Escrever bem. Tensão nos Balcãs. 2.000 Mules. Guerra na Ucrânia. Notas breves.

No texto, publicado, no Facebook, “Como Escrever com Clareza.”, na página “Língua e Tradição”, Lara Brenner fala da importância do ato de escrever, mas não escrever sem um propósito definido, e, sim, tendo em mente um tema importante, que toca fundo no espírito de quem se põe a escrever, a ponderar as argumentações apresentadas, com sinceridade e coragem autênticas, e pensamentos ordenados numa sequência lógica, buscando-se o conhecimento de si, enfrentando os seus demônios – e para tanto tem de se conhecer as regras básicas da gramática, para que se possa expor os pensamentos com segurança, o que se alcança, com certo esforço e dificuldade, é verdade, se, e apenas se, se é franco para consigo mesmo quem se dedica a escrever. E menciona um estudioso, James Pennebacker, que, nos anos 1990, persuadiu doentes a participar de um teste de escrita, que se conhece pelo nome de psiconeuroimunologia, importante remédio anímico, e obteve resultados satisfatórios. Ao ler tal texto, evoquei a figura de Olavo de Carvalho, escritor, filósofo e professor de extraordinária formação literária, que exortava alunos seus e seus leitores, e seus admiradores, enfim, qualquer pessoa a, de tempo em tempos, escrever um necrológio, cada um o seu, a refletir sobre sua vida, um exercício poderoso para o autoconhecimento, uma atividade salutar. E lembrei-me de Rodrigo Gurgel, professor, escritor e crítico literário fora-de-série, que não se nega a, e tampouco se cansa de, falar da importância de se escrever diários e memórias.

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Está a aumentar, li em algum lugar, as tensões nos Balcãs. As Forças Armadas sérvias estão a realizar exercícios militares.

Não foi há muito tempo que o povo daquela região, um caldeirão étnico e cultural, viveu um mortícinio durante conflitos sangrentos insuflados, li, por nações ocidentais, Estados Unidos em particular. E esfacelou-se a Iugoslávia. Desentranhou-se. E as nações que de tal esfacelamento resultaram estão sempre na iminência de se auto-destruírem. Para irem às vias de fato, basta uma fagulha; e qualquer coisa, um piscar de olhos mal interpretado, pode vir a detonar novo conflito sangrento entre os povos balcânicos.

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O documentário 2.000 Mules, de Dinesh D’Souza, que não assisti, mas do qual já li comentários, está a dar o que falar, e a pôr em pé os cabelos de muita gente, até os de carecas, e a roubar o sono de gente que, conquanto diabólica, até outro dia, enquanto dormia, sonhava com os anjos. Dá notícia o documentário – foi o que eu li – da ocorrência de fraudes nas eleições americanas de 2.020. Exibe os “mulas” do Partido Democrata a executarem atos indignos de pessoas que respeitam as regras democráticas.

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Ao contrário do que muitos comentadores, estudiosos e especialistas afirmaram, na antevéspera, na véspera, e durante os preparativos militares, da eclosão da guerra que ora varre a Ucrânia, Vladimir Putin, assim pensam alguns observadores, jamais pretendeu tomar de assalto a Ucrânia, e conquistar Kiev em no máximo uma semana, e tampouco reconstruir, nos anos subsequentes, a União Soviética. Todos os blogueiros, jornalistas e youtubers e similares que defenderam tal tese limitaram-se a ecoar a narrativa da imprensa ocidental, que está nas mãos de multibilionários ocidentais, os mesmos que têm na Rússia, e não em Vladimir Putin, independentemente de quem ocupa a cadeira principal do Kremlin, um inimigo a ser abatido; e foi com a unanimidade midiática que Volodymyr Zelensky se converteu em um herói da estirpe de Winston Churchill, mas que, já se percebe, não passa de um capacho dos globalistas ocidentais, dos metacapitalistas, que ambicionam pôr todas as nações sob o garrote de um Estado Global, e que não medem esforços para atingir os seus objetivos.

Pretende Vladimir Putin, dizem alguns comentadores, unicamente, avançar, aos poucos, lenta, e constantemente, e inexoravelmente, para dentro do território ucraniano, a partir do leste, fronteira da mãe da Rússia com a Mãe Rússia, e com seus meios ir eliminando, durante o avanço, os militares ucranianos, os mercenários estrangeiros e os neonazistas – que, parece, não são personagens fictícios de uma trama russa diabólica, conspiracionista, mas pessoas de carne e osso que há um bom tempo estão a aterrorizar os ucranianos, principalmente os do leste, em Donbass e Donetsk -, deixando, assim, segura, a retaguarda, evitando, consequentemente, surpresas desagradáveis – se dominasse toda a Ucrânia antes de eliminar a resistência militar ucraniana e os combatentes estrangeiros, o exército russo enfrentaria, posteriormente, dificuldades insuperáveis para conservar o controle do território ucraniano, e manter a ordem social, e teria problemas maiores, infinitamente maiores, do que o que enfrentou ao pôr os pés na Ucrânia. Os que declararam que a OTAN armou uma arapuca para Vladimir Putin, e ele nela caiu como um patinho, equivocaram-se, presume-se, redondamente, pois partiram do princípio que era intenção dele conquistar a Ucrânia da noite para o dia, começar a guerra na segunda-feira à noite e dá-la, vitorioso, por encerrada, na terça-feira de manhã. Se não foi essa a intenção primordial de Vladimir Putin, por que, então, o exército russo avançou, pelo norte, território ucraniano adentro, contra Kiev? Entendem alguns estudiosos de estratégia militar que os militares russos que participaram de tal manobra, seguindo à risca um plano desenhado no Kremlin, tinham a função de obrigar as Forças Armadas ucranianas a manter em Kiev batalhões ucranianos, que, para bloquear o avanço russo, não poderiam auxiliar os batalhões ucranianos que combatiam no leste – e estes não recebendo reforços, as duas posições militares ucranianas, a do leste e a de Kiev, ficaram em desvantagem frente ao exército russo.

Após os mais de dois meses de conflito, a Rússia segue, lenta, e gradativamente, o seu avanço por terras ucranianas, com segurança, e destrói aeroportos e ferrovias, impedindo que o carregamento de armas enviadas por Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e alguns poucos outros países chegue às tropas ucranianas.

E é resultado visível, e preocupante, e direto, do conflito, a elevação dos preços das commodities russas, gás, petróleo, matérias-primas e produtos alimentícios, pelos quais agora a Europa paga mais caro do que pagava há poucos meses. E é preocupante a redução da produção de alimentos da safra ucraniana; e já se avizinha crise de abastecimento de produtos alimentícios nos países mais pobres – escassez e encarecimento de alimentos.

E para encerrar esta nota breve, notas brevíssimas: Militares ucranianos, em Azovstal, usam a população de escudo humano; a Ucrânia perde, todo santo dia, uns quinhentos soldados; mães e esposas de ucranianos revoltam-se contra o governo ucraniano, que está a recrutar seus filhos e maridos, e a enviá-los para a frente de batalha, para a morte certa, pois eles, antes, não recebem apropriados treinamento e armamentos – são apenas buchas-de-canhão, homens descartáveis; as sanções que alguns países europeus impuseram à Rússia afetam mais eles mesmos do que a Rússia; mercenários estrangeiros, que acreditaram que teriam vida fácil na Ucrânia, e que passeariam por lá, regressam, com o rabo entre as pernas, aos seus países de origem.

Muitas das informações que registrei, nesta nota breve, eu as tirei de textos de Kleber Sernik, e de outras fontes.

Para me informar acerca do que se passa na Ucrânia, não necessariamente em terras ucranianas, mas ao conflito que envolve Rússia e OTAN, que tem na Ucrânia seu principal, em termos bélicos, campo de batalha, leio textos do já citado Kleber Sernik, e de Kassandra Marr, Karina Michelin, Naomi Yamaguchi, Maurício Alves, e outros.

Admirável mundo novo. Rússia x OTAN. E outras notas breves.

Durante os anos de epidemia, além de crescerem exponencialmente as transações financeiras e comerciais via meios digitais, o que para muitos é contraproducente, elevaram-se as vozes favoráveis ao famigerado passaporte vacinal, o que se configura para não poucas pessoas um instrumento de vigilância, de controle populacional, um exercício, em estágio embrionário, de monitoramento de pessoas, exercício que irá integrar as estruturas constritoras de um estado global autoritário, o que, é questão de tempo, será erguido, doa a quem doer. E a facilidade com que centenas de milhões de pessoas, flageladas pelo terror midiático, que promoveu histeria coletiva, submeteram-se aos mandos e desmandos de políticos secundados por renomados médicos e cientistas alçados, da noite para o dia, à condição de heróis, é, inequivocamente, um sinal agourento para os autênticos defensores da liberdade, e alvissareiro para os propugnadores do estado autoritário tecnocrata transhumanista, sob cujo jugo todo indivíduo despersonalizado, roubada de si a consciência individual, viverá, pusilanimemente, respondendo a estímulos pavlovianos. É esta uma visão fatalista, determinista, da história da espécie humana. Está o ser humano fadado a perder a sua essência humana, os dons que o fazem humano, ou é tal futurismo abstração fantasiosa, quimérica, que vai às raias do absurdo, do surrealista, fruto de cérebros imaginosos?

As transações financeiras por meios digitais acenderam o sinal de alerta na cabeça de muita gente, que prevê, e para um tempo não muito distante, a extinção do dinheiro em papel, o que será uma catástrofe, pois todas as informações referentes às finanças de todos os cidadãos da aldeia global estarão armazenadas em supercomputadores dotados de inteligência artificial, propriedades de gente extraordinariamente ricas, que, na comparação com o Tio Patinhas, o muquirana mais amado da história, dono de quaquilhões que transbordam de sua caixa forte, alvo preferencial dos Irmãos Metralha, são faraós, e tão podres de ricos, que governam, por meio de chefes-de-estado, seus testas-de-ferro, o destino de nações e povos. E se um cidadão cair em desgraça ao contrariar os interesses de algum potentado, o dinheiro, em meios virtuais, desaparece, como se nunca tivesse existido, num estalar de dedos, num piscar de olhos, num passe de mágica. Seria o fim da liberdade. Todo o cidadão estaria à mercê de tiranos. E qual é a outra alternativa? Virar as costas para o futuro que se esboça, hoje? Ou dar-se um jeito de se adaptar ao meio que está a se criar, sem por ele se deixar subjugar, oprimir, massacrar? Ou erigir outra civilização que dispensa os recursos tecnológicos do admirável mundo novo no qual muita gente sonha viver. Quem nunca sonhou com as comodidades que a civilização da era dos Jetsons oferece? E quantos são os que preferem viver na era dos Flinstones?

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Aumenta a Gazprom, empresa petrolífera russa, consideravelmente, desde o início da conflagração que varre o território ucraniano, a venda de gás à China, que está a substituir os europeus na condição de clientes dos russos, o que, para muitos, irá pôr a Rússia na dependência da China, desta vindo a se tornar um mero satélite. E há uns meses, e antes do início do conflito russo-ucraniano, alguns estudiosos ocidentais alertaram para a política temerária do ocidente, a de ameaçar a onça com vara curta, e encurralá-la, melhor, ameaçar o urso russo, pois o obrigaria a jogar-se no colo dos chineses, ou, o que era mais provável, Moscou estreitar laços estratégicos com Pequim, constituindo um bloco anti-ocidental poderoso – e parece que é este o cenário que está se desenhando.

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O governo da Bulgária, e o da Hungria, e o da Eslováquia, e o da República Tcheca – quatro países que, além de dependerem do gás russo, estão no caminho pelo qual o gás russo é transportado, da Rússia, para a Europa ocidental, estão em uma posição desconfortável. São tais países a chave para expôr a maracutaia européia, inconfessada, que a mídia esforça-se por ocultar. Noticia-se que a Europa não abre mão da política de sanções contra o gás e o petróleo russos e que os governos dos quatro países citados acima são refratários, os desavergonhados, à política de sanções, porque tais países dependem do gás russo. Mas a verdade, a verdade verdadeira, ensina que tal narrativa é jogo-de-cena, e que a Europa dispensou da aplicação de sanções ao gás russo os governos da Bulgária, da Hungria, da Eslováquia e da República Tcheca, para que ela possa destes países comprá-lo – para todos os efeitos, compra a Europa dos quatro países, não o gás russo, mas, respectivamente, o gás búlgaro, o gás húngaro, o gás eslovaco e o gás tcheko. Meninos espertinhos os europeus ocidentais, ninguém há de negar. Conquistar a fama de heróis a lutarem contra o poderoso urso russo, ao mesmo tempo que se conservam aquecidos com o gás russo. Há um porém, todavia: agora, pagam os europeus uma nota preta pelo gás que antes compravam por uma pechincha. Não são tão espertinhos os espertalhões.

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Grupos pró-Rússia, que têm, na mãe Rússia, a salvação da civilização humana, e no Ocidente, resumindo-o aos Estados Unidos da América, o demônio a ser vencido, e em Israel uma terra amaldiçoada, e seu governo maldito, e seu povo desprezível, estão a ver com bons olhos o estreitamento dos laços diplomáticos e estratégicos do governo da Rússia com os da Síria e do Irã, e o apoio dos russos ao Hezbollah e à resistência palestina, sabidamente governos e grupos que almejam concretizar o sonho, há muito acalentado, de varrer Israel do mapa. E elogiaram tais russófilos a ida de uma delegação do Hamas a Moscou e a recepção amigável, para uns calorosas, que o representante especial do presidente russo para o Oriente Médio e África, Mikhail Bogdanov, dipensou-lhe. E justificaram a ação do governo russo: o governo israelense oferece apoio militar a grupos ucranianos nazistas que se batem com a Rússia, então, não há razão para se reprovar o governo russo, que acolhe em seu seio os inimigos de Israel. E há poucos dias causou desconforto em autoridades israelenses uma declaração de Sergey Lavrov, a de que era Adolf Hitler judeu.

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Denunciam grupos pró-russos atrocidades cometidas pelo exército ucraniano, na aldeia de Terny, no distrito de Limansky, em Donetsk. Procedem as denúncias? Sabe quem lá está.

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Estão a bombardear, com drones, território da Transnístria. Dizem, uns, que são os russos que o bombardeiam; outros, os ucranianos. Quem diz a verdade? O que deseja quem ataca o território oeste da Ucrânia, na fronteira com a Moldávia (ou é território leste da Moldávia a Transnístria, na fronteira com a Ucrânia? Tão confusas estão as coisas por aquelas bandas que já não se sabe qual território pertence a qual país). A quem interessa a escalada do conflito? Aos russos, aos ucranianos, aos alemães, aos ingleses, aos americanos, aos gregos, aos troianos?

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Ataca um vilarejo armênio o exército do Azerbaijão.

Há ouro no subsolo da região fronteiriça entre Azerbaijão e Armênia – ouro em boa quantidade, presumo, quantidade imensurável de ouro, toneladas e mais toneladas, o que valeria uma guerra entre as duas nações que querem assumir total controle sobre a região. Entre as duas nações, ou entre as pessoas que pretendem retirar de sob a terra o diamante dourado, um russo, que tem o direito de explorar a região do lado armênio da fronteira, e um iraniano, que da fronteira explora o lado azerbaijão – e os governos dos dois países limitam-se a satisfazer-lhes os desejos.

As guerras acompanham os humanos desde Caim e Abel, e suas causas são as mais variadas, e vão desde a inveja entre irmãos até as ambição e ganância desmedidas de homens e mulheres de todas as raças, credos e ideologias. O ouro é só um dos objetos que faz com que os homens, de tanto cobiçá-lo, matem-se.

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A Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e o Ibama executaram, no estado do Pará, a bem-sucedida Operação Madeira do Norte II, contra desmatamento ilegal, e prenderam, em flagrante, uma pessoa envolvida no esquema, e apreenderam boa quantidade de madeira da floresta extraída ilegalmente.

Ministro Tarcísio e a jornalista. Colégio católico processado. Rússia x OTAN. Notas breves.

Uma jornalista – não lhe sei o nome, e não quero sabê-lo, e tenho raiva de quem o sabe – perguntou para Tarcísio Gomes de Freitas, homem que, na condição de ministro da infraestrutura do governo do presidente Jair Messias Bolsonaro, ergueu obras que muitos benefícios estão a oferecer aos brasileiros, o que um policial tem de fazer em um tiroteiro, num embate contra criminosos, se tem o policial de atirar para matar o criminoso, e ele lhe respondeu que tem o policial de atirar para se defender, se defender do criminoso; e aqui Tarcísio Gomes de Freitas inteligentemente inverteu os papéis, para contrariedade da jornalista, e dos bandidólatras anti-polícia, que esperavam que ele – e eu não fui a única pessoa a aventar tal hipótese – dissesse que tem o policial de atirar para matar o bandido. A pergunta, claro, foi capciosa; feita para gerar manchetes bombásticas, e rotular Tarcísio Gomes de Freitas um homem truculento, incivil, que quer resolver tudo à bala – para repetir um slogan, usado em campanha de 2018, por um dos oponentes de Jair Messias Bolsonaro -, um homem de mentalidade assassina, e genocida, que se eleito governador do Estado de São Paulo, irá implementar uma política má-vista pelos que se dizem defensores da justiça social, política que redundará no aumento exponencial da letalidade da polícia estadual, a converter o Estado de São Paulo num território sem lei, tal qual o Velho Oeste americano tão popularizado pelas películas de Hollywood, e serão seus heróis brasileríssimos êmulos de John Wayne e Clint Eastwood.
Saiu-se bem o capitão Tarcísio Gomes de Freitas, para frustração daqueles que lhe querem mal.
Não houvesse tanta militância bandidólatra na mídia, na intelectualidade, e entre artistas e políticos e homens-da-lei, o popular Tarcísio do Asfalto não precisaria usar de uma sutileza retórica para expressar o seu pensamento. Mas sabe ele com que tipo de gente está tratando.

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Organizações representativas dos LGBT (e não sei quantas outras iniciais, todas em maiúsculas), informa Ludmila Lins Grilo, processaram um colégio confessional católico, que, ao contrário de muitos colégios católicos que se prosternaram, pusilanimemente, diante dos bezerros de ouro politicamente corretos, defende os valores cristãos e reprova a agenda identitária das chamadas minorias.

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Notícias da Guerra Rússia x OTAN.
Pensei em escrever “Notícias da Guerra entre Rússia e Ucrânia.”, e recuei em meu intento: elevei a caneta esferográfica logo ao escrever “Guerra”, e reconsiderei o que eu pensava, e substitui Ucrânia por OTAN. Presumo que toda pessoa que se informa a respeito do conflito que ocorre em terras ucranianas já entendeu que é o território ucraniano o campo de batalha, e os beligerantes agrupados em dois exércitos hostis, o russo e o, direi, ocidental (ou, melhor, otaniano), sendo os ucranianos nada mais do que buchas de canhão, e que quem dá as cartas nas estepes eslavas é um ex-agente da KGB que atende pelo nome de batismo Vladimir Putin, e no lado ocidental alguém, que os pobres homens comuns que habitam a face da Terra jamais viram mais gordo, e não o atual ocupante da Casa Branca, criatura que mais parece um espantalho morto-vivo do que o presidente dos Estados Unidos da América.
E hoje li uma notícia interessante a respeito do que se passa em território dos compatrícios de Gogol. A OTAN enviou para a Ucrânia, para renovar o estoque de munições das tropas ucranianas, munições suficientes para uma semana, e elas desapareceram em um dia, viraram pó, literalmente, escafederam-se para não terem de enfrentar os chechenos, os terríveis chechenos. Suspeita-se que dispararam os ucranianos a esmo, aterrorizados frente ao inimigo mais poderoso, e inabalável, ou desviaram os projéteis para o mercado negro os espertalhões, ou os russos as tomaram para si ao sobrepujarem as tropas ucranianas e assumirem o controle das regiões onde elas se encontravam. Não se sabe qual é a explicação correta para o caso, às mãos de quem as munições foram parar; sabe-se apenas que desperdiçaram-se as munições.
E dois brasileiros já fizeram história na Ucrânia, dois heróis tupiniquins, homens de bravura indômita invejável, e das façanhas que eles realizaram, de seus feitos heróicos, os brasileiros nos orgulhamos. Um deles é um deputado estadual paulista, que à Ucrânia foi, num esforço de guerra louvável, produzir artefatos bélicos primitivos – mas estranha é a sua decisão de regressar à sua pátria amada, tão querida, poucos dias após a sua ida em auxílio aos ucranianos às voltas com o gigante russo. Que ele permanecesse por lá, nas terras ucranianas, pois os ucranianos pedem, ainda hoje, por apoio de humanistas abnegados, gente aguerrida, e destemida, e brava, muito brava, da estirpe do nobre deputado paulista que carrega nas suas veias o sangue dos bandeirantes. Outro brasileiro que tem seu nome inscrito nos anais da guerra é um praticante de paintball, homem que, disposto a ajudar o lado certo do combate, homem de coragem templária inexcedível, logo que ouviu o zunido de projéteis aos ouvidos, tratou de arrumar as trouxas, e passar sebo nas canelas, e, às pernas que te quero-as! disparar como um condenado, mais branco do que burro quando foge, às terras que Pedro Álvarez Cabral conquistou para a coroa lusitana há um pouco mais cinco centúrias e que tem entre seus mais famosos filhos Pelé e Garrincha.
E é da Ucrânia que nos chega, acredita-se, quatro notícias que dá a entender que é Kiev, não uma terra sob tensão, com mísseis escarrados para todos os lados, de todos os lados, mas um parque de diversões: toda pessoa ilustre vai à Ucrânia a passeio: ora é um ator e diretor de cinema que diz ter o fim de registrar cenas de guerra para a produção de um documentário; ora a primeira-dama de uma das nações envolvidas no conflito, mulher que atravessou o Atlântico para se deixar filmar, e aparecer bem na foto; ora é uma atriz, que foi ver não se sabe o que, mas para lá ela foi, e recebeu a atenção de quem manuseava os holofotes; ora um cantor, que usava óculos, para cantar, nos subterrâneos do metrô, algumas criações artísticas não sei se dele, ou de outro músico, ou cantor, ou letrista, sei lá. Que farra! Parece que a guerra não é assim tão belicosa; não tem o tom fúnebre que a mídia dá a entender que tem. E uma pulga atrás da minha orelha, a casquinar, pergunta-me, a ladina, se todos os personagens ocidentais, famosíssimos todos eles, que visitam Kiev foram a Kiev, ou à outra localidade ucraniana, ou para outro país, ou para um estúdio de cinema, e lá permaneceram, que seja por algumas horas, e de lá transmitiram as imagens, que correram mundo, da visita deles a Kiev, os nomes deles a estamparem o título de incontáveis reportagens.

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A Alemanha envia para a Ucrânia armas autopropulsionadas, de fabricação, umas, alemãs, outras, americanas. Para a Ucrânia, a OTAN envia sucata; bons – ou maus, exemplos são os javelins, que se popularizaram nestes dias, a imprensa a louvá-los. E à Ucrânia também envia a OTAN armamento pesado, o obuseiro M-777, que exigirá manutenção constante e dos seus operadores conhecimento especializado, e o seu uso pelos ucranianos lhes redundará em dificuldades, e eles serão vítimas da ignorância no manuseio de tais equipamentos, autênticos presentes de grego.

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O presidente americano Joe Biden reativou uma política americana dos tempos da Segunda Guerra Mundial, a do Lend-Lease, para facilitar a venda de maquinário bélico à Ucrânia, política que o Tio Sam implementou, na última grande guerra, para vender armas aos aliados e à União Soviética.

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Li reportagem que vende a seguinte informação: Não interessa ao Vladimir Putin uma guerra rápida; para ele é vantajosa uma guerra de longa duração. Para ele, e apenas para ele? E para as indústrias bélicas americana e européia não é vantajosa a guerra duradoura, e o envolvimento, nela, e indefinidamente, de inúmeras nações, melhor, de todas as nações? A guerra é um grande negócio.

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Diz-se por aí que há, na Ucrânia, biolaboratórios, financiados pelos países membros da OTAN, a produzirem armas que afetam pessoas de certas etnia. Serão usadas, algum dia? Ou já estão em pleno uso, mas ninguém avisou os bípedes implumes filhos-de-Deus, ou esqueceram, os desmemoriados patrocinadores de tais pesquisas, de avisá-los. E um passarinho espalhou pelo mundo uma notícia do grotesco e do arabesco: a Rússia encontrou, em território ucraniano, tais laboratórios, o que pôs os líderes ocidentais, isto é, os dos países membros da OTAN, de cabelos em pé, a ponto de se descabelarem; e até Vladimir Putin tratou do assunto, é o que dizem reportagens, em público. Se procede tal notícia, o Vladimir Putin pôs os líderes do Ocidente contra a parede, sob ameaça de trazer a público fotos, documentos e vídeos de tais laboratórios, e chantageou-os, e eles, temendo a exposição pública, cederam-lhe à chantagem e fizeram alguns favores?! Não há mal em se fazer tal pergunta.

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Na Alemanha, há inflação de preços de alimentos, dos quais, de alguns, já atinge a casa dos dois dígitos, o que preocupa autoridades, que estão a vislumbrar nuvens escuras a acumularem-se no horizonte, agourentas, ameaçadoras, e aproximarem-se rapidamente. É a inflação consequência da política do, como se diz em terras de José de Alencar, tranca-rua, e das sanções econômicas que os principais países europeus estão a impôr à Rússia, sanções que, declaram alguns estudiosos, estão a afetar negativamente mais a economia dos país que impõem as sanções do que a do país alvo delas.

Rodrigo Gurgel e três escritores brasileiros fundamentais. Lula, e a aula magna. Bandidos, e bandidos. Rússia x OTAN. Digitalização do mundo. Notas breves.

Diz, em um vídeo de, aproximadamente, uma hora e meia de duração, o professor e escritor e crítico literário Rodrigo Gurgel, respeitável, e de excelente e admirável cultura literária, que são três os escritores fundamentais da literatura brasileira, e deles ele apresenta breve biografia e acerca das obras deles dá comentários percucientes, com simplicidade, e autoridade: Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Graciliano Ramos. Fala, com propriedade, de Memórias de Um Sargento de Milícias, obra do primeiro, e de sua importância na formação literária de Machado de Assis, e do apoio que este recebeu de Manuel Antonio de Almeida, que foi, dir-se-ia, seu patrinho no mundo das letras. Além de outras observações que ele fez dos três mestres da literatura nacional, esta é a que mais me chamou a atenção.
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Uma notícia do balacobaco: Lula, ex-presidente e candidato a presidente – e não presidente como a ele não poucos intelectuais e jornalistas se referem -, apresentou, na Unicamp, à convite de entidades estudantis, e de servidores da universidade, e de associações de alunos e professores, e de sindicatos, uma aula magna; e seus fãs, os universitários, aplaudiram-lo efusivamente, apaixonadamente. O que ele ensinou aos que o ouviram, não sei o que foi, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe; sei, apenas, que, em ambientes universitários, políticos e intelectuais e artistas renomados, sendo de esquerda, socialistas, progressistas, politicamente corretos, desarmamentistas, seguidores da ciência, da turma dos antifas e dos vidas negras importam, sempre são bem acolhidos, com amor e carinho incomuns; já aos dissidentes, os que não comungam as mesmas ideologias, os universitários dedicam ódio visceral, e atiram-lhes pedras e facas, impelidas por ofensas impublicáveis, numa exibição, e há quem pense diferente, de tolerância e respeito invejáveis, afinal são justiceiros sociais a lutarem pela ereção de um mundo melhor, sem desigualdade de renda, sem preconceitos. Tal episódio fez-me evocar o tratamento nobre que universitários dedicaram, em uma universidade, se não me falha a memória, de Pernambuco, àqueles que iriam exibir o, e assistir ao, filme O Jardim das Aflições, que fala do pensamento e da obra de Olavo de Carvalho. De fato, são as universidades guardiãs do conhecimento e o paraíso da inteligência, ambientes onde os sábios sentem-se bem.
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É ou não é o mundo dos justiceiros sociais uma coisa de louco?! Parece mentira, mas não é: em algum canto deste imenso Brasil, em um dos estados do Sul, me parece, um distinto personagem, ao vislumbrar um sinal dos deuses, a mente iluminada, pensou uma idéia brilhante, que ele deu um jeito de apresentar com a seriedade que lhe faz a susbtância: em um tiroteiro entre bandido e policial, o bandido, ao manusear a arma-de-fogo, e disparar a esmo, sem mirar o policial, e vir a alvejá-lo e matá-lo, não será tratado, pelos órgãos competentes, cuja competência é proverbial, como um assassino, pois não será o seu ato, que resultou na morte do policial, considerado um homicídio, pois ele, ao não mirá-lo, não tinha o fim de matá-lo; pretende o bandido, em tal caso, apenas resistir à ação do policial, cuja morte é um acidente de percurso, um efeito colateral da ação de resistência do bandido, eterna vítima da sociedade cristã e patriarcal.
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O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, informa que sanções européias ao petróleo russo redundará em prejuízo para a Hungria, que não tem meios de aguentar o impacto que tal medida trará a sociedade húngara. Mas a OTAN parece disposta a insistir em suspender compra de petróleo russo, e a arrastar a Hungria para o conflito. E não é de hoje que a Europa ocidental, corroída pelo anti-cristianismo, bate na Hungria, que estima uma política mais tradicional, voltada para o cristianismo.
E outra notícia importante: a Polônia, a Hungria e a Romênia estão a reivindicar pedaços do leste da Ucrânia, onde entrariam, li, com o escudo de uma força de paz da OTAN. Há quem diga que se isto se der, a coisa degringola de vez.
Se as duas notícias acima são de estarrecer, o que dizer das que dão a conhecer que os serviços de inteligência dos Estados Unidos da América auxiliaram as forças militares ucranianas a caçar, e matar, generais russos, e a atacar, e afundar, o Moskva, navio russo, um símbolo do poderio naval dos bárbaros das estepes?!
E daquelas regiões belicosas e de seus arredores, chega-nos duas notícias: a OTAN pensa em enviar à Ucrânia obuzeiros Panzerhaubitze 2000, de fabricação alemã; e, na Espanha, é preso o blogueiro Anatoly Shariy, crítico de Volodomyr Zelensky, acusado sei lá eu de quê.
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Durante a epidemia do novo coronavírus, houve avalancagem extraordinária das transações comerciais intermediadas por criptomoedas, e de serviços digitais, e de relações de compra-e-venda por meio de aplicativos, assim avançando a economia mundial em um projeto que visa a sua total digitalização, todas as transações realizadas via serviços digitais, com a consequente supressão da moeda em papel, o que atende aos objetivos da ONU 2.030. Para muitos, o mundo que se avizinha é deveras preocupante, assustador: um Estado global totalitário a gozar de poder absoluto jamais imaginado por faraós e reis e imperadores e líderes ditadores do tempo dos nossos tataravós.

A origem das guerras

Era uma vez, dois meninos sapecas levados da breca, Caim e Abel. Um dia, Abel, de posse de uma caneta esferográfica azul, rabiscou o álbum de figurinhas de Caim, que, enraivecido, tomou de um trabuco, e disparou contra o peito de Abel, que caiu, mortinho da silva.

E assim começaram as guerras.

Nota de rodapé: dizem por aí que a coisa não se deu assim. Para maiores informações, o Gênesis.

Rússia x Ucrânia. Guerra do século? Notas breves.

Enquanto no Brasil desperdiça-se tempo, e muito tempo, e dinheiro, muito dinheiro, com inúteis querelas, e nas escolas, e nos parlamentos, envolvendo ideologia de gênero e pronome neutro, países ricos investem trilhões de dólares em ciência e tecnologia, boa parte delas para fins militares.

Estamos assistindo à escalada de tensão envolvendo, na Europa, Rússia e Ucrânia, e OTAN, e Estados Unidos, e Alemanha e Finlândia e outros países europeus – e o mundo esqueceu completamente da China e de Taiwan, outro emblema da política moderna, que, prevêem, logo se precipitará num conflito aberto. São inúmeras, incontáveis, as teses a tratar do conflito que tem na Ucrânia seu epicentro, e todas, parece, carecem de fundamento, muitas a excederem em informações históricas e geopolíticas. Mas qual delas retrata os fatos? Impossível saber. Evoca-se uma promessa que a OTAN fez, há décadas, a Mikhail Gorbatchev, de jamais avançar para o leste; e o acordo de Minsk, assinado, dentre outros, por Vladimir Putin, em que este se comprometeu a jamais invadir a Ucrânia; e a entrega, pela Ucrânia, de suas ogivas nucleares, de ogivas nucleares; e a identidade cultural e étnica entre russos e ucranianos; e a política, jusrificável, de reintegração, pela Rússia, de terras que eram suas, terras há décadas dadas à Ucrânica, a do leste, por Lênin, e a da Criméia, por Kruschev; e a posse, pela Rússia, e desde os tempos de Pedro, o Grande, das terras ucranianas; são muitas, enfim, as explicações, algumas favoráveis à Putin, outras a ele desfavoráveis. E não são poucos os que afirmam que uma guerra entre Rússia e OTAN (entenda-se: Estados Unidos da América) é do interesse de Vladimir Putin e de Joe Biden, ambos a enfrentarem sérios problemas internos em seus respectivos países – uma guerra, agora, dar-lhes-ia os elementos de que precisam para silenciarem oponentes e dissidentes, e calar o povo, e impedir a ascensão de adversários e inimigos políticos, e perpetuarem-se no poder.

Li muitos textos, artigos de estudiosos de política internacional, de historiadores, e de comentaristas, de pessoas, enfim, muitas delas, independentemente de sua escolaridade – chancelada por ministérios e secretarias de educação – (e para se inteirar de um assunto, a dedicação ao estudo sério é fundamental, e dispensa diplomas), cientes de suas responsabilidades, debruçam-se sobre calhamaços de História, Geografia e assuntos tributários, e reúnem informações acerca do conflito que ora envolve Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, além de outras nações, e sinto-me um dos cegos da lenda hindu, ou árabe, não sei, e entendo ser todo aquele que trata do assunto um dos outros cegos. Diz a lenda que três cegos, enquanto caminhavam pela floresta, tocaram, acidentalmente, um elefante, o primeiro tocou-lhe a tromba, o segundo a barriga, o terceiro a cauda. E afastou-se deles o elefante. Depois, diante do rei, os três cegos descreveram-lhe o animal que haviam encontrado em suas andanças, cada um deles apresentando, dele, uma descrição, o que fez o rei concluir que eles haviam encontrado três animais, cada um de uma espécie. Não sei dos detalhes de tal história, que eu li, em algum lugar, há um bom tempo; e ela sempre me vêm à mente quando estou a ler, e não de qualquer pessoa, comentários acerca de questões atuais de extrema complexidade, tal qual a conflagração que envolve Putin, Biden, Zelenski, e, de raspão, o Bolsonaro. São, todos, os cegos da lenda, daí a prudência de muitos deles em evitarem postura de donos-da-verdade.

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Se a guerra que ora envolve Putin se ampliará, e envolverá outras nações não se sabe. Há quem diga que Putin abriu a caixa de Pandora, de livre e espontânea vontade; há quem diga que ele foi forçado a abri-la, e por Joe Biden – melhor, por quem dá as cartas na Casa Branca. Eu, um simples mortal, acompanho, de longe, muito longe, o desenrolar dos eventos, certo de que não sei quais informações que me chegam ao conhecimento procedem, quais são em apoio à narrativa de um dos personagens beligerantes. Sei que toda a mídia que acesso dá Putin como o vilão; sei, também, que a mídia que me chega é ocidental, favorável, mais do que ao presidente americano, aos miliardários que o mantêm no poder. Sei que numa guerra a verdade é a primeira vítima. Limito-me, portanto, a ler a respeito, sem tomar partido algum. Em tal história, não é absurdo pensar, não há heróis. Leio e ouço pessoas que me parecem confiáveis; e percebo que elas batem cabeça, dia sim, e outro também. Compreensível; afinal, são meros mortais.

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Emmanuel Macron (protótipo de Napoleão Bonaparte), o homenzinho que desgoverna a França, reiteradas vezes declarou que a Amazônia não pertence ao Brasil, e o fez para quem quisesse ouvi-lo. Políticos americanos também já explicitaram tal pensamento. E representantes de organizações internacionais igualmente o fizeram. Ninguém ignora que as riquezas amazônicas as cobiçam capitalistas e socialistas de todo o mundo. E é do conhecimento público que organizações não-governamentais apóiam a criação, no norte do Brasil, na sua fronteira com Venezuela e Colômbia, de nações indígenas. Ora, se o líder de uma de tais nações declarar independência e recorrer às organizações globais para obter reconhecimento de sua independência, é certo o apoio delas a ele, o reconhecimento internacional será imediato, e imediato também será o envio de forças de paz, pelos órgãos internacionais, para proteger o novo recém-criado estado soberano contra toda e qualquer aventura bélica que o Brasil pretenda desfechar-lhe para assegurar sua, do Brasil, integridade territorial. E assim se arrancará do Brasil, que não terá sequer o direito de dar um pio a respeito, um bom pedaço. E há quem pensa que é uma teoria da conspiração o Triplo A (Atlântico, Amazônia e Andes).

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É o Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, o herói da história, e Vladimir Putin o seu vilão? Ou nesta história que ora se desenrola diante de nossos olhos não há heróis, apenas vilões? Li que é Volodymyr Zelensky um fantoche de oligarcas americanos e europeus; que ele está a serviço de metacapitalistas globalistas; enfim, que ele é um comediante, que caiu de paraquedas em Kiev, e está tal qual uma barata tonta, de um lado para o outro, imensamente perdido. Mas a mídia já o alçou à condição de um herói, um herói universal. Li, também, que é a Ucrânia o quartel general da família Biden e seus amigos, que o usam para ações corruptas, lavagem de dinheiro e garimpagem de criptomoedas.

Em 2.013 era presidente da Ucrânia Viktor Yanukovych, aliado de Vladimir Putin, e leal a ele. Um levante popular, patrocinado pelo governo americano e especuladores financeiros internacionais, removeu-o do poder, o que acendeu o alarme na cabeça de Vladimir Putin. E o tempo seguiu sem curso. E Volodymyr Zelensky – herói biônico ora incensado pela imprensa mundial – para desagrado do tzar russo foi eleito presidente da Ucrânia. E a sequência da história estamos a acompanhar.

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Na guerra, a primeira vítima é a verdade. Tendo este truísmo em mente, toda e qualquer pessoa que se põe a tratar da guerra entre Rússia e Ucrânia o faz com cautela, com prudência, considerando e reconsiderando o que pensa a respeito, e não afugenta a pulga que atrás da orelha, a atormenta. Vi comentadores a darem como certas estas e aquelas informações, que eles tiraram da mídia, mídia, esta, que, dizem eles, não é confiável. Não entendo, confesso que não entendo, a postura de muitos comentadores que vivem de denunciar as inverdades que a mídia conta, a desfaçatez da mídia que eles tanto deploram, mas sempre que um evento grandioso – ou não tão grandioso – ocorre, e para cuja explicação querem informações, a ela recorrem para obtê-las. O que explica tal comportamento? O comodismo, talvez, afinal, tal mídia está à mão, e procurar outras explicações para os eventos, além de tempo, exige coragem, principalmente para expor uma leitura que não é a que prevalece – é preferível, se errar, estar na companhia de milhares de pessoas, e justificar o erro informando que os dados da equação eram incógnitas que ninguém conhecia, e que só com o passar do tempo se poderia conhecê-los, do que errar sozinho. Movem-se por inércia; replicam notícias que contêm informações, que logo se revelam, umas, incorretas, outras, mentiras deslavadas.

Algumas informações já se revelaram mentiras (de três vídeos e as de três fotos). São os vídeos: um, a exibir uma bola-de-fogo amarela, vermelha e alaranjada (causada pela explosão de uma bomba termobárica) a expandir-se, assustadoramente, à escuridão da noite, na Ucrânia, mas o fato deu-se, na China, há uns quatro anos, e não foi a bola-de-fogo apocalíptica resultado da detonação de um artefato bélico, mas de uma explosão numa fábrica; dois, um intenso bombardeio russo contra cidade ucraniana, mas tais cenas são de um videogame; e, três, um tanque-de-guerra a passar por sobre um carro, e esmagá-lo, com a informação de que é o tanque russo, mas é ele ucraniano e seu piloto perdera-lhe a direção. E as fotos: uma, a exibir prédios em ruínas, com a informação de ser a cidade destruída ucraniana, mas a foto, tirada há um bom tempo, é de uma cidade Síria; duas, uma mulher ensanguentada e com a cabeça enfaixada é de há alguns anos, e não deste, tampouco desta guerra, e de uma atriz, e não de uma vítima de alguma violência; três, duas crianças a observarem um tanque-de-guerra a se deslocar por uma estrada não tem relação com a atual guerra que envolve Rússia e Ucrânia.

Maurício Alves, a distinguir-se dos outros que ao tratarem da guerra limitam-se a ecoar a narrativa midiática, entende que está a mídia a exagerar no tom apocalíptico, e exibe as mentiras que ela conta, e afirma que estão os promotores da narrativa oficial a desviar para a guerra a atenção do público mundial de assuntos que podem vir a complicar a vida de democratas americanos, Hillary Clinton em particular, e de Justin Trudeau, e das farmacêuticas (Big Pharma) das empresas de internet (Big Tech) envolvidas, estas e aquelas, em histórias do balacobaco. Procede o que ele diz, afinal não se vê na mídia notícias sobre os caminhoneiros canadenses e americanos, a acusação contra a Hillary Clinton (que estaria envolvida em espionagem contra Donald Trump), a rede social Truth, a queda, nas bolsas de valores, das ações das Big Pharma e Big Tech.

Seal Team (série de televisão) – temporada 2; episódios 6, 7, 8, 9 e 10.

Para empreender uma caçada a Andres Doza (Yul Vazquez), poderoso e influente narcotraficante que aterroriza os mexicanos e mantêm muitos homens sob sua folha de pagamentos, inclusive funcionários do Estado mexicano, que lhe comem nas mãos, o governo mexicano recorre ao governo americano.

Andres Doza tem um poder tão avassalador que intimida o governo mexicano. Dono de uma fortuna de fazer inveja aos faraós, controla o submundo do México, conserva sob seu domínio pessoas insuspeitas, muitas delas lhe obedecem sob chantagens e ameaças. É uma entidade onipresente, onipotente, no imaginário do povo da Cidade do México. O governo americano, atendendo ao pedido do seu congênere asteca, envia ao México, para uma operação militar secreta em associação com militares mexicanos, uma equipe de fuzileiros navais, Seals, a Equipe Bravo – capitaneada por Jason Hayes (David Boreanaz), que é secundado por Raymond “Ray” Perry (Cornelius C. Brown Jr.), seu braço direito, e coadjuvado por Clay Spenser (Max Thieriot), Sonny Quinn (A. J. Buckley), Eric Blackturn (Judd Lormand), e alguns outros homens, poucos – cujas incursões, muitas delas empreendidas em território de países que não o dos Estados Unidos, contam com a preparação política de Amanda “Mandy” Ellis (Jessica Paré), analista da CIA, e Lisa David (Toni Trucks), diretora de logística.

Em território mexicano, reúne-se a Equipe Bravo com uma equipe de fuzileiros navais mexicanos. É visível o desconforto inicial entre os fuzileiros das duas nações. E sucedem-se os atritos entre os membros da equipe americana e os da equipe mexicana. E dá-se rusgas entre os integrantes da Equipe Bravo durante as controvérsias que envolvem a operação de caça a Andres Doza. E não são poucos os contratempos que os fuzileiros enfrentam durante empresa tão arriscada; enfrentavam, eles sabiam, um homem que possuía o poder de um exército, um homem que intimidava o governo de um país de mais de cem milhões de habitantes.

Após longas e tensas jornadas pelas ruelas de cidades mexicanas; após embrenharem-se numa floresta; após a morte de um militar mexicano, num capítulo trágico; e após a revelação de um traidor no seio da equipe mexicana, os seals da Equipe Bravo chegam, enfim, ao quartel-general de Andres Doza, uma suntuosa mansão, onde o encontram. Enfrentam os fuzileiros americanos, auxiliados por um fuzileiro mexicano, Tenente Juan Lopez (Bobby Daniel Rodriguez), os criminosos à mando de Andres Doza. E dá-se o inevitável.

A história da caçada a Andres Doza pela Equipe Bravo arrasta-se por cinco episódios; é, pode-se dizer, um longa-metragem de três horas. Desconsiderando as tramas secundárias, resíduos dos episódios anteriores ao sexto, revela o estado preocupante do México, país dominado por narcotraficantes, que estão a destruir a sociedade mexicana. Apresenta um retrato de uma sociedade de pessoas amedrontadas, aterrorizadas, inseguras, que mal podem contar com a ajuda do governo que supostamente existe para oferecer-lhes segurança.

Durante os confrontos entre os fuzileiros e os traficantes, destes são muitos os que tombam, mortos, alvejados por um ou mais tiros que aqueles lhes disparam com a frieza de homens treinados para matar.

É uma história emblemática a narrada nos episódios 6, 7, 8, 9 e 10 da segunda temporada de Seal Team, série de televisão que já presenteou com episódios memoráveis as pessoas que acompanham, desde seu episódio inaugural, as aventuras da equipe de fuzileiros americanos comandada por Jason Hayes.

Vida longa à Equipe Bravo.

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Títulos originais dos cinco episódios:

6, Hold What You Got

7, Outside the Wire

8, Parallax

9, Santa Muerte

10, Prisioner`s Dilemma

Good Kill – Máxima Precisão

Na sua luta contra o terrorismo, os Estados Unidos empregam drones nos ataques aos terroristas. Os pilotos dos drones, dentro de uma cabine, no deserto de Mojave, estado de Nevada, estão distantes milhares de quilômetros de seus alvos, localizados, estes, no Afeganistão, no Paquistão, no Iraque e em outros países berços de terroristas. Não visitam o campo de batalha, não olham nos olhos de seus inimigos; controlam joysticks, o olhar concentrado numa tela de computador; não arriscam a própria pele durante as incursões dos drones em território inimigo; a guerra é impessoal, assemelha-se a um jogo de videogame. Seus inimigos não são seres humanos, têm-se a impressão, seres reais, de carne e osso, de sangue; não são pessoas; são apenas personagens de um videogame.
O major Thomas Egan (Ethan Hawke), experiente piloto da força aérea americana, agora, protegido por uma cabine metálica localizada em território americano, empreende incursões, na pilotagem de drones, em território inimigo; nostálgico de seus anos de piloto de caças, amargurado, pergunta-se se está a ocupar-se de uma atividade meritória, ou se fôra reduzido a um covarde; seu drama destrói-lhe a alma, deprime-o; cumpre, maquinalmente, as ordens que seus superiores lhe descarregam no corpo, e no espírito, já combalido, de homem que não mais sabe qual é o propósito de seu trabalho, e tampouco o de sua vida. Sua postura, seu rosto sempre a transparecer a amargura que o consome, distante de sua esposa, Molly Egan (January Jones), e de seus filhos, inspira atritos com a sua consorte, que lhe sente a falta, não da presença física, pois, agora, piloto de drones, e não de caças F-16, ele está sempre presente na sua casa, em corpo, mas não em espírito. E desintegra-se a família do major Thomas Egan.
Embora Good Kill – Máxima Precisão caia na vala comum dos filmes protagonizados por um herói solitário que, num ato intemerato, decide confrontar o onipresente e onisciente sistema de poder estatal, indo contra pessoas que têm o poder de decidir o destino dos homens comuns, é notável a coragem, numa época em que o cinema se converteu em um planfeto ideológio da pior espécie, de seu diretor, Andrew Niccol, e de seus produtores e roteiristas, pessoas que tocaram, e com destreza, num tema sensível aos homens modernos: a desumanização do homem imerso num mundo de máquinas, que lhes roubam o espírito que os faz autênticos seres humanos. A guerra contra o terrorismo, empreendida pelos Estados Unidos e seus aliados após o 11 de Setembro, apenas empresta o enredo para se trabalhar um tema caro aos humanos, e desde sempre: A razão de viver.

Os sete guerreiros

Eram sete os homens que se apresentaram, altivos, imperiosos, à convocação do patriarca daquela pequena tribo. Os mais vigorosos, os mais rápidos, os mais ágeis, os mais habilidosos no manejo do bastão, do arco-e-flecha, da funda, do machado. Eram os mais valorosos homens da tribo. A coragem deles todos lhas reconheciam. Provaram-na ser dela possuídos nos campos de batalhas, nas caçadas, no desbravamento de florestas desconhecidas. Disse-lhes o patriarca que da tribo avizinhavam-se inimigos oriundos de plagas distantes. Eram bárbaros, homens asselvajados crudelíssimos. Vaticinou o patriarca a aniquilação da tribo pelos bárbaros. Não poderiam confrontar os inimigos, que se aproximavam, e rapidamente. Eram eles duas centenas de homens poderosos, e desumanos. E na tribo, de pouco mais de uma centena de almas, havia apenas sete guerreiros, sete guerreiros que, mesmo valorosos, não poderiam confrontar, num embate direto, os inimigos, que avançavam em direção à tribo. Pediram os sete guerreiros ao patriarca a ordem, que ele, patriarca, dissesse a eles, guerreiros, qual tarefa eles teriam de empreender, que eles a empreenderiam. E o patriarca, num tom altivo, que transparecia as dores de um coração confrangido, deu-lhes a ordem: Os sete guerreiros permaneceriam na tribo, enfrentariam os bárbaros que da tribo se aproximavam, enquanto ele, patriarca, já octogenário, e os enfermos, e as crianças, e os jovens, e as mulheres, e os velhos, rumariam para uma região segura, longe do alcance dos bárbaros. Os sete guerreiros acolheram a ordem patriarcal. O destino deles estava traçado: Os sete guerreiros encontrariam a morte no fio dos machados dos seus inimigos. E prontamente principiaram os preparativos para a longa jornada de todos os da tribo para uma terra segura. E ergueram armadilhas. E os sete guerreiros despediram-se do patriarca após dele receberem a benção. E despediram-se de suas esposas e de seus filhos, e dos amigos, enfim, de todos da tribo. Escorreram lágrimas dos olhos de todos; dos olhos dos guerreiros e do patriarca, não; estes guardaram no peito a dor, e no rosto exibiam coragem e altivez. E principiaram os da tribo a expedição. E da tribo afastaram-se, sob os olhares dos sete guerreiros. E da tribo aproximava-se a horda de bárbaros, ameaçadora, que trazia consigo, guiando-a, a morte; e os sete guerreiros, certos de que morreriam no confronto com eles, prepararam-se para enfrentá-los, e retardar-lhes o avanço, dando tempo para os da tribo da tribo distanciarem-se, e preservarem a vida. E principiou-se o embate na segunda noite após o dia em que o patriarca convocou os sete guerreiros para dar-lhes a notícia da aproximação dos bárbaros. Os da tribo já iam longe, mas não tão longe que os bárbaros não os pudessem alcançar em menos de um dia, e os alcançariam se não lhes tivessem interrompido o caminho os sete guerreiros. Surpreendidos pelas armadilhas preparadas pelos sete guerreiros, os bárbaros foram obrigados a deterem-se, e a recuarem. E logo nos primeiros minutos de combate, oito bárbaros despencaram, no chão, mortos, todos esmagados por troncos de árvores, então pendurados, por cipós, no topo das árvores. Esbravejaram os bárbaros, confusos, e agitados, e furiosos; esgoelavam-se; proferiam ameaças, com vozes tonitruantes. Eram guerreiros. Não temiam a morte. Cautelosos, após se recomporem-se da surpresa inicial, esquadrinharam os arredores com seus olhos de visão penetrante, à procura daqueles que os atacaram, e deles não viram nem uma silhueta, nem um vulto. Os sete guerreiros estavam ocultos aos olhos deles. Eram mais de duzentos os bárbaros, e apenas sete os guerreiros, mas naquele princípio do confronto a vantagem era destes, que conheciam a região, e aqueles não, e os haviam surpreendido. Tal vantagem, todavia, os sete guerreiros não a manteriam por muito tempo. O destino já lhes havia reservado a morte. Dilatou-se o embate entre os sete guerreiros e os bárbaros. Estes em vão tentavam anular a vantagem daqueles. E os da tribo, em jornada ininterrupta, distanciavam-se do local em que dias antes havia uma tribo. E três dezenas de bárbaros encontraram a morte, fendido o pescoço pelo fio cortante de um machado uns, transpassado o coração por uma flecha outros, esmigalhada a cabeça por um bastão outros, rachada a fronte por uma pedra pontiaguda uns. E diante dos contratempos, e das mortes que se seguiram, os bárbaros recuaram alguns metros, cessaram o arremesso de flechas contra inimigos, que lhes eram invisíveis, e reagruparam-se, e planejaram um ataque a eles, seus inimigos, os quais eles não sabiam quantos eram, e cuja localização ignoravam. Iriam induzi-los a se lhes revelarem. E dispersaram-se. E transcorreram-se três dias do início do confronto, e o plano traçado pelos bárbaros produzia, após a morte de vinte e dois bárbaros desde que a puseram em prática, uma reviravolta. Revelaram-se aos seus inimigos três guerreiros. E os combates corpo-a-corpo principiaram-se após um curto interregno. E bateram-se os bastões. E entrechocaram-se os machados. E nove homens tombaram, mortos. Seis bárbaros, e três guerreiros. E os quatro guerreiros remanescentes não suportariam por muito tempo mais o assédio dos bárbaros. Sentiam, já, os efeitos da fome, da sede, do cansaço. Tombariam. Mas resistiriam o quanto pudessem. Invocavam, em imaginação, os da sua tribo, e se conservariam em pé, armas em punho, lutando, e poriam fora de combate vários de seus inimigos. E principiou, enfim, o epílogo do embate. E a luta, renhida, entre os quatro guerreiros e os quase duzentos bárbaros persistiu durante a manhã e a tarde de um dia. Entrechocaram-se os machados. Bateram-se os bastões. Romperam o céu flechas e pedras. E além de trinta e oito bárbaros, tombaram os quatro guerreiros, cobertos de ferimentos, cravejados de flechas, rubros de sangue, lutando, machado em punho, calcando seus inimigos sob os pés, encarando-os, desafiando-os. Os guerreiros, tão heróicos, tão valentes, que os bárbaros, em sua rudeza de costumes, ofereceram-lhes enterro condigno. E os bárbaros na tribo agora devastada permaneceram, após enterrar todos os bárbaros mortos, dois dias. E seguiram jornada por sobre o rastro abandonado pelos da tribo. Estes já haviam transposto rios, superado montanhas, não sem adversidades. Alguns dos da tribo encontraram a morte. Os enfermos sucumbiram ao desgaste que o esforço da empresa cobrou-lhes. Os que encontraram forças para seguir viagem até uma região acolhedora além de um imenso mar, fora do alcance dos bárbaros, que ignoravam a tecnologia náutica, foram agraciados com uma vida longeva, e descendentes, e viram sua sociedade progredir. E transcorridos cinco mil anos, seus descendentes escrevem narrativas épicas, cujos heróis são os sete guerreiros que se sacrificaram por amor aos seus entes queridos.

Relatos de um correspondente de guerra

 – Chamai-me Emanuel. Na semana passada, Rodolfo, o meu empregador, solicitou à Kátia, a sua secretária, que me transmitisse uma mensagem sua: um convite para um almoço. Enquanto ouvia a Kátia da mensagem inteirar-me, estudei-lhe, com uma pulga atrás da orelha, a fisionomia. Esbocei um interrogatório, que encerrei ao dela ouvir a resposta para a primeira pergunta que lhe fiz. E ela perguntou-me se eu aceitaria o convite. E eu o recusaria? Rodolfo me pediria uma tarefa, que eu não me disporia a empreender. Ele, todavia, presumi, e eu estava certo, tinha bons argumentos para convencer-me a empreendê-la. Ele não me inflaria o ego, pois sabe que sou infenso aos elogios e às bajulações. E não me ofereceria dinheiro. E também não me ofereceria privilégios. Pensativo, perguntei-me, durante aquele dia e à noite, na cama, antes de conciliar o sono, quais surpresas ele me preparara. Fui ao escritório dele, no dia seguinte, na hora aprazada. A Kátia acompanhou-me até dois metros da mesa. Rodolfo, que falava ao telefone, despediu-se do seu interlocutor, desligou o telefone, saudou-me com a reserva que lhe é comum, pediu-me que eu puxasse a cadeira, e apontou-ma, e me sentasse. Descontraído, falou-me da empresa. Enquanto o ouvia, eu seguia-lhe os pensamentos. Desconfiei de qual era a proposta que ele me faria assim que ele fez referências aos recentes conflitos bélicos que estouraram em alguns países. Com o preâmbulo, deu-me a entender que desejava que um jornalista fosse para um campo de batalha. Mas para qual campo de batalha? Rodolfo estudava as minhas reações. Eu lhe estudava as palavras, no desejo de antecipar-me ao que ele me diria, para que ele não me surpreendesse. Falei-lhe, em duas ocasiões, do que eu pensava dos conflitos que ele comentava, mas não lhe perguntei se ele desejava enviar-me para um dos países conflagrados, e tampouco ofereci-lhe os meus serviços. Dele eu queria ouvir as propostas. Enfim, ele se deteve no cruento conflito entre os A… e os B…, que, há dois meses, assola C…. Eu sabia que nenhum jornalista, eu inclusive, se ofereceria para documentar tão cruento conflito. Como, então, Rodolfo me convenceria a empreender trabalho tão arriscado? Esperei, e não por muito tempo, que ele me falasse das suas intenções. Ele me disse que obtinha informações diárias sobre o estado de coisas em C…, e temia o recrudescimento da conflagração, que poderia vir a ultrapassar as fronteiras do país, e, ao avançar aos países limítrofes, assumir proporções imprevisíveis. Intensificava-se a guerra. Vacilavam as potências mundiais. Os líderes das organizações internacionais, sempre que se pronunciavam a respeito da conflagração, acirravam os ânimos dos beligerantes, e o conflito recrudescia. Rodolfo estendeu-se ao tratar das notícias da antevéspera e da véspera. E eu o ouvi, certo de que ele me queria em C…. Falou-me dos riscos inerentes à tarefa de registro dos combates e da realidade do campo de batalha. E eu, enquanto o ouvia, perguntava-me se eu era provido de coragem para encarar tal desafio, inédito para mim. Malgrado o meu desejo de não me envolver neste crudelíssimo episódio da história humana e preservar minha vida, o desejo de empreender tão árdua tarefa enviou-me para cá, para registrar eventos que me propiciarão emoções inéditas. Não me ofereci para a tarefa. Rodolfo, todavia, munido de um arsenal de argumentos, persuadiu-me a vir para C…, de onde apresento este relato, registrar, arriscando minha vida, os embates entre os A… e os B…, e mostrar para o mundo a realidade deste país, a existência de milhares de humanos vitimados pela crueldade de governantes crudelíssimos. Estou numa das poucas áreas que bombardeios não devastaram. Metros à minha frente, ruas rubras de sangue. Os beligerantes abandonaram um rastro de destruição e miséria, desesperança e ódio. Aqui não há, além de mim, jornalistas. A imprensa mundial não os envia para cá. E os jornalistas independentes que arrumaram as malas para vir para esta área conflagrada, as desfizeram ao receberem a notícia da morte de vinte e dois jornalistas nos seis primeiros dias de conflitos. Muitos dentre eles foram alvejados pelos beligerantes, que tinham o propósito de dissuadirem outros jornalistas de vir para este país devastado. Muitas pessoas não desejam que os eventos que se sucedem aqui sejam do conhecimento do mundo. Há muitos interesses envolvidos, muitos deles inconfessados. Os donos da guerra não desejam que as suas identidades sejam reveladas. Logram os seus intentos, os malditos carniceiros! Os medrosos e covardes ocidentais (como dizem os combatentes e os que os instigam aos combates) carecem de coragem guerreira, e temem a morte, e malgrado os esforços para evitá-la, um dia defrontar-se-ão com ela num campo de batalha. E aqui estou, nas proximidades de um campo de batalha da mais feroz guerra moderna. Hordas de guerreiros sanguinários, personagens de lendas clássicas, oriundos de plagas desconhecidas, situadas em regiões inacessíveis, distantes da civilização, devastaram os impérios da antiguidade; asselvajados combatentes, rudes, ignorantes, amantes da guerra, bebedores de sangue, grotescos, incivis, bárbaros, promovem este conflito, para repetir, hoje, as ações de seus ancestrais bárbaros. Seres saídos das trevas, agourentos, vaticinam a aniquilação da civilização. Das trevas para a luz, não para usufruir dos prazeres que a luz nos oferece, mas para eliminar o que à luz dá origem. Os selvagens bárbaros modernos têm à disposição armamentos que seus antepassados jamais imaginaram. Com a fusão inconcebível da arte bélica antiga e dos artefatos bélicos modernos engendram carnificina sem precedentes… Abandono a digressão, e inicio o relato do que ocorre ao meu redor. Dou os primeiros passos, firmes. Ouço estrondos. Nuvens escuras no horizonte. Chegam-me aos ouvidos berros indistintos. Detenho-me. Atrai-me a atenção um ponto no céu, não sei a quantos quilômetros de distância, ao noroeste. Um avião rasga o horizonte, executa uma curva para o sudoeste, e desaparece atrás de uma nuvem. Chega-me aos olhos uma nuvem preto-acinzentada, que eleva-se e encorpa-se, de detrás de uma colina, há uns dez quilômetros de distância. Aos ouvidos chega-me o estrondo de uma detonação. Da minha esquerda, vejo uma nuvem de fumaça a uns cinco quilômetros de distância. Chega-me, aos ouvidos, não sei de qual direção, outro estrondo. Olho de um lado para o outro. Mísseis atingem áreas urbanas, vejo com o binóculo. Sobressaem-se, por sobre as colinas, os prédios mais altos. Não posso ver as dimensões da devastação. Rumo, sem vacilar, em direção à explosão à minha esquerda a uns cinco quilômetros de mim. Desloco-me mais de cem metros. Os sinais da devastação: carros de cabeça para baixo, queimados, casas destruídas, paredes de prédios esburacadas, ruínas em toda a extensão da rua, árvores carbonizadas. Dois cachorros famintos, ossudos, de olhos esgazeados, correm, e detêm-se, e fuçam qualquer coisa atrás de pilhas de tijolos, e, ganindo, correm, e o que vai na frente dá um ganido mais elevado do que o que emitia até então, e pula, e cai, e desaparece do meu campo de visão, atrás de um tronco de árvore carbonizado. O outro cachorro, assustado, de pelagem preta, com inúmeras falhas, a orelha machucada, a pele do flanco direito exposta, acelera a corrida, e muda a direção que segue. Cauteloso, ando, com passos firmes, na direção do cachorro que pulou e caiu. Não atino com a razão que o levou a pular e cair e o outro a disparar, assustado. A minha curiosidade, excitada, e o meu desejo de conhecer a resposta para o evento impelem-me até o cachorro que pulou e caiu. Não negligencio cuidados. Agi com imprudência, reconheço, agora, ao me deparar com o cadáver ensangüentado do cachorro escanifrado, um esqueleto banhado em sangue. Examino-o à procura da causa da sua morte. Com uma pedra cilíndrica coberta de saliências e cavidades, mexo-lhe a cabeça. Seus olhos, esgazeados; sua boca, entreaberta; sua língua, para fora. Mexo-lhe mais um pouco. Viro-lhe a barriga para cima; suas vísceras se lhe escorrem, numa poça de sangue, e esparramam-se no chão. O animal, grotesco. Uma quimera; não um cachorro. Falta-lhe uma perna. O que lha arrancou? As vísceras escorrem do corpo sem vida. A causa da morte do cachorro está próxima do cadáver: Um projétil, alojado numa pedra. Dou-me conta de que me expus, inadvertidamente, à morte. Fui imprudente. Não sei se o cachorro ficara sob a mira de um revólver, ou se o projétil, por obra do acaso, o alvejara. Olho em torno de mim. A disposição da pedra e a do cachorro não me orientam. O cachorro, atingido, dera um salto de um metro de altura, e a pedra, é certo, antes de o projétil atingi-la, não estava onde a encontrei. Fico com as minhas interrogações. Estou certo de que não me precavi como deveria ter feito. Expus-me ao perigo. Sei dos riscos que corro aqui. Eu deveria me precaver, e não me lançar, em busca da glória, com tal ímpeto inconsequente, suicida. Serei mais cauteloso. Não quero abreviar minha vida. Não quero que me abreviem a vida. Sou jovem, conquanto os esparsos cabelos grisalhos e as rugas exibam a figura de um homem de seus quarenta anos. Não quero ir para o inferno. Os seres das profundezas rejubilar-se-iam com a minha majestosa presença. Pretendo viver mais alguns anos neste inferno. Aqui, diante de mim, o cadáver de um cachorro. Abandono-o, em respeito à sua alma. Curvado, ando, com passos firmes, até uma pilha de pedras, que, acredito, me servirá de escudo. Onde estou com a cabeça? Atrás desta pilha de pedras. Minha cabeça ainda está sobre meu pescoço. Um míssil ou uma rajada de metralhadora pode pulverizar estas pedras e minha cabeça. Não tenho opções. Retiro-me de detrás desta pilha de pedras. Ouço um barulho. Detenho-me, curvado, com as pontas dos dedos da mão direita pousadas no chão. Vejo um avião, a mais de mil quilômetros por hora, sobrevoando o céu a uns duzentos metros à minha frente, a cem metros de altura, da minha direita para a minha esquerda. Os ruídos dos motores ofendem-me os ouvidos, que eu cubro com as mãos. O avião aos meus olhos reduz-se às dimensões de um ponto preto insignificante, a não sei quantos metros de distância e a quantos metros de altura. Uma explosão. Bombas atingiram um prédio a duzentos metros à minha direita. Duas pessoas saltaram do prédio, ou do prédio foram arremessadas, de uma altura de vinte metros. Seguem-se quatro explosões. Não vi de que direção partiram os disparos, e se de aviões, se de tanques de guerra, se de carros de combate. Agora, o silêncio é ensurdecedor. Ao longe, na mesma linha de visão, uma explosão de um avião, a não sei quantos metros de altura e a quantos metros de distância, e o rastro de fogo e fumaça que o avião abandona, na curva descencional rumo ao solo. O estrondo da explosão não me chega aos ouvidos. Eleva-se no céu a nuvem de fogo e fumaça. Nas proximidades do ponto em que o avião caiu, rasgam o céu dois aviões, vindos não sei de onde, e rumam em minha direção. As suas dimensões ampliam-se aos meus olhos enquanto de mim se aproximam. Deito-me. Dos aviões não desvio meu olhar. Os aviões executam uma curva; passam, a uns quinhentos metros de altura, a mais de mil metros de distância; deslocam-se a mais de mil quilômetros por hora. Ouço o rugido dos seus motores. Segue-se a calmaria. Acocorado, desloco-me, desajeitadamente, uns vinte metros. Precipita-se o crepúsculo. Anuncia-se a noite. Parece-me que o tempo se acelerou, como se um mecanismo planetário afetasse os ponteiros de um relógio cósmico com força suficiente para movê-los com velocidade superior à normal. Não consulto o relógio porque algo me chama a atenção: sapatos, atrás de um carro. Considerando a disposição dos sapatos, há pés dentro deles. Olho ao redor. Nenhum avião. Perscruto os arredores à procura de combatentes. Não os vejo. Vou, corpo arqueado, passos acelerados, até o par de sapatos. Como presumi, há pés dentro deles. Vejo os calcanhares, os tornozelos, as pernas, os joelhos, as coxas, e um corpo de homem. Foi-lhe rasgado o ventre e retalhado o rosto. Examino-o. Do corpo desviscerado foi extraído o coração. Os homicidas, crudelíssimos, tiveram o desplante de, com as vísceras, escreverem uma palavra à direita do corpo. Que desumanidade! Quem perpetrou tão horrendo crime? Tento desenhar, na minha mente, a figura original do rosto deste cadáver desfigurado. O sangue que corre pelas veias e artérias do perpetrador de tal crime é da constituição do gelo glacial, e seu rosto, da de um sujeito animalesco de expressão malévola. O homem, aqui, a desfazer-se em sangue. Vermes deslocam-se em meio às suas vísceras. Este homem não foi alvejado por projéteis; mataram-no mãos humanas, que o agarraram, cortaram-lhe o pescoço e o braço direito, e o desvisceraram, e extraíram-lhe o coração. É o corpo de um homem robusto de um metro e oitenta de altura e oitenta quilos. Era ele um dos combatentes? Ou ele era um civil, que entrou, inadvertidamente, no caminho dos combatentes das hordas inimigas? Nada, nele, indica tratar-se de um combatente. Ele não verga uniforme, e tampouco ostenta insígnias militares. Não concluo, no entanto, tratar-se ele de um civil. Os combatentes, muitos deles mercenários financiados por estados patrocinadores de organizações terroristas, não vergam uniformes militares. Sucedem-se explosões, não muito distantes de mim. Olho em torno. Devastação. Não há viv’alma no campo que meus olhos alcançam. Cães correm, ao longe, aos bandos. São oito, ou dez, todos doentios. Desaparecem dentro de uma casa em ruínas. Observo, pela última vez, o cadáver à minha frente. Curvado, afasto-me; cauteloso, desloco-me, contornando escombros e carros carbonizados. O cenário devastado parece um mural de um pintor moderno. Contorno uma casa em ruínas da qual restam pedaços das paredes. Vejo, a poucos passos de mim, um túmulo coletivo a céu aberto. Aproximo-me. Olho ao redor. Dois aviões passam ao longe. Uma explosão à minha direita, a mais de um quilômetro de distância. À minha frente, à esquerda, veículos deslocam-se, a mais de quinhentos metros, num ponto mais elevado do que o no qual me encontro, e afastam-se, rapidamente. Aproximo-me dos cadáveres. A disposição dos corpos indica que foram fuzilados à queima-roupa. São doze cadáveres, todos nus. Cinco homens. Quatro mulheres. Três crianças. Todos com olhar terrivelmente aterrorizado. Uma das mulheres, além do tiro na cabeça, foi alvejada no ventre. Piso num mar de sangue e massa encefálica. Aproximo-me dos cadáveres. Examino-os, detidamente. Não são de combatentes; são de civis. Combatentes os capturaram, e os espancaram. As mulheres e as crianças eles as estupraram. Os homens eles os espancaram até esmigalharem-lhes os ossos das mãos. Hematomas cobrem-lhes o corpo de ébano. Gritos atraem-me a atenção. Olho para a direção da qual chegaram-me aos ouvidos. Quatro homens correm; todos eles empunham rifles. São homens enormes. Correm para a mesma direção. Aproximam-se de mim. Deito-me na sujeira, no sangue, nas vísceras, na massa encefálica. Elevam-se os gritos. Aproximam-se de mim os quatro homens. Empunho a pistola que trago a tiracolo. Não sei se as aulas de tiro me serão de alguma utilidade. Uma série de detonações provoca a reação imediata dos quatro homens, que se abrigam atrás de escombros e, com saraivada de tiros, revidam ao ataque. Prendo a respiração. Não quero atrair-lhes a atenção. Aceleram-se os meus batimentos cardíacos. As explosões os abafam. Cessam os tiros. Apuro os ouvidos. Não mexo nem um dedo, nem as pálpebras. Predomina o silêncio. De repente, gritos e tiros. Enfim, cessam os gritos e os tiros. Predomina o silêncio sufocante, opressivo. Nenhum ruído chega-me aos ouvidos. Olho para a minha direita. Olho para a minha esquerda. Cauteloso, levanto-me, lentamente, Não quero que um projétil atinja-me a cabeça. Afasto-me, curvado, ziguezagueando por entre pilhas de escombros, dos doze cadáveres. Desloco-me, por entre os escombros, por uns cem metros. Recuo dois passos ao divisar uma cabeça movendo-se lentamente, e ponho-me, acocorado, atrás de um carro carbonizado. Ouço sussurros, resmungos, gemidos de dor. Olho para o homem que, à minha frente, chapinha numa poça de água estagnada numa cratera escavada, por uma bomba, presumo, no asfalto de uma ampla avenida. O homem retira-se da cavidade, e arrasta-se, fazendo das mãos pés, pois seus pés estão imobilizados e deles escorre sangue em profusão. Ele se detêm. Seu olho direito está rubro de sangue; acredito que não há olho na sua cavidade ocular esquerda, mas pasta de sangue, sujeira, pele e ossos. Ao dar um passo, emito, ao pisar num objeto de metal, ruídos, que atraem a atenção do homem que se arrasta. Ele me encara. Encaro-o. Sua figura, repulsiva, a de uma alimária, não conserva semelhanças com a figura humana. Ele se desloca, arrastando-se, como os répteis. Seu rosto, o de um ciclope desprovido de simetria. Uma figura destituída de peculiaridades humanas. Kafkiana. A guerra extraiu-lhe todas as características humanas. É um animal rastejante. Não desceu à condição de inseto, mas à de um réptil. Seu olhar, petrificante, vazio de vida, de humanidade. O que ele pensa, se pensa? Ele conserva a capacidade de pensar, ou a perdeu? Fita-me, como se olhasse para uma criatura fantasmagórica que se corporificou diante de seus olhos. A minha presença extraiu-lhe o que lhe restava de sopro divino. A face dele adquiriu consistência pétrea; ele perdeu os traços de ser vivo (não direi os de um humano), que ainda conservava, e cedeu ao peso de sua cabeça. Deteve em mim seu olho bom. Esvaiu-se o sangue daquele corpo sem vida. Andei até ele. Este cadáver não pertencia a um homem, pertencia a um macho de uma outra espécie de vida, de vida rastejante, primitiva. Diante de mais este espetáculo de horror, pergunto o que esta guerra reserva-me. Dou-me conta, agora, da noite, que se precipita. Entretido com os eventos até aqui relatados, não notei que o tempo seguiu, sem cessar, a sua jornada. Sei que, chegada a noite, os conflitos recrudescerão. Os combatentes intensificarão os bombardeios. Estou muito exposto, aqui. Tenho de encontrar um abrigo. À minha volta, ninguém. No céu, nenhum avião. Chegam-me aos ouvidos cantos de pássaros, que se destacam, e destoam do ambiente. Inusitados. Incomuns. Singulares. Surrealistas. Os pássaros são as excrescências deste cenário de horror. São as pústulas deste corpo perfeitamente tétrico. Procuro por um abrigo. Olho de um lado para outro. Diviso escombros. Ao longe, espocam luzes, de explosões, no céu e na terra. Riscos luminosos rasgam o céu. São de disparos, não sei de quais armamentos. Sucedem-se as explosões. Arrasto-me, com o coração aos pulos, bombeando, com vigor, o sangue, a ponto de estourar-me a caixa torácica. Envolve-me a escuridão; tão de repente, que me surpreende. Detenho-me. Olho em redor. Nada vejo. Não vislumbro nem meus pés, nem minhas mãos. Tateando os escombros, acocorado, desloco-me não sei para onde. A insegurança me consome. Sinto que não posso permanecer aqui. Retiro do bolso a lanterna. Ouço vozes, que me chegam da minha direita. Agacho-me. Com a lanterna na mão, detenho-me, ouvidos atentos e olhos apurados; nada vejo, entretanto. Não vejo nem a ponta de meu nariz. As vozes que me chegam aos ouvidos pertencem a três homens, que falam um idioma que desconheço. São vozes graves, cavernosas. Sussurro, agora. Os três homens aproximam-se de mim. Calo-me… Os três homens distanciam-se… Não me viram, para a minha felicidade. Afastam-se. Cauteloso, desloco-me, tateando os escombros. Não quero provocar ruídos. Duas detonações, não muito longe de mim. Ouço berros ensurdecedores. Vejo cilindros de luz cem metros à minha frente. Ouço detonações, uma, duas, três, quatro… Uma rajada de detonações, de duas ou mais armas. Sucessivas e simultâneas. De armas de modelos diferentes. Deito-me, de barriga para baixo, e pouso as mãos sobre a nuca, para me proteger. Não sei de que direção são dados os tiros. Os disparos não me são dirigidos. Não sou o alvo dos atiradores. Nenhum projétil assobia aos meus ouvidos, nem atinge os escombros próximos de mim. Nada vejo. Escuto detonações, que se sucedem de diversas direções. Sinto-me exausto, debilitado. Procuro controlar meus batimentos cardíacos. Sucedem-se explosões ensurdecedoras. Não são de disparos de revólveres, pistolas, rifles, metralhadoras. São disparos de mísseis. A terra treme sob meu corpo. Pedras atingem-me os braços, as costas, as pernas. Cerro as pálpebras. Mordo os lábios. Entrelaço os dedos das mãos e os comprimo uns contra os outros e contra a cabeça. Retesados, todos meus músculos. Segue-se silêncio lúgubre, que ruídos de motores de veículos interrompem. Afrouxo os dedos das mãos. Nenhum ruído. Nenhuma voz. Aviões sobrevoam a região não sei há quantos metros de altura. Desentrelaço os dedos das mãos. Passo as mãos, da nuca para o queixo. Deito sobre as mãos a cabeça. Ouço vozes de homens, de mulheres e de crianças. Homens, mulheres e crianças conversam, sussurrando, num idioma que desconheço; e afastam-se de mim. Não me movo. Penso em me levantar, em acionar a luz da lanterna. Empunho a lanterna. Não sei se a aciono. E se combatentes virem a luz da lanterna? As pessoas que estão próximas de mim estão armadas? Elas me ajudarão? Ou me matarão? Elas são combatentes? Dirão aos combatentes, ou aos A…, ou aos B…, de mim? Prefiro conservar-me, aqui, deitado, e, sussurrando, registrar este relato… Despertam-me detonações. Dormi não sei durante quantas horas. O céu, claro. A luz do sol atinge-me da cintura para baixo. Sucedem-se explosões. Um avião passa ao longe, a dois quilômetros de distância e oitocentos metros de altura. Alvejam-no projéteis. O avião explode. Com a consciência um tanto lenta, debilitada, afetada pelo resquício do sono que me dominou, e conservou-me no seu domínio não sei durante quanto tempo, ergo-me, e ponho-me sobre os joelhos. Olho ao redor. Diviso escombros, e escombros, e prédios fumegantes, e veículos dos quais escapam línguas de fogo. O que se sucedeu à noite? Consulto o relógio. Dormi durante mais de dez horas. À minha esquerda, cadáveres. Não estavam lá, ontem, antes de eu pregar as pálpebras. São quatro cadáveres, três, de homens, um, de mulher. Os quatro vergam trajes civis dos A…. A mulher, de cabelos compridos, jaz estirada numa poça de sangue, sob um homem deitado de bruços, de través, com um rombo no crânio, e de cuja testa escorre massa encefálica. Os outros dois cadáveres são, um, de um homem na idade de aproximadamente trinta anos, e o outro, de um homem de uns quarenta anos de idade, de barbas e bigodes espessos. Os quatro foram alvejados, cada um deles, por dois ou mais tiros. Não vejo cápsulas próximas deles. Concluo que os tiros partiram de longe. Chegam-me vozes aos ouvidos. Agacho-me. Vozes aproximam-se de mim. Os homens que as pronunciam não elevam o tom de voz. Aproximam-se de mim, lentamente. Acocorado, afasto-me dos cadáveres. À minha frente, um carro. Contorno-o. Ouço vozes de regozijo. Olho através do vidro do carro. São três homens. Não. Quatro. Cinco. Entrevejo armas. Rifles. Um homem carrega, a tiracolo, uma pistola. São seis homens. Dois deles, magros. Um, alto e musculoso, de voz roufenha, aparência tourina e músculos bem definidos. Seu tom de voz, de comando; os outros parlamentam com ele. Com um binóculo, ele esquadrinha o horizonte, e diz qualquer coisa. Um deles, magro, sobe em escombros e, com as mãos em pala, vasculha o horizonte. Dois homens andam na minha direção. Agacho-me. Arrasto-me para trás de escombros. Enfio-me por entre tijolos e vigas de ferro. Réstia de luz penetra nesta caverna, e revela-me o cadáver de uma criança decapitada, cujos olhos fitam-me, como se me repreendessem e suplicassem-me uma explicação ao que se sucede em C… Vejo, por uma frincha, o carro, e dois homens, que se detêm e remexem no carro. Aproxima-se deles um homem barbudo, que lhes exibe, ostentando-os com orgulho, os despojos que suprimiu, presumo, dos quatro cadáveres: dois relógios, um cinto, pulseiras e outros objetos. Aproximam-se do carro outros três homens. Riem. Gargalham. O grandalhão verga uma jaqueta preta, a qual retirou de um dos cadáveres, e exibe dois pares de sapatos e óculos de lentes pretas, e sorri, exibindo-se aos outros homens, que gargalham. A detonação de um projétil. Um dos homens que se acercaram do carro cai, alvejado por um projétil, presumo. Os outros homens põem-se de sobreaviso. Dois deles correm em minha direção, e abrigam-se nos escombros sob os quais estou. Seguem-se estrondos. Ouço gritos. Seguem-se estrondos. Sucedem-se gritos mistos de medo, raiva e dor. Explosões. Saraivadas de tiros. Aviões sobrevoam a região. Disparos. Gritos. Explosões. Estrondos. Passos acelerados. Várias pessoas correm, aos berros, próximas de mim. Vejo pés descalços ensangüentados passando por mim, rapidamente. Gritos. Choros. Gritos de desespero. Gritos de raiva. Gritos ameaçadores. Gritos de súplica. Entrevejo um homem carregando ao colo uma criança ensangüentada. Uma mulher ampara uma velha. Uma explosão. Nuvem de fumaça ganha o céu. Detritos invadem esta caverna. Cerro as pálpebras. Cubro o nariz, comprimindo as abas, para não aspirar detritos… Assentaram-se os detritos. Recupero a respiração. Descerro as pálpebras. Dissipou-se a nuvem. Não sei quanto tempo permaneci de pálpebras cerradas. Não ouço vozes. Não ouço ruídos. Nenhum som me chega aos ouvidos. Hesito. Quero retirar-me de sob estes escombros, que me protegeram, mas é uma armadilha. Por sorte, não ruíram, e não me soterraram. Apuro os ouvidos. Nenhuma voz, nenhum ruído, chega-me aos ouvidos. Lentamente, cauteloso, arrasto-me, evitando gestos bruscos, os ouvidos apurados para captar todo e qualquer ruído que me indique a presença de pessoas nas proximidades. Nada ouço. Movo-me, lentamente. Detenho-me. Ouvi ruídos de pedras caindo de grande altura. Segue-se o silêncio. Movo-me, lentamente, para me retirar deste abrigo, que poderá vir a se converter numa guilhotina e ceifar-me a vida. Censuram-me os olhos da criança decapitada. Fito-a pela última vez, e retiro-me de sob estes escombros. Olho em torno de mim. A paisagem foi enormemente modificada. O carro foi reduzido a ferro retorcido; mal há vestígios da sua forma original. Cadáveres juncam o chão a dez metros de mim. Há partes de corpos espalhados nos arredores. Braços. Pernas. Cabeças. Uma cabeça de mulher numa cavidade cheia de sangue. Ossos. Um mar de sangue. Quantos cadáveres há num raio de cinquenta metros que meu olhar alcança? Não sei para onde andar. Para onde me viro, vejo destruição e cadáveres. Sigo em direção às colinas, mais para o coração de C…, de onde chegam-me línguas de fogo e torres de fumaça, que se vergam ao sabor dos ventos, de mais de duzentos metros de altura. A batalha, lá, é mais intensa, encarniçada, do que aqui. Desloquei-me mais de vinte metros. Passei por cadáveres e escombros. Sigo em frente. Um veículo atrás de mim. Agacho-me. O veículo passa ao largo. Ergo-me. Neste terreno acidentado, repleto de obstáculos, corro, contornando-os, até um prédio em ruínas. Enveredo-me pelos seus domínios. Atravesso-o. Deparo-me com um cenário mais devastado do que o com o qual deparei-me antes de entrar neste prédio, que deixo para trás. Que… O que… O que é isto… O que é isto no meu braço direito? Um pernilongo. Criaturazinha maldita! Suga-me o sangue, a maldita! Sua barriga, repleta de sangue. Sangue! Sangue! Meu sangue! Criatura maldita! Enerva-me. Não me sugarás o sangue, maldita! Dou-te um tapa! Esmaguei-te, criatura maldita! Oh! Meu sangue! Mancha-me o braço meu sangue. Meu sangue! Oh! Meu sangue! Meu…

Emanuel desmaia. Aqui encerra-se o relato do correspondente de guerra.

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