Zombeteiro, Dálton afinou a voz, arremedou Marta, e fez, com esgares caricaturais, um discurso, para ele hilariante, de um advogado de defesa, espargindo respingos de saliva sobre Marta, que os removeu, enojada. Marta disse-lhe que ele, movido pelo ciúme e por desejos mórbidos, tecia, num tom agressivo, comentários maldosos que ela não merecia ouvir, e que pensamentos de desconfiança tangeram a sua mente ao vê-lo dançando com Larissa, a quem ela se referiu como sirigaita e depravada. De imediato, os olhos de Dálton dançaram nas órbitas. Marta sentiu-se recompensada ao vê-lo na defensiva, justificando-se, alegando inocência, Ele repetiu as perguntas a respeito dela e de Wesley e disse que queria saber o que eles conversavam. Ela sorriu, perguntou-lhe se estavam num tribunal, participando de um interrogatório, e se ela estava sentada no banco dos réus. Ele escrutinou-lhe a fisionomia, sondou-lhe a mente; enquanto ela falava, estudava-a, desconfiado, como se lhe auscultasse o cérebro. E ela, uma vez mais, tratando da conversa dele com Larissa, perguntou-lhe se ele apreciara o contato de seu corpo com o formoso, estonteante, luxurioso corpo dela. Dálton pôs-lhe o dedo indicador esquerdo em riste, ergueu o tom de voz, e elencou os supostos sinais de traição de Marta, que, com voz esganiçada, esgoelando-se, açoitou-o com insultos impublicáveis a tal ponto que, nervosa, tensa, soluçou e gaguejou. O seu descontrole e a sua fraqueza inspiraram-lhe comentários zombeteiros; e ele arrostou-a com insinuações maledicentes e acusações maldosas. Perdendo o controle de si, Marta retirou-se do carro, andou, passos acelerados, aos tropeções, pela calçada esburacada repleta de raízes expostas. Logo em seguida, Dálton retirou-se do carro, foi até ela, alcançou-a, e apertou-lhe o braço. Ela fez um gesto de repulsa ao sentir em seu punho a pressão da mão dele, e um arrepio passou-lhe por toda a extensão da espinha, e lágrimas orvalharam-lhe o rosto; e balbuciou, com voz trêmula, qualquer coisa ininteligível. Dálton compreendeu-lhe algumas palavras, mas não apreendeu o significado do que ela dizia. Perturbado pelo tumulto de emoções que se entrechocavam no seu espírito, foi indiferente às emoções que as suas acusações suscitaram em Marta, que, insistindo nas suas débeis tentativas de se livrar da mão dele, desferiu-lhe um tapa na cara, e ele, fuzilando-a com o olhar, preparou-se para disparar-lhe um arsenal de insultos, mas não o fez, pois ela moveu o braço para acertar-lhe outro tapa; antecipando-se-lhe, ele segurou-lhe o pulso, premiu-o, sem tomar conhecimento da força que aplicava, infligindo-lhe dores. Ela rogou-lhe que a soltasse. Sem lhe dar ouvidos, ele lhe disparou, num tom elevado, uma saraivada de insultos. A muito custo, ela logrou convencê-lo a soltar-lhe o punho. E foi nesse momento que Floriano, anunciando-se, disse que ouvira gritos e retirara-se de casa a saber o que ocorria, e perguntou para Dálton e Marta porque o carro estava sobre a calçada. Marta fitou seu pai e Dálton virou-se para o lado oposto. Não passou despercebido de Floriano o constrangimento de Marta e Dálton e os gestos dela massageando o pulso. Fitou-a, com olhar interrogativo. Dos olhos dela escorreram lágrimas – ela estava na iminência de desabar aos prantos. Um raio de compreensão atingiu o cérebro de Floriano, que disse para Marta, e para Dálton, para ela num timbre suave, carinhoso, para ele, num timbre metálico, que entrassem na casa. Dálton, num tom seco, desejou-lhe boa noite, e afastou-se, a passos pesados, sob o olhar dele. Assim que Dálton saiu do seu campo de visão, Floriano voltou-se para Marta, que, à porta, observara Dálton a afastar-se, e pediu-lhe a chave do carro. Ela disse que a chave estava no contato. Ele abriu a porta da varanda, disse a Marta que entrasse na casa, e foi ao carro. Lucrécia apareceu, de camisola, ao pé da porta que dá acesso à sala de visitas. Ao vê-la, Marta caiu aos prantos, e aninhou-se-lhe ao peito. Lucrécia envolveu-a com o corpo. Entraram mãe e filha na casa. Durante a conversa com sua filha, Lucrécia, falando-lhe numa voz melodiosa e passeando-lhe as mãos pelos cabelos e deslizando-lhas pelo rosto, tranqüilizou-a. E Marta logo conciliou o sono. Enquanto desenrolava-se a conversa entre mãe e filha, na sala Floriano andava, tenso, de um lado para o outro, prometendo para si mesmo que iria, no dia seguinte, de Dálton exigir explicações.

Na manhã de domingo, estremunhada, Marta sentou-se na cama, ajeitou a camisola, e retirou-se do quarto. Ao ouvir vozes, deteve-se ao enquadramento da porta, com a mão esquerda na maçaneta, e apurou os ouvidos. E bocejou. Pensou ouvir vozes de três pessoas: a de sua mãe e a de duas outras mulheres. Assim que as substâncias anestésicas do sono abandonaram-lhe o corpo, reconheceu as vozes que ouvia: eram de uma pessoa: a de sua mãe, que conversava, ao telefone, com uma pessoa cuja identidade desconhecia. Enfiou-se pelo corredor, e, a passos lentos, foi à sala. Lucrécia pressentiu-lhe a presença, olhou por sobre o ombro, deparou-se com uma figura semi-desperta de rosto inchado de sono e cabelos desgrenhados, interrompeu a sua preleção ao telefone, e pediu à pessoa, que atendia pelo nome de Marisa, desculpas por ter de encerrar a conversa, prometeu-lhe dar sequência às explicações, ao entardecer, ou em outro momento, despediu-se dela, pôs o fone no gancho, levantou-se, foi até Marta, e saudou-a. Marta abriu um sorriso acanhado. Lucrécia beijou-a na testa, sustentando-lhe o rosto com as mãos, e assim que ela descruzou os braços, passeou-lhe as mãos pelo rosto, e removeu-lhe, com os dedos indicadores, a remela dos olhos, massageou-lhe os pulsos, falou-lhe dos hematomas, e perguntou-lhe se ela desejava falar a respeito, e pediu-lhe que se sentasse. Marta sentou-se, e sua mãe sentou-se-lhe ao lado. E narrou-lhe os eventos da véspera – tintim por tintim, como Lucrécia, a sua confidente, exigira-lhe. Lucrécia expressou a sua indignação e preconizou uma tragédia, se Marta persistisse no namoro com Dálton. Evocou, para ilustrar as suas declarações e sustentar o seu ponto de vista e inibir toda e qualquer contestação que Marta pudesse vir a apresentar-lhe, casos, que se popularizaram, de maridos e namorados enciumados que ou espancaram suas esposas e namoradas, ou as mataram. Marta fitou-a, horrorizada. Pensou em defender Dálton, dizer que ele agira sob efeitos de sentimentos passageiros e que se encontrava fora de si, no paroxismo de raiva suscitada pelo ciúme que lhe fôra inspirado por Wesley, por quem ele alimenta ódio visceral, e que ela, Marta, ao invés de acalmá-lo, lhe exacerbara os sentimentos ao confrontá-lo e atirar-lhe na cara insinuações e acusações, mas optou pelo silêncio, pois, sabia, sua mãe lhe diria, e seu pai a secundaria, que, se todas as vezes que agisse por impulso, açulado por ciúme, a ponto de machucá-la, e Marta, nervosa, ao não refletir nas palavras, o confrontasse, Dálton perdesse o governo de si e a agredisse, então ele era uma ameaça para ela e dele ela teria de se afastar antes que ocorresse uma tragédia.

À tarde, Dálton telefonou para Marta. E eles conversaram durante uma hora. Duas horas depois, ele premiu a campainha da casa dela. Ouviu-a retinir. Ninguém atendeu à porta. Premiu a campainha segunda vez. Viu Floriano, na varanda, andando em sua direção. Floriano deteve-se à porta que dá acesso à rua, fitou-o, e disse-lhe, num timbre de voz metálico, que ele machucara Marta. Dálton, constrangido, pediu-lhe desculpas, olhou para os lados, e renovou, com voz contida, arrependido, visivelmente constrangido, os pedidos de desculpas. Floriano interrogou-o, repreendeu-o, e dele nenhuma palavra ouviu. No momento de maior excitação, elevou o tom de voz e torpedeou-o com um arsenal de interrogações fulminantes, Dálton, então, de cabeça abaixada, a escarvar o chão, a passear as mãos pelos cabelos, a massagear o nariz. Dálton declarou-se sinceramente arrependido. Assim que Floriano perguntou-lhe se ele possuía dupla personalidade, sorriu, acreditando tratar-se de um chiste, mas, o seu olhar encontrando-se com o dele, suprimiu, automaticamente, do rosto o sorriso, olhou para a direita, para o vazio, e coçou o nariz. Após alguns minutos de completo silêncio, Floriano, num tom paternal, confessou-lhe o amor pela filha, e o respeito e o carinho que cultivava e nutria por ele, e perguntou-lhe se ele merecia uma segunda chance. Ele respondeu com silêncio, olhar de súplica, e lábios trêmulos, que o impediam de articular qualquer palavra. Floriano, enfim, abriu a porta, e deu-lhe acesso à casa. Dálton pediu licença, e ele concedeu-lha. Cabisbaixo, entrou, deu quatro passos, e deteve-se, o olhar perdido. Floriano pediu-lhe que entrasse na casa. Fechou a porta atrás de si, convidou-o a sentar-se, e disse-lhe que iria conversar com Marta. Dálton notou-lhe o tom de voz, simultaneamente distante e carinhoso, e disse-lhe, com voz mal articulada, que, em pé, esperaria por ela. Floriano retirou-se da sala. Dálton olhou para as fotos, todas emolduradas. Não muito tempo depois, Marta entrou na sala e saudou-o com um sussurro. Ele voltou-se para ela. E fitaram-se, ambos constrangidos. Ele massageou o nariz, empinou a cabeça e fitou o teto. Ela cruzou os braços ao peito. E ele abaixou a cabeça, levou a mão esquerda aos olhos, e com o polegar e o médio massageou-os, como se quisesse afugentar de si os pensamentos que o impediam de articular as palavras que pretendia dizer para Marta, que, tensa e ansiosa, conteve a respiração, fitou-o, desviou o olhar, e concentrou-o em algum objeto.

Dálton, enfim, foi até Marta, e ela virou-lhe o rosto. Pegou-lhe as mãos, e massageou-lhe os pulsos. Notou-lhe o tremular dos lábios e do queixo. Ela puxou as mãos para si – sem esforço, pois ele não as prendia em sua mãos – e cruzou ao peito os braços; ele interpretou tal gesto como um sinal da repulsa que ela sentia por ele. Carinhosamente, ele levou a mão direita à nuca de Marta, e atraiu a cabeça dela para si – ela deixou-se atrair e aninhou-lhe a cabeça ao peito – e abrigou-a sob os braços. Na sequência, sentaram-se no sofá. Conversaram, retraídos, trocaram gestos de carinho, e provocaram-se. Marta beliscou-o e deu-lhe tapas inofensivos. Parecia que ambos abandonavam as desconfianças; persistia, no entanto, na cabeça de Marta, resquícios de medo, e, na de Dálton, o receio de vir a perdê-la se lhe ferisse suscetibilidades. Retiraram-se da casa às vinte e uma horas, e rumaram, de mãos dadas, sorrisos apaixonados nos rostos corados, a uma pizzaria, da qual se retiraram quinze minutos antes da meia-noite. E na varanda da casa de Marta, renovaram os votos de amor. Beijaram-se, apaixonadamente, enlaçados num abraço estreito. E despediram-se vinte minutos depois da meia-noite.

Declaração de Amor – parte 3 de 5

Dálton cursava o terceiro ano colegial, à noite, e trabalhava das oito horas ao meio dia e das quatorze às dezoito horas.

Dois eventos entristeceram-no sobremaneira: a morte de Celso, seu tio, um dos tios pelo qual nutria mais carinho e respeito; e, três dias depois, a morte de Adriano, um amigo que, ou foi enforcado, ou cometeu suicídio. Adriano, dois anos antes, envolvera-se com drogas, e, suspeitavam, traficava drogas e devia uma boa soma em dinheiro para traficantes; como não saldara a dívida, mataram-no, enforcado, simulando suicídio, diziam. Durante os cortejos fúnebres, Dálton conservou-se calado; a sua fisionomia transparecia a dor que o avassalava. De seus olhos, escorreram lágrimas abundantes, as quais ele removia com as mãos, ou Marta lhas removia, carinhosamente. Nas provas que se sucederam, na semana posterior às mortes de Celso e de Adriano, Dálton obteve notas baixas; e o seu desempenho no trabalho também diminuiu. A sua desatenção e a sua indiferença não passaram despercebidas das pessoas com as quais ele convivia.

Semanas depois, numa conversa com seus pais, disse-lhes que, indeciso, não sabia que faculdade cursaria. Decidiu-se, por fim, não cursar nenhuma faculdade. Seus pais insistiram; que ele cursasse alguma faculdade. Ele lhes disse que talvez se matriculasse em um curso técnico, ou em uma faculdade relacionada à administração e negócios, pois, na loja de aparelhos eletrônicos, tomara gosto pelo ofício de vendedor, e porque desejava conhecer o funcionamento de uma empresa; e, com argumentos consistentes, que teria mais a aprender na loja do que numa universidade. Ulisses disse-lhe que ele poderia cursar ou engenharia ou medicina. Dálton não se decidiu; pensaria no assunto, e, enquanto não tomasse uma decisão, trabalharia, na loja de aparelhos eletrônicos, ou em outra empresa. Vilma Helena falou de Claudionor, que se dedicava aos estudos e iniciara estágio em uma empresa de engenharia espacial, e disse que ele, Dálton, não poderia se contentar com emprego de vendedor em uma loja de aparelhos eletrônicos. Dálton franziu o cenho, expôs o seu descontentamento com a comparação, e perguntou-lhe, sem deixar de dirigir a pergunta para seu pai, se eles poderiam admitir que ele, Dálton, tomasse uma decisão independentemente de qual tenha sido a de Claudionor. Sua mãe desconversou, disse-lhe que tivera, unicamente, a intenção de mostrar-lhe, ao falar de Claudionor, que ele, Dálton, não teria futuro de sucesso sem instrução universitária.

– A emenda saiu pior do que o soneto – sentenciou Dálton.

Ao perceber que os ânimos acirravam-se, antecipando-se à Vilma Helena, Ulisses perguntou a Dálton se ele estava desempenhando bem o seu trabalho na loja de aparelhos eletrônicos. Vilma Helena calou-se, e engoliu a pergunta, provocativa, ela sabia, que pretendia fazer ao filho. Até o encerramento do almoço, ela não pronunciou nenhuma outra palavra; da conversa entre Ulisses e Dálton ouviu o início, e dela alheando-se, mergulhou nos seus pensamentos.

Num final de semana, Marta e Dálton foram à uma festa num clube alugado pelos alunos da universidade.

À beira da piscina, Marta, Dálton e Mariana conversavam, sentados; Marta entre Dálton, à sua direita, e Mariana, à sua esquerda. Wesley e Carlos Roberto, visivelmente embriagados, aproximaram-se deles, e seguraram Marta, Wesley, pelos calcanhares, Carlos Roberto, pelas axilas, e levantaram-na. Ela protestou. Eles gargalharam e provocaram-na, desdenhosos. Dálton observou-os. Ao cruzar o seu olhar com o de Marta, levantou-se, e pediu, com gentileza incomum, a Wesley e Carlos Roberto que a soltassem. Eles gargalharam, zombaram dele e de Marta. Wesley perguntou para ela porque ela havia levado o namorado à festa e disse-lhe que ela era mais simpática e engraçada quando ele não estava por perto. Dálton encarou-o, engrossou a voz, e, num tom imperioso, com o punho direito cerrado, disse-lhe que soltasse Marta. Zombeteiro, Wesley soltou-a, e disse-lhe que ele era muito nervoso, e, voltando-se para Marta, disse-lhe que ela merecia um namorado que sabia curtir a vida. Dálton empurrou-o, sem aplicar toda a sua força. Wesley recuou, ergueu os braços, mantendo os cotovelos dobrados, e, num tom ao mesmo tempo zombeteiro e intimidado, pediu-lhe calma. Carlos Roberto soltou Marta. Ao contínuo, ele e Wesley aproximaram-se de Mariana, ameaçaram agarrá-la e jogá-la na piscina. Ela deu um tapa inofensivo em Carlos Roberto, e este e Wesley provocaram-na, afastaram-se dela, e aproximavam-se de Bianca e Jéssica, que conversavam, sentadas, no outro lado da piscina. Agarraram Jéssica, que não imprimiu resistência e limitou-se a apresentar-lhes protestos débeis, ergueram-na, e arremessaram-na na piscina. Wesley, ato contínuo, jogou-se na piscina. Jéssica emergiu. Ele emergiu. Carlos Roberto puxou Bianca pelo calcanhar. Ela resistiu, e deu-lhe uma unhada. Ele recuou, massageou o ponto atingido, voltou-se para ela e desferiu-lhe obscenidades; e ao chamado de Wesley, pulou na piscina. E acercaram-se Carlos Roberto e Wesley de Jéssica, que protestou. Wesley agarrou-a pelos cabelos. Bianca pediu a Wesley e Carlos Roberto que a deixassem em paz. Carlos Roberto proferiu um palavrão. Dálton disse para Mariana e Marta que aquela brincadeira não teria um final feliz. Jéssica protestou, ofendeu Wesley, e, com olhos suplicantes, pediu-lhe que a largasse. As gargalhadas e os comentários de Wesley e Carlos Roberto incomodaram Marta, Dálton, Mariana, Bianca e outras pessoas. Dálton, então, preparou-se para ir em socorro a Jéssica; deteve-se ao ver dois rapazes e Bianca se lhe antecipando e pulando na piscina. E os três nadaram até Wesley, Carlos Roberto e Jéssica; esta, ao se ver livre e na companhia de Bianca, nadou até a borda da piscina, chorando, enquanto os dois rapazes discutiam com Wesley e Carlos Roberto. À beira da piscina, Bianca e duas moças ampararam Jéssica, visivelmente nervosa, cuja respiração o choro dificultava, e uma delas cobriu-a com uma toalha; Bianca, envolvendo-a pelos ombros, conduziu-a até uma cadeira. Enquanto isso, os dois rapazes que pularam na piscina em socorro a Jéssica, e outros rapazes, obrigaram Wesley e Carlos Roberto a se retirarem da piscina à cuja beira Wanderley, um grandalhão loiro de cabelos compridos, deu um tapa na cara de Carlos Roberto e pôs-lhe o dedo em riste ao nariz e encostou o punho esquerdo cerrado na testa de Wesley, dirigindo-lhes a palavra num tom de voz ameaçador. Wesley e Carlos Roberto, intimidados, escudaram o rosto com as mãos, encolheram os ombros e viraram a cabeça quando Wanderley, que sopesava o seu desejo de expulsá-los do clube aos socos e pontapés, ameaçou dar-lhes um soco. E afastaram-se. E a namorada de Wanderley puxou-o pelo braço ao mesmo tempo que, atônita, dava, para Wesley e Carlos Roberto, que se recolheram sob apupos impublicáveis e olhares de repreensão de todos os presentes, a sugestão de recomporem-se e irem-se embora.

Duas pessoas justificaram a atitude de Wesley e Carlos Roberto.

– Eles estão bêbados – disse uma delas. – Eles não têm controle dos próprios atos.

– O que fizemos? – replicou um aluno. – Acabamos com a ebriedade deles. Os palavrões que lhes dissemos e os tapas que o Wanderley lhes deu os trouxeram à realidade.

– Eles apenas se divertiam – disse a outra. – A Jéssica perdeu o controle. O Wesley e o Carlos Roberto nada lhe fariam, aqui, na piscina, na frente de todo mundo.

– Eles se divertiam? – retrucou uma aluna, indignada. – A Jéssica não se divertia. Cabia a eles respeitá-la. Se ela não queria participar da brincadeira, eles não poderiam obrigá-la a participar. E quem disse que eles não iriam fazer nada!? Estão bêbados aqueles dois imbecis. Eles tiraram a parte de cima do biquíni da Jéssica. O Wesley e o Carlos Roberto puxaram-lhe o biquíni de baixo, para desatá-lo. Se a Jéssica não o segurasse, eles lho removeriam – e acrescentou, após um curto intervalo. – E tu me dizes que aqueles dois idiotas nada fariam contra a Jéssica!

Minutos depois, Dálton, ao entrar no banheiro, sentiu a emanação peculiar de maconha e ouviu vozes de três pessoas – duas vozes masculinas e uma voz feminina – dentro de um compartimento isolado. Assim que ouviram os passos de Dálton, tais pessoas calaram-se; sempre que uma delas fazia algum barulho, ouvia-se, na sequência, um “chiu” ciciado ou um “Quieto” sussurrado. Dálton pensou em Marta. Imaginou-a na companhia de Wesley e Carlos Roberto. Perguntou-se o que Wesley quis dizer quando dissera para Marta que ela era mais simpática e engraçada quando estava desacompanhada dele, Dálton, e imaginou-a, num banheiro reservado aos homens, fumando maconha, na companhia de dois homens – tais pensamentos e tais imagens rodopiaram no seu cérebro, desnorteando-o. Retirou-se do banheiro, em menos de dois minutos após nele entrar, e foi, sem se deter, até a piscina, e sentou-se à direita de Marta. À sua mente, os pensamentos a lhe avassalarem o espírito. Ao olhar ao redor, divisou, ao longe, num terreno um pouco abaixo, encostado à árvore, um homem, e uma mulher, ele a enlaçá-la. O homem trajava uma sunga. A mulher, um biquíni azul. Riam. Beijavam-se. Ela lhe passeava as mãos pelos cabelos compridos. Ele lhe apertava as nádegas. Ela, sorrindo, ora dava-lhe um tapa no ombro, ora beliscava-lhe o braço, ora apertava-lhe as bochechas, ora segurava-lhe as mãos. Um rapaz aproximou-se deles. O homem e a mulher voltaram-se para ele, e riram. O rapaz, com esgares lascivos, gestos obscenos, enlaçou, por trás, a mulher, encostou-se nela, puxou-lhe os cabelos e lambeu-lhe a orelha direita. A mulher e o homem gargalharam. O rapaz deslizou as mãos pelas ilhargas, quadris e pernas da mulher, apertou-lhe as nádegas, e estreitou-se nela ainda mais; ao receber do homem um empurrão amigável, afastou-se; ato contínuo, ameaçou aproximar-se da mulher, mas o homem, sorrindo, ameaçou dar-lhe pontapés; com gestos lascivos da língua, afastou-se, às gargalhadas estrondosas, as quais ecoaram pelo clube e chegaram aos ouvidos de Marta, de Mariana, e aos de Dálton, cuja mente imagens nas quais a mulher era substituída por Marta a avassalavam.

À noite, Dálton e Marta passearam pela praça Joaquim Nabuco. Ele lhe relatou o que presenciara no clube, e expôs os seus pensamentos a respeito, as impressões que o episódio provocara em si, perguntou-lhe se, em todas as festas que os universitários promoviam, havia tais depravações, e disse-lhe que ela não iria, desacompanhada dele, a outras festas, pois os universitários, sentenciou, são depravados. Marta discordou. Disse que alguns deles eram irresponsáveis, desrespeitosos e preguiçosos, e muitos eram responsáveis, estudiosos e trabalhadores, e evocou as pessoas que reprovaram Wesley e Carlos Roberto. Dálton replicou: uma delas era a moça cuja voz ouvira no banheiro, e outra, o homem que, encostado à árvore, enlaçava a mulher, namorada dele, presumia. Eles eram imorais, sentenciou. E perguntou para Marta a respeito dos comentários de Wesley, que disse que era ela mais simpática e engraçada quando ele, Dálton, não a acompanhava. Ela aconselhou-o a não dar atenção para o que Wesley dizia. Dálton ensaiou uma réplica, mas calou-se, ensimesmado, nutrindo suspeitas; disse para si mesmo, em pensamento, que usaria de expedientes dos quais Marta não suspeitaria para saber o que se passava na faculdade. As desconfianças empanaram-lhe a consciência; o torvelinho de idéias embotou-lhe o raciocínio. Ele evocou os eventos sucedidos no clube, lembrou da sua curiosidade mórbida sobre o desenrolar e o desenlace do caso que Wesley e Carlos Roberto protagonizaram e visualizou a moça e os dois homens no banheiro. Fustigaram-lhe a mente pensamentos desconcertantes a respeito de Marta, para cujo comportamento conjecturou explicações.

Dálton exasperou-se ao não confirmar as suas suspeitas. Acreditava que Marta esquivava-se das perguntas que ele lhe fazia com o propósito de sondar-lhe a mente, mas sem revelar-lhe as suas intenções, as quais, pensava, delas Marta desconfiava mas simulava ignorância.

Em novembro, pediu Marta em casamento. Deram ambos a notícia aos familiares. Casariam em julho do ano seguinte. Reuniram-se, numa festa comemorativa, na casa de Floriano e Lucrécia. Alguns familiares maledicentes disseram que Marta estava grávida de um aluno da faculdade; houve quem declarasse que o filho dela fôra concebido durante uma festa, e que Marta não sabia quem era o pai da criança que ela daria à luz dali seis meses, caso não a abortasse, como ela e Dálton pensavam fazer. Resumo do enredo aventado aos quatro cantos do mundo: Marta bebeu whisky, vodka, fumou maconha e cheirou cocaína; com o cérebro em frangalhos, participou de uma orgia, manteve o intercurso carnal com quatro homens, todos eles alunos da faculdade, bêbados e drogados. Os maledicentes, com voz sibilina, não se limitaram a espalhar tal história durante a festa. Disseminaram-na, nos dias seguintes, por toda a cidade. Tal história alcançou os ouvidos de Marta e Dálton, e os dos pais dele e os dos pais dela. O autor de tais boatos não foi identificado, mas, tinham certeza Dálton e Marta, e os pais deles, que ele era um dos convidados à festa na casa de Floriano e Lucrécia.

Nos finais de semana e nos dias de folga, Dálton e Marta foram às imobiliárias, e às lojas pesquisar preços de cama, guarda-roupas, mesas, e às empresas de materiais de construção. Floriano e Lucrécia os presentearam com um terreno de quinhentos metros quadrados que possuíam no Bairro Jardim das Oliveiras e disseram-lhes que os ajudariam, com dinheiro, na construção da casa.

Dálton comprou um carro seminovo. No trabalho, desincumbia-se, à perfeição, das suas funções. O gerente da loja, Vinicius, promoveu-o, e transferiu-o para uma filial, localizada na cidade vizinha, cujo gerente, Durval, em reconhecimento dos méritos de Dálton, aumentou-lhe o salário e a porcentagem da comissão. Alguns vendedores fitavam Dálton com olhares enviesados; dentre eles, havia os que lhe arquitetavam a queda. Outros vendedores, sinceros, teciam-lhe elogios, saudavam-no, respeitosos, e reconheciam-lhe as excepcionais faculdades de vendedor. A dedicação de Dálton ao trabalho e aos estudos era o assunto principal das conversas de Ulisses e Vilma Helena, ambos convencidos de que Marta inspirava nobres sentimentos a Dálton, que não andava mais na companhia daqueles sujeitos pelos quais nutriam repulsa figadal. Ele, diziam, mudou da água para o vinho. Na loja, difamadores e desafetos dele o hostilizavam, abertamente uns, pelas costas outros. No início, ele estranhou a atitude de alguns vendedores, a hostilidade deles, as insinuações que eles lhe apresentavam, as ambigüidades que proferiam; não precisou de muito tempo para se convencer de que, dentre os vendedores, muitos eram seus rivais, e muitos seus inimigos viscerais.

Dálton e Marta foram à festa de final de ano que a loja promoveu. À mesa em que estavam havia outros funcionários da loja, uns, acompanhados da namorada, outros, da esposa, e funcionárias acompanhadas, umas, do esposo, outras, dos filhos e do esposo. Dálton, após reconhecer um amigo, Matheus, que estava no outro lado do salão, em pé, saudando duas pessoas, levantou-se, e andou na direção dele. Ao passar por uma mesa, deteve-se para dar passagem para duas mulheres, que iam em sentido contrário. Foi então que ouviu o nome de Marta mencionado num tom que não o agradou. Reconheceu a voz que o pronunciou; era a de Lúcio, um dos vendedores que trabalhava na loja; e, em seguida, reconheceu a voz de Ricardo, outro vendedor. Ouviu Lúcio referir-se, num tom seco, à Marta. Ele disse que ela, extraordinariamente persuasiva, extraía favores da gerência, para beneficiar Dálton. Dálton ouviu uma voz indignada, de mulher. Não se voltou para Lúcio e Ricardo. Sabia que eles queriam que ele se voltasse e os fitasse. Afastou-se deles, assim que pôde, mas não antes de ouvir uma das duas mulheres que conversavam com eles perguntar se Dálton não sabia que recebia privilégios devido aos favores que Marta prestava ao gerente, ou não desconfiava das facilidades na obtenção de vantagens, e Lúcio declarar que suspeitava que ele ou sabia de tudo, mas por conveniência e covardia calava-se, pois recebia muitos benefícios, ou, mancomunado com a namorada, chantageava o gerente, que era casado.

Dálton saudou Matheus, a namorada dele, Sabrina, o pai dela, Renato, que era um funcionário da loja, e a mãe dela, Ana Beatriz. Eles pediram a Dálton que se sentasse, e lhes fizesse companhia; ele lhes disse que estava com Marta. Conversaram durante alguns minutos. Dálton soube que Matheus trabalhava em uma montadora de automóveis, localizada em São José dos Campos. Parabenizou-o. Desejou-lhe sucesso. Falou-lhe de Marta, do noivado, do casamento, do terreno que ganhara dos futuros sogros, da casa que pretendiam construir, e disse-lhe que lhe enviaria o convite de casamento. Matheus, que havia um ano não o via, desde que se mudara, com o pai e a mãe, de cidade, disse que desejava conhecer Marta. Dálton pediu-lhe que o acompanhasse, que lha apresentaria. Matheus e Sabrina o acompanharam até à mesa à qual estava Marta. Ao passar próximo à mesa à qual estavam Lúcio e Ricardo, Dálton viu, com o canto dos olhos, as duas mulheres fitando-o com olhar misto de indignação e pena, como se o vissem, ou como um tolo, ou como um ser repulsivo, fez que nada viu, e seguiu até Marta.

Minutos depois da meia-noite, quando quase todos os convidados já haviam se retirado do clube, Dálton e Marta despediram-se dos amigos e de Durval. À porta do salão, Lúcio abordou-os, sorridente, saudou Dálton, e deu-lhe tapinhas nas costas. Em seguida, ele saudou Marta, que lhe retribuiu a gentileza. Assim que Fátima, esposa de Lúcio, e Andréia, esposa de Ricardo, e Ricardo deles se aproximaram, Lúcio apresentou Dálton para Fátima:

– Ele é o Dálton de quem te falei.

Fátima exibiu sorriso acanhado, e ofereceu a mão direita a Dálton, de quem não passou despercebido a lividez do rosto dela e o constrangimento.

Em seguida, Lúcio apresentou Fátima para Marta. Elas se cumprimentaram, com débil aperto de mãos, que mal se tocaram. Na sequência, ele apresentou Andréia para Marta – elas se cumprimentaram – e para Dálton – e Dálton e ela saudaram-se. Lúcio elogiou Dálton; sorrindo, disse-lhe que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher, e disse para Marta que Dálton, sem o apoio dela, não seria um vendedor tão bem-sucedido. Ela acolheu os elogios. Dálton compreendeu as insinuações, e sorriu; era seu desejo cerrar os punhos e esmigalhar o nariz de Lúcio com socos, mas, para a sua surpresa, conteve-se. A sua postura, fria, contrastava com o sangue, que lhe fervia nos vasos sanguíneos, e com os pensamentos, que lhe queimavam a mente.

Enfim, após muitos sorrisos forçados, elogios falsos, Lúcio e Fátima e Ricardo e Andréia despediram-se de Dálton e de Marta.

No carro, Marta perguntou para Dálton porque ele, na presença de Lúcio, Fátima, Ricardo e Andréia, estava tenso, e dele ouviu:

– Amanhã te contarei a história. Tu conhecerás a verdadeira face do Lúcio e a do Ricardo.

Na manhã seguinte, Dálton cumpriu o prometido. Marta ouviu-o atentamente, meneando a cabeça, indignada, enraivecida. Condenou a postura dissimulada de Lúcio e a de Ricardo. Dálton disse-lhe que tinha de lidar com eles, todos os dias – e se controlar para não perder a compostura e não os moer de socos -, e com outros vendedores do mesmo naipe. Ela lhe disse que tais vendedores mereciam uma surra inesquecível. Lúcio, disse Dálton, era, de todos os seus desafetos, o mais sórdido; era persuasivo, capaz de, com lábia sedutora – como Marta tivera a oportunidade de conhecer -, embotar, com seus floreios retóricos, a consciência das pessoas, que acabavam por acreditar em idéias estapafúrdias e a praticar atos condenáveis; e fazia inimigos viscerais dois amigos filiais. Tal faculdade ele empregou contra os seus desafetos e os seus fiéis escudeiros, caso de Ricardo, sujeito passivo, desprovido de vontade própria, inapto, que se sente seguro e forte à sombra dele. Ricardo era um vendedor promissor antes de cair nas garras de Lúcio, que o reduziu a um bonequinho de ventríloquo. Inteirada do tipo de Lúcio e do de Ricardo, nas outras ocasiões em que entabulou conversa com eles, Marta compreendeu as insinuações que eles lhe faziam; com sutileza, disparou-lhes farpas, e eles esforçavam-se por exibir indiferença e rosto inexpressivo, mas um ligeiro esgar, o rumor de um sorriso, com a comissura dos lábios, o franzir das sobrancelhas deles revelavam o incômodo – detalhes minúsculos, imperceptíveis, que Marta, meticulosa, detectava, e usava contra eles, logrando irritá-los. Lúcio tentava fustigá-la com comentários ambíguos nos quais estavam implícitos os seus propósitos maldosos, e os quais revelavam, dele, o ponto fraco, o qual ela acreditou haver descoberto.

Declaração de Amor – parte 2 de 5

No dia seguinte, Luiza, Marco Antonio, Jéssica e Vanessa visitaram Vilma Helena e Ulisses. Não eram oito horas da manhã quando chegaram à casa deles. Saudaram-se calorosamente. Dálton dormia. Acordou um pouco antes das nove horas, envolvido pelas vozes de Luiza e Marco Antonio, que falavam em tom alto. Esfregou os olhos com os nós dos dedos; e com os dedos indicadores removeu a remela dos olhos. Semi-desperto, puxou a colcha para baixo; com movimentos dos pés e das pernas, descobriu-se. Foi nesse momento que ouviu seu tio pronunciar seu nome e sua mãe dizer-lhe que ele, Dálton, dormia como um anjo. Dálton mal ouviu o que eles disseram; captou algumas palavras, que lhe permitiam fazer idéia do assunto que eles tratavam. E sentou-se na cama; e passou as mãos pelo rosto, e bocejou. Sentia pesados os olhos. Passeou as mãos pelos cabelos; e coçou a cabeça. Sentiu algo a lhe incomodar o nariz. Assoou-o, e na sua mão direita atirou muco nasal. Levantou-se, e foi ao banheiro. À pia, abriu a torneira, e limpou a mão. Regressou ao quarto, pegou algumas roupas, encaminhou-se ao banheiro, e banhou-se com água fria. Vinte minutos depois, retirou-se do banheiro com aparência melhor do que a que apresentava ao nele entrar. Na sala-de-estar, encontrou-se com seu pai, sua mãe, seu tio, sua tia e suas primas. Luiza atraiu-o, beijou-o nas duas faces, e, com as mãos pousadas no rosto dele, deu-lhe um beijo na testa – Dálton teve de reclinar-se para que ela o beijasse. Em seguida, ela elogiou-lhe a beleza e o porte físico. Na sequência, ele saudou, com um abraço caloroso e um aperto de mãos, seu tio, que dele se aproximara quando ele conversava com Luiza, e, com beijos e abraços, Vanessa e Jéssica.

– Tua mãe disse-me, Dálton – disse Luiza -, que tu estás namorando uma princesa: Marta. Quando tu a apresentarás para nós?

– Traga-a aqui – antecipou-se Vanessa, sorridente. – Quero conhecer a mulher que irá pôr um pouco de juízo na cabeça de meu primo.

Todos riram do comentário.

Vanessa evocou as aventuras de Jéssica, Dálton, Claudionor e dela, na fazenda dos avós, e os passeios que empreenderam no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, e nos Estados Unidos. Riram dos contratempos que enfrentaram e dos dissabores que os afligiram. E foi ela quem evocou o dia em que, no Rio Grande do Sul, num passeio de ônibus, o motorista do ônibus quase perdeu a direção e o ônibus quase despencou em uma ribanceira. Aludiu aos insultos que os passageiros cuspiram contra ele e ao medo que sentiram. Dálton evocou outros momentos inesquecíveis de tal viagem e as aventuras sucedidas nos Estados Unidos. Seus olhos brilharam ao evocar a Califórnia, um país, disse ele, surreal.

Beberam café, leite, café-com-leite. Comeram pães com queijo, pães com manteiga, maçãs, bananas, sucrilhos, bolachas com recheio de morango e bolachas com recheio de chocolate, waffes, biscoitos, pães-de-fôrma com geléia de pêssego, e goiabada com queijo.

Durante a conversa, mudavam, constantemente, de assunto. Em certo momento, Jéssica perguntou de Marta a Dálton. Desejava saber se ela era bonita, qual a cor dos cabelos e dos olhos dela, qual a idade dela e onde ela morava. Dálton se tornou o centro das atenções. Sentiu-se intimidado. Carecia de tempo para responder às perguntas, pois todos lhe falavam ao mesmo tempo. Foi Vilma Helena quem disse que, se desejavam extrair-lhe alguma informação, teriam de permitir que ele falasse. Assim que sua mãe, como ela mesma disse, conseguiu pôr ordem na casa, ele falou de Marta. Elogiou-a, sem ressalvas. Evocou o dia em que a conhecera. Falou da cor e do comprimento dos cabelos dela, da cor dos olhos, do formato do nariz, do rosto, do tipo físico e da altura dela, das roupas que ela mais gostava de usar, dos filmes prediletos dela, dos livros que ela leu e dos que ela não leu e não pretendia ler; e do início do ano letivo, na faculdade de Direito. Estava orgulhoso do sucesso de Marta, que, como o pai e a mãe dela, seguiria carreira de advogado; mas ela ainda não havia decidido em qual ramo do direito se especializaria. Marco Antonio teceu comentários sobre advogados e outros profissionais do ramo jurídico. Jéssica declarou que advocacia era uma profissão que ela jamais exerceria. Vanessa disse que não conseguia entender como podia existir pessoas que viviam mergulhadas em livros de códigos e constituições, analisando pontos, vírgulas e pontos-e-vírgulas de milhares de leis, e perguntou qual a razão de tantas leis, e se elas eram escritas para melhorar a vida das pessoas, ou para piorá-la. Marco Antonio tomou a palavra, e afirmou, categoricamente, que muitas leis são criadas tendo-se em mira a defesa de interesses de grupos privilegiados, a garantia de reserva de mercado para certas empresas e a impunidade a certos políticos.

A conversa estendeu-se, com comentários favoráveis e comentários desfavoráveis ao sistema legal brasileiro. Marco Antonio entremeou com perguntas retóricas as suas argumentações. Falaram da criação da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, da extradição de Cesare Battisti, da Lei da Ficha Limpa, da formação ideológica dos representantes das leis, e das faculdades de Ciências Jurídicas. Luiza disse, em certo momento da conversa, que as universidades brasileiras são antros de pervertidos. Nenhum dos seus interlocutores corroborou tal opinião. Marco Antonio dela divergiu frontalmente, e ela mencionou exemplos de casos que lhe chegaram ao conhecimento e concentrou-se no protagonizado por Jennifer, filha de Lúcia, uma das suas vizinhas:

– A Lúcia contou-me, um dia, na casa dela, que Jennifer, sua segunda filha, foi, no primeiro ano de administração de empresas, assediada e chantageada por um professor, cujo nome não me recordo, ao tratar com ele das notas que ela tirara nas provas. Na somatória das notas de todas as provas do ano, Jennifer não havia conseguido a nota mínima necessária para passar à série seguinte; restou-lhe meio ponto. O professor, não reservando consigo as suas segundas intenções, disse para ela que ela poderia passar para a série seguinte se aceitasse o convite que ele lhe fazia para jantar. O seu sorriso cínico, as reticências, o realce que deu ao ‘jantar’, o olhar enviesado e o timbre da voz não deixaram dúvidas a respeito do que ele desejava. Jennifer, momentaneamente privada da voz, ensaiou uma resposta grosseira, mas calou-se. Disse que mordera a língua, para não faltar com o respeito ao professor, não perder a compostura, e não se debulhar em lágrimas, de decepção, num misto de raiva e medo. Aquele professor, de todos os professores, era o que ela mais estimava. Afligiu-a o descaramento dele. Incapaz de falar, no receio de não perder o controle de si, abreviou a conversa e, as pernas bambas, foi-se embora. Ao chegar na sua casa, contou o ocorrido para a Lúcia. No ano seguinte, matriculada no segundo ano, ela estudou, do primeiro ano, a matéria na qual fôra reprovada, agora com outro professor, e mais as matérias do segundo ano. E ela foi aprovada, e com louvor – fez uma pausa, para avaliar o impacto das suas palavras naqueles que a ouviam, e prosseguiu: Quantas mulheres são vítimas, nas universidades, de professores canalhas? As universidades são antros de perdição. Nas universidades os alunos fumam maconha, frequentam festas regadas a bebidas alcoólicas e drogas. Brutalizam-se. Emburrecem-se. Na cabeça, eles têm, além de piolhos, minhocas. Os professores os deseducam, os deformam.

– Tu exageras, mãe – sentenciou Vanessa.

– Não exagero – replicou Luiza. – Conhecemos este caso. Quantos outros não nos chegaram ao conhecimento? Se não fosse moça decente, a Jennifer aceitaria a proposta indecente daquele professor calhorda. Quantas alunas aceitaram a chantagem dele?

– Que eu saiba – comentou Marco Antonio -, as moças que estudam nas universidades são adultas. Se decidem aceitar as chantagens de um professor canalha, o fazem de livre e espontânea vontade.

– De livre e espontânea vontade!? – exclamou Luiza.

– E não é? – prosseguiu Marco Antonio. – É de livre e espontânea vontade. As alunas são adultas. Podem dizer não; ou, se já conhecem a reputação do professor, que não o procurem para dele receber, sem o merecer, o meio ponto que lhe restam para passarem de ano letivo. Os alunos não podem abordar os professores e lhes solicitarem meio ponto, um quinto de um ponto, que seja. Não conseguiram a nota mínima, nas provas oficiais, as mesmas provas que todos os alunos fizeram, então que aceitem o resultado, se não adulterado, e calem-se. Se um aluno não consegue a nota mínima para aprovação, das duas, uma, ou ele não se aplicou ao estudo, ou não tem inteligência para assimilar os conhecimentos.

– A Jennifer, no ano seguinte, passou de ano – observou Luiza.

– Portanto – retrucou Marco Antonio -, ela tem inteligência para assimilar os conhecimentos; então, por que, no primeiro ano que cursou a matéria, ela não conseguiu, nas provas, a nota mínima para aprovação? Por que ela teve de, carente de meio ponto, recorrer ao professor? Talvez ela não tenha se aplicado nos estudos, como o dever lhe exige.

– Ela trabalhava, durante o dia, e ia à faculdade, à noite – disse Luiza.

– Ela é uma aluna universitária – tornou Marco Antonio. – Era a única universitária que trabalhava? Responda-me: Os alunos que estavam na mesma situação que ela foram reprovados?

– Tu queres dizer que o professor não estava errado… – comentou Luiza.

– Não foi isso o que eu disse.

– O que tu disseste, então? – perguntou-lhe Luiza.

– Agora, eles discutirão pra valer – anunciou Jéssica, sorrindo.

– A conversa está ficando divertida – comentou Vanessa.

– Por que a Jennifer foi pedir meio ponto ao professor? – perguntou Marco Antonio. – Se, durante o ano letivo, ela não havia conseguido, nas provas e nos trabalhos, a pontuação mínima para aprovação, ela que admitisse, para si mesma, que não estava preparada para dar mais um passo em sua jornada universitária, e se detivesse, e aceitasse o seu fracasso. Não seria o fim do mundo. Que aprendesse com o insucesso. A Jennifer pediu meio ponto ao professor porque…

– Ela não pediu meio ponto ao professor – interrompeu-o Luiza, alterada. – Ela lhe pediu um trabalho; e ela o faria, e pelo trabalho o professor lhe daria meio ponto.

– Certo – tornou Marco Antonio. – Por que, diga-me, o professor teria de dar um trabalho para a Jennifer em troca de meio ponto? A Jennifer é bonita…

– O que tu estás insinuando? – interrompeu-o Luiza, transparecendo indignação na fisionomia e na voz.

– Nenhuma insinuação eu fiz. Pergunto-me se a Jennifer não pensou em tirar vantagem de sua beleza. E se ela fosse uma feiosa desdentada, um bagaço?

– A Jennifer é moça decente – disse Luiza, num tom de voz alterado.

– Eu quero dizer o seguinte, e que fique bem claro: um aluno, ao não conseguir a pontuação mínima para aprovação, não pode pedir ao professor um trabalho em troca ou de meio ponto, ou de um ponto, ou de dois pontos, ou de dez pontos. O professor não pode, ao ouvir um aluno apresentar-lhe tal proposta, aceitá-la. Se decente, sério, compromissado com a formação intelectual dos seus alunos, tem de, obrigatoriamente, dizer-lhe que nenhum trabalho lhe dará e que os alunos aprovados o foram devido ao esforço próprio, sem obterem facilidades. Se um aluno não consegue a nota mínima, que ele seja reprovado.

– Mas… e as alunas que não têm opção, e são obrigadas a aceitar a chantagem do professor? – perguntou Luiza.

– Quais alunas não têm opção? – perguntou, surpreso, Marco Antonio. – Nenhuma aluna é obrigada a aceitar chantagens.

– As que não podem recusar a chantagem não têm opção – replicou Luiza.

– Quem não pode rejeitar a chantagem? – perguntou Marco Antonio, aparentemente mais surpreso do que antes.

– As alunas que temem o professor, que tem algo contra elas – respondeu Luiza, como se desse uma resposta irreplicável.

– Então, é caso de polícia – respondeu Marco Antonio.

– Há professores que descobrem segredos dos alunos e os usam contra eles – disse Luiza.

– É caso de polícia – sentenciou Marco Antonio, severo. – Todos os alunos têm opções. Podem falar a respeito com alguém. Saiba que há muitos alunos que se calam, ou por conveniência, ou por covardia. Por conveniência, sim, pois, ao curvarem-se à chantagem, passam de ano letivo, e não desgostam os familiares e os amigos, e ganham diplomas, e conquistam fama de estudiosos.

– Queres dizer que os professores chantageiam as alunas, e elas são as culpadas por serem chantageadas? – perguntou Luiza, impaciente. – A Jennifer foi a vítima do professor, um calhorda, que de professor não merece ser chamado. O professor chantageou-a, e ela tem de ser punida?

– Vamos pôr os pingos nos is – replicou Marco Antonio. – Vamos dar nomes aos bois. Não confunda alhos com bugalhos, e saiba que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

– O que eu disse? – perguntou Vanessa, para si mesma e para todos os presentes. – A conversa está divertida.

– Detesto quando tu fazes isso, Marco Antonio – disse Luiza, em tom de censura, chateada. – Tu debochas de mim. Tu zombas de mim.

– Acabou-se a conversa – sentenciou Marco Antonio. – Vou, agora, fazer da minha boca um túmulo.

– Sábia decisão – sentenciou Luiza. – Sábia decisão. Direi o que penso. Se tu me permitires, meu querido marido. Há muitos malandros nas universidades. Muitos professores são canalhas. Não educam os alunos; e seduzem as alunas incautas. Os universitários, aos dezoito, dezenove anos, sabem o que da vida? Nada. O ambiente universitário é favorável à transgressão de leis, normas sociais, e à transvaloração de todos os valores. Não é assim que os seus amigos intelectuais falam, Marco Antonio? Aqueles soberbos de cabeça oca que, por terem lido meia dúzia de livros, consideram-se os maiores gênios de todos os tempos. Basta ler jornais, revistas, assistir à televisão, e ouvir o que as pessoas falam, e atentar para o teor das conversas dos universitários, para se saber que o mundo está de cabeça para baixo. Para os universitários o certo é errado, e o errado certo; a vítima de um crime é o criminoso, e o criminoso a vítima. Os intelectuais dizem que os criminosos, que, ao nascerem, eram homens bons, cometem crimes porque a sociedade os obriga a cometê-los ao negar-lhes acesso à riqueza e ao corrompê-los. Tal idéia faz a cabeça de muitas pessoas, que estão prontas para aporrinhar a vida das pessoas de bem. Elas justificam todos os crimes e inocentam os criminosos. Tais idéias professores universitários inoculam na mente sugestionável dos alunos. Os professores, ou são bichos peçonhentos, ou desmiolados, que não têm a mínima idéia das idéias que inoculam no espírito dos seus alunos. Se eles justificam os crimes, fazem das vítimas culpados, e dos culpados vítimas… São vigaristas! É com espírito de transgressão que eles querem reformular o mundo, para melhorá-lo, dizem. Mas o pioram. Os universitários são bombardeados com idéias prejudiciais à sociedade. Um professor chantageia as alunas, e ninguém o denuncia porque a sociedade já está corrompida. Se há alunas que se calam, e a Jennifer se calou, embora não tenha aceitado a chantagem; se há alunas que aceitam a chantagem, pensando nas vantagens que terão, é porque a sociedade já está corrompida. Muitas alunas saem de uma cidade, lá do cafundó do Judas, e vão, sozinhas, para uma universidade situada lá onde Judas perdeu as botas, conhecem pessoas que nunca viram mais gordas, expõem-se às tentações, e não têm uma pessoa da família, ou um amigo, para quem possam confiar os seus pensamentos e de quem possam receber orientações. E com uma decisão impensada caem no fundo do poço. Vivem à mercê de outras pessoas, e têm de arcar com as conseqüências. Nem todos os professores são ruins, sei. O Dálton terá de prestar muita atenção ao comportamento da Marta, que poderá vir a ser vítima de um professor canalha, ou, até, de alunos canalhas. Dálton, tu sabes o que acontece nas festas que os universitários promovem? A Camila e a Samantha, filhas da Beatriz, disseram-me que os alunos… Pergunto: Os universitários frequentam as bibliotecas da universidade e as livrarias, ou os bares e as bocas de fumo? Se pensaram em bibliotecas e livrarias, erraram redondamente. Eles não lêem livros. Muitos deles os professores os acompanham nas aventuras alucinógenas. A Marta poderá vir a ser vítima desse tipo de gente. Os universitários, longe das famílias, consideram-se donos do poder. Sem uma autoridade moral para contê-los, perdem-se. Muitos deles, sem a renovação das lições morais que receberam, em casa, de seus pais, e com repetidas lições recheadas de idéias contrárias às quais foram educados, acabam por abandonar as idéias que lhes freavam os instintos auto-destrutivos, e se destróem e destróem outras pessoas. Sei que a Marta não irá para uma cidade longe e que ela irá morar na casa dos pais dela; todavia, ela irá às aulas na casa de amigos e às festas. Os universitários não têm escrúpulos e têm muitos estímulos para a transgressão e a auto-destruição. Os professores não ensinam o respeito ao próximo e à moral cristã. Dálton, tu achas que o cristianismo é bem-visto em uma universidade brasileira? A Samantha disse-me que uma amiga dela, católica, certa vez, lia, no pátio da faculdade, a Bíblia. Ridicularizaram-na os alunos. Dela zombando, perguntaram-lhe porque ela se interessava por aquelas histórias do arco-da-velha e disseram-lhe que ela era muito tola por acreditar que Adão e Eva, e Noé, e Sansão existiram. Ela ignorou-os, e pôs-se a ler a Bíblia. Intransigentes, embora se apresentassem como tolerantes, abertos às idéias diferentes, eles lhe disseram que não perdiam tempo lendo a Bíblia. Um deles disse-lhe: “Nunca li este livro, e nunca irei lê-lo. Não perderei o meu tempo com baboseiras de antigos povos analfabetos e supersticiosos.”, orgulhoso do seu desprezo pela Bíblia e por outros livros sagrados. Muitos alunos ouvem, nas salas de aula, dos professores, as idéias moderninhas, e arrotam sabedoria que não possuem. Imaginem o que há na cabeça dos universitários! Preconceitos. E eles ousam se apresentar como tolerantes e respeitáveis. As universidades são fábricas de imoralidades. Dálton, tu tens de amar a Marta, e acompanhá-la, sempre. Atente para o comportamento dela, ou irás perdê-la.

– A tua visão de mundo é injustificadamente pessimista – admoestou-a Marco Antonio, num misto de reprovação e incredulidade.

– Não é pessimista – retrucou Luiza, alterada. – Nas universidades brasileiras, o ataque aos valores universais tradicionais são intensos; e os universitários, muitos deles distantes de pai e mãe, tornam-se presas fáceis de professores vigaristas, que, defensores de ideais revolucionários, e sonhando com a destruição da civilização, os deformam ao incutir-lhes falsas idéias, ensinar-lhes a transgredirem a moral cristã, a desprezarem mãe e pai e avós, a cuspirem no prato que comem. E os alunos levianos intimidam os alunos educados, a ponto de persuadi-los a renegarem os valores que defendem e a praticarem atos reprováveis. A Samantha não foi a única pessoa que me disse isso. E a Jennifer não foi a única aluna chantageada por um professor.

A conversa prolongou-se até o almoço. Luiza realçou o seu ponto de vista. Contestou-a Marco Antonio. Ao divergir de ambos, Vanessa declarou que, com uma fusão dos dois pontos de vista, obter-se-ia uma idéia exata do que se dá nas universidades.

Dálton ouviu-os, atentamente, pensativo.

Luiza e Marco Antonio, e Vanessa e Jéssica ficaram para o almoço. Estas, após o almoço, pediram a Dálton que as levasse à casa da Marta. Lá, conversaram, animadamente. À noite, participaram da conversa Lucrécia e Floriano. Às vinte e uma horas, Jéssica, Vanessa, Dálton e Marta foram em visita a outros familiares.

Três dias depois, Luiza, Marco Antonio e suas filhas regressaram a Belo Horizonte.

Transcorreram-se os dias. O namoro de Dálton e Marta, entremeado de rusgas passageiras, prosseguia alvissareiro. Ciúme espicaçava-os em certas ocasiões – nada que os arremessasse um contra o outro a ponto de eles romperem o namoro. Sempre que desentendimentos esfriavam o relacionamento, eles se continham, e, para evitar discussões estéreis, pensavam nas palavras que diriam um para o outro. Sabiam como se portar ao ouvirem comentários de maledicentes, desafetos e invejosos. Chegaram-lhes aos ouvidos boatos cujas origens não ignoravam.

Floriano e Lucrécia convenceram Marta a trabalhar no escritório deles. Ela relutara; no início, dissera-lhes preferir trabalhar em outro escritório, mas os argumentos que deles ouvira a dissuadiram de seu propósito original.

No primeiro dia de aula, Marta foi à faculdade; acompanharam-na Dálton, e Roberta, sua amiga, e Ricardo, namorado de Roberta. Ao final das aulas, às vinte e três horas, Dálton e Ricardo, no carro deste, foram à faculdade buscar Marta e Roberta. No trajeto, de quase trinta quilômetros, da faculdade até a casa de Marta, Marta falou da sua apreensão nos minutos que precederam o início das aulas e teceu comentários sobre as impressões que os professores lhe provocaram, em particular Basílio, que, dos cinco professores, foi aquele que revelava melhor domínio do assunto que ensinava e o único que exibia postura adequada ao ofício, e, entendia ela, o mais inteligente deles. Dos outros quatro, ela fez breves comentários, apresentando, deles, mais aspectos negativos do que positivos.

Chegando à casa de Marta, Marta e Dálton desceram do carro. À frente do portão, ele a enlaçou, ela visivelmente exausta, pela cintura, e beijou-a. Pouco tempo depois, despediram-se. Marta despediu-se de Roberta e de Ricardo, e entrou na sua casa. Dálton regressou ao carro. Ricardo rumou à casa de Dálton. Lá chegando, este despediu-se dele e de Roberta, e retirou-se do carro. E Ricardo e Roberta foram à casa dela, diante da qual, no interior do carro, beijaram-se durante longos minutos, até que ela se retirou do carro. Ricardo observou-a abrir o portão da casa e entrar para a varanda. Assim que ela o fitou, e mandou-lhe um beijo, e foi para a porta que dá acesso à casa, ele girou a chave na ignição, deu a partida, pisou no acelerador, e chegou na sua casa quatro minutos depois.

Transcorreram-se os dias.

Habituada ao ambiente universitário, Marta estabeleceu amizade com vários alunos, criando relacionamento mais estreito com Mariana, Andréia, Denise, Tábata, André, Murilo e Nilton. Com eles possuía afinidades de formação familiar, intelectual, e de interesses e objetivos. Eram alunos aplicados, que conservavam certo distanciamento dos alunos relapsos, que iam à faculdade para farrear e tinham, como único interesse, obter o diploma ao final do quinto ano. Marta não precisou de muito tempo para identificar os alunos descompromissados com o estudo. Eles eram barulhentos, tagarelas e levianos. Com eles não estreitou laços de amizade, conquanto alguns fossem extrovertidos e com eles ela adorasse conversar.

Dois de seus condiscípulos, Carlos Roberto e Wesley, não tinham o hábito de freqüentar as aulas; quando freqüentavam uma aula, conversavam, no fundo da sala, desinteressados do que o professor explicava. Certa vez, eles, fleumáticos e ansiosos, ocultando os seus desejos inconfessados, proferindo, com correção, as palavras, o que lhes era incomum, abordaram Denise, Tábata, Murilo, André e Marta – e destes não passou despercebido o esforço que eles faziam para emprestar à voz um tom de dissimulado respeito -, e pediram-lhes, solícitos, que incluíssem seus nomes no cabeçalho de um trabalho. Denise disse-lhes que não incluiria os nomes dos dois no trabalho porque, se o fizesse, seria desrespeitosa consigo e com os outros alunos que participaram do trabalho, pois, se lhos incluísse, eles, Wesley e Carlos Roberto, receberiam notas por um trabalho para o qual não deram nenhuma contribuição. Wesley, secundado por Carlos Roberto, prometeu-lhe, com voz melíflua, sorriso cativante, incluir o nome dela num trabalho que fizessem, se, por algum motivo, ela não pudesse fazê-lo. Ela rejeitou a proposta, com veemência, reprovando-os, com argumentos irreplicáveis, e não lhes franqueou espaço para que, posteriormente, em qualquer outro dia, eles lhe solicitassem outro favor, pois a resposta que dela ouviriam seria a mesma:

– Não incluirei o teu nome e nem o teu – disse, dirigindo-se a Wesley e Carlos Roberto – neste trabalho – e exibiu-lhos. – E eu jamais pedirei a vocês a inclusão do meu nome no trabalho que vocês fizerem, se fizerem algum. Se vocês não aprenderam as primeiras lições, como aprenderão as lições posteriores, que, compreende-se, serão mais complexas, e, para a sua realização, será indispensável o conhecimento das primeiras lições, as quais vocês não assimilaram? Eu faço os meus trabalhos, e quero reconhecimento pelo meu esforço, e não pelo esforço alheio. Somos gratos pelos elogios que vocês nos fizeram, mas, saibam, não iremos incluir o teu nome e o teu nome – e apontou para Wesley e Carlos Roberto – neste trabalho – e lhos exibiu.

Wesley fez esgares de zombaria, desdenhoso, e Carlos Roberto, mais contido, mas não menos desdenhoso, exibiu sorriso escarninho. E ambos afastaram-se, despeitados, rilhando os dentes.

Os dois notabilizar-se-iam, no decurso do ano letivo, como os alunos mais irresponsáveis e descompromissados daquela sala-de-aula.

Convidada para a festa de aniversário de Mariana, Marta, antes de dizer para Mariana se iria, ou não, à festa, consultou Dálton. A conversa não se desenrolou como ela desejava. Não logrou convencer Dálton, que lhe disse que teria de trabalhar, naquele sábado, à noite, a deixá-la ir à festa. Essa foi a primeira discussão séria que eles travaram. Marta disse, escandindo as palavras, que iria à casa da Mariana, pessoa que ele conhecia, e salientou: a festa não se daria nem numa discoteca, nem num clube, e nem se prolongaria pela noite adentro porque Mariana iria, domingo, às cinco da manhã, com Walter, o seu namorado, Valéria, sua irmã, e Renata e Larissa, primas de Walter, a Ubatuba. Dálton, irredutível, disse-lhe que ela não tinha a permissão dele para ir à festa.

– Não me dás permissão? – retrucou Marta, visivelmente irritada. – Tenho de pedir-te permissão para ir à festa de aniversário de uma amiga?

– Por que queres tanto ir à festa? – perguntou-lhe Dálton, de cenho franzido.

– Porque a Mariana é minha amiga.

– Essa é a única razão da sua vontade de ir à festa? O que tu não queres me dizer? O que não queres que eu saiba?

– Não acredito, Dálton. O que deu em ti? O que estás a pensar? Quero ir à festa de uma amiga. E quero que tu vás comigo, mas tu terás de trabalhar, e não poderás ir. Que mal há se eu ir sozinha à festa?

– Não irás.

– Eu irei à festa, Dálton.

– Não irás, não.

– Irei, sim. Irei. Tu não tens o direito de me proibir de ir à festa da Mariana.

– Sou o teu namorado.

– Eu sei. Irei à festa de aniversário da Mariana. Ela é minha amiga. Gosto muito dela, e irei à festa.

– Não irás, Marta.

– Dálton, pare.

– Tu nunca me trataste como me tratas agora. A faculdade não está fazendo bem para ti; está fazendo de ti outra pessoa.

– Não digas asneiras.

– Por que estás agindo assim?

– Assim como, santo Deus!? – e Marta riu.

– Tu debochas de mim.

– Não debocho de ti.

– Por que ris, então?

– Estás sendo ridículo, infantil. Estás com ciúme…

Dálton, com o punho direito cerrado, deu um soco na mesa. Marta removeu o sorriso do rosto, calou-se, fitou Dálton, que a encarava, os traços do rosto carregados, o olhar penetrante, as sobrancelhas arqueadas sobre os olhos, que estavam quase ocultos sob as pálpebras. Teve a impressão de que o ouvira bufar, rilhar os dentes e rosnar. Destacaram-se, intumescidos, os vasos sanguíneos do pescoço e os das têmporas dele. Marta pegou de sobre a mesa a sua carteira, a bolsa e os óculos pretos, e disse para Dálton que, depois, conversariam, beijou-o nos lábios, com a mão pousada no rosto dele, e anunciou a sua retirada da casa, e foi para a sua casa preparar-se para ir à casa da Mariana.

Quando se preparava para ir à empresa na qual trabalhava, Dálton telefonou para Marta, que lhe disse que iria à casa da Mariana. Dele Marta ouviu silêncio opressivo. Imaginou ouvir-lhe a respiração acelerada, a expulsão, com força, do ar dos pulmões, o rilhar de dentes e o estralar de ossos dos dedos. Ele desligou o telefone. Ela, pensativa, com o telefone celular na mão, perguntou-se se tomara a decisão correta ao confrontá-lo. Discou o número do telefone celular dele. A ligação caiu na caixa postal. Marta não deixou nenhuma mensagem. Iria discar-lhe novamente quando a campainha soou. Guardou o telefone celular na bolsa, e foi atender à porta. Era Denise, que a levaria à casa da Mariana. No caminho – trajeto de vinte quilômetros -, Marta discou três vezes para Dálton – e três vezes a ligação caiu na caixa postal. A preocupação, que lhe transparecia na fisionomia, não passou despercebida de Denise, que lhe fez observações e perguntas a respeito; Marta desconversou.

No dia seguinte, de manhã, Dálton foi à casa de Marta, que, sonolenta, o atendeu. Não a saudou com um beijo nos lábios, como de hábito. Antes que ela lhe dissesse qualquer coisa, exigiu-lhe, contendo-se, para não a ofender, explicações sobre a conduta dela na véspera. Fitava-a com olhar severo. Ela hesitou, ao vê-lo tenso. E tentou, em vão, acalmá-lo. Ao se convencer de que as suas tentativas de acalmá-lo exacerbavam-lhe os ânimos, contou-lhe, com pormenores, o que se dera na casa de Mariana. Ele a ouviu, atentamente; ao final da narrativa, contendo-se, tenso ainda, mas não tão tenso como estava ao chegar, disse-lhe, com voz contida, que contrastava com a sua fisionomia carregada, que iria embora. Ela se lhe aproximou, e, tímida, dir-se-ia cautelosa, beijo-lhe os lábios e acariciou-lhe os cabelos. Pouco tempo depois, ele dela se despediu, e foi-se embora.

Nas duas semanas seguintes, Dálton e Marta não falaram da festa de aniversário de Mariana. Ele conservou-se reservado. Ela aludiu-lhe à atitude dele – não foi direta, para não lhe ferir suscetibilidades. Se entendeu as alusões, e é certo que as entendeu, ele deu a entender que não as entendeu, e tratou de outros assuntos. Dias depois, uma loja de aparelhos eletrônicos contratou-o, comprometendo-se a remunerá-lo com um salário mínimo e meio por mês. E em poucos meses, ele se tornou um vendedor bem-sucedido; e de alguns vendedores ganhou a hostilidade; de outros a amizade, o respeito e a admiração.

Declaração de Amor – parte 1 de 5

Dálton era o segundo filho de Ulisses, engenheiro eletrônico, e Vilma Helena, médica veterinária, e irmão de Claudionor.

Claudionor, o primogênito, era tímido; com Dálton formava contraste, que de ninguém passava despercebido. Dálton era enérgico, agitado, agressivo. Ulisses e Vilma Helena diziam, sorrindo, que ele era uma fera selvagem, e que o domariam; se não o domassem, ele se converteria num ditador. Dálton foi um garoto espevitado. Os avós o alcunharam Espalha-brasa. Algumas pessoas diziam que ele era um diabinho; outras, que ele era um anjinho. Ele se intrometia nas conversas dos adultos, sendo, com freqüência constrangedora, inconveniente. Claudionor, pacato, susceptível às boas lições, embora contestasse a autoridade materna e a paterna, punha em prática as lições que seus pais lhe ministravam, nem sempre da maneira adequada. Aos dezoito anos, ingressou na faculdade de física. Alguns familiares e amigos íntimos da família anteviam o cientista que ele viria a ser. Dálton, em contrapartida, não possuía para os estudos paciência equivalente à de Claudionor; era, no entanto, dotado de raciocínio lógico incomum e agudeza intelectual penetrante. Antes dos dez anos, ele era enxadrista exemplar. Não era aplicado nos estudos, como o era seu irmão, mas, ao se dedicar a alguma atividade (um jogo de xadrez, uma questão de lógica, um jogo de vôlei), deixava-se por ela absorver, nenhuma resistência lhe fazendo, não procurava subterfúgios para dela se afastar. Enquanto não pronunciasse o xeque-mate; enquanto não deslindasse o problema de lógica; enquanto não encerrasse o jogo de vôlei, nenhum ruído atraía-lhe a atenção. Desconsiderando-se estes momentos, que não eram raros, ocupava o seu tempo livre – que não era muito, pois tinha de estudar com professores particulares orientados por Ulisses e Vilma Helena, que os cientificavam do gênio difícil de Dálton – com gibis de super-heróis, videogames e desenhos animados. Em seus anos de juventude envolveu-se em não poucas brigas. Um dos seus desafetos, Rodolfo, era o alvo predileto das suas chacotas. Brigaram os dois em inúmeras ocasiões. Travaram embates ferozes. Anos depois, os amigos de Dálton, ao evocarem uma das inúmeras brigas que os dois protagonizaram, referiam-se à ela como a Luta do Século, que rendera a suspensão deles da escola, por cinco dias. Tal briga, evento grandioso, testemunhado por uma multidão de jovens eufóricos, desenrolou-se no pátio da escola, durante o intervalo, sob olhares de professores, estarrecidos, e de alunos, admirados, estes ávidos por sangue, ossos fraturados e cabeças esmigalhadas. Dálton nocauteou Rodolfo, que prometeu vingar-se dele. Três dias depois, Rodolfo e Dálton, na quadra de esportes de um clube, sob olhares de jovens, que os atiçavam com frases bombásticas e punhos cerrados, travaram uma luta encarniçada. Dois seguranças do clube, vaiados pela multidão, os apartaram quando Rodolfo, escanchado sobre Dálton – que, caído no chão, protegia-se, como podia, e mal podia proteger-se, com os braços e os antebraços, aparando alguns golpes e esquivando-se de outros -, na cabeça dele encaixava uma saraivada de socos. Ao encerramento da luta, Dálton carregava o nariz quebrado e o olho esquerdo roxo, e Rodolfo, que estava em melhores condições do que ele, os olhos roxos e um ferimento na sobrancelha esquerda.

Dálton travava brigas homéricas com os seus desafetos e os seus rivais por motivos os mais banais. O olhar enviesado, o de indiferença, e um comentário sarcástico, sem ser depreciativo, produziam-lhe reação violenta inexplicável. As abruptas oscilações do seu humor alteravam-lhe, consideravelmente, o comportamento, e os amigos e os familiares, perplexos, preocupavam-se com o bem-estar físico e mental dele; alguns dentre eles preconizavam-lhe contratempos incontornáveis decorrentes dos seus repentinos acessos de cólera. A sua conduta, instável e violenta, exacerbava-se com o transcurso dos anos, revelando-se ele mais irritadiço e mais suscetível a qualquer ninharia, sempre que contrariado. E Ulisses e Vilma Helena afligiam-se; e Claudionor criou-lhe desafeição ao romper o estreito vínculo fraternal que havia, entre eles, durante a infância.

Dálton, enfim, chegou à maioridade.

Na festa de aniversário de Luciana, irmã de Cláudio, seu amigo, e na companhia deste, passou por Marta, e olhou por sobre o ombro direito; e seus olhos encontraram os dela. Encantou-o aquela figura miúda, sorridente, de cabelos compridos, pretos; e ela encantou-se com aquele homem de porte avantajado, másculo, de queixo quadrado e sobrancelhas espessas caídas sobre os olhos – olhos de homem misterioso, disse ela às amigas. Minutos depois, por insistência de Dálton, Cláudio apresentou-o para Marta e Marta para ele, e afastou-se deles, deixando-os à vontade. No início um pouco acanhados e um tanto atrevidos, Dálton e Marta sorriram, entreolharam-se, e entabularam conversa; no desejo de evitarem deslizes, calculavam as palavras. Dálton preocupava-se com o timbre de sua voz e com a sua postura; Marta perguntava-se se não se exibia com vulgaridade. No desejo de não trocar os pés pelas mãos, ele evitou perguntas indiscretas. Discreta, ela, para extrair-lhe as informações desejadas, lançou mão de alguns expedientes; depois, desembaraçada, tomou liberdade de lhe fazer perguntas ambíguas e contar-lhe anedotas. Certo de que não a desagradava, ele se livrou da corrente que o impedia de fazer a ela perguntas ousadas. Ao notarem que não encontraram um no outro rejeição e que os olhares e os sorrisos lhes eram um pelo outro retribuídos, desembaraçaram-se da timidez inicial, e assumiram, sem receios, postura atrevida, com direito a insinuações maliciosas. A conversa ia alegre, divertida. Tinham eles apenas olhos um para o outro, e o que ocorria ao redor eles ignoravam; viviam num mundo à parte, numa dimensão em que havia apenas duas pessoas: Dálton e Marta. Estavam mergulhados, em espírito, um no outro, sorriso imarcescível nos rostos, quando atraiu a atenção de Dálton a voz de Cláudio; este lhe acenou, e, um sorriso cúmplice no rosto, com mímica que apenas Dálton podia compreender, foi até o rádio, do qual, segundos depois, ouviu-se música romântica. E Dálton atraiu Marta, e enlaçou-a pela cintura. E dançaram, ela com as mãos suavemente pousadas nos ombros dele e a cabeça ao tórax dele. Atraíram a atenção dos convidados – não foram raros aqueles que preconizaram o enlace matrimonial, e tampouco os que, conhecedores do temperamento atrabiliário de Dálton, considerando as diferenças de temperamento dele e de Marta, declararam que eles nenhuma afinidade possuíam, e, conquanto alvissareiro o preâmbulo, o namoro deles estava fadado ao fracasso. Entre estes profetas, havia os que desejavam Marta. Alguns dentre eles a haviam abordado com propostas de namoro, outros para ela se insinuaram; mal-sucedidos, não apreciaram vê-la dançando com Dálton; despeitados, apresentaram, maledicentes, comentários maldosos a respeito de Dálton e de Marta, com a finalidade de impedi-los de principiarem o namoro. Foram mal-sucedidos. Marta e Dálton entenderam-se, e muito bem, durante a festa, como se nascidos um para o outro fossem; encerrada a festa, despediram-se da aniversariante, dos familiares e amigos dela, os remanescentes, que correspondiam a uma reduzida parcela dos convidados que haviam comparecido à casa de Luciana, e, juntos, foram-se embora. Dálton acompanhou-a até a casa dela, distante uns duzentos metros da casa de Luciana. E no trajeto eles conversaram, e sorriram. À frente da casa, Dálton atraiu Marta para si, estreitou-a em seus braços, cerrou as pálpebras, e uniu seus lábios aos dela. Ao despedirem-se, às duas horas da madrugada, segurando um as mãos do outro, fitaram-se, sorriram, aproximaram os lábios um dos do outro, e beijaram-se uma vez mais. Minutos depois, Marta abriu a porta, entrou à varanda, e fechou a porta atrás de si. Na varanda, a chave à fechadura, abriu a porta que dava acesso à casa ao mesmo tempo que assoprou um beijo para Dálton, e deu o primeiro passo para dentro da casa. Dálton, sorrindo, acenou-lhe com a mão esquerda. Marta, assim que passou pelo enquadramento da porta, curvou-se para trás, exibindo apenas a cabeça para Dálton, e, com a mão direita aberta, a palma para cima, os dedos unidos, enviou-lhe um beijo, sorriu, e deu-lhe tchau, dançando os dedos da mão direita, entrou na sala, e fechou a porta atrás de si. E Dálton, sorrindo de uma orelha à outra, seguiu para a sua casa. Não havia percorrido a metade do trajeto, encontrou-se com Eduardo e Joilson, que o convidaram para ir a uma discoteca. Recusou o convite; alegou cansaço. Eles insistiram; e ele, irredutível, renovou a recusa. E Joilson ofereceu-lhe carona; e ele a aceitou. Na sua casa, Dálton deitou-se, na cama, e não precisou nem de um minuto para conciliar o sono.

Na manhã seguinte, ao café-da-manhã, Lucrécia disse para Marta, sua filha, que, através da janela da sala, a vira beijando, apaixonadamente, um rapaz alto, espadaúdo e bonito.

– Mãe, tu me espionastes? Trabalhas para a CIA, ou para a KGB?

– Trabalho para a Duarte Investigações Secretas – respondeu-lhe Lucrécia, ao mesmo tempo que lhe apertou a bochecha -, a melhor agência de espionagem do mundo. A CIA é um desastre. Leste aquele livro, cujo título esqueci, sobre a CIA? Falha-me a memória.

– Tu precisas de fosfato.

– De ômega 3. Fosfato é personagem de história da carochinha. Ultimamente, a minha memória tem me deixado em apuros, com freqüência preocupante. Necessito, urgente, de ômega 3 e boas noites de sono. De dois meses para cá, mal dormi. Mas não mudemos de assunto. Qual é o nome do bonitão?

– Dálton.

– Tu estás lacônica. Não tens informações importantes para dar-me? Se não mas oferecer, eu as extrairei de ti. Aplicarei métodos inusuais e ortodoxos. Não te esqueças: sou espiã da Duarte Investigações Secretas. Saibas, queridinha, que tortura não está fora de cogitação. Imersão da cabeça numa bacia de água fria é um método que dá os resultados desejados, tu sabes.

– Mãe, tu és tão cruel. Denunciar-te-ei ao Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade.

– Este território não está sob jurisdição de tal tribunal.

A conversa prolongou-se por duas horas durante as quais Marta disse à sua mãe que conhecera Dálton na festa de aniversário de Luciana, e que fôra amor à primeira vista, e perdeu-se em elogios a ele, moço forte, inteligente, bonito, educado, elegante, charmoso, espirituoso, estudioso, trabalhador. Resumindo: um homem perfeito. Lucrécia reprovou-lhe o ânimo exaltado, pediu-lhe ponderação, e disse-lhe que não se deixasse levar pelas primeiras impressões e pelas aparências. Marta disse-lhe que as primeiras impressões são as que ficam, e ela completou:

– Até que as segundas impressões as apaguem.

Naquele mesmo dia, ao anoitecer, Dálton foi à casa de Marta. Marta apresentou-o para seu pai, Floriano, para sua mãe, para sua irmã, Nair, e para seu irmão, Lucas. Advogados, Floriano e Lucrécia, ele, civil, ela, trabalhista, falaram, durante a conversa, de alguns casos que se popularizaram no Brasil e no exterior, aludiram ao corporativismo dos advogados, e disseram que desejavam, um dia, vir as pessoas que exerceriam a advocacia – e apontaram para Marta, que prestaria o exame vestibular no final do ano – usufruir da liberdade, atualmente inexistente, de se associarem à corporação jurídica que desejassem. Ignorante da questão, intrigado, Dálton revelou-lhes o seu desconhecimento da ausência de liberdade de associação dos advogados, e pediu-lhes esclarecimentos a respeito. Eles o ciceronearam através da história do Brasil, desde o império, para ilustrar os exemplos que apresentavam e iluminar a questão, para que ele compreendesse as razões de haver, no Brasil, instituições burocráticas nefastas, malsãs. Dálton ouviu-os atentamente. A conversa prosseguiu, após o jantar, na sala-de-visitas, até às vinte e três horas. Trataram de política, da nacional e da municipal, de eventos, sucedidos em outros países, de repercussão e envergadura planetárias: a crise econômica mundial, catástrofes naturais, a guerra no Iraque e no Afeganistão, as escaramuças entre os Estados Unidos e a Rússia. E não negligenciaram trivialidades. E falaram de esportes, filmes e novelas.

Dálton e Marta despediram-se de Floriano e Lucrécia, e de Lucas e Nair, e foram à casa de Luciana. Minutos depois, à casa de Luciana chegaram Patrícia e Roberto. E não muito tempo depois, de carro, Roberto ao volante, foram os cinco à discoteca. Divertiram-se até às três horas da madrugada.

Sucederam-se os dias. O namoro de Dálton e Marta, entrecortado de rusgas passageiras, era alvissareiro. De Ulisses, Vilma Helena e Claudionor não passaram despercebidas – e tampouco de familiares e amigos da família e amigos de Dálton – as significativas mudanças do comportamento de Dálton. Diziam, jocosos, que Marta, com a sua candura, pusera na linha aquele moço buliçoso, briguento, de sangue quente e pavio curto. O relacionamento de Dálton e Claudionor melhorou; todavia, este receava com aquele manter amizade, a qual não nutria, pois suspeitava que ele lhe ocultava as verdadeiras intenções. Os sorrisos cativantes de Dálton e a voz macia dele no trato com Claudionor não eliminaram, deste, os resquícios de desconfiança, que lhe persistiam incrustados no íntimo; não podia Claudionor, conquanto o desejasse, suprimir da sua memória as injúrias que seu irmão lhe cuspira inúmeras vezes, e criar um vínculo de amor fraternal com ele.

– Não está longe o dia em que irão ao altar, na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso – comentou Vilma Helena, referindo-se a Dálton e Marta, certa ocasião, fitando Ulisses com o canto dos olhos.

Em um domingo, durante conversa, no almoço, na casa de Ulisses e Vilma Helena, reuniram-se Ulisses, Vilma Helena, Dálton, Marta, Claudionor, Floriano, Lucrécia, Nair, Lucas, Roberto, irmão de Vilma Helena, e Neusa, esposa de Roberto.

À mesa, Roberto, segurando um copo com cerveja, disse, fitando Dálton:

– Olhe para mim, Dálton – e chamou a atenção dos comensais para si. – Atente para o que te direi: Um conselho de tio, de homem experiente, que, embora experiente, caiu na esparrela de uma mulher cheia de artimanhas: Casei-me. Ouça-me, atentamente, o que tenho para te dizer: não estragues a tua vida. Antes de casar-me com a tua tia – e apontou para Neusa -, eu era esbelto, tinha cabelos, não tinha rugas, nem olheiras, tampouco pés-de-galinha. Agora… olhe para mim, meu querido sobrinho, olhe atentamente. Responda-me: Como estou? Minha barriga parece a de mulher grávida de nove meses; minha cabeça está depenada. Restam-me, na cabeça, se muito, cinquenta fios de cabelos. Conte-os. Tu não precisarás nem de um minuto para contá-los. E os pés-de-galinha! São enormes. Não são de garnisé. São de… Não são de galinhas; são de avestruzes. Cruzes! E as rugas! Do tamanho do Kilimanjaro. Eu era bonitão, Dálton. Agora, tu me vês, estou um bagaço. Casei-me com a tua tia, e a minha vida desandou.

Durante o discurso, Neusa, de cenho franzido, fitava Roberto; assim que ele deu por encerrada a explanação, antecipou-se à Marta, que, ao afastar da boca o copo de vidro com refrigerante, preparava-se para falar, e disse, num misto de seriedade e humor, apontando o dedo para Roberto e a curtos intervalos olhando para todos os presentes:

– Roberto, tu não queres admitir que estás ficando velho. O tempo está passando, e a cada dia que passa maior fica a tua calvície, a tua barriga e os teus pés-de-galinha. E não falei das olheiras. Tu estás velho, Roberto, e gagá. Estás enrugado, calvo e barrigudo. Eu sempre te disse para parar de beber cerveja. Mas tu, cabeça-dura, nunca me deste ouvidos, e agora estás com essa barriga monstruosa. Dálton, não dês ouvidos para o teu tio. Ele está velho, sempre conta uma história absurda e distorce a realidade para atribuir ao casamento a decadência dele. O casamento, posso dizer, impediu que ele se reduzisse a um caco. Ele só não é uma múmia ambulante porque eu o impedi de fazer muitas besteiras. Sigas o conselho de tua tia, Dálton: não sigas o conselho do teu tio. Pergunte para tua mãe o que teu tio fazia na juventude. Ele era destrambelhado, desmiolado, vivia às turras com teus avós, envolvia-se nas confusões do Diabo. Teu avô sempre disse que teu tio não morreu por milagre. O santo da família é muito forte, saiba. Um herói. Um Hércules. Um Sansão. O anjo da guarda de teu tio, Dálton, tem a paciência de Jó, é onipresente, e nunca tirou férias. Se ele movesse um processo trabalhista contra teu tio, ganharia em primeira instância, e teu tio, além de ter pagar-lhe uma nota preta, seria trancafiado no xadrez, e veria o sol quadriculado durante um século.

Todos gargalharam e teceram comentários zombeteiros.

– Teu tio tem miolo mole – comentou Neusa, em certo momento da conversa, dirigindo-se a Dálton. – Tua namorada é linda, fofa, e, estou certa, será uma ótima esposa para ti. Casa-te com ela, e sejas-lhe um ótimo marido. Vós sois bonitos, jovens e saudáveis. Sigas o meu conselho: casa-te com essa moça linda – foi até Marta, segurou-lhe a cabeça, com ambas as mãos, e beijou-lhe o rosto esquerdo. – A pele dela é macia – e apertou-lhe a bochecha. – Veja! Que linda! Ficou ruborizada. Que fofa! O meu sexto sentido e a minha intuição feminina dizem que vós nascestes um para o outro. Sois almas gêmeas. Sereis um casal perfeito; e tereis lindos filhos. E comemoraremos as vossas bodas de ouro. Sois lindos. Esqueças o que teu tio te disse, Dálton. Ele põe minhoca na cabeça de todo mundo, o velho desmiolado de cérebro recheado de caraminholas. Ele é um velho cabeça dura que não quer reconhecer que está velho. Perdeu um parafuso da cabeça, o mentecapto. Está para aquele velho andaluz, espanhol, sei lá eu, que, acompanhado de um gordinho estúpido, percorre a Catalunha em suas aventuras sem pé nem cabeça – e todos gargalharam, mas Neusa não se deu conta da razão da graça, em especial do sorriso aberto de Ulisses, Vilma Helena, Dálton e Claudionor. – Conheceis a história dos dois aventureiros, um magricela escanifrado e um gordinho barrigudo, ambos montados em pangarés, que, Deus me livre, não agüentam nem com o peso dos próprios ossos. Dálton, teu tio, meu marido, homem que livrei do inferno, está… Vou… Vou vos revelar um segredo – e achegou-se a Dálton e Marta, atraindo-os para si, até aproximar as três cabeças, conservando-as uma distante da outra não mais do que vinte centímetros, e disse, como se sussurrasse, mas para todas as pessoas à mesa ouvi-la, em tom de confidência: – Teu tio já chegou à menopausa. – Todos dobraram-se de rir. E sucederam-se comentários jocosos e provocações.

Transcorreram-se os dias, as semanas, os meses.

Certo dia, em dezembro, Marta prestou exame vestibular para o curso de advocacia. Classificou-se. À festa de comemoração, num domingo, a partir do almoço, até às vinte e duas horas, na sua casa, compareceram familiares e amigos. Após o encerramento da festa, Dálton, Marta, amigos e primos foram à uma lanchonete; depois, à uma discoteca, da qual retiraram-se às quatro horas da madrugada.

No início do ano seguinte, Marta e Dálton foram à faculdade de Direito. Marta não cabia em si de contentamento, embora receasse a abordagem de alunos veteranos, que poderiam vir a submetê-la a brincadeiras grosseiras, constrangedoras. Para inibi-los, acolhera uma sugestão de Camila, sua prima, que lhe dissera que usasse trajes que lhe conferissem elegância, dignidade, e lhe emprestassem a figura de uma profissional respeitável. O porte de Marta era o de uma ministra do Supremo Tribunal Federal, brincou Lucrécia ao vê-la retirando-se de casa. O dia transcorreu sem contratempos. Alunos veteranos abordaram Marta e Dálton, e ameaçaram submetê-la a brincadeiras constrangedoras. Ríspida, interpretando, com desenvoltura, o papel de uma autoridade, ela lhes disse que retirara-se, uma hora antes, do escritório de advocacia no qual trabalhava, ao qual regressaria assim que se matriculasse na faculdade. Os alunos veteranos pouparam-na de constrangimentos, e abordaram outros calouros, outros “bixos”; alguns, no entanto, insistiam em abordá-la; Dálton, todavia, dissuadiu-os de a obrigarem a submeter-se às agressões, as quais eles viam como brincadeiras inofensivas. Veteranos alvoroçados davam ordens para calouros, que, no cruzamento de duas ruas, abordavam motoristas de carros e solicitavam-lhes dinheiro; alguns motoristas entregavam-lhes moedas, e eles as entregavam aos veteranos, que, nos bares próximos, com elas compravam cerveja e, ou bebiam da cerveja, ou emborcavam a latinha, despejando a cerveja na cabeça de um calouro, ou mandavam um calouro abrir a boca e beber da cerveja que lhe era despejada. Incomodou Marta tal espetáculo degradante. Livres dos veteranos, ela e Dálton entraram no prédio da faculdade. Marta não precisou de muito tempo para preencher todos os formulários de matrícula. Agora era oficial: Marta era uma aluna da faculdade de Direito. Dali um pouco mais de um mês entraria na sala-de-aulas para assistir às primeiras aulas. Antes de irem-se embora, Dálton comentou:

– Nas proximidades da faculdade há quatro bares e nenhuma livraria. Interessante.

Nas férias que antecederam o início do ano letivo, de Minas Gerais foram, em visita aos familiares, Luiza, irmã de Vilma Helena, seu marido, Marco Antonio, suas filhas solteiras, Jéssica, de dezessete anos, e Vanessa, de dezesseis anos – Renato, seu filho, e Marcela, sua nora, permaneceram em Belo Horizonte, e suas filhas casadas, Madalena, a primogênita, e Márcia, e seus genros, Vicente e Josias, permaneceram, Madalena e Vicente, no Rio de Janeiro, e Márcia e Josias, em Fortaleza. Assim que chegaram à cidade, visitaram José e Francisca, pai e mãe de Luiza, em cuja casa encontraram, além deles, sua irmã e seu cunhado, Teresinha e Mateus, e as filhas deles, Joyce e Nicole, meninas de doze e onze anos de idade, respectivamente.

Luiza, extrovertida, estreitou, com abraços calorosos, a todos ao seu corpo robusto de mulher às portas dos sessenta anos; saudou-os com felicitações natalinas e de fim-de-ano, atrasados, ela dizia. Marco Antonio agiu com o desembaraço que lhe era habitual; anunciou a sua chegada em altos brados, e enveredou pelos cômodos da casa com a sem-cerimônia de quem a conhecia como conhecia as palmas das próprias mãos. José e Francisca os recepcionaram sem reservas. As conversas, animadas. Marco Antonio não contou poucas anedotas.

A notícia

– Ontem, encontrei-me com a Cláudia. Tu sabes o que ela me disse? Ela me disse que a Ludmila e o Carlos brigaram. A discussão estendeu-se por um século. O Carlos, disse-me a Cláudia… Palavras da Cláudia: “A Ludmila e o Carlos deram o maior escândalo de todos os tempos, no restaurante Bom Garfo, ontem à noite. Conversávamos, eu, a Ludmila e o Carlos. Num dado momento, o Carlos olhou para uma loira bonita, atraente, que passou ao seu lado. Ela se deteve, voltou-se para ele. O Carlos fitou-a. E o que aconteceu em seguida? A loira, atrevida, derrubou, no chão, de propósito, um molho de chaves, e agachou-se para pegá-lo. Tu tinhas de ver. A loira, linda, maravilhosa, usava um decote… O Carlos, com cara de bobo, arregalou os olhos, com os olhos devorou a loira. A Ludmila viu o que o Carlos viu, olhou para o Carlos, e, sem pensar duas vezes, e antes que ele entendesse o que se passava, furiosa, deu-lhe um tapa na cara, virando-o para o avesso. O Carlos deu um grito que na China podiam ouvir. A loira, ao levantar-se, olhou para o Carlos, que massageava o rosto e, com olhar apalermado, indagava da Ludmila a razão do tapa; Ludmila rilhava os dentes; dos olhos dela, fixos em Carlos, chispavam labaredas de ódio. A loira sorriu. Era evidente o seu ar malicioso, simultaneamente divertido e constrangido, de pudor e de malícia. Ela ajeitou o decote, e afastou-se. Não deixou de se voltar para o Carlos e a Ludmila, e sorrir, envaidecida. Envaidecida, sim, pois ela inspirou ciúme a Ludmila, a ponto de ela desferir um tapa no Carlos. Qual mulher não se envaidece de, simultaneamente, e sem esforço, excitar o desejo de um homem e o ciúme de uma mulher, usando, unicamente, as curvas do seu corpo? A Ludmila berrou, para que todo o mundo a ouvisse: ‘Safado!’, e desferiu um tapa na cara do Carlos. ‘O que… Ludmila!’, perguntou-lhe Carlos, surpreso, atoleimado. ‘Tu não podes ver um rabo-de-saia’, censurou-o Ludmila; ‘Eu nada fiz, Ludmila’; ‘Esqueça-me, imbecil! Vá atrás da loira oxigenada! Gostaste dela? Leve-a contigo, idiota’. O Carlos abanou a cabeça, moveu os braços, emudecido, e olhou em torno de si. Curiosos fitavam-no. Sorriam à socapa, uns; gargalhavam, outros, com todos os dentes à mostra, vergando-se para trás. Um escândalo! Que escândalo! Delícia de escândalo! Eu não sabia o que dizer. O que eu diria? Calei-me. Olhei para o Carlos. Olhei para a Ludmila. Olhei, constrangida, em torno. O que eu diria? O que eu diria, e para quem? Eu nada disse. Constrangedor! A Ludmila pegou a bolsa, levantou-se; batendo o pé, foi-se embora. Que escândalo! Que maravilha de escândalo!”.

*

– Sabes da nova? Hoje, no restaurante Comidas Típicas, almocei com a Rúbia. Ela me disse que o Carlos e a Ludmila brigaram. Disse-me a Rúbia… Acompanhes a história. É hilária, e do teu interesse: “Almoçávamos, no restaurante Bom de Garfo… O almoço ia às mil maravilhas. Conversávamos. Bebíamos. Comíamos. Estávamos, lá, eu, a Cláudia, o Carlos e a Ludmila. Nos levantamos. Iríamos embora. Iríamos, eu disse. Não fomos; não naquele momento. E sabes por quê? No restaurante entrou uma loira de parar o trânsito. Uma loira belíssima. Uma deusa grega. Ela usava decote e minissaia. Todos olhamos para ela. Era impossível ignorá-la. Ela, àquele calor, se trajasse blusa de lã e calça jeans folgada, chamaria a nossa atenção, mais, até, do que chamou. De um corpo perfeito, a loira. Sabes o que aconteceu? A loira, involuntariamente, acredito, deixou cair a carteira no chão, e curvou-se para pegá-la, ignorando-nos, como se não estivéssemos lá, como se não houvesse ninguém no restaurante, como se o restaurante estivesse às moscas. Minha nossa! Os eventos sucederam-se em ondas até a cena derradeira. O Carlos… Ah! O Carlos. Ele arregalou os olhos, e boquiabriu-se. O que ele viu… Ele, que mal havia se levantado, sentou-se, e não desviou da loira os olhos arregalados, a boca aberta, o queixo caído. A Ludmila… A Ludmila, sem pensar duas vezes, beliscou o Carlos, tirando-o do estado hipnótico no qual a loira o lançou. O Carlos fitou-a. Com um movimento brusco, levou a mão ao ponto no qual a Ludmila cravou-lhe as unhas. O berro seco do Carlos atraiu a atenção da loira, que, ao se levantar, voltou-se para ele, surpresa, curiosa, intrigada, viu-o massageando o braço, e voltou-se para a Ludmila, que, furiosa, esbravejou. O Carlos encolheu-se. Recuei uns dois passos. A loira esboçou reação, mas, constrangida, ruborizada, afastou-se, sob olhar dos curiosos, com passos firmes, fincando o salto dos sapatos no piso, e foi sentar-se, de costas para nós, à mesa, na outra extremidade do restaurante. Estou certa de uma coisa: o desejo da loira era o de esbofetear a Ludmila. A Ludmila, acredito, não a sobrepujaria numa luta corpo-a-corpo. As pessoas presentes adorariam assistir a tal espetáculo; imperdível, se se sucedesse. A Ludmila escapou de uma surra. O Carlos… Ah! O Carlos! Enquanto a Ludmila vituperava a loira, ele me fitava, abismado, na expectativa, certo de que a Ludmila o repreenderia, ao estilo dela; aos berros, o insultaria, e, ele previa, desferir-lhe-ia um bofetão que lhe deformaria o rosto. Coitado! Antes mesmo de encerrar às ofensas contra a loira, a Ludmila disse para o Carlos: ‘Tu és como todos os homens. Não podes ver um rabo-de-saia. Gostaste da loira oxigenada? Vistes a celulite? É de loiras oxigenadas que tu gostas? Vistes o silicone? Carlos, esqueça-me. Suma da minha frente, vagabundo’. O Carlos, coitado, abobalhado, emudecido, levantou-se, hesitante, enquanto massageava o braço, e afastou-se; antes de transpor o enquadramento da porta, olhou, por sobre o ombro esquerdo, para a Ludmila, que, à minha frente, olhava para a loira e resmungava obscenidades. Paguei pelo almoço, e nos retiramos.” Ouviste, atentamente, a narrativa? É do teu interesse, não é?

*

– A Ludmila, a namorada do Carlos, aquela morena… O Marcelo contou-me, há uns quatro dias… Quando? Não importa. Ele me disse que a Ludmila, o Carlos, a Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom… Sabes o que ele me disse? Imaginas? Não imaginas? Tu conheces aquela figurinha carimbada. Foi na lanchonete Bem Bom, ou no restaurante Comidas Tropicais. Tu conheces o restaurante Comidas Tropicais? Ótimo restaurante. O Marcelo disse-me que a Rúbia contou-lhe que a Ludmila e o Carlos saíram no tapa lá no… Comidas Tropicais, se não me engano. Não. Não foi no Comidas Tropicais. Foi na lanchonete Bem Bom. O Marcelo e a Rúbia almoçaram, dias atrás, no restaurante Bom de Garfo. Tu conheces a Rúbia e o Marcelo. O Marcelo, tu sabes, adora manter as pessoas bem informadas. Ele capta informações no ar, via respiratória. Ele é dotado de radar potentíssimo, e sabe, também, como espalhar as notícias. Não sonega nomes, nem as minúcias dos eventos. É incomparável a sua vocação para jornalista investigativo. Pergunto-me porque ele não envia o curriculum para um tablóide britânico. Faria sucesso estrondoso nas cercanias de Stonehenge; e, no outro lado do canal da Mancha, repetiria o sucesso obtido na ilha dos bretões. Ou não? Ora, os franceses têm reputação de sisudos e racionais. Porém… Conte-lhes, aos macambúzios germanos… gauleses descendentes de Asterix, uma boa aventura… Eles perderão a compostura. Os taciturnos revelarão a verdadeira face da alma gaulesa. Basta de embromação. Basta deste chove, chove, e não molha. Basta de blábláblá. Basta de lengalenga. Vamos ao que nos interessa. O Marcelo, gozando do prazer de relatar um episódio jocoso protagonizado por dois amigos, disse-me: “A Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom, comiam, a Rúbia, um pudim de laranja, e o Cláudio, um pudim de pêssego, e bebiam, o Cláudio, suco de uva, e a Rúbia, refrigerante de limão. Conversavam, animados. Falavam de trivialidades. Chamou-lhes a atenção a voz inconfundível da Ludmila. Sabemos que ela é discreta e sabe se comportar em público. A gargalhada… Ao sentir olhares cravando-se neles, o Carlos chamou a Ludmila à razão. Ela, com sorrisinho malicioso… aquele sorriso… O que ela e o Carlos conversavam? Não sei o que eles falavam… Mas posso imaginar do que se tratava… A Ludmila… O Carlos… Conheço-os como conheço as palmas das minhas mãos. A Ludmila viu a Rúbia e o Cláudio, acenou para eles, e foi, puxando o Carlos, até eles. Saudou-os. Puxaram, cada um, uma cadeira, e sentaram-se, o Carlos à direita da Ludmila, que se sentou à direita da Rúbia. A conversa ia animada. A Ludmila e a Rúbia falavam de vestidos e sapatos, e o Cláudio e o Carlos, de futebol, carros e motos, e insinuaram comentários a uma atriz americana, aludiram aos encantos dela; dariam sequência à conversa, mas o olhar de poucas amigas da Rúbia e da Ludmila os obrigou a retomarem a conversa sobre motos, carros e futebol, três das cinco maiores paixões dos homens. Assunto ia, assunto vinha, riam, gargalhavam, tranqüilos, até que… Música de suspense. Interrompo a narrativa, para criar expectativa. Suspense. Como se dará a sequência desta aventura? Não perca os próximos capítulos desta novela cuja trama intrigante enfeixa drama, comédia, tragédia, tragicomédia, capa-e-espada, cavalaria andante, sertão nordestino, praias cariocas, favelas, planaltos, metrópoles, periferia… O que deu por encerrada a animada conversa de Ludmila, Rúbia, Carlos e Cláudio? Uma loira. Uma loira? Sim, uma loira. Uma loiraça. Não foi uma loira qualquer. Foi uma loira de parar o trânsito e provocar engarrafamento quilométrico. Esqueça os engarrafamentos em São Paulo. Diante do congestionamento que a loira pode provocar, nada significam. Então, retomemos o relato. A loira, com vestido decotado, recendendo perfume irresistível… Ela era irresistível; com o perfume ia além do irresistível. Era o suprassumo da loirice. Um esplendor da natureza! Uma das sete maravilhas do mundo. Um petisco! Ela se aproximou do Carlos, sorrindo, e, exibindo os dentes lindíssimos, os olhos o irradiar felicidade contagiante, com voz maviosa, sedutora, disse-lhe: ‘Oi, lindo, lembra-se de mim?’, e reclinou-se, para beijá-lo, no rosto. Não o beijou, entretanto. Sabes quem a impediu de beijá-lo? A Ludmila. Quem mais poderia ser? A Ludmila deslocou-a com o cotovelo, avançou ao Carlos, e desferiu-lhe um tapa, que ecoou pelo restaurante, escapou para a rua, ganhou o bairro, foi ouvido em toda cidade, cujos limites territoriais venceu, e, em ondas incontíveis, espraiou-se, após atravessar o oceano Atlântico e o oceano Pacífico, pela Europa, pela Ásia e pela América do Norte. A loira arregalou os olhos e boquiabriu-se. Desequilibrada, quase caiu. O Carlos tratou de se afastar do alcance das mãos da Ludmila. Como ela é pacífica, serena, ele não ficou com o olho roxo, ou azulado, ou avermelhado, sei lá. Uma mescla de magenta, lilás, roxo, azul e vermelho alaranjado. Sortudo, o Carlos. Todavia, ele não escapou das broncas. E a Ludmila… Ah! Ela encarou a loira. Gritou para ela: ‘Vagabunda!’. ‘Ludmila, acalme-se’, solicitou-lhe, servil, Carlos. ‘Acalmar-me, Carlos. Tu e essa loira oxigenada são dois vagabundos!’ A loira retirou-se, com o rabo por entre as pernas. E que pernas! O Carlos e a Ludmila discutiram. Um escândalo! Tu tinhas de estar lá para ver.” Eu gostaria de estar lá para ver. Eu queria ser testemunha ocular da briga. Eu queria ver a Ludmila humilhando o Carlos! Foi divertido, imagino. A Ludmila é mulher corajosa, e não teme escândalos. Ela desancou a loira e o Carlos. Falou grosso com ele. Que grosserias ele ouviu! Disse-me o Marcelo que o Carlos, a Rúbia e o Cláudio ficaram ruborizados. O Carlos adquiriu as feições de um pimentão, a fisionomia de um tomate maduro. Eu queria assistir ao espetáculo. Ah! Esquecia-me: a Ludmila e o Carlos romperam o namoro. É a minha chance de abordar a Ludmila… Ora, abordá-la, abordei, e não foram poucas as vezes. Insinuei-me. Ela me rejeitou. Agora, o caminho está livre para mim. E não perderei o meu tempo… A Ludmila não me escapará. E manterei o Carlos afastado dela. Inventarei histórias cabeludas. Para o Carlos, pintarei a Ludmila com as cores mais escuras; para a Ludmila, direi cobras e lagartos do Carlos. Não serão cobras quaisquer, e tampouco quaisquer lagartos. O Carlos nunca mais irá olhar para a Ludmila, que nunca mais irá olhar para ele. Escrevas no teu diário: O Marcos namorará a Ludmila.

*

– O Marcos disse-me que tu e o Carlos brigaram, na lanchonete Bom Apetite, dias atrás.

– Eu e o Carlos nunca fomos à lanchonete Bom Apetite.

– Não?

– Não.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo que, dias atrás, tu e o Carlos brigaram.

– Há três meses eu e o Carlos não entramos no Bom de Garfo. Quando eu e ele entramos, lá, pela última vez? Não me recordo. Faz tanto tempo, que não conservo tal episódio na memória. Reminiscências trazem-me à mente um almoço, lá, no aniversário da Paula, há quatro meses. Quando foi o aniversário da Paula? Há muito tempo. Há um século. Eu e o Carlos brigamos… Eu gostaria que me dissessem quando isso aconteceu, porque eu não soube dessa briga. Não assisto aos telejornais…

– O Marcos disse-me que, na lanchonete…

– Tu acreditas no Marcos? Ele conta cada história da carochinha… Cada lorota! Ele inventa e reinventa as histórias que lhe contam. Pergunte-lhe o que ocorreu entre eu e o Carlos, na próxima vez que o encontrar, e ele dirá que nos viu eu e o Carlos, na praia, num quiosque, bebendo, eu, água de coco, e o Carlos, cerveja, vestindo, eu, biquíni fio-dental amarelo, e o Carlos, sunga azul, e eu, que nunca subi numa prancha de surfe, surfando, e o Carlos, que nunca chutou uma bola, jogando futvôlei…

– O Marcos não inventou nenhuma história. Ele me disse que o Marcelo disse-lhe que tu e o Carlos brigaram na lanchonete Bom Apetite.

– Eu e o Carlos nunca fomos lá.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo…

– Eu e o Carlos, há meses, não vamos lá, como eu já disse.

– Então, não sei. Foi em outra lanchonete, então. Ou em outro restaurante. O Marcos disse-me que, na sexta-feira, o Marcelo, a Rúbia, tu e o Carlos…

– O Marcelo e a Rúbia, comigo e com o Carlos, num restaurante? Há mais de um mês não vejo o Marcelo. A Rúbia… Conversei com ela, pela última vez, na véspera da minha viagem, para o Rio Grande do Sul, com meu pai e minha mãe, em visita ao meu avô, que completou o nonagésimo aniversário, há vinte dias. Hoje… Que dia é hoje? Vinte e sete. O aniversário de meu avô, no dia seis, foi num domingo. Eu, meu pai e minha mãe fomos ao aeroporto, no sábado, pela manhã; na sexta-feira, à tardezinha, nos encontrávamos, eu e a Rúbia, na livraria Assis, dia quatro, portanto, há mais de vinte dias. A tua história não está bem contada.

– O Marcos falou-me da briga…

– Eu e o Carlos não brigamos. Que eu me lembre, não. Briguei com o Carlos? Briguei… E não me informaram…

– Não sejas irônica… Esta história… Se é verdade… Tu me diz que não brigou com o Carlos… Acredito… Mas o Marcos narrou-me, com detalhes constrangedores, a tua briga com o Carlos. Falou-me, e não se furtou a tecer elogios, de uma loira oxigenada…

– Ah! Sei qual história o Marcos te contou… Quero dizer, não sei qual história ele te contou. Se ele narrou uma história que culminou numa briga… Ora, ele adulterou os eventos… Briga… Eu e o Carlos não brigamos. O que eu poderia dizer… Não sei o que ele te disse… Como se diz, quem conta um conto… O Marcos ouviu um conto; ao contá-lo, aumentou… Quantos pontos? Não briguei com o Carlos, Márcia.

– Não? Mas o Marcos…

– Ora, o Marcos! Esqueça-o. Diria minha avó: ele fala mais do que a negra do leite. Não a conheço. Vovó conheceu-a, e diz que ela falava demais. Dá, a taramela, com a língua nos dentes, e não sabe manter a língua dentro da boca.

– Ele me disse com tanta convicção…

– Esclarecer-te-ei o enigma. Contar-te-ei a história, exatamente como transcorreu. No encerramento, tu não ignoras, não se dá uma briga, tampouco uma discussão envolvendo eu e o Carlos. Não se ouviu insultos, nem palavras azedas, nem interjeições viperinas. Os contadores mal-intencionados de histórias são tão convictos… Querem acreditar no que dizem… Basta de tagarelice. Não percamos o nosso tempo… Eu e o Carlos não brigamos, estejas certa. Que eu me recorde, nunca brigamos. Discutimos de vez em quando… Isto é, todos os dias. Briguinhas de namorados. Bobagens. O Carlos, tu sabes, é um pouco ciumento. Se eu uso camisa decotada, ele me repreende; se uso minissaia, ele me reprova; se me atraso para um encontro, ele me censura, e me diz que me demoro, embelezando-me. Quanto a isso, é verdade. Gosto de me reproduzir. Adoro mirar-me ao espelho. Sou maravilhosa, eu sei. Não precisa me dizer isso. O Carlos gosta e, ao mesmo tempo, não gosta, principalmente quando outros homens olham para mim… Além das discussõezinhas, nada de sério. Nos entendemos. Ele é um namorado gentil e carinhoso. O homem com que sonhei. Um príncipe encantado. Um amor. Quanto ao que aconteceu… O que aconteceu? Esqueças o que o Marcos te disse. Ele não sabe o que aconteceu. Queres saber o que aconteceu? Tu te surpreenderás. Ao encerramento, irás rir à bandeiras despregadas, diria um vetusto senhor grisalho. Ouças: eu e o Carlos não brigamos, na lanchonete Bom Apetite. Brigamos, na sorveteria Palito de Ouro. Brigamos… Direi que eu e ele brigamos. Para todos os efeitos, brigamos. E eu e a loira oxigenada nos enrolamos num arranca-rabo que foi um escândalo. Na sorveteria Palito de Ouro, num sábado, eu, o Carlos e a Cláudia passamos bons e agradáveis momentos, conversando, chupando sorvetes. Falamos de todos os assuntos que nos vinham à mente. Falamos mal das vizinhas da Cláudia, do ex-namorado dela, o Rômulo, e do… Do que mais falamos? Não me recordo. O melhor momento ainda estava por vir, e foi uma loira lindíssima que no-lo proporcionou. Tu tinhas de ver. Era sábado. Calor de derreter o cérebro. Chupei sorvete de morango, de laranja, e napolitano, se não me engano. O Carlos, um de chocolate, e… Não sei. E a Cláudia… Sei lá. Atente para este detalhe: Estávamos na sorveteria Palito de Ouro. Esqueças a lanchonete Bom Apetite e todas as outras lanchonetes. Eram quatro horas da tarde. O calor nos rachava a cabeça. O Carlos suava em bicas. Derretia-se. Eu, ele e a Cláudia degustávamos sorvetes gelados quando, na sorveteria, entrou uma loira de parar o trânsito. Uma boneca. A Barbie, sem tirar nem pôr. Pensei, até, em pedir-lhe um autógrafo. Ela usava uma camisa decotada e uma minissaia. Tão bela. Tão linda. Todos olhamos para ela. Imagines uma loira lindíssima de minissaia, camisa decotada e sapatos de saltos altos. Ela passou pelo Carlos, esbarrou-lhe a mão no braço, e o Carlos derrubou o sorvete. E a loira… Sabes o que ela fez? Pediu desculpas para o Carlos, e se abaixou para pegar o sorvete. Imagines a cena. A loira usava camisa decotada. Imagines a cara do Carlos. Olhei para a Cláudia; a Cláudia olhou para mim. Sorrimos. O Carlos ficou vermelho. A loira pediu-lhe desculpas. Ela não percebeu, é certo, constrangida que estava, que o Carlos não tirava os olhos do decote.

– Tu não brigaste com o Carlos?

– Não. Por que eu brigaria com ele? A loira esbarrou-se nele, e ele derrubou o sorvete. Por que eu brigaria com ele? Por que ele olhou para a loira? Ora, o Carlos é um homem. A loira, bonita, linda, um pedaço de mal caminho. Além do mais, foi um acidente. Um acidente engraçado. O Carlos transformou-se num pimentão. A loira foi-se embora. Fingi que estava brava com o Carlos, e dei-lhe tapas na cara. Tapinhas que não doem, e disse-lhe que eu nada queria com ele, e que ele fosse procurar a loira oxigenada. Diverti-me com o episódio. O Carlos, constrangido, não sabia o que dizer, não sabia para onde olhar. E mais uma coisa: a loira não era oxigenada. Era uma loira autêntica, bonita e atraente. Ah! Eu, brigar com o Carlos! Ele é um amor. Eu e ele nos casaremos daqui um mês. O Marcos… Ele… Se vier ter comigo, lhe baterei a porta na cara.

A ciumenta

– Você, Roberto, olha para todas as mulheres, na rua; delas não tira os olhos.

– Eu não olho para outra mulher além de você, Ju. Eu tenho olhos só para você. Não seja ciumenta. Você acha que eu olho para todas as mulheres e me trata como se eu fosse um homem vadio, que nunca viu um rabo-de-saia.

– E você não olha para as outras mulheres, não? Você não arregala os olhos quando vê uma bonitona?

– Não. Não olho, não. Não arregalo os olhos, não.

– E hoje à tarde, hein!?

– O que aconteceu hoje à tarde? E onde?

– Na frente da loja ***.

– O que aconteceu lá? Não olhei para nenhuma mulher.

– Não?

– Não. Olhei para alguma mulher? Que eu saiba, não.

– E a bonitona?

– Que bonitona?

– A de bicicleta.

– Que bonitona de bicicleta? Você está se referindo àquele pedaço de mal caminho, a loira de um metro e oitenta, de camiseta branca com estampa da Scarlet Johansson, short azul marinho bem agarrado com estampas de personagens de desenhos animados japoneses, chinelos-de-dedos azuis com adornos em forma de flores e pulseiras multicoloridas iridescentes nos dois braços? Àquela loira de pés pequenos, coxas grossas, com uma cicatriz na coxa esquerda e duas manchas pequenas, uma, na ilharga esquerda, uma, na coxa direita, e de lábios realçados com batom vermelho fosco, cabelos compridos presos com uma tiara preta, unhas esmaltadas de vermelho framboesa, e com uma tatuagem no ombro esquerdo, atrás, de uma borboleta azul, vermelha, amarela e verde, e um piercing na sobrancelha esquerda?

– É. É a ela que estou me referindo.

– Confesso, querida: Eu a vi. Olhei para ela, mas nela não prestei atenção.

– Não prestou atenção nela!? Você não prestou atenção, canalha, naquela mulher!?

– Não, ciumenta. Nela eu não prestei atenção. Eu apenas atentei para o short que ela usava. Que mal há em olhar para um short? Eu queria ver quais personagens estavam estampados no short. Você sabe que eu gosto de personagens de desenhos animados japoneses, não sabe? Então… Deixe de ser ciumenta.

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