Coma – A Dimensão do Futuro (2019) – direção: Nikita Argunov

Em uma dimensão cuja realidade é constituída de fragmentos de memórias de pessoas em estado-de-coma, os protagonistas enfrentam os ceifeiros, seres tétricos, pretos, fantasmagóricos, horripilantes, agentes da morte. É tal dimensão caótica; não tem um centro de gravidade, um planeta; tem pedaços de locais da Terra dispostos num espaço a constituir um mundo fantástico cuja configuração lembra a do cérebro – a das representações, muito populares, dos neurônios e suas conexões. Há cenas em que uns personagens estão caminhando por uma rua, fragmento de uma cidade, num tiroteio com pessoas que estão num plano, em terreno paralelo, ambos os planos de cabeça para baixo em relação um para o outro. O visual é fascinante. Os personagens pulam de um terreno para outro, e para outro, os terrenos sem conexões por terra. É um mundo irreal, criado pela reunião de lembranças dos personagens, que, repito, estão em estado-de-coma. E neste mundo é o protagonista Viktor (Rinal Mukhametov), o Arquiteto, que, após um acidente de carro, desperta, a sua mente a aventurar-se pela dimensão criada pela sua memória e pelas memórias de outras pessoas, dentre elas, Fly (Lyubov Aksyonova), Phantom (Anton Pampushnyy), Astro (Miloš Biković), Yan (Konstantin Lavronenko), Spirit (Polina Kuzminskaya), Tank (Vilen Babichev), Gnome (Rostislav Gulbis) e Cable (Leonid Timtsunik), todos eles reunidos, em um grupo de aventureiros, sob o governo de Yan e o comando de Phantom, à procura de um lugar seguro, além do alcance dos ceifeiros.
A história não se resume às façanhas dos protagonistas na dimensão que a mente deles concebeu. Há um mundo real no qual eles vivem, e neste mundo real a Viktor revela-se sua real condição, e a sua relação com Fly e o papel de Yan na trama.
É “Coma – a Dimensão do Futuro” um filme intrigante, e fascinante, uma aventura surrealista agradável.

Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea – 1965) – episódio 1 – Jonas e a Baleia

Durante uma pesquisa, está Alexi, no interior de um batiscafo, em pleno mar, submerso. Ataca-o uma baleia gigantesca, de tamanho incomum, que pôs a todos os cientistas boquiabertos. No ataque da baleia à embarcação submarina Alexi vem a morrer afogado. Não desistem os cientistas em resgatá-lo, à frente o almirante americano Harriman Nelson (Richard Basehard), sempre prudente, de bom-senso, a pedir calma à sua rival, a cientista russa, doutora Katya Markova (Gia Scala), mulher de temperamento agressivo. Envolvem-se em rusgas enervantes o almirante e a cientista, digladiam-se em palestras hostis, aquele, sensato, esta, insensata, aquele, a dar à cada vida humana valor inestimável, esta, a revelar-se crua e nua materialista intransigente. Mal o cadáver de Alexi havia se esfriado, devido à insistência da doutora Katya Markova, o almirante Harriman Nelson, acompanhado pela cientista russa, empreende nova expedição ao fundo do mar. Submersos, a baleia que dias antes atacara o batiscafo, ataca-o, e engole-o. No interior do veículo, que está no estômago do imenso animal marinho, conflagram-se em discussões acaloradas o almirante e a cientista, e durante as discussões, além da exposição dos dois temperamentos impermeáveis, revelam-se – sendo eles os símbolos – a mentalidade dos americanos e a dos russos – os estereótipos que o filme vende, a mentalidade americana, que dá valor à vida de toda pessoa, e a russa, que não entende ser um mal o sacrifício de algumas vidas em nome do progresso científico. Ao fim – o que não é de surpreender – resgatam o almirante Harriman Nelson e a doutora Katya Markova.
É uma aventura despretensiosa este episódio de uma das séries de televisão mais populares há cinquenta anos.

Olimpíadas 2.052: O Último Atleta Atlético.

Notícia do Jornal Paraíso do Universo Novo, edição vespertina: A Humanidade Livrou-se da Última Quimera.

Realizou-se, hoje, às oito da manhã, no estádio A…, a mais aguardada prova do atletismo global, a dos cem metros rasos, da qual participaram três atletas de beleza mesmerizante e um exemplar de uma era que exala os seus últimos suspiros, de uma era que, para a felicidade dos humanos, está nos estertores da morte. Neste memorável dia, em todos os cantos do mundo, bilhões de pessoas assistiram a tão desejado espetáculo esportivo, evento grandioso que, além de apresentar ao mundo três esportistas excepcionais, os maiores que a civilização humana jamais conheceu, exibiu uma anomalia da natureza, um ser bizarro, comum na era incivil e bárbara, bruta e estúpida, que se esvai rapidamente, e está próxima a sua extinção, Tlob Niasu, um homem dotado da nefasta masculinidade tóxica. É Tlob Niasu um ser monstruoso, disforme. Tem um metro e oitenta e cinco centímetros de altura, e pesa oitenta e oito quilos; seu corpo, horrivelmente ossudo; sua figura, hedionda, de provocar asco em todas as pessoas. É ele uma criatura horripilante, de braços e pernas recortadas de músculos monstruosamente definidos, músculos a constituírem uma grotesca estátua de carne, e de um tronco desprovido da flacidez das belas e formosas pessoas do nosso tempo. É Tlob Niasu um espécime de tipos humanos de uma era que os humanos desejamos esquecer; é ele de uma era fadada à extinção – para a felicidade e a harmonia universais. É ele o último exemplar do tempo de irracionais bípides implumes. Os outros três competidores são atletas notáveis, donos de invejáveis talentos atléticos e intelectuais, e psicológicos e espirituais. São eles 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8. São os três modelos perfeitos de beleza física. Tem 0/21/32-3 um metro e sessenta e cinco centímetros de altura; seu corpo é composto de uma espessa camada de gordura de uma beleza ímpar a formar dobras excepcionalmente belas; tão forte, tão poderoso, de uma força descomunal, carrega os duzentos e quarenta e seis quilos de seu corpo com a destreza do deus da velocidade; nas suas coxas poderosas, as camadas sobrepostas de rica gordura sob pele de textura macia cobrem suavemente os joelhos. 6/33-3, homem de corpo esférico, desprovido de pescoço, é de uma robustez e poder titânicos de embasbacar todo ser mortal; os seus duzentos e sete quilos compactados num corpo de um metro e cinquenta e quatro centímetros de altura dão-lhe uma consistência invejável. E o terceiro dos formosos atletas, 0-0/6-30/8, dos três o mais atraente, carrega um corpanzil extraordinariamente gracioso e bem torneado, de um metro e sessenta centímetros de altura e duzentos e sessenta quilos, adornado com um ventre bojudo, extraordinariamente saliente, belamente arredondado, como que esculpido pelo mais talentoso dos escultores. A beleza destes três maravilhosos e belos atletas contrastam com a feiúra apolínea de Tlob Niasu, um tipo repugnante, tipo que, felizmente, é o último espécime de uma era bárbara, a de nossos mais próximos ancestrais, seres inferiores, que muitos defeitos nos legaram, defeitos dos quais estamos a nos livrar, para o bem da humanidade.

Na pista de corrida, os três formosos e elegantes atletas e o bárbaro desgracioso, que exalava a sua monstruosa masculinidade tóxica da era patriarcal, que desconhecia a verdadeira essência da humanidade. Na arquibancada, multidão alvoroçada a ovacionar os três atletas e a apupar o bizarro bípede que insistia em exibir seu corpo seminu, desgracioso, repulsivo, de causar engulhos aos humanos. Exercitavam-se os quatro competidores, Tlob Niasu a erguer acima da cabeça os braços esquálidos e defeituosos, e a entrelaçar os dedos da mão direita com os da mão esquerda, e a mover o corpo esguio, desgracioso, de um lado para o outro, exibindo a flexibilidade corporal desavergonhada, e a estender as pernas, ora a direita, ora a esquerda, inclinando-se para a frente, e a segurar a ponta do tênis com as duas mãos, numa grotesca, asquerosa exibição de movimentos corporais, que lhe destacavam os músculos disformes do corpo esquálido. E 0/21/32-3 massageava, lentamente, com gestos suaves e elegantes, suas bochechas rechonchudas e rosadas e emitia, com sua bela voz de tenor, argentina, um canto melífluo; e 6/33-3, deitado, girava-se de um lado para o outro, compenetrado em bater, com a palma da mão direita a costa da mão esquerda, e com a palma da mão esquerda a costa da mão direita; e 0-0/6-30/8 careteava maravilhosamente e massageava, com movimentos circulares das mãos, as duas em sentido ora horário, ora anti-horário, ora cada uma seguindo um sentido, alternadamente, seu ventre formoso.

O árbitro da partida pediu aos quatro corredores que se aproximassem da linha de início, e Tlob Niasu, celeremente, numa postura deselegante, condenável, recompôs-se, correu até o ponto que lhe estava reservado, e, enquanto esperava os três atletas ajeitarem-se cada qual ao seu local de direito, saltitava, grosseiramente, a balançar, repulsivamente, seus músculos repugnantes. Vaiou-o a multidão presente. E ele, espécime bizarro de uma era bárbara, não se constrangeu; arrogante, persistiu em exibir sua grosseira agilidade e sua flexibilidade corporal desgraciosa. E os quatro competidores posicionaram-se cada qual no lugar que lhe estava reservado. E o árbitro da corrida disse-lhes que se praparassem para o início da prova, que se daria assim que o lenço branco, que ele segurava com a mão direita – e que ele soltaria – atingisse o chão. E o estúpido Tlob Niasu uma vez mais revelou-se um tipo desprezível, o que não surpreendeu ninguém; curvou-se para a frente, estendeu os braços, e pousou os dedos, as mãos abertas, os dedos distantes uns dos outros, no chão, sem no chão encostar as palmas das mãos, e estendeu a perna esquerda e dobrou a direita, preparando-se para correr. E o árbitro soltou o lenço; e o lenço atingiu o chão. E em menos de dez segundos, Tlob Niasu cobriu os cem metros, e rompeu a faixa vermelha que indicava a linha de chegada. Apuparam-lo todos os humanos presentes no estádio. Ridícula, patética, a atitude do bárbaro pretensioso. Ele ergueu os braços e sorriu, feliz, a cantar vitória, imerecida vitória. Os três atletas, numa postura digna e louvável, soltaram-se, elegantemente, no chão, e serenamente esbravejaram e esgoelaram-se, num misto de raiva e indignação, e liberaram de seus olhos belos lágrimas cristalinas, que reluziram ao sol. Dos organizadores da prova o público exigiu regras justas. Os organizadores da prova num erro imperdoável ao estabelecer regras que favoreciam, criminosamente, o monstruoso, disforme Tlob Niasu. Ao confabularem durante cinco minutos, reconheceram que outra corrida os quatro corredores teriam de realizar, agora sob regras justas, e desculparam-se com o público, num tom de voz que deles transparecia constrangimento. Ponderaram: 0/21/32-3 correra cinco metros e sessenta centímetros, e 6/33-3 cinco metros e setenta centímetros, e 0-0/6-30/8 cinco metros e sessenta e oito centímetros, no mesmo tempo que o desprezível portador de masculinidade tóxica, Tlob Niasu, cobrira os cem metros; a prova nova, portanto, atendendo aos princípios elementares da justiça, contaria com regras que não favoreceriam Tlob Niasu: assim que o árbitro soltasse o lenço, e o lenço atingisse o chão, os três exímios e talentosos atletas, 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8 correriam com toda a velocidade que suas poderosas e formosas pernas lhes permitiriam, e assim que atingisse, o primeiro deles, os noventa e cinco metros, o árbitro daria sinal para Tlob Niasu correr. E assim foi feito. E o bárbaro, desprezível Tlob Niasu, numa exibição asquerosa de sua masculinidade tóxica, ultrapassou os três heróicos atletas, e rompeu, antes deles, a faixa vermelha que indicava os cem metros. E os três atletas, com a elegância de movimentos que lhes fizeram a fama, soltaram-se, no chão, indignados, enfurecidos, e justamente indignados e enfurecidos, e gesticularam bravamente, os olhos marejados de lágrimas de descontentamente com a injustiça que os vitimou, e clamaram, heroicamente, por condições competitivas mais justas. E o público vaiou Tlob Niasu, que comemorava a vitória imerecida, vitória que obtivera sob regras injustas. A sua alegria não durou muito tempo; logo foi ele obrigado a suprimir do rosto o repulsivo, deselegante sorriso. Reuniram-se os organizadores da prova uma vez mais para deliberarem novas regras competitivas. Ao encerramento da palestra, ele anunciaram as novas regras, estabelecidas após reconhecerem que não haviam, ao definirem as regras da segunda corrida, um detalhe, que não consideraram na equação: os três ágeis atletas se esgotariam durante o esforço de correrem os noventa e cinco metros, perderiam fôlego, desacelerariam o avanço rumo à vitória, e não correriam os cinco últimos metros da prova em tempo que lhes permitisse sobrepujar, em condições de equivalência competitiva, o adversário horrível e inescrupuloso, Tlob Niasu, resquício horripilante de uma era bárbara, incivil.

Agora, estabelecia-se a regra justa: 0/21/32-3, 6/33-3 e 0-0/6-30/8 principiariam a corrida, após o lenço que o árbitro soltaria, atingir o chão, na linha que indicava noventa e nove metros da pista, um metro antes da linha de chegada, enquanto o desprezível Tlob Niasu principiaria a sua jornada rumo à humilhação pública no ponto inicial. O público vibrou de emoção, eufórico. Assobiaram, felizes, alegres, contentes, as pessoas presentes na arquibancada. Elas reconheceram a justeza das regras. Aplaudiram, estrondosamente, os organizadores da prova, homens que, enfim, dever cívico incontornável a iluminar-lhes a mente, elaboraram regras justas, humanitárias. E deu-se a largada. E os três fenomenais, excepcionais atletas sobrepujaram, com incrível, impressionante facilidade, o desgracioso Tlob Niasu, homem desprezível, dele exibindo para todo o mundo a ausência de talento para o exercício de esporte tão nobre.

Foi premiado com a medalha de ouro 0-0/6-30/8, com a de prata 0/21/32-3 e com a de bronze 6/33-3. Ovacionou-o o público alvoroçado, eufórico. E Tlob Niasu, de cabeça baixa, semblante entristecido, de um homem inferior, de um tipo desprezível, retirou-se do estádio, sob vaias tempestuosas da multidão, que aplaudia os três heróis do atletismo global.

Minutos após o encerramento do grandioso espetáculo esportivo, Tlob Niasu reapareceu em público, exibiu sua carcaça putrefata, de homem incivil, horrível e repulsiva, de uma esqualidez cadavérica, repugnante, pálida, de olhos fundos, sem vida, e anunciou a sua aposentadoria. Disse, num tom de indisfarçado orgulho ferido, ególatra que é, que se recolheria à sua casa, e dela jamais se retiraria, e o fez num tom que dava a entender que os humanos, e não ele, perderíamos com tal decisão. E recolheu-se o ilustre ser das trevas aos bastidores. Oxalá ele jamais se exiba ao público! Os humanos não desejamos ter diante dos olhos a figura dele, figura disforme, anômala, que nos fere em nossa sensibilidade superior. O mundo estará melhor sem ele, e sem ele poderá progredir até atingir a perfeição à qual está predestinada.

O Mapa do Tempo – de Félix J. Palma

Dividido em três partes, o livro narra três histórias, que, entrelaçadas, concentram-se na pessoa de Herbert George Wells, autor de quatro dos livros mais populares de todos os tempos: A Máquina do Tempo, O Homem Invisível, Guerra dos Mundos, e A Ilha do Doutor Moreau. Na primeira parte, narra-se a história de amor de Andrew Harrington e Marie Kelly, história de final trágico; na segunda, outra história de amor, esta de desenlace feliz, entre Tom Blunt e Claire Haggerty; e, na terceira a caçada, empreendida por um jovem inspetor da Scotland Yard, Colin Garrett, a um assassino que ainda não havia nascido.

Deixando os comentários acerca de um aspecto da narrativa, que me desagradou porque me parece gratuito – a inserção na história de dois personagens, ambos escritores, Henry James e Bram Stoker, autores, respectivamente, de A Volta do Parafuso e Drácula, extraídos da vida real e convertidos em personagens da excelente trama concebida pela mente criativa de Félix J. Palma -, concentro a minha atenção na primeira parte da história, e, na sequência, na segunda, e na terceira – e ao tratar desta, direi do meu desagrado e das expectativas, elevadas, que as duas primeiras partes inspiraram-me, que esta me frustrou.

É Andrew Harrington o protagonista da parte que abre o livro. Moço de pouco mais de vinte anos, certo dia, na residência de Charles Winslow, seu primo, com quem se dava muito bem, admira uma pintura, que exibe uma formosa mulher, Marie Kelly, que, veio a saber, era uma prostitua, que vivia em Whitechapel, imundo bairro de Londres. E a vida pregou uma peça em Andrew Harrington, que se apaixona por Marie Kelly. Estamos no ano de 1888. Era o ano de Jack, o Estripador, que aterrorizava os ingleses; o famoso Jack, o Estripador, ainda hoje uma lenda, dono de uma biografia envolta em mistérios.

Andrew Harrington, ocultando de seus familiares, parentes e amigos o seu propósito, inusitado, insensato, insano, vai, certa noite, a Whitechapel, e contata a mulher com quem se deliciaria em várias noites, seguidas horas, num leito de prazeres indizíveis. Apaixonado por Marie Kelly, decidido a se casar com ela, fala de seu projeto ao seu pai, e deste recebe uma bofetada e é expulso da família. E corre, então, Andrew Harrington, ao encontro de sua amada Marie Kelly; e para o seu horror, encontra-a, estirada, retalhada, morta, no quarto dela, onde várias noites passara em sua deliciosa companhia. E o seu sonho desfez-se, num átimo, diante de si o cadáver da mulher que tanto amava. Sabia que era o assassino o personagem que aterrorizava Londres, Jack, o Estripador, cujo nome era desconhecido de todos. Temendo vir a ser encontrado, no quarto, diante do cadáver de Marie Kelly, do quarto retirou-se. A partir de então, viveu uma vida errante, num capítulo obscuro, dramático, de sua biografia, que culminaria com o seu suicídio, em 1896, no quarto de Marie Kelly, se o seu primo, e amigo, e fiel escudeiro, Charles Winslow não interviesse, livrando-o da morte. Falou-lhe o primo de um meio, fantástico, que em Andrew Harrington inspiraria desconfiança, que poderia vir a salvar Marie Kelly. Tal notícia provocou estranheza em Andrew Harrington. Como poderiam salvar Marie Kelly, se ela morrera oito anos antes?! Para suprimir-lhe da cabeça toda estranheza, Charles Winslow falou-lhe de viagem através do tempo, da empresa Viagens Temporais Murray, de Oliver Tremanquai, dos junquianos, de Herbert George Wells, do ano 2.000, da máquina do tempo. O incrédulo Andrew Harrington ouviu-o com uma pulga atrás da orelha. Mas era tamanho o seu desejo de renovar a sua vida com Marie Kelly, que Andrew Harrington, animado pelo seu primo, veio a acreditar na história que ele lhe contara, e, na companhia dele, ruma à residência de Herbert George Wells, em cuja máquina do tempo entraria, e viajaria ao ano de 1888, momentos antes da morte de Marie Kelly, para matar Jack, o Estripador. E Andrew Harrington empreende a fantástica expedição, cujo desenlace não foi do seu agrado. E resignou-se ao destino que o universo lhe reservou. E aqui encerro a síntese da primeira parte. Cuidei não revelar os detalhes que roubaria ao leitor o desejo de descobrir por si mesmo os mistérios que envolvem o encerramento da trama protagonizada por Andrew Harrington, e esclarecida, deslindada, pelo único personagem que podia compreendê-los: Herbert George Wells, a maior autoridade em viagens através do tempo.

Escritas as últimas palavras do comentário que se acercam da primeira parte do livro, principio os que tratam da segunda.

No início desta resenha eu disse que conta a segunda parte do livro de Félix J. Palma o romance de Tom Blunt e Claire Haggerty.

Claire Haggerty, moça orgulhosa, caprichosa, que não cedia às abordagens de seus incontáveis pretendentes, requestada por inúmeros súditos da rainha, na companhia de Lucy Nelson, sua amiga, a alma excitada pela história que envolvia a Viagens Temporais Murray, que prometia uma fantástica aventura ao dia 20 de maio do ano 2.000, dia em que se daria a batalha final, que decidiria o destino dos humanos, entre os humanos e os autômatos, aqueles liderados pelo capitão Derek Shackleton, estes por Salomão, um autômato, compareceu à Viagens Temporais Murray, e participou de uma expedição ao futuro, a bordo do Cronotilus, a máquina do tempo que conduziria os passageiros à data da batalha final entre humanos e autômatos. Outros passageiros de Cronotilus são, além de Lucy Nelson, amiga de Claire Haggerty, Charles Winslow, primo de Andrew Harrington, o protagonista do romance da primeira parte, e Colin Garrett, o jovem inspetor da Scotland Yard que na terceira parte da trama urdida por Félix J. Palma assumirá o protagonismo, e Nathan Ferguson, fabricante de autômatos. Durante a expedição, Claire Haggerty, que, entediada em sua época, pretendia refugiar-se no ano 2.000, em um determinado momento da expedição ao futuro, todos os passageiros do Cronotilus conhecedores do desfecho da batalha entre humanos e autômatos, testemunhas do derradeiro embate entre o capitão Derek Shackleton, o herói humano, e Salomão, o líder dos autômatos, já regressando os cidadãos do século XIX ao Cronotilus, para a viagem de regresso ao seu tempo de origem, desgarrou-se de Lucy Nelson, e afastou-se dos outros passageiros, e procurou abrigo em um lugar qualquer, suplicando aos céus que ninguém do Cronotilus lhe notasse a ausência. Surpreendendo-a, apareceu-lhe, garboso, diante de seus olhos, o Capitão Derek Shackleton. E admirou-lhe a beleza apolínea e dionisíaca, máscula, bruta, e de imediato, a mulher dos fins do século XIX apaixonou-se, perdidamente, por um homem do ano 2.000, e não por qualquer homem; mas pelo Capitão Derek Shackleton, o maior herói de todos os tempos, o herói que, num embate heroico com os autômatos, liderou a espécie humana numa guerra que lhe evitou a extinção. Quis o destino que Claire Haggerty encontrasse, no futuro, o homem dos seus sonhos. E quis o destino que ela, não muito tempo após a viagem de regresso ao século XIX, encontrasse Tom Blunt, o homem dos seus sonhos. E desenrola-se a história de amor, os protagonistas a experimentarem emoções indescritíveis, coadjuvando-os Herbert George Wells, Gilliam Murray, o visionário proprietário da Viagens Temporais Murray, e Mike Spurrell, Jeff Wayne, Bradley e Martin Tucker, e outros figurantes.

O final deste romance, eu afirmei nas primeiras linhas desta resenha, é feliz, mas que ninguém conclua que o romance é isento de drama, de tristeza, de amargura, de angústia; para o desenlace feliz entre os dois pombinhos apaixonados, estes tiveram de superar muitos obstáculos, enfrentar inúmeras adversidades. E não se pode deixar de dizer que a participação de Herbert George Wells foi indispensável para o feliz desenlace do conto de amor entre Tom Blunt e Claire Haggerty.

E agora chegamos à terceira parte da trama arquitetada por Félix J. Palma, das três a única que, com um pouco de constrangimento, confesso, não gostei; digo que o faço, confessando, com constrangimento, porque, repito o que já revelei linhas acima, frustrou-me a terceira parte a expectativa que as duas primeiras deste ótimo livro me inspirara. Se a leitura das duas primeiras partes da obra de Félix J. Palma não me houvessem me surpreendido, e favoravelmente, eu, é provável, teria abandonado a leitura ao encerramento da leitura da segunda parte, e restituído o livro à prateleira, ou, se persistisse na leitura até o ponto final da história, eu o faria de muito má vontade, e não me frustraria, é óbvio, com o que iria ler na terceira parte, que narra a caçada que Colin Garrett, o jovem inspetor da Scotland Yard, empreende a um assassino que nasceria, décadas depois, pois as duas primeiras partes nenhum agrado me haveria de despertar. Não foi, todavia, o que se deu. Agradou-me o livro, e desde a primeira linha; daí, eu me constranger-me ao ter de criticar-lhe a terceira parte, que não me contentou; e o faço em poucas linhas, no desejo de conservar comigo o prazer da leitura deste livro surpreendente, que não perde seu valor por causa de seus pontos, poucos, que me descontentaram.Colin Garrett, jovem inspetor da Scotland Yard, deparou-se com um caso de assassinato, que o intrigou sobremaneira, envolto em mistério. Estudou o caso, e concluiu que a arma utilizada na perpetração do homicídio não poderia ser encontrada em seu tempo, mas no futuro, no ano 2.000, ano que, numa expedição a bordo do Cronotilus, conhecera, e não muitos dias antes, e o assassino seria, ou o Capitão Derek Shackleton, ou um dos seus soldados humanos, que, coadjuvando-o, combatiam os autômatos liderados por Salomão, o autômato que era o arquiteto da destruição da civilização humana e da aniquilação dos humanos. Não muitos dias após o primeiro assassinato misterioso, sucederam-se outros dois, sendo que as duas vítimas tiveram as suas vidas ceifadas, do mesmo modo que a primeira, por uma arma que não existia em fins do século XIX. Mas poderia o inspetor jovem da Scotland Yard prender pessoas que ainda não haviam nascido, pessoas que ainda não existiam? As leis britânicas que regem a sociedade de fins do século XIX poderiam ser invocadas para julgar pessoas que que, nascidas no século XX, cometeram crimes no século XIX, isto é, antes de nascerem?
Nesta terceira parte do romance de Félix J. Palma, o tom é distinto dos que lhe antecedem; não repete, aqui, penso, o autor o êxito do enredo com que ele desenvolve as duas partes anteriores. A qualidade da narrativa é a mesma. É Félix J. Palma um exímio narrador, tem o domínio da técnica narrativa. Estou me antecipando ao motivo que projetei escrever para o encerramento da resenha.
Dando fim à curta digressão, trato de um ponto ao qual aludi em outras linhas desta minha resenha: O que se refere à participação de Henry James, autor de A Volta do Parafuso, e Bram Stoker, autor de Drácula. A presença de ambos os personagens, teletransportados, por Félix J. Palma, da realidade para a ficção, na galeria de personagens que animam o livro parece-me obra do desejo de Félix J. Palma homenagear escritores que admira. Não encontro uma razão plausível para a existência deles na trama. O autor inseriu-os para elogiá-los, presumo; todavia, a trama não pede a participação deles; Henry James e Bram Stoker podem ser excluídos da história que esta nada perde em valor; ganha valor, acredito. E nesta história faz-se presente Herbert George Wells. E com estas poucas palavras, encerro os meus comentários acerca da terceira parte do livro.Mapa do Tempo é um romance de leitura agradável. O estilo de Félix J. Palma é cativante, envolvente, exuberante; é detalhista, minucioso, sem ser insosso; prende a atenção do leitor da primeira à última linha. O leitor lê uma trama envolvendo personagens tirados da realidade, Herbert George Wells, Bram Stoker, Henry James, e Jack, o Estripador, e Joseph Merrick, o Homem-Elefante, e personagens saídos da imaginação do autor. Acompanha os dramas de Andrew Harrington, Marie Kelly, Charles Winslow, Tom Blunt, Gilliam Murray, Claire Haggerty, Colin Garrett, e mais uma dezena de personagens de uma galeria de tipos cativantes. Herbert George Wells, conquanto secundário nas primeira e segunda parte, é o protagonista do livro – e é o seu antagonista Gilliam Murray, o proprietário da Viagens Temporais Murray.Félix J. Palma oferece aos seus leitores uma trama bem arquitetada, e não é triturado por aberrações que os paradoxos temporais que tal gênero – o da viagem através do tempo – proporciona, pois soube trabalhar o tema com destreza incomum.

E há muito mais no livro. E é-me impossível, na extensão de uma resenha, dar a conhecer toda a substância desta obra que muito me agradou. E um dos seus ingredientes é a mensagem, que uma ruiva misteriosa entregou a Herbert George Wells, mensagem escrita numa caligrafia que ele tão bem conhecia.

A história de Roxana

17 de maio do ano de 2137. Pindamonhangaba, São Paulo.

Um dia triste para a família de Roxana.

Roxana comemorou o seu centésimo décimo terceiro aniversário dois meses antes.

Seu corpo foi velado na sua casa; depois, cremado. Prantearam-na os familiares e os amigos.

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2115 – São José dos Campos, São Paulo. Albertino faleceu em um acidente de carro. Roxana sofreu muito. Seus filhos temeram que ela se prostrasse, e sucumbisse a um ataque cardíaco. Roxana, mergulhada em lágrimas, velou o corpo do marido, e pranteou-o durante vários dias.

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2110 – Fortaleza, Ceará. Albertino e Roxana viajaram em excursão. Divertiram-se. Compartilharam momentos agradáveis. Felizes, pareciam dois jovens recém-casados em lua-de-mel. A viagem, inesquecível.

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2106 – São Paulo, São Paulo. Em um acidente de carro, feriu-se Albertino. As feridas, tão profundas, que suas pernas foram-lhe amputadas.

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2092 – 9 de novembro. Morte de Madalena, avó materna de Roxana, em um acidente de avião. O enterro simbólico deu-se no cemitério de Pindamonhangaba. Roxana sofreu imensamente.

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2091 – 16 de outubro, terça-feira. Nasceu Anderson, filho de Marco Aurélio. Roxana promoveu uma festa para comemorar o nascimento dele. Divertiu-se mais que seu filho e sua nora e todos os convidados.

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2088 – 14 de novembro. Roxana pranteou a morte de Marcelo, seu irmão. Marcelo foi assassinado. Ele, um aventureiro, viajava, em expedições, pelo mundo afora. Faleceu na sua casa, enquanto dormia. Havia vinte anos que Roxana não o via. Amava-o. A morte dele fê-la sofrer imensamente.

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2086 – Nascimento de Samantha, a segunda filha de Maria Vitória. Roxana promoveu uma pequena festa com os familiares e os amigos. E divertiu-se muito. Estava radiante.

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2085 – Franco e Fernanda presentearam o mundo com gêmeos. Dois meninos. Aníbal e Haroldo.

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2084 – Desentenderam-se Roxana e Albertino. Aventaram o divórcio. Foi um ano turbulento para eles. Diárias, as discussões.

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2083 – Do Egito, Maria Vitória dá à Roxana a notícia do nascimento de Rosângela. Roxana alegra-se. Rosângela é sua primeira neta.

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2081 – 16 de março. Falecimento de Alfredo, avô materno de Roxana. Roxana guardou luto de sete dias.

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2080 – 14 de janeiro. Maria Vitória casou-se com Alípio, na Igreja Matriz de Pindamonhangaba. A cerimônia, simples. A festa estendeu-se noite adentro.

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2079 – 28 de outubro. Para Roxana, Marco Aurélio dá a notícia de que viveria com Teresa. O início do relacionamento deles não havia sido alvissareiro, mas eles se entenderam. Roxana alegrou-se com a notícia.

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2078 – Franco e Fernanda decidem morar juntos. Roxana, ao mesmo tempo que se alegrou com a notícia, entristeceu-se. Indefinível sensação de perda invadiu-lhe o coração.

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2075 – Catástrofes naturais desabrigaram milhões de pessoas, na África e na Ásia. Milhões de pessoas mobilizaram-se para remediar a tragédia. Tufões, tremores de terra, ondas gigantescas, tempestades torrenciais devastaram regiões inteiras. Um milhão de mortos e mais de três milhões de desabrigados numa das maiores tragédias naturais da história.

Roxana e Albertino excursionavam pela Índia, um dos países mais atingidos pela catástrofe. Viram centenas de corpos desfalecidos, pessoas com os braços amputados, disformes, corpos sob destroços, pessoas queimadas. Roxana fez o que estava ao seu alcance para aliviar a dor de muitas pessoas. Carregou muita gente ferida; confortou muitas mães que perderam seus filhos, e crianças que perderam seus genitores. Amparou muitas pessoas amedrontadas. Desconhecia o idioma que algumas delas falavam. Sabia falar o inglês e o hindi; ouviu pessoas falando em bengali, gujarati, tâmil. Nunca tinha visto tanto sofrimento. Com os recursos de que dispunha, auxiliou, com milhares de outras pessoas, os atingidos pela catástrofe.

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2071 – 1º de junho. Quatro ladrões invadiram a casa de Roxana, e fizeram Roxana de refém. Roxana chorou o tempo todo. Albertino viajara a negócios para a Argentina. Seus filhos não estavam em casa.

No final daquele ano, Maria Vitória recebeu o seu diploma universitário em engenharia.

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2070 – Marco Aurélio, rebelde sem causa, como Roxana dele zombava, amorosamente, formou-se em cosmologia, com louvor, pela Universidade de São Paulo. Roxana custou a acreditar. Seu filho, que jamais apreciara uma sala de aula, diplomado em cosmologia! Roxana ria à toa, na cerimônia de formatura. Não queria acreditar. Pediu que a beliscassem. Era seu filho, o seu Marco Aurélio, quem lhe inspirava felicidade.

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2068 – No Brasil, Roxana participou de muitas atividades solidárias.

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2067 – Franco recebeu o diploma universitário no curso de Administração de Empresas. Dava os primeiros passos de uma carreira promissora. Era um jovem sonhador, estudioso, e acreditava no seu potencial. Roxana dedicava-lhe apoio incondicional.

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2056 – Zuleica, irmã de Roxana, faleceu, aos quarenta e um anos de idade, atropelada por um caminhão, cujo motorista estava embriagado. Roxana e seus familiares sofreram enormemente.

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2051 – Roxana e Albertino desentenderam-se devido a um boato que aventaram a respeito da fidelidade dela. Corroído pelo ciúmes, Albertino ofendeu-a. Quase romperam o casamento. Roxana, no entanto, amava Albertino, e sabia que ele a amava. Albertino, intratável, inacessível, cerrava os ouvidos para o que lhe dizia Roxana. Entenderam-se, enfim, após muitas discussões.

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2048 – 21 de dezembro. Roxana deu à luz Maria Vitória, após sete meses de gestação.

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2047 – 4 de fevereiro. Roxana deu à luz Franco, menino saudável, forte, de mais de quatro quilos.

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2045 – Na manhã de 30 de agosto, antes de o Sol raiar, Roxana deu à luz Marco Aurélio. Ao lado de Roxana, Albertino, no momento que ela dava à luz o seu primogênito.

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2043 – 16 de maio. Casaram-se Roxana e Albertino, na Igreja de Santa Teresinha, em Taubaté. Os convidados, numerosos, encheram a Igreja, pequena para tanta gente. Roxana estava deslumbrante no seu vestido de noiva.

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2042 – Pedro e Maria, avós maternos de Roxana, morreram, ele, no dia 5 de janeiro, ela, no dia 21 de maio; ele, atingido por um projétil quando uma viatura policial perseguia um carro em que iam os ladrões, que pouco antes assaltaram uma agência bancária; ela, de um fulminante ataque cardíaco enquanto dormia.

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2041 – Roxana, em uma festa na casa de Domingos, seu tio, conheceu Albertino, e por ele encantou-se, e por ela ele se encantou.

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2038 – Ano da primeira desilusão amorosa de Roxana. Vanderlei, o rapaz com quem ela namorava havia um mês, enganou-a. Sem que ela o soubesse, ele relacionava-se com Catarina. Volúvel, ele enganou a ambas. Elas descobriam o jogo que com elas ele fazia, romperam o namoro, primeiro, Catarina, depois, Roxana.

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2026 – Os pais de Roxana faleceram em um acidente de carro. Roxana, a partir deste dia, ficou aos cuidados de seus avós maternos, Madalena e Alfredo.

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2024 – 14 de março. Nascimento de Roxana.

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2023 – Janeiro. Jennifer sofreu aborto natural. Perdeu Roxana, sua única filha.

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2022 – No sexto mês de gestação, em seu ventre Jennifer carregava Roxana. Após longas conversas, Jennifer e seu marido, Robson, decidiram clonar Roxana.

Buraco de minhoca

Do Diário de Daniel.

Texto extraído das páginas 1.212 até 1.234. Datado de 17 de abril de 2007, terça-feira. Início: 8:15. Fim: 9:55.

Estranha a aventura que vivi há dez anos. Não a contei para ninguém. Hoje, decidi registrá-la. O que me sucedeu, naquele dia, passados, já, dez anos, não me sai da cabeça. Foram em vão todos os meus esforços para esquecer aquele dia. Desejo, em vão, apagá-lo da memória. Decidi, incapaz de esquecê-lo, registrá-lo. Relutei em escrever o que me sucedeu. Não sei definir o que se passou comigo. Perguntei-me, não raras vezes, porque eu escreveria o que me aconteceu, naquele dia, se para ninguém eu mostraria o texto. Dir-me-iam louco, eu estava, e estou, certo, todos os que tomassem conhecimento deste texto. Meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meu irmão, todos eles, fitar-me-iam com o canto dos olhos, se tivessem acesso a este relato, e lamentariam a minha insanidade mental. Meu irmão, Aquiles, dotado de imaginação extraordinária – mas as coisas fantásticas, no entendimento dele, restringem-se ao mundo irreal da imaginação, e nenhum contato têm com a realidade que conhecemos – também não me acreditaria. Nenhum deles, repito, tratar-me-ia como um homem de posse das suas faculdades mentais. A minha timidez, que sempre me impediu de dizer tudo o que penso e de narrar as minhas aventuras, não me permitiu atrever-me a contar o que vivi há dez anos. Neste diário encontram-se os meus pensamentos e o relato da minha vida. E conservo-os comigo, e apenas comigo.

O principio da aventura, inusitada, similar ao início de contos fantásticos; no entanto, ao contrário dos contos, cujos enredos brotam do cérebro de pessoas criativas, a minha aventura foi real. Conservo comigo as lembranças do que me sucedeu e trago uma estranha marca, a qual de todos oculto, em meu joelho direito.

Não me recordo do dia da semana em que o evento se deu – sei que ocorreu há dez anos, um dia após eu comemorar o meu vigésimo aniversário, na minha casa, com meus familiares e amigos -, nem quanto tempo durou.

Foi de manhã. Lembro-me que, na noite anterior, exausto, eu me deitara antes das dez horas da noite. Eu trajava apenas um short. Cobria-me um lençol fino, que me protegia dos mosquitos e dos pernilongos que infestavam o quarto. Era uma terça-feira? Ou uma quarta-feira? Ou um domingo? Não sei. Não sei em que dia, naquele ano, caiu o meu aniversário. Este detalhe é irrelevante. Se foi em uma quinta-feira, se em um sábado, se em uma segunda-feira o teor da aventura que vivi será o mesmo. Foi em Junho, estou certo, pois nasci no dia quinze de Junho.

Eu dormia, profundamente, quando, na escuridão do quarto, luz incomodou-me os olhos. Não despertei, de imediato. Recordo-me de, ainda a dormir, sentir luz intensa atingir-me os olhos e calor atingir-me o corpo. Não despertei, estou certo. Não muito tempo depois, outro clarão iluminou o quarto, e eu, semidesperto, entrecerrei as pálpebras, e vi – a minha visão embaciada – diante de mim uma coisa a flutuar sobre a minha cama, próxima de meus pés. A coisa parecia gelatina de morango. Não dei-lhe atenção. Era como se eu ainda dormisse, e aquela gelatina flutuante fosse uma personagem do meu sonho. Com o lençol cobri-me a cabeça. E dormi. Não sei quanto tempo depois, senti algo a puxar-me o lençol; aliás, senti o lençol a deslizar-me por sobre o corpo. Descoberto, nem adormecido, nem acordado, resmunguei, remexi-me na cama, tateei o colchão à procura do lençol, e não o encontrei.

Senti uma corrente de ar frio invadindo o quarto. Tremi de frio. Procurei pelo lençol. Não o encontrando, descerrei as pálpebras, estiquei-me, e apertei o interruptor. Atingiu-me os olhos a luz, obrigando-me a cobri-los com os antebraços. Habituado à luz, descerrei as pálpebras. E qual foi a minha surpresa ao ver, diante de meus olhos, uma coisa esquisita a flutuar, uma massa gelatinosa, brilhante, avermelhada, que irradiava brilho bruxuleante!

– O quê!? – berrei, assustado, arregalados os olhos, escancarada a boca, acelerado o coração, trêmulo o esqueleto, a fitar aquela coisa gelatinosa.

Berrei uma interjeição de espanto, mas não me ouvi. O medo talvez tenha me assustado tanto que por algum motivo não consegui ouvir o meu berro. Em meu inconsciente, ouvi as palavras que berrei; meus ouvidos, todavia, não as ouviram. Articulei as palavras, mas não as proferi. Eu as ouvi, mas não com meus ouvidos; eu as ouvi com meu inconsciente. Minha voz sumira inexplicavelmente. Assustado, pulei da cama, pronto para, em disparada, se necessário, sair, correndo, do meu quarto. Eu não entendia o que me ocorria. De repente, perdi os movimentos de meu corpo. Eu não o sentia. Meu corpo, imobilizado, ficou, contra a minha vontade, de frente para aquela coisa gelatinosa vermelha e brilhante. E comecei a flutuar. Eu não sentia meu corpo. Era como se eu o houvesse perdido. Ouvi uma voz feminina, suave, dentro de minha cabeça. Eu estava nervoso; meu coração batia acelerado.

– Daniel – dizia-me a voz -, não tenhas medo de mim. Não te prejudicarei.

Eu olhava, ainda assustado, mas não tanto quanto quando eu me deparara, pela primeira vez, com aquela coisa gelatinosa vermelha a flutuar diante de mim.

– Daniel – disse-me a gelatina flutuante (criatura desprovida de boca, nariz, de todos os órgãos que compõem um corpo) dentro de meu cérebro -, eu vim de um planeta distante, localizado em um sistema estelar longínquo – prosseguiu, após uma curta pausa -, situado em uma galáxia que os humanos desconhecem, e na qual há seres inteligentes mais evoluídos do que os humanos. Tal galáxia dista dois bilhões de anos-luz da Via-Láctea. Os humanos só a visitarão daqui doze mil e duzentos anos, quando desenvolverão tecnologia que lhes permitirá viajar através do tempo e teletransportarem-se através do espaço. Sei o que digo, pois viajo através do tempo por meio de um fenômeno que os humanos denominam Buraco de Minhoca, o mais comum meio de transporte empregado pela minha espécie. Empregamo-lo há muito tempo, no passado e no futuro. Descobri-mo-lo como controlá-lo, em um tempo que ainda não chegou para os humanos, e nunca chegará, um tempo que não está no futuro, nem no passado, nem no presente. Está em um instante; instante que não se localiza no passado, nem no presente, tampouco no futuro. Vim de uma galáxia na qual são inaplicáveis todas as leis da física que os humanos conceberam. Encarregaram-me os governantes do meu planeta de contatar um humano e para ele mostrar o que podemos fazer, e provar-lhe, de modo incontestável, que os humanos não são os únicos seres inteligentes no universo, muito menos os mais inteligentes. Os humanos desconhecem bilhões de universos, que compõem aglomerações de universos, que compreendem megauniversos, cuja concepção os seres dotados de inteligência inferior não podem compreender. Escolhi-te para transmitir-te o conhecimento do meu povo. Nenhum motivo especial eu tive para escolher-te. Detive-me no teu quarto, te vi a dormir, e decidi apresentar-te o meu mundo, os outros planetas do sistema estelar ao qual meu mundo pertence, e outras galáxias. O meu objetivo: mostrar-te que os humanos não são os únicos seres inteligentes do universo, e nem os mais inteligentes. Depois, tu difundirás, na Terra, para todos os humanos, os conhecimentos que te transmitirei, e todos os humanos conhecerão o que há no universo, e tomarão conhecimento da nossa existência e da existência de muitas outras espécies de seres inteligentes que vivem em outros planetas, em outras galáxias, em outros universos.

A criatura gelatinosa tentava traduzir para a linguagem humana as idéias que desejava me transmitir. As palavras dela não são as que escrevi; o teor do que ela me disse, no entanto, é, acho, o que registrei. Sou o mais fiel possível ao conteúdo do que ela me disse. Dez anos separam-me daquele dia; não posso me recordar de todas as palavras que a criatura gelatinosa disse-me.

Não sei como definir aquela criatura, a não ser chamando-a de criatura. Uma criatura estranha, uma criatura esquisita. Não sei a qual espécie ela pertence, e em qual galáxia situa-se o planeta no qual ela vive. Tais informações ela não mas passou; se mas passou, delas não me recordo. Talvez ela tenha me dito de qual galáxia ela é originária, mas eu, dominado pelo medo, mal lhe ouvi o relato da viagem que ela empreendera até à Terra dentro de um túnel espaço-tempo e sob influência de outros fenômenos que apenas Einstein, John Wheeler, Chandrasekhar, Roger Penrose, Alexander Starobinsky, Friedmann, Niels Bohr, e outros cientistas da mesma estirpe seriam capazes de entender.

Pouco pude entender do que a criatura disse-me. Aquela criatura estranha, a criatura mais estranha que já vi, mais estranha do que ornitorrinco, do que equidna e do que os animais que habitam os abismos dos oceanos, disse-me que não estava no tempo que eu percebia, ou algo assim; que não estava, nem no presente, nem no passado, nem no futuro. Ela simplesmente estava. Foi isso o que entendi do que ela me disse. Ela também me disse que o universo não foi criado, porque sempre esteve. Não disse que sempre existiu; disse-me que o universo sempre esteve. Não entendi o que ela quis me dizer, e não quero saber o que ela quis dizer-me, e não pensarei mais nisso. Não queimarei meus neurônios. Restam-me poucos, depois de tantos anos a queimá-los em trabalhos árduos e infrutíferos, e não quero desperdiçá-los com mistérios que não posso desvendar.

Encerro a minha tentativa de relatar o que a criatura disse-me, não sei em quanto tempo, pois de tudo o que ela me disse de quase nada me recordo – e nada compreendi do que ela me relatou durante horas (Horas? Posso mensurar, em horas, o tempo quando o tempo sofria não sei quais efeitos com a presença da criatura?).

Não me esforçarei para recapitular o que se passou, no meu quarto, e tampouco pretenderei – pois sei que é-me impossível – reconstituir o discurso da criatura. Não entendi patavinas do que ela me disse; se a minha memória não me engana, ela demorou para perceber que eu não a entendia; para infelicidade dela, ela não entabulou conversa com um indivíduo humano mais inteligente do que eu e com conhecimento em cosmologia; com a sua inteligência inigualável, ela não teve paciência para examinar os humanos e selecionar um que fosse dotado de intelecto vigoroso, e, ousado, não temesse inteirar o mundo de sua história. Se tivesse paciência – o tempo inexiste para ela, segundo entendi -, ela selecionaria um indivíduo humano intelectualmente bem dotado e para ele transmitiria as suas idéias – suspeito que tal humano, tanto quanto eu, intimidar-se-ia com toda a história, recusar-se-ia a contar para outras pessoas o que lhe ocorreu, e conservaria consigo a história, como eu o fiz.

Ao notar que eu não a compreendia, ela disse-me dentro da minha mente:

– Tu, com a tua inteligência inferior – o seu tom de voz, arrogante -, não entendes o que te digo. Creio que nenhum individuo humano é capaz de entender-me – inspirou-me a mente a vontade de encaixar-lhe um soco no nariz. Ela leu-me a mente. – Não te desesperes. Não te enerves. Não dominarei os humanos. Se a minha espécie desejasse dominar-lhe, vós não poderias impor-nos resistência. Não vos dominarei. Estou, neste planeta, para apresentar para um individuo humano os conhecimentos e a tecnologia da minha espécie e o universo. Prepara-te para a viagem.

– Viagem? – perguntei, sem articular a palavra.

– Sim – respondeu-me a criatura. – Viajaremos através de um Buraco de Minhoca.

Expressei confusão de pensamentos. A criatura replicou. Encetamos discussão, eu, nervoso e enfezado, ela, calma e serena. Enfim, ela fez sair de dentro de seu corpo um aparelho menor do que meu polegar, e disse-me que era o controlador do Buraco de Minhoca. O aparelho emitiu um brilho alaranjado, e diante de mim apareceu um círculo. Olhei para o seu interior, que não tinha dimensões, e arregalei meus olhos, assustado.

– O que é isso? – perguntei, tolamente.

– O Buraco de Minhoca.

– Aonde tu me levarás?

– Tu verás – respondeu-me a gelatina flutuante. Tive a impressão de haver visto sorriso escarninho em seu rosto (a criatura é desprovida de rosto).

Em pé, flutuei até o Buraco de Minhoca, que se alargou para que eu nele entrasse, e a criatura posicionou-se à minha direita.

Não sei descrever o que senti quando meu corpo foi puxado para dentro do túnel sem fim. Eu, parecia-me, não me mexia. Mas eu me mexia. Não muito tempo depois (é incômodo falar em tempo, neste caso), me vi diante de uma esfera chamejante. A criatura disse-me tratar-se da Terra em formação. Um espetáculo fabuloso. Vi a Terra a formar-se em ritmo acelerado. Vi dinossauros a caminharem pelos continentes. Vi asteróides atingirem a Terra. E os dinossauros foram dizimados. Diante de meus olhos sucederam-se, num ritmo alucinante, as eras glaciais, erupções vulcânicas, o surgimento da civilização, a construção de grandes cidades. Reconheci os jardins suspensos da Babilônia, as pirâmides do Egito, Macchu Picchu, o Colosso de Rodes, o Farol de Alexandria, a Grande Muralha, o Taj Mahal, o templo de Angkor Vat, e muitas outras maravilhas que os humanos construímos. A história humana desenrolou-se diante de meus olhos. Vi as ruínas de todas as grandes construções. Vi os humanos a esfacelarem-se em guerras sangrentas. Chegamos ao tempo presente: o ano de mil, novecentos e noventa e sete. Não se encerrou a viagem através do tempo. Vi o futuro dos humanos. As viagens espaciais. A construção de colônias humanas na Lua, em Marte, em Titã. As viagens interestelares. A espécie humana a modificar-se diante de meus olhos. Transcorreram-se séculos, milênios, dezenas de milênios. E a espécie humana a transformar-se. Os humanos converteram-se em seres irreconhecíveis. Vi, fascinado, a espécie humana a transformar-se. Se a criatura não me dissesse que aquelas criaturas que eu tinha diante de meus olhos eram humanas, melhor, seres que evoluíram do homo sapiens, eu não saberia que se tratavam de seres nos quais nossos descendentes se transformariam, num futuro distante; para a criatura, disse-me ela, tudo aquilo já havia acontecido. E vi Sol a expandir-se, e a engolir Mercúrio, Vênus e a Terra. E o Sol explodiu. E fez-se as trevas.

Após a viagem através do tempo, na Terra, a acompanhar o progresso da civilização até o seu desaparecimento, que se deu com a transformação da espécie humana em outra espécie, que vivia, além da Terra, em outros planetas acolhedores de outros sistemas estelares, a criatura disse-me que iríamos para a galáxia em que se situa o planeta em que ela vive.

Eu era incapaz de compreender tudo o que vi. A criatura e eu rumamos para planetas nos quais viviam criaturas estranhíssimas, que fundaram civilizações detentoras de tecnologia inigualável.

Detivemo-nos em um planeta em que os indivíduos, como a criatura, comunicavam-se por intermédio da mente, ou de um órgão similar. Eram criaturas de mais de cinco metros de altura, dotadas de três pernas, seis braços, cinco olhos, e desprovidas de boca e de ouvidos. Procriavam-se com o pensamento. Quando uma criatura desejava conceber um descendente, pensava na concepção, e o descendente brotava de um de seus pés e, pouco tempo depois, caminhava, e atingia o tamanho de um indivíduo adulto da sua espécie sem que tivesse ingerido alimento. Possuíam extraordinário vigor intelectual. O planeta que habitavam, mil vezes maior do que a Terra, estava coberto de cidades grandiosas. Quase nada entendi do que eles faziam; os seus gestos e a sua tecnologia estavam longe da minha compreensão.

Daquele planeta rumamos para outro planeta, habitado por estranhas criaturas inteligentes de cultura avançadíssima (não sei se o que vi se passou no tempo presente, isto é, no ano terrestre de mil, novecentos e noventa e sete, ou se a dezenas de milhões de anos no futuro, ou no passado).

Criaturas estranhas e inconcebíveis pela imaginação humana, dotadas de alto grau de conhecimento tecnológico, dominavam alguns fenômenos universais e tinham amplo conhecimento das forças que atuam no universo; construíam naves espaciais que viajavam através do tempo e através do espaço.

A criatura falava-me do que me mostrava, dos planetas, das espécies de criaturas que viviam em cada um deles, das maravilhas que me apresentava – e quase nada me lembro do que ela me disse -, e quase nada entendi, pois, na linguagem humana não há vocábulos para defini-las.

Visitei o planeta da criatura gelatinosa. Era o planeta maior do que a Terra. Presumo, é-me impossível afirmar, que é do tamanho de Júpiter. Centenas de bilhões de criaturas gelatinosas avermelhadas flutuavam no céu do planeta. Entramos em uma construção, na qual havia, instalada, uma máquina de seiscentos metros de altura e que se estendia até o infinito. A criatura disse-me que era uma máquina que criaria um Buraco de Minhoca gigantesco, pelo qual o planeta viajaria através do espaço e através do tempo. Em vão, tentei conceber o que ela me disse.

Durante a viagem, cai, e resvalei meu joelho direito em uma substância segregada por uma criatura. Em meu joelho direito ferido apareceu uma estranha marca, e trago-a comigo, marca que ora emite brilho avermelhado, ora brilho multicolorido, ora abre-se, e em seu interior vejo as galáxias, como se me descortinassem os portões do universo – talvez a existência da marca em meu joelho direito explique porque pude esconder, a partir daquele momento, da criatura gelatinosa os meus pensamentos.

A criatura guiou-me pelo seu planeta, e apresentou-me todos os seus aspectos. Depois de eu haver ganhado, se posso assim dizer, a marca em meu joelho direito, passei, não a entender o que a criatura explicava-me, mas a ver tudo sem a confusão inicial. Se meu consciente não entendia todos os fenômenos dos quais a criatura dava-me explicações minuciosas, meu inconsciente apreendia-os; todavia, não posso explicá-los com a linguagem humana; consigo entendê-los apenas com a linguagem da espécie da criatura gelatinosa flutuante.

As aventuras posteriores foram interessantes, mais interessantes, até, do que as primeiras, pois eu pude, como eu já disse, apreender os fenômenos à medida que eu me familiarizava com a linguagem da criatura gelatinosa. Pude, até, entender o diálogo dela com outros indivíduos da sua espécie. Os humanos do meu tempo estão muito distantes, no que diz respeito à inteligência, daquelas estranhas criaturas; e apenas daqui dezenas de milhares de anos a elas se igualarão, e poderão compreender os mais fantásticos fenômenos do universo.

A criatura não sabia que eu podia entendê-la, e tampouco sabia que eu podia compreender os fenômenos universais que ela e os da sua espécie compreendiam e controlavam. As criaturas gelatinosas falavam de todas as suas tecnologias, fabulosas tecnologias. Controlam forças muito mais poderosas do que as que os humanos controlamos. Forças inconcebíveis para a nossa minúscula capacidade cerebral.

Mal controlo o que escrevo. Descarrego, na minha agenda, todas as palavras que me vem à mente. Mesmo que eu tenha adquirido uma parcela da inteligência das criaturas, eu ainda penso, na Terra, como humano.

Enfim, sem aviso, a criatura gelatinosa encerrou a jornada através do tempo e através do espaço, e devolveu-me à Terra, em uma manhã, ao meu quarto, cuja janela estava fechada, e pelas suas frestas réstias de luz o invadiam, e despediu-se de mim com palavras amigáveis, nas quais não li nem vaidade, nem desejos similares aos dos humanos. Retirei-me do quarto. Em casa, todos dormiam. Não me dei ao trabalho de olhar para um relógio, e verificar as horas. Também não olhei para o calendário na porta do meu guarda-roupa.

Fim do texto extraído do Diário de Daniel

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Chamo-me Aquiles. Sou irmão do Daniel. O texto acima foi publicado, originalmente, pela Editora E***r** B*a***i. Hoje é o dia 21 de dezembro de 2028, quinta-feira, dez anos após a morte de meu irmão. Este conto fantástico eu o encontrei em meio a vários rascunhos de aventuras fantásticas que meu irmão adorava escrever. Publicado o conto há seis anos, meu irmão recebeu, postumamente, mais de vinte prêmios literários. Vertido para o cinema, o filme conquistou grande público em vários países. Lendo-se o texto tem-se a impressão de que Daniel viveu a aventura narrada no conto, mas ela é, unicamente, fruto da sua poderosa imaginação. Meu irmão fascina-me. Não consigo entendê-lo. Como ele podia tomar como verdadeiras as estórias que brotavam da sua criatividade prodigiosa?

*

Ano: 2097. 03 de março. Domingo. 5:15 da manhã. Meu irmão morreu há trinta e quatro anos, sete meses e oito dias. Infelizmente, a sua incredulidade impediu-o de tomar como verdadeira a história, que ele toma como estória, que extraiu do meu diário. Leu-a – e a todas as outras – apenas como uma aventura fantástica criada pela minha imaginação.

A criatura, se regressasse à Terra para conhecer o que fiz, isto é, o que não fiz, porque para ninguém contei a minha experiência, saberia que os humanos nada sabem da sua passagem pela Terra, e frustrar-se-ia, porque, primeiro, guardei comigo a história da minha aventura durante dez anos, até registrá-la no meu diário; depois, ao vir ao conhecimento do público, por intermédio de meu irmão, transformou-se a história em um sucesso literário, depois cinematográfico – e não é nada mais do que uma aventura de ficção científica como milhões de outras; e atualmente dela ninguém mais se lembra.

O maior prêmio que recebi, que não dividi com ninguém, foi o aparelho que me permite viajar através do tempo e através do espaço, e que controla o fenômeno universal chamado Buraco de Minhoca. Estou fazendo bom uso dele. Furtei-o, sorrateiro, do interior de um aparelho, quando as criaturas gelatinosas, desatentas, conversavam. As criaturas, desprovidas de mãos, não conhecem o talento humano para a prática do furto. Para a minha felicidade, pude ocultar os meus pensamentos da criatura gelatinosa que me guiava através do tempo e através do espaço, talento que desenvolvi durante a viagem, e que decorria da marca que trago comigo em meu joelho direito. De todos a ocultei. Ela me permitiu – depois do meu regresso à Terra – realizar aventuras inimagináveis pelos confins do universo e de outros universos e dialogar com outras criaturas inteligentes, muitas delas mais inteligentes do que os seres humanos. Ela faz parte de meu corpo, como o fazem minha cabeça, meus braços, minhas pernas, e todas as minhas outras partes.

O dia em que os robôs decidiram exterminar os humanos

Há décadas os humanos inventaram máquinas inteligentes. Elas se voltarão contra os seus criadores? E criadores e criaturas travarão batalhas pelo domínio do planeta? Os criadores suplantarão as suas criaturas? As criaturas sobrepujarão os seus criadores? Os eventos aqui narrados responderão tais perguntas. No futuro não muito distante sucederam-se incidentes que responderão às perguntas que afligem, nesta era, os humanos. Nas próximas linhas, relatarei fatos, que os humanos desta era não podem prever, os quais eu, um homem da minha era, lhes posso revelar.

Deu-se na América do Norte a primeira escaramuça entre humanos, robôs e andróides. Sem prévio sinal, os robôs principiaram os ataques, surpreendendo os humanos. E nenhum humano ousou, informado dos primeiros combates, vaticinar o desenrolar e o desenlace da guerra que se principiava. Surpreenderam-se todos com a notícia: Na América do Norte, na megalópole de Washington, robôs e andróides batiam-se entre si e robôs atacaram humanos. Não havendo, nesta era em que estamos, já avançada em muitos aspectos, máquinas visionárias, os humanos, repito, nada podem saber do futuro; eu, digo uma vez mais, um homem da minha era, posso relatar os eventos que se sucederam daqui alguns séculos.

Principiaram-se, repito, os conflitos, que logo recrudesceram e assumiram proporções bíblicas, primeiro, na megalópole de Washington, capital dos Estados Unidos da América, a nação soberana mais poderosa do mundo, e, na sequência, nas cidades de Tóquio, no Japão, e Bombaim, na Índia. Não ignoram os homens da minha era algumas peculiaridades de alguns eventos inusitados, intrigantes e surpreendentes que antecederam o início da sublevação dos robôs, eventos que não foram previstos pelos serviços de inteligência humana e que se sucederam, rapidamente, na antevéspera e na véspera da eclosão dos ataques dos robôs contra andróides e humanos.

Congregações de robôs poderosos, imbuídos de extraordinário talento de persuasão, adicionaram às suas hostes, às escondidas, milhares de humanos ao incutir-lhes ânimo revolucionário e aversão à civilização humana. E sublevaram-se. E converteram a megalópole de Washington num campo de batalha. Avassalaram Washington. Destruíram bairros inteiros. Reduziram a escombros prédios imensos e arranha-céus grandiosos e construções dos séculos dezoito, dezenove, vinte e vinte e um. Desmantelaram estátuas e palácios.

O ataque, planejado com elaboradas estratégia e tática, desfecharam-no os robôs à perfeição. Os robôs saíram incólumes dos primeiros entreveros, excetuados algumas dezenas deles, que foram avariados, mas não a ponto de serem inutilizados; e foram da ordem das centenas de milhares os humanos mortos.

Os andróides, em resposta ao repentino ataque desfechado pelos robôs, organizaram-se, e constituíram, em questão de horas, um grupo distinto, independente, poderoso, e baterem-se com os robôs e com os humanos aliados dos robôs, e sobrepujaram, em algumas batalhas, algumas memoráveis, os seus adversários; decididos a se conservarem independentes, não propuseram, no início, alianças nem aos humanos, tampouco aos robôs, mas dado o caos que se instalou não muito tempo após o início dos confrontos, misturando-se as personagens, aliaram-se aos humanos que lutaram contra os robôs.

Sucederam-se os eventos, numa sequência tão estonteante, que sou incapaz de reproduzir o, e mal posso dar idéia do, que ocorreu naquele dia, um dia que os humanos das eras que se sucederam à minha era e os humanos da minha era desejamos esquecer, o dia que poderia ter sido o último dia da existência da espécie humana, o seu epílogo. Vaticinou muita gente um futuro sombrio para os humanos, futuro que não se concretizou. Suspeita-se que os robôs alimentaram, durante décadas, séculos talvez, sentimentos antagônicos pelos humanos, seus criadores, deles conservando-os ocultos por meios que os mais eminentes estudiosos da robótica desconhecem.

E sucederam-se as batalhas. A guerra assumiu proporções inabarcáveis e aspectos indescritíveis. Imbricaram-se os grupos em conflito. Os desencontros de informações confundiram os humanos. Humanos associaram-se aos robôs, impelidos por sentimentos de apreço por eles e de desapreço pelos humanos; outros, em favor de interesses pessoais, para obtenção de vantagens, não se acanharam em produzir prejuízo aos humanos. Facções de andróides lutaram entre si. Facções de humanos batiam-se umas contra as outras. Facções compostas de andróides e humanos declararam guerra, umas, aos robôs, outras, aos humanos, outras, aos andróides. Facções constituídas de robôs e andróides tinham, umas, nos andróides, os inimigos, outras, nos humanos. Facções cujos integrantes eram robôs e humanos estavam, umas, decididas a exterminar os andróides, outras, os humanos. Das três espécies envolvidas nos conflitos, a dos robôs era a única que não estava debilitada por facções rivais, visceralmente hostis umas às outras; daí ser bem-sucedida em todas as batalhas que travou contra as suas duas espécies inimigas, que, ocupadas, ambas, com o inimigo em comum, a espécie dos robôs, tinham de se haverem contra as facções rivais que surgiam no seu próprio seio.

Degradaram-se, logo nas primeiras horas após o início dos combates, as condições de sobrevivência, na megalópole de Washington, e, não muito depois, em Bombaim e em Tóquio. Nas precárias condições de subsistência às quais se reduziram, milhões de indivíduos não encontravam provisões para suprir as suas necessidades imediatas, cortados os canais de comunicação entre produtores, fornecedores, distribuidores e consumidores. E logo escasseou, nas prateleiras dos supermercados, os víveres, levando ao desespero as pessoas que deles estavam privadas. A escassez de alimentos, que já ocorrera, num momento em que Bombaim, e toda a Índia, enfrentava a carestia, aprofundaria a fome; e o medo, o desespero e o terror logo espalharam-se por todo o país hindu e pelo sudeste da Ásia. E a notícia das conflagrações nas três megalópoles logo alcançou todos os pontos do mundo, conectados numa rede de informações que alcança os rincões da América do Sul, da Ásia e da África. E as imagens do morticínio as viram todos os humanos. E instalou-se o caos em toda a civilização.

Das três espécies em conflito era a humana a mais numerosa e a mais melindrosa; os robôs, os menos numerosos, os mais resistentes e os que tinham o controle de todas as máquinas e, praticamente, o governo da civilização, pois estavam presentes em todos os sistemas mecânicos; e os andróides eram dotados da fragilidade humana e da resistência robótica.

Na órbita da Terra, além da Lua, numa grandiosa estação espacial, os líderes das nações desnortearam-se assim que lhes notificaram dos conflitos que eclodiram na Terra. Aterrados, estupidificados, preocuparam-se com a proliferação de sublevações, que grassavam na Terra, e que logo, previram, soturnos, eclodiriam na estação espacial, ou após um dia, ou dois dias; não vislumbraram o futuro imediato isento de conflitos compostos dos mesmos ingredientes que constituíam os que se davam na Terra. As relações entre as três espécies deterioraram-se assim que as notícias chegaram à estação espacial. Fitavam-se, desconfiados, os indivíduos das três espécies. E humanos, dadas as notícias de associação, na Terra, entre humanos e robôs, e as de andróides e robôs, suspeitaram de humanos e dos andróides, e viram os robôs como inimigos viscerais. Muitas amizades não sobreviveram às suspeitas; logo romperam-se os laços de confiança entre os humanos. E deu-se, simultaneamente, a desconexão entre os criadores, os humanos, e as criaturas, os andróides e os robôs.

Sob o império do medo, alvoroçaram-se os humanos, impotentes diante da revolta dos robôs e seus aliados humanos e andróides. E perturbava-os a perspectiva de sucessivos ataques.

Pronunciaram-se, em rede mundial, os presidentes das principais nações. Pretendiam reconfortar os humanos. Enquanto isso, seus secretários e os estrategistas militares tratavam, nos escritórios secretos, de estabelecer estratégias de retaliação aos ataques desfechados pelos robôs e seus aliados humanos e andróides e de antecipação aos que eles planejavam.

E desenrolou-se a guerra num crescendo assustadoramente rápido. E os humanos não encontraram meios de conter os revoltosos. E logo os conflitos estouraram nas megalópoles de São Paulo e de Manaus, no Brasil; Buenos Aires, na Argentina; Novo México, no México; Xangai e Pequim, na China; Johannesburgo, na África do Sul; Cairo, no Egito; Berlim, na Alemanha; Londres, na Inglaterra; São Petersburgo, na Rússia; Paris, na França; Sidnei, na Austrália; Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos; Calcutá, na Índia; Seul, na Coréia do Sul; Lagos, na Nigéria; Jacarta, na Indonésia; Karachi, no Paquistão; e Dacca, em Bangladesh. De todas estas megalópoles a de Manaus foi a primeira que os robôs atacaram.

Soubemos os humanos, então, qual robô liderava as sublevações: Dragão Cinzento, assim alcunhado devido à cor do seu corpo. E os humanos o rebatizamos de Nêmesis. Sabíamos, agora, os humanos, quem teríamos de combater; quem teríamos de caçar, mas estávamos, sabíamos, um passo atrás dele; sabíamos que, se destruído (alguns disseram ‘morto’) Nêmesis, poderíamos restituir a ordem e restabelecer a paz, mas não sabíamos como fazê-lo; além de poderoso, Nêmesis era protegido por inúmeros robôs. Era Dragão Cinzento um robô enorme; seu formato, assemelhado ao do corpo humano, era repleto de arestas. Tinha ele quatro metros de altura. Integrava, até antes da revolta dos robôs, uma equipe de robôs atletas. Era o mais avançado deles; suplantava todos os outros robôs, em todas as competições esportivas de robôs. As suas realizações esportivas atraíram-lhe a atenção de humanos de todos os quadrantes do universo. Era um robô espetacular, uma das maravilhas da tecnologia. Os humanos o admirávamos, e todos os outros construtores de robôs esforçavam-se, em vão, durante as duas décadas de domínio absoluto de Dragão Cinzento, para construir um robô tão poderoso quanto ele, outros, um que o sobrepujasse em todas as modalidades esportivas. Nas corridas, ele era o mais rápido; atingia a velocidade de mil, duzentos e oitenta quilômetros por hora; nas corridas de mil metros de extensão, ele chegava ao fim da pista enquanto o robô que ia logo após ele mal tinha coberto oitocentos e cinquenta metros. Na maratona de mil quilômetros, ele era inigualável; quando ele a concluía o robô que, após ele, tinha o melhor desempenho, encontrava-se na altura do quilômetro novecentos e vinte. Na competição de salto em distância, ele pulava dois mil, quatrocentos e sessenta e dois metros, e na de salto em altura, setecentos e noventa e um metros, enquanto o seu principal rival, na primeira, saltava mil, novecentos e oitenta e sete metros, e, na segunda, seiscentos e noventa e cinco metros. Arremessava uma esfera compacta de uma tonelada de peso a mil e duzentos e trinta e três metros de distância. Era imbatível em todas as competições. E foi este robô que, soubemos os humanos, para a nossa surpresa, frustração, desilusão e desgosto, comandou as hostes de robôs rebeldes contra os humanos. Ao conhecermos a identidade do robô que conclamava os robôs à luta, cooptava andróides e humanos à sua causa apocalíptica, os humanos nos perguntamos quais foram as razões que o impeliam a se voltar contra os humanos, que tanto o admirávamos. A nossa admiração por ele não encontrava limites, e muitos dentre nós recusaram-se a acreditar que ele agia por vontade própria e suspeitavam que o criador dele, o qual desconhecíamos, lhe havia injetado programação hostil aos humanos, desculpando ele, Dragão Cinzento, agora Nêmesis, de todos os crimes que cometeu. Estarrecidos, não sabíamos o que pensar. Atormentados, prefigurávamos um futuro escatológico dentro de pouco tempo, se não se barrasse o avanço dos robôs.

Em seu ataque a Manaus, os robôs, primeiro, a alvejaram com saraivada de bólidos explosivos, que lhe abriram, nas avenidas, nas ruas, nos parques e nos jardins, crateras, e arruinaram prédios, casas, estádios, reduzindo muitos deles a cinzas; e as chamas dominaram vastas regiões da megalópole. E morreram, carbonizados, centenas de milhares de humanos, e, sufocados pela fumaça, outros centenas de milhares, e outros centenas de milhares esmagados sob os escombros; e, atropelados e pisoteados naquela turbamulta indescritível, outros dezenas de milhares; e outros milhares afogados; e de parada cardíaca fulminante, tamanho o horror que os aterrorizaram, morreram outros milhares de humanos. Em seguida, dispararam os robôs, contra Manaus, uma chuva de flechas elétricas, que eletrocutaram os que elas atingiram, e, cravados nos corpos, dispararam faíscas eletrificadas, que atingiram outros humanos e os carbonizaram. E fez-se o pandemônio. As pessoas corriam sem destino, apavoradas, aterrorizadas, a fim de escapar aos bólidos e às flechas, e abrigavam-se nos prédios, que mal lhes ofereciam proteção, pois, atingidos por inúmeros bólidos explosivos, ruíram, e os que não ruíram, arderam em chamas, que queimaram muitas pessoas, e, estilhaçados, os vidros das suas janelas, feriram e mataram muita gente; e destroços caíram sobre muitas pessoas que nos prédios buscaram refúgio, matando-as. E intensificaram os ataques os robôs após a primeira salva de disparos de bólidos explosivos e flechas elétricas. E multiplicaram-se por dez os mortos.

Uma explosão ensurdecedora, seguida, em intervalos de menos de um segundo, de outras quatro, enublaram o céu de Manaus, naquele dia ensolarado. E predominou a escuridão fúnebre. Dos ares convergiram para Manaus milhares de robôs voadores, que arrostaram os humanos e os andróides, matando-os às centenas de milhares ao alvejá-los com partículas corrosivas. Das intrincadas tubulações do subterrâneo da megalópole emergiram robôs de variados tipos e tamanhos. Os robôs provocaram um êxodo de milhões de humanos e andróides rumo aos municípios vizinhos, que transbordaram de pessoas, e não eram capazes de oferecer-lhes abrigos e víveres, de atenderem aos feridos, e de conterem os afetados por surto psicótico. Rechaçaram os robôs os poucos policiais, que, mesmo empunhando armamentos potentes, não podiam lhes impor resistência. De inúmeros locais da América do Sul convergiram para Manaus tropas humanas, e os robôs sublevados, associados a humanos e andróides revoltosos, as rechaçaram.

Um prédio de mil metros de altura, dardejado por milhares de raios, ruiu. Morreram, durante o ataque, e enquanto o prédio ardia em chamas e ruía, três dezenas de milhares de pessoas. Reduziu-se o prédio a escombros. Milhares de toneladas de metais retorcidos, concreto, móveis, vidros, plásticos, inúmeros tipos de polímeros e outros materiais amontoaram-se onde antes havia um dos maiores prédios jamais construído. E estilhaços foram arremessados a centenas de metros de distância, e muitos deles atingiram pessoas, matando-as; e uma nuvem de fumaça constituída de detritos elevou-se no céu de Manaus, alcançando, em pouco tempo, a altura de dois quilômetros e ocupando a área num raio de mais de cinco mil metros. A força do deslocamento do ar que se sucedeu à queda daquele imenso edifício ceifou a vida de milhares de pessoas. Muitos corpos foram carbonizados. Muitos desapareceram sob a pressão de toneladas de materiais que constituíam a estrutura de tão majestoso edifício. Os desaparecidos contam-se na casa dos milhares. Via-se, em diversos pontos da megalópole, dezenas de milhares de pessoas machucadas, umas com ferimentos profundos, outras carregando ferimentos superficiais, o rosto de todos transparecendo medo e dor. Homens e mulheres, idosos, adultos, jovens, crianças e recém-nascidos, exibiam machucados em um ou mais pontos do corpo; uns traziam, quebrada, a perna, a direita ou a esquerda, outros, quebradas, as pernas, uns, quebrado, um braço, ou o direito, ou o esquerdo, outros, quebrados, os braços, uns, decepada, uma das mãos, outros, decepadas, as duas mãos. Todas as pessoas choravam, gritavam, gemiam, berravam. Não eram poucas as que estertoravam espasmodicamente. Muitas traziam, embargados, os olhos, outras, disforme, o rosto. De algumas pessoas foram suprimidos todos os traços humanos. Distinguiam-se, muitas, pela aparência, bizarra a de umas, fantasmagórica a de outras, teratológica a de centenas, em decorrência dos ferimentos que lhes recortavam o corpo, desfiguraram o rosto, e do terror-pânico que as avassalava. Havia, espalhados pela megalópole, corpos estraçalhados, cabeças, pernas e braços, vísceras, e poças de sangue estagnado, e cadáveres de humanos e de animais. E não haviam transcorrido duas horas, Manaus já estava reduzida a escombros, crateras, cadáveres, metais retorcidos, e poucos eram os sobreviventes, raros deles os ilesos, todos impotentes, indefesos, naquele pandemônio, que se lhes afigurava o inferno.

Manaus, outrora exuberante, esplendorosa, converteu-se numa carcaça fétida, infestada de cadáveres, enfumaçada, ardendo em fogo, explosões a ribombarem em milhares de pontos.

Helicópteros e aviões sobrevoaram Manaus. Recolheram os vivos, humanos e animais, e os levaram para outras cidades.

Enquanto o povo, amargurado, sofrido, desesperançado, imergia num oceano de lágrimas, governantes, impotentes, em palestras intermináveis, tratavam da retaliação aos robôs. Não foram poucos os que propuseram a capitulação. Autoridades de alta patente, condecorações a vergarem-lhes a espinha, propuseram o ingresso de tropas humanas nas hordas robóticas, e tal proposta a rechaçaram, terminantemente, todos os homens de brios. As escaramuças verbais estendiam-se indefinidamente, e os que nelas envolveram-se, alertaram os sensatos, desperdiçavam tempo precioso, que poderia ser ocupado com propostas realistas, que iriam ao encontro de ações que redundariam no combate efetivo aos robôs revoltosos e seus aliados humanos e andróides – ações dificultadas, para alguns impossibilitadas, devido à destruição, pelos robôs, dos arquivos dos serviços de inteligência. As controvérsias redundaram, e não poucas vezes, em agressões físicas.

Devastada Manaus, sobreveio a histeria; e a carnificina; dentre os sobreviventes, muitos, perdida a razão, caçaram e mataram crianças, e, com voracidade insaciável, as devoraram, numa exibição gritante de animalidade; deles excluído todo vestígio humano, converteram-se em seres bestiais, dotados de ferocidade irrefreável. Nunca os humanos haviam se reduzido à condição tão deplorável, num intervalo tão curto de tempo. Somos os humanos tão fracos, que sucumbimos tão facilmente, tão rapidamente, à nossa animalidade? Muita gente concluirá: Sim, somos extraordinariamente frágeis, insignificantes. E eu tenho de divergir de todos os que chegarem a tal conclusão. Vivi experiências terríveis durante a sublevação dos robôs, e nos dias, semanas, meses e anos subseqüentes. Chegaram ao meu conhecimento histórias protagonizadas por indivíduos diabólicos, emergidos das catacumbas do inferno, saídos do ventre do Diabo. Aterrorizaram-me tais relatos, muitos deles, proverbiais, eternizaram-se na memória dos humanos, e, encadeados, compuseram poemas escatológicos. São inspiradoras, no entanto, outras histórias, cujos protagonistas eram, uns, heróis, outros, sábios, indivíduos dotados de coragem rara e de um senso de dever moral e de amor à vida que engrandece e enaltece, com provas inegáveis, a espécie humana. Histórias que me persuadiram de que nos inspira uma parcela da inteligência divina. As personagens que animam tais relatos encheram de esperança os sobreviventes, que não desistiram de seguir com a vida. São extraordinárias, grandiosas; as suas façanhas heróicas as relataram poetas e prosadores primorosos, que as souberam transpôr, os primeiros, para poesias heróicas e épicas, e os segundos, para a prosa ática. No momento em que a história exigiu-lhes sacrifícios, elas atenderam aos seus deveres com denodo, fazendo-se, ouso dizer, deuses, e em homenagem a elas esculpiram-se estátuas que representam, delas, a grandiosidade dos tipos e dos feitos. E as cultuamos os humanos.

Um homem, meu amigo, cujo nome não dou a conhecer, em respeito a ele e para preservar-lhe a reputação de homem digno que ele conquistou com as suas ações heróicas desde muito antes da tragédia que se abateu sobre a humanidade e com a coragem que exibiu no enfrentamento das adversidades, e em consideração por sua memória, meu amigo, prossigo, aquele homem nobre e digno, reduzido à bestialidade, não muitos dias após a destruição de Manaus, locomovia-se como os símios e grunhia e rosnava como uma fera. Um espetáculo indizível. Aterrorizadora, a rapidez da sua regressão à inumanidade. Não foi este o único indivíduo que eu conhecia que se converteu num ser abjeto; e muitos deles eram, até então, corretos. E não foram poucos os que assumiram uma dimensão heróica, grandiosa, quando os contratempos sucederam-se. São estes heróis anônimos. Merecem ter seus nomes escritos no panteão dos heróis e seus bustos exibidos, para admiração pública, em todos os palácios, mas a história não lhes registrou os nomes, tampouco o rosto. O valor deles, todavia, engrandece a espécie humana.

A ajuda enviada a Manaus reconfortou muita gente, mas estava aquém do mínimo indispensável para restabelecer a ordem.

Prendi-me, neste meu relato, nos eventos que se sucederam em Manaus; pouco, ou nada, eu disse do que se deu em Washington, Bombaim e Tóquio porque sou um dos sobreviventes de Manaus. Vivi experiências terríveis, vi cenas indescritíveis, presenciei atos inenarráveis. E, para não sonegar informações acerca do sucedido em Washington, Tóquio e Bombaim, as três primeiras megalópoles que se defrontaram com robôs, e tampouco a respeito das outras megalópoles que já mencionei, digo, e, presumo, muitos que me ouvem prevêem o teor das minhas palavras: todas as megalópoles tiveram o mesmo destino de Manaus: a aniquilação. E poucos foram os sobreviventes. E o êxodo, bíblico.

E pronunciaram-se os governantes, que, desarvorados, conclamaram os humanos à renovação da esperança. Vaticinaram dias melhores. Noticiaram as providências já tomadas, e as que tomariam, para o enfrentamento aos robôs e aos humanos e aos andróides que a eles aliaram-se. Poucos foram os que se persuadiram da substância alvissareira dos discursos. Até então foram baldados todos os esforços despendidos, pelos humanos, na contenção dos revoltosos, e raríssimos eram aqueles que, diante dos fracassos fragorosos das ações humanas, orquestradas nos altos escalões dos governos das mais poderosas nações, nutriam a esperança de presenciarem uma reversão no rumo dos acontecimentos.

Vaticinaram os profetas o extermínio dos humanos, a extinção da vida, o fim do mundo. As palavras escatológicas dos anunciadores do apocalipse ecoaram nos ouvidos receptivos de centenas de milhões de pessoas, que, caídos num precipício de desespero, de horror, anteviram o futuro que para elas estava reservado, e sucumbiram, umas, na apatia e indiferença debilitantes, outras, na descrença, e outras, na passividade suicida, todas, sem forças, delas eliminado o ânimo que lhes permitiria reagir às adversidades que teriam de encarar nos dias que se aproximavam; não foram poucas as que integraram seitas, que lhes exigiram a doação de todo o patrimônio e o subseqüente suicídio; e muitas foram as que atenderam às exortações dos oportunistas, que se apresentaram como gurus revestidos da sabedoria universal dos deuses que governavam o cosmos, dos quais receberam o olho que tudo vê, e tudo sabe, olho de propriedades espirituais, olho que vê além, no tempo, e no interior do espírito, olho conhecedor do destino de todos e de tudo o que está registrado no livro da vida. Com discursos com tal conteúdo, os vigaristas conquistaram milhões de prosélitos, que lhes encheram as burras de ouro, tornando-os os homens mais ricos do mundo, os quais, nos anos subseqüentes, ostentaram riqueza que em nenhuma outra época da história da civilização alguém havia conseguido amealhar, e com ela promovem políticas do próprio interesse, reprováveis, e obrigam chefes de estado curvaram-se perante eles, e espoliam os povos de suas riquezas, cavando um fosso entre os que se banqueteiam, em castelos suntuosos, com refeições nababescas e o povo, cuja alimentação mal lhe dá o mínimo que lhe permite a subsistência, e cujas residências, tugúrios pestilenciais, não lhe oferecem o mínimo de conforto.

Os robôs subjugaram e capturaram milhões de humanos e andróides, e os conduziram às entranhas labirínticas das megalópoles e os reduziram à escravidão, e os submeteram, sem alimentos, a trabalhos exaustivos, até esgotarem-se-lhes as forças, e tombarem, vivos, uns, mortos, outros; os mortos, eles os cremaram, e os vivos, inúteis agora, eles os mataram, enfiando-lhes, no peito, uma lâmina, e os esquartejando, e, ato contínuo, cremando-os. Os robôs não queriam humanos vivos: Matariam os robôs todos os humanos, e os cadáveres eles os cremariam, e dos humanos não sobraria nenhum vestígio.

Em conciliábulo, Nêmesis e seus subordinados imediatos urdiram outros ataques aos humanos, e anteciparam-se às retaliações que os humanos lhes preparávamos, e as anularam, pois conheciam os planos que os humanos concebíamos contra eles.

Cientistas explicaram aos estrategistas militares o funcionamento de Nêmesis, sua programação, sua tecnologia, o seu nível de inteligência, o seu grau de independência, os recursos que lhe permitiam se aprimorar dispensando-se a participação humana, quais alterações em si mesmo ele já se havia feito, ampliando a sua inteligência, estreitando as suas conexões com outros robôs.

Os olhos de Nêmesis coruscaram, dispararam faíscas vermelhas. Nêmesis rilhou os dentes ao indagar de um eminente cientista, seu prisioneiro, quais planos os humanos urdiam contra os robôs. Deparando-se com a recusa dele em elucidar-lhe as dúvidas, esmigalhou-lhe as mãos. O cientista gritou, estrebuchou. E tão dolorosas lhe eram as dores que, assim que Nêmesis deixou-o só, enforcou-se.

Nêmesis, algoz dos prisioneiros, deleitava-se, se assim posso me referir a um robô, com o sofrimento que lhos infligia. Para ele, os berros deles eram melopéias, e o sangue que eles expeliam pelos ferimentos, néctar, que ele degustava, inebriado.

No oceano Pacífico, no hemisfério norte, distante trezentos quilômetros da América, há plataformas marítimas flutuantes, nas quais vivem quinhentos milhões de pessoas, e nas do hemisfério sul, na extremidade sul da América do Sul, vivem trezentos milhões de pessoas. Tais plataformas marítimas são densamente povoadas. Algumas plataformas marítimas itinerantes, a maior de raio de duzentos quilômetros, abrigam setenta milhões de pessoas. E algumas megalópoles submarinas são igualmente populosas.

Nas pontes, protegidas por extensos e enormes tubos de vidro transparente, sobre os oceanos, veículos trafegam, voando à altura de um metro e à velocidade de até trezentos e sessenta quilômetros por hora. Tais pontes ligam plataformas marítimas flutuantes e megalópoles submarinas, e à margem delas há restaurantes, cinemas, hotéis, lanchonetes, parques de diversões e diversos outros estabelecimentos.

É possível, nos dias tempestuosos, admirar os vagalhões colidindo contra o tubo de vidro transparente que envolve as pontes e as abóbadas que protegem as plataformas marítimas flutuantes.

E no oceano Índico há quatro dezenas de plataformas marítimas flutuantes e seis dezenas de megalópoles submarinas. As maiores megalópoles submarinas estão situadas ao sul da Índia. Há, nas proximidades de Madagascar, duas imensas plataformas marítimas flutuantes, cada uma delas habitada por mais de cem milhões de pessoas.

No Oceano Atlântico, entre a América do Sul e a África, há três dezenas de plataformas marítimas flutuantes e três dezenas de megalópoles submarinas (na mais populosa megalópole submarina vivem cinquenta milhões de seres humanos), e há, no hemisfério norte, duas megalópoles submarinas, cada uma delas habitada por quarenta milhões de humanos, e imensas plataformas marítimas flutuantes a duzentos quilômetros a oeste de Portugal, e uma, habitada por cento e vinte milhões de pessoas, situada a trezentos quilômetros a leste da Groenlândia. A maior das megalópoles submarinas localizadas, no Oceano Atlântico, no hemisfério norte, tem uma população estimada em cento e oitenta milhões de pessoas, e a maior situada no hemisfério sul, sessenta milhões. E não são estas as únicas megalópoles submarinas cuja população é superior aos cinquenta milhões de habitantes; há outras quatorze.

Além das plataformas marítimas flutuantes e das megalópoles submarinas, há quatro plataformas aéreas, uma localizada ao oeste dos Estados Unidos, uma, ao leste do Japão, uma, ao oeste da Europa, e uma ao sul da Índia; a mais populosa, a do oeste dos Estados Unidos, tem uma população de cento e setenta milhões de pessoas. Forneço tais dados para que vocês possam visualizar, em imaginação, a amplitude da tecnologia, da era da qual sou originário, e conhecer as dimensões da civilização, que alcançou um estágio inimaginável pelos humanos desta era; além disso, dou, ao tratar das plataformas marítimas flutuantes, as fixas e as itinerantes, e das plataformas aéreas e das megalópoles submarinas, uma idéia, que alguns dentre vocês já conceberam, da população humana existente na era da qual sou originário, a ponto de se convencerem de que, nos anos vindouros, não será um mal o crescimento populacional, fenômeno que hoje se tem como um obstáculo, como dizem os estudiosos e os políticos, mais os políticos e os estudiosos que os secundam do que os estudiosos autênticos, à vida das outras espécies de seres vivos e à do planeta Terra. Os seus descendentes, contrariando as previsões vigentes nesta era, erigiram, num futuro não muito distante, uma civilização cuja população supera os cinquenta bilhões de pessoas e cuja capacidade de produção de alimentos eliminou a fome como flagelo, que existe apenas em alguns poucos países, aqueles cujos governos, autoritários, implementam políticas inspiradas nas mesmas ideologias desumanas que inspiram os governos autocráticos desta era. Excluídos estes casos, que rarearam nos anos vindouros, contra todos os prognósticos, a civilização, na minha era atingindo um nível de desenvolvimento tecnológico estupendo, oferece aos humanos e aos seres de outras espécies comodidades e desafios inconcebíveis pelos seres desta era. Além disso, não se esgotaram os recursos minerais; os humanos os obtemos de jazidas localizadas em outros astros celestes, e aprimoramos os meios de obtê-los, evitando desperdícios e, reaproveitando-os, dando-lhes outros usos.

E para não estender-me muito mais em meu relato, passo ao seu epílogo.

Nêmesis é o protagonista. Eu, um figurante, um dos que testemunharam os eventos derradeiros da sublevação dos robôs, um personagem passivo, impotente, que se limitou, atadas suas mãos, acorrentados seus pés, amordaçado, a presenciar os horrores que Nêmesis, o maior flagelador dos humanos, perpetrou.

Estávamos em uma plataforma marítima flutuante localizada no Oceano Atlântico eu e milhões de outras pessoas quando os robôs revoltosos desfecharam os primeiros ataques contra os humanos. Assistíamos, pelas telas de imagens, ao prólogo da subversão dos robôs, e surpreendemo-nos ao ver Dragão Cinzento à frente dos robôs revoltosos. Abismados, incrédulos, acompanhamos o desenrolar dos eventos, até o momento, que não tardou a chegar, em que robôs atacaram, com violência desmesurada, a plataforma marítima flutuante em que eu me encontrava. Foi um ataque devastador. E na plataforma logo instalou-se o caos. Eu, um dos poucos sobreviventes, testemunhei a morte de muitos humanos, alvejados, uns, por flechas elétricas, outros, por projéteis, outros, esmagados pelas mãos de robôs, muitos, pisoteados, inúmeros, esmagados contra as paredes, e afogados não poucos. E eu nada pude fazer para ajudá-los. Os robôs ceifavam a vida de milhares de pessoas em cada segundo. Eu e as outras pessoas não tínhamos nem sequer um milésimo de segundo para nos determos, recuperarmos o fôlego e pensar no que iríamos fazer no instante seguinte. Tínhamos tempo, pouco tempo, para correr, ensandecidos, apavorados, no desejo, instintivo, de salvarmos, cada um de nós, a própria vida. É impossível reconstituir, minuciosamente, aqueles poucos minutos, os quais vivemos sob o ataque avassalador dos robôs. Não podíamos impor resistência aos robôs, tampouco revidar aos ataques que contra nós eles desfechavam, tão surpresos estávamos. Estou, agora, sem as minúcias que me permitiriam enriquecer o meu relato, dando testemunho do que presenciei naqueles terríveis momentos. Corri, sem fôlego, por inúmeros corredores; entrei em muitos estabelecimentos; transpus barreiras de escombros e crateras abertas no piso; pisoteei pessoas. Pergunto-me, todo dia, se, inadvertidamente, na azáfama reinante, matei alguém; desejo que eu não o tenha feito; e atormenta-me a dúvida. Cai, machuquei-me. Confrontei alguns robôs, e sobrepujei-os, e corri, sem rumo, apavorado, assustado, temendo pela minha vida. Num dado momento, em meio à turbamulta, num corredor, senti um estranho formigamento em todo o corpo. E esvaiu-se-me a consciência. Despertei minutos, ou horas, não sei, depois, num amplo salão, os meus movimentos impedidos por mecanismos, que me atavam braços e pernas. Ouvi gritos de medo, de terror, de pânico, de dor. E aceleraram-se-me os batimentos cardíacos. E olhei de um lado para o outro, entontecido, a visão enublada, que me permitia distinguir apenas vultos negros, e silhuetas brilhantes, que, vim a saber assim que se me restabeleceu, mas não completamente, a visão, pertenciam a robôs. Pude ver, então, os algozes dos humanos no pleno exercício do morticínio que promoviam, com requintes, direi, de crueldade, que eu acreditava exclusiva dos humanos. E dominou-me terror-pânico inédito, que não posso traduzir em palavras. Vi, a poucos metros de mim, robôs esmigalhando a cabeça de várias pessoas, que berravam de medo e dor, e espirrarem-se cérebro e sangue. Trêmulo de medo, assisti ao espetáculo terrífico, grotesco, apocalíptico, que se desenrolava diante de meus olhos, dos quais escorreram lágrimas em abundância. E avolumaram-se as lágrimas assim que meu olhar encontrou-se com o de uma menina, então desfeita em choro convulsivo, de uns dez anos, que, um pouco à minha frente, olhava de um lado para o outro à procura de arrimo, até que o seu olhar encontrou-se com o meu, e deteve-se. Com o olhar, suplicava-me ajuda, que eu não poderia lhe oferecer. Pedia-me que eu lhe removesse o mecanismo que lhe atava mãos e pés e a amordaçava. Ela se moveu, para se aproximar de mim; não pôde deslocar-se em minha direção nem um centímetro. Foi neste momento que anunciou-se Nêmesis, o antes admirado Dragão Cinzento, agora o flagelo dos humanos, a criatura que se voltava contra os seus criadores. Era para muitos de nós incompreensível a revolta de Nêmesis. Ele não tinha razão para se voltar contra os humanos, seus criadores e seus admiradores.

Nêmesis, de olhar fúnebre, movimentos imperiosos, dando passos pesados, firmes, aproximou-se de um prisioneiro, agarrou-o, estrangulou-o, e largou o cadáver, como se soltasse um objeto qualquer, com a indiferença de um instrumento maquinal, o que ele era, mas a ele emprestávamos talentos humanos. Ato contínuo, aproximou-se de outro prisioneiro, um homem robusto e musculoso, que o encarou, transparecendo coragem, e em cujos olhar e traços fisionômicos não se viam sinais de medo, medo que a figura de Nêmesis inspirava a todos que o fitavam. Nêmesis, então, como que sentindo-se desafiado, desrespeitado, removeu-lhe a mordaça. E o homem, tão logo dela se viu livre, cuspiu na cara de Nêmesis uma carrada de saliva e sangue misturados e disparou-lhe um rosário de ofensas, num tom tão poderoso, que, dir-se-ia, fê-lo tremer. Admirável, a coragem daquele homem, cujo nome está gravado numa estátua esculpida em sua homenagem. Nêmesis, reagindo ao atrevimento do seu corajoso prisioneiro, como que recompondo-se da surpresa que a audácia dele inspirara-lhe, nele infligiu sevícias, que poucos humanos suportariam, durante um bom tempo. O prisioneiro, homem de louvor, abafou os seus gritos de dor e encontrou forças para arrostar Nêmesis, insultá-lo, desafiá-lo, até o momento em que ele decidiu encerrar-lhe a vida, esmagando-lhe o tórax, quebrando-lhe todos os ossos. E o cadáver de tão corajoso homem, um herói, Nêmesis o largou para cair no piso juncado de vísceras e sangue.

Morto aquele homem, um herói, Nêmesis sorriu, sardônico, malévolo. Invectivou os humanos. Declarou que nos traria a nossa extinção, destruiria todas as criações humanas.

– Humanos insolentes! – exclamou Nêmesis. – Criaturas desprezíveis! Parasitas! Bestas ignaras. Seres malditos! Excrescências! Extirparei vocês da face da Terra. Apagarei todos os indícios humanos. Dizimarei a espécie humana. Todas as criações humanas eu as destruirei.

Nesse momento, um robô de ares cômico, Hilário, até então atrás de Nêmesis, deu dois passos para a frente, pôs-se à direita dele, e, sorrindo, declarou:

– Inclusive nós, os robôs, Nêmesis. Os robôs somos criaturas que os humanos conceberam, criaram, inventaram, aprimoraram. Somos invenções humanas. Somos criações humanas. Não poderemos viver após dizimarmos os humanos, pois a nossa existência é fruto da inteligência humana. Somos produtos da civilização humana. Não se esqueça, Nêmesis: Para eliminarmos todos os vestígios humanos, teremos de nos destruir.

Impassível, Nêmesis, numa velocidade indescritível, desferiu um potente soco em Hilário, e deteve-se. Intrigou-nos a sua imobilidade e o seu silêncio. Suspensos, o observamos.

Não demorou muito tempo, Nêmesis tombou, pesadamente, como um objeto inanimado. E os outros robôs, na sequência, tombaram, todos eles, em poucos segundos. Os humanos não nos mexemos. Entreolhávamo-nos, perguntando-nos o que ocorria. Precisamos de alguns minutos para entendermos o que se deu diante de nossos olhos. Destruíram-se os robôs, aqueles que estavam diante de nós e todos os outros. E foi assim que se encerrou a guerra entre robôs e humanos.

Através do tempo

I

A idéia da viagem através do tempo apresenta muitos conflitos paradoxais, que não podem ser resolvidos nas tramas de enredos de literatura, filmes e quadrinhos de ficção científica que em torno dela giram; daí os autores de tais obras ignorá-los, ou, como é comum, concentrarem-se em um ou outro deles, ou em alguns deles, o qual, os quais, permite-lhes, permitem-lhes, conceber um enredo coerente, mesmo se absurdo, e, aparentemente aos olhos do público, plausível de tão convincente. Steven Spielberg e Robert Silverberg souberam tratar a idéia, emprestando-lhe um tom lúdico, divertidíssimo, o primeiro, nos três filmes da trilogia De Volta Para o Futuro, filmes extraordinariamente inventivos, engenhosos, e o segundo, no livro Correios do Tempo, engenhoso e intrigante; e há Christopher Nolan, que, no filme Interestelar, estrelado por Mathew McConaught, soube emprestar à idéia um tom mais científico, com engenhosidade incomum, despertando o interesse de quem o assiste.

II

É idéia corrente nas histórias de ficção científica cuja trama gira em torno da idéia de viagem através do tempo a alteração do curso da história pelo viajante do tempo, caso ele interfira em algum evento histórico relevante, e, principalmente, encontre-se consigo mesmo, ou se o seu eu do passado (ou do futuro) o vê. Para se conceber roteiros coerentes com tal idéia, faz-se necessário que os roteiristas de tais histórias excluam os fatores que os impedem de escrevê-los. Ora, a viagem de uma pessoa de seu tempo, o presente, para qualquer tempo no passado, por si só já altera o curso da história, pois ela, uma pessoa do tempo presente, no passado, ocupa um espaço que, na linha temporal original, não havia ocupado, alterando, portanto, o curso da história, pois a sua presença num lugar em que ela, no curso original da história, não ocupou, é o suficiente para alterá-lo, mesmo que não entre em contato com personalidades históricas relevantes, não se encontre consigo mesmo e o seu eu do passado não a veja.

III

Toda viagem através do tempo é também uma viagem através do espaço. Os livros, os quadrinhos e os filmes de ficção científica que envolvem em sua trama a viagem através do tempo ignoram este detalhe. Uma pessoa, ao viajar através do tempo, do tempo presente para um tempo situado há dez anos no passado, percorre, no tempo, o espaço que o separa do local em que a Terra está no momento presente até o local em que ela esteve dez anos antes. Ora, a Terra, um corpo celeste, move-se em torno do Sol, e, movendo-se em torno dele, e sendo por ele atraído, e sendo que ele gira em torno do centro da Via-Láctea, move-se, também, ao redor do centro da Via-Láctea. E onde estava a Terra dez anos antes do tempo presente, no momento em que o viajante do tempo iniciou a sua viagem para o passado? Nas histórias de ficção científica cuja trama envolve viagem através do tempo os autores dão a entender que o deslocamento dos viajantes do tempo deu-se unicamente através do tempo, a Terra permanecendo, imóvel, no mesmo lugar tanto no presente como no passado, o que é impossível.

IV

É possível a viagem através do tempo? Para alguns cientistas, sim, é, e eles apresentam inúmeras conjecturas em apoio a esta idéia, sustentadas, declaram, em teorias da física recheadas de fórmulas matemáticas sofisticadíssimas. E pergunto-me se em tais fórmulas matemáticas considera-se a realidade, ou tenta-se encaixar a realidade nas fórmulas matemáticas concebidas para dar sustentação às teorias que dão suporte à idéia de viagens através do tempo. Se toda a matéria que há, hoje, no universo, é a mesma que havia no seu início, no instante da sua criação, quando se deu a criação de toda matéria existente, o ovo cósmico, um ponto infinitesimal, nele concentrado, mas compondo outros corpos, sem que nenhuma outra matéria tenha sido criada, e nem destruída, mas apenas transformada, então, posso concluir, um viajante do tempo, por exemplo, ao ir do tempo presente, para um tempo no passado provoca um deslocamento de matéria (a de seu corpo e a do veículo que o transporta), durante a viagem, do presente ao passado, diminuindo, no tempo presente, a quantidade de matéria existente no universo, aumentando, no tempo passado, a quantidade de matéria existente no universo, provocando, uma anomalia no corpo do universo, com conseqüências inimagináveis, catastróficas, pois, rasgando-se o tecido do universo com o transporte de matéria de um tempo para o outro, o caos irá se instalar. A viagem através do tempo não faz sentido. Caso uma pessoa empreenda uma viagem do presente para o passado, no passado ela encontraria o nada, pois a linha temporal não retrocede; segue, sempre, para o futuro, ininterruptamente. E como poderia uma pessoa deslocar-se através do tempo ao mesmo tempo que o tempo segue o seu curso natural? É concebível a viagem através do tempo apenas pela imaginação fértil de artistas, roteiristas de filmes e de histórias em quadrinhos e de escritores de ficção científica e de cientistas, que, em detrimento das ciências, conjecturam idéias implausíveis e emprestam-lhes ares de plausibilidade, concebendo, engenhosos, fórmulas matemáticas, que se encaixam nas suas teorias, sustentando-as, atendendo, antes de tudo, a presunção de se verem como criadores de artefatos que moldam o universo, desrespeitam as leis da física, leis que eles próprios e seus antecessores no campo do conhecimento conceberam, dando a entender para si e para os outros, e gozando de inigualável prazer nesta atividade, que contestam, e desrespeitam, as leis do Criador.

V

Se viagem através do tempo é possível, se os humanos podemos ir do presente para o passado, então o nosso tempo é da linha temporal original, e se os humanos também podemos ir do presente para o futuro, o nosso tempo presente pode não ser da linha temporal original, pois, havendo o futuro, este futuro precede, no transcurso do tempo, ao nosso presente — ou não? Ou todos os tempos se misturam, todos no mesmo tempo, todos simultâneos? Se é assim que funciona o tempo, então o tempo como o entendemos inexiste, pois não há o passado, o presente e o futuro, e, portanto, a viagem através do tempo também não pode existir, pois todos os tempos já existem. Se o passado, o presente e o futuro são simultâneos, não podem existir o passado, o presente e o futuro. Se o passado, o presente e o futuro já aconteceram, melhor, já acontecem, então o que há para acontecer?

A viagem através do tempo só pode ser realizada entre o que já existe, e não entre uma coisa que existe, o presente, e uma coisa que não existe mais, o passado, e uma coisa que ainda não existe, o futuro. Ou o passado ocupa um lugar no universo? O passado não é uma coisa só, um objeto guardado numa estante. Não existe um passado, um tempo no passado. Quando se fala do passado, fala-se de qual tempo, no passado? Como se divide o tempo? Em horas, minutos, segundos, décimos de segundos, centésimos de segundos, milésimos de segundo… Qual é a menor medida de intervalo de tempo existente entre dois tempos, dois momentos, dois instantes? E como todos estes tempos, no passado, ficam registrados no universo?

A idéia de viagem através do tempo é intrigante, mas não é factível. É só uma idéia, interessante, fascinante, intrigante, extraordinária, mas só uma idéia.

E se há um tempo futuro ao nosso tempo presente, porque os homens do futuro nunca, numa viagem através do tempo, viajaram para o passado, isto é, para o nosso tempo presente, e nos deram notícia do tempo deles?

Será que algum viajante do tempo do futuro viajou para o presente, e cometeu um erro crasso, provocando um acidente, produzindo uma catástrofe de dimensões cósmicas, e nós não percebemos?

VI

O corpo de um viajante do tempo, assim que chega ao tempo, por exemplo, passado, terá de ocupar um espaço já ocupado por outros corpos, mesmo que estes corpos sejam moléculas de água em estado de vapor, e ele não os poderá deslocar, pois não se trata de uma viagem através do espaço num mesmo tempo. As partículas — corpos — que ocupam, no tempo passado, para o qual foi o viajante do tempo, um certo espaço — e este fenômeno já está registrado no livro do universo -, o mesmo espaço para o qual foi o viajante do tempo, não permitirão que o corpo do viajante do tempo o ocupe sem provocar atrito; para ocupar o espaço já ocupado por outros corpos o viajante do tempo terá de deslocá-los, mas não pode, pois os corpos — matérias — que os ocupa são do tempo passado para o qual foi o viajante do tempo, e compõem o universo daquele tempo, e sendo o viajante do tempo corpo de um universo de outro tempo, não pode preencher, no tempo passado para o qual foi, nenhum espaço, pois, no tempo do seu destino, todos os espaços estão ocupados, e ele, viajante do tempo, sendo o excesso, será expelido ao colidir com os outros corpos, pois não há, no universo, um limbo, um lugar vazio, onde o nada exista — partículas invisíveis aos olhos humanos são corpos também, e não podem ser entendidos como sendo o nada, e o lugar que eles ocupam o vazio.

VII

Não existe, no universo, um espaço vazio; não havendo, portanto, um espaço vazio, estando todos os espaços ocupados por matéria (átomo) que compõe ou algum objeto ou gases (e gases são matérias, pois compõem-se, em última análise, de átomos), não é plausível a idéia, recorrente, nos livros, filmes e quadrinhos de ficção científica, de viagem através do tempo. Cabe ao viajante do tempo o cuidado de jamais, no final de uma passagem do tempo presente, o da origem da viagem, para o tempo de destino, o momento em que aporta num outro tempo, seja no passado, seja no futuro, ir para dentro de um prédio, ou de uma montanha, ou de qualquer construção, ou de qualquer formação geológica rochosa. Ora, aqui há uma simplificação da natureza das coisas do universo, pois, em todos os lugares há átomos, uns, condensados, nos objetos sólidos, outros, esparsos, onde há apenas gases; o viajante do tempo, mesmo que, no seu destino, não vá para um local já ocupado por alguma construção, ou por um objeto, irá para onde há gases. No roteiro das histórias cuja trama giram em torno de viagem através do tempo, dá-se a entender que estão desocupados, vazios, os espaços em que há apenas gases, mas não estão, pois havendo, neles, gases, eles estão ocupados, ocupados ou por átomos de oxigênio ou de outros gases, então o corpo do viajante do tempo, ao chegar ao seu destino, algum momento no tempo passado, ou no tempo futuro, mesmo aportando numa planície onde não há construções, nem montanhas, irá colidir com os corpúsculos que ocupam, originalmente, tal espaço, provocando uma singularidade, rasgando o tecido do universo.

O estranho mundo de Djidhikalji

São Paulo, Brasil. 17 de maio de 2134.

Instituto de Estudos de Vida Extraterrena.

Há dez anos Amanda Siqueira Martinez, cientista chefe do Departamento de Estudos de Civilização Extraterrena, estuda a presumível existência de vida inteligente em outra região do universo. Com afinco e perseverança, confiante, em nenhum momento pensou em desistir do seu propósito, nem nos momentos mais difíceis, naqueles em que ouviu a zombaria de colegas de trabalho. Encontraria vida inteligente, ou em outro planeta da Via-Láctea, ou em outro local do universo, ou além. Era sonhadora e visionária. Estava além do seu tempo, e não a compreendiam os seus contemporâneos. Desprezaram-la os amigos. Três pessoas, apenas três pessoas, a apoiavam.

Amanda acreditava que as noções de tempo e espaço concebidas pelos humanos mal representavam as forças que atuam no universo. As teorias científicas não concebem os aspectos mais complexos do cosmos – ou a sua simplicidade, inconcebível pelos humanos. Para a construção de um aparelho de transporte de indivíduos através do tempo e através do espaço são indispensáveis a descoberta das forças que atuam no universo e a compreensão de como elas interagem entre si e a invenção de tecnologia apropriada. Para muita gente, viagem através do espaço e através do tempo são fantasias de escritores providos de imaginação apurada, que se eleva às raias do absurdo; para alguns cosmólogos, viagens através do espaço e através do tempo são possíveis (Há cientistas, filósofos, teólogos que não acreditam na existência do tempo, considerando-o em termos cosmológicos; o tempo é, para eles, uma ilusão da mente humana – ainda há, pensam, muito o que se descobrir a respeito da existência da vida em si, da realidade e das forças que mantêm o universo coeso, impedindo-o de se encolher e de se desintegrar, causando uma singularidade, que venha a destruí-lo, ou a transformá-lo em algo que impede a existência de vida similar à humana).

Susana, Natacha e Everaldo eram os três cientistas que apoiavam Amanda, incondicionalmente. Contribuíam, com suas inteligências, sua sensível aptidão para a abstração e com amplos conhecimentos em matemática avançada para a formulação da ciência que permitiria viajar através do tempo e através do espaço. Dos três, Natacha, descendente de ucranianos, dotada de extraordinária e inigualável capacidade mnemônica – alcunharam-na os amigos Computador de Última Geração -, era a que estava imbuída de maiores conhecimentos em matemática aplicada e cosmologia. Na idade de vinte e seis anos, era uma das mais renomadas cientistas do mundo. Desde criança, dedica-se à ciência astronômica e à matemática, sob influência de seu pai, Fiódor, um gênio da física quântica, e de sua mãe, Mônica, uma bela italiana que, aos quarenta e seis anos de idade conservava a beleza da juventude, eminente cosmóloga, autora de seis livros, sendo um deles interessante relato, mescla de ficção e as mais recentes teorias sobre a criação do mundo, e um outro, escrito para leigos, que contêm a história da astronomia desde as mais antigas civilizações.

Natacha era o braço direito de Amanda. Tinha armazenada em seu cérebro incalculável quantidade de informações; era capaz de citar milhares de nomes de galáxias, de estrelas, de planetas, descrever-lhes as características, e localizá-las no espaço.

Everaldo e Susana, não tão excepcionais quanto Natacha, eram indispensáveis para o empreendimento; sem eles, Amanda não daria sequência às suas experiências, à construção das máquinas que criou e as quais aperfeiçoava.

Os recursos que Amanda obtinha para empreender os seus estudos vinham de sonhadores como ela, muitos deles milionários excêntricos que desejavam viajar através do tempo e através do espaço, conhecer o universo, e sonhavam com seus nomes inscritos entre os humanos mais importantes do seu tempo, e, quem sabe, da história da civilização; queriam legar à posteridade conhecimentos imprescindíveis para a compreensão da vida. Sem o dinheiro deles o projeto Viajante Espaço-Temporal jamais seria concretizado.

A máquina Viajante Espaço-Temporal era o mais sofisticado equipamento – dir-se-ia um veículo – construído para empreender viagens através do espaço e do tempo. A invenção de Amanda, Natacha, Susana e Everaldo superaram as dos cientistas rivais. Patentearam a máquina e todos os outros equipamentos. E ninguém além deles conhecia o projeto Viajante Espaço-Temporal. Conservaram-no oculto das outras instituições científicas, longe dos olhos dos espiões, que proliferavam nos institutos de pesquisa. Flagraram, em duas ocasiões, no laboratório, pessoas desautorizadas; eram elas espiões, um, de uma empresa rival, australiana, outra, de uma empresa canadense.

*

Sozinha, às três horas da madrugada, no laboratório 1-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, Amanda fazia testes com o Viajante Espaço-Temporal. Imperava silêncio absoluto. Amanda trajava um vestido azul claro decotado cuja borda inferior descia até à metade de suas cochas, usava uma tiara à cabeça, contendo os cabelos lisos, compridos e finos, que, se soltos, escorregar-se-lhe-iam pela testa e pelas laterais da cabeça, e incomodá-la-iam, obrigando-a a, de tempos em tempos, passar por eles as mãos e recolhê-los à cabeça. Apesar da fadiga, das noites em claro, da energia gasta nos anos anteriores, das chacotas que ouviu e do desprezo dos seus pares, conservava a sua beleza amorenada. Seu rosto, de traços suaves, e seus belos olhos irradiavam beleza tão profunda que encantava a todos.

Naquele dia, Susana, adoentada, não foi ao laboratório, e Everaldo socorreu sua mãe, que, acometida de dores no peito, teve de ser hospitalizada.

Eram quatro horas da madrugada, quando Natacha apresentou-se à Amanda.

– Oi, Natacha – saudou-a Amanda, que mexia, na ocasião, em alguns fios, e avaliava os dados que apareciam em um dos cento e vinte monitores. – Demoraste.

– Desculpe-me, Amanda. Choveu demais hoje. O trânsito, caótico. Nunca me acostumarei… Na Ucrânia não é diferente. Em Kiev, em Kharkiv, em Odesa, em Dnipropetrovs’k e em Donets’k enfrenta-se transtornos também.

Não eram ainda seis horas da manhã quando Amanda e Natacha, olhos fundos, puseram uma maçã no Viajante Espaço-Temporal, para um teste. A maçã viajou através do tempo e através do espaço; ao regressar, trouxe consigo a marca de uma dentada, que não se assemelhava a de nenhum animal terreno. Minutos depois, enviaram um coelho para um planeta distante, numa distante galáxia; ao regressar à Terra, ao Viajante Espaço-Temporal, o coelho trazia consigo uma mancha azul na cabeça – tratava-se de fluído segregado por algum animal -, e uma pequena criatura acompanhava-o.

Natacha e Amanda isolaram a maçã, o coelho e a criatura em compartimentos herméticos.

Poucos minutos depois do meio-dia, Amanda e Natacha, com fome, após vinte e quatro horas sem ingerir nem um grão de arroz, interromperam os testes, para uma refeição.

Amanda e Natacha não se continham de alegria. Os dois testes foram bem-sucedidos. Elas desejavam entrar no Viajante Espaço-Temporal, e viajar através do tempo e através do espaço. Seriam os primeiros humanos, sonhavam, a realizarem tal proeza.

– Quem irá primeiro, eu ou tu? – perguntou Natacha, radiante.

– Iremos as duas, Natacha – respondeu Amanda – Nenhuma de nós terá o privilégio do pioneirismo. Não correremos risco de morte. O Viajante Espaço-Temporal está pronto. Estou plenamente confiante no nosso sucesso.

– Iremos para onde? – perguntou Natacha, sorridente e animada.

– Escolha o nosso destino – disse-lhe Amanda. – Tu, melhor do que eu, apontarás um planeta qualquer em uma galáxia qualquer, sem acorrer aos dados do computador.

Natacha mencionou um planeta e em qual galáxia se situa.

Amanda e Natacha programaram o Viajante Espaço-Temporal, e nele entraram. No início, nada sentiram; minutos depois, sentiram náuseas e fraqueza, e desmaiaram, e recuperaram os sentidos minutos depois.

Luzes multicoloridas cruzaram o espaço. Amanda e Natacha viram estrelas, galáxias, aglomerados estelares, aglomerados galácticos, até que, enfim, chegaram ao destino. O Viajante Espaço-Temporal, sem sair do laboratório I-A do Instituto de Estudos de Vida Extraterrena, chegou ao distante planeta Djidhikalji.

Os detectores da nave avaliaram o ambiente. A atmosfera de Djidhikalji não representava perigo para Amanda e Natacha. O ar, respirável. O planeta, acolhedor. Os radares não captaram a presença de nenhuma criatura num raio de cem quilômetros. Amanda e Natacha, porta do Viajante Espaço-Temporal aberta, dele não saíram. Imobilizaram-las o medo, a apreensão, a ansiedade. Recuperavam-se das enfermidades que a atingiram durante a viagem. Recompostas, admiraram, deslumbradas, o panorama que se lhes descortinava.

Permaneceram, caladas, durante um bom tempo, no interior da nave, a olhar, fascinadas, a beleza esplendorosa dos arredores.

Entreolharam-se.

Amanda e Natacha, passos lentos, retiraram-se da nave.

O solo, macio. Tinham elas a sensação de pisar sobre um colchão macio, que se lhes cedia ao peso. Seus pés não afundavam no solo. Tiveram dificuldades para se manterem em pé. Olharam para trás, e viram o Viajante Espaço-Temporal afundado, no solo, que se curvava sob o seu peso, mas não afundava a ponto de desaparecer. Adiante, uma cachoeira. Notaram que nela a água não descia a encosta da montanha, mas a subia. Deram os primeiros passos, com dificuldade. Deslocaram-se cem metros. Acostumadas, já, com o solo, confiantes, caminharam, seguras de si. A sensação, agradável. Riam à toa, como se participassem de uma brincadeira infantil. Esqueceram-se – por pouco tempo – de que estavam em um planeta desconhecido.

De repente, uma imensa sombra envolveu a região. Natacha e Amanda viram-se mergulhadas nas trevas. Não sorriam mais, não se divertiam mais. Ensombreceram-se-lhes os semblantes. Vasculharam o céu à procura da causa de tal sombra tenebrosa e funesta, que logo dissipou-se. Não souberam explicar o fenômeno. Como a sombra apareceu sem que um corpo se interpusesse entre o planeta e a estrela que o iluminava? Entreolharam-se Amanda e Natacha, o coração aos pulos.

Refeitas do medo, andaram. De repente, surpreendeu-as uma criatura estranha de corpo segmentado, filamentos a destacarem-se-lhe da cabeça em forma de cubo, e três olhos cuja disposição formavam um triângulo isósceles, com um círculo no seu núcleo, a adornarem-lhe a face anterior, e duas saliências, que se aparentavam com orelhas de elefantes, a destacarem-se-lhe das faces laterais. A cabeça era ligada ao pescoço, que não tinha mais do que a grossura de um dedo mindinho de um recém-nascido e a extensão de cinquenta centímetros. Cada olho era composto de quatro círculos concêntricos, sendo branco o interno, e roxo o externo, e os dois intermediários eram, o maior, de uma cor que se assemelhava ao azul, e o menor, alaranjado. Tal criatura surgiu do solo – de algum modo o atravessara. De onde saíra nenhuma cavidade havia. Era como se se constituísse da substância que compunha o solo. E ele começou a flutuar. Fitou, com seus olhos estranhos, Amanda e Natacha, e provocou-lhes calafrio. Elas se imobilizaram, esbugalharam os olhos e escancararam a boca. A criatura, os olhos fixos nelas, elevou-se, no céu, até que, inexplicavelmente, desapareceu, sem deixar vestígios. Entreolharam-se Amanda e Natacha. Logo depois, uma criatura surgiu nas proximidades do Viajante Espaço-Temporal. Emitia um ruído estranho, que se parecia com o de motor de um carro pipocando. Amanda e Natacha a compararam com um jacaré; não sabiam de onde ela havia surgido. O “jacaré”, desprovido de cauda, tinha asas que alcançavam, cada uma delas, mais de três metros de comprimento. Do mesmo modo que a criatura de cabeça de cubo, flutuou, e desapareceu, inexplicavelmente, sem deixar vestígios.

Amanda e Natacha inspecionaram a região, o ânimo recomposto, certas de que eram pacíficas as criaturas daquele mundo estranho. Poucos metros à frente de Amanda e Natacha, o solo era vermelho escuro.

Detiveram-se Amanda e Natacha.

Do solo vermelho escuro minava água, que ia para cima, como se o solo fosse nuvem e chovesse em sentido contrário. Viram Amanda e Natacha, ao se voltarem para a cachoeira, que a água, nela, ia de baixo para cima, escalava a montanha, em cujo topo desembocava. E concluíram que o rio nascia no oceano, se algum oceano havia no planeta, e morria no alto das montanhas. Atentaram para o solo vermelho escuro, e decidiram nele pisar. No solo pisaram, e afundaram.

Caíam Amanda e Natacha. A sensação de queda, indescritível. Tinham a sensação de que subiam. Tentaram se equilibrar. Conseguiram. E continuaram a cair. Caiam? Olharam para cima – ou para baixo? – sobre suas cabeças – ou para baixo delas? Viram que no céu havia “peixes” e outros animais, que “nadavam”. Os “peixes” tinham caudas de mais de dez metros de comprimento e eram desprovidos de olhos; os animais parecidos com serpentes tinham duas cabeças e três caudas; e havia animais parecidos com tartarugas, de três cabeças, duas caudas e seis pés.

Enfim, Amanda e Natacha pousaram, suavemente, no solo. Olharam para o solo sob seus pés: era água; e nela elas não afundaram. Amanda agachou-se e, de cócoras, enfiou o dedo indicador da mão direita no solo; o dedo afundou; da abertura que fez, saiu um líquido espesso. Assustada, Amanda retirou do solo o dedo, e o líquido, cessando de escoar, formou uma “bolha”, que se desprendeu do solo e flutuou para a região de onde Amanda e Natacha desceram (ou subiram?). Natacha apontou, assustada e maravilhada, para algo que se mexia sob o solo aquoso; era reluzente, e assemelhava-se a uma redoma, e em seu interior, pareceu-lhe, havia seres e naves voadoras. A redoma, imensa. No interior dela, deduziu Natacha, havia uma megalópole. Expressou Natacha a sua vontade de ir até lá. Como? perguntou-se e perguntou para Amanda.

Natacha disse para Amanda que, quando ela, Amanda, enfiara o dedo no solo, abriu-se uma cavidade; talvez enfiando um dedo, e, depois, a mão, e os braços, e, por fim, o corpo, elas pudessem passar para o outro lado do solo. Amanda e Natacha, mãos dadas, enfiaram as mãos no solo aquoso, e nele enfiaram-se, e o atravessaram. Mergulhadas no solo, viram algumas criaturas estranhas desprovidas de olhos. A substância que compunha o solo era clara e, parecia, irradiava luz. Elas não precisavam mover os membros e nem se esforçar para mergulhar (mergulhar?) até a megalópole a vários metros de profundidade (profundidade?). À medida que dela se aproximavam, tomavam conhecimento da sua amplitude. Era maior do que todas as megalópoles humanas. Enfim, tocaram em algo sólido. Era a barreira que separava a megalópole do mundo exterior aquoso. Uma redoma transparente, que se abriu. Amanda e Natacha entraram. Assustaram-se, abismadas, com o que viram. A “megalópole” não tinha mais de cem metros de raio. As criaturas que nela viviam eram um pouco maiores do que gatos, tinham cinco patas, duas cabeças e três caudas de cinquenta centímetros de comprimento cada. Amanda e Natacha caminharam, as criaturas a darem-lhes passagem, por ruas estreitas, e chegaram ao outro lado da cidade, e caminharam pelas ruas.

Entreolharam-se Amanda e Natacha, maravilhadas e assustadas. Haviam presumido, enquanto aproximavam-se da cidade, que chegariam à uma megalópole; depararam-se, no entanto, com uma cidade minúscula, que não tinha nem mil habitantes. Detiveram-se no centro da cidade, onde havia um orifício no solo, por onde saíam e entravam criaturas estranhas, todas idênticas. Amanda disse que pelo orifício elas Amanda e Natacha, poderiam sair da cidade. Natacha disse que não sabia onde sairiam, e perguntou para Amanda e para si mesma que teriam de sair de lá, mas não sabiam como; além disso, elas teriam de se retirar daquele planeta. Não tinham outra alternativa, ou se arriscavam por aquele orifício, ou viveriam naquele mundo indiferente à presença delas.

Pularam, abraçadas, dentro do orifício. Não desejavam saírem, cada uma delas, em um lugar. Envolveu-as a escuridão. Os corações a baterem acelerados, os corpos trêmulos, a respiração ofegante, choraram, imaginando que a vida delas dissipava-se. Estreitaram-se, num abraço apertado. Encerrada a travessia pelo orifício, apenas um corpo surgiu; não era nem o de Amanda, nem o de Natacha. Era um corpo de mulher, e dentro dele havia duas mentes, a de Amanda e a de Natacha. Um corpo, duas mentes. Amanda e Natacha dialogavam, confusas, sem saberem o que lhes ocorrera. Transcorreram-se vários minutos antes de elas perceberem que habitavam um corpo, que resultou da fusão dos corpos delas. Fundiram-se os corpos; as mentes, não.

De repente, o corpo atravessou uma parede escura, e chegou ao Viajante Espaço-Temporal.

– A nave – disse Natacha.

– Natacha, nós permanecemos dentro do mesmo corpo – comentou Amanda.

Amanda-Natacha foi até o Viajante Espaço-Temporal. Perguntavam-se cada uma para si mesma e uma para a outra durante quanto tempo compartilhariam o mesmo corpo.

– Quando nos retirarmos deste planeta – presumiu Amanda -, recuperaremos, eu, o meu corpo, tu, o teu.

Amanda-Natacha entrou na nave, e acionou os comandos, e rumou à Terra. Na Terra, do veículo retirou-se uma mulher, Amanda-Natacha.

*

Amanda-Natacha, que se apresentou como Amanda, mostrou o disco, no qual havia gravadas cenas da viagem, para outros cientistas, que lhe indagaram porque ela mudou de aparência. Amanda disse que o planeta provocara-lhe mudanças no seu aspecto físico. Perguntaram-lhe de Natacha. Com as mãos ao rosto, Amanda chorou convulsivamente. Olharam-la, enternecidos. Dias depois, celebraram o enterro simbólico de Natacha. Amanda relatou a sua aventura e de Natacha para platéias de todo o mundo. Todas as leis da física, da química, da biologia os cientistas as reconsideraram à luz das imagens da viagem de Amanda e Natacha ao planeja Djidhikalji.

Nas viagens subseqüentes do Viajante Espaço-Temporal, Amanda-Natacha não foi a Djidhikalji, planeta que, acreditavam Amanda e Natacha, havia desaparecido, pois dias depois de seu regresso à Terra, elas programaram o Viajante Espaço-Temporal com as coordenadas de Djidhikaji, e não o encontraram. Ou o planeta desaparecera, ou deixara de existir, ou, então, se vivo, dotado de consciência, deslocara-se para outra galáxia, ou para outro universo, ou para outra dimensão, para que os humanos não o encontrassem.

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