Eu confio! Eu confio! Eu confio!


– Eu confio no martelo.
– Quê?! Tu confias no martelo?
– Sim. No martelo eu confio. O martelo prega pregos na parede.
– Confiar no martelo! E se uma pessoa empunhar um martelo e dar-te uma boa marretada, marretada não, martelada na cabeça, abrindo-te uma cratera até o cérebro, esmagando-o?!?
– Eu não tinha pensado em tal possibilidade.
– Pense.
– Eu confio no tijolo.
– Quê?! Tu confias no tijolo?
– Sim. No tijolo eu confio. O tijolo constrói casas, muros, prédios.
– Confiar no tijolo! E se uma pessoa pegar um tijolo e dar-te uma boa pedrada, pedrada não, tijolada na testa, esmagando-te nariz e olhos?!?
– Eu não tinha pensado em tal possibilidade.
– Pense.
– Eu confio no espeto-de-churrasco.
– Quê?! Tu confias no espeto-de-churrasco?
– Sim. No espeto-de-churrasco eu confio. O espeto-de-churrasco prepara churrasco de dar água na boca, suculento.
– Confiar no espeto-de-churrasco! E se uma pessoa empunhar um espeto-de-churrasco e dar-te uma boa facada, facada não, espetada no ventre, furar-te, desviscerar-te?!?
– Eu não tinha pensado em tal possibilidade.
– Pense.
– Eu confio no serrote.
– Chega! Chega! Basta! ‘tá doido, moleque!? Confiar em objetos! Em objetos?!? O que tens na cabeça?!

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Bons Amigos

Edson e Renato são dois bons amigos. Jovens, ambos de dezessete anos, são, dizem seus pais, unha e carne. A Dupla, referem-se a eles, assim, familiares, parentes e amigos. Edson, extrovertido, brincalhão, expansivo, de rosto rechonchudo, carrega consigo, desde que veio à luz, nariz empinado de ventas largas, queixo pontudo e sobrancelhas espessas. Não é feio; bonito também não é. É excêntrico. Renato, de um metro e setenta e cinco de altura, atlético, de boa estampa, é dono de olhos azuis que encantam as mulheres. É tímido, introvertido. Ninguém entende como os dois jovens se entendem tão bem. Saídos da escola, à hora do almoço, passaram pela frente de uma lanchonete. Ao ver, à mesa, na calçada, cinco mulheres, todas bonitas, quatro, sentadas, uma, em pé, duas, morenas, duas, loiras, uma, branca de cabelos pretos, Edson perguntou-lhes assim que delas se aproximou:

– Bom dia, princesas – e elas interromperam a conversa, e voltaram-se para ele. – Alguma de vocês deseja se casar com um homem pobre, burro e feio?

– Não – responderam, em uníssono, sérias, as cinco mulheres.


E Edson voltou-se para Renato, e disse-lhe:

– Danou-se, Natão. Você ficará pra titio.


Renato meneou, encabulado, a cabeça, e seguiu caminho. Edson, a gargalhar, ia-lhe logo atrás.

– Natão, você é bobo, mesmo. ‘tá vermelho igual pimentão!

A Estrela-salame

Têm os cientistas fama de gente sisuda, carrancuda, e maluca. Que de maluquice, ou, melhor, de loucura, todo cientista tenha um pouco, ninguém ignora. Conhecemos o Einstein, que era um doido-de-pedra; e o Newton, que, dizem por aí, também não batia bem dos pinos. E o tal de Nash, que gostava de brincar com a Teoria dos Jogos e com outros instrumentos lúdicos que os meio gênios e meio malucos apreciam manusear. Que haja um quê de louco nos gênios científicos, sabemos; todavia, em muitos casos são as esquisitices deles manias estranhas apenas – de espantar todo filho-de-Deus, não podemos negar. E há cientistas que são espirituosos; sabem tirar das horas dedicadas à ciência momentos, mesmo que raros, para brincar, divertir-se, e alegrar muitas outras pessoas, e desgostar um bom punhado delas. Conheci, há poucos dias, um caso, tão hilário! tão engraçado! que eu só não digo de dobrei-me de tanto rir porque o fiz, isto é, dobrei-me de tanto rir, em pensamento apenas. Diverti-me à beça com o episódio.
Quem é o protagonista do capítulo ao qual faço alusão? É ele um cientista francês, cujo nome de batismo é Étienne Klein, homem que ocupa o cargo de chefe da Comissão Francesa de Energia Atômica. É um homem de grande responsável. E espirituoso.
Nestes dias, soubemos os homens comuns que o telescópio James Webb fotografou o universo, não sei de qual perspectiva e qual território dele. Mas fotografou, é certo. Por estes mesmos dias, o conterrâneo de Asterix publicou, em sua conta no Twitter, uma foto com o que ele afirmava ser um retrato, sobre fundo preto, da estrela mais próxima do Sol (e que dele está muito longe, a 4,2 anos-luz de distância – mediram com uma trena interestelar), a Proxima Centauri – que é próxima só no seu nome, pois está longe pra dedéu. Nos dias subsequentes, a publicação recebeu dezessete mil curtidas. Até aqui, nenhum porém.
Qual é a graça nesta história? O que se deu após a repercussão da foto da estrela. Étienne Klein, o cientista que publicou a foto revelou a verdadeira natureza da Proxima Centauri: era uma fatia de salame. Sim! Que danadinho o descendente de Napoleão, não?! A estrela fotografada era, na verdade, apenas uma rodela de salame. Que peça – a Emília, do Lobato, diria pêta – o Panoramix aplicou em meio mundo! E foi o próprio monsieur Étienne quem revelou o teor de sua brincadeira, adicionando um comentário, em outras palavras: que as pessoas não confiem acriticamente nos especialistas (pode-se dizer, também, cientistas). Sensato, e jocoso, é o francês. Sua exortação, engraçada, e educativa. Se pensarmos que cientistas já criaram o tal Homem de Piltdown, suposto elo perdido, temos de reconhecer que o cientista francês traquinas deu-nos uma lição edificante.

Porcos e porcarias

Renato saiu da sua casa, e rumou, em linha reta, até o açougue, distante uns trezentos metros, e nem bem havia posto um pé dentro do estabelecimento, anunciou-se, em alto brado, chamando para si a atenção de Rafael, o açougueiro:

– Ô, corinthiano, hoje tem você porcaria para me vender?

– Não me falte com o respeito, palmeirense. Aqui não é a casa-da-mãe-joana. Vendemos carne de primeira, suína, de porco engordado com filé mignon e caviar.

O neto

Na Prefeitura, sentou-se José Roberto Vasconcelos Liechchenstein Neto, à mesa, diante da funcionária, que lhe perguntou, após saudá-lo com um amigável bom-dia e dele receber resposta e ouvir o nome completo:

– Senhor José Roberto, o senhor é neto do seu avô?

– Sou.

– Ah! Foi o que conclui ao ouvir o senhor dizer-me o seu nome.

… e tem início a Terceira Guerra Mundial. Finalmente.

Agora vai!
Após adiarem vezes sem conta o início da Terceira Guerra Mundial, os Estados Unidos da América, terra sagrada do Tio Sam, e a China, terra sagrada do Confúcio, que, dizem por aí, era indiano – e eu não meto o bedelho em tal história -, e a Rússia, terra sagrada do Pushkin, bombardear-se-ão, e não com bolinhas-de-gude, mas com devastadores artefatos nucleares.
Agora vai!
Encerraram, se é que algum dia existiram, os encontros diplomáticos entre os representantes oficiais do alto escalão do governo dos três países, todos a parlamentarem, animadamente, intercalando suas falas com deliciosos e suculentos comes-e-bebes de dar água na boca e fazer todo católico lamber o beiços.
Agora vai!
É guerra! A guerra será pra valer, anunciam as vozes midiáticas, apocalípticas. Agora não há mais retorno! Ou vai, ou racha!
O admirável Putin – Putinho, para os íntimos -, para decepção dos profetas do Apocalipse (ou do Ragnarok, querem os fãs da mitologia nórdica – Morte a Balder! Que venha a Serpente de Midgard!), não bombardeou, com o seu mefistofélico Satã, Washington, e com os filhos de tal demônio, Londres, Paris, Berlim, Roma, e as outras capitais das nações européias. Mas Xi Jinping, ao contrário do seu colega eslavo, não irá decepcioná-los.
A querida e amada dona Nanci, saída de Washington, rumou, de avião, para a Ásia, e declarou, para contrariedade dos chineses, que iria, depois de passear por Singapura e Tailândia, descer em Taiwan. Xi Jinping torceu o nariz, e ameaçou rachar a cabeça da dona Nanci com uma bomba, e daquelas bem grandes. Será a visita da americana à ilha formosa o estopim da Terceira Guerra Mundial.
Agora vai!
Cá entre nós, o casus belli da guerra que irá dizimar a espécie humana e, provavelmente, exterminar toda vida que há na Terra, é de um mal gosto de dar engulhos em todo bastardo. Bons tempos aqueles em que era a razão de ser das guerras o rapto de mulheres divinas. Que o digam os gregos e os troianos.
*
Nota: Agora vai! Agora vai! Não foi. Não foi desta vez que o mundo assistiu a um espetáculo feérico, bombas atômicas a explodirem nos ares de todo o globo terrestre, tais quais fogos-de-artíficio em noite de reveilão. Que tristeza…

O Descobrimento do Brasil – uma redação do Carlinhos.

A professora de história, Tábata Jandira Marilena do Rosário, da Escola Estadual Fulano de Tal, uma semana antes, pediu aos seus educandos uma redação cujo tema é o Descobrimento do Brasil. De todas as redações que os seus vinte e nove alunos lhe entregaram, chamou-lhe a atenção uma delas, a do Carlinhos. Admirada com o teor de tal obra, falou, dela, emocionada, e apresentou-a como um modelo a ser seguido por todos os educandos, na sala-de-aula.
Abaixo do ponto final que o Carlinhos imprimiu, à mão, na folha, para dar fim à redação, a professora anotou: “Carlinhos, a sua redação é brilhante. Você se revelou pessoa humana de espírito original, criativo, insubmisso. Você deu provas de que não é um educando oprimido, que se curva diante dos detentores do grande capital e da opressora norma culta da língua portuguesa. Você tem senso crítico. Apreendeu todo o ensinamento que ensina toda pessoa a conhecer o seu universo. Parabéns. Você é um aluno exemplar. Para você, com louvor, um 10.”
Nas linhas que seguem, reproduzimos a redação do Carlinhos.

Pedro Alves Cabráu, após cair em depressão profunda, e aprofundar-se na depressão, pensou, deprimido, angustiado, deprê: “Vou me suicidar a mim mesmo.” E subiu à Torre do Tombo, que até hoje não tombou. Tem tombo a torre só no nome. Cristiano Ronaldo, o rei de Portugal – país que, além de ser um dos mais importantes países da Escandinávia, é banhado pelo estreito de Bering, que é mais estreito do que o estreito do Iraque -, que naquele momento passeava por Barceloana, viu-o, em pé, a chorar como uma cachoeira em época de cheia, e perguntou-se para si mesmo o que se passava com aquele gajo, e foi até ele. Pedro Alves Cabráu, à pergunta do rei de Portugal, respondeu: “Minha muié largô dimin, meu rei. Não tenho mais motivo pra viver, e nem onde cair morto. Vou partir desta pra melhor. Tiau, meu rei. Hasta la vista, baby.”  E o rei de Portugal logo lhe disse: “Peraí, Pedrão. Não jogue a sua vida fora, assim, sem mais nem menos; se você deseja jogá-la fora, jogue-a, mas por um bom motivo. Descubra o Brasil.” “Quê, meu rei?! Fale mais alto, para que eu possa orelhar o que vossa majestade imperial do Reino Unido de Portugal, Algarves e Real Madri, diz com vossa real boca. O que vossa alteza me disse, meu rei?” ” “Meu rei!”, “Meu rei!”. Pedrão, você é da Baia?!” “Quê!?” “Há um país para ser descoberto, Pedrão: o Brasil, que até hoje ninguém descobriu. Ofereço a você uma viagem até lá, acompanhado de um padre, o bispo cardeal Bartolomeu Dumont, filho do Papa Nicolau, e outros homens desocupados, numa canoa movida à energia limpa, renovável. E chegando ao Brasil, você, gajo, fincará a bandeira de Portugal na areia da praia de Ubatuba, e entrará para a história universal de todo o cosmos terrestre como o descobridor do maior e mais rico país da América do Sul, continente asiático situado ao sul do norte da Terra. E no Maracanã você poderá assistir a um flaflu, e com direito de ver em carne e osso o Galinho de Quintino. Aceita a proposta, Pedrão?” “Mas é claro que aceito, meu rei. Vossa majestade imperial manda, eu, vosso serviçal súdito, obedeço. Diz o ditado: Pode, quem manda e obedece.” No dia seguinte, os tripulantes da canoa Santa Maria Pinta a Nina lançaram-se ao oceano marítimo. Cansado de tanto remar, Pedro Alves Cabráu disse para os outros tripulantes: “Vamos à África pegar um escravo afrodescendente. E que ele reme até o Brasil.” Dito, e feito. Chegados ao litoral da África, viram os tripulantes da canoa mais famosa da história universal da Terra global um afrodescendente, e aproximaram-se dele. E Pedro Alves Cabráu lhe propôs: “Reme com o remo até o outro lado do oceano marítimo. E lá chegando darei a você, meu bom homem, uma garrafa de cachaça da mais pura cana que se cultiva em terras do Brasil.” “Mé! Mé!”, exclamou o afrodescendente, lambendo os beiços. “Mé! Puro malte! Vamos nos pirulitar pelo oceanis dos marisquis, e depoisis que passarmos a nós mesmos pela Atlântidis, chegar ao Brasilsis. Vamos, portuga. Vamos, Cabrauzis! Forévis!”  E o africano afrodescendente pulou dentro da canoa, tirou um remo das mãos do padre, o bispo cardeal Bartolomeu Dumont, e remou até o Brasil, onde chegaram, uma semana depois, num dia qualquer de um ano qualquer. “Terra à vista!”, exclamou, entusiasmado, Pedro Alves Cabráu, que logo tratou de enviar um zap para o rei Cristiano Ronaldo, com as seguintes palavras: “Meu rei, terra à vista.” E o rei de Portugal respondeu-lhe, também via zap: “À vista, não, Pedrão. A prazo.” E o rei de Portugal deu o calote. Não pagou nem a primeira prestação. E o Brasil se ferrou. Este é o primeiro capítulo da história do Brasil.

Mensagem do Barnabé Varejeira – Educando os filhos.

Ba tarde, Cérjim. Tá calor pa dedéu hoje, tá não?! Vai caí um pé-d’água antes do pôr-do-sór. Calor assim é prenúncio de pancada de chuva, dilúvio pa o Noé morrê de inveja. Armocei há pôco um bom prato de arroz, feijão, carne de vaca, verdura pa dá e vendê, e um litro de laranjada. Eu tô, aqui, pensano cos meus botão, conversano comigo mermo o que se dá co mundo hoje em dia e pruque a garotada tá tão desmiolada, tão desparafusada; parece, inté, que só tem cabeça pa juntá pioiô; parece que a bússola da garotada tá quebrada. Tá difirci, muinto difirci, entendê o que se assucede com os jóve. Eu, que fui educado pelo meu pai e pela mia mãe à moda antiga à moda antiga educo meus fio. Não tem conversa; é do jeito que tem de sê, e pronto. E ponto finar. Sem lero-lero, sem bla-bla-bla, sem conversa fiada. É do jeito que tem de sê. Meus fio educo-os eu, eu e mia muié, craro. O fio reinô, uma espada-de-são-jorge, ou uma varinha-de-marmelo, ensina pa ele quem manda na casa, e quem manda não é ele. E tem de sê assim. Muintos pai e muintas mãe não têm voz firme, e abaixa a cabeça pos fio. Vê se pode! Hoje, antes do armoço, vi, no banco, um menino de uns sete, oito, ano, debochá da mãe; ela chamava ele, e ele punha a língua pa fora da boca, e mostrava a língua pa ela, e ela, em vez de dá nele, no pé-do-ouvido, um tapa pa virá ele do avesso, ficô falano: “Meu fiinho, obedeça a mamãe, obedeça, o cê é um fiinho bonito.” Ah! Se fosse ca mia muié! Ela mandava um tapa nas fuça do moleque, tapa que o viraria do avesso, e fazia ele dá dez vorta em si mermo, antes de pará, e ele ficaria mais tonto que barata tonta. Seria um tapa pa ele nunca mais esquece, nunca mais. Co meus fio é ansim, eu mando, eles obedece; e se eles não obedece, o reio canta-lhes no lombo até tirá, deles, sangue. Não tem conversa. Eu digo o que pode e o que não pode; o que eu digo que pode pode e o que eu digo que não pode não pode, e fim de papo. E comigo sim é sim e não é não. Meu fio, quarqué um deles, faz uma reinação, me farta co respeito, e eu pégo ele de jeito, e nele descarrégo a mia autoridade: “Óia, aqui, ô fio do meu sangue. Se eu mando tá mandado; se eu não mando não tá mandado; se eu digo que não pode não pode; se pode eu digo que pode. Sê entende!? É simpres. Quando eu digo sim quero dizer sim; se quero dizer não digo não; se sim fosse não e não sim, então não não seria não e sim não seria sim. Sim é sim se não é não e não é não se não é sim. Tem de havê distinção entre sim e não de modo que não se confunda não com sim e sim com não. Prestenção! E não vô repeti a órde.” É ansim que falo cos meu fio; dexo mias idéia bem craro pa eles pa que eles não fique no escuro. Ansim meu avô educô meu pai e meus tio, e ansim meu pai educô eu e meus irmão, e ansim eu educo meus fio, e ansim meus fio vão educá os fio deles. Se não fôr ansim, a famia desanda. E ba tarde, Cérjim; não vô mais aporrinhá sua cabeça cos meu pensamento. E que Deus Nosso Senhor te proteja. Inté.

Existe, ou não existe?

Encontraram-se João e José, na Praça Monsenhor Marcondes, hoje, às onze da manhã. Após saudarem-se, desejando um ao outro um bom dia e apertarem-se as mãos, João saiu-se com uma notícia daquelas que não lhe eram incomuns, daquelas com as quais, sabiam seus familiares e parentes, e amigos e colegas de trabalho, envolvia os seus interlocutores num labirinto de perguntas e respostas cuja saída eles jamais encontravam:

– Ontem, Zé, eu vi uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre.

– Deixe de besteiras, João. Não existe tal cobra.

– Não, Zé?! Não existe!? Você já viu uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre?

– Não. É claro que não. Não existe.

– Se nunca viu uma tal cobra, como você sabe que ela não existe?

– Ora… Zé, eu… Não existe tal cobra. E pronto! Deixe de besteiras. Eu nunca vi uma cobra dessas.

– Você, Zé, já viu um vírus?

– Não.

– Mas você acredita que vírus existem.

– E o que tem uma coisa com a outra?! Você confunde alhos com bugalhos, e geringonça com onça.

– Você já viu uma bactéria?

– Não. Nunca vi uma bactéria. Deixe de pilhéria, de lérias.

– Mas você acredita que bactérias existem, não acredita?

– Ora, mas os cientistas… Aonde você quer chegar?

– Quero chegar ao banco. Estou indo pra lá. Tenho de pagar quatro contas.

– Perguntei aonde você quer chegar com tais perguntas, ô, desmiolado.

– Você me disse, Zé, que cobra de quatro asas, dois pés e um chifre não existe porque você jamais a viu.

– Não. Não. Eu disse que não existe porque não existe.

– Mas você nunca viu tal cobra.

– De fato, nunca vi.

– Mas eu vi.

– E você persiste, João?? Deixe de asneira. Vocé viu uma fantasmagórica miragem.

– Ao não ver uma cobra de quatro asas, dois pés e um chifre, você não prova que tal cobra não existe.

– Não existe. Não vi

– Você já viu o seu cérebro?

Não… Mas… Ora… Vá se danar, João. Você é louco, e quer me enlouquecer. Deixe de peneiras… Já nem sei o que digo. Esqueça tal assunto. O Timão ganhou, ontem, o jogo. Três a zero.

– Não ganhou, não. Eu não vi.

Durma-se com um barulho desses!

Serviço de Utilidade Pública: Em alto-mar.

Um homem prevenido vale por dois, diz o ditado. Neste ditado, o homem pode ser substituído por uma mulher, que o seu valor se conserva. A sensatez do homem é equivalente à da mulher. Ditas estas palavras, que não se sabe se são úteis, e tampouco se trazem algum bem àqueles que as lêem, prossigo, nesta prestação de serviço de utilidade pública.Se você pretende empreender uma viagem de avião, ou para a Europa, ou para a Ásia, ou para a África, ou para a Oceânia, ou para a América do Norte, providencie, antes de embarcar no avião, uma lapiseira, uma caixinha com grafites, e um bloco de anotações, e conserve-os à mão, num lugar de fácil acesso, que pode ser o bolso da camisa, ou um bolso da calça.Siga na leitura deste prospecto, que você compreenderá as razões para tomar tais providências.O avião decola da pista de decolagem do aeroporto, e ruma ao seu destino, que poderá ser um lugar qualquer em um dos continentes citados linhas acima. Caso o avião, no meio do caminho entre o Brasil e o seu destino, sofra uma pane geral, e, por alguma razão, misteriosa ou não, parta-se ao meio, mantenha a calma, e aposse-se, incontinenti, da lapiseira e do bloco de anotações, e estude a sua situação, calculando a altura que você se encontra acima da superfície do oceano Atlântico, e procure por um baleal. Calcule a distância que separa você das baleias, e, não se esqueça, mantenha a cabeça fria, e anote todas as informações imprescindíveis para o bom andamento do seu projeto de sobrevivência. Conte as baleias, estude-lhes os movimentos, calcule-lhes a velocidade de deslocamento, trace os rumos que elas seguem, verifique se elas nadam em linha reta, se em ziguezague, se em uma linha curva, anote o tempo que elas se conservam imersas, e o tempo que elas se conservam emersas; enfim, estude-as, atentamente, e não deixe que detalhes importantes escapem de suas observações, e não permita que sua atenção se desvie para algo insignificante. À medida que você vai caindo, recalcule todas as operações matemática que você fez, e mude, sempre que necessário, sem vacilar, os seus movimentos, e a direção que, durante a queda, você segue, e altere a sua velocidade, executando manobras corporais para reduzir, ou aumentar, em consonância com o seu plano, o atrito do seu corpo com o ar, mirando, sempre, uma das baleias do baleal, de preferência a maior. E assim que você estiver bem próximo da baleia, abra os braços e as pernas, ponha-se deitado, para ampliar o atrito do seu corpo com o ar. Você a atingirá, e ricocheteará, e será lançado para o alto, realizando um arco, até atingir o ápice – e estude, durante este deslocamento, os movimentos das outras baleias, mantendo, sempre, a cabeça fria, fazendo as anotações e os cálculos apropriados. Mire uma baleia. Atingindo-a, você, uma vez mais, irá ricochetear, e realizará um arco, cujo ápice alcançará uma altura inferior ao do arco que você realizou após ricochetear na primeira baleia que você atingiu; você terá, portanto, agora, menos tempo para estudar os movimentos das baleias, anotar todos os dados que irá colher das observações que deles você fizer, e fazer os cálculos apropriados, e terá de agir conservando, sempre, a tranquilidade de espírito; agindo assim, você poderá executá-los para conseguir atingir, com segurança, uma baleia, e, ao atingi-la, você irá ricochetear, e atingirá, no arco que irá, durante o deslocamento, realizar, um ápice inferior ao do arco anteriormente realizado ao atingir a segunda baleia; e assim, sucessivamente, até atingir, enfim, uma baleia, na qual você não irá ricochetear, dará apenas um pequeno salto, e nela permanecerá são e salvo. Ato contínuo, domine a baleia, e obrigue-a a carregar você até o seu destino.

Mensagem do Barnabé Varejeira – O Mané Sujão Cruz-Credo.


Bão dia, Cérjim. Bão dia, não; ba tarde. Já é tarde aqui. Se aqui, na roça, já é tarde, intão aí em Piamoangaba tamém é; se não é, devia sê. O cê já armoçô? Já!? Então, é ba tarde. Não!? Então, é bão dia. O dia, hoje, tá de rachá os miolo de todo fio de Deus. Nossa Senhora! Parece, inté, que abriro as porta da casa do cão; e o fogo das profundeza dos inferno sobe pa arriba da terra e queima os ómi de carne e osso, e as muié tamém pruque elas tamém são de carne e osso e fias de Deus. Parei um tiquinho de tempo, deitei na mia rede, que já tá um pôco escangaiada, pa lê umas notícia e ligá o uatesape e enviá mensage pos amigo; e o cê é um dos meu amigo pa quem, vira e mexe, dia sim e otro tamém, envio mensage. Hoje, Cérjim, eu conto po cê uma instória divertida, que se deu onde se deu, não muinto longe daqui, e nem muinto perto, e tamém não foi muinto longe dali, e muinto perto tamém não foi; e nem muinto longe e nem muinto perto de acolá. O cê conhece o Mané Sujão Cruz-Credo?! Não o conhece?! Tudo bem. Pa entendê a instória o cê não percisa conhecê ele. O Mané Sujão Cruz-Credo é o ómi mais sujo do praneta. E o mais fedido. E o mais porco. Um gambá de duas perna. Fedido que Deus me livre. Vive no chiquero, o porcalhão! Suíno! Leitão gambázento! Usa ropa tão fedida quanto ele. É doido de pedra, o imundo. Maluco de comê terra e achá que tá comeno filémiôn. Hoje, cedinho, não se sabe porque cargas d’água – e quem sabe o que se passa dentro da cabeça de um cabeça-de-cuia!? – ele, o doido-de-pedra, arresorveu se banhá no córgo da fazenda do Tião Saca-Rôia, que, diga-se a vredade, não cuida muinto bem do córgo, que tá bem fedido, bem sujo, mais sujo do que o trasêro do coisa-ruim. O Tião Saca-Rôia é relaxado pa dedéu, que Deus me perdõe a língua. Não quero dá ca língua nos dente: O Tião suja, e suja muinto, o córgo; no córgo ele joga muinta sujidade. Que Deus Nosso Senhor me corte a língua se eu tô falano mentira. Não falto ca vredade, não. Pois bem, Cérjim, o que fez o Mané Sujão Cruz-Credo!? Ele tirô as rôpa, e pulô no córgo da fazenda do Tião Saca-Rôia. E nem bem caiu nas águas, o córgo cuspiu ele pa fora, espaventô ele, e mandô ele í embora: “Sai daqui, gambá fedorento! Vá levá sua catinga gambázenta pos quinto dos inferno, diabos do cão! Fedido! Fedorento! Pé de porco!” E o Mané, espavorido, pálido de medo, pegô as rôpa, passô sebo nas canela, e foi pa bem longe do córgo, contô-me o Jãnjão Umbigo de Pêra, que não é ómi de contá lorota. Esta é a mensage que eu quis contá po cê, Cérjim; já contei. Fique, amigo, com o Menino Jesus, fio de José e Maria. Inté.

A Morte do Tiziu – mensagem do Barnabé Varejeira

Bão dia, meu querido amigo, amigo do peito, Cérjim, que tá no meu coração. Com a graça de Deus, Cérjim, hoje eu tô digitano, cos meus dedo, no meu celulá, esta mensage po cê, e estou muinto animado, muinto feliz, feliz pruque tô vivo, pruque minha óra ainda não chegô. Tô vivo, e a mia muié tamém, e tamém os meu fio, pruquê Deus ansim quis, e ansim quer. É d’Ele a vontade de me dexá vivo até agora. Que Deus seja lovado. Quando Ele achá que tá na óra de eu í desta pa onde Ele achá que devo í, vô. Que escoia eu tenho?! Manda quem pode; obedece quem tem juízo. E quem pode é Deus. Então, pa mim, resta-me o juízo.

Já faz um bom tempo, né, Cérjim, que nós não se fala pelo Uatesape. Um bom tempo. Eu mando um bão dia po cê, com desenhinho animado, e tamém mando ba noite, e ocê devórde bão dia e ba noite cos desenhinhos animado, figurinhas alegre, e só. Mas hoje eu tirei um tempo da mia vida atarefada pa contá po cê uma instória divertida, divertida pa dedéu, que aconteceu hoje cedo, mas que não começô o seu começo hoje; o começo da instória começô ônte à noite; e a instória terminô hoje cedo, cedinho. Foi um acontecimento muinto engraçado. Engraçado pa dedéu. Ocê nem imagina o que aconteceu. Nem imagina. Foi por demais engraçado. Não me guento de tanto ri. Não me guento. E tenho obrigação de contá po cê o que aconteceu de tão engraçado. Ocê tem de sabê o que foi. Não me guento de tanto ri, Cérjim. Não me guento. Não me guento. Os meu sorriso vão de uma oreia à ôtra, e vórta da pa qual foi pa da qual saiu. Vão e vórta de uma oreia pa ôtra, sem pará. Foi engraçado demais, Cérjim, muinto engraçado, o que se deu hoje cedo. Muinto engraçado. Ocê tinha de vê. Foi muinto engraçado. Meu Deus do Céu! Cada uma que acontece, aqui, que ocê nem querdita. Ri tanto, tanto, mas tanto, que os botão da mia camisa arrebentáro, e a fivela da cinta estorô. E eu soei três litro de suor, de tanto que ri. Fiquei encharcado. Jesus Cristo Nosso Siôr, Fio de Deus! É cada uma, Cérjim, que só Deus veno! É cada coisa que acontece. Não consigo digitá direito as palavra da instória. Se ocê vê os meu erro de prutuguês, com letra fora do lugar, uma letra engolino ôtra, desconsidere os erro, e me perdõe. Não consigo segurá o celulá, de tanto estô rino. Parece, inté, que aconteceu ônte o que tenho pá contá po cê, mas num aconteceu ônte, não; aconteceu hoje, hoje cedo, um pôco depois de o Garrincha cantá o nascer do sór. E canta que é uma beleza, o meu garnizé, que já tá véinho, coitado. Mas ainda canta, e canta tal qual um tenor intaliano, daqueles gordo, cheio de ar nos purmão. É cada uma que acontece, que a gente contano, todo mundo pensa que é mentira. E eu tô só embruiano a instória. E não tô contano ela po cê. Vâmo deixá de enrolação, de lerolero, e vâmo pa instória que nos interessa, instória muinto engraçada. É engraçada pa dedéu, ocê vai vê.

O seu António, o nosso Tóninho, óme bom e trabaiadô, casado ca dona Lulu, muié trabaiadêra que só veno, tem quatro fio, dois óme e duas muié. Um dos óme é o Fernando, o Nandinho, bicho branco inguar arroz descascado; a gente, só de pirraça, chama ele de Tiziu; e o ôtro fio do Tóninho e da dona Lulu é o Lúcio, óme tão pequeno, menor que pé-de-arface, que parece um canarinho, e tem cabelo espetado; e chamamo ele de Urubu; ele é branco, o coitado, mais branco do que o irmão, e não gosta que a gente chama ele de Urubu, mas a gente, mermo ansim, só pa arrumá encrenca e deixá ele bufano de raiva, com vento nas fuça, chama ele de Urubu.

E agora conmeça a instória de hoje cedo, instória que começô ônte à noite. Quero dizê: a instória já aconteceu, e aconteceu hoje cedo, e parece que foi ônte, e agora coméço a contá-la po cê, po cê conhecê-la. Até agora eu só escrevi a introdução; agora, vâmo à instória intêra.

O Tiziu sumiu. Sim. Ele sumiu. O que não é de espantá ninguém; e todos já estamo habituado com os sumiço dele; não é a primêra vez que ele some, e não será a úrtima. E não sumiu hoje; sumiu ônte à noite. Era onze da noite, o céu ia condecorado de estrela, e tudo ia carmo, na santa paz. E a dona Lulu começô a percurá pelo fio desaparecido, nas redondeza, ino de casa em casa, pedino notícia do dito cujo pa todas as pessoa. E ninguém lhe dava notícia do fio, que tomara chá-de-sumiço, era certo, mais certo do que dois e dois ser quatro, e uma dúzia ser doze. E onde tava o Nandinho, o nosso Tiziu? Ele, Cérjim, é óme feito, mas não regula bem da cabeça, não tem cabeça boa, não. Diz o ditado que quano a cabeça não pensa, o corpo padece. Quem foi o primêro óme que ditô o ditado, e pa quem o ditô, não sei. Sei que o ditado se encaixa, à perfeição, no Tiziu. Parece, inté, que foi inscrito pa ele. Enquanto a dona Lulu percurava o fio sumido, o seu Tóninho bebia cerveja, co Grilo e co Gafanhoto, irmãos gêmeo que se parecem um co ôtro e são unha e carne, e a corda e a caçamba, e comigo e co Ruivo, no bar do Zé Carrapato, e não tava nem aí ca órde do dia. Tava sossegado o seu Tóninho. Mas o sossego dele acabô ansim que a dona Lulu entrô no bar, toda esbaforida, suano em bicas, de óios arregalado inguar trasêro de vagalume, o coração dano pinotes, e falô, com voz esganiçada, po marido dela, que ela desposô, na santa igreja, diante do padre:”Tónho, o nosso fio sumiu.” E o seu Tóninho arrespondeu-lhe, carmo: “Não se percurpe, muié. Logo o Nandinho aparece.” E nem percisô a dona Lulu falá que quem sumira fôra o Tiziu pa o seu Tóninho sabê de quem se tratava. É só o Tiziu que some. O Urubu, embora não bata muinto bem dos pinos,tem juízo. Ansim parece. E o seu Tóninho, a tranquilidade em pessoa, bebeu de um pôco de cerveja, enquanto a dona Lulu, de óios arregalado, cas mão no peito, percurpava-se com o fio desaparecido. Enfim, todos fômo cada um pa sua casa. E o Zé Carrapato fechô as porta do bar. Já era bem tarde. Passava das meia-noite. A dona Lulu varô a noite em claro, percurpada com o fio desaparecido, que não aparecia de jeito nenhum, não dava sinal de sua beleza po mundo. E o seu Tóninho drumiu inguar pedra, pois sabia que o Tiziu ia aparecê mais cedo ô mais tarde; sempre que some,o Tiziu quase sempre aparece mais tarde. E desta vez não foi diferente. Ô foi? O Garrincha cantô. E cantô bonito. Parecia, inté, que havia marcado um gol. E nós, eu, mia muié, os gêmeos Grilo e Gafanho, e a dona Maria dos Doce, e a dona Quitéria, e o seu Janjão, e o Zé da Botica, e a dona Natinha, e a Vó Preta, e inté o Zé Carrapato,fomo pa casa do seu Tóninho e da dona Lulu sabê notícia do desaparecido Tiziu. Tava todo mundo percurpado; mais percurpado ca saúde da dona Lulu do que co Tiziu, que, todos sabia, ia aparecê, mais cedo ô mais tarde. E era umas nove óra aparece na casa do seu Tóninho e da dona Lulu o Tião do Cemitério, que é segurança, que não segura nada. E pode ele segurá arguma coisa com aquela pança de muié prenha!? Não pode. É imporssíve. E o Tião, cos passo medido, ca cara vexada, tímido, falô pa dona Lulu e po seu Tóninho estas palavra: “Seu Tónho, dona Lulu, eu tenho uma coisa pa contá po ceis dois, mas tô um pôco vexado de contá. É uma instória triste, tão triste que me dói o coração. O fio do ceis, o Fernando, tá lá no cemitério.” Foi um deus-nos-acuda, Cérjim. A dona Lulu desmaiô nos braço do seu Tóninho. E corre um daqui, pa pegá cadêra, e corre ôtro dali, pa pegá água pa dona Lulu; e um acóde ela; e ôtro presigna-se e pede a Deus a sarvação da arma do Tiziu. Todos ficamo tonto ca notiça. A dona Lulu acorda do desmaio, bebe de um pôco de água do copo que arguém, não me alembro quem, lhe ofereceu, e, o coração parado, preguntô po Tião do Cemitério: “De que ele morreu, Tião?”, e o Tião, apalermado, respondeu-lhe: “O Fernando morreu!? Ele não morreu, não, dona Lulu. Eu o encontrei, agorinha cedo, deitado, perto do túmulo do Prefeito, vivinho-da-silva. Ninguém encomendô a arma dele, não, dona Lulu. Ele tá dormino, lá,perto do túmulo do Prefeito, e fedeno cachaça.” E todos gargaiamos, de alívio. Tá vivo o Tiziu, aquele manguaça. Que susto ele deu em nós, se nem magina, Cérjim.

É esta é a instória que eu queria contá po ce. E contei. É triste, e divertida tamém.

Mande mensage pa mim, Cérjim. Dê notícia daí da cidade. Ansim que eu tivé ôtra instória pa te contá, conto. Fique co Deus Nosso Senhor Menino Jesus, fio de José e da Santa Maria. E tenha um bão dia. Té breve.

Faz frio, ou calor?

Era uma vez…
Samantha, moça na primavera dos seus dezoito anos, morena cor de jambo, de olhos amendoados, lábios sedutores, cintura de vespa, quadris de tanajura, cabeleira a encachoeirar-se pelos ombros estreitos, pernas bem esculpidas, de um corpo, enfim, divino – que me desculpem a ousadia.
Naquele dia, de temperatura de congelar pinguim, saiu a beldade, às oito da manhã, da sua casa. A sua indumentária, a de uma nativa pré-cabralina; não digo que ela estava nua, inteiramente nua, como a natureza a deu ao mundo, porque cobria-lhe os pés mimosos chinelos-de-dedos, o quadril uma faixa de pano que atende pelo nome de shorts, e o busto generoso uma tira de tecido diáfano, e as orelhas brincos multicoloridos. Cruzou o caminho de Beatriz, sua amiga, que, assim que deteve nela os olhos, esgazeou-os a ponto de arremessá-los para fora das órbitas e, com voz e palavras que lhe traíam a surpresa involuntária, exclamou:

– Sam, meu Deus! Você está no Saara!? Nossa! Eu, a tremer de frio, e você…

– Oi, Bia. Meu corpo não reage ao clima segundo as leis da natureza.

– Sei… Exibida.


E Samantha e Beatriz rumaram, juntas, ao mercadinho.

O Homem que se Machucava Demais.

Não tinha Valério o porte de um portentoso e atemorizante guerreiro viking, nem o tipo escultural, apolíneo, de um herói helênico do tempo de Péricles; e tampouco o de um desgracioso, minúsculo, franzino pigmeu. Não era ele um varapau esquálido, risível e desengonçado, tampouco um gigante tourino, enxundioso, pesado; era um homem comum, de nariz comum, e comuns lhe eram os lábios, e o nariz, e as orelhas, e o queixo, e o rosto desguarnecido de barba e bigode, e a testa, e as mãos, e os dedos, enfim, era ele uma figura comum, esbelta, que já contava a idade de vinte e seis anos. Mas comum não lhe era a cabeleira frondosa, espessa, que lhe ataviava a cabeça, esta comum, e elevava-se do chão um metro e setenta centímetros de altura, aumentando-lhe a estatura em uns cinco centímetros. Invejavam-lhe a cabeleira, misto de juba leonina e crina equina, homens e mulheres, estas mais do que aqueles. Não era Valério um portento de força capaz de erguer uma tora de madeira de cem quilos e carregá-la por um quilômetro, e tampouco um fracote desguarnecido de músculos que mal conseguia erguer uma pena de galinha-d’angola. Extrovertido, e brincalhão, e espirituoso, de índole cativante, que alegrava o mais casmurro dos homens e a mais resmungona das mulheres, de todos a extrair, e sem esforço, sorrisos, risos e gargalhadas, estava sempre a surpreender com suas histórias seus familiares e parentes, e seus amigos e conhecidos, e seus colegas de trabalho. Casado, havia um ano e dois meses, com Jacqueline – que fazia questão de inscrer, em seu nome, o “c” entre o “a” e o “q” – bonita moça de vinte e dois anos, pequena, de um corpo frágil, quebradiço, dir-se-ia de vidro – tal observação dá a entender ao leitor que era a consorte de Valério mulher enfermiça. Reconsideramos, portanto, as palavras que usamos para descrevê-la, e com estas palavras a apresentamos: Era Jacqueline – e não nos esqueçamos do “c” entre o “a” e o “q” – pequena, magra, de cristal, doce, meiga, de pele acetinada, sedosa, de sorriso encantador; um modelo perfeito de uma ninfa, uma sílfide, uma naiade; era ela uma sereia; seus cabelos, atavios que lhe sublimava a beleza; seus olhos, lábios, sobrancelhas, cílios, nariz, orelhas, queixo, maçãs-do-rosto, cabelos, e mãos, e pés, incomuns, raros, dir-se-ia fantásticos, irreais. Mas eram reais, verdadeiros. E hipnotizaram Valério, um dos muitos pretendentes dela; e ela, de todos os homens que a requestavam, decidiu com ele unir-se em cerimônias matrimoniais civil e religiosa, porque não lhe resistia às espirituosidade e graça autênticas, que muito a faziam rir. E invejavam Valério os amigos dele, os solteiros, à procura cada um deles de sua cara-metade, e os casados, que sempre que comparavam a figura de Jacqueline cada qual com a de sua esposa, suspiravam, uns, trangredindo o décimo mandamento, a lamentarem haver um dia decidido vestirem uma aliança no dedo anelar da mão esquerda, e diante de um padre, ou, simplesmente, de um juiz de paz.
Tem princípio a nossa história num sábado ensolarado do mês de Novembro, à tarde, segundos antes do início do crepúsculo. Conta a nossa história três capítulos da vida de seu herói, o já apresentado Valério, o felizardo marido de Jacqueline. O primeiro passa-se em um bar, o segundo em uma casa, e o terceiro em um pronto-socorro. No desejo de não trocarmos os pés pelas mãos, não nos anteciparmos aos eventos, não acelerarmos a narrativa sonegando informações ao leitor, iremos por partes, num ritmo lento, mas não demasiadamente lento, com as minúcias que achamos apropriadas.
E vamos ao bar. E não a um bar qualquer o Valério foi. Ele foi ao bar do Evandro Saraiva, o popular, naquele bairro, e nas adjacências, descendente de nativos de alguma colônia portuguesa na África e de silvícolas ameríndios que escaparam das mãos de bugreiros, Tupi Guaraná, bar distante de sua casa uns duzentos metros, no quarteirão vizinho, à direita, na esquina das ruas Damião de Góes e Manuel Antonio de Almeida. E foi a passos lentos, como que a calcular-lhes os centímetros que cada um deles cobria, e a cronometrar seus movimentos, em cada passo a gastar o mesmo tanto de segundos, a cabeça ligeiramente abaixada, a sorrir, antecipando-se à cena que, desejava, criaria, uma peça, digamos, que pretendia pregar em quem no bar estivesse. Carregava, no braço direito, gesso, que o cobria quase que por inteiro. Com os dedos da mão esquerda coçou o peito, metros antes de chegar ao seu destino; e assim que sentiu algo lhe tocando a cabeça, passou-lhe a mão esquerda ao mesmo tempo que se deteve, e olhou para cima, à procura não sabia do que. Não encontrou o que o atingira; abaixou a cabeça, olhou ao redor, esquadrinhou o chão, e viu galhos e folhas, e concluiu que algum galho, pequeno, lhe acertara a cabeça. E seguiu rumo ao bar, onde chegou pouco depois. E mal transpusera o enquadramento da porta, anunciou-se. Assim que pôs os pés no território do Evandro Saraiva, passou ao seu lado, quase lhe tocando ombro com ombro, um homem de altura que equivalia à sua, gordo, calvo, trajado com uma bermuda, que lhe estava colada às coxas, e uma camisa, que lhe deixava à mostra a metade inferior da barriga proeminente. Saudou Evandro e os dois outros homens que com ele palestravam, ao balcão, todos animados, a se pronunciarem em alto e bom som, e a gargalharem, então perdidos numa animada confabulação acerca de futebol, todos a enodoarem a progenitora do árbitro da partida. Voltaram-lhe os três a atenção, um deles, naquele momento, a levar à boca o copo americano com cerveja alemã. E mal o viram, intrigaram-se, a atenção deles a convergirem-lhe para o gesso que lhe cobria o braço direito. Eram os dois amigos-de-copo de Evandro Saraiva, um, baixote, moreno acobreado, homem de vida difícil, via-se, de rochosa musculatura, semi-calvo, Renato, também chamado, pelos amigos, Galo de Briga, o outro, robusto, moreno, de estatura mediana, de cabelos encaracolados, preto-foscos, o Lobato, assim alcunhado devido às suas espessas sobrancelhas, e cujo nome de batismo era Vicente João Serafim Ricardo.
Antecipando-se aos seus dois amigos, Evandro, curioso, perguntou, zombeteiro, a Valério:

– Quebrou a patinha, donzela?!
Riram Vicente e Renato. E Vicente espetou, com um palito-de-dentes, que tirara de dentro de um copo com cerveja até a metade, um ovo de codorna cozido, e levou-o à boca.
Valério exibiu, então, aos três homens, o braço direito coberto com gesso, com ar triunfante, como se lhes exibisse um troféu arduamente conquistado, e antes de responder à pergunta que lhe fôra feita, Evandro fez-lhe segunda pergunta:

– O que houve, Valério?!

– Ouço o que me chega aos ouvidos. – respondeu-lhe o nosso herói. – Não sou surdo, ô, cacique txucarrapai.
Gargalhou Renato, visivelmente ludibriado pela loira gelada que namorava há alguns minutos. E Vicente sorriu, a inspirarem-lhe o sorriso a pergunta que Evandro fizera a Valério, a resposta que este lhe dera e a gargalhada de Renato.

– Vá se danar, paspalho – replicou Evandro.

– Oi, Galo – saudou Valério a Renato, que foi uns dois passos em sua direção, e deu-lhe três tapas no ombro direito, e passeou-lhe a mão pelos cabelos, acariciando-os, ao mesmo tempo que lhe dizia:

– ‘tá luzidio, Valérinho. De barriga cheia. Que vida mansa, marajá.

– Luzidio, eu, garnizé?! – observou Valério. – Veja suas penas. Brilham ao sol. Penas de ouro e de prata. Que exuberância.

– Apanhou da sua mulher? – perguntou Vicente ao recém-chegado.

– Antes fosse – respondeu-lhe Valério. – Dela eu receberia, e com muito gosto, a pancadas.

– Até eu – afirmou Renato, sorrindo tolamente. – A sua muié é uma tetéia.

– Não me desrespeite, franguinho. – replicou Valério, num tom jocoso. – Olhe o mandamento.

– Respeite a mulher do Valério, Galo de Briga. – reprovou Evandro a atitude de Renato.

– Não esquenta, Valérinho – desculpou-se Renato. – Fêmea de amigo meu para mim é macho.


Valério sorriu ao vê-lo pendular-se para a direita e para a esquerda.

– Vá beijocar a loirinha, galinho. – sugeriu-lhe Valério, que, voltando-se para Evandro, perguntou-lhe: – Quantas geladas o passarinho já bebeu?
Antes que Evandro lhe respondesse à pergunta, entrou no bar, com um jornal dobrado sob a axila esquerda, um magricela branco, de cabelo curto, penteado ao meio, trajado com calça e camisa machados de tinta, Gabriel, que, tão logo viu Valério, perguntou-lhe:

– O que houve, Valério?

– Darei a você, Pé-de-Pato – respondeu-lhe Valério -, a mesma resposta que dei para o cacique Tupi Guaraná: Ouço o que me chega aos ouvidos.

– Conte-nos o que aconteceu, zé-mané – solicitou-lhe Gabriel.

– A senhora muié dele – antecipou-se Renato a Valério – sentou a vassoura no lombo dele, sugando-lhe um litro de sangue, e partindo-lhe o braço em três partes, a do meio ele a jogou pro cachorro do Tupi.

– Cacique, por gentileza – disse Valério -, não dê mais nenhuma gota de malte para a criança. – E voltando-se para Renato, aconselhou-o: – Ô, hobbit, ponha o copo, com a boca para baixo, sobre o balcão. E não ponha mais cerveja na boca, ou vai fazer xixi na cama. – E voltando-se para Evandro: – Mestre morubixaba, sábio indígena, discípulo do mestre Yoda, telefone para a mãe do pouca-sombra, e diga-lhe que venha, e já, buscar o filhotinho, que acha que já é galo, mas que ainda não saiu do ovo.
Renato divertiu-se com o que ouviu. Vicente caiu na gargalhada. E Evandro e Gabriel riram – e este pediu àquele cerveja, e ele atendeu-o prontamente.
Assim que restabeleceram conversa, Valério respondeu à pergunta que Gabriel lhe fizera:

– O que me aconteceu!? Vocês querem saber o que me aconteceu!? Contarei o que me sucedeu, tim-tim por tim-tim. Apresentarei aos senhores todas, e mais algumas, minúscias, pormenorizadamente, com detalhes incalculáveis, num relato repleto de emoção, drama, suspense, mistério, surrealista e parnasiano, e barroco e romântico, a minha enocionante aventura, cujo encerramento, que não me foi do agrado, é cômico, quase trágico, e dolorido, muito dolorido, imensamente dolorido. Estava eu, belo e formoso, a tirar da geladeira a caixa com leite, após dela tirar um pote de plástico cheio de gelatina; não era um pote, digamos a verdade; era um prato de plástico; na verdade, não era um prato, nem um pote; mas era de plástico; era uma vasilha de bordas maiores do que as de um prato e menores do que as de um pote. Mas era de plástico, e de plástico fino, frágil.

– Desembucha, matraca. Você fala mais do que a nega do leite – reprovou-o Evandro Saraiva.

– Silêncio, majestoso pajé dos cataporas – retrucou Valério.- Vamos, passo a passo, a narrar a história. Continuemos, caros aristocratas bebedores do mais puro malte: Pus, sobre a mesa, o prato, ou pote, ou vasilha, ou tapoer, sei lá eu o que era aquela porcaria, com gelatina, e, em seguida, a caixa com leite; e assim que fechei a geladeira, de repente, mais que de repente, na velocidade de um raio, entrou, e logo saiu, na cozinha, um pardal, que me atingiu, com seus pés, a cabeça, assustando-me, e desequilibrei-me, e bati com o cotovelo na mesa, e derrubei, com a mão, não me lembro se com a direita, se com a esquerda, a caixa com leite, e leite derramou-se pela mesa e pelo chão, e esparramou-se, e no meu esforço de recuperar o equilíbrio, estiquei-me, desengonçadamente, e pisei na poça de leite, e pousei a mão, na mesa, onde havia leite derramado, e escorregaram-se-me, levando-me para o chão, violentamente, os pés e as mãos, e cai-me sentado. Doeu-me as almofadas. E tratei de me levantar; e assim que me pus de pé, furibundo, enraivecido, descarreguei um soco, e bem dado, na gelatina. E quebrou-se-me o braço. Vejam, senhores cidadãos do reino tupi: meu braço engessado, obra de um tombo, que um pardal me presenteou.

– E do que era tal gelatina? – perguntou-lhe Evandro, intrigado. – De pedra?!

– Não, Saraiva, não. – respondeu-lhe Valério. – Era de limão.

– De limão azedo? – perguntou-lhe Gabriel, divertindo-se com a situação. – Eu não sabia que com limão azedo se faz gelatina tão dura.

– Que gelatina dura, o que, Pé-de-Pato – falou-lhe, Renato, pronunciando, desajeitadamente, as palavras, silabando-as, exibindo dificuldade para coordenar os pensamentos, que lhe saíam aos trancos. – Você não conhece o Valérinho, não?! Ele é uma flor. Quebrou a patinha de moça. Bilu Tetéia.

– O Valério é de porcelana – comentou Vicente, dobrando-se numa gargalhada convulsiva.

– É uma rosa – disse Renato, aproximando-se de Valério, e passeando-lhe as costas da mão esquerda no rosto e deslizando-lhe a mão pelos cabelos.

– Podem rir – disse Valério, num tom fingidamente pernóstico e irritado em meio às gargalhadas de seus três interlocutores. – Gargalhem. Gargalhem. Se vocês conhecessem o final da minha aventura, que eu ainda não contei do princípio ao fim, não iriam rir, nem gargalhar, jamais, nunca. Eu poderia me recusar a prosseguir com a narração; não o farei, todavia, entretanto, porém, no entanto; embora os senhores bebedores de malte, glutões inveterados, não mereçam de mim ouvir nem mais uma palavra, eu, ainda assim, me dignarei a contar aos senhores o que se me sucedeu. Se porventura um raio cair-me sobre a cabeça, ainda assim eu narrarei o que me comprometi a narrar, e com todos os detalhes indispensáveis, queiram os senhores, ou não, mereçam, ou não, os senhores de mim ouvir tão emocionante relato.

– Deixa de lero-lero, e desembucha – reprovou-o Renato.

– Dê-me silêncio, galinho. – pediu-lhe Valério. – Vá cacarejar em outra freguesia. Antes de mais nada, digo: são de aço, e não de porcelana, meus braços. Mas, vejam. Melhor: escutem, escutem atentamente: eu soquei, e com um soco bem dado, daqueles bem dados, num supetão, a gelatina, esmagando-a, pulverizando-a, esmigalhando-a. E fez-se ouvir o barulho de algo se quebrando; e não era o algo a gelatina; era o meu braço. Ora, soquei a gelatina; e infelizmente, embaixo dela estava a mesa, e não mesa qualquer, de compensado; é a mesa de madeira nobre, jacarandá, herança de meus avós. O osso aqui do braço… Como se chama?! Fêmur?! Não sei. Eu nunca fui bom em poesia. Partiu-se-me o osso em dois. Foi um deus-nos-acuda! A Jacqueline ouviu-me o berro, e correu acudir-me. E num pulo chegamos ao Pronto Socorro. E logo atenderam-me os enfermeiros. E aqui estou, na companhia de três de meus amigos, quebrado, mas inteiro,a bebericar uma geladinha.
E estrondejaram, altissonantes, as gargalhadas.
Entraram no bar outros homens. E Valério logo inteirou-os do que lhe sucedera. Narrou a história, com diferenças insignificantes, quatro vezes, Renato a interrompê-lo a curtos intervalos, infalivelmente a criar cenas hilárias e a embaraçar a todos, em uma ocasião, sendo inconveniente, a ouvir uma reprimenda de Evandro Saraiva, que não admitia em seu território toda e qualquer atitude, e, consciente de seu papel desrespeitoso, desculpou-se com todos, sinceramente constrangido, apesar de sua ligeira ebriez.
Seguiu, animada, a conversa, até as vinte e duas horas.
Encerrado o primeiro capítulo da nossa história, nosso herói, Valério já há um bom tempo recuperado, removido de seu braço direito o gesso – que, um dia antes de o médico lho tirar, estava inteiramente coberto com inúmeras garatujas, e desenhos, uns exemplarmente bem-acabados, e uma pintura de um êmulo de Michelângelo, uma réplica de um afresco que embeleza a Capela Sistina, a obra-prima do admirador do gênio renacentista ladeava a assinatura, cuidadosamente trabalhada, com esmero incomum, de Jacqueline -, damos as primeiras palavras do segundo capítulo da aventura que acompanhamos atentamente.
Transcorreram-se quatro meses do dia que Valério, no bar do Evandro Saraiva, o Tupi Guaraná, anunciou o seu acidente. Estamos, agora, no mês de Março, em um sábado quente e abafado, às dezoito horas.
Valério e Jacqueline, ambos asseados, perfumados, havia poucos minutos banhados na água quente de um chuveiro, retiraram-se de carro, ela ao volante, ele, no banco posterior à direita dela, desajeitado devido ao gesso que lhe cobria a perna direita abaixo do joelho. Para entrar no carro, a amparar-se em muleta de madeira, marrom, manchada de preto em oito pontos, auxiliara-o Jacqueline, que o ajudara a acomodar-se no banco e a livrar-se da muleta. Incomodava-se Valério, que resmungava de tempos em tempos, sempre a adicionar às queixas comentários jocosos, esforçando-se para ver graça em sua situação. Jacqueline trajava um vestido, discretamente decotado, vermelho – que lhe respeitava os contornos do corpo -, as orlas a lhe descerem até os tornozelos, e as alças, finas, a sustentá-lo. Admirou-lhe a beleza e formosura Valério, que lhe disse que ela não tinha que se embelezar tanto, pintar, com tanto cuidado, com esmalte vermelho fosco, as unhas, e tampouco fazer uso de tanto capricho no penteado dos cabelos e dos cílios e das sobrancelhas, pois ela era naturalmente bela, divina, e louvou-lhe a beleza. Jacqueline, ao mesmo tempo que dele acolheu de peito aberto os elogios, pediu-lhe que não tivesse um ataque de ciúmes tal qual o que dera uma semana antes, na festa de casamento de um casal de amigos. Valério careteou.
Iriam à casa dos avós maternos de Jacqueline, Joaquim e Isabel, para a efeméride: septuagésimo quarto aniversário natalício do mais antigo ancestral vivo de Jacqueline, o vovô Joaquim, ancião pacato, de poucas, quase nenhumas, palavras, que, havia dois meses, na mesa de cirúrgias de um hospital, foi retalhado por um cirurgião, que lhe instalara duas pontes-de-safena, às pressas, após ele sofrer uma parada cardíaca que quase lhe roubara a vida.
Na casa de Joaquim e Isabel chegaram Valério e Jacqueline vinte minutos após retirarem-se de sua casa, ela a dirigir, com cuidado extremo, o carro, por ruas esburacadas, e mal-iluminadas, algumas envoltas pela escuridão, pois estavam apagadas as lâmpadas dos postes, e ele a reclamar do sacolejar do carro, movimentos abruptos que lhe provocavam dores na perna envolta em gesso.
E retiraram-se do carro. Mal havia Valério pousado a perna esquerda na calçada, escorando-se, desajeitadamente, na muleta, e Jacqueline a ladeá-lo, e de bem perto, aproximaram-se dele, curiosos, animados, eufóricos, sorridentes, Bianca e Bruno, gêmeos, de cinco anos, sobrinhos de Jacqueline, ele vestido com uma bermuda azul e uma camisa verde, e nos pés tênis pretos amarrados com cadarços brancos, e cabelos desmanchados, ela, com uma calça amarela e camisa branca, carregando, nos pés sandálias, e trazendo, presos, com uma presilha de plástico, os cabelos longos.
E Bianca, que se antecipara a Bruno um passo, abriu os braços para abraçar Valério, que se curvou, esforçando-se para não deixar seu rosto transparecer o desconforto que tal gesto lhe inspirara, para a frente, e ofereceu-lhe o rosto direito, que ela osculou, carinhosamente, ao mesmo tempo que Jacqueline agachava-se, e punha-se de cócoras, e abraçava e beijava Bruno, que lhe saltara aos braços num pulo prodigioso quase vindo a derrubá-la para trás. E saudaram-se com abraços e beijos Jacqueline e Bianca, e com um beijo Valério e Bruno. E assim que encerraram as saudaçoes calorosas, os beijos, os abraços,e Jacqueline pôs-se de pé, Bruno voltou-se para Valério e, apontando-lhe a muleta,perguntou-lhe:

– O que é isso, tio? É uma espingarda?
E Bianca chamou a atenção de seu irmão:

– Não, né, Bruno. O tio não é soldado.

– Marcha soldado, cabeça de papel; se não marchar direito, vai preso no quartel. – cantarolou Bruno. – Não é assim, tio, que soldado canta, e canta e marcha?

– É – respondeu-lhe Valério. – É assim que soldado canta, encanta, e marcha.

– Mas o que é isso? – perguntou-lhe Bianca, apontando a muleta.
E Valério respondeu-lhe:

– O meu estepe.

– Estepe!? – indagou, curiosa, a menina.

– É uma bengala – respondeu Valério, escondendo para si o sorriso que lhe animava o espírito.

– Bengala?! – indagou-lhe Bruno, intrigado, cismado.

– Não é bengala, não – observou Bianca, séria. – Não é um pão. Bengala é pão. Isso – e apontou para a muleta – não é pão. É madeira, madeira de árvore.

– É tábua – corrigiu-a Bruno.

– É madeira – replicou Bianca.

– Não é madeira, não – retrucou Bruno. – É tábua. Tábua é feito de árvore.

– Madeira também é feito de árvore, né, bobo!? – corrigiu-o Bianca, mostrando-lhe a língua.

– Bobona – xingou-a Bruno, que logo voltou-se para Valério: – Tio, isso – e apontou a muleta – não é estepe, não. Não é, não. Isso – e mais uma vez apontou a muleta – não é um pneu de carro.
Valério e Jacqueline não conseguiram controlar o riso. Jacqueline exibiu uma fileira de dentes brilhantes de tão brancos, perfeitos, lácteos. E Valério disse para as duas crianças:

– Vocês me pegaram, danadinhos. Isto – e indicou-lhes a muleta – não é estepe, nem bengala. É um cajado mágico de um bruxo feiticeiro do castelo do rei Príncipe Leão, vossa majestade do reino encantado. Muleta é o nome deste cajado; tem o poder de me amparar; se eu não o deixo, assim, encaixado, aqui, embaixo do sovaco, caio de bumbum no chão. Ai. Ai. Ai – fez que havia caído.
A representação dramática de Valério arrancou ondas de gargalhadas de Bruno e Bianca.
Aproximou-se deles, Laura, irmã de Jacqueline, de dezessete anos, de cabelos escorridos, tão brilhantes, que chamaram a atenção de sua irmã, que não se conteve ao elogiá-la. Beijaram-se as irmãs no rosto, ambas encostando-se os rostos, sem tocarem neles os lábios, movendo-os como se se osculassem. E Jacqueline avaliou os cabelos de Laura, pegando-os, cuidadosa e carinhosamente, e deixando-os escorrerem, suavemente, por entre os dedos das mãos.
Enquanto as irmãs conversavam, e admiravam-se, entretinham-se, numa palestra animada, Bruno, Bianca, e Valério, aqueles concentrados nas palavras deste.

– O senhor está com a perna quebrada, né,tio? – perguntou Bianca a Valério.
E antes que Valério respondesse, Bruno indagou-lhe, ao mesmo tempo que coçava o nariz e ajeitava a bermuda:

– Tio, por que o senhor quebrou a perna?

– Não foi de propósito, acredite – respondeu-lhe Valério. – Sabem o que me aconteceu? Não sabem, é claro. Vou contar para vocês o que houve. Eu estava, na varanda da minha casa, que é, também, a casa da tia Jacqueline, que manda quando não estou lá, a lavar o carro, um calhambeque aristocrático, e não uma lata-velha caindo aos pedaços, com água e sabão, mais água do que sabão, e muito sabão. E eu a passar a esponja com água e sabão no carro, e no carro a esguichar água para dele remover o sabão, até o carro brilhar de tão limpo, a assumir a figura de uma pedra preciosa. Brilhava que era uma beleza o meu carro. E eu, assim que olhei perto da roda de trás, não me lembro se do lado direito, se do esquerdo, vi uma gigantesca montanha de espuma.

– Bem grande? – perguntou-lhe, curiosa, Bianca.

– Enorme. Imensa. – respondeu Valério. – Enorme de tão grande. Imensa de tão enorme. Grandiosa. Maior do que todas as montanhas que existe em todo o mundo.

– E em toda a galáxia – completou Bruno.

– Sim. – confirmou Valério. – Em toda a galáxia. E até o infinito, e além. E lá estava a montanha de espuma, bem diante de meus olhos. E eu, não sei porquê, usando todo o poder intelectual da minha massa cinzenta, o miolo que recheia minha cabeça de homem sábio, decidi, para desfazê-la, dar-lhe um pontapé, e bem dado. E dei-lhe o chute. E quebrou-se-me a perna. Ai. Ai. Ai. Doeram-me pé e perna. Era tanta, mas tanta, a dor, que, não me aguentando em pé, fui parar, no chão, a berrar igual neném que apanha no bumbum.

– Mas, tio, espuma de sabão nem é dura – observou Bruno.

– É verdade – comentou Valério. Espuma de sabão não é dura. A espuma de sabão, meu querido sobrinho, não é dura, eu sei, você sabe, tu sabes, ele sabe, e ela também, nós sabemos, vós sabeis, eles sabem, e elas também, mas a roda, roda de metal, de adamantium, que a espuma de sabão escondia, é. É duríssima. Mais dura do que a minha cabeça. Duríssima. Que dureza! Doeram-me à beça pé e perna. Chorei, até, de dor, e dor bem doída. Não sei qual fenômeno se me envolveu, que, além de quebrar ossos dos dedos do pé, quebrei o da perna direita, a… Tíbia?! Não sei. É assim que se diz?! Sei lá. Geometria não é o meu forte. Foram pras cucuias os ossos.
As duas crianças gargalharam. Durante a festa, elas, mais do que Valério e Jacqueline, encarregaram-se de espalhar a história para todos os presentes na casa de Joaquim e Isabel.
Valério ainda não havia encerrado a sua narrativa, da casa dos avós de Jacqueline saíram Joaquim, um irmão deste, Pedro, e uma filha deste, Maristela, que ficaram a ouvir as derradeiras palavras do relato de Valério, que, assim que o encerrou, saudou-os e abraçou-os. E trataram todos de entrar na casa do aniversariante.
Encerrado o segundo capítulo da aventura de Valério, chegamos, agora, ao terceiro capítulo, que é o último que aqui relatamos, para, ao seu final, darmos fim à nossa história, à qual nos dedicamos, com agrado e boa-vontade, durante alguns minutos de nossa curta existência. E este terceiro e derradeiro capítulo, já dissemos, passa-se em um pronto-socorro.
Estamos, agora, no mês de Junho, na manhã, um pouco antes das sete horas, de uma quarta-feira de frio de trincar ossos, de fazer toda pessoa bater os dentes, uma espessa neblina a cobrir toda a cidade, impedindo as pessoas de verem o que havia a um palmo à frente do nariz.
No saguão de entrada do Pronto Socorro Municipal, estava, sentado numa cadeira-de-rodas, Valério, e a empurrá-la Sócrates, seu irmão. Detiveram-se à porta, à espera do carro que os conduziria à casa de Valério. Trazia o nosso herói uma atadura na cabeça, os dois olhos quase invisíveis, o esquerdo oculto sob espessa camada de pele preta-arroxeada, circundados por hematomas, o nariz quebrado, rubro, coberto com uma gase e esparadrapo, o rosto avermelhado, o braço direito e a perna esquerda engessados, e a perna direita inchada tantos eram os machucados que a cobriam. A aparência de Valério, de dar arrepios. Mal conseguia falar com seu irmão; a voz arrastava-se-lhe pelo esôfago, e nos dentes, encontrando dificuldades, praticamente intransponíveis, para lhe saírem da boca. Sempre que desejava falar ao seu irmão, este curvava-se, ligeiramente, para a frente, e punha-lhe a orelha à boca.
Estavam, à entrada do pronto socorro havia uns vinte minutos, quando abordou-o Denilson, amigo de Valério desde o pré-primário; ambos não se viam desde o casamento de Valério com Jacqueline. Assim que se aproximou deles, Denilson exclamou, surpreso, e sem esboçar vontade de ocultar sua surpresa:

– Ó mai góde!
Voltaram-se para ele Valério, e Sócrates, que lhe estendeu a mão direita, para apertar-lhe a direita, que ele lhe oferecia. E Denilson, encostando-se em Sócrates, e saudando-o com um bom-dia, e dando-lhe tapas fraternais nas costas, perguntou a Valério:

– O que aconteceu com você, Valério?! Atropelamento?! O que aconteceu? Meu Deus, Valério. Você está um bagaço. Um caminhão passou por cima de você?
Valério não respondeu; esboçou um sorriso acanhado, que se assemelhava ao esgar repulsivo de uma quimera fabulosa, monstruosa, mitológica.
Esperou Denilson pela resposta, mas obteve de Valério apenas silêncio e um olhar desaprovador. Diante de tal cena, Sócrates informou a Denilson que Valério mal podia falar, e pediu-lhe que dele se aproximasse. Denilson, então, curvou-se, pousou as mãos nos braços da cadeira-de-rodas, e perguntou a Valério:

– Um caminhão passou por cima de você? Ou foi um trem?

– Antes fosse – respondeu-lhe Valério, ciciando. – Antes fosse, Nil. Mas o veículo que me esmagou é maior, e mil vezes mais destruidor.

– Diga-me o que aconteceu – pediu-lhe Denilson, sua curiosidade atiçada pelas palavras enigmáticas de seu amigo. – Conte-me a história do começo ao fim.

– Nos mínimos detalhes? – perguntou-lhe Valério, esboçando um sorriso grotesco.

– Sim – respondeu Denilson. – Nos mínimos detalhes, e nos máximos, também, se os houver. Não me deixe de falar todos os pormenores. Estou curioso. Nunca vi você assim; ‘tá parecendo um pântano de tão disforme. Não sei que idéia eu quis expressar com tal observação, mas tudo bem. Esqueça o que eu disse, e conte-me o que se deu contigo.

– Eu dei um tapa na cara da Jacqueline, a minha querida esposa. – respondeu Valério, com dificuldade, as palavras mal lhe saindo da boca, e obrigado a fazer curtos intervalos entre cada uma das palavras que dissera e a repetir as mais extensas.

– Quê?! – surpreendeu-se Denilson com a revelação. – Ora, Valério. Não vá me dizer que a Jacqueline fez de você um bagaço. Conte-me outra, que esta não colou. A Jacqueline, tão pequena, tão frágil, tão fraquinha, fez de você saco de pancadas?! Não acredito.

– Espere, Nil – pediu-lhe Valério, sussurrando,paciência. – Não é o que você pensa. Não se precipite. Ouça-me: Discutia-mos eu e a Jacqueline. Mais ela comigo do que eu com ela. Íamos a berrar, a xingar um o outro, não me lembro porquê, e ela me disse não me lembro o que. Não me lembro o que ela me disse. Não me lembro. Dói-me a cabeça. Ela me disse algo que me tirou do sério, e do sério eu saindo, melhor, eu sendo tirado, perdi a cabeça, a compostura, a decência; e sem pensar duas vezes, dei-lhe um tapa, de supetão, na cara, com a mão direita; a direita, sabe? a destra. Foi um tapa bem dado. E a Jacqueline levou a mão ao rosto, e olhou-me com aquele olhar, sabe? de raiva, de raiva furiosa, de fúria raivosa. E entendi, então, ao fitá-la, que ela não iria levar desaforo para casa; aliás, estávamos em casa. E ela não permitiria que o desaforo ficasse lá dentro. Denilson, eu não sei, juro, no que eu pensava, naquele momento. Eu não pensava por mim. Eu não me responsabilizava pelos meus atos, mas me responsabilizaram por eles.
Todo o relato reproduzido no parágrafo anterior, Valério o apresentou num tempo que equivalia ao triplo do que gastaria se estivesse de plena posse de seus pulmões, esôfago e boca. Embora não pronunciasse corretamente as palavras e no volume adequado para se fazer ouvir pelo seu interlocutor, fez-se por ele se entender.

– E sua esposa, Valério – indagou-lhe Denilson -, aquela mulher tão frágil, tão meiga, deu uma sova em você?! E você quer que eu acredite nesta patranha?! Que a Jacqueline tem unhas de leoa, eu sei; que ela é brava, eu também sei. Ela herdou o temperamento sanguíneo do pai dela, aquele homem abrutalhado, fruto da miscigenação de nórdicos, bretões, russos, mongóis e visigodos. Até hoje eu não entendi como de um homem tão selvagem e estúpido e chucro nasceu mulher tão meiga e bela. Juro que não entendo. E olha que ela tem os olhos e o nariz dele.

– Não, Denilson – reprovou-o Valério, falando com a mesma dificuldade que vinha enfrentando até então. – Não é o que você está pensando. A Jacqueline é inocente. Não é ela a personagem mais importante da história. Não foi ela, é claro, que me moeu. Foi o irmão dela. Lembra-se dele?! O David?! David, aquele grandalhão, aquele brutamontes, aquele bárbaro da Ciméria. Homenzarrão de três metros de altura e dois de largura. Davi pequeno é só o da Bíblia. O David, meu antagonista, é um dos monstros da mitologia. De qual mitologia, não sei. Mas que ele é um monstro, é. Um monstro boxeador, lutador de muay-tai, de karatê, e de não sei quais outras, umas cinco ou seis, artes marciais. Coisas de marciano. Reconheço, Nil: o David é um bom homem. E é um ótimo irmão, ninguém há de negar. E é meu cunhado. Meu cunhado favorito. Ai! Dói-me o corpo; dói-me todo o corpo. Dos pés à cabeça. Até as unhas. Mas só dói quando eu respiro.

Faz calor, ou frio?

Era uma vez…
João Cascudo, descendente dos neanderthais, homem de meia idade (e o que eu quero dizer ao dá-lo de meia-idade, não sei), de estatura mediana, barriga pronunciada, de poucos fios de cabelos espalhados pela cabeça razoavelmente agigantada. Num dia de sol de rachar a cabeça de todo filho de Deus, saiu à rua com indumentária típica dos esquimós. Abordou-o Paulo, seu vizinho, que, ao vê-lo, perguntou-se, divertido com a figura bizarra dele, o que lhe ia na cabeça:

– Ô, casca grossa, você está no Pólo Norte?

– Não, songomongo; estou no Pólo Sul – replicou João, sério e sorridente, carrancudo e jocoso.

– E tem pinguim aí, ô, picolé? – persistiu Paulo, zombeteiro, a rir, agora com mais liberdade, de seu amigo.

– ‘tô com frio, ô, diabos!

– Frio!? Você está doente!?

– Doente, ou não, hoje estou com frio. Não sei o que me acontece hoje. Tão logo acordei, desci da cama; ao pôr os pés no chão, tremi, e dos pés à cabeça, de frio, de frio dos infernos.

– Dos infernos!? Dos infernos!? E há frio no inferno!?

– Quem sabe?!


E João e Paulo seguiram, juntos, até a padaria.

Maldita Valéria! – mensagem de Barnabé Varejeira.

Bão dia, Cérjim, meu amigo, amigo do peito, amigo que muito bem eu quero, amigo do coração, do coração de ouro, de ouro de oito que late. Que Deus Nosso Siôr Jesu Cristo Menino, Fio do Zé i da Santa Maria, proteja ocê sempre, i sempre, i pa todo o sempre. Amém.
Transandônte, anteônte, i ônte, i ôje, Cérjim, eu ovi uma instória daquelas de arrepiá os cabelo de ovo de pata. Meu Deus do Céu! Tem gente neste mundão de Deus Nosso Siôr que só sabe fazê disgrama das bem desgraçada. Que os diabo as carregue pus quinto dos inferno. E que Deus Nosso Siôr me perdõe se cometi, i cometi, uma heresia imperdoáve. Mas não dá pa guentá tanta mardade das pessoa. Não dá. Não tenho paciência de Jó. Deus me livre! Deus deu, Cérjim, um inspírito pa cada fio-de-Deus, um só, unzinho só, um pa cada uma das pessoa de duas perna; todavia, entanto, há pessoas que têm dois inspírito: o que Deus deu, e o que o cão deu, e o cão deu o inspírito-de-porco. Deus me livre de tanta disgrama! Cérjim, eu ovi, já disse eu, i repito, ônte, i anteônte, i transandônte, i ôje, i osso às veiz, à quarqué hora do dia i da noite, uma daquelas notiça de doer no coração de todo ômi de bom coração.
Óia, Cérjim, ocê sabe tão bem quanto eu, o até mais, pruque ocê é um ômi estudado, que há um bão tempo nóis sofre pruque um sino-chinês comeu, lá pras banda dos ómi de óio fechado, parente próximo, um primo, i quase irmão, dos japa-nipônico, um morcego, i cru. Daí, a instória é de conhecimento de todo os ómi. O sino-chinês ficô ruim pa dedéu, i antes de í po beleléu, gurspiu, o mal-encaminhado, um caroço de catarro com o vírus, aquele bichinho que os fio-de-Deus, não o veno, vê, i o estrupício, o tal bichinho, vuô, i vuô, foi de lá pra cá, o bandido, i infectô uns punhado de sino-chinês, de japa-nipônico, de viéti-vietnã, de gringo-americano, de portuga-lusíada, de ítalo-romano, i ôtras raça de gente de otros praneta, até que, enfim, infectô um brasilêro, i, depois disso, arrasô cas vida de muinto de nosso povo. I que Deus Nosso Siôr Jesu Cristo Menino, Fio do Zé i da Santa Maria, sarve as arma de todos ele, i dêxe elas í pô céu. I que tenha misericórdia de todo os ômi.
Pois bem, Cérjim, nós sofreu à beça. Sofrêmo muito. Mas tâmo nos livrano do mardito mocorongovírus, que fez uma disgrama que só veno. Mas a vida segue. Temo de segui, sem insmorece. Temo que arregaçá as manga, i pôr mãos à obra. Fazê o quê?! Se é ansim, é ansim. Deus Nosso Siôr sabe o que faz.
Agora, veja bem, Cérjim. Ocê veja como as pessoa não qué que a gente respire nem um gole de ar puro, pa espairece, renová as energia, pa podê pegá no batente, i segui em frente pruque atrás vem gente, i já dão um jeito de fazê as pessoa ficá cas perna bamba de tanto medo. Ô gente coisa-ruim! Nem mal nos livrâmo do mocorongovírus, i já trosséro ôtro bichinho pa nos atazaná a cabeça, i nos deixá de cabelos em pé, i o coração apertado, de tanto susto, susto atrás de susto. Deus me livre. Primêro, um sino-chinês cóme carne de morcego, crua, i o mar se espáia pela terra de Nosso Siôr, fazeno muinto mar pa toda as pessoa; i agora, uma tar de Valéria cóme carne de macaco, má-passada, passa mar, e górspi um catarro tão tamanhudo, de assustá até abantesma, sofre um piripaque, i parte desta pa mió, i da massa catarruda que ela gurspiu brota um bichinho, que, tal qual o mocorongovírus, não o veno, todo mundo o vê, i espaia-se de um fio-de-Deus para ôtro, i pa ôtro, i pa ôtro, i pa ôtro, i põe toda as pessoa de cabelo em pé.
Óie ocê, Cérjim, i ossa bem: as muié são danada pa trazê disgrama no mundo. Primêro, a senhora Eva, de triste memória, come uma das maçã da maciêra, instragada, i agora a tar da Valéria come carne de macaco, má-passada. Mardita Eva! Mardita Valéria!

Sangue Judeu

  • – Você tem sangue judeu?
  • Por que você me pergunta se tenho sangue judeu?
  • – Os judeus, dizem, sempre respondem uma pergunta com outra pergunta.
  • – E só o povo judeu faz isso?
  • – Não sei. Mas dizem que os judeus nunca respondem uma pergunta com uma resposta. E você é tal qual os judeus, se a lenda é verdadeira. Sempre que alguém faz uma pergunta para você, você responde com outra pergunta, e não com uma resposta.
  • – E ao perguntar, em resposta a uma pergunta que me fazem, não estou dando uma resposta?
  • – Não. Você não responde à pergunta, mas faz outra pergunta, que obriga quem faz a você uma pergunta a dar uma resposta, e aí os papéis se invertem.
  • – Você pode me dar um exemplo?
  • – Posso. Claro que posso. Perguntei para você se você tem sangue judeu, e ao invés de me dizer se tem, ou não, sangue judeu, você me perguntou porque eu perguntara para você se você tem sangue judeu, e eu, então, em resposta à pergunta que você me fizera em vez de me responder à pergunta que eu havia feito a você, disse para você que dizem que os judeus sempre respondem uma pergunta com outra pergunta e não com uma resposta. E aqui estamos nós dois, eu respondendo às perguntas que você me faz. E você ainda não me disse se você tem sangue judeu.
  • – E por que eu diria a você se tenho, ou não, sangue judeu?
  • – E você não pode me dizer se você tem sangue judeu?
  • – E por que você quer saber se eu tenho sangue judeu?
  • – E há algum mal eu querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E por que haveria algum mal em querer saber se tenho sangue judeu?
  • – E quem disse que há algum mal em querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E não foi isso que você insinuou?
  • – Eu insinuei que há mal em querer saber se você tem sangue judeu?
  • – E não insinuou, não?
  • – Insinuei?
  • – Se você não insinuou que há mal em querer saber de mim se tenho sangue judeu, por que você me perguntou se há mal em querer saber se tenho sangue judeu?
  • – E eu tal pergunta fiz por que eu vejo que há mal em querer saber de você se você tem sangue judeu?
  • – E não vê mal, não?
  • – Vejo?
    … e a conversa prossegue indenifidamente.

Peixe de água doce e peixe de água salgada

Fui a peixaria, e tão logo um de seus funcionários atendeu-me, eu lhe disse: “Pediram-me para eu comprar peixe de água doce, e não de água salgada. Quais de água doce vocês têm?” E ele apontou-mos: eram três, ou quatro. E eu, sem titubear, perguntei-lhe: “E os outros são de água salgada?” E ele respondeu-me que sim, que os outros eram de água salgada. Não demorei para entender a minha tolice; e assim que paguei pelos peixes que pedi, já afastando-me da peixaria perguntei-me, rindo de mim mesmo, se havia peixe que não vive em água doce, tampouco em água salgada. O funcionário, que me atendeu, da peixaria tratou-me com o mais profundo respeito e de mim não riu – acho que não, pois a máscara que lhe cobria a cara não me permitia ver-lhe o rosto. Uma pulga, no entanto, está a coçar-me a orelha: Assim que me retirei da peixaria, aquele funcionário, rindo a bandeiras despregadas, contou a história que protagonizei a todos os outros funcionários, uns seis.

Dor de dente

Faz, já, algum tempo, que eu, dor de dente a atormentar-me, fui consultar uma dentista. Falei-lhe do meu caso, do dente, da dor, e, sentado na cadeira de tortura, à solicitação da dentista, abri a boca para ela examinar os dentes que ainda me restam, principalmente o que me doía. E deu a dentista o prognóstico, seguido das seguintes palavras: “Vamos extraí-lo.” E ela mo extraiu, com todo o carinho do mundo. Sai do consultório, a cara inchada. Eu retornaria àquele consultório, para nova consulta, uma semana depois. E assim foi. No dia aprazado lá estava eu, sentado na cadeira de tortura, ajeitando-me quando a dentista pergunta-me: “E o dente? Está doendo?”, referindo-se ao dente que me extraíra sete dias antes. Tão logo me fez a pergunta, comentou, rindo: “Como sentir dor no dente que eu arranquei semana passada?!”. Eu sorri, divertido.

Pudim de Caramelo

João e José Carlos, seu filho, foram à doçaria. O filho pediu ao seu pai que comprasse um pudim de caramelo. E ele lhe atendeu ao pedido. O pudim às suas mãos, José Carlos virou-se para seu pai, e disse-lhe: “Pai, lá em casa o senhor corta o pudim pela metade e dá o pedaço maior pra mim.”

A sofisticação do verbo “ouvir”.

De todos os verbos da Nossa Língua Portuguesa, “ouvir” é o mais sofisticado. Permite duas conjugações no presente do indicativo da primeira pessoa do singular: “osso” e “ovo”. Exemplos: “Eu osso músicas do Pixinguinha.” e “Eu ovo músicas do Sílvio Caldas.”

Meu filho está bem, obrigado por perguntar

– Eu soube, Biel, que seu filho envolveu-se num acidente de carro.

– Não se preocupe, Beto. Ele está bem. Quebrou as duas pernas, um braço e só quatro costelas.

– E você diz que ele está bem!?

– E não ‘tá, não?! Um braço dele ‘tá inteiro. E vinte e nove costelas dele não sofreram nenhum arranhão.

Carne de Vaca e Carne de Porco – Um Debate Epistemológico. Com a Participação dos Filósofos João Osso de Boi e Paulo Espinha de Peixe – transcrito por Zeca Quinha, e publicado no Zeca Quinha Nius.

O Zeca Quinha Nius, o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre e de todos os outros orbes deste e de outros universos, tem a honra de apresentar aos seus leitores, que habitam os quatro cantos do orbe terrestre, em transcrição, a íntegra do debate, de cunho filosófico, antropológico, histórico, geográfico, psicológico, sociológico, teológico, parapsicológico, químico, físico, alquímico, metafísico, astrológico, astronômico, geológico, bovino, suíno, galinácio e ictiológico, do qual participaram dois nobres intelectuais brasileiros, os senhores João Osso de Boi e Paulo Espinha de Peixe. Antes de dar aos leitores do Zeca Quinha Nius, o maior e mais popular hebdomadário digital do orbe terrestre, o teor do debate, cuja substância são as palavras que os debatedores pronunciaram durante o debate, e não outras, que não foram ditas por eles, apresentamos breve, muito breve, brevíssima biografia deles, uma de cada um, pois cada um deles tem uma, e apenas uma, biografia, embora ninguém até o momento desta publicação tenha escrito, e tampouco publicado, a biografia deles, biografia que trata da vida deles, e não da de outras pessoas, que também podem ter uma biografia, ou mais de uma, a depender de quantas existam.

O senhor João Osso de Boi, dos dois debatedores o primeiro de quem falamos, e não o mais importante, é graduado e pós-graduado, gradualmente, em Linguística Alimentar, pela Faculdade dos Nomes Próprios Impróprios, Apropriados e Desapropriados, da Universidade Federal do Município de Pindamonhangaba do Norte-Nordeste. Escreveu sete obras grandiosas, cada uma delas com mais de dois milhões de palavras, e elaborou, com a sua inteligência invejável, a Teoria das Palavras Ditas e Não-Ditas Que Dizem as Ditas o Que Não Querem Dizer e Não Dizem as Não-Ditas o Que Querem Dizer Independentemente de Quem as Diz e as Não Diz, teoria que está exposta em um livro de mais de cinco milhões de palavras, uma obra monumental. E o senhor Paulo Espinha de Peixe, dos dois o segundo de quem falamos, e não o menos importante, é graduado, pós-graduado, doutorado e mestrado em Psicologia Parapsicológica do Pensamento Linguístico Humano Com e Sem Palavras, pela Faculdade de Antropologia Labial das Línguas Idiomáticas das Pessoas Falantes e Tagarelas, da Universidade Estadual do Município de Pindamonhangaba do Sul-Sudeste, e doutor honoris causa da Universidade Universal Terrestre e Terráquea da Cidade Indiana Pindamonhangabakrishnan. É autor de um livro em cuja capa há uma ilustração com um elefante, um sagui, uma ostra, uma estrela-do-mar, um pinguim, todos eles comendo batatas fritas, à mesa redonda, a participarem de uma confabulação linguística poliglota.

Agora que os leitores já leram, caso as tenham lido, as biografias, em resumo bem resumido, das duas ínsignes autoridades intelectuais, damos, nas linhas que seguem este parágrafo, a transcrição do histórico debate entre elas, que são eles, dois homens. Pedimos aos leitores que não se apressem na leitura, pois ainda não digitamos a transcrição; e que a leia na medida em que a digitarmos.

– A carne – disse João Osso de Boi, após as apresentações da lista de títulos, e muitos tíitulos, dos dois debatedores. – O que é a carne, e o que se diz da carne, e o que a carne é e não é é a questão que nos interessa, a mais importante em nossa civilização, a sociedade moderna, laica, cientificista, industrial e tecnológica em que vivemos. É a carne carne. É da essência da carne a sua substância carnuda. E é da carne que se origina a carnificina, a carnagem, a carnefilia, a carnefobia, o carnívoro e a carnívora, o carniceiro, a encarnação e a reencarnação, e o desencarnado, e a dona Maria da Encarnação. A carne em si, metafisicamente falando e dizendo ontológicamente, é laica; precede a existência da definição e do conceito de carne e as substâncias substanciosas que dela procedem. Não existisse a carne, não existiria o conceito de carne, e nem a definição dela, e tampouco a definição do seu conceito e o conceito da sua definição, tanto do que a carne é quanto do que são o conceito e a definição da carne. A existência da carne obrigou os humanos a pensar acerca da sua substância e das origens da linguagem cujo eixo de pensamento é a carne.

– Penso, meu amigo – disse Paulo Espinha de Peixe -, que, inexistindo a carne a existência da definição e do conceito de carne existiria, ou não, a depender dos estímulos intelectuais que os humanos porventura sofreriam no mundo em que a carne inexistisse. O intelecto humano é tão complexo e maleável que, mesmo desconhecendo a inexistência do inexistente e conhecendo a existência do existente, pensa na existência inexistente e na inexistência existente a ponto de conceber a entidade, em abstração, que associa a coisa ao objeto, independentemente se é o objeto uma coisa e a coisa um objeto; portanto, é o escólio, inexistindo, em concreto, a coisa, o objeto, em abstrato, inexiste, porque é a sociedade laica.

– O que me faz pensar, meu amigo, evocando, metafisicamente e ontologicamente e noologicamente e antropologicamente e etnologicamente e linguisticamente, os artigos e substantivos que se usa para designar, existencialmente e fenomenologicamente, a carne em suas inúmeras acepções, eles dela transcendem a materialidade; a carne seria carne mesmo se não existisse. Vejamos um exemplo: diz-se carne de vaca e diz-se carne de porco, sem se considerar a laicidade da carne e a sexualidade do açougueiro.

– Há açougueiros que, corroídos pela masculinidade tóxica, não compreendem, e não querem compreender, que a flatulência das vacas e dos bois interferem negativamente no clima terrestre, elevando a temperatura global, e ocasionando, consequentemente, maremotos e terremotos, interferindo, assim, automaticamente, nos ecossistemas do universo, com ressonâncias antropológicas e paleológicas que ecoam nos sistemas ecológicos dos outros sistemas estelares da Via-Láctea.

– Você tocou em um ponto sensível, que pode ser desdobrado em inúmeros pontos e estendidos em várias linhas, linhas retas e linhas curvas, pontuadas de pontos pontudos apontados em pontos curvos e pontos retos. Quero chamar a atenção para outro ponto, que também pode ser desdobrado, e esticado, e curvado e recurvado, aleatória e randomicamente, seguindo trilhas a esmo, em conformidade com a Teoria das Supercordas e em consonância com os postulados da Teoria da Relatividade Geral conectada às regras elementares da culinária japonesa. É o da designação das carnes. É a carne de vaca, entendem os dotados de preconceito linguístico da sociedade patriarcal, medievalista, feudal, de vaca, e a de porco, de porco. A carne de vaca não é necessariamente de vaca, pode ser de boi, e a de porco, de porca, e não obrigatoriamente de porco. A carne, considerando o ambiente laico da sociedade moderna, sendo carne, tem propriedades de carne, e são seus componentes carne, e de carne são as suas essências material e metafísica, e o nome “carne” transcende a carne, pois não compartilha com ela suas materialidade e concretude, pois a carne, para existir, independe do nome que a denomina e a identifica. A carne, portanto, em suas partes constituintes e em seu todo, sendo de vaca, é de boi, e sendo de boi é de vaca, e sendo de porco é de porca, e sendo de porca é de porco, e, por conseguintemente falando, e linguisticamente observando, não a carne, mas os nomes que a nomeiam, conclui-se que a sociedade não abandonou de todo os preconceitos linguísticos, herança de uma cultura bárbara, supersticiosa, de uma era que antecede a sociedade laica moderna, industrial e tecnológica, que tem na carne carne independentemente das suas existência e inexistência. É a carne um fenômeno extra-sensorial, um epifenômeno existencialista e parapsicológico devido à inconsistência da sua estrutura fenomenológica. E astrologicamente está a carne sob o reino de Plutão, e coroado por Júpiter, e amparado por Vênus, e justaposto a Urano, e alinhado a Mercúrio e Marte.

– O que se destaca nos nomes das carnes é a subjacente mentalidade discriminatória do povo conservador que, identificando na carne substância digerível, não atenta para a linguagem binária, o uso dos pronomes masculino e feminino, objetos culturais de sociedades corroídas pelo preconceito linguístico binário, e mal percebe a substância cosmológica de subsistência da civilização que existe sob a égide do capitalismo anárquico neoliberal e patriarcal, sob estrutura mercadológica cujo único fim é a exploração dos explorados em benefício dos exploradores, que têm na carne o símbolo etéreo e fluídico do domínio do lucro das empresas lucrativas, cujos proprietários se arvoram em árvores vetustas e milenares dotadas de vínculo umbilical com a natureza, e, portanto, revestidos com a sabedoria da Mãe Gaia, entidade celestial, suprema, divina, cuja divindade prescinde de transcendência teológica e metafísica. É impressionante o prejuízo que o senso comum do homem comum cuja essência está apodrecida por causa da masculinidade tóxica, que lhe fere o ser do seu ser, ser metamórfico, polimorfo, multifacetário. Enquanto não se derem conta da estupidez humana que faz da carne objeto de culto culinário e da nomeação binária, a sociedade não irá progredir.

– Se astrologicamente está a carne sob o signo dos astros, zodiacalmente ela está na substância concreta dos símbolos dos signos. No horóscopo há bichos, animais, todos de carne, e a libra, cujas balanças podem ser usadas para medir a extensão do peso das carnes, em equilíbrio, ou em desequilíbrio, e o aquário, que pode conter animais aquáticos, os peixes, ou outros animais, também compostos de carne, sendo, portanto, tanto o aquário, quanto a libra, objetos empregados para atuar em atividades humanas que têm na carne um fim em si mesmo. E na simbologia dos signos do horóscopo detecta-se a prevalência da ordem da desordem ordenada segundo a desordem cósmica da ordem cosmológica dos padrões parapsicológicos do magnetismo animal dos animais simbolizados pelos signos, cujas imanências conduzem e reconduzem os homens às eras terciária e quaternária das primícias dos prolegômenos inscritos no frontispício dos tratados noéticos, cujo patrono é Noé, escravocrata, o primeiro bípede implume a explorar o trabalho braçal dos animais da era paleozóica, o ser humano ainda a engatinhar em suas andanças pela Terra.

– Em se tratando de magnetismo animal, os animais o possuem em larga escala, em especial, e principalmente, os animais animalescos, cuja carne desencarna e reencarna segundo os estágios dimensionais da metempsicose ariana e marciana; sabe-se, também, que a carne dos animais, além de intimamente dotada, em sua quintessência, de magnetismo animal, tem alta dose de eletromagnéticas voltagem e amperagem no seu microscópico sistema elétrico, hidrelétrico e fotoelétrico, independentemente da consistência dos pólos da Terra, situados, um, em seu norte, um, no seu sul, um no seu leste, um, no seu oeste. E os vegetais e os minerais não são dotados de magnetismo animal, e nem os planetas.

– O tema, amigo, é um dos mais complexos sobre os quais os humanos nos debruçamos, dedicados a desentranhar-lhes os mistérios, que remontam às mais antigas sociedades obscurantistas e esotéricas do misticismo egípcio e das sociedades iniciáticas teosóficas e que estão inscritos nos tratados de magia negra concebidos por alquimistas e quiromantes e prestidigitadores, todos a corroerem a alma humana com seus exóticos e escalafobéticos tanglomanglos. É “carne” acrônimo de Consciência dos Animais Racionais Nativos do Exterior; em outras palavras, é a carne substância alienígena proveniente dos reptilianos que vivem, no centro da Terra Oca, além da Abóbada Celeste.

Não entendi o que o chinês me disse

 Abordou-me, hoje, à Praça Monsenhor Marcondes, um chinês, que me falou, e me falou, e me falou, e me falou… E eu nada entendi do que ele me disse, pois, para mim, chinês é grego.

Barnabé e Juvenal. Ou: Dois Nomes e Seus Donos.

Sempre que penso no nome Barnabé, imagino um caipira. E sempre que penso num caipira, imagino-o com o nome de Barnabé. Para mim, não há caipira que não se chame Barnabé e nem Barnabé que não seja um caipira. E o único Barnabé que eu conheço é médico e mora em São Paulo, cidade, e de caipira não tem sequer um arranhão.
Sempre que penso no nome Juvenal, imagino um homem amalucado. E sempre que penso num homem amalucado, imagino-o com o nome de Juvenal. Para mim, não há homem amalucado que não se chame Juvenal e nem Juvenal que não seja um homem amalucado. E o único Juvenal que eu conheço é, sem tirar nem pôr, um homem amalucado.

Enganou-me o vendedor de livros.

– Sérgio, comprei gato por lebre. Acreditei no Djalma, do sebo Maravilhas Em Papel, e danei-me. Cinco tijolos de ouropel, e não de ouro. Pagar-me-á caro, muito caro, aquele carequinha vendedor de livros. Deixe estar, jacaré; a lagoa há de secar. Um dia é da caça; o outro, do caçador. O mundo não para; dá voltas. Aquele pouca sombra vai ver o que é bom para a tosse e com quantos paus se fazem uma canoa. A vingança é um prato que se come frio. Peguei a mania dos anexis. Agora, cheio de suspeitas, irei à delegacia de polícia, e solicitarei ao delegado me mostre a capivara daquele aeroporto de mosquito e pintor de rodapé. O filho-da-mãe, que sabe que sou traça-de-livros e rato-de-biblioteca, telefonou-me, hoje, de manhã, um pouco antes das dez, e disse-me: “Senhor Gilberto, tenho em mãos cinco volumes de um dicionário do Laudelino Freire, novíssimos. Sei que é o autor do teu agrado. Estás interessado em adquiri-lo?” “Do Laudelino Freire!?”, perguntei-lhe, admirado, espantado com tão agradável surpresa. “Sim, senhor Gilberto. Do Laudelino, o mestre Laudelino.” “Dicionário novo, Djalma?!” “Novo, não, senhor Gilberto. Novíssimo!” “Mande-mos, imediatamente. Quero recebê-los ontem. Se é do Laudelino, é meu. Cinco volumes?” “Sim. Cinco volumes.” “São meus os cinco. O Laudelino fará companhia aos mestres Silveira Bueno e Caldas Aulete.” “Negociemos o preço.” “Diga para o boy trazer o Laudelino, Djalma. Enquanto ele vem, negociaremos o preço de tal preciosidade. Negociaremos o preço, que o valor é inestimável. Agraciaram-me os deuses, que hoje estão de boa veneta, com a fortuna! E assim que o boy chegar, pago-te no cartão.” “Sim, senhor Gilberto. Ordem dada, ordem executada. O boy já saiu daqui. Chegará na tua casa num pulo.” E assim foi, Sérgio. Assim foi. Nem bem eu e o Djalma havíamos acordado o preço do dicionário, toca-me a campainha. Era o boy com o pacote. Paguei-lhe o preço combinado com o Djalma, e entregou-me o boy o pacote, que pesava, mensurei-lhe a tonelagem assim que o tive em minhas mãos, dois mil quilos. Despedi-me do boy, fechei-lhe, com certa má educação, reconheço, a porta, antes, mesmo, de ele me haver dito ‘Tenha um bom dia, seu Gilberto”, e corri, desajeitadamente, pois era demasiado o peso dos livros, à sala-de-estar, onde, exausto, cheguei, cachoeiras de suor a escorrerem-me das têmporas, e com a língua para fora da boca, e célere pus-me a abrir o pacote. E aos meus olhos reluziram cinco livros, grossos, grandes, imensos, monumentais, grandiosos, de capa dura, marrons. Admirei-os. Temi tocá-los. Acreditei que se os tocasse, eles desapareceriam como num passe de mágica. Eu sonhava! Sonhava, maravilhado, no sétimo céu, num estado espiritual de alumbramento indescritível. Peguei o Laudelino. Acalentei-o. Embalei-o. Na lombada do volume um, eu li: Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, e o venerável nome do autor de tão prestigiada obra, Laudelino Freire. E com suavidade movi-lhe a capa; e li a edição: era a segunda; e a editora: Livraria José Olympio Editora; e… e… Sérgio, você não me acreditará o que li ao pé da página. Jamais. O ano da publicação do dicionário: 1954. Novíssimo! Novíssimo, disse-me o Djalma, aquele pé-de-soldadinho-de-chumbo! Tem o dicionário sessenta e oito anos de vida! Sessenta e oito! É quase um ancião! Novíssimo, disse-me o Djalma, aquele tratante! Pagar-me-á muito caro, com a vida, aquele anão-de-jardim! De 1954! Novíssimo!? 1954!

Meu pai está bem, obrigado por perguntar

– Bom dia, Zé.

– Bom dia, Tião.

– E seu pai, melhorou?

– Ele está bem. Quebrou só duas pernas.

– E ele tem quatro pernas!?

– Ele dá coice em muita gente, até nos filhos e na esposa. Se dá coice, ele é um cavalo; se é cavalo, é quadrúpede; se é quadrúpede, tem quatro pernas.

– Estimo melhoras para seu pai.

O neto petulante e o avô espirituoso

Petulante, o garoto abordou seu avô, que, entendia ele, era um velho gagá, e, prelibando do constrangimento que, acreditava, lhe iria impor, perguntou-lhe:

– Vovô, o senhor tem juízo?
E respondeu-lhe o avô:

-Não. Eu já transferi todos os meus bens ao seu pai, que os perdeu antes de você nascer.

Tolerância e intolerância

Tolero quem desmata a Amazônia. Tolero quem é a favor da quarentena. Tolero quem diz que o Maradona é melhor do que o Pelé. Tolero quem vota em políticos do PT. Tolero quem acredita que a Terra é plana. Tolero vegetarianos e veganos. Tolero testemunhas de Jeová. Mas não tolero quem não gosta de fubá.

 … e o homem se transformou em um animal.

Canta-me, ó, musa, o trágico destino de Ésquilo, o maior dos dramaturgos helênicos.

Foi na era de ouro dos deuses do Olimpo. Ao saber que Ésquilo escrevera Prometeu Acorrentado, obra que faria seu autor tão respeitado quanto os deuses, Zeus, enciumado, decidiu fazê-lo sofrer pelos dias que lhe restavam de vida. Chamou o deus dos deuses Baco, e deu-lhe a ordem: “Deus do vinho, desça ao mundo dos mortais. Vá à residência do petulante, presunçoso Ésquilo, e tire-lhe o assento. E diga-lhe que se ele se sentar em qualquer outro assento, eu o enviarei ao reino de Hades. Vá!”

Baco, tão veloz quanto Mercúrio, desceu à terra dos homens; mas antes de rumar à residência de Ésquilo, foi a uma taberna, da qual se retirou, pra lá de Bagdá, soluçando, zonzo, a trançar as pernas, após sorver o conteúdo de quatro tonéis de vinho. E foi cumprir a ordem que recebera do deus supremo do Olimpo. Chegou à residência do êmulo de Sófocles, e sem se anunciar nela entrou, aproximou-se dele, e removeu-lhe o acento.

… e assim Ésquilo se transformou em um esquilo.

Novas Palavras de Sabedoria Do Zeca Quinha – publicadas no Zeca Quinha Nius

O homem prevenido vale por dois, se os dois homens estiverem desprevenidos.

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O pior cego não é aquele que não quer ver, mas aquele que vê, pois se o pior cego fosse o melhor cego ele não veria nada.

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É sensata toda pessoa que não é atingida, no café-da-manhã, por um meteoro.

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Os dinossauros foram extintos porque eles não compreendiam a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein.

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Para se viver bem é aconselhável que se viva bem.

O Processo Legal – escrito por Zeca Quinha – publicado no Zeca Quinha Nius

Na noite de ontem, às duas horas da madrugada, os menores T.N.C.B.C. e P.Q.P.C.M., impelidos por um desejo de corrigir as injustiças sociais das quais foram vítimas, cientes de que a sociedade brasileira infligiu-lhes, nos dezesseis anos de vida que eles mal viveram nas comunidades periféricas das caóticas metrópoles urbanas em cujas ruas e avenidas trafegam automóveis, símbolos capitalistas do consumismo ocidental e da irresponsabilidade ecológica, agentes poluidores e causadores do efeito estufa e do aquecimento global, fenômeno, este, cataclísmico, que culminará na aniquilação da vida na Terra, decidiram transpor o muro da discórdia, da opressão, da segregação social, étnica e racial que os mantêm afastados dos bens de consumo com os quais sempre sonharam, mas dos quais a sociedade brasileira sempre os manteve afastados, da rua passando para o interior de uma propriedade, que é um roubo imposto, pela classe privilegiada, à classe desprivilegiada. E no interior da propriedade da casta opressora, avançaram os menores, empunhando revólveres, andando, nas pontas dos pés, tranquilamente. De repente, atacaram-los dois cães imensos, ferozes, ensandecidos, descontrolados, com fúria nos olhos, e ódio mortal nos latidos, que ecoaram como explosões de artefatos bélicos, assustando-os; e os menores T.N.C.B.C. e P.Q.P.C.M, aterrorizados, surpreendidos pelo avanço injustificável dos cães – instruídos, estes, pelos seus donos a atacarem qualquer cidadão que adentrasse a casa, na calada da noite, para reivindicar compensações pelas injustiças que a sociedade brasileira lhes inflige -, apavoraram-se, perderam o auto-controle e, com os nervos à flor da pele, à aproximação das duas alimárias demoníacas que babavam de ódio, apertaram, involuntariamente, o gatilho dos revólveres que empunhavam com mãos trêmulas de menores desnutridos das comunidades periféricas das raças injustiçadas, e dispararam projéteis; para tristeza deles, um dos projéteis que P.Q.P.C.M. disparou atingiu T.N.C.B.C. no ombro direito. E os cães, movidos pelo ódio insano aos membros das classes sociais inferiores, sem que nenhum projétil os houvesse atingido, seguiram de encontro aos menores, cujo córtex pré-frontal ainda não está inteiramente desenvolvido, e os atacaram, e os morderam, ferindo-os. Os dois cães eram enormes; pesavam, um, setenta e sete quilos, o outro, setenta quilos; e os dois menores pesavam, T.N.C.B.C., cinquenta e quatro quilos, e P.Q.P.C.M., cinquenta e um quilos. E os cães, ferozes, usaram de força desproporcional contra os menores. Impeliam os cães a vontade de matar; agiam, na alma dos menores, o desejo de corrigir injustiças sociais. Em sua fúria homicida, os cães dariam cabo da vida dos menores se o proprietário da casa, Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira e seus dois filhos, Paulo Roberto de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira e Roberto Paulo de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira, não os contivessem.
Encaminhados à delegacia, o delegado abriu inquérito para apurar o caso. Um representante da Defesa dos Menores processou Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira por incitamento ao ódio canino e posse de dois instrumentos, os cães, letais, que poderiam vir a provocar, se Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira os conservasse em sua posse, a morte de algum cidadão reivindicador de compensações legítimas. O imbróglio estender-se-ia, indefinidamente, se um representante da Instituição da Paz, informado do caso, não interviesse e não chamasse Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira, que perdia as estribeiras, à razão. Sentaram-se à mesa o delegado, o representante da Defesa dos Menores, o representante da Instituição da Paz e Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira. E após quatro horas de negociações exaustivas e desgastantes, ficou estabelecido, em consenso, para se evitar a aplicação de mais uma injustiça contra os menores P.Q.P.C.M. e T.N.C.B.C. e a prisão de Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira, o sacrifício dos dois cães, que, ferozes, assustadores, intimidadores, impedem menores de idade de exercerem o direito à reivindicação de compensações aos sofrimentos que a sociedade brasileira lhes inflige, e a aquisição, por Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira, de um cão de pequeno porte, inofensivo e pacato. E todos os envolvidos no caso ficaram satisfeitos com o resultado.À porta da delegacia, o representante da Instituição da Paz declarou aos jornalistas:- Evitamos conflitos desnecessários. Explicamos ao senhor Benedito Carlos de Oliveira Souza Figueira Nogueira Macieira a importância da solução pacífica do caso. E todos saímos ganhando. Logramos sucesso. A sociedade só tem a alegrar-se.

Remédios e galos

Chegado à ancianidade, cabelos grisalhos, poucos, a cobrir-lhe a cabeça, João, após um colapso cerebral, à recomendação do neurologista, passou a ingerir, todo dia, dois comprimidos de um medicamento de estímulo neurológico. Um dia, no rancho da sua casa, abriu o frasco de comprimidos, e foi, copo de vidro à mão, ao filtro, encheu de água o copo, tirou do frasco dois comprimidos, e assim que ouviu dois de seus galos se lhe aproximando, de papo vazio, lembrou-lhe que não lhes dera milhos. Foi até a vasilha de plástico cheia até à boca de milho, dela tirou uma “mãozada” de milho, e arremessou-a aos galos; assim que os grãos de milho caíram no chão, notou que entre eles estavam os dois comprimidos. Bateu os pés no chão, para afugentar os galos, mas já era tarde; eles, esfoemados, além dos grãos de milho, já haviam engolido os comprimidos. “Diacho!”, exclamou João. “Peço a Deus que os galos não morram por causa dos comprimidos, que para mim são um santo remédio, mas para eles venenos, talvez.” Deus atendeu às suas preces. No dia seguinte, os dois galos, para surpresa de João, além de não morrerem, resolveram dois problemas, um de trigonometria e um de juros compostos, e durante duas longas horas lucubraram acerca da origem da vida.

Eu, a refeição.

Ao passar, hoje de manhã, um pouco antes do almoço, pelas bordas da feira, à praça da Liberdade, nas proximidades do Mercado Municipal, a carregar duas sacolas, minutos após retirar-me do banco, onde eu pagara quatro boletos, ouvi, de um homem de estatura mediana, um pouco mais baixo do que eu, rosto de pele morena, curtida de sol, acobreada – não digo que era marrom, cor de terra -, de, presumo, uns cinquenta anos, uma sentença – que ele dirigiu a todos os que se encontravam no raio de sua possante voz -, que me assustou, obrigando-me a voltar para ele a atenção, e nele detê-la, o que fiz durante alguns segundos, poucos, e logo tratei, célere, de me afastar, confuso, e perplexo, e assustado, e preocupado; e ao chegar à esquina, olhei para trás, à procura – meus olhos esgazeados, acredito – daquele homem de quem trato nesta crônica, que é curta, e não o encontrando, segui meu caminho, pensativo. Anunciava o homem temperos, que ele carregava, seis deles, acondicionados em saquinhos transparentes, de plástico, dispostos sobre uma bandeja de plástico, branca, que ele carregava com a destreza de um equilibrista. Em quatro dos pequenos sacos havia pó, em um, verde, em outro, preto, em outro, amarelo, em outro, branco, e nos outros dois havia, em um, grãos, não me lembro de que cor, e no outro, folhas picotadas. Eram temperos, segundo o personagem que os anunciava à venda. Temperos. E há mal em se anunciar, em praça pública, temperos, para um público numeroso? Não. Não há. O que aquele homem disse, e no tom em que ele disse o que disse, sim, vi um mal, mas me pergunto, agora, na minha casa, calmo, à escrivaninha, lapiseira à mão, a escrever estas palavras, se entendi o que ele disse, se ouvi o que pensei ter ouvido, se a minha imaginação, excitada, me fez dele ouvir palavras que ele não disse, melhor, me fez ouvir as palavras que ele disse e emprestar-lhes significados que não possuíam.

Naquele personagem, que é o principal desta minha crônica, vi, ao observá-lo de uma certa perspectiva, um botocudo, e dos mais ferozes, com os seus singulares paramentos, e de outra, um aimoré indomável, de olhar petrificante, e de outra, um tupinambá pronto para avançar sobre Hans Staden. Parecia-me ele o Boaventura da Costa, personagem de um conto de Aluísio Azevedo, mas diferente dele, que aos olhos de uns era um ancião que já havia recebido a extrema-unção, e aos de outros um recém-nascido no instante em que levava do obstetra um tapinha inofensivo, eu via, no meu personagem, índios, melhor, silvícolas ameríndios, nativos da América, aqueles homens asselvajados que, à chegada dos portugueses, ainda viviam na idade da pedra – não sei se da polida, se da lascada -, a cobrirem-lhes as vergonhas as vestes que a natureza lhes deu, a manejarem instrumentos de caça e com a desenvoltura de matadores profissionais; nele eu vi antropófagos, monstros canibalescos, criaturas dos pesadelos que atormentam os seres humanos desde o nascer do universo.

Mas o que, afinal, pergunta-me o leitor, aquele homem disse que me fez ver, nele, um tipo humano que me provocou reação tão negativa. Três palavras, paciente leitor, apenas três palavras, e nenhuma outra além delas. E assustaram-me e intrigaram-me tais palavras. Quais palavras, insiste o leitor em conhecê-las. Digo: estas: “vamos”, “temperar”, “gente”. E ao recordar tal episódio da minha vida de um homem que está às portas da segunda casa dos “enta”, pergunto-me, repetindo pensamento que apresentei em alguma linha acima desta, se ouvi o que ouvi, o que, melhor, pensei ter ouvido. Peguei uma pulga, e a sentei atrás da minha orelha, e pedi-lhe que me ajudasse a pensar acerca de tão intrigante episódio. Disse aquele homem, ao anunciar os produtos que oferecia à venda, “Vamos temperar gente.”, ou “Vamos temperar, gente!”? Se é a interpretação correta das palavras dele a segunda opção, então, obrigo-me a concluir que ele dizia às pessoas que, se o desejassem, lhe comprassem temperos, para condimentar suas refeições. Se é a primeira, então ele se preparava para deliciar-se com uma refeição, que, penso, seria digna dos deuses, dos deuses ameríndios, obviamente; resta-me saber se ele já havia preparado a carne para receber o tempero, ou se estava à caça de uma que lhe atendesse ao paladar – eu, que não pretendia saber qual era a resposta correta, tratei, e logo, instintivamente, de passar sebo nas canelas, e dele afastar-me o mais rapidamente que podia. Fiz bem, acredito.

A origem das guerras

Era uma vez, dois meninos sapecas levados da breca, Caim e Abel. Um dia, Abel, de posse de uma caneta esferográfica azul, rabiscou o álbum de figurinhas de Caim, que, enraivecido, tomou de um trabuco, e disparou contra o peito de Abel, que caiu, mortinho da silva.

E assim começaram as guerras.

Nota de rodapé: dizem por aí que a coisa não se deu assim. Para maiores informações, o Gênesis.

Convalesci. Estou fora de perigo. Não se preocupem.

Adoeci. De gripe. De resfriado. De febre. Eu aproveitara a promoção, e comprara o pacote anunciado: “Levem cinco vírus pelo preço de um: combo promocional: Covid original, Covid versão Delta, Covid versão Ômicron, Influenza e H1N1. Aproveitem! Cinco vírus pelo preço de um.” Aproveitei a oferta. E eu a perderia?! Sou brasileiro; e não perco oferta nunca. Não deixei que se me escapasse por entre os dedos promoção tão generosa.
Acamado, dores de cabeça a afligir-me vinte e quatro horas por dia, febre a queimar-me, em revoltas incontíveis a fauna e a flora estomacais – tão excruciantes as dores que parecia-me que abutres removiam-me as entranhas -, a debilitar-me diarréias, a pressão arterial a gangorrear violentamente. E eu a cuspir catarros, e meus olhos a eliminarem secreção esverdeada em tal quantidade que me colaram as pálpebras, impedindo-me de ver a luz do dia. E assim vivi um dia, dois dias, três dias, quatro dias, a sonhar com a minha convalescência, o que se deu no oitavo dia de ingente sofrimento. Melhorei, a olhos vistos. Foram-se-me as dores, e a febre, e os vômitos, e as diarréias; enfim, melhorei. E piorei. E meu corpo tornou a arder em chamas, e as dores de cabeças regressaram, constantes, ininterruptas, para me atormentarem, e meus pulmões a encherem-se de catarro, que eu tinha de cuspir assim que me subiam à boca. E passaram-se os dias, a flagerarem-me dores atrozes, e pensamentos agourentos a tangenciarem-me a cabeça; e principiei a delirar; e, repentinamente, para a minha surpresa, convalesci, arrefeceu-se-me a febre, atenuaram-se-me as dores. Enfim, convalesci. Melhorei. Era inegável: Melhorei. E piorei. Tornei à cama. Voltaram-me a febre, as dores de cabeça, os vômitos, as diarréias, as oscilações violentas da pressão arterial. E pensei, durante os delírios febris, com os meus botões: “Pela segunda vez, após melhorar, piorei. Basta! Que eu não melhore mais! Nunca mais! Jamais! Quem, sem que eu melhore, eu sare!” Salutar, a auto-sugestão. O poder da mente é extraordinariamente fabuloso! E assim, sem que eu melhorasse, sarei. E sarei bem. Estou pronto para a próxima.

Biobibliografia de Rui Barbosa – escrito por Zeca Quinha – publicado no Zeca Quinha Nius

Rui Barbosa nasceu, viveu, e morreu.

Nota de rodapé: Após ler dezenas de livros de Rui Barbosa e de biógrafos dele e documentos antigos e entrevistar inúmeros historiadores, conclui que a biografia dele, do mesmo modo que a de todas as pessoas, resume-se ao nascimento, à morte e às ações que ele praticou entre o nascimento e a morte. Após ler estas devidas explicações, o leitor concluirá que eu da vida e da obra de Rui Barbosa escrevi os únicos dados relevantes.
Outra nota de rodapé: Caso o leitor queira ler dados irrelevantes da vida e da obra de Rui Barbosa, que procure uma biografia dele, uma daquelas bem extensas, repleta de fotos e informações detalhadas.

Não Se Pode Desprezar o Que Não Merece Desprezo – escrito por Zeca Quinha – publicado no Zeca Quinha Nius

Tendo-se em vista as recentes manifestações de parlamentares conservadores contra os gastos públicos – e os parlamentares conservadores destilam veneno letal à democracia e ao estado democrático de direito -, os intelectuais das universidades brasileiras acharam por bem apresentarem um abaixo-assinado clamando pela valorização do corpo burocrático do funcionalismo público, há séculos explorados por capitalistas, como nos ensinam os intelectuais Karl Marx e Friedrich Engels, e os estudiosos da Escola de Frankfurt, incluídos os professores universitários, todos eles estarrecidos com a desfaçatez e sem-cerimônia com que os parlamentares conservadores, insensíveis ao bem-estar dos cidadãos brasileiros, desprezíveis todos eles, defenderam, de viva voz, sem recear represálias, práticas que não são onerosas aos cofres públicos. Os intelectuais, audazes, com o abaixo-assinado, arrostaram os defensores de maléficos valores que conduziriam, se adotados, o Brasil à bancarrota, como os seus congêneres estadunidenses e israelenses à bancarrota conduziram os seus respectivos países. Não entendem – melhor, não querem entender – os parlamentares conservadores – a serviço, todos eles, não desconhecemos, de agências de espionagens estadunidenses -, cujos ideais são inspirados nas teorias da conspiração de um injustamente renomado astrólogo embusteiro, que, após fugir do Brasil, instalou-se na nação que representa todos os valores que denigrem a humanidade, que as idéias que apresentaram reduzirão o desperdício de dinheiro público, redundando, portanto, em políticas que produzirão sofrimento e miséria. Eles almejam o pior para o Brasil, pois para eles o pior (pior para os brasileiros, obviamente) é o melhor (melhor para os parlamentares conservadores, não nos esqueçamos). Os intelectuais brasileiros explicitam, no abaixo-assinado, o descontentamento da categoria no que concerne à proposta dos parlamentares conservadores, todos anti-patriotas, que declararam que os funcionários públicos gozam de privilégios, que, salientaram, oneram os cofres públicos. Ora, sabemos que os funcionários públicos têm privilégios porque os merecem; são bem-remunerados porque o governo brasileiro, nas três esferas do poder, a municipal, a estadual e a federal, os remunera bem; do contrário, bem não os remunerariam, e eles de privilégios não gozariam. A obviedade do raciocínio é patente. E apenas indivíduos que odeiam a liberdade e a democracia simulam ignorância a respeito da estrutura do poder governamental. E temos de destacar um ponto, e, além de destacá-lo, sublinhá-lo e salientá-lo: sendo o povo incapaz de administrar a própria riqueza, os funcionários públicos têm de administrá-la. Salta aos olhos tal obviedade! Negam-se a vê-la aqueles que lucram com a eliminação, ou, como dizem, a redução do funcionalismo público, que, ninguém o ignora, conserva milhões de pessoas empregadas e bem-remuneradas.Que a voz dos sábios intelectuais brasileiros prevaleça; que a proposta dos parlamentares conservadores, nefasta para o Brasil, seja arquivada; que os defensores da política apresentada pelos parlamentares conservadores caíam no ostracismo; que a categoria do funcionalismo público atente para as ameaças que a cercam; que a imprensa abandone a letargia em que se encontra; que os artistas manifestem-se e impeçam que a censura retome o seu poder; que o povo brasileiro arregace as mangas e quebre a espinha dorsal dos autointitulados defensores do Brasil, que são – sabemos, nós, os esclarecidos – da Pátria inimigos. Que a Pátria Maior não se curve diante deles.

Dever de Casa – Uma História de Joãozinho

– Joãozinho, você já fez o dever de casa?
– Comecei de começar.
Duas horas depois:
– Joãozinho, você já fez o dever de casa?
– Acabei de acabar.

Os males covidianos.

Os especialistas, de acordo com o que as pesquisas indicam, descobriram que o covid causa, naqueles que ele infecta, aneurisma, leishmaniose, alergia à lactose, blefarite, bicho-do-pé, astigmatismo, hipermetropia, mutismo, surdez, fotofobia, cegueira, calvície, úlcera gástrica, cólica renal, diarréia, prisão de ventre, impotência sexual, vampirismo, cólera, febre amarela, doença de Chagas, miopia, pressão alta, pressão baixa, disenteria, dente encavalado, estrabismo, tuberculose, síndrome do pânico, alergia à maltose, anorexia bulímica, alergia à sacarose, tecnofobia, hipertensão, varizes, depressão, nanismo, obesidade mórbida, raquitismo, piromania, sonambulismo, atrofia muscular, autismo, esquizofrenia, mal de Alzheimer, elefantíase, pneumonia, anemia, dupla personalidade, transtorno obssessivo-compulsivo, necrofilia, velhice e feiúra. E descobriram, também, que a máscara faz dos feios bonitos, e dos magricelas e dos balofos esbeltos, modelos perfeitos da beleza humana.

Algumas Palavras de Barnabé Varejeira

Um trecho do texto do meu amigo Barnabé Cerejeira: “Cérjim, sem querê sê desrespeitoso, e já o seno, digo: Deus tem minhoca na cabeça. E sabe pru quê? Pru que ele deu o Paraíso pro Adão, aquele bestalhão, sem que ele tivesse trabaiado pra merecê-lo. Deus devia tê falado pr’ele trabaiá, e lhe dado enxada, pá, e mandado êli roçá a terra, e plantá árvre, criá órta, pomar, e caçá alguns bicho pra tê o que comê todo santo dia; do contrário, que dexásse aquele vagabundo morrê de fome. E dispois, se Adão trabáiasse, todo dia, de segunda à segunda, enfrentano chuva e sór, e sór e chuva, comeno o pão que o coisa-ruim amassô, acordano antes de o galo cantá e dromino dispois de o sór se pôr por detrás das montanha, aí, sim, Deus daria de presente pr’ele o Paraíso, Adão fazeno por merecê. Deus fez bestêra das grossa ao dá pro Adão o Paraíso, assim, de mão bejada, pois Adão nada fez pra merecê. E deu no que deu. E inté hoje as criatura de Deus estamos pagano caro pelos pecado daquele desgramado, que só queria sabê de sombra e água fresca.

Tipos Humanos Autenticamente Brasileiros.

É o Brasil o país da mistureba racial, fenômeno civilizatório que os sociólogos, os antropólogos, os etnólogos e os paleontólogos denominam miscigenação, que, não se sabe com exatidão porquê cargas-d’água, manifesta-se, não com exclusividade, na terra do mico-sagui e da vitória-régia, com intensidade infinitamente superior à que se vê em outros países, e desde que nas suas terras pisaram os lusitanos Pedro Álvares Cabral e Pero Vaz de Caminha – contou-me um passarinho (e estou a vender o peixe pelo preço que dele eu o comprei – a sequência de três palavras com inicial em ‘p’ não é do meu agrado, mas fica) que estes dois ilustres personagens da história da Ilha de Vera Cruz não pisaram nas terras do país do carnaval e do futebol (que naquela era imemorial eram desconhecidos por estas plagas), mas ocuparam-se, unicamente, de pisar nas areias do litoral da Bahia.

Nesta terra em que se plantando tudo dá, até foca de cabelo colorido e ser híbrido de traíra e marreco – duas quimeras a pedirem nome de batismo, científico, em latim -, germinaram inúmeros tipos humanos de características inexistentes nas outras duzentas e tantas nações que ocupam as terras emersas do planeta Terra. E eu vim a da existência deles inteirar-me após décadas de dedicação (não me agrada esta sequência de três palavras com inicial em ‘d’, mas fica) ao estudo de tão inusitado fenômeno, único, singular, em toda a longa história da espécie humana. Compulsei calhamaços pesadíssimos e alfarrábios vetustos, impressos, estes e aqueles, quando Matusalém era um bebê mimoso e rechonchudo, cujos vagidos encantavam sua progenitora, e estudei arte rupestre encontrada em dezenas de cavernas espalhadas pelos rincões do Brasil, e manuscritos com caligrafia esmerada e floreada de inextrincável emaranhado de atavios, até que, enfim, compensando todo o meu esforço e a minha dedicação – inéditos na história da humanidade, digo, sem falsa modéstia, e sem me vangloriar, e sem me vexar, pois é o que digo a mais pura verdade -, consegui – fui bem-sucedido em meu propósito – elaborar uma lista, que dou a conhecer aos interessados em tão intrigante assunto, nas linhas abaixo da que encerra este parágrado (Eu escrevi “intrigante tema”, que não fica, pois a junção da última sílaba de “intrigante” com a primeira de “tema” não me agradou, não me soou bem aos ouvidos – feriu-mos), com todos os tipos humanos autenticamente brasileiros que identifiquei em todas as obras literárias que me chegaram ao conhecimento – as gravadas em papel e as gravadas em pedras e as gravadas nas paredes e nos tetos e no chão de cavernas. Caso o leitor, se estudioso da história da civilização, jamais deixa de cumprir as suas incumbências intelectuais, notar, na lista que eu forneço a seguir, a ausência de algum tipo humano autenticamente brasileiro, que me faça a gentileza de mencioná-lo, chamando-me a atenção para a minha negligência imperdoável. Eis a prometida lista de tipos humanos autenticamente brasileiros:

1) afro-brasileiro;

2) euro-brasileiro;

3) americano-brasileiro;

4) asiático-brasileiro;

5) australopiteco-brasileiro;

6) asteca-nipônico-brasileiro;

7) etíope-viking-brasileiro;

8) boliviano-árabe-brasileiro;

9) franco-sifilítico-magiar-brasileiro;

10) eslavo-troiano-kriptoniano-brasileiro;

11) neozelândes-tártaro-shakesperiano-brasileiro;

12) aimoré-anglo-saxônico-equino-brasileiro;

13) sírio-jupiteriano-nórdico-brasileiro;

14) turco-burlesco-nudista-estóico-brasileiro;

15) lusitano-maia-hipocondríaco-saariano-brasileiro;

16) otomano-pigmeu-paquistanês-ungulado-brasileiro;

17) angolano-marsupial-albino-suburbano-brasileiro;

18) guatemalteco-sioux-achocolatado-insosso-brasileiro;

19) argelino-paraquedista-faquir-elefantino-brasileiro,

20) são-paulino-vietnamita-paraplégico-bérbere-arborícola-brasileiro;

21) helênico-gótico-frankensteiniano-cosmonauta-leporino-brasileiro;

22) moçambicano-carijó-belfo-calipígio-ovíparo-brasileiro;

23) taiwanês-neurótico-valetudinário-elegíaco-sudanês-brasileiro;

24) chileno-bielorusso-polissilábico-seráfico-caboverdiano-brasileiro;

25) argentino-iraquiano-lacônico-peripatético-prognato-brasileiro;

26) marroquino-ucraniano-anfíbio-selenita-afegão-brasileiro; e,

27) paraguaio-vulpino-rubro-negro-napoleônico-arabesco-netuniano-crocodiliano-rocambolesco-plutônico-ermitão-palmeirense-cigano-romeno-brasileiro.

O preço do açúcar.

Hoje de manhã, domingo, João despertou duas horas mais tarde do que a hora que, nos dias-da-semana, deixa o mundo dos sonhos. É João um filho-de-Deus. Concede-se aos domingos o prazer de estender o tempo que passa a sonhar com beldades em ilhas desertas. Espreguiçou-se. E retirou-se de sob o lençol, e desceu da cama. Banhou-se. E à cozinha foi preparar o café-da-manhã. Ao tirar da prateleira o pote de vidro transparente que usa para condicionar açúcar, viu-o vazio. Tratou de ir ao mercadinho, logo ali, a um pulo, à frente de sua casa. Quanta comodidade! Tirou da gôndola um saco de um quilo de açúcar, e foi ao caixa – melhor, à caixa -, tirou da carteira dinheiro, e pagou pelo açúcar, com um pouco de má-vontade, afinal está o preço do açúcar salgado.

Quantas doses?

“Você já tomou a primeira dose?” “Já.” “Você já tomou a segunda dose?” “Já.” “Você já tomou a terceira dose?” “Já” “E você vai tomar a quarta dose?” “Vou.” “E por que você, após tomar três doses, e disposto a tomar a quarta, está jururu, cabisbaixo?” “Porque eu não sei qual caminho devo seguir para ir até a minha casa. Minha cabeça ‘tá um porre!”

Uma santinha de vida fácil

Uma santinha, profissional de uma casa de bons costumes, disse-me que dormiu, numa noite de sábado para domingo, das 22 horas às 8 horas, com doze homens. Que mocinha dorminhoca. Agora eu entendi porque dizem que ela é mulher de vida fácil.

O sobrinho mais velho que o tio.

Estavam, na casa dos senhores Silva, Pedro e Maria, anciãos nonagenários, comemorando o aniversário natalício do patriarca, dezenas de familiares e amigos. O ambiente, animado, contagiante. Dentre os presentes, João, irmão de Pedro, idoso octogenário, de cabeça quase que inteiramente desprovida de cabelos, sendo brancos lácteos os poucos que lhe restavam, e Renato, filho de Pedro, de cinquenta e dois anos, dono de vasta cabeleira branca. Conversavam, na companhia de outros familiares, parentes e amigos, descontraidamente. Em um momento da conversa, Renato perguntou ao seu tio João: “Tio, o senhor tem oitenta e cinco anos, ou oitenta e seis?” E respondeu-lhe seu tio: “Oitenta e cinco.” Renato, então, comentou, simulando constrangimento: “Oitenta e cinco. Puxa! Os homens da sua geração, tio, são mais bem conservados do que os da minha. Veja… Eu, por exemplo, sou vinte e três… trinta e três anos mais novo do que o senhor, e, agora, olhando para o senhor, sinto-me mais velho.” Fez uma pausa; e um bom número de par de olhos o fitaram, na expectativa, esperando, dele, a conclusão do comentário. E assim que se deu por convencido de que criara o ambiente apropriado para arremetar seu discurso, disse Renato: “É verdade, tio. Sinto-me mais velho do que o senhor. Veja bem… Olhe para a minha cabeça: Eu tenho mais cabelos brancos do que o senhor.” E todos caíram na gargalhada.

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