Medeiros e Albuquerque, Júlio Ribeiro, João Ribeiro e Valdomiro Silveira.

A literatura brasileira tem preciosidades que os brasileiros desconhecemos, e obras que, mesmo de pouco valor, merecem que a existência delas lhes seja do conhecimento.
Nestes dias, de duas semanas até hoje, li quatro livros, cada um de um escritor, que me agradaram. São os livros “Surpresas…”, “Procelárias”, “Fabordão” e “Leréias”, cujos autores são, respecticamente, Medeiros e Albuquerque, Júlio Ribeiro, João Ribeiro e Valdomiro Silveira.
Os quatro livros acima citados, que me chegaram às mãos por vias acidentais, são edições antigas, de há décadas; têm suas folhas amareladas, estão em ortografia outra que não mais se usa – e o de Valdomiro Silveira, escangalhado, e sem a capa posterior, das folhas as bordas desfazendo-se em minúsculos fragmentos – seus antigos donos não lhe haviam zelado pela integridade. O de Medeiros e Albuquerque, uma reunião de contos, não é uma obra de monta; pouco valor literário tem; todavia, dos contos dois agradaram-me imensamente, “O Gatuno” e “Freudismo”, o primeiro a cuidar do quão injusta pode ser uma pessoa que se precipita ao julgar e condenar os atos alheios, o segundo a trazer à tona o que hoje em dia se convencionou chamar mensagem subliminar, oculta nas peças publicitárias. O de Júlio Ribeiro apresenta uma reunião de artigos, que versam, uns, sobre política, outros, armas – e nos primeiros ele se revela um republicano intransigente e feroz em seu sonho de separar do Brasil o estado de São Paulo; e de brinde ao leitor uma ode, em prosa, a Camões. E Camões é, também, o tema de um dos artigos reunidos no livro de João Ribeiro, êmulo de Rui Barbosa; além deste artigo, o autor presenteia o leitor com percucientes comentários acerca de Nietzsche e, com a autoridade que lhe compete, dá-lhe proveitosas aulas de filologia. E é o livro de Valdomiro Silveira, dos quatro dos quais nesta obra breve dediquei atenção, o que mais me agradou; conta os narradores curiosidades do cotidiano de caipiras paulistas; são contos interessantes, recheados de cultura popular, vazados num linguajar típico dos rincões do Brasil, de pessoas que, de pés no chão, vivem com os pés no chão. É Valdomiro Silveira o pioneiro da literatura regionalista brasileira, e no crepúsculo do século XIX. Para mim é o autor uma novidade, uma extraordinária surpresa. Lê-se Leréias com encanto. E não se esquece o editor de oferecer ao leitor um glossário caipira.

Dois vídeos de Rodrigo Gurgel, crítico literário.

Em dois vídeos, ambos publicados em seu canal no Youtube, “História da Literatura não é Cronologia” e “Na Literatura Precisamos ir Muito Além dos Chavões”, publicados, ambos em Março de 2.020, o primeiro no dia 4, o segundo, dia 5, o professor de literatura e crítico literário Rodrigo Gurgel, com o seu bom-senso e a sua coragem, revela-se um homem estudioso, que não se dispõe a se curvar aos medalhões da literatura nacional, e tampouco a reverenciá-los, e menos ainda os críticos de renome, e não aceita subscrever, destes, acrítica, e automaticamente, os comentários acerca dos escritores nacionais. Diz ele, escapando ao atual ambiente cultural brasileiro, modorrento, ao ramerrão retórico de críticos literários desprovidos de virtudes e dotados de formação intelectual enviesada que têm olhos apenas para ver beleza na feiúra de obras de autores adeptos de ideologias afins e feiúra nas belas obras de autores talentosos que escrevem com esmero gramatical e superior retórica destituída de ouropéis, que não devem os leitores se intimidarem à presença dos medalhões da literatura nacional e aos críticos literários que só sabem dar à luz lugares-comuns que em sua maior parte não passam de tolices ditas com falsa elegância – em outras palavras, mais chãs: são apenas perfumarias. Segundo o professor Rodrigo Gurgel, devem os leitores, os estudiosos e os críticos da literatura brasileira lê-la com olhos críticos, com independência e coragem, sem se sentirem coagidos a repetirem os pareceres daqueles que se arvoram proprietários do pensamento nacional. Exorta as pessoas a irem aos livros – isto é, aos textos originais -, e não aos críticos, e lê-los com boa vontade, dispostos a ver o que eles têm a oferecer, e não ver o que dizem que eles têm. É sensato o professor Rodrigo Gurgel. Suas lições, simples, sustentadas pelo bom-senso, admitidas corretas por aqueles que não têm a inteligência corrompida pelas pelos despautérios intelectualóides modernos.

Amos Oz, Fernando Sabino, Rodrigo Gurgel, Dostoiévsli, Kafka, Monteiro Lobato, Mário de Andrade. Gianfrancesco Guarnieri. Notas brevíssimas.

Sumri, de Amos Oz, é um livro cativante, sensível.

*

Martini Seco, conto, que aqui não conto, de Fernando Sabino, é uma divertida sátira dos romances policiais. A cena final, hilária.

*

Para Rodrigo Gurgel, professor, escritor e crítico literário, são os três escritores fundamentais da literatura brasileira Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Graciliano Ramos.

*

Após a leitura de Crime e Castigo, de Dostoiévski, e O Processo, de Kafka, não se recupera jamais a sanidade.

*

Pergunto-me se Jeca Tatu e Macunaíma eram tipos brasileiros comuns, ou se, de tão raros, atraíram a atenção, o primeiro, de Monteiro Lobato, o segundo, de Mário de Andrade, ou se são criações literárias que simbolizavam as leituras singulares que seus criadores faziam da realidade.

*

Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, é um panfleto ideológico apenas. Em tal peça, condena-se o homem que não se submete à classe à qual dizem que ele tem de pertencer e que sonha com sua ascensão social.

Rodrigo Gurgel e três escritores brasileiros fundamentais. Lula, e a aula magna. Bandidos, e bandidos. Rússia x OTAN. Digitalização do mundo. Notas breves.

Diz, em um vídeo de, aproximadamente, uma hora e meia de duração, o professor e escritor e crítico literário Rodrigo Gurgel, respeitável, e de excelente e admirável cultura literária, que são três os escritores fundamentais da literatura brasileira, e deles ele apresenta breve biografia e acerca das obras deles dá comentários percucientes, com simplicidade, e autoridade: Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Graciliano Ramos. Fala, com propriedade, de Memórias de Um Sargento de Milícias, obra do primeiro, e de sua importância na formação literária de Machado de Assis, e do apoio que este recebeu de Manuel Antonio de Almeida, que foi, dir-se-ia, seu patrinho no mundo das letras. Além de outras observações que ele fez dos três mestres da literatura nacional, esta é a que mais me chamou a atenção.
*
Uma notícia do balacobaco: Lula, ex-presidente e candidato a presidente – e não presidente como a ele não poucos intelectuais e jornalistas se referem -, apresentou, na Unicamp, à convite de entidades estudantis, e de servidores da universidade, e de associações de alunos e professores, e de sindicatos, uma aula magna; e seus fãs, os universitários, aplaudiram-lo efusivamente, apaixonadamente. O que ele ensinou aos que o ouviram, não sei o que foi, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe; sei, apenas, que, em ambientes universitários, políticos e intelectuais e artistas renomados, sendo de esquerda, socialistas, progressistas, politicamente corretos, desarmamentistas, seguidores da ciência, da turma dos antifas e dos vidas negras importam, sempre são bem acolhidos, com amor e carinho incomuns; já aos dissidentes, os que não comungam as mesmas ideologias, os universitários dedicam ódio visceral, e atiram-lhes pedras e facas, impelidas por ofensas impublicáveis, numa exibição, e há quem pense diferente, de tolerância e respeito invejáveis, afinal são justiceiros sociais a lutarem pela ereção de um mundo melhor, sem desigualdade de renda, sem preconceitos. Tal episódio fez-me evocar o tratamento nobre que universitários dedicaram, em uma universidade, se não me falha a memória, de Pernambuco, àqueles que iriam exibir o, e assistir ao, filme O Jardim das Aflições, que fala do pensamento e da obra de Olavo de Carvalho. De fato, são as universidades guardiãs do conhecimento e o paraíso da inteligência, ambientes onde os sábios sentem-se bem.
*
É ou não é o mundo dos justiceiros sociais uma coisa de louco?! Parece mentira, mas não é: em algum canto deste imenso Brasil, em um dos estados do Sul, me parece, um distinto personagem, ao vislumbrar um sinal dos deuses, a mente iluminada, pensou uma idéia brilhante, que ele deu um jeito de apresentar com a seriedade que lhe faz a susbtância: em um tiroteiro entre bandido e policial, o bandido, ao manusear a arma-de-fogo, e disparar a esmo, sem mirar o policial, e vir a alvejá-lo e matá-lo, não será tratado, pelos órgãos competentes, cuja competência é proverbial, como um assassino, pois não será o seu ato, que resultou na morte do policial, considerado um homicídio, pois ele, ao não mirá-lo, não tinha o fim de matá-lo; pretende o bandido, em tal caso, apenas resistir à ação do policial, cuja morte é um acidente de percurso, um efeito colateral da ação de resistência do bandido, eterna vítima da sociedade cristã e patriarcal.
*
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, informa que sanções européias ao petróleo russo redundará em prejuízo para a Hungria, que não tem meios de aguentar o impacto que tal medida trará a sociedade húngara. Mas a OTAN parece disposta a insistir em suspender compra de petróleo russo, e a arrastar a Hungria para o conflito. E não é de hoje que a Europa ocidental, corroída pelo anti-cristianismo, bate na Hungria, que estima uma política mais tradicional, voltada para o cristianismo.
E outra notícia importante: a Polônia, a Hungria e a Romênia estão a reivindicar pedaços do leste da Ucrânia, onde entrariam, li, com o escudo de uma força de paz da OTAN. Há quem diga que se isto se der, a coisa degringola de vez.
Se as duas notícias acima são de estarrecer, o que dizer das que dão a conhecer que os serviços de inteligência dos Estados Unidos da América auxiliaram as forças militares ucranianas a caçar, e matar, generais russos, e a atacar, e afundar, o Moskva, navio russo, um símbolo do poderio naval dos bárbaros das estepes?!
E daquelas regiões belicosas e de seus arredores, chega-nos duas notícias: a OTAN pensa em enviar à Ucrânia obuzeiros Panzerhaubitze 2000, de fabricação alemã; e, na Espanha, é preso o blogueiro Anatoly Shariy, crítico de Volodomyr Zelensky, acusado sei lá eu de quê.
*
Durante a epidemia do novo coronavírus, houve avalancagem extraordinária das transações comerciais intermediadas por criptomoedas, e de serviços digitais, e de relações de compra-e-venda por meio de aplicativos, assim avançando a economia mundial em um projeto que visa a sua total digitalização, todas as transações realizadas via serviços digitais, com a consequente supressão da moeda em papel, o que atende aos objetivos da ONU 2.030. Para muitos, o mundo que se avizinha é deveras preocupante, assustador: um Estado global totalitário a gozar de poder absoluto jamais imaginado por faraós e reis e imperadores e líderes ditadores do tempo dos nossos tataravós.

Trustália, uma quase distopia – de Magno Mello

Uma galeria de dezenas de personagens ocupa as páginas deste livro de capítulos curtos subdivididos em episódios que se desenrolam em poucas linhas, alguns destes, os mais extensos, em três, quatro páginas. Está centrada a história nos eventos sucedidos em Trustália, um vilarejo situado nas cercanias de Paraíso e de Arrabalde. Tem início o relato com um evento inusitado, um fenômeno inédito, testemunhado por sete pessoas, todas de Trustália: uma luz amarela manifestou-se nos céus do povoado; e a partir deste fenômeno os moradores de Trustália revelam o dom de ler os pensamentos alheios. Ao ler as primeiras linhas, o leitor prepara-se para ler um relato fantástico, mas o autor, Magno Mello, não lhe satisfaz as expectativas, pois prende-se em pequenos relatos de eventos ocorridos, no povoado, nos anos que antecederam o estranho fenômeno luminoso e suas consequências extraordinárias. Descreve o livro um microcosmo social, o vilarejo de Trustália, uma civilização em miniatura, onde convivem tipos humanos dotados que o autor soube descrever com inteligência ao narrar os episódios que eles protagonizam. É a narrativa um caleidoscópio, as personagens entrechocando-se e revelando-se, nas colisões entre si, detalhes ocultos até então.Coadjuvado por Seu Vincente, José Inácio, Ariana, Romão, Padre Antero, professora Poliana e outros personagens, Ualter Carlos revela-se o protagonista, que tem no Comandante seu antagonista. É Comandante, cujo nome de batismo é Evilário Mouravia Montepreto, o “dono de quase tudo”, o fundador do vilarejo Trustália, o homem que o governa com mãos de ferro. As personagens reservam muitos segredos, não raros íntimos, que conservam de todos ocultos a sete chaves, mas o dom que adquiriram após a manifestação da luz amarela, dom que lhes permite ler pensamentos alheios, trá-los à superfície, e um deles referia-se à morte dos pais de Ualter Carlos.O autor mal emprega o recurso que dá o pontapé inicial do seu relato, o talento – que todos os moradores de Trustália adquiriram à manifestação da luz amarela – de ler os pensamentos alheios; dedica-se ao relato, em recortes curtos, de eventos anteriores ao fenômeno que dotou as personagens do extraordinário talento; indica, assim, entendo, que não soube o que saber com o recurso – que me parece dispensável dado o tratamento que o autor lhe dedica – que tinha em mãos.Revela Magno Mello três virtudes: domínio da técnica narrativa, que lhe permite costurar os episódios, em curtos recortes, entremeando passado e presente; bom vocabulário; e, controle da ação de dezenas de personagens, que se contracenam.Não me agradou o livro; e nem me desagradou. Generoso com o autor, digo que o livro tem mais pontos positivos do que negativos.

Chico – de Arthur Azevedo

A pedido de seu médico e amigo, o Doutor Miranda, Chico, homem prestativo e solícito, investiga a biografia de Alexandrino Pimentel, pretendente à mão de Maricota, mulher de trinta e sete anos, solteira, irmã do Doutor Miranda. Vem Chico a descobrir que havia sido Alexandrino Pimentel, casado com a filha de Trancoso, e foi ter com este, em Copacabana, após procurá-lo em Inhaúma, de onde se transferira para Copacabana seis meses antes, e dele ouviu palavras que descreviam o pretendente à mão da irmã do Doutor Miranda como um tipo asqueroso, de baixa estirpe, iníquo, desprezível. Incrédulo, suspeitando que Trancoso, homem mal-humorado e irascível, exagerava nas tintas que usara para pintar o homem que fôra seu genro, persistiu na investigação, vindo a confirmar, ouvindo palavras saídas de outras bocas, a má reputação que de Alexandrino Pimentel o sogro deste lhe pintara. Tão logo encerrou a sua aventura detetivesca, Chico, obsequioso, tratou de transmitir ao Doutor Miranda as notícias que lhe chegaram ao conhecimento. Contou-lhe tudo que sabia, e do que soube falou para Maricota, que se enfezou, fincou pé, e, destemida, disse amar Alexandrino Pimentel. E com este casou-se Maricota, contrariando seu irmão, que se resignou, afinal, era Maricota adulta, mulher de trinta e sete anos, e cabia a ela, e apenas a ela, ciente do temperamento e da reputação de Alexandrino Pimentel, decidir se viveria, ou não, com ele, maritalmente. E o universo pregou uma peça no prestativo Chico, pois a vida em comum entre Alexandrino Pimentel e Maricota não correspondeu ao vaticínio que todos deram ao considerarem o passado de Alexandrino Pimentel.

A Mulher que Fugiu de Sodoma – de José Geraldo Vieira

Poucos livros agarraram-me pelo pescoço, e soltaram-me só depois de eu ler-lhe a última de suas palavras. A Mulher que Fugiu de Sodoma é um deles. Está vazado num estilo simultaneamente simples e sofisticado, de bom gosto literário. É uma narrativa cativante, o autor a retratar o seu herói com sensibilidade rara, incomum, dedicando-lhe amor e carinho paternais, severo e ao mesmo tempo meigo, a cuidar dele com desvelo, porque sabe – afinal, é-lhe o criador – que ele irá se perder, e sua onisciência fá-lo disposto a compreendê-lo, respeitá-lo, amá-lo.

Narra José Geraldo Vieira a queda do médico Mário Montemor, que se vê em apuros devido ao seu vício em jogos (de azar, para muitos; de sorte, para poucos, os escolhidos; de muita, muita sorte, para os donos da banca). Faltando à lealdade ao doutor Silva Soares, vem Mário Montemor a lhe dever uma soma impagável. Após inteirar sua esposa, Lúcia Montemor, da situação em que se pusera, ela, dedicada, sai em busca do dinheiro correspondente ao valor da dívida que ele contraíra, e teria de arrumá-lo até a data aprazada pelo credor. Recorre Lúcia Montemor à Natália Cordeiro, sua prestimosa e solícita amiga, e à sua tia Marta, que lhe dedica amor inexcedível, e, enfim, à Ana Maria, sua amiga, esposa de Nuno de Almada, empresário miliardário, magnata brasileiro, cuja riqueza se rivaliza com a dos potentados europeus. Bem-sucedida em sua empresa, livra seu marido do apuro em que ele se pusera, mas ele não se emenda. A morte do “Segundo Clichê”, menino que vendia jornais, filho de Justiniano, foi, entende Lúcia Montemor, consequência do descaso, da irresponsabilidade de Mário, de quem ela se afasta. Lúcia Montemor recorre à tia Marta, que a acolhe. Ana Maria pede à Lúcia que ela lhe seja preceptora da filha, Leonor, e ela não se faz de rogada e transfere-se para a casa dos Almada. Neste meio tempo, Mário Montemor, após vender alguns de seus pertences, e com o dinheiro da venda saldar algumas dúvidas de jogo, recorre ao seu tio Zózimo, que o repreende, exorta-o a ir à Europa estudar medicina e se compromete a sustentá-lo durante os anos de estudos. Mário aceita-lhe a oferta, e embarca para a Europa, e instala-se em Paris. No início, ele se dedica aos estudos, aprimora os seus conhecimentos; e diverte-se com a modelo Pervanche, de quem se torna amante. Mas não persiste nos estudos; logo perde-se, o jogo o excita; aposta boa soma em corridas de cavalos; contrai dívidas. E morre-lhe o tio Zózimo, que lhe enviava, mensalmente, dinheiro para o sustento. Endividado, sem rumo, reduzido, devido o seu vício do jogo, à miséria, envolve-se com criminosos; encontra moradia na rua. Adoece. Amigos o acolhem, ajudam-lo, dele cuidam. E o que lhe sucede o leitor saberá ao ler o livro.

O leitor percebeu que eu falei de Mário Montemor, mais dele do que de qualquer outro personagem, e concluiu que é ele o herói do drama que nos conta José Geraldo Vieira, e pergunta-se porque é o título do livro A Mulher que Fugiu de Sodoma. É Lúcia Montemor, esposa de Mário Montemor, a personagem que, ausente da maioria dos episódios do romance, está presente em toda a obra, da primeira à última linha, em todos os episódios, pois é a figura dela que Mário Montemor tem em seus pensamentos; ela está nos sonhos dele, nos pensamentos dele; ele a tem consigo todo o tempo. É Lúcia Montemor a personagem central do romance, seu coração, sua alma. Mulher dedicada ao marido, de alma pura, ela recusa a Sodoma que o mundo lhe oferecia, oferta que lhe redundaria, se ela a aceitasse, na perdição da alma. A cena derradeira da sua aventura ilustra a sua rejeição à Sodoma.

É o livro de José Geraldo Vieira, A Mulher que Fugiu de Sodoma, uma obra magnífica, uma obra-prima da literatura brasileira. De leitura agradável. De estilo primoroso. Anima-a personagens cativantes. Em poucas horas de leitura, segui Mário Montemor em suas desventuras dramáticas, narradas com esmero, e simpatizei-me com ele.

Apenas os mestres da literatura conhecem a fórmula mágica da criação de personagens humanos, autenticamente humanos. E José Geraldo Vieira é um deles.

Dois vídeos de Rodrigo Gurgel, crítico literário. Semana de 22 e os medalhões da Literatura.

Assisti, ontem, 04/08/2021, no Youtube, a dois vídeos, ambos de um pouco mais de três minutos de duração, do professor de Literatura e crítico literário, Rodrigo Gurgel. São os dois vídeos, um publicado no dia 17/03/2020, e o outro no dia 29/02/2020, respectivamente, “A Desnecessária Semana de 22” e “Devemos Dissecar a Literatura Sem Ter Receio dos Medalhões”. Ambos os dois vídeos completam-se. No segundo aqui mencionado, diz o professor que não é papel do crítico literário demolir a reputação dos escritores, reduzir à pó as suas obras, mas dialogar com eles, e avaliá-las em seus aspectos positivos e negativos. Menciona o poeta brasileiro Manuel Bandeira, e diz que ele, prosador e poeta de recursos literários inesgotáveis, um escritor de mão cheia, fora de série, escreveu, para honrar seus compromissos, sob encomenda, peças constrangedoramente medíocres, que, é óbvio, não incorrem em diminuição do valor de sua obra, e tampouco lhe desmerece o talento. E aqui tece críticas aos modernistas da Semana de 22, citando-a por alto. E a literatura da Semana de 22 é o tema central do primeiro vídeo mencionado linhas acima. Neste vídeo, dedica atenção a Menotti del Picchia, e usa-o para ilustrar a sua tese. Dez anos após a Semana de Arte Moderna, de 1922, escreve Menotti del Picchia livro de qualidade superior aos que ele escreveu sob influência dos modernistas: Kummunká, obra de cunho filosófico e social. E além de Menotti del Picchia, outros autores modernistas, à margem do movimento modernista, escreveram obras valiosas, que em muito superam as que escreveram submissos, num ímpeto revolucionário, iconoclasta, elitista, sob os ditames da escola modernista. E entende o crítico literário desnecessária a Semana de 22 porque tinha o Brasil, então, uma literatura que emulava à dos europeus, literatura que contava, entre seus principais expoentes, com Machado de Assis, Euclides da Cunha e Monteiro Lobato – e estes dois últimos experimentaram estilos retóricos mais fiéis ao ambiente cultural brasileiro. E dois importantes escritores regionalistas, Graciliano Ramos e Rachel de Queirós torciam o nariz para os modernistas.
Diz o professor Rodrigo Gurgel que têm os brasileiros de entabularem palestra amigável com os escritores brasileiros, e com os medalhões, sem temê-los, e tê-los como interlocutores; e dentre tais medalhões estão os escritores modernistas, que, muitos entendem, têm de ser pelo povo reverenciados, cultuados, e não estudados, avaliados. Lição proveitosa dá aos brasileiros o professor de Literatura e crítico literário Rodrigo Gurgel.

O Capitão dos Andes (História Pitoresca de um Caudilho) – de Raymundo Magalhães Júnior

Prendeu-me este livro a atenção, e desde a primeira página. E com a leitura, interrompida poucas vezes para a execução de algumas atividades, e para dormir uma noite, aumentava o meu apreço pelo livro, que me surpreendeu favoravelmente, e pelo autor, que se me revelou um escritor primoroso, dotado de recursos literários que lhe permitem o controle da narrativa, a correta exposição da trama, e a exibição das personagens, que se revelam em sua integridade. Pediu-me, melhor, exigiu-me, o livro leitura dedicada, atenta, o que nenhum esforço me custou, afinal, além de escrito com esmero, não descarrega informações que em nada o enriquecem. E não moveu o autor a pretensão de escrever uma obra imorredoura; ele se limitou a romancear um fato histórico sucedido, em meados do século XIX, na Bolívia.

É O Capitão dos Andes (Histórica Pitoresca de um Caudilho) um romance histórico. É pitoresca, e patética, ridícula, tragicômica, a história de Dom Manuel Mariano Melgarejo, que é identificado ora como Dom Mariano, ora como General Melgarejo. A aventura se deu em meados do século XIX, o Brasil então sob o Império de Dom Pedro II. Político aventureiro, de mentalidade totalitária, bate-se Dom Manuel Mariano Melgarejo, numa guerra caudilhista, com Isidoro Belzu e é por ele derrotado. Seu inimigo não era flor que se cheirasse. E Dom Manuel Mariano Melgarejo não se lhe sobressaía em virtudes. Embora suplantado em combate pelo seu rival, acaba por eliminá-lo numa ação arriscada, temerária, surpreendentemente bem-sucedida: o da invasão do Palácio do Governo, em La Paz, empregando artifícios grosseiros que se lhe revelaram favoráveis.

Após assumir o poder na Bolívia, Dom Manuel Mariano Melgarejo empreende ações que lhe satisfazem as ambicões totalitárias. Conhece Juanita Sanchez, moça de atrativos que o seduzem, e ele, mesmerizado pela beleza de tal moça, pobre, órfã de pai, vivendo com a mãe, na companhia de um irmão e uma irmã, e que vivia da pouca renda que auferia de um botequim, adota-a como a sua preferida, convertendo-a na Dona Juanita Sanchez, a única pessoa que tem o poder de lhe impor a vontade e impeli-lo a reconsiderar algumas de suas ações assassinas. Não demora muito tempo, enfrenta sedições, que nascem da urdidura conspiratória de Castro Arguedas (e de outros aventureiros), que o confronta em batalha sangrenta, e o derrota.

À medida que amplia-se o seu poder com a eliminação de seus adversários e com a subjugação da aristocracia de La Paz, Dom Manuel Mariano Melgarejo intensifica a política plenipotenciária, massacra os dissidentes, rouba aos nativos suas terras, deporta os insubmissos, dissipa os recursos públicos, humilha o povo; todavia, na mesma proporção do seu ganho de poder aumenta o descontentamento da população, que deseja alijá-lo do Palácio do Governo, mas que, sem os meios para empreender a ação que resultará em tal ato, resigna-se. E sucedem-se as expropriações de propriedades e de terras, sob a responsabilidade do General Antezana, que, na sua caça aos índios, invade território peruano, criando um incidente diplomático com o governo peruano. No uso da força, conquista Dom Manuel Mariano Melgarejo a lealdade da imprensa. E seguem-se as orgias, as bebedeiras, no Palácio do Governo. E para agradar Dona Juanita Sanchez, que deseja brilhar na alta sociedade, aritocrática, de La Paz e comprar-lhe jóias e vestidos suntuosos, confisca propriedades e arquiteta uma tama, que consiste numa falsa acusação de conspiração contra os aristocratas de La Paz que não se lhe haviam curvado, submissos. E tão bem urdida, que os subjuga. Após ameaçar matá-los, finge atender às súplicas das esposas deles, e liberta-os.

Tem, agora, Dom Manuel Mariano Melgarejo, os aristocratas sob sua vontade, todos a se genuflexionarem diante dele, reverentes e amedrontados, e de Dona Juanita Sanchez, que passa a ser admirada pelas aristocratas, que antes a desdenhavam. E seguem-se as deportações dos inimigos do governo. E os massacres. E os fuzilamentos.

Ao mesmo tempo que se dedica às negociações com o Conselheiro Lopes Neto, representante do Império do Brasil, acerca das demarcações fronteiriças entre a Bolívia e o Brasil, Dom Manuel Mariano Melgarejo, antes de convocar uma Assembléia Constituinte e votar nova constituição (que perderia validade logo após promulgada, pois ele considerava-a um empecilho à sua ambição de exercer plenos poderes), eliminou da vida pública, com exílio ao Chile e ao Peru, e à morte, seus adversários. Promulgada a Nova Constituição, que ele revogou após um louco atacá-lo, aproveitou, sem titubear, do incidente, e gritou aos quatro ventos que havia contra seu governo uma conspiração, que ele cuidou abortá-la em seu nascedouro. E seguiram-se massacres, fuzilamentos, expropriações de terras. E sublevações de índios. E sedições.

O povo, massacrado, humilhado, na iminência de ser dizimado, encontra forças, que se acreditava inexistentes, para reagir contra Dom Manuel Mariano Melgarejo, o homem que o maltratava com crueldade diabólica e de quem a imprensa local escrevia hagiografias.

A história do caudilho boliviano revela o que há de mais tétrico, de mais asqueroso, de mais repulsivo, de mais condenável, de mais insano, de mais doentio, na alma dos homens dotados de mentalidade revolucionária, totalitária. Narra a vida de um homem que, na presunção de entender-se um ser superior, uma entidade privilegiada provida de poderes divinos, dotado do poder de governar o mundo, revela-se, não o ser supremo que ele pensa ser, mas um sujeito reles, minúsculo, desprezível, patético, ridículo, o suprassumo da animalidade humana. É Dom Manuel Mariano Melgarejo um emblema do caudilho e de todos os homens que almejam o poder absoluto.

Merece O Capitão dos Andes (História Pitoresca de um Caudilho), de Raymundo Magalhães Júnior, leitura atenta e divulgação. É livro de escritor consciencioso. De leitura agradável. E instrutivo.

X e W – de Arthur Azevedo

Era Xisto um carioca muito feio, de olhos esbugalhados, orelhas enormes, boca deveras larga, de andar desengonçado; enfim, era Xisto um tipo que nenhuma mulher apreciava. E ele adorava a beleza feminina; não podendo ter belas mulheres aos seus braços, com elas sonhava. Em uma certa manhã, a linda viúva de trinta anos que morava na casa diante da dele convida-o a visitá-la à meia-noite. Xisto não se faz de rogado. Prelibando os prazeres que auferiria, preparou-se para a entrevista com a mulher que cobiçava. Foi à casa dela, ao encontro agendado. E realizou o seu sonho. Uma semana depois, Xisto viu-a; e ela tratou-o com indiferença, desgostando-o. Com o passar dos dias, ele se resignou à indiferença que ela lhe dedicava; recordava os quinze minutos durante os quais se entreteve com ela, no ninho das delícias cujo acesso ela lhe dera, e evocava a postura maquinal dela, distante, fria, de uma mulher que executava, dir-se-ia, unicamente, um ato mecânico. E o tratamento que ela lhe dispensou após o ato consumado intrigava-o. E a resposta para a interrogação que ele se fazia acerca da atitude esquiva dela ele a teria, passado um ano, de Wladimir. E o caso se lhe esclareceu. E a estranheza da conduta da linda viúva de Xisto e de Wladimir, o X e o W do título do conto, recebeu comentários misto de surpresa e incredulidade.

Paulino e Roberto – de Arthur Azevedo

Narra este conto a história de Paulino, homem infortunado, flagelado por caiporismo inescapável. Pobre, une-se em matrimônio com Adelaide, mulher formosa, encantadora, vaidosa, de espírito orgulhoso, que vive de reclamar da sua vida em comum com Paulino, sempre a jogar, no rosto dele, a pobreza que a afligia, a vida de sacrifícios; ele não possuía renda que lhe permitia oferecer a ela recursos para ela satisfazer todos seus caprichos de elegância e requinte. Numa conversa com um seu amigo, amigo do peito, Vespasiano, Paulino ouve severas críticas a Adelaide, e uma confissão: que ele, Vespasiano, jamais se casaria com uma mulher com o gênio intratável de Adelaide.Certo dia, a negócios Paulino seguiu para o Rio Grande do Sul. E desembarcou em Santa Catarina, onde perdeu o paquete “Rio Apa”, e teve de esperar por outro. Enquanto esperava por outra embarcação, recebe a notícia de que o “Rio Apa” naufragara, matando todos os passageiros, e a tripulação; e em jornais lê, na lista dos nomes dos vitimados pela tragédia, o seu, e se lhe aflora, então, a idéia, adotando-a, sem pestanejar, de se silenciar a respeito, e instalar-se em Santa Catarina, adotar outro nome, e deixar que, em sua terra, o Rio de Janeiro, as pessoas de seu relacionamento – Adelaide, principalmente – recebessem a notícia de sua morte. E rumou para o interior da província, na companhia de um rico industrial teuto-brasileiro. E adotou um novo nome: Roberto. Decorridos alguns anos, agora de barba crescida e gordo, viajou ao Rio de Janeiro; sem se anunciar a ninguém, afinal estava morto. E não precisou esperar muito tempo para presenciar uma cena que jamais lhe passaria pela cabeça. Cena inimaginável. E nada mais digo.

O Tipo Brasileiro – de França Júnior

Nesta comédia, França Júnior apresenta o antagonismo entre duas personagens, Teodoro Paixão, pai de Henriqueta Paixão, e Henrique, pretendente à mão de Henriqueta Paixão. É Teodoro Paixão fervoroso adorador de estrangeirismos. Compara o povo do Brasil, e sua cultura, sua língua, seus hábitos, seus costumes, com o povo da Alemanha, da França, da Inglaterra, da Itália, e a cultura, língua, hábitos e costumes deles e entende o povo do Brasil e tudo o que brota em terras brasileiras inferior aos seus similares estrangeiros. Para ele, o povo brasileiro é fútil, bárbaro, leviano, indolente, imerecedor de crédito, e seus valores desprezíveis, irrelevantes. E Henrique se lhe opõem, veemente, em defesa do Brasil e dos brasileiros. Henrique detecta, em seu antagonista e nos tipos que se lhe equivalem, um mal, de ontem e de hoje, que muito prejuízo dá ao Brasil: a ignorância que têm os brasileiros de seus heróis, seus literatos talentosos, seus compatriotas geniais, que construíram, no transcurso de suas vidas, obras meritórias, de valor imperecível. Tal crítica de Henrique aos brasileiros não perdeu, no decorrer de mais de um século após a publicação desta peça, o seu valor; os brasileiros ainda hoje valorizam muito produto estrangeiro desprovido de valor e desvaloriza os equivalentes nacionais que lhes são superiores e dá mais valor a artistas, escritores, músicos estrangeiros medíocres e desdenham os concorrentes brasileiros melhores e mais talentosos e criadores de obras superiores.
Não querendo flertar com patriotadas, há de reconhecer todo brasileiro sensato, que preserva o senso de justiça, capaz de dar a cada obra o seu valor justo, que o brasileiro produz, na literatura, na música, na ciência, obras de valor superior às de muitos estrangeiros que enaltecem, idolatram.
Abandonemos as lamúrias, e tratemos da peça de França Júnior. Desenrola-se a peça, num ato, em treze cenas. Além do desencontro das opiniões de Teodoro Paixão e Henrique acerca do tipo brasileiro, há outro ponto que promove atrito entre as duas personagens: devido ao seu desprezo mortal pelos brasileiros e seu amor irracional pelos estrangeiros, Teodoro Paixão quer que sua filha se case com Mr. John Reed, bretão, engenheiro, que pretende se lançar numa aventura empresarial. Henrique, no entanto, não desiste de seu propósito: o de se casar com Henriqueta Paixão. E para alcançar tal fim, idealiza um projeto – simultaneamente produto da perspicácia e da insensatez de um homem apaixonado -, que, pensa, irá obrigar seu rival a se exibir com sua verdadeira face aos olhos da mulher amada e do pai dela. E o projeto concebido por Henrique, projeto que segue uma direção que ele não previu, o acaso a providenciar-lhe o bom sucesso da empreitada, propicia uma cena hilária.

O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli; e, Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa

O livro de Henrique A. Orciuoli, dos dois aqui tratados o primeiro que li, está vazado numa prosa poética, que reproduz a simplicidade da poesia do biografado, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, infelizmente hoje em dia pouco lido e lamentavelmente difamado pelos seres que, além de desprovidos de talento poético, adoradores de imundícies escatológicas, odeiam o que há de melhor, mais valioso, mais belo, na cultura brasileira. A prosa do autor é em si mesma uma homenagem a Olavo Bilac. Conta-nos Henrique A. Orciuoli, numa prosa poética acessível a qualquer pessoa minimamente ilustrada, a angústia de Olavo Bilac, seu amor por Amélia, irmã de outro herói da poesia brasileira, Alberto de Oliveira, que, do mesmo modo que o autor de O Caçador de Esmeraldas, é ignorado pelos incultos e vilipendiado pelos que tiveram sua formação intelectual feita pelo que há de pior do que não sei se é certo chamar de literatura moderna. Olavo Bilac amava, apaixonada e doentiamente, Amélia, seu eterno amor. Noivaram o poeta e sua amada, também poetisa, e irmã de poetas, mas não chegaram ao enlace matrimonial por obra de Juca, irmão mais velho de Amélia, e da mãe dos Oliveiras, a viúva Dona Saninha. Os dissabores do poeta são angustiantes. Dói-se o coração de Bilac, alma sensível e imaginosa; e o poeta sofre até no leito de morte, Amélia a mover-se em sua imaginação, a agitar seu coração.

Além de falar da paixão de Olavo Bilac e Amélia, da hostilidade inexplicável de Juca, que não queria o casamento de sua irmã com o autor de Via-Láctea, Henrique A. Orciuoli reproduz poemas de Bilac e de Amélia, e dá notícia do embrião da Academia Brasileira de Letras, a casa dos Oliveiras, a “Engenhoca”, local privilegiado frequentado pela nata da cultura de então.

Resume a biografia, de um pouco mais de cem páginas, ao amor entre Bilac e Amélia, dedicando poucas palavras a outras atividades do Príncipe dos Poetas Brasileiro. Lê-se o livro como se lê um romance; aliás, é o livro um romance, um romance de personagens reais que enriquecem a história do Brasil.

Tem o livro de Osmar Barbosa, Olavo Bilac: Vida e Obra, dimensões, em páginas, próximas das do livro de Henrique A. Orciuoli, e, ao contrário do deste, não se prende ao romance de Bilac e Amélia. Apresenta um panorama mais amplo da vida do Príncipe dos Poetas Brasileiros. Dá notícia do nascimento dele, em ano em que se desenrolava a Guerra do Paraguai; e do seu tirocínio com o Padre Belmonte, e de seus estudos no Colégio Vitório; fala-lhe, rapidamente, da mãe, D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac, e do pai, Dr. Brás Martins dos Guimarães Bilac, que o queria médico e que dele se afasta devido à reprovável vida errônea e boêmia que ele, Bilac, prodigalizava na companhia de amigos. Fala, também, o autor do abandono, por Olavo Bilac, do curso de medicina, e de seu ingresso na Faculdade de Direito; e de sua amizade com Alberto de Oliveira, José do Patrocínio, Raul Pompéia, Artur Azevedo, Paula Nei, Emílio de Menezes, Coelho Neto; e da sua paixão por Amélia; e da sua admiração por Gonçalves Dias; e de suas viagens à Europa; e do seu encontro com Eça de Queirós; e de seu trabalho de inspetor escolar; e da sua participação na fundação da Academia Brasileira de Letras; e de suas conferências a favor do escotismo, do serviço militar obrigatório, da abolição dos escravos; e das adversidades enfrentadas porque desprovido de recurso pecuniários para se manter; e de suas prisões; e do seu envolvimento em duelos literários, em defesa de Gonçalves Dias, contra Lúcio de Mendonça, e na guerra entre parnasianos e simbolistas; e de sua ação a favor de José do Patrocínio e contra o Marechal Floriano Peixoto; e de seu reencontro, em 1910, na casa do Professor Hemetério dos Santos, que aniversariava, com sua amada Amélia de Oliveira, vinte e dois anos após o encontro anterior. E adiciona brindes ao leitor o autor Osmar Barbosa: algumas anedotas da vida do autor de Via-Láctea, a reprodução de uma crônica que o maior dos poetas parnasianos brasileiros escreveu acerca de seu encontro com Eça de Queirós, e um conto infantil, O Velho Rei, de autoria de Bilac.Os dois livros são de pessoas que admiravam Olavo Bilac.

Enquanto Henrique A. Orciuoli ocupa-se do amor, eterno amor, do Príncipe dos Poetas Brasileiros por Amélia, Osmar Barbosa fala de outras questões que lhe enriquecem a biografia. O primeiro foi bem-sucedido em seu objetivo ao concentrar-se no mundo do maior poeta parnasiano brasileiro, o mundo em que Amélia ocupava a mente e o coração do poeta; e o segundo, de escopo mais amplo, fez o tema do amor de Bilac por Amélia secundário. Ambos escritores de boa, bem cuidada, prosa, seduzem o leitor; transcrevem poesias de Bilac, e ensinam uma inestimável lição aos leitores: é impossível entender as poesias se não se conhecer a vida dos poetas. A poesia de Olavo Bilac é melhor compreendida se se conhecer suas atividades, e muito de sua obra poética alude à Amélia, sua Beatriz.

São O Mundo de Olavo Bilac, de Henrique A. Orciuoli, e Olavo Bilac: Vida e Obra, de Osmar Barbosa, dois livros simples, que abrem aos amantes da literatura as portas que dão acesso à vida, ao coração do Príncipe dos Poetas Brasileiros. 

Amor com amor se paga – de França Júnior

Nesta peça, França Júnior narra uma singela trama em que se entrecruzam dois casos de amores ilícitos, que não se consumam, conservando-se os amantes no universo platônico do encantamento pela beleza e pelo ideal de amor imaginário – no caso, uma das personagens, romanesca, tem suas idéias amorosas inspiradas nas obras de Byron e Chateaubriand. Dois casais animam a peça: o Coutinho, Eduardo e Emília; e o Carneiro, Miguel e Adelaide; e com eles contracena Vicente do Amparo, um serviçal. Em um ato, em quatorze cenas, curtas, principia-se a peça – que não se prolonga além de quinze páginas numa sala, a mesa preparada, por Vicente do Amparo, para um encontro entre Eduardo Coutinho e Adelaide Carneiro. Na sequência, na sala retirando-se Eduardo Coutinho, e nela presente apenas Vicente do Amparo, entra, esbaforido, Miguel Carneiro, fugindo à caça que lhe promovem alguns moradores da vizinhança. Aqui, narra Miguel Carneiro os contratempos que enfrentara durante os preparativos para o seu encontro com a sua amada, que, sabe-se logo depois, é Emília Coutinho. E assim que se anuncia o regresso de Eduardo Coutinho, agora acompanhado de Adelaide Carneiro, Miguel Carneiro, antecipando-se à entrada deles na sala, esconde-se embaixo da mesa, e, escondido, ouve-lhes a conversa, e reconhece a voz de sua esposa, que revela seu amor pelo marido e sua leviandade ao, deixando-se seduzir pelas idéias românticas dos livros, concordara com o encontro com Eduardo Coutinho. Maldiz, então, Miguel Carneiro, os livros românticos, que estão a virar a cabeça de sua esposa.
Abro um parêntese: É recorrente na literatura romântica a idéia do mal que a literatura faz às mulheres, principalmente às suscetíveis, de imaginação fantasiosa, que facilmente se excitam com a leitura de aventuras amorosas, encantadas pelas narrativas dos mestres do romantismo. E aqui fecho o parêntese.
E nesta peça, singela e divertida, de França Júnior, é Adelaide Carneiro a mulher que representa o tipo frágil e inocente que, deixando-se seduzir por obras românticas, espelha-se nas suas personagens, e alimenta o desejo, irrefreável, de levar à realidade façanhas dignas de dramas romanescos saídos da cabeça de escritores.

A Salvação da Alma (Contos de Aprendiz) – de Carlos Drummond de Andrade

Ao Carlos Drummond de Andrade poeta prefiro o contista. Eu não sou um bom leitor de poesias.

No primeiro conto do volume Contos de Aprendiz, narra Carlos Drummond de Andrade um relato de Augusto Novais, irmão de Miguel, o primogênito, Édison, Tito e Ester. É Augusto o mais novo dos meninos. Os quatro vivem às turras, sempre às voltas com brigas por qualquer miudeza; quando não havia razões para se estapearem, esmurrarem-se, arrumavam um pretexto qualquer, e socavam-se. As brigas, que se sucediam diariamente, não indicavam que os quatro meninos odiavam-se; gostavam-se, mas não se negavam o direito de se baterem. O mais velho deles, Miguel, é o modelo que os outros seguiam à risca; mais experiente, ele lhes ensinava valiosos palavrões e xingamentos. Dentre Miguel, Édison e Tito, este era o que mais se envolvia em brigas com Augusto, um ano mais novo, e quem mais lhe batia; era-lhe mais forte. E os quatro irmãos, ladinos, vendiam para Ester muitos dos objetos e guloseimas que ela apreciava, pastilhas de hortelã, caixas vazias de sabonete, extorquindo-lhe o dinheiro que o pai, generoso com ela, e jamais com os quatro meninos, dava-lhe com facilidade que os boquiabria.

Um dia, visita a cidade padres, que pregavam no púlpito e confessavam os munícipes. Os quatro meninos Novais eram “hereges”, que na linguagem local é sinônimo de cristãos desleixados, que não se dedicam aos rituais cristãos, não vão à missa, não promovem obras de caridade.

Miguel, Édison, Tito, Augusto e Ester se confessam com o padre. No início da viagem de regresso à casa, Tito puxa para junto de si Augusto, com ele entabula conversa, e  andam, tranquilos, os dois, pela única rua da cidade, afastados dos outros. Tito, então, diz ao seu irmão que não mais lhe bateria, e diante da incredulidade dele, promete-lhe não lhe bater e pede-lhe que ele o humilhe, que lhe faça algo de mal, pois quer ser humilhado. Augusto, após um momento de hesitação, decide pedir a Tito que este se pusesse de quatro e se fizesse de burro, e nele Augusto montaria, e Tito o carregaria até a casa. Tito aceita a proposta. Augusto serve-se dele de burro. Percorridos alguns metros, Augusto, deliciando-se com a humilhação que aplicava ao seu irmão – este, resignado, não se queixava, e cumpria, sem pestanejar, a promessa -, decide fazer a ele outra exigência: que a cada cinquenta passos, ele gritasse “Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim! Sou burro e quero capim!” Tito não reclama. E corresponde ao pedido, que lhe soa como uma ordem, do irmão. Augusto, entretanto, não se deu por satisfeito. Deliciava-se com a humilhação que infligia ao irmão. No desejo de aproveitar-se da situação que ele lhe propiciava para dele se desforrar de todas as surras que ele lhe dera, aplicou dois golpes simultâneos, com os calcanhares, como se o esporeasse, numa região do corpo, tão sensível, que fê-lo dobrar-se de dor, esbravejar, encolerizar-se, e esquecer-se da promessa feita.

Conto divertido. Carlos Drummond de Andrade descreve, com singeleza, além dos irmãos Novais, outros personagens, caracterizando-os com rápidas pinceladas, suficientes para apresentá-los, em sua inteireza, numa narrativa simples e cativante, ao leitor.

Plebiscito, de Artur Azevedo; O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto; e, O Homem da Cabeça de Papelão, de João do Rio

Três contos de humor, de três escritores brasileiros que estão entre os melhores que o Brasil produziu, contos que revelam, cada um deles, um aspecto negativo da gente e da sociedade brasileiras; unidos, constituem um amplo cenário do que foi o Brasil ontem e do que é o Brasil hoje – e do que será o Brasil amanhã?

O de Artur Azevedo, Plebiscito, o mais simples e curto do três contos aqui nomeados, conta um constrangedor capítulo – e hilário aos olhos do leitor – da vida do senhor Rodrigues, que, abordado por Manduca, seu filho, que lhe pergunta o que é ‘plebiscito’, em vez de lhe dizer que ignora o significado de tal substantivo, bate pé, faz-se de ofendido, e, ao fim, após consulta ao pai dos burros, dá-lhe a explicação pedida, e a complementa com um comentário que revela sua orgulhosa ignorância.

O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto, talvez o mais popular conto da literatura brasileira, narra a aventura, bem-sucedida, sem percalços, do senhor Castelo, que, vendo-se sem meios, decide, para obter um bom emprego, atender a uma exigência de órgãos públicos, e dedica-se a estudar um idioma que ele não sabia que existia, o javanês. Ele não aprende, é óbvio, tal idioma; dá apenas uma lambida em livros que dão a conhecê-lo – mesmo assim, obtêm uma sinecura, que lhe enche as burras de ouro, e dá-lhe acesso à aristocracia, e empresta-lhe fama que lhe permite gozar de prazeres mundanos. Toda a sua carreira de homem que sabia javanês é um embuste, mas no meio social em que vive não são males a sua ignorância e a sua incultura, pois os integrantes de tal meio, tão ignaros e incultos quanto ele, também vivem de aparências.

É o menos conhecido dos três contos aqui apresentados em breves comentários o de João do Rio, O Homem da Cabeça de Papelão. E é o mais emblemático deles. Enquanto o de Artur Azevedo cuida da ignorância soberba de um homem e o de Lim Barreto da corrupção de um homem de princípios reprováveis vivendo em um meio social que atende à sua natureza corrupta, o de João do Rio dá-nos a conhecer a perdição de uma alma íntegra, a de Antenor, Antenor, que, num meio social corrupto, de gente leviana, de mundanos, incompreendido, amargurado, angustiado, decide, certo dia, converter-se em outra pessoa, pessoa que era o oposto dele; a partir de então se faz, de um homem impoluto, um ordinário estróina, que se ocupa em satisfazer seus mais baixos prazeres, animalescos, assim vindo a ser popular entre os da sociedade mundana, de gente de conduta tão degenerada quanto à dele. E ao final da história, tendo a oportunidade de recuperar sua alma original, recusa-se a fazê-lo. Perde-se.

Os três contos fornecem ao leitor ingredientes para a compreensão do espírito brasileiro e da constituição da sociedade brasileira. São imperdíveis.

Há humor na literatura brasileira?

Diz que a literatura brasileira é chata, sem graça, quem jamais se dispôs a ler um livro de um bom escritor brasileiro, e quem, tendo lido algum livro de escritor brasileiro, leu um de escritor desprovido de talento, ou de um escritor, para usar uma gíria moderna, lacrador, ou, como se dizia há pouco tempo, engajado. Engajado em quê? Em defender uma ideologia malsã que corrói tudo o que toca e que não tem o desejo de contar, despretensiosamente, uma boa estória, aventura envolvente de uma personagem cativante – e o escritor lacrador é o legítimo herdeiro do escritor engajado.

E é a literatura brasileira rica de bons livros de humor, livros que divertem, entretêm, educam, agradáveis, escritos por talentosos escritores brasileiros? Sim, é. São inúmeros os escritores brasileiros que se rivalizam com os melhores de outras nações. E no humor tem a literatura brasileira mestres e escritores que, mesmo de pouco talento, souberam escrever livros interessantes, de humor impagável, que de seus autores revelam muito bom gosto, criatividade, espirituosidade, e perspicácia, que lhes propiciaram os meios para identificarem da nossa sociedade e do nosso povo aspectos sutis que escritores de maior gênio não detectaram – e muitos dos de gênio superior, detectando-os, não souberam registrá-los em suas obras, e dos que souberam, não o fizeram com a maestria que o talento superior que os animava exigia.

Sem o desejo de me estender neste texto, que nada mais é do que o registro de alguns pensamentos que hoje de manhã, doze de dezembro de 2.020, afloraram-se à mente, digo que a literatura brasileira é rica, riquíssima, de humor, de graça fina, de comédia contagiante, e que, infelizmente, ela é, num tempo em que as pessoas em sua maioria ocupam-se com outras formas de entretenimento em detrimento da leitura de contos, novelas, romances e peças teatrais, pouco, ou nada, conhecida dos brasileiros. Dentre os escritores brasileiros que escreveram obras de humor que nos fazem rir a bandeiras despregadas, há os pequenos, os médios, os grandes, os gigantes. E aqui, não sendo meu propósito classificar escritores em grupos distintos, agrupando os pequenos com os pequenos, os médios com os médios, os grandes com os grandes, os gigantes com os gigantes, discriminando-os, cito, em ordem alfabética, alguns nomes da nossa literatura acompanhados cada qual do título de uma ou mais de suas obras ricas de humor.

Arthur Azevedo – vários de seus contos.

Carlos Drummond de Andrade – Contos de Aprendiz.

França Júnior – peças teatrais – comédias de costumes.

Graciliano Ramos – Alexandre e Outros Heróis.

Herbert Sales – O Fruto do Vosso Ventre.

Joaquim Manuel de Macedo – A Carteira de Meu Tio.

José Cândido de Carvalho – Porque Lula Bergantim não Atravessou o Rubicón.

José Osvaldo de Meira Penna – Cândido Pafúncio.

Lima Barreto – O Homen que Sabia Javanês.

Machado de Assis, além de dezenas de contos, o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Monteiro Lobato – alguns volumes da série O Sítio do Pica-pau Amarelo. Dentre eles, os que mais me agradaram: O Minotauro; e, Os Doze Trabalhos de Hércules.

Estes são alguns, poucos, escritores que me vêm à mente. Todos eles têm algo a oferecer àqueles que se dignam a ler-lhes os livros. Quem os lê gargalham, dobram-se de tanto rir, choram de tanto rir. Divertem-se.

Pobres liberais! – de Arthur Azevedo

É este conto de Arthur Azevedo divertidíssimo. Uma comédia impagável de um mestre do humor brasileiro. No tempo do império, como o narrador salienta, um presidente de província, o Doutor Francelino Lopes, em excursão pelo interior, em visita à certa cidade, é recepcionado com pompa e luxo pelos munícipes e potentados locais, que em sua homenagem executam o Hino Nacional num ritmo que não lhe era apropriado à seriedade e tampouco a nobreza do homenageado. Enfim, converteu o povo a visita do Doutor Francelino Lopes em uma festa barulhenta, espalhafatosa. Serviram ao visitante banquete suntuoso repleto de delícias capazes de satisfazer o mais exigente dos paladares. Promoveram um baile durante cujo desenrolar o doutor Francelino Lopes dançou com a Baronesa de Santana, esposa de um rico fazendeiro, chefe do partido proeminente na cidade, e após cujo encerramento ele se recolheu ao quarto a ele destinado onde lhe entregou o bacharel Pinheiro um exemplar de A Opinião Pública, jornal do partido conservador, em cujo corpo constava uma biografia do Doutor Francelino Lopes. Saídos todos do quarto, encontrando-se, neste, só, o Doutor Francelino Lopes pôs-se a ler a matéria, que trazia um retrato seu xilografado, no periódico que à mão lhe pusera o bacharel, até o instante em que uma força da natureza, indomável, invencível, fê-lo interromper a leitura e procurar uma vasilha para cujo interior poderia descarregar o que lhe incomodava as vísceras a ponto de desesperá-lo. E foi à procura de um receptáculo para a carga que lhe feria o intestino. Não a encontrou em nenhum lugar daquele compartimento da casa. Aventou a vontade de solicitar aos seus hospitaleiros e solícitos anfitriões uma vasilha; todavia, tão logo se lhe aflorou tal idéia à mente, abandonou-a. Seria constrangedor um homem de sua posição recorrer à tal artifício. Em seu desespero, decidiu, então, abrir, no chão, o A Opinião Pública, sobre o qual despejaria a matéria que seu organismo acumulara. E assim fez. Obrou, como se diz. Concluída a obra, embrulhando-a com o A Opinião Pública, arremessou-a, pela janela, à rua, e foi, de consciência limpa, banhar-se. Em seguida, dormiu. E o seu sono foi encerrado, de manhã, por turbamulta promovida por uma pequena multidão de pessoas indignadas, dentre elas o bacharel Pinheiro. E foi ver o que ocorria: Haviam encontrado o exemplar de A Opinião Pública, no estado imundo em que o presidente da província, forçado por invencível força da natureza, o deixara.
As linhas que encerram o conto são de humor irresistível.
Toda a cena dos apuros em que o presidente da província (província cujo nome não é mencionado pelo narrador) se viu está num vocabulário discreto, educado, que empresta à narrativa comicidade impagável. Fosse Arthur Azevedo escritor desprovido de talento literário, e narrasse o drama de Francelino Lopes com um vocabulário explícito, o conto perderia o seu – vou assim dizer – charme.É este conto imperdível.

Ingleses na Costa – de França Júnior

Em quinze cenas, nesta peça de um ato, França Júnior desenha a desfaçatez e o cinismo de um grupo de moços desocupados, desajustados, velhacos e caloteiros. São eles Félix, Silveira e Feliciano, estudantes, já homens feitos. Ao retratá-los, em caricaturas reveladoras, o autor dá uma pequena amostra da sociedade brasileira do século XIX, sem pretensões a psicólogo profundo; é ele, aliás, analista superficial; na criação de tipos emblemáticos, no entanto, é correto, considerando-se, é claro, os limites de uma despretensiosa comédia de costumes criada para entreter um público não muito exigente. Além de, com o seu dom de comediógrafo, revelar traços deselegantes dos estudantes, o autor reproduz um aspecto do pensamento corrente, então, o da aversão que os brasileiros (pelo menos de uma parcela deles), naquele período da história nacional, nutriam pelos ingleses, os credores do Brasil.
Toda a comédia está ambientada em um quarto de hotel – e personagens relatam cenas sucedidas em outros locais, sendo uma delas a do almoço, na casa do Barão de Inhangabaú, para o qual foi convidado Félix, um dos estudantes, sobrinho de Luís de Castro.
Os três estudantes que protagonizam esta peça, todos levianos, sem um tostão no bolso, estão diante de duas situações difíceis: não têm dinheiro para o almoço; e têm dívidas a saldar. Salva Félix da fome o convite para o almoço na casa do Barão de Inhangabaú; e Silveira e Feliciano, Lulu, amiga deles, que, na companhia de Ritinha, os visita no quarto deles. Aqui se mostra a sem-cerimônia de Félix ao ir à casa do Barão de Inhangabaú (com quem possuía divergência política), não porque se simpatizava com ele, mas para filar um almoço, e, assim, matar a fome que o atormentava, e a de Lulu e Ritinha, que se movem com desembaraço num quarto de homens.
Encaminhando-se a peça para o seu encerramento, anuncia-se Luís de Castro, tio de Félix, que, do Rio de Janeiro, rumara para São Paulo com o propósito de ditar um sermão ao seu sobrinho, mas que, surpreendido por Lulu e Ritinha, que o abordam, atenciosas e mal-intencionadas, e Silveira e Feliciano, o primeiro apanhando-o numa armadilha e chantageando-o, acaba por não empreender o seu propósito original. Outro personagem que dá o ar de sua graça nesta comédia do talentoso França Júnior é Teixeira (credor de Silveira), caolho, alvo das anedotas dos três estudantes.
Assim como em Meia Hora de Cinismo, os personagens desta peça são estudantes desocupados, caloteiros, velhacos, às voltas com dívidas. O microcosmo estudantil brasileiro da época de França Júnior era, se se dar crédito ao autor de Ingleses na Costa e Meia Hora de Cinismo, constituído de criaturas desobrigadas das responsabilidades individuais elementares. O Brasil não mudou muito nestes quase dois séculos.

Uns Braços (Várias Histórias) – de Machado de Assis

Um conto singelo de Machado de Assis, escritor que, muita gente entende, era desprovido de imaginação, e dono de uma obra que peca pela ausência de paixões humanas, no dizer daqueles que não a apreciam. Uns Braços, do volume Várias Histórias, impressiona todo leitor sensível. É seu tema a paixão platônica de um jovem de quinze verões pelos braços de uma mulher de vinte e sete primaveras. Este é o fio condutor do enredo. Em certo trecho da aventura, revela-se a confusão de sentimentos da mulher pelo jovem que lhe admira, apaixonado, os braços. Sente-se a mulher amada, e insegura, ao saber do amor que ele lhe tem. É o herói da história, Inácio; e o objeto de sua paixão, D. Severina, que vive maritalmente com Borges. A vida do jovem Inácio, que mora na casa de Borges, para quem trabalha, é solitária, rotineira, entediante, e dela ele pretende fugir, indo-se embora; todavia, ele, atraído pelos braços de D. Severina, permanece na casa, aturando os impropérios e as descomposturas do irascível, grosseiro e mal-humorado Borges, sujeito intragável. Sob as ordens deste, desimcumbe-se – nem sempre a contento, pois mergulha, com frequência, em devaneios nos quais se perde, gostosamente, animando-os os braços nus de D. Severina – Inácio de seus afazeres, nas visitas a cartórios, em suas relações com distribuidores, escrivães e oficiais de justiça. Um dia, D. Severina, pensativa, suspeita da causa da distração de Inácio; e esforça-se para afastar de si tal suspeita -, em vão, pois a realidade lha confirma. Modifica, a partir de então, o seu trato com o jovem Inácio; com rispidez responde-lhe; e por poucos dias conserva tal postura; logo põe-se a tratá-lo com desvelo de mãe e carinho de irmã mais velha. Em um certo domingo, dormia a sono solto Inácio, estendido, em seu quarto, numa rede, a porta aberta, e à porta pôe-se D. Severina, que fica a observá-lo em sono profundo. E sonhava Inácio. E era D. Severina a sílfide que lhe animava o sonho, que lhe traduzia os mais íntimos desejos. E no sonho colaram-se os lábios de Inácio e os de D. Severina. E não apenas no sonho. Foi simultâneo, no sonho e na realidade, o beijo. E para Inácio existiu o sonho, o sonho unicamente, sonho do qual recordaria, muitos anos depois, com agrado.
Neste conto, Machado de Assis conserva-se num plano mais elevado do que o nos quais se encontram os seus rivais. Não desce ao sentimentalismo insensato ao descrever o que vai na alma dos amantes, recheando-o de imagens piegas para traduzir os sentimentos das suas personagens, e tampouco é vulgar na exposição de cenas que animam a imaginação lúbrica de Inácio, jovem de quinze anos cuja mente concebe cenas repletas de luxúria, sob inspiração da figura de uma bela mulher pródiga de encantos; limita-se a descrever-lhe o que lhe vai no espírito, sem a pieguice e excesso de sentimentalismo dos românticos exaltados e sem a vulgaridade obscena dos realistas depravados.
Nesta segunda década do século vinte e um, época em que as mulheres exibem, publicamente, as costas, os pés, as pernas, a barriga, as coxas, e não apenas a cabeça, as mãos e os braços, e as desinibidas, ausentes de pudor, desembaraçadas, seminuas, expõem, e não unicamente no litoral, durante um banho de sol, mas em qualquer ambiente, o corpo, constrangendo os que lhes fitam, o criador de Simão Bacamarte, se vivo, jamais escreveria um conto tão singelo. Talvez.

Entre Santos (Várias Histórias) – de Machado de Assis

Conto inusitado, para um escritor inscrito na escola realista – o que me faz pensar o que querem dar a entender os críticos literários por realismo em literatura de ficção. No caso de Machado de Assis, o seu pessimismo!? Não digo que ele fosse pessimista. Ele era um descrente!? Talvez. Não sei se o era. Considerando este conto, unicamente, o Bruxo do Cosme Velho, criador de obras imortais da literatura brasileira, apresenta-se-me como um homem descrente das virtudes humanas, seres, para ele, incapazes de cumprir os mais simples deveres morais, pois sucumbem aos vícios da carne, aos desejos materiais, para gozarem de veleidades, às quais não podem resistir e elevarem-se à condição superior de seres de dons que, tendo origem na alma, transcendem o corpo. Para o criador de Capitu, o corpo é mais poderoso do que a alma.
No início, eu disse que é este conto, do volume Várias Histórias, inusitado, se se entender seu autor da escola realista. E inusitado é, independentemente do rótulo que se cola em quem o imaginou, tendo-se em vista as suas peculiaridades, que, entendo, fazem dele obra de um literato dotado de mais criatividade do que nele reconhecem.
O conto está em primeira pessoa. Um padre velho narra um episódio de sua biografia: capelão de S. Francisco de Paula, em uma noite – as portas da igreja fechadas – viu, por sob uma delas, luz no interior da igreja. Surpreso, assustado, decide, hesitante, amedrontado, de posse de uma lanterna, averiguar o que se dava nos domínios da igreja, desarmado, tremendo tal qual vara verde. Ouve vozes. Acredita tratarem-se de de ladrões. E anuncia o narrador evento assombroso, extraordinário, que, suspeito, nenhum leitor, antes de chegar neste ponto do relato, imaginara. E aqui está o inusitado. As imagens dos santos São José, São Miguel, São João Batista, São Francisco de Sales e São Francisco de Paula, descidos cada qual de seu nicho, sentados nos altares, parlamentavam. E o capelão refugia-se num canto escuro, e ouve a conversa dos santos.
Linhas acima eu afirmei, com outras palavras, que tenho no criador do Quincas Borba um homem descrente no poder do espírito sobre o corpo, e aqui, em poucas palavras, reforço a minha afirmação: evocando as duas histórias contadas, pelos santos, a primeira, a de uma adúltera, por São José, e a segunda a de um usurário e avarento, por São Francisco de Sales, em ambas as duas histórias, os fiéis, a adúltera e o usurário e avarento, que haviam recorrido aos santos em busca de indulgências, oravam, mas, enquanto oravam, perdiam-se em pensamentos reprováveis, a adúltera evocando o seu amante, o usurário e avarento o seu dinheiro. Ao caso deste o autor dedicou mais linhas do que ao daquela; revelou a mesquinhez de Sales, que recorrera ao santo para São Francisco de Sales para que ele intercedesse pela esposa, doente de erisipela em uma das pernas. Sales amava-a, deveras, mas sacrificava seu coração à outra paixão… Deixo as reticências.
Neste conto o criador de Brás Cubas exige leitores atentos. Não é Machado de Assis um escritor que deixa suas idéias explícitas aos leitores. Ele pede leitores que detectam as sutilezas de seu estilo narrativo inconfundível.

Meia Hora de Cinismo – de França Júnior

Nesta peça de um ato o comediógrafo França Júnior, um dos mais populares autores brasileiros do século dezenove, infelizmente esquecido, descreve as aventuras inconsequentes de um pequeno grupo de segundanistas e um primeiranista de uma escola de Direito. São os segundanistas Nogueira, Frederico, Macedo e Neves alunos relapsos, vadios, que vivem de atormentar Trindade, o primeiranista, calouro orgulhoso de seu sucesso ao ingressar, saindo-se maravilhosamente bem na sabatina, na escola de Direito. Trindade irrita-se com os apupos que os veteranos lhe disparam, ferindo-lhe a vaidade de homem em seus primeiros passos na vida adulta, a ponto de fazê-lo perder as estribeiras e ameaçar agredi-los; mas em nenhum momento ele executa os seus propósitos concebidos quando o sangue lhe ferve nas veias sempre que eles o fazem alvo de gozações. Vai ao ponto de preparar a sua transferência da república que os segundanistas ocupam para outra, mas é dissuadido de o fazer por eles, e com eles, comemorando a reconciliação, bebe de duas garrafas de vinho, e, embriagado, oferece um espetáculo constrangedor.
O ambiente em que se movem Trindade e os segundanistas Nogueira, Frederico, Macedo e Neves, e Albuquerque, Inácio e Martins, e Taborda e Vilares, estes cinco mencionados por outro personagem, mas em nenhum momento dando o ar de suas graças, é de desleixo, os alunos, despreocupados, a se deliciarem com uma vida de aventuras irresponsáveis e inconsequentes, afundados em carraspanas a ponto de, a mente em torvelinho, perderem a consciência de seus atos, exibindo espetáculos grotescos,- nada diferente da juventude atual, que, nas faculdades, perdem-se em aventuras alucinógenas, sexo desenfreado, desprezo pelo conhecimento e desamor pela verdade.
Os personagens são dados com um misto de descrição realista e caricatural, salientados alguns, ou um, dos principais traços deles, para criar um clima de atritos entre eles, no que é bem-sucedido o autor. É possível imaginar em movimento Trindade, Macedo, Frederico, Nogueira e Neves, e Jacó, credor de Macedo, personagem que ao proscênio se dá nas cenas finais da peça. E é Jacó o antagonista dos segundanistas. Aqui, destaca-se, na relação entre os segundanistas e Jacó, a ambiguidade moral dos primeiros: entendem eles que Macedo, de boa família, não tem responsabilidade nenhuma pela dívida que contraíra, num jogo, ao assinar uma ‘letra’ para Jacó, que é, segundo Nogueira, um ladrão, que usa de papéis, pena e tinta para roubar as suas vítimas. A peça, simples, de vinte páginas, representa, magistralmente, com despretensão, em tom jocoso, a corrupção moral de estudantes, um microcosmo social em que os papéis estão invertidos, ou travestidos em outro, numa confusão demoníaca. Não condena nenhuma personagem o autor. Ele descreve, unicamente, tal minúsculo mundo. Anima as personagens, movimenta-as com a destreza de talentoso escritor, dono de senso de humor incomum, rival de Martins Pena e Artur Azevedo, outros mestres da comédia brasileira. Algumas cenas são impagáveis; a reação de Trindade às zombarias de seus colegas, exagerada, revela o seu caráter fraco, sua personalidade frágil, sua debilidade psicológica, dai ele cair facilmente num estado de semiconsciência, entorpecido pelo vinho, a oferecer um espetáculo grotesco de tão patético, de tão ridículo. De temperamento suscetível ao meio, por este não passa incólume; é por ele derrotado, e a ele sucumbe, sem esboçar reação. É ao final, ele, convertendo-se num trapo, é feito pelos colegas de gato sapato, como diz o dito popular. França Júnior foi certeiro ao apontar o relativismo moral de estudantes e a debilidade psicológica de uma personalidade sensível, imatura, orgulhosa e pretensiosa. Descreve, com despretensão e perspicácia, em quatorze cenas, o microcosmo estudantil do século dezenove, microcosmo que, em sua essência, não se distingue do microcosmo estudantil do século vinte e um.

A Cartomante (Várias Histórias) – de Machado de Assis

A Cartomante é o primeiro conto do volume Várias Histórias, de Machado de Assis. Está narrado no ritmo inconfundível do Bruxo do Cosme Velho, ponderado e ausente de emoções, embora trate de emoções, e de fortes emoções, dos três personagens principais, Camilo, o protagonista, e Vilela e Rita, seus coadjuvantes. Além destes três, há dois personagens secundários, a cartomante e o cocheiro, este, um figurante, aquela, de papel fundamental no desenlace da trama.
Camilo, cético, não crê em poderes místicos, em forças que transcendem a realidade. Contrariara a vontade de seu pai, que o queria médico, e amargava uma vida de desocupado, até obter, por intervenção de sua mãe, já viúva, que lhe viera ao socorro, uma sinecura. Vilela, seu amigo desde a infância, agora magistrado, reencontrara-o após regressar, casado com Rita, moça bela e tonta, da província.
Em decorrência da morte de seu pai,  Camilo renova os vínculos de amizade com Vilela, e estabelece amizade com Rita, que o consola, e passa a frequentar, com assiduidade, a casa do casal de amigos, e é tal a sua intimidade com Rita que, desconsiderando sua amizade fraternal com o marido dela, com ela estreita os laços de amizade, que se convertem em amor mútuo.
Recebe, certo dia, uma carta anônima, misteriosa, insultuosa, que lhe anuncia conhecer-lhe o segredo, que não é mencionado. Decide, então, intrigado, presumindo que Vilela sabia de seu caso com Rita, distanciar-se do casal, cessando as visitas à casa. E é neste ponto da trama que Rita, curiosa para conhecer as causas do procedimento distante de Camilo, decide consultar a cartomante.
E Camilo recebe outras duas cartas, que o põem de sobreaviso.
E parlamentam Camilo e Rita, que preparam meios para tirarem de Vilela, então taciturno, respostas que dele esclarecesse a conduta sombria.
Um dia recebe Camilo uma carta de Vilela, carta que trazia poucas palavras: “Vem, já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Tais palavras transtornam o espírito suscetível de Camilo, que se amedronta, suspeitando que seu amigo estava ciente da traição.
Passando, de tílburi, pela Rua da Guarda Velha, então bloqueada por uma carroça, Camilo vê a casa da cartomante, e após um momento de hesitação, perturbado, decide adentrar-lhe as entranhas e consultar a cartomante, de quem ouve palavras alvissareiras, que ele nada temesse.
Nas linhas seguintes, Machado de Assis, falando da barcarola cantada pela cartomante e repetindo a frase desta “ragazzo innamorato”, que, dita por ela, fizera Camilo abandonar os pensamentos sombrios que o fustigavam, envolve o leitor, preparando-o para o desenlace da trama. E foi Camilo, atendendo ao pedido – que lhe soou, então, como uma solicitação de ajuda, urgente – de Vilela, à casa dele. Lá chegando, abre a porta… Aqui, são indispensáveis as reticências.
Machado de Assis, com a sua proverbial sutileza, que lhe fez a fama, trata, neste conto, de adultério, sem descer às minúcias que outros escritores, desbragados e faltos de talento literário, descrevem gostosamente, e de paixões humanas incontroláveis.
É A cartomante um conto imperdível, para o gosto dos apreciadores de boas tramas de suspense.
Polifonia Literária

Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

divinoleitao.in

Rede pessoal de Divino Leitão.

Reflexões para os dias finais

Pensamentos, reflexões, observações sobre o mundo e o tempo.

PERSPECTIVA ONLINE

"LA PERSPECTIVA, SI ES REAL, EXIGE LA MULTIPLICIDAD" (JULIÁN MARÍAS)

Pensei e escrevi aqui

— Porque nós somos aleatórias —

On fairy-stories

Fantasia, Faërie e J.R.R. Tolkien

DIÁRIO DE UM LINGUISTA

Um blog sobre língua e outros assuntos

Brasil de Longe

O Brasil visto do exterior

Cultus Deorum Brasil

Tudo sobre o Cultus Deorum Romanorum, a Antiga Religião Tradicional Romana.

Carlos Eduardo Novaes

Crônicas e outras literatices

Coquetel Kuleshov

um site sobre cinema, cinema e, talvez, tv

Leituras do Ano

E o que elas me fazem pensar.

Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

LER É UM VÍCIO

PARA QUEM É VICIADO EM LEITURA

Velho General

História Militar, Geopolítica, Defesa e Segurança

Espiritualidade Ortodoxa

Espiritualidade Ortodoxa

Entre Dois Mundos

Página dedicada ao livro Entre Dois Mundos.

Olhares do Mundo

Este blog publica reportagens produzidas por alunos de Jornalismo da Universidade Mackenzie para a disciplina "Jornalismo e a Política Internacional".

Bios Theoretikos

Rascunho de uma vida intelectual

O Recanto de Richard Foxe

Ciência, esoterismo, religião e história sem dogmas e sem censuras.

.

.

Prosas e Cafés

(...) tudo bem acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar - Caio Fernando Abreu

OLAVO PASCUCCI

O pensamento vivo e pulsante de Olavo Pascucci

Clássicos Traduzidos

Em busca das melhores traduções dos clássicos da literatura

Ensaios e Notas

artes, humanidades e ciências sociais

Minhas traduções poéticas

Site de tradução de poesias e de letras de música

Além do Roteiro

Confira o podcast Além do Roteiro no Spotify!

Farofa Filosófica

Ciências Humanas em debate: conteúdo para descascar abacaxis...

Humanidade em Cena

Reflexões sobre a vida a partir do cinema e do entretenimento em geral

resistenciaantisocialismo

Na luta contra o câncer da civilização!

História e crítica cultural

"Cada momento, vivido à vista de Deus, pode trazer uma decisão inesperada" (Dietrich Bonhoeffer)

Devaneios Irrelevantes

Reflexões desimportantes de mais um na multidão com tempo livre e sensações estranhas

Enlaces Literários

Onde um conto sempre puxa o outro!

Ventilador de Verdades

O ventilador sopra as verdades que você tem medo de sentir.

Dragão Metafísico

Depósito de palavras, pensamentos e poesias.

%d blogueiros gostam disto: