Triste notícia

Manhã de sábado. Às nove horas, um pouco depois do café-da-manhã, Natália despediu-se de Alfredo, e foi, de carro, ao supermercado; depois, iria à farmácia e à feira. Alfredo esperaria, na sua casa, Roberto, seu irmão, e com ele iria para Taubaté à lojas de materiais de construção pesquisar preços de tijolos, cimento, areia, ripas de madeira, outros materiais e utensílios de pedreiro. Enquanto o esperava, trocou a água da vasilha dos cachorros (dois pastores, um alemão, Thor, e um belga, Aquiles. Alfredo diz que o belga é ortodoxo, mas é o alemão que mete medo) e a da vasilha do gato. Certa vez, perguntaram-lhe porque ele escolhia para os seus cachorros (Alfredo tivera dois vira-latas, Odin e Odisseu – Odisseu era o mais astuto; Odin, o manda-chuva – e três cadelas – uma rotweiller, Medusa, e não havia cristão que não se petrificava ao se deparar com ela; uma dálmata, Deméter; e uma colie, Afrodite) nomes de heróis, deuses e semideuses da mitologia grega, romana e nórdica (Ah! Esquecia-me, o gato chamava-se Esfinge), e não nomes de personagens folclóricos e mitos indígenas brasileiros; ele não deixou tal pergunta sem resposta, que estava na ponta de sua língua:

– Cães com nomes de origem brasileira não metem medo em ninguém. Imagine um pastor alemão chamado Saci. Conceba tal monstruosidade. O pastor é manco?, perguntar-me-iam. Ou ele é trípede?, zombariam. Quem o respeitaria? Agora, imagine uma rotweiller chamada Iara. Quem a respeitaria? Ninguém. Todos a achariam bonita, elegante e charmosa, e torceriam o nariz para ela, mas não a temeriam. Não quero cães que sejam alvos de chacotas. Quero cães que metam medo em todo mundo. E o nome tem de inspirar respeito, medo. A mitologia grega e a nórdica os possuem aos punhados. A hebraica também. Imagine um cão chamado Salomão. Você imagina um cãozinho frágil de latido estridente, ou um portentoso espécime de uma raça nobre, altivo, a transpirar sapiência? Agora, imagine um cão chamado Curupira. É para rir, não é?

Quando alguém lhe expunha os aspectos ridículos da sua argumentação, ele não desconversava; para surpresa de todos, defendia, com argumentos inconsistentes, as suas preferências pelos nomes de deuses, semideuses, heróis e monstros da mitologia grega, da nórdica e da romana; na maioria das vezes, não convencia ninguém de suas razões, as quais eram sem pé nem cabeça, mas todos calavam-se, para não perderem amigo tão querido. Certa vez, um amigo, descendente de indianos, apresentou-lhe nomes de deuses, semideuses e heróis hindus, muitos deles extraídos dos poemas épicos Mahabarata e Ramayana. Alfredo rejeitou, terminantemente, as sugestões, alegando que tais nomes são impronunciáveis.

Thor e Aquiles beberam da água, sedentos. Alfredo chamou por Esfinge, que não deu as caras.

– Caiu na farra, o maldito gato, na casa do vizinho – exclamou Alfredo, a sorrir, jocoso. – Também pudera! A gatinha que há lá! Um petisco.

Alfredo distribuiu a ração dos cachorros, em partes iguais, em duas vasilhas, uma vermelha, a de Thor, e uma verde, a de Aquiles, e as manteve afastadas uma da outra uns cinco metros, como também manteve afastadas as duas vasilhas de água – e eu ia sonegando esta informação, imprescindível, acredito, não para a compreensão deste relato, mas para o conhecimento da inimizade latente entre o deus nórdico e o herói grego. Ambos, conquanto trabalhassem, unidos, na proteção dos seus mantenedores, Alfredo, Natália, e os filhos deles, Gustavo, Denise e Fabiana, desentendem-se, às vezes – mantê-los distantes um do outro durante as refeições é uma providência sensata. Alfredo não desejava oferecer-lhes pretexto para eles se engalfinharem, cravarem os dentes um no outro, e ferirem-se. Não queria gastar o seu dinheiro com consultas ao veterinário e compra de medicamentos.

Assim que Thor e Aquiles beberam da água e comeram da ração, Alfredo conduziu-os ao canil. Não é correto dizer que Alfredo os conduziu ao canil. Habituados a, todos os dias, após beberem da água e comerem da ração, encaminharem-se ao canil, nesta manhã de sábado, eles foram ao canil, antecipando-se a Alfredo, que encheu de água as duas vasilhas que estavam no canil, trancou a porta com um cadeado, pendurou a chave num prego à viga de madeira, despediu-se de Thor e Aquiles, e rumou à varanda, onde consultou o relógio. Eram quase nove e meia. Roberto estava atrasado quase trinta minutos. Alfredo se chateou. Detestava atrasos. Era pontual e exigia pontualidade das pessoas com as quais marcava horário para um compromisso. Andou pelo jardim. Avaliou as flores. Procurou por ervas daninhas. Bem-te-vis, colibris e pombas-rolas desviaram-lhe a atenção. Um colibri azul, amarelo e verde osculava bicos-de-papagaio e tamancos-judeus. Alfredo observou-o até ele voar, por sobre o muro, à casa do vizinho.

A campainha soou.

– Até que enfim! – exclamou Alfredo, que foi até à porta, certo de que Roberto premira a campainha. Ao abrir a porta, para a sua surpresa, deparou-se com Vanessa, prima de Natália. Alfredo esboçou um sorriso, que logo suprimiu do rosto ao deparar-se com o rosto doído de Vanessa e ao vê-la remover lágrimas que escorriam do olho esquerdo. Fitou-a. Aguardou a notícia; triste, previu. Vanessa, sem dizer uma palavra, abraçou Alfredo e, enquanto removia de si as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, perguntou se Natália encontrava-se na casa. Alfredo disse-lhe que ela fora à feira, ao supermercado, e perguntou-lhe por que chorava. Vanessa não lhe respondeu, de imediato; engoliu o choro; inspirou, soluçou, pigarreou, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e as que se lhe acumulou nos olhos. Alfredo observou-a, em silêncio. Enfim, Vanessa disse:

– Uma notícia triste, Alfredo.

– Entre, Vanessa. Vamos à sala.

– Não…

– Você quer beber um pouco de água?

– Não, Alfredo, obrigada. Vim falar com você e com a Natália. Notícia triste, e vou… Tenho de ir à casa do Pedro…

– Vanessa…

– Não sei como falar… Ainda bem que encontrei você… Se eu tivesse encontrado a Natália… Não sei como eu lhe contaria… Como eu lhe daria a notícia… Com você, Alfredo, posso ser direto: O tio morreu.

– Tio?

– Sim, o tio… O tio Cirilo.

– O quê? – exclamou Alfredo, estupefato, e arregalou os olhos, e boquiabriu-se, incrédulo. – Mas… Como é possível? Ontem à noite, ele e eu conversamos, tão animados… Ele estava tão bem, tão alegre…

Diante da triste notícia, Alfredo proferiu tais comentários, e não atentou para o absurdo neles contido. Ele pediu que Vanessa entrasse. Ela lhe disse que iria à casa de Pedro e à de outros familiares e amigos transmitir a triste notícia, e não entrou. Em poucas palavras, resumiu o que sucedera durante a madrugada: o telefonema desesperado de Maria José às três horas da madrugada; a correria, dela, Vanessa, e de seu marido, Paulo Roberto, à casa do tio Cirilo e tia Maria José; a chegada da ambulância; a ida ao hospital; e a notícia do falecimento do tio Cirilo; o regresso à casa de Maria José; o medo que sentiu ao ver Maria José, inconsolável, aos prantos; as providências que tomou para consolá-la e para avisar os familiares. Alfredo ouviu-a, compungido, atentamente; lágrimas encheram-lhe as órbitas dos olhos. Assim que Vanessa encerrou o relato comovente, estreitou-a num abraço carinhoso, beijou-lhe a testa, ajeitou-lhe os cabelos que lhe caíam à testa, e removeu, com o dorso do dedo indicador direito, as lágrimas que lhe escorriam pela face esquerda. Despediram-se. Alfredo, com o olhar, acompanhou-a afastando-se de si com passos lentos. Assim que ela dobrou a esquina, ele, cabisbaixo, regressou à casa, e trancou a porta; não havia da porta se distanciado dois metros quando a campainha soou. Deu meia-volta, e foi até a porta. Abriu-a. Era Roberto.

– Você já recebeu a notícia? – perguntou Roberto, ao fitá-lo.

Alfredo confirmou com o franzir do cenho, sem piscar, e com movimentos ligeiros dos músculos da face.

– A Natália… – reticenciou Roberto.

– Ela ainda não sabe. Ela está, ou no supermercado, ou na feira…

– Quem a contou para você?

– A Vanessa.

– Como você dará a notícia para a Natália?

– Estou pensando… Entre, Roberto – assim que ambos entraram, Alfredo trancou a porta, mas deixou a chave na fechadura. – Como darei a notícia para a Natália? Não posso lhe dizer, assim, de supetão… Você sabe… A Natália é tão melindrosa… Terei de dar-lhe a notícia. Não posso me furtar a fazê-lo.

Conversaram durante uma hora. Não falaram de materiais de construção, de pesquisa de preços. Falaram de Cirilo. Ao despedirem-se, Roberto renovou os seus votos de condolências.

Sozinho na sua casa, andando de um lado para o outro, perguntava-se Alfredo como daria à Natália a notícia do falecimento do pai dela. Foi ao banheiro; à pia, abriu a torneira, e jogou um pouco de água no rosto. Enxugou-se com uma pequena toalha azul. Fechou a torneira. Abriu a torneira, e molhou, pela segunda vez, o rosto, e não o enxugou. Fechou a torneira. Passou as mãos pelo rosto, removendo a água. E retirou-se do banheiro. Ao andar pela sala, Esfinge dele se aproximou. Alfredo nada lhe disse. Esfinge esfregou-se-lhe às pernas, na calça. Alfredo ignorou-o, alheado. Sentou-se no sofá, ao canto, pousou o braço esquerdo no braço do sofá, cruzou as pernas, a direita por sobre a esquerda, largou-se ao encosto do sofá, cerrou as pálpebras, e esfregou-as com os nós dos dedos da mão direita. Passeou as mãos pelos olhos, e removeu as lágrimas que neles se acumulavam. Estava triste e preocupado. Como daria a notícia à Natália? Teria de ministrar-lha em doses homeopáticas. Teria de preparar Natália para receber a triste notícia, de modo a não sobressaltá-la. Mas, como fazê-lo? Desejou que ela não se encontrasse com ninguém que lhe desse a notícia. Natália, tão melindrosa, se recebesse a notícia, sofreria um ataque cardíaco fulminante. Desejou que ela chegasse em casa, e logo, antes que alguém lhe perguntasse: “Que horas será o enterro de seu falecido pai?”, ou, então: “O traslado do corpo de seu pai começará no velório, ou na casa dele?”, ou: “Quero dar ao seu falecido pai os meus votos de despedidas. Ele será velado onde? Na casa dele, ou no velório?”, ou, então, lhe fizesse comentários sobre a honra e a nobreza de caráter de Cirilo, lhe dissesse que ele era um homem generoso, trabalhador, um dos raros homens confiáveis que havia no mundo, e que não se forjam homens de tal têmpera nos fornos modernos, dos quais só saem molengas, que não enfrentam sol a pino e adoecem ao primeiro golpe de vento, jamais empunham a enxada para carpir a terra, não sabem preparar a refeição que comem e não têm pulso firme para educar os filhos.

Com os pés, Alfredo empurrou Esfinge, que se deteve e fitou-o com seus olhos enigmáticos.

– Bandido… – sussurrou Alfredo; a voz travou-se-lhe no esôfago. – Por onde você andou? Você foi à farra, malandro? – ato contínuo, levantou-se do sofá. Esfinge o seguiu. Foram até onde encontrava-se a vasilha de Esfinge. Alfredo pegou do saco de ração, abriu-o, despejou uma boa quantidade de ração na vasilha. Esfinge curvou-se sobre a vasilha, e pôs-se a comer da ração, enquanto Alfredo pegou da vasilha com água, despejou a água num canteiro de samambaias, foi à torneira, abriu-a, encheu a vasilha com água, fechou a torneira, e carregou a vasilha até Esfinge, deixando-a ao lado da vasilha com ração. Executou mecanicamente essas tarefas. Pensava em Natália. Como dar-lhe-ia a notícia do falecimento do pai dela? Em sua mente, vórtices devastadores de pensamentos entrechocavam-se a ponto de petrificá-lo. Pensou o que sucederia à Natália se lhe dissesse: “Natália, seu pai morreu”, assim, de supetão. Seria o mesmo que matá-la, concluiu. Se desejasse matá-la, dar-lhe-ia desse modo a notícia. Mas não desejava matá-la. Perguntou-se se não estava sendo insensível ao pensar, exclusivamente, em Natália, e em ignorar Cirilo, que faleceu. Concluiu, para o seu conforto, mas tal pensamento não o agradava, que tinha de se preocupar, não com os mortos, mas com os vivos: Natália, sua esposa; Denise e Fabiana, suas filhas; e Gustavo, seu filho. Denise, Fabiana e Gustavo chorariam ao ouvirem a notícia. Fabiana seria quem mais sofreria (dos três era a mais apegada ao avô, com quem apreciava manter intermináveis colóquios sobre literatura e filosofia e a quem acompanhava às tertúlias promovidas por academias). Denise talvez não sofresse, pois nunca foi muito próxima do avô, mas por ele nutria respeito e carinho. Alfredo pensou nas duas filhas e no filho, mas concentrou os seus pensamentos em Natália. Denise, Fabiana e Gustavo suportariam o impacto da triste notícia. Eram jovens, saudáveis, fortes, mas Natália, não. Ela sofria de diabetes, tinha enxaquecas, passara por um período de dois anos de depressão profunda, e implantara um marcapasso dois anos antes. Não era uma mulher na plenitude da sua saúde. Era uma mulher que requeria cuidados, melindrosa. Alfredo não sabia como lhe daria a triste notícia. Pensou em pedir para outra pessoa transmitir-lha. Abandonou esta idéia ao concluir que ele, Alfredo, marido de Natália, é quem teria de dar-lha. Mas como o faria? Como lhe daria a notícia do falecimento do querido pai? Não poderia lhe dizer: “Querida, seu pai morreu”. Era o mesmo que assinar o atestado de óbito dela, o que ele não desejava. “Que outro o assine”, pensou, e sorriu, e meneou a cabeça, para expulsar de sua mente pensamento tão reprovável. Como daria para Natália a notícia do falecimento do pai dela? Desdobrou-se, para encontrar uma resposta. Teria de encontrá-la antes que Natália regressasse. “Eu, assim que Natália chegar – pensava Alfredo consigo, andando pela varanda e entrando e saindo da sala -, a saudarei como o faço todos os dias. Ela, é certo, me pedirá que eu tire do carro as compras. Atenderei ao pedido. Assim que ela entrar no quarto para vestir roupas mais leves, como, é certo, ela irá fazer, pois está um calor de rachar os miolos hoje, entrarei no quarto, e lhe direi para sentar-se na cama, e lhe darei a notícia. Primeiro, lhe direi que não fui, com o Roberto, para Taubaté porque, minutos antes, Vanessa esteve aqui em casa, para lhe dar a ela, Natália, uma notícia importante. Assim, sem ir direto ao assunto, reticente, manterei Natália em suspenso, e despertarei a sua curiosidade. Farei uma pausa, expressarei um ar compungido, fitá-la-ei bem fundo nos olhos… Não dará certo. Ao olhar para mim, ela saberá que lhe darei uma péssima notícia. Ela desconfiará… Terei de dar-lhe a notícia. Então, no quarto, sentados, na cama, de frente um para o outro… Tem de ser no quarto? Sim. É o local mais apropriado. Darei a notícia para a Natália. Começarei assim: ‘Natália, não fui, com o Roberto, para Taubaté. Um pequeno imprevisto…’ Pequeno imprevisto!? Que tolice é esta que me vem à cabeça!? Falta-me um parafuso na cabeça. O pai da minha esposa morre, e eu digo que isso é um pequeno imprevisto! A Natália, se eu lhe disser isso, terá um ótimo motivo para pedir o divórcio. Que sensibilidade! Além disso, por que eu usaria de um tom formal? Não transmitirei uma mensagem para um estranho. Eu irei falar para a minha esposa, mãe de meu filho e minhas filhas, da morte do pai dela. E farei, assim, sem lhe expressar, ao transmitir-lhe a notícia, os meus sentimentos… O que sou? Uma máquina? Um robô? Um andróide? Um replicante? Um sintético? Até os sintéticos têm sentimentos. Sou um homem, triste, agora, com o falecimento do Cirilo, meu sogro, que, desde o instante em que o conheci, foi generoso e respeitoso comigo. Ele foi para mim meu pai… Após o falecimento de meu… Não tenho de ocultar a minha tristeza… Não tenho de esconder da Natália os meus sentimentos… Não tenho de ocultar-lhos. Estou certo que Natália, ao chegar, assim que olhar para mim, perguntar-me-á: ‘O que houve, Alfredo? Por que você está triste?’. Ela possui o sexto sentido. E o sétimo e o oitavo. Não poderei lhe ocultar a minha tristeza. Não me desgastarei tentando exibir-lhe um rosto inexpressivo. É certo que eu, ao olhá-la nos olhos, traga lágrimas aos meus olhos. Melhor, é certo que as lágrimas me venham aos olhos sem que eu as chame, e que meus lábios tremam. Não conseguirei controlar-me. Irei segurar as mãos da Natália, abaixarei a cabeça, me curvarei, e chorarei, o rosto sobre seu colo, convulsivamente. Talvez Natália, ao me ver tão triste, sofrendo tanto, condoa-se de mim, e abrace-me, e, assim que eu lhe der a notícia do falecimento de seu pai, envolva-me com um abraço caloroso, estreite-me a si, e chore. Talvez isso se dê. Estou, aqui, a pensar, preocupado, em tudo isso, certo de que saberei como agir; o mais certo, no entanto, é que os eventos se sucedam, e surpreendam-me. Talvez venha a se suceder o que agora não me passa pela cabeça. A Natália, ao ouvir a notícia, talvez não se perturbe; talvez a receba com serenidade e resignação, afinal Cirilo sofreu muito nos últimos anos, e os remédios, conquanto o conservassem lúcido e animado, como ele se mostrou ontem à noite, fizeram-no sofrer imensamente, embora ele não deixasse que o sofrimento que o afligia lhe transparecesse na fisionomia, que ele conservava animada, como se vivesse no melhor dos mundos possíveis. O testemunho de Maria José me foi revelador: Cirilo sofria muito. Os seus momentos de alegria foram interlúdios entre dois momentos de sofrimento indescritível. E ele os passava com Fabiana e Henrique. Os três adoram livros de literatura e de política; as animadas conversas faziam bem a Cirilo. E ele sofria muito. Talvez Natália se resigne. Talvez ela acolha a notícia e não sofra tanto quanto imagino que ela sofrerá. Talvez o impacto da notícia não seja tão devastador quanto eu o esteja concebendo. Mas, e depois? E depois? A Natália poderá, calada, ouvir-me dar-lhe a notícia, mas, e depois? A Natália me dará a entender que estará bem, não necessitará de maiores cuidados… Mas, e depois?”.

O soar da campainha interrompeu-lhe o fluxo dos pensamentos. Foi à porta. Abriu-a. Era um funcionário dos correios, que lhe entregou uma encomenda feita por Natália uma semana antes, uma caneta e um papel, no qual, num espaço reservado com indicação do nome de Natália e do seu endereço, Alfredo assinou, e escreveu o número do seu RG e o do seu CPF. Assim que os escreveu, entregou o papel e a caneta ao funcionário dos correios, despediu-se dele, desejando-lhe um bom dia de trabalho e um ótimo final de semana, e recolheu-se à casa, com a caixa, a qual deixou sobre a mesa da sala-de-estar. Ato contínuo, foi à cozinha, pegou de um copo de vidro transparente, levou-o ao filtro, encheu-o de água, bebeu da água, e deixou o copo na pia. Retirou-se da cozinha, e foi ao quarto. Sentou-se na cama. O telefone soou. Atendeu-o. Era Maria José, sua sogra. Ela lhe falou do falecimento do marido. Alfredo ouviu-a, atentamente; não lhe disse que Vanessa já lhe dera a triste notícia. Quis consolá-la, mas se convenceu, ao ouvi-la, que ela, mais do que ele, suportava a triste notícia com coragem, e era ele, e não ela, que precisava ser consolado. No tom de voz dela misturavam-se resignação e sofrimento; ela disse que havia sido feita a vontade de Deus, e que Cirilo descansaria, após muitos anos de sofrimento decorrente da doença que o acometera, e que o prostrara, na cama, durante cinco longos anos, e que o privara dos prazeres da vida. Lágrimas abundantes encheram as órbitas dos olhos de Alfredo. Maria José perguntou-lhe de Natália. Alfredo disse que ela fora ao supermercado, à feira e à farmácia. Maria José aconselhou-o a dar-lhe a notícia com cautela, para não feri-la, pois Natália era muito melindrosa; em seguida, disse-lhe que teria de desligar o telefone porque Carlos Roberto, seu irmão, a chamava. Despediram-se, e desligaram o telefone.

Sentado na cama, Alfredo pensava no que diria para Natália. Não poderia abordá-la com circunlóquios, pois, sabia, se o fizesse, despertar-lhe-ia os sentidos, indefiníveis, que ela possuía, tão agudos, tão potentes, que, de imediato, antes de ele dar-lhe a notícia, ela chegaria, ou pelo instinto, ou pela intuição, ou pela razão, ao fitá-lo, à explicação correta para a atitude dele.

Alfredo não poderia lhe dar a notícia de supetão; também não poderia abordá-la com floreios oratórios para transportar-lhe o espírito para uma região serena e tranquila, para, depois, vir com a triste notícia.

Não sabia como teria de proceder. Consultou o relógio. Eram onze e meia. Natália regressaria dali poucos minutos, pois ela ainda teria de preparar o almoço. Alfredo ficou apreensivo. Levantou-se da cama. Retirou-se do quarto. Pensou ter ouvido o barulho do portão sendo fechado. Acelerou os passos. Foi à varanda. Não viu Natália. Concluiu que o portão da casa dos vizinhos da direita, Vinicius e Úrsula, fôra fechado. Passeou as mãos pelo rosto. Um bem-te-vi distraiu-o. Pássaros, ao longe, digladiando-se em pleno vôo, prendeu-lhe a atenção durante um bom tempo. Um pássaro pequeno e um pássaro grande com o triplo do tamanho do pássaro pequeno. Pareceram a Alfredo um pardal e um sabiá-laranjeira, mas ele não estava certo disso. Talvez não fosse um pardal, mas uma noivinha, ou um colibri de penas de cores foscas, e o outro pássaro talvez fosse um bem-te-vi. Não soube dizer quais eram as espécies dos dois pássaros. Não se prendeu à essa questão. Logo mergulhou nos seus pensamentos. O que diria para Natália, que chegaria à casa antes do meio-dia? Enfiou as mãos no bolso da calça. Pensativo, andou de um lado para o outro do jardim e da varanda. Latidos de Thor e Aquiles chegaram-lhe aos ouvidos, numa série que lhe indicava que eles avançavam contra alguma pessoa ou contra algum animal. Alfredo sabia quando os cães latiam para estranhos, fossem pessoas, fossem animais. A entonação dos latidos assumia características singulares. Foi ao quintal. Não havia se aproximado do canil quando obteve a explicação para as detonações dos latidos de Aquiles e Thor. Sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia havia um homem, que mexia na antena. Alfredo não se deteve. Aproximou-se dos cães, que diminuíram a ênfase dos latidos à sua presença.

– Cachorros bravos, hein? – comentou o homem sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia; era ele magro, esquelético, de barba rapada, baixo (um metro e sessenta, se muito), e na altura dos cinquenta anos. – Eles não gostaram de mim.

Aquiles e Thor conservaram-se vigilantes.

– São dois machos? – perguntou o homem sobre o telhado, referindo-se a Aquiles e Thor. – Um pastor alemão e um pastor belga?

– São – respondeu Alfredo. – São dois machos. Um belga e um alemão. Como você pode ver, eles estão com fome.

– Não quero me servir de almoço para eles – e sorriu o homem sobre o telhado, enquanto mexia, com um alicate, no cano de sustentação da antena. – Ferozes, os dois. Treinou-os?

– Sim. Em uma escola para cães.

– Essas duas feras impõem respeito.

– Não há dúvidas.

– Esses dois cães de guarda mantêm os ladrões afastados. Há muitos ladrões na cidade. Ontem, perto da minha casa, dois ladrões… Dois ou três, ninguém sabe… Entraram na casa do Juliano, à noite… Não eram nem dez horas da noite… Entraram na casa e a depenaram. Carregaram o computador, o dvd, o rádio e a televisão. Um computador, sabe?, que parece uma pasta. Não sei como se diz. Ora, um ladrão, sozinho, não poderia fazer o serviço. Foram dois, ou três. E o engraçado: Ninguém, na vizinhança, os viu. Foram sorrateiros, os filhos-da-polícia. Entraram e saíram da casa do Juliano, e ninguém os viu.

– Eles sabiam que não haveria ninguém na casa, na hora do roubo.

– Foi o que eu disse para o Juliano. Não foram ladrões-de-galinha que assaltaram a casa dele. As portas e as janelas não foram arrombadas. Como os ladrões entraram na casa? Teletransportaram-se para dentro dela? E como eles saíram da casa? Teletransportaram-se para fora dela? A Carlinha, minha irmã, disse que os ladrões entraram na casa do Juliano pela casa da Guiomar, que dá fundos para a casa do Juliano. Mas a Guiomar disse que, à noite, naquele dia, ela, o Lindomar, marido dela, e o Neymar, filho dela com Reinaldo, o seu primeiro marido, que faleceu em um acidente de carro há dez anos, estavam, no quintal, arrumando as quinquilharia. Ferros-velhos, papéis, papelões, os quais iriam vender, no ferro-velho, hoje. Ninguém além deles estava naquela casa. E a Guiomar, mulher honesta, decente, trabalhadora, jamais mentiria. Todos os do bairro gostamos dela. A Guiomar é uma cozinheira de mão cheia, mulher forte, vigorosa, sabe? Ela não é gorda; é forte; um mulherão. Ela é baixa, tem um metro e cinquenta; e de um vozeirão que impõe respeito e mete medo até no Papa, que Deus o guarde. Quem manda, na casa dela, é ela, não o Lindomar, homem trabalhador e decente, pau para toda obra. A Guiomar, o Neymar e o Lindomar não ouviram sequer um ruído na casa do Juliano. A Luciana, minha vizinha, disse que os ladrões conhecem o Juliano. São, ela acha, amigos dele.

– Uma hipótese que não se pode descartar.

– O Juliano não a descartou.

– Ele chamou a polícia?

– Não. Não telefonou para a delegacia. Ele jamais iria telefonar para a polícia. Um passarinho contou-me que o Juliano trafica maconha. Não sei se é verdade. Eu nunca o vi fumando um cigarro. Nunca me haviam dito que ele traficava maconha. Depois que assaltaram a casa dele, começaram a espalhar esta história. Por que ele não telefonou para a polícia? Muitas pessoas procuraram uma resposta para esta pergunta. Por que o Juliano não chamou a polícia? A melhor resposta que encontraram: ele não quer os policiais dentro da casa dele porque eles, ao procurarem por evidências que os levem aos ladrões, poderiam encontrar a maconha que ele tem escondida em algum lugar da casa, muito bem escondida, mas não tão bem escondida que os policiais, à procura de evidências que os levem aos ladrões, não possam encontrar. Muita gente está contando esta história pelo bairro. Como não sei se isso é verdade, ou não, calo-me a respeito. Não quero levantar falso testemunho. Aprendi a manter a língua dentro da boca. O padre Carlos, dia destes, disse-me que um dos dez sacramentos, não sei se o quinto, se o oitavo, nos ensina a não levantarmos falso testemunho. É um dos sacramentos que Deus riscou, no monte das Oliveiras, em uma das duas tábuas que Ele entregou para Moisés. Essa história está na Bíblia, numa das primeiras páginas do Novo Testamento, que é a segunda parte da Bíblia, e foi escrito depois do Velho Testamento. E um advogado, Luciano, amigo meu, disse-me, certa vez, que ao acusador cabe o ônus da prova, e que todas as pessoas são inocentes até prova em contrário, excluindo-se, obviamente, os nossos inimigos, pois todos eles nasceram culpados.

A tagarelice do homem que estava sobre o telhado da casa de Gilberto e Lúcia distraiu Alfredo, que, enquanto o ouvia, sorria consigo diante dos equívocos nos quais ele incorria, os quais não foram poucos. Menos de vinte minutos depois, o homem, enquanto descia do telhado, despediu-se de Alfredo, que iria à cozinha, mas deteve-se à porta ao ouvir barulho na varanda. “Natália”, pensou. Seu coração vibrou, acelerado. Imóvel, procurou controlar os seus pensamentos e conservar consigo o governo do corpo. Respirou fundo. Expeliu todo o ar dos pulmões. Andou, lentamente, controlando os passos e a respiração, até a varanda. Deteve-se ao batente da porta que dava acesso do corredor à varanda. Entreviu Natália, atrás do carro, cujo bagaceiro estava com a porta levantada.

– Querida – disse, e andou na direção dela, e dela ouviu:

– Fredo, ajude-me com as compras.

– Nossa! Quanta coisa você comprou – exclamou Alfredo, ao se deparar com o bagageiro cheio.

– No banco há mais – disse Natália, sorrindo; ao voltar-se para Alfredo, fitou-o nos olhos. – Você esqueceu que dia será amanhã? Você está ficando velho. Comprei tudo isto para a festa de aniversário de papai. Amanhã ele fará oitenta anos.

Alfredo havia se esquecido.

– Comprarei para você um quilo de cérebro de elefante, Fredo. Agora, ajude-me com esses pacotes – e, carregando duas sacolas, uma em cada mão, afastou-se do carro. – Vou tirar estes sapatos, que estão moendo meus pés, triturando meus ossos, e, depois, vou para a cozinha preparar o almoço. Já é meio-dia. Como as horas passaram rápido, hoje – e retirou-se da varanda.

Alfredo ficou imóvel atrás do carro. Coçou o queixo. Passeou as mãos pelo rosto. Encheu os pulmões de ar – com as mãos aos quadris -, e os esvaziou. Lágrimas vieram-lhe aos olhos ao mesmo tempo que cerrou as pálpebras e abaixou a cabeça. Removeu das órbitas dos olhos as lágrimas. Atormentava-o a ausência de uma resposta para a pergunta que se fazia: “Como vou contar para ela?” – referia-se à Natália e à morte de Cirilo. Conservou-se imóvel, atrás do carro, durante um bom tempo, até que resolveu retirar as sacolas e os pacotes do bagageiro do carro. Deteve-se, na primeira vez que entrou na sala-de-estar, e deixou pacotes e sacolas sobre a mesa. Mais uma vez, lágrimas vieram-lhe aos olhos. Alfredo removeu-as. Curvou-se sobre o encosto de uma das seis cadeiras que ladeavam a mesa, e nele pousou os cotovelos. Cerrou as pálpebras. Cobriu os olhos com as mãos, e pensou: “Como contarei para a Natália?”, referindo-se à morte de Cirilo. “Direi ‘Natália, seu pai morreu’? Não! O que desejo? Desejo a morte da minha esposa? Direi ‘A Vanessa disse-me que seu pai, Natália, morreu’? Diabos! Como eu lhe falarei da morte do Cirilo? Direi ‘Querida, hoje, não fui para Taubaté com o Roberto porque, minutos antes, atendi à campainha. Era a Vanessa, sua prima, que a tocara. Ela me disse, Natália, que seu pai morreu’? No que estou pensando? Não importa o que eu diga, a notícia cairá como uma bomba. Não saberei com quais palavras dar a notícia para a Natália. Cairei aos prantos. Talvez eu não caia aos prantos. Talvez as lágrimas se me sequem, não me venham aos olhos, e eu perca a voz, e eu fique paralisado. Talvez eu perca a consciência, e, parado, comporte-me como um tolo diante da Natália, que me perguntará: ‘O que houve, Alfredo? Você quer me dizer alguma coisa?’, e eu perderei a voz, e faltar-me-ão as palavras. ‘Querida – eu direi – sente-se, por favor. Hoje, a Vanessa, sua prima, esteve aqui, e, depois, o Roberto, e há uma hora, mais ou menos, sua mãe telefonou-me. Os três disseram-me que seu pai, de madrugada, enquanto dormia, faleceu’. Como a Natália reagirá à notícia? Seria como lhe cravar uma faca no peito, e empurrá-la até transpassar-lhe o coração. Terei de lançar mão de outro expediente. Como eu lhe darei à notícia? Eu lhe direi: ‘Querida, sente-se, por favor – se ela não estiver sentada. – Quero conversar com você. Sua mãe telefonou-me há uma hora e meia, e disse-me que seu pai morreu, na noite de hoje, e…’. Não. A Natália… Oh! Inferno! Como direi à Natália?”. Neste momento recompôs-se, removeu as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, tirou um lenço do bolso esquerdo traseiro da calça, e com ele enxugou os olhos, suspirou, e andou, pelo corredor, em direção ao quarto. Deteve-se ao enquadramento da porta. Dentro do quarto, Natália, sentada na cama, retirava da orelha esquerda o brinco. Alfredo restituiu o lenço ao bolso da calça, encheu os pulmões de ar, e os esvaziou, lentamente. Com os ânimos serenos – assim ele acreditava -, entrou no quarto. Natália voltou-lhe a atenção, enquanto curvava, ligeiramente, a cabeça para a direita e removia da orelha direita o brinco, o qual guardou num porta-jóias, enquanto Alfredo sentava-se à cama.

– O que aconteceu, Alfredo? – perguntou-lhe Natália. – Você está com um olhar estranho.

Assim que Natália abaixou a tampa do porta-jóias, Alfredo, em silêncio, estendeu-lhe as mãos, com as palmas para cima, pedindo-lhe as mãos. Natália pousou sobre as mãos dele suas mãos, intrigada e expectante. Seu olhar penetrava, profundamente, os olhos de Alfredo, como se lhe sondasse a alma, como se lhe esquadrinhasse o espírito à procura de uma resposta para o estranho comportamento dele. Natália intuiu que algo de triste se sucedera, mas não atinava com as razões do olhar alheado de Alfredo. Aguçou o olhar. Ativou todos os seus neurônios à procura de uma resposta.

Alfredo quebrou o silêncio:

– Natália, não fui, hoje, para Taubaté…

Natália franziu o cenho, fez ar de quem nada compreendia. Não viu correspondência entre a atitude e as palavras de Alfredo. Algo de estranho, pensou, sucedia-se. Não havia sentido, intuiu, Alfredo fazer ar de mistério, fisionomia sofrida, manter o silêncio e dar-lhe tal notícia.

– É só isso o que você quer me dizer, Alfredo?

– Não. Não, Natália. Sua mãe telefonou, há uma hora, mais ou menos.

– O que ela queria?

– Ela queria falar com você.

– A respeito de quê?

Alfredo não deu uma resposta. Natália conservou-se calada. Esperou que ele lhe dissesse o que desejava lhe dizer.

Alfredo, enfim, após alguns minutos de silêncio opressivo, disse, com voz entrecortada:

– Natália… Querida, meu sogro morreu.

 

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A casa dos horrores

Quarta-feira. Dia quente. Ariadne chegou, às onze e meia, na sua casa, saltitando de felicidade, lindo sorriso a sublimar-lhe a beleza do rosto de traços suaves. Queria ir ao banheiro tomar um banho revigorante e, depois, almoçar; antes, porém, contaria para sua mãe, Carmem, as boas novas: 10, em História; e 9, em Biologia. Percorreu toda a casa à procura dela; não a encontrou. Contrariada, foi ao quarto. Deixou os cadernos e os livros sobre a escrivaninha, sentou-se na cama, e descalçou os pés; descalça, foi até o guarda-roupa, de cuja gaveta inferior retirou uma calcinha e um short, e uma camisa da gaveta superior. Ato contínuo, foi ao banheiro. Não trancou a porta. Pôs as roupas que retirara do guarda-roupa sobre a tampa do vaso sanitário. Despiu-se. Pôs-se sob o chuveiro. Abriu-o. Atingiu-lhe o corpo, que pedia um pouco de refresco, a água fria. Arrepiaram-se-lhe os finos pêlos dos braços. Ao acostumar-se com a temperatura da água, deixou-se molhar, deliciada.

Durante o banho, passeava as macias mãos pelo corpo sedoso. Feliz, elogiava-se, em pensamento, pelo seu desempenho nas provas de História e Biologia.

Ariadne queria seguir carreira de oftalmologista. Pretendia, no final do ano, prestar exame vestibular nas mais conceituadas universidades brasileiras. Como todos os jovens, construía suntuosos castelos no ar. Via-se, vergando o uniforme branco, em um consultório em cuja porta lia-se, em uma plaqueta: ‘Doutora Ariadne Almeida Vargas. Oftalmologista’.

A água escorria voluptuosamente pelo corpo exuberante de Ariadne, que empinava o busto e jogava a cabeça para trás, jogando, para as costas, os longos cabelos bem cuidados, permitindo, assim, que a água lhe atingisse o belo rosto. Com as pálpebras cerradas, abria a boca e a enchia com um pouco de água, soltando-a logo em seguida. Imersa no prazer que o banho permitia-lhe desfrutar, permaneceria sob o chuveiro por mais um bom tempo. De repente, ao golpear-lhe indefinível sensação de desconforto, abandonou os seus devaneios. Não saberia explicar, se alguém lha indagasse, o que a alertara para a ameaça que dela se aproximava. Descerrou as pálpebras. Voltada para a parede, de costas para a porta do banheiro, olhou por sobre o ombro esquerdo, e viu, a poucos centímetros de si, o corpo volumoso, nu, repulsivo, coberto de pêlos, de Clodoaldo, seu pai, cujos olhos, que transbordavam lascívia animalesca, miravam-na, e cuja fisionomia estampava rictus doentio, insano, crudelíssimo. Ariadne sentiu intenso calafrio percorrer-lhe o corpo e gelar-lhe a espinha. Era indisfarçável o estado de embriaguez de Clodoaldo, que exibia rosto inchado, avermelhado. O odor que ele exalava feriu o nariz de Ariadne, que, assustada, petrificada, encarou-o, olhos arregalados; ao abaixar o olhar, ela se assustou com o que viu, e, automaticamente, adivinhou as intenções de seu pai.

Clodoaldo segurou o pênis ereto e exibiu-o para Ariadne, que começou a tremer, a balbuciar palavras desconexas. Dos olhos dela escorreram lágrimas. Clodoaldo deu um passo para a frente. Ariadne preparou um berro. Clodoaldo precipitou-se sobre ela, cobriu-lhe a boca com a sua enorme mão áspera, impedindo-a de gritar, e sussurrou-lhe obscenidades, numa voz cavernosa – e de sua boca escapava hálito putrefato. Apertou-se nela. Esfregou-se nela. Buscou, com os lábios, os lábios de Ariadne, que tentou, em vão, com as mãos, afastá-lo de si. Ele a premiu à parede, enfiou-lhe as mãos entre as coxas, para forçá-la a afastar as pernas uma da outra. Ariadne resistia, mas nada podia fazer em sua defesa. Clodoaldo era corpulento, pesado, forte. Ariadne, de um pouco mais de um metro e sessenta centímetros de altura e sessenta quilos, não podia lhe opor resistência. Clodoaldo mordeu-lhe o lábio superior, ao mesmo tempo que, com a mão direita, puxava-lhe os pêlos pubianos e, com a mão esquerda segurando o pênis ereto, forçava a penetração. Os seus músculos estavam contraídos; os vasos sanguíneos, intumescidos. Ariadne não conseguiu protestar, nem clamar por socorro. Deu início a um grito sufocado, que Clodoaldo abafou cobrindo-lhe a boca com a mão direita.

Ariadne chorava, convulsivamente.

Clodoaldo, frustrado com as suas infrutíferas tentativas de violar Ariadne, emitiu um abafado urro de raiva e, ao mesmo tempo, com as coxas esforçava-se, em vão, para afastar as pernas de Ariadne uma da outra. Contrariado, surpreso com a resistência de Ariadne, retirou-a, apertando-lhe o pescoço com a mão direita e o braço direito com a mão esquerda, de sob o chuveiro. Ariadne quis resistir, mas não pôde impor resistência a um homem dez vezes mais forte do que ela.

Ariadne sentiu dor insuportável.

Clodoaldo, nervoso, irritado, impaciente, encaixou um potente soco no ventre de Ariadne, roubando-lhe o ar dos pulmões. Ariadne chorava, aterrorizada. Clodoaldo puxou-a pelos cabelos, jogou-a no chão, de costas, deitou-se sobre ela; com os lábios ardendo de bestialidade, sugou-lhe os lábios, mordeu-os, ao mesmo tempo que com a mão direita segurava o pênis ereto e forçava-o para dentro de Ariadne – enquanto com a mão esquerda puxava os cabelos dela, infligindo-lhe dores indescritíveis. A dor que Ariadne sentiu, no exato momento da penetração, quase lhe roubou a consciência. Ela sentiu o ventre rasgando-se. Clodoaldo, ávido, lascivo, desferiu estocadas violentas, indiferente à pungente dor que lhe infligia e ao seu choro convulsivo. Enquanto ejaculava, a intensa sensação de prazer que o invadiu fê-lo mais agressivo, mais bestial, mais rude, mais grosseiro, e impeliu-o a mover-se com estocadas mais furiosas, ferindo Ariadne mais profundamente. Ao sentir-se satisfeito, de Ariadne retirou-se e conservou-se, as pernas abertas e os joelhos no chão, sobre ela, exibindo-se-lhe, e ameaçando-a:

– Você, boneca deliciosa, nada contará para sua mãe. Belezinha! Gostosinha! Entendeu, brotinho? Docinho! Se você der um pio, cabacinha, matarei você. Se você abrir o bico, matarei você, boquinha lindinha do papai. Está vendo, menininha gostosinha, o que tenho nas mãos? – e esfregou-lhe o pênis flácido no rosto. – Você já experimentou o papai, peitudinha. Esta foi a primeira vez, cabacinha. E não será a última. Entendeu? Se você contar alguma coisa para sua mãe, arrebentarei você. Você é minha filha, fofurinha do papai. Com você, faço o que bem entender. Entrarei em você sempre que eu desejar. Belezinha. Filhinha do papai. Com você, faço o que quiser. O que quiser, entendeu? Se você abrir o bico, matarei você. Ai de você, vadiazinha do papaizão, vagabundinha deliciosa, se você contar para sua mãe. Sabe o que farei, se você der com a língua nos dentes, cabacinha? Arrombarei você e enfiarei uma faca no seu coração, entendeu, cabacinha? Arrombarei você. Belezurinha, entrarei pela porta dos fundos e pela porta da frente. Se você contar para alguém, cabacinha, matarei você. Terei o seu sangue nas minhas mãos. Belezinha. Cabacinha. Se você contar para sua mãe, ou para qualquer pessoa, matarei você. Matarei você! Não estou brincando, vadiazinha, depravadazinha. Não estou brincando. Arrombarei você, matarei você, farei picadinho de você, e lamberei os seus ossos, e jogarei os seus pedaços para os vira-latas. Entendeu, cabacinha? Se você contar para alguém, matarei você. Matarei você, uma, duas, três vezes. Matarei você quantas vezes eu quiser.

Ariadne, sem forças para se levantar, conservou-se deitada, a chorar convulsivamente. Todo o seu corpo doía-lhe. Vibrava-o dores insuportáveis. Ela nunca havia se sentido tão indefesa, tão impotente, tão frágil, tão desamparada, tão abandonada, tão só.

– Levante-se, bonequinha. Cabacinha do papai. Vista-se, fofurinha vadia – gritou Clodoaldo, ao mesmo tempo que puxava Ariadne pelos cabelos e jogava-lhe as roupas em cima. – Não quero que sua mãe veja você assim, nuazinha em pêlo, cabacinha. Pare de chorar, belezinha do papai. Levante-se! Enxugue as lágrimas, garotinha mimada. Levante-se! Você quer brincar mais um pouquinho com o papaizinho? – deu-lhe dois pontapés, apertou-lhe os braços e a pôs sentada, no chão, encostada à parede. O rosto de Ariadne, deformado pelo medo e pela dor, estava irreconhecível. – Pare de chorar, vagabundazinha! O mundo não desabará porque entrei em você, belezurazinha do papai. Não faça docinho, lindinha do papai. Não faça biquinho, pitéuzinho. Para o chuveiro, cabacinha! Limpe-se! Cabacinha, tire todo esse sangue daqui. Que sujeira você fez! Vagabundazinha vadia do papai! Você sujou o banheiro, cabacinha. Nunca vi tanto sangue em minha vida! Nem no açougue do Baião há tanto sangue!

Ariadne pôs-se sob o chuveiro, sentada, as pernas encolhidas. Abraçou-as. Enfiou a cabeça por entre os joelhos, mantendo-a presa entre eles. Chorava convulsivamente. Clodoaldo perdeu a pouca paciência que lhe restava, desligou o chuveiro, arrastou Ariadne, pelo braço, machucando-o, até o quarto, jogou-a sobre a cama, voltou ao banheiro, pegou uma toalha, regressou ao quarto, e pôs-se a enxugar Ariadne; admirava-lhe o corpo bem feito, apertava-lhe os peitos, sugava-lhe os mamilos e ameaçava violá-la mais uma vez.

*

Ariadne testemunhava, diariamente, discussões violentas entre seu pai e sua mãe – discussões que, infalivelmente, degeneravam em violência física. No quarto, deitada em posição fetal, chorava convulsivamente. Os seus sentimentos, confusos, indefiníveis, perturbavam-na. Certo dia, Clodoaldo surrou Carmen com tanta violência que lhe pôs hematomas em todo o corpo e quebrou-lhe o nariz e o braço esquerdo. Em outra ocasião, Clodoaldo quebrou uma vassoura nas costas de Carmen, e espancou-a, dias depois, a ponto de roubar-lhe a consciência. Ariadne ficou apavorada no dia em que viu Clodoaldo estuprar Carmen, e recolheu-se ao quarto. Não dormiu à noite. Não conseguiu afugentar de si as imagens terríveis que presenciara e as lembranças do dia em que foi estuprada. Temia que Clodoaldo invadisse o quarto, a atacasse e a violentasse.

*

A casa estava imunda. Era um antro de criaturas repulsivas. Ratos, baratas e outros animais peçonhentos circulavam, livremente, de um lado para o outro, por toda a casa, que, meses antes, brilhava de tão limpa. Ariadne, antes, caprichosa, era quem conservava o brilho da casa, com faxina diária; agora não se incomodava com a imundície.

Num certo dia, a voz embargada, durante uma conversa com sua mãe, assim que ela lhe perguntou porque estava tão triste, disse-lhe:

– Mãe, o pai me estuprou.

Carmen alterou-se de imediato; furiosa, fungando, desferiu um tapa no rosto de Ariadne, que ficou apavorada com tal reação. Carmem esbofeteou-a, cuspiu-lhe ofensas. Ariadne não reagiu; sentiu a consciência dissipar-se. Não recuou, no início, tão surpresa com a reação de sua mãe, pois acreditara que dela ouviria palavras de consolo, afinal, ela, Carmen, era sua mãe, e, além disso, Clodoaldo a havia estuprado. Como os tapas, os socos e os insultos sucederam-se, avassaladoramente, protegeu-se com os braços e os antebraços, e impôs débil resistência. Carmem puxou-lhe os cabelos, forçou-a a curvar-se, e deu-lhe tapas nas costas e no rosto.

– Você, filha… Fala de seu pai… – repreendeu-a Carmen. – Não o calunie, filha ingrata. Ele trata tão bem você. Seu pai é um homem amoroso. Ele é seu pai, cadela. Cadela! Vagabunda! Por que você fala isso de seu pai? Por que você inventa essas histórias? Por que, ingrata? Vadia! Cachorra! Não admitirei que você calunie seu pai, filha ingrata. Ele sempre tratou tão bem você! Ele sempre foi amoroso com você! Cadela vagabunda! Por que você inventou essa história?

– Não inventei história… – defendeu-se Ariadne, aos prantos. – Eu disse a verdade; você sabe que eu disse a verdade. Ele… Ele… Eu, no banheiro… Ele… Ele entrou… Ele me agarrou… Ele me deu um murro… Ele… Ele… Mãe… Ele me jogou no chão… Deu-me um murro… Ele me forçou… Mãe, ele… Eu… Ele me ameaçou… Ele me disse… Se eu contasse… Ele me disse… Ele me mataria… Ele me disse…

– Mentirosa! Vagabunda! – berrou Carmen, que, furiosa, deu um tapa em Ariadne, arremessando-a sobre uma cadeira.

– É verdade, mãe – retrucou Ariadne, aos prantos, mal conseguindo pronunciar as palavras. – Estou falando a verdade. Por que eu mentiria? Ele… Ele… – impediam-na de falar os soluços e o choro convulsionado. – Ele… Ele me ameaçou… Ele me estuprou… Ele…

– Cale a boca, vagabunda! – berrou-lhe Carmen, ao mesmo tempo que ameaçava dar-lhe um tapa. – Seu pai é um homem amoroso.

– Amoroso? Ele… Eu… Eu o vi batendo em você… – disse Ariadne, soluçando, gaguejando. – Ele deu murros na sua barriga, mãe… Com a vassoura… Ele quebrou seu nariz… Ele deu murros em você, mãe. Eu vi… Vi… Vi, um dia… na quarta-feira… ele… ele…  – mal podia falar; tremiam-lhe os lábios, convulsivamente. – Ele… Ele… Eu o vi… – Não pôde concluir a frase.

Carmen acertou-lhe, na cabeça, uma série de cinco socos. Ariadne, que já chorava, convulsivamente, agora, encolhida em posição fetal, no canto da cozinha, espremida entre a geladeira e a parede, a vibrar em espasmos de dor e de medo, chorava copiosamente, mal conseguindo respirar.

– Mentira! Mentira! Mentira! – esgoelava-se Carmen, enfurecida, enquanto esmurrava Ariadne. – Você nunca viu… Vagabunda! Nada aconteceu, filha ingrata! Cadela vagabunda! Seu pai nunca me bateu! Vagabunda! Suma da minha frente, filha ingrata! Seu pai é um homem amoroso! Pare de inventar essas histórias, vagabunda! Cadela! Vagabunda! Cadela! Piranha! Puta! Vagabunda! Você se ofereceu para seu pai, puta! Você o seduziu, vagabunda! Você se entregou para ele, puta! Puta! Você seduziu seu pai. Você se entregou para ele. Cadela! Vagabunda! Puta, suma da minha frente!

Ariadne mal conseguiu pôr-se de pé. Carmen, furiosa, olhos cheios de ódio, ergueu-a pelos cabelos, esbofeteou-a. Ariadne retirou-se da cozinha, cambaleando. Carmen arremessou-lhe um copo, acertando-lho nas costas. O copo estilhaçou-se. Ariadne, cambaleando, aos prantos, a chorar convulsivamente, andou pelo corredor até o seu quarto. Entrou. Fechou a porta, à chave. Deixou-se cair sobre a cama. Chorou, durante as seis horas seguintes, até adormecer. Do quarto retirou-se, com o rosto inchado, os olhos avermelhados, os cabelos despenteados, trajando camisa e calça amarfanhadas, ao amanhecer. Andou, sem rumo, pela cidade. Regressou, esfomeada, exausta, imunda, noite alta, entrou no quarto, trancou-o à chave, jogou-se na cama, e dormiu.

*

No seu quarto, sentada na cama, livro e caderno sobre as pernas cruzadas, um lápis na mão direita, Ariadne estudava para a prova de Matemática, marcada para o dia seguinte. Fazia alguns cálculos, recorria às explicações do livro, mordia a ponta do lápis, concentrada, de cenho franzido, nas questões propostas pela professora.

A porta abriu-se, de repente, com um golpe violento. Ariadne, assustada, os olhos esbugalhados, voltou-se para a porta, em cujo enquadramento viu, para o seu horror, Clodoaldo, que a fitava, bufando, ameaçador. Ondas de calafrio percorreram o corpo de Ariadne, que sentiu o sangue se lhe fugindo. Ariadne largou o lápis, encostou-se à cabeceira da cama, abraçou as pernas, enfiou a cabeça no espaço entre elas, e começou a gemer, a soluçar, a chorar, antecipando os eventos subseqüentes. Tremia, apavorada. Sabia o que lhe sucederia. Clodoaldo fechou a porta atrás de si, à chave, mirando Ariadne com olhos encolerizados, fisionomia carregada; andou até ela, e, num tom áspero, ameaçador, rilhando os dentes, disse-lhe:

– Cabacinha, você contou para sua mãe…

Ariadne tremia, balbuciava qualquer coisa, amedrontada.

– Cabacinha, você contou para sua mãe… – disse Clodoaldo, que se curvou sobre Ariadne, puxou-lhe, pelos cabelos, a cabeça. Dos olhos de Ariadne escorriam lágrimas copiosas, e seus lábios tremiam convulsivamente. – Não chore, queridinha do papai. Papai avisou você, fofinha, não avisou? Papai disse para você, vadiazinha, não contar para sua mãe, não disse? Papai está triste com a filhinha queridinha. Filhinha cabacinha é desobediente. Filhinha queridinha merece castigo. – Enquanto dizia-lhe isso, desabotoava-lhe a camisa. Ariadne estava paralisada pelo terror-pânico que a avassalava. Assim que, animada por alguma força oculta, principiou um grito, Clodoaldo, furioso, deu-lhe um soco na face esquerda, com tanta força, que Ariadne caiu, desacordada, o nariz a jorrar sangue. Clodoaldo, rilhando os dentes, resmungando maldições e obscenidades, rasgou-lhe as roupas, deitou-se sobre ela, e a estuprou. Após se satisfazer, não removeu o sangue que manchava os lençóis e o que enfeava Ariadne, abandonada, lá, como uma boneca imunda.

*

– Você… – gritou Carmen, com toda a força dos pulmões – … a Ariadne?

– Não – respondeu Clodoaldo, áspero. – Por quem você me toma? Sou um homem amoroso. Por que me pergunta se estuprei a Ariadne? Sou um homem amoroso, vadia.

Clodoaldo, fora de si, enraivecido, avançou para cima de Carmen, deu-lhe um forte tapa na face esquerda. Carmen caiu no chão. Não teve tempo nem de pensar em se levantar, pois Clodoaldo pulou sobre ela, surrou-a, rasgou-lhe as roupas, a pôs de bruços, e a sodomizou.

*

A casa estava imunda. Havia meses ninguém a varria, ninguém removia o pó que cobria os móveis e nem as teias de aranhas que se acumulavam em todo canto.

As aranhas criaram várias colônias, com dezenas de indivíduos em cada uma delas, em toda a casa. No chão, havia sujeiras de rato em todo lugar.

Insuportável o cheiro que empesteava a casa.

Eugênio, irmão de Ariadne, definhava a olhos vistos. Sofria nas mãos de sua mãe e nas de seu pai. Eles o surravam com freqüência, duas, três, quatro, cinco vezes ao dia. O seu corpo franzino não suportaria por muito tempo as surras que lhe eram aplicadas. Estava esquelético, cadavérico. O seu olhar, desprovido de vida. Vivia emudecido pelos cantos. Conversava e brincava com os ratos – os seus únicos amigos -, que lhe comiam nas mãos migalhas de pão, pequenos insetos mortos, legumes e verduras podres.

Ariadne não era mais aquela moça prendada que apreciava limpar a casa e conservá-la limpa para apresentá-la aos amigos. Vestia-se com desleixo. Não se aplicava nos estudos, como antes. Nas provas bimestrais, em Matemática, tirou 3,5; em Biologia, 2; em Língua Portuguesa, 1,5; Em História, 1; em Geografia, 1,5. A sua freqüência escolar, que era de 100% das aulas, despencou para 10%. Não se interessava, nem pelos estudos, nem pelos amigos – dos quais se afastou -, e não pensava mais na sua carreira, com a qual sonhava desde tenra infância. Perdeu a vontade de viver. Eugênio, três anos mais novo do que ela, tão estragado pelos castigos e pelos sofrimentos que seu pai e sua mãe infligiam-lhe, que aparentava oitenta anos mal vividos.

Ariadne não conversava com seu pai e nem com sua mãe – para eles nem olhava. Evitava-os. Provocava-lhe calafrios a  figura de seu pai; quando ele lhe descia o olhar, Ariadne tremia, incontrolavelmente, mesmo que não olhasse para ele. Era como se a sua pele queimasse, atingida pelas labaredas infernais que os olhos de Clodoaldo disparavam.

Indiferente ao estado deplorável da sua casa, Ariadne dela entrava e saía.

Ariadne abandonou os estudos. Não se interessava pelos livros. Desistiu dos seus sonhos. A oftalmologia era um assunto que não mais lhe despertava o interesse. Estabeleceu relações com ladrões, assassinos, traficantes de drogas. Envolveu-se com tráfico de drogas, estelionato, assaltos, seqüestros, contrabando de armas e prostituição. Vendia seu corpo para qualquer homem, para sustentar os seus vícios.

*

Eugênio vivia em meio às baratas, às lacraias, aos ratos, aos escorpiões e aos percevejos que infestavam o seu quarto, no qual ninguém, além dele e de Ariadne, entrava.

À noite de um sábado, após participar de um assalto a banco, consumir maconha, cocaína e crack, embebedar-se e protagonizar uma orgia sexual durante a qual estabeleceu o intercurso sexual com quatro homens, deles realizando todas as fantasias, Ariadne, vergando um vestido amarelo manchado de sangue, sêmen, bebidas, e salpicado de pós, entorpecida, andou, entrançando as pernas, tateando as paredes, pela casa, até o quarto de Eugênio, enquanto Eugênio dormia, abriu a porta, e entrou. Não se incomodou com as criaturas asquerosas que infestavam o quarto – já havia se familiarizado com elas. Aproximou-se da cama imunda em que Eugênio dormia profundamente, tendo ao lado duas ratazanas repulsivas e sobre o corpo aranhas grotescas e escorpiões, que se digladiavam.

– Eugênio – sussurrou Ariadne, curvada ao lado da cama, os joelhos pousados no chão.

Fitaram-na as ratazanas, as aranhas e os escorpiões.

Ariadne tocou Eugênio no ombro direito. Ele não acordou. Não se notava a sua respiração. A sua aparência, a de um cadáver. Eugênio exalava odor mefítico.

– Eugênio – disse Ariadne, ao mesmo tempo que o tocava no ombro.

Eugênio despertou, e voltou-se para Ariadne, que, antes que ele pronunciasse qualquer palavra, colou seus lábios carnudos, sensuais, nos lábios dele, frios e descoloridos.

Retiraram-se da cama, escalaram a parede e acomodaram-se no teto, ao canto, as aranhas e os escorpiões.

Recolheram-se ao guarda-roupas as ratazanas.

*

– Vagabunda! Ariadne, você é uma vadia! Pervertida! – ofendeu-a Carmen, e desferiu-lhe dois tapas. Ariadne não reagiu. – Puta! Puta! Suma da minha casa, vadia. Bandida! Puta!

Duas ratazanas, exibindo dentes afiados, entraram na cozinha imunda e correram na direção de Carmen, que, ao vê-las, assustou-se, e pulou sobre uma cadeira. Ariadne exibiu, num contido sorriso de satisfação, seus lindos dentes brancos. Uma ratazana, a maior delas, deu um salto sobre a cadeira em que Carmen estava, avançou à perna de Carmen, e mordeu-a. Do ponto atingido escoou sangue em profusão. A outra ratazana, no chão, olhava, detidamente, para Carmen, sem dela tirar os olhos.

Assustada, a berrar, enlouquecida, Carmen deu um pulo, caiu sobre a cadeira, desequilibrou-se, e estatelou-se no chão. A ratazana que estava no chão pulou no rosto dela, e mordeu-o na comissura direita dos lábios. Sangue escapou do ferimento.

Ao ouvirem um agudo e quase inaudível assobio, as ratazanas afastaram-se de Carmen, e retiraram-se da cozinha. Era Eugênio, que, do seu quarto, as chamava. O olhar aterrorizado de Carmen encontrou-se com o de satisfação de Ariadne, que girou nos calcanhares, e foi para o quarto de Eugênio, no qual entrou, e trancou a porta à chave.

*

Às quatro horas da tarde de um sábado, Ariadne entrou na sua casa. Não se incomodou com a imundície. Sua mãe estava na cozinha. Entreolharam-se. Carmen leu, nos olhos de Ariadne, desprezo e superioridade. Ariadne passou por ela, e foi ao quarto de Eugênio. Entrou. Trancou a porta à chave. Retirou-se do quarto, no domingo, às nove horas da manhã, trajando um vestido que lhe realçava a formosura do corpo.

*

Enormes aranhas peludas andavam pelas paredes e pelo teto da casa. Ninguém as incomodava. Havia muito lixo acumulado no quintal onde o mato e as ervas daninhas dominavam. Havia centenas de colônias de escorpiões, ratazanas, aranhas e lacraias no quintal e dentro da casa.

Clodoaldo, embriagado, chegou em casa. A sua fisionomia, de dar arrepios. Engrolava as palavras. Resmungava, ciciando, palavras impronunciáveis, obscenidades e vitupérios. Empesteou a casa com o miasma que exalava. Na cozinha, sentou-se à mesa, e segurou a cabeça com as mãos, os cotovelos fincados na mesa. Trinta minutos depois, Ariadne chegou e deteve-se ao batente da porta que dava acesso da sala à cozinha.

Detiveram-se, e fitaram Ariadne e Clodoaldo as aranhas que passeavam pela parede.

– Cabacinha vagabunda! – berrou Clodoaldo. – Cabacinha, você não é minha filha. Vagabunda! Cabacinha, você vai se arrepender! Você não é minha filha, cabacinha! Vou fazer você engolir o seu sangue. Farei picadinho de você, vadia!

Ariadne fitou Clodoaldo com olhar de desprezo, meneou a cabeça, esboçou sorriso escarninho; com andar firme, a coluna ereta, fitando-o, imperiosa, passou por ele e entrou no quarto de Eugênio.

– Aranhas malditas! Aranhas malditas! – berrou Clodoaldo, num tom enraivecido; de sua boca escorria saliva tinta de sangue. Cuspiu sobre uma aranha, que correu, e saltou para a parede, deixando atrás de si um rastro gosmento. Uma aranha seguiu-a. E ambas desapareceram atrás da geladeira.

Clodoaldo tirou do pé direito o sapato, e jogou-o contra uma aranha, que o fitava, esmagando-a na parede. A aranha caiu no chão, em contorções espasmódicas. Clodoaldo, ao levantar-se, empurrou a cadeira para trás, derrubando-a. Furioso, agarrou-a por duas pernas, e quebrou-a contra a parede. Empunhando as duas pernas da cadeira, mirou uma aranha que andava na porta da geladeira. A aranha esquivou-se dos golpes. Do nariz de Clodoaldo escorria sangue apretejado da consistência de manteiga. Quatro aranhas pularam sobre Clodoaldo, e morderam-no, no rosto, no braço esquerdo, no pescoço, e na cabeça, próximo da orelha direita. Clodoaldo caiu, escabujando. Soltou sangue pela boca, pelas narinas, pelas orelhas e pelos olhos. Pousou as mãos sobre o peito esquerdo, apertando-o num esforço para manter o coração dentro do peito. Seu corpo assumiu consistência rochosa. Carmen ouviu os gritos abafados de Clodoaldo, e correu a acudi-lo; dele afastou as aranhas. Estava transtornada, estupefata. Não acreditava no que via: o seu marido a escabujar, a expelir sangue por todos os orifícios do corpo, a cuspir jorros de sangue apretejado com saliva amarelo-esverdeada, a balbuciar palavras inaudíveis. Debruçou-se sobre ele, e pousou-lhe as mãos no rosto.

– Marido amoroso – sussurrou-lhe, apavorada.

Ariadne e Eugênio, no quarto de Eugênio, fingiam que nada ouviam. Extraíam prazer um do outro. E quanto mais elevados os lamentos de Carmen, mais prazer eles desfrutavam.

Os lamentos de Carmen e os gemidos de Clodoaldo eram afrodisíacos para Ariadne e Eugênio.

*

Clodoaldo ficou dois meses internado no hospital. Extraíram-lhe o veneno que as aranhas lhe haviam inoculado.

– Não entendo – disse o médico. – Não entendo, dona Carmen. As aranhas injetaram no seu marido veneno suficiente para matar vinte homens do tamanho dele. Não entendo. É estranho. O seu marido esteve em vias de partir desta para a melhor. Mas… Não sei o que dizer para a senhora… Confesso: este caso merece mais atenção; não posso explicá-lo. Todos os médicos os quais consultei ficaram, do mesmo modo que eu, estarrecidos; alguns deles, impressionados, embora habituados com fatos inexplicáveis, incrédulos, desconfiados, perguntaram-me se eu lhes pregava uma peça. Na mente deles associaram-se, para atormentá-los, a incredulidade e o fascínio. Não sei se me expresso com as palavras apropriadas. Peço desculpas, dona Carmen, se não me explico com clareza… Bem, dona Carmen, o seu marido convalesce. A senhora poderá levá-lo para casa… A senhora acredita em milagres? Na ausência de explicações… Não entendo… Não há explicações científicas para o caso do seu marido, dona Carmen. É inexplicável. Foi um milagre, posso dizer. Foi um milagre…

Carmen ouviu-o, em silêncio, mas não prestou atenção ao que ele lhe disse, pois olhava para uma minúscula aranha, que, do teto, a fitava, atentamente.

*

Assim que regressou à sua casa imunda infestada de criaturas repulsivas, que passeavam, livremente, pelo chão, pelo teto, pelas paredes, Carmen dirigiu-se ao seu quarto, no qual, embora imundo, nenhuma criatura entrava. Ela sabia que, se não incomodasse Ariadne e Eugênio, nenhum escorpião, nenhuma aranha, nenhuma ratazana, nenhuma lacraia a atacaria. Deitou-se na cama imunda. Exausta, o sono a surpreendeu. Berros ensurdecedores despertaram-na dez minutos depois. Sobressaltada, ouviu as obscenidades cuspidas por um homem. Sonolenta, a mente entorpecida pelo sono bruscamente interrompido, apurou os ouvidos. Chegaram-lhe aos ouvidos a voz cavernosa de um homem e a voz atrevida e provocadora de uma mulher, Ariadne.

O homem, um sujeito de má catadura, facínora, que atendia pela alcunha de Tigre, cuspia obscenidades, e empunhava uma faca cuja extremidade, afiadíssima, encostava à ilharga direita de Ariadne, ferindo-a. Tigre não atentou para a imundície e as criaturas repulsivas que infestavam a casa. Lambeu a orelha direita de Ariadne. Apalpou-lhe a nádega esquerda, apertou-a e nela cravou as grossas unhas sujas. Mordeu-lhe o lóbulo da orelha direita, puxando-o, ao mesmo tempo que lhe passeou, por entre as nádegas, o índex e o médio, e enfiou-lhe, na ilharga, a faca, extraindo-lhe sangue, que lhe escorreu pelo corpo e manchou-lhe o vestido. Ameaçou violentá-la e matá-la.

No seu quarto, Carmen ouvia o que se passava entre Ariadne e Tigre. Percorreram-lhe o corpo ondas de calafrio. A porta do quarto estava entreaberta. Carmen viu Tigre desferir, com o dorso da mão esquerda, um tapa no rosto de Ariadne, e, com as duas mãos e o peso do próprio corpo, empurrá-la sobre o sofá. Apavorada, recolheu-se ao canto do quarto, e conservou-se em completo silêncio.

Tigre esmagou, involuntariamente, dois escorpiões.

Aranhas, escorpiões, lacraias, baratas, ratazanas, acompanharam, atentamente, todos os movimentos de Tigre e Ariadne. Prepararam-se para saltar sobre Tigre, que esbofeteava Ariadne, cuspia-lhe obscenidades e ameaçava matá-la, se ela resistisse. Com Ariadne de costas para si, Tigre mordeu-lhe o pescoço; com a mão esquerda, ergueu-lhe o vestido, e, com a direita, apertou-lhe o peito. Ariadne não reagiu. Havia visto as criaturas repulsivas na sala; sabia que, bastaria um sinal seu, que todas elas saltariam sobre Tigre.

Tigre desafivelou o cinto, desceu o zíper, e abaixou a calça e a cueca.

Ariadne cerrou as pálpebras.

Dez escorpiões saltaram às pernas de Tigre, que se empinou, olhou para baixo, e os viu. Antes que pudesse emitir um grito de pavor, um escorpião cravou-lhe o ferrão no pênis. Tigre afastou-se de Ariadne. Quis gritar. Não conseguiu, tão insuportável lhe era a dor. Brandiu a faca, e soltou-a no chão. Movia-se com gestos bruscos. Soltava saliva gosmenta pela boca escancarada. Urinou sangue. Defecou fezes inconsistentes, que lhe borraram as pernas peludas. Ariadne recompôs-se. Aranhas cobriram-lhe o ferimento, estancando-lhe o sangue. Ratazanas lamberam-lhe o sangue que escorria pelas pernas e o que lhe manchava o vestido. Um escorpião feriu a mão direita de Tigre. Outro saltou-lhe à perna, escalou-a, e forçou-se para dentro do ânus dele. Tigre, imóvel, a boca escancarada, circunvagou os olhos pela sala; viu centenas de escorpiões, aranhas, ratazanas, lacraias e serpentes avançando em sua direção. Ariadne, serena, impassível, deliciava-se com o cenário, lambia os beiços, a desfrutar de prazer inconcebível.

Aranhas atiraram teias sobre Tigre, que se debatia. Escorpiões o escalaram. Ratazanas, lacraias, baratas e serpentes morderam-lhe as pernas. Aranhas pularam sobre Tigre. Serpentes enrodilharam-se-lhe às pernas, e afastaram uma da outra. Tigre perdeu o equilíbrio. Ratazanas atacaram-no e morderam-lhe o rosto, os braços, as pernas, as nádegas, a barriga. Tigre caiu. As criaturas repulsivas cobriram-no e abafaram-lhe os berros. Penetraram-lhe o corpo por todos os orifícios, e começaram a devorar-lhe a língua, os lábios, os olhos, os pés e as mãos.

Ariadne, inexpressiva, assistiu ao horripilante espetáculo.

As criaturas devoraram Tigre, de quem não sobrou nem os ossos, em menos de dez minutos, e retiraram-se da sala.

Escorpiões carregaram o revólver, a faca, a fivela da cinta, os dois anéis de ouro que Tigre trazia no dedo médio da mão direita e a pulseira reluzente até Ariadne, que os pegou, e, duas horas depois, deles se desfez por um bom preço.

Ninguém nunca mais ouviu falar de Tigre. As pessoas que o viram entrando na casa de Ariadne e não o viram de lá se retirar nada disseram a respeito.

*

Carmen perdeu a sanidade. Errava pelas ruas. Esbravejava. Relatava histórias absurdas – muitas delas verdadeiras. Falava da sua casa, de sua filha, de seu filho, do seu marido, dos ratos, escorpiões, baratas e aranhas que infestavam a sua casa. Relatou, com pormenores, o ataque das aranhas a Clodoaldo e a morte de Tigre. As pessoas que a ouviram não lhe deram atenção. Para elas, Carmem era uma louca e tinha de ser internada num hospício. Dela zombavam, ridicularizavam-na; dela espalharam histórias estapafúrdias. Certo dia, Carmen desapareceu, e dela ninguém nunca mais ouviu uma notícia.

*

Clodoaldo regressou à sua casa. Com passos pesados, cenho carregado, foi até a cozinha, onde Ariadne e Eugênio, à mesa, conversavam, animadamente, e deteve-se a dois metros de Ariadne, estupidificado com o que viu: Sobre a mesa, três ratazanas; nas paredes e no teto, escorpiões e aranhas a caminhar livremente; no chão, centenas de baratas e lacraias; ao colo de Ariadne, uma aranha peluda, e Ariadne a acariciá-la e a osculá-la carinhosamente; ratazanas grotescas nos braços e nos ombros de Eugênio e na sua cabeça cadavérica de olhos projetados para fora das órbitas.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo. Ariadne ignorou-o.

Um escorpião escalou as costas de Ariadne, e subiu-lhe à cabeça. Clodoaldo arregalou os olhos.

– Onde está sua mãe, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, enraivecido, fitando-a com olhos sinistros.

Ariadne não lhe deu atenção; ignorou-o como se não o visse, como se não o ouvisse. Gargalhava. Brincava com as aranhas, que a acariciavam.

Clodoaldo deu dois passos na direção de Ariadne. Puxou-lhe o vestido de tecido fino, que não resistiu ao puxão, e rasgou-se. A aranha que estava nas mãos de Ariadne atirou teia sobre a mão direita de Clodoaldo. As ratazanas que brincavam com Eugênio e o escorpião que se encontrava sobre a cabeça de Ariadne encararam Clodoaldo. Eugênio rilhou os dentes e, com seus olhos sinistros, fitou Clodoaldo, que não lhe deu atenção.

– Você é surda, cabacinha? – perguntou Clodoaldo, aos berros, para Ariadne. – Cabacinha, perguntei onde está sua mãe – e puxou-lhe o vestido. Ariadne levantou-se, altiva. Clodoaldo puxou-lhe, novamente, o vestido, desnudando-a, e agarrou-a pelo pescoço, com a mão direita, enquanto apertava-lhe, com a mão esquerda, o peito esquerdo. – Você não quer me contar, cabacinha vadia, onde está sua mãe? Vagabunda, você não quer me contar onde está sua mãe? Então, vou arrancar as suas entranhas – e empurrou-a sobre a mesa, e debruçou-se sobre ela. De seus olhos chispavam labaredas de ódio; de sua boca escapavam perdigotos, que queimavam o corpo de Ariadne, ao atingi-lo. Clodoaldo assemelhava-se a mitológicos monstros flamívomos que aterrorizavam os povos antigos.

Milhares de escorpiões, aranhas, baratas, lacraias e ratazanas pularam sobre Clodoaldo, o cobriram, e, antes de ele esboçar um protesto, o devoraram.

*

Ariadne e Eugênio viviam com os escorpiões, as aranhas, as lacraias, as ratazanas e as baratas.

Na casa imperava a imundície.

*

No teto do quarto de Ariadne, ao canto, uma imensa bola de teia de aranha. No chão da cozinha, um enorme ninho de rato.

Numa noite de frio rigoroso, Ariadne rompeu o envoltório de teia e, nua, desceu do teto para o chão.

Na cozinha, Eugênio despertou e, nu, saiu, guinchando, do ninho.

Ariadne foi até Eugênio, envolveu-o com uma bola de teia e, com voracidade, o devorou.

De Eugênio não sobrou nem uma gota de sangue.

 

Os nomes

O enlace matrimonial se deu na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso, na manhã de um domingo radiante, que antecipava um dia ensolarado, que louvava a união de Renato e Célia, ele, na idade de vinte e dois anos, ela, de vinte e dois anos de idade, ele, natural de São José dos Campos, ela, de Taubaté, ele, de uma família de palmeirenses, ela, de uma família de corinthianos, ele, canhoto, ela, destra, ele, branco, ela, negra, ele, de inteligência curta e escassa leitura, ela, de inteligência igualmente curta e equivalente escassez de leitura. Amavam-se Renato e Célia. Conheceram-se, no carnaval, dois anos antes. Foi amor à primeira vista. Foi atração à primeira vista. Ele, forte, espadaúdo, de queixo quadrado, tórax amplo e bíceps de pedra, atraiu a atenção dela. Ela, de corpo escultural, de esplendorosa comissão de frente e deslumbrante bateria, atraiu os olhares dele. Travaram conhecimento um do outro. E encerrou-se no altar o relacionamento que principiou com o desejo carnal. Amavam-se. O semblante deles, na Igreja, durante a cerimônia matrimonial, de felicidade contagiante. Nos dois anos de namoro, tiveram as suas escaramuças, e atravessaram os sete círculos do inferno. Singraram todo o espaço, extenso e tortuoso, que levava ao céu. E no céu estavam naquele domingo alvissareiro.

Transcorreram-se os dias.

No consultório médico, souberam Renato e Célia que seriam pais de trigêmeos. Sorriram, consigo, extraordinariamente felizes. Trigêmeos! Trigêmeos! Eram os primeiros trigêmeos da família. Paulo, tio de Renato, e sua esposa, Marcela, são pais dos gêmeos Vicente e Mateus. José Carlos, irmão de Célia, e sua esposa, Rafaela, são pais das gêmeas Valéria e Larissa. João e Adriana, vizinhos de Renato e Célia, são pais de Cláudio e Cláudia. Há gêmeos na família; trigêmeos não há. Haverá. Nasceriam os três meninos dali quatro meses, fortes, robustos, belos, formosos, de nariz igual ao da mãe e focinho igual ao do pai.

Nos dias seguintes, sorridentes, Renato e Célia deram a notícia para os familiares e para os amigos. Não se continham. Renato seria pai de trigêmeos! Célia seria mãe de trigêmeos. Trigêmeos! Trigêmeos! Antecipavam as alegrias e as preocupações, as noites que passariam em branco, os choros; e viam os trigêmeos dez anos no futuro, meninos buliçosos, traquinas, espevitados, e os imaginavam na idade de vinte anos, fortes, altos, audazes, e em pensamento viajando através do tempo, via-os aos quarenta anos, de escassos cabelos brancos e pretos, casados, e pai, ou de três filhos, ou de dois, ou de quatro. Já se imaginavam avós. E perguntavam-se que nomes dariam aos meninos. Eram três meninos. Teriam de escolher um nome para cada um deles. Precisariam de três nomes. Quais seriam os nomes? Na casa dos pais de Célia, reunidos os familiares em festa, em certo momento, falando de nomes para as crianças, e ninguém se negou a fornecer as suas sugestões, Lidiane, prima de Célia, propôs:

– Três nomes com finais iguais.

– Não entendi – disse Célia, e os olhares de todos indicavam que ninguém entendera o que dissera Lidiane, que tratou de explicar:

– Escolher para os três meninos nomes cujas últimas sílabas sejam as mesmas. Sugestões: Roberto, Norberto e Heriberto.

– Cruz-credo! – exclamou Célia. – Que nomes horríveis!

– Horríveis? – perguntou o pai de Célia. – Horríveis, filha? Você esqueceu-se do meu nome? Meu nome é horrível, é?

Todos riram; todos gargalharam.

– Não, pai. Norberto é um nome horrível. Heriberto é um nome horrível. O seu, não. O seu é o mais bonito dos nomes.

– Filha. Filha – disse Roberto, em tom de censura amigável. – Você esqueceu-se do nome de seu avô, meu pai?

E todos, mais uma vez, gargalharam.

– A emenda saiu pior do que o soneto, filha – comentou Margarida, mãe de Célia. – Seu pai, Roberto; seu avô, pai de seu pai, Norberto; seu bisavô, pai de minha mãe, Heriberto.

De tão estrondosas e ensurdecedoras as gargalhadas que se seguiram, que a estrutura da casa tremeu.

E sugeriram outros nomes.

Eis as sugestões de Marcos, irmão de Renato:

– Juvenal, Lourival e Durval.

Gargalharam todos.

– Que nomes horríveis! – foi unânime a rejeição.

– E não combinam – observou Lidiane. – “Nal” de Juvenal não combina com “val” de Lourival e Durval.

E Laura, prima de Renato, sugeriu:

– Bartolomeu, Romeu e Tadeu.

– Não combinam – observou Célia. – A última sílaba de Tadeu é ‘deu’, e não ‘meu’ como a de Bartolomeu e de Romeu. Além disso, os três nomes são feios.

– Feios? – perguntou, indignada, Madalena, tia de Renato. – Tadeu é o nome de meu pai, que é avô, portanto, de Renato, seu marido.

E todos gargalharam.

– Pense antes de falar, Célia – aconselhou-a Renato.

– Então – sugeriu Márcia, tia de Renato -, que seja Irineu.

– A última sílaba de Irineu é ‘neu’ – observou Roberto.

– É verdade – comentou Márcia, censurando-se.

– Que sejam os seus filhos – sugeriu Roberto – batizados com nomes da terra de meus ancestrais: Albertino, Severino e Balduíno.

E uma onda de gargalhadas arrasou a casa, como um tsunami.

– E não ria, filha – censurou-a Roberto. – E não diga que tais nomes são feios. Um de meus tataravôs chamava-se Albertino, e um outro, Balduíno, e um outro, Severino.

E seguiram-se as gargalhadas.

– Josias e Jeremias! – exclamou Pedro, ou Pedrinho, irmão caçula de Renato. – Na minha escola, são meus amigos o Josias e o Jeremias.

– Jeremias e Josias são dois nomes – observou Célia. – Tem de ser três nomes.

– Escolhe estes dois – sugeriu Pedro. – O terceiro nome o acharemos em outro dia.

Riram à solução do menino.

– Tobias pode completar o trio – disse Roberto.

Célia e Renato não gostaram dos nomes.

– Tenho uma proposta – disse Neusa, vizinha. – Adriano, Mariano, Fabiano e Feliciano.

– Quatro nomes – observou Madalena. – Precisam Renato e Célia de três nomes, e não de quatro.

– Faltou um nome para o Pedrinho – comentou Roberto – e sobrou um nome para a Neusa. Vocês nunca estudaram aritmética?

E todos riram. E todos gargalharam.

– Que tal João, Carlão e Tonhão? – sugeriu Roberto.

E riram. E gargalharam.

E encerradas as gargalhadas, seguiram-se outras sugestões.

– Adroaldo, Osvaldo e Ricardo – sugeriu Vinicius, irmão de Célia.

– O quê? – perguntou Maristela, prima de Renato. – Não combinam.

– A última sílaba dos três nomes é ‘do’ – defendeu a sua sugestão Vinicius.

– Mas não combinam – replicou Maristela. – ‘aldo’ de Adroaldo, ‘aldo’ de Osvaldo, e ‘ardo’ de Ricardo…

– Essa ardeu em meus ouvidos – interrompeu-a Roberto.

– Então – disse Vinicius -, que sejam Adroaldo, Osvaldo e Ariovaldo.

– Ou Geraldo, Rivaldo e Nivaldo – sugeriu Cecília, irmã de Célia.

– Já sei – clamou Pedro, chamando a atenção de todos para si. – Já sei os nomes dos meus primos.

– Dos seus primos, não – corrigiu-o Renato. – Dos seus sobrinhos.

– Você será tio deles, Pedrinho – informou-o Roberto.

– Já sei qual será os nomes deles: José, Josué e André.

– São diferentes… – principiou Célia, e interrompeu-a Pedro:

– Todos os nomes terminam com ‘é’.

– Sim – concordou Mário, primo de Renato, para, em seguida, completar: – Mas a última sílaba de cada nome é diferente umas das outras: ‘zé’, ‘é’ e ‘dré’.

– Conheço vários nomes com a mesma última sílaba – disse Ricardo, primo de Renato, até então em silêncio. – São… – e fez ar de quem contava, em pensamento. – São dez nomes: Denílson, Edson, Edmilson, Adilson, Gerson, Gilson, Jackson, Jéferson, Nilson e Nelson.

E discutiram qual era o melhor trio:

– Gostei de Gilson, Denílson e Nilson – disse Roberto.

– Eu, de Nelson, Jéferson e Edmilson – disse Vinicius.

– Prefiro Adilson, Jackson e Edson – disse Renato.

– Adilson, Gerson e Jéferson são mais bonitos – disse Madalena.

E apresentaram dezenas de outros trios, até que Ricardo apresentou uma lista com sete nomes: Daniel, Rafael, Manoel, Gabriel, Miguel, Israel e Natanael, e acalorou-se o debate.

Quais seriam os nomes dos trigêmeos de Renato e Célia? Daniel, Miguel e Israel? Denílson, Gerson e Nelson? Albertino, Severino e Balduíno? Juvenal, Lourival e Durval? Adroaldo, Osvaldo e Rivaldo? Rafael, Manoel e Natanael? Gilson, Nilson e Adilson? Fabiano, Mariano e Feliciano? Jéferson, Jackson e Edson? Nivaldo, Geraldo e Ariovaldo? Eram tantas as opções, que discutiram durante uma hora, até que, enfim, Renato e Célia optaram pelos nomes que mais os agradavam: Daniel, Rafael e Gabriel. E esses os nomes que os três meninos receberam à pia batismal.

Decorridos dois anos e quatro meses dos eventos até aqui narrados, Renato e Célia, ela em nova gestação, receberam, no consultório médico, a notícia, que os surpreendeu enormemente: Célia está grávida de trigêmeas.

– E dizem que dois raios não caem no mesmo lugar! – sentenciou Roberto, ao receber a notícia.

E reuniu-se a família.

E selecionaram os nomes para as meninas.

E as três meninas teriam nomes com a mesma última sílaba.

Apresentaram dezenas de sugestões, e Célia por nenhuma delas se decidiu, por uma razão: Queria que uma das meninas se chamasse Beatriz, em homenagem à avó de Célia, a sua madrinha de batismo, falecida havia cinco anos. E ninguém conhecia outro nome de mulher com última sílaba em ‘triz’.

– Renato – disse Célia, no dia seguinte -, ninguém, na casa de meus pais, soube dizer outro nome, além de Beatriz, com última sílaba em ‘triz’. Vamos consultar o pai dos burros à procura de nomes que nos agradem.

E mãos à obra… no dia seguinte.

No transcurso dos dias, compulsaram Renato e Célia vários tomos de repositórios do idioma vernáculo. Alguns pesavam toneladas.

– Este pai dos burros – comentou Renato enquanto folheava um tomo de quase duas mil páginas impresso em 1940 – está velho e obeso. Deus me livre! Que peso!

– Este pai dos burros – comentou Célia, certo dia, na Biblioteca Municipal, tendo à mão um fino Pequeno Dicionário Escolar da Língua Portuguesa de não mais do que cem páginas – está tão magrinho, coitado! Desnutrido, o bendito!

– Este pai dos burros – disse Renato, em outra ocasião, um minidicionário à mão – é tão nanico, tão nanico, que, se tentar escalar um pé de alface, dele não chegará à metade.

– Este pai dos burros – comentou Célia, avaliando um dicionário de bolso – está esbelto. É um pouco baixo, mas de bom tamanho.

E sucederam-se os dias.

E encontraram Renato e Célia os dois nomes que rimavam com Beatriz.

E nasceram as trigêmeas.

E Renato e Célia, no Cartório de Registro Civil, registraram os nomes de suas filhas: Beatriz, Diretriz e Meretriz.

O pedaço de bolo de chocolate

Uma história do Joãozinho

Era um domingo como outro domingo qualquer. Nem quente, nem frio.

Na casa de número 3443 da Rua das Caraminholas, que com a Rua das Caravelas, a Rua das Caravanas, a Rua das Carapaças e a Rua dos Caranguejos faz intersecções, no Bairro dos Caraminguás, vizinho, ao leste, do Bairro das Carambolas, ao oeste, do Bairro dos Caramujos, ao norte, do Bairro do Caramanchão, ao sul, do Bairro das Carantonhas, vive uma família de quatro pessoas: os genitores, ele, pai de Joãozinho, ela, mãe de Joãozinho, e os seus filhos, ele, o primogênito, Joãozinho, ela, irmã de Joãozinho. Às seis horas da manhã, retiraram-se da casa a mãe e sua filha, que rumaram para a casa dos avós maternos de Joãozinho, situada na cidade vizinha, no número 4334 da Rua dos Carrapichos, que com a Rua dos Carrapatos e a Rua dos Carrascos faz intersecções, no Bairro do Carajé, vizinho, ao leste, do Bairro do Caramelo, ao oeste, do Bairro da Carraspana, ao norte, do Bairro do Caramuru, ao sul, do Bairro dos Caraíbas. E o pai e seu filho acordariam, o primeiro, às oito horas, o segundo, às dez. E o pai de Joãozinho, banho tomado, dentes escovados, leite de um copo de vidro bebido e um bolinho de caramelo degustado, preparou, na cozinha, na mesa, as refeições matinais, a sua e a de seu filho. Joãozinho, banho tomado e dentes escovados, foi à cozinha. E à mesa sentaram-se pai e filho. Este, ao ver sobre a mesa um bolo de chocolate e um pedaço de bolo de chocolate e à mão de seu pai uma faca, e ele preparando-se para cortar o bolo, disse-lhe, detendo-o:

– Não quero o bolo.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Não – respondeu Joãozinho.

– E o que você vai comer? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande esse pedaço de bolo.

– Não é, não.

– Vou cortar… – e inclinou-se o pai de Joãozinho para o bolo, a faca na mão direita, preparando-se para cortá-lo, mas não o cortou. Impediu-o Joãozinho.

– Não pode cortar o bolo de chocolate – disse Joãozinho.

– Mas o pedaço de bolo é grande.

– Eu quero o pedaço inteiro.

– O quê?

– Eu quero o pedaço inteiro.

– Pedaço inteiro!?

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande. – comentou o pai de Joãozinho.

– Não é, não.

– Vou cortar um pedaço deste bolo… – disse o pai de Joãozinho, que não completou a frase porque impediu-o Joãozinho.

– Não quero um pedaço de bolo de chocolate – disse, firme, sério, Joãozinho. – Quero o pedaço inteiro.

– Mas, filho…

– Quero um pedaço inteiro; não quero um pedaço cortado.

– Pedaço inteiro? Pedaço cortado?

– Este é o pedaço inteiro – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– E o pedaço cortado?

– É um pedaço cortado.

O pai de Joãozinho encasquetou com a distinção que seu filho fazia de pedaço inteiro e pedaço cortado; considerando divertido e intrigante o que ele dizia, decidiu dar sequência à conversa para de Joãozinho extrair definições claras do que ele queria dizer com pedaço inteiro e pedaço cortado.

– Filho, cortarei um pedaço deste bolo…

– Não quero um pedaço cortado.

– Filho…

– Quero o pedaço inteiro.

– Cortarei do bolo um pedaço do mesmo tamanho do…

– Não quero um pedaço cortado de bolo.

– O pedaço cortado do bolo de chocolate terá o tamanho desse pedaço inteiro – apontou o pai Joãozinho para o pedaço de bolo.

– Não quero um pedaço cortado; quero o pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado do bolo de chocolate do mesmo tamanho do pedaço inteiro é igual ao pedaço inteiro.

– Não é, não.

– Então, eu cortarei do bolo um pedaço maior do que o pedaço inteiro; sendo maior, é melhor.

– Não é, não. Pedaço cortado é pedaço cortado; e pedaço inteiro é pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado e um pedaço inteiro são iguais se ambos tiverem o mesmo tamanho.

– Não são, não.

– Ambos os pedaços, o inteiro e o cortado, são gostosos.

– Não são, não.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho, intrigado.

– Não – respondeu Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

– Mas, sendo o pedaço inteiro e o pedaço cortado do mesmo tamanho, iguais eles são, e, portanto, terão o mesmo gosto. Ambos os pedaços serão gostosos.

– Não. Não. E não. Eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado.

– Por quê? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo.

– Por que o pedaço inteiro não é um pedaço cortado. E eu, que gosto de pedaço inteiro, e não gosto de pedaço cortado, quero o pedaço inteiro, e não um pedaço cortado.

– Não entendi – comentou o pai de Joãozinho, rindo consigo. – O pedaço inteiro do bolo de chocolate é de chocolate. O bolo, aqui – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – é de chocolate. Se eu cortar deste bolo um pedaço do mesmo tamanho do pedaço inteiro – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro e terá o mesmo gosto dele.

– Não terá o mesmo gosto, não – replicou Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que um pedaço cortado. O pedaço inteiro não é um pedaço cortado. O pedaço cortado não é um pedaço inteiro. O pedaço inteiro é o pedaço inteiro. Um pedaço cortado é um pedaço cortado. E eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado. O bolo é de chocolate. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. O pedaço cortado de bolo de chocolate é de chocolate. Mas o pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não é um pedaço cortado de bolo de chocolate, e, sendo um pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não um pedaço cortado de bolo de chocolate, tem gosto de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e um pedaço cortado de bolo de chocolate tem gosto de pedaço cortado de bolo de chocolate, e de pedaço cortado de bolo de chocolate eu não gosto.

Mais confuso do que no início, o pai de Joãozinho perguntou-se se foi uma idéia sensata insistir na conversa com o propósito de extrair de seu filho esclarecimentos sobre as distinções que ele fazia entre pedaço inteiro e pedaço cortado. Contrariando a si mesmo, melhor, a metade de si que desejava encerrar o assunto e tratar de outro tema, e atendendo à metade de si curiosa por saber o que seu filho entendia por pedaço inteiro de bolo de chocolate e pedaço cortado de bolo de chocolate, disse:

– Filho, o bolo é de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. Se eu cortar do bolo de chocolate um pedaço, o pedaço cortado será, como o bolo de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate, de chocolate. Chocolate é chocolate. O bolo é de chocolate, e todos os seus pedaços cortados são de chocolate. Se eu cortar o bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – em cinco pedaços, todos do tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, todos os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate serão iguais ao pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não diferentes. Serão do mesmo tamanho. O pedaço inteiro de bolo de chocolate e os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate terão o mesmo gosto, e todos os seis pedaços serão de chocolate. Tanto faz comer ou o pedaço inteiro de bolo de chocolate ou um dos cinco pedaços cortados de bolo de chocolate, filho. Você gostará de qualquer um deles.

Joãozinho meneou a cabeça, desconsolado.

– Ai. Ai – suspirou Joãozinho.

– O que eu disse não está certo? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo. A sua expressão impassível não transparecia a hilaridade que lhe animava os pensamentos. Queria emprestar traços sérios, respeitáveis à sua fisionomia, e receava trair-se.

– Não – respondeu-lhe Joãozinho, seco. – Não está certo, não.

– Quero entender, filho, o que você me disse. Então, proponho para você uma brincadeira: Você cobrirá, com as mãos, os olhos, e eu cortarei um pedaço do bolo de chocolate, e o deixarei ao lado do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e os misturarei, e avisarei você, e você descobrirá os olhos, e pegará um pedaço de bolo de chocolate sem saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– O senhor não pode fazer isso, papai – resmungou Joãozinho.

– Por que não?

– Por que eu tenho que ver o senhor cortando o bolo para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate; se eu não ver qual foi o pedaço que o senhor cortou e pôs perto do pedaço inteiro de bolo de chocolate, eu, ao pegar um dos dois pedaços, poderei pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu não quero o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– Mas você, filho, não vendo qual pedaço cortei, não saberá qual é o pedaço cortado e qual é o pedaço inteiro.

– Se eu pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, que eu não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero, comerei o pedaço cortado de bolo de chocolate, que é o que não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero.

– Se você não souber qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, o pedaço que você pegar, ou o inteiro ou o cortado, e comer, será de chocolate, e gostará dele, portanto, filho, você, não sabendo qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, poderá comer qualquer um dos pedaços, e dele gostará.

Joãozinho olhou, com ar desconsolado, para o alto, e suspirou.

– Ai. Ai.

– O que eu disse não está certo?

– Não, né – respondeu Joãozinho, irritado. – Papai, o senhor não entendeu o que eu disse. Se eu cobrir, com as mãos, os olhos, e o senhor cortar o bolo de chocolate em pedaços iguais, todos do mesmo tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu, ao escolher um pedaço de bolo para comê-lo, em vez do pedaço inteiro, que é o que eu gosto, pegar o pedaço cortado, e comê-lo, e gostar dele, eu gostarei do pedaço cortado de bolo, e não do pedaço inteiro, isto é, eu gostarei do pedaço que eu não gosto; se eu não gosto de pedaço cortado, de pedaço cortado não posso gostar; eu tenho de gostar do pedaço que eu gosto, que é o pedaço inteiro, e não do pedaço que eu não gosto, que é o pedaço cortado. Então, entendeu pai, eu tenho de ver o senhor cortar o bolo de chocolate para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu gosto de pedaço inteiro, e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate, e eu não gosto de pedaço cortado. O pedaço inteiro e o pedaço cortado não são a mesma coisa.

– São, sim.

– Não são, não.

– Se eu cortar um pedaço deste bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro.

– Não será, não, papai. O pedaço inteiro é o pedaço que estava em cima da mesa; e o pedaço cortado é o pedaço que o senhor cortará do bolo. Quando eu cheguei aqui, vi, em cima da mesa, um bolo de chocolate e um pedaço inteiro de bolo de chocolate.

– Mas este pedaço inteiro é um pedaço de um bolo de chocolate que, ou eu, ou sua mãe, cortou; portanto, o pedaço que você diz ser pedaço inteiro é, na verdade, um pedaço cortado, porque, ou eu, ou sua mãe, o cortou de um bolo de chocolate. Se eu cortar, deste bolo – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, um pedaço igual ao pedaço inteiro de bolo – e tocou, com a ponta da face, o pedaço de bolo de chocolate -, ambos os pedaços serão iguais.

– Não serão, não – replicou Joãozinho, visivelmente irritado. – O pedaço de bolo de chocolate que está na mesa é um pedaço inteiro. Quando eu cheguei aqui, o pedaço já estava aqui, e estava inteiro; ninguém o cortou; eu não o cortei; o senhor não o cortou; ninguém o cortou; o pedaço, agora, está inteiro como inteiro estava quando eu o vi quando cheguei e sentei-me nesta cadeira. O bolo de chocolate está inteiro, e se o senhor o cortar em pedaços, os pedaços serão cortados, e pedaços cortados não são pedaços inteiros; são pedaços cortados. Eu verei o senhor, papai, cortando o bolo de chocolate, e do bolo de chocolate tirando um pedaço, pedaço este que o senhor me dará, e este pedaço será um pedaço cortado, porque vi o senhor cortando o bolo em pedaços, e todos os pedaços que do bolo o senhor cortar serão pedaços cortados, e não pedaços inteiros. O pedaço inteiro é o pedaço que já estava aqui na mesa quando eu cheguei, e não vi ninguém o cortando, então, este pedaço é um pedaço inteiro, e não um pedaço cortado. Não vi ninguém cortando um bolo, e do bolo tirando este pedaço – e apontou para o pedaço de bolo de chocolate. – Eu vi este pedaço, que estava inteiro quando eu o vi, e não vi ninguém cortá-lo de um bolo, então é um pedaço inteiro este pedaço de bolo de chocolate. Se o senhor cortar o bolo em pedaços, os pedaços serão cortados, e o pedaço que o senhor me der será um pedaço cortado, e não um pedaço inteiro. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro que eu vi quando cheguei aqui na cozinha; e o pedaço cortado de bolo de chocolate será o pedaço que o senhor cortará do bolo. Entendeu, papai?

A pergunta Joãozinho a fez num tom atrevido, que denotava impaciência e desconsolo. O pai de Joãozinho ria-se consigo, olhos fitos em seu filho, tentando entender como funcionava aquele cérebro infantil. Com o que dele ouviu, não pôde avaliar… Aliás, não pôde avaliar o que ouviu. Decidiu, então, encerrar a conversa, contrariando a metade de si que desejava dar-lhe sequência.

– Entendi, filho. Você gosta de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não gosta de pedaço cortado de bolo de chocolate, porque o pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

Joãozinho abriu um largo sorriso, da orelha direita à orelha esquerda, como a dizer: “Papai é inteligente. Ele entendeu o que eu disse.”, o rosto a transparecer a felicidade que o animava.

– Filho – disse o pai de Joãozinho -, coma o pedaço inteiro de bolo de chocolate. É tão gostoso…

O homem que tinha boa memória

– Hoje aconteceu-me uma coisa muito interessante, Gustavo. Fui à farmácia comprar um remédio. Ao balcão, a mocinha, uma loirinha simpática, que me atendeu, perguntou-me o que eu desejava. Pensei em dizer-lhe o que, naquele momento, eu desejava, mas, como eu sou um cavalheiro, disse-lhe eu que eu desejava um remédio. E ela perguntou-me: “Qual remédio?”. “Qual remédio!?”, indaguei, no meu tom de voz habitual, mais para mim do que para ela. “É um comprimido”, disse-lhe eu, gracejando, tentando lembrar-me o nome do maldito remédio. E a loirinha perguntou-me, com aqueles olhos tão doces a olharem-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Aquela loirinha era uma gracinha ao falar específico. Nunca vi uma mulher falar específico com tanta graça. E disse-lhe eu: “Posso. O nome do remédio começa com a letra R”. A loirinha sorriu, e perguntou-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Que graça ela falar específico! “Mais específico do que estou sendo, impossível”, respondi-lhe, e ela sorriu. E eu, que havia me esquecido o nome do maldito remédio, disse à loirinha que eu iria telefonar para a minha esposa. E a loirinha, a educação e a simpatia em pessoa, esperou-me, pacientemente, completar a conversa com a Samantha, e dizer-lhe à ela, a loirinha que me atendeu, o nome do remédio. Disse-lho eu, e desliguei o telefone. E a loirinha providenciou-me o remédio; e paguei por ele, no caixa, retirei-me da farmácia, fui para casa o mais rápido que pude, e entreguei o remédio para a Samantha – e após uma curta pausa, para beber da cerveja, prosseguiu: – Gustavo, você sabe o que mais me chamou a atenção nesta história? A minha boa memória. Quando, ao telefone, a Samantha disse-me o nome do remédio que ela me pedira que eu lho comprasse, dele lembrei-me de imediato. Incrível, não? Que boa memória a minha!

O segredo

Uma história do Joãozinho

O pai de Joãozinho diz para Joãozinho.

– Joãozinho, amanhã será o aniversário de tua mãe. Estou preparando uma festa surpresa para ela, mas nada lhe digas, está bem?

– Está bem – respondeu Joãozinho.

Vinte minutos depois, chega à casa a mãe de Joãozinho. Joãozinho pula-lhe aos braços, e, após dela receber um beijo caloroso, lhe diz:

– Mamãe, a senhora sabia que papai está te preparando uma festa surpresa?

– Não era para lhe contar, Joãozinho – censurou-o o pai.

– Não lhe contei – defendeu-se Joãozinho. – Eu só lhe perguntei se ela sabia que o senhor está lhe preparando uma festa surpresa.

 

O canarinho e Charles Darwin

Uma história do Joãozinho

Encontravam-se, na casa do Joãozinho, além de Joãozinho e dos pais do Joãozinho, os avós do Joãozinho – os maternos e os paternos – e um tio materno do Joãozinho. Conversavam, à mesa da sala-de-estar, animados, na manhã daquele sábado de calor intenso, a degustarem dos docinhos, das bolachas de nata e dos biscoitos de vento que a avó materna do Joãozinho havia preparado com todo o amor e carinho que lhe animava o espírito.

O pai do Joãozinho narrou algumas peripécias da sua juventude. A mãe do Joãozinho contou um episódio que protagonizou: seu pai a ensinava a andar de bicicleta, e ela, desajeitada, deu uma pedalada, e a bicicleta rumou, em linha reta, em direção à uma árvore; contra ela não colidiu porque seu pai a segurou a tempo de evitar a colisão. Riram, todos.

E todos narraram episódios hilários da juventude.

– São engraçados, hoje – comentou o avô paterno do Joãozinho. – Agora, que os recordamos, rimos. Mas nos preocupamos, na época em que se deram.

E as suas observações produziram muitos comentários, e inspiraram a evocação de dezenas de outros episódios, engraçados, diziam. E riram. E gargalharam.

E Joãozinho, que ria a bom rir, e narrava, com a desenvoltura que lhe era peculiar e o desembaraço que todos lhes reconheciam, algumas das suas aventuras, e assim que sua mãe fez referência ao canarinho, dele falou, animado, e todos o ouviram, atentamente.

– Um dia, já faz tempo, vi um canarinho amarelo, bem amarelo, na jabuticabeira. Ele estava com fome, e queria jabuticabas. Como a jabuticabeira não tinha jabuticabas, fui até à cozinha, e peguei um pedaço de mamão, e o pus, no chão, perto da jabuticabeira. Sentei-me, para esperar o canarinho comer do pedaço de mamão, no banquinho, que está no rancho, e não me mexi. Depois de um tempão, o canarinho desceu no chão, e comeu do mamão, dando bicadinhas com seu bico, que é bem pequeno, pequenininho. Depois de comer do mamão, ele foi embora.

– E para onde ele foi? – perguntou-lhe a avó materna.

– Não sei – respondeu Joãozinho. – Eu queria vê-lo novamente, então, no dia seguinte, pus um pedaço de mamão, um gomo de laranja e um pedaço de melão, no mesmo lugar que, no dia anterior, eu havia posto um pedaço de mamão.

– Você serviu um banquete ao canarinho – observou o avô paterno do Joãozinho.

– Empanturre-o, que ele engordará, Joãozinho – comentou o pai do Joãozinho, rindo.

– E o canarinho desceu para comer das frutas? – perguntou para Joãozinho a sua avó paterna.

– Sim – respondeu Joãozinho. – Fiquei, quieto, sem me mexer, e nem um dedo mexi, e nem piscar, pisquei, sentado, no banquinho, no rancho. Transformei-me em uma estátua. À espera do canarinho… E ele apareceu. E desceu, no chão, perto da jabuticabeira, e comeu do mamão, do melão e da laranja, dando bicadinhas, e olhando para os lados. Parecia assustado com alguma coisa.

– E depois? – perguntou-lhe a avó materna.

– O canarinho foi embora, e nunca mais voltou? – perguntou-lhe o avô materno.

– Voltou, sim – respondeu Joãozinho. – E eu dei frutas para ele: mamão, jabuticaba, limão, carambola, caqui, melão, melancia, banana, maçã, pêra, açaí, morango, cereja, caju, coco e pitanga.

– Você empanturrou o canarinho – observou o tio do Joãozinho.

– Não – defendeu-se Joãozinho. – Não o empanturrei, não. Eu, em um dia, dei-lhe mamão, no outro dia, morango, e em outro dia, maçã. Um pedaço de fruta em cada dia, e em todo dia ele desceu, perto da jabuticabeira, para comer de um pouco de fruta que eu lhe levei um pouco depois do meio-dia.

– Todos os dias – perguntou-lhe o avô paterno – o canarinho vai à jabuticabeira para comer as frutas que você lhe deixa?

– Sim – respondeu Joãozinho. – Ele sempre vai comer das frutas, todos os dias, um pouco depois do meio-dia.

– São dez e meia – anunciou o pai do Joãozinho.

– Daqui a pouco levarei um pedaço de fruta para ele – disse Joãozinho. – Tem melão, mamãe?

– Sim – respondeu-lhe a mãe. – E tem, também, banana e maçã.

– Vou levar-lhe um pedaço pequeno de cada – anunciou Joãozinho.

Joãozinho retirou-se da sala-de-estar, e, célere, rumou à cozinha, abriu a geladeira, e preparou a refeição do canarinho. Minutos depois, anunciou aos seus familiares a sua ida ao quintal, para levar a refeição ao canarinho. Seu tio e seu avô materno o acompanharam na jornada. Minutos depois, regressaram à sala-de-estar, Joãozinho, animadíssimo.

Neste momento, o pai do Joãozinho e o avô paterno do Joãozinho falavam de Charles Darwin e da teoria da evolução das espécies, enquanto suas avós e sua mãe falavam de culinária.

Joãozinho sentou-se no sofá, e intrometeu-se na conversa com perguntas que revelavam a sua curiosidade.

– Quem foi Charles Darwin?

– O que é evolução das espécies?

Essas foram as duas primeiras perguntas de Joãozinho. E seus avós, seu tio e seu pai apresentaram-lhe a biografia de Charles Darwin e explicaram-lhe, como puderam, a teoria da evolução.

– Os animais mudam de características com o passar do tempo – disse, em um momento da conversa, o tio do Joãozinho. – Eles evoluem. O que é evolução? É um processo natural pelo qual todos os animais passam, abandonando certas características, e assumindo outras, que os ajudam a viver melhor. Adquirem, como eu direi?, poderes que os ajudam a viver mais, a gerar descendentes, e a fortalecerem-se, para enfrentarem os seus inimigos, e vencê-los, e para obter alimentos. Um exemplo: Alguns passarinhos de bico fino migram para uma região distante, onde há frutas de casca grossa, e para quebrá-las é necessário que os passarinhos tenham bico grosso. E o que acontece? Morrem todos os passarinhos que não evoluem, isto é, que não desenvolvem o bico, para torná-lo grosso; com o bico fino não consegue romper a casca, que é grossa, das frutas, e morrem de fome.

– Todos os passarinhos morrem de fome? – perguntou-lhe Joãozinho, intrigado e entristecido, a imaginar muitos passarinhos a morrerem de fome.

– Não, Joãozinho – respondeu-lhe o tio. – Os passarinhos que evoluem não morrem de fome. Eles transformam o bico, que, de fino, torna-se grosso, e com ele os passarinhos rompem a casca grossa e dura das frutas, e, assim, sobrevivem.

– Os passarinhos ficam maiores e mais fortes? – perguntou Joãozinho.

– Sim – respondeu-lhe o tio. – É a evolução. Para enfrentar os predadores, o ambiente hostil, e obter alimentos, eles se transformam em espécies maiores, mais fortes, mais poderosas. Eles evoluem. É a evolução das espécies.

– E foi o Charles Darwin que inventou a evolução das espécies? – perguntou Joãozinho.

Todos caíram na gargalhada.

Passados alguns minutos do meio-dia, Joãozinho retirou-se, correndo, da sala-de-estar, e, indagado pelo seu tio, disse que iria ao rancho esperar pelo canarinho.

Trinta minutos depois, Joãozinho regressou, correndo, à sala-de-estar, a anunciar:

– O canarinho evoluiu! O canarinho evoluiu!

E pôs-se a falar, apressadamente, comendo sílabas, trocando palavras.

Pediram-lhe que tomasse fôlego, e, depois, dissesse-lhes o que havia ocorrido.

– O canarinho evoluiu – disse, por fim, Joãozinho, e todos o compreenderam.

– O quê? – indagou-lhe o tio. – O canarinho evoluiu?

– Sim – respondeu Joãozinho. – O canarinho evoluiu. Fui ao rancho, e esperei por ele; esperei um tempão. E eu o vi.

– O canarinho evoluiu? – perguntou-lhe o avô materno, intrigado.

– Evoluiu, vovô – respondeu-lhe Joãozinho. – Ele evoluiu. Eu vi. Eu estava, no rancho, sentado no banquinho, esperando o canarinho descer perto da jabuticabeira, para comer da maçã, do melão e da banana, e eu o vi. Ele evoluiu. Eu vi o canarinho descendo perto da jabuticabeira, e comer das frutas. O canarinho evoluiu. Está maior e mais forte. Ele se transformou num corvo.