Meu irmão morreu – Uma história do tempo do coronavírus

Encontraram-se, às onze horas da manhã de hoje, nas proximidades da igreja Nossa Senhora de Fátima, no entroncamento das avenidas José Bonifácio e Joaquim Nabuco, na calçada à frente de uma loja de cosméticos, João Carlos e Roberto Carlos, colegas de trabalho que há alguns dias não se viam. João Carlos gozava, havia dez dias, de férias. Retirara-se havia um minuto da igreja Nossa Senhora de Fátima, e caminhava, lentamente, cabisbaixo. Roberto Carlos saíra do escritório minutos antes, e rumava para um restaurante, distante uns cem metros de onde ele e João Carlos encontravam-se. Saudaram-se. E Roberto Carlos não precisou de mais de um segundo para notar a tristeza estampada nos olhos do seu colega.

– O que se passa contigo, João?! – perguntou-lhe. – As férias não te fazem bem?! Por que a cara tristonha?! O que houve?! Que bicho te mordeu, homem?!
João Carlos não lhe respondeu de imediato; tremeram-lhe os lábios. Fitou Roberto Carlos, que estava ciente de que dele não ouviria boa notícia. E respondeu-lhe:

– Saímos da igreja há pouco meus pais, minha irmã e eu. Eles foram para a casa deles. Eu lhes disse que eu iria caminhar um pouco. Assistimos à missa de sétimo dia da morte de meu irmão.

– Meu Deus! – exclamou Roberto Carlos, sinceramente condoído. – Aceite meus pêsames, João. Seu irmão é mais uma vítima do covid, este maldito vírus.

– Covid!? Não. Meu irmão não morreu de covid.

– Não!? De que mais ele poderia morrer?! – perguntou Roberto Carlos, visivelmente surpreso. As suas palavras incomodaram João Carlos, que tratou de lhe responder.

– Ele não morreu de covid. Ele foi assassinado. Dois ladrões invadiram-lhe a casa. Renderam-lo. Amarraram-lo. Espancaram-lo. Cortaram-lhe, à faca, as mãos e os pés, e a língua, e as orelhas; e esmigalharam-lhe, à marreta, os joelhos, e a cabeça. Mataram-lo.

– Assassinado!? Ele foi assassinado!? Ufa! Que alívio! Alegro-me saber que ele não morreu de covid.

Criminal Minds – episódio 12, “Profiler, profiled” da temporada 2

No episódio 12, “Profiler, profiled”, da temporada 2, de Criminal Minds, Derek Morgan (Shemar Moore), em visita à sua família, em Chicago, vai ao túmulo de um jovem desconhecido, indigente, morto muito tempo antes, e cujo cadáver ele havia, casualmente, encontrado; e assiste, no Upward Youth Center, um centro comunitário, a jogo de futebol de jovens. Encontra-se com um jovem seu conhecido, James, que lhe apresenta Damien, amigo dele. Na casa de sua família, comemorando o aniversário de sua mãe, recebe a visita do policial Gordinski (Skipp Sudduth), que lhe dá a notícia da morte de Damien, acusa-o do crime, e o conduz à delegacia. É chamada, então, a Chicago, a equipe da Unidade de Análise Comportamental, do FBI, sediada em Quantico, cujo um de seus membros é Derek Morgan.
Dirigem-se a Chicago Jason Gideon (Mandy Patinkin), Aaron ‘Hotch’ Hotchner (Thomas Gibson), Dr. Spencer Reid (Matthew Gray Gubler), Jennifer ‘J. J.’ Jareau (A. J. Cook) e Emily Prentiss (Paget Brewster), permanecendo, na sede, em Quantico, Penelope Garcia (Kirsten Vangsness), entre os computadores, com os quais tem uma ligação, dir-se-ia, telepática.
No transcurso da investigação, os detetives pesquisam o passado de Derek Morgan, a contragosto dele, que se recusa a narrar-lhes eventos sucedidos quase vinte anos antes, o que, suspeita-se, é indício de que em sua biografia, no capítulo que narra a sua juventude, ele havia incorrido em transgressões de cujas existências quer manter todos seus colegas na ignorância. Os detetives revelam-se incomodados com a postura que assumiram, a de, para benefício de Derek Morgan, escrutinar-lhe o passado, situação desconfortável revelada, em um curto diálogo, via telefone, entre Jennifer ‘J.J.’ Jareau e Penelope Garcia.
Os detetives do FBI não tinham escolha: viram-se obrigados, à intransigência de Derek Morgan em não lhes revelar o seu passado, a pôr em risco a confiança que ele neles depositava. Era o único meio, acreditavam, de livrá-lo da condenação por três assassinatos, e ser arremessado, por Gordinski, obcecado em prendê-lo, à prisão. Sempre que Aaron ‘Hotch’ Hotchner confrontava-o, solicitando-lhe o relato de episódios de sua juventude, Derek Morgan negava-se a atender-lhe à solicitação, que em alguns momentos soavam como súplicas, sublinhando a sua postura com a afirmação categórica de ser um direito seu conservar consigo certos capítulos de sua história. Pouco depois, Penelope Garcia, singrando o oceano de documentos digitais, descobre que Derek Morgan incorrera em transgressões, em sua juventude erradia, e que era ele personagem de uma ficha criminal, e que as acusasões contra ele haviam sido canceladas devido ao depoimento de Carl Buford (Julius Tennon), líder e herói da comunidade. A existência de tal documento surpreende Derek Morgan, que, incrédulo, persiste em sua atitude arredia, exibindo desconforto, constrangimento, visivelmente irritado, surpreso com a peça que o destino lhe pregava.
Na delegacia, Gordinski apresenta aos detetives do FBI os resultados que obteve em sua investigação de três casos de assassinato, cujo autor, estava convicto, era Derek Morgan. Na sua explanação, declarou que se persuadiu de que era Derek Morgan o assassino após consultar Jason Gideon, fornecendo-lhe informações de uma investigação a qual se dedicava e dele receber uma análise criteriosa do perfil da personalidade do criminoso, que, em abstrato, correspondia, acreditava, a Derek Morgan. Tal cena reforça a suspeita contra Derek Morgan, um homem de passado nebuloso, passado que ele escondia de seus colegas, seus amigos; e tal suspeita é contrabalançada por ponderações de Jason Gideon, Dr. Spencer Reid e Jennifer ‘J. J.’ Jareau, que declaram, em mais de uma ocasião, que Gordinski se embaralhava ao associar o personagem perfilado (no linguajar dos agentes do FBI, o personagem perfilado tem os seus traços de personalidade definidos, segundo estudos documentados de psicólogos criminais), por Jason Gideon, com Derek Morgan, pois a identidade entre o tipo definido, no perfil, e a personalidade de Derek Morgan era o produto da obceção de Gordinski em prender Derek Morgan, e não de uma postura racional.
Após uma entrevista, na sala de interrogatórios, entre Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Derek Morgan, e a visita de Emily Prentiss e do Dr. Spencer Reid à casa da família do acusado, e estes já regressados à delegacia, Dennison, um policial, braço direito de Gordinski, encontra, vazia, a sala de interrogatório, e Gordinski acusa Aaron ‘Hotch’ Hotchner de haver favorecido Derek Morgan ao facilitar-lhe a fuga. Neste ponto, está claro que há, de fato, na vida de Derek Morgan, algum fato nebuloso, e que não é Derek Morgan o vilão da história, e que não é ele um criminoso, um assassino, mas algum outro personagem, suspeita-se. E a trama, urdida, por alguma outra personagem, em desfavor de Derek Morgan, aproxima-se do seu desfecho.
E os policiais saem à caça de Derek Morgan. Este, chega na quadra da comunidade, onde James o aguarda. Nesta cena, o tom narrativo é distinto do do restante do episódio. É intimista. Derek Morgan e James conservam-se um do outro à distância considerável, e entabulam diálogo repleto de reticências, para não se machucarem com palavras inconvenientes – é possível prever que ambos os dois personagens irão revelar o segredo do qual Derek Morgan é tão cioso, o qual reserva religiosamente consigo. Enquanto desenrola-se o diálogo, Derek Morgan aproxima-se de James, lenta, e timidamente, os dois a lançarem-se um para o outro, alternadamente, uma bola de futebol americano. E Derek Morgan pergunta a James se Carl Buford levara-o à cabana. Aqui já está revelado o segredo de Derek Morgan: é Carl Buford, herói da comunidade, um abusador sexual de jovens, e ele, Derek Morgan, uma de suas vítimas. E assim que se põe bem diante de James, então ao alcance de suas mãos, Derek Morgan fala-lhe do abuso que sofreu na juventude, e de Carl Buford, o abusador.
Logo depois, na sala de Carl Buford, Derek Morgan confronta Carl Buford (diante de Gordinski, Dennison, e de Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Jason Gideon, estes quatro ocultos). É a cena pungente. Carl Buford desmascarado, Gordinski e Dennison, e Aaron ‘Hotch’ Hotchner e Jason Gideon apresentam-se à cena. E Gordinski, enquanto dirige-se para a porta da sala, Carl Buford, algemado, sob seu domínio, olha, constrangido, para Derek Morgan, então em choro contido, ao passar por ele. E entrecruzam-se no meio do caminho o olhar de Derek Morgan com o de Jason Gideon e o de Aaron ‘Hotch’ Hotchner. E Derek Morgan, lágrimas nos olhos, abaixa, ligeiramente, a cabeça, e cerra as pálpebras.
No final, estão os personagens em um cemitério, diante de duas lápides, uma do túmulo de um jovem de identidade desconhecida, jovem que Derek Morgan homenageia, todo ano, com a sua visita, jovem cujo cádaver ele encontrara, acidentalmente, na idade de quinze anos, lápide que tem inscritos os seguintes dízeres: “Às crianças perdidas. Nós as amamos e sentimos saudades”, e a outra, do de Damien, que, sabe-se agora, fôra assassinado por Carl Buford.
É “Profiler, profiled” um episódio emblemático. Dá à discussão um tema sobre o qual pouco se fala com a seriedade merecida, o do abuso sexual de jovens imberbes por homens feitos. O sofrimento da vítima de abusos sexuais, e no episódio tal valor está explícito, persegue-a no transcurso de toda sua vida. É um monstro que a transtorna, a perturba, a atormenta durante toda a existência, e da qual ela não pode escapar. Derek Morgan não superou a dor de saber-se vítima de abuso, e por uma pessoa em quem depositava confiança irrestrita, pessoa em cuja integridade todos os moradores da comunidade acreditavam. Embora bem-sucedido em seu trabalho de agente do FBI, profissional respeitado, os fantasmas de seu passado o atormentam.

Obsessão

07 de janeiro de 2…. Uma linda moça, a morena cuja formosura encantou-me. Sua pele é de um tom claro que brilha à luz do sol. Seus lábios vermelhos, realçados pelo batom, e seu nariz, seus olhos, seu queixo, suas sobrancelhas e suas maçãs do rosto compõem um conjunto perfeito. Se Fídias a admirasse, esculpiria a mais bela de todas as estátuas. Infelizmente, nem ele, nem Michelângelo, a conheceram. Vênus Calipígia! Seus cabelos pretos brilham ao sol, deslizam-lhe pelas costas, espraiam-se-lhe pelos ombros. Seu busto, esplendoroso! Suas pernas, sublimes! Seu andar, suave. Ela caminhava sobre as nuvens. Trajava um longo vestido vermelho decotado, que lhe modelava o corpo bem feito. Dela não tirei os olhos até ela entrar em um carro de vidros escuros. Fugiram-me as palavras. Encantado com tão linda moça…

08 de janeiro. Pensando na linda moça que ontem me encantou, dormi. Sonhei com ela. No sonho, ela, vergando vestes diáfanas, passeava por um jardim edênico. Seu corpo esplendoroso brilhava, cegando-me, sempre que dela eu me aproximava. Na mesma hora em que, ontem, passei pela rua *, passei hoje. O meu propósito: cruzar o caminho da linda moça de vestido vermelho. Andei vagarosamente. Olhei, atentamente, de um lado para o outro, na esperança de vislumbrar a Vênus rediviva. Não a encontrei, para meu desgosto. Mas a encontrarei, se não hoje, amanhã, ou depois. Aquela moça celestial cuja beleza esplêndida transfigurou-se, aos meus olhos, num espectro divino… Olhei de um lado para o outro. Não encontrei a linda moça. Contrariado, exausto, regressei à minha casa, três horas depois. Ao me olhar ao espelho, deparei-me com um rosto irreconhecível, disforme, repulsivo.

09 de janeiro. Não consigo tirar de minha cabeça a imagem da linda moça de vestido vermelho. Pelo meu corpo correu indescritível sensação de prazer, à noite. Raras vezes senti tão prazerosa sensação! Na cama, virei-me de um lado para o outro. Acordado, imaginei fantasias lúbricas, concebi sensacionais aventuras amorosas com a linda moça cujo nome desconheço e cuja beleza fascinou-me.

15 de janeiro. Ao acordar, hoje de manhã, banhei-me, e fui à cozinha. Na prateleira, não havia pães; na geladeira, não havia leite. Peguei da carteira, a abri, vi que nela havia dinheiro, e fui ao supermercado. Não eram dez horas quando lá cheguei. Fazia muito calor. Para a minha felicidade, não havia muitas pessoas no supermercado. Ao passar por entre as estantes do setor com produtos de limpeza, vi, de relance, para minha surpresa e alegria, a linda moça, que, com uma cestinha pendurada à junta do cotovelo, olhava para os frascos de detergente. Meu coração vibrou, acelerado. Arregalei os olhos. Mordi o lábio inferior. Lambi o lábio superior. Fitei a linda moça. Estudei-lhe o porte. Embevecido, alumbrado, admirei-a, fascinado com tão deslumbrante beleza. Andei por aquele corredor, na direção da moça que há dias eu procurava. Ela trajava uma saia azul marinho translúcida, que lhe modelava as coxas e as nádegas estonteantes, e uma camisa branca decotada. Seus olhos, azuis; suas sobrancelhas, finas, acastanhadas, arqueadas; seus cílios, compridos; seus lábios, carnudos, escarlates; seus cabelos, compridíssimos, pretíssimos, volumosos, penteados para trás, emolduravam-lhe o rosto de traços perfeitos. Detive-me três metros à sua esquerda. Puxei da prateleira uma caixa de sabão em pó, cuja data de validade fingi procurar e cujo preço fingi avaliar. Devolvi a caixa de sabão em pó ao seu lugar de origem, e dei ou dois, ou três, passos na direção da linda moça. Eu dela distava uns dois metros quando ela se curvou para a frente, de frente para mim, exibiu-me o tesouro fabuloso que entrevi no decote, e, com a sedosa mão esquerda de dedos melindrosos adornados de unhas compridas de esmalte violeta, puxou os cabelos, que lhe haviam caído ao rosto, para trás, e acocorou-se. Meu coração vibrou, acelerado. Meu corpo pulsou de desejo. A linda moça, ignorando-me, puxou da prateleira um frasco de água sanitária, devolveu-o à prateleira, pouco depois, e retirou outro frasco de água sanitária o qual restituiu ao local de origem, e pousou a cestinha no chão, e de dentro da cestinha retirou uma tiara transparente, e ajeitou-a na cabeça, com a mão direita, enquanto ajeitava, com a mão esquerda, os cabelos para trás. Ato contínuo, ajeitou a saia, passando, suavemente, as mãos por ela, olhou para a prateleira, enquanto puxava, com a mão direita para cima, a alça direita da camisa, que lhe escorrera do ombro. Ela segurou as alças da cestinha, e ergueu-se. Desviei dela o olhar. Dois homens passaram pelo corredor, conversando; ao verem a linda moça, cessaram a conversa, e fitaram-na, maravilhados; passaram por ela, e voltaram-se para trás, e fitaram-na, devorando-a com os olhos. Enciumado, pensei em esmurrá-los. Que direito têm eles de olhar para moça tão linda, tão pura? Eles a enodoavam, ao admirá-la. Rilhei os dentes. Sujeitos atrevidos! Eles se afastaram, e retiraram-se daquele corredor, para sorte deles.

A linda moça, que ignorou os dois sujeitos repulsivos, andou até os frascos de sabão líquido. Andei na sua direção. Fingi interesse por detergentes, numa prateleira de um lado do corredor; ela, no outro lado do corredor, de costas para mim, distando de mim um pouco mais de um metro, curvou-se, e eu, involuntariamente, sem pensar no que fazia, agachei-me; acocorado, tirei da prateleira um frasco – do que, não sei – enquanto eu olhava, a ponto de perder a consciência, para a linda moça, cujas coxas eram estonteantes, e pude ver-lhe a parte inferior das nádegas. Senti-me desfalecer. O tempo parou. Suspendi a respiração. Eu iria me beliscar, para me despertar daquela realidade onírica. Era como se eu participasse de um conto de fadas, e interpretasse o papel do ogro, do monstro das profundezas do oceano, dos subterrâneos das montanhas, um habitante dos reinos infernais, à espreita, para me lançar sobre as fadas, as princesas, as dríades, as hamadríades, e a linda moça interpretasse a inocente, ingênua, bela, celestial, indefesa vítima dos meus caprichos hediondos, dos meus desejos lúbricos animalescos; ela era a princesa, que, expulsa, pela madrasta sórdida, repulsiva, de um castelo suntuoso, perambulava pela lúgubre floresta habitada por criaturas demoníacas, monstros asquerosos e ciclopes antropófagos. Contive-me. Não me lancei sobre a linda moça. Minha mente, entorpecida, inebriada, eliminou de meu cérebro a faculdade de pensar. Meu corpo não atendia aos meus desejos. Meus braços e mãos, minhas pernas e pés não me obedeciam.

Embora eu tenha admirado a beleza exuberante da linda moça durante uma fração de segundo, a sua imagem perpetuar-se-á, na minha mente, no meu espírito, na minha alma, pela eternidade. Ao pôr na cestinha um frasco de sabão líquido, ela se recompôs, e, de costas para mim, andou até o final do corredor. Despertei, quando ela, ao desaparecer atrás da prateleira, retirou-se do meu campo de visão.

Restitui à prateleira o frasco; levantei-me; passos acelerados, andei até o fim do corredor, receando perder de visa a linda moça. Eu a entrevi, de cabeça abaixada, no setor de doces, bolachas, chocolates, balas e chicletes, atrás de uma gorda desgraciosa que empurrava um carrinho-de-compras cheio de frascos, caixas e pacotes dos mais variados produtos. Desacelerei os passos. A linda moça andou por quatro setores – o de bebidas, o de produtos dietéticos, o de perfumaria e o de artigos para animais. Eu a segui, dela conservando distância de cinco metros.

Enfim, ela se dirigiu ao caixa. Acelerei os passos. Fui ao refrigerador, e peguei um litro de leite. Voltei-me. Olhei para o caixa. Na fila estava a linda moça. Ato contínuo, fui ao balcão da padaria, e pedi quatro pães à moça que me atendeu. No desejo de não perder de vista a linda moça, eu olhava, a cada dois segundos, para a fila na qual ela estava. Tão logo recebi o pacote com quatro pães, virei-me, e andei, a passos acelerados, até a fila na qual estava a linda moça. Duas mulheres, mãe e filha, entraram na fila, à minha frente. Pouco depois, a filha disse à mãe que haviam se esquecido de comprar açúcar e trigo, e ambas retiraram-se da fila. E me vi atrás da linda moça, inebriado com a fragrância sedutora que ela recendia e com a exuberância do seu talhe. O pacote com os quatro pães se me escapou das mãos. Agachei-me para pegá-lo, e olhei para as pernas esplendorosas da linda moça. Um homem fitou-me, e olhou para ela. Senti meu rosto ferver.

Uma lâmpada vermelha acendeu-se próximo da moça do caixa, e ouviu-se um apito estridente. A linda moça andou até a caixa, e ficou de frente para mim. Admirei-lhe, fascinado, o busto esplêndido. Ela curvou-se para pôr a cestinha, agora vazia, no chão, próximo de mim, e ofereceu-me aos olhos seus peitos fartos. A caixa passou as mercadorias pelo leitor de código de barras. A linda moça entregou-lhe uma nota de vinte reais, recebeu da caixa o troco, e andou um pouco para a frente. Ansioso, antes de a caixa premir um botão sob a caixa registradora, para acionar o apito estridente e acender a lâmpada vermelha, andei, e entreguei-lhe o pacote com os pães, e a caixa de leite. Ela os passou pelo leitor de código de barras. Paguei-lhe os R$ 3,25 que eu já havia separado.

A linda moça pegou as duas sacolinhas de plástico com os produtos que comprara, e retirou-se. Eu, rapidamente, pus o pacote com os pães, e a caixa de leite, numa sacolinha de plástico, e a segui, a certa distância. Ela se deteve, na esquina; esperou os carros e as motos passarem. Aproximei-me. Detive-me à sua direita. Começamos a travessia da rua.

Uma das sacolas que ela carregava rasgou-se nos fundos, e dela caíram um tablete de chocolate, uma lata de doce de leite, e um pacote de bolachas de maisena. Curvei-me, e peguei o tablete de chocolate, a lata de doce de leite e o pacote de bolachas. Ao erguer-me, eu os entreguei à linda moça, que me agradeceu. E ela andou até um carro prateado; para minha surpresa, pediu-me que eu segurasse os produtos. Eu a atendi, prontamente. Ela remexeu na bolsinha que trazia na mão, e dela tirou a chave do carro. Assim que abriu a porta do carro, pediu-me os produtos. Entreguei-lhos. Sorrindo, exibindo-me seus dentes brilhantes, agradeceu-me a ajuda, e despediu-se. Embasbacado, acompanhei-a entrar no carro, pôr a chave na ignição, e dar a partida. Andei, com as pernas bambas e o coração aos pinotes. Eu mal raciocinava. Dei-me um tapa na testa. Censurei-me: “Imbecil! Idiota! Por que você não perguntou o nome àquela beldade celestial? Imbecil! Tolo!”

Eu andava, cabisbaixo, quando ouvi buzina a estrondear. Olhei para a direção da qual chegaram-me as buzinadas. Ao meu lado, um carro prateado com o vidro abaixado. A linda moça, inclinada sobre o banco do carona, chamava-me. Curvei-me para poder vê-la. Sorri. Ela sorriu. Disse-me que iria ao bairro *, onde mora, e perguntou-me para onde eu iria. Eu lhe disse que moro no mesmo bairro. Ela me disse a rua em que se localiza a sua casa. Eu lhe dei a localização da minha casa – na verdade o endereço da casa de um amigo meu -, uns duzentos metros adiante. Ela me perguntou se eu desejava uma carona. Eu, controlando a ansiedade e a excitação que me atormentavam, agradeci, e disse-lhe que aceitaria a carona, se não fosse inconveniência aceitá-la. Ela me disse para entrar no carro. Não me fiz de rogado. Entrei no carro, e sentei-me no banco, um pouco sem jeito.

Ela dirigia bem. Para ser sincero, não posso avaliar a sua destreza ao volante – não atentei para isso. Eu dela admirava a beleza. Ela disse que sentia muito calor. Eu lhe disse que hoje, durante o dia, faria mais calor do que o calor de todos os outros dias do ano, até hoje. Ela me disse que, talvez, fosse ao litoral. Imaginei-a, na praia, de biquíni fio-dental, banhando-se ao sol. Em certo momento, ela puxou, com a mão direita, a alça do sutiã e a alça da camisa para cima, pôs a mão esquerda sob o peito direito, e empurrou-o para cima. Agiu com naturalidade, como se eu não estivesse ao seu lado.

Viramos uma esquina, e outra, e outra, e seguimos por uma rua sinuosa. Ao contornarmos à direita, e, em seguida, à esquerda, e à esquerda, chegamos à rua da sua casa. Com um controle, ela acionou o portão eletrônico da casa. Eu lhe disse que iria embora, agradeci-lhe pela carona, e sai do carro, mas não fui embora. Esperei a linda moça guardar o carro na garagem. Ela saiu do carro, e acenou para mim, pedindo-me que eu a esperasse. Esperei-a. Ela carregou a sacolinha de plástico com os produtos que comprara no supermercado até uma mesinha, no jardim, e andou, suavemente, em minha direção. Eu a admirava, embevecido. Ela, próxima do portão, curvou-se para a frente, e do chão apanhou um envelope. Arregalei os olhos, diante daquela esplendorosa maravilha que o decote revelou-me. Ao erguer-se, ela avaliou o envelope, e disse-me tratar-se de uma propaganda de uma empresa que ela detesta. Ao encerrar os comentários, sorrindo, perguntou-me qual é o meu nome. Disse-lho: Roberto. E ela me disse o dela: Júlia.

Conversamos durante um bom tempo. Para encerrar a conversa, ela me disse que teria de desincumbir-se de algumas tarefas.

Despedimo-nos.

Andei mais de cinco quilômetros até a minha casa.

29 de janeiro – Passei de bicicleta em frente à casa da Júlia.

Júlia, de short branco com estampas de flores vermelhas e amarelas, e uma camisa branca sem estampas, empunhando uma mangueira de borracha, espirrava água no chão da varanda. Detive-me. Atravessei a rua. Júlia olhou para mim. Sorriu. Ela, curvada para a frente, fechou a torneira. Admirei-lhe, maravilhado, os peitos cobertos por uma película. Júlia abriu a porta. Conversamos durante alguns minutos. Enfim, eu lhe disse que iria embora, que a visitaria em momento apropriado. Ela me pediu que não me fosse. E eu lhe disse que, para não ser inconveniente, eu a ajudaria a lavar a varanda. Ela aceitou a minha oferta de ajuda, e à varanda ofereceu-me acesso.

Enquanto lavávamos a varanda, conversávamos, animadamente.

Eu não sabia o que admirar na Júlia, mulher tão pródiga de atrativos! De repente, ouvimos um barulho. Era a mãe da Júlia, Lúcia, que chegava. Ela abriu a porta, saudou a filha, e cumprimentou-me. Aí eu soube de quem Júlia herdou a estonteante beleza. Mulher de uns quarenta anos, Lúcia está muito bem conservada, e é muito atraente. Linda, como a filha. Ela entrou na casa, após pedir licença para mim e para Júlia.

Encerrada a limpeza da varanda, Júlia convidou-me para um café. Não me fiz de rogado. Eu, ela e Lúcia conversamos durante muitas horas. Retirei-me antes de o sol se pôr. À porta, eu e Júlia cruzamos o caminho de Pedro, seu pai, homem tímido e simpático, que me saudou, sorridente. Dele Júlia herdou o sorriso espontâneo e os gestos suaves. Ele nos disse que estava com pressa, pois tinha de se arrumar para comparecer à uma reunião dali uma hora. Pediu-me compreensão, lamentou não poder conversar comigo por mais alguns minutos, e disse-me que, em outra ocasião, conversaríamos e conhecer-nos-íamos melhor, e entrou na casa. Simpatizei-me com ele. Educado, polido, de poucas palavras, cativou-me. Júlia e eu nos entreolhamos. Ela me disse que seu pai era um estudioso incansável, profissional rigoroso, trabalhador infatigável. Perguntei-lhe qual a profissão dele. Arquiteto, disse-me Júlia, que me perguntou, sorrindo, como se soubesse a resposta que eu lhe daria, qual era o prédio desta cidade cujo desenho arquitetônico mais me atrai a atenção. Eu lho disse. E Júlia, sorrindo, perguntou-me: “E tu, Roberto, sabes de quem é a assinatura do desenho arquitetônico?” Sorri, fitei-a. Seus olhos irradiavam felicidade. Seu sorriso transparecia orgulho. “Eu sempre me perguntei quem desenhou aquele prédio”, eu lhe disse. “Nunca imaginei que um dia o conheceria, tampouco que um dia eu conheceria a filha dele”. Júlia não cabia em si de felicidade. Seu sorriso ia de orelha à orelha. Exibia-me duas fileiras de dentes branquíssimos. Eu lhe ia perguntar o que ela faria à noite, mas a voz não me saiu nítida. Júlia, com um gracioso movimento das sobrancelhas, indicou-me que não me ouvira. Sorri. Levei, involuntariamente, a mão direita ao pescoço, como que para desentravar as palavras. Desviei o olhar. Pouco depois, eu, certo de que recuperara o governo dos meus pensamentos e da minha voz, fitei-a, para lhe falar, mas emudeci ao deparar-me com aquele sorriso gracioso. Ela me perguntou o que eu lhe desejava falar. Eu lhe disse que me faltava voz. Ela não suprimiu do rosto o sorriso, que me enfeitiçou, e perguntou-me, zombeteiramente graciosa: “Se te falta voz, como me disseste que te falta voz?” Encabulado, num tom de voz tímido – intimidado, eu diria – perguntei-lhe se ela iria ficar na casa dela, naquela noite, ou se iria sair com seu pai e sua mãe, ou com amigos e amigas. Ela me disse que não iria a nenhum lugar, naquela noite; aliás, ela me disse que não pretendia sair da sua casa, nem com seu pai, nem com sua mãe, nem com amigos e amigas, porque não tinha para onde ir – e deu-me a entender que, se alguém a convidasse para ir ou ao cinema, ou à pizzaria, ou ao restaurante, ela aceitaria o convite. Sorri. Perguntei-lhe se ela desejava ir ao cinema. Ela me perguntou quais filmes estão em cartaz. Eu lhos disse: Um filme de ação; um de terror; uma comédia romântica; dois filmes de aventuras; e um filme brasileiro. Ela aceitou o convite. De imediato, excluiu da lista o filme brasileiro, o de terror e a comédia romântica. Indecisa, não sabia se escolheria ou o de ação, ou um dos de aventuras. Eu lhe disse que o de ação, segundo comentários de amigos e de críticos de cinema, era péssimo, e eu não perderia o meu tempo assistindo-o, e tampouco desperdiçaria o meu dinheiro, e um dos filmes de aventura, misto de ficção científica e espionagem, era ótimo, e a respeito dele nenhum comentário negativo eu ouvira, apenas ressalvas quanto aos efeitos especiais e à interpretação de dois atores, aquém do exigido para um filme com aquela produção. Do outro filme – uma aventura com toques de comédia -, eu soubera que era uma aventura hilária de uma trupe atrapalhada, repleta de cenas de ação irrealizáveis em cenários fantásticos. Júlia disse-me que Samantha e Raquel, suas amigas, haviam assistido a este filme, e o elogiaram. Então, decidimos: iríamos assisti-lo. Combinamos a hora do encontro. Eu iria à sua casa, às dezenove horas. Assistiríamos ao filme da sessão das vinte horas. E despedimo-nos.

Eram dezenove horas e dez minutos quando premi a campainha da casa da Júlia. Ninguém atendeu à porta. Premi a campainha uma vez mais. Não transcorreu um minuto, Júlia apareceu na varanda. Ela trajava saia preta comprida e camisa multicolorida com decote discreto. Estava com os cabelos soltos. Seus lábios, realçados com batom vermelho framboesa. Nas orelhas, trazia brincos dourados de motivos angelicais. Eu a elogiei. Ela, envaidecida, fez um muxoxo, disse que sou bobo, e deu-me um tapa carinhoso no ombro. Entramos no carro. Rumamos para o cinema. O filme superou as nossas expectativas. Os atores, ótimos; o figurino, impecável; os efeitos especiais, primorosos; os personagens, cativantes; o roteiro, bem escrito; o desenrolar da história, no ritmo adequado, com cenas de ação espetaculares entremeadas de cenas cômicas irresistíveis, diálogos inteligentes e engraçadíssimos. Ao encerramento do filme, na lanchonete, enquanto comíamos, Júlia, um bauru, e eu, um beirute, e bebíamos, eu, refrigerante de uva, e Júlia, refrigerante de guaraná, conversavamos a respeito do filme. Elegemos a melhor personagem, a cena mais engraçada, a mais emocionante, a mais tensa. Não chegamos a um consenso. Satisfeitos com a refeição, retiramo-nos da lanchonete, e fomos à casa da Júlia. Despedimo-nos com um beijo no rosto. Ela abriu a porta, e entrou. Trancou-a por dentro, mandou-me um beijo com a mão direita, e virou-me às costas; na varanda, voltou-se para mim, sorriu, acenou, e entrou na casa. Suspirei. Enfiei as mãos nos bolsos da calça. Permaneci, imóvel, na frente da casa da Júlia. Rememorei o passeio, até que, enfim, andei até o carro, e vim pra casa.

15 de março – Enfim, eu e Júlia nos estreitamos num abraço caloroso. Unimos os lábios. Nossas línguas dançaram, lúbricas. Senti o calor do belo e irresistível corpo de Júlia. Passeei minhas mãos pelo seu belo corpo, e as desci pelo seu traseiro. Ela as ergueu. Ao sentir minha mão direita sobre seu peito esquerdo, ela dele a removeu, afastou-me de si, e disse-me: “Acalme-se, Roberto. Vamos com calma.” Sorri. Pedi-lhe desculpas. Disse-lhe que eu não pretendia desrespeitá-la. Ela aceitou os pedidos de desculpas.

22 de abril – Diante da minha insistência irrefreável, Júlia disse-me, sem meias palavras, num tom firme, que me inibiu (enquanto ela me falava, esbocei um sorriso; e ela me fitou com olhar severo; e suprimi, de imediato, o sorriso do rosto, e pedi-lhe desculpas), que iria se resguardar para o casamento; que as minhas investidas não surtiriam os efeitos que eu desejava, e exigiu-me respeito e compreensão. Confesso: Fiquei contrariado. Respeitei-a, todavia. Não desejo ferir-lhe suscetibilidades. Desejo a Júlia, com todo o ardor de meu corpo e de meu espírito.

07 de junho – Nos casamos, eu e Júlia, na Igreja Nossa Senhora de Aparecida.

09 de junho – A lua de mel, maravilhosa, apesar do início tenso. Eu e Júlia nos entendemos maravilhosamente bem. Desfrutamos de prazer inexprimível. Que corpo lindo, o da Júlia! Pródigo de encantos. Júlia, recatada, não admitiu participar das minhas fantasias lúbricas. Ficou horrorizada ao ouvir-me descrever as mais ousadas. Perguntou-me como pode haver pessoas, se há – ela duvidou do que eu lhe disse -, que fazem o que lhe propus. Repudiou as minhas propostas. Não insisti.

17 de outubro – De recatada e resguardada, que desejava conservar-se pura para o enlace matrimonial, Júlia tornou-se uma ninfomaníaca insaciável. Chego na nossa casa, e Júlia, voluptuosa, insinuante, provoca-me; com desenvoltura de uma felina, pula em cima de mim, agarra-me, desembaraça-me das roupas, e desembaraça-se das roupas (caso esteja vestida). E nos saciamos um com o corpo do outro. Deleitamo-nos até nos saciarmos, todos os dias.

22 de outubro – Minhas mãos lascivas avaliaram o corpo da Júlia, enquanto ela sonhava com os anjos.

29 de outubro – Durante o sexo, Júlia geme, sussurra palavras excitantes e obscenidades. Seu corpo é muito flexível. Ela se põe nas posições mais extravagantes, mais bizarras.

07 de novembro – Não posso acompanhar o ritmo da Júlia. Ela é insaciável. Para atenuar a tensão que a consome, e para não se privar da sua vontade, ela aplaca o desejo com brinquedinhos que comprou, sem o meu consentimento, em um sex-shop. Ela me disse, enraivecida, hoje, ao entardecer, durante uma discussão: “Tu não me satisfaz!” Berrou-me, fora de si: “Quero um homem!”. E deu-me um tapa, que suportei, resignado. Ela era tão doce! Tão meiga! O que se passa com ela? Uma metamorfose inexplicável, surpreendente! Seu corpo me atrai, agrada-me, mas a Júlia por quem me apaixonei, atraído pelo seu corpo esplêndido… O que está acontecendo com ela? Ouvi muitas ofensas. Júlia humilhou-me, nestes últimos dias.

12 de novembro – Júlia conversava, animadamente, com o Carlos, tocava-o nos braços, e gargalhava, hoje à tarde. Abordei-os. Carlos despediu-se de nós, e retirou-se. Em casa, eu e Júlia discutimos. Encerramos a discussão, de costas um para o outro.

20 de novembro – Surpreendi Júlia saciando-se com um brinquedinho fálico movido à pilha.

27 de novembro – Eu e Júlia tivemos um ótimo dia. Nos amamos três vezes. Nos reconciliamos da briga de ontem, quando dormi no sofá da sala.

04 de dezembro – Ciúme corrói-me a alma. Júlia almoçou com o Lúcio. Eu e Júlia discutimos. Brigamos. Nos reconciliamos, na cama.

14 de dezembro – Júlia, indiscreta, revelou a nossa intimidade para a Carla, sua amiga, que espalhou a notícia, dada por Júlia, de que não me encontro sempre disponível. Ouvi insinuações maldosas. Mateus, rindo, zombeteiro, perguntou-me se eu precisava de ajuda, na minha casa, e ofereceu-se para se encarregar das tarefas domésticas as quais Júlia exigia-me mas eu não as conseguia cumprir adequadamente. Se as tarefas, perguntou-me Mateus, me eram demasiadas, ele, disse-me, com sorriso escarninho estampado no rosto, encarregar-se-ia, e de muito boa-vontade, e sem remuneração, de uma parte delas, aliviando-me de tão exaustivo encargo. Esmaguei seu nariz com um soco. Se não me segurassem, não sei o que eu faria com ele. Matá-lo-ia com uma cadeira, ou com uma faca. Fatiá-lo-ia, e jogaria as fatias para os cães vadios que infestam a cidade.

02 de janeiro de 2…. – Segui a Júlia. Nada de comprometedor. Outra discussão. Ela me deu um tapa. Revidei.

07 de janeiro – Eu e Júlia nos reconciliamos, após dias durante os quais nem sequer nos olhamos um nos olhos do outro. Nos expandimos em excitantes modalidades sexuais. A imaginação, excitada pelo desejo, impeliu-nos a deixar o pudor de lado, e a extravasarmos. Uma das melhores noites que eu e Júlia passamos juntos. Realizei todas as minhas fantasias; e a Júlia, as dela. E como ela é criativa…

16 de janeiro – Ouvi comentários depreciativos sobre a reputação da Júlia. Perturbado, imaginei-a nos braços de Mateus, nos de Carlos, nos de Lúcio, nos de todos os homens.

22 de janeiro – Eu e Júlia passeamos pelo parque. Ela, com roupa provocante, atraía a atenção de todos os homens. Meu sangue ferveu ao deparar-me com um homem que, atrevido, encarava-a, lambia os beiços e babava de desejo. O seu olhar, tão lúbrico! A sua postura, tão lasciva! Pensei ter ouvido os seus pensamentos. Fui até ele, e o esmurrei. Rolamos pelo chão aos socos e pontapés. Ambos fomos conduzidos à delegacia. Na nossa casa, eu e Júlia discutimos durante duas horas. Ela me disse que não me aturaria mais, e iria embora. Retive-a. Disse-lhe que ela não podia ir-se embora, falei-lhe do meu medo de perdê-la, de ser privado da sua companhia. Eu a atraí, com voz suave, macia, arrependido. Dormimos, eu, na sala, ela, no quarto.

15 de fevereiro – Agredi a Júlia. Ela revidou. Rasguei a sua camisola. Júlia arranhou-me. Eu a quis possuir à força. Se era homem forte que Júlia desejava, ela me teria. “É um homem forte que você quer, Júlia? Eu sou o seu homem forte.” Agarrei-a pelos braços. Ela tentou se desvencilhar. Empurrei-a sobre a cama. Ela me deu pontapés, arranhou-me, deu-me tapas, em vão. Arranquei-lhe a camisola. Possuí Júlia à força. Eu a submeti à minha vontade. Ela gritou de dor. Com as mãos, abafei-lhe os berros. Ao recompor-se, ela ameaçou ir-se embora. Arrependido, pedi-lhe perdão. Ela não quis ouvir-me, e retirou-se. Cai no chão do corredor, encolhido, e chorei, sinceramente arrependido. Dormi. Despertei, hoje, na cama. Como fui até lá?

21 de fevereiro – Não posso viver sem a Júlia. Telefonei-lhe, todos os dias. Ela não retornou as ligações. Abordei-a, nas ruas, nas lojas, em todo lugar. Eu soube que o Mateus deseja namorar com ela. Pressionei-o contra a parede, e encostei-lhe o cano de um revólver na têmpora. “A Júlia é minha!”, eu lhe disse, “Atreva-se a encostar um dedo nela, que estourarei os seus miolos. Afaste-se dela! Afaste-se dela!”. Mateus obedeceu-me. Depois, ameacei o Carlos. Ele não me obedeceu.

08 de março – Matei o Carlos. Dois tiros, um entre os olhos, outro no peito esquerdo.

09 de março – Fui ao enterro do Carlos. A Júlia chorava aos cântaros. Ela me viu, e fingiu não me ver. À primeira oportunidade, aproximei-me dela. Abri os braços, para abraçá-la. Ela recuou, de frente para mim; ao afastar-se uns quatro metros, virou-se nos calcanhares, e correu.

22 de março – Encontrei-me com a Júlia. Abordei-a. Eu lhe disse que desejava me reconciliar com ela. Ela me pediu que eu me fosse embora. Não me movi. Ela me perguntou se eu sabia quem matou o Carlos. Fulminei-a com os olhos. Ela tremeu, aterrorizada. Empalideceu. Seus lábios, trêmulos. De seus olhos escorreram lágrimas em abundância.

09 de abril – Minha! A Júlia é minha. Minha! Ninguém mais a terá! Ninguém! Ela me pertence! Seu corpo me pertence! É meu! Meu! Pertence-me! Seu corpo existe para a satisfação dos meus desejos! Seu corpo é meu! Eu o terei sempre que o desejar! É meu! O corpo da Júlia é meu! Eu o adoro! Adoro a Júlia! A Júlia é a única mulher que adoro! Devoto-lhe minha vida! O corpo da Júlia é meu! Pertence-me! Só eu tenho a posse do corpo dela! Só eu! Eu! Eu!

O tiro

Testemunhei, ontem, ao entardecer, um dos mais horrendos espetáculos que a vida poderia me proporcionar. Indescritível. Inenarrável. Inominável. Não encontro as palavras adequadas para dar a dimensão das profundas impressões que o evento me deixou no espírito de homem pacato que nunca testemunhara cena tão horripilante e que não deseja testemunhar outra igual. Digo, na ausência de uma expressão que traduza melhor os meus sentimentos: carregarei para o túmulo imagens, tão impactantes, que dissolveram meu espírito. Eu gostaria de jamais haver testemunhado tão… Como eu direi? Estranho? Inusitado? Grotesco? Horripilante? Nenhum desses adjetivos dá a dimensão do que testemunhei. Eu gostaria de poder me expressar com palavras que reproduzissem com exatidão as impressões que o evento me gravou na memória, no espírito, na alma.

Por que não intervi… O que eu, assustado, impressionado, estupefato, poderia fazer? Não sou clarividente. Eu não sabia como o evento se desenrolaria, e tampouco como se encerraria. Encerramento tão… Inusitado? Imprevisível? Absurdo? Eu, um observador petrificado diante de uma cena inédita, mantive-me distante dos dois protagonistas desta história, desde o início do evento, que transcorreu num ritmo vertiginoso. Aproximei-me deles, curioso, na expectativa, sem ter consciência de que deles eu me aproximava. O que eu poderia fazer contra um homem que empunhava um revólver? Telefonei para a polícia. Naquelas circunstâncias, na companhia da Laura, a minha namorada, esta era a única providência que eu poderia tomar. Passou-me pela cabeça o desejo de bancar o herói. Tal pensamento foi-se embora tão logo se me aflorou ao cérebro. Não sou um herói. Seria uma rematada tolice interferir na discussão daqueles dois homens, que prodigalizaram um espetáculo que não está no gibi. Um deles empunhava um revólver. Eu, a Laura e não sei quantas outras pessoas assistimos à cena entorpecente. Nenhum filme nos proporciona cena tão impactante.

Após relatar o horrendo evento para o Ulisses, a Zulmira, o Júlio César, respectivamente, pai, mãe e irmão da Laura, e, depois, para a Adriana, a Zuleica, o Milton e o Osvaldo, amigos meus e da Laura, despedi-me da Laura, e vim para a minha casa. Aqui, narrei o ocorrido ao meu pai, à minha mãe e às minhas irmãs. Curiosos, ouviram-me atentamente. Prendi a atenção deles porque lhes narrei uma tragédia, gênero narrativo mesmerizante. Todas as atenções convergiram para mim durante o jantar, e depois. Meu pai não assistiu ao noticiário, e minha mãe e minhas irmãs não assistiram à novela. Sou um jovem extraordinariamente poderoso: fiz com que minha mãe e minhas irmãs perdessem um capítulo da novela. Esta é a explicação para a borrasca que despencou, ontem, em todo o estado. Pediram-me a repetição da cena derradeira. Não me fiz de rogado. Narrei-a. E a comentei. Perguntaram-me o que fiz, se fiquei nervoso, com medo. Perguntaram-me da Laura, se ela tremeu de medo (medrosa do jeito que ela é, disseram), se ela correu, e se escondeu dentro de uma loja. A Jéssica quis que eu lhe dissesse porque o protagonista deste episódio agiu como agiu, e exigiu-me explicações. Não lhas dei, obviamente. Se eu as tivesse! Ela não se satisfez com o meu silêncio a respeito. Minha mãe e meu pai vieram em meu socorro, chamando-a à razão; perguntaram-lhe como eu poderia saber o que se passava dentro da cabeça de um desmiolado. Depois de ouvir as minhas ponderações sensatas, as de papai e as de mamãe, a Jéssica insistiu em querer me extrair uma explicação plausível para a conduta do indivíduo ao qual minha mãe se referiu como um desmiolado. Não lha forneci, mas não me furtei a conjecturar algumas hipóteses – cinco ou seis, todas erradas, certamente. Não satisfiz a curiosidade intelectual de minha irmã – ela será uma psicóloga, pois tem o hábito de fazer perguntas para as quais ninguém conhece a resposta certa; melhor, ela faz perguntas para as quais não se deve perder tempo procurando por uma resposta, pois há mais entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia. Após minha mãe pôr a Jéssica para dormir, e a Tábata sair com a Luciana e a Rafaela, recolhi-me ao quarto. Pouco depois, banhei-me. Comi torradas, uma fatia de bolo de laranja, uvas, e bebi leite com baunilha em pó. Conversei com meu pai, durante uns dez minutos, sobre futebol, e despedi-me dele. Voltei para o quarto, bocejando, sonolento, exausto. Exauriram-me as energias a tensão, a apreensão e o medo de horas antes. Deitei-me, na cama. Pressionei o interruptor à cabeceira da cama – e apagou-se a luz. Fez-se a escuridão. Ajeitei o travesseiro. Aconchegado, no esforço de suprimir da mente as horrendas imagens que testemunhei, pensei na Laura, no desenho animado e nos vídeos de mulheres aos quais assisti, na internet. Nem as mulheres conseguiram afugentar de minha cabeça as cenas que testemunhei à tarde. Virei-me, na cama, de um lado para o outro. Deitei-me com o lado direito para cima. Deitei-me com o lado direito para baixo. Deitei-me de barriga para cima. Deitei-me de barriga para baixo, e enfiei a cara no travesseiro. Não consegui respirar, e ergui a cabeça. Não recomendo esta prática, para se buscar o sono, a ninguém. É sufocante. De nada me adiantou contar carneirinhos. Não sou um pastor. Muitos carneirinhos desgarraram-se do bando, e os lobos os devoraram. E a cerca por sobre a qual eles pulavam era eletrificada. Tempos modernos. Eletrificada para dissuadir ladrões, lobos e raposas de invadir a minha fazenda, mas acabou por matar, carbonizados, alguns carneirinhos. Resumindo: revirei-me na cama e não consegui pregar o olho. E para dormir não me injetei na veia a substância que Leonardo de Caprio se injeta, naquele filme do Christopher Nolan. Tentei sonhar que sonhava – para fazer isso eu teria de dormir. E quem disse que eu conseguia dormir! Morfeu não me visitou nesta noite. Não entrei no País das Maravilhas. Neste reino onírico eu entrava quando era criança, e protagonizava aventuras para lá de fantásticas. Notabilizei-me como rei e monarca e faraó e gênio nestas aventuras oníricas. Mas, nesta noite, o sono não me veio. Passei a noite em claro. As terríveis cenas que testemunhei, ontem, à tarde, repetiam-se, incessantemente, em meu cérebro. Sobrepunham-se as imagens. Intercalavam-se, entrecortadas. Imbricavam-se. Justapunham-se. Fundiam-se. Não pude afastá-las de minha mente. Era como se elas estivessem incrustadas em todos meus neurônios, dos quais não poderiam ser removidas sem que, com a remoção, não destruíssem minha mente. Agora, com a esferográfica à mão, debruçado sobre a mesa, sustentando a cabeça com a mão direita, escrevo, sonolento, bocejando a intervalos curtos, esta narrativa. As imagens afluem, incessantes, à minha mente, avassalam-me a alma, preenchem todos os interstícios de meu cérebro, este órgão de aparência tão repulsiva. Parece nozes. Mas não é comestível. Quem dirá isto para Hannibal Lecter? E as imagens afluem à minha mente, em profusão. Repetem-se. E repetem-se. Decidi relatar o evento da véspera, para que, assim, penso, registrando-o, eu o esqueça, e ele não me atormente mais, e eu possa dormir, na noite de hoje, tranquilamente, e sonhar sonhos idílicos. O impulso de escrever, irrefreável. Encerrarei a redação após narrar o horrendo episódio que testemunhei, ontem, na companhia da Laura. Até agora limitei-me a aludir ao evento, desordenadamente. Afinal, a qual evento referi-me desde o início deste manuscrito? Terei de conter-me no meu ímpeto de escrever, e organizar meus pensamentos. Principiarei do começo a narrativa, como, zombeteiramente, declaramos, antes de iniciar o relato de uma aventura que protagonizamos.

Fui à casa da Laura às quatro horas da tarde. Conversamos, não sei durante quanto tempo, com a tia da Laura, Maria Elizabeth, que viera, dois dias antes, do Rio Grande do Sul, onde mora, para visitar os familiares. Ela nos deu muitas notícias que nos alegraram e algumas entristecedoras: a morte de um primo e a de uma sobrinha, cujos nomes não me recordo. Josias e Jennifer, se não me engano. Ou Nicole? Não me recordo. Jennifer e Nicole são irmãs. Uma delas foi assassinada. Notícia entristecedora. Lágrimas vieram aos olhos de Maria Elizabeth. Os outros que a ouvíamos nos silenciamos. Não eram seis horas da tarde quando eu e a Laura nos despedimos de sua mãe e de sua tia. Não tínhamos outro objetivo além do de andar pelas calçadas do centro da cidade, olhar para as roupas, os calçados, os computadores, os chocolates, expostos nas vitrines das lojas, e, se nos desse vontade, determo-nos em uma sorveteria, para chuparmos sorvetes; picolés, não; não os aprecio, e Laura também não.

Andávamos, tranquilamente, em meio ao azáfama reinante. Crianças com uniforme escolar, acompanhadas de um adulto, e jovens sobraçando cadernos, iam de um lado para o outro. O trânsito, caótico. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de calçados. Laura apontou os calçados que desejava comprar, todos inacessíveis ao seu pai e à sua mãe. Na loja vizinha, à direita, quatro manequins exibiam vestidos deslumbrantes pelos quais Laura, disse ela, apaixonou-se. Ela também disse que pediria para sua mãe comprar-lhe um vestido; não o pediria ao seu pai, pois dona Zulmira é, nas palavras da Laura, mão aberta, e seu Ulisses, mão fechada, mão de vaca, unha de fome. O Ulisses não é mão de vaca, como diz a Laura. Ele é parcimonioso, diria meu tio Washington, sempre mergulhado nos livros, com o nariz, como diz tia Luiza, esposa dele, enfiado entre as linhas, os olhos grudados nas folhas, e os ouvidos a ouvir a voz interior enquanto decifra os indecifráveis segredos daqueles misteriosos livros de filosofia. À direita da loja de vestidos femininos, há uma loja de calçados à frente da qual detivemo-nos eu e Laura. Alguns calçados eram, direi, atraentes; outros, de um mal gosto de provocar engulhos até no diabo. E a Laura, mais uma vez, para não perder o costume, disse que pediria para sua mãe, mulher generosa, comprar-lhe este e aquele par de sapatos pelo qual se apaixonou, e não os pediria ao seu pai, porque ele não abre a mão nem para dar tchau. Andamos alguns metros. Expostas à vitrine de uma loja, roupas íntimas femininas. Arregalei os olhos. Expressei uma interjeição. Não escondi da Laura o meu interesse por aqueles sutiãs e aquelas calcinhas (obviamente, interessei-me pelas roupas íntimas femininas não para eu as usar, mas para a Laura cobrir-se com elas. Cobrir-se com roupas tão minúsculas!?). Detive-me. Laura puxou-me pela mão, a passos pesados. Esbocei resistência. Laura beliscou-me, e ameaçou dar-me um tapa. Deixei-me levar por ela, sorrindo, divertidíssimo. Laura irritou-se, franziu o cenho, disse-me que me quebraria o nariz com um soco se eu me detivesse diante daquela loja, e mandou-me suprimir o sorriso do rosto. Andamos alguns metros. Detivemo-nos diante da vitrine de uma loja de roupas femininas. Dos quatro vestidos expostos, a Laura apaixonou-se por três; pediria, disse, para sua mãe, mulher generosa e mão aberta, comprar-lhos. Informo: O mais barato dos três vestidos estava à venda por R$ 250,00. Diante da vitrine desta loja permanecemos por mais tempo do que diante da das outras lojas. Laura amou – disse ela – os vestidos, que lhe inspiraram aventuras mais comuns aos contos de fadas do que à realidade. Disse que queria entrar na loja para ver quais outros vestidos haviam lá, mas queria vê-los ‘com as mãos’, e puxou-me pelo braço. Foi neste momento que nos chegou aos ouvidos barulho de pneus cantando no asfalto. Viramo-nos, simultaneamente, para a nossa esquerda, a tempo de assistir à colisão de dois carros, um vermelho e um prateado. Laura exclamou: “Nossa!”, arregalou os olhos, cobriu a boca com a mão esquerda, e, soltando-me o braço, com a mão direita cobriu a mão esquerda. Arregalei os olhos. Vi várias pessoas, todas com o olhar convergindo para os dois carros que se envolveram no acidente. Por sorte, ambos os motoristas frearam a tempo de impedir uma colisão destruidora. Nenhum dos dois carros teve danos significativos. Do carro prateado ficou quebrado o farol dianteiro; do carro vermelho, a porta ficou amassada. Ajuntou uma pequena multidão de curiosos nas proximidades. Ninguém, no entanto, aproximou-se dos dois carros. Os curiosos, expectantes, aguardamos o desenrolar do evento. O que haveria a seguir? Os dois motoristas se insultariam, se engalfinhariam, se arrancariam sangue um do outro? Do carro vermelho retirou-se um homem robusto, de um metro e oitenta de altura, barba rapada, cabelos curtos, queixo quadrado, sobrancelhas espessas, lábios finos, descoloridos, quase indiscerníveis. Trajava uma calça jeans e uma camisa de um time espanhol de futebol. Com o olhar assustado, deteve-se; coçou a cabeça, e olhou, apalermado, para o motorista do carro prateado. A colisão roubara-lhe o governo de si. Presumo que foi a primeira vez que ele se envolveu em um acidente de carro, daí a sua imobilidade. Ele não sabia quais providências tomar, o que dizer, nem para o motorista do carro prateado, nem para si mesmo. Estava constrangido. Sorriu, acanhado. Indisfarçável, o seu constrangimento. Coçou o nariz com a ponta do dedo indicador direito, premiu as narinas, e olhou ao redor. O motorista do carro prateado, nesse meio tempo, ao desvencilhar-se do cinto de segurança, abriu a porta do carro, e do carro retirou-se, bufando de raiva, rilhando os dentes. Fitou o motorista do carro vermelho, bateu a porta do carro, fungando, furioso. Visível a raiva contida em seu rosto. Era um homem de estatura mediana. De um metro e sessenta, se muito. De trinta anos de idade, presumo. Trajava uma bermuda verde-abacate e camisa regata; nos pés, tênis azul com faixas brancas e amarelas. Era magro, mas não era desprovido de músculos salientes; os vasos sanguíneos destacavam-se. De lábios grossos, queixo pontudo. Tinha, na orelha direita, dois brincos (um, argola; o outro, uma estrela azul); na narina esquerda, um piercing; e um piercing na extremidade externa da sobranceira direita. Carregava cabelos compridos pretos, presos, num rabo-de-cabelo, com elásticos; no ombro, no braço e no antebraço esquerdos tinha uma tatuagem, ou várias tatuagens; não pude distinguir a figura (ou figuras) representada. Ele andou, a passos pesados, na direção do motorista do carro vermelho. Não o agrediu, no entanto, como, presumo, desejava fazer, pois o motorista do carro vermelho era maior e mais forte do que ele. Irritado, enraivecido, com os punhos cerrados, esbravejou e ofendeu o motorista do carro vermelho, mantendo dele a distância de dois metros. Os curiosos, expectantes, antevíamos uma briga corpo-a-corpo entre os dois motoristas. Ansiávamos por uma briga. Queríamos assistir à luta do século, ao vivo, e em cores, entre aqueles dois homens. Quais regras eles respeitariam? Nenhuma. Ninguém arbitraria a luta. Eles, previ, prodigalizariam uma luta inesquecível. O motorista do carro vermelho e o motorista do carro prateado entrariam para a história universal como os protagonistas da luta do século. Perguntei-me, em silêncio, porque o motorista do carro vermelho, com os seus um metro e oitenta de altura e punhos de aço não cerrava os punhos e não nocauteava o baixinho do carro prateado. Por que ele o ouvia, calado, constrangido, e olhava de um lado para o outro, enquanto o motorista do carro prateado intensificava os insultos, e punha-lhe o dedo indicador em riste diante do nariz? Vários curiosos atiçavam o motorista do carro vermelho contra o motorista do carro prateado; diziam-lhe que lhe quebrasse o nariz; que não levasse desaforos para casa; que o golpeasse com um soco. Exclamaram “Quebre ele!”, “Esmague o nariz dele!”, “Não deixe barato, não, cara. Arrebente ele!”. Mas o motorista do carro vermelho não lhes deu ouvidos. Ao contrário, buscou entender-se com o motorista do carro prateado, pedia-lhe que se acalmasse. Seus gestos, serenos, indicavam que ele desejava o entendimento, por meios pacíficos, mas o motorista do carro prateado queria proporcionar ao público um espetáculo inesquecível que seria narrado em prosa e verso por todas as testemunhas repetidas vezes e perpetuar-se-ia por gerações. Enquanto assistia à agressão verbal do motorista do carro prateado contra o motorista do carro vermelho, perguntei-me qual deles causara a colisão.

A multidão acercou-se dos dois motoristas, aproximou-se deles. Eu e a Laura a acompanhamos; conservamo-nos mais perto do motorista do carro prateado, dele distando três metros. Eu estava com a mão direita pousada no ombro direito da Laura, que me enlaçava, pela cintura, com o braço esquerdo, a mão esquerda na minha ilharga esquerda. Assistíamos, curiosos, expectantes, ao desenrolar do episódio. O motorista do carro prateado, olhos esbugalhados, punhos cerrados, esbravejava, esgoelando-se, insultava o motorista do carro vermelho, que, era visível, estava constrangido. Após uma sequência de obscenidades, numa série que, parecia, seria interminável, sucedeu-se o imprevisível. Eu poderia reproduzir as obscenidades que o motorista do carro prateado cuspiu sobre o motorista do carro vermelho. Todavia, não o farei. O pudor mo impede. Quero, no entanto, reproduzi-las. Não o farei, entretanto. Elas são impublicáveis. Eu as substituirei por eufemismos. Ei-los: “Imbecil! Idiota! Você é débil mental, asno retardado? Não viu o sinal vermelho, mocorongo? Idiota! Olhe para o meu carro! Olhe! Viu o que você fez, burro filho-de-uma-égua!? Viu o que você fez!? Anta! Você tem titica de galinha na cabeça, cérebro de ameba!? Você tem inteligência de lombriga! Idiota! Filho-de-uma-égua! Você tem cérebro de ameba. Quantos neurônios você tem na cabeça!? Dois. Apenas dois. Um estava com a data de validade vencida no dia que você foi concebido e um queimou-se no dia que você nasceu. Asno! Débil mental! Filho-da-polícia! Filho-de-uma-égua!” Ato contínuo, cuspiu no motorista do carro vermelho, que se enfezou, e deu dois passos firmes e decididos na sua direção. O motorista do carro prateado recuou três passos, e, para surpresa de todos, principalmente do seu antagonista, retirou, de sob a camisa e do cós da calça, um revólver calibre 38, e apontou-lho, o braço estendido, para a cabeça. O motorista do carro vermelho arregalou os olhos, escancarou a boca, e recuou. Todas as testemunhas suspendemos a respiração. Eu não quis acreditar no que meus olhos viam: Um homem, com uma arma apontada para a cabeça de outro homem, ameaçava apertar o gatilho, e estourar-lhe os miolos. Até ontem, vi cenas assim apenas nos filmes. Antevi a tragédia: O motorista do carro prateado aperta o gatilho, e o motorista do carro vermelho cai, morto, com uma bala alojada na cabeça, na testa, entre os olhos, e o cadáver do motorista do carro vermelho a esvair-se em sangue, e os curiosos, apavorados, aterrorizados, a correr, em disparada, e o caos instalado no centro da cidade. Não pensei duas vezes: tirei, com as mãos trêmulas, o meu telefone celular do bolso da minha camisa, e telefonei para a delegacia de polícia. Despi-me do medo que me avassalava. A Laura puxou-me, para nos afastarmos dos dois motoristas; eu, imóvel, não a percebi me puxar, mas senti sua mão pressionando-me o braço e o antebraço direitos. O motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu três passos – ou quatro, ou cinco, não sei – na direção do motorista do carro vermelho, que recuou. Muitos dentre os curiosos afastaram-se, muitos agacharam-se. Alguns procuraram chamar o motorista do carro prateado à razão. O motorista do carro vermelho, assustado, olhos arregalados, recuava e pedia, mãos erguidas, calma ao motorista do carro prateado, que, fora de si e surdo aos rogos dele, ameaçava matá-lo. Ao policial que me atendeu à ligação relatei, em poucas palavras, o que eu via, e dei-lhe a nossa localização, e desliguei o telefone. Não desviei do motorista do carro prateado e do do carro vermelho o meu olhar. Nem piscar, pisquei. O revólver mesmerizava-me. Prendiam-me a atenção os berros do motorista do carro prateado. A Laura rogava-me afastarmo-nos dos motoristas. Não a atendi, e aproximei-me deles. A minha curiosidade, atiçada; e eu desejava saciá-la; eu queria assistir ao desenlace da história. O motorista do carro vermelho recuou até encostar-se no seu carro, mãos espalmadas à frente de si, palmas voltadas para o motorista do carro prateado, rogando-lhe que abaixasse a mão que empunhava o revólver. Dobrou-se para trás, sobre o carro. O motorista do carro prateado renovou as ameaças, elevou a voz, que ricochetou no interior de meus ouvidos, que a amplificou, aterrorizando-me. O motorista do carro vermelho meneava a cabeça, balbuciava palavras que não ouvi; a sua fisionomia transparecia o pavor que o revólver e a voz ameaçadora do motorista do carro prateado infundiam-lhe. Aproximei-me do motorista do carro prateado. Eu queria ver-lhe o rosto. A Laura puxava-me para trás e pedia-me que eu me afastasse. Não a ouvi. E ela aplicou mais força em meu braço e antebraço direitos. E o motorista do carro prateado, esgoelando-se, deu um berro ensurdecedor, que abafou todos os outros sons, todas as outras vozes, e apontou o revólver para si, encostou-o em sua têmpora, e apertou o gatilho. Ouviu-se o detonar do revólver. O motorista do carro prateado caiu, pesadamente. O seu olhar encontrou-se com o meu. Após espasmos, sob dores excruciantes, esvaiu-se-lhe a consciência, cessaram-lhe os batimentos cardíacos. Morreu.

 

Dois tiros

Quarta-feira. Temperatura amena.

Celso, imerso em seus pensamentos, andava, tranquilamente, pela avenida Dom Pedro II.

– Entregue-me a carteira – ameaçou-o um jovem alto, espadaúdo, moreno, de cabelos desgrenhados, que lhe encostou, na ilharga direita, a ponta de uma faca.

Celso, sentindo a ponta afiada da faca, retirou, automaticamente – com movimentos robóticos, dir-se-ia -, a carteira do bolso posterior direito da calça, e entregou-a ao jovem, que arrancou-lha da mão, com violência, e correu, e o comparsa deste, jovem magro, loiro, branco, de um metro e setenta de altura, acompanhou-o. Desapareceram ambos no meio da multidão. Celso levou a mão direita ao peito, e sentiu o coração bater descompassado. Aos poucos, recuperou o controle de si. Demorou para entender o que ocorrera; e suspirou, aliviado. Uma mulher, que testemunhara o assalto, aproximou-se de Celso, e aconselhou-o a ir à delegacia de polícia.

Na delegacia, vinte minutos depois, Celso descreveu aos policiais os dois assaltantes.

Transcorreram-se os dias. Em frente à loja Novidades, Celso e um seu amigo, Edson, conversavam quando aquele entreviu, indo em direção a eles, os dois jovens que lhe roubaram a carteira, e empalideceu, e aceleraram-se-lhe os batimentos cardíacos. Os dois jovens seguravam, cada um, uma corrente pela alça; um dos jovens trazia consigo um rottweiller; o outro, um pitt-bull.

– O que houve? – perguntou Edson a Celso, ao surpreender-lhe a brusca mudança de voz e a palidez repentina.

Um dos jovens, o loiro, gritou o nome de Edson. Edson voltou-se, saudou-o. Os dois jovens aproximaram-se. Reconheceram Celso. Sorriram. Saudaram, com apertos de mãos, Edson, e Celso, que, pálido, trêmulo, saudou-os, constrangido, intimidado. Conversaram com Edson, durante cinco minutos, a respeito dos cachorros que levavam com eles. Despediram-se. Fitaram Celso, sorridentes, desejaram-lhe felicidades, e afastaram-se.

– Eles me assaltaram, na semana passada – disse Celso, assim que os dois jovens distavam cinquenta metros.

– O Osvaldo e o Ricardo? – perguntou Edson, surpreso.

– Sim – respondeu Celso. – Eles roubaram a minha carteira. Você sabe onde eles moram?

Edson forneceu-lhe o endereço de Osvaldo.

No dia seguinte, Celso pegou o revólver de seu pai.

– Aqueles vagabundos me pagarão caro – rosnou Celso. – Vou enviá-los para o inferno – e rumou para a casa de Osvaldo.

Quinze minutos depois, chegou ao seu destino. Premiu a campainha. Ouviu os latidos dos cachorros. Ricardo atendeu à porta, reconheceu Celso, encarou-o, e sibilou:

– O que você quer, idiota?

Celso franziu o cenho.

Os cachorros intensificaram os latidos.

Celso apontou o revólver para a cabeça de Ricardo, que, de imediato, emudecido, surpreso, arregalou os olhos, e recuou dois passos.

Celso, com voz cavernosa, ameaçadora, deu-lhe a ordem:

– Entre!

Ricardo obedeceu-o, prontamente, mesmerizado pelo revólver apontado à sua cabeça.

Recrudesceram os latidos do rottweiller e do pitt-bull.

No interior da casa estava Osvaldo, que, ao ver Ricardo e Celso, não esboçou nenhum gesto. Fitou-os, em silêncio.

Celso pôs os dois à mira do revólver.

– Vim buscar a minha carteira – sentenciou Celso.

O rottweiller e o pitt-bull latiam, infatigáveis.

Osvaldo entregou a carteira para Celso, que, com brusquidão, retirou-lha da mão, e perguntou-lhe, ríspido:

– E o dinheiro?

– Gastamos… – respondeu, voz trêmula, Osvaldo.

– Cães malditos! – esgoelou-se Celso, que apertou o gatilho duas vezes. Com o primeiro tiro, matou o rottweiller; com o segundo, o pitt-bull.

E correu, célere.

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