O pedaço de bolo de chocolate

Uma história do Joãozinho

Era um domingo como outro domingo qualquer. Nem quente, nem frio.

Na casa de número 3443 da Rua das Caraminholas, que com a Rua das Caravelas, a Rua das Caravanas, a Rua das Carapaças e a Rua dos Caranguejos faz intersecções, no Bairro dos Caraminguás, vizinho, ao leste, do Bairro das Carambolas, ao oeste, do Bairro dos Caramujos, ao norte, do Bairro do Caramanchão, ao sul, do Bairro das Carantonhas, vive uma família de quatro pessoas: os genitores, ele, pai de Joãozinho, ela, mãe de Joãozinho, e os seus filhos, ele, o primogênito, Joãozinho, ela, irmã de Joãozinho. Às seis horas da manhã, retiraram-se da casa a mãe e sua filha, que rumaram para a casa dos avós maternos de Joãozinho, situada na cidade vizinha, no número 4334 da Rua dos Carrapichos, que com a Rua dos Carrapatos e a Rua dos Carrascos faz intersecções, no Bairro do Carajé, vizinho, ao leste, do Bairro do Caramelo, ao oeste, do Bairro da Carraspana, ao norte, do Bairro do Caramuru, ao sul, do Bairro dos Caraíbas. E o pai e seu filho acordariam, o primeiro, às oito horas, o segundo, às dez. E o pai de Joãozinho, banho tomado, dentes escovados, leite de um copo de vidro bebido e um bolinho de caramelo degustado, preparou, na cozinha, na mesa, as refeições matinais, a sua e a de seu filho. Joãozinho, banho tomado e dentes escovados, foi à cozinha. E à mesa sentaram-se pai e filho. Este, ao ver sobre a mesa um bolo de chocolate e um pedaço de bolo de chocolate e à mão de seu pai uma faca, e ele preparando-se para cortar o bolo, disse-lhe, detendo-o:

– Não quero o bolo.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Não – respondeu Joãozinho.

– E o que você vai comer? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande esse pedaço de bolo.

– Não é, não.

– Vou cortar… – e inclinou-se o pai de Joãozinho para o bolo, a faca na mão direita, preparando-se para cortá-lo, mas não o cortou. Impediu-o Joãozinho.

– Não pode cortar o bolo de chocolate – disse Joãozinho.

– Mas o pedaço de bolo é grande.

– Eu quero o pedaço inteiro.

– O quê?

– Eu quero o pedaço inteiro.

– Pedaço inteiro!?

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande. – comentou o pai de Joãozinho.

– Não é, não.

– Vou cortar um pedaço deste bolo… – disse o pai de Joãozinho, que não completou a frase porque impediu-o Joãozinho.

– Não quero um pedaço de bolo de chocolate – disse, firme, sério, Joãozinho. – Quero o pedaço inteiro.

– Mas, filho…

– Quero um pedaço inteiro; não quero um pedaço cortado.

– Pedaço inteiro? Pedaço cortado?

– Este é o pedaço inteiro – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– E o pedaço cortado?

– É um pedaço cortado.

O pai de Joãozinho encasquetou com a distinção que seu filho fazia de pedaço inteiro e pedaço cortado; considerando divertido e intrigante o que ele dizia, decidiu dar sequência à conversa para de Joãozinho extrair definições claras do que ele queria dizer com pedaço inteiro e pedaço cortado.

– Filho, cortarei um pedaço deste bolo…

– Não quero um pedaço cortado.

– Filho…

– Quero o pedaço inteiro.

– Cortarei do bolo um pedaço do mesmo tamanho do…

– Não quero um pedaço cortado de bolo.

– O pedaço cortado do bolo de chocolate terá o tamanho desse pedaço inteiro – apontou o pai Joãozinho para o pedaço de bolo.

– Não quero um pedaço cortado; quero o pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado do bolo de chocolate do mesmo tamanho do pedaço inteiro é igual ao pedaço inteiro.

– Não é, não.

– Então, eu cortarei do bolo um pedaço maior do que o pedaço inteiro; sendo maior, é melhor.

– Não é, não. Pedaço cortado é pedaço cortado; e pedaço inteiro é pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado e um pedaço inteiro são iguais se ambos tiverem o mesmo tamanho.

– Não são, não.

– Ambos os pedaços, o inteiro e o cortado, são gostosos.

– Não são, não.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho, intrigado.

– Não – respondeu Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

– Mas, sendo o pedaço inteiro e o pedaço cortado do mesmo tamanho, iguais eles são, e, portanto, terão o mesmo gosto. Ambos os pedaços serão gostosos.

– Não. Não. E não. Eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado.

– Por quê? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo.

– Por que o pedaço inteiro não é um pedaço cortado. E eu, que gosto de pedaço inteiro, e não gosto de pedaço cortado, quero o pedaço inteiro, e não um pedaço cortado.

– Não entendi – comentou o pai de Joãozinho, rindo consigo. – O pedaço inteiro do bolo de chocolate é de chocolate. O bolo, aqui – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – é de chocolate. Se eu cortar deste bolo um pedaço do mesmo tamanho do pedaço inteiro – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro e terá o mesmo gosto dele.

– Não terá o mesmo gosto, não – replicou Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que um pedaço cortado. O pedaço inteiro não é um pedaço cortado. O pedaço cortado não é um pedaço inteiro. O pedaço inteiro é o pedaço inteiro. Um pedaço cortado é um pedaço cortado. E eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado. O bolo é de chocolate. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. O pedaço cortado de bolo de chocolate é de chocolate. Mas o pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não é um pedaço cortado de bolo de chocolate, e, sendo um pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não um pedaço cortado de bolo de chocolate, tem gosto de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e um pedaço cortado de bolo de chocolate tem gosto de pedaço cortado de bolo de chocolate, e de pedaço cortado de bolo de chocolate eu não gosto.

Mais confuso do que no início, o pai de Joãozinho perguntou-se se foi uma idéia sensata insistir na conversa com o propósito de extrair de seu filho esclarecimentos sobre as distinções que ele fazia entre pedaço inteiro e pedaço cortado. Contrariando a si mesmo, melhor, a metade de si que desejava encerrar o assunto e tratar de outro tema, e atendendo à metade de si curiosa por saber o que seu filho entendia por pedaço inteiro de bolo de chocolate e pedaço cortado de bolo de chocolate, disse:

– Filho, o bolo é de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. Se eu cortar do bolo de chocolate um pedaço, o pedaço cortado será, como o bolo de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate, de chocolate. Chocolate é chocolate. O bolo é de chocolate, e todos os seus pedaços cortados são de chocolate. Se eu cortar o bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – em cinco pedaços, todos do tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, todos os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate serão iguais ao pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não diferentes. Serão do mesmo tamanho. O pedaço inteiro de bolo de chocolate e os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate terão o mesmo gosto, e todos os seis pedaços serão de chocolate. Tanto faz comer ou o pedaço inteiro de bolo de chocolate ou um dos cinco pedaços cortados de bolo de chocolate, filho. Você gostará de qualquer um deles.

Joãozinho meneou a cabeça, desconsolado.

– Ai. Ai – suspirou Joãozinho.

– O que eu disse não está certo? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo. A sua expressão impassível não transparecia a hilaridade que lhe animava os pensamentos. Queria emprestar traços sérios, respeitáveis à sua fisionomia, e receava trair-se.

– Não – respondeu-lhe Joãozinho, seco. – Não está certo, não.

– Quero entender, filho, o que você me disse. Então, proponho para você uma brincadeira: Você cobrirá, com as mãos, os olhos, e eu cortarei um pedaço do bolo de chocolate, e o deixarei ao lado do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e os misturarei, e avisarei você, e você descobrirá os olhos, e pegará um pedaço de bolo de chocolate sem saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– O senhor não pode fazer isso, papai – resmungou Joãozinho.

– Por que não?

– Por que eu tenho que ver o senhor cortando o bolo para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate; se eu não ver qual foi o pedaço que o senhor cortou e pôs perto do pedaço inteiro de bolo de chocolate, eu, ao pegar um dos dois pedaços, poderei pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu não quero o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– Mas você, filho, não vendo qual pedaço cortei, não saberá qual é o pedaço cortado e qual é o pedaço inteiro.

– Se eu pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, que eu não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero, comerei o pedaço cortado de bolo de chocolate, que é o que não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero.

– Se você não souber qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, o pedaço que você pegar, ou o inteiro ou o cortado, e comer, será de chocolate, e gostará dele, portanto, filho, você, não sabendo qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, poderá comer qualquer um dos pedaços, e dele gostará.

Joãozinho olhou, com ar desconsolado, para o alto, e suspirou.

– Ai. Ai.

– O que eu disse não está certo?

– Não, né – respondeu Joãozinho, irritado. – Papai, o senhor não entendeu o que eu disse. Se eu cobrir, com as mãos, os olhos, e o senhor cortar o bolo de chocolate em pedaços iguais, todos do mesmo tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu, ao escolher um pedaço de bolo para comê-lo, em vez do pedaço inteiro, que é o que eu gosto, pegar o pedaço cortado, e comê-lo, e gostar dele, eu gostarei do pedaço cortado de bolo, e não do pedaço inteiro, isto é, eu gostarei do pedaço que eu não gosto; se eu não gosto de pedaço cortado, de pedaço cortado não posso gostar; eu tenho de gostar do pedaço que eu gosto, que é o pedaço inteiro, e não do pedaço que eu não gosto, que é o pedaço cortado. Então, entendeu pai, eu tenho de ver o senhor cortar o bolo de chocolate para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu gosto de pedaço inteiro, e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate, e eu não gosto de pedaço cortado. O pedaço inteiro e o pedaço cortado não são a mesma coisa.

– São, sim.

– Não são, não.

– Se eu cortar um pedaço deste bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro.

– Não será, não, papai. O pedaço inteiro é o pedaço que estava em cima da mesa; e o pedaço cortado é o pedaço que o senhor cortará do bolo. Quando eu cheguei aqui, vi, em cima da mesa, um bolo de chocolate e um pedaço inteiro de bolo de chocolate.

– Mas este pedaço inteiro é um pedaço de um bolo de chocolate que, ou eu, ou sua mãe, cortou; portanto, o pedaço que você diz ser pedaço inteiro é, na verdade, um pedaço cortado, porque, ou eu, ou sua mãe, o cortou de um bolo de chocolate. Se eu cortar, deste bolo – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, um pedaço igual ao pedaço inteiro de bolo – e tocou, com a ponta da face, o pedaço de bolo de chocolate -, ambos os pedaços serão iguais.

– Não serão, não – replicou Joãozinho, visivelmente irritado. – O pedaço de bolo de chocolate que está na mesa é um pedaço inteiro. Quando eu cheguei aqui, o pedaço já estava aqui, e estava inteiro; ninguém o cortou; eu não o cortei; o senhor não o cortou; ninguém o cortou; o pedaço, agora, está inteiro como inteiro estava quando eu o vi quando cheguei e sentei-me nesta cadeira. O bolo de chocolate está inteiro, e se o senhor o cortar em pedaços, os pedaços serão cortados, e pedaços cortados não são pedaços inteiros; são pedaços cortados. Eu verei o senhor, papai, cortando o bolo de chocolate, e do bolo de chocolate tirando um pedaço, pedaço este que o senhor me dará, e este pedaço será um pedaço cortado, porque vi o senhor cortando o bolo em pedaços, e todos os pedaços que do bolo o senhor cortar serão pedaços cortados, e não pedaços inteiros. O pedaço inteiro é o pedaço que já estava aqui na mesa quando eu cheguei, e não vi ninguém o cortando, então, este pedaço é um pedaço inteiro, e não um pedaço cortado. Não vi ninguém cortando um bolo, e do bolo tirando este pedaço – e apontou para o pedaço de bolo de chocolate. – Eu vi este pedaço, que estava inteiro quando eu o vi, e não vi ninguém cortá-lo de um bolo, então é um pedaço inteiro este pedaço de bolo de chocolate. Se o senhor cortar o bolo em pedaços, os pedaços serão cortados, e o pedaço que o senhor me der será um pedaço cortado, e não um pedaço inteiro. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro que eu vi quando cheguei aqui na cozinha; e o pedaço cortado de bolo de chocolate será o pedaço que o senhor cortará do bolo. Entendeu, papai?

A pergunta Joãozinho a fez num tom atrevido, que denotava impaciência e desconsolo. O pai de Joãozinho ria-se consigo, olhos fitos em seu filho, tentando entender como funcionava aquele cérebro infantil. Com o que dele ouviu, não pôde avaliar… Aliás, não pôde avaliar o que ouviu. Decidiu, então, encerrar a conversa, contrariando a metade de si que desejava dar-lhe sequência.

– Entendi, filho. Você gosta de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não gosta de pedaço cortado de bolo de chocolate, porque o pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

Joãozinho abriu um largo sorriso, da orelha direita à orelha esquerda, como a dizer: “Papai é inteligente. Ele entendeu o que eu disse.”, o rosto a transparecer a felicidade que o animava.

– Filho – disse o pai de Joãozinho -, coma o pedaço inteiro de bolo de chocolate. É tão gostoso…

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O Pólo Norte

Uma história do Joãozinho

Estavam, na casa do avô do Joãozinho, na biblioteca, Joãozinho, a irmã do Joãozinho e o avô do Joãozinho. O avô do Joãozinho era professor de Geografia. Na biblioteca, que o avô do Joãozinho chamava de O Esconderijo, além de livros, havia mapas e um globo do tamanho de uma bola de futebol.

E conversavam o avô do Joãozinho e a irmã do Joãozinho, quando Joãozinho, atraído pelo globo, tirou-o do suporte, olhou de um lado para o outro, e, vendo que ninguém olhava para ele, pôs-se a fazer embaixadinhas.

Em um determinado momento da conversa, o avô do Joãozinho disse para a irmã do Joãozinho que no Pólo Sul há pinguins, e no Pólo Norte não, e que no Pólo Sul há um continente, Antártida, e no Pólo Norte não há um continente. Curiosa, a irmã do Joãozinho perguntou ao seu avô:

– Vovô, o que há no Pólo Norte?

– Veja no globo – disse-lhe o avô; ele sabia a resposta, claro, mas queria que sua neta se acostumasse a consultar o globo sempre que desejasse saber algo sobre Geografia.

A irmã do Joãozinho virou-se, viu Joãozinho a fazer embaixadinhas com o globo, voltou-se para seu avô, e disse-lhe que Joãozinho estava jogando futebol com o globo. E o avô do Joãozinho, sem se levantar da cadeira, disse para Joãozinho:

– Joãozinho, pare de brincar com o globo. O globo não é bola de futebol. E diga para sua irmã o que há no Pólo Norte.

– O que é o Pólo Norte, vovô? – perguntou Joãozinho, sem parar de fazer embaixadinhas com o globo.

– A parte de cima da Terra – respondeu-lhe o avô. – Como o globo é a representação da Terra em miniatura, então, o Pólo Norte é a parte de cima do globo.

– A parte de cima, vovô? – perguntou Joãozinho, enquanto fazia embaixadinhas com o globo.

– Sim – respondeu o avô. – Pare de chutar o globo, que não é uma bola de futebol, e veja o que há no Pólo Norte, Joãozinho.

– O Pólo Norte é a parte de cima, né, vovô? – perguntou Joãozinho.

– É, Joãozinho. É – respondeu-lhe o avô. – Diga para sua irmã o que há no Pólo Norte.

Joãozinho parou com as embaixadinhas, e segurou, firmemente, com as duas mãos, o globo, olhou para a parte de cima dele, e disse:

– Austrália.

Vídeos caseiros

– Ontem, no ônibus, vi uma gata de parar o trânsito! Ela não usava sutiã; usava um vestido decotado! Meu Deus! Que mulher! Filmei-a com o telefone celular. Mário, a gata não percebeu que a filmei. Você quer assistir ao vídeo? Filmei uma gata de parar o trânsito! Você quer vê-la?

– Quero. Deixe-me vê-la, Adriano. Ligue o computador. Quero ver a gata. Quero vê-la.

– Acalme-se. Controle-se. Controle-se. Tenho de ligar o computador.

– Ligue-o, Adriano. Ligue-o. Quero ver a gata. Ligue o computador.

– Você verá a maior gata da cidade. Um avião! Violão! Morena! Deliciosa! Uma sereia. Esqueça as mulheres das revistas que você tem na sua casa. Esqueça-as. Comparadas com a morena que filmei, elas são bruxas com uma verruga horripilante na ponta do narigão. A gata que vi, hoje, põe no chinelo todas as mulheres famosas que aparecem nas fotos das revistas. Elas são mulheres fotochopadas, falsificadas. A gata que filmei, não. Ela é mulher de carne e osso. Você irá babar de desejo ao assistir ao vídeo.

– Pare de falar, e ligue o computador.

Mário e Adriano, na casa de Adriano, no quarto dele, diante do computador, sentados, cada um em uma cadeira giratória, olhavam para o monitor que o pai de Adriano comprara no Natal.

Dos quinhentos gigabytes do disco rígido, cento e oitenta e cinco armazenavam vídeos caseiros que Adriano, Mário e os seus amigos gravaram, nos dois anos anteriores, com câmeras de telefones celulares e com filmadoras.

Computador ligado, Adriano clicou sobre o ícone da pasta dos seus vídeos caseiros, e digitou a senha. Apareceram centenas de ícones de arquivos de vídeos.

Clicou, duas vezes, rapidamente, sobre o ícone que trazia a data do dia anterior. No monitor apareceu uma morena voluptuosa de vestido verde, que lhe modelava o corpo, realçando-lhe os atrativos. Ela se destacava num oceano de mulheres desprovidas de beleza.

Mário, embasbacado, arregalou os olhos e escancarou a boca. A morena era uma mulher cuja beleza superava a de todas as mulheres que ele já havia visto e imaginado. Adriano provocava-o, dava-lhe cotoveladas no ombro, dizia-lhe que o melhor estava por vir, exortava-o a parafusar o queixo, que se desprenderia da cabeça e cairia no chão, se ele não tomasse tal providência.

Em diversos trechos do vídeo aparecia o asfalto, os pisos da calçada, carros, pessoas que passavam por Adriano. Em outros, o vídeo escurecia, e nada se via. Mário protestava, insultava Adriano, que, defendendo-se, explicava-lhe o que ocorreu em certos momentos durante os quais gravava o vídeo. Mário, que não queria ouvir explicações, queria admirar a deusa dos trópicos, aquele pedaço de mal caminho, esbravejava, e desferia tapas na nuca de Adriano e encaixava-lhe socos no ombro, e ele revidava – a escaramuça assemelhava-se às cenas de pastelão do cinema mudo. Estapearam-se, até que atraíram-lhe a atenção imagens nítidas da morena de vestido verde.

Embora houvesse se deparado com dificuldades imensuráveis, Adriano filmara, durante, aproximadamente, trinta minutos, a estonteante morena de vestido verde, de cujo corpo obtivera imagens nítidas, reveladoras; as mais excitantes ele as obtivera a partir do momento em que ela parou em um ponto de ônibus. A partir deste trecho os olhares dos dois jovens convergiram para o monitor. Sentados, curvaram-se, fincaram os cotovelos nos joelhos, e sustentaram o queixo, Mário, com as palmas das mãos abertas e os dedos cobrindo o rosto, Adriano, com os dedos entrelaçados.

Passou despercebida da morena de vestido verde a atitude de Adriano, que, parado ao lado dela, o telefone celular à mão, fingindo procurar o número de um telefone, filmava-lhe o belo rosto e o decote revelador. Quando ela se curvou para a frente, e coçou o joelho direito, Adriano dela registrou imagens dos peitos quase inteiramente nus. Mário, estupefato, levou, automaticamente, as mãos, espalmadas, à testa, puxou os cabelos para trás, encostou-se ao encosto da cadeira, desencostou-se, curvou-se, fincou os cotovelos nas coxas e com as mãos cobriu a boca. Adriano divertia-se com a atitude dele. Ria, zombava dele. Mário deu-lhe um tapa na nuca, desfazendo-lhe o penteado, que Adriano, rindo, ajeitou.

Além de Adriano e da morena de vestido verde, havia duas pessoas no ponto de ônibus: um homem avançado em idade, concentrado na leitura de um catálogo de loja de eletrodomésticos, e uma garotinha de uns dez anos que cantava uma canção infantil. Após uns três minutos registrando, com intervalos, imagens do busto da morena de vestido verde, Adriano recuou alguns passos, posicionou-se atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, filmou o que a morena escondia sob o vestido verde, cuja franja mal descia-lhe à metade das coxas, e revelou a calcinha que cobria o espaço estreito entre as nádegas bem esculpidas. Agitaram-se os dois garotos. Moviam as pernas para os lados, para cima e para baixo. Mário levava as mãos à cabeça, cobria, com as mãos, a boca, e mordia, ora o lábio inferior, ora o lábio superior. Adriano ria da atitude de Mário, que o mandava calar-se.

Um ônibus parou no ponto de ônibus. A menina subiu no ônibus; em seguida, o homem, que até então lia o catálogo de loja de eletrodomésticos, subiu; após ele, a morena de vestido verde. Adriano, atrás dela, abaixou a mão que carregava o telefone celular, e dela revelou, com maior nitidez, a parte inferior do corpo. Como o ônibus estava lotado, a morena de vestido verde teve de deter-se assim que pousou os pés no primeiro degrau. Adriano, aproveitando das facilidades que a situação oferecia-lhe, gravou imagens reveladoras das formas bem arredondadas e firmes das nádegas e do tecido fino que cobria o espaço entre elas. Vibraram de volúpia os dois garotos.

Os passageiros apertavam-se dentro do ônibus.

Para conseguir entrar no ônibus, Adriano pôs-se ao lado da morena de vestido verde, e dela gravou imagens do rosto e do decote. Temia que alguém o surpreendesse filmando-a, e, com indiscrição, revelasse, para todas as pessoas presentes no ônibus, o que ele fazia.

O ônibus pôs-se a andar. Sacolejava ao passar por ruas esburacadas.

Saíram do ônibus várias pessoas; entraram quatro.

Adriano, assim que o ônibus retomou a viagem, telefone celular na mão, registrou imagens do corpo da morena de vestido verde. Ao parar no ponto de ônibus seguinte, o ônibus recebeu mais cinco passageiros, e mais de dez passageiros desceram. Os passageiros que estavam em pé puderam se deslocar pelos estreitos espaços vazios. A morena de vestido verde andou uns dois metros, abrindo espaço entre os passageiros em pé. A sua beleza irradiante e o seu porte exuberante atraíram a atenção dos homens, que, libidinosos, a devoravam com o olhar, cobiçando-a. Adriano seguiu-a, cuidadoso; receava – notou os olhares dos homens convergindo para a estonteante morena de vestido verde – que alguém o flagrasse filmando-a. A morena de vestido verde deteve-se, e do banco mais próximo a mulher que o ocupava levantou-se, e pediu-lhe licença. Carregava ao colo uma caixa e a tiracolo uma sacola branca com o nome fantasia de uma loja de calçados. A morena de vestido verde cedeu-lhe passagem. A mulher deslocou-se, desajeitadamente, pedindo licença; os passageiros abriam-lhe passagem, espremendo-se uns nos outros. A morena de vestido verde sentou-se no banco desocupado, ajeitou o vestido, passeou as mãos pelos cabelos, puxou-os por sobre o ombro direito, e os soltou. Esparramaram-se-lhe pelo busto e pelo ombro os cabelos sedosos. Adriano, em pé, ao lado dela, fitava-a, mordia os lábios quando ela, com movimentos suaves, para ajeitar os cabelos, ou o vestido, revelava uma pequena parte a mais dos peitos e das coxas. Filmava-a. Pensava que agia com discrição ímpar. Duas mulheres, sentadas no banco atrás do qual a morena de vestido verde estava sentada, entenderam o que Adriano fazia, entreolharam-se, e sorriram, maliciosas; e à direita de Adriano um homem, que olhava para a morena de vestido verde, sorriu ao ver a imagem dela na tela do telefone celular na mão de Adriano.

A viagem durou um pouco mais de vinte minutos. O ônibus parou na rodoviária. A morena de vestido verde levantou-se. Adriano permitiu que ela lhe passasse à frente, e filmou-a de trás, por baixo do vestido.

Todos os passageiros desceram do ônibus. Adriano seguiu a morena de vestido verde, à distância de cinco metros, durante uns cinco minutos, até uma casa, cujo portão ela abriu, e entrou.

As imagens excitaram os dois garotos, que teciam os comentários mais obscenos que a imaginação inspirou-lhes.

Mário, eufórico, ao fim do vídeo, perguntou para Adriano:

– Que tal ir até à casa da morena?

– Não é má idéia – comentou Adriano, eufórico. – Não é má idéia. Se ela mora naquela casa, e acho que ela mora lá… Vamos lá. Quem sabe, se dermos sorte…

– Que beleza, Adriano! Gata! Mulherão! Cara! A gata é um pedaço de mal caminho!

– Eu disse para você que ela é uma gata. Você não me quis acreditar.

– Vamos assistir ao vídeo mais uma vez, mais duas vezes, mais três vezes, mais mil vezes.

– Espere um pouco. Vou lançar o vídeo na internet. Quero que todos vejam a maravilhosa morena de vestido verde. O mundo tem de conhecê-la.

– Vamos assistir ao vídeo.

– Assim que eu lançar o vídeo no Youtube, o assistiremos mais mil vezes.

Mário e Adriano assistiram ao vídeo duas vezes.

*

Nas duas semanas seguintes, Mário e Adriano procuraram pela morena de vestido verde. Não a encontraram – mas eles não perdiam a viagem. Tiveram a felicidade de encontrar outras mulheres bonitas as quais ou trajavam calças justas, ou saias, ou minissaias, ou vestidos, e usavam decotes profundos – e gravaram vídeos revelando delas as roupas íntimas, as que as usavam. Mário e Adriano, embasbacados, assistiram aos vídeos várias vezes. Deleitavam-se. Divertiam-se gravando vídeos. Enfrentaram alguns dissabores enquanto os gravavam: Uma mulher, ao virar-se bruscamente, viu Adriano com o telefone celular na mão, desconfiou do que ele fazia, e exigiu-lhe explicações, Adriano desconversou, ela enfureceu-se, e ele deu meia-volta, e dela afastou-se, antes que as obscenidades que ela cuspia chamassem a atenção de muita gente; um grandalhão enfureceu-se ao ver Mário atrás de uma loira, filmando-a com o telefone celular, e encaixou-lhe um murro no nariz, e Mário, ao recompôr-se, sangue se lhe escorrendo em profusão do nariz, correu como nunca havia corrido, e, ao encontrar-se com Adriano, exibiu-lhe o nariz quebrado como se exibisse um troféu.

Mário e Adriano diziam que a profissão de videoamador era muito arriscada, muito perigosa, mais perigosa e mais arriscada, até, do que a de correspondente de guerra e a de jornalista investigativo. Diziam, gracejando, que poderiam, inadvertidamente, vir a se deparar com uma filha de dom Corleone, ou com a de um mafioso russo ou a de um membro da yakusá.

Transcorreram-se dois meses. Mário e Adriano não encontraram a morena de vestido verde. Esqueceram-na, depois de tantos dias sem vê-la.

*

– Adriano! Mário! – exclamou Gilberto, entusiasmado. – Vocês não vão acreditar. Vi um mulherão de derrubar o queixo! Enviei o vídeo para o seu computador, Mário. Vocês não vão acreditar! Meu Deus! Mário, vá à sua casa, e acesse o arquivo *¢. Tá lá, o vídeo da loiraça! Meu Deus! Loiraça de parar o trânsito e fechar o comércio! Loira usando camisa decotada e shortinho agarradinho! Imaginem a loiraça. Vocês não podem imaginá-la. Que melões! Não são limõezinhos, como os da Paola; nem laranjas, como os da Cláudia; nem ovos fritos, como os da Fabiana, que de bom só tem a bunda; nem melancias, como os da Samantha. Melões! Melões! Adriano, você, que gosta de peitos, vai se deliciar! Vocês não vão acreditar! Não perca tempo, Mário. Vá à sua casa, ligue o computador, e acesse o arquivo *¢. Vá com o Mário, Adriano. Você não perderá a viagem.

Ao chegarem à casa de Mário, Adriano e Mário, mal conseguindo conter o ânimo que as palavras de Gilberto atiçaram correram ao quarto. Mário ligou o computador. Acessou o arquivo *¢. Mário e Adriano esfregaram as mãos. O monitor exibiu o vídeo. No início, apareceram imagens desfocadas. Gilberto proferia obscenidades e filmava o próprio rosto. Corria, afobado. Ia, dizia ele, atrás de uma loira de bicicleta. Tropeçou. Desequilibrou-se. Caiu. Recompôs-se rapidamente. Mário e Adriano gargalharam.

– Palerma! – exclamou Mário. – Bicho desengonçado! Bizarro! Aberração da natureza!

– Smeágol! – gargalhou Adriano.

No vídeo, cenas caóticas. Pessoas, carros, bicicletas. Ouvia-se a voz de Gilberto; era impossível compreender a maior parte do que ele dizia, e a parte que se compreendia era quase toda composta de palavrões e comentários sobre os atrativos da loira de bicicleta.

Mário e Adriano ficaram na expectativa. Ao virar a esquina, Gilberto, filmando a si mesmo, disse, eufórico, que a loira estava a poucos metros dele. Parou de correr. Estava com o rosto vermelho; suava copiosamente. Estava exausto. Disse que a loira, que havia descido da bicicleta, estava em frente de um supermercado. Gilberto desacelerou os passos. Filmou a loira. As imagens não eram nítidas. A loira estava um pouco distante. Dela notava-se apenas o short amarelo, as pernas compridas, a camisa branca de manga curta e os cabelos loiros compridos. Mário e Adriano quase nada conseguiam ver. Protestaram. Gilberto aproximava-se da loira. Focalizou-a. Nas imagens apareceram, nítidas, as bem torneadas pernas dela. Depois, apareceram, para satisfação de Mário e Adriano, as nádegas dela, cobertas pelo short amarelo, uma película. Boquiabriram-se Adriano e Mário. A loira do guidão da bicicleta tirou uma corrente com cadeado, abriu o cadeado, ajeitou a bicicleta ao poste de ferro, e curvou-se para a frente. Mário e Adriano levaram as mãos à cabeça. Gilberto passou, andando devagar, pela loira, dela não desviando a câmera do telefone celular. Mário e Adriano, excitadíssimos, viram um busto extraordinariamente deslumbrante. Lamberam os beiços.

Após passar a tranca na bicicleta, a loira caminhou até o supermercado. De repente, escureceram-se as imagens; viam-se apenas manchas e riscos dançando no monitor. Adriano e Mário esbravejaram. Mário, irritado, ofendeu até a quinta geração de Gilberto, e deu duas pancadas no monitor. Poucos minutos depois, apareceu o busto da loira, que, curvada para a frente, mexia na corrente que unia a bicicleta ao poste de ferro.

Ao remover a corrente, a loira, com um movimento brusco, ergueu a cabeça, e olhou para a câmera.

Adriano saltou da cadeira, arremessou-a para trás, e deu um berro misto de surpresa e espanto:

– Diabos! É a minha irmã!

O homem que tinha boa memória

– Hoje aconteceu-me uma coisa muito interessante, Gustavo. Fui à farmácia comprar um remédio. Ao balcão, a mocinha, uma loirinha simpática, que me atendeu, perguntou-me o que eu desejava. Pensei em dizer-lhe o que, naquele momento, eu desejava, mas, como eu sou um cavalheiro, disse-lhe eu que eu desejava um remédio. E ela perguntou-me: “Qual remédio?”. “Qual remédio!?”, indaguei, no meu tom de voz habitual, mais para mim do que para ela. “É um comprimido”, disse-lhe eu, gracejando, tentando lembrar-me o nome do maldito remédio. E a loirinha perguntou-me, com aqueles olhos tão doces a olharem-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Aquela loirinha era uma gracinha ao falar específico. Nunca vi uma mulher falar específico com tanta graça. E disse-lhe eu: “Posso. O nome do remédio começa com a letra R”. A loirinha sorriu, e perguntou-me: “O senhor pode ser mais específico?”. Que graça ela falar específico! “Mais específico do que estou sendo, impossível”, respondi-lhe, e ela sorriu. E eu, que havia me esquecido o nome do maldito remédio, disse à loirinha que eu iria telefonar para a minha esposa. E a loirinha, a educação e a simpatia em pessoa, esperou-me, pacientemente, completar a conversa com a Samantha, e dizer-lhe à ela, a loirinha que me atendeu, o nome do remédio. Disse-lho eu, e desliguei o telefone. E a loirinha providenciou-me o remédio; e paguei por ele, no caixa, retirei-me da farmácia, fui para casa o mais rápido que pude, e entreguei o remédio para a Samantha – e após uma curta pausa, para beber da cerveja, prosseguiu: – Gustavo, você sabe o que mais me chamou a atenção nesta história? A minha boa memória. Quando, ao telefone, a Samantha disse-me o nome do remédio que ela me pedira que eu lho comprasse, dele lembrei-me de imediato. Incrível, não? Que boa memória a minha!

O segredo

Uma história do Joãozinho

O pai de Joãozinho diz para Joãozinho.

– Joãozinho, amanhã será o aniversário de tua mãe. Estou preparando uma festa surpresa para ela, mas nada lhe digas, está bem?

– Está bem – respondeu Joãozinho.

Vinte minutos depois, chega à casa a mãe de Joãozinho. Joãozinho pula-lhe aos braços, e, após dela receber um beijo caloroso, lhe diz:

– Mamãe, a senhora sabia que papai está te preparando uma festa surpresa?

– Não era para lhe contar, Joãozinho – censurou-o o pai.

– Não lhe contei – defendeu-se Joãozinho. – Eu só lhe perguntei se ela sabia que o senhor está lhe preparando uma festa surpresa.

 

O canarinho e Charles Darwin

Uma história do Joãozinho

Encontravam-se, na casa do Joãozinho, além de Joãozinho e dos pais do Joãozinho, os avós do Joãozinho – os maternos e os paternos – e um tio materno do Joãozinho. Conversavam, à mesa da sala-de-estar, animados, na manhã daquele sábado de calor intenso, a degustarem dos docinhos, das bolachas de nata e dos biscoitos de vento que a avó materna do Joãozinho havia preparado com todo o amor e carinho que lhe animava o espírito.

O pai do Joãozinho narrou algumas peripécias da sua juventude. A mãe do Joãozinho contou um episódio que protagonizou: seu pai a ensinava a andar de bicicleta, e ela, desajeitada, deu uma pedalada, e a bicicleta rumou, em linha reta, em direção à uma árvore; contra ela não colidiu porque seu pai a segurou a tempo de evitar a colisão. Riram, todos.

E todos narraram episódios hilários da juventude.

– São engraçados, hoje – comentou o avô paterno do Joãozinho. – Agora, que os recordamos, rimos. Mas nos preocupamos, na época em que se deram.

E as suas observações produziram muitos comentários, e inspiraram a evocação de dezenas de outros episódios, engraçados, diziam. E riram. E gargalharam.

E Joãozinho, que ria a bom rir, e narrava, com a desenvoltura que lhe era peculiar e o desembaraço que todos lhes reconheciam, algumas das suas aventuras, e assim que sua mãe fez referência ao canarinho, dele falou, animado, e todos o ouviram, atentamente.

– Um dia, já faz tempo, vi um canarinho amarelo, bem amarelo, na jabuticabeira. Ele estava com fome, e queria jabuticabas. Como a jabuticabeira não tinha jabuticabas, fui até à cozinha, e peguei um pedaço de mamão, e o pus, no chão, perto da jabuticabeira. Sentei-me, para esperar o canarinho comer do pedaço de mamão, no banquinho, que está no rancho, e não me mexi. Depois de um tempão, o canarinho desceu no chão, e comeu do mamão, dando bicadinhas com seu bico, que é bem pequeno, pequenininho. Depois de comer do mamão, ele foi embora.

– E para onde ele foi? – perguntou-lhe a avó materna.

– Não sei – respondeu Joãozinho. – Eu queria vê-lo novamente, então, no dia seguinte, pus um pedaço de mamão, um gomo de laranja e um pedaço de melão, no mesmo lugar que, no dia anterior, eu havia posto um pedaço de mamão.

– Você serviu um banquete ao canarinho – observou o avô paterno do Joãozinho.

– Empanturre-o, que ele engordará, Joãozinho – comentou o pai do Joãozinho, rindo.

– E o canarinho desceu para comer das frutas? – perguntou para Joãozinho a sua avó paterna.

– Sim – respondeu Joãozinho. – Fiquei, quieto, sem me mexer, e nem um dedo mexi, e nem piscar, pisquei, sentado, no banquinho, no rancho. Transformei-me em uma estátua. À espera do canarinho… E ele apareceu. E desceu, no chão, perto da jabuticabeira, e comeu do mamão, do melão e da laranja, dando bicadinhas, e olhando para os lados. Parecia assustado com alguma coisa.

– E depois? – perguntou-lhe a avó materna.

– O canarinho foi embora, e nunca mais voltou? – perguntou-lhe o avô materno.

– Voltou, sim – respondeu Joãozinho. – E eu dei frutas para ele: mamão, jabuticaba, limão, carambola, caqui, melão, melancia, banana, maçã, pêra, açaí, morango, cereja, caju, coco e pitanga.

– Você empanturrou o canarinho – observou o tio do Joãozinho.

– Não – defendeu-se Joãozinho. – Não o empanturrei, não. Eu, em um dia, dei-lhe mamão, no outro dia, morango, e em outro dia, maçã. Um pedaço de fruta em cada dia, e em todo dia ele desceu, perto da jabuticabeira, para comer de um pouco de fruta que eu lhe levei um pouco depois do meio-dia.

– Todos os dias – perguntou-lhe o avô paterno – o canarinho vai à jabuticabeira para comer as frutas que você lhe deixa?

– Sim – respondeu Joãozinho. – Ele sempre vai comer das frutas, todos os dias, um pouco depois do meio-dia.

– São dez e meia – anunciou o pai do Joãozinho.

– Daqui a pouco levarei um pedaço de fruta para ele – disse Joãozinho. – Tem melão, mamãe?

– Sim – respondeu-lhe a mãe. – E tem, também, banana e maçã.

– Vou levar-lhe um pedaço pequeno de cada – anunciou Joãozinho.

Joãozinho retirou-se da sala-de-estar, e, célere, rumou à cozinha, abriu a geladeira, e preparou a refeição do canarinho. Minutos depois, anunciou aos seus familiares a sua ida ao quintal, para levar a refeição ao canarinho. Seu tio e seu avô materno o acompanharam na jornada. Minutos depois, regressaram à sala-de-estar, Joãozinho, animadíssimo.

Neste momento, o pai do Joãozinho e o avô paterno do Joãozinho falavam de Charles Darwin e da teoria da evolução das espécies, enquanto suas avós e sua mãe falavam de culinária.

Joãozinho sentou-se no sofá, e intrometeu-se na conversa com perguntas que revelavam a sua curiosidade.

– Quem foi Charles Darwin?

– O que é evolução das espécies?

Essas foram as duas primeiras perguntas de Joãozinho. E seus avós, seu tio e seu pai apresentaram-lhe a biografia de Charles Darwin e explicaram-lhe, como puderam, a teoria da evolução.

– Os animais mudam de características com o passar do tempo – disse, em um momento da conversa, o tio do Joãozinho. – Eles evoluem. O que é evolução? É um processo natural pelo qual todos os animais passam, abandonando certas características, e assumindo outras, que os ajudam a viver melhor. Adquirem, como eu direi?, poderes que os ajudam a viver mais, a gerar descendentes, e a fortalecerem-se, para enfrentarem os seus inimigos, e vencê-los, e para obter alimentos. Um exemplo: Alguns passarinhos de bico fino migram para uma região distante, onde há frutas de casca grossa, e para quebrá-las é necessário que os passarinhos tenham bico grosso. E o que acontece? Morrem todos os passarinhos que não evoluem, isto é, que não desenvolvem o bico, para torná-lo grosso; com o bico fino não consegue romper a casca, que é grossa, das frutas, e morrem de fome.

– Todos os passarinhos morrem de fome? – perguntou-lhe Joãozinho, intrigado e entristecido, a imaginar muitos passarinhos a morrerem de fome.

– Não, Joãozinho – respondeu-lhe o tio. – Os passarinhos que evoluem não morrem de fome. Eles transformam o bico, que, de fino, torna-se grosso, e com ele os passarinhos rompem a casca grossa e dura das frutas, e, assim, sobrevivem.

– Os passarinhos ficam maiores e mais fortes? – perguntou Joãozinho.

– Sim – respondeu-lhe o tio. – É a evolução. Para enfrentar os predadores, o ambiente hostil, e obter alimentos, eles se transformam em espécies maiores, mais fortes, mais poderosas. Eles evoluem. É a evolução das espécies.

– E foi o Charles Darwin que inventou a evolução das espécies? – perguntou Joãozinho.

Todos caíram na gargalhada.

Passados alguns minutos do meio-dia, Joãozinho retirou-se, correndo, da sala-de-estar, e, indagado pelo seu tio, disse que iria ao rancho esperar pelo canarinho.

Trinta minutos depois, Joãozinho regressou, correndo, à sala-de-estar, a anunciar:

– O canarinho evoluiu! O canarinho evoluiu!

E pôs-se a falar, apressadamente, comendo sílabas, trocando palavras.

Pediram-lhe que tomasse fôlego, e, depois, dissesse-lhes o que havia ocorrido.

– O canarinho evoluiu – disse, por fim, Joãozinho, e todos o compreenderam.

– O quê? – indagou-lhe o tio. – O canarinho evoluiu?

– Sim – respondeu Joãozinho. – O canarinho evoluiu. Fui ao rancho, e esperei por ele; esperei um tempão. E eu o vi.

– O canarinho evoluiu? – perguntou-lhe o avô materno, intrigado.

– Evoluiu, vovô – respondeu-lhe Joãozinho. – Ele evoluiu. Eu vi. Eu estava, no rancho, sentado no banquinho, esperando o canarinho descer perto da jabuticabeira, para comer da maçã, do melão e da banana, e eu o vi. Ele evoluiu. Eu vi o canarinho descendo perto da jabuticabeira, e comer das frutas. O canarinho evoluiu. Está maior e mais forte. Ele se transformou num corvo.

Os três reis magos

Uma história do Joãozinho

Em uma segunda-feira, no início do mês de dezembro, a professora, na escola de ensino infantil, decidiu, em uma aula, falar de Natal e de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Em certo momento da aula, perguntou a professora aos seus alunos:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho perguntou-lhe:

– Três reis magros?

Os alunos gargalharam.

A professora pediu-lhes silêncio, e por eles foi prontamente atendida.

– Não, Joãozinho. Três reis magos. Eu não disse três reis magros. Eu disse três reis magos – e, voltando-se para todos os alunos, repetiu a pergunta. – Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Athos, Porthos e Aramis.

Todos os alunos gargalharam.

A professora fitou Joãozinho com olhar de censura.

– Eu, Joãozinho – disse-lhe a professora -, não pedi os nomes dos três mosqueteiros. Pedi os nomes dos três reis magos.

Os alunos, os olhares a convergirem para Joãozinho, exibiam sorrisos acanhados e contidos, afinal, o olhar da professora, de Medusa, abrangia a todos eles.

E a professora, então, todos os alunos em silêncio, repetiu a pergunta:

– Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, mais uma vez antecipando-se aos outros alunos, respondeu:

– Moe, Larry e Curly.

Gargalhadas estrondosas preencheram a sala-de-aula.

– Joãozinho – disse a professora, a fitá-lo, semblante severo -, eu perguntei quais são os nomes dos três reis magos, e não os dos três patetas.

Os alunos principiaram uma onda de gargalhadas, as quais eles cessaram assim que sentiram o olhar petrificante da professora cair sobre eles, e encolheram os ombros.

Joãozinho sorria.

– Perguntarei, mais uma vez – disse a professora, voz gélida -: Quais são os nomes dos três reis magos?

E Joãozinho, a gargalhada preparada, e todos os olhares a convergirem para ele, respondeu, de imediato:

– Huguinho, Zezinho e Luizinho.

E estouraram-se as gargalhadas.

E a professora, bufando de raiva, pediu ordem aos alunos. Precisou ela de quinze minutos para conter a horda de bárbaros infantis.

A professora, os alunos em silêncio a entreolharem-se e a sorrirem, disse, irritada:

– Eu não perguntei quais são os nomes dos três sobrinhos do Pato Donald; perguntei quais são os nomes dos três reis magos. – fez uma pausa, para estudar a influência das suas palavras sobre os alunos, e prosseguiu -: Perguntarei pela última vez: Quais são os nomes dos três reis magos?

– Gaspar, Baltasar e Melquior – respondeu Joãozinho, todos os alunos a fitarem-lo.

E a professora sorriu, contente, e perguntou para Joãozinho:

– Se você sabe, Joãozinho, os nomes dos três reis magos, por que você não os disse quando eu fiz a pergunta pela primeira vez?

E Joãozinho respondeu:

– A aula estava muito chata; e eu queria que ela ficasse engraçada.

Tal resposta não a apreciou a professora; os alunos, no entanto…

– O Joãozinho é do balacobaco! – exclamou um dos alunos, em meio às gargalhadas.

– Eu mereço – disse, resignada, a professora, que sentou-se na cadeira, à mesa, fincou os cotovelos na mesa, e enterrou o queixo nas palmas das mãos, a esperar as gargalhadas cessarem; e esperou, e esperou…

Enfim, estrilou a sirene, e todos os alunos, correndo, alvoroçados, da sala-de-aula saíram, lancheiras à mão, para o recreio.