O pedaço de bolo de chocolate

Uma história do Joãozinho

Era um domingo como outro domingo qualquer. Nem quente, nem frio.

Na casa de número 3443 da Rua das Caraminholas, que com a Rua das Caravelas, a Rua das Caravanas, a Rua das Carapaças e a Rua dos Caranguejos faz intersecções, no Bairro dos Caraminguás, vizinho, ao leste, do Bairro das Carambolas, ao oeste, do Bairro dos Caramujos, ao norte, do Bairro do Caramanchão, ao sul, do Bairro das Carantonhas, vive uma família de quatro pessoas: os genitores, ele, pai de Joãozinho, ela, mãe de Joãozinho, e os seus filhos, ele, o primogênito, Joãozinho, ela, irmã de Joãozinho. Às seis horas da manhã, retiraram-se da casa a mãe e sua filha, que rumaram para a casa dos avós maternos de Joãozinho, situada na cidade vizinha, no número 4334 da Rua dos Carrapichos, que com a Rua dos Carrapatos e a Rua dos Carrascos faz intersecções, no Bairro do Carajé, vizinho, ao leste, do Bairro do Caramelo, ao oeste, do Bairro da Carraspana, ao norte, do Bairro do Caramuru, ao sul, do Bairro dos Caraíbas. E o pai e seu filho acordariam, o primeiro, às oito horas, o segundo, às dez. E o pai de Joãozinho, banho tomado, dentes escovados, leite de um copo de vidro bebido e um bolinho de caramelo degustado, preparou, na cozinha, na mesa, as refeições matinais, a sua e a de seu filho. Joãozinho, banho tomado e dentes escovados, foi à cozinha. E à mesa sentaram-se pai e filho. Este, ao ver sobre a mesa um bolo de chocolate e um pedaço de bolo de chocolate e à mão de seu pai uma faca, e ele preparando-se para cortar o bolo, disse-lhe, detendo-o:

– Não quero o bolo.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Não – respondeu Joãozinho.

– E o que você vai comer? – perguntou o pai de Joãozinho.

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande esse pedaço de bolo.

– Não é, não.

– Vou cortar… – e inclinou-se o pai de Joãozinho para o bolo, a faca na mão direita, preparando-se para cortá-lo, mas não o cortou. Impediu-o Joãozinho.

– Não pode cortar o bolo de chocolate – disse Joãozinho.

– Mas o pedaço de bolo é grande.

– Eu quero o pedaço inteiro.

– O quê?

– Eu quero o pedaço inteiro.

– Pedaço inteiro!?

– Este – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– É grande. – comentou o pai de Joãozinho.

– Não é, não.

– Vou cortar um pedaço deste bolo… – disse o pai de Joãozinho, que não completou a frase porque impediu-o Joãozinho.

– Não quero um pedaço de bolo de chocolate – disse, firme, sério, Joãozinho. – Quero o pedaço inteiro.

– Mas, filho…

– Quero um pedaço inteiro; não quero um pedaço cortado.

– Pedaço inteiro? Pedaço cortado?

– Este é o pedaço inteiro – apontou Joãozinho para o pedaço de bolo de chocolate.

– E o pedaço cortado?

– É um pedaço cortado.

O pai de Joãozinho encasquetou com a distinção que seu filho fazia de pedaço inteiro e pedaço cortado; considerando divertido e intrigante o que ele dizia, decidiu dar sequência à conversa para de Joãozinho extrair definições claras do que ele queria dizer com pedaço inteiro e pedaço cortado.

– Filho, cortarei um pedaço deste bolo…

– Não quero um pedaço cortado.

– Filho…

– Quero o pedaço inteiro.

– Cortarei do bolo um pedaço do mesmo tamanho do…

– Não quero um pedaço cortado de bolo.

– O pedaço cortado do bolo de chocolate terá o tamanho desse pedaço inteiro – apontou o pai Joãozinho para o pedaço de bolo.

– Não quero um pedaço cortado; quero o pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado do bolo de chocolate do mesmo tamanho do pedaço inteiro é igual ao pedaço inteiro.

– Não é, não.

– Então, eu cortarei do bolo um pedaço maior do que o pedaço inteiro; sendo maior, é melhor.

– Não é, não. Pedaço cortado é pedaço cortado; e pedaço inteiro é pedaço inteiro.

– Um pedaço cortado e um pedaço inteiro são iguais se ambos tiverem o mesmo tamanho.

– Não são, não.

– Ambos os pedaços, o inteiro e o cortado, são gostosos.

– Não são, não.

– Não? – perguntou o pai de Joãozinho, intrigado.

– Não – respondeu Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

– Mas, sendo o pedaço inteiro e o pedaço cortado do mesmo tamanho, iguais eles são, e, portanto, terão o mesmo gosto. Ambos os pedaços serão gostosos.

– Não. Não. E não. Eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado.

– Por quê? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo.

– Por que o pedaço inteiro não é um pedaço cortado. E eu, que gosto de pedaço inteiro, e não gosto de pedaço cortado, quero o pedaço inteiro, e não um pedaço cortado.

– Não entendi – comentou o pai de Joãozinho, rindo consigo. – O pedaço inteiro do bolo de chocolate é de chocolate. O bolo, aqui – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – é de chocolate. Se eu cortar deste bolo um pedaço do mesmo tamanho do pedaço inteiro – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro e terá o mesmo gosto dele.

– Não terá o mesmo gosto, não – replicou Joãozinho. – O pedaço inteiro é mais gostoso do que um pedaço cortado. O pedaço inteiro não é um pedaço cortado. O pedaço cortado não é um pedaço inteiro. O pedaço inteiro é o pedaço inteiro. Um pedaço cortado é um pedaço cortado. E eu gosto de pedaço inteiro; não gosto de pedaço cortado. O bolo é de chocolate. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. O pedaço cortado de bolo de chocolate é de chocolate. Mas o pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não é um pedaço cortado de bolo de chocolate, e, sendo um pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não um pedaço cortado de bolo de chocolate, tem gosto de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e um pedaço cortado de bolo de chocolate tem gosto de pedaço cortado de bolo de chocolate, e de pedaço cortado de bolo de chocolate eu não gosto.

Mais confuso do que no início, o pai de Joãozinho perguntou-se se foi uma idéia sensata insistir na conversa com o propósito de extrair de seu filho esclarecimentos sobre as distinções que ele fazia entre pedaço inteiro e pedaço cortado. Contrariando a si mesmo, melhor, a metade de si que desejava encerrar o assunto e tratar de outro tema, e atendendo à metade de si curiosa por saber o que seu filho entendia por pedaço inteiro de bolo de chocolate e pedaço cortado de bolo de chocolate, disse:

– Filho, o bolo é de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate é de chocolate. Se eu cortar do bolo de chocolate um pedaço, o pedaço cortado será, como o bolo de chocolate e o pedaço inteiro de bolo de chocolate, de chocolate. Chocolate é chocolate. O bolo é de chocolate, e todos os seus pedaços cortados são de chocolate. Se eu cortar o bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate – em cinco pedaços, todos do tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o pedaço de bolo de chocolate -, todos os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate serão iguais ao pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não diferentes. Serão do mesmo tamanho. O pedaço inteiro de bolo de chocolate e os cinco pedaços cortados de bolo de chocolate terão o mesmo gosto, e todos os seis pedaços serão de chocolate. Tanto faz comer ou o pedaço inteiro de bolo de chocolate ou um dos cinco pedaços cortados de bolo de chocolate, filho. Você gostará de qualquer um deles.

Joãozinho meneou a cabeça, desconsolado.

– Ai. Ai – suspirou Joãozinho.

– O que eu disse não está certo? – perguntou o pai de Joãozinho, rindo consigo. A sua expressão impassível não transparecia a hilaridade que lhe animava os pensamentos. Queria emprestar traços sérios, respeitáveis à sua fisionomia, e receava trair-se.

– Não – respondeu-lhe Joãozinho, seco. – Não está certo, não.

– Quero entender, filho, o que você me disse. Então, proponho para você uma brincadeira: Você cobrirá, com as mãos, os olhos, e eu cortarei um pedaço do bolo de chocolate, e o deixarei ao lado do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e os misturarei, e avisarei você, e você descobrirá os olhos, e pegará um pedaço de bolo de chocolate sem saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– O senhor não pode fazer isso, papai – resmungou Joãozinho.

– Por que não?

– Por que eu tenho que ver o senhor cortando o bolo para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate; se eu não ver qual foi o pedaço que o senhor cortou e pôs perto do pedaço inteiro de bolo de chocolate, eu, ao pegar um dos dois pedaços, poderei pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu não quero o pedaço cortado de bolo de chocolate.

– Mas você, filho, não vendo qual pedaço cortei, não saberá qual é o pedaço cortado e qual é o pedaço inteiro.

– Se eu pegar o pedaço cortado de bolo de chocolate, que eu não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero, comerei o pedaço cortado de bolo de chocolate, que é o que não quero, e não o pedaço inteiro de bolo de chocolate, que é o que eu quero.

– Se você não souber qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, o pedaço que você pegar, ou o inteiro ou o cortado, e comer, será de chocolate, e gostará dele, portanto, filho, você, não sabendo qual é o pedaço inteiro e qual é o pedaço cortado, poderá comer qualquer um dos pedaços, e dele gostará.

Joãozinho olhou, com ar desconsolado, para o alto, e suspirou.

– Ai. Ai.

– O que eu disse não está certo?

– Não, né – respondeu Joãozinho, irritado. – Papai, o senhor não entendeu o que eu disse. Se eu cobrir, com as mãos, os olhos, e o senhor cortar o bolo de chocolate em pedaços iguais, todos do mesmo tamanho do pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu, ao escolher um pedaço de bolo para comê-lo, em vez do pedaço inteiro, que é o que eu gosto, pegar o pedaço cortado, e comê-lo, e gostar dele, eu gostarei do pedaço cortado de bolo, e não do pedaço inteiro, isto é, eu gostarei do pedaço que eu não gosto; se eu não gosto de pedaço cortado, de pedaço cortado não posso gostar; eu tenho de gostar do pedaço que eu gosto, que é o pedaço inteiro, e não do pedaço que eu não gosto, que é o pedaço cortado. Então, entendeu pai, eu tenho de ver o senhor cortar o bolo de chocolate para eu saber qual é o pedaço inteiro de bolo de chocolate, e eu gosto de pedaço inteiro, e qual é o pedaço cortado de bolo de chocolate, e eu não gosto de pedaço cortado. O pedaço inteiro e o pedaço cortado não são a mesma coisa.

– São, sim.

– Não são, não.

– Se eu cortar um pedaço deste bolo de chocolate – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, o pedaço cortado será igual ao pedaço inteiro.

– Não será, não, papai. O pedaço inteiro é o pedaço que estava em cima da mesa; e o pedaço cortado é o pedaço que o senhor cortará do bolo. Quando eu cheguei aqui, vi, em cima da mesa, um bolo de chocolate e um pedaço inteiro de bolo de chocolate.

– Mas este pedaço inteiro é um pedaço de um bolo de chocolate que, ou eu, ou sua mãe, cortou; portanto, o pedaço que você diz ser pedaço inteiro é, na verdade, um pedaço cortado, porque, ou eu, ou sua mãe, o cortou de um bolo de chocolate. Se eu cortar, deste bolo – e tocou, com a ponta da faca, o bolo de chocolate -, um pedaço igual ao pedaço inteiro de bolo – e tocou, com a ponta da face, o pedaço de bolo de chocolate -, ambos os pedaços serão iguais.

– Não serão, não – replicou Joãozinho, visivelmente irritado. – O pedaço de bolo de chocolate que está na mesa é um pedaço inteiro. Quando eu cheguei aqui, o pedaço já estava aqui, e estava inteiro; ninguém o cortou; eu não o cortei; o senhor não o cortou; ninguém o cortou; o pedaço, agora, está inteiro como inteiro estava quando eu o vi quando cheguei e sentei-me nesta cadeira. O bolo de chocolate está inteiro, e se o senhor o cortar em pedaços, os pedaços serão cortados, e pedaços cortados não são pedaços inteiros; são pedaços cortados. Eu verei o senhor, papai, cortando o bolo de chocolate, e do bolo de chocolate tirando um pedaço, pedaço este que o senhor me dará, e este pedaço será um pedaço cortado, porque vi o senhor cortando o bolo em pedaços, e todos os pedaços que do bolo o senhor cortar serão pedaços cortados, e não pedaços inteiros. O pedaço inteiro é o pedaço que já estava aqui na mesa quando eu cheguei, e não vi ninguém o cortando, então, este pedaço é um pedaço inteiro, e não um pedaço cortado. Não vi ninguém cortando um bolo, e do bolo tirando este pedaço – e apontou para o pedaço de bolo de chocolate. – Eu vi este pedaço, que estava inteiro quando eu o vi, e não vi ninguém cortá-lo de um bolo, então é um pedaço inteiro este pedaço de bolo de chocolate. Se o senhor cortar o bolo em pedaços, os pedaços serão cortados, e o pedaço que o senhor me der será um pedaço cortado, e não um pedaço inteiro. O pedaço inteiro de bolo de chocolate é o pedaço inteiro que eu vi quando cheguei aqui na cozinha; e o pedaço cortado de bolo de chocolate será o pedaço que o senhor cortará do bolo. Entendeu, papai?

A pergunta Joãozinho a fez num tom atrevido, que denotava impaciência e desconsolo. O pai de Joãozinho ria-se consigo, olhos fitos em seu filho, tentando entender como funcionava aquele cérebro infantil. Com o que dele ouviu, não pôde avaliar… Aliás, não pôde avaliar o que ouviu. Decidiu, então, encerrar a conversa, contrariando a metade de si que desejava dar-lhe sequência.

– Entendi, filho. Você gosta de pedaço inteiro de bolo de chocolate, e não gosta de pedaço cortado de bolo de chocolate, porque o pedaço inteiro é mais gostoso do que o pedaço cortado.

Joãozinho abriu um largo sorriso, da orelha direita à orelha esquerda, como a dizer: “Papai é inteligente. Ele entendeu o que eu disse.”, o rosto a transparecer a felicidade que o animava.

– Filho – disse o pai de Joãozinho -, coma o pedaço inteiro de bolo de chocolate. É tão gostoso…

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