Quantas doses?

“Você já tomou a primeira dose?” “Já.” “Você já tomou a segunda dose?” “Já.” “Você já tomou a terceira dose?” “Já” “E você vai tomar a quarta dose?” “Vou.” “E por que você, após tomar três doses, e disposto a tomar a quarta, está jururu, cabisbaixo?” “Porque eu não sei qual caminho devo seguir para ir até a minha casa. Minha cabeça ‘tá um porre!”

O homem que não mentia

– Contarei para você um caso que me aconteceu hoje. E você não me acreditará. Eu fui abduzido por um alienígena. É verdade. E conto a história desde o começo. Acordei às sete, sobressaltado, e pulei da cama, o coração a escoicear-me o peito. E quase bati com a cabeça no teto. De repente, um clarão iluminou o quarto, enceguecendo-me, obrigando-me a proteger com as mãos os olhos e a voltar-me para trás. E as trevas reassumiram o governo do quarto. E fez-se a escuridão. Assim que me aprumei, apareceu, a um palmo de meu nariz, uma criatura bizarra: esquálida, de quatro olhos, cinco fossas nasais, três orelhas, duas bocas, sete sobrancelhas, seis queixos, três braços, uma perna; e em cada braço duas mãos, em cada mão dois dedos, em cada dedo duas unhas; e na perna, três dedos sem unhas. Falou-me, e eu nada entendi das palavras que me chegaram aos ouvidos. De repente, envolveu-nos uma bolha azul fosforescente, que nos teletransportou para um planeta situado em uma galáxia localizada em um universo paralelo de outra dimensão, planeta habitado por criaturas horripilantes. Não sei durante quanto tempo a criatura, meu guia em tal viagem interdimensional, ocupou-se em apresentar o seu planeta. Enfim, uma bolha vermelha fosforescente envolveu-me, e, quando dei por mim, vi-me no meu quarto, são e salvo, belo e formoso.
– Que história sem pé, nem cabeça. Você teve um pesadelo.
– Que pesadelo! Um alienígena me abduziu. Foi tal aventura a mais extraordinária da minha vida.
– Você não é pescador; seu pai não é pescador; seus avós não são pescadores… Não há sangue de pescador correndo em suas veias. Por que você mente, então?
– Eu não menti.
– Não, cara-de-pau?! Não?!
– Não. Não menti. Eu disse que eu contaria para você um caso que me aconteceu e que você não me acreditaria. Contei o caso. E você não me acreditou. Menti?

Um escritor e seus lápis

Tenho, sobre a minha escrivaninha, vinte e três lápis, todos devidamente apontados, prontos para o uso.

Hoje, após o café-da-manhã, sentei-me à escrivaninha, para escrever um conto. Peguei um lápis dos vinte e três que tenho à mão, e mirei a folha de sulfite em branco. E menhuma idéia me veio à cabeça. Após meia hora de inércia, desiludido comigo mesmo, abandonei o lápis sobre a escrivaninha. E levantei-me da cadeira. E sai de casa. E todos os meus vinte e três lápis ficaram desapontados.

Em busca de sabedoria, o brasileiro foi à Grécia.

Ao alvorecer do século XX, um brasileiro, Tobias Alvarenga Ramos de Souza Lima e Silva, homem amargurado, após ouvir a sensata exortação de um amigo que muito bem lhe queria, Paulo Pires de Campos Peixoto, rumou, na primeira oportunidade que se lhe apresentou, oito dias depois, de navio, à Grécia, onde, dissera-lhe o amigo, ele poderia conversar com homens sábios. Logo no dia seguinte ao seu desembarque em Atenas, ouviu de um venerável octogenário de ares sapienciais, edificantes palavras de sabedoria. Satisfeito com o que ouvira, no dia seguinte regressou ao Brasil. Como Tobias Alvarenga Ramos de Souza Lima e Silva do idioma grego não sabia patavinas, ele não entendeu, é óbvio, o que o sábio grego lhe dissera, e para mim, que registro este capítulo da sua biografia, não pôde transmitir o que dele ouvira – e tampouco para outro filho de Deus. E aqui deixo registrada esta interessante aventura de um brasileiro que foi à Grécia em busca de sabedoria.

A “Não-Me-Toques”! – de Arthur Azevedo

São as personagens centrais deste conto de Arthur Azevedo, Antonieta (a Não-Me-Toques), filha do Comendador Costa e D. Guilhermina, e José Fernandes, empregado da casa deste casal desde antes do nascimento de Antonieta, de cujas infância e juventude e princípios da vida adulta foi testemunha privilegiada. De seus pais, Antonieta recebeu educação esmerada, de uma aristocrata, que lhe nutriu a personalidade orgulhosa, suscetível, que a ensinou a se considerar uma entidade superior de cujas mãos nenhum homem era digno. Antonieta Rejeitava todos os seus pretendentes. E o tempo passava. E Antonieta amadurecia. E não se enlaçava em matrimônio com nenhum homem que a requestava, a todos rejeitando, o que desgostava seus pais.
Após um malfadado empreendimento financeiro vem o Comendador Costa a contrair dívidas, que quase o arremessaram na miséria, obrigando-o a assinar concordata. Recuperava-se do golpe quando a morte o abateu, deixando ele viúva e filha em situação embaraçosa, da qual retirou-as José Fernandes ao associar-se a D. Guilhermina numa firma, a Viúva Costa & Fernandes, que prosperou, restabelecendo a situação econômica da família anterior à fracassada aventura financeira do patriarca falecido.
E o destino pregou outra peça em Antonieta: Faleceu-lhe a mãe. Agora, órfã, Antonieta sentiu-se obrigada a propôr casamento a José Fernandes, que, ao ouvir, dela, a proposta, regozijou-se, pois iria, enfim, realizar o seu sonho, o de casar-se com a mulher que, em segredo, amava. E casaram-se José Fernandes e Antonieta. A vida em comum com sua consorte reservou a José Fernandes surpresas desagradáveis, que muito o entristeceram. E o fim dele, trágico, foi a consequência de uma alma decepcionada.

Um escritor atormentado

O escritor escreveu um conto de quatro mil palavras, de cabo a rabo, em duas horas. Releu-os. Corrigiu-o. Releu-o. Suprimiu-lhe dezenas de palavras e adicionou-lhe centenas de outras palavras. No conto executou inúmeras alterações, conservando, sempre, a idéia original, que muito o agradava. Assim que o deu por definido, largou as folhas sobre a escrivaninha, feliz da vida. E pôs-se a lê-lo, alegre, contente. Encerrada a leitura, feliz com o resultado, lembrou-se de um detalhe que lhe havia escapado. Qual era o título do conto? Procurou por ele, e não o encontrou. Qual título daria ao conto? Pensou. Matutou. Remoeu seus pensamentos. Ruminou suas idéias, e não encontrou um bom título para o seu conto, que muito o agradava. Contrariado, atormentado, guardou o conto numa pasta, da qual ele o tiraria assim que lhe encontrasse um bom título. E na pasta jaz o conto há dois anos.
Dias depois, o escritor criou, enquanto se banhava, sob água fria, que despejava de uma ducha, um título para um conto. Assim que, banhado, e enxugado, retirou-se do banheiro, correu, célere, ao escritório, pegou um lápis e uma folha de sulfite, e nesta anotou o título do conto. Releu-o. Era um bom título para um conto. Mas, e o conto? Sentou-se na cadeira, à escrivaninha, fincou os cotovelos na escrivaninha, olhos fitos na folha de sulfite, coçou a cabeça. Atormentou-se. Não encontrou um conto para aquele título de um conto, título muito bom, que muito o agradava. Enfim, guardou, a contragosto, a folha de sulfite na pasta, da qual não a retirou até hoje.

A rua do terror

Noite alta. Não havia viv’alma naquela rua mal iluminada, deserta. Júlio vagava, devaneava. Ao dar-se conta de onde estava, ficou apavorado. Seu coração bateu descompassado. Ouvia as palpitações, tão intensas, que ele acreditava que o coração romper-lhe-ia o tórax. Olhou em redor. Que rua era aquela, perguntou-se. Obnubilou-se-lhe a consciência. Como ele foi parar naquela rua? Lembrava-se de que caminhava, tranquilamente, por uma avenida atulhada de gente, vibrante de vida, e agora via-se naquela rua lúgubre, apavorante.

Sem se dar conta, enveredara por aquela rua, que lhe inspirou o mais terrível pavor. Uma rua que, devido ao seu aspecto sinistro, excitou-lhe os instintos que a natureza conservou ao longo de milhares de anos de evolução. Humano numa sociedade científica, conservava, latente, os instintos dos seus antepassados nômades.

Que rua era aquela? Nos postes, as lâmpadas bruxuleavam. Cones de luz fraca mal iluminavam os pés dos postes. Além dessa luz, as trevas reinavam absolutas. O silêncio, ensurdecedor. Era impossível – pensou Júlio – a existência, numa metrópole de vinte milhões de habitantes, de uma rua tão extensa e tão larga deserta àquela hora da noite. De repente, ventos frios fenderam o ar; iguais lâminas, cortaram-lhe a pele; e assobios tenebrosos chegaram-lhe aos ouvidos. Júlio pensou ouvir vozes cavernosas. Assustado, procurou pela direção da qual chegaram-lhe os ventos e os assobios. Ouviu ruídos indistintos. Aceleraram-se-lhe as palpitações do coração. Seus nervos estavam à flor da pele.

Surpreendendo-o, chegou-lhe, pelas costas, um barulho, que lhe feriu os tímpanos. Seus instintos o alertaram para o perigo que se lhe avizinhava, mas não o definiram, não lhe informaram a origem. O mistério que envolvia fenômenos tão estranhos assustou-o sobremaneira. Júlio não sabia o que pensar; não sabia como agir. Petrificou-se. Que rumo tomaria? Olhou para um lado. Não viu, no horizonte, o final da rua. Olhou para o outro lado. Qual a extensão da rua? Dois quilômetros? Dez quilômetros? Não logrou mensurar-lhe a extensão. Não viu nenhuma interseção daquela rua com outras ruas. A rua era demasiadamente extensa; não tinham fim as quadras que a circunscreviam.

Como, pensava Júlio, chegara àquela rua? De qual direção chegara? E agora, o que faria? Ficaria, lá, parado, a olhar de um lado para o outro? Ladeavam a rua extensos muros de sete metros de altura. E os prédios, e as lanchonetes, e os bares, e as agências bancárias, e as discotecas, e os teatros, e as livrarias, e as farmácias, e as bancas de jornais, e as pizzarias, e as doçarias, e as padarias, e as joalherias, e os consultórios médicos, e as lotéricas?

Transcorreram minutos. O coração de Júlio vibrava, descompassado. Júlio mal podia respirar. Suava em demasia. Sentiu esvanecer-se-lhe a mente. Esmorecia-lhe o ânimo. Imobilizado, não dava um passo. Seus pés, pareceu-lhe, enraizaram-se no asfalto.

Chegou-lhe aos ouvidos, não soube dizer de qual direção, ruído sinistro, tenebroso.

Voltou-se para a direção da qual acreditava que o ruído lhe chegara.

Arregalou os olhos. Aguçou os ouvidos. Viu trevas no horizonte e além dos muros.

Estava amedrontado, terrivelmente assustado. Suas pernas não respondiam à sua vontade. Dava-lhes ordens, em pensamento: “Mexam-se, pernas. Mexam-se, pernas”. Elas não se mexiam. O medo fê-las insubordinadas. Se o medo que afligia Júlio se exacerbasse, e Júlio se prostrasse, as pernas correriam, e abandonariam Júlio, lá, naquela rua tétrica. O tempo passava. Júlio imergia num estado letárgico, transido de medo. Seu corpo assumia a constituição de uma rocha inquebrável. Júlio a anteviu a sua morte. Veio-lhe à mente a imagem de seu coração pulsando nas mãos de uma criatura monstruosa. De sobreaviso, sentiu a aproximação de perigo. Uma ameaça rondava-o, sentia. Atormentava-o tal situação.

Olhou em redor.

As luzes bruxuleantes das lâmpadas.

Os muros.

Pareceu-lhe que a rua estreitava-se; que os muros encontravam-se no horizonte, e cercavam-no.

Silêncio. Nenhum ruído tétrico. Nenhum assobio sinistro.

Assustado, olhou em redor.

A rua, os muros, os postes cujas lâmpadas bruxuleavam.

Nenhuma alma viva. Nem a de um rato, nem a de um cachorro vadio, nem a de um mendigo esfarrapado, nem a de um bêbado maltrapilho, nem a de um transeunte desempregado.

Intrigante! Não há, nas metrópoles, uma rua deserta. Júlio não pôde dizer para si que não estava em uma rua deserta.

Que mistério era esse?

Que enigma Júlio teria de decifrar?

Júlio deu um passo, olhou em redor, coração aos pulos. Deteve-se. Estudou, os ouvidos apurados, os olhos penetrantes, o trecho da rua que seus olhos abrangiam. Ouviu apenas a sua respiração ofegante e as palpitações de seu coração.

Deu um passo. Nenhum ruído ouviu, e nenhuma voz.

Deu um passo.

O intervalo de tempo entre o terceiro e o quarto passos foi consideravelmente menor do que o intervalo entre o segundo e o terceiro e o entre o primeiro e o segundo. Esquadrinhou a rua à procura de uma criatura à espreita. Manteve-se afastado dos muros. Uma aparição sobrenatural, um fantasma, um monstro de sete cabeças, um animal feroz, uma pessoa feroz, um inumano, um homicida frio e calculista, imaginou Júlio, saltaria, não sabia de onde, sobre ele, e o mataria, faria picadinho dele, e o devoraria.

Deu passos, confiante e inseguro.

Deteve-se ao ouvir ruídos sinistros. Sussurros. Vozes humanas, pensou. De várias pessoas. O que havia lá? O que acontecia? De onde lhe chegaram os sussurros? Eram vozes humanas? Paralisado, seus olhos fixaram-se num ponto à sua frente. Viu o vazio. A tensão acelerou-lhe os batimentos cardíacos. Os sussurros chegaram-lhe aos ouvidos, não sabia de qual direção. Pareceu-lhe que se originavam de detrás do muro. De qual? Do da direita, ou do da esquerda?

Não sabia que direção tomar. E se desse um passo, e as pessoas – pessoas? – o atacassem? Para onde correria? O que havia atrás do muro à sua direita? O que havia atrás do muro à sua esquerda? O que havia nos bueiros? Os bueiros! – nesse momento Júlio atentou para os bueiros. Os bueiros! Havia um bueiro diante dele, silencioso, escuro, tétrico. Do bueiro saíam os sussurros que ouvira? Vivia gente no subterrâneo da metrópole? Humanos? Inumanos? Entes sobrenaturais? Fantasmas? Monstros? Entes malignos? Quais criaturas sondavam-no? Seguiam-lhe os passos? Preparavam-lhe um ataque? Os ruídos – sussurros, vozes humanas, acreditava Júlio – desapareceram.

Silêncio tétrico reinou.

Viu-se às portas da morte, na iminência de se deparar com o agente que lhe suprimiria a vida. Vieram-lhe reminiscências de épocas felizes. Relembrou as suas conquistas, os desafios que enfrentou, estudante, no vestibular, a sua classificação, os primeiros dias de aula na faculdade de engenharia eletrônica. Evocou a sua namorada, Beatriz, belíssima loira de um metro e sessenta. Romperam o namoro quando ela se transferiu, com o pai, a mãe e a irmã, para Belo Horizonte. Tinham dezenove anos. Foi a sua primeira experiência amorosa; a sua primeira desilusão. Pensava casar com ela, e com ela constituir uma família. Amava-a. Trocaram juras de amor eterno durante um ano, por telefone e cartas. A distância física, no entanto, afastou-os. Beatriz conheceu outro rapaz, com quem namorou. Júlio conheceu Alice, apaixonou-se por ela, e eles namoraram durante três meses – a incompatibilidade de gênios fê-los romperem o namoro. No terceiro ano na faculdade, estagiário em uma empresa de informática, Júlio conheceu Margharete. Namoraram durante dois anos. O namoro, que havia começado com juras de amor eterno, degenerou em brigas intensas, até que, enfim, decidiram seguir cada um deles o seu rumo. Evocou as desavenças com seus irmãos, seu pai e sua mãe, e os desentendimentos com alguns dos seus amigos, e os dois anos que se manteve distante de sua família, após brigar com seu pai. Evocou a sua vida vadia de três anos, perdido, nos prostíbulos, nos botecos, embriagado, caindo pelas ruas escuras da cidade, e o dia em que jovens vadios o agrediram. Assomaram-lhe à mente, numa golfada avassaladora, reminiscências do dia em que foi hospitalizado por consumo excessivo de maconha e o da sua prisão. Recapitulou o seu regresso à família, os sucessivos desentendimentos com seu pai, sua mãe e seus irmãos. Irromperam-lhe à mente imagens do seu retorno aos estudos, da sua reconciliação com seus familiares e amigos, do seu novo emprego, do sucesso obtido, da fortuna amealhada, das novas amizades. Assomaram-lhe à mente a figura de Marco Antonio, filho seu e de Fátima, garoto bonito, saudável, vistoso, que, duas semanas antes, completara um ano de vida.

Olhou em torno. Fixou a sua atenção no bueiro à sua frente. Dos bueiros saíram os ruídos, os sussurros?

Deu um passo. Deu outro passo. Deteve-se. Deu um passo. Manteve-se no meio da rua. Andou três metros. No horizonte encontravam-se os dois muros. Assustou-a ilusão.

Olhou em redor.

Andou, lentamente, poucos metros. Fixou o olhar nos bueiros pelos quais passou. Deteve-se. Olhou para a frente; não viu o fim da rua, não viu o fim dos muros.

Reinava a escuridão.

Pensou em correr. Deu dois passos. Deteve-se. Olhou para a frente. A rua não tinha fim. Andou. Quantos metros? Decidiu correr. Deteve-se. Mais uma vez, tentou correr. Deu alguns passos, largos, sempre na mesma direção. Não imprimiu velocidade. Com esforço, percorreu vários metros. Aos poucos, adquiriu confiança. Não ouvia nem um som, nem um ruído, nem uma voz. Acelerou os passos. Não suava, não respirava com dificuldade, não se sentia estrangulado, nem afobado, nem sufocado. Comandava seu corpo. Andou, com passos lentos; depois, com passos acelerados.

Correu um metro… Correu dez metros… Correu vinte metros… Cem metros… Duzentos metros… Quinhentos metros… Mil metros.

Os muros não tinham fim. Não chegou ao fim da rua. Ficou tenso, apavorado. Expandiam-se os muros. Não via o fim da rua e dos muros. Seu coração pulsou mais forte. Sentiu-se estrangulado, sufocado. Afligiam-no fortes dores de cabeça. Doíam-lhe músculos. Deteve-se. Sentiu-se desfalecer. Exausto, ofegante, curvou-se, com a mão direita ao peito esquerdo. Encolheu-se. Dobrou os joelhos. Pôs a mão esquerda no asfalto. Cuspiu. Tossiu repetidas vezes. Arrastou-se. Cerrou as pálpebras. Deitou sobre o lado esquerdo do corpo. Não tinha forças para se levantar, nem para levantar a cabeça, pousada sobre o braço esquerdo. Encolheu as pernas. Anteviu a sua morte. Tremia da ponta dos dedos dos pés até o topo da cabeça. Doía-lhe o corpo.

Adormeceu.

Despertou.

Aos seus olhos revelou-se a rua sinistra. Confuso e cansado, perguntou-se o que lhe aconteceu. Permaneceu deitado. Cerrou as pálpebras. Respirou fundo. Ouviu um grito estridente de mulher terrivelmente assustada. Deu um pulo, e preparou-se para defender-se de um ataque iminente. De qual direção chegara-lhe o grito? Olhou em redor. Pensou ter visto um vulto. Do bueiro saía uma criatura rastejante, disforme. Não lhe deu uma feição. Seu coração vibrou, descompassado. Recuou, tenso, assustado. Que coisa era aquela mancha escura disforme terrivelmente assustadora que assumiu a figura de uma criatura encapuzada, arrastava as bordas das vestes no asfalto, emitia voz sinistra, e cujos pés não se viam, e ia na direção de Júlio, que, assustado, o coração a vibrar descompassado, andava para trás, olhos fixos nela? Júlio ofegava, suava em bicas, chorava; corrente de calafrio percorreu-lhe a espinha. Eriçaram-se-lhe os pêlos. Virou-se nos calcanhares. Correu, desembestado. Tropeçou nas pernas. Caiu. Escalavrou o joelho e o cotovelo esquerdos. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, e bateu com o queixo no asfalto. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, dobrou-se sobre o seu corpo, esfolou o braço direito e torceu o pulso direito. Levantou-se. Correu. Sentiu a respiração da criatura encapuzada, que ia no seu encalço. Caiu. Agarraram-no, pelos tornozelos, mãos de unhas enormes e grossas. Gritou. Sangue escorreu-lhe dos tornozelos. Afligiram-no dores pungentes. A criatura encapuzada arrastou-o para um bueiro, cuja tampa Júlio agarrou. Outra criatura encapuzada saiu de um bueiro, do outro lado da rua, foi até Júlio, e pisou-lhe nas mãos. Júlio soltou a tampa do bueiro, e caiu às profundezas.

De um bueiro, um homem foi arremessado para a rua: Júlio. Ele estava cadavérico, e mal pôde pôr-se de pé, mal pôde abrir os olhos. Ao dar-se conta de onde estava, viu-se à esquina de um cruzamento de duas avenidas iluminadas repletas de gente. Voltou-se para trás. Atrás de si, um muro de quatro metros de altura. Voltou-se para a avenida iluminada. Andou, cambaleando, em meio à multidão alvoroçada. Ombros caídos, braços pendendo pelas laterais do corpo, respirando com dificuldade, foi para a sua casa.

Um escritor à procura de um conto

Quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso literário. Pensei, durante horas, em com quais palavras iniciá-lo. Pus a cabeça para funcionar. Queimei as pestanas. Perdi muito tempo (ou não perdi) pensando no que eu escreveria, e amadureci (amadureci?) as idéias, para escrever com segurança e desenvoltura. Enfim, simultaneamente seguro e hesitante, dei início à redação do conto. Após escrever umas cem palavras, parei de escrever, deitei a caneta sobre a mesa, e li o texto que, tomei conhecimento, para meu desgosto, saiu-me diferente do que eu me propusera a escrever inicialmente. Ato contínuo, amassei o papel, e o joguei no lixo.

Falei para alguns amigos do meu restrito círculo de amizades que eu quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso. Eles (aos quais sou imensamente grato por me ouvirem atentamente e se me dignarem a dizer o que pensavam do meu propósito), pretensiosos (como todo bom brasileiro, entendem de todos os assuntos), aconselharam-me a não perder o meu tempo escrevendo um conto, pois, declararam, certos do que diziam, escrever é ocupação de desocupados. Diante desse paradoxo, perguntei-lhes:

– Se escrever é a ocupação dos desocupados, escrever é uma ocupação; então, o escritor, ocupado em escrever, é uma pessoa ocupada. Certo?

Eles desconversaram. Com exercício intelectual que, diziam-me, sustentavam com raciocínio inatacável, que eu, por mais que o desejasse, não compreendia, sublinhavam a opinião – à qual os brasileiros aferram-se com unhas e dentes – que nos diz que os escritores são pessoas desocupadas. Decidi, após perder um bom tempo em discussão estéril com pessoas que nada entendem de literatura, conversar apenas com quem entende do assunto: o Juscelino, o Lourenço (não sei qual é o seu primeiro nome), a Mariângela, a Cláudia, a Rosemeire e o Teodoro.

Encontrei o Juscelino sentado em um banco, lendo um livro, à sombra de uma árvore, na praça São Benedito. Interrompi-lhe a leitura. Falei-lhe do concurso literário e das minhas idéias para o conto que eu pretendia escrever. Ele me veio, com autoridade de um entendido, com essas palavras amargas:

– Balzac escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso. Conheço alguns livros do Balzac (Não ousei, até hoje, encarar a sua obra, muito volumosa. Um dos motivos, confesso, que constrangedor!: a preguiça; outro: não encontrei todos os volumes que compõem a Comédia Humana, nem na biblioteca municipal, que vive às moscas, coberta de teias de aranhas, com livros empoeirados de folhas amareladas, e cujo acervo, de pouco mais de cinco mil livros, compõe-se, quase que exclusivamente, de livros de auto-ajuda, esoterismo e outras insignificâncias, nem em nenhum outro lugar).

– Sim, escreveu – respondeu Juscelino.

– Tem certeza, Juscelino? – perguntei. Eu queria que ele me dissesse em qual livro Balzac narrou a história que concebi.

Juscelino atendeu ao meu desejo. Provou-me que Balzac escreveu uma estória idêntica à minha. “Ora – eu poderia gritar, a plenos pulmões – Maldito Balzac! Roubou-me as idéias”. Se eu tivesse nascido antes de Balzac, eu, antes dele, teria tido as idéias que ele concebeu antes de mim, escrevê-las-ia, e eu, e não Balzac, seria um gênio da literatura universal. Balzac – sorte dele! – nasceu antes de mim!

– Se eu fosse você – aconselhou-me Juscelino -, esqueceria o conto. Você nunca será original porque, seja qual for a sua idéia, algum escritor, e dos bons, que hoje são respeitados como clássicos, já a usou em algum conto, que, com certeza, é muito melhor do que o que você será capaz de escrever. Você não quer ser ridicularizado, quer? Não quer que as pessoas reconheçam você, na rua, apontem o dedo para você, e digam: “Olhem! O plagiador!”? É isso o que você deseja?

Tais palavras feriram-me profundamente. Puxa! Por essa eu não esperava. Juscelino acertou-me um golpe no queixo, nocauteando-me. Certo, nunca o considerei meu amigo, tampouco dei-lhe muita atenção, jamais respeitei-lhe as opiniões, mas, ora!, eu, desejando escrever um conto, e ele me veio com palavras tão agressivas, tão… Não sei tão o quê! Restou-me agradecer-lhe (ferido em meu ego) as opiniões e as sugestões, e afastar-me, cabisbaixo, desanimado. Depois, pensei comigo: “Juscelino é apenas um. Ele me apresentou a sua opinião. Ora, vou à procura do Lourenço. Ele, sim, há de dar-me ouvidos e elogiar-me a vontade de escrever um conto, ganhar um prêmio, e, quem sabe, ver o meu conto publicado em uma revista respeitável, ao lado de contos de outros escritores que, como eu, também buscam um lugar ao sol.

Então, ao Lourenço.

Fui à casa dele. Ele, animado, fanhoso (tenho de me esforçar para conseguir compreender o que ele fala), saudou-me, e perguntou-me a respeito de meu pai, minhas irmãs, e minha mãe – especialmente de minha irmã mais velha, a Jéssica, por quem ele, apesar de casado e pais de três filhas, sente atração, mesmo que não ma confesse. Não sou bobo, ora bolas! Percebo como os homens, atrevidos, olham para minhas irmãs, principalmente para a Jéssica, a mais bonita das duas (Que um psiquiatra, adepto da escola do Freud, ou de qualquer outra escola, pouco me importa de qual, interprete, à luz das teorias psiquiátricas, caso elas projetem alguma luz, as minhas palavras; que digam que tenho complexo disso ou complexo daquilo, que o meu id esmurrou o meu ego, e ambos, cúmplices do meu superego, subverteram a ordem, se ordem há, do meu inconsciente, e coisa e tal… e chega de lorota).

Não permiti, um pouco enciumado e incomodado, confesso, que o Lourenço se estendesse, indefinidamente, em superlativos à beleza da Jéssica. Eu o interrompi e falei-lhe das minhas idéias (não as mesmas que eu apresentara para o Juscelino, mas outras; não exatamente outras, mas as que eu apresentara para o Juscelino com significativas modificações: outros personagens, ambiente e narrador, agora em terceira pessoa). Lourenço ouviu-me atentamente; e disse-me, depois de puxar pela memória algumas lembranças das suas leituras:

– O Dostoiévski escreveu um romance com essas idéias, Carlinhos – e só agora revelo o meu nome, e ainda assim, no diminutivo, o que detesto sobremaneira. Desconfio que o Lourenço sabe que detesto ser chamado de Carlinhos, eu, com um metro e oitenta e dois de altura! Carlinhos, eu!?

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso; cabisbaixo, interessado em sua vasta erudição, o ouvi atentamente.

Lourenço falou-me de Dostoiévski (Li Os Irmãos Karamazovi. De Dostoiévski, apenas esse livro. Que vergonha! Como é constrangedor confessar a minha ignorância!). Provou-me, por A mais B, que ele escreveu um romance com as minhas idéias – as minhas idéias, sim! Dostoiévski escreveu um romance com as minhas idéias, pois não li o seu romance com idéias idênticas às minhas. Dostoiévski, afortunadamente, nasceu e morreu antes de mim e, involuntariamente – acredito que não tenha sido a intenção dele -, impediu-me de escrever uma estória original.

A conversa estendeu-se por um bom tempo. Ao contrário de Juscelino, Lourenço deu-me muitas idéias para contos – e disse-me que todas foram escritas por algum escritor. Pensei em ir-me embora, mas, com a chegada da Cássia, esposa dele, decidi permanecer na casa um pouco mais e dar sequência à conversa porque, como previ, ela me ofereceu um cafezinho saboroso – o qual degustei repleto de prazer. Além disso, eu queria admirá-la. Cássia, aos quarenta e dois anos, é um colírio para os olhos.

Eu queria prolongar a conversa com o Lourenço e a Cássia; tive, no entanto, a contragosto, de retirar-me. Despedi-me do casal, lançando um último olhar para a Cássia, e retirei-me. Como eu pretendia escrever um conto, e precisava de novas idéias – as que eu tivera abandonei-as – procurei pela Mariângela, que, leitora de romances e contos clássicos, poderia tecer comentários acurados sobre as minhas idéias. Por acidente, nos trombamos ao dobrar uma esquina. Desculpei-me. Ela se desculpou. Rimos. Cessado o riso, iniciamos uma conversa descontraída. Falei-lhe do concurso de contos para o qual eu desejava enviar um conto, e apresentei-lhe um resumo do meu conto. Ela me ouviu, atentamente; ao final do meu relato, disse-me:

– Machado de Assis escreveu um conto com essas idéias, Carlinhos.

– Escreveu? – não percebi que ela me chamou de Carlinhos, tão surpreso eu estava ao ouvi-la dizer que o bruxo do Cosme Velho, que tanto admiro, escreveu uma história com as minhas idéias.

E a Mariângela falou-me do conto do Machado de Assis. Para meu desgosto, para meu espanto, lembrei-me do dito cujo.

– Você está com a razão, Mariângela. Li o conto.

– Você tem de ser original, Carlinhos. Você não pode plagiar o Machado de Assis.

– Não desejei plagiá-lo, Mariângela. Tive algumas idéias, e decidi usá-las em um conto; e agora, e só agora, alertado por você, sei que Machado de Assis escreveu um conto com elas. Puxa! Que coincidência! Ainda bem, Mariângela, que você me avisou a tempo. Imagine a vergonha que eu passaria se escrevesse um conto com idéias usadas por Machado de Assis! Seria constrangedor. Eu nunca me perdoaria! Plagiar o bruxo do Cosme Velho! Involuntariamente eu incorreria em plágio, acredite em mim. A alma penada do Machado ou me cortaria o pescoço, ou me assombraria por toda a eternidade. Estou dizendo a mais pura verdade, Mariângela, a verdade verdadeira. Acredite em mim. Eu não mentiria pra você. O Machado escreveu… Quem diria!

Ao chegar em frente da casa da Mariângela, despedimo-nos. Segui rumo à minha casa. No caminho, ao passar pela praça São Bernardo, quem vi, lá, sentada em um banco, lendo um livro? A belíssima e vistosa Cláudia, a mulher mais bonita que conheço. Que pedaço de mal caminho! Ela nunca me deu bola. E daí? Sempre que a encontro, a admiro, embevecido, deslumbrado, de queixo caído, boquiaberto. O Gustavo, namorado dela, é quem tem de manter afastados os gaviões que voam em círculos em torno dela; ele, se não quiser ganhar um belo par de cornos, que se cuide e que cuide do que é dele. Eu, embora exista o risco de atiçar a cólera enciumada do Gustavo, não perco uma oportunidade de abordar a Cláudia, e requestá-la, com discrição e sutileza. Abordagens diretas a escandalizam. Confesso: não quero entrar em confronto com o Gustavo, que é meu amigo e mais forte do que eu. A tentação, no entanto, é incontornável…

Não pensei duas vezes. Enveredei pela praça. Como quem não quer nada, fui até a Cláudia, que trajava uma camisa branca decotada e um short amarelo bem justo. Quanta generosidade! As pernas cruzadas, desnudas! Acheguei-me a ela. Simulando surpresa, saudei-a. Ela sorriu. Que sorriso! Aqueles dentes brancos resplandecentes! Quase me perdi, naquele instante. Fiquei a ponto de desmaiar. Ela me ofereceu o rosto, para que eu o beijasse. Beijei-o, deliciado.

Perguntei-lhe que livro ela lia. Ela, pondo um marcador de página na página que lia, fechou o livro, cuja capa exibiu-me. Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Expus-lhe os meus comentários favoráveis ao livro e elogiei-lhe o bom gosto. Cláudia sorriu. Abaixou a cabeça, como que constrangida com os elogios. Perguntei-lhe se eu poderia sentar-me ao seu lado e puxar uns dedos de prosa. Ela me disse que me sentasse à direita. Sentei-me. Eu lhe disse que eu lera, dois meses antes, aquele livro, e, no ano passado, A volta do Parafuso. Conjuguei dois interesses: falar de literatura e admirar a Cláudia.

Falei-lhe do meu conto. Ela me ouviu atentamente; as suas observações, favoráveis, de estímulo; no entanto, ela me apresentou uma ressalva:

– O Boccaccio escreveu um conto com tais idéias.

Admirei-me. A Cláudia leu Boccaccio!? Não acreditei!

– Escreveu? – perguntei, boquiaberto, incrédulo.

– Escreveu, sim. Um dos contos do Decamerão.

Boquiaberto, de queixo caído, pasmo, eu não soube o que dizer. A Cláudia leu o Decamerão! Quase não me contive. Desejei perguntar-lhe qual dentre as cenas picantes ela mais apreciou. Calei-me, todavia. Eu fizera uma miscelânea das estórias que contei para o Juscelino, para o Lourenço e para a Mariângela. A Cláudia associou o meu conto aos do Boccaccio, que eu havia lido não muitos dias antes; mais uma vez, minha memória enganou-me. Eu não disse à Cláudia que li o Decamerão. Pedi-lhe mais detalhes. A bandida leu o Decamerão! Eu não quis acreditar. Ela, tão reservada, tão discreta, com fama de santinha – ler Boccaccio não faz uma mulher depravada, não é mesmo? -, surpreendeu-me com a revelação. Cláudia leu, como me provou, o Decamerão, e divertiu-se com a leitura. Falou-me da peste que assolava a Europa, na época de Boccaccio; falou-me dos contos, inclusive dos mais picantes, mas não o fez abertamente, com desembaraço.

Convencido de que criei um conto cujo tema era idêntico ao de um conto do Boccaccio, arrumei, com muito jeito, sem que a Cláudia desconfiasse das minhas verdadeiras intenções, assuntos para estender a conversa. Eu desejava admirar a Cláudia e tinha o sincero desejo de aprender um pouco mais sobre literatura. A Cláudia apresentou-me comentários a respeito de muitos livros, em sua maioria clássicos da literatura. Acompanhei-a, embevecido, em seu entusiasmo contido ao falar de Liév Tolstoi, seu escritor predileto. Eu sentia o odor perfumado que ela exalava. Inebriei-me com o seu perfume. Ébrio de desejo, enlaçava-a, em pensamento, e osculava-a, apaixonadamente. Encerramos a conversa – para meu desgosto – quando o Gustavo apareceu. Após saudar-me, ele atraiu a Cláudia para si, colou seus lábios aos dela – eu desejava beijá-los; os da Cláudia, obviamente; não os do Gustavo -; em seguida, após descolar seus lábios dos dela, voltou-se para mim, e disse-me que iriam à casa de uma amiga. Retiraram-se.

Levantei-me. Rumei à minha casa. Com quem dei de cara, na sala? Com a Rosemeire, que conversava com a Jéssica. Após passar momentos agradáveis com a Cláudia, defrontei-me com a feiúra em pessoa. Rosemeire, apesar de toda a sua feiúra repulsiva, não apagou, da minha mente, a belíssima imagem da Cláudia. Sorri. Eu rumava para o meu quarto; a um chamado da Rosemeire, detive-me. A Rosemeire me disse que participaria de um concurso de poesias, e perguntou-me se eu não desejava participar. Eu lhe disse que não gosto de poesia, mas de prosa, e tinha idéias para um conto que eu pretendia escrever e enviar para um concurso de contos. Ela me pediu que lho narrasse; eu lhe disse que eu não havia escrito nenhum conto, mas tinha algumas idéias na cabeça. Ela me perguntou quais eram. Eu lhas disse. Eram as idéias, com pequenas modificações, que eu apresentara para a Cláudia. Encerrado o relato, Rosemeire disse-me:

– A Virginia Woolf escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu?

Rosemeire resumiu o romance da Virginia Woolf. A Virginia Woolf – maldita! – escreveu a minha estória! Meu Deus! Em que mundo estamos! Um conto, que para a Cláudia continha idéias concebidas por Boccaccio, converteu-se, com pequenas modificações, em um romance da Virginia Woolf! Nenhum livro da Virginia Woolf eu li… Apalermado, ouvi as razões apresentadas pela Rosemeire, que, por sinal, foi muito gentil comigo – tanta gentileza não me agradou. O que ela desejava? Preciso responder à esta pergunta? Ah! Se fosse a Cláudia, assim, tão gentil, tão generosa, tão solícita… Mas não era a Cláudia; era a Rosemeire. As suas intenções… O seu sorriso… O sorriso cúmplice e zombeteiro da Jéssica… No desejo de não prolongar a minha permanência na sala, eu lhes disse que iria ao meu quarto escrever as idéias que me iam à cabeça, e retirei-me da sala, não sem antes olhar para a Jéssica. Malditinha! Sinto, não raras vezes, vontade de esganá-la. Rosemeire não me engana… Não tenho psicologia feminina, mas entendo as mulheres.

Convencido de que Virginia Woolf – e quem tem medo de Virginia Woolf? – roubou-me as idéias, decidi abandoná-las definitivamente. Não eram originais, e eu não me lançaria em um empreendimento literário para repetir o que outro escritor – e escritor consagrado – escreveu. Enfurnado no meu quarto, decidi mudar, e radicalmente, as minhas idéias. Nada de estória realista, nada de drama, nada de romance. Abandonei os meus projetos, e lancei-me na elaboração de uma estória fantástica. Retirei-me do quarto, duas horas depois. Ao passar pela sala, despedi-me da Jéssica e da Rosemeire, tão sorridente… O seu sorriso… Exagerado. Falso, notei. Sei o que a Rosemeire deseja de mim; não participarei de nada do que ela deseja. Ela que procure outro homem, um que se disponha a encará-la. Prefiro encarar a Medusa.

Na cozinha, enquanto eu bebia um copo de água, veio-me à lembrança a extravagante figura do Teodoro, leitor voraz de estórias de ficção científica, terror, espionagem, policial e fantasia. Rumei para a casa dele, sem pensar duas vezes.

À porta da casa do Teodoro, premi a campainha. Minutos depois, Teodoro abriu a porta. Saudamo-nos. Ele, expansivo, convidou-me para entrar. Entrei. Na sala, recebi um beijo no rosto e um forte abraço da Karen, esposa do Teodoro, tão extravagante e exótica quanto ele – eles formam o casal mais estranho da cidade. E entramos na conversa: literatura fantástica, ficção científica, terror, policial e outros gêneros que os críticos, soberbos, pedantes, insistem em classificar como sub-literatura.

No instante em que me surgiu a oportunidade, falei das minhas idéias para um conto de ficção científica. Teodoro, enquanto, atentamente, ouvia-me, cofiava o vasto bigode desgrenhado – como dizem nas redondezas: sem o bigode ele é como o Sansão sem a cabeleira.

Teodoro pensava, pensava, pensava. No que ele pensava? Não precisei esperar muito tempo para ter a resposta:

– Carlão, meu irmão, o Asimov escreveu um conto com essas idéias.

– Escreveu?

– Escreveu. Tenho certeza. Li todos os livros do Asimov. Em inglês. Entendeu? Em inglês. Carlão, as suas idéias não são originais. Você está plagiando o Asimov. Isso é heresia, você sabe. Pô, Carlão. Que decepção! Plagiar o Asimov! Ora, desista do conto. O que você pretende fazer é heresia. Lesa-pátria. Imperdoável! O que você está pretendendo fazer não merece perdão. Escreva o seu conto, que, na verdade, é do Asimov, que você vai parar na guilhotina. É o destino dos que desrespeitam o Asimov.

Foi a gota d’água! Desisti de escrever um conto. Aqui vai o meu registro, com meu sangue, meu suor e minhas lágrimas. Ninguém pode conceber o meu sofrimento! Ninguém pode conceber a minha angústia! Foi infrutífera a minha jornada à procura de uma boa idéia para um conto, que eu enviaria para um concurso…

Malditos todos os escritores que me antecederam! Malditos! Mil vezes malditos! Que a alma de todos eles queime no inferno! Malditos! Malditos! Mil vezes malditos!

Ivã, o Terrível

Ele era um homem incomum, rebelde, encrenqueiro e desajustado. Viveu vinte e dois anos. Nasceu no dia 17 de novembro de 1993, e morreu no último dia vinte e dois. Uma perda lamentável. No velório, choraram sua mãe, seu pai, seu irmão – o gênio, o cérebro, futuro Einstein brasileiro, porventura o novo Einstein planetário – sua irmã – a primogênita, a Gustave Rodin, a Michelângelo, a Leonardo da Vinci da família, talvez do Brasil – familiares e amigos. Os familiares receberam as condolências, algumas sinceras; muitas polidas, por respeito e consideração à família; e não foram poucas as fingidas; e houve quem, insensível, não dissimulou a sua indiferença e insensibilidade, e desafeição ao falecido.

– Ele teve o que mereceu – comentou um homem, que aparentava quarenta anos, às pessoas ao seu redor. – Sempre se arriscou em aventuras amalucadas. Não nasceu para viver muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, era previsível, morreria em uma das suas aventuras arriscadas. – Depois, ofereceu as suas condolências aos familiares do falecido, beijou o rosto da mãe dele, e abraçou-a. Tal homem ignorava a causa da morte do homem de quem falava com tanta insensibilidade.

De quem estou a tratar, afinal? À minha mão uma edição do jornal de anteontem, que traz o obituário do homem que tão imprevistamente morreu; sua morte, uma fatalidade. Quem imaginaria que ele teria tal morte!? Os leitores do jornal sabem de quem trato aqui. De um amigo. O início da nossa amizade deu-se no jardim de infância. Tempos bons aqueles. Nostálgico, rememoro aquela época, e suspiro de saudades. Nossos atos, para nós, eram destituídos de conseqüências, brincadeiras inofensivas. Quem diz que o meu querido amigo, falecido no dia 22 último, e eu não tínhamos consciência dos nossos atos não tem consciência do que diz. As crianças não têm consciência dos seus atos, dizem. Se tal afirmação procedesse, todas as crianças escalariam os muros das suas casas, e se lançariam, e de cabeça, no chão, e as que vivem em um apartamento do quinto andar saltariam para a calçada, vinte metros abaixo; se fossem desprovidas da consciência de seus atos, jamais recusariam sugestões e conselhos de adultos inconseqüentes, que as estimulam a arriscarem-se em atividades perigosas; em muitos casos, as crianças se machucariam seriamente se acolhessem as “sensatas” sugestões de “experientes e prudentes” adultos; mas elas, sábias, as rejeitam, terminantemente.

Agora, evocando aquela época, a da minha infância, que não se perdeu nos escaninhos da minha memória, mas esvai-se-me, lentamente, com a passagem do tempo, o faço, nostálgico, sorriso a estampar-me, não o rosto, mas o espírito, que se diverte, repleto de saudades.

Minha vida é atribulada. Tenho de encará-la. Intimida-me as minhas lembranças. Não quero falar de mim. Não foi para falar de mim que principiei os registros destas memórias, que se me esvaem; foi para falar do amigo que perdi que debrucei-me sobre a folha de papel em branco à minha frente, a poucos centímetros de meus olhos e ao alcance de minhas mãos. Caneta em punho, registro fragmentos de episódios da vida do meu amigo falecido.

Principio a redação da biografia de uma pessoa que viveu intensamente a vida. Ela atendia pelo nome de Ivã, e pelo codinome O Terrível. Seu patronímico; seu apelido. Ivã, o Terrível. Sim, ele era terrível. Ele era o Ivã. Ele era o Terrível. A sua reputação fazia jus ao seu nome. Ivã, o Terrível. Se os pais dele soubessem que tal nome daria ao primogênito deles um temperamento tão, como diz a mãe dele, esquentado, com tal nome jamais o batizariam. Estou a pensar bobagens. Ivã é um nome, apenas um nome. Dona Elizabete! Seu Roberto! Eu gostaria de poder abraçá-los, oferecer-lhes as minhas condolências, e também aos queridos Eduardo, Dudu, o Einstein, e Beatriz, Bia, a Leonardo da Vinci. Hoje tive a notícia do falecimento e do enterro de Ivã, meu amigo.

No jardim de infância principiamos Ivã e eu uma amizade, que perdurou até a morte dele, embora não nos tenhamos visto nos dezoito meses que a antecederam. Falávamo-nos, no entanto, via telefone e via internet. Podíamos nos ouvir, nos ver – o meu monitor não é dos melhores, e eu não tinha imagem nítida do Ivã.

Recordo-me do dia em que Ivã e eu nos conhecemos. O princípio da nossa história não foi alvissareiro. Como o episódio foi-me de grande impacto, recordo-me dele com clareza. Penetrou-me, profundamente, no cérebro. Há psicológicos que, porque leram apostilas, na faculdade, e repetem as patacoadas que leram, e as que ouviram, nas salas de aula, dos professores, autoridades demiúrgicas, declaram que as pessoas, involuntariamente, ocultam de si mesmas os episódios tristes, ou impactantes, que lhes amedrontaram, no fundo da mente (eles nunca se referem à alma, ou ao espírito; falam de ego, id, superego, e outros vocábulos que inventam para uso deles, atribuindo-se, ao usá-los, inteligência sapiencial), e de lá não os retiram – e tais episódios as influenciam por toda a vida, e unicamente sessões de hipnotismo e outros rituais inusitados podem fazê-los emergir, e se revelarem, para que os psicólogos, e não as pessoas que a ales recorrem, os interpretem e compreendam a influência deles no comportamento delas. Considerando os capítulos da minha vida, esta tese não procede, pois lembro-me dos eventos que me fizeram sofrer, e não me recordo dos dias rotineiros que vivi, durante os quais não houve um evento incomum, impactante. Para encerrar esta curta digressão, declaro que o preâmbulo da amizade minha e do Ivã não me causou sofrimento, mas foi-me de grande impacto, e quando eu e Ivã evocávamos a nossa infância, e eu relatava aquele dia em que nos conhecemos, ele dizia que não se lembrava, confirmando a minha tese: a de que eventos de grande impacto, na vida de uma pessoa, gravam-se na mente dela, e não ficam ocultas no seu subconsciente. E por que, então, alguém me perguntaria, tal episódio Ivã não o recordava? A resposta encontra-se nas linhas seguintes, mas antecipo-me, e dou-lha: O episódio não provocou grande impacto em Ivã; provocou-o em mim; daí eu lembrar-me dele, e o Ivã, não.

Foi no jardim-de-infância, à tarde. Na Escola de Educação Infantil Reino das Águas Claras. Tímido, sai do carro, e detive-me diante da escola. Petrifiquei-me. Olhei, de um lado para o outro, observando as crianças e os adultos que as acompanhavam. As crianças, todas elas, com o uniforme da escola, que trazia, na camisa, a estampa de peixinhos, da Emília e do Visconde de Sabugosa, e, na calça, a da Dona Benta. Ouvi choros, recordo-me. Uma menina, morena, de cabelos ondulados, agarrada às pernas de sua mãe, chorava aos cântaros. Lembro-me de seu olhar suplicante, de seu rosto contraído, de seus lábios trêmulos. Minha mãe, enfim, segurou-me a mão esquerda, e encaminhamo-nos à escola. Passei pelo enquadramento da porta, e, ao mesmo tempo fascinado, deslumbrado e assustado, olhos arregalados, segurando a mão de minha mãe, detive-me, e, os olhos a circunvagarem pelo pátio, vi um parque de diversões repleto de crianças, que promoviam balbúrdia infernal.

Andamos minha mãe e eu. Em um certo momento, ela soltou-me a mão, para cumprimentar uma sua amiga, e eu dei dois, ou três, passos para a frente, tropecei, e cai sobre um menino franzino, que, curvado, à minha frente, amarrava o cadarço do tênis. Levantei-me, assustado, e fite-o. Ele levantou-se, rapidamente, e voltou-se para mim, furioso, o braço erguido, o punho cerrado, pronto para desferir-me um soco. Tremi, olhos fixos nele. Eu era mais alto do que ele, mais encorpado; causaram-me, dele, profunda impressão o olhar, ameaçador, o cenho, carregado, e a agressividade, que se lhe transparecia no rosto.

– Ivã, não bata no menino. Tadinho dele – (Tadinho de mim? Eu era maior que o terrível, endiabrado Ivã. Quem o censurou foi a mãe dele, mulher alta, magra, de cabelos curtos). – Não faça mal para o menino. Deixe-o em paz.

– Ele bateu em mim – esbravejou Ivã, a devorar-me com um olhar que intimidou-me.

– Foi sem querer – disse-lhe a mãe.

– Não foi, não – rosnou Ivã.

– Ele tropeçou, Ivã. Foi sem querer… Não foi de propósito – persistiu dona Elizabete (Dona Elizabete é a mãe do Ivã).

– Foi, sim – replicou Ivã, a dardejar-me olhar de fúria. – Vou dar um murro nele. Na cara. Vou quebrar o nariz dele. E vou dar um chute nele.

– Não faça isso, Ivã – censurou-o dona Elizabete, o tom de voz elevado, emprestando-lhe autoridade. – Não seja malvado. Você é um menino bonzinho.

– Não sou, não. Sou mal. Sou Lex Luthor.

Hoje, ao evocar esta cena, divirto-me. Quando Ivã disse que ele era o Lex Luthor, assustei-me. Ora, como queriam que eu me comportasse? Eu sabia, aos meus seis anos, quem era Lex Luthor. Até o Super-Homem tinha medo dele (Se Ivã tivesse dito que era ou o Coringa, ou o Duende Verde, eu não sentiria tanto medo).

Repreendeu-o dona Elizabete. Fitou-me Ivã, emburrado, como a querer moer-me de pancadas. Não sei se ele avançaria contra eu, e, se nos engalfinhássemos, eu o sobrepujaria. Eu era maior do que ele, e mais forte, mas ele era mais agressivo do que eu, estava muito irritado, e era dotado de temperamento briguento, que anularia, era certo, a vantagem que ma concederia o porte meu superior ao dele. Fica no campo das especulações o desenlace de uma luta entre Ivã e eu. Não brigamos, naquele dia. Não me recordo se, durante aquele dia, estranhamo-nos, no jardim-de-infância, um jardim com os seus ogros, monstros, ciclopes, bruxos, quimeras e alimárias, e princesas e rainhas, e príncipes e reis, e heróis e guerreiros. O mundo infantil é encantador, e assustador também.

Quem poderia prever que com tais preliminares seríamos amigos eu e Ivã? E quem adivinharia que a nossa amizade seria duradoura? Se dona Elizabete não contivesse o Ivã, eu e ele nos engalfinharíamos, naquele mesmo dia, e a nossa inimizade seria eterna. Talvez. Quem sabe?

Transcorreram-se os dias.

Não sei identificar quais fenômenos naturais e sobrenaturais aproximaram-me de Ivã, e ele de mim. Éramos de temperamentos tão distintos! Não éramos unha e carne. Éramos água e óleo; eu, a água; ele, o óleo. E nos entendemos. Há coisas que só a filosofia explica, ou Freud explica, ou Shakespeare explica, ou Cervantes, ou Conan Doyle, ou Daniel Defoe. Como entenderam-se Dom Quixote e Sancho Pança? Como entenderam-se Sherlock Holmes e Watson? Como entenderam-se Robinson Crusoé e Sexta-feira? Há mais entre o céu e a terra…

Brincávamos, no jardim-de-infância, todos os dias, Ivã e eu. E Paulo e Denise, meu pai e minha mãe, e Roberto e Elizabete, pai e mãe de Ivã, notaram a amizade. E eles principiaram amizades, que se perpetuam.

Eu frequentava a casa de Ivã; e ele a minha.

E assim, com alguns desentendimentos, com brigas corpo-a-corpo, alimentamos Ivã e eu a nossa amizade.

Ele era muito briguento, mas franzino; às vezes, apanhava algumas surras, e, depois, urdia, em conluio, ou comigo, ou com outros meninos, a vingança. Eu nunca fugia da briga. Ora, Ivã era meu amigo. Para que existem os amigos!? Para se apoiarem nas horas difíceis. E por quantas horas difíceis Ivã passou!

Estudamos o primário na escola Mário Bulcão Giudice. A professora de matemática, Bianca, vesga, era o nosso alvo de chacotas. Meu Deus! Ivã não lhe dava sossego. Bianca, o Monstro Vesgo, chamava-a Ivã. O defeito ocular foi a maldição dela. Que Deus a guarde. Ela morreu, no ano passado, em junho, de ataque cardíaco fulminante. Devo, para ser fiel aos acontecimentos, dizer que todos os professores eram alvos da maldade de Ivã. Ele não os perdoava. Para ele, os professores o impediam de andar de skate, de bicicleta, jogar vôlei, e brigar com outros meninos, e, também, com algumas meninas, tão briguentas quanto ele. E Júlia, com quem ele discutia, na sala-de-aula, todos os dias, e puxava-lhe os cabelos, e ela o unhava, e durante o recreio engalfinhavam-se não raras vezes, e provocavam-se, e corriam um em perseguição ao outro quase que todos os dias, era a sua amiga inseparável. Gostavam-se um do outro, e muito, e discutiam, e brigavam, e quando um deles não ia à escola, o outro sentia-lhe a falta. Há mais entre o céu…

Rememoro inúmeros episódios sucedidos no capítulo jardim-de-infância. Se eu os relatasse com os pormenores dos quais me recordo, debruçar-me-ia sobre o papel, dez lápis sobre a mesa, uma pilha de folhas de sulfite ao lado, e escreveria, durante dez horas por dia, pelos próximos dois anos, um romance que superaria em extensão a obra-prima de Marcel Proust. Como me concederam apenas algumas linhas, terei de me concentrar naqueles episódios da vida de Ivã, os quais, segundo eu, são os mais significativos. Escrevi que eu teria de ser sucinto; risquei este trecho do meu testemunho, pois sucinto não serei; e tampouco serei prolixo. A leitura deste texto não exigirá muito tempo do leitor, e tampouco o enfadará. Desejo, com palavras precisas, relatar apenas os eventos memoráveis, que são muitos; não poderei, entretanto, tratar de todos eles. Tenho de selecionar dentre todos os episódios os mais significativos. É um trabalho exaustivo, penoso, o de resumir a vida de personagem de biografia tão rica.

Com um salto no tempo, escrevo: Aos onze anos, Ivã transferiu-se, com a sua família, para o bairro Campo Alegre, e seus pais matricularam-no na escola João Pedro Cardoso. Conservamos a amizade Ivã e eu. Não morávamos no mesmo bairro, e não estudávamos na mesma escola, mas conversávamos quase que todos os dias – quando eu não ia à casa dele, ele ia à minha casa.

Na idade de doze anos, Ivã pediu Valquíria em namoro, e disse-me, o namorador precoce, certo dia, quando me inteirou do seu namoro com ela, constrangendo-me:

– Arrume uma namorada para você. Por que você ficou vermelho, idiota? Bestão – e deu-me um tapa na testa. Era esse o seu jeito de ser amigável. Eu não me incomodava com as suas atitudes bruscas, os seus rompantes de bravura.

Foi naquele dia que ele me confidenciou os seus desejos íntimos. Falou-me, lascivo e brincalhão, de Valquíria, e do beijo que lhe dera. E na boca! E de mais de cinco minutos! Acreditei na história. Era bravata de Ivã, eu soube, dias depois, contou-me a Valquíria. Foi apenas um selinho. Desejei perguntar para a Valquíria o que ela sentira; ela, que gosta de falar, disse-me, antecipando-se-me, que o beijo tinha sido esquisito, sem graça.

Valquíria e Ivã namoraram durante seis meses. Ele rompeu o namoro com ela, e principiou namoro com a Verônica. Foi um rompimento unilateral, brusco e seco, vi com meus olhos e ouvi com meus ouvidos. Eis as palavras de Ivã:

– Val, nosso namoro acabou. Não quero namorar com você. Tchau. Vou para a casa da Verônica – virou-lhe as costas, dela afastou-se, e rumou à casa da Verônica.

Valquíria ouviu-o, boquiaberta. Vi-lhe os olhos dela a encherem-se de lágrimas. Não suportei olhá-la… Virei-me, e dela afastei-me, entristecido, constrangido.

Dois meses depois, Ivã rompeu, via telefone, o namoro com a Verônica. Eu não estava presente quando Ivã teve o atrevimento de romper o namoro com ela do modo que o fez. Ouvi comentários. Disseram-me que Ivã foi terrível, cruel. E por que ele rompeu o seu namoro com a Verônica?

– A Verônica é muito chata – disse-me Ivã. – É quadrada.

– Ela é bonita – comentei, constrangido. – É inteligente. De boa família…

– E daí? – interrompeu-me Ivã, bruscamente. – Qual homem deseja mulher bonita, inteligente e de boa família? A Verônica é uma santa! – disse, sarcástico. – Verônica, a santa… Que chatice… – ele não falou dos seus pensamentos, dos seus sentimentos. Eu o conhecia, e bem. Verônica não lhe cedera aos impulsos.

Um mês depois, Ivã principiou namoro com a Veruska.

– Você só namora garotas com nomes que começam com “v”- dizia Beatriz, irmã do Ivã. – Você é viciado na letra “v”. Quais garotas você namorará, após dar fim ao namoro com a Veruska, daqui uma semana, ou daqui um mês? A Vitória, a Vanessa, a Vera, a Valeska, a Valéria, a Vilma, a Valentina, a Vicentina, a Veridiana e a Virgínia?

Enveredávamos pela puberdade, e pela juventude. Sensações novas, garotas, hormônios…

Para Ivã, a juventude foi-lhe difícil. O seu temperamento ardoroso, agitado, impaciente e contestador, não raras vezes sem razão, fê-lo desentender-se com pessoas que lhe queriam bem, e trouxe-lhe inúmeros contratempos e dissabores, os quais evitaria se não fosse, como dizia seu pai, tão cabeça dura. Além disso, arriscava-se em aventuras perigosas e esportes radicais.

– Quero sentir a adrenalina entupindo-me a cabeça – sentenciava Ivã, ao dar início à uma aventura, que nem sempre encerrava-se bem.

Se Ivã vivesse, na Grécia, mil anos antes de Cristo, ou em era anterior, seria ele um êmulo de Perseu, Teseu, Hércules, Odisseu e Aquiles. Conquanto não fosse nem um semi-deus, nem um herói, arrostaria vagalhões, mares revoltos, tempestades diluvianas; e apresentar-se-ia para a guerra contra os troianos, ou se alistaria no exército troiano e lutaria contra os gregos. E iria ao Peloponeso, às Termópilas, à Maratona. E arrostaria o Ciclope e o Minotauro. E singraria os mares a bordo do Argos. E iria em busca do Velocino de Ouro. Se vivesse na era mongol, combateria Genghis Khan, ou, o que seria mais provável, aliado dos mongóis, ajudaria Genghis Khan a devastar a Europa. Se vivesse na era heróica da Grã-Bretanha, seria ele um dos cavaleiros da Távola Redonda. Se vivesse, na Espanha, no início do século XVII, acompanharia Dom Quixote em suas perambulações disparatadas. Se vivesse, no século XIX, nos Estados Unidos, iria à caça de Moby Dick. Ivã, em qualquer outra época, lançar-se-ia em aventuras inusitadas, almejando a realização de façanhas extraordinárias e proezas épicas. Uma coisa era certa: ele jamais se enfurnaria em uma biblioteca.

Ivã falava muitas gírias e muitos palavrões. Enraivecido, irritado, ele chutava o balde, distribuía socos, pontapés e obscenidades para todas as pessoas que se encontravam ao alcance de suas mãos e de seus pés, e de seu campo visual. Ao tecer comentários sobre qualquer assunto, disparava exclamações explosivas entremeadas de palavrões. E dá-lhe palavrões! Palavrões eram-lhe como o sangue que lhe corria nas veias.

E o tempo passou.

Os esportes prediletos de Ivã: skate, canoagem, montanhismo, balonismo, paraquedismo e surf. Esportes autênticos, dizia Ivã, que também dedicava-se às suas paixões esportivas clandestinas: rachas com carros e motos, na via expressa. Antes de ele se dedicar aos rachas, nos finais-de-semana, à noite, ele teve de aprender a dirigir, e aprendeu, com seu primo, Rogério, filho de sua tia materna, Maria Vitória. Ambos, no carro do pai de Rogério, Vinicius (Uma nota: O pai e a mãe de Rogério são divorciados), circulavam, pelas ruas dos bairros periféricos, para fugir dos meganhas, diziam eles, desdenhosos e debochados, ao referirem-se aos policiais, ecoando vozes soturnas, cínicas, de intelectuais anarquistas e de transgressores.

Deu-se em um sábado um episódio, que não posso sonegar ao mundo, e que narrarei nas linhas que se seguem à esta. Não me estenderei e não serei superficial. Deter-me-ei em tal episódio, e dedicar-me-ei à narração durante algumas linhas.

Em um sábado, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, Ivã e Rogério, na ausência dos pais de Ivã, decidiram dar um rolê, não no carro do pai de Rogério, Vinicius, mas no jeep de seu Roberto, sem o consentimento deste – seu Roberto seria inteirado, não muitas horas depois, da aventura de seu filho e de seu sobrinho.

Ivã e Rogério foram à garagem, viram o jeep, e aflorou-lhes à mente uma idéia brilhante: dirigir o jeep. Onde estava a chave? Ivã sabia onde seu pai a guardava: Na primeira gaveta do criado-mudo. Sem hesitar, foi ao quarto de seus pais, abriu a gaveta do criado-mudo, pegou a chave do jeep, regressou à varanda, e entregou à chave a Rogério. Minutos depois, estavam, na rua, Rogério ao volante do jeep, e Ivã, agitado e impaciente, querendo dirigir o jeep, contrariado, esperando Rogério ceder-lhe a direção. E Rogério, tão animado, tão entusiasmado, não lha cedia. Havia muito tempo ele sonhava em dirigir o jeep do seu tio; agora que o conseguiu, não o entregaria para ninguém. Ivã, no entanto, persistente, contrariado, reclamou, e Rogério irritou-se, e prometeu ceder-lhe o volante, não nas ruas do centro da cidade, mas no bairro do Campo Feliz. E Ivã cobrou-lhe a promessa, irritantemente, exasperando Rogério, que, enraivecido, ceder-lhe-ia o volante, mas o faria ao seu modo, com a concordância de Ivã, que o achou excitantemente perigoso.

Rogério, então, ao volante do jeep, rumou ao bairro Campo Feliz, e à ladeira Getúlio Vargas.

– Ivã, prepare-se – disse Rogério, assim que avistou o princípio da ladeira, e adiante deles o vazio. – Estamos quase lá. Vou pular para o banco de trás, e você tomará o volante. Prepare-se.

Ivã não teve tempo de preparar-se. Rogério, ao encerrar a frase, saltou para o banco de trás, e Ivã, açodado e desajeitado, sentou-se, no banco do motorista, praguejando, olhos arregalados, proferindo palavrões como uma metralhadora, o jeep a descer a ladeira, descontrolado, e Rogério a gargalhar, divertindo-se com o medo estampado no rosto de seu primo, e a gritar:

– Segure o volante, idiota! Segure o volante, imbecil! Segure o volante, besta!

Ivã a muito custo segurou o volante, que parecia dotado de vontade própria e esquivava-se-lhe das mãos, e Rogério a gritar:

– Segure o volante! Pise no freio! Pise no freio! Olhe o poste! Olhe o poste! – e o jeep a ziguezaguear de um lado para o outro, e a descer a ladeira.

Confundiam-se os gritos de Rogério e os de Ivã.

Controlado o jeep, Ivã freou, e, esbravejando, disparou uma saraivada de palavrões contra Rogério – que gargalhava – e, punhos cerrados, ameaçando socá-lo até reduzi-lo a pó, subiu, incontinenti, no banco traseiro, e lançou-se contra Rogério, que, gargalhando, desceu do jeep, e Ivã foi-lhe no encalço ladeira acima. A perseguição estendeu-se, pela rua transversal, por duzentos metros. Ao desistir da perseguição, Ivã iniciou os passos de regresso ao jeep. Ao chegar à esquina, deteve-se, e gritou:

– Rogério, o jeep sumiu!

Rogério não acreditou no que lhe disse Ivã, pois suspeitava que ele queria engabelá-lo para dele aproximar-se.

– Idiota, você acha que irei engolir a mentira? – perguntou-lhe Rogério, a rir.

– Não é mentira, não, Rogério – disse Ivã, voltando-se para Rogério, distante dele uns cinco metros. – O jeep sumiu.

Rogério sabia que Ivã, péssimo ator, dizia-lhe a verdade; acelerou os passos; chegando-se a Ivã, olhou para a ladeira. O jeep não estava onde Ivã o deixara. E agora, o que fariam? Foram até onde o jeep havia sido deixado, à procura de um sinal que lhes indicasse aonde o jeep teria ido.

– O jeep foi abduzido por alienígenas – comentou Rogério. Censurou-o Ivã.

– Roubaram o jeep – sentenciou Ivã. – Agora, sim, estamos ferrados.

– Assinamos a nossa sentença de morte – sentenciou Rogério.

– O que faremos?

– Iremos à delegacia.

E rumaram à delegacia.

Quarenta minutos depois, principiaram o depoimento, alterando os papéis que protagonizaram. Rogério disse, e Ivã secundou-o, que ele, Rogério, dirigia o jeep, e Ivã, provocando-o, dizendo-lhe palavrões, ofendendo-o porque ele não lhe cedia o volante, irritou-o a ponto de, em um certo momento, levá-lo a, nervoso, frear o jeep e ameaçar dar em Ivã uma surra, e do jeep Ivã desceu, no que foi por Rogério seguido. E deu Rogério inicio à perseguição a ele. Correram uns duzentos metros, e, regressando à ladeira, viram, para surpresa deles, que lá o jeep não estava. O policial que colheu o depoimento ficou com uma pulga atrás da orelha: suspeitava que Rogério e Ivã haviam vendido o jeep e inventaram aquela história sem pé nem cabeça. O interrogatório de Ivã e Rogério não havia se encerrado quando na delegacia entraram seu Roberto, pai de Ivã, e Marcos, irmão de seu Roberto, e com eles um homem algemado ladeado por dois policiais. Seu Roberto, ao ver Ivã e Rogério, surpreendeu-se, e foi até eles. E nos trinta minutos seguintes foi inteirado de como se deu o roubo do jeep pelo ladrão.

– E eu – disse seu Roberto, na delegacia, na frente de Ivã, Rogério, Marcos e do policial que colhera os depoimentos de Ivã e Rogério – chamei o ladrão de mentiroso quando ele me disse que encontrou o jeep abandonado na ladeira Getúlio Vargas! O ladrão é ladrão, mas é honesto. Falou-me a verdade, o maldito! Merece ouvir de mim um pedido de desculpas. E o meu filho e o meu sobrinho… Ah! Dois vagabundos… Pegaram-me o jeep… Que foi de meu pai… A única herança que ele me deixou… E estes dois pestes…

O policial pediu-lhe moderação nas palavras, e seu Roberto, que rilhava os dentes de fúria, mordeu a língua. E Ivã e Rogério dobraram-se, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, às censuras de seu Roberto, dona Elizabete, dona Maria Vitória e seu Vinicius.

Mas como seu Roberto soube do roubo do jeep? É preciso retroceder alguns minutos para se conhecer este capítulo simultâneo à ida de Rogério e Ivã à delegacia e ao depoimento deles ao policial.

No bairro XV de Novembro, Marcos, marceneiro, em visita a um cliente, para quem levaria quatro cadeiras, ao deter-se, no semáforo, no cruzamento das ruas Gonçalves Dias e Guimarães Rosa, avistou, na rua perpendicular, parado, atrás de um carro prateado, esperando o sinal abrir, o jeep de seu Roberto, e, ao volante, um homem que ele jamais tinha visto mais gordo; ensimesmado, certo de que seu irmão não permitiria que nenhuma outra pessoa dirigisse o jeep, tirou do bolso da calça o telefone celular, e discou para ele. Enquanto o esperava atender a ligação, seguiu o jeep. Ligação atendida, inteirou seu irmão do que vira. Contataram a polícia, e Marcos seguiu o jeep, até o motorista com ele entrar em uma casa, e à casa dois policiais chegaram minutos depois, e não muito tempo depois chegou seu Roberto. E os quatro homens ouviram do ladrão a história, e nele ninguém acreditou.

Encerrado o caso, Marcos retomou o seu trabalho. O ladrão foi preso, e Ivã e Rogério, na casa de seu Roberto e dona Elizabete, ouviram o sermão…

E encerro, aqui, este episódio.

Não haviam se passado três meses do episódio relatado linhas acima, Ivã empreendeu outra aventura memorável.

Certa noite, ele apossou-se da chave do carro de seu pai, e foi, com os amigos, para um racha. Com os amigos! Quero esconder a verdade? Tenho de contar a verdade: Participei desta aventura. Sou fiel aos fatos: Fui cúmplice do Ivã. Eu, ele, outros dois amigos nossos, Fernando e Cauã, participamos da sandice. Fomos irresponsáveis, inconseqüentes, estúpidos.

Dói-me o peito ao recordar aquele dia… Ivã, ao volante do carro, aos 16 anos… Onde eu estava com a cabeça quando concordei com aquela idéia estúpida? Ivã, que mal sabia dirigir, ao volante de um carro, num racha, à noite. Ele dirigiu o carro da casa de seus pais até a Via Expressa, uma rua de quase um quilômetro de extensão, onde, reunidos com outros amigos e pessoas as quais nunca havíamos visto mais gordas, os “pilotos” chegaram a um acordo quanto às regras das corridas. Seriam quatro desafios, dizíamos. Ivã participaria do terceiro. Ele assistiu aos dois primeiros desafios, impaciente, inquieto, e, antes de lhe anunciarem a participação dele no terceiro, ele já havia entrado no carro. Eu, Cauã, Fernando, e outras pessoas, antecipamo-nos aos dois participantes do desafio, e rumamos para o final da Via Expressa, onde eles teriam de executar manobras, em grande estilo, para agradar ao público, e iniciar o percurso de regresso ao ponto de partida. Não precisamos esperar muito tempo para conhecermos o encerramento do episódio, que aterrorizou-nos. Em pé sobre um carro, vi os dois carros aproximando-se, o carro preto e, metros atrás, o carro de Ivã. O carro preto deu um cavalo-de-pau, e principiou a jornada de regresso ao ponto de partida. E Ivã… Meu Deus! Ao executar o cavalo-de-pau, ele perdeu o controle do carro. Meu coração ficou a ponto de explodir. Vi o cadáver de Ivã, quando o carro deu cambalhotas. O tempo parou. Suspendi a respiração. Corremos para acudir Ivã, que perdera os sentidos. Em que enrascada nos metemos! Ivã despertou, e gritou de dor. Dele estavam quebradas as pernas, um braço, três costelas, o nariz e vários dedos, e na sua testa havia um corte. Pode-se conceber o que ocorreu nas horas seguintes, no hospital, na casa de seu Roberto e dona Elizabete. Meu pai e minha mãe, ao mesmo tempo decepcionados, irritados, preocupados, repreenderam-me, e condoeram-se de mim… Nos dias seguintes, Ivã viveu confinado à cama e à cadeira de rodas. Enfim, meses depois, recomposto, ele retomou a sua vida. Aliás, não é correto dizer que ele “retomou a sua vida”. Ele viveu um capítulo da vida dele naqueles meses de confinamento, capítulo que o desagradara, mas teve ele de resignar-se. Recomposto, sim, ele viveu a vida dele, conforme o seu temperamento, a vida que desejava para si, uma vida de prazeres e dores. E ele não se acertou, como muitos previram, contrariando o desejo de sua mãe. Ivã era o Ivã, o Terrível. E jamais deixaria de sê-lo. Jamais.

Ivã, diziam dele, “não tomou jeito”, “não ganhou juízo”. A experiência desagradável fê-lo mais inconsequente, mais irresponsável, conquanto mais amadurecido e cauteloso. Quê!? Se aprendêssemos com a nossa própria experiência, seríamos sábios, impecáveis, infalíveis, antes dos quarenta anos de idade.

Recuperado, o que fez Ivã? Encerrado o seu namoro com Veruska, namorou Vanessa e Vera. Um ano depois do acidente de carro que quase o matou, ele foi para Minas Gerais. Ao pular de pára-quedas, caiu de mal jeito, e quebrou as pernas. E em quantas brigas envolveu-se Ivã? E em quantas brigas ele me envolveu? Ele se desentendeu com seu pai e sua mãe, e foi, em duas ocasiões, morar na casa de seus avós paternos. Da escola ele foi expulso duas vezes. Feriu-se, várias vezes, ao executar manobras de skate. Fraturou ossos das pernas e dos braços, três vezes, recordo-me, uma vez, na pista de skate da cidade; outra, na rua, ao manobrar para executar uma curva; e a outra, na praça Carlos Chagas.

– Ivã, não brinque com o skate – exortavam-no sua mãe, seu pai, seus avós, seus tios. Da família, apenas os primos de temperamento similar ao dele o apoiavam.

– Sou dono do meu nariz – replicava-lhes Ivã. – Não tenho de ouvir baboseiras.

E Ivã quase morreu afogado, em Ubatuba, na Praia Grande. E em outra ocasião, bêbado, ao volante de um carro que um amigo emprestara-lhe, colidiu contra um poste, e quebrou o nariz.

Paralelamente aos namoros sérios, oficiais, Ivã aventurava-se com mulheres com iniciais em A, B, C, D e todas as outras letras do abecedário.

Um dia, chegou aos ouvidos de dona Elizabete notícias das aventuras de Ivã com mulheres ditas fáceis. A conduta dele ia contra todos os princípios dela. E dona Elizabete falou a respeito com Ivã, que lhe disse que não se preocupasse: ele sabia cuidar de si mesmo. Sabia… Naquele mesmo dia, dois policiais, à uma hora da madrugada, premiram a campainha da casa de seu Roberto e dona Elizabete. Seu Roberto atendeu à porta. Os policiais pediram-lhe que os acompanhasse até à delegacia. Ivã envolvera-se em uma briga. Seu estado, deplorável. Trazia, quebrado, o nariz, roxo, o olho esquerdo, e vários hematomas no corpo. Eu tentara apartar os briguentos. Conto a história pela metade. Tenho que retroceder algumas horas. Desde a manhã daquele dia, Ivã dizia que iria cobrir o Murilo de socos e pontapés, e quebrar-lhe-ia o nariz, os braços, as pernas, e furar-lhe-ia os olhos, e rachar-lhe-ia a cabeça, no meio, com uma barra de ferro, e abrir-lhe-ia o crânio, e arrancar-lhe-ia o cérebro, e o jogaria de alimento para o Mancada, um vira-latas medroso, lerdo e desengonçado de uma orelha quebrada que costumava andar com apenas três pés no chão, conservando uma perna erguida.

– Dizem que cérebro tem bastante mocotó – dizia Ivã, naquele dia -, que é bom pra saúde. Tem proteínas, vitaminas, fibras e carboidratos. O cérebro do Murilo, se não estiver estragado, fará bem para o Mancada.

À noite, nos bares, bebeu Ivã cerveja, caipirinha, whisky e cachaça. E no bar do João Portugal, viu, ao passar pelo enquadramento da porta, Murilo e dois amigos dele, e não hesitou: foi até ele, a rosnar, empurrou-o, e encaixou-lhe um soco no nariz.

E atracaram-se Ivã e Murilo.

Durante o dia, eu fizera de tudo, e mais um pouco, para impedir que Ivã encontrasse Murilo, e desdobrei-me para acalmá-lo e fazê-lo esquecer Murilo – não me lembro o que Murilo lhe fizera que o irritara tanto.

Enquanto Ivã desancava Murilo, não intervi na briga; mas Ivã estava embriagado, e Murilo, após conseguir recompor-se da surpresa do ataque que Ivã lhe desferira, sobrepujou-o, e foi então que decidi, para meu prejuízo, apartar os briguentos. A minha interferência foi desastrada e desastrosa. O Ivã acertou-me um soco no nariz. Ouvi gargalhadas. Vi Ivã, encostado à parede, e Murilo a esmurrá-lo, levantei-me, fui até eles, agarrei Murilo, e afastei-o de Ivã. Neste momento, alguém empurrou-me e deu-me um pontapé. A partir daí, o caos.

Quatro policiais chegaram ao bar do João Portugal não sei quantos minutos depois, e encaminharam-nos, eu, Ivã, Murilo, e mais uns três ou quatro homens, não me recordo, à delegacia. A sequência deste episódio eu a registrei, em poucas palavras, linhas acima. Dona Elizabete, seu Roberto, meu pai e minha mãe repreenderam-nos durante horas. Foi uma lição inesquecível. E o que Ivã aprendeu com ela? Nada. A lição entrou-lhe por uma orelha, e saiu-lhe pela outra. No dia seguinte, domingo, ele gargalhava ao narrar-nos o episódio.

Contra todas as expectativas, Ivã, concluído o colegial, decidiu cursar advocacia. Alegou querer melhorar o Brasil, defender a Justiça.

– Tenho de me arrumar na vida – disse, certo dia, durante o almoço. – Tenho dezoito anos. A Bia, a Leonarda da Vinci, está com o futuro feito; o Dudu, o crânio da família, é o Einstein redivivo. E eu? O que fiz da minha vida? Arruaças, brigas, mentiras, traições. Viverei a mentir e a brigar durante quanto tempo mais? Além deste maluco – e deu-me um tapa na nuca -, quem mais me atura? Tenho de me arrumar na vida.

Para surpresa de todos, Ivã aplicou-se nos estudos, namorou Valeska, arrumou emprego, numa loja de telefones, de vendedor, para custear os estudos, e prestou o vestibular. Classificou-se entre os melhores. No ano seguinte, ele e Valeska rumaram para São Paulo, e lá instalaram-se em um apartamento, que alugaram com o dinheiro obtido do trabalho dela e dele. Sagaz, versátil, inteligente, de raciocínio rápido, muito acima da média, Ivã foi bem-sucedido. A sua ascensão, meteórica. Admiravam-no, e respeitavam-no. Nas férias, ia às aventuras: Montanhismo, paraquedismo, balonismo, esquiagem. Viajou para Pernambuco, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, para a África, a Ásia e à Europa. Foi, duas vezes, aos Estados Unidos. Escalou os Alpes, o Himalaia, os Andes.

– Ivã, você se arrisca demais. – comentou sua mãe, em diversas ocasiões. Ivã tranqüilizava-a com palavras carinhosas, inteirando-a dos cuidados que tomava, sob orientações de instrutores, na véspera e durante as aventuras, arriscadas, ele sabia, e emocionantes.

Há quatro dias, Ivã veio em visita à sua família e aos seus amigos. Há três dias, eu, meus pais, meu irmão, minhas irmãs, a minha cunhada, meu cunhado e meu sobrinho, e Ivã, Valeska, seu Roberto, dona Elizabete, Eduardo e Beatriz, almoçamos, na minha casa. Conversamos e brincamos das dez horas às vinte horas.

Anteontem, pela manhã, Ivã, descontraído, retirou-se, de bicicleta, da casa de seus pais. Ao chegar à esquina, duas crianças, a brincar de pega-pega, atravessaram, correndo, a rua, à frente de Ivã, que freou a bicicleta, perdeu o equilíbrio, caiu, e bateu com a cabeça num paralelepípedo. E morreu.

Que a alma de Ivã descanse em paz.

O escritor que era original

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos buscou a originalidade durante quase toda a sua vida, que se estendeu por setenta e dois anos. Certo dia, reconheceu, após muitas horas de reflexão, que todas as narrativas que havia escrito os gregos, os romanos, os espanhóis, os italianos, os franceses, os russos, etc., etc., já as haviam contado séculos antes, e, então, certo de que se consumiu em trabalho infrutífero, reconheceu que havia desperdiçado, inutilmente, décadas da sua vida, mas estava feliz, pois entendia, agora, qual era a atitude apropriada para o labor literário, iluminado pela sabedoria universal. Decidiu queimar todos os seus textos. Arremessou resmas e resmas de papel à fogueira, e sentiu-se livre da opressão de todos os sentimentos angustiantes que o sufocaram durante as décadas que antecederam o seu ato de alforria, ciente de que conhecia, agora, a fórmula da excelência literária. A fogueira ardeu durante quatro horas. E a partir desse dia, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não leu sequer um livro, pois não queria que o influenciassem em sua obra que estava por escrever Homero, Boccaccio, Cervantes, Victor Hugo, Machado de Assis, Proust, Dostoiévski, Tolstoi, Turgueniev, e outros escritores influentes. Que eles influenciassem outros escritores; ele, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, não. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos sabia, agora, inspirado pela sabedoria universal, que a excelência literária encontra-se na simplicidade das coisas do mundo, e, atendendo aos seus anseios, sublimados pelas forças inspiradoras do universo – que estão além do alcance da mente debilitada das pessoas contaminadas pela civilização tecnológica na qual estão imersas -, poderia haurir da sabedoria da natureza, pois estava preparado para, sem açodamento, fruir do aroma natural das coisas do mundo, e escrever a sua obra perene. Não mais leu livros dos grandes mestres da literatura. Eles não eram imprescindíveis, como declaram inúmeros estudiosos, todos eles presunçosos, pernósticos, soberbos eruditos encastelados em torres de marfim. Desfez-se Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos dos seus livros. Não os cedeu para bibliotecas públicas, e nem para as universitárias; não os vendeu para livreiros, nem para bibliófilos, tampouco os doou para alguma instituição. Queimou-os. Sim. Queimou-os. Eram todos os livros, e os clássicos dentre todos, perniciosos para a inteligência humana, acreditava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. Debilitavam-na os livros. Impediam o florescimento da sabedoria, da criatividade, da originalidade, que, para ele era, até então, inalcançável. As suas reflexões conduziram-lo para a elevação da sua mente sob a inspiração benéfica da sabedoria universal, e soube, então, o que tinha de fazer, e o que tinha de fazer era inadiável. Já havia desperdiçado muitos anos da sua vida com leituras, que o oprimiram, o impediram de pensar, de criar, de conceber tramas e personagens originais. Os escritores e os estudiosos aos quais atribuem sabedoria e genialidade sufocam os espíritos dos homens, são nocivos ao desenvolvimento da originalidade, estava convencido Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. E não os condenam à fogueira. Enaltecem-los. Entoam loas para eles. Até hoje, Júlio César é difamado por ter ateado fogo à Biblioteca de Alexandria. Júlio César, segundo Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, merecia o reconhecimento da humanidade por haver tê-la livrado de obras que lhe roubariam a liberdade de espírito, que lhe propiciaria a originalidade de pensamento e de criação literária, científica, filosófica e política.

Recluso, em busca da originalidade, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos evitava contato com as pessoas, principalmente com os escritores. Viveu em busca da originalidade perdida, da originalidade que a humanidade perdeu, esta humanidade industrial, tecnológica, que se nega ao direito inalienável de usar de todo o seu poder mental, ao desconectar-se da natureza e de sua simplicidade inerente.

E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos reconheceu que todo o legado cultural da civilização é desprezível e emasculador.

Nas raras vezes que abandonava a sua reclusão, e dignava-se a olhar para um indivíduo da sua espécie, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos falava, e falava apenas o que considerava dever falar, não se interessando se os seus interlocutores, melhor, os seus ouvintes, estavam interessados no que ele lhes dizia; e os comensais, no almoço, no jantar, eram obrigados a ouvi-lo, em silêncio. E quando um deles esboçava um movimento a indicar-lhe o desejo de falar, ele o silenciava com um gesto, o cenho franzido, o olhar fixo, a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, o que lhe emprestava um aspecto inquisitorial. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não se dispunha a ouvir o que as pessoas desejavam lhe dizer, as histórias que elas desejavam-lhe relatar, os casos que elas desejavam-lhe narrar, as idéias a respeito dos mais diversos assuntos dos quais elas desejam-lhe inteirar e com ele debater; pois, acreditava, o espírito iluminado pela sabedoria universal e pela simplicidade da natureza, que lhe inspiravam pensamentos profundos e iluminadores, que as idéias que lhe queriam apresentar impedi-lo-iam de alcançar a tão almejada originalidade, e, alcançando-a, escrever a sua obra-prima, a sua obra suprema, celestial, porque sorvia da simplicidade da natureza, ainda não corroída pela civilização tecnológica, decantada esta em prosa e verso pelos industriais, pelos capitalistas ocidentais, pelos materialistas insensíveis. E a originalidade ele a alcançaria se não tivesse contato com idéias estranhas ao seu espírito, à sua alma, à sua condição primeva em contato com a natureza, condição que herdara dos seus mais antigos ancestrais, que jornadeavam pela Terra antes do advento da civilização, que desumanizou os humanos, deles eliminando o vínculo com a natureza. As pessoas que o ouviam, ouviam-no atentamente, fascinadas, embevecidas com tão excelsa sabedoria, com palavras de tão ardente vigor sapiencial, pronunciadas com a veemência encantadora de um venerável profeta antediluviano, e curvavam-se, reverentes, diante de tão extraordinária exibição de inteligência superior. Não o contestavam. Silenciavam-se. E admiravam-lo, alumbrados. Raros os que o criticaram. E estes os admiradores de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos repudiaram, e cortaram com eles as relações; excluíram-los do círculo de amizade e camaradagem. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era um gênio da literatura moderna, diziam dele os seus admiradores. As idéias dele iam de boca em boca; disseminavam-las, e rapidamente, nos círculos intelectuais, universitários, literários, em todos os quadrantes do Brasil. As suas palestras, sempre repletas de ouvintes embevecidos. Nas universidades, ouviam-lo, maravilhados. Nas academias, reverenciavam-lo, curvados, joelhos no chão, a cabeça sobre o peito. Consagraram-lo o maior gênio das letras nacionais. E não atentaram para um detalhe: De Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não havia nem um livro publicado, e ninguém jamais leu um texto de sua autoria. E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, após haver lançado ao fogo todos os seus textos, os quais escreveu, segundo ele, durante as décadas em que se desencaminhou, influenciado por idéias equivocadas, que o angustiavam, e ele vivia, macambúzio, nos recantos sombrios da sua biblioteca e do seu espírito, em busca da arte literária que os livros não poderiam lhe ensinar, nenhum outro texto escreveu. Pensava as suas idéias, com esforço intelectual incomum, rara na história da espécie humana, e mentalmente as reelaborava, diuturnamente, exaustivamente, e incansavelmente, e as escreveria quando, e se, atingisse o ápice da expressão literária, perfeita, irretocável. Os seus admiradores desejavam que tal dia não tardasse a chegar. Laurearam as academias Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos com títulos de prestigio. Durante as palestras, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era infatigável – aludia à sua obra-prima, que daria à luz assim que atingisse a perfeição, fruto da originalidade almejada, dizia, e traria luz à medíocre literatura brasileira moderna, e, também, à literatura mundial, conquanto acreditasse que ela, principalmente a européia e a norte-americana, fosse infensa à simplicidade, à originalidade, corroída que estavam por técnicas narrativas modernas, dessensibilizadoras, hostis à verdadeira arte literária, que nasce da natureza humana em comunhão com a natureza, num vínculo imarcescível, diferindo, portanto, da literatura brasileira, da literatura latino-americana, da literatura africana, da literatura árabe e da literatura do sul da Ásia, as quais, embora tenham absorvido alguns vícios da literatura moderna, conservam, latentes, a beleza intrínseca do seu contato com a natureza. E arrancava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos ovações grandiloquentes e aplausos ensurdecedores do público, que, em estado letárgico, ouvia-o, mesmerizado.

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos granjeou reputação de beletrista provido de intelecto prodigioso.

Em vida, nada publicou. Morto, os admiradores da sua obra inexistente difundiram o seu nome, envolvendo-o com a aura de gênio original, universal.

Homenagearam-lo as academias.

No túmulo de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, o epitáfio: “Aqui jaz o autêntico gênio da literatura brasileira, ignorado pelo público iletrado, admirado por homens superiores que souberam reconhecer-lhe a excelência literária e apreciar-lhe a obra, que, de tão original, ele nunca a escreveu, e ninguém a conheceu”.

O conto e o prefácio

Pedi, há um mês, para um amigo meu um prefácio para um conto que escrevi. Antes não lhe tivesse pedido. Ele dissecou o conto, cortou-o em fatias, e o resumiu. Antes de publicar o conto, detive-me, e perguntei-me porque eu o publicaria, se o prefácio apresenta, em síntese, toda a sua trama. Eu repetiria, com a publicação do conto, o que está no prefácio, e o leitor ao lê-los esbravejaria: “Maldito sejas, Sergio! Li duas vezes a mesma história. Tu me fizeste perder o meu tempo. Vá para o inferno. Tenho mais o que fazer, imbecil!”. E eu teria de dar-lhe razão, e calar-me, e reconhecer a minha insensatez. E eu me perguntei uma vez mais porque eu publicaria o conto, se o conto conta o que o prefácio já contou. E decidi publicar apenas o prefácio que para o meu conto o meu amigo escreveu. Decidido, então, a publicar apenas o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, perguntei-me se o conto poderia, um dia, se encontrado por alguém, vir a ser publicado; e decidi, sem pensar duas vezes, queimá-lo, e queimei-o. Queimado o meu conto, nenhum risco existe de ele vir a ser publicado. E perguntei-me, não muito tempo depois, se eu publicaria o prefácio que para o meu conto, que eu queimara, meu amigo escreveu. Sim, eu o publicaria. E para mim justifiquei a minha decisão, que para o leitor é, presumo, uma insensatez: Prometi ao meu amigo – o autor do prefácio – que eu publicaria o prefácio que lhe pedi para o meu conto. Ele o escreveu. E eu, para não faltar com a promessa que lhe fiz e não perder o amigo, o publicaria. E prometi-me nunca mais pedir para um amigo meu, ou para qualquer outra pessoa, um prefácio para um conto meu. Eu escreverei um prefácio para os meus contos. Aliás, um prefácio para qualquer conto meu eu jamais escreverei. E se eu, no prefácio, incorrer em atitude similar à do meu amigo que escreveu para um conto meu um prefácio, e tiver de, repetindo no prefácio a trama do conto, abandonar o conto? Prefiro não arriscar. E o meu amigo, o prefaciador, perguntou-me, há uma hora, do meu conto, e eu lhe disse que eu o queimara, e ele, horrorizado ao ouvir-me, exigiu-me explicações. Dei-lhas; e ele disse que, como o meu conto não seria publicado, ele não permitiria que eu publicasse o prefácio que ele escreveu para o meu conto. E discutimos. E assim que se acalmou, meu amigo pediu-me o prefácio que me havia escrito, para relê-lo. Dei-lho. E ele, para a minha surpresa, correu, e tirou do bolso da camisa uma caixa de fósforos, e ateou fogo às folhas com o prefácio. Assim que me dei conta do que se passava, as chamas já haviam consumido todas as folhas. E queimados o meu conto e o prefácio que o meu amigo escreveu para o meu conto, a humanidade – triste humanidade! – jamais terá o prazer de ler o meu conto e o prefácio que para ele escreveu o meu amigo.

O dia mais triste

Na altura dos seus setenta anos era meu avô um homem de físico vigoroso e porte altivo. Calvo nas têmporas, rareavam-lhe as cãs no topo da cabeça – fios esparsos e curtos mal cobriam as manchas vermelho-amarronzadas que lha salpicavam. Dizia-nos ele, para mim e para seus outros netos, que tais manchas eram sujeirinhas que os anjinhos, peraltas e traquinas, arremessavam, do céu, para a Terra, para irritar os velhinhos.

Tinha um hábito meu avô: Sempre que íamos passear, antes de se retirar da sua casa, enchia ele o bolso esquerdo da camisa com balas, para distribuí-las para as crianças.

Certo dia, perguntei-lhe:

– Vovô, por que o senhor põe as balas no bolso esquerdo, e não no bolso direito?

E respondeu-me ele com a serenidade costumeira:

– Para as balas ficarem mais perto do coração.

Satisfiz-me com a resposta, que me agradou, animou-me, e sorri.

Embora mal chegado aos seis anos, tinha eu sensibilidade para captar os sentimentos que as palavras de meu avô traduziam.

Um dia, entristeceu-se meu avô. Que dia? Não me recordo. A minha memória não me permite evocar, com exatidão, o dia, a hora, o local em que se deu o evento que entristeceu meu avô. E tais detalhes são irrelevantes. Relevante foi o que se sucedeu, naquele dia, idos, já, trinta anos. Gravei, no recanto mais fundo da minha alma, os detalhes essenciais.

Estava meu avô, como lhe era hábito, vestido de calça social preta, sapatos pretos e camisa branca de dois bolsos, o bolso esquerdo estufado de balas, e meu avô esvaziava-o aos poucos, tirando uma bala, para dá-la a uma criança, e outra bala, para dá-la à outra criança… E repetia meu avô o ritual: Saudava a criança, perguntava-lhe o nome, perguntava-lhe se era ela obediente, passeava-lhe a mão direita pela cabeça, ajeitava-lhe os cabelos, fazia-lhe graça no queixo, e presenteava-a com uma bala, e brilhavam os olhos da criança e os de meu avô, que irradiava felicidade, como se admirasse um anjo.

Estava, já, quase vazio o bolso esquerdo da camisa de meu avô, quando, após atravessarmos a rua, aproximou-se meu avô de um menino de três, talvez quatro, anos, e uma mulher, sua mãe, e meu avô, ao mesmo tempo em que enfiava a mão esquerda no bolso esquerdo da camisa para dele tirar uma bala, e estendia a mão direita na direção da cabeça do menino, e abria a boca para perguntar ao menino o nome, o menino, cenho franzido, olhar maldoso, fitou meu avô, e disparou, ríspido, destilando ódio:

Fidaputa!

Uma flecha envenenada alvejou, no coração, meu avô, que se petrificou e empalideceu, estupidificado. Não conseguiu meu avô recompor-se; conservou-se ele inclinado para a frente, a mão esquerda dentro do bolso esquerdo da camisa, o braço direito estendido na direção do menino, os dedos quase lhe tocando a cabeça, e, na boca entreaberta, presas, as palavras.

Fidaputa! – repetiu, olhos fixo em meu avô, o menino, num tom mais elevado, e firme, e cortante.

E a mãe do menino, curvando-se, aproximou sua cabeça da dele, e pousou-lhe, nas costas, intimidada, e cautelosamente, a mão esquerda, e disse-lhe, constrangida, voz débil, como a suplicar-lhe:

– Querido, não fale assim com o vovozinho. Você é um menino bonzinho.

Enquanto assim dirigia-se a mulher ao seu filho, meu avô recompôs-se, de dentro do bolso esquerdo da camisa tirou a mão esquerda vazia, e recolheu o braço direito, sem desviar o olhar; olhava, entristecido, rosto lívido, sentindo profunda dor no peito, para o menino.

Senti cessar o coração de meu avô.

– Querido, diga bom-dia para o vovozinho – suplicou a mãe ao menino.

Fidaputa! – proferiu o menino, firme, a acutilar meu avô com aquele olhar diabólico, que gelou-me a espinha.

– Não diga isso, querido – suplicou-lhe a mãe, em tom débil, servil. – Seja bonzinho.

– Não! – respondeu-lhe o menino, ao mesmo tempo em que desferiu-lhe um tapa no rosto.

E a mãe massageou o rosto, fitando, com olhar servil, amedrontado, seu filho; curvada, pegou-lhe as mãos, e disse-lhe, em tom débil, a suplicar-lhe que andasse.

O menino, ao dar os primeiros passos, sobrancelhas dobradas sobre os olhos, então no fundo de crateras abismais, que lhe emprestavam ao rosto o semblante de um demônio, fitou meu avô, e rosnou, cavernoso:

Fidaputa!

E afastaram-se de meu avô e de mim a mãe e seu filho.

Encheram-se de lágrimas os olhos de meu avô, e um fio de lágrimas, que reluziu à luz do Sol, escorreu-lhe do olho esquerdo, e caiu-lhe dentro do bolso esquerdo da camisa.

Segurei a mão de meu avô, e apertei-lha, firmemente, para ampará-lo.

E rumamos para casa, a passos lentos, meu avô cabisbaixo, e eu a fitá-lo a curtos intervalos, e ler-lhe no semblante dor profunda.

Passados, já, trinta anos, falecido meu avô a dezesseis, sempre que deste episódio me recordo, pergunto-me: Quem merecia ouvir censuras, o menino, ou sua mãe?

Testemunha ocular

Presenciei, não faz muito tempo, um acidente de trânsito.

Parado, no cruzamento das ruas João XXIII e Duque de Caxias, atento aos veículos, eu me preparava para atravessar a rua João XXIII. E diante de meus olhos sucedeu um acidente envolvendo dois carros, um, vermelho, tendo, ao volante, um homem barbudo, que desrespeitou o vermelho do semáforo, e um carro preto, cujo motorista, atento ao semáforo, verde para ele, atravessava o cruzamento, quando se deu a colisão, após a freada e os pneus dos dois carros cantarem no asfalto. Ensina-nos a lei da física: Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. À colisão, que não causou grandes estragos nos carros, seguiu-se forte estrondo. Além de mim, quem mais – desconsiderando o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho – testemunhou o acidente? Eu fui a sua única testemunha ocular. Olhei de um lado para o outro, à procura de outra pessoa que o testemunhara. Não havia, lá, além de mim, do motorista do carro vermelho e do motorista do carro preto, nenhuma outra alma viva, nenhum outro filho de Deus, nenhum outro descendente de Adão e Eva, que testemunhara a colisão entre os dois carros. Eu não era a única pessoa presente nas proximidades do cruzamento da João XXIII com a Duque de Caxias; era eu, no entanto, a única pessoa que estava de frente para os dois carros envolvidos no acidente no instante em que o acidente se deu. E eu lamentei tal privilégio. A exclusividade testemunhal não me agradava.

Várias pessoas, atraídas pelo barulho da colisão, voltaram-se para o entroncamento da João XXIII com a Duque de Caxias, e, açulados pela curiosidade, pousaram os olhares no homem barbudo que estava no carro vermelho e no motorista do carro preto. Todas aquelas pessoas, excitadas pela curiosidade agora, estavam, no instante da colisão dos dois carros (saliento este ponto, certo do que escrevo – e a atitude delas corroboram o que escrevo), de costas para a intersecção da João XXIII com a Duque de Caxias, e ninguém, estou ciente disso, encontrava-se em uma posição tão privilegiada quanto à minha, e ninguém, ninguém, repito uma vez mais, além de mim, poderia apresentar um depoimento fiel ao desenrolar dos eventos. Eu, e apenas eu, assisti à colisão, e com meus olhos, olhos que os vermes hão de comer após eu bater as botas, abotoar o paletó, deitar de pés juntos sete palmos abaixo da Terra. Aproximaram-se dezenas de pessoas, curiosas todas elas, dos dois carros parados no meio da rua. Eu, não. Conservei-me imóvel. Vi que o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho não se feriram no acidente. Não me preocupei com eles; aliás, com eles preocupei-me, mas não pelas razões comuns em casos tais; eu não queria que eles me vissem; eu queria invisibilizar-me – e assim que policiais chegassem ao local, que ninguém se lembrasse de mim, apontasse-me, e declarasse que vi o que ocorreu, e os policiais, então, me dirigissem a palavra, e pedissem o meu depoimento. Eu queria evitar-me transtornos.

O motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho apearam dos carros, então rodeados de multidão de curiosos. Ouvi as vozes dos motoristas, que praguejavam. Culpavam-se um ao outro pelo acidente. Se ninguém interviesse, eles se engalfinhariam, e proporcionariam um espetáculo inesquecível, comum entre pessoas civilizadas, aos curiosos. O motorista do carro preto levaria a pior. O motorista do carro vermelho, forte, começou a impor-se ao motorista do carro preto, que, por sua vez, não abaixou a crista – afinal, ele não desejava amargar prejuízo; além do mais, com ele estava a razão. O que mais me chamou a atenção não foi a conduta dos dois motoristas, que era compreensível; foi o testemunho dos supostos espectadores do acidente. Havia um flagrante contraste ente a realidade e a ficção apresentada pelos que diziam que testemunharam o acidente, e apenas eu o notava; afinal, fui a única testemunha ocular do acidente. A imprudência do homem barbudo culminou com a colisão, que não acabou em tragédia porque o motorista do carro preto ia em baixa velocidade. Algumas pessoas que rodearam os carros, os motoristas envolvidos no acidente e os dois policiais que compareceram ao local defenderam o motorista do carro vermelho, e outras defenderam o motorista do carro preto. Eu, que era a única testemunha ocular do acidente, e poderia oferecer um relato imparcial e objetivo do que ocorreu, calei-me, dei dois passos para trás, e permaneci, calado, braços para trás, dedos cruzados, a acompanhar, atento, as controvérsias. Eu já disse, e repito, mais uma vez, e não me cansarei de repetir quantas vezes forem necessárias: Fui a única testemunha ocular do acidente. Os dois policiais colheram testemunhos desencontrados. O motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho trocaram desaforos. A multidão aguçou a audição. Pressentiu que, à troca de ofensas verbais seguir-se-ia socos e pontapés, e a excitou a perspectiva de assistir à uma luta livre. O círculo fechou-se em redor dos motoristas. Os policiais intervieram, e amansaram o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho, desagradando ao público sedento de sangue.

Repito uma vez mais. Fui a única pessoa que testemunhou o acidente. E eu era, repito, a única pessoa que poderia prestar um depoimento detalhado, fiel aos eventos, e encerrar a confusão que os depoimentos daquelas pessoas que não testemunharam o acidente e o do motorista do carro preto e o do motorista do carro vermelho criaram, mas não atuei para encerrá-la. Tratei, antes que eu me revelasse aos motoristas envolvidos no acidente, de me retirar de lá, e de fininho. Eu não queria para mim dores de cabeça. E para evitá-las, fui-me embora, antes que Anselmo, o motorista do carro vermelho, e Dâmocles, o motorista do carro preto, ambos meus amigos, me vissem.

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