O Homem que Inventava

Poucas pessoas compreendiam as idéias de outro mundo de Charles Albert Newton.

A história começou com Gustavo da Silva, um homem simples e sábio. Ainda criança, ele aprendeu a ler e a escrever. Leu muitos livros. Os livros que contavam a vida dos maiores cientistas do mundo eram os que ele mais gostava de ler. Cresceu. Comprou uma casa. E dentro dela construiu uma biblioteca com um acervo de mais de mil livros, em sua maioria de histórias da vida e das idéias dos mais importantes cientistas de todos os tempos. Casou-se com Rebeca. Para o seu primeiro filho, Gustavo escolheu o nome Charles Albert Newton. E por que Gustavo batizou de Charles Albert Newton? Por que não o chamou ou de José, ou de Paulo, ou de Pedro, ou de João? Porque ao batizá-lo com o nome de Charles Albert Newton, homenageou os três cientistas que mais admirava: Charles Darwin, Albert Einstein e Isaac Newton. Agora que todos já sabem porque Charles Albert Newton chamava-se Charles Albert Newton, podemos continuar a nossa história.

Charles Albert Newton era o orgulho de Gustavo e Rebeca. Crescia, vigoroso – jogava futebol e praticava natação – e muito inteligente. Lia bons livros. Antes dos vinte anos, já fazia experiências e inventava máquinas que melhoravam a vida das pessoas. Era a pessoa mais famosa da cidade em que morava. Todas as pessoas o admiravam e o achavam um pouco estranho – mas não o achavam muito estranho, pois ele gostava de dançar, assistir a jogos de futebol, e de carnaval. Mas quando ele punha-se a falar de suas idéias, de como funcionavam as suas invenções, as pessoas ficavam com cara de bobas – ninguém entendia o que ele dizia. Charles Albert Newton não era um cientista maluco – ele era muito esperto e sabia o que queria: queria que todas as pessoas vivessem bem; que ninguém passasse nem fome, nem sede; queria que todas as pessoas tivessem boas casas e boas roupas; e boa comida todos os dias, para que tivessem saúde de aço.

Era um homem dedicado às ciências, às invenções; às pessoas, que o chamavam de O Homem Que Inventava. E ele apareceu até em capa de revista! E ficou famoso! E com as suas invenções ajudava as pessoas.

Um dia, ele se recolheu à sua casa, e nada mais inventou. As pessoas estranharam.

– Por que o Charles não inventa mais coisas interessantes? – perguntou um morador da cidade.

– Levei para o Albert uma defeituosa máquina – disse outro morador -, e ele não soube consertá-la.

– Pedi ao Newton uma solução para o problema das enchentes que têm nos maltratado. Sabem o que ele me disse? Que não tem idéia para resolver o problema – disse o prefeito, entristecido e preocupado.

– Esgotaram-se as idéias do Charles? – perguntou uma senhora respeitável.

– Para mim, o Albert perdeu um parafuso – comentou, rindo, um homem brincalhão.

– Não diga bobagens – disse um homem que não gostava de brincadeiras bobas. – O Newton só está precisando de alguns dias de descanso.

Sem as brilhantes invenções e as idéias amalucadas de Charles Albert Newton, empobrecia-se a cidade.

Passaram-se os dias.Charles Albert Newton não inventou nenhuma extraordinária máquina e não pensou nenhuma idéia meio doida que ninguém entendia muito bem, mas que todo mundo adorava.

E passaram-se outros dias. E outros dias. E outros dias. E outros dias. E Charles Albert Newton não apresentou nenhuma boa idéia e nenhuma invenção brilhante.

Um dia, caminhando, a cabeça abaixada, Charles Albert Newton viu uma linda menina chorando, foi até ela, e perguntou-lhe:

– O que aconteceu, menina?

– A minha boneca… naquele buraco – disse a menina, aos soluços, gaguejando. Charles Albert Newton foi até o buraco, que era fundo.

E a menina chorava.

– Qual é seu nome? – perguntou-lhe Charles Albert Newton.

– Lúcia – respondeu a menina.

– Lúcia, vou pegar a sua boneca, está bem? – prometeu Charles Albert Newton, que logo pensou num meio de tirar a boneca de dentro do buraco, que era fundo. Olhou ao redor, e encontrou a solução.

Um homem passeava; trazia consigo um guarda-chuva. Charles Albert Newton pediu-lhe o guarda-chuva emprestado, e ele, gentil, lho emprestou. E quebrou Charles Albert Newton, de uma árvore, dois galhos compridos, e pediu para a Lúcia, que o observava sem entender o que ele fazia, as maria-chiquinhas com as quais ela prendia os cabelos; ela lhas deu. E Charles Albert Newton prendeu, com uma das duas maria-chiquinhas, uma das pontas de um galho à uma das pontas do outro galho, e, com a outra maria-chiquinha, a outra ponta deste galho à ponta do guarda-chuva. E segurando o galho que não estava preso, com uma das maria-chiquinhas, ao guarda-chuva, desceu o guarda-chuva até o fundo do buraco. Com todo o cuidado do mundo, enganchou, na alça do vestido da boneca, o cabo curvo do guarda-chuva. E puxou o galho; junto com o galho veio o outro galho e uma maria-chiquinha, e, pouco depois, a outra maria-chiquinha e o guarda-chuva, e, no cabo curvo do guarda-chuva, a boneca da Lúcia.

Lúcia deu muitos pulos de alegria, e abraçou e beijou a boneca. E abraçou e beijou o gentil homem que emprestara o guarda-chuva para Charles Albert Newton. E abraçou e beijou Charles Albert Newton.

– Charles Albert Newton, você é o meu herói – disse Lúcia, imensamente feliz.

Charles Albert Newton restituiu o guarda-chuva ao gentil homem que lho emprestara e correu para a sua casa, a cabeça cheia de idéias maravilhosas e invenções de outro mundo.

Stuart Little – de E. B. White

É Stuart Little o segundo filho dos senhores Little; é seu irmão George. Tem o pequeno Stuart a aparência de um camundongo. E vive em Nova York. É amado pelos seus pais e seu irmão; e não goza da estima do felino da família, o Bolo-de-Neve, um gato branco que almeja dar-lhe fim.
Tem mais de três anos de idade quando resolve experimentar fortes emoções. Sai da sua casa, certa manhã, e ruma ao Central Park, onde, a marinheiro, no tanque dos veleiros, participa de uma corrida de veleiros em miniatura. Comanda a escuna Vespa, miniatura de escuna, adornada com uma bandeira dos Estados Unidos da América e munida de um canhão, e cujo dono é o doutor Paul Carey, dentista e construtor de miniaturas. É seu oponente um menino, Le Roy, de doze anos, gordo e mal-humorado, que governa o veleiro Lilian B. Vomrat.
Anos depois, além de outros capítulos de sua vida atribulada, estabelece amizade com Margalo, fêmea de passarinho, que salva-o, certo dia, quando ele, após sair de sua casa a passeio de patins, para fugir de um terrier irlandês esconde-se numa lata de lixo, é despejado, junto com o conteúdo desta, num caminhão de lixo, e, depois, numa barcaça de transportar lixo – estava Stuart nesta embarcação, sendo carregado não sabia para onde, quando sua amiga vem em seu socorro. E em outro episódio, Margalo, informada, por um pombo, que Bolo-de-Neve e uma angorá pretendiam devorá-la, foge. E Stuart Little sai-lhe à procura. E pede ajuda ao doutor Carey, que o presenteia com um carro em miniatura movido à gasolina que conta com o recurso da invisibilidade. E aqui tem início as aventuras do pequeno Stuart.
A edição da Editora Martins Fontes, que li para escrever esta resenha, tem mais de oitenta ilustrações, em preto e branco, de Garth Williams.

A roupa nova do imperador – de Hans Christian Andersen

Esta é uma das histórias mais famosas de todos os tempos. E não é a única de Hans Christian Andersen que fê-lo conquistar admiradores nos quatro quadrantes do universo. O enredo é conhecido de todos: Em um reino, um imperador vaidoso, que adora roupas deslumbrantes, caras, ouve a notícia da chegada de dois talentosos tecelões capazes de tecer tecidos invisíveis aos olhos dos tolos e dos incompetentes. Logo pensou o imperador que, se os dois tecelões confeccionassem uma roupa com tal tecido, e a exibissem para os cortesãos, secretários e ministros, estariam desmascarados os que, incapazes de a ver, se revelariam faltos de sabedoria, indignos, portanto, dos cargos que ocupavam na Corte. Não perdeu tempo o imperador. Contratou os dois tecelões, e entregou-lhes tear, fios de seda e fios de ouro, e à disposição deles deixou uma sala para eles trabalharem no maravilhoso tecido, que apenas eles poderiam confeccionar. Mal sabia o imperador que eram dois vigaristas os dois tecelões. Estes aproveitaram-se da vaidade de todos os da Corte, que, ao ver, na sala, o tear vazio, diziam ver um tecido deslumbrante. A notícia da confecção da nova roupa do imperador espalha-se pela cidade, chegando aos ouvidos de todas as pessoas. Impaciente, o imperador, em visita aos tecelões, disse ver o maravilhoso tecido, mentindo, pois, certo de que no tear havia um tecido, não podia confessar que o não via; se o fizesse, estaria provado que era ele, imperador, um tolo, e indigno de seu título. Conservou a mentira, e encomendou aos tecelões uma roupa para com ela ir, domingo, à praça do torneio. Todos os da comitiva do imperador subscreveram-lhe os comentários de louvor, de admiração, ao fabuloso tecido, invisível, acreditavam, para os tolos e os indignos de seu cargo na Corte. Ninguém disse que não via o tecido, pois quem o fizesse se confessaria tolo e incompetente. Todos, então, mantêm a mentira. E chega o domingo. E os dois tecelões vestiram no imperador a roupa inexistente; o imperador, fitando-se ao espelho, e vendo-se nu, teceu louvores à roupa que não via, fingindo vê-la. E os cortesãos subscreveram-lhe os elogios à roupa que os tecelões não confeccionaram. Enfim, saiu o imperador à rua; vergava a roupa que não existia; estava sob um dossel de seda carregado por soldados de gala. Exibia-se, orgulhoso de sua nova roupa, à multidão, que, já conhecedora dos dons mágicos da roupa, finge admirar o imperador trajado com a mais exuberante veste imperial. E o cortejo segue em direção à praça do torneio. No trajeto, um menino, surpreendendo a todos, diz que o imperador está nu. E prorrompe a multidão em gargalhadas e apupos que vão ter aos ouvidos do imperador, que se apruma, conservando a rigidez de sua postura orgulhosa, ciente de que fôra enganado por dois vigaristas, que se haviam passado por tecelões. E segue o cortejo imperial até a praça do torneio.

O Desaparecimento do Contador de Estórias

– O Belisário sumiu! – gritou Joaquim Espalha-Brasa, o menino mais peralta da cidade, o mais peralta e o mais mentiroso. Ninguém acreditou nele, mas desta vez ele dizia a verdade. Belisário, o contador de estórias, havia desaparecido.

Todos os dias, às cinco horas da tarde, Belisário ia à Praça Central, onde crianças, jovens, adultos e velhos o ouviam contar estórias maravilhosas que apenas ele sabia contar. Mas neste dia ele não tinha, às cinco horas da tarde, ido à Praça Central. O que lhe havia acontecido?

– O Belisário nunca se atrasou – comentou um morador, que nunca deixava de ouvir Belisário contar estórias magníficas.

Ninguém soube explicar o sumiço de Belisário. Todos voltaram a atenção para a maior autoridade da cidade: o prefeito Raimundo, que se viu em apuros, pois não soube explicar o atraso de Belisário.

– Que raio de prefeito você é, Raimundo? – reclamou Godofredo, o farmacêutico, o homem mais ranzinza da cidade.

– Não falte com o respeito, doutor – retrucou Raimundo, o prefeito, contrariado e irritado. – Não me venha com desaforos. Sou o prefeito. Não sei de tudo, ora bolas! Se querem saber o que aconteceu com o Belisário, perguntem ao Leonardo, do jornal. Ele está sempre por dentro das notícias.

E todos foram ter com Leonardo, o jornalista.

Leonardo não soube dizer porque Belisário não havia ido à Praça Central.

– Desta vez, o Joaquim Espalha-Brasa disse a verdade – disse um morador. – Milagre. Hoje São Pedro nos mandará uma tempestade daquelas.

Passaram-se as horas. O relógio marcou oito horas da noite. As pessoas, desanimadas e entristecidas, até então aglomeradas na Praça Central, foram embora, cabisbaixas. Iriam dormir sem ouvir nenhuma estória de Belisário, o contador de estórias.

Ninguém dormiu naquela noite. Ninguém. Todos passaram a noite em claro, se perguntando porque Belisário, o contador de estórias, não tinha ido à Praça Central.

Na manhã seguinte, o desaparecimento de Belisário foi o assunto de todas as conversas. Ninguém quis saber de futebol, nem de novelas, tampouco de desenhos animados; ninguém quis saber de outro assunto que não fosse o desaparecimento de Belisário, o contador de estórias.

Os moradores da cidade iam à Praça Central, todos os dias, às cinco horas da tarde. E Belisário não aparecia.

Passaram-se os dias. E Belisário não aparecia. O que havia acontecido com Belisário? O prefeito conversou com o delegado, que mandou os policiais procurarem por Belisário. Não o encontraram. E entristeciam-se todos os moradores, que iam, todos os dias, às cinco da tarde, à Praça Central, para ouvir Belisário contar-lhes fascinantes estórias, mas na praça ele não aparecia. Enfim, cansados, não foram mais à praça.

O que havia acontecido com Belisário, o contador de estórias? Ninguém sabia.

Sem as estórias que Belisário contava, entristeceram-se os moradores da cidade. As crianças, os jovens, os adultos e os velhos não conseguiam mais sonhar. À noite, todos dormiam, e ninguém sonhava. Perderam a vontade de trabalhar, e a de estudar. Até o apetite perderam. Todos viviam tristes porque não ouviam mais nenhuma estória encantada que apenas Belisário, o contador estórias, sabia contar.

Onde estava Belisário, o contador de estórias? Todos queriam saber.

Passaram-se os dias.

Passaram-se os meses.

– O Belisário voltou! O Belisário voltou! – gritou Joaquim Espalha-Brasa, animado, entusiasmado; ele pedalava a bicicleta velha, que ele chamava de Bike Magrela, com toda a força de seus pés. – O Belisário voltou!

– Joaquim, o Belisário voltou? – perguntou Godofredo, o farmacêutico, o homem mais ranzinza da cidade, sorrindo.

– O Belisário voltou! – berrou Joaquim. – O Belisário voltou, cambada! Vamos à praça!

E todos os moradores da cidade foram à Praça Central. Lá, sorridente, Belisário, o contador de estórias, contaria estórias fantásticas, que tinham heróis, dragões, frutos mágicos, cobras de gelo, passarinhos de quatro asas, mulheres de corpo de leoa, flechas enfeitiçadas, coroas de diamantes, castelos assombrados, gigantes, mulheres de cabelo de ouro, rios com peixes que falavam, árvores que voavam, crianças invisíveis.

Acercaram-se de Belisário, o contador de estórias, Raimundo, o prefeito; Godofredo, o farmacêutico; Leonardo, o jornalista, Joaquim Espalha-Brasa, o menino mais peralta, mais peralta e mais mentiroso da cidade; e todos os outros moradores da cidade. Ninguém perguntou-lhe por onde ele tinha andado durante todos aqueles meses. Todos queriam ouvir-lhe as estórias. E Belisário contou-lhes estórias maravilhosas.

Naquela noite, todos sonharam lindos sonhos.

No dia seguinte, às cinco horas da tarde, a Praça Central estava cheia de gente que foram ouvir Belisário, o contador de estórias, contar as mais belas estórias do mundo.

E a felicidade voltou à cidade. E os seus moradores trabalhavam e estudavam com mais vontade. E sonhavam belos sonhos, afinal Belisário, o contador de estórias, contava-lhes estórias belíssimas, fantásticas, as mais fascinantes estórias do mundo.

As aventuras de Calvin e Haroldo – de Bill Watterson

A editora Conrad publicou, nos anos 2008 e 2009, dois volumes de histórias em quadrinhos de Calvin, um menino de seis anos cujo melhor amigo é Haroldo, seu tigre de pelúcia, com quem protagoniza aventuras hilariantes com uma boa dose de drama e boas pitadas de filosofia.
Em “Criaturas Bizarras de Outro Planeta” (Weirdos from another planet!, edição americana de 1990) e “A Hora da Vingança” (The Revenge of the Baby-Sat, de 1991) estão reunidas centenas de tirinhas de histórias de Calvin e Haroldo, personagens de uma seleta galeria de heróis de quadrinhos para crianças – e para adultos também; por quê não!? Qualquer pessoa, seja um menino de seis anos, seja um jovem de quinze, seja um adulto de trinta, seja um velho de oitenta, dotada de sensibilidade, vive momentos de intensa alegria ao acompanhar as peripécias da criança mais gentil, divertida, ingênua, sonhadora, malvada, esperta e birrenta da história mundial em todos os tempos). É Calvin, uma personagem poliforme. Seu criador, Bill Watterson, não criou uma caricatura de criança, um estereótipo, uma personagem unidimensional, emprestando-lhe, unicamente, um traço de personalidade; neste ponto, é Calvin um tipo superior aos personagens do Maurício de Sousa, o mais bem-sucedido quadrinista brasileiro.
Além de Calvin e Haroldo, participam das histórias o pai de Calvin; a mãe de Calvin; Susie Derkins, menina da idade de Calvin, com quem ele se implica; Rosalyn, a babá; a professora, de nome sugestivo, senhora Wormwood; e Moe, um garoto briguento, um bully, cujo esporte predileto é bater em Calvin.
Calvin vive às turras com seus pais. O mundo em que os três vivem é o mesmo, mas a mente de cada um deles o vê de modos distintos, o que os conduz à colisão o tempo todo.
É um menino de fértil imaginação, solitário, como o é, pode-se dizer, toda criança; e como toda criança, não encontra nos adultos uma inteligência igual à dele, fantasiosa, sempre a espantar-se, no sentido de admirar-se, com os fenômenos do mundo, mundo que ele vê com olhos ingênuos – irrealistas, direi, em sua imaginação – chegando a conclusões absurdas acerca dos eventos que presencia; e sendo os adultos seres incapazes de o compreenderem, encontra, em Haroldo, o seu tigre de pelúcia, o seu interlocutor, o seu alter-ego, o seu confidente, que o ouve, que o aconselha, com quem ele mantêm altercações filosóficas sobre a origem da vida, o seu destino. É Haroldo o amigo imaginário de Calvin. Melhor: é Haroldo uma segunda personalidade de Calvin, que, em monólogo, dialoga  consigo mesmo, fazendo de Haroldo o seu interlocutor. É Haroldo o Mister Hide, monstruoso alter-ego do doutor Jekyll; ou seria Calvin o Mister Hyde, e Haroldo o doutor Jekyll!? Considerando a personalidade de Calvin e a de seu tigre de pelúcia, inclino-me a acreditar que a segunda hipótese é a correta.
Em imaginação, Calvin, assumindo o papel do astronauta Spiff, ora visita o planeta Mok, ora o planeta Zog, ora o planeta Zokk, ora o planeta Gork. Em tais planetas, enfrenta monstros crudelíssimos e aliens gigantes – são os monstros e os aliens gigantes seu pai e sua mãe. Em uma cena, o astronauta Spiff é capturado – e sabe-se que Calvin está numa banheira, e que foi a mãe dele que o obrigara a tomar banho; em outra, é o astronauta Spiff prisioneiro de uma galé – e sabe-se que o pai de Calvin representa o carcereiro; em outra, está o astronauta Spiff sobre um alien gigante – e sabe-se que está Calvin sobre seu pai, que dorme, na cama, sob cobertor; em outra, está o astronauta Spiff num planeta de força gravitacional inferior ao da Terra – e sabe-se que está Calvin pulando na cama; em outra, o astronauta Spiff é capturado por criaturas cruéis, os zogwargs – e sabe-se que são os zogwargs os pais de Calvin. Em muitas de suas aventuras, Calvin imagina-se o astronauta Spiff; e quando, em sua imaginação, não se vê protagonizando aventuras intergalácticas, assume a figura de um super-herói, trajado a caráter, com as indefectíveis máscara e capa: o Homem-Estupendo, defensor da liberdade e do livre-arbítrio; capaz de – tal qual o Christopher Reeve – girar a Terra em sentido contrário, e voltar no tempo; e é sua arquiinimiga a Mulher-mãe.
Além do super-herói e do astronauta, vive Calvin, em sua imaginação, aventuras mirabolantes, que, de tão disparatadas, fazem, em comparação, das façanhas de Dom Quixote aventuras sensatas: ora é Calvin o Frankenstein, ora um partícula de luz humana, ora um tiranossauro rex, ora um elefante, ora um piloto de avião, ora um cofre, ora um planeta, ora um polvo-gigante, ora uma sonda-robô jupiteriana, ora uma bomba, ora um pteranodonte, ora um pterodáctilo, ora um pardal, ora um beija-flor, ora um alossauro. E nestas aventuras imaginárias, ele está, na verdade ou mordendo a perna de sua mãe, ou na escola, ou fugindo à sua mãe, que deseja dar-lhe um banho, ou atacando um prato de comidas, ou, num supermercado. Enfim, ele fantasia inúmeras aventuras disparatadas. E empreende, no quintal de sua casa, uma expedição arqueológica, usando, sempre, de sua fértil imaginação; e faz de uma garrafa, o crânio de um dinossauro; e de garfo, o antebraço e os dedos dele;  e monta, assim, um ser pré-histórico.
Nas suas conversas com Haroldo, Calvin expõe muitas reflexões de cunho filosófico – pergunto-me se Bill Watterson, seu criador, não o utiliza, tal qual o nosso brasileiríssimo Monteiro Lobato faz com sua amável boneca de pano, a Emília, para expor suas reflexões, que lhe nascem de genuínas preocupações, medos, angústias, de sua visão-de-mundo, pois em muitos dos diálogos entre Calvin e Haroldo (naqueles que eles, após Calvin empreender uma aventura que redunda em algum desastre caseiro, mantêm enquanto passeiam pelo bosque nas proximidades de sua casa) há reflexões, autênticas peças de filosofia, contemplando a vida dos humanos na Terra, a essência da vida, o tempo, a predestinação, os mistérios da criança, a existência em si mesma.
Os pensamentos de Calvin (e de Haroldo) são, alguns, hilários de tão absurdos, outros, perspicazes: ao se mirar em uma poça d’água, Calvin conclui que o reflexo dele é real, e ele, Calvin, é o reflexo; se todo o planeta estiver poluído, um dia não haverá, nele, região para cuja conquista os homens financiem uma guerra; numa viagem imaginária à Marte, entende que os homens têm de saber cuidar da Terra antes de se aventurar em outros planetas; após Moe bater-lhe, ao exigir-lhe que ele se retirasse do balanço, e ele se recusar a fazê-lo, tem a certeza de que as regras são válidas apenas para os fracos; na sala-de-aula, ao saber que sua nota numa prova foi ‘C’, se convence de que, não se aplicando nos estudos sua vida será mais fácil do que se tirar ‘A’, pois as pessoas dele não terão grandes expectativas; que para se compreender as instruções de montagem de um aeromodelo, as quais, no manual, estão em três idiomas (português, espanhol, e inglês), é preciso ser trilíngue; ao quebrar um binóculo do pai, deste é a culpa, que lho o emprestou; depois da escola, até ir para a casa dormir, Calvin tem seis horas para esquecer o que na escola aprendeu; os EUA é um país grande e roxo, conforme o atlas; quando sua mãe manda-o arrumar o quarto, Calvin resmunga: se o quarto é dele, e ele, Calvin, não se incomoda com a bagunça, outras pessoas não têm que se incomodarem.
Contemplam Calvin e Haroldo, em diálogos dignos de Platão, inúmeras questões, num tom sempre tocante, simultaneamente hilário e sério, cativante, sempre. Hilário porque apresenta as reflexões de uma criança de seis anos (ou as de um adulto, Bill Watterson, com alma de criança), reflexões cujas conclusões nem sempre são as óbvias; muitas, ilógicas, provocam riso. E sério porque tal criança trata, em sua ingenuidade, de questões que incomodam, e atormentam, os homens – sempre envoltos por coisas que lhes inspiram sentimentos e pensamentos confusos, vagos, inconsistentes, contraditórios – que se vêem personificados no Calvin.
Aqui, entendo, misturam-se, e confundem-se, os pensamentos de Bill Watterson, o criador, e os de Calvin, a criatura.
Como toda criança saudável, Calvin é birrento, detesta tomar banho, faz brincadeiras nojentas, gosta de histórias arrepiantes e não quer saber da escola; e o seu universo não coincide com o dos adultos – são inconciliáveis os dois universos.
Quanto à questão escolar, há, nas histórias de Calvin, uma crítica contundente, que traduz uma que muita gente faz ao sistema de ensino moderno: os alunos aprendem o que os adultos querem que eles aprendam, e não o que eles querem aprender. Calvin gosta de dinossauros, em muitas de suas aventuras imaginárias ele se vê um tiranossauro rex, um pteranodonte, e é um leitor dedicado de livros sobre dinossauros. Se gosta tanto de ler acerca dos dinossauros, por que, então, pergunta-lhe a mãe, ele não gosta de ir à escola. Porque na escola, responde Calvin, não se fala de dinossauros. Aqui entra em colisão o desejo das crianças e os interesses dos adultos, e são estes que decidem o que aquelas têm de aprender; os adultos decidem o que é importante para as crianças, e não elas, que não têm a liberdade para fazer as suas escolhas, afinal são crianças, e crianças são imaturas, inexperientes, não conhecem a vida; num mundo mecanicista, tecnocrata, materialista, as crianças têm sua imaginação destruída; são inconciliáveis a mentalidade rica de fantasias da criança e a da civilização mecatrônica, digital, em que ela está inserida, e no confronto entre elas é destruída a das crianças, que são frágeis.
Linhas acima, eu afirmei que são inconciliáveis os universos da criança e o do adulto. E são, de fato; e ninguém o ignora. O que para a criança é diversão, para o adulto é incompreensível, e vice-versa. O mundo de responsabilidades e compromissos do adulto é incompreensível para as crianças. E nas aventuras de Calvin e Haroldo está contemplado, dirrei, tal guerra, guerra eterna entre seres de dois universos paralelos. Estranham-se crianças e adultos, Calvin e seus pais. Seu pai, nas férias, levou-o, e à esposa, a um acampamento, e apenas ele, pai, diverte-se (e aqui se revela as inconciliáveis personalidades do homem e da mulher); ele pesca; e Calvin está, sempre emburrado. Todo adulto já foi criança um dia, mas esquece-se que o foi, e indispõe-se com as crianças. Que as crianças não compreendam os adultos é fácil de entender, e compreensível; que os adultos estranhem as crianças, não; ou é? afinal, os adultos se esquecem de suas fantasias, de suas brincadeiras, de suas traquinagens, de suas aventuras infantis, do que pensavam enquanto crianças; embora todas as suas experiências estejam em sua biografia, delas não se lembram, mesmo que puxem pela memória; esforçam-se para acessá-las, mas elas perderam-se-lhes nos escaninhos da mente.
Bill Watterson soube, com singeleza, destreza de um narrador talentoso e sensível, de um desenhista primoroso e despretensioso, revelar, em seus quadrinhos, os dois universos, o do adulto e o da criança, em atrito, sem descambar para discursos de condenação à família, aos pais. Revela os meandros da alma da criança em suas descobertas. É Calvin uma personagem complexa em sua simplicidade, poliforme em sua única forma; seu criador não o reduziu a uma caricatura, não fez dele um objeto de discurso planfetário; tratou-o com respeito. Ama-o. É Calvin uma criança de carne e osso, uma criança em toda a sua integridade, sua inocência, sua pureza; e Bill Watterson, seu criador, um artista extraordinário, irrivalizado, de alma de  criança, foi bem-sucedido em descrever-lhe o universo.
E deixo para o final duas notas: repete-se, nas aventuras de Calvin e Haroldo, uma cena hilária: sempre que da escola chega à sua casa, Calvin é atacado, à porta da casa, por Haroldo; e Haroldo lê gibis que pertencem a Calvin e gosta de atum.

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