A notícia

– Ontem, encontrei-me com a Cláudia. Tu sabes o que ela me disse? Ela me disse que a Ludmila e o Carlos brigaram. A discussão estendeu-se por um século. O Carlos, disse-me a Cláudia… Palavras da Cláudia: “A Ludmila e o Carlos deram o maior escândalo de todos os tempos, no restaurante Bom Garfo, ontem à noite. Conversávamos, eu, a Ludmila e o Carlos. Num dado momento, o Carlos olhou para uma loira bonita, atraente, que passou ao seu lado. Ela se deteve, voltou-se para ele. O Carlos fitou-a. E o que aconteceu em seguida? A loira, atrevida, derrubou, no chão, de propósito, um molho de chaves, e agachou-se para pegá-lo. Tu tinhas de ver. A loira, linda, maravilhosa, usava um decote… O Carlos, com cara de bobo, arregalou os olhos, com os olhos devorou a loira. A Ludmila viu o que o Carlos viu, olhou para o Carlos, e, sem pensar duas vezes, e antes que ele entendesse o que se passava, furiosa, deu-lhe um tapa na cara, virando-o para o avesso. O Carlos deu um grito que na China podiam ouvir. A loira, ao levantar-se, olhou para o Carlos, que massageava o rosto e, com olhar apalermado, indagava da Ludmila a razão do tapa; Ludmila rilhava os dentes; dos olhos dela, fixos em Carlos, chispavam labaredas de ódio. A loira sorriu. Era evidente o seu ar malicioso, simultaneamente divertido e constrangido, de pudor e de malícia. Ela ajeitou o decote, e afastou-se. Não deixou de se voltar para o Carlos e a Ludmila, e sorrir, envaidecida. Envaidecida, sim, pois ela inspirou ciúme a Ludmila, a ponto de ela desferir um tapa no Carlos. Qual mulher não se envaidece de, simultaneamente, e sem esforço, excitar o desejo de um homem e o ciúme de uma mulher, usando, unicamente, as curvas do seu corpo? A Ludmila berrou, para que todo o mundo a ouvisse: ‘Safado!’, e desferiu um tapa na cara do Carlos. ‘O que… Ludmila!’, perguntou-lhe Carlos, surpreso, atoleimado. ‘Tu não podes ver um rabo-de-saia’, censurou-o Ludmila; ‘Eu nada fiz, Ludmila’; ‘Esqueça-me, imbecil! Vá atrás da loira oxigenada! Gostaste dela? Leve-a contigo, idiota’. O Carlos abanou a cabeça, moveu os braços, emudecido, e olhou em torno de si. Curiosos fitavam-no. Sorriam à socapa, uns; gargalhavam, outros, com todos os dentes à mostra, vergando-se para trás. Um escândalo! Que escândalo! Delícia de escândalo! Eu não sabia o que dizer. O que eu diria? Calei-me. Olhei para o Carlos. Olhei para a Ludmila. Olhei, constrangida, em torno. O que eu diria? O que eu diria, e para quem? Eu nada disse. Constrangedor! A Ludmila pegou a bolsa, levantou-se; batendo o pé, foi-se embora. Que escândalo! Que maravilha de escândalo!”.

*

– Sabes da nova? Hoje, no restaurante Comidas Típicas, almocei com a Rúbia. Ela me disse que o Carlos e a Ludmila brigaram. Disse-me a Rúbia… Acompanhes a história. É hilária, e do teu interesse: “Almoçávamos, no restaurante Bom de Garfo… O almoço ia às mil maravilhas. Conversávamos. Bebíamos. Comíamos. Estávamos, lá, eu, a Cláudia, o Carlos e a Ludmila. Nos levantamos. Iríamos embora. Iríamos, eu disse. Não fomos; não naquele momento. E sabes por quê? No restaurante entrou uma loira de parar o trânsito. Uma loira belíssima. Uma deusa grega. Ela usava decote e minissaia. Todos olhamos para ela. Era impossível ignorá-la. Ela, àquele calor, se trajasse blusa de lã e calça jeans folgada, chamaria a nossa atenção, mais, até, do que chamou. De um corpo perfeito, a loira. Sabes o que aconteceu? A loira, involuntariamente, acredito, deixou cair a carteira no chão, e curvou-se para pegá-la, ignorando-nos, como se não estivéssemos lá, como se não houvesse ninguém no restaurante, como se o restaurante estivesse às moscas. Minha nossa! Os eventos sucederam-se em ondas até a cena derradeira. O Carlos… Ah! O Carlos. Ele arregalou os olhos, e boquiabriu-se. O que ele viu… Ele, que mal havia se levantado, sentou-se, e não desviou da loira os olhos arregalados, a boca aberta, o queixo caído. A Ludmila… A Ludmila, sem pensar duas vezes, beliscou o Carlos, tirando-o do estado hipnótico no qual a loira o lançou. O Carlos fitou-a. Com um movimento brusco, levou a mão ao ponto no qual a Ludmila cravou-lhe as unhas. O berro seco do Carlos atraiu a atenção da loira, que, ao se levantar, voltou-se para ele, surpresa, curiosa, intrigada, viu-o massageando o braço, e voltou-se para a Ludmila, que, furiosa, esbravejou. O Carlos encolheu-se. Recuei uns dois passos. A loira esboçou reação, mas, constrangida, ruborizada, afastou-se, sob olhar dos curiosos, com passos firmes, fincando o salto dos sapatos no piso, e foi sentar-se, de costas para nós, à mesa, na outra extremidade do restaurante. Estou certa de uma coisa: o desejo da loira era o de esbofetear a Ludmila. A Ludmila, acredito, não a sobrepujaria numa luta corpo-a-corpo. As pessoas presentes adorariam assistir a tal espetáculo; imperdível, se se sucedesse. A Ludmila escapou de uma surra. O Carlos… Ah! O Carlos! Enquanto a Ludmila vituperava a loira, ele me fitava, abismado, na expectativa, certo de que a Ludmila o repreenderia, ao estilo dela; aos berros, o insultaria, e, ele previa, desferir-lhe-ia um bofetão que lhe deformaria o rosto. Coitado! Antes mesmo de encerrar às ofensas contra a loira, a Ludmila disse para o Carlos: ‘Tu és como todos os homens. Não podes ver um rabo-de-saia. Gostaste da loira oxigenada? Vistes a celulite? É de loiras oxigenadas que tu gostas? Vistes o silicone? Carlos, esqueça-me. Suma da minha frente, vagabundo’. O Carlos, coitado, abobalhado, emudecido, levantou-se, hesitante, enquanto massageava o braço, e afastou-se; antes de transpor o enquadramento da porta, olhou, por sobre o ombro esquerdo, para a Ludmila, que, à minha frente, olhava para a loira e resmungava obscenidades. Paguei pelo almoço, e nos retiramos.” Ouviste, atentamente, a narrativa? É do teu interesse, não é?

*

– A Ludmila, a namorada do Carlos, aquela morena… O Marcelo contou-me, há uns quatro dias… Quando? Não importa. Ele me disse que a Ludmila, o Carlos, a Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom… Sabes o que ele me disse? Imaginas? Não imaginas? Tu conheces aquela figurinha carimbada. Foi na lanchonete Bem Bom, ou no restaurante Comidas Tropicais. Tu conheces o restaurante Comidas Tropicais? Ótimo restaurante. O Marcelo disse-me que a Rúbia contou-lhe que a Ludmila e o Carlos saíram no tapa lá no… Comidas Tropicais, se não me engano. Não. Não foi no Comidas Tropicais. Foi na lanchonete Bem Bom. O Marcelo e a Rúbia almoçaram, dias atrás, no restaurante Bom de Garfo. Tu conheces a Rúbia e o Marcelo. O Marcelo, tu sabes, adora manter as pessoas bem informadas. Ele capta informações no ar, via respiratória. Ele é dotado de radar potentíssimo, e sabe, também, como espalhar as notícias. Não sonega nomes, nem as minúcias dos eventos. É incomparável a sua vocação para jornalista investigativo. Pergunto-me porque ele não envia o curriculum para um tablóide britânico. Faria sucesso estrondoso nas cercanias de Stonehenge; e, no outro lado do canal da Mancha, repetiria o sucesso obtido na ilha dos bretões. Ou não? Ora, os franceses têm reputação de sisudos e racionais. Porém… Conte-lhes, aos macambúzios germanos… gauleses descendentes de Asterix, uma boa aventura… Eles perderão a compostura. Os taciturnos revelarão a verdadeira face da alma gaulesa. Basta de embromação. Basta deste chove, chove, e não molha. Basta de blábláblá. Basta de lengalenga. Vamos ao que nos interessa. O Marcelo, gozando do prazer de relatar um episódio jocoso protagonizado por dois amigos, disse-me: “A Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom, comiam, a Rúbia, um pudim de laranja, e o Cláudio, um pudim de pêssego, e bebiam, o Cláudio, suco de uva, e a Rúbia, refrigerante de limão. Conversavam, animados. Falavam de trivialidades. Chamou-lhes a atenção a voz inconfundível da Ludmila. Sabemos que ela é discreta e sabe se comportar em público. A gargalhada… Ao sentir olhares cravando-se neles, o Carlos chamou a Ludmila à razão. Ela, com sorrisinho malicioso… aquele sorriso… O que ela e o Carlos conversavam? Não sei o que eles falavam… Mas posso imaginar do que se tratava… A Ludmila… O Carlos… Conheço-os como conheço as palmas das minhas mãos. A Ludmila viu a Rúbia e o Cláudio, acenou para eles, e foi, puxando o Carlos, até eles. Saudou-os. Puxaram, cada um, uma cadeira, e sentaram-se, o Carlos à direita da Ludmila, que se sentou à direita da Rúbia. A conversa ia animada. A Ludmila e a Rúbia falavam de vestidos e sapatos, e o Cláudio e o Carlos, de futebol, carros e motos, e insinuaram comentários a uma atriz americana, aludiram aos encantos dela; dariam sequência à conversa, mas o olhar de poucas amigas da Rúbia e da Ludmila os obrigou a retomarem a conversa sobre motos, carros e futebol, três das cinco maiores paixões dos homens. Assunto ia, assunto vinha, riam, gargalhavam, tranqüilos, até que… Música de suspense. Interrompo a narrativa, para criar expectativa. Suspense. Como se dará a sequência desta aventura? Não perca os próximos capítulos desta novela cuja trama intrigante enfeixa drama, comédia, tragédia, tragicomédia, capa-e-espada, cavalaria andante, sertão nordestino, praias cariocas, favelas, planaltos, metrópoles, periferia… O que deu por encerrada a animada conversa de Ludmila, Rúbia, Carlos e Cláudio? Uma loira. Uma loira? Sim, uma loira. Uma loiraça. Não foi uma loira qualquer. Foi uma loira de parar o trânsito e provocar engarrafamento quilométrico. Esqueça os engarrafamentos em São Paulo. Diante do congestionamento que a loira pode provocar, nada significam. Então, retomemos o relato. A loira, com vestido decotado, recendendo perfume irresistível… Ela era irresistível; com o perfume ia além do irresistível. Era o suprassumo da loirice. Um esplendor da natureza! Uma das sete maravilhas do mundo. Um petisco! Ela se aproximou do Carlos, sorrindo, e, exibindo os dentes lindíssimos, os olhos o irradiar felicidade contagiante, com voz maviosa, sedutora, disse-lhe: ‘Oi, lindo, lembra-se de mim?’, e reclinou-se, para beijá-lo, no rosto. Não o beijou, entretanto. Sabes quem a impediu de beijá-lo? A Ludmila. Quem mais poderia ser? A Ludmila deslocou-a com o cotovelo, avançou ao Carlos, e desferiu-lhe um tapa, que ecoou pelo restaurante, escapou para a rua, ganhou o bairro, foi ouvido em toda cidade, cujos limites territoriais venceu, e, em ondas incontíveis, espraiou-se, após atravessar o oceano Atlântico e o oceano Pacífico, pela Europa, pela Ásia e pela América do Norte. A loira arregalou os olhos e boquiabriu-se. Desequilibrada, quase caiu. O Carlos tratou de se afastar do alcance das mãos da Ludmila. Como ela é pacífica, serena, ele não ficou com o olho roxo, ou azulado, ou avermelhado, sei lá. Uma mescla de magenta, lilás, roxo, azul e vermelho alaranjado. Sortudo, o Carlos. Todavia, ele não escapou das broncas. E a Ludmila… Ah! Ela encarou a loira. Gritou para ela: ‘Vagabunda!’. ‘Ludmila, acalme-se’, solicitou-lhe, servil, Carlos. ‘Acalmar-me, Carlos. Tu e essa loira oxigenada são dois vagabundos!’ A loira retirou-se, com o rabo por entre as pernas. E que pernas! O Carlos e a Ludmila discutiram. Um escândalo! Tu tinhas de estar lá para ver.” Eu gostaria de estar lá para ver. Eu queria ser testemunha ocular da briga. Eu queria ver a Ludmila humilhando o Carlos! Foi divertido, imagino. A Ludmila é mulher corajosa, e não teme escândalos. Ela desancou a loira e o Carlos. Falou grosso com ele. Que grosserias ele ouviu! Disse-me o Marcelo que o Carlos, a Rúbia e o Cláudio ficaram ruborizados. O Carlos adquiriu as feições de um pimentão, a fisionomia de um tomate maduro. Eu queria assistir ao espetáculo. Ah! Esquecia-me: a Ludmila e o Carlos romperam o namoro. É a minha chance de abordar a Ludmila… Ora, abordá-la, abordei, e não foram poucas as vezes. Insinuei-me. Ela me rejeitou. Agora, o caminho está livre para mim. E não perderei o meu tempo… A Ludmila não me escapará. E manterei o Carlos afastado dela. Inventarei histórias cabeludas. Para o Carlos, pintarei a Ludmila com as cores mais escuras; para a Ludmila, direi cobras e lagartos do Carlos. Não serão cobras quaisquer, e tampouco quaisquer lagartos. O Carlos nunca mais irá olhar para a Ludmila, que nunca mais irá olhar para ele. Escrevas no teu diário: O Marcos namorará a Ludmila.

*

– O Marcos disse-me que tu e o Carlos brigaram, na lanchonete Bom Apetite, dias atrás.

– Eu e o Carlos nunca fomos à lanchonete Bom Apetite.

– Não?

– Não.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo que, dias atrás, tu e o Carlos brigaram.

– Há três meses eu e o Carlos não entramos no Bom de Garfo. Quando eu e ele entramos, lá, pela última vez? Não me recordo. Faz tanto tempo, que não conservo tal episódio na memória. Reminiscências trazem-me à mente um almoço, lá, no aniversário da Paula, há quatro meses. Quando foi o aniversário da Paula? Há muito tempo. Há um século. Eu e o Carlos brigamos… Eu gostaria que me dissessem quando isso aconteceu, porque eu não soube dessa briga. Não assisto aos telejornais…

– O Marcos disse-me que, na lanchonete…

– Tu acreditas no Marcos? Ele conta cada história da carochinha… Cada lorota! Ele inventa e reinventa as histórias que lhe contam. Pergunte-lhe o que ocorreu entre eu e o Carlos, na próxima vez que o encontrar, e ele dirá que nos viu eu e o Carlos, na praia, num quiosque, bebendo, eu, água de coco, e o Carlos, cerveja, vestindo, eu, biquíni fio-dental amarelo, e o Carlos, sunga azul, e eu, que nunca subi numa prancha de surfe, surfando, e o Carlos, que nunca chutou uma bola, jogando futvôlei…

– O Marcos não inventou nenhuma história. Ele me disse que o Marcelo disse-lhe que tu e o Carlos brigaram na lanchonete Bom Apetite.

– Eu e o Carlos nunca fomos lá.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo…

– Eu e o Carlos, há meses, não vamos lá, como eu já disse.

– Então, não sei. Foi em outra lanchonete, então. Ou em outro restaurante. O Marcos disse-me que, na sexta-feira, o Marcelo, a Rúbia, tu e o Carlos…

– O Marcelo e a Rúbia, comigo e com o Carlos, num restaurante? Há mais de um mês não vejo o Marcelo. A Rúbia… Conversei com ela, pela última vez, na véspera da minha viagem, para o Rio Grande do Sul, com meu pai e minha mãe, em visita ao meu avô, que completou o nonagésimo aniversário, há vinte dias. Hoje… Que dia é hoje? Vinte e sete. O aniversário de meu avô, no dia seis, foi num domingo. Eu, meu pai e minha mãe fomos ao aeroporto, no sábado, pela manhã; na sexta-feira, à tardezinha, nos encontrávamos, eu e a Rúbia, na livraria Assis, dia quatro, portanto, há mais de vinte dias. A tua história não está bem contada.

– O Marcos falou-me da briga…

– Eu e o Carlos não brigamos. Que eu me lembre, não. Briguei com o Carlos? Briguei… E não me informaram…

– Não sejas irônica… Esta história… Se é verdade… Tu me diz que não brigou com o Carlos… Acredito… Mas o Marcos narrou-me, com detalhes constrangedores, a tua briga com o Carlos. Falou-me, e não se furtou a tecer elogios, de uma loira oxigenada…

– Ah! Sei qual história o Marcos te contou… Quero dizer, não sei qual história ele te contou. Se ele narrou uma história que culminou numa briga… Ora, ele adulterou os eventos… Briga… Eu e o Carlos não brigamos. O que eu poderia dizer… Não sei o que ele te disse… Como se diz, quem conta um conto… O Marcos ouviu um conto; ao contá-lo, aumentou… Quantos pontos? Não briguei com o Carlos, Márcia.

– Não? Mas o Marcos…

– Ora, o Marcos! Esqueça-o. Diria minha avó: ele fala mais do que a negra do leite. Não a conheço. Vovó conheceu-a, e diz que ela falava demais. Dá, a taramela, com a língua nos dentes, e não sabe manter a língua dentro da boca.

– Ele me disse com tanta convicção…

– Esclarecer-te-ei o enigma. Contar-te-ei a história, exatamente como transcorreu. No encerramento, tu não ignoras, não se dá uma briga, tampouco uma discussão envolvendo eu e o Carlos. Não se ouviu insultos, nem palavras azedas, nem interjeições viperinas. Os contadores mal-intencionados de histórias são tão convictos… Querem acreditar no que dizem… Basta de tagarelice. Não percamos o nosso tempo… Eu e o Carlos não brigamos, estejas certa. Que eu me recorde, nunca brigamos. Discutimos de vez em quando… Isto é, todos os dias. Briguinhas de namorados. Bobagens. O Carlos, tu sabes, é um pouco ciumento. Se eu uso camisa decotada, ele me repreende; se uso minissaia, ele me reprova; se me atraso para um encontro, ele me censura, e me diz que me demoro, embelezando-me. Quanto a isso, é verdade. Gosto de me reproduzir. Adoro mirar-me ao espelho. Sou maravilhosa, eu sei. Não precisa me dizer isso. O Carlos gosta e, ao mesmo tempo, não gosta, principalmente quando outros homens olham para mim… Além das discussõezinhas, nada de sério. Nos entendemos. Ele é um namorado gentil e carinhoso. O homem com que sonhei. Um príncipe encantado. Um amor. Quanto ao que aconteceu… O que aconteceu? Esqueças o que o Marcos te disse. Ele não sabe o que aconteceu. Queres saber o que aconteceu? Tu te surpreenderás. Ao encerramento, irás rir à bandeiras despregadas, diria um vetusto senhor grisalho. Ouças: eu e o Carlos não brigamos, na lanchonete Bom Apetite. Brigamos, na sorveteria Palito de Ouro. Brigamos… Direi que eu e ele brigamos. Para todos os efeitos, brigamos. E eu e a loira oxigenada nos enrolamos num arranca-rabo que foi um escândalo. Na sorveteria Palito de Ouro, num sábado, eu, o Carlos e a Cláudia passamos bons e agradáveis momentos, conversando, chupando sorvetes. Falamos de todos os assuntos que nos vinham à mente. Falamos mal das vizinhas da Cláudia, do ex-namorado dela, o Rômulo, e do… Do que mais falamos? Não me recordo. O melhor momento ainda estava por vir, e foi uma loira lindíssima que no-lo proporcionou. Tu tinhas de ver. Era sábado. Calor de derreter o cérebro. Chupei sorvete de morango, de laranja, e napolitano, se não me engano. O Carlos, um de chocolate, e… Não sei. E a Cláudia… Sei lá. Atente para este detalhe: Estávamos na sorveteria Palito de Ouro. Esqueças a lanchonete Bom Apetite e todas as outras lanchonetes. Eram quatro horas da tarde. O calor nos rachava a cabeça. O Carlos suava em bicas. Derretia-se. Eu, ele e a Cláudia degustávamos sorvetes gelados quando, na sorveteria, entrou uma loira de parar o trânsito. Uma boneca. A Barbie, sem tirar nem pôr. Pensei, até, em pedir-lhe um autógrafo. Ela usava uma camisa decotada e uma minissaia. Tão bela. Tão linda. Todos olhamos para ela. Imagines uma loira lindíssima de minissaia, camisa decotada e sapatos de saltos altos. Ela passou pelo Carlos, esbarrou-lhe a mão no braço, e o Carlos derrubou o sorvete. E a loira… Sabes o que ela fez? Pediu desculpas para o Carlos, e se abaixou para pegar o sorvete. Imagines a cena. A loira usava camisa decotada. Imagines a cara do Carlos. Olhei para a Cláudia; a Cláudia olhou para mim. Sorrimos. O Carlos ficou vermelho. A loira pediu-lhe desculpas. Ela não percebeu, é certo, constrangida que estava, que o Carlos não tirava os olhos do decote.

– Tu não brigaste com o Carlos?

– Não. Por que eu brigaria com ele? A loira esbarrou-se nele, e ele derrubou o sorvete. Por que eu brigaria com ele? Por que ele olhou para a loira? Ora, o Carlos é um homem. A loira, bonita, linda, um pedaço de mal caminho. Além do mais, foi um acidente. Um acidente engraçado. O Carlos transformou-se num pimentão. A loira foi-se embora. Fingi que estava brava com o Carlos, e dei-lhe tapas na cara. Tapinhas que não doem, e disse-lhe que eu nada queria com ele, e que ele fosse procurar a loira oxigenada. Diverti-me com o episódio. O Carlos, constrangido, não sabia o que dizer, não sabia para onde olhar. E mais uma coisa: a loira não era oxigenada. Era uma loira autêntica, bonita e atraente. Ah! Eu, brigar com o Carlos! Ele é um amor. Eu e ele nos casaremos daqui um mês. O Marcos… Ele… Se vier ter comigo, lhe baterei a porta na cara.

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A ciumenta

– Você, Roberto, olha para todas as mulheres, na rua; delas não tira os olhos.

– Eu não olho para outra mulher além de você, Ju. Eu tenho olhos só para você. Não seja ciumenta. Você acha que eu olho para todas as mulheres e me trata como se eu fosse um homem vadio, que nunca viu um rabo-de-saia.

– E você não olha para as outras mulheres, não? Você não arregala os olhos quando vê uma bonitona?

– Não. Não olho, não. Não arregalo os olhos, não.

– E hoje à tarde, hein!?

– O que aconteceu hoje à tarde? E onde?

– Na frente da loja ***.

– O que aconteceu lá? Não olhei para nenhuma mulher.

– Não?

– Não. Olhei para alguma mulher? Que eu saiba, não.

– E a bonitona?

– Que bonitona?

– A de bicicleta.

– Que bonitona de bicicleta? Você está se referindo àquele pedaço de mal caminho, a loira de um metro e oitenta, de camiseta branca com estampa da Scarlet Johansson, short azul marinho bem agarrado com estampas de personagens de desenhos animados japoneses, chinelos-de-dedos azuis com adornos em forma de flores e pulseiras multicoloridas iridescentes nos dois braços? Àquela loira de pés pequenos, coxas grossas, com uma cicatriz na coxa esquerda e duas manchas pequenas, uma, na ilharga esquerda, uma, na coxa direita, e de lábios realçados com batom vermelho fosco, cabelos compridos presos com uma tiara preta, unhas esmaltadas de vermelho framboesa, e com uma tatuagem no ombro esquerdo, atrás, de uma borboleta azul, vermelha, amarela e verde, e um piercing na sobrancelha esquerda?

– É. É a ela que estou me referindo.

– Confesso, querida: Eu a vi. Olhei para ela, mas nela não prestei atenção.

– Não prestou atenção nela!? Você não prestou atenção, canalha, naquela mulher!?

– Não, ciumenta. Nela eu não prestei atenção. Eu apenas atentei para o short que ela usava. Que mal há em olhar para um short? Eu queria ver quais personagens estavam estampados no short. Você sabe que eu gosto de personagens de desenhos animados japoneses, não sabe? Então… Deixe de ser ciumenta.