O pedaço de bolo de chocolate

Uma história do Joãozinho

Era um domingo como outro domingo qualquer. Nem quente, nem frio.

Na casa de número 3443 da Rua das Caraminholas, que com a Rua das Caravelas, a Rua das Caravanas, a Rua das Carapaças e a Rua dos Caranguejos faz intersecções, no Bairro dos Caraminguás, vizinho, ao leste, do Bairro das Carambolas, ao oeste, do Bairro dos Caramujos, ao norte, do Bairro do Caramanchão, ao sul, do Bairro das Carantonhas, vive uma família de quatro pessoas: os genitores, ele, pai de Joãozinho, ela, mãe de Joãozinho, e os seus filhos, ele, o primogênito, Joãozinho, ela, irmã de Joãozinho. Às seis horas da manhã, retiraram-se da casa a mãe e sua filha, que rumaram para a casa dos avós maternos de Joãozinho, situada na cidade vizinha, no número 4334 da Rua dos Carrapichos, que com a Rua dos Carrapatos e a Rua dos Carrascos faz intersecções, no Bairro do Carajé, vizinho, ao leste, do Bairro do Caramelo, ao oeste, do Bairro da Carraspana, ao norte, do Bairro do Caramuru, ao sul, do Bairro dos Caraíbas. E o pai e seu filho acordariam, o primeiro, às oito horas, o segundo, às dez. E o pai de Joãozinho, banho tomado, dentes escovados, leite de um copo de vidro bebido e um bolinho de caramelo degustado, preparou, na cozinha, na mesa, as refeições matinais, a sua e a de seu filho. Joãozinho, banho tomado e dentes escovados, foi à cozinha. E à mesa sentaram-se pai e filho. Este, ao ver sobre a mesa um bolo de chocolate e um pedaço de bolo de chocolate e à mão de seu pai uma faca, e ele preparando-se para cortar o bolo, disse-lhe, detendo-o:

– Não quero o bolo.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Não – respondeu Joãozinho.

– E o que você vai comer? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande esse pedaço de bolo.

– Não é, não.

– Vou cortar… – e inclinou-se o pai de Joãozinho para o bolo, a faca na mão direita, preparando-se para cortá-lo, mas não o cortou. Impediu-o Joãozinho.

– Não pode cortar o bolo de chocolate – disse Joãozinho.

– Mas o pedaço de bolo é grande.

– Eu quero o pedaço inteiro.

– O quê?

– Eu quero o pedaço inteiro.

– Pedaço inteiro!?

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande. – comentou o pai de Joãozinho.

– Não é, não.

– Vou cortar um pedaço deste bolo… – disse o pai de Joãozinho, que não completou a frase porque impediu-o Joãozinho.

– Não quero um pedaço de bolo de chocolate – disse, firme, sério, Joãozinho. – Quero o pedaço inteiro.

– Mas, filho…

– Quero um pedaço inteiro; não quero um pedaço cortado.

– Pedaço inteiro? Pedaço cortado?

– Este é o pedaço inteiro – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– E o pedaço cortado?

– É um pedaço cortado.

O pai de Joãozinho encasquetou com a distinção que seu filho fazia de pedaço inteiro e pedaço cortado; considerando divertido e intrigante o que ele dizia, decidiu dar sequência à conversa para de Joãozinho extrair definições claras do que ele queria dizer com pedaço inteiro e pedaço cortado.

– Filho, cortarei um pedaço deste bolo…

– Não quero um pedaço cortado.

– Filho…

– Quero o pedaço inteiro.

– Cortarei do bolo um pedaço do mesmo tamanho do…

– Não quero um pedaço cortado de bolo.

– O pedaço cortado do bolo de chocolate terá o tamanho desse pedaço inteiro – apontou o pai Joãozinho para o pedaço de bolo.

– Não quero um pedaço cortado; quero o pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado do bolo de chocolate do mesmo tamanho do pedaço inteiro é igual ao pedaço inteiro.

– Não é, não.

– Então, eu cortarei do bolo um pedaço maior do que o pedaço inteiro; sendo maior, é melhor.

– Não é, não. Pedaço cortado é pedaço cortado; e pedaço inteiro é pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado e um pedaço inteiro são iguais se ambos tiverem o mesmo tamanho.

– Não são, não.

– Ambos os pedaços, o inteiro e o cortado, são gostosos.

– Não são, não.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho, intrigado.

– Não – respondeu Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

– Mas, sendo o pedaço inteiro e o pedaço cortado do mesmo tamanho, iguais eles são, e, portanto, terão o mesmo gosto. Ambos os pedaços serão gostosos.

– Não. Não. E não. Eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado.

– Por quê? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo.

– Por que o pedaço inteiro não é um pedaço cortado. E eu, que gosto de pedaço inteiro, e não gosto de pedaço cortado, quero o pedaço inteiro, e não um pedaço cortado.

– Não entendi – comentou o pai de Joãozinho, rindo consigo. – O pedaço inteiro do bolo de chocolate é de chocolate. O bolo, aqui – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – é de chocolate. Se eu cortar deste bolo um pedaço do mesmo tamanho do pedaço inteiro – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro e terá o mesmo gosto dele.

– Não terá o mesmo gosto, não – replicou Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que um pedaço cortado. O pedaço inteiro não é um pedaço cortado. O pedaço cortado não é um pedaço inteiro. O pedaço inteiro é o pedaço inteiro. Um pedaço cortado é um pedaço cortado. E eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado. O bolo é de chocolate. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. O pedaço cortado de bolo de chocolate é de chocolate. Mas o pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não é um pedaço cortado de bolo de chocolate, e, sendo um pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não um pedaço cortado de bolo de chocolate, tem gosto de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e um pedaço cortado de bolo de chocolate tem gosto de pedaço cortado de bolo de chocolate, e de pedaço cortado de bolo de chocolate eu não gosto.

Mais confuso do que no início, o pai de Joãozinho perguntou-se se foi uma idéia sensata insistir na conversa com o propósito de extrair de seu filho esclarecimentos sobre as distinções que ele fazia entre pedaço inteiro e pedaço cortado. Contrariando a si mesmo, melhor, a metade de si que desejava encerrar o assunto e tratar de outro tema, e atendendo à metade de si curiosa por saber o que seu filho entendia por pedaço inteiro de bolo de chocolate e pedaço cortado de bolo de chocolate, disse:

– Filho, o bolo é de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. Se eu cortar do bolo de chocolate um pedaço, o pedaço cortado será, como o bolo de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate, de chocolate. Chocolate é chocolate. O bolo é de chocolate, e todos os seus pedaços cortados são de chocolate. Se eu cortar o bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – em cinco pedaços, todos do tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, todos os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate serão iguais ao pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não diferentes. Serão do mesmo tamanho. O pedaço inteiro de bolo de chocolate e os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate terão o mesmo gosto, e todos os seis pedaços serão de chocolate. Tanto faz comer ou o pedaço inteiro de bolo de chocolate ou um dos cinco pedaços cortados de bolo de chocolate, filho. Você gostará de qualquer um deles.

Joãozinho meneou a cabeça, desconsolado.

– Ai. Ai – suspirou Joãozinho.

– O que eu disse não está certo? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo. A sua expressão impassível não transparecia a hilaridade que lhe animava os pensamentos. Queria emprestar traços sérios, respeitáveis à sua fisionomia, e receava trair-se.

– Não – respondeu-lhe Joãozinho, seco. – Não está certo, não.

– Quero entender, filho, o que você me disse. Então, proponho para você uma brincadeira: Você cobrirá, com as mãos, os olhos, e eu cortarei um pedaço do bolo de chocolate, e o deixarei ao lado do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e os misturarei, e avisarei você, e você descobrirá os olhos, e pegará um pedaço de bolo de chocolate sem saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– O senhor não pode fazer isso, papai – resmungou Joãozinho.

– Por que não?

– Por que eu tenho que ver o senhor cortando o bolo para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate; se eu não ver qual foi o pedaço que o senhor cortou e pôs perto do pedaço inteiro de bolo de chocolate, eu, ao pegar um dos dois pedaços, poderei pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu não quero o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– Mas você, filho, não vendo qual pedaço cortei, não saberá qual é o pedaço cortado e qual é o pedaço inteiro.

– Se eu pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, que eu não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero, comerei o pedaço cortado de bolo de chocolate, que é o que não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero.

– Se você não souber qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, o pedaço que você pegar, ou o inteiro ou o cortado, e comer, será de chocolate, e gostará dele, portanto, filho, você, não sabendo qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, poderá comer qualquer um dos pedaços, e dele gostará.

Joãozinho olhou, com ar desconsolado, para o alto, e suspirou.

– Ai. Ai.

– O que eu disse não está certo?

– Não, né – respondeu Joãozinho, irritado. – Papai, o senhor não entendeu o que eu disse. Se eu cobrir, com as mãos, os olhos, e o senhor cortar o bolo de chocolate em pedaços iguais, todos do mesmo tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu, ao escolher um pedaço de bolo para comê-lo, em vez do pedaço inteiro, que é o que eu gosto, pegar o pedaço cortado, e comê-lo, e gostar dele, eu gostarei do pedaço cortado de bolo, e não do pedaço inteiro, isto é, eu gostarei do pedaço que eu não gosto; se eu não gosto de pedaço cortado, de pedaço cortado não posso gostar; eu tenho de gostar do pedaço que eu gosto, que é o pedaço inteiro, e não do pedaço que eu não gosto, que é o pedaço cortado. Então, entendeu pai, eu tenho de ver o senhor cortar o bolo de chocolate para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu gosto de pedaço inteiro, e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate, e eu não gosto de pedaço cortado. O pedaço inteiro e o pedaço cortado não são a mesma coisa.

– São, sim.

– Não são, não.

– Se eu cortar um pedaço deste bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro.

– Não será, não, papai. O pedaço inteiro é o pedaço que estava em cima da mesa; e o pedaço cortado é o pedaço que o senhor cortará do bolo. Quando eu cheguei aqui, vi, em cima da mesa, um bolo de chocolate e um pedaço inteiro de bolo de chocolate.

– Mas este pedaço inteiro é um pedaço de um bolo de chocolate que, ou eu, ou sua mãe, cortou; portanto, o pedaço que você diz ser pedaço inteiro é, na verdade, um pedaço cortado, porque, ou eu, ou sua mãe, o cortou de um bolo de chocolate. Se eu cortar, deste bolo – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, um pedaço igual ao pedaço inteiro de bolo – e tocou, com a ponta da face, o pedaço de bolo de chocolate -, ambos os pedaços serão iguais.

– Não serão, não – replicou Joãozinho, visivelmente irritado. – O pedaço de bolo de chocolate que está na mesa é um pedaço inteiro. Quando eu cheguei aqui, o pedaço já estava aqui, e estava inteiro; ninguém o cortou; eu não o cortei; o senhor não o cortou; ninguém o cortou; o pedaço, agora, está inteiro como inteiro estava quando eu o vi quando cheguei e sentei-me nesta cadeira. O bolo de chocolate está inteiro, e se o senhor o cortar em pedaços, os pedaços serão cortados, e pedaços cortados não são pedaços inteiros; são pedaços cortados. Eu verei o senhor, papai, cortando o bolo de chocolate, e do bolo de chocolate tirando um pedaço, pedaço este que o senhor me dará, e este pedaço será um pedaço cortado, porque vi o senhor cortando o bolo em pedaços, e todos os pedaços que do bolo o senhor cortar serão pedaços cortados, e não pedaços inteiros. O pedaço inteiro é o pedaço que já estava aqui na mesa quando eu cheguei, e não vi ninguém o cortando, então, este pedaço é um pedaço inteiro, e não um pedaço cortado. Não vi ninguém cortando um bolo, e do bolo tirando este pedaço – e apontou para o pedaço de bolo de chocolate. – Eu vi este pedaço, que estava inteiro quando eu o vi, e não vi ninguém cortá-lo de um bolo, então é um pedaço inteiro este pedaço de bolo de chocolate. Se o senhor cortar o bolo em pedaços, os pedaços serão cortados, e o pedaço que o senhor me der será um pedaço cortado, e não um pedaço inteiro. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro que eu vi quando cheguei aqui na cozinha; e o pedaço cortado de bolo de chocolate será o pedaço que o senhor cortará do bolo. Entendeu, papai?

A pergunta Joãozinho a fez num tom atrevido, que denotava impaciência e desconsolo. O pai de Joãozinho ria-se consigo, olhos fitos em seu filho, tentando entender como funcionava aquele cérebro infantil. Com o que dele ouviu, não pôde avaliar… Aliás, não pôde avaliar o que ouviu. Decidiu, então, encerrar a conversa, contrariando a metade de si que desejava dar-lhe sequência.

– Entendi, filho. Você gosta de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não gosta de pedaço cortado de bolo de chocolate, porque o pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

Joãozinho abriu um largo sorriso, da orelha direita à orelha esquerda, como a dizer: “Papai é inteligente. Ele entendeu o que eu disse.”, o rosto a transparecer a felicidade que o animava.

– Filho – disse o pai de Joãozinho -, coma o pedaço inteiro de bolo de chocolate. É tão gostoso…

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O homem que tinha boa memória

– Hoje aconteceu-me uma coisa muito interessante, Gustavo. Fui à farmácia comprar um remédio. Ao balcão, a mocinha, uma loirinha simpática, que me atendeu, perguntou-me o que eu desejava. Pensei em dizer-lhe o que, naquele momento, eu desejava, mas, como eu sou um cavalheiro, disse-lhe eu que eu desejava um remédio. E ela perguntou-me: “Qual remédio?”. “Qual remédio!?”, indaguei, no meu tom de voz habitual, mais para mim do que para ela. “É um comprimido”, disse-lhe eu, gracejando, tentando lembrar-me o nome do maldito remédio. E a loirinha perguntou-me, com aqueles olhos tão doces a olharem-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Aquela loirinha era uma gracinha ao falar específico. Nunca vi uma mulher falar específico com tanta graça. E disse-lhe eu: “Posso. O nome do remédio começa com a letra R”. A loirinha sorriu, e perguntou-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Que graça ela falar específico! “Mais específico do que estou sendo, impossível”, respondi-lhe, e ela sorriu. E eu, que havia me esquecido o nome do maldito remédio, disse à loirinha que eu iria telefonar para a minha esposa. E a loirinha, a educação e a simpatia em pessoa, esperou-me, pacientemente, completar a conversa com a Samantha, e dizer-lhe à ela, a loirinha que me atendeu, o nome do remédio. Disse-lho eu, e desliguei o telefone. E a loirinha providenciou-me o remédio; e paguei por ele, no caixa, retirei-me da farmácia, fui para casa o mais rápido que pude, e entreguei o remédio para a Samantha – e após uma curta pausa, para beber da cerveja, prosseguiu: – Gustavo, você sabe o que mais me chamou a atenção nesta história? A minha boa memória. Quando, ao telefone, a Samantha disse-me o nome do remédio que ela me pedira que eu lho comprasse, dele lembrei-me de imediato. Incrível, não? Que boa memória a minha!

O segredo

Uma história do Joãozinho

O pai de Joãozinho diz para Joãozinho.

– Joãozinho, amanhã será o aniversário de tua mãe. Estou preparando uma festa surpresa para ela, mas nada lhe digas, está bem?

– Está bem – respondeu Joãozinho.

Vinte minutos depois, chega à casa a mãe de Joãozinho. Joãozinho pula-lhe aos braços, e, após dela receber um beijo caloroso, lhe diz:

– Mamãe, a senhora sabia que papai está te preparando uma festa surpresa?

– Não era para lhe contar, Joãozinho – censurou-o o pai.

– Não lhe contei – defendeu-se Joãozinho. – Eu só lhe perguntei se ela sabia que o senhor está lhe preparando uma festa surpresa.

 

O canarinho e Charles Darwin

Uma história do Joãozinho

Encontravam-se, na casa do Joãozinho, além de Joãozinho e dos pais do Joãozinho, os avós do Joãozinho – os maternos e os paternos – e um tio materno do Joãozinho. Conversavam, à mesa da sala-de-estar, animados, na manhã daquele sábado de calor intenso, a degustarem dos docinhos, das bolachas de nata e dos biscoitos de vento que a avó materna do Joãozinho havia preparado com todo o amor e carinho que lhe animava o espírito.

O pai do Joãozinho narrou algumas peripécias da sua juventude. A mãe do Joãozinho contou um episódio que protagonizou: seu pai a ensinava a andar de bicicleta, e ela, desajeitada, deu uma pedalada, e a bicicleta rumou, em linha reta, em direção à uma árvore; contra ela não colidiu porque seu pai a segurou a tempo de evitar a colisão. Riram, todos.

E todos narraram episódios hilários da juventude.

– São engraçados, hoje – comentou o avô paterno do Joãozinho. – Agora, que os recordamos, rimos. Mas nos preocupamos, na época em que se deram.

E as suas observações produziram muitos comentários, e inspiraram a evocação de dezenas de outros episódios, engraçados, diziam. E riram. E gargalharam.

E Joãozinho, que ria a bom rir, e narrava, com a desenvoltura que lhe era peculiar e o desembaraço que todos lhes reconheciam, algumas das suas aventuras, e assim que sua mãe fez referência ao canarinho, dele falou, animado, e todos o ouviram, atentamente.

– Um dia, já faz tempo, vi um canarinho amarelo, bem amarelo, na jabuticabeira. Ele estava com fome, e queria jabuticabas. Como a jabuticabeira não tinha jabuticabas, fui até à cozinha, e peguei um pedaço de mamão, e o pus, no chão, perto da jabuticabeira. Sentei-me, para esperar o canarinho comer do pedaço de mamão, no banquinho, que está no rancho, e não me mexi. Depois de um tempão, o canarinho desceu no chão, e comeu do mamão, dando bicadinhas com seu bico, que é bem pequeno, pequenininho. Depois de comer do mamão, ele foi embora.

– E para onde ele foi? – perguntou-lhe a avó materna.

– Não sei – respondeu Joãozinho. – Eu queria vê-lo novamente, então, no dia seguinte, pus um pedaço de mamão, um gomo de laranja e um pedaço de melão, no mesmo lugar que, no dia anterior, eu havia posto um pedaço de mamão.

– Você serviu um banquete ao canarinho – observou o avô paterno do Joãozinho.

– Empanturre-o, que ele engordará, Joãozinho – comentou o pai do Joãozinho, rindo.

– E o canarinho desceu para comer das frutas? – perguntou para Joãozinho a sua avó paterna.

– Sim – respondeu Joãozinho. – Fiquei, quieto, sem me mexer, e nem um dedo mexi, e nem piscar, pisquei, sentado, no banquinho, no rancho. Transformei-me em uma estátua. À espera do canarinho… E ele apareceu. E desceu, no chão, perto da jabuticabeira, e comeu do mamão, do melão e da laranja, dando bicadinhas, e olhando para os lados. Parecia assustado com alguma coisa.

– E depois? – perguntou-lhe a avó materna.

– O canarinho foi embora, e nunca mais voltou? – perguntou-lhe o avô materno.

– Voltou, sim – respondeu Joãozinho. – E eu dei frutas para ele: mamão, jabuticaba, limão, carambola, caqui, melão, melancia, banana, maçã, pêra, açaí, morango, cereja, caju, coco e pitanga.

– Você empanturrou o canarinho – observou o tio do Joãozinho.

– Não – defendeu-se Joãozinho. – Não o empanturrei, não. Eu, em um dia, dei-lhe mamão, no outro dia, morango, e em outro dia, maçã. Um pedaço de fruta em cada dia, e em todo dia ele desceu, perto da jabuticabeira, para comer de um pouco de fruta que eu lhe levei um pouco depois do meio-dia.

– Todos os dias – perguntou-lhe o avô paterno – o canarinho vai à jabuticabeira para comer as frutas que você lhe deixa?

– Sim – respondeu Joãozinho. – Ele sempre vai comer das frutas, todos os dias, um pouco depois do meio-dia.

– São dez e meia – anunciou o pai do Joãozinho.

– Daqui a pouco levarei um pedaço de fruta para ele – disse Joãozinho. – Tem melão, mamãe?

– Sim – respondeu-lhe a mãe. – E tem, também, banana e maçã.

– Vou levar-lhe um pedaço pequeno de cada – anunciou Joãozinho.

Joãozinho retirou-se da sala-de-estar, e, célere, rumou à cozinha, abriu a geladeira, e preparou a refeição do canarinho. Minutos depois, anunciou aos seus familiares a sua ida ao quintal, para levar a refeição ao canarinho. Seu tio e seu avô materno o acompanharam na jornada. Minutos depois, regressaram à sala-de-estar, Joãozinho, animadíssimo.

Neste momento, o pai do Joãozinho e o avô paterno do Joãozinho falavam de Charles Darwin e da teoria da evolução das espécies, enquanto suas avós e sua mãe falavam de culinária.

Joãozinho sentou-se no sofá, e intrometeu-se na conversa com perguntas que revelavam a sua curiosidade.

– Quem foi Charles Darwin?

– O que é evolução das espécies?

Essas foram as duas primeiras perguntas de Joãozinho. E seus avós, seu tio e seu pai apresentaram-lhe a biografia de Charles Darwin e explicaram-lhe, como puderam, a teoria da evolução.

– Os animais mudam de características com o passar do tempo – disse, em um momento da conversa, o tio do Joãozinho. – Eles evoluem. O que é evolução? É um processo natural pelo qual todos os animais passam, abandonando certas características, e assumindo outras, que os ajudam a viver melhor. Adquirem, como eu direi?, poderes que os ajudam a viver mais, a gerar descendentes, e a fortalecerem-se, para enfrentarem os seus inimigos, e vencê-los, e para obter alimentos. Um exemplo: Alguns passarinhos de bico fino migram para uma região distante, onde há frutas de casca grossa, e para quebrá-las é necessário que os passarinhos tenham bico grosso. E o que acontece? Morrem todos os passarinhos que não evoluem, isto é, que não desenvolvem o bico, para torná-lo grosso; com o bico fino não consegue romper a casca, que é grossa, das frutas, e morrem de fome.

– Todos os passarinhos morrem de fome? – perguntou-lhe Joãozinho, intrigado e entristecido, a imaginar muitos passarinhos a morrerem de fome.

– Não, Joãozinho – respondeu-lhe o tio. – Os passarinhos que evoluem não morrem de fome. Eles transformam o bico, que, de fino, torna-se grosso, e com ele os passarinhos rompem a casca grossa e dura das frutas, e, assim, sobrevivem.

– Os passarinhos ficam maiores e mais fortes? – perguntou Joãozinho.

– Sim – respondeu-lhe o tio. – É a evolução. Para enfrentar os predadores, o ambiente hostil, e obter alimentos, eles se transformam em espécies maiores, mais fortes, mais poderosas. Eles evoluem. É a evolução das espécies.

– E foi o Charles Darwin que inventou a evolução das espécies? – perguntou Joãozinho.

Todos caíram na gargalhada.

Passados alguns minutos do meio-dia, Joãozinho retirou-se, correndo, da sala-de-estar, e, indagado pelo seu tio, disse que iria ao rancho esperar pelo canarinho.

Trinta minutos depois, Joãozinho regressou, correndo, à sala-de-estar, a anunciar:

– O canarinho evoluiu! O canarinho evoluiu!

E pôs-se a falar, apressadamente, comendo sílabas, trocando palavras.

Pediram-lhe que tomasse fôlego, e, depois, dissesse-lhes o que havia ocorrido.

– O canarinho evoluiu – disse, por fim, Joãozinho, e todos o compreenderam.

– O quê? – indagou-lhe o tio. – O canarinho evoluiu?

– Sim – respondeu Joãozinho. – O canarinho evoluiu. Fui ao rancho, e esperei por ele; esperei um tempão. E eu o vi.

– O canarinho evoluiu? – perguntou-lhe o avô materno, intrigado.

– Evoluiu, vovô – respondeu-lhe Joãozinho. – Ele evoluiu. Eu vi. Eu estava, no rancho, sentado no banquinho, esperando o canarinho descer perto da jabuticabeira, para comer da maçã, do melão e da banana, e eu o vi. Ele evoluiu. Eu vi o canarinho descendo perto da jabuticabeira, e comer das frutas. O canarinho evoluiu. Está maior e mais forte. Ele se transformou num corvo.