Ração boa pra cachorro

Dirigiu-se Antonio Roberto, às dez horas da manhã, à loja de vendas de artigos para animais; assim que lá chegou, atendeu-o uma funcionária, moça de uns vinte anos, baixa, de, se muito, um metro e sessenta de altura, esbelta, que então ajeitava, com uma maria-chiquinha, os cabelos pretos, lisos, volumosos. Sorridente, ela saudou-o, exibindo-lhe sua fileira de dentes brancos: “Bom dia, senhor. O que o senhor deseja?” E Antonio Roberto respondeu: “Ração para um cachorro velho, de dentes bem fracos.” “Cachorro pequeno, ou grande?” “Médio. Um vira-lata. Ele tem, acho, uns quinze quilos.” “Temos estas duas rações.” – e mostrou-lhe os dois pacotes. “São boas para cachorros velhos de dentes fracos?”, perguntou-lhe Antonio Roberto. “Sim, senhor. São macios. Veja.” – e apertou a moça dois pacotes, um de cada tipo de ração que indicara a Antonio Roberto, sentindo a ração entre os dedos. E Antonio Roberto repetiu-lhe o gesto. “É verdade. São macios, bem macios. Vendem à granel?” “Sim, senhor. De quanto o senhor precisa?” “Das duas rações, meio quilo de cada. Darei das duas para o meu velho amigo, e verei qual delas ele come, qual não.” “É melhor, né? Assim não desperdiça ração.” E a moça pesou meio quilo de cada uma das duas rações escolhidas, e entregou a Antonio Roberto um pequeno pedaço de papel com o logotipo da empresa, no qual escrevera o preço a pagar pelas rações, e disse-lhe que pagasse no caixa e retirasse a compra no balcão. E ele seguiu-lhe as orientações. Aproximava-se Antonio Roberto do balcão, quando a moça que o atendera afastou-se para falar com outra funcionária; e chegou-se ao balcão um funcionário, que, vendo a sacola com as rações empacotadas, perguntou para Antonio Roberto: “Esta ração é para o senhor?”, e ele lhe respondeu: “Para mim, não; é para o meu cachorro.” O funcionário riu, a moça riu e pegou a sacola e entregou-a a Antonio Roberto, e agradeceu-lhe a visita à loja no mesmo instante em que ele, rindo, dizia: “Esta ração é boa pra cachorro.”

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Eu, a refeição.

Ao passar, hoje de manhã, um pouco antes do almoço, pelas bordas da feira, à praça da Liberdade, nas proximidades do Mercado Municipal, a carregar duas sacolas, minutos após retirar-me do banco, onde eu pagara quatro boletos, ouvi, de um homem de estatura mediana, um pouco mais baixo do que eu, rosto de pele morena, curtida de sol, acobreada – não digo que era marrom, cor de terra -, de, presumo, uns cinquenta anos, uma sentença – que ele dirigiu a todos os que se encontravam no raio de sua possante voz -, que me assustou, obrigando-me a voltar para ele a atenção, e nele detê-la, o que fiz durante alguns segundos, poucos, e logo tratei, célere, de me afastar, confuso, e perplexo, e assustado, e preocupado; e ao chegar à esquina, olhei para trás, à procura – meus olhos esgazeados, acredito – daquele homem de quem trato nesta crônica, que é curta, e não o encontrando, segui meu caminho, pensativo. Anunciava o homem temperos, que ele carregava, seis deles, acondicionados em saquinhos transparentes, de plástico, dispostos sobre uma bandeja de plástico, branca, que ele carregava com a destreza de um equilibrista. Em quatro dos pequenos sacos havia pó, em um, verde, em outro, preto, em outro, amarelo, em outro, branco, e nos outros dois havia, em um, grãos, não me lembro de que cor, e no outro, folhas picotadas. Eram temperos, segundo o personagem que os anunciava à venda. Temperos. E há mal em se anunciar, em praça pública, temperos, para um público numeroso? Não. Não há. O que aquele homem disse, e no tom em que ele disse o que disse, sim, vi um mal, mas me pergunto, agora, na minha casa, calmo, à escrivaninha, lapiseira à mão, a escrever estas palavras, se entendi o que ele disse, se ouvi o que pensei ter ouvido, se a minha imaginação, excitada, me fez dele ouvir palavras que ele não disse, melhor, me fez ouvir as palavras que ele disse e emprestar-lhes significados que não possuíam.

Naquele personagem, que é o principal desta minha crônica, vi, ao observá-lo de uma certa perspectiva, um botocudo, e dos mais ferozes, com os seus singulares paramentos, e de outra, um aimoré indomável, de olhar petrificante, e de outra, um tupinambá pronto para avançar sobre Hans Staden. Parecia-me ele o Boaventura da Costa, personagem de um conto de Aluísio Azevedo, mas diferente dele, que aos olhos de uns era um ancião que já havia recebido a extrema-unção, e aos de outros um recém-nascido no instante em que levava do obstetra um tapinha inofensivo, eu via, no meu personagem, índios, melhor, silvícolas ameríndios, nativos da América, aqueles homens asselvajados que, à chegada dos portugueses, ainda viviam na idade da pedra – não sei se da polida, se da lascada -, a cobrirem-lhes as vergonhas as vestes que a natureza lhes deu, a manejarem instrumentos de caça e com a desenvoltura de matadores profissionais; nele eu vi antropófagos, monstros canibalescos, criaturas dos pesadelos que atormentam os seres humanos desde o nascer do universo.

Mas o que, afinal, pergunta-me o leitor, aquele homem disse que me fez ver, nele, um tipo humano que me provocou reação tão negativa. Três palavras, paciente leitor, apenas três palavras, e nenhuma outra além delas. E assustaram-me e intrigaram-me tais palavras. Quais palavras, insiste o leitor em conhecê-las. Digo: estas: “vamos”, “temperar”, “gente”. E ao recordar tal episódio da minha vida de um homem que está às portas da segunda casa dos “enta”, pergunto-me, repetindo pensamento que apresentei em alguma linha acima desta, se ouvi o que ouvi, o que, melhor, pensei ter ouvido. Peguei uma pulga, e a sentei atrás da minha orelha, e pedi-lhe que me ajudasse a pensar acerca de tão intrigante episódio. Disse aquele homem, ao anunciar os produtos que oferecia à venda, “Vamos temperar gente.”, ou “Vamos temperar, gente!”? Se é a interpretação correta das palavras dele a segunda opção, então, obrigo-me a concluir que ele dizia às pessoas que, se o desejassem, lhe comprassem temperos, para condimentar suas refeições. Se é a primeira, então ele se preparava para deliciar-se com uma refeição, que, penso, seria digna dos deuses, dos deuses ameríndios, obviamente; resta-me saber se ele já havia preparado a carne para receber o tempero, ou se estava à caça de uma que lhe atendesse ao paladar – eu, que não pretendia saber qual era a resposta correta, tratei, e logo, instintivamente, de passar sebo nas canelas, e dele afastar-me o mais rapidamente que podia. Fiz bem, acredito.

Aceita um cafezinho?

Eram sete horas da manhã de um sábado. Roberto e Maria, que acordaram às seis horas, preparavam o café-da-manhã. O dia acordara nublado; o clima, ligeiramente frio. Dormiam, a sono solto, os dois filhos do casal, um menino de nove anos, e a menina, de sete. Assim que Roberto pegou o telefone para contatar seu irmão, com quem iria, às dez horas, ao hospital, visitar o pai, Vinicius, internado, havia dois dias, devido os graves ferimentos que lhe resultaram de um acidente de carro em que se envolvera, soou a campainha, suavemente, uma vez. Abandonou Roberto o telefone e foi à porta; assim que a abriu, exibiu um largo sorriso; diante de si, a figura pequena, de Teresinha, sua tia-avó, irmã de seu avô paterno, mulher nonagenária, de fibra inesgotável. Trajava a idosa venerável um vestido simples, colorido, e tinha presos os cabelos com maria-chiqunha que uma sua bisneta lhe presenteara no aniversário natalício do ano anterior. Foi Roberto saudar sua tia-avó com um caloroso abraço e beijos carinhosos e afetuosos no rosto, e convidou-a para entrar à casa. Entraram. Queria Teresinha notícias de seu sobrinho, o pai de Roberto, e este lhas deu com todas as minúcias que sabia. Entrada na cozinha, a simpática idosa saudou, com todo o carinho do mundo, a esposa de seu sobrinho-neto, e ela lhe correspondeu com carinho equivalente. Havia dez anos não se encontravam para um dedo de prosa Teresinha com Roberto e Maria, desde que estes, recém-casados, deixaram a roça para irem morar na cidade.

– Tia Teresinha – falou-lhe, amavelmente, Maria -, a senhora aceita beber café conosco?

E a nonagenária, sorridente, respondeu-lhe:

– Agradeço o convite, querida. Mas café eu não quero, não. Bebi um bom dedo do pretinho na casa da minha Elizabeth. Não é desfeita. Mas se não for demais pedir, eu aceito um pedacinho de nosco.

Roberto e Maria de imediato entenderam a confusão que a tia-avó fizera; e Maria, antecipando-se a ele, foi à prateleira, desta abriu uma de suas quatro portas, e puxou um pote de vidro, vazio, e disse à Terezinha, mostrando-lhe o pote:

– Perdoe-me, tia. Esqueci que tinha acabado… Mas temos bolachinhas, biscoitinhos e bolinhos de laranja.

– Não se acanhe, menina – disse-lhe Teresinha. – Eu aceito uns biscoitinhos. São de nata?

– Temos de nata e de leite – respondeu Maria.

– Então eu comerei um de cada. Ou mais – disse Teresinha, que sorriu, divertida.

O café-da-manhã foi recheado de lembranças.

Um herói

Hoje, 12 de Março de 2.021, de manhã, um pouco depois das onze horas, fui ao centro daqui de Pindamonhangaba, às proximidades da Praça Monsenhor Marcondes.
Dia quente. Temperatura acima de vinte e cinco graus. Sol de rachar a cabeça.
Abordou-me um homem de idade avançada, miúdo – tem ele, se muito, um metro e sessenta -, magriço, de cabelos, poucos, totalmente brancos. Sua compleição, de cansaço. Andava lenta e cuidadosamente. Máscara não lhe cobria o rosto, de traços suaves, repleto de vincos. Falou-me num tom de voz que, de tão baixo, quase inaudível, obrigou-me a me aproximar dele, e curvar-me para ouvi-lo. Nossas cabeças quase se tocaram; não distavam uma da outra dez centímetros. E eu o ouvi dizer-me: “Moço, você viu um homem magrinho, de cabelo curto, e de olhos um pouco arregalados, e de camisa e calças sujas, pretas. Calças pretas; e camisa meio marrom e meio cinza?” “Não. Não vi”, respondi-lhe. E observei-o, sem saber o que lhe dizer. “Na segunda-feira – prosseguiu o velhinho -, ele pediu-me… Foi ali, naquela esquina – e apontou-me o outro lado da rua. – Ele me pediu que eu lhe comprasse comida; estava com fome. Eu não trazia comigo nem sequer um tostão, eu lhe disse. E ele me olhou, sabe? triste, e disse-me que estava tudo bem e que eu fosse com Deus. Estava encostado na parede. Eu fui embora. E desde então estou pensando nele. Ele estava com fome. E eu não pude ajudá-lo. E terça, e quarta, e ontem, e hoje, vim encontrá-lo. Mas não o encontrei. Não sei quem ele é. E eu não o encontro.” E calou-se, voz embargada, lábios trêmulos. Engoli em seco; fitei-o em silêncio, e o esperei retomar a palavra, o que ele não tardou a fazer: “Eu venho, desde aquele dia, pensando naquele homem, que precisou da minha ajuda; e eu não pude ajudá-lo. Que Deus me perdoe. Deus queira que ele tenha conseguido comida; que alguma alma cristã tenha-o ajudado.” E calou-se, visivelmente constrangido, entristecido. Fitou-me, orvalhados seus olhos. E despediu-se de mim: “Que Deus te acompanhe, moço.” E afastou-se de mim, lenta e cuidadosamente, detendo-se a curtos intervalos, sempre a olhar ao redor, à procura do homem que dias antes lhe pedira ajuda.

O Mentiroso

– Foi o que aconteceu – esbravejou Rodolfo, visivelmente irritado.

– Não foi, não, Rodolfo – retrucou Renato. – Lembra-se do que você contou para todo mundo?

– Contei o que aconteceu.

– Você contou uma história bem conveniente.

– O que você está querendo me dizer?!

– Que você mentiu.

– Menti?!

– Mentiu.

– Não menti.

– Mentiu. Você mentiu.

– Menti?! Lembro-me, e muito bem, do que eu fiz e disse. Não menti.

– Mentiu. Você é um mentiroso profissional. Você contou mais uma das suas infinitas mentiras.

– Você me ofende. Que outras mentiras contei?!

– Que outras mentiras!? Ora, Rodolfo. Perdi a conta de quantas mentiras você já contou. Perdi a conta. Você mente, e mente, e mente, e mente… E mente. Até a respeito do seu nome você mente.

– Quê!?

– Para a Lucinha você disse chamar-se Leandro; para a Mariângela, Luciano; para a Gorete, Vinicius. E mentiu sobre os seus pais e a respeito da cidade em que nasceu…

– Não acredito no que você me diz.

– Se você acredita ou não, o que você fez já está feito, e não vai fazer com que você deixe de ser o mentiroso que você é, e as pessoas não deixarão de saber que você é um mentiroso incorrigível. Todos sabemos que você nada mais é do que um mentiroso. Sorte sua que hoje em dia não há um Gepeto perambulando por aí.

-Quem é Gepeto?

– Você nunca ouviu falar do Collodi?

– Não.

– E do Pinóquio?

– Já. Quem nunca ouviu falar dele?! O que o Pinóquio tem a ver com o tal de Gepeto e com o tal do outro que você mencionou?

– Collodi é o autor do livro que conta a estória do Pinóquio e Gepeto é o personagem que, na estória, dá vida ao Pinóquio.

– E o que os três têm a ver com o que aconteceu ontem?

– Para certas coisas você é esperto, esperto até demais; para outras, asnaticamente burro.

– Você me ofende.

– Se eu digo que não existe nenhum Gepeto por aí e que ele deu vida ao Pinóquio, o que você entende?

– É uma indireta?

– Enfim, você despertou de um sono profundo.

– Você está me dizendo que eu sou tão mentiroso quanto o Pinóquio?!

– Não. Estou dizendo que você é mais mentiroso do que ele. Muito mais.

– Grande amigo você é.

– Já livrei você de muitas enrascadas nas quais você se enroscou por causa das suas mentiras. Desta vez, você que se entenda com a Adriana. Eu não direi para ela que eu e você fomos, ontem, ao campo de futebol.

– Mas você e eu fomos ao campo de futebol.

– O quê!? Onde você está com a cabeça!?

– Não fomos ao campo de futebol, ontem, não?!

– O quê!? Do que você está falando? Não fomos ao campo de futebol, ontem. Eu e a Andressa fomos ao cinema. E você e a Beatriz, ao motel.

– Não fui ao motel.

– Foi.

– Não fui.

– Pois eu digo que foi. E digo com todas as letras: Você traiu a Adriana. E não foi a primeira vez. E não será a última, com certeza. Faça-me um favor, Rodolfo: Não me envolva mais em seus problemas. Eu vou embora.

– Espere um pouco, Renato. Não me deixe na mão. Estou confuso. Não me lembro de ter ido com a Beatriz ao motel. Que Beatriz!? E eu traí a Adriana!? Eu sou incapaz de traí-la. Eu, trair a minha cara-metade!? Jamais! Traição é crime imperdoável. Eu amo a Adriana. Ela é a paixão da minha vida. Meu docinho de coco. Casei-me com ela porque eu a amo. Sou incapaz, incapaz, entendeu!? de traí-la. Eu e você fomos, ontem, ao campo de futebol. Eu sei que fomos ao campo de futebol, Renato. Eu sei.

– Com toda a sinceridade, Rodolfo: Você está muito estranho ultimamente. Até você acredita nas suas mentiras. É o cúmulo dos absurdos.
*
Uma semana depois:
Casa de Rodolfo e Adriana.
Domingo.
Uma e quarenta e cinco da madrugada.
À escuridão da sala, Adriana, sentada no confortável sofá, trajando, unicamente, uma camisola; com as pernas cruzadas, a direita por sobre a esquerda, movia o pé direito – percebia-se-lhe sinais de irritação e impaciência; semi-adormecida, quase sucumbindo ao sono, aguardava Rodolfo.
E Rodolfo entrou em sua casa. Seus passos, lentos, cuidadosos, silenciosos.

– Por que você demorou tanto, querido? – perguntou-lhe Adriana assim que ele, ao apertar o interruptor, acendeu as duas lâmpadas da sala.

– Querida. O que você faz, aqui, no escuro?! Por que você está, aqui, no escuro?! E de camisola?!

– Eu estava esperando você.

– Esperando-me!?

– Sim. Eu estava esperando você. Você demorou. Faz tempo que estou esperando você.

– Desculpe-me, querida. Você sabe como é a minha vida atribulada. Nos finais de semana, eu vou, você sabe, com os amigos jogar futebol no campo de futebol perto da cada do Renato, ou no perto da casa do pai dele, ou no perto da Igreja São Benedito.

– Querido…

– O Renato convidou-me para ir lá, hoje, jogar uma pelada e beber umas loiras geladas. Fui. E não vi a hora passar. Desculpe-me. Peço desculpas, Adriana. A hora passou. Nossa! Duas horas! Já!? Pelo amor de Deus! Como o tempo passa depressa!

– Querido…

– E eu pensando que eram, ainda, umas dez da noite, e nem um segundo a mais. E já são duas da madrugada! Pelo amor de Deus! O que aconteceu com os ponteiros do relógio!? Como o tempo passa depressa! Nossa Senhora! E eu pensando que era cedo ainda. Modo de falar, né, querida. Força de expressão. Eu não imaginei que fiquei tanto tempo lá no campo, com o Renato, o Vinicius, o Pedro, o Carlos, o Ricardo, o Paulo, o Roberto, e outros camaradas meus, jogando futebol, desde… Desde que horas? Desde às seis… desde às cinco… Não me recordo. Depois de um dia de trabalho cansativo, muito cansativo, você sabe, né, querida! preciso de uma partidinha de futebol com os amigos, para espairecer, queimar as calorias, gastar as energias, e renovar as energias, gastando-as. É um paradoxo. Um paradoxo. Gasta-se energia, para renová-la.

– Querido, do que você está falando?! Assim que chegamos, eu da casa de mamãe e você da casa de seu irmão, principiamos conversa, que os latidos do Golias interromperam. E você foi ao quintal saber porque o Golias latia tanto, e eu fui banhar-me. E assim que saí do banho, sentei-me, aqui, e fiquei à sua espera. E já faz quase duas horas que você foi ao quintal. Por que você demorou tanto tempo?! Por que o Golias latia tanto? E que história é essa de terem ido jogar futebol você, o Renato, o Vinicius, o Pedro, o Roberto?! Você não saiu daqui de casa depois que regressamos, você, da casa de seu irmão, eu, da de mamãe.

– Golias!? Latidos!? Mamãe!? Meu irmão!? Querida, eu vim do campo de futebol, não vim!?

Atração irresistível

Era o doutor Castelo Branco aquele homem altivo de andar firme e com ar de aristocrata de tempos não muito distantes. Parecia um contemporâneo de Joaquim Nabuco que entrou em uma máquina do tempo, e transportou-se para a primeira década do século 21. Reputado juiz de direito, é respeitado e admirado por todos os munícipes. Seu pai e seu avô foram personalidades históricas. Seu avô, por antonomásia o Velho, tinha o porte de um imperador; no município, dizem ainda hoje, ele mandava mais do que o prefeito. Se é lenda ou não, ficou na mente do vulgo que ele era o cacique e o pajé deste município, outrora uma vila de ruas de terra pelas quais circulavam carroças.

O doutor Castelo Branco conservava, em todas as ocasiões, a dignidade que o cargo lhe exigia e o título lhe impunha. Jamais perdia a compostura e nem negligenciava a correção da pronúncia; não descia ao vulgo; o seu vocabulário, requintado. Um Rui Barbosa redivivo. Ele não considerava de bom-tom, para sustentar a sua digníssima autoridade, assumir atitudes indignas de um homem de sua posição privilegiada.

– Doutor Castelo Branco – abordou-o um transeunte, homem rústico de vestes vulgares, cabelos ensebados, falhas nos dentes, pele curtida de sol, mãos calosas.

– Bom dia, senhor – saudou-o, altivo, o doutor Castelo Branco, oferecendo-lhe a mão direita.

– Ótimo trabalho, doutor. Ontem, vossa senhoria mandou aqueles cafajestes filhos-da-mãe para o xilindró. Que Deus Nosso Senhor os envie para o inferno! Somos gratos, doutor. Deus vos guarde, vos ilumine. Que Deus vos dê saúde, muitos anos de vida, sabedoria e coragem para arrostar os filhos-da-égua que infestam esta cidade.

– A justiça é o norte dos filhos de Deus Nosso Senhor – sentenciou o doutor Castelo Branco. – Exige de nós homens de direito respeito às leis e dedicação aos estudos, numa faina diária, em prol do bem-estar das pessoas de bem. Ser-me-ia impossível exercer o nobre labor de homem da lei, se não me animasse o amor aos humanos. Orienta-me, em meu diligente trabalho, os ditames das leis divinas e os das leis dos homens. A justiça não é uma quimera. Aprendi, como sabeis, com meu saudoso avô, a jamais descurar de minhas incumbências, a jamais me acovardar diante do escárnio que me cospem as pessoas de má-fé, a jamais transigir diante das ameaças à minha integridade. Envidei todos os esforços no combate do bom combate. Não me aviltei. Não permito que os crápulas me empanem a visão com argumentos enviesados, oratória florida e salamaleques. Os que se confrontaram comigo, partiram do pressuposto de que todos os representantes da lei são corruptíveis. Enganaram-se. O povo desta cidade clamava por justiça. Como representante da justiça, impelido por nobres sentimentos, em mim inculcados por meus ascendentes, respeitáveis, vós sabeis, respeitando a justiça dos homens, inspirado pela justiça de Deus, para restabelecer a ordem nesta cidade, cujos moradores, decentes filhos de Deus, indignados com a selvageria animalesca de arautos de Satã, estavam na iminência de sucumbirem ao ódio, que corrói a alma, e violarem as leis de Deus, puni, com justiça, como representante da lei, os bandidos execráveis que ousaram seviciar e assassinar uma angelical menina, amada e adorada por todos nós. Não pleiteio galardões, senhor. Vossas palavras me são valiosas. Recuso os encômios. Deus concedeu-me força, coragem e sabedoria. A justiça está feita.

O transeunte renovou seus elogios ao doutor Castelo Branco, apertou-lhe a mão, e tocou-lhe, de leve, no ombro, receando enodoar o terno, que reverberava à luz do sol.

Ao despedir-se do transeunte, o doutor Castelo Branco prosseguiu, com passos cronometrados, a postura ereta, o queixo erguido, altivo, a sua caminhada até o Fórum Municipal.

– Aquele homem encarna a justiça – comentou o transeunte que cumprimentara o doutor Castelo Branco.

– Quem é ele, Raimundo? – perguntou-lhe um gordo atarracado com camisa e calça rasgadas.

– O doutor Castelo Branco.

– Foi ele que meteu no xadrez aqueles filhos-de-uma-égua que estupraram e mataram a filha do José da Granja e da dona Amélia?

– Foi ele, e não poderia ter sido nenhum outro. Ele, e apenas ele, tem coragem para mostrar aos facínoras quem é que dá as cartas aqui e pôr ordem na casa. O que pensavam eles? Eles pensaram que iriam embora, sem pagar pelos pecados?

– O doutor é um homem elegante, distinto. Nem um vinco no terno… De porte de rei.

– De majestade! De excelência!

– De reverência!

– De excrescência.

– Excrescência!? Não. Excrescência é palavrão, Raimundo. O doutor que mandou os estupradores e assassinos para o xilindró, e que eles apodreçam lá!, não é um palavrão. Raimundo, você está fazendo confusão. Excrescência é pústula, é verruga no nariz, é casca de ferida, é dente encavalado, é olho torto, é lábio de coelho, é chifre em cabeça de cavalo, é pêlo em casca de ovo, é pé virado do Curupira, é o nariz do Tião da Farmácia.

O doutor Castelo Branco caminhou pelas tranqüilas ruas da cidade. Os munícipes cumprimentavam-no, uns, com respeitoso aperto de mãos; a maioria dele conservou respeitosa distância, saudou-o com um gesto de mão, com um respeitoso “Oi”, ou um “Bom dia, doutor”.

O doutor Castelo Branco não transparecia a vaidade que lhe inflava o ego. Sustentava a elegância e a nobreza do porte e a fisionomia serena, impassível.

– Que homem! – suspiravam as mulheres solteiras, as casadas, as viúvas, as desquitadas, as jovens, as adultas e as velhas. – Doutor Castelo Branco! Não conheço homem tão elegante, tão charmoso. Que voz! Culto. Inteligente. Ele é o homem dos meus sonhos.

No verão de calor infernal, o doutor Castelo Branco saudava os transeuntes, sereno, impassível. Os seus passos, firmes. Atraía a atenção de todas as pessoas, que dele admiravam a postura, a elegância, os gestos suaves. Transpirava nobreza e autoridade. Destoava da multidão. “O doutor Castelo Branco. O doutor Castelo Branco”, sussurravam os munícipes que o apontavam, admirados com a elegante e majestosa figura do filho ilustre da cidade.

O doutor Castelo Branco passou pelo jardim da Igreja Matriz – acompanharam-no três dúzias de pares de olhos. Fez o sinal-da-cruz, voltado para a magnífica igreja edificada no século XVIII, e extraiu exclamações de louvor de todos os que testemunharam tão simples gesto. De repente, surpreendendo a todos, ele olhou para o céu, arregalou os olhos, que brilhavam de satisfação, escancarou a boca, e gritou:

– Içá! Içá!

Pondo a todos boquiabertos, correu como um medalhista olímpico nos cem metros rasos, passou pela frente de um carro, cujo motorista afundou o pé no pedal de freio e evitou a colisão, atravessou a rua, saltou, superou a altura alcançada pelo recordista mundial em salto em altura, e apanhou, a três metros de altura, a desacautelada formiga.

A professora

No banco, na fila, um homem e uma mulher conversavam.

Em certo momento da conversa, a mulher disse para o homem:

– Eu sou professora.

– De qual matéria? – perguntou-lhe o homem.

– De Língua Portuguesa.

– E o que você ensina para os seus alunos?

A mulher virou-lhe as costas, dando a conversa por encerrada.

A mulher que não fofocava

Gustavo acordou, naquele domingo de verão, às seis horas da manhã, fios de luz do sol a invadir o quarto, pelos interstícios das tábuas da janela deteriorada, durante trinta anos, sob golpes de ventos, que a atingiram com violência em não raras ocasiões, vibrando-lhe toda a estrutura e lançando-a contra a parede, e sob chuvas torrenciais, que atingem a região em dias quentes de verão, e, em raras ocasiões, sob granizos, que a afetaram consideravelmente. Jamais se dispôs a reparar a janela, ou a substituí-la por uma janela nova. Limitou-se, apesar de todos os rogos de Ludmila, sua esposa, a pregar tábuas às tábuas originais que a constituíam quando ele a comprou e a instalou em sua casa. Fosse de tábuas de madeira não tão resistentes, a janela já havia se desmantelado por completo muitos anos antes.

Ao lado de Gustavo, dormia Ludmila a sono solto. Na ponta dos pés, cuidando para não fazer ruídos que pudessem vir a despertá-la, foi Gustavo até a porta, abriu-a lenta e cuidadosamente, e assim que passou pelo enquadramento, fechou-a com o mesmo cuidado e lentidão, e andou, com passos firmes, até o banheiro. Não haviam se passado trinta minutos, vestido, rumou à cozinha, onde preparou o seu café-da-manhã, que consistia em um copo de café com leite, uma xícara de café, um pão francês com queijo-prato derretido, um pão italiano, metade de um abacate, um caqui e pedaços de mamão. Encerrada a refeição, lavou a louça, regressou ao quarto, do criado-mudo pegou a carteira, deu, na testa de Ludmila, um suave beijo, carinhoso, retirou-se do quarto, todo o tempo tomando cuidado para não emitir ruído que pudesse vir a despertar a sua esposa, foi ao banheiro escovar os dentes, e não muito tempo depois, se muito cinco minutos, retirando-se de sua casa, fechou atrás de si a porta, e rumou para o ponto-de-ônibus, onde havia, sentada no banco, uma mulher gorda, tendendo para o obeso, a fisionomia de mau-humor despertando em Gustavo um comentário silencioso: a mulher chupara um limão azedo, o que explicava, dela, cara de poucos amigos. Saudou-a com um gesto e um bom-dia, e dela recebeu silêncio constrangedor e um olhar de Medusa, que o converteria em uma estátua de pedra se ele não tomasse a providência de desviar o olhar, o que fez, de imediato, incapaz de sustentá-lo. Nenhuma criatura mitológica provocaria em Gustavo a corrente de calafrio que lhe vibrou todo o corpo, e o espírito também, assim que ele fitou aquela mulher. E esperaram o ônibus Gustavo e a mulher durante um bom tempo. E antes de o ônibus chegar àquele ponto-de-ônibus, uma outra mulher chegou e saudou a mulher sentada no banco, tratando-a pelo nome, Maria Teresa. Já se conheciam as duas mulheres, e tinham elas no trato familiaridade, como indicava a liberdade com que a mulher dirigiu a palavra à Maria Teresa. Após saudar Maria Teresa e dela receber uma saudação contida e um bom-dia dito numa voz cavernosa, se lhe sentou a mulher ao lado, e com ela encetou conversa, a qual Gustavo ouviu, contrariado, suplicando a Deus o envio imediato de um ônibus para aquele ponto de parada de ônibus. Maria Teresa era lacônica; as suas intervenções no seu colóquio com a sua interlocutora, cujo nome era Camila, resumiam-se a frases curtas de no máximo dez palavras; na maior parte do tempo a sua participação limitava-se a um assentimento com um mover da cabeça, lento. Gustavo perguntou-se que virtude possuía Camila que a permitia conversar com, e olhar para, Maria Teresa, mulher cuja fisionomia transparecia um aspecto, o qual ele não sabia definir, que lhe despertava, nele, Gustavo, o desejo de matar-se.

Contrastavam o temperamento de Camila e o de Maria Teresa; aquela era loquaz, expansiva, extrovertida; esta, lacônica, contida em si, introvertida. De um modo inexplicável, entendiam-se. E Gustavo, mesmo não o desejando, ouviu a conversa que elas mantiveram, conversa que Camila principiou e da qual Gustavo, após regressar à sua casa, para o almoço, fez referência à Ludmila, sem entrar nos detalhes, os quais ele jamais saberia reconstituir, de tão numerosos.

Entrando num comentário a respeito do longo tempo em que não se viam Camila e Maria Teresa, e declarando que elas tinham de pôr as novidades em dia, Camila, sem dar à sua interlocutora oportunidade de respirar, inteirou-a de alguns eventos que ela, Maria Teresa, presumia Camila, ignorava:

– Encontrei-me, Maria Teresa, com a Roberta, a esposa do Vinicius. Ela me falou da vida de todos os vizinhos dela. Que mania ela tem! Fala, a mexeriqueira, gozando do prazer de dar todos os detalhes da vida de todos. Que coisa! Eu não gosto de fuxicar a vida alheia. A Roberta, fofoqueira incorrigível, não perde nem uma oportunidade sequer de falar da vida alheia, e tampouco de colher informações da vida de todos, para, depois, espalhá-las aos quatro cantos do universo. Infelizmente, há muita gente que, do mesmo modo que ela, vive de fofocas. São pragas tais pessoas. Ela fala da vida alheia, mas não fala da própria vida. Não é engraçado!? O que ela diz de si mesma? Nada. Ela esconde de todos coisas da própria vida, mas as pessoas sabem o que se passa com ela, pois as paredes têm ouvidos, e os passarinhos também. E alguns passarinhos têm nomes, e um desses passarinhos, cujo nome é Marcela, contou-me, há quatro meses, que a Roberta e o Vinicius discutiram a ponto de ela dar-lhe um tapa na cara e ofendê-lo nos termos com os quais uma esposa jamais trata o próprio marido. E como é escandalosa, a Roberta ergue o tom de voz sem se preocupar se os vizinhos a ouvem. E eles a ouvem, afinal a voz da Roberta atravessa as paredes. E o que a Roberta fala da discussão dela com o Vinicius? Nada. Ela, fofoqueira sem igual no mundo, fala da vida de todos; da vida dela, não. E a Marcela, numa outra vez, há um mês, disse-me que ouviu uma discussão entre a Roberta, o Vinicius, e a Paula, a filha deles, mocinha de uns dezenove anos, leviana, que namora um tal de Anderson, que, dizem todos os da vizinhança, não é flor que se cheire. Mexeriqueira de marca maior, que vive de fuxicar a vida alheia, não perdendo a oportunidade de praticar o seu esporte predileto, a fofoca, disse-me: “Ouvi, e com os meus ouvidos que Deus me deu pra mim, Camila, a discussão, que se deu, na casa da Roberta, entre ela, Roberta, e o Vinicius, aquele banana, e a Paula, aquela mocinha, que, bonita por fora e feia por dentro, é um demônio em forma de mulher, e só se envolve com gente imprestável, como o tal de Anderson, que ela namora, homem que, dizem as más línguas, que não me parecem más, já engravidou uma bobinha, que mora no bairro do Crispim e cujos pais são ignorantes incorrigíveis, e já se envolveu, ou está envolvido, com tráfico de drogas, e até com assassinato, dizem. A Márcia disse-me, ontem, no consultório do doutor Marcos, o dentista, não o otorrino: ‘Marcela, a Paula, filha da Roberta e do Vinicius, engravidou do Anderson, aquele vagabundo.’, e perguntei-lhe: ‘Aquele moço do qual o Márcio disse horrores, aquele moço que trafica drogas e que engravidou aquela mocinha lá do Crispim?’. ‘Ele mesmo.’, respondeu-me a Márcia, ‘Um rapaz magro, com um piercing no nariz e um na sobrancelha, não me lembro se na direita, se na esquerda’. ‘Na direita’, respondi-lhe. ‘Ele é horrivelmente feio. Parece um bicho. É um animal estranho, bizarro. Não é humano ele, é? Ele é um bicho do mato. E é dele que a Paula espera um filho’. ‘Mas é verdade, Márcia, ou é só diz-que-diz?’, perguntei, porque eu não gosto de espalhar boatos. Se a história não é verdadeira, se é só uma invencionice de desafetos da Paula, e eu a conto para alguém, acabo, sem o desejar, por prejudicá-la; então, não querendo passar para nenhuma outra pessoa uma história que não é verdadeira, insisti na pergunta, e a Márcia confirmou a história, e prosseguiu: ‘Imagine, Marcela, os apuros em que estão o Vinicius, e a Roberta, que sempre foi desleixada, mãe ausente, esposa negligente, e que, disseram-me o Márcio, a Cláudia e a Renata, traiu o Vinicius, aquele bestalhão, mais de uma dezenas de vezes! Imagine em que palpos de aranha eles estão!’ E conversamos, durante um bom tempo, a Márcia e eu, e ela me inteirou de muitas histórias do arco-da-velha, das quais você nem imagina, Camila”. E a Marcela contou-me, Maria Teresa, todos os pormenores da história, uma história horripilante, da qual a Marcela revelou-me detalhes de pôr a todos com o queixo caído. A Marcela adora tratar da vida alheia. É, penso, pior do que a Roberta, uma fofoqueira de mão cheia. Fornece informações da vida de todos, e os vizinhos dela são os alvos prediletos dos mexericos, os quais ela conta com uma boa dose de acidez, de amargor, de, digo, maldade, com o desejo de pintar a todos com as cores mais repulsivas, de tão maledicente ela é.

Neste momento, para agrado de Gustavo, já exausto de ouvir a narração de Camila e esforçando-se para se concentrar, em vão, num pensamento qualquer, chegou o ônibus que o conduziria a ele e Camila e Maria Teresa a Taubaté. E os três entraram no ônibus, em cujo interior já havia outros nove passageiros, três deles com ar sonolento e transparecendo cansaço, um cochilando, dois, ambos jovens, de aproximadamente quatorze anos um deles e de dezessete anos o outro, semelhantes no físico e na fisionomia, conversando, animados, dois homens e uma mulher desacompanhados, ocupando bancos distantes um do outro.

Gustavo sentou-se num dos bancos do fundo do ônibus, certo de que estaria, durante a viagem, que demoraria em torno de trinta minutos, livre de ouvir as histórias narradas, para Maria Teresa, por Camila.

Camila e Maria Teresa pagaram ao cobrador pela passagem, e sentaram-se uma ao lado da outra, Maria Teresa à janela, Camila à sua esquerda, logo atrás do banco em que estava, sentado, o cobrador.

E mal havia se sentado, Camila pôs-se a falar ao mesmo tempo em que o ônibus retomava viagem, e para se fazer ouvir por Maria Teresa, ergueu o tom de voz, para que os ruídos emitidos pelo ônibus não lha abafassem, e fez-se ouvir, também, pelo cobrador, pelo motorista, pelos outros dez passageiros, dentre estes Gustavo.

– Espanta-me, Maria Teresa, o prazer que a Marcela, a Roberta e a Márcia têm de mexericar a vida de todos. Que vício, o delas! Se elas fossem as únicas pessoas que adoram fofocas, o mundo não seria tão ruim, tão cheio de desentendimentos; infelizmente, elas não são as únicas. Uma outra pessoa, fofoqueira das mais desembaraçadas, é a minha vizinha, a Carla, que, Deus me perdoe, é um tipo intragável; fala, a maldita, de tudo e de todos, mas das maluquices dela ela nada diz; cala-se a respeito como se fosse a mais sensata e decente das mulheres. Se não a conhecesse, eu acreditaria que a vida que ela leva é um mar de rosas; mas é, sei, um mar de espinhos. Ora, já sabemos, eu e os da nossa vizinhança, que ela, num caso extraconjugal, engravidou, e abortou, há cinco meses, o filho que trazia dentro de si, disse-me a Margarete, outra fofoqueira, que nunca perde a ocasião de cuidar de mexericos e que jamais fala das brigas dela com o Bernardo, o marido dela, e com os filhos, Roberto e Gilson, dois garotos vadios. O Bernardo, não posso deixar de dizer, e o digo sem o desejo de espalhar mentiras, pois o que sei dele contou-me a Clarice, a ex-esposa do Denílson, mulher que, embora mexeriqueira, não é de inventar histórias, e o Bernardo, eu dizia, manteve um caso extraconjugal com uma mocinha, a Zuleica, que trabalha na padaria do Paulo, lá do bairro. E a Carla, dias atrás, há ou cinco, ou seis dias, não me lembro, disse-me a Vicentina, na casa do amante, foi surrada pela esposa dele, uma tal de Vanessa. As notícias, desencontradas, correram mundo. A Vicentina e a Edna disseram-me que o amante dela é o Tadeu, marido da Fabiana. O Tadeu é o gerente do banco *; a Fabiana, do banco **. A Marcela, a Márcia e o Cristóvão disseram-me que o amante da Carla é o Ricardo, dono da revendedora de automóveis Furacão Speed; a Alice e a Samanta disseram-me que é o amante da Carla o José António, frentista do posto de gasolina Encha o Tanque. Não sei quem é o amante da Carla; sei que ela tem um amante e que a esposa dele deu-lhe, nela, na Carla, uma surra, daí os hematomas nos olhos e nos braços dela. Disseram-me a Claudete, a Juliana, o Robson e a Kátia que os hematomas que se vêem no corpo já acabado da Carla quem os fez foi o Lauro, marido dela, ao saber do caso dela com não souberam me dizer quem. A história é obscura. A Carla se acredita, aos quarenta anos, um avião. Vaidosa, ela, a mocréia, ainda não entendeu que não é mais aquela bonitona que, há mais de vinte anos, punha todos os homens de queixo caído, embasbacados, de língua para fora da boca, mas apenas uma baranga despeitada, despelancada e coberta de pés-de-galinha, estrias e celulite.

E Camila, neste momento, o ônibus parado num ponto-de-ônibus, para receber outros passageiros, quatro, de uma família, o pai, a mãe, e duas filhas, ambas jovens, uma aparentando quatorze anos, a outra, dezessete, interrompeu o seu relato, observou aqueles que entravam no ônibus, e assim que se certificou que nenhum deles era um conhecido seu, reencetou a narração:

– E conto outra história para você, Maria Teresa; uma história que ma contou a Rúbia, a minha irmã, também ela uma fofoqueira. Na minha família também há uma fofoqueira, e é a fofoqueira da família a minha irmã caçula, a xodó do papai e da mamãe. Ela sempre foi mimada. Meu pai sempre a tratou como a uma rainha e de ninguém nunca escondeu a sua preferência por sua filhinha querida, filhinha que ele reverencia. E minha mãe sempre deu a ela tudo o que ela quis, e estende-lhe o tapete vermelho, sempre. Dela eu já falei para você, Maria Teresa. Ela mora em Belo Horizonte, com o marido, Osvaldo, e a filha, a Silvana, menina de nove anos, uma gracinha, minha afilhada, que em nada puxou pela mãe. É a Silvana, como a madrinha, discreta e recatada. E é personagem da história que ma contou a Rúbia a Lidiane, filha da Cleusa, minha amiga, com quem estudei no colegial. A Lidiane, já nos seus dezoito anos, é uma daquelas mulheres fáceis, que sem nenhuma vergonha, sem nenhum receio, se entregam para todos os homens. No bairro ela tem a fama que nenhuma mulher gostaria de carregar consigo. Também pudera! Ter a mãe que tem, ela não poderia sair uma santa. A Cleusa, eu sei, e ela própria contou-me, era instável, e trocava de namorado com a mesma facilidade e freqüência com que se troca de roupas. Da Lidiane ouvi histórias de enrubescer o mais desavergonhado dos homens. Disse-me a Rúbia, “Camila, dias atrás, no sábado, à noite, na discoteca, a Lidiane, contou-me a Laura, irmã dela, e a Érika, uma amiga minha e da Laura, esfregou-se, desavergonhada, em homens, e não poucos, que, libidinosos, acoxaram-na, apalparam-na, livremente, os faunos, deliciando-se, gozando do prazer que a Lidiane, libertina, prodigalizava-lhes. Imagine, Camila, o que se deu depois que ela se retirou, já ligeiramente embriagada, na companhia sabe-se lá de quantos homens, da discoteca, às três horas da madrugada! Use da imaginação.” E com essas palavras, e um sorriso malicioso, quase obsceno, estampado no rosto, a minha irmãzinha, de quem eu poderia contar, para você, algumas histórias do arco-da-velha, principiou o seu relato recheado de sem-vergonhices.

O ônibus desacelerou-se, e parou num ponto-de-ônibus. E no ônibus entraram umas dez pessoas, dentre elas homens e mulheres, velhos, adultos, jovens e crianças; elas ajeitaram-se nos bancos, umas após passarem pela roleta à frente do cobrador; outras não. Gustavo percebeu que Camila havia se silenciado e que Maria Teresa falava-lhe qualquer coisa, num tom baixo, pausado, silabando as palavras, não permitindo a ele, Gustavo, ouvi-la, e nem a Camila, concluiu ele, ao avaliar-lhe a postura, então inclinada para Maria Teresa, que não estendeu mais do que dois minutos o seu relato, e assim que ela o encerrou, Camila pôs-se a falar, no seu tom peculiar, alto, e sua voz, que se confundia com as dos outros passageiros, mal chegou aos ouvidos de Gustavo. Do que Camila dizia para Maria Teresa, poucas palavras, a curtos intervalos, atingiam os tímpanos de Gustavo, vibrando-os, não o permitindo conceber qual história ela narrava; fosse qual fosse, era uma cujo teor pedia o bom tom que não se contasse, em público, ao alcance de ouvidos de outras pessoas, concluiu Gustavo assim que se cruzaram o seu olhar e o do cobrador, este a revelar àquele o indisfarçável incômodo que o relato de Camila lhe provocava. Transparecia no rosto do cobrador inconfundível desejo de safar-se daquela situação; estava obrigado, todavia, a ouvir histórias que não desejava jamais ouvir, mas, por dever de ofício, tendo de permanecer sentado no banco que lhe estava reservado, ouviu-as. E sorriram Gustavo e o cobrador. E eles entreolharam-se não muito tempo depois, e sorriram, compreendendo um o pensamento do outro. E o ônibus parou, em um ponto-de-ônibus, e do ônibus desceu Maria Teresa. E Gustavo, enfim, pôde sentir-se livre da presença daquela mulher, que lhe provocava um sentimento de repulsa, que o perturbava, e também se livraria, definitivamente, da tagarelice de Camila, que, não havendo agora quem pudesse ouvi-la, manter-se-ia em silêncio o restante da viagem, poupando, de suas narrativas, Gustavo, o cobrador e os outros passageiros. Contrariando, no entanto, o desejo de Gustavo, sucedeu algo que não lhe havia passado pela cabeça: Naquele ponto-de-ônibus, além de Maria Teresa, desceu do ônibus um homem, e no ônibus subiram umas vinte pessoas, que foram ocupando os bancos vagos, e uma mulher octogenária sentou-se ao lado de Camila, que se deslocara para o banco à direita, permanecendo-se à janela, e uma outra mulher, também octogenária, ou nonagenária, deteve-se, em pé, ao lado da que se sentara ao lado de Camila, que, vendo-a, levantou-se do banco, auxiliou-a a sentar-se no banco que desocupara, e assim que a anciã nele acomodou-se, andou, um pouco desajeitadamente, até o banco à direita de Gustavo, então desocupado, e nele sentou-se. Gustavo rogou aos céus que impedisse que Camila com ele puxasse conversa. Os céus não lhe atenderam aos rogos. Tão logo sentou-se, Camila, comichão a coçar-lhe a língua, dirigiu-lhe a palavra, perguntou-lhe se não era ele o homem que aguardava o ônibus no mesmo ponto-de-ônibus em que ela e Maria Teresa o aguardavam, e assim que dele ouviu a confirmação, disse-lhe, sem papas na língua:

– Há mais de seis meses, ou um ano, não estou certa, que eu e a Maria Teresa não nos víamos, e não nos dávamos um dedo de prosa. Hoje, por acaso, nos encontramos, e pudemos pôr algumas novidades em dia. Ela me falou de um sobrinho dela, um dos vários sobrinhos que ela tem, o Fábio, e, com a sem-cerimônia de uma mexeriqueira, disse-me que ele brigou com os pais dele; o pai dele, Osvaldo, é trabalhador, mas pai ausente e marido ausente; e a mãe dele, Maria Joana, desequilibrada, esposa histérica, relapsa. E Fábio arrumou as trouxas, e foi morar com os avós paternos dele, um casal de velhinhos já um pouco gagás, mas ainda sensatos. E qual foi a razão da briga de Fábio com os pais dele? Viciado em maconha, ele lhes pediu dinheiro, para comprar roupas, disse-lhes, uma calça e duas camisas, e um par de sapatos, de que ele muito precisava. Osvaldo e Maria Joana cobraram-lhe explicações acerca das roupas dele, as quais não se viam nem no guarda-roupas, nem em nenhum outro lugar da casa. Fábio desconversou, e deu-se início à discussão. E foi-se Fábio para a casa dos avós. Só não me estendo a contar para você a história que a Maria Teresa contou-me há alguns minutos, antes de ela despedir-se de mim e retirar-se do ônibus, porque não vivo de tratar de coisas que não me dizem respeito, e nada quero saber, e tampouco dizer, acerca da vida de familiares, parentes e amigos. Guia-me a discrição, e discrição é o que peço àqueles que me procuram para falar da vida alheia. Que mania desagradável têm as pessoas de cuidarem do que não lhes dizem respeito. Não sabem que muita desafeição nasce de tal vício? Se soubessem, o evitariam. Se Deus iluminasse a todos, ninguém vivia de mexericar a vida alheia.

Gustavo limitou-se a assentir. Assim que a porta do ônibus abriu-se, o ônibus parado na rodoviária, dele retirou-se, rapidamente, e, a passos acelerados, afastou-se de Camila antes que ela tivesse a idéia de principiar a narrativa de qualquer história, ou, simplesmente, perguntar-lhe aonde ele iria. E se ele lhe dissesse aonde iria, e ela dissesse que iria para o mesmo lugar? Tão logo tal pensamento resvalara-lhe a cabeça, tratara Gustavo de afugentá-lo de si, e agira de modo que ele não se concretizasse.

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