Facilidades à venda

Todo vendedor de facilidades é charlatão.

Muitos candidatos a escritor querem a fórmula – que, pensam eles, é mágica – da arte literária. Em sua maioria são jovens em seus primeiros passos na arte literária, na caminhada rumo ao estrelato. Querem brilhar. Mal sabem que, para brilharem, têm de possuir luz própria, e não refratar a luz alheia, e para produzir luz, têm de entrar em combustão, e para entrar em combustão, têm de possuir elementos para queimar. E quais elementos têm para queimar?

Alguns novatos, nos seus primeiros passos na arte literária, estão imbuídos de uma consciência realista, madura, das coisas do mundo, como se delas possuíssem um conhecimento prévio, cientes de que, sem esforço, sem disciplina, sem dedicação, não irão até o objetivo almejado. Sabem que o trajeto é extenso, acidentado, e que terão de escalar montanhas alcantiladas, transpor precipícios, singrar mares procelosos, enfrentar feras reais e imaginárias, e cairão, e terão de se reerguerem, e para se reerguerem uma força intrínseca é imprescindível. São raras as pessoas com tal consciência das coisas do mundo. Poder-se-ia dizer que elas são predestinadas – se entrar por esta vereda, poderão replicar com argumentos em favor do livre-arbítrio, e a discussão estender-se-á indefinidamente.

Há pessoas que, parece, são dotadas de sabedoria, que lhes é inata. São raras tais pessoas. E elas contestam a sua época, e se impõem, e erguem-se muito acima da cultura dos seus contemporâneos, que não os compreendem, e os ignoram, e os desprezam, e os desdenham. Aristóteles não foi um representante da inteligência dos gregos de sua época; eles não o compreenderam, e de muitos dos escritos dele não tomaram conhecimento. Aristóteles foi superior à sua época. Representou a inteligência de Aristóteles, e não a dos povos helênicos. Não foi um homem do seu tempo; estava muito além dele, e só foi lido, estudado e compreendido mais de mil anos depois, e até hoje ele é objeto de estudos, de debates, e ainda não foi superado, prova da perenidade dos seus pensamentos.

São raros os gênios na filosofia, na matemática, na política, na literatura, nas ciências. E eles influenciam, profundamente, a face da cultura de um povo, e, até, da civilização, tão poderosa é a inteligência deles, e as dimensões das suas obras são inabarcáveis.

Como as pessoas que desejam ser escritores agem? Quais pensamentos as movem? Qual é o caldo cultural do qual se alimentam? A cultura da sociedade em que vivem as favorece, nos estudos, as orienta, ou as desfavorece, as desorienta, as desencaminha? Se a influência do ambiente cultural lhes é prejudicial, o que se pode fazer para reduzi-la, não sendo possível anulá-la? É possível anular as influências nocivas que prejudicam as pessoas que não têm maturidade, para que elas atuem com a conduta apropriada? Se o ambiente cultural despreza o estudo árduo, deplora a disciplina, hostiliza a inteligência, tem horror ao conhecimento, todas as pessoas que dela se alimentam definham e não aprimoram os seus talentos. E em tal ambiente cultural proliferam-se os vendedores de facilidades, charlatães todos eles; eles vendem fórmulas mágicas, que mágicas não são; ao comerciarem-las auferem fama e credibilidade, e empobrecem aqueles que as compram, e o empobrecimento não é apenas financeiro, é intelectual, cultural, artístico. Os candidatos a escritor, ao comprarem as fórmulas mágicas dos vendedores de facilidades, não aprenderão as lições que lhes permitiriam edificar uma obra literária digna de atenção.

Os gênios são raros, as suas obras perpetuam-se por toda a eternidade. Muitos escritores desprovidos de gênio literário escreveram obras significativas, de alcance elevado, que mereceram respeito, reconhecimento. Tiveram o seu mérito, que a posteridade reconheceu.

A maioria dos livros escritos há vinte e cinco séculos, há dez séculos, há cinco séculos, há dois séculos, não foram escritas por gênios da literatura. Os gênios são raros. A Grécia teve Sófocles e Ésquilo. A Itália, Dante e Boccaccio. A Espanha, Cervantes e Lope da Vega. A Inglaterra, Shakespeare e Charles Dickens. A Alemanha, Goethe e Schiller. Portugal, Camões e Fernando Pessoa. A França, Stendhal e Proust. A Rússia, Tolstói e Dostoiévski. Menciono apenas alguns homens geniais, que representam o panteão. E quantos escritores de mérito os países mencionados possuem? Centenas. E as suas obras, excelentes, engrandecem a civilização. E muitos escritores, cujas obras são objetos de leitura apaixonada ainda hoje, além de talento literário, bem instruídos tinham consciência de qual teria de ser a sua postura para que presenteassem o mundo com obras relevantes, e nem as obras dos gênios conseguiram eclipsá-las. São escritores bem reputados e respeitados, e se lhes reconhecem o mérito. Têm eles brilho próprio. O que eles fizeram para que as suas obras tivessem brilho próprio? Estudaram muito, leram muito, e bons livros – os clássicos, sempre os clássicos -, e dedicaram-se à escrita; não se deixaram ludibriar por vendedores de facilidades. Estudaram o idioma que usaram, e os clássicos, e não se prenderam à literatura de ficção; leram obras religiosas, filosóficas e científicas.

Miguel de Cervantes Saavedra, um gênio da Literatura, além dos livros de cavalaria andante, conhecia a Bíblia, a obra de Platão e a de Aristóteles. Sem o conhecimento da Bíblia e da filosofia grega, ele jamais escreveria Dom Quixote de La Mancha, pois não obteria os ingredientes que lhe permitiram conceber as suas personagens literárias, e dar-lhes consistência, e emprestar-lhes condição humana, e fazer, delas, personagens vivas, de carne e osso, de sangue e alma, que vivem entre nós, que resumem em si a condição humana, seus paradoxos, sua substância. E Cervantes escreveu a sua obra-prima, em uma cela de uma prisão, em condições precárias. Concebamos a força de vontade de Miguel de Cervantes Saavedra! Ele é um exemplo, e não é o único, de que, além de gênio, são indispensáveis aos escritores dedicação, perseverança e disciplina para se escrever obras valiosas.

E os vendedores de facilidades – charlatães todos eles – com as suas fórmulas mágicas, para atender aos anseios dos que desejam ser escritores, mas, inseguros, não sabem que passos darem e em qual direção seguir, os desencaminham, os estragam.

Em um país como o Brasil, cuja cultura não enaltece a disciplina, o estudo, o conhecimento, e sem forças para a enfrentarem, e para a abandonarem, muitas pessoas curvam-se, emasculados, perante quem lhes promete o paraíso, e engolem toda e qualquer fórmula que vem ao encontro dos seus anseios, em atendimento à sua debilidade moral e intelectual, debilidade esta, em muitos casos, decorrente do meio cultural em que vivem, e não intrínseca à elas.

Os vendedores de facilidades, à espreita, avançam, sempre, em prejuízo dos que lhes compram os conselhos.

Sem a consciência de que não havendo perseverança não há obra digna de mérito nada de valor se constrói.

As pessoas que se atêem às lições dos vendedores de facilidades já estão com a alma corroída, e a corroeu a cultura, que lhes injetou valores que lhe são prejudiciais, e que lhes nega o que elas possuem de mais valioso. Não adquirem as forças intelectual e moral essenciais para se baterem contra todas as que as prejudicam, pois já estão habituadas às comodidades, e não desejam se desgastarem com trabalho árduo. Curvam-se, desprovidas de vontade própria, diante de vendedores de facilidades – são presas fáceis deles. Os vendedores de facilidades nada lhes têm a oferecer além de maléficas fórmulas mágicas.

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