Livros que não terminei de ler. Livros que me desagradaram. Livros que me surpreenderam. E outras notas breves.

De todos os livros que li, de quatro deles não concluí a leitura, dois, embora tenham me desagradado, li até o ponto final, e muitos me surpreenderam, e destes digo algumas palavras antes de tratar dos outros seis. Surpreenderam-me, e agradaram-me, não poucos livros; foram muitos os que me prenderam a atenção, ocuparam-me horas e horas de dias e dias, a leitura indo de vento em popa. O primeiro livro que me deu, assim digo, um soco na cabeça, fazendo-me, deslumbrado, pensar acerca da literatura, de suas dimensões, amplas, e da nossa condição humana, foi Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévksi, de quem li, depois, Irmãos Karamazóvi e outros livros. Foi o meu primeiro contato com a literatura russa, da qual sou admirador. A história de Rasputin Raskolnikóv é extraordinária. Depois, li Moby Dick, de Herman Melville, que me fez viajar pelos mares; e Ana Karenina, de Leon Tolstói; e Dom Quixote, de Miguel de Cervantes Saavedra. E mais recentemente, surpreenderam-me, de Josué Montello, O Silêncio da Confissão, de José Cândido de Carvalho, O Coronel e o Lobisomem, e A Mulher que Fugiu de Sodoma, de José Geraldo Vieira. Citei apenas estes poucos livros, uma amostra da literatura que muito me surpreendeu. E até hoje me fazem pensar acerca da condição humana, tais livros inspirando-me muitos, e contraditórios, pensamentos. Agora, cito os dois livros que li de má vontade, não inteiramente, da primeira à última página, e por último os que abandonei de tanto me desagradaram. Quo Vadis?, de Henryk Sienkiewicz, de quem eu já havia lido, com muito agrado, O Campo da Glória; Quo Vadis?, no entanto, desagradou-me até a metade de suas páginas, e a partir deste ponto, seguindo a leitura, li com interesse, a leitura seguindo com agrado. O outro livro, dos dois que li, embora tenham me desagradado, foi Avalovara, de Osman Lins; de início, li, e li com vontade, até um certo ponto do livro, a partir do qual a leitura arrastou-se, para meu desconforto. Os quatro livros que não li até a página derradeira foram: Ulisses, de James Joyce; Macunaíma, de Mário de Andrade; Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; e O Egípcio, de Mika Waltari. Li, de cada um deles, se muito, cem páginas, e os abandonei, irritado, desgostoso, deles esperando mais do que eles me ofereceram. O primeiro deles está incluído no cânone da Literatura ocidental, o segundo e o terceiro no da literatura brasileira, e o último é popular, ou foi durante algum tempo. Aqui fica o registro. Não está este texto um estudo de literatura, nem um ensaio; é apenas uma declaração, curta, simples, de um leitor.

*

Um livro, que li, sem vontade, a leitura arrastando-se, é de um dos maiores escritores do mundo: Aventuras de Pickwick, de Charles Dickens, de quem também li A Casa Soturna, e com muito gosto, apaixonadamente, posso dizer.

*

Um livro, bem pequeno, fez-me rir, e muito: Diário de um Louco, de Nikolai Gogol.

*

A literatura russa tem uma galeria de escritores extraordinários, geniais. Após ler Dostoiévski e Tolstói, o Leon, e não o Alexei, procurei por outros escritores da terra do Gagárin, e vim a conhecer Nikolai Gogol, Anton Tchekov, Ivan Turgueniev, Saltykov-Shchedrin, Alexei Tolstói, Evgueni Ievtuchenko e Voinovich são alguns deles.

*

Livros de pouco, ou nenhum, valor literário que li com muita vontade foram, de Patrícia Wentworth, O Punhal de Marfim, um americano, e Medo e Delírio em Las Vegas, de Hunter S. Thompson.

*

História Extraordinárias, de Edgar Allan Poe agarrou-me pela jugular.

*

Pode uma pessoa gostar de todos os gêneros literários existentes, sejam quantos forem, e de livros escritos pelos gênios e de escritos por escritores menores. Pode-se gostar de aventura, policial, romance histórico, espionagem, ficção científica, e todos os outros já criados. Robinson Crusoé, O Assassinato no Expresso do Oriente, Juliano, A Alternativa do Diabo e A Guerra das Salamandras estão entre as minhas leituras mais queridas. E Shakespeare e Dostoiévski e Thomas Mann e Proust e Machado e Camões, e Júlio Diniz e Joaquim Manuel de Almeida e Júlio Verne.

*

Fizeram da obra-prima do Giovanni Boccaccio, Decamerão, um livro proibido, fescenino, de má fama. É uma injustiça à obra do gênio literário italiano, um dos melhores livros que li. Dentre as cem histórias que Boccaccio narrou as de substância erótica correspondem a uma parcela ínfima, insignificante; infelizmente, foram elas que fizeram a fama do autor.

*

O meu primeiro contato com a obra de Dante Alighieri foi a leitura de O Inferno, o primeiro livro da Divina Comédia, numa edição, recheada de ilustrações de Gustave Doré, publicada pela Ediouro. Chamou-me a atenção, então, mais do que o texto, as ilustrações, impactantes, assustadoras.

*

Livros que me fizeram viajar para bem longe: Solaris, de Stanisław Lem, Contato, de Carl Sagan, Viagem aos Império do Sol e da Lua (Edição do Clube do Livro), de Cyrano de Bergerac, um narigudo bem engraçado, que Edmond Rostand retratou numa peça primorosa.

*

Livros que me causaram estranheza: Esperando Godot, de Samuel Beckett, e O Rinoceronte, de Eugène Ionesco.

Publicidade

Amos Oz, Fernando Sabino, Rodrigo Gurgel, Dostoiévsli, Kafka, Monteiro Lobato, Mário de Andrade. Gianfrancesco Guarnieri. Notas brevíssimas.

Sumri, de Amos Oz, é um livro cativante, sensível.

*

Martini Seco, conto, que aqui não conto, de Fernando Sabino, é uma divertida sátira dos romances policiais. A cena final, hilária.

*

Para Rodrigo Gurgel, professor, escritor e crítico literário, são os três escritores fundamentais da literatura brasileira Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Graciliano Ramos.

*

Após a leitura de Crime e Castigo, de Dostoiévski, e O Processo, de Kafka, não se recupera jamais a sanidade.

*

Pergunto-me se Jeca Tatu e Macunaíma eram tipos brasileiros comuns, ou se, de tão raros, atraíram a atenção, o primeiro, de Monteiro Lobato, o segundo, de Mário de Andrade, ou se são criações literárias que simbolizavam as leituras singulares que seus criadores faziam da realidade.

*

Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, é um panfleto ideológico apenas. Em tal peça, condena-se o homem que não se submete à classe à qual dizem que ele tem de pertencer e que sonha com sua ascensão social.

Enganou-me o vendedor de livros.

– Sérgio, comprei gato por lebre. Acreditei no Djalma, do sebo Maravilhas Em Papel, e danei-me. Cinco tijolos de ouropel, e não de ouro. Pagar-me-á caro, muito caro, aquele carequinha vendedor de livros. Deixe estar, jacaré; a lagoa há de secar. Um dia é da caça; o outro, do caçador. O mundo não para; dá voltas. Aquele pouca sombra vai ver o que é bom para a tosse e com quantos paus se fazem uma canoa. A vingança é um prato que se come frio. Peguei a mania dos anexis. Agora, cheio de suspeitas, irei à delegacia de polícia, e solicitarei ao delegado me mostre a capivara daquele aeroporto de mosquito e pintor de rodapé. O filho-da-mãe, que sabe que sou traça-de-livros e rato-de-biblioteca, telefonou-me, hoje, de manhã, um pouco antes das dez, e disse-me: “Senhor Gilberto, tenho em mãos cinco volumes de um dicionário do Laudelino Freire, novíssimos. Sei que é o autor do teu agrado. Estás interessado em adquiri-lo?” “Do Laudelino Freire!?”, perguntei-lhe, admirado, espantado com tão agradável surpresa. “Sim, senhor Gilberto. Do Laudelino, o mestre Laudelino.” “Dicionário novo, Djalma?!” “Novo, não, senhor Gilberto. Novíssimo!” “Mande-mos, imediatamente. Quero recebê-los ontem. Se é do Laudelino, é meu. Cinco volumes?” “Sim. Cinco volumes.” “São meus os cinco. O Laudelino fará companhia aos mestres Silveira Bueno e Caldas Aulete.” “Negociemos o preço.” “Diga para o boy trazer o Laudelino, Djalma. Enquanto ele vem, negociaremos o preço de tal preciosidade. Negociaremos o preço, que o valor é inestimável. Agraciaram-me os deuses, que hoje estão de boa veneta, com a fortuna! E assim que o boy chegar, pago-te no cartão.” “Sim, senhor Gilberto. Ordem dada, ordem executada. O boy já saiu daqui. Chegará na tua casa num pulo.” E assim foi, Sérgio. Assim foi. Nem bem eu e o Djalma havíamos acordado o preço do dicionário, toca-me a campainha. Era o boy com o pacote. Paguei-lhe o preço combinado com o Djalma, e entregou-me o boy o pacote, que pesava, mensurei-lhe a tonelagem assim que o tive em minhas mãos, dois mil quilos. Despedi-me do boy, fechei-lhe, com certa má educação, reconheço, a porta, antes, mesmo, de ele me haver dito ‘Tenha um bom dia, seu Gilberto”, e corri, desajeitadamente, pois era demasiado o peso dos livros, à sala-de-estar, onde, exausto, cheguei, cachoeiras de suor a escorrerem-me das têmporas, e com a língua para fora da boca, e célere pus-me a abrir o pacote. E aos meus olhos reluziram cinco livros, grossos, grandes, imensos, monumentais, grandiosos, de capa dura, marrons. Admirei-os. Temi tocá-los. Acreditei que se os tocasse, eles desapareceriam como num passe de mágica. Eu sonhava! Sonhava, maravilhado, no sétimo céu, num estado espiritual de alumbramento indescritível. Peguei o Laudelino. Acalentei-o. Embalei-o. Na lombada do volume um, eu li: Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, e o venerável nome do autor de tão prestigiada obra, Laudelino Freire. E com suavidade movi-lhe a capa; e li a edição: era a segunda; e a editora: Livraria José Olympio Editora; e… e… Sérgio, você não me acreditará o que li ao pé da página. Jamais. O ano da publicação do dicionário: 1954. Novíssimo! Novíssimo, disse-me o Djalma, aquele pé-de-soldadinho-de-chumbo! Tem o dicionário sessenta e oito anos de vida! Sessenta e oito! É quase um ancião! Novíssimo, disse-me o Djalma, aquele tratante! Pagar-me-á muito caro, com a vida, aquele anão-de-jardim! De 1954! Novíssimo!? 1954!

Há humor na literatura brasileira?

Diz que a literatura brasileira é chata, sem graça, quem jamais se dispôs a ler um livro de um bom escritor brasileiro, e quem, tendo lido algum livro de escritor brasileiro, leu um de escritor desprovido de talento, ou de um escritor, para usar uma gíria moderna, lacrador, ou, como se dizia há pouco tempo, engajado. Engajado em quê? Em defender uma ideologia malsã que corrói tudo o que toca e que não tem o desejo de contar, despretensiosamente, uma boa estória, aventura envolvente de uma personagem cativante – e o escritor lacrador é o legítimo herdeiro do escritor engajado.

E é a literatura brasileira rica de bons livros de humor, livros que divertem, entretêm, educam, agradáveis, escritos por talentosos escritores brasileiros? Sim, é. São inúmeros os escritores brasileiros que se rivalizam com os melhores de outras nações. E no humor tem a literatura brasileira mestres e escritores que, mesmo de pouco talento, souberam escrever livros interessantes, de humor impagável, que de seus autores revelam muito bom gosto, criatividade, espirituosidade, e perspicácia, que lhes propiciaram os meios para identificarem da nossa sociedade e do nosso povo aspectos sutis que escritores de maior gênio não detectaram – e muitos dos de gênio superior, detectando-os, não souberam registrá-los em suas obras, e dos que souberam, não o fizeram com a maestria que o talento superior que os animava exigia.

Sem o desejo de me estender neste texto, que nada mais é do que o registro de alguns pensamentos que hoje de manhã, doze de dezembro de 2.020, afloraram-se à mente, digo que a literatura brasileira é rica, riquíssima, de humor, de graça fina, de comédia contagiante, e que, infelizmente, ela é, num tempo em que as pessoas em sua maioria ocupam-se com outras formas de entretenimento em detrimento da leitura de contos, novelas, romances e peças teatrais, pouco, ou nada, conhecida dos brasileiros. Dentre os escritores brasileiros que escreveram obras de humor que nos fazem rir a bandeiras despregadas, há os pequenos, os médios, os grandes, os gigantes. E aqui, não sendo meu propósito classificar escritores em grupos distintos, agrupando os pequenos com os pequenos, os médios com os médios, os grandes com os grandes, os gigantes com os gigantes, discriminando-os, cito, em ordem alfabética, alguns nomes da nossa literatura acompanhados cada qual do título de uma ou mais de suas obras ricas de humor.

Arthur Azevedo – vários de seus contos.

Carlos Drummond de Andrade – Contos de Aprendiz.

França Júnior – peças teatrais – comédias de costumes.

Graciliano Ramos – Alexandre e Outros Heróis.

Herbert Sales – O Fruto do Vosso Ventre.

Joaquim Manuel de Macedo – A Carteira de Meu Tio.

José Cândido de Carvalho – Porque Lula Bergantim não Atravessou o Rubicón.

José Osvaldo de Meira Penna – Cândido Pafúncio.

Lima Barreto – O Homen que Sabia Javanês.

Machado de Assis, além de dezenas de contos, o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Monteiro Lobato – alguns volumes da série O Sítio do Pica-pau Amarelo. Dentre eles, os que mais me agradaram: O Minotauro; e, Os Doze Trabalhos de Hércules.

Estes são alguns, poucos, escritores que me vêm à mente. Todos eles têm algo a oferecer àqueles que se dignam a ler-lhes os livros. Quem os lê gargalham, dobram-se de tanto rir, choram de tanto rir. Divertem-se.

Dom Quixote e os Pernilongos

Vinícius é um leitor voraz. Dedica-se à leitura de obras clássicas da literatura universal, todos os dias, nos seus momentos de lazer e em todos os momentos livres do dia – e quando não tem um momento livre, ele dá um jeito de encontrar um. Não é incomum surpreendê-lo, à mesa, durante o café-da-manhã, com um livro à mão, esquecido do que se passa ao seu redor, sua atenção presa mas peripécias de Odisseu, o herói mítico da guerra de Tróia, nas ações misteriosas de Sherlock Holmes pelas ruelas de Londres, nas aventuras disparatadas de Dom Quixote de la Mancha e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, pelas terras espanholas, nas aventuras um tanto rocambolescas de D’Artagnan, Athos, Portos e Aramis, nas viagens marítimas do Capitão Nemo, à bordo do Nautilus, nas fantásticas aventuras de Aladin e do gênio da lâmpada, na caçada que Acab empreende à baleia branca. E assim que conclui o almoço, e também a janta, recolhe-se à biblioteca de sua casa, deita-se no sofá, em cujo um de seus braços apoia um travesseiro sobre o qual pousa a cabeça, e dedica-se à leitura dos mais fantásticas relatos jamais concebidos pela imaginação, fértil imaginação, humana, enquanto seus três filhos assistem, à televisão, a um desenho animado, ou a um filme, ou entretêm-se com um jogo de videogame, e Verônica, sua esposa dedica-se, atarefada, à limpeza da casa , ou desdobra-se para impedir que seus filhos se engalfinhem em lutas fratricidas.

A dedicação de Vinícius à leitura lhe era natural, atendia ao seu temperamento pacato, retraído, introspectivo, avesso, dir-se-ia hostil, à agitação do dia-a-dia, à multidão. Recolhe-se ao seu mundo, e deste mundo parte em viagens para outros mundos, mundos, estes, imaginados por outros seres de sua espécie, e nele permanece por horas a fio.

Nos primeiros anos após unir laços matrimoniais com Verônica, ela enervava-se sempre que o via à margem do que ocorria na casa, e o descompunha, atrabiliária, sobranceira, sob uma torrente de censuras; e ele, contrariado, era obrigado a abandonar a leitura e a executar as tarefas caseiras, para ele monótonas e entediantes, que dele sua consorte exigia. Transcorridos alguns anos, convencida de que seu marido era um leitor incorrigível, que, durante violentas tempestades, que destelhavam a casa – e não é força de expressão: tal se deu duas vezes – infalivelmente conservava-se, tranquilo, a ler livros, e habituando-se a vê-lo com a leitura entretido, e compreendendo-o, com ele nunca mais se irritou, e nunca mais o descompôs. Deixava-o ocupar-se com a leitura, para evitar desgastes que poderiam vir a culminar num rompimento que nenhum deles desejava. Podia o mundo desabar à sua volta e o inferno subir à terra, que Vinícius não interrompia a leitura, principalmente quando estava a ler Dom Qiixote de la Mancha, de todos os livros do universo o que ele mais gostava de ler. Não havia cristão capaz de tirar-lhe o livro de diante dos olhos. Não custa repetir: De todos os livros que Vinícius leu, a obra-prima de Miguel de Cervantes Saavedra é o de sua predileção. Nenhum outro livro o emulava aos olhos de Vinicíus. Nenhum. Nem os de William Shakespeare; nem os de Homero; nem os de Melville. Nem as Mil e Uma Noites. Era Dom Quixote de la Mancha seu herói.

No decurso de seus trinta e dois anos de vida, Vinícius seguiu o herói da Mancha e seu fiel escudeiro quatorze vezes, nas peripécias trágicas, cômicas, dramáticas, heróicas, épicas, pelas terras da Espanha. Sabia de cor e salteado todos os capítulos das aventuras picarescas do herói espanhol. E sempre que se dedicava à leitura da obra-prima de Cervantes surpreendia-se, fascinado, alumbrado com os hilários episódios saídos da mente do mais genial de todos os escritores espanhóis, como se a lesse pela primeira vez.

Ao crepúsculo de um domingo ensolarado de Outubro, após regressar de um passeio, com sua esposa e seus filhos, ao parque, e banhar-se, e, enquanto sua esposa preparava o jantar e os filhos entretinham-se com um quebra-cabeças de quinhentas peças, Vinícius, na biblioteca, tirou da estante o Dom Quixote de la Mancha, e deitou-se no sofá. Iniciaria a décima quinta leitura das peripécias de Dom Quixote e Sancho Pança. Sorriu, ao evocar algumas das cenas para ele as mais engraçadas, prelibando prazer indescritível. E tão logo ajeitou-se no sofá, a cabeça confortavelmente aninhada no travesseiro, iniciou a leitura – e que o mundo ruísse.

Transcorreram-se os minutos. A curtos intervalos de tempo, estampava-se no rosto de Vinícius um sorriso, que contagiaria quem o surpreendesse e lhe excitaria a curiosidade. Uma hora depois, entrou na biblioteca Verônica, que não se admirou ao ver seu marido, deitado no sofá, a ler Dom Quixote.

– Vinícius, há muitos pernilongos, aqui. Meu Deus! Os pernilongos não estão mordendo você, não? – perguntou-lhe Verônica, um sorriso divertido a enfeitar-lhe o belo, simpático rosto.

– Não – respondeu-lhe Vinícius, mecanicamente, os olhos a seguirem as andanças de Dom Quixote e Sancho Pança.

– Vinícius, olhe para seus pés.

– Por quê?

– Olhe.

– Está bem – e Vinícius abaixou, tranquilamente, os braços, o livro, aberto, à mão direita, mal moveu a cabeça, e fitou seus pés. – O que têm meus pés, Verônica?

– O que têm seus pés?! – perguntou Verônica, surpresa, incrédula. – O que têm?! Vinícius, você… Pelo amor de Deus! O que têm?! Você não está vendo os pernilongos em seus pés? Meu Deus! Vinícius! Não acredito! Em cada pé seu há uns vinte pernilongos; alguns deles, de tão gulosos, têm a barriga cheia de sangue. Vinte?! Mais. Uns trinta em cada pé.

– Não se preocupe – respondeu Vinícius, com a tranquilidade habitual, ao mesmo tempo que restituía sua cabeça à posição original, trazia o livro para diante de seus olhos e retomava a leitura.

– Não me preocupar!? E os pernilongos?

– Deixe-os em paz. Não os amole. Daqui a pouco, eles, enjoados de tanto engolir sangue, arrebentam-se, e vão-se embora.

– Quê!? Deixá-los em paz! Não os… Quando eles irão embora, Vinícius? Quando eles drenarem todo o seu sangue?

– Não sei. Entenda-se com eles.

Incrédula com a resposta que ouviu, Verônica meneou a cabeça, apalermada.

– Multidão de pernilongos a morderem-lhe os pés, e o príncipe encantado não ‘tá nem aí – ciciou Verônica para si mesma, um tanto atarantada com a indiferença de seu marido, cujos pés pernilongos devoravam.

Conquanto acostumada com os hábitos de leitor de Vinícius e com os atos, inusitados, que ele prodigalizava durante a leitura de livros, ele ainda a surpreendia, boquiabrindo-a.

Verônica pegou, de sobre a mesa, uma flanela, e com ela afugentou todos os pernilongos – muitos deles de barriga cheia, estufada, vermelhuda – que se banqueteavam com o farto sortimento de sangue que Vinícius lhes oferecia.

– O jantar já ‘tá na mesa – anunciou, recomposta, fleumática, Verônica, que restituiu a flanela à mesa e retirou-se da biblioteca.

E montado no Rocinante, Vinícius errava por terras da Espanha…

A Linha da Sombra – de Joseph Conrad

Joseph Conrad, cujo nome de batismo é Józef Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski, célebre escritor ucraniano de pais poloneses, é o autor do popular O Coração das Trevas (Heart os Darkness), que serviu de base para o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola. Escreveu inúmeras obras, em língua inglesa – idioma que dominava com maestria -, muitas delas inseridas no rol de obras-primas da literatura universal.
O livro A Linha da Sombra (The Shadow Line: A Confession), uma pequena obra de um pouco mais de cem páginas, é um exemplar do seu magistral talento narrativo, simultaneamente simples e exuberante, poderoso, vigoroso, e inventivo, e rico de expressões e de evocações de cenas dramáticas e trágicas. Não é esta novela uma das suas obras mais conhecidas. As mais populares são Lord Jim, Nostromo e a já citada O Coração das Trevas; mesmo assim, ela merece figurar no cânone das obras literárias mais valiosas de todos os tempos. É uma pequena obra-prima esta novela cujo protagonista, um jovem marujo que se vê nomeado, pelo Capitão Ellis, comandante do vapor Melita, tem de enfrentar enervantes desafios, desafios que massacram os homens de espírito fraco. Bangkok é o destino de sua primeira viagem. E o herói contracena com uma galeria de personagens: John Nieven; Hamilton; Capitão Giles; Capitão Ellis; Burns, o imediato; Ransome, o cozinheiro; Gambril; e outros figurantes. Além destes, e do herói – cujo nome não é mencionado – da aventura, há um outro personagem – cujo nome também não é mencionado -, o predecessor do protagonista no comando do vapor Melita, personagem, este, que havia morrido, numa viagem anterior, na embarcação e cujo corpo foi enterrado, por Burns, o imediato, no Golfo de Sião, na latitude 8*20′, norte, em local que estava na rota do vapor Melita. Conta-se que o falecido capitão era um homem de sessenta e cinco anos, obstinado, severo, introspectivo, que, trancafiado no camarote, tocava violino durante horas, ininterrupta e obsessivamente, e que mantinha a embarcação à deriva, sendo seu propósito, presumiam os tripulantes, o de jamais regressar à terra. E é este personagem, cujo nome, repito, não é indicado pelo autor, objeto de obsessão de Burns, o imediato.
Lançado Melita ao mar, os seus tripulantes adoecem de uma moléstia, que os alquebram, excetuados o capitão (o herói da aventura) e Ransome, o cozinheiro, acutilado, este, por alguma afecção cardíaca. Enquanto Burns, o imediato, e Gambril, e o segundo piloto e os outros tripulantes estavam acamados devido à febre que os prostrava, o capitão e Ransome desdobravam-se para se desincumbirem de suas árduas, desgastantes, tarefas; e estes dois personagens estavam sempre às voltas com os delírios de Burns, o imediato, que atribuía a febre malsã que debilitava os tripulantes do Melita ao espírito do falecido capitão. E Burns febricitava, delirava, presenciava, em sua mente perturbada, fantasmagorias.

Somando-se à febre que acometeu os tripulantes, o clima desfavorável, as trevas que envolveram a embarcação e a tempestade dificultaram o já difícil trabalho do capitão, o herói que não deu a público o seu nome. E o impacto das previsões agourentas do imediato no capitão não foi irrelevante: fê-lo, em algumas ocasiões, suspeitar, sob influência do medo, da tensão, das incertezas decorrentes dos contratempos, de sua sanidade, e a vislumbrar, em momento tão caótico, tão crítico, e em ambiente tão adverso, criaturas demoníacas, teratológicas, onde havia apenas humanos.
Se eu persistir na redação desta resenha, incorrerei, inadvertidamente, num pecado imperdoável: o de revelar o desenlace de tão intrigante aventura marítima concebida por um mestre da narrativa, dono de um estilo exuberante, másculo. No desejo de não cometer ato de tal gravidade, encerro-a com estas palavras: Joseph Conrad apresenta, nesta pequena obra-prima, um pouco de sua experiência de marinheiro; e dá ao mundo um presente do tamanho de seu imensurável talento, que tem as dimensões da vastidão dos sete mares.

Em quarentena, com os amigos

– Não terei o que fazer nestes quinze dias de quarentena, Sergio. Acho que vou enlouquecer. Aqui em Pindamonhangaba quase todas as lojas estão fechadas. Serei obrigado a ficar em casa, preso, olhando para o nada. O governador já decretou o fechamento de inúmeros estabelecimentos comerciais até a primeira semana de abril. Irei enlouquecer. Duas semanas trancafiado, em casa, sem ter o que fazer… E você, Sergio?! E você?!
– Eu!? Não me preocupo. Não me incomodo em ter de permanecer em casa nas próximas duas semanas. Nem um pouco. Terei muitos amigos comigo. Brasileiros, argentinos, americanos, portugueses, espanhóis, franceses, russos, alemães, suecos, dinamarqueses, poloneses, japoneses, gregos, italianos. Durante os próximos quinze dias, conversarei com Platão e Aristóteles, dois sábios gregos que muito já me ensinaram e que muito ainda têm para me ensinar. E de Sófocles e Ésquilo, Eurípedes e Aristófanes, quatro geniais contadores de histórias, ouvirei contos fantásticos. O Ésquilo já me narrou a história de Prometeu; Sófocles já me falou de Édipo. Pedirei a estes quatro contadores que me contem algumas histórias que já me contaram e outras para mim inéditas. E retomarei a minha conversa com os romanos, conversa há muito tempo interrompida. Conversarei com Ovídio, Cícero e Virgílio. Este me contará histórias fabulosas dos deuses romanos. E passarei bons momentos em companhia de Boccaccio e Dante. Com eles terei um bom dedo de prosa. Boccaccio sabe como se vive durante uma peste: na companhia de amigos. Suas histórias inspiram-me esperança e me divertem. Ele é jocoso. Espirituoso. E Dante… Dante me dará relatos, que dele já ouvi, de uma extraordinária, fascinante aventura que ele, ciceroneado por Virgílio, empreendeu no Inferno, no Purgatório e no Paraíso. E terei uma boa prosa com Manzoni e Lampedusa e Svevo. Ah! Esquecia-me: Homero. Ao falar dos gregos, dele eu não me lembrara. E nem de Hesíodo. Lembrei-me a tempo… Zeus não me perdoaria se deles eu não me lembrasse. Deles eu pedirei um relato das aventuras dos deuses e dos heróis gregos, aventuras que eles sabem contar melhor do que ninguém, com o talento que lhes fez a fama. A da guerra de Tróia é extraordinariamente espantosa. Acomodado numa cadeira, ouvirei as palavras de Santo Tomás de Aquino, e as de Santo Agostinho, e as de São Gregório de Nazianzo, e as de São Clemente de Alexandria, e as de São Bernardo de Claraval. Estou feliz. Você não pode imaginar o tamanho da minha felicidade. Terei estes amigos, divinos amigos, na minha casa, fazendo-me companhia pelos próximos quinze dias. Deles ouvirei palavras confortadoras, palavras de sabedoria que Deus lhes inspirou. Serão horas e horas de paz. E dos Estados Unidos vieram visitar-me o Twain, e o Melville, de quem já ouvi uma emocionante aventura de caçada à uma baleia. E da terra do Tio Sam também estarão em minha companhia o Whitman, o Emerson, o Henry James, o Faulkner. E da França vieram o Proust, o Balzac, o Hugo, o Stendhal. E da Espanha, o Cervantes, o meu querido Miguel de Cervantes Saavedra, que, em três outras ocasiões, narrou-me as divertidas peripécias de Dom Quixote de La Mancha e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Você já ouviu falar da história dos moinhos-de-vento? É divertidíssima. O Cervantes é a única pessoa no universo que a sabe contar. E da Suécia recebi a visita de Selma Lagerlof. São tantos os meus amigos, que não posso me lembrar de todos. Vêm-me à memória o nome de Suetônio, romano, e o de Edgar Allan Poe, americano. Poe já me contou muitas histórias extraordinárias, do grotesco e do arabesco, tão extraordinárias que, se eu as contar para você, você coçará a cabeça certo de que é impossível uma pessoa só criar tantas aventuras inacreditáveis. E da Polônia estará comigo o Sienkiewicz. E da Dinamarca, o Andersen e o Pontoppidan. E da Romênia, Noica e Ionesco. E da terra da Rainha Elizabeth, um exército de amigos: Shakespeare, Stevenson, Conan Doyle, Dickens, Kipling, Defoe e Swift. Todos eles são bons contadores de histórias. Deles já ouvi as aventuras de Macbeth, Doutor Jekyll e Mister Hyde, Sherlock Holmes, David Copperfield, Mogli, Robinson Crusoé, Gulliver. E muitas, muitas outras aventuras. E deles ouvirei dezenas de outras. E esquecia-me Rabelais. Um amigo francês que, certa vez, narrou-me as aventuras de Gargântua e Pantagruel. E esquecia-me de outro francês: Moliére, homem divertidíssimo, dono de uma espirituosidade incomum. Irá me divertir, e muito. Irei rir, e rir muito. E gargalhar. E nas minhas conversas com ele o tempo irá parar, literalmente. Estou a imaginar, e a me divertir enquanto imagino, uma conversa minha com Moliére, Cervantes, Aristófanes, Boccaccio, Shakespeare, Swift e Gogol. Gogol! Russos! Reunidos na minha casa, veja você, Gogol, Dostoiévski, Tolstói, Tchekov, Pushikin. Todos eles donos de inesgotável repertório de contos empolgantes. E da Alemanha vieram o Goethe, o Kafka e o Schiller. E não posso me esquecer dos meus amigos latino-americanos: Borges, Rulfo, Garcia Marquez, Cortazar, Arguedas. Ah! Esquecia-me! Winston Churchill, um dos mais nobres súditos da Rainha Elizabeth. Homem de fibra. Destemido. Dono de uma oratória que só se rivaliza com a do… E esquecia-me: Demóstenes, o grande Demóstenes. Demóstenes e Churchill, meus amigos, na minha casa. E do Oriente vieram, da Índia, Tagore; do Japão, Yasunari Kawabata e Yukio Mishima. São tantos os meus amigos, que eu não posso nomeá-los um por um. É impossível. E de Portugal, Camões. Você o conhece? Ele me contou a história do Gigante Adamastor. E vieram, também, o Gil Vicente, o Herculano, o Eça, o Camilo. Estou muito feliz em tê-los na minha casa durante os próximos quinze dias. E quais outros amigos estarão comigo? o Asimov, o Karel Capek, o Bradbury, o Sturgeon. O Le Carré e o Forsyth. E o Koestler. E o Leibniz. E os meus queridos amigos brasileiros. Queridos e amados. O Machado, o José de Alencar, os irmãos Azevedo, o Gustavo Corção, o Lobato, o Gonçalves Dias, o Herberto Sales, o Meira Penna, o Oliveira Lima, o Bonifácio, o Nabuco, o Rui, o Cyro dos Anjos, o Coelho Neto, o João Camilo, o Reale, o Graciliano, o Gilberto, o Padre Antonio Vieira, e muitos, muitos outros, muitos outros amigos queridos, amigos cujas amizades estimo imensamente. São amigos para sempre. Estou feliz em tê-los ao meu lado, na minha casa, fazendo-me companhia neste momento de tensão e medo. Amparam-me. Confortam-me. Orientam-me. Tranquilizam-me. Contar-me-ão histórias extraordinárias passadas em outras eras, em outros povos, em outros mundos, em outros universos. Histórias de um passado distante e histórias de um futuro longínquo. História de reis e rainhas, de heróis e vilões, de criaturas divinas e criaturas demoníacas, de entidades celestiais e de monstros. Estou feliz em tê-los ao meu lado nesta hora tão escura.

Um escritor atormentado

O escritor escreveu um conto de quatro mil palavras, de cabo a rabo, em duas horas. Releu-os. Corrigiu-o. Releu-o. Suprimiu-lhe dezenas de palavras e adicionou-lhe centenas de outras palavras. No conto executou inúmeras alterações, conservando, sempre, a idéia original, que muito o agradava. Assim que o deu por definido, largou as folhas sobre a escrivaninha, feliz da vida. E pôs-se a lê-lo, alegre, contente. Encerrada a leitura, feliz com o resultado, lembrou-se de um detalhe que lhe havia escapado. Qual era o título do conto? Procurou por ele, e não o encontrou. Qual título daria ao conto? Pensou. Matutou. Remoeu seus pensamentos. Ruminou suas idéias, e não encontrou um bom título para o seu conto, que muito o agradava. Contrariado, atormentado, guardou o conto numa pasta, da qual ele o tiraria assim que lhe encontrasse um bom título. E na pasta jaz o conto há dois anos.
Dias depois, o escritor criou, enquanto se banhava, sob água fria, que despejava de uma ducha, um título para um conto. Assim que, banhado, e enxugado, retirou-se do banheiro, correu, célere, ao escritório, pegou um lápis e uma folha de sulfite, e nesta anotou o título do conto. Releu-o. Era um bom título para um conto. Mas, e o conto? Sentou-se na cadeira, à escrivaninha, fincou os cotovelos na escrivaninha, olhos fitos na folha de sulfite, coçou a cabeça. Atormentou-se. Não encontrou um conto para aquele título de um conto, título muito bom, que muito o agradava. Enfim, guardou, a contragosto, a folha de sulfite na pasta, da qual não a retirou até hoje.

Circuíto fechado

– Marcão! Marcão! – gritou Roberto, que corria na direção de Marcos, que andava a passos largos.

Ao ouvir seu nome, Marcos voltou-se para trás, e viu Roberto, esbaforido.

Assim que se aproximou de Marcos, Roberto disse-lhe:

– Você anda rápido demais. Com essas pernas, você bate o recorde mundial dos cem metros rasos.

– Você precisa abandonar a sua vida sedentária, Betão – censurou-o Marcos. – Você bebe refrigerante e come hambúrguer no café-da-manhã, no almoço, no café-da-tarde, na janta, de segunda a segunda. Por isso você está assim, que mal se agüenta. Assim você se arrebentará, Betão. Qualquer dia desses…

– Pôxa! – exclamou Roberto, com um pouco de dificuldade, enquanto esforçava-se para se recompor. – Amigão, você, hein, Marcão! Amigão! Vim dar uma notícia, que é do seu interesse… Deixe-me recuperar o fôlego… Você anda muito rápido… As minhas banhas impedem-me de acelerar os passos. De certo ponto de vista, você tem razão. Estou fora de forma. Mas não precisa ficar me dizendo isso, não, tá?, e nem fique me esculhambando toda vez que nos encontramos… Agora, do ponto de vista de um barril, estou em ótima forma. Forma de um barril, obviamente. Para uma barrilzinha fofinha e gostosinha, sou um galã.

– Você leva tudo na brincadeira.

– E você é sério demais. Cara, você precisa abrir um sorriso de vez em quando nessa cara feia e abandonar a sua ridícula pose de gostosão. Você tem o rei na barriga.

– E o que você tem na sua barriga?

– Eu… O boi, os leitões, os frangos e os peixes que comi no café-da-manhã. Marcão, hoje enchi a pança.

– Todo dia você a enche.

– Hoje exagerei.

– Qual notícia você veio me trazer?

– Ah! Sim. A notícia… A Carolina convidou você para a festa de aniversário dela?

– Convidou.

– Você sabe quem me disse que vai lá?

– Não. Quem?

– A Janaína.

– A Janaína?

– Não. A Berenice. Você é surdo? Eu disse Janaína, então é Janaína. Se eu tivesse dito Fabiana, seria Fabiana. Se eu tivesse dito Ângela, seria Ângela. Se eu tivesse dito Catarina, seria…

– Está bem. Já entendi.

– Você sempre fica perdido, com cara de bobo, de idiota, sempre que alguém fala da Janaína. Você está gamado nela, hein, garanhão.

– Estou.

– Também pudera, a Janaína é uma gostosura.

– Não falte com o respeito.

– Ih! O homem virou fera. “Não falte com o respeito.” “Não falte com o respeito.”

– Detesto que me arremedem.

– “Detesto que me arremedem.” “Detesto que me arremedem.” “Não falte com o respeito.”

– Você perdeu a noção do perigo, Betão?

– “Você perdeu a noção do perigo, Betão?” “Você perdeu a noção do perigo, Betão?”

– Vem aqui, besta. Você não me escapa, maldito bolofofo. Rolha-de-poço! – e Marcos passou seu braço por trás do pescoço de Roberto, e apertou-lhe as bochechas ao mesmo tempo que o atraía para si e Roberto esmurrava-lhe, com socos inofensivos, a barriga.

Roberto e Marcos são amigos há mais de dez anos. Inseparáveis. Confidentes um do outro. O contraste, que não pode ser ignorado, de porte e de temperamento, deixa todas as pessoas admiradas. Marcos é alto, atlético, ríspido, desprovido de senso de humor, vaidoso e indiferente ao exercício intelectual. Joga vôlei. Encanta as mulheres. Roberto é gordo, tem um metro e setenta de altura e cento e sete quilos. Bonachão, zombeteiro, está sempre de bem com a vida, dono de inesgotável repertório de anedotas e frases de efeito. Estudioso, pretende seguir carreira literária. Participou de mais de cem concursos literários. Ficou em primeiro lugar em quatro concursos, recebeu sete menções honrosas, três menções especiais e cinqüenta e quatro prêmios de edição. Escreveu um romance e o enviou para nove editoras. Todas o rejeitaram.

Andavam pela avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso. Dirigiam-se à escola. Os dois, ambos com dezessete anos de idade, fazem planos para a carreira que cada um sonha seguir. Marcos está determinado a chegar à seleção brasileira de vôlei; Roberto almeja o Nobel de literatura. Ambos estão dispostos a sacrificar outros prazeres da vida para atingir, cada um deles, o objetivo que cada um tem em mira. Essa precoce consciência da realidade e a força de vontade, mais do que tudo, os unem.

Marcos disse para Roberto que não pretendia ir à festa de aniversário da Carolina, mas como Janaína iria, ele, Marcos, também iria. Roberto perguntou-lhe porque ele não se simpatiza com Carolina; Marcos disse que ela é interesseira e duas-caras. Roberto discordou, disse que ela é adorável, e aprecia admirá-la nas aulas de educação física, nas academias de ginástica e nos clubes, à piscina. Falaram de Carolina durante uns dez minutos. Diante da livraria, despediram-se. Roberto entrou na livraria e Marcos rumou ao ginásio.

No final de semana, Marcos e Roberto foram à casa da Carolina. Divertiram-se muito. Separaram-se no momento em que Marcos abordou Janaína.

Na segunda-feira, Roberto, debruçado sobre o seu caderno de literatura, o cérebro entupido de idéias, pôs-se a escrever. Queria dar vazão à sua imaginação prodigiosa, expor os seus pensamentos, desenvolver as tramas concebidas. As personagens desfilavam, animadas, vivas, na sua mente. Roberto conversou com elas, pediu-lhes esclarecimentos sobre pontos obscuros da vida delas, detalhes de eventos por elas protagonizados e revelações sobre os pensamentos que lhes animavam a mente. Para Roberto, as suas personagens são vivas, reais. De todas as personagens que concebeu, Yvone é a mais instigante, a mais interessante, a de temperamento mais complexo e admirável. (Roberto adora conceber personagens femininas, que, para ele, são mais interessantes do que as masculinas). Yvone é uma jovem de dezoito anos (inspirada em uma jovem chamada Giovana, por quem Roberto suspira e alimenta um amor secreto – ele sabe que Giovana jamais olhará, com admiração e paixão, para ele, pois o rival dele, Ricardo, é um tipo muito mais interessante do que ele aos olhos dela).

No conto Divina, Roberto narra a história de Yvone:

Não há mulheres perfeitas. Há mulheres que se aproximam da perfeição. Mulheres honestas, belas, inteligentes, simpáticas. Elas são raras, dizem muitos homens. Não é a minha opinião. Há muitas mulheres extraordinárias. Os defeitos pequenos eu os relevo. Não desejo uma criatura celestial que desceu dos céus à Terra, perfeita, uma deusa – os deuses também são dotados de defeitos e de vícios tipicamente humanos, que são incalculáveis: gula, fúria, luxúria, incúria, etc. E os deuses têm serviçais e escravos para executar-lhes as tarefas mais comezinhas. E são ingratos e rancorosos.

Na condição humana, na absoluta ausência de pretensões a transcendê-la, Yvone é divina. Dela jamais ouvi propósitos transcendentais e objetivos inalcançáveis para os humanos. Ela não alimenta ideologias irracionais e não sonha com utopias que jamais serão concretizadas porque não levam em consideração a condição humana, utopias que, em resumo, são apenas conceitos de mundo ideal concebidos por pessoas desajustadas, pessoas que alimentam o desejo de erigir um mundo onde elas são reverenciadas. Yvone trata de coisas reais, palpáveis, mensuráveis. Admiráveis a sua determinação, a sua beleza, a sua simpatia e a sua inteligência. Tem dezoito anos – restam-lhe cinco meses para o décimo nono aniversário. Nas suas palavras há mais inteligência do que nas proferidas por muitos homens e mulheres de cabelos brancos. Tem idéias interessantes. Jamais apresenta lições supostamente edificantes. O belo corpo bem torneado ela o mantêm com alimentação balanceada, dieta saudável, sem os excessos das dietas dos vaidosos que, submissos – patéticos! – aos modelos disseminados pelos programas de televisão, pelas novelas, pelas passarelas de desfiles de modas e pelo cinema, emagrecem e convertem-se, como efeito colateral (ou não?), em esqueletos cadavéricos, lívidos, despidos de beleza natural. As falsas promessas das empresas de cosméticos, das revistas femininas e da cultura da anorexia bulímica jamais seduziram Yvone. Ela sempre resguardou a sua autenticidade, de temperamento, de personalidade, de idéias. Jamais se arrastou ao abismo para o qual muitas mulheres (e homens também) se arrastam. Conserva-se Yvone. Bela, linda. Divina. É aplicada nos estudos. É leitora voraz de romances clássicos e de livros de filósofos consagrados – mas mantêm independência de pensamento em relação a todos eles; jamais submeteu-se a uma doutrina e jamais sucumbiu à autoridade de um gênio reverenciado pela humanidade estéril (mais justa apreciação da humanidade: uma parcela é estéril; para sorte dos humanos, todas as épocas tiveram os seus espíritos independentes e libertários). É leitora apaixonada de Montaigne, Leibnitz, Hume, Ortega y Gasset, Gilberto Freyre, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, Joaquim Nabuco, Tocqueville, Ludwig von Mises, Locke, Mário Ferreira dos Santos, Proust, Tolstoi, Machado de Assis, Balzac, Dostoiévski, Swift, Cervantes, Melville, Stendhal, Shakespeare, Whitman, Pessoa, Thomas Mann. Essa lista representa a qualidade da leitura de Yvone. A lista completa, se inserida aqui, ocuparia uma resma de papel de sulfite. Nutrida pela leitura da obra de tão extraordinários romancistas, poetas e filósofos, Yvone adquiriu erudição de causar inveja aos eruditos. Na sua pouca idade, não tem rivais.

Dedica-se aos exercícios intelectuais – e não descuida dos exercícios físicos.

Todos os dias, ao acordar, Yvone, antes de o sol nascer, vai à piscina e nada durante trinta minutos. Após retirar-se da piscina, faz a refeição da manhã, rica em carboidratos, vitaminas, fibras e proteínas. Vai ao trabalho, de segunda a sábado, de bicicleta. O trajeto, da sua casa à loja na qual trabalha, corresponde a dois quilômetros. Ao fim do expediente, às seis horas da tarde, ela transita por um percurso de três a quatro quilômetros. Ao chegar à sua casa, troca de roupas e faz caminhada de três quilômetros e, depois, nada, na piscina do clube, por meia hora. À noite – não todos os dias – reúne-se, no clube, com as amigas e os amigos. Joga, em um dia, vôlei, no outro, basquete, em outro, futebol, em outro, handebol. Duas vezes por semana, na terça-feira e na quinta-feira, tem uma aula de uma hora, em cada dia, de karatê; na sexta-feira e no sábado, uma hora, cada dia, de capoeira. Muitas pessoas perguntam-lhe como ela consegue conciliar trabalho, namoro, estudo, esportes e diversão. Ela responde, lacônica:

– Defino as minhas prioridades, e me concentro nelas.

Essa frase, para muitas pessoas um enigma indecifrável, reserva mistérios insondáveis.

Yvone escreve romances, poesias, contos, novelas, ensaios filosóficos, reflexões sobre a vida e o universo e faz pesquisas, na internet, sobre inúmeras ciências. Participa de concursos e saraus literários e filosóficos e de congressos científicos. Integra duas academias. Ostenta, com orgulho, o seu título de acadêmica.

O namorado de Yvone, Marcelo, é um sujeito da estirpe e do temperamento de Yvone. Dizem que os contrários se atraem. Marcelo e Yvone não são contrários, não são, um, o pólo positivo, e o outro, o negativo. Os dois conservam, cada um dentro de si, os dois pólos.

Nos dois finais de semana anteriores, Yvone escreveu trechos de uma novela e de um roteiro de filme ao qual ela vinha dedicando-se havia seis meses. No capítulo quatro da novela, narrou a seguinte cena:

Capítulo 4 – Um diálogo descontraído.

Na casa de Larissa, reuniram-se Marco Antonio, Pedro Paulo, Larissa, Cláudia e Madalena. Pedro Paulo foi o que menos se pronunciou. Ouviu mais do que falou. É submisso ao seu temperamento: retraído. Manifestava-se apenas quando algum dos seus interlocutores pedia-lhe a opinião. Marco Antonio, bonacheirão, falou sem parar e não compreendeu as insinuações maliciosas de Madalena, mulher de espírito livre e temperamento agressivo. Cláudia, estudiosa e tímida, de espírito crítico, comentou todos os assuntos de perspectivas inusitadas. Larissa, tagarela, fofoqueira, não deixou de falar tudo o que sabia a respeito da vida alheia.

– Vocês não sabem da novidade – disse Larissa, com ar de suspense, atraindo a atenção de Marco Antonio, Pedro Paulo, Cláudia e Madalena. Todos, certos de que ela lhes daria revelações surpreendentes sobre a vida de alguém, ouviram-na, atentamente. – Vocês não imaginam o que eu soube, hoje cedo. Não imaginam…

– Conte logo, Larissa – reclamou Madalena. – Deixe de suspense, e conte logo, mulher.

– A Carla contou-me que o Túlio pegou, no flagra, a Marcela e o Lauro, na cama, na casa dela.

– E o que o Túlio fez? – perguntou Madalena, excitada pela notícia.

– O Túlio pulou sobre o Lauro, e esmurrou-o até ele dizer chega! A Marcela tentou separá-los. Não conseguiu. O Túlio quase fez picadinho do Lauro, que, sortudo, safou-se de ir parar num caixão, mas está numa enrascada na qual eu não desejaria me ver. O Túlio prometeu enviá-lo para o inferno. E ele é capaz disso. Se o Lauro dele não tivesse se livrado, agora estaria sete palmos abaixo da terra, conversando com os vermes.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Cláudia, na sua casa, escreveu o último capítulo de um conto no qual trabalhava havia uma semana. É o que segue:

Quatro dias após a festa de aniversário de Carolina, Marcos e Roberto encontraram-se na Praça Emílio Ribas.

– E aí, Marcão – disse Roberto, expansivo, ao saudar Marcos, ao mesmo tempo que lhe estendeu a mão direita para cumprimentá-lo.

– Aí, Beto – disse Marcos, cabisbaixo, voz sumida, cujo rosto transparecia o sofrimento que lhe avassalava o espírito. Roberto abaixou, automaticamente, o braço direito, enfiou a mão no bolso da calça, sentou-se ao lado de Marcos, tocou-o no ombro, e perguntou-lhe:

– Que bicho mordeu você, brother? Diz respeito a Janaína, não é?

– É. É a Janaína – respondeu Marcos, sussurrando. Pela primeira vez em sua vida, Roberto viu-o chorar. O silêncio, opressivo, constrangedor, estendeu-se por uns dez minutos, até Marcos, recomposto, enquanto enxugava as lágrimas, pôr-se a falar: – Você não imagina o que aconteceu, Betão. Você não imagina… Na casa da Carolina… Conversei com a Janaína. Nos entendemos… Eu e ela conversamos. Ela se mostrou bem receptiva, bem disposta… Ficamos na casa da Carolina até… Não sei até que horas. Saímos de lá, acho, depois da meia-noite. Você havia ido embora. Sei que você havia ido embora porque a Ingrid me contou. Eu lhe perguntara se ela havia visto você, e ela me disse que você havia ido para Taubaté, meia-hora antes, mais ou menos, com a Beatriz, a Samantha e o Vanderlei. Sei disso… A Ingrid… Ela me contou. E eu e a Janaína nos despedimos da Carolina, do pai e da mãe dela, da Ingrid, da Renata, do Paulo, e de mais alguns conhecidos, e fomos à discoteca. Perguntei à Janaína se ela queria namorar comigo. Ela sorriu. Não precisou me dizer o que ela desejava. Beijei-a. Nossa! Beto. Fazia décadas que eu desejava beijá-la. Beijo daqueles, sabe, Beto? Inesquecível… Coisa de louco. Ia tudo muito bem… Ia… A Janaína… Eu, cheio de mim, todo prosa, a considerava minha. Mas… Diabos! As coisas nunca acontecem como desejo. Inferno! Vou contar para você o que aconteceu. Você vai entender… Diabos! Puxa, Beto… Sou um filho-da-polícia! Mereço um tiro na cabeça! Que alguém me estoure os miolos, para eu deixar de ser besta! Na discoteca, depois… Estávamos na discoteca. Conversávamos. Dançávamos. Eu olhava para a Janaína… Eu pensava… Nossa! Seria a melhor noite da minha vida… Como eu disse, seria… Mas não foi. Por quê? Porque o papai aqui é um idiota, um imbecil, um retardado, uma besta quadrada. Burro! Asno! Imbecil! Por que… Eu e a Janaína nos entendíamos muito bem… Aí, a Janaína pediu-me licença para ir ao banheiro. E fiquei, lá, na pista de dança. E eu ia me chegando ao balcão… Sabe quem cortou o meu caminho? Sabe quem me apareceu? A Ludmila. Lembra-se dela? A minha ex. Ludmila! Por que ela foi aparecer lá? Vestida com aquele decote, com aquela mini-saia… Meu Deus! Beto, que desgraça! Duas gatas… Eu, interessado na Janaína, e a Ludmila aparece para me atormentar… Por que a Ludmila foi àquela discoteca? Se eu soubesse que ela iria lá, eu levaria a Janaína para outra discoteca, ou… Pois é, meu velho… Beto… Fiquei perdido. A Ludmila estava linda. Tentação. Gata. Deusa. Olhei, com cara de bobo, para ela. De um bobo bem bobo, um bobo idiota, um bobo imbecil. E ela veio… Deu-me um beijo no rosto. “Oi.”, disse-me ela, com aquela voz doce… Sorria… Olhei para ela, com cara de idiota. “Tudo bem, Marcos?”, perguntou-me ela. “Não nos vemos há um bom tempo. Que bom encontrar você aqui. Passei na sua casa. Seu pai disse-me que você havia ido à festa de aniversário da Carolina. Fui à casa da Carolina. A Carolina disse-me que eu encontraria você aqui. E aqui estou, Marcos, para você, todinha para você.” E ela, Beto, passou-me os braços pelo pescoço e espremeu-se em mim. E beijou-me. Não resisti. Estreitei-a nos braços. Beto… Eu e a Ludmila nos beijamos.

– E a Janaína?

– A Janaína? Eu e a Ludmila nos beijávamos… Eu havia me esquecido da Janaína. Tão absorto… A Ludmila, com aquele decote, aquela mini-saia, aquele perfume, aquele batom… Irresistível. Irresistível. E a Janaína… Eu havia me esquecido dela. Maldita Ludmila! A Janaína foi ao banheiro, voltou, e o que ela viu? Eu e a Ludmila aos braços um do outro. Aos beijos… Aos amassos… Ah! Beto. Melhor não contar… A Janaína soltou um berro que podia ser ouvido em Tóquio. Em Kuala Lumpur… Não sei onde fica Kuala Lumpur; sei que fica bem longe, e de lá seria possível ouvir o berro da Janaína. Eu não sabia o que pensar… O beijo, tão gostoso… Afastei-me da Ludmila. Olhei para a Ludmila. Olhei para a Janaína. Olhei para a Ludmila. Olhei para a Janaína. Você não imagina, Beto, o que aconteceu. Você não é capaz de imaginar. Olhei para a Janaína. Olhei para a Ludmila. Ah! Inferno! Que escândalo! Escândalo para figurar na primeira página de um tablóide britânico. De um tablóide britânico! Britânico! A Janaína… Os olhos dela… Os olhos dela… Atingiram-me em cheio… Dos olhos dela, lágrimas… Os lábios, trêmulos… Mas… Ela, com raiva… Muita raiva… Furiosa… Ela queria me devorar. Queria me mandar desta para a melhor. Beto, a Janaína deu-me um tapa na cara. Virou-me para o avesso. Depois, a Ludmila, os olhos arregalados, mãos na cintura, fez um “Oh! Não acredito.”, e acertou-me um tapa na cara, que me virou para o avesso do avesso; em seguida, virou-me às costas, e, furiosa, andando entre a multidão de curiosos, foi-se, batendo os pés. Foi constrangedor. E a Janaína, Beto, a Janaína… Ah! A Janaína, Beto, disse-me que não deseja mais me ver, nem morto. Nunca mais. Virou-me às costas. E foi-se. Belo conquistador eu sou… Perdi, em uma noite, a Janaína e a Ludmila. A Ludmila, bem, eu não a namorava… Mas a Janaína… Perdi a Janaína… Beto, perdi a Janaína…

– Não fique cabisbaixo, Marcão. Pense: Você ficou no avesso? Não. A Janaína virou você para o avesso. Por sorte, a Ludmila desvirou você. E isso não é bom?

– Não estou para brincadeiras, Beto…

– Você é sortudo, Marcão – comentou Roberto.

– Sortudo!? Sortudo!? Beto, você ficou louco? O que você bebeu? Tequila? Vodka? Whisky? O que você cheirou? A Janaína e a Ludmila, Beto, as duas… Nenhuma delas quer me ver mais, nem pintado. Nem morto. Perdi a Janaína… E você diz que sou sortudo!? Você perdeu um parafuso? Perdeu dois parafusos? Você encheu a sua cabeça com titica de galinha?

– Você é um homem de sorte, Marcão. Você tem as duas mulheres mais bonitas da cidade nas palmas das suas mãos.

– Beto, não estou para brincadeiras.

– Você está com a faca e o queijo nas mãos. É só estalar os dedos, que as mulheres correm até você… Que homem sortudo.

– Beto, não continue com essa piada…

– Marcão, as duas mulheres mais bonitas da cidade estão loucas por você. As duas, enciumadas, e por você. Você é um Casanova. Você é um dom Juan. Garanhão. Gostosão. Você é o cara, Marcão. A Janaína e a Ludmila… Garanhão – e deu-lhe um tapa no ombro. Marcos fitou-o, embasbacado. Não queria acreditar no que ouvia. Ou Roberto havia enlouquecido ou apreciava um tipo de humor que ele, Marcos, não compreendia e não desejava compreender.

À noite, Roberto debruçou-se sobre a escrivaninha, e escreveu o encerramento da história de Yvone:

Yvone e Marcelo, nas férias de Yvone, foram ao cinema, ao teatro, a festivais de música, a saraus literários e filosóficos, a congressos de tecnologia e científicos. Foram dias produtivos, férteis de idéias e extraordinariamente proveitosos. As conversas com amigos, atores, escritores, músicos, filósofos, webdesigners, internautas, blogueiros e cientistas enriqueceram-lhes a rica erudição. Os livros, os filmes, as revistas em quadrinhos e os games inspiraram-lhes inúmeras idéias que eles remoeram e as traduziram para uma linguagem singular, distinta, que deles refletia o temperamento e as afinidades literárias.

Dois dias antes do fim das férias, Marcelo e Yvone, de regresso de Ubatuba, onde passaram três dias banhando-se ao sol, tomando banhos de mar, passeando pela orla marítima, degustando deliciosos frutos do mar, entraram em Taubaté. Um caminhão desgovernado colidiu com o carro no qual iam Marcelo e Yvone, e o arrastou por mais de cinquenta metros, e capotou, vindo a colidir com um ônibus desocupado, e um muro, derrubando-o. A colisão, tão violenta, reduziu o carro à sucata. Marcelo morreu instantaneamente. Seu cérebro foi esmigalhado, os pulmões e o coração, perfurados, as pernas e os braços, quebrados. Yvone, com traumatismo craniano, as pernas quebradas, um braço quebrado, morreu, na ambulância, a caminho do hospital. O motorista do caminhão morreu esmagado entre as ferragens.

Três dias antes, Yvone concluíra a história de Cláudia, Larissa, Marco Antonio, Pedro Paulo e Madalena, história cujo último parágrafo é o que segue:

Pedro Paulo, numa inconsequente aventura amorosa com uma prostituta, contraiu o vírus HIV. Seu pai e sua mãe o expulsaram de casa. Uma semana depois, desesperado, pulou de sobre um viaduto, na linha férrea, à frente de um trem. Seu corpo foi mutilado. Um artigo a respeito do suicídio estampou a primeira página dos principais jornais da cidade. Marco Antonio casou-se duas vezes. Sua primeira esposa, Cátia, autoritária e histérica, sugava-lhe o pouco dinheiro que ele recebia todo início de mês. Marco Antonio surpreendeu-a, na cama, aos beijos e abraços, com dois homens. Sua segunda esposa, Solange, sofreu de depressão pós-parto, matou o filho recém-nascido, afogando-o na banheira, e enlouqueceu; Marco Antonio internou-a em um manicômio. Larissa foi expulsa da família por seu pai e sua mãe, que souberam que ela era lésbica e mantinha um relacionamento, desde os dezoito anos, com Marta, a sua chefe, com quem foi morar em Belo Horizonte. Madalena, aos quarenta anos, ingressou em um convento. Cláudia, escritora promissora, com dezenas de prêmios literários, amputou as duas pernas após um acidente automobilístico. Abandonada pelo primeiro marido, que a trocou por uma jovem beldade de dezoito anos, ficou deprimida. Seu segundo marido usou-a como um imã para atrair outras mulheres e dissipou-lhe a fortuna que ela arduamente amealhou com os seus romances, contos, novelas, roteiros de filmes, de revistas em quadrinhos, e traduções. Seu filho, Cauã, que se envolveu com tráfico de drogas, morreu com um projétil alojado no coração, ventrículo direito, e um no cérebro, hemisfério esquerdo, lobo temporal. Sua filha, Marli, vinte e um anos, casada com Saulo, empresário bem-sucedido, deu-lhe uma netinha, Virgínia, corada e saudável. Cláudia a adora.

Um escritor à procura de um conto

Quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso literário. Pensei, durante horas, em com quais palavras iniciá-lo. Pus a cabeça para funcionar. Queimei as pestanas. Perdi muito tempo (ou não perdi) pensando no que eu escreveria, e amadureci (amadureci?) as idéias, para escrever com segurança e desenvoltura. Enfim, simultaneamente seguro e hesitante, dei início à redação do conto. Após escrever umas cem palavras, parei de escrever, deitei a caneta sobre a mesa, e li o texto que, tomei conhecimento, para meu desgosto, saiu-me diferente do que eu me propusera a escrever inicialmente. Ato contínuo, amassei o papel, e o joguei no lixo.

Falei para alguns amigos do meu restrito círculo de amizades que eu quero escrever um conto, e enviá-lo para um concurso. Eles (aos quais sou imensamente grato por me ouvirem atentamente e se me dignarem a dizer o que pensavam do meu propósito), pretensiosos (como todo bom brasileiro, entendem de todos os assuntos), aconselharam-me a não perder o meu tempo escrevendo um conto, pois, declararam, certos do que diziam, escrever é ocupação de desocupados. Diante desse paradoxo, perguntei-lhes:

– Se escrever é a ocupação dos desocupados, escrever é uma ocupação; então, o escritor, ocupado em escrever, é uma pessoa ocupada. Certo?

Eles desconversaram. Com exercício intelectual que, diziam-me, sustentavam com raciocínio inatacável, que eu, por mais que o desejasse, não compreendia, sublinhavam a opinião – à qual os brasileiros aferram-se com unhas e dentes – que nos diz que os escritores são pessoas desocupadas. Decidi, após perder um bom tempo em discussão estéril com pessoas que nada entendem de literatura, conversar apenas com quem entende do assunto: o Juscelino, o Lourenço (não sei qual é o seu primeiro nome), a Mariângela, a Cláudia, a Rosemeire e o Teodoro.

Encontrei o Juscelino sentado em um banco, lendo um livro, à sombra de uma árvore, na praça São Benedito. Interrompi-lhe a leitura. Falei-lhe do concurso literário e das minhas idéias para o conto que eu pretendia escrever. Ele me veio, com autoridade de um entendido, com essas palavras amargas:

– Balzac escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso. Conheço alguns livros do Balzac (Não ousei, até hoje, encarar a sua obra, muito volumosa. Um dos motivos, confesso, que constrangedor!: a preguiça; outro: não encontrei todos os volumes que compõem a Comédia Humana, nem na biblioteca municipal, que vive às moscas, coberta de teias de aranhas, com livros empoeirados de folhas amareladas, e cujo acervo, de pouco mais de cinco mil livros, compõe-se, quase que exclusivamente, de livros de auto-ajuda, esoterismo e outras insignificâncias, nem em nenhum outro lugar).

– Sim, escreveu – respondeu Juscelino.

– Tem certeza, Juscelino? – perguntei. Eu queria que ele me dissesse em qual livro Balzac narrou a história que concebi.

Juscelino atendeu ao meu desejo. Provou-me que Balzac escreveu uma estória idêntica à minha. “Ora – eu poderia gritar, a plenos pulmões – Maldito Balzac! Roubou-me as idéias”. Se eu tivesse nascido antes de Balzac, eu, antes dele, teria tido as idéias que ele concebeu antes de mim, escrevê-las-ia, e eu, e não Balzac, seria um gênio da literatura universal. Balzac – sorte dele! – nasceu antes de mim!

– Se eu fosse você – aconselhou-me Juscelino -, esqueceria o conto. Você nunca será original porque, seja qual for a sua idéia, algum escritor, e dos bons, que hoje são respeitados como clássicos, já a usou em algum conto, que, com certeza, é muito melhor do que o que você será capaz de escrever. Você não quer ser ridicularizado, quer? Não quer que as pessoas reconheçam você, na rua, apontem o dedo para você, e digam: “Olhem! O plagiador!”? É isso o que você deseja?

Tais palavras feriram-me profundamente. Puxa! Por essa eu não esperava. Juscelino acertou-me um golpe no queixo, nocauteando-me. Certo, nunca o considerei meu amigo, tampouco dei-lhe muita atenção, jamais respeitei-lhe as opiniões, mas, ora!, eu, desejando escrever um conto, e ele me veio com palavras tão agressivas, tão… Não sei tão o quê! Restou-me agradecer-lhe (ferido em meu ego) as opiniões e as sugestões, e afastar-me, cabisbaixo, desanimado. Depois, pensei comigo: “Juscelino é apenas um. Ele me apresentou a sua opinião. Ora, vou à procura do Lourenço. Ele, sim, há de dar-me ouvidos e elogiar-me a vontade de escrever um conto, ganhar um prêmio, e, quem sabe, ver o meu conto publicado em uma revista respeitável, ao lado de contos de outros escritores que, como eu, também buscam um lugar ao sol.

Então, ao Lourenço.

Fui à casa dele. Ele, animado, fanhoso (tenho de me esforçar para conseguir compreender o que ele fala), saudou-me, e perguntou-me a respeito de meu pai, minhas irmãs, e minha mãe – especialmente de minha irmã mais velha, a Jéssica, por quem ele, apesar de casado e pais de três filhas, sente atração, mesmo que não ma confesse. Não sou bobo, ora bolas! Percebo como os homens, atrevidos, olham para minhas irmãs, principalmente para a Jéssica, a mais bonita das duas (Que um psiquiatra, adepto da escola do Freud, ou de qualquer outra escola, pouco me importa de qual, interprete, à luz das teorias psiquiátricas, caso elas projetem alguma luz, as minhas palavras; que digam que tenho complexo disso ou complexo daquilo, que o meu id esmurrou o meu ego, e ambos, cúmplices do meu superego, subverteram a ordem, se ordem há, do meu inconsciente, e coisa e tal… e chega de lorota).

Não permiti, um pouco enciumado e incomodado, confesso, que o Lourenço se estendesse, indefinidamente, em superlativos à beleza da Jéssica. Eu o interrompi e falei-lhe das minhas idéias (não as mesmas que eu apresentara para o Juscelino, mas outras; não exatamente outras, mas as que eu apresentara para o Juscelino com significativas modificações: outros personagens, ambiente e narrador, agora em terceira pessoa). Lourenço ouviu-me atentamente; e disse-me, depois de puxar pela memória algumas lembranças das suas leituras:

– O Dostoiévski escreveu um romance com essas idéias, Carlinhos – e só agora revelo o meu nome, e ainda assim, no diminutivo, o que detesto sobremaneira. Desconfio que o Lourenço sabe que detesto ser chamado de Carlinhos, eu, com um metro e oitenta e dois de altura! Carlinhos, eu!?

– Escreveu? – perguntei-lhe, surpreso; cabisbaixo, interessado em sua vasta erudição, o ouvi atentamente.

Lourenço falou-me de Dostoiévski (Li Os Irmãos Karamazovi. De Dostoiévski, apenas esse livro. Que vergonha! Como é constrangedor confessar a minha ignorância!). Provou-me, por A mais B, que ele escreveu um romance com as minhas idéias – as minhas idéias, sim! Dostoiévski escreveu um romance com as minhas idéias, pois não li o seu romance com idéias idênticas às minhas. Dostoiévski, afortunadamente, nasceu e morreu antes de mim e, involuntariamente – acredito que não tenha sido a intenção dele -, impediu-me de escrever uma estória original.

A conversa estendeu-se por um bom tempo. Ao contrário de Juscelino, Lourenço deu-me muitas idéias para contos – e disse-me que todas foram escritas por algum escritor. Pensei em ir-me embora, mas, com a chegada da Cássia, esposa dele, decidi permanecer na casa um pouco mais e dar sequência à conversa porque, como previ, ela me ofereceu um cafezinho saboroso – o qual degustei repleto de prazer. Além disso, eu queria admirá-la. Cássia, aos quarenta e dois anos, é um colírio para os olhos.

Eu queria prolongar a conversa com o Lourenço e a Cássia; tive, no entanto, a contragosto, de retirar-me. Despedi-me do casal, lançando um último olhar para a Cássia, e retirei-me. Como eu pretendia escrever um conto, e precisava de novas idéias – as que eu tivera abandonei-as – procurei pela Mariângela, que, leitora de romances e contos clássicos, poderia tecer comentários acurados sobre as minhas idéias. Por acidente, nos trombamos ao dobrar uma esquina. Desculpei-me. Ela se desculpou. Rimos. Cessado o riso, iniciamos uma conversa descontraída. Falei-lhe do concurso de contos para o qual eu desejava enviar um conto, e apresentei-lhe um resumo do meu conto. Ela me ouviu, atentamente; ao final do meu relato, disse-me:

– Machado de Assis escreveu um conto com essas idéias, Carlinhos.

– Escreveu? – não percebi que ela me chamou de Carlinhos, tão surpreso eu estava ao ouvi-la dizer que o bruxo do Cosme Velho, que tanto admiro, escreveu uma história com as minhas idéias.

E a Mariângela falou-me do conto do Machado de Assis. Para meu desgosto, para meu espanto, lembrei-me do dito cujo.

– Você está com a razão, Mariângela. Li o conto.

– Você tem de ser original, Carlinhos. Você não pode plagiar o Machado de Assis.

– Não desejei plagiá-lo, Mariângela. Tive algumas idéias, e decidi usá-las em um conto; e agora, e só agora, alertado por você, sei que Machado de Assis escreveu um conto com elas. Puxa! Que coincidência! Ainda bem, Mariângela, que você me avisou a tempo. Imagine a vergonha que eu passaria se escrevesse um conto com idéias usadas por Machado de Assis! Seria constrangedor. Eu nunca me perdoaria! Plagiar o bruxo do Cosme Velho! Involuntariamente eu incorreria em plágio, acredite em mim. A alma penada do Machado ou me cortaria o pescoço, ou me assombraria por toda a eternidade. Estou dizendo a mais pura verdade, Mariângela, a verdade verdadeira. Acredite em mim. Eu não mentiria pra você. O Machado escreveu… Quem diria!

Ao chegar em frente da casa da Mariângela, despedimo-nos. Segui rumo à minha casa. No caminho, ao passar pela praça São Bernardo, quem vi, lá, sentada em um banco, lendo um livro? A belíssima e vistosa Cláudia, a mulher mais bonita que conheço. Que pedaço de mal caminho! Ela nunca me deu bola. E daí? Sempre que a encontro, a admiro, embevecido, deslumbrado, de queixo caído, boquiaberto. O Gustavo, namorado dela, é quem tem de manter afastados os gaviões que voam em círculos em torno dela; ele, se não quiser ganhar um belo par de cornos, que se cuide e que cuide do que é dele. Eu, embora exista o risco de atiçar a cólera enciumada do Gustavo, não perco uma oportunidade de abordar a Cláudia, e requestá-la, com discrição e sutileza. Abordagens diretas a escandalizam. Confesso: não quero entrar em confronto com o Gustavo, que é meu amigo e mais forte do que eu. A tentação, no entanto, é incontornável…

Não pensei duas vezes. Enveredei pela praça. Como quem não quer nada, fui até a Cláudia, que trajava uma camisa branca decotada e um short amarelo bem justo. Quanta generosidade! As pernas cruzadas, desnudas! Acheguei-me a ela. Simulando surpresa, saudei-a. Ela sorriu. Que sorriso! Aqueles dentes brancos resplandecentes! Quase me perdi, naquele instante. Fiquei a ponto de desmaiar. Ela me ofereceu o rosto, para que eu o beijasse. Beijei-o, deliciado.

Perguntei-lhe que livro ela lia. Ela, pondo um marcador de página na página que lia, fechou o livro, cuja capa exibiu-me. Retrato de Uma Senhora, de Henry James. Expus-lhe os meus comentários favoráveis ao livro e elogiei-lhe o bom gosto. Cláudia sorriu. Abaixou a cabeça, como que constrangida com os elogios. Perguntei-lhe se eu poderia sentar-me ao seu lado e puxar uns dedos de prosa. Ela me disse que me sentasse à direita. Sentei-me. Eu lhe disse que eu lera, dois meses antes, aquele livro, e, no ano passado, A volta do Parafuso. Conjuguei dois interesses: falar de literatura e admirar a Cláudia.

Falei-lhe do meu conto. Ela me ouviu atentamente; as suas observações, favoráveis, de estímulo; no entanto, ela me apresentou uma ressalva:

– O Boccaccio escreveu um conto com tais idéias.

Admirei-me. A Cláudia leu Boccaccio!? Não acreditei!

– Escreveu? – perguntei, boquiaberto, incrédulo.

– Escreveu, sim. Um dos contos do Decamerão.

Boquiaberto, de queixo caído, pasmo, eu não soube o que dizer. A Cláudia leu o Decamerão! Quase não me contive. Desejei perguntar-lhe qual dentre as cenas picantes ela mais apreciou. Calei-me, todavia. Eu fizera uma miscelânea das estórias que contei para o Juscelino, para o Lourenço e para a Mariângela. A Cláudia associou o meu conto aos do Boccaccio, que eu havia lido não muitos dias antes; mais uma vez, minha memória enganou-me. Eu não disse à Cláudia que li o Decamerão. Pedi-lhe mais detalhes. A bandida leu o Decamerão! Eu não quis acreditar. Ela, tão reservada, tão discreta, com fama de santinha – ler Boccaccio não faz uma mulher depravada, não é mesmo? -, surpreendeu-me com a revelação. Cláudia leu, como me provou, o Decamerão, e divertiu-se com a leitura. Falou-me da peste que assolava a Europa, na época de Boccaccio; falou-me dos contos, inclusive dos mais picantes, mas não o fez abertamente, com desembaraço.

Convencido de que criei um conto cujo tema era idêntico ao de um conto do Boccaccio, arrumei, com muito jeito, sem que a Cláudia desconfiasse das minhas verdadeiras intenções, assuntos para estender a conversa. Eu desejava admirar a Cláudia e tinha o sincero desejo de aprender um pouco mais sobre literatura. A Cláudia apresentou-me comentários a respeito de muitos livros, em sua maioria clássicos da literatura. Acompanhei-a, embevecido, em seu entusiasmo contido ao falar de Liév Tolstoi, seu escritor predileto. Eu sentia o odor perfumado que ela exalava. Inebriei-me com o seu perfume. Ébrio de desejo, enlaçava-a, em pensamento, e osculava-a, apaixonadamente. Encerramos a conversa – para meu desgosto – quando o Gustavo apareceu. Após saudar-me, ele atraiu a Cláudia para si, colou seus lábios aos dela – eu desejava beijá-los; os da Cláudia, obviamente; não os do Gustavo -; em seguida, após descolar seus lábios dos dela, voltou-se para mim, e disse-me que iriam à casa de uma amiga. Retiraram-se.

Levantei-me. Rumei à minha casa. Com quem dei de cara, na sala? Com a Rosemeire, que conversava com a Jéssica. Após passar momentos agradáveis com a Cláudia, defrontei-me com a feiúra em pessoa. Rosemeire, apesar de toda a sua feiúra repulsiva, não apagou, da minha mente, a belíssima imagem da Cláudia. Sorri. Eu rumava para o meu quarto; a um chamado da Rosemeire, detive-me. A Rosemeire me disse que participaria de um concurso de poesias, e perguntou-me se eu não desejava participar. Eu lhe disse que não gosto de poesia, mas de prosa, e tinha idéias para um conto que eu pretendia escrever e enviar para um concurso de contos. Ela me pediu que lho narrasse; eu lhe disse que eu não havia escrito nenhum conto, mas tinha algumas idéias na cabeça. Ela me perguntou quais eram. Eu lhas disse. Eram as idéias, com pequenas modificações, que eu apresentara para a Cláudia. Encerrado o relato, Rosemeire disse-me:

– A Virginia Woolf escreveu um romance com essas idéias.

– Escreveu?

Rosemeire resumiu o romance da Virginia Woolf. A Virginia Woolf – maldita! – escreveu a minha estória! Meu Deus! Em que mundo estamos! Um conto, que para a Cláudia continha idéias concebidas por Boccaccio, converteu-se, com pequenas modificações, em um romance da Virginia Woolf! Nenhum livro da Virginia Woolf eu li… Apalermado, ouvi as razões apresentadas pela Rosemeire, que, por sinal, foi muito gentil comigo – tanta gentileza não me agradou. O que ela desejava? Preciso responder à esta pergunta? Ah! Se fosse a Cláudia, assim, tão gentil, tão generosa, tão solícita… Mas não era a Cláudia; era a Rosemeire. As suas intenções… O seu sorriso… O sorriso cúmplice e zombeteiro da Jéssica… No desejo de não prolongar a minha permanência na sala, eu lhes disse que iria ao meu quarto escrever as idéias que me iam à cabeça, e retirei-me da sala, não sem antes olhar para a Jéssica. Malditinha! Sinto, não raras vezes, vontade de esganá-la. Rosemeire não me engana… Não tenho psicologia feminina, mas entendo as mulheres.

Convencido de que Virginia Woolf – e quem tem medo de Virginia Woolf? – roubou-me as idéias, decidi abandoná-las definitivamente. Não eram originais, e eu não me lançaria em um empreendimento literário para repetir o que outro escritor – e escritor consagrado – escreveu. Enfurnado no meu quarto, decidi mudar, e radicalmente, as minhas idéias. Nada de estória realista, nada de drama, nada de romance. Abandonei os meus projetos, e lancei-me na elaboração de uma estória fantástica. Retirei-me do quarto, duas horas depois. Ao passar pela sala, despedi-me da Jéssica e da Rosemeire, tão sorridente… O seu sorriso… Exagerado. Falso, notei. Sei o que a Rosemeire deseja de mim; não participarei de nada do que ela deseja. Ela que procure outro homem, um que se disponha a encará-la. Prefiro encarar a Medusa.

Na cozinha, enquanto eu bebia um copo de água, veio-me à lembrança a extravagante figura do Teodoro, leitor voraz de estórias de ficção científica, terror, espionagem, policial e fantasia. Rumei para a casa dele, sem pensar duas vezes.

À porta da casa do Teodoro, premi a campainha. Minutos depois, Teodoro abriu a porta. Saudamo-nos. Ele, expansivo, convidou-me para entrar. Entrei. Na sala, recebi um beijo no rosto e um forte abraço da Karen, esposa do Teodoro, tão extravagante e exótica quanto ele – eles formam o casal mais estranho da cidade. E entramos na conversa: literatura fantástica, ficção científica, terror, policial e outros gêneros que os críticos, soberbos, pedantes, insistem em classificar como sub-literatura.

No instante em que me surgiu a oportunidade, falei das minhas idéias para um conto de ficção científica. Teodoro, enquanto, atentamente, ouvia-me, cofiava o vasto bigode desgrenhado – como dizem nas redondezas: sem o bigode ele é como o Sansão sem a cabeleira.

Teodoro pensava, pensava, pensava. No que ele pensava? Não precisei esperar muito tempo para ter a resposta:

– Carlão, meu irmão, o Asimov escreveu um conto com essas idéias.

– Escreveu?

– Escreveu. Tenho certeza. Li todos os livros do Asimov. Em inglês. Entendeu? Em inglês. Carlão, as suas idéias não são originais. Você está plagiando o Asimov. Isso é heresia, você sabe. Pô, Carlão. Que decepção! Plagiar o Asimov! Ora, desista do conto. O que você pretende fazer é heresia. Lesa-pátria. Imperdoável! O que você está pretendendo fazer não merece perdão. Escreva o seu conto, que, na verdade, é do Asimov, que você vai parar na guilhotina. É o destino dos que desrespeitam o Asimov.

Foi a gota d’água! Desisti de escrever um conto. Aqui vai o meu registro, com meu sangue, meu suor e minhas lágrimas. Ninguém pode conceber o meu sofrimento! Ninguém pode conceber a minha angústia! Foi infrutífera a minha jornada à procura de uma boa idéia para um conto, que eu enviaria para um concurso…

Malditos todos os escritores que me antecederam! Malditos! Mil vezes malditos! Que a alma de todos eles queime no inferno! Malditos! Malditos! Mil vezes malditos!

Enfim… o fim.

Quero escrever um conto.

Há horas, na biblioteca, na minha casa, à mesa, esferográfica à mão, papel em branco sobre a mesa, e eu a devanear.

Enfim, achei uma idéia para um conto: um homem apaixona-se por uma mulher, que não corresponde ao amor que por ela ele sente.

Como darei início ao conto? Transpus uma barreira. Contente, eufórico, avancei – poucos passos, mas avancei. Vejo-me, agora, petrificado. Persistirei. Insistirei. Quero escrever um conto. A idéia eu a tenho. Como a desenvolverei?

Com a idéia na cabeça, agora resta-me escrever o conto. Quem é o protagonista? Qual é o seu nome? O que ele sente? O que ele pensa? Qual a relação dele com as outras personagens? Quem são os seus amigos?  Quem são os seus desafetos? Qual é a sua idade? Ele é jovem, adulto, ou velho? Qual é o nome da mulher pela qual ele se apaixonou? À qual classe social ambos pertencem? Eles são solteiros? Casados? Viúvos? Ela é jovem, adulta ou velha?

Penso nestas questões e em muitas outras – todas, unidas num vórtice, assediam-me e imobilizam-me.

Escrevo estas linhas para tomar conhecimento das dificuldades com as quais me deparo.

Interrompi a redação deste texto, para beber de um pouco de água. O calor – infernal – liquefaz-me. Sinto-me como se eu estivesse no Saara, ou à boca de um vulcão em erupção, ou nas fornalhas do inferno.

Saciei a minha sede.

Agora, sentado, à mesa, esferográfica à mão, ponho-me à redação do conto, cujo início é:

Segunda-feira. O dia amanhece quente e abafado. João Carlos acorda às quatro horas e cinquenta minutos, dez minutos antes de o despertador estridular. Com os olhos remelentos, os cabelos despenteados, o rosto inchado, as pálpebras semi-cerradas, desorientado, aciona o botão interruptor, e, automaticamente, protege os olhos com os braços, contrai os músculos do rosto, e cobre a cabeça com a colcha. Espreguiça-se. Estremunhado, retira-se de sob a colcha, empurrando-a, com os pés, aos pés da cama, levanta-se e dirige-se ao banheiro.

Após o banho, vestido, ruma à cozinha, e prepara lauta refeição da manhã. Come uma banana, duas peras, um pedaço de melancia, uvas, jabuticabas, três morangos, ameixas, um pão francês com duas fatias de queijo-prato e geléia de pêssego, sequilhos, biscoitos-de-vento, e bebe café-com-leite e laranjada.

Ao retirar-se da sua casa, às seis horas, ao volante do carro que comprara há três meses, seu rosto transparecia o ânimo que o propelia para mais uma exaustiva jornada de trabalho, das oito às dezoito horas – trabalhava como um cavalo para, ao final do mês, receber um salário de mula.

Comentários:

Empolgado com as idéias que me assaltaram a mente, escrevi, rapidamente, estes três parágrafos. Interrompi a redação da narrativa para registrar observações a respeito das minhas dúvidas quanto ao teor do que escrevi.

Fiz uma lista com mais de cinquenta nomes. Desta lista, selecionei oito nomes: Paulo, Vicente, Antonio, João Carlos, Sergio, Roberto, Djalma e Lauro. Selecionados estes nomes, perdi preciosos minutos pensando qual deles é o mais apropriado para o meu personagem. Escolhi João Carlos, nome que, todavia, não me agradou. Se não me agradou, por que, então, o escolhi para o meu personagem? Se eu soubesse o que há nos escaninhos do meu cérebro! João Carlos é o nome do meu personagem. Embora eu o tenha escolhido dentre vários outros nomes, estou à procura de outro nome, que me seja mais simpático. Pergunto-me: Quais são os meus critérios para batizar os meus personagens com um nome, e não com outro? Alguma coisa – o quê?, não sei – indica-me um nome, e o procuro, muitas vezes sem saber que nome é esse. É como se houvesse algo no meu interior que me dissesse que este, e não aquele, é o nome apropriado para o personagem A, e não para o personagem B. É uma sensação estranha – direi indefinível. Não posso explicá-la. Já escrevi contos com personagens que de mim receberam o nome de José, Sebastião, Gumercindo, Paulo, Evandro, Humberto, Godofredo, Washington, Murilo, Lúcia, Stéfani, Larissa, Verônica, Maria, Tábata e Angelina. Como se vê, nomes comuns e nomes incomuns. Por que me decido por uns, e não por outros, não sei explicar. Penso comigo: Tal personagem tem cara de Godofredo. Godofredo! Como é um homem chamado Godofredo? Não sei, não conheço nenhum Godofredo. Então, vou mudar o exemplo: Tal personagem tem cara de José. Conheço vários José. José é o nome mais comum, no Brasil, de homens, e também de mulheres. Conheço várias Maria José. Como é um homem chamado José? Os Josés que conheço não se parecem uns com os outros. Conheço-os baixos, altos, gordos, magros, calvos, cabeludos, negros, brancos, cafuzos, mamelucos, pardos, e até japoneses e árabes. Quero dizer: brasileiros descendentes de japoneses e brasileiros descendentes de árabes. Fica a pergunta: O que vejo num personagem masculino, enquanto o concebo, para vir a batizá-lo de José, e não de Ariovaldo? Essa questão, como se pode concluir, dá muito pano pra manga.

Pergunto-me: Conservo o início do conto? Apresentei João Carlos acordando, banhando-se, tomando o café-da-manhã, saindo da sua casa, de carro, na manhã de uma segunda-feira, para ir ao trabalho. Cena tão trivial não despertará no leitor a curiosidade, tampouco a vontade de dar sequência à leitura. Que conto sairá deste início tão insosso!? Um conto banal, é certo. Tenho de modificá-lo. Ou, se não modificá-lo, narrar, na sequência, um evento que desperte a curiosidade do leitor; não se faz imprescindível um evento grandioso, fantástico, como um ataque de alienígenas à Terra, ou a detonação de uma guerra termonuclear, mas, sim, um evento que prenda a atenção do leitor, e o agrade, além de agradar-me; que lhe excite a curiosidade; e que inspire-me novas cenas para a sequência da narração.

Narro, agora, um evento chocante (decidirei, depois, se conservarei os três parágrafos iniciais do conto):

Ao passar pelo cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco, José Carlos atropelou uma loira que atravessava a rua.

Comentários:

Decidi substituir João Carlos – nome que não me agradou – por José Carlos. Pergunto-me se, em vez de uma loira, a mulher atropelada não pode ser uma morena, ou uma negra, ou uma mulata. Queimo as pestanas pensando nisso. Para ao mesmo tempo complicar e descomplicar a questão, penso em outra alternativa, que é a que mais me agrada: substituir a loira por uma ruiva. As ruivas são exóticas, pitorescas. Eu já vi quantas ruivas? A última ruiva que vi, há mais de dois anos… Isso não vem ao caso. Decidi: Modificarei o início do conto. Excluirei os três primeiros parágrafos, e o quarto parágrafo eu o modificarei – para melhor, presumo. Substituirei a loira por uma ruiva. E faço-me as seguintes perguntas: Por que o acidente ocorreu no cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco? Não poderia ter ocorrido no cruzamento da rua Oliveira Lima com a Euclides da Cunha? Ou, então, no da rua Gilberto Freyre com a Machado de Assis? Ou no cruzamento da avenida José de Alencar com a rua Washington Luis? Ou no da avenida Oswaldo Cruz com a Emílio Ribas? Não é, como aparenta, tão simples tomar uma decisão a respeito desses detalhes, que não são irrelevantes.

O início do conto fica assim:

7:00. José Carlos retira-se da sua casa, de carro. Duzentos metros depois, distraído, ouvindo uma canção de Noel Rosa, chegou ao cruzamento da avenida Emílio Ribas com a avenida Oswaldo Cruz. De repente, do nada, surgiu-lhe, à frente do carro, provocando-lhe intensa onda de calafrios, uma ruiva jovem, bonita, atraente. Instintivamente, José Carlos afundou o pé no pedal do freio. O carro parou a um palmo da ruiva, que, petrificada, os olhos arregalados, a boca escancarada, fitou José Carlos, que, num átimo, desafivelou o cinto de segurança, abriu o carro, e saiu, com o coração aos pinotes – no seu cérebro entrechocavam-se miscelâneas de pensamentos. Eram poucas as pessoas que testemunharam o evento. Dois homens levaram as mãos à cabeça; um deles proferiu um “Quase!”, e elogiou José Carlos, enquanto o outro limitou-se a empinar o corpo como se o carro tivesse ido em sua direção, e não em direção à ruiva. Diante da padaria, uma jovem levou a mão direita ao peito esquerdo. No jardim, sentados em um banco, dois homens teceram comentários desabonadores: “Mocinha lerda”, disse um deles, um sujeito de cabelos desgrenhados, barba hirsuta, roupas amarfanhadas, chinelos-de-dedos surrados; e o outro, tipo esdrúxulo, corcunda, calvo nas têmporas, de nariz volumoso de abas largas – a direita adornada com uma verruga roxa -, sobrancelhas espessas projetadas sobre os olhos, quase os cobrindo completamente, lábios descoloridos, orelha esquerda de abano, queixo pontudo, mãos calosas e pele coberta de pêlos grossos, que lhe emprestava aspecto simiesco, comentou: “A palerma está dormindo! A idiota não acordou!”, e tossiu duas vezes, e completou: “Se eu fosse o motorista, passaria por cima dela, para ela aprender a não ser burra”.

Comentários:

Tenho várias observações para apresentar a respeito das modificações que fiz, dos trechos que suprimi e das personagens que acrescentei. Exclui os dois primeiros parágrafos nos quais eu apresentava o protagonista despertando, banhando-se e degustando um lauto café-da-manhã. Conclui que tais parágrafos, para o conto que tenho em mente, são irrelevantes, portanto, prescindíveis. Suprimi-los foi a decisão correta, acredito. Talvez eu reconsidere esta minha decisão. Outro ponto a se considerar: eu havia escrito que o protagonista acordou dez minutos antes das cinco horas da manhã, e saiu da sua casa às 6:00 para iniciar o expediente de trabalho às oito horas. Ao pensar em outras idéias, as quais anotei à parte, conclui que manter o terceiro parágrafo implicaria em outras idéias, que não me agradam, as quais eu teria de inserir neste conto; refiz, portanto, o parágrafo, e apresentei o protagonista retirando-se da sua casa às sete horas. Na versão que abandonei, eu apresentaria o protagonista rumando para a empresa, localizada na cidade vizinha, distante cento e cinquenta quilômetros da sua casa, para a qual ele regressaria às 20:00, ou às 20:30. Abandonei essas idéias. Escreverei, na versão atual do conto, que a empresa na qual o protagonista trabalha localiza-se na cidade na qual ele reside; ele, portanto, não precisará retirar-se da sua casa às seis horas para ir à empresa na qual trabalha. Saindo de sua casa às sete horas, ele chegará, com quinze minutos de antecedência, na empresa.

Outra observação: O nome José Carlos não me é simpático, mas não sei se o substituirei por outro nome. Pensei, hoje, nos seguintes nomes para o meu personagem: Charles, Davi, Heródoto, Rubens e Gustavo, e, ontem à noite, pensei nestes nomes: Frederico, Henrique, Cauã, Salomão, Demócrito, Lúcio, Felipe, Ulisses e Laércio.

Agora, ao ponto mais importante de todas as modificações e acréscimos que fiz: as pessoas que testemunharam o evento. Antes, eu não me referira à nenhuma testemunha, pois escrevi que o evento se sucedera no cruzamento da rua Rui Barbosa com a Joaquim Nabuco, situado num bairro residencial de pouco movimento às seis horas da manhã. Agora, relatei o evento sucedendo-se, às sete horas da manhã, no cruzamento das duas principais avenidas da cidade, a Emílio Ribas e a Oswaldo Cruz, situado no centro da cidade. Às sete horas da manhã, há, lá, muitos transeuntes. Primeiro, limitei-me a aludir às testemunhas. Considerei, depois de algumas ponderações, inadequado limitar-me à alusão às testemunhas e, sem entrar em pormenores, dar sequência à narrativa. Foi, então, que concebi as cinco testemunhas; para duas delas emprestei características físicas de dois mendigos bêbados, ambos feios, desgraciosos; os seus comentários a respeito da ruiva eu os ouvi – para não ferir suscetibilidades, não os reproduzi com exatidão – há dois meses, na véspera do aniversário de uma amiga inestimável, a Érica, ao entardecer. Relato o episódio: Chegou-me, de trás de mim, o som de freada brusca. Ao olhar por sobre o ombro direito, entrevi, à frente de um carro parado no meio da rua, uma roda e o guidão de uma bicicleta vermelha e a cabeça de um garoto de cabelos compridos repartidos ao meio. Uma fração de segundo depois, vi dois mendigos de aparência repulsiva atravessando a rua; eles teceram comentários desabonadores em tom de voz elevado. Não reproduzi, como comentários à ruiva, os comentários que eles fizeram ao garoto, pois são irreproduzíveis. Outros escritores – para os quais as obscenidades são como o sangue que lhes corre pelos vasos sanguíneos – os escreveriam. Eu, atendendo ao meu desejo, reservo-me o direito ao requinte do vocabulário. Declarei que este é o ponto mais importante que eu consideraria aqui. Não o é, entretanto. Há outro ponto de equivalente grau de importância. José Carlos, o protagonista, não atropelou a ruiva. Na versão anterior, José Carlos atropelou a loira – que substitui por uma ruiva. Antes, o protagonista atropelou a loira; agora, ele não atropelou a ruiva.

Encerrados os comentários, escrevo a sequência do conto:

– Tu estás bem? Estás machucada? – perguntou José Carlos, com voz quase sumida, à ruiva. Ansioso, com o coração aos pulos, fitava a ruiva com olhar perdido. Não sabia se se aproximava dela, pegava-a ao colo, punha-a no carro, para conduzi-la ao pronto-socorro, ou se dela mantinha distância respeitável. Tocou-a no ombro com as pontas dos dedos da mão esquerda. A ruiva, emudecida, moveu a cabeça para cima e para baixo, lentamente, dando a entender que se sentia bem e não se machucara.

José Carlos pediu-lhe que entrasse no carro. Disse-lhe que a conduziria ao pronto-socorro. Ela disse, em tom baixo, ao mesmo tempo que levava ao peito a mão direita aberta, que não precisaria ir ao pronto-socorro, pois sentia-se bem. Estava lívida. José Carlos, atencioso e preocupado, conduziu-a à calçada. Ato contínuo, foi ao carro, manobrou-o até à margem da rua, estacionou-o próximo da ruiva, retirou-se do carro, dirigiu-se à ruiva, cujo nome era Verônica.

Comentários:

Estes dois parágrafos apresentam o que eu quis expressar: uma cena corriqueira, na qual os dois personagens principais entabularam conversa. Desconsiderando alguns detalhes, como o nome da ruiva (pensei em Ludmila, Larissa, Verônica, Laura, Jaqueline, Inês, Natasha, Íris e Yulia – e decidi-me por Verônica), o texto agradou-me. Sinto-me extremamente contente por ter dado sequência à narração, tendo em vista que despendi, para este curto trecho, três horas de um dia ensolarado. Suspeito que foi uma tarde proveitosa e me regozijo com a redação deste conto, que se encorpa, lentamente, gradativamente, mais lentamente do que eu gostaria; e vou encontrando soluções para as complicações inerentes à trama; soluções que, se não me agradam, preenchem as lacunas, e dão corpo ao texto.

Prossigo:

Algumas pessoas aproximaram-se de José Carlos e de Verônica. Umas, consolavam-na; outras, estudavam as atitudes de José Carlos e observavam Verônica. Alguns homens, que não foram lá para prestar auxílio a Verônica, não se interessavam pelo que lhe ocorrera – admiraram-lhe a formosura do porte.

Comentários:

Até aqui o texto encaminha-se bem. As personagens que representam a multidão eu as apresentei superficialmente, mas da maneira adequada, acredito. Algumas dentre elas são solícitas e prestativas; outras, homens animalescos, estavam lá para satisfazer a lubricidade. E José Carlos devotou à Verônica a sua atenção. Foi atencioso, mostrou-se preocupado, e insistiu em conduzi-la ao pronto-socorro; os seus gestos e as suas palavras revelam os seus bons sentimentos.

À sequência do conto:

José Carlos disse para Verônica que a conduziria ao pronto-socorro. Ela lhe disse, mais uma vez, que não se machucara, que apenas se assustara com o sucedido, e pediu-lhe que não se preocupasse; gracejando, disse-lhe que ele estava mais nervoso do que ela, e que ele, e não ela, precisava ir ao pronto-socorro. José Carlos sorriu.

Aos poucos, Verônica foi recuperando a cor natural do rosto. José Carlos, cujos sentimentos confundiam-se, fitava-a, embevecido, atraído pela sua beleza. Preocupava-se com Verônica ou dedicava-lhe tanta atenção por que ela era uma mulher bonita e atraente?

Comentários:

Destes dois parágrafos gostei apenas do primeiro; do último, não. Quais sentimentos Verônica despertou em José Carlos? Insinuei que, assim que Verônica recuperou as cores naturais do rosto, aflorou à mente de José Carlos pensamentos que não correspondiam à sua índole, à que lhe atribui nos parágrafos precedentes. A interrogação ao final do último parágrafo dá a entender que José Carlos não é um homem sincero, bem-intencionado, mas, sim, um canalha. O último parágrafo, se eu o conservar, inspirará no leitor certas expectativas quanto à conduta de José Carlos, expectativas que não pretendo lhe inspirar, pois desejo respeitar a trama original, a qual apresentei no princípio deste texto. José Carlos – é o que tenho em mente – impelido pelos ditames de um coração generoso, não pode misturar sentimentos censuráveis ao seu sincero desejo de prestar auxílio à Verônica. Excluirei, portanto, o último parágrafo. E dou sequência à narração:

A ruiva recuperou a cor natural do rosto. Inspirou e expirou como se removesse de dentro de si pensamentos que lhe pesavam no espírito.

Conquanto se persuadisse de que ela não se machucara, José Carlos insistiu em conduzi-la ao pronto-socorro.

– Qual é o teu nome? – perguntou-lhe José Carlos.

– Veruska – respondeu a ruiva.

– Veruska, se tu quiseres ir ao pronto-socorro…

– Não. Obrigada. Não me machuquei…

– José Carlos.

– José Carlos, não me machuquei. O carro nem encostou em mim. Acredite-me – sorriu.

– Bem… então… Queres que eu telefone para alguém? Para teu pai? Para tua mãe?

– Não, José Carlos. Obrigada. Estou bem. Acredite, estou bem.

Comentários:

Decidi modificar o nome da ruiva. Pensei, além de Veruska, em Zuleika, Fabíola, Ariadne, Marianne, Dayanne, Paola, Samantha, Pâmela, Dorotéia e Gislaine, além dos que mencionei linhas atrás. Decidi-me por Veruska porque este nome, melhor do que os outros, encaixou-se, à perfeição, na personagem ruiva. É como se houvesse um vínculo entre Veruska e as ruivas. Como se, como direi?, todas as ruivas, por serem ruivas, se chamassem Veruska. Não consigo imaginar uma ruiva chamada Maria, ou Elisabete. Já imaginei ruivas chamadas Yulia e Natasha, nomes incomuns, aqui, no Brasil, mas comuns, presumo, na Rússia e na Ucrânia. Mas Yulia e Natasha não são os nomes ideais para a ruiva. Veruska, sim, é. Por quê? Não sei. Sempre que imagino uma ruiva, penso em nomes pitorescos. Decidi, também, mudar um detalhe significativo: Antes eu mantivera José Carlos ignorante do nome da ruiva; agora, decidi fazê-lo tomar a iniciativa de perguntar à ruiva o nome. Dei, assim, um toque mais íntimo à cena.

Dou sequência ao relato:

Veruska disse que estava em condições de ir até o escritório de contabilidade no qual trabalhava. José Carlos ofereceu-lhe carona. Veruska a recusou, com gentileza; disse-lhe que iria, a pé, até lá. José Carlos insistiu em conduzi-la até o escritório e disse-lhe que não aceitaria um ‘não’ como resposta. Fitaram-se. Veruska sorriu, constrangida; após alguns segundos de silêncio, disse para José Carlos que aceitaria a carona.

Entraram no carro.

Durante o trajeto, falaram de filmes e espetáculos musicais.

Chegaram ao escritório de contabilidade dez minutos depois.

– Queres que eu explique para a tua patroa o que aconteceu e porque tu estás atrasada? – perguntou José Carlos.

– Não, José Carlos – respondeu Veruska. – A Lúcia sabe que tive um bom motivo para me atrasar.

Comentários:

Mais uma vez, não me simpatizo com um nome que escolhi para uma personagem: Lúcia, o da patroa da Veruska. Pensei em outros três nomes: Renata, Paula e Felícia. Optei por Lúcia. Por quê? Não sei. Mas será Lúcia o nome da patroa da Veruska. Outro ponto relevante: o sexo do superior hierárquico imediato da Veruska. No início, pensei em um homem, cujo nome seria, ou Fabiano, ou Rodolfo, ou Ulisses, ou Zacarias, ou Isaias. Foram esses os cinco nomes que me vieram à cabeça. Abandonei-os ao decidir-me por uma mulher. Preferi uma patroa para a Veruska, e não um patrão. E ficará assim.

Retomo a narração:

Veruska retirou-se do carro. À porta do escritório de contabilidade, voltou-se, e acenou para José Carlos, que lhe retribuiu o aceno, esperou-a entrar no escritório, e retirou-se.

Durante o dia, José Carlos pensou em Veruska. Reviu-a diante do carro – tentou dimensionar o medo que lhe avassalara o espírito -, assustada, com a boca escancarada e os olhos tão abertos que, parecia, iriam pular das órbitas.

– Terra chamando Zé Carlo. Terra chamando Zé Carlo. Atenda, Zé Carlo. Câmbio. Atenda, Zé Carlo. Câmbio. Terra chamando Zé Carlo – disse, bem-humorado, Eduardo, ao mesmo tempo que dava um tapa na nuca de José Carlos.

– O que tu desejas, Eduardo? – perguntou José Carlos.

– Em qual planeta tu estavas?

– O quê?

– Em qual galáxia tu estavas?

– Eu estava aqui, com os meus pensamentos.

– Sei. Pensavas em uma mulher. Ela é bonita?

– Não me incomode, Eduardo. Vamos trabalhar.

Comentários:

Este trecho agradou-me. Concebi o personagem Eduardo e, automaticamente, entendi que ele é um personagem apropriado para este trecho do conto; de imediato, suprimi o que eu escrevera, trecho demasiadamente sério, desprovido de humor. Conheci pessoas como Eduardo, pessoas sempre bem-humoradas e de bem com a vida, mesmo que tenham passado por maus bocados e comido o pão que o diabo amassou. Um dos meus amigos, Josué, um tipo avoado, é assim. Ele está sempre de bom humor, e perde, com freqüência, a noção da realidade – é impossível manter com ele uma conversa séria por mais de trinta segundos –, e não sei se os eventos que ele narra sucederam-se como ele diz, pois ele insere, nas narrativas dos eventos que protagonizou, detalhes fictícios oriundos dos labirintos de uma mente extraordinariamente criativa. E mais uma vez me implico com o nome que escolhi para um personagem. Para o amigo de José Carlos escolhi o nome Eduardo, após abandonar o nome Marcelo, pois batizei com este nome um personagem que criei para outro conto, e os nomes Roberto, Fábio, Danilo e Daniel.

Retomo a narração:

Eduardo, durante a conversa, disse para José Carlos ir ao escritório onde Veruska trabalha, e aconselhou-o a convidá-la para jantar.

– Não é todo dia que se encontra uma ruiva – disse Eduardo. – Irás deixá-la escapar, Zé Carlo?

– Não confundas as coisas, Eduardo – censurou-o José Carlos. – Quase a atropelei. Depois, como eu disse, eu a levei até o escritório de contabilidade, e vim trabalhar.

– Sei, Zé Carlo – disse Eduardo, em tom zombeteiro. – Tu não te interessaste por ela? Tu queres te enganar? Quem tu queres enganar? Eu? Ou tu? Se tu queres me enganar, saibas que não conseguirás. Se tu queres te enganar, engana-te. Mas saibas que, se tu te deixares enganar por ti, serás um otário.

– Tu não entendeste, Eduardo. A Veruska… Eu não a conheço. Eu a vi, e pela primeira vez, hoje, e numa ocasião… Como eu diria?

– Adequada para o início de um romance.

– Não digas asneiras…

– Asneiras!? Quais asneiras eu disse? Da minha boca, até agora, nenhuma asneira saiu. Zé Carlo, tu não assistes filmes? A maioria dos romances… Como se diz? Romances profícuos? Não. Como é que se diz? Não encontro a palavra adequada…

– O que queres me dizer, Eduardo? Que eu e a Veruska nos casaremos, e viveremos felizes para sempre?

– Exatamente. Tiraste as palavras da minha boca, mas não todas elas.

– Tu confundes a realidade com um conto de fadas. Não sou um príncipe, e a Veruska não é uma princesa.

– Ela pode não ser uma princesa, mas te enfeitiçou. E tu és um sapo. E o que acontece quando uma princesa beija um sapo? Cospe, o rosto a transparecer, em esgares que o deformam, o nojo que lhe avassala o espírito, nojo que deixará de sentir ao beijar um príncipe, ou duas horas após chamar o Hugo. Queres saber, Zé Carlo: Não queiras dissimular os teus sentimentos. O teu olhar, o teu rosto e o teu sorriso revelam-me a paixão que tu sentes pela Veruska.

– Não digas asneiras.

– Nunca falei tantas verdades na minha vida, sabes disso. Estou surpreso comigo. Nunca me imaginei no papel de Cupido. Como eu dizia, mas tu me interrompeste, nos filmes, principalmente nas comédias românticas, uma história de amor começa, infalivelmente, com uma trombada dentro de uma loja. Nunca viste tal cena? É infalível: Uma linda mulher, em um shopping center, após comprar, numa de suas lojas, roupas e calçados, anda, carregando sacolas e uma pilha de caixas, pelos corredores, e, ao passar em frente à porta de outra loja, esbarra-se em um homem, as caixas escapam-lhe das mãos, e esparramam-se, abertas, umas, fechadas, outras, pelo chão, e ela faz um gesto de surpresa e de contrariedade; ao olhar para o homem no qual se esbarrou, arregala os olhos, surpresa com a beleza do bonitão, que a enfeitiça, e o enfeitiça, e os dois, enfeitiçados, agacham-se para recolher do chão as caixas, a linda mulher, encabulada, sorrindo à toa, e o bonitão, elegante, sorridente, exibindo dentes branquíssimos, a admira, elogia-lhe o rosto formoso, o sorriso cativante e os olhos lindíssimos. Recolhidas do chão as caixas, levantam-se, conversam, sorrindo ambos à toa, ele, ávido de desejo, querendo se lançar nos braços dela, e beijá-la, e ela, sedenta de desejo, querendo lançar-se nos braços dele, e beijá-lo, e estreitá-lo num estreito amplexo… Gostaste? Amplexo. Li esta palavra num livro de José de Alencar; se não foi num livro dele, foi num livro de outro escritor. Como eu dizia, o bonitão e a linda mulher agem com discrição, para não se exibirem como levianos e indecentes um para o outro. Resumindo o enredo: eles se encontram, casualmente ou não, num outro dia, e dão início a um relacionamento entre tapas e beijos. No final, antes do famoso The End, eles se casam, e vivem felizes para sempre.

– Um ótimo roteiro para um filme de Hollywood – comentou José Carlos, sorrindo.

– Eu sei. Mas não apenas para um filme de Hollywood. Muitos relacionamentos profícuos… É assim que se diz? Li esta palavra num romance do Lima Barreto; se não foi num romance dele, foi num do Machado de Assis, ou num de outro escritor. A história que contei é roteiro de filme? Pode ser. Ora, Zé Carlo, como sabemos, a arte imita a vida, e a vida imita a arte. Convenhamos, a vida imita mais a vida do que a arte, e a arte imita mais a arte do que a vida. Muitos romancistas fundem, numa personagem, características de uma personagem de outro escritor com as de pessoas que conheceram e as de pessoas que conhecem. As pessoas, ao tomarem uma decisão, consideram o que outras pessoas lhes disseram e o que soube que outras pessoas fizeram em situações semelhantes. Zé Carlo, como eu dizia, a vida não imita a arte, e a arte não imita a vida. Elas se imitam. Vida e arte estão imbricadas. Imbricadas! Em qual romance li esta palavra? Foi num romance do Camilo Castelo Branco? Se não foi num romance dele, foi num romance do Aluísio Azevedo. Se não foi num romance de nenhum deles, então não sei em qual romance a li, mas tenho certeza de que a li num romance, se não brasileiro, português; se nem brasileiro, nem português, então foi num romance francês, ou inglês, ou russo, ou americano. Zé Carlo, tu viste… Do que eu falava?

A estrondosa gargalhada de José Carlos ecoou pelo escritório.

Comentários:

Eu escrevera um relato telegráfico, como se diz, de um diálogo de José Carlos e Eduardo. Um falava seis ou sete palavras, e cedia a palavra para o interlocutor, ou o interlocutor interrompia-o, impedindo-o de completar os comentários. Para mim, tal diálogo não expressava, como eu o desejava, a personalidade expansiva e bem-humorada de Eduardo, um sujeito bonacheirão e tagarela. Suprimi o diálogo. Debruçado sobre a mesa, com a caneta esferográfica à mão, sustentando a cabeça com a mão esquerda, pensei no que escreveria em substituição ao diálogo suprimido. Após uns minutos durante os quais rabisquei a folha de sulfite à minha frente e escrevi o meu nome dezenas de vezes, decidi retirar-me daqui. Fui à sala, mexi em jornais e revistas, para logo retirar-me, e ir ao quintal, onde andei em círculos sob o abacateiro; enfim, regressei à biblioteca, e escrevi o diálogo que se lê nas linhas precedentes.

As melhores idéias me vêm à mente durante a redação do texto o qual modifico à medida que vou desenrolando a história; não foi isso o que me ocorreu hoje, ao me sentir incapaz de criar um diálogo de José Carlos e Eduardo. Escrito o diálogo, satisfeito com o que escrevi, após corrigi-lo durante duas horas e trinta minutos, interrompi a redação da narrativa para registrar estes comentários. O diálogo é perfeito para o que tenho em mente. Agora encerro os comentários, e dou sequência ao conto, que se encaminha para o encerramento:

Durante a manhã, Eduardo, sempre que se lhe oferecia uma oportunidade, falava, sorrindo, para José Carlos ir ao escritório no qual Veruska trabalhava, e convidá-la para um jantar romântico à luz de velas. No almoço, realçou as suas exortações. José Carlos divertia-se com as narrativas que Eduardo lhe contava, com o propósito de o persuadir a ir ao escritório de contabilidade, e convidar Veruska para um jantar romântico à luz de velas, nas quais inseria princesas, fadas, semi-deuses, atrizes famosas e personagens de romances e de revistas em quadrinhos.

Durante à tarde, até o encerramento do expediente, Eduardo renovou as exortações com os mais sensatos e os mais disparatados argumentos.

Ao retirarem-se do escritório, antes de se despedirem, Eduardo disse para José Carlos:

– Zé Carlo, a Veruska, estou certo, pensou em ti. Tu pensaste nela, então ela pensou em ti.

– O que tu dizes não faz sentido.

– Não faz sentido?

– Não. Ela pensou em mim porque pensei nela? Isso não faz sentido, Eduardo.

– Não faz sentido! Essa é boa. Tu me surpreendes, Zé Carlo. Tu me surpreendes. Como assim, o que eu disse não faz sentido!? Em que mundo tu vives? Tu nunca ouviste falar de energias cósmicas? Tu nunca ouviste falar de simulacros cosmogônicos? Tu nunca ouviste falar da teoria das supercordas? Tu nunca ouviste falar do princípio da incerteza? Tu nunca ouviste falar de ressonância mórfica? Tu nunca ouviste falar de paralaxe cognitiva? Tu nunca ouviste falar do teorema de Pitágoras?

– Do que…

– Não me interrompas, Zé Carlo. Tu nunca ouviste falar do irresistível poder de atração dos átomos dotados de sentimentos afins?

– O quê? Átomos têm sentimentos?

– Têm. Do que os nossos corpos são compostos? De átomos. Temos sentimentos, não temos? Como os nossos sentimentos são produzidos? Não sei como são produzidos, mas sei que são os átomos que os produzem. Os átomos do teu corpo e os do corpo da Veruska compartilham os mesmos sentimentos, e desde a criação do mundo, como está escrito no Gênesis.

Com os mais estapafúrdios argumentos, Eduardo conseguiu, por meios incompreensíveis à inteligência humana, persuadir José Carlos a ir ao escritório de contabilidade no qual Veruska trabalhava.

Parado ao cruzamento da rua Dom João VI com a avenida Abraham Lincoln, José Carlos olhou para o escritório de contabilidade no qual Veruska trabalhava, distante uns cem metros. Havia vários carros e motos estacionados em toda a extensão da rua. O trânsito, intenso; o barulho, infernal. Ansioso, José Carlos se perguntou se Veruska já se retirara do escritório e fora-se embora. Tamborilava o volante e alternava a sua atenção entre o semáforo, que, parecia-lhe, fora desativado, e a porta do escritório de contabilidade. Entreviu duas mulheres saindo do escritório. Uma loira alta e Veruska. José Carlos pensou em pisar no acelerador, e transgredir uma lei de trânsito. O semáforo abriu para ele. José Carlos viu Veruska e a loira se despedindo com beijos nos rostos. Ao aproximar-se de Veruska, buzinou, e chamou-a pelo nome. Veruska voltou-se para ele, e acenou-lhe. José Carlos, com a mão direita, fez-lhe sinal para ela entrar no carro. O motorista do carro que ia logo atrás do de José Carlos buzinou. Veruska, passos acelerados, foi até o carro, e José Carlos abriu-lhe a porta do carro, e pisou no acelerador tão logo ela se sentou e fechou a porta. Veruska deu início à conversa ao perguntar-lhe do seu trabalho. José Carlos reconstituiu o dia, e falou, rindo, dos comentários de Eduardo a respeito dos sentimentos afins dos átomos. Veruska sorriu, e exibiu duas fileiras de dentes branquíssimos. Seu rosto encantador transpareceu a alegria que a contagiava. O rubor realçou-lhe a beleza cativante.

À frente da casa de Veruska, ainda dentro do carro, José Carlos perguntou para Veruska se ela queria ir com ele, ou a uma pizzaria, ou a um restaurante. Veruska, encabulada, abriu um largo sorriso, disse-lhe que não tinha compromisso para aquela noite e não havia razão para não ir com ele ou para uma pizzaria ou para um restaurante, dando a entender que dele gostaria de receber um convite. José Carlos percebeu que Veruska, enquanto falava, ajeitava os cabelos, avaliava as unhas, fitava-o, e, encabulada, desviava o olhar, e não suprimia do rosto, cujas maçãs salientes destacavam-se, e o rubor as realçava, o sorriso cativante. Os olhares de ambos encontraram-se. O silêncio que se seguiu, constrangedor, de indisfarçável significado. Ambos desviaram o olhar, e olharam para a frente. Nenhum deles sabia como dar sequência à conversa. Enfim, após encher os pulmões, e expirar, controlando-se, lentamente, José Carlos, com voz suave, perguntou para Veruska:

– Queres jantar comigo, Veruska?

Veruska ajeitou os cabelos, abriu um largo sorriso, olhou para José Carlos com olhar de indisfarçável paixão, e disse, com a voz tão baixa que, para ouvi-la, José Carlos não precisou da audição, mas apenas de paixão:

– Quero.

Marcaram o encontro.

Às vinte horas, José Carlos foi à casa de Veruska. Veruska mirava-se ao espelho e dava os últimos retoques no vestido. Enquanto a esperava na sala-de-estar, José Carlos conversou com Mateus, pai de Veruska, e Berenice, mãe dela. Ele, de porte majestoso, barba e bigodes rapados, cabelos penteados para trás, de temperamento tranquilo, silabava, corretamente, as palavras; ela, magnífica mulher de quarenta anos, robusta, ruiva, de voz suave, cabelos compridos. Ambos elegantes. Ambos de impecável formação intelectual, inteligentes, decentes e trabalhadores. José Carlos impressionou-se com o porte físico e a postura deles, com a elegância que eles exibiram, e com a hospitalidade, o bom-humor, e o conhecimento que possuíam da cultura brasileira e da de outros países. Durante a conversa de menos de uma hora, José Carlos ouviu comentários a respeito da obra de filósofos e romancistas cujos nomes jamais ouvira. Dentre os mencionados, os mais enaltecidos foram Ludwig von Mises, Mário Ferreira dos Santos, Gilberto Freyre, Liév Tolstoi e Dostoiévski, cujas obras, declararam Mateus e Berenice, são, dentre das de outros raros intelectuais e romancistas de inteligência vigorosa, inegável sabedoria e honestidade intelectual, de leitura obrigatória para todas as pessoas que desejam compreender a civilização moderna.

Veruska, enfim, apareceu à sala-de-estar. José Carlos fitou-a, maravilhado. Berenice não titubeou:

– Tu estás linda, filha.

– Linda ela sempre foi – comentou Mateus. – Hoje, ela está exageradamente linda.

Encabularam-na tais comentários. Ruborizou-se-lhe o rosto, cujas maçãs destacaram-se.

José Carlos sentiu o coração vibrando violentamente.

Berenice deslizou, suavemente, suas mãos macias pelos cabelos sedosos de Veruska, e deu-lhe um beijo suave no rosto.

– A benção, mamãe.

– Deus te abençoe.

Ao aproximar-se de seu pai, Veruska pediu-lhe a benção.

– Deus te abençoe – e ele lhe pousou a mão esquerda, de leve, mal a tocando, na face direita, e beijou-lhe o rosto esquerdo.

José Carlos despediu-se de Berenice e Mateus.

Naquela noite, José Carlos e Veruska começaram a namorar.

Oito meses depois, casaram-se, na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Transcorridos quatorze meses, Veruska deu à luz Renato, menino rechonchudo e saudável. Transcorridos outros dezessete meses, nasceu Samantha, que herdou de sua mãe os cabelos ruivos.

Há oito anos José Carlos e Veruska vivem em lua-de-mel. Renato e Samantha crescem, belos e repletos de saúde e de alegria.

Comentários:

Farto dos finais tristes dos romances modernos, perguntei-me se não seria melhor eu encerrar este conto com um final feliz. Abandonei a idéia original, que não era original, e escrevi o final que me agrada. Não é original; todavia, satisfaz os meus anseios.

O escritor que era original

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos buscou a originalidade durante quase toda a sua vida, que se estendeu por setenta e dois anos. Certo dia, reconheceu, após muitas horas de reflexão, que todas as narrativas que havia escrito os gregos, os romanos, os espanhóis, os italianos, os franceses, os russos, etc., etc., já as haviam contado séculos antes, e, então, certo de que se consumiu em trabalho infrutífero, reconheceu que havia desperdiçado, inutilmente, décadas da sua vida, mas estava feliz, pois entendia, agora, qual era a atitude apropriada para o labor literário, iluminado pela sabedoria universal. Decidiu queimar todos os seus textos. Arremessou resmas e resmas de papel à fogueira, e sentiu-se livre da opressão de todos os sentimentos angustiantes que o sufocaram durante as décadas que antecederam o seu ato de alforria, ciente de que conhecia, agora, a fórmula da excelência literária. A fogueira ardeu durante quatro horas. E a partir desse dia, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não leu sequer um livro, pois não queria que o influenciassem em sua obra que estava por escrever Homero, Boccaccio, Cervantes, Victor Hugo, Machado de Assis, Proust, Dostoiévski, Tolstoi, Turgueniev, e outros escritores influentes. Que eles influenciassem outros escritores; ele, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, não. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos sabia, agora, inspirado pela sabedoria universal, que a excelência literária encontra-se na simplicidade das coisas do mundo, e, atendendo aos seus anseios, sublimados pelas forças inspiradoras do universo – que estão além do alcance da mente debilitada das pessoas contaminadas pela civilização tecnológica na qual estão imersas -, poderia haurir da sabedoria da natureza, pois estava preparado para, sem açodamento, fruir do aroma natural das coisas do mundo, e escrever a sua obra perene. Não mais leu livros dos grandes mestres da literatura. Eles não eram imprescindíveis, como declaram inúmeros estudiosos, todos eles presunçosos, pernósticos, soberbos eruditos encastelados em torres de marfim. Desfez-se Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos dos seus livros. Não os cedeu para bibliotecas públicas, e nem para as universitárias; não os vendeu para livreiros, nem para bibliófilos, tampouco os doou para alguma instituição. Queimou-os. Sim. Queimou-os. Eram todos os livros, e os clássicos dentre todos, perniciosos para a inteligência humana, acreditava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. Debilitavam-na os livros. Impediam o florescimento da sabedoria, da criatividade, da originalidade, que, para ele era, até então, inalcançável. As suas reflexões conduziram-lo para a elevação da sua mente sob a inspiração benéfica da sabedoria universal, e soube, então, o que tinha de fazer, e o que tinha de fazer era inadiável. Já havia desperdiçado muitos anos da sua vida com leituras, que o oprimiram, o impediram de pensar, de criar, de conceber tramas e personagens originais. Os escritores e os estudiosos aos quais atribuem sabedoria e genialidade sufocam os espíritos dos homens, são nocivos ao desenvolvimento da originalidade, estava convencido Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos. E não os condenam à fogueira. Enaltecem-los. Entoam loas para eles. Até hoje, Júlio César é difamado por ter ateado fogo à Biblioteca de Alexandria. Júlio César, segundo Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, merecia o reconhecimento da humanidade por haver tê-la livrado de obras que lhe roubariam a liberdade de espírito, que lhe propiciaria a originalidade de pensamento e de criação literária, científica, filosófica e política.

Recluso, em busca da originalidade, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos evitava contato com as pessoas, principalmente com os escritores. Viveu em busca da originalidade perdida, da originalidade que a humanidade perdeu, esta humanidade industrial, tecnológica, que se nega ao direito inalienável de usar de todo o seu poder mental, ao desconectar-se da natureza e de sua simplicidade inerente.

E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos reconheceu que todo o legado cultural da civilização é desprezível e emasculador.

Nas raras vezes que abandonava a sua reclusão, e dignava-se a olhar para um indivíduo da sua espécie, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos falava, e falava apenas o que considerava dever falar, não se interessando se os seus interlocutores, melhor, os seus ouvintes, estavam interessados no que ele lhes dizia; e os comensais, no almoço, no jantar, eram obrigados a ouvi-lo, em silêncio. E quando um deles esboçava um movimento a indicar-lhe o desejo de falar, ele o silenciava com um gesto, o cenho franzido, o olhar fixo, a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, o que lhe emprestava um aspecto inquisitorial. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não se dispunha a ouvir o que as pessoas desejavam lhe dizer, as histórias que elas desejavam-lhe relatar, os casos que elas desejavam-lhe narrar, as idéias a respeito dos mais diversos assuntos dos quais elas desejam-lhe inteirar e com ele debater; pois, acreditava, o espírito iluminado pela sabedoria universal e pela simplicidade da natureza, que lhe inspiravam pensamentos profundos e iluminadores, que as idéias que lhe queriam apresentar impedi-lo-iam de alcançar a tão almejada originalidade, e, alcançando-a, escrever a sua obra-prima, a sua obra suprema, celestial, porque sorvia da simplicidade da natureza, ainda não corroída pela civilização tecnológica, decantada esta em prosa e verso pelos industriais, pelos capitalistas ocidentais, pelos materialistas insensíveis. E a originalidade ele a alcançaria se não tivesse contato com idéias estranhas ao seu espírito, à sua alma, à sua condição primeva em contato com a natureza, condição que herdara dos seus mais antigos ancestrais, que jornadeavam pela Terra antes do advento da civilização, que desumanizou os humanos, deles eliminando o vínculo com a natureza. As pessoas que o ouviam, ouviam-no atentamente, fascinadas, embevecidas com tão excelsa sabedoria, com palavras de tão ardente vigor sapiencial, pronunciadas com a veemência encantadora de um venerável profeta antediluviano, e curvavam-se, reverentes, diante de tão extraordinária exibição de inteligência superior. Não o contestavam. Silenciavam-se. E admiravam-lo, alumbrados. Raros os que o criticaram. E estes os admiradores de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos repudiaram, e cortaram com eles as relações; excluíram-los do círculo de amizade e camaradagem. Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era um gênio da literatura moderna, diziam dele os seus admiradores. As idéias dele iam de boca em boca; disseminavam-las, e rapidamente, nos círculos intelectuais, universitários, literários, em todos os quadrantes do Brasil. As suas palestras, sempre repletas de ouvintes embevecidos. Nas universidades, ouviam-lo, maravilhados. Nas academias, reverenciavam-lo, curvados, joelhos no chão, a cabeça sobre o peito. Consagraram-lo o maior gênio das letras nacionais. E não atentaram para um detalhe: De Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos não havia nem um livro publicado, e ninguém jamais leu um texto de sua autoria. E Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, após haver lançado ao fogo todos os seus textos, os quais escreveu, segundo ele, durante as décadas em que se desencaminhou, influenciado por idéias equivocadas, que o angustiavam, e ele vivia, macambúzio, nos recantos sombrios da sua biblioteca e do seu espírito, em busca da arte literária que os livros não poderiam lhe ensinar, nenhum outro texto escreveu. Pensava as suas idéias, com esforço intelectual incomum, rara na história da espécie humana, e mentalmente as reelaborava, diuturnamente, exaustivamente, e incansavelmente, e as escreveria quando, e se, atingisse o ápice da expressão literária, perfeita, irretocável. Os seus admiradores desejavam que tal dia não tardasse a chegar. Laurearam as academias Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos com títulos de prestigio. Durante as palestras, Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos era infatigável – aludia à sua obra-prima, que daria à luz assim que atingisse a perfeição, fruto da originalidade almejada, dizia, e traria luz à medíocre literatura brasileira moderna, e, também, à literatura mundial, conquanto acreditasse que ela, principalmente a européia e a norte-americana, fosse infensa à simplicidade, à originalidade, corroída que estavam por técnicas narrativas modernas, dessensibilizadoras, hostis à verdadeira arte literária, que nasce da natureza humana em comunhão com a natureza, num vínculo imarcescível, diferindo, portanto, da literatura brasileira, da literatura latino-americana, da literatura africana, da literatura árabe e da literatura do sul da Ásia, as quais, embora tenham absorvido alguns vícios da literatura moderna, conservam, latentes, a beleza intrínseca do seu contato com a natureza. E arrancava Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos ovações grandiloquentes e aplausos ensurdecedores do público, que, em estado letárgico, ouvia-o, mesmerizado.

Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos granjeou reputação de beletrista provido de intelecto prodigioso.

Em vida, nada publicou. Morto, os admiradores da sua obra inexistente difundiram o seu nome, envolvendo-o com a aura de gênio original, universal.

Homenagearam-lo as academias.

No túmulo de Amarildo Vasquez W. G. N. Vasconcelos, o epitáfio: “Aqui jaz o autêntico gênio da literatura brasileira, ignorado pelo público iletrado, admirado por homens superiores que souberam reconhecer-lhe a excelência literária e apreciar-lhe a obra, que, de tão original, ele nunca a escreveu, e ninguém a conheceu”.

Polifonia Literária

Um espaço voltado para o desenvolvimento criativo de textos literários.

divinoleitao.in

Rede pessoal de Divino Leitão.

Reflexões para os dias finais

Pensamentos, reflexões, observações sobre o mundo e o tempo.

PERSPECTIVA ONLINE

"LA PERSPECTIVA, SI ES REAL, EXIGE LA MULTIPLICIDAD" (JULIÁN MARÍAS)

Pensei e escrevi aqui

— Porque nós somos aleatórias —

On fairy-stories

Fantasia, Faërie e J.R.R. Tolkien

DIÁRIO DE UM LINGUISTA

Um blog sobre língua e outros assuntos

Brasil de Longe

O Brasil visto do exterior

Cultus Deorum Brasil

Tudo sobre o Cultus Deorum Romanorum, a Antiga Religião Tradicional Romana.

Carlos Eduardo Novaes

Crônicas e outras literatices

Coquetel Kuleshov

um site sobre cinema, cinema e, talvez, tv

Leituras do Ano

E o que elas me fazem pensar.

Leonardo Faccioni | Libertas virorum fortium pectora acuit

Arca de considerações epistemológicas e ponderações quotidianas sob o prisma das liberdades tradicionais, em busca de ordem, verdade e justiça.

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

LER É UM VÍCIO

PARA QUEM É VICIADO EM LEITURA

Velho General

História Militar, Geopolítica, Defesa e Segurança

Espiritualidade Ortodoxa

Espiritualidade Ortodoxa

Entre Dois Mundos

Página dedicada ao livro Entre Dois Mundos.

Olhares do Mundo

Este blog publica reportagens produzidas por alunos de Jornalismo da Universidade Mackenzie para a disciplina "Jornalismo e a Política Internacional".

Bios Theoretikos

Rascunho de uma vida intelectual

O Recanto de Richard Foxe

Ciência, esoterismo, religião e história sem dogmas e sem censuras.

.

.

Prosas e Cafés

(...) tudo bem acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar - Caio Fernando Abreu

OLAVO PASCUCCI

O pensamento vivo e pulsante de Olavo Pascucci

Clássicos Traduzidos

Em busca das melhores traduções dos clássicos da literatura

Ensaios e Notas

artes, humanidades e ciências sociais

Minhas traduções poéticas

Site de tradução de poesias e de letras de música

Além do Roteiro

Confira o podcast Além do Roteiro no Spotify!

Farofa Filosófica

Ciências Humanas em debate: conteúdo para descascar abacaxis...

Humanidade em Cena

Reflexões sobre a vida a partir do cinema e do entretenimento em geral

resistenciaantisocialismo

Na luta contra o câncer da civilização!

História e crítica cultural

"Cada momento, vivido à vista de Deus, pode trazer uma decisão inesperada" (Dietrich Bonhoeffer)

Devaneios Irrelevantes

Reflexões desimportantes de mais um na multidão com tempo livre e sensações estranhas

Enlaces Literários

Onde um conto sempre puxa o outro!

Ventilador de Verdades

O ventilador sopra as verdades que você tem medo de sentir.

Dragão Metafísico

Depósito de palavras, pensamentos e poesias.

%d blogueiros gostam disto: