Eu fui para Ratanabá

Fez-se um auê dos infernos em torno da misteriosa Ratanabá, cidade mística incrustada, há trezentos milhões de anos, na floresta Amazônica. Está Ratanabá no centro de uma discussão que peca pela ignorância e descompromisso com a verdade, muitos que dela participam a fazerem-se de engraçados, sem que o sejam, unicamente para ridicularizar e difamar os oponentes políticos e religiosos. É deveras frustrante ver seres supostamente inteligentes envolvendo-se em deselegantes palestras que invariavelmente culminam em palavras ofensivas e, não raro, agressões físicas. Desejassem as pessoas, se dotadas de educação que o tema exige, ir ao encontro da, e não de encontro à, verdade, demonstrariam disposição, não apenas para ouvir as anotações divergentes, mas para executar estudos sérios e, principalmente, empreender uma expedição, à Amazônia, até a região em que, numa era remota, antediluviana, uma raça superior erigiu uma cidade gigantesca.
Aqui, nestas folhas de sulfite, escrevo, com uma caneta esferográfica de ponta fina que eu comprei, ontem, na papelaria perto de casa, o testemunho de uma aventura que protagonizei, há uns três anos. Uma aventura inesquecível.
Assim começou a minha história: em um domingo, ao verificar no extrato bancário a minha caderneta de poupança, vi, para a minha alegria, que eu tinha um saldo razoavelmente elevado, que me propiciaria realizar a viagem dos meus sonhos: ir à floresta amazônica, que sempre me despertou os instintos selvagens. Os olhos brilhando tamanha era a minha emoção, agradeci aos céus a educação que de meus pais e avós recebi, educação que me fez um homem parcimonioso, de hábitos simples, de refeições frugais. À noite, dormi, com os anjos, digo, tal qual uma pedra. Tratei, no dia seguinte, de agendar a viagem para dali uma semana. E no dia anotado para embarcar no avião, compareci ao aeroporto, entrei na nave espacial, e rumei à maior floresta da Terra. Estabeleci-me, na capital baré, em um hotel simples e aconchegante. Passeei por Manaus, durante os cinco dias seguintes. E neste quinto dia de viagem, ouvi, no mercado, três homens a conversarem, reservadamente, despertando-me a curiosidade. Falavam de Ratanabá, discretamente, perceptivelmente constrangidos, esforçando-se os três para não se fazerem ouvir por nenhuma outra pessoa. Foi em vão o esforço deles, afinal eu os ouvi. Intrigado com a história que acidentalmente me chegara aos ouvidos, acheguei-me, respeitosa, e prudentemente, dos três palestrantes, receando deles receber tratamento hostil, e perguntei-lhes, minha voz a transmitir seriedade, onde se situava a cidade misteriosa de que eles falavam tão apaixonadamente. De início, entreolharam-se, desconfiados, mas a minha postura, a minha fisionomia, o meu tom de voz, as palavras que usei para expressar-me, fê-los entender que comigo poderiam falar aberta e livremente a respeito de Ratanabá.
A tertúlia, animada, franca. Deram-me aqueles homens a localização da antiga cidade, há muito tempo perdida na floresta amazônica, misteriosa e selvagem floresta. Despediram-se de mim os três homens, e eles eu nenhuma outra vez os encontrei.
Duas semanas deles, apropriadamente vestido e apetrechado e munido com um bom sortimento de alimento enlatado, embrenhei-me na floresta, sem que pelas suas entranhas me ciceroneasse um poeta, e, enveredando-lhe pelo labirinto de árvores, a avistar animais sem conta, deparei-me com mistérios insondáveis. Eu me incursionava por uma região de mata densa, quase intransponível; feri-me, não poucas vezes, em espinhos pontiagudos de arbustos cujas folhas, verde-amarelo-alaranjadas rescendiam olor para mim até então desconnecido. E as feridas que os espinhos me abriram nos braços e mãos e rosto atormentaram-me durante algumas horas, poucas. Passaram-se os dias. Um dia, não sei eu quantos dias após o início da minha expedição, vislumbrei um objeto, que me pareceu uma cabeça, a uns quatro metros de altura. Cuidadoso, lentamente, circunvagando o olhar à procura de qualquer animal e coisa que pudesse me prejudicar, fui até ele. Era, reconheci de uma certa distância, ser uma cabeça aquele objeto, uma cabeça semicoberta pela exuberante vegetação, e cuja figura encontrava-se inscrustrada de residências de insetos e de cujo olho direito escapou uma serpente fina e compridíssima, que deslizou pelos interstícios da estátua, seu ombro direito, até desaparecer sob uma espessa camada de galhos, folhas, cipós e raízes. Tinha a cabeça, que era rochosa, o triplo do tamanho da cabeça de um homem adulto; estava seu nariz desgastado; seu queixo, com dois furos, um distante do outro um centímetro, o inferior um pouco maior do que o superior. Fitei-o ao ouvir, dele originado, assobios roucos, que se me assemelharam aos ouvidos vozes humanas. Intrigado, detive-me. Não movi nem sequer um dedo; suspendi a respiração. Assim que me senti seguro, após alguns segundos – não sei quantos, pois o tempo, assim me parecia, havia cessado -, movi-me, e foi então que notei que nenhuma folha, nenhum galho, nenhum cipó de nenhuma árvore se movia e que nenhum som ecoava na floresta em cujo interior eu me encontrava. Aterrorizei-me com o silêncio reinante, agourento, tétrico. Não era o silêncio um bom sinal. Era a bonança antes da tempestade (não é a imagem a melhor que eu poderia usar neste momento, todavia, embora incorreta, ela é, entendo, apropriada – além disso, eu sei que os meus leitores, que estão dispostos a acompanhar o desenrolar desta narrativa, compreenderam o que eu quis expressar, mesmo que façam ressalvas à figura que usei).
Não era, pensei, o silêncio símbolo de um ambiente hospitaleiro. Assim que movi um dedo, o indicador da mão esquerda, para levá-lo ao nariz, e coçá-lo, a cabeça rochosa moveu-se, petrificando-me – e aqui não uso força de expressão; é a imagem literal: eu estava petrificado, transformado em pedra. Creio que Fídias não apreciaria a escultura – compreensível: não fui agraciado com a beleza de Apolo. A cabeça de pedra moveu-se em minha direção, trazendo consigo folhas, raízes, cipós, galhos, e animas peçonhentos, e insetos, e serpentes, e roedores, e um corpo de pedra, que se destacou do que me pareceu uma vetusta muralha, e deu poucos passos em minha direção, revelando-se-me por inteiro: tinha uns cinco metros de altura e estava desgastada em inúmeros pontos, todavia conservava o seu esplendor, penso, original, de dimensões majestática. Assim que se deteve a um passo de mim, ordenou-me: “Entre.” E abriu-se à direita dele um portão. Obedeci-lhe. Ao umbral, vi, diante de meus olhos, a escuridão absoluta, que me encegueceu. Iniciei jornada pelo amplo corredor, e às minhas costas fechou-se o portão. E desfez-se a escuridão que me havia envolvido. Apresentou-se-me a imensa cidadela, reluzente, aos olhos maravilhados. Prendi-me a admirá-la até o momento que senti, tocando-me a mão, uma pele fria e macia, que me chamou a atenção. Uma criatura pequena, de, se muito, meio metro de altura, de três olhos, quatro pés e seis braços, de doze mãos, dois em cada braço, e com oito dedos, de trinta centímetros cada, em cada mão, fitava-me, sorridente, a irradiar felicidade, como se esperasse por mim. Falou-me; não lhe entendi uma palavra sequer; entendi-lhe o gesto: pediu-me que lhe seguisse os passos. De todas as palavras que ela pronunciou, identifiquei apenas uma: Ratanabá. Eu estava na cidadela misteriosa, da qual há muito tempo se fala, e da qual nada se sabia a não ser lendas e mitos saídos da cachola de pessoas que não são conhecidas pela sensatez e pelo compromisso com a verdade – em outras palavras, da cabeça de pescadores.
Não me atiçou suspeitas aquela escalafobética criatura, cuja aparência, estranhamente me inspirava simpatia.
Ciceroneou-me a criatura pelas amplas avenidas de Ratanabá. Deslumbrado com a magnífica e esplendorosa arquitetura de seus grandiosos edifícios, não ocupei-me em ouvir o que o meu guia me falava – e se o ouvisse, eu nada compreenderia, pois não lhe conhecia a língua, que não sabia eu se era da Terra, de outro planeta da Via-Láctea, de outra galáxia, de outro universo, de outra dimensão. Apresentou-me o meu guia uma das maravilhas da cidadela, uma biblioteca esplendorosa, repleta de livros grandiosos, de um, dois, três metros de altura, em pé, inclinados, abertos, e ratanabenses a compulsá-los com uma vareta flexível dourada. Eram os símbolos alfabéticos maravilhosamente desenhados, com esmero. Reinava o silêncio, silêncio hierático, e de ares hieráticos era, também, a conduta de todos os indivíduos presentes. Maravilhei-me com o que vi. Saímos da magnífica biblioteca, e caminhamos por uma ampla avenida; milhares de ratanabenses iam e vinham de todas as direções e para todas as direções, numa tagarelice contagiante – embora eu nada entendia do que falavam, senti que eles falavam de temas alegres. Eu me sentia feliz, estranhamente feliz, entre eles. Visitei museus, parques de diversões, palácios reluzentes, estádios esportivos; fui ao topo de um edifício grandioso, e, circunvagando o olhar, revelou-se-me toda a extensão da cidadela.
Caminhamos meu guia e eu durante não sei quanto tempo, e chegamos a um prédio que destoava do ambiente: era tétrico, agourento, inspirava repulsa, medo, terror. A criatura que era meu guia – e nomeio-a, a partir de agora, Dédalo -, alterou sua fisionomia, que assumiu aspectos sobranceiros, indicando que aquele prédio era uma chaga da cidadela. Não precisei de muito tempo para saber da explicação para a mudança de humor de meu guia, que me pediu que eu o acompanhasse para o interior do edifício, tão tenebroso! tão assustador! que fez-me engolir em seco e suspender a respiração. Se temia tanto aquele prédio e o que, eu presumia, no interior dele havia, por que Dédalo nele iria adentrar? Eu soube, ao ver o que ele pretendia me mostrar. À porta, bafejou-me o rosto, empalicedendo-me, ar gélido. Notei, acredito, tremores percorrerem o pequeno, estranho, corpo do meu guia. Seguimos a adentrar o prédio. Entramos em um corredor, de cujos domínios exalava odor putrefato, corrosivo. Metros adiante, deteve-se Dédalo diante de uma porta. Foi então que entendi: estávamos em uma prisão, em cujas entranhas, encarcerados, os mais asquerosos e repulsivos monstros de Ratanabá. Detive-me à direita do estranho Dédalo, e voltei-me para a porta diante da qual ele se encontrava. A porta deslizou-se para a nossa esquerda, e atrás dela havia uma parede transparente de não sei quantos centímetros de espessura, a revelar-nos uma cela de não mais do que vinte metros cúbicos,e ao fundo da cela via-se uma criatura teratológica, encolhida, de uns três metros de altura e dotada de nove tentáculos; cobria-lhe a cabeça pêlame espesso, ondulado, de um tom preto-fosco cadavérico; abriu a criatura a boca, e emitiu um grunhido, roufenho, desgracioso, grotesco. Um espetáculo horripilante. Fechou-se a porta. Caminhou Dédalo mais uns vinte metros, e deteve-se diante de outra porta; eu o segui, e conservei-me à direita dele. Tão logo a porta se abriu, tal qual a da primeira cela, vimos, no interior do cubículo, uma criatura esquálida de uns dois metros de altura dotada de caixa craniana transparente em cujo interior estava o cérebro, que mais parecia uma hortaliça verde-clara de aparência inconsistente coberto de minúsculas protuberâncias pontudas. Tinha entre os olhos um apêndice rígido, desmesuradamente desproporcional à cabeça, que lhe servia de nariz e boca – assemelhava-se a um bico de pássaro. Não tinha tal criatura mãos, e eram suas pernas, duas, finas. Não me pareceu um personagem antipático, e tampouco asqueroso como o da primeira cela, o de nove tentáculos – parecia, ao contrário daquele, bem asseado. Assim que foi a porta fechada, seguido por mim, Dédalo foi até a terceira cela, cuja porta abriu-se a um comando dele. No interior de tal cela, uma criatura de aspecto desgracioso – eu não sabia dizer se macho, se fêmea. Eram seus movimentos mecânicos, robóticos; sua voz, irritantemente metálica. Despertou-me sua estrambótica figura risos silenciosos. Fechada a porta desta cela, tocou-me Dédalo, com sua testa, que, distendendo-se, assumiu a silhueta de um, assim direi, funil, a testa, e invadiram-me a mente, numa velocidade estonteante, imagens que apresentavam a ação das três criaturas que eu vi encarceradas, e então vim a saber que era a de nove tentáculos ilusionista crudelíssimo, a de caixa craniana transparente transmorfa e a terceira uma entidade cujo maior talento era controlar os fenômenos naturais, em maior escala os ventos. Eram as três, todas elas malfazejas, oriundas de outras galáxias. Na Terra, há milhões de anos, aportaram em Ratanabá, e seduziram os seus habitantes, que,encantados com elas, as idolatraram, delas fazendo entidades celestiais. Aos olhos de minha mente, vi uma cena emblemática: as três criaturas extra-terrenas a palestrarem livremente, e uma barulhenta multidão a louvá-las em alto brado, mesmerizadas, a prosternarem-se diante delas. Transmitiu-me Dédalo, em nossa conexão mental, imagens do interior do cérebro dos indivíduos ajoelhados à frente dos três extra-terrestres: o cérebro deles desfazia-se em inconsistente massa pastosa preta-amarronzada. E sempre que abriam a boca, tais indivíduos, ao pronunciarem ou não qualquer palavra, exalavam odor mefítico que empesteava o ar num raio de duzentos metros, corroendo, assim, o corpo e apodrecendo o espírito de todo indivíduo que porventura se encontrasse em tal área. Mostrou-me Dédalo que, diante dos males que aquelas três criaturas causavam aos ratanabenses, o imperador de Ratanabá decidiu trancafiá-las e conservá-las encarceradas durante todos os anos que lhes restassem de vida.
Retiramo-nos Dédalo e eu dos domínios da tétrica prisão, de dar calafrios em todo homem, de enregelar o sangue de todo homo sapiens, e passeamos pelos parques e praças, e museus e bibliotecas. Saudamos centenas, talvez milhares, de moradores de Ratanabá. E não me cansei. E em nenhum momento senti-me desconfortável, constrangido, intimidado, à presença dos ratanabenses. Quantas horas – dias, talvez – cobri toda a extensão da misteriosa cidadela perdida em algum lugar da Amazônia, não sei. Sei, apenas, que foi tal expedição, uma viagem inesquecível, o melhor capítulo da história da minha vida.
Enfim, despedi-me de meu novo amigo, Dédalo, e retirei-me de Ratanabá.
Um ano depois, consultando as minhas anotações, seguindo as coordenadas que eu havia registrado em meu bloco de anotações, empreendi segunda jornada à Ratanabá – mas, para a minha surpresa, desagradável surpresa, e para o meu desgosto, eu não a encontrei. Ratanabá não estava onde ela devia estar. Tenho certeza de que fui ao mesmo local onde um ano antes eu encontrara Ratanabá. Sei que não me perdi, que eu não me confundi. Fui, eu sei, para o local, e o local exato, respeitando as minhas anotações, onde estava Ratanabá. Todavia, lá Ratanabá não estava. Estou certo de que a minha presença na cidadela misteriosa tenha convencido os seres que a habitam a de lá se retirarem, transferirem-se para outro ponto da floresta, ou para outra região da Terra, região que os humanos jamais pisamos. Assim pensando, cientes de que eu poderia vir a divulgar as minhas descobertas – o que, ao contrário do que, acredito, tenham pensado, não fiz -, os ratanabenses decidiram, não apenas emigrarem, mas moverem toda Ratanabá para um local que os humanos ignoramos.
Este é o meu testemunho, que ora publico, que irá servir de fonte para estudos sérios, e não para os néscios fazerem um fuzuê danado acerca da misteriosa Ratanabá.

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Na Noite do Crime (Woman on the run – 1950) – estrelando Ann Sheridan e Dennis O’Keefe

Neste filme noir, em preto e branco, de 1950, o inspetor Ferris (Robert Keith) sai à caça de Frank Johnson (Ross Elliott), a única testemunha do assassinato de Joe Gordon (Tom Dillon), que iria testemunhar contra Freeman Fattened, um gangster.

O assassinato ocorre à noite, Joe Gordon, dentro de um carro, após saudar um homem, Danny Boy – e este nome, ao ser mencionado pela segunda vez, na metade do filme, revela a verdadeira identidade do assassino.

Frank Johnson, ilustrador, trabalha na loja Hart e Winston, do doutor Maibus (John Qualen). Passeava, com seu cachorro de estimação, Rembrandt; testemunha o crime, e o assassino dispara em sua direção dois tiros, errando ambos. À cena do crime chegam os policiais, e o inspetor Ferris, que pede a Frank Johnson informações acerca do ocorrido e lhe diz que ele, Frank Johnson, teria de testemunhar, descrever o assassino de Joe Gordon – e seria esta a única informação que teria a polícia numa investigação que tinha como alvo o gangster Freeman Fattened. Ao ouvir tais revelações, Frank Johnson decide, à distração dos policiais, e temendo pela sua vida, homiziar-se em qualquer lugar, para a sua segurança. Ao saber da ação de Frank Johnson, o inspetor Ferris principia a caçada a ele. Na sua ânsia de vir a efetuar a prisão de Freeman Fattened, e certo de que para chegar até ele teria de descobrir a identidade do assassino de Joe Gordon, e que para identificá-lo era imprescindível o testemunho de Frank Johnson, não mede esforços, aborda Eleanor Johnson (Ann Sheridan), esposa de Frank Johnson.

Toda a investigação do inspetor Ferris concentra-se, o que é inusitado, na caçada, não ao assassino, tampouco ao gansgster, mas à testemunha do assassinato de Joe Gordon, Frank Johnson, a única pessoa que poderia adicionar alguma informação à investigação.

Eleanor Johnson é uma personagem cativante – e é ela a protagonista da aventura, e é seu coadjuvante Dan Legget (Dennis O’Keefe), repórter do Graphic. Ácida e sarcástica, nos seus diálogos com o inspetor Ferris e nos com Dan Legget, além de revelar traços de sua personalidade multiforme, sua inteligência fina, de uma pessoa de língua afiada, exibe sua indiferença pelo marido e a si mesma; suas primeiras palavras a respeito do homem com quem vivia sob o mesmo teto são desdenhosas, de desprezo por ele.Atormentada com a abordagem, que lhe restringe os movimentos, do inspetor Ferris, driba-lhe a vigilância, e inicia, coadjuvada pelo onipresente Dan Legget, uma aventura emocionante e tensa à procura de seu marido. Na sucessão dos capítulos que contam a sua aventura, ouve contarem-lhe episódios da vida dele, episódios que ela, esposa distante, ignorava, e surpreende-se com o que lhe dão a conhecer. Tal aspecto do enredo, que segue concomitante à perseguição que o inspetor Ferris empreende a ela e ao esposo dela e a investigação que ela e Dan Legget executam, para chegarem até Frank Johnson, é uma trama envolvente que revela, aos poucos, a consciência que Eleanor Johnson adquire de seus sentimentos pelo marido, os quais dela até então estavam ocultos.São muitos os episódios da saga de Eleanor Johnson: o do clube chinês Jardins do Oriente; o do consultório do doutor Hohler; o da loja Hart e Winston; o do Sullivan’s Grotto; o do cais; o do consultório do veterinário; o do necrotério; e, enfim, o derradeiro, o do parque, na praia, sob as instalações da montanha-russa.A partir do episódio ocorrido na loja Hart e Winston, intrigada com mensagem cifrada, que seu marido lhe enviara numa carta, “Estarei em um grande dia, sob o Sol, como no dia que lhe perdi pela primeira vez.”, Eleanor Johnson esforça-se para encontrar-lhe o paradeiro – e para ir até ele teria de decifrar a mensagem, o que ela conseguiria a duras penas.Na metade do filme, repito, a identidade do assassino, alcunhado Danny Boy, no início da trama, por Joe Gordon, é revelada durante um diálogo entre Eleanor e Dan Legget; a partir deste momento, fica-se na expectativa, ansioso para se saber se Eleanor Johnson encontraria seu marido e o ajudaria a safar-se de seu perseguidor, ou se, sem o saber, conduziria o assassino até ele.

Os pioneiros – parte 3 de 3

A espaçonave exploratória A-1 deslocou-se sete mil quilômetros para o norte de A***, sobrevoando-o a trinta mil metros de altura. Os seus sensores detectaram milhares de criaturas aladas gigantes, que se deslocavam a duzentos e oitenta quilômetros por hora, e no encalço delas a espaçonave-mãe enviou dezenas de pequenos robôs exploradores. Cada criatura alada gigante tinha cinquenta metros de extensão, oitenta metros da ponta da asa esquerda à ponta da asa direita, três caudas, pele revestida de substância semelhante a vidro que vibrava consoante os movimentos das criaturas e refletia a luz das duas estrelas brancas que nela incidia criando um caleidoscópio indescritível, nove fileiras de dentes de quatro cabeças serrilhados afiadíssimos, três narinas localizadas entre os sete olhos dispostos aleatoriamente na face anterior da cabeça juncada de excrescências e cavidades cavernosas (as excrescências segregavam líquido fluídico amarelo-esverdeado, e as cavidades, líquido fluídico cinza-azulado, que, exposto à luz, inflava-se, e assumia a configuração de esferas e a constituição de espuma, e alguma criatura, voando, manobrava o corpo de modo a interceptá-las, abriam a boca, e as engoliam. Eram alimentos muito apreciados por algumas criaturas, que por eles se digladiavam, e só encerravam a briga quando a criatura que encabeçava o grupo emitia um assobio grave), emitiam assobios agudos, de infinitos timbres, e estalavam as quatro línguas bifurcadas, duas localizadas no céu da boca e duas no chão da boca, separadas por saliências de cinquenta centímetros de altura.

As criaturas aladas gigantes atravessaram nuvens carregadas, que disparavam raios violentíssimos, que as atingiam, e renovavam-lhes as energias, e elas agitavam-se e emitiam gritos estridentes.

A criatura alada gigante que comandava o grupo escancarava a boca, a curtos intervalos, e engolia os raios. E regozijava-se. Era ela a única criatura que engolia raios. E a sua pele vítrea vibrava, assumia colorações inusitadas, multicoloria-se – espetáculo que as outras criaturas aladas, embevecidas, admiravam. Além de engolir raios, ela sorvia nuvens, em haustos vigorosos. Assustador! Admirável! Boquiabriram-se os expedicionários que se encontravam na espaçonave exploratória A-1 e os que se encontravam na espaçonave-mãe, a três milhões e quinhentos mil quilômetros de distância, em órbita de A***.

As criaturas aladas gigantes voaram – e nada lhes estorvou a jornada, nem raios, nem tempestades, nem furacões, nem erupções vulcânicas, tampouco outras criaturas aladas – até uma cavidade imensa e profunda, localizada, a dois mil metros abaixo do topo de uma montanha íngreme de seis mil metros de altura, coberta de gelo e rocha, cujo topo era inacessível para criaturas que não voam, e nela entraram, e rumaram, por um túnel de cinquenta quilômetros de extensão, para as profundezas vulcânicas do solo da montanha, que não estavam dominadas por trevas eternas. Pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade refletiam a luz emitida pelas estrelas brancas, e pedras iridescentes refletoras localizadas na garganta da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas na boca da cavidade, e pedras iridescentes refletoras localizadas mais no interior da cavidade refletiam a luz refletida pelas pedras iridescentes refletoras localizadas acima; e, de pedras iridescentes refletoras para pedras iridescentes refletoras, e para a pele vítrea das criaturas aladas gigantes, a luz penetrava nas profundezas da montanha, imensa residência das criaturas aladas gigantes, de mais de dois quilômetros do chão até o teto e de três mil quilômetros de área; lá viviam milhares de criaturas aladas gigantes, que se alimentavam de rochas ígneas, e banhavam-se na lava que escorria por um rio estreito e profundo; na lava imergiam, e, ao emergirem, eriçavam a pele vítrea, regozijadas. O banho lhes era salutar, prazeroso. Para elas, as profundezas da montanha eram uma moradia aprazível, confortável, aconchegante.

Robôs exploradores detectaram uma serpente de quatro mil metros de extensão, dormindo, despreocupada, no interior de uma nuvem amarela composta de substâncias desconhecidas e cuja temperatura interior era de mil e duzentos graus Célsius. Sua pele era maleável, preta em toda a sua extensão; possuía um olho em cada extremidade do corpo de oito metros de diâmetro; e irradiava energia nuclear. Uma criatura fabulosa! Robôs exploradores observaram-na durante vários dias. A serpente hibernava. Quando ela despertaria? Ela não possuía asas. Por sorte, pensaram os expedicionários, a serpente e as criaturas aladas gigantes não atacaram Osvaldo em sua excursão, e não contataram a espaçonave exploratória, não a abordaram, e não a atacaram. A serpente preta gigante podia, com o seu compridíssimo corpo, envolver a espaçonave exploratória. Todas as imagens seriam apresentadas para Osvaldo, para persuadi-lo a desistir de empreender nova expedição exploratória a A***, ou, se dela não desistir, a adiá-la. Ele ficaria contrariado, mas, chamado à razão, conter-se-ia em seu irrefreável ímpeto aventureiro, acolheria as sensatas exortações de Katsushiro e, com o ânimo serenado, planejaria a próxima expedição exploratória, e não se lançaria, imprevidentemente, em uma aventura desnecessariamente arriscada. Todas as aventuras exploratórias consistiam em riscos, todos os expedicionários sabiam, mas era possível mensurá-los, e providenciar a redução dos estragos, até mesmo anulá-los. As imagens acima elencadas não seriam as únicas que Katsushiro apresentaria a Osvaldo para chamá-lo à razão. Havia inúmeras outras, mais espetaculares.

Além de criaturas, os robôs exploradores detectaram fenômenos naturais inefáveis: Raios, a milhares de metros de altura, originados de nuvens alaranjadas e azuis celestes, serpenteavam pelo céu, em movimentos descendentes e ascendentes, atingiam o solo, abrindo-lhe sulcos – e ramificavam-se em dezenas de raios menores, que percorriam milhares de metros, até que a energia se lhes dissipasse. No céu de uma ilha, cujo solo estava juncado de ossos carbonizados, nuvens aglomeradas, que formavam camadas espessas de mais de dez quilômetros a partir de quinhentos metros de altura, dispararam centenas de milhares de raios, muitos dos quais atingiam a superfície do mar de águas esverdeadas violentas – que despencavam, em sucessivas ondas de trinta metros de altura, próximo da ilha -, dançavam por sobre a superfície da água e, ao atingirem a ilha, estrondejavam em um clarão enceguecedor, aquecendo o solo em um raio de dez metros, e o solo adquiria coloração amarelo-alaranjado e vermelho-alaranjado, e retomava, não muito tempo depois, a sua cor original. Quando dois ou mais raios colidiam-se no céu, uma gigantesca esfera de fogo formava-se, detinha-se no local em que ocorrera a colisão de raios, lentamente deslocava-se em direção à nuvem, e, ao atingi-la, explodia em uma descarga energética violentíssima, e um raio dourado rasgava o céu, do ponto em que a esfera de fogo atingira a nuvem até o solo (e, no outro lado do planeta há uma ilha da qual emergiam raios acobreados). Quando um raio atingia uma esfera de fogo formada da colisão e fusão de dois ou mais raios, a esfera de fogo despencava em direção ao solo, e, ao atingi-lo, desaparecia, em uma explosão termonuclear devastadora, e abria uma cavidade, que chuva de partículas de rochas e rochas que escorriam das bordas da cavidade enchiam, e, na cavidade, fundiam-se. A colisão de duas esferas formadas em decorrência da colisão de dois ou mais raios a fundiam, e produzia uma esfera vermelho rubra, que se expandia até um quilômetro de diâmetro, e, ao atingir o solo, provocava uma explosão devastadora. A colisão simultânea de três esferas de fogo as extinguia silenciosamente.

Nesta ilha havia oito criaturas de três metros de comprimento, dois metros de altura, corpo achatado, rígido, surpreendentemente maleável, revestido de couraça resistente às explosões mais devastadoras, e desprovidas de olhos, nariz, boca, orelhas, pêlos, unhas, dedos, mãos e pés.

No transcurso de vinte dias – cada dia de A*** correspondia a cinco dias terrestres; e cada ano, a oito anos e três quartos de um ano terrestre – os expedicionários recolheram inúmeras informações sobre A***.

Os expedicionários pretendiam empreender uma expedição exploratória ao solo de A***. Osvaldo, impaciente, contrariado, nem sempre com a urbanidade que lhe era exigida e a compostura que o seu cargo pedia e a sua maturidade conferia-lhe, manifestava o seu desejo de ir ao planeta. Katsushiro rejeitava-o, com firmeza.

Osvaldo arquitetou a sua fuga. Sabia que estudavam-lhe o comportamento. Rilhava os dentes toda vez que evocava a figura de Ricardo, aquele simulacro de humano, que ludibriava os outros expedicionários com a sua civilidade, a sua elegância no trato, conferindo a si mesmo a identidade de um humano ciente das suas responsabilidades e que se desincumbia dos seus afazeres com a competência peculiar, decorrente – acreditavam os parvos desprovidos de sagacidade intelectual equivalente à dele, Osvaldo – da sua inata personalidade e das suas virtudes anímicas. Prometeu, para si mesmo, que revelaria, para os toleirões, a verdadeira face de Ricardo, e eliminaria Katsushiro, sujeito ambíguo, cuja origem é desconhecida, e que ocultava os seus propósitos sob a máscara do seu rosto inexpressivo, enigmático, insondável, e sob o olhar penetrante de olhos sombreados pelas sobrancelhas as quais arqueava para se conferir um olhar petrificante, intimidador, e compor a sua figura venerável perante a qual todos se curvavam, obsequiosos.

Katsushiro criou de Osvaldo a reputação de homem intransigente, cujos atos acarretarão transtornos para os expedicionários, e esforçava-se para isolá-lo, e mantê-lo isolado, e excluí-lo do rol dos expedicionários de campo, embora dissesse, com ênfase, que o admirava e o considerava o melhor expedicionário que jamais conhecera, para, suspeitava Osvaldo, afastar as suspeitas que pairavam sobre a sua cabeça, e impedi-lo de principiar uma investigação, independentemente de qual fosse a postura de Katsushiro, e revelar a verdade, com o auxílio dos seus admiradores e expedicionários com os quais compartilhava idéias afins.

Ensimesmada, Jennifer refletia a respeito do comportamento arredio e introspectivo de Ricardo, e deitava-o sob o seu olhar escrutinador. Ricardo nunca se destacara pela extroversão e convivência amistosa com os outros expedicionários. Após as alcunhas que Osvaldo cuspira contra ele, Jennifer, sempre que com ele conversava, fitava-o, de outra perspectiva, e, em retrospectiva, evocava a discussão entre ele e Osvaldo. Em certa ocasião, imersa em suspeitas, não sabia se infundadas, mas com elas incomodadas, com o auxílio de um vídeo da reunião, que lhe exibia imagens nítidas, percebeu que Ricardo modulou a voz, conferiu-lhe timbre suave, e, associando-a com expressões faciais que lhe eram incomuns e gestos das mãos e movimentos dos dedos imperceptíveis, provocou Osvaldo com o propósito, era inegável, de induzi-lo a perder a compostura. As palavras que Ricardo proferiu não foram inapropriadas, concluiu Jennifer, que anotou, no seu caderno de expedição, as suas observações, mas os gestos dele, imperceptíveis, sim, foram inapropriados, insinuantes, provocativos. Na primeira vez que assistiu ao vídeo, não pôde avaliá-lo com a atenção necessária para obter as respostas que procurava. Outras tarefas exigiram-lhe a atenção, e adiou o estudo minucioso que do vídeo pretendia fazer. Na primeira oportunidade que lhe surgiu, dias depois, para escoimar os seus pensamentos das dúvidas que persistiam em se conservar intactas, analisou o vídeo da reunião. Não queria trocar os pés pelas mãos, e aventar suspeitas infundadas, sob a influência das palavras enérgicas, embora deselegantes, de Osvaldo. Perguntou-se se procedia a acusação de injeção de nanorrobôs em todos os expedicionários e se Ricardo era um autômato, e, se era, de quem ele estava sob comando. Ricardo injetou nanorrobôs em Osvaldo, e os nanorrobôs alteraram-lhe a postura? Era uma explicação plausível. Mas, e nela, Jennifer, Ricardo injetou nanorrobôs? Se nela Ricardo injetou nanorrobôs, então por que ela não agia de modo que não correspondia ao seu temperamento? Ou agia, mas ela não notava a mudança? Além disso, quem, além de Ricardo, tem acesso aos mecanismos que recolhem informações de A***? Jennifer arregalou os olhos ao perceber que adulteraram o vídeo. Alimentava suspeitas a respeito do que havia visto e ouvido na primeira vez que assistiu ao vídeo, mas sabia o que seus olhos e seus ouvidos haviam captado: os gestos, sutis, provocativos, de Ricardo, e o seu tom de voz, incomum. Agora, viu que do vídeo os gestos de Ricardo foram suprimidos, e o seu tom de voz, alterado. Jennifer não suspeitava dessa sua análise do vídeo. Estarrecida, recostou-se à cadeira, e cobriu com as mãos a boca, incrédula, e preocupada. Adulteraram o vídeo. Quem o adulterou, e com qual propósito? E a quem interessava a adulteração do vídeo? Quem estava envolvido com a manipulação do vídeo? Ricardo? Quais pessoas – ou quais instituições – financiavam o trabalho de Ricardo? Katsushiro? Às quais pessoas ele respondia? O que elas arquitetavam? Recostada à cadeira, Jennifer levou as mãos à nuca, para sustentar a cabeça, e cerrou as pálpebras, como se assim pudesse se concentrar nos seus pensamentos, e concebeu as mais inusitadas, absurdas, estupefacientes explicações – nenhuma delas lhe fazia sentido. Não se negou, no entanto, as elucubrações; talvez alguma delas lhe revelasse o que ocorria nas profundezas das salas cuja localização é desconhecida pelo comum dos mortais.

Os expedicionários planejaram nova expedição exploratória a A***, mas não a empreenderam. As razões para isso serão apresentadas nas próximas linhas.

A espaçonave-mãe registrou um fenômeno inédito: O núcleo de A*** aquecia-se e esfriava-se, em rápida sequência alternada. As conseqüências, imprevisíveis. Sucederam-se terremotos, em inúmeras regiões do planeta. Planícies foram rasgadas; montanhas, destruídas; onde havia mar, apareceram montanhas; onde havia montanhas, apareceram vales. O solo convulsionado transformou a figura de A***. Intensificaram-se os terremotos. O aquecimento e o esfriamento do núcleo de A*** alternavam-se, incessantes, a intervalos cada vez mais curtos. Nas primeiras alternâncias, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa era de trezentos e oitenta graus célsius; em pouco tempo, a diferença entre a temperatura mais elevada e a mais baixa passou para três mil e trezentos e oitenta e quatro graus célsius. E a temperatura atingiu, no pico, sete mil graus célsius, e, no fundo, cento e vinte graus célsius abaixo de zero. A ininterrupta oscilação da temperatura do núcleo de A*** transformava a crosta planetária e afetava a atmosfera e o campo magnético do planeta.

A espaçonave exploratória A-1 afastou-se de A***, e rumou à espaçonave-mãe, que a recolheu. Os expedicionários ficaram de sobreaviso. O recrudescimento da alternância da temperatura do núcleo de A*** e as alterações do campo magnético do planeta persuadiram os expedicionários a se afastarem de A*** – o que fizeram, contrariados, incontinenti. Previram, uns, a explosão de A***; se isso se sucedesse, pela primeira vez na história olhos humanos testemunhariam a morte de um planeta. Tal evento afetaria aquele sistema estelar de duas estrelas brancas. Qual seria o impacto da explosão de A*** nos outros planetas e nas estrelas que compunham aquele sistema estelar?

Chegaram aos sensores da espaçonave-mãe imagens espetaculares, fabulosas, indescritíveis, de fenômenos que se sucediam na crosta planetária. Se os expedicionários não os testemunhassem, e alguém lhos descrevessem, eles não acreditariam, pois tais fenômenos transcendiam as leis da física. Raios viajavam pelas nuvens, que assumiam coloração incomum. Raios de milhares de quilômetros de extensão transpunham a atmosfera de A***; os mais extensos estendiam-se a mais de cinquenta mil quilômetros, e afetavam o campo magnético, que os afetava. As explosões que se seguiam liberavam energia suficiente para pulverizar a espaçonave exploratória e danificar, talvez destruir, a espaçonave-mãe. Nuvens vermelhas, amarelas, azuis e amarelo-alaranjadas ampliavam-se, aglomeravam-se, e constituíam nuvens pretas, que cobriam a metade da superfície de A***. Raios as rasgavam e liberavam energia imensurável. Serpentes gigantes viajavam entre as nuvens, delas se alimentavam, e cresciam. A maior serpente que os sensores da espaçonave-mãe detectaram tinha oito mil e setecentos quilômetros de extensão, e crescia. Quanto mais crescia, mais energia acumulava; como A*** liberava maior quantidade de energia com a intensificação da vibração do seu núcleo, mais energia a serpente gigante ingeria, mais energia armazenava, e mais crescia, e crescia, e crescia. O solo de A*** modificava-se a olhos vistos, sem cessar. A sua configuração foi alterada, tornado-a irreconhecível. A cada fração de segundo, assumia uma configuração. Um planeta não pode suportar tal convulsão sem se desintegrar, pensavam os expedicionários. Qual a origem da convulsão planetária?, perguntavam-se, intrigados, acompanhando, suspensos, o desenrolar de evento tão grandioso, inédito aos olhos humanos. Desapareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Apareceram mares, montanhas, vales, penhascos, rios, ilhas, continentes. Criaturas corriam pelos continentes, mergulhavam nos mares de águas borbulhantes, caminhavam pelo gelo da superfície dos rios. A***, convulsionado, contraía-se e dilatava-se, frenético. Arremessava raios, esferas chamejantes e ondas de energia. Sugava energia das estrelas. Línguas de fogo partiam das estrelas rumo a A***. Um fenômeno surpreendente, mais surpreendente do que todos os fenômenos até então testemunhados pelos expedicionários, se manifestou. De cada estrela branca partiu uma faixa dourada. As duas faixas douradas rumaram, serpenteando, até A***, como se o planetas as atraíssem, cobriram-no, e eliminaram o seu campo gravitacional e o seu campo magnético. Nenhum raio, nenhuma esfera chamejante escapava de A***. Raios e esferas chamejantes atingiam as faixas douradas. Nem o som e nem a luz as atravessavam. Não se via a intensa luminosidade decorrente das explosões das esferas chamejantes e dos raios. De propriedade elástica, as faixas esticavam-se. Os expedicionários, expectantes, intrigados, perguntavam-se o que ocorria em A***, e procuravam uma explicação plausível para fenômeno tão fantástico, tão fabuloso, tão espetacular. Temendo que a energia oriunda da convulsão de A*** rompesse as faixas que o cobriam, os expedicionários afastaram-se do planeta até uma distância que, acreditavam, era segura. Os sensores dos robôs que se localizavam nas proximidades de A*** não detectavam os eventos que se sucediam no planeta. Os expedicionários pensaram em disparar um raio de energia para abrir uma fresta, nas faixas douradas, pela qual robôs pequenos pudessem atravessar. Deparavam-se com fenômeno que olhos humanos jamais presenciaram, fenômeno que a imaginação humana jamais poderia conceber. Diante do desconhecido, incapazes de antever a reação de A*** e das faixas que o cobriam, abandonaram a idéia tão logo a pensaram. A*** poderia explodir, as faixas poderiam disparar raios na direção da espaçonave-mãe, ou, Mariana aventou a hipótese, seres inteligentes que viviam nas estrelas brancas reagiriam ao disparo do rio, e disparariam raios e esferas flamejantes contra a espaçonave-mãe. Tal hipótese era implausível, fantástica demais, fantasiosa demais, fabulosa demais, extraordinária demais. Os expedicionários fitaram Mariana; nada disseram; com o olhar, indagaram-lhe de onde ela extraíra idéia tão estapafúrdia. Seres vivos vivendo em uma estrela! Seres vivos inteligentes, em uma estrela cuja temperatura, na superfície, era de duzentos mil graus célsius, e, no núcleo, calculavam os sensores da espaçonave-mãe, doze milhões de graus célsius! Nenhum ser vivo, inteligente ou não, viveria sob tão alta temperatura! Todavia, conquanto extraordinariamente fantasiosa tal hipótese, ninguém concluiu que ela fosse inverossímil, e não a desconsideraram.

Transcorreu quanto tempo? Os expedicionários não sabiam.

Cessaram as convulsões das faixas douradas que cobriam A***.

Os expedicionários, na expectativa, petrificados, apalermados, de sobreaviso, e curiosos, esvaziaram de pensamentos o cérebro. Aguardaram, expectantes, pelas revelações que, estavam certos, não demorariam para lhes serem apresentadas. Pareceu-lhes que o tempo cessara, como se o tempo não fosse um fenômeno cosmológico, como se fosse, unicamente, um fenômeno psicológico produzido pela mente humana. Nenhum expedicionário saberia dizer quantos dias transcorreram a partir do momento em que cessaram as convulsões até o momento em que as faixas se soltaram de A***, e rumaram, cada faixa, para uma estrela. E os expedicionários, embasbacados, boquiabertos, viram, diante de seus olhos, não um planeta, mas dois planetas, um, dourado, um, esverdeado. Ora o planeta dourado girava em torno do planeta esverdeado; ora o planeta esverdeado girava ao redor do planeta dourado. A velocidade de ambos os planetas modificava-se, constantemente, e os planetas mudavam de curso. Na letargia que tal fenômeno lançou-os os expedicionários conservaram-se por um bom tempo, obcecados por uma explicação; não tinham nenhuma, nem para a existência das criaturas rochosas que atacaram Osvaldo, nem para as criaturas aladas gigantes que se alimentavam de rochas ígneas e banhavam-se nos rios de lava nas profundezas de uma montanha, nem para as serpentes gigantes que dormiam nas nuvens, nem para todos os fenômenos maravilhosos que presenciaram.

Osvaldo se ofereceu para empreender uma expedição exploratória aos planetas gêmeos. Katsushiro e os comandantes da espaçonave-mãe decidiram autorizar expedições exploratórias não-tripuladas.

Os expedicionários não sabiam o que lhes estava reservado. Presenciaram a conversão de um planeta em dois planetas e outros fenômenos inexplicáveis – pela inteligência humana, compreende-se –, que lhes excitaram a curiosidade.

Os comandantes da espaçonave-mãe enviaram expedições exploratórias não-tripuladas aos dois planetas. As informações reunidas, extraordinárias, espetaculares, embasbacaram os incrédulos expedicionários, que acreditavam que nenhum outro fenômeno os surpreenderia. Enganaram-se. Os fenômenos que se manifestaram nos planetas gêmeos e as criaturas que neles encontraram os surpreenderam. Tomaram conhecimento de seres que viviam sob as condições mais desfavoráveis à vida, e reconsideraram todas as suas idéias a respeito da vida e todas as teorias da física, e as da astrofísica, e as da cosmologia.

Vieram a conhecer criaturas gigantes longílineas dotadas de duzentas asas constituídas de películas transparentes e de vinte filamentos na cabeça esférica, e criaturas rastejantes de cinquenta quilômetros de extensão e três cabeças, e criaturas de cinco mil olhos, e criaturas que disparavam, pela boca, líquido corrosivo, e criaturas que cuspiam fogo, e criaturas que se alimentavam de pedras, e criaturas de pele aderente, e criaturas metamórficas, e criaturas de duzentos metros de altura, duzentas pernas, duzentos braços e duzentas cabeças, e criaturas aquáticas que cuspiam substância corrosiva, e criaturas que saltavam mais de um quilômetro de altura e cinco quilômetros de distância, e criaturas que viviam nos pântanos de lava, e criaturas que cuspiam raios, e criaturas que se invisibilizavam na água, e criaturas que engoliam lava e cuspiam pequenas esferas aderentes por sobre as quais outras criaturas, minúsculas, passavam e assumiam dimensões corporais maiores.

Assistiram a embates fantásticos inenarráveis entre criaturas indescritíveis.

Não havia uma criatura que não os surpreendeu pelo que tinham de fantástico, extraordinariamente fantástico.

Transcorreram-se os dias. Enviaram-se dezenas de expedições exploratórias não-tripuladas aos planetas gêmeos. O presidente da espaçonave-mãe agendou uma reunião, à qual compareceram todos os comandantes e os diretores das espaçonaves expedicionárias. Da espaçonave exploratória A-1 compareceram Katsushiro, Jennifer e Ricardo. Katsushiro disse que Osvaldo não poderia empreender uma expedição exploratória pelas razões que ninguém ignorava. Jennifer contestou-o, disse que com Osvaldo conversara horas antes, e ele se mostrou pronto para empreender uma expedição exploratória, e não podiam impedi-lo de empreendê-la. Ricardo, antes de Jennifer encerrar a sua réplica, disse que eram escassas as informações sobre os planetas gêmeos, e considerou sensato realizar novas expedições exploratórias não-tripuladas, para recolhimento de informações, antes de empreenderem uma expedição exploratória tripulada por humanos. Katsushiro o secundou, mecanicamente, e teceu comentários desabonadores a Osvaldo. Jennifer defendeu Osvaldo, enfatizou a experiência dele, e disse que há coisas, em um planeta, que robôs não podem detectar, e apenas os humanos podem. Ricardo riu, sardônico, comparou a capacidade intelectual dos humanos com a dos robôs, apontou a superioridade destes – e Katsuhiro referendou a sua opinião -, que não se resumia na incontestável superioridade mnemônica. Jennifer estudou-lhe o comportamento, e o de Katsushiro, e evocou as acusações que Osvaldo proferiu, durante a discussão após a expedição exploratória a A***. As denúncias procediam?, perguntou-se. Contestou Ricardo, disse que os robôs, desprovidos de sensibilidade, sentimentos e pendores para a abstração – talentos que não podem ser catalogados -, não são detentores da capacidade, inerente aos humanos, e a eles exclusiva, de reunir informações, associá-las, organizá-las, e delas apresentar uma síntese. E disse, também, que os humanos talentosos e experientes são imprescindíveis na expedição exploratória que teriam, obrigatoriamente, de empreender, aos planetas gêmeos, e Osvaldo preenche todos os requisitos; e ele realizará trabalho que os robôs estão impossibilitados de executar, Jennifer salientou este ponto, e o enfatizou, e repetiu-o, com voz firme. Queria aguilhoar Ricardo e Katsushiro. Katsushiro contestou Jennifer, atribuiu a Osvaldo o fracasso da expedição exploratória a A***. Jennifer estranhou Katsushiro, cujos gestos, ela disse para si mesma, em pensamento, eram robóticos; e intrigaram-na o rosto inexpressivo de Ricardo e o seu o olhar fixo em Katsushiro.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou Jennifer, abismada.

– Eu sei, Jennifer – Osvaldo assomou à porta, apontando uma pistola para Ricardo.

Ricardo ergueu-se da cadeira, de imediato, inexpressivo, e ergueu o braço direito, e apontou o dedo indicador para Osvaldo.

*

Este é o encerramento de Os Pioneiros? – perguntar-me-ão os leitores. E eu responderei:

No dia seguinte àquele ao qual entregou-me a pasta com a novela, ao volante de um carro, Luis Amadeu envolveu-se em um acidente com um caminhão e outros dois carros; em decorrência dos ferimentos, veio a falecer no Hospital Municipal.

Li a novela Os Pioneiros, na minha casa, no dia em que Luis Amadeu ma entregou. Ao ler a última palavra, perguntei-me onde estava a sequência da novela. Na ocasião, pensei em procurar Luis Amadeu, no dia seguinte. Mas, o fim trágico… Duas semanas depois da morte de Luis Amadeu, falei da novela para a Susana, irmã dele, e entreguei-lha. Ela a leu, e disse-me que a sequência do relato, acreditava, achava-se no computador de seu irmão. Nos dias seguintes, acessou a pasta ‘Novelas’; encontrou, além de dezenas de outros arquivos, o que trazia o título Os pioneiros. O texto encerrava-se no ponto que reproduzi acima. Acreditando que Luis Amadeu pudesse, por engano, ter gravado a novela, com outro título, ou na pasta ‘Novelas’, ou na pasta ‘Contos’, ou na pasta ‘Romances’, abriu-as, e todos os arquivos que elas continham. Não encontrou a novela Os Pioneiros. Procurou-a nas pilhas de papéis. O seu trabalho, infrutífero. Conversamos, eu, Susana, familiares e amigos de Luis Amadeu, a respeito da novela e de Luis Amadeu, que, sabíamos, desejava que a novela Os Pioneiros fosse publicada em livro. Decidimos publicá-la, às nossas expensas. Não digo que Os pioneiros é uma novela inacabada. Inacabada ela não é. Sabemos que destino levou o trecho final de Os pioneiros: o túmulo em que jaz Luis Amadeu.

Os pioneiros – parte 2 de 3

Os Pioneiros

A criatura emitiu urros estrondejantes. Enorme, de quatro metros de altura, aproximava-se, rapidamente, de Osvaldo, que não a viu em suas reais dimensões porque a penumbra o impedia, até que, não muito tempo depois, distinguiu-lhe a figura, todavia dela não definiu a coloração da pele (ou do que lhe revestia o corpo), que era rígida como rocha. Antes que Osvaldo compreendesse o que ocorria, a criatura golpeou-lhe o braço, e arremessou-o a mais de vinte metros de distância. Osvaldo sentiu o golpe, atenuado pelo exoesqueleto. Caído, olhou para a criatura, e distinguiu-lhe o vulto; mas mal pôde ver-lhe a cabeça, e dela viu a cauda de uns cinco metros, e que se encompridava. A criatura urrou. Odor miasmático atingiu Osvaldo, que, protegido pelo capacete, não o sentiu, mas a pele de seus braços e antebraços expostos sentiu-o, e a reação foi instantânea: bolhas rubras de sangue manifestaram-se nos braços e antebraços de Osvaldo; parecia que a pele dele havia sido removida. Ele olhou para seus braços, neles fixou o olhar por uma fração de segundo, e voltou-se para a criatura, que, embora gigantesca, dele se aproximara sem que os sensores do exoesqueleto captassem-na, e tampouco detectassem os tremores de terra que ela, com seus vinte mil quilos, produzia. Levantou-se; recompôs-se; viu a criatura indo em sua direção, e tratou de correr. E hesitou. Para onde correria? Olhou, apavorado, em torno. O descampado não lhe oferecia abrigo. Não tinha para onde fugir. O único meio de escapar da criatura gigantesca era contatar a espaçonave exploratória, e solicitar-lhe o seu (dele, Osvaldo) imediato resgate. E a criatura avançava em sua direção. Com os mapas tridimensionais, que os sensores do exoesqueleto desenhavam, de um raio de cinquenta metros, Osvaldo ampliou o seu conhecimento da região inóspita, desértica, mas espessa camada de nuvem, cuja composição ele desconhecia, impedia-o de ver com clareza o que havia ao seu redor, e as câmeras do capacete não a penetravam, para ajudá-lo a se orientar, e a penumbra, tenebrosa, terrificante, enfatizava o opressivo ambiente da região. Nenhum abrigo havia nas proximidades. Osvaldo não sabia para onde correr, mas tratou de correr, sem rumo, para se afastar da criatura, que o ameaçava, pois não queria se lhe servir de repasto. Desejava, sim, empanturrar-se com um banquete republicano; mas não era desejo seu servir-se de banquete para a criatura que o perseguia. O encerramento da vida do Pioneiro, ensina a lenda, não era o que Osvaldo desejava para si – nunca sonhou acabar sua vida no estômago de uma criatura escatológica. Ofegante, olhou, na sua corrida desabalada, por sobre os ombros, e viu a criatura, que de si não se aproximava, e tampouco dela ele se distanciava. Voltou-se para a frente; percorreu uns cem metros, pulou por sobre uma saliência, e atingiu criatura, cujos urro, e hálito, que lhe queimou a pele, indicaram-lhe que se tratava de uma criatura como a que o perseguia. Uma criatura rochosa, ele concluiu. Viu-se cercado, presumiu, pelas duas criaturas. Para onde ele correria? Os sensores do seu exoesqueleto detectavam a presença de uma criatura rochosa, e não de duas. Seria, aquela criatura que ele tinha diante de si, a criatura que o perseguia? Como ela se deslocara tão rapidamente, tão silenciosamente, sem que os sensores do exoesqueleto a detectassem? Ou a criatura rochosa que o perseguia não ia mais no seu encalço, abandonara a perseguição, e outra criatura rochosa lhe surgira diante dos olhos? Osvaldo se via em apuros; a situação não lhe era favorável. E se outras criaturas rochosas o abordassem? Como delas ele se livraria? A cauda da criatura rochosa serpenteava, ia na direção de Osvaldo, que, desorientado, impelido pelos sensores do exoesqueleto, se esquivou, e resvalou-lhe o capacete. Não foi Osvaldo que se esquivou da cauda; foi o exoesqueleto que dela se esquivou, livrando Osvaldo da morte. A criatura rochosa poderia esmagá-lo com um golpe da cauda. O exoesqueleto não resistiria à pressão da cauda, se a criatura rochosa com ela o envolvesse. Naquele momento, afinaram-se as nuvens, e Osvaldo pôde ver alguns detalhes da criatura rochosa. A penumbra, em alguns momentos, não a envolvia inteiramente, e, na cabeça dela Osvaldo viu três olhos, cuja disposição indicava que ela possuía mais dois olhos. Osvaldo não viu uma boca, e nem um nariz na criatura. Como ela urrava? E o hálito dela, que o atingiu, queimando-lhe a pele? Como ela respirava? No topo da cabeça dela havia duas saliências – cada uma destacava-se de uma têmpora – compridas e de ponta arredondada – cada uma delas de um metro de comprimento e diâmetro de meio metro na base e vinte centímetros na extremidade – e, na região central da cabeça, saliências que se assemelhavam a uma linha de cornos pontudos de vinte centímetros de comprimento cada um, e nas laterais da cabeça filamentos segmentados repulsivos, cuja aparência assumiram, aos olhos de Osvaldo, a aparência de criaturas parasitas – cinquenta ou mais -, que vibravam-se, ininterruptamente, e emitiam, ao se tocarem, estalidos agudos penetrantes, que feririam os tímpanos de Osvaldo se o capacete não lhos protegesse. Visão horripilante! Quais as dimensões da cabeça da criatura rochosa? Ela era enorme, vinte vezes maior do que a cabeça de Osvaldo. Outros aspectos da criatura que Osvaldo distinguiu: Inexistência de pescoço; revestimento repleto de protuberâncias; vegetais de coloração azul-esverdeada e vermelho-alaranjado cobriam-na em alguns pontos; dois pés curtos e grossos.

A criatura rochosa avançou na direção de Osvaldo, que se esquivou, com um salto, e caiu, em pé, a três metros de distância, e, hesitante, voltou-se para olhá-la, mas ela havia desaparecido. Foi neste instante que a mão pétrea da criatura rochosa segurou-lhe o capacete. Os sensores do exoesqueleto não indicavam a presença da criatura rochosa próxima de Osvaldo, que, para dela se desvencilhar, desferiu-lhe uma sequência de golpes. A criatura rochosa arrastou-o. Osvaldo, apavorado, esgoelou-se, e dobrou as pernas, para um salto; dobrou o corpo; e desdobrou-o para livrar-se da mão da criatura rochosa, e redobrou os seus esforços. Desvencilhou-se, enfim, da mão da criatura rochosa, acionou a pistola, e disparou. A onda de energia viajou por quilômetros, até atingir uma montanha. A criatura rochosa havia desaparecido. Que mistério rondava Osvaldo? Como uma criatura – presumindo-se que fosse apenas uma criatura – aparecia e desaparecia – e os sensores do exoesqueleto não a captavam -, e não deixava sinais da sua presença? Nenhum vestígio havia da existência dela. Pegadas? Nenhuma. Ela desapareceu, sem deixar vestígios. Viera de onde? Para onde foi? Os mapas tridimensionais elaborados pelos sensores do exoesqueleto de Osvaldo não indicavam a presença de nenhuma criatura num raio de duzentos metros. Osvaldo não deu, no entanto, atenção aos sensores do exoesqueleto, pois estava persuadido de que de nada lhe valiam, pois eles não captavam a criatura rochosa; era como se ela não existisse. De sobreaviso, Osvaldo andou. Circunvagava os olhos. Detinha-se. Procurava pela criatura rochosa. Sabia que ela poderia atirar-se sobre ele de qualquer direção. Deparava-se, sabia, com uma criatura a respeito da qual tudo ignorava. Não sabia se poderia se antecipar a um ataque desfechado por ela. Aterrorizava-o tal situação. Petrificá-lo-iam as incertezas se o exoesqueleto não o conservasse alerta, com os olhos bem abertos, os ouvidos bem apurados, para, se necessário, reagir a qualquer ataque desfechado por uma criatura rochosa, ou por outra criatura qualquer. A tensão inspirava-lhe pensamentos caóticos, os de um derrotado, os de uma pessoa que desistia de viver, e estava na iminência de sucumbir ao destino que, acreditava, era o seu, e dele não poderia esquivar-se. O exoesqueleto, todavia, ao injetar-lhe ânimo, não permitiu que ele se curvasse ao destino que, acreditava ele, estava traçado para si, mas ele, no entanto, não abandonou os pensamentos lúgubres, que o atormentavam. Sabia que não podia negligenciar atenção. O exoesqueleto não o deixava esquecer disso. A passos curtos, firmes, andou, lentamente, desorientado, sem saber que direção seguir. Envolveu-o nuvem de partículas, que lhe rasgaram a pele dos braços e dos antebraços. Imprevidentemente, ele expusera-se ao desconhecido com um exoesqueleto que não reconstituía as partes danificadas – algo a havia danificado assim que ele deu os primeiros passos para fora da espaçonave exploratória, mas, ao invés de acolher as sensatas exortações de Mariana e Jennifer, à espaçonave regressar, e reconstituir o exoesqueleto, rejeitou-as, e insistiu na sua aventura exploratória, que quase lhe custou a vida, para registrar, unicamente, seu nome na história, o do primeiro humano a pisar no solo de A***, o planeta inóspito. A história registrará o nome de Osvaldo, e o associará à primeira aventura em solo de A***, o planeta inóspito, e não deixará de registrar a sua imprudência, as suas atitudes insensatas, de absoluto descompromisso com o seu companheiro de jornada. Os pioneiros eram os argonautas, e Osvaldo atribuía-se as virtudes de Ulisses, e se autocondecorara o líder incontestável da odisséia; no entanto, os eventos o desmentiam.

Enfim, a espaçonave exploratória A-1 resgatou Osvaldo.

Assim que Osvaldo removeu o capacete, Jennifer desferiu-lhe um tapa, ferindo-lhe o ego. De baixa estatura, leve, de mãos pequenas, sedosas, ela não é dotada de força para desferir um tapa que imprimisse marcas no rosto dele. O tapa era mais simbólico do que concreto. Não tinha as propriedades de um tapa. Ato contínuo, Jennifer, com palavras ferinas, desancou Osvaldo. Acutilou-o, feroz, com sua voz argentina, que, parecia, era amplificada por uma caixa de ressonância. Uma mulher tão pequena com uma voz tão poderosa! Contrariado, rilhando os dentes, Osvaldo ouviu-a. Dela desejava afastar-se, mas seus pés, enraizados no piso, não lhe permitiram dar um passo; diriam seus antepassados: “Osvaldo ouviu o sabão que a Jennifer lhe passou”; uma expressão antiga intraduzível. Jennifer repreendeu-o, vigorosamente, com autoridade, e não permitiu que ele lhe replicasse. Foi a primeira censura que ele ouviu, e não seria a última. Encerradas as censuras, Osvaldo encaminhou-se ao consultório médico, onde despiu-se do exoesqueleto, e reconstituiu suas células que o hálito da criatura rochosa destruíra. Em seguida, reuniu-se, na sala de conferências, com Jennifer, Mariana, Susana, Leonel, Ricardo, Washington e Katsushiro. O ambiente não lhe era favorável. Repreenderam-no todos os presentes. Após as censuras, concederam-lhe o direito de falar; e ele falou, e os seus interlocutores surpreenderam-se com o teor do seu relato. E Katsushiro, assim que Osvaldo encerrou o seu relato, pronunciou-se, antecipando-se a Jennifer e Susana, que haviam se movido, indicando que desejavam se pronunciar, mas, diante do gesto de Katsushiro, se recompuseram. Katsushiro, e não Osvaldo, era o Ulisses da expedição.

– Osvaldo, tu nos falaste de uma criatura rochosa. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe, todavia, não a captaram. Captaram, unicamente, numa vasta área em torno de ti, movimentos incomuns de partículas metálicas, e algumas destas partículas tinham propriedades ígneas, e foram elas, presumimos, que te queimaram a pele.

– Ouça, Katsushiro. Ouçais todos vós – pronunciou-se Osvaldo, contrariado, num tom de voz desafiador. – Vi uma criatura rochosa, de cujo corpo vos dei uma descrição; aliás, descrevi-lhes o que dela pude ver, pois não a vi toda, devido à penumbra e à densa nuvem. E ela atacou-me, e perseguiu-me, e feriu-me. Vi, repito, uma criatura de constituição rochosa, que me atacou, golpeou-me, agarrou-me, perseguiu-me…

– Reconheças, Osvaldo – disse Jennifer, com a autoridade que lhe era peculiar -, que estamos em um planeta inexplorado…

– Inexplorado por humanos – interrompeu-a Susana, cujo sorriso não ocultava os seus pensamentos e revelava a sua antipatia por Jennifer.

– Um planeta inexplorado, este planeta inóspito – prosseguiu Jennifer, elevando o tom de voz e conferindo-lhe firmeza dissuasiva. – De A***, um planeta inexplorado – escandiu as sílabas –, nada sabemos. Não sabemos quais fenômenos manifestam-se em A***. Os sensores do exoesqueleto de Osvaldo foram danificados, sabemos; mas os desta espaçonave exploratória, não, e tampouco os da espaçonave-mãe. E os desta espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nenhuma criatura semovente detectaram, Osvaldo, além de ti.

– Não sabemos o que tu viste – pronunciou-se Washington, no seu inconfundível tom contido. Osvaldo interrompeu-o, exaltado:

– Vi uma criatura rochosa, que me atacou.

Katsushiro observou-o, atentamente.

– Não digo que tu não a viste – interveio Ricardo, pacificador, ao notar que Osvaldo exaltava-se. – Tu nos disseste ter visto uma criatura rochosa. Acredito em ti.

– Tu dás mãos à palmatória – sentenciou Osvaldo.

– O quê? Não entendi – disse, confuso, Ricardo.

– Nada. É apenas uma expressão antiga – explicou Osvaldo, sem se estender em pormenores.

– Os sensores do teu exoesqueleto estavam danificados – prosseguiu Ricardo. – O teu exoesqueleto não detectou uma criatura rochosa, e nem as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas que te envolveram. Os sensores da espaçonave exploratória, todavia, como tu podes ver no holograma, detectaram as partículas metálicas e as partículas metálicas ígneas, mas não detectaram a criatura rochosa. Como podes ver, Osvaldo, a densidade e a espessura da nuvem eram maiores nas proximidades de ti. Não sabemos que fenômeno manifestou-se, lá, no solo…

– Não sejas tão amigável – interrompeu-o Osvaldo, com sorriso escarninho e gesto de impaciência. – Desejas desmerecer a minha conquista? Ora, para que tanta tagarelice?

– Queremos saber o que se passou no solo – disse Mariana.

– Eu já vos disse: Uma criatura rochosa atacou-me – replicou Osvaldo, alterado, mas contendo-se.

– Não é o que os sensores da espaçonave exploratória indicam – sentenciou Jennifer.

– O que vós quereis que eu vos diga? – desafiou-os Osvaldo. – Vi uma criatura rochosa, que me atacou. Quereis que eu vos confirme as informações que os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe vos forneceram? Não o farei. Sabeis as razões? Vi uma criatura rochosa, e ela não é uma criatura amigável. E não pretendo cruzar o caminho dela novamente – encostou-se ao espaldar da cadeira, e expulsou, com um expirar vigoroso, todo o ar dos pulmões.

– As áreas mais escuras do holograma – retomou a palavra Ricardo – indicam a maior densidade da nuvem. E elas, podemos ver, encontram-se próximas de Osvaldo, e deslocam-se, aleatoriamente. Não seguem os movimentos da nuvem. Osvaldo disse-nos que a criatura rochosa tinha em torno de quatro metros de altura, e, supôs, vinte toneladas. Os sensores da espaçonave exploratória não detectaram tremores de terra. Uma criatura de tais dimensões produziria, ao deslocar-se, tremores que os sensores da espaçonave exploratória poderiam captar, mas não os captaram. Esta informação é pertinente. Na imagem holográfica, vemos que as áreas escuras correspondem a pequenas áreas, e a maior delas não corresponde sequer à uma área de um metro cúbico. E é esta área, estou convencido, que segue no encalço de Osvaldo. Acredito que as partículas metálicas ígneas, atraídas pelo exoesqueleto, como imãs…

– O que tu insinuas, Ricardo? – perguntou-lhe, interrompendo-o, Osvaldo, com voz firme, hostil, encarando-o. – Insinuas que nenhuma criatura rochosa me atacou? Insinuas que nenhuma criatura rochosa me perseguiu? Insinuas que inventei tal história? Insinuas que enlouqueci?

– Osvaldo, contenha-se – pediu-lhe Katsushiro, em tom de ordem. – O Ricardo nos forneceu um breve resumo das informações acumuladas desde o instante em que tu principiaste a exploração do solo de A*** e as inferências óbvias. Ele, como todos nós, deseja entender o que se passou no solo de A***. Eliminou as incongruências, mas, ciente das suas responsabilidades, apresenta-nos as que não pôde eliminar. Um trabalho complexo, tu sabes, Osvaldo. Há discrepâncias nos dois relatos, isto é, no teu e no do Ricardo. O teu, originado da tua experiência em solo; o do Ricardo, das informações fornecidas pelos sensores da espaçonave exploratória e da espaçonave-mãe. Tu nos fala de uma criatura rochosa, que te atacaste. Te ouvimos atentamente. Ricardo nos fala de uma nuvem composta de partículas metálicas ígneas. Os dois relatos não combinam. Anulam-se. Não sabemos, Osvaldo, quais fenômenos manifestam-se em A***. Fomos imprudentes ao iniciarmos uma expedição exploratória antes de reunirmos informações mais consistentes, que nos propiciassem segurança; sem a mais remota idéia de quais informações nos são imprescindíveis, principiamos a expedição exploratória certos de que fenômenos e criaturas nos surpreenderiam. Não sabemos se há seres vivos inteligentes em A***. Não sabemos se há uma civilização em A***. Os sensores da espaçonave exploratória e os da espaçonave-mãe nada detectaram, e as espaçonaves exploratórias miniaturas não-tripuladas transmitem-nos informações do solo e dos fenômenos naturais, alguns incomuns, de A***, mas nada que indique a presença de seres vivos. O teu relato, Osvaldo, dá-nos notícias de uma criatura, inconcebível por nós, revestida de uma pele rochosa e de aparência grotesca. O relato de Ricardo dá-nos notícia de um fenômeno natural inusitado para o qual ele procura uma explicação plausível. Entendas, Osvaldo, que empreendemos uma expedição exploratória em um planeta que desconhecemos. Não sabemos o que nos espera. E o Ricardo tem de nos dar as informações colhidas e as interpretações apropriadas, na certeza de que não sabe se procedem. Como tu, ele tem de dar relatos fiéis dos eventos…

– Presumo tratar-se de partículas imantadas – prosseguiu Ricardo, assim que Katsushiro concedeu-lhe a palavra. – Partículas metálicas ígneas de propriedades de imã. Quando Osvaldo detinha-se, tais partículas detinham-se em torno dele, mas não cessavam os movimentos; rodeavam-no, como se o avaliassem. Não quero atribuir faculdades sensitivas às partículas metálicas ígneas, mas elas manifestavam características singulares. Elas, presumo, ao tocarem os braços de Osvaldo, feriram-no. Os movimentos delas eram aleatórios, mas, incrível!, seguiam um padrão. Sei que as minhas explicações são enigmáticas. Não esclareço nenhum ponto. Não sabemos o que Osvaldo enfrentou; e diante do desconhecido e da escassez de informações, temos de adiar outra expedição exploratória com humanos.

As últimas palavras ditas por Ricardo enraiveceram Osvaldo, que se exaltou, levantou-se da cadeira, pousou as mãos na mesa, encarou Ricardo, e disse, esbravejando:

– Tu não sabes o que enfrentei, humano artificial. Sei o que enfrentei, anomalia de laboratório. Enfrentei uma criatura rochosa, que me perseguiu, e agarrou-me, e agrediu-me. Autômato, tu não sabes o que diz. Tu detestas os humanos. Não sei porque tu fostes convidado para esta expedição. Tua raça é prejudicial à humana, parasita artificial. Por que te aturam? Tu injetaste nanorrobôs, filhos teus, no cérebro de todos aqui, replicante? Regresses ao teu ovo simbiótico. Regresses ao útero ectoplasmático de tua matrix!

Katsushiro e Jennifer pronunciaram-se com vigor. Inadmissível, a postura de Osvaldo. Katsushiro ordenou-lhe que se retirasse. Osvaldo recusou-se a atendê-lo. Dois robôs, então, ladearam-no, e Katsushiro ordenou a Osvaldo que os acompanhasse até o quarto, e lá permanecesse, incomunicável.

Osvaldo, bufando, retirou-se, ladeado pelos robôs, da sala de conferências.

Entreolharam-se Katsushiro e Jennifer.

Excetuando Katsushiro e Jennifer, os outros participantes da reunião retiraram-se da sala de conferências.

Com voz pausada, palavras calculadas, Jennifer disse:

– Não me agradou o comportamento do Osvaldo. O que ocorreu em A***? Não sabemos, Katsushiro, o que enfrentamos. Osvaldo, um homem pacífico, sereno, está tão suscetível às divergências…

– Conheço-o à décadas – disse Katsushiro. – Nunca o vi agir de tal modo. Não digo que é incomum a atitude de Osvaldo. Digo que é inédita. Não direi que é inexplicável, pois inexplicável não é. Algo afetou Osvaldo. Ele não pondera, não procura explicações racionais para o episódio. Há incongruências nos relatos. As análises feitas pela espaçonave exploratória e pela espaçonave-mãe contestam o relato que Osvaldo nos apresentou. Não sabemos o que inspirou a Osvaldo as, supomos, alucinações. É certo: Não o enviaremos para outra expedição exploratória a A***. Aliás, humanos não mais descerão em A***. Enviarei robôs, nas próximas expedições exploratórias. Osvaldo foi convidado a participar desta expedição intergaláctica devido à sua coragem singular, à extraordinária rapidez de seu raciocínio, à sua inigualável destreza manual, à sua irrivalizada inteligência prática. Raros humanos são dotados das virtudes imprescindíveis para o exercício apropriado de aventuras similares às que ele viveu. Tu sabes que temos de impedir que recrudesça os danos à mente de Osvaldo. Temos de preservá-lo, neste momento, dele mesmo. Tu viste como ele agiu, tão suscetível, tão contrariado quando Ricardo apresentou-nos as informações que a espaçonave exploratória e a espaçonave-mãe nos forneceram. Ricardo não aludiu ao estado mental alterado de Osvaldo, nenhuma insinuação mal intencionada ele fez. A sua postura, o seu vocabulário, o seu olhar, os seus gestos, indicaram que ele, ao notar que Osvaldo não estava em seu juízo perfeito, falava e, para não ferir suscetibilidades, pensava nas palavras que usava. Osvaldo, com os olhos esbugalhados, e os dedos a tamborilar a mesa, estava agitado, impaciente, irritado. O propósito de Ricardo era induzir Osvaldo a refletir no que aconteceu em A***, ponderar, e procurar por uma explicação racional. Foi mal sucedido, como vimos.

– Manteremos Osvaldo isolado?

– Por enquanto, sim… E pelo tempo necessário, para lhe avaliarmos o comportamento. Temos de saber o que ocorreu com ele, e o que com ele se passa. Ele, esteja certa, Jennifer, se oferecerá para empreender outra expedição exploratória, mas enviarei robôs para A***, e não ele.

– Chamou-me a atenção, Katsushiro, o vitupério que Osvaldo disparou contra Ricardo. Disse-lhe que regressasse ao ovo simbiótico. Alcunhou-o replicante, autômato, anomalia de laboratório. O Ricardo, não me passou despercebido, empalideceu; surpreso, pareceu-me, e, como direi?, admirado, ele fitou Osvaldo, e… Como direi? Ele, contrariado, à revelação de um segredo, que ele nos oculta, dele, e Osvaldo… Ricardo, estupefato, removida a sua máscara…

– Ricardo, que conhece a reputação de Osvaldo – interrompeu-a Katsushiro, abruptamente -, dele jamais esperou tal atitude, pois o admira, afinal, dele ouviu histórias enaltecedoras. E na primeira vez que com ele depara-se, dele ouve ofensas. E testemunha postura, tão irracional, que o surpreende, em uma pessoa de quem sempre lhe disseram tratar-se de uma cornucópia de paciência e ponderação. A frustração e a desilusão, instantâneas, conquanto saiba que Osvaldo está com a mente afetada, ou por uma bactéria, ou por um virus, ou… não sabemos o quê… Ricardo surpreendeu-se com a postura de Osvaldo, daí a sua palidez, a sua contrariedade…

– Não foi essa a impressão que tive – disse Jennifer, áspera, ao mesmo tempo que se levantava para se retirar da sala de conferências. – Fiquei com a impressão de que Ricardo surprendeeu-se, não com a reação violenta, injustificada, de Osvaldo, mas, sim, com as palavras que ele proferiu, com as alcunhas que ele lhe atirou.

Katsushiro observou-a ir até a porta, esquadrinhando-a com olhar penetrante, enviesado, ambíguo.

Os pioneiros – parte 1 de 3

Há seis meses, propus, durante uma tertúlia, na casa da Querosene – a Poliana, assim alcunhada devido ao seu pavio curto e ao seu sangue inflamável –, um tema para contos. Estávamos presentes, eu, Luis Amadeu, Poliana, Renata, Teresa, Gabriel e Rafael. A Poliana é a namorada do Rafael. A Renata é a minha namorada. A Teresa, uma semana antes, rompera o namoro com o Vinicius. O Gabriel havia dois dias brigara com a Adriana (Ele, não me resta dúvidas, compareceu à casa da Poliana porque, imprudente, involuntária e imprevidentemente o Luis Amadeu dissera-lhe que a Teresa iria lá. Qual foi a contribuição do Gabriel à assembléia literária? Nenhuma. Ele se limitou a beber o café-com-leite que a Poliana nos preparou e a degustar biscoitos de nata, bolachas, geléias e pudins, e a ouvir – e dar-se de desentendido – as insinuações, nem sempre sutis, que a Renata lhe lançou na cara).

A tertúlia foi proveitosa. Rafael, criativo, apresentou-nos as suas idéias para novelas de vários gêneros literários que pretendia escrever, leu-nos as anotações que havia feito desde a nossa última reunião (isto é, na reunião à qual ele compareceu, oito meses antes; entre a última participação dele numa tertúlia e a que promovemos no dia em questão, havíamos nos reunido cinco vezes. O Rafael não compareceu a esses cinco encontros devido ao seu trabalho, que lhe exigiu as vinte e quatro horas de cada dia), e as comentou, como, também, um conto que escrevera. Não sei o que ele tem no cérebro, que lhe permite produzir tantas idéias; muitas não são boas, é verdade, mas as que são boas são ótimas, e com elas o Rafael escreve novelas e contos empolgantes; o mesmo digo do Luis Amadeu, que, embora menos prolífico do que o Rafael, escreve histórias mesmerizantes. Ao dar início à leitura de um conto ou de uma novela de sua autoria, não consigo interrompê-la enquanto não a dou por encerrada. Já cheguei atrasado a compromissos por causa de contos e novelas escritas por Rafael e Luis Amadeu. E já ouvi muitos sermões da Renata. É impossível interromper a leitura de uma história escrita por eles. Quem já leu alguma obra deles, sabe do que estou falando, e concorda comigo, é certo.

De todos os que participavam do sarau, Teresa é a única vocacionada à análise crítica e dona de uma memória privilegiada. Ela sabe, puxando, sem esforço aparente, pela memória, o nome de todos os personagens de Guerra e Paz e todos os episódios de Dom Quixote de La Mancha. Contribuiu, para o enriquecimento da assembléia, com as comparações que apresentou de obras clássicas e modernas, e explicou-nos porque aquelas que ela reputava melhores eram as melhores. Confesso: perdi-me em alguns momentos durante os quais ela nos falava, prendendo-nos a atenção. Valiosa, a sua contribuição. Ela não nos deu idéias para contos e novelas, mas extraiu dos que leu a essência, e disse-nos porque todos os amantes da literatura têm de lê-los, se desejam conhecer literatura e escrever boas histórias. Rafael, com as suas dezenas de idéias, contrapôs-se à Teresa. Não é dotado de senso crítico equiparável ao dela. Tem um cérebro fantasioso. Converte a realidade numa fantasia eterna, duradoura, sem compromisso com o verossímil. Ele alheia-se do mundo, e deixa-se envolver pela nuvem da fantasia, que o transporta para outra dimensão, uma dimensão cuja localização raros humanos conhecem. Quanto à minha contribuição, à da Poliana e à da Renata, se não se equiparou à da Teresa, Rafael e Luis Amadeu, não foi inexistente como a do Gabriel.

Após o encerramento da tertúlia, saímos, eu e Luis Amadeu, da casa da Poliana, após nos despedirmos dos outros participantes. Andávamos pela rua São Francisco, quando o Luis Amadeu entregou-me uma pasta, e falou-me do seu teor; não proferiu vinte palavras, um acesso de tosse o dominou. Cessamos os passos. O rosto de Luis Amadeu tingiu-se de vermelho. Deu-me a impressão de que o sangue escapara-lhe dos vasos sanguíneos e, pelos poros, escapara-lhe para a pele, cobrindo-a inteiramente. Pouco depois, recomposto, Luis Amadeu reassumiu a sua aparência original. Durante o seu acesso de tosse e a sua recomposição, fitei a pasta que ele me entregara, em cuja capa havia, numa etiqueta, o título de uma novela: Os Pioneiros. Era mais uma das histórias repletas de criaturas extraordinárias que pululam da mente de Luis Amadeu, pensei comigo. Quantas histórias de sua autoria já li? Perdi a conta. Algumas, amalucadas, com extravagantes personagens pitorescos, que enfrentam criaturas fabulosas, em aventuras inusitadas, eu diria inenarráveis, em cenários extraordinariamente exuberantes, ocuparam o meu tempo por horas a fio, e induziram-me a desconectar a mente da realidade. Absorveram-me inteiramente. E aquele título, Os Pioneiros, fizeram-me evocar cenas de outros livros de autoria de Luis Amadeu. Fantásticas. Cativantes. Envolventes. Perguntei-me: Luis Amadeu, nesta novela, repete temas, cenas e episódios de outras histórias de sua autoria? Não que isso me desagradaria. A narrativa de Luis Amadeu é tão envolvente que leio uma história dele três vezes e acredito ter lido três histórias distintas. É um talento narrativo raro, o dele. Eu iria lhe perguntar o que havia naquela novela, e se ele reciclara idéias de outros livros, mas ele, antes que eu abrisse a boca, refeito do acesso de tosse, num tom pausado, porém animado – no início lentamente, escandindo as palavras e coordenando os pensamentos, depois, com seu tom peculiar, sua voz sonora, seu vocabulário, simultaneamente simples e sofisticado (a sofisticação está na simplicidade e a simplicidade na sofisticação) -, disse-me:

– Os Pioneiros contem relatos de uma expedição humana exploratória para um planeta que, segundo astrofísicos e exobiólogos, conserva semelhanças com a Terra. Baseei-me, para escrevê-los, nas mais recentes descobertas científicas; no entanto, a elas não me prendi. Não aprecio relatos que mais parecem tratados científicos, e não histórias de aventuras. Há escritores que dão relatos, realistas, dizem eles, e, portanto, superiores às aventuras fictícias, fantasiosas, sejam as de terror, as de espionagem, as políticas, as de ficção científica, as de fantasia à Tolkien. Realismo! Não há realismo na ficção. Ficção é ficção. A realidade não pode ser apreendida pelos humanos. Quero dizer: a realidade é apreendida pelos humanos, mas os humanos, ao usarmos de palavras para representá-la, não o fazemos com correção. Não sei se estou me fazendo entender. Corrijo-me… A emenda saiu pior do que o soneto? A argumentação filosófica não é um dos meus talentos. Digo, para me fazer entender: As palavras que empregamos para representar a realidade não são a realidade, são palavras; não representam a realidade, não a retratam. A linguagem humana não a traduz com correção. As palavras são palavras. Os tolos acreditam que as palavras retratam a realidade, reproduzem a realidade, são a realidade. As palavras não reproduzem a realidade, não a retratam, não são a realidade. As palavras são inexatas. Uma pessoa usa certas palavras para traduzir a realidade; outras pessoas usam outras palavras para traduzirem a realidade. Há uma realidade. E infinitas traduções dela. Não há duas pessoas com a mesma concepção do mundo, tampouco duas pessoas podem retratá-lo com as mesmas palavras. Estou me fazendo entender? A objetividade dos relatos, almejada por muitos escritores, é uma quimera, uma obsessão injustificada. Os que empreendem tal esforço despendem energia, que não é renovável. É uma tarefa infrutífera, um exercício infértil, fútil. Não desperdiço nem uma fração infinitesimal da minha inteligência num exercício que, como eu disse, é infrutífero. É impossível reproduzir, com palavras exatas, no papel, os eventos que presencio, pois sei que sou, como todas as pessoas, incapaz de fazê-lo, devido os limites da minha inteligência, que é a de um humano, e não a de um lunático, como muitas pessoas pensam. Não me canso de dizer, para as pessoas que se dispõem a me ouvir: Não há relatos realistas. Saiba que o realismo fantástico é um rótulo, apenas um rótulo, como outro rótulo qualquer, e nada quer dizer, absolutamente nada; é um rótulo sem pé nem cabeça, criado para identificar uma literatura que, dizem os pernósticos, é distinta da de outros continentes, criação singular dos povos sul-americanos. Bobagem! Estupidez sem paralelo na história da civilização! Típico de bárbaros presunçosos! Toda literatura é fantástica, em graus distintos. Difícil é saber qual é a mais fantástica e qual é a menos fantástica. Até agora ninguém me convenceu de que a literatura dita realista é realista, e as outras, não. Há mais realidade na Divina Comédia do que na Comédia Humana! As palavras, como eu disse, são palavras; não nos apresentam um retrato exato da realidade; representam, nunca com exatidão, o que as pessoas que as empregam captaram da realidade, pois tais pessoas as distorcem, involuntariamente, ou não. As palavras não são a realidade; não constróem a realidade. Reproduzem o que as pessoas acreditam ser a realidade. Estou sendo um pouco repetitivo, e, como não me é comum, estendo-me em reflexões filosóficas. Não sei o que a Teresa me faz sempre que com ela converso. Você já percebeu que, sempre que converso com a Teresa, e participo dos saraus nos quais ela participa, fico cheio de filosofias? Parece-me que ela me exerce uma influência, salutar, acredito. Ou não? Vivo com os meus desvarios fantásticos. Extrapolo, reconheço, o bom-senso, não raras vezes. Deixo minha mente espraiar-se por outros mundos, outros universos, outras dimensões. Não pelos mundos conhecidos. Quantos são? Dois mil? Não pelos universos presumidos. Nem pelas dimensões concebidas, nas teorias, pelos cosmólogos e pelos físicos teóricos; mas pelos mundos, universos e dimensões que se encontram, unicamente, na minha mente. As minhas idéias são corpóreas, ou constituem-se de ondas? São compostas de partículas? Preenchem um lugar no espaço? Como o cérebro, órgão físico, concebe coisas imateriais, os pensamentos, os sentimentos e as idéias? Espero não me encontrar com a Teresa nos próximos trinta dias. Não quero rechear as minhas narrativas com intermináveis elucubrações filosóficas. Que prolixidade! Você se lembra do que eu falava? Puxe pela memória, e ajude-me a restabelecer o fio da meada. Eu falava da história, que está nessa pasta, de uma aventura incrível num planeta inóspito. Puxa! A Teresa consegue inspirar o meu lado mal, o pior dos meus instintos racionais. O que ela possui? Qual o talento dela? Como posso definir a influência dos comentários da Teresa na minha mente? O que de meu cérebro a Teresa extraiu? E o que nele ela inseriu? Você acha que, para o meu bem-estar, tenho de me afastar da Teresa? Ela não me é uma boa influência. Ou é? Não sei mais no que estou pensando, e não sei a respeito do que eu falava. Qual era o assunto da nossa conversa? Você lembra qual era? Eu ainda me lembro. Vou tratar do tema de nosso interesse, antes que eu me estenda, com a minha tagarelice, e não me recorde mais do que falo, e retire essa pasta com a minha novela de suas mãos, não me recordando das razões que me levaram a entregá-la para você, e você não me pergunte porque eu a entreguei para você, e eu, com a pasta comigo, vá embora. Como não quero que isso aconteça, e você também não, estou certo, dou por encerradas, definitivamente encerradas, e que isso fique bem claro, estas minhas digressões, que nos afastam do assunto que pretendo tratar com você, e falo do que há nessa pasta. Você leu o título de uma novela que escrevi de três meses para cá: Os Pioneiros. Novela em que se narra uma aventura fantástica num planeta inóspito. Não me pergunte qual é o nome do planeta. Não me faça essa pergunta; se ma fizer, eu nenhuma resposta darei, e por uma razão bem simples, da qual você suspeita, você, um dos meus melhores leitores: Não escrevi o nome do planeta. Empreguei um recurso comum aos escritores que não desejam dar a localização da cidade, ou da região, ou do país: três asteriscos. Usei três asteriscos para identificar o planeta inóspito. Muitos escritores preferem o uso de três pontos após uma letra maiúscula. Qualquer letra. Uma letra e três pontos. O Claudemir emprega esse recurso, principalmente quando ambienta as suas histórias nesta cidade, e concebe personagens tendo como base as pessoas de seu relacionamento, inclusive familiares e amigos, alterando-lhes os nomes. Com tal recurso, ele não engana os leitores que o conhecem. Até eu ele já descreveu, o maldito! E duas vezes, uma no conto Vulgares, dando-me o nome de Celso, um dos coadjuvantes. Celso era… era, não; é; é o meu retrato, não exato, mas fiel, direi. E o outro ‘eu’ que o Claudemir descreveu encontra-se na novela Acessos e Retrocessos, novela herói cômica, assim a classificaria se eu apreciasse classificações; e o Claudemir me fez como um personagem que arquiteta as artimanhas mais extravagantes que se possa imaginar. Vinguei-me dele na novela Desencontros de Duas Almas que se Merecem. Retratei-o, como pude. O Claudemir se reconheceu, disse-me que dele fiz uma caricatura grotesca, e eu lhe agradeci o elogio. Se a caricatura é grotesca, e qual caricatura não o é?, então fui bem-sucedido no meu trabalho. Não foi em vão o meu esforço. Atingi um soco na boca do estômago do Claudemir, e ele me disse para eu me preparar para a revindita. Você leu Desencontros de Duas Almas que se Merecem? Leia-a. Você reconhecerá o Claudemir na caricatura. E leia Vulgares, e Acessos e Retrocessos. Você me reconhecerá no personagem Celso, e, digo agora, no Virgulino. Que nome para um personagem! Eu dizia: O Claudemir emprega a letra maiúscula seguida de três pontos quando não deseja identificar a cidade na qual a história se passa. Muitos escritores russos também empregaram tal recurso nos seus contos, novelas e romances. E eles também empregavam três estrelinhas; quero dizer, três asteriscos. Monteiro Lobato brincou com essa prática. E, dizia eu, na novela, há um planeta… Refiro-me, agora, à minha novela Os Pioneiros. O planeta eu o identifiquei com três asteriscos, e, antes dos três asteriscos, se eu ainda não disse, digo, a letra ‘A’ maiúscula. Pensei em conceber um nome para o planeta. Que nome eu lhe daria? Matutei. Dei-lhe dezenas, centenas, milhares de nomes. Por fim, após fundir a cuca, decidi pelo ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos. E é nesse planeta ‘A’ maiúsculo seguido de três asteriscos que a história se passa. O planeta da novela… Novela? Do conto… Conto? A história é extensa para um conto, e tem muitos personagens, e detalhes e relatos que lhe dão uma dimensão que vai além do conto. Não é um conto. É uma novela. Quantos personagens participam da história? Uns quinze. Talvez mais de vinte. Uns trinta. Considerando-se a sua extensão e o número de personagens que se apresentam nas suas mais de cinquenta páginas, Os Pioneiros não é um conto; é uma novela. E eu quero que você a leia. Você será a primeira pessoa que a irá ler. Na verdade, a segunda.  A primeira pessoa que a leu fui eu. Tive esse privilégio. E eu, mesmo que desejasse concedê-lo a você, não poderia fazê-lo. Não se entristeça. Você terá o privilégio de ser a segunda pessoa a lê-la. E, depois de lê-la, me dirá o que achou dela. Depois, a entregarei para a Teresa. Talvez você esteja se perguntando porque não pedi para a Teresa ler Os Pioneiros. Tive as minhas razões. A Teresa iria dissecar a novela à procura de um defeito, um mísero defeito, de uma incoerência, de uma inconsistência, de um mísero erro gramatical, de uma discrepância, de uma deficiência no estilo, no vocabulário, e depois analisaria o tema, procuraria por sua relação com teorias científicas, psicológicas, filosóficas, ideológicas, as quais não tive em mente desenvolver, as quais nem sequer tangenciaram-me a cabeça, tampouco resvalaram-me o cérebro. A Teresa é obcecada por questões teológicas, sociológicas, filosóficas, psicológicas, praxeológicas, sociológicas, o diabo! Não reclamo. As observações da Teresa a respeito de alguns contos que lha apresentei e a respeito dos quais lhe pedi comentários, fizeram com que eu os modificasse, para melhor, os incrementasse com episódios que deixaram a trama mais sólida, e adicionasse personagens, ou excluísse personagens, conforme o caso, simplificando-os. Até mesmo com a adição de personagens e de episódios alguns enredos simplificaram-se porque se tornaram mais claros quando deles eliminei o desnecessário, que só servia para encher lingüiça. E também modifiquei o vocabulário de personagens, as suas expressões, sentenças, e a sua personalidade. A Teresa deu-me a sua contribuição, valiosa, para a redação de contos e novelas, e para um romance que escrevi há um ano: Amizade Eterna. Neste romance, por sugestão da Teresa, além de suprimir capítulos, e adicionar capítulos, suprimir personagens, e adicionar personagens, modifiquei o título, que ficou: Uma História Comum. O romance melhorou, depois de eu o modificar por sugestão da Teresa. Não acolhi todas as sugestões que ela me deu, é óbvio. Algumas não me agradavam. Atendiam ao gosto da Teresa; não ao meu; então, os descartei. Ora, sou o autor do romance; não a Teresa. Não posso escrever um romance, ou um conto, ou uma novela, que a Teresa gostaria de ler; e não eu. Escrevo ao meu gosto; sou escravo do meu gosto. Não rejeito sugestões que me agradam, que contribuem para melhorar as minhas histórias; acolho-as quando me convenço de que melhorarão as minhas idéias originais, mas não posso descaracterizar as minhas obras. Não quero dizer que a Teresa foi intransigente, e quis impor-me as suas idéias. Longe disso. Ela jamais faria isso. Pedi-lhe observações sobre o que escrevi porque ela é uma pessoa dotada de talento distinto do meu. O que ela vê do mundo é muito, mas muito, diferente do que vejo. Somos muito diferentes um do outro. Não sei se existe o pouco diferente e o muito diferente. Há o igual e o diferente. Há pouco igual e muito igual? Há pouco diferente e muito diferente? É absurdo falar assim, não é? Igual é igual. Diferente é diferente. Uma caneta é igual a outra caneta. Elas não são pouco iguais; elas não são muito iguais. Elas são iguais. Um lápis é diferente de outro lápis. Eles não são pouco diferentes. Eles não são muito diferentes. Eles são diferentes. Bastou-me evocar a Teresa, que comecei a filosofar. Depois desse tempo todo, depois de tudo o que falei a respeito de Os Pioneiros, pensei que a influência da Teresa sobre mim havia se dissipado. Enganei-me. A influência persiste. A sua força é imensurável, inexaurível. Persiste em mim. Não sei se isso é bom, ou se é ruim. Agora que já disse porque não pedi para a Teresa ler Os pioneiros, sabe o que farei? Direi que, ao entregar para você a minha obra-prima à qual me dediquei durante três meses, tive em mente pedir comentários sobre as idéias, as cenas de aventuras, se são empolgantes, emocionantes, ou não. Não quero comentários teológicos, filosóficos, e o raio que o parta! Quero saber se o leitor se encantou com as aventuras. Só isso. E isso a Teresa, mesmo que o desejasse, e mesmo que eu lhe pedisse encarecidamente, e lhe suplicasse, não poderia me oferecer. Iria contra a natureza dela. Ela não aprecia histórias fantásticas, ficção científica, fantasia. A fantasia, o gênero fantasia, segundo a Teresa, é fantasiosa demais para o gosto dela. E a ficção científica é muito fictícia, e pouco, ou nada, tem de científico. Quanto a isso, concordo com ela, com ressalvas. Quase não há ciência na ficção científica. Mas as boas histórias do gênero são boas obras de literatura; não são obras de ficção científica. São obras literárias. Não podemos negar valor literário à Fundação, A Guerra das Salamandras, Farenheit 451 e O homem ilustrado. Quatro dos melhores livros que li. Rivalizam-se com os clássicos da literatura. Exagero? Não. Ponho em pé de igualdade Moby Dick e Fundação; O vermelho e o negro e A guerra das salamandras; Viagens de Gulliver e Farenheit 451; A letra escarlate e O Homem ilustrado. As oito obras são importantes, de alto nível. Rivalizam-se. E não posso me esquecer de outro livro de ficção científica, um dos melhores que já li: O homem do castelo alto. Emblemático. Instigante. E Encontro com Rama é uma aventura empolgante. E não menciono outros livros do gênero porque não quero me estender mais do que já me estendi. Eu não me perdoaria se esquecesse de livros ótimos, como muitos que há. Não são poucos, não. E as obras de fantasia não são, também elas, obras de fantasia; são obras literárias. A Odisséia não é uma obra de fantasia? Ela não pode ser classificada no gênero fantasia? O Senhor dos Anéis não é uma odisséia? É uma odisséia. Fundação também é uma odisséia. A odisséia de uma civilização. Pinóquio é uma história de fantasia. A Chave do Tamanho também é uma história de fantasia, ou não? Gargântua e Pantagruel é obra de fantasia. E Dom Casmurro? E Dom Quixote? Não aprecio as classificações. São desnecessárias, e geram debates infindáveis, que a lugar nenhum nos levam, e produzem discriminações. E discordo da Teresa, quando ela diz que os romances são obras literárias, e os outros gêneros literários, não. E quando a Teresa diz romances, ela quer dizer os de cunho social, os realistas, referindo-se a Balzac, Proust, Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Mann, Dickens, Faulkner, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, e cuja classificação recebe a chancela de estudiosos, críticos literários e academias, que arregimentam o maior número de autoridades para fazer prevalecer as suas teses. Esses autores realistas, como a eles se referem os estudiosos, não são melhores do que os escritores de livros de fantasia e de ficção científica. A Teresa deixa-se levar pelos rótulos. Para uma pessoa inteligente, a Teresa é burra às vezes. E concordo com as pessoas que dizem que o termo ficção científica é inadequado. Esse assunto dá muito pano pra manga. Em outra ocasião, conversaremos a respeito. Você, estou certo, entendeu porque não pedi para a Teresa opiniões sobre Os Pioneiros. Entendeu, não entendeu? Ela dissecaria a novela, e me diria para nela eu incluir teses filosóficas, teológicas, psicológicas, sociológicas. Em resumo, ela me diria para rasgar todas essas folhas, ou me diria para jogá-las na lata de lixo, ou, então, para que eu nunca mais as lesse, me diria para queimá-las, para que elas não me inspirem outras idéias similares. Agora, com você, a história é diferente. Você não desmontará a minha novela, que me é muito valiosa, pois nela trabalhei durante três meses. Três meses de trabalho árduo. Perdi noites, que passei em branco. Refiz o texto inúmeras vezes. Quantas vezes o corrigi? Quinhentas vezes. Para dar consistência ao texto, fi-lo e refi-lo, incansavelmente. Quero dizer, cansavelmente. Exauri as minhas energias. E aí está, nas suas mãos, Os Pioneiros. Com você estão as aventuras de uma trupe de criaturas exóticas no planeta que nenhum humano são desejaria conhecer, no qual nenhum humano lúcido desejaria pôr os pés, e que todos, excluídos os insanos e os dotados de temperamentos afins, jamais se disporiam a conhecer, nem embaixo de porrete. Não espere por teorias científicas, descrições minuciosas de fenômenos cosmológicos, tampouco de espaçonaves, máquinas e equipamentos espaciais. Não procure por teorias das cordas, das supercordas, viagens espaço-temporais, travessia de uma galáxia para outra através de um buraco de minhoca. Alguns fenômenos previstos nas teorias cosmológicas estão considerados nessas folhas, mas neles não me detive. Eu os usei como um recurso para o andamento da narrativa, não de modo artificial, para encher lingüiça. Mais uma vez, lanço mão dessa linguagem, que não me agrada, mas que é clara, e serve, como uma luva, para o que tenho em mente. Divirta-se com a novela, e não negligencie a avaliação ponderada do que irá ler. Depois, se necessário, leia-a, novamente; na próxima vez que nos encontrarmos, pois não nos veremos por um bom tempo, porque estou de viagem marcada para o sul, e só regressarei daqui dois meses, se não depois de três meses, você me dirá, assim que eu regressar, o que pensou da novela. Quero uma análise, e quero saber o que você achou das criaturas e dos fenômenos naturais que se manifestam no planeta A***. Se são fantásticas as criaturas, extraordinariamente fantásticas, e se merecem figurar entre os seres fantásticos, fabulosos, as quimeras e os monstros descritos nos poemas épicos gregos, nórdicos, hindus, nas obras egípcias, e entre os da cultura popular que os viajantes e os aventureiros admitiram com eles terem se deparado. Frutos da imaginação! Imaginação fértil! E você me dirá qual foi o impacto da revelação final em você. Quais impressões provocaram em você. Se surpreendeu você, ou não. Se você previu a cena derradeira… Se você a prever, então fui mal-sucedido em meu propósito: prender a atenção do leitor até o momento das revelações, as quais, acredito, são imprevisíveis. A cena derradeira tem de pôr você em suspenso, boquiaberto, estupefato, e de olhos arregalados e de queixo caído. Nas cenas que a antecedem, você terá de suspender a respiração e temer pela sua vida. Se isso não se suceder a você durante a leitura, então, concluirei, fui mal sucedido em meu propósito, e terei de reescrever a novela. Mas não me diga que as revelações surpreenderam você, e você suou frio, e calafrio gelou a sua espinha, apenas para me poupar trabalho. Não faça isso, está bem? Não pense, nem por um segundo, em elogiar a minha obra-prima para me poupar trabalho e para não me desagradar. Assim que nós nos reencontrarmos, você me apresentará a sua avaliação do meu livro, e eu, se suspeitar de você, submeterei você a uma sabatina. Os meus critérios, saiba, são rigorosos, e eu empurrarei você contra a parede, e espremerei você até você me suplicar liberdade. Sou seu amigo, e você é meu amigo; você será sincero comigo; e não me poupará críticas severas, se eu as merecer. Confio em você, e você confia em mim. Sei que você não me faltará com a sinceridade, mas nada me custa salientar este ponto. Despedimo-nos aqui, e eu seguirei o meu rumo, e você o seu, e nossos caminhos se reencontrarão em breve. Boa leitura. Ah! Esquecia-me: Mande abraços meu para seu pai e sua mãe, abraços apertados, apertadíssimos. Tchau. Nos veremos daqui uns dois meses, ou dentro de três meses. Divirta-se com a leitura da minha obra-prima, que será um sucesso estrondoso. Tchau, e até breve.

Luis Amadeu afastou-se, a passos acelerados. Nunca o vi, quando só, a andar num ritmo vagaroso.

Voltei a minha atenção para a pasta. Li a etiqueta com o título da novela. Abri a pasta. Na primeira página, na primeira linha, o título da novela Os Pioneiros. E lá, na calçada, andando, cuidadoso, interrompendo a leitura, li as quatro primeiras páginas das aventuras concebidas por Luis Amadeu. Empolgantes! Acelerei os passos, no desejo de ler, tranquilamente, a novela, na minha casa, onde eu recomeçaria a leitura, desde o título. Encavernar-me-ia, no meu quarto, e não interromperia a leitura. Eu iria ler Os Pioneiros do começo ao fim. Empolgaram-me as primeiras páginas. As outras, eu acreditava, prenderiam a minha atenção. Eu só encerraria a leitura no ponto final derradeiro. A narrativa que li surpreendeu-me sobremaneira. Tal obra merece ser conhecida por todas as pessoas que amam a literatura.

Buraco de minhoca

Do Diário de Daniel.

Texto extraído das páginas 1.212 até 1.234. Datado de 17 de abril de 2007, terça-feira. Início: 8:15. Fim: 9:55.

Estranha a aventura que vivi há dez anos. Não a contei para ninguém. Hoje, decidi registrá-la. O que me sucedeu, naquele dia, passados, já, dez anos, não me sai da cabeça. Foram em vão todos os meus esforços para esquecer aquele dia. Desejo, em vão, apagá-lo da memória. Decidi, incapaz de esquecê-lo, registrá-lo. Relutei em escrever o que me sucedeu. Não sei definir o que se passou comigo. Perguntei-me, não raras vezes, porque eu escreveria o que me aconteceu, naquele dia, se para ninguém eu mostraria o texto. Dir-me-iam louco, eu estava, e estou, certo, todos os que tomassem conhecimento deste texto. Meu pai, minha mãe, minhas irmãs e meu irmão, todos eles, fitar-me-iam com o canto dos olhos, se tivessem acesso a este relato, e lamentariam a minha insanidade mental. Meu irmão, Aquiles, dotado de imaginação extraordinária – mas as coisas fantásticas, no entendimento dele, restringem-se ao mundo irreal da imaginação, e nenhum contato têm com a realidade que conhecemos – também não me acreditaria. Nenhum deles, repito, tratar-me-ia como um homem de posse das suas faculdades mentais. A minha timidez, que sempre me impediu de dizer tudo o que penso e de narrar as minhas aventuras, não me permitiu atrever-me a contar o que vivi há dez anos. Neste diário encontram-se os meus pensamentos e o relato da minha vida. E conservo-os comigo, e apenas comigo.

O principio da aventura, inusitada, similar ao início de contos fantásticos; no entanto, ao contrário dos contos, cujos enredos brotam do cérebro de pessoas criativas, a minha aventura foi real. Conservo comigo as lembranças do que me sucedeu e trago uma estranha marca, a qual de todos oculto, em meu joelho direito.

Não me recordo do dia da semana em que o evento se deu – sei que ocorreu há dez anos, um dia após eu comemorar o meu vigésimo aniversário, na minha casa, com meus familiares e amigos -, nem quanto tempo durou.

Foi de manhã. Lembro-me que, na noite anterior, exausto, eu me deitara antes das dez horas da noite. Eu trajava apenas um short. Cobria-me um lençol fino, que me protegia dos mosquitos e dos pernilongos que infestavam o quarto. Era uma terça-feira? Ou uma quarta-feira? Ou um domingo? Não sei. Não sei em que dia, naquele ano, caiu o meu aniversário. Este detalhe é irrelevante. Se foi em uma quinta-feira, se em um sábado, se em uma segunda-feira o teor da aventura que vivi será o mesmo. Foi em Junho, estou certo, pois nasci no dia quinze de Junho.

Eu dormia, profundamente, quando, na escuridão do quarto, luz incomodou-me os olhos. Não despertei, de imediato. Recordo-me de, ainda a dormir, sentir luz intensa atingir-me os olhos e calor atingir-me o corpo. Não despertei, estou certo. Não muito tempo depois, outro clarão iluminou o quarto, e eu, semidesperto, entrecerrei as pálpebras, e vi – a minha visão embaciada – diante de mim uma coisa a flutuar sobre a minha cama, próxima de meus pés. A coisa parecia gelatina de morango. Não dei-lhe atenção. Era como se eu ainda dormisse, e aquela gelatina flutuante fosse uma personagem do meu sonho. Com o lençol cobri-me a cabeça. E dormi. Não sei quanto tempo depois, senti algo a puxar-me o lençol; aliás, senti o lençol a deslizar-me por sobre o corpo. Descoberto, nem adormecido, nem acordado, resmunguei, remexi-me na cama, tateei o colchão à procura do lençol, e não o encontrei.

Senti uma corrente de ar frio invadindo o quarto. Tremi de frio. Procurei pelo lençol. Não o encontrando, descerrei as pálpebras, estiquei-me, e apertei o interruptor. Atingiu-me os olhos a luz, obrigando-me a cobri-los com os antebraços. Habituado à luz, descerrei as pálpebras. E qual foi a minha surpresa ao ver, diante de meus olhos, uma coisa esquisita a flutuar, uma massa gelatinosa, brilhante, avermelhada, que irradiava brilho bruxuleante!

– O quê!? – berrei, assustado, arregalados os olhos, escancarada a boca, acelerado o coração, trêmulo o esqueleto, a fitar aquela coisa gelatinosa.

Berrei uma interjeição de espanto, mas não me ouvi. O medo talvez tenha me assustado tanto que por algum motivo não consegui ouvir o meu berro. Em meu inconsciente, ouvi as palavras que berrei; meus ouvidos, todavia, não as ouviram. Articulei as palavras, mas não as proferi. Eu as ouvi, mas não com meus ouvidos; eu as ouvi com meu inconsciente. Minha voz sumira inexplicavelmente. Assustado, pulei da cama, pronto para, em disparada, se necessário, sair, correndo, do meu quarto. Eu não entendia o que me ocorria. De repente, perdi os movimentos de meu corpo. Eu não o sentia. Meu corpo, imobilizado, ficou, contra a minha vontade, de frente para aquela coisa gelatinosa vermelha e brilhante. E comecei a flutuar. Eu não sentia meu corpo. Era como se eu o houvesse perdido. Ouvi uma voz feminina, suave, dentro de minha cabeça. Eu estava nervoso; meu coração batia acelerado.

– Daniel – dizia-me a voz -, não tenhas medo de mim. Não te prejudicarei.

Eu olhava, ainda assustado, mas não tanto quanto quando eu me deparara, pela primeira vez, com aquela coisa gelatinosa vermelha a flutuar diante de mim.

– Daniel – disse-me a gelatina flutuante (criatura desprovida de boca, nariz, de todos os órgãos que compõem um corpo) dentro de meu cérebro -, eu vim de um planeta distante, localizado em um sistema estelar longínquo – prosseguiu, após uma curta pausa -, situado em uma galáxia que os humanos desconhecem, e na qual há seres inteligentes mais evoluídos do que os humanos. Tal galáxia dista dois bilhões de anos-luz da Via-Láctea. Os humanos só a visitarão daqui doze mil e duzentos anos, quando desenvolverão tecnologia que lhes permitirá viajar através do tempo e teletransportarem-se através do espaço. Sei o que digo, pois viajo através do tempo por meio de um fenômeno que os humanos denominam Buraco de Minhoca, o mais comum meio de transporte empregado pela minha espécie. Empregamo-lo há muito tempo, no passado e no futuro. Descobri-mo-lo como controlá-lo, em um tempo que ainda não chegou para os humanos, e nunca chegará, um tempo que não está no futuro, nem no passado, nem no presente. Está em um instante; instante que não se localiza no passado, nem no presente, tampouco no futuro. Vim de uma galáxia na qual são inaplicáveis todas as leis da física que os humanos conceberam. Encarregaram-me os governantes do meu planeta de contatar um humano e para ele mostrar o que podemos fazer, e provar-lhe, de modo incontestável, que os humanos não são os únicos seres inteligentes no universo, muito menos os mais inteligentes. Os humanos desconhecem bilhões de universos, que compõem aglomerações de universos, que compreendem megauniversos, cuja concepção os seres dotados de inteligência inferior não podem compreender. Escolhi-te para transmitir-te o conhecimento do meu povo. Nenhum motivo especial eu tive para escolher-te. Detive-me no teu quarto, te vi a dormir, e decidi apresentar-te o meu mundo, os outros planetas do sistema estelar ao qual meu mundo pertence, e outras galáxias. O meu objetivo: mostrar-te que os humanos não são os únicos seres inteligentes do universo, e nem os mais inteligentes. Depois, tu difundirás, na Terra, para todos os humanos, os conhecimentos que te transmitirei, e todos os humanos conhecerão o que há no universo, e tomarão conhecimento da nossa existência e da existência de muitas outras espécies de seres inteligentes que vivem em outros planetas, em outras galáxias, em outros universos.

A criatura gelatinosa tentava traduzir para a linguagem humana as idéias que desejava me transmitir. As palavras dela não são as que escrevi; o teor do que ela me disse, no entanto, é, acho, o que registrei. Sou o mais fiel possível ao conteúdo do que ela me disse. Dez anos separam-me daquele dia; não posso me recordar de todas as palavras que a criatura gelatinosa disse-me.

Não sei como definir aquela criatura, a não ser chamando-a de criatura. Uma criatura estranha, uma criatura esquisita. Não sei a qual espécie ela pertence, e em qual galáxia situa-se o planeta no qual ela vive. Tais informações ela não mas passou; se mas passou, delas não me recordo. Talvez ela tenha me dito de qual galáxia ela é originária, mas eu, dominado pelo medo, mal lhe ouvi o relato da viagem que ela empreendera até à Terra dentro de um túnel espaço-tempo e sob influência de outros fenômenos que apenas Einstein, John Wheeler, Chandrasekhar, Roger Penrose, Alexander Starobinsky, Friedmann, Niels Bohr, e outros cientistas da mesma estirpe seriam capazes de entender.

Pouco pude entender do que a criatura disse-me. Aquela criatura estranha, a criatura mais estranha que já vi, mais estranha do que ornitorrinco, do que equidna e do que os animais que habitam os abismos dos oceanos, disse-me que não estava no tempo que eu percebia, ou algo assim; que não estava, nem no presente, nem no passado, nem no futuro. Ela simplesmente estava. Foi isso o que entendi do que ela me disse. Ela também me disse que o universo não foi criado, porque sempre esteve. Não disse que sempre existiu; disse-me que o universo sempre esteve. Não entendi o que ela quis me dizer, e não quero saber o que ela quis dizer-me, e não pensarei mais nisso. Não queimarei meus neurônios. Restam-me poucos, depois de tantos anos a queimá-los em trabalhos árduos e infrutíferos, e não quero desperdiçá-los com mistérios que não posso desvendar.

Encerro a minha tentativa de relatar o que a criatura disse-me, não sei em quanto tempo, pois de tudo o que ela me disse de quase nada me recordo – e nada compreendi do que ela me relatou durante horas (Horas? Posso mensurar, em horas, o tempo quando o tempo sofria não sei quais efeitos com a presença da criatura?).

Não me esforçarei para recapitular o que se passou, no meu quarto, e tampouco pretenderei – pois sei que é-me impossível – reconstituir o discurso da criatura. Não entendi patavinas do que ela me disse; se a minha memória não me engana, ela demorou para perceber que eu não a entendia; para infelicidade dela, ela não entabulou conversa com um indivíduo humano mais inteligente do que eu e com conhecimento em cosmologia; com a sua inteligência inigualável, ela não teve paciência para examinar os humanos e selecionar um que fosse dotado de intelecto vigoroso, e, ousado, não temesse inteirar o mundo de sua história. Se tivesse paciência – o tempo inexiste para ela, segundo entendi -, ela selecionaria um indivíduo humano intelectualmente bem dotado e para ele transmitiria as suas idéias – suspeito que tal humano, tanto quanto eu, intimidar-se-ia com toda a história, recusar-se-ia a contar para outras pessoas o que lhe ocorreu, e conservaria consigo a história, como eu o fiz.

Ao notar que eu não a compreendia, ela disse-me dentro da minha mente:

– Tu, com a tua inteligência inferior – o seu tom de voz, arrogante -, não entendes o que te digo. Creio que nenhum individuo humano é capaz de entender-me – inspirou-me a mente a vontade de encaixar-lhe um soco no nariz. Ela leu-me a mente. – Não te desesperes. Não te enerves. Não dominarei os humanos. Se a minha espécie desejasse dominar-lhe, vós não poderias impor-nos resistência. Não vos dominarei. Estou, neste planeta, para apresentar para um individuo humano os conhecimentos e a tecnologia da minha espécie e o universo. Prepara-te para a viagem.

– Viagem? – perguntei, sem articular a palavra.

– Sim – respondeu-me a criatura. – Viajaremos através de um Buraco de Minhoca.

Expressei confusão de pensamentos. A criatura replicou. Encetamos discussão, eu, nervoso e enfezado, ela, calma e serena. Enfim, ela fez sair de dentro de seu corpo um aparelho menor do que meu polegar, e disse-me que era o controlador do Buraco de Minhoca. O aparelho emitiu um brilho alaranjado, e diante de mim apareceu um círculo. Olhei para o seu interior, que não tinha dimensões, e arregalei meus olhos, assustado.

– O que é isso? – perguntei, tolamente.

– O Buraco de Minhoca.

– Aonde tu me levarás?

– Tu verás – respondeu-me a gelatina flutuante. Tive a impressão de haver visto sorriso escarninho em seu rosto (a criatura é desprovida de rosto).

Em pé, flutuei até o Buraco de Minhoca, que se alargou para que eu nele entrasse, e a criatura posicionou-se à minha direita.

Não sei descrever o que senti quando meu corpo foi puxado para dentro do túnel sem fim. Eu, parecia-me, não me mexia. Mas eu me mexia. Não muito tempo depois (é incômodo falar em tempo, neste caso), me vi diante de uma esfera chamejante. A criatura disse-me tratar-se da Terra em formação. Um espetáculo fabuloso. Vi a Terra a formar-se em ritmo acelerado. Vi dinossauros a caminharem pelos continentes. Vi asteróides atingirem a Terra. E os dinossauros foram dizimados. Diante de meus olhos sucederam-se, num ritmo alucinante, as eras glaciais, erupções vulcânicas, o surgimento da civilização, a construção de grandes cidades. Reconheci os jardins suspensos da Babilônia, as pirâmides do Egito, Macchu Picchu, o Colosso de Rodes, o Farol de Alexandria, a Grande Muralha, o Taj Mahal, o templo de Angkor Vat, e muitas outras maravilhas que os humanos construímos. A história humana desenrolou-se diante de meus olhos. Vi as ruínas de todas as grandes construções. Vi os humanos a esfacelarem-se em guerras sangrentas. Chegamos ao tempo presente: o ano de mil, novecentos e noventa e sete. Não se encerrou a viagem através do tempo. Vi o futuro dos humanos. As viagens espaciais. A construção de colônias humanas na Lua, em Marte, em Titã. As viagens interestelares. A espécie humana a modificar-se diante de meus olhos. Transcorreram-se séculos, milênios, dezenas de milênios. E a espécie humana a transformar-se. Os humanos converteram-se em seres irreconhecíveis. Vi, fascinado, a espécie humana a transformar-se. Se a criatura não me dissesse que aquelas criaturas que eu tinha diante de meus olhos eram humanas, melhor, seres que evoluíram do homo sapiens, eu não saberia que se tratavam de seres nos quais nossos descendentes se transformariam, num futuro distante; para a criatura, disse-me ela, tudo aquilo já havia acontecido. E vi Sol a expandir-se, e a engolir Mercúrio, Vênus e a Terra. E o Sol explodiu. E fez-se as trevas.

Após a viagem através do tempo, na Terra, a acompanhar o progresso da civilização até o seu desaparecimento, que se deu com a transformação da espécie humana em outra espécie, que vivia, além da Terra, em outros planetas acolhedores de outros sistemas estelares, a criatura disse-me que iríamos para a galáxia em que se situa o planeta em que ela vive.

Eu era incapaz de compreender tudo o que vi. A criatura e eu rumamos para planetas nos quais viviam criaturas estranhíssimas, que fundaram civilizações detentoras de tecnologia inigualável.

Detivemo-nos em um planeta em que os indivíduos, como a criatura, comunicavam-se por intermédio da mente, ou de um órgão similar. Eram criaturas de mais de cinco metros de altura, dotadas de três pernas, seis braços, cinco olhos, e desprovidas de boca e de ouvidos. Procriavam-se com o pensamento. Quando uma criatura desejava conceber um descendente, pensava na concepção, e o descendente brotava de um de seus pés e, pouco tempo depois, caminhava, e atingia o tamanho de um indivíduo adulto da sua espécie sem que tivesse ingerido alimento. Possuíam extraordinário vigor intelectual. O planeta que habitavam, mil vezes maior do que a Terra, estava coberto de cidades grandiosas. Quase nada entendi do que eles faziam; os seus gestos e a sua tecnologia estavam longe da minha compreensão.

Daquele planeta rumamos para outro planeta, habitado por estranhas criaturas inteligentes de cultura avançadíssima (não sei se o que vi se passou no tempo presente, isto é, no ano terrestre de mil, novecentos e noventa e sete, ou se a dezenas de milhões de anos no futuro, ou no passado).

Criaturas estranhas e inconcebíveis pela imaginação humana, dotadas de alto grau de conhecimento tecnológico, dominavam alguns fenômenos universais e tinham amplo conhecimento das forças que atuam no universo; construíam naves espaciais que viajavam através do tempo e através do espaço.

A criatura falava-me do que me mostrava, dos planetas, das espécies de criaturas que viviam em cada um deles, das maravilhas que me apresentava – e quase nada me lembro do que ela me disse -, e quase nada entendi, pois, na linguagem humana não há vocábulos para defini-las.

Visitei o planeta da criatura gelatinosa. Era o planeta maior do que a Terra. Presumo, é-me impossível afirmar, que é do tamanho de Júpiter. Centenas de bilhões de criaturas gelatinosas avermelhadas flutuavam no céu do planeta. Entramos em uma construção, na qual havia, instalada, uma máquina de seiscentos metros de altura e que se estendia até o infinito. A criatura disse-me que era uma máquina que criaria um Buraco de Minhoca gigantesco, pelo qual o planeta viajaria através do espaço e através do tempo. Em vão, tentei conceber o que ela me disse.

Durante a viagem, cai, e resvalei meu joelho direito em uma substância segregada por uma criatura. Em meu joelho direito ferido apareceu uma estranha marca, e trago-a comigo, marca que ora emite brilho avermelhado, ora brilho multicolorido, ora abre-se, e em seu interior vejo as galáxias, como se me descortinassem os portões do universo – talvez a existência da marca em meu joelho direito explique porque pude esconder, a partir daquele momento, da criatura gelatinosa os meus pensamentos.

A criatura guiou-me pelo seu planeta, e apresentou-me todos os seus aspectos. Depois de eu haver ganhado, se posso assim dizer, a marca em meu joelho direito, passei, não a entender o que a criatura explicava-me, mas a ver tudo sem a confusão inicial. Se meu consciente não entendia todos os fenômenos dos quais a criatura dava-me explicações minuciosas, meu inconsciente apreendia-os; todavia, não posso explicá-los com a linguagem humana; consigo entendê-los apenas com a linguagem da espécie da criatura gelatinosa flutuante.

As aventuras posteriores foram interessantes, mais interessantes, até, do que as primeiras, pois eu pude, como eu já disse, apreender os fenômenos à medida que eu me familiarizava com a linguagem da criatura gelatinosa. Pude, até, entender o diálogo dela com outros indivíduos da sua espécie. Os humanos do meu tempo estão muito distantes, no que diz respeito à inteligência, daquelas estranhas criaturas; e apenas daqui dezenas de milhares de anos a elas se igualarão, e poderão compreender os mais fantásticos fenômenos do universo.

A criatura não sabia que eu podia entendê-la, e tampouco sabia que eu podia compreender os fenômenos universais que ela e os da sua espécie compreendiam e controlavam. As criaturas gelatinosas falavam de todas as suas tecnologias, fabulosas tecnologias. Controlam forças muito mais poderosas do que as que os humanos controlamos. Forças inconcebíveis para a nossa minúscula capacidade cerebral.

Mal controlo o que escrevo. Descarrego, na minha agenda, todas as palavras que me vem à mente. Mesmo que eu tenha adquirido uma parcela da inteligência das criaturas, eu ainda penso, na Terra, como humano.

Enfim, sem aviso, a criatura gelatinosa encerrou a jornada através do tempo e através do espaço, e devolveu-me à Terra, em uma manhã, ao meu quarto, cuja janela estava fechada, e pelas suas frestas réstias de luz o invadiam, e despediu-se de mim com palavras amigáveis, nas quais não li nem vaidade, nem desejos similares aos dos humanos. Retirei-me do quarto. Em casa, todos dormiam. Não me dei ao trabalho de olhar para um relógio, e verificar as horas. Também não olhei para o calendário na porta do meu guarda-roupa.

Fim do texto extraído do Diário de Daniel

*

Chamo-me Aquiles. Sou irmão do Daniel. O texto acima foi publicado, originalmente, pela Editora E***r** B*a***i. Hoje é o dia 21 de dezembro de 2028, quinta-feira, dez anos após a morte de meu irmão. Este conto fantástico eu o encontrei em meio a vários rascunhos de aventuras fantásticas que meu irmão adorava escrever. Publicado o conto há seis anos, meu irmão recebeu, postumamente, mais de vinte prêmios literários. Vertido para o cinema, o filme conquistou grande público em vários países. Lendo-se o texto tem-se a impressão de que Daniel viveu a aventura narrada no conto, mas ela é, unicamente, fruto da sua poderosa imaginação. Meu irmão fascina-me. Não consigo entendê-lo. Como ele podia tomar como verdadeiras as estórias que brotavam da sua criatividade prodigiosa?

*

Ano: 2097. 03 de março. Domingo. 5:15 da manhã. Meu irmão morreu há trinta e quatro anos, sete meses e oito dias. Infelizmente, a sua incredulidade impediu-o de tomar como verdadeira a história, que ele toma como estória, que extraiu do meu diário. Leu-a – e a todas as outras – apenas como uma aventura fantástica criada pela minha imaginação.

A criatura, se regressasse à Terra para conhecer o que fiz, isto é, o que não fiz, porque para ninguém contei a minha experiência, saberia que os humanos nada sabem da sua passagem pela Terra, e frustrar-se-ia, porque, primeiro, guardei comigo a história da minha aventura durante dez anos, até registrá-la no meu diário; depois, ao vir ao conhecimento do público, por intermédio de meu irmão, transformou-se a história em um sucesso literário, depois cinematográfico – e não é nada mais do que uma aventura de ficção científica como milhões de outras; e atualmente dela ninguém mais se lembra.

O maior prêmio que recebi, que não dividi com ninguém, foi o aparelho que me permite viajar através do tempo e através do espaço, e que controla o fenômeno universal chamado Buraco de Minhoca. Estou fazendo bom uso dele. Furtei-o, sorrateiro, do interior de um aparelho, quando as criaturas gelatinosas, desatentas, conversavam. As criaturas, desprovidas de mãos, não conhecem o talento humano para a prática do furto. Para a minha felicidade, pude ocultar os meus pensamentos da criatura gelatinosa que me guiava através do tempo e através do espaço, talento que desenvolvi durante a viagem, e que decorria da marca que trago comigo em meu joelho direito. De todos a ocultei. Ela me permitiu – depois do meu regresso à Terra – realizar aventuras inimagináveis pelos confins do universo e de outros universos e dialogar com outras criaturas inteligentes, muitas delas mais inteligentes do que os seres humanos. Ela faz parte de meu corpo, como o fazem minha cabeça, meus braços, minhas pernas, e todas as minhas outras partes.

A incrível história do homem que se dissipou

Antenor morreu. Morreu. Sem eufemismo. Eu não disse, e não direi, que ele bateu as botas, abotoou o paletó, partiu desta para a melhor, dorme sete palmas abaixo da terra, conquistou o seu lote no céu, está junto de Deus, não vive mais entre nós. Antenor não vive mais entre nós, é verdade. Mas viveu entre nós. Ele viveu entre nós? Ele viveu? Quem disse que ele viveu? Eu o conheci… Eu o conheci? Quem disse que eu o conheci? Mal me conheço! Desde o tempo de Pitágoras os homens ouvem o conselho: “Conheça-te a ti mesmo.” É a exortação que os sábios mais repetem, e a que, presumo, ninguém, até hoje, conseguiu respeitar. Quem conhece a si mesmo? E exultantes, declaramos que conhecemos outras pessoas. Se uma pessoa mal se conhece, o que dirá de conhecer outra pessoa? Sou presunçoso ao declarar que conheci o Antenor. Mal me conheço! Muitas vezes vejo-me em apuros porque eu disse algo que não devia ter dito e faço coisas das quais arrependo-me. Há alguém que, nesse quesito, distingue-se de mim? Não sou igual a ninguém. Há certos fenômenos que fazem de todas as pessoas uma só. Na morte, todas as pessoas fundem-se umas às outras, principalmente as que se encontram enterradas bem próximas. Para escapar, após a morte, à influência deletéria de outros cadáveres há quem, no testamento, estabelece o material do seu caixão, no qual não entra nem sai um virus, uma bactéria. Os miliardários constróem templos tumulares; e os seus familiares, herdeiros e amigos os cultuam. Isolados dos outros cadáveres, acreditam, os átomos que compõem seus corpos com os deles não se misturarão. Há mais sob o céu e a Terra do que sonha a sua filosofia, que não é vã – há quem diga que é -, escreveu um homem sábio, homem que, muita gente acredita, nunca existiu e é a personificação amalgamada de vários homens, ou a de um filósofo renomado, mais inteligente, até, do que a personagem (Macbeth ou Hamlet? Sempre os confundo) que disse a famosa frase, frase que muita gente diz não ser dele, mas de outra pessoa, pessoa que ninguém conhece. Neste curto trecho citei Pitágoras, Hamlet e Macbeth. Este texto não é um tratado acadêmico repleto de citações e alusões. É um relato dos últimos dias da vida de Antenor, o homem que se dissipou. Incrível é a história dele. Eu quase escrevi que Antenor era incrível. Ele não o era. Incrível foi a história dos seus últimos dias de vida. “Que absurdo é esse?”, “Que homem se dissipou?”, perguntem-me. Ora, acabei de dizer: o Antenor. Testemunhei a sua degeneração. Presenciei a sua dissipação. E é da sua degeneração que trato neste texto em cujo final apresentarei a sua morte. Morte? Ele morreu? Ele viveu? A respeito do Antenor não escreverei um livro de mil páginas, tampouco um de quarenta páginas. Escrevo estas palavras porque desejo expulsar de mim as imagens que me atormentam o espírito. Acredito que ao registrar o que me ocupa a mente, as imagens de tão estranho fenômeno não mais me atormentarão. Como pode um tipo tão insignificante dar título a uma história tão incrível? Não tenho a resposta. Não a desejo. É salutar para mim e para todos os humanos existentes no universo que ninguém a possua. Por que eu a desejaria? Por que alguém a desejaria? A resposta a ninguém traria benefício. Chega de conversa fiada. Vamos à incrível história do Antenor, um homem que não conheci; acredito que ninguém o conheceu, nem mesmo ele, apesar de Pitágoras. O Antenor conhecia a filosofia do Pitágoras, a do Sócrates e a de Shakespeare? Neste país abençoado por Deus, Antenor foi um dos poucos brasileiros que leram alguma coisa deles. Os brasileiros da gema conhecemo-los de ouvido, o que não é a mesma coisa, embora muita gente diga que é. O nosso jeitinho, tão decantado nas músicas populares, que tecem loas aos marginais… Não estou escrevendo um tratado antropológico, pois nada sei de antropologia, tampouco da cultura brasileira. Sou um brasileiro, mas não me identifico com a maioria dos aspectos da cultura pátria, os quais, dizem os intelectuais, compõem a identidade do brasileiro legítimo. Chega de embromação. Vamos ao Antenor. Escreverei, em poucas linhas, a incrível história do Antenor, o homem que se dissipou. Ele se dissipou há duas horas. A morte do Antenor… Um cientista poderia explicar, com palavras exatas, o processo de dissipação do Antenor. Não irei, nem tentarei, desenvolver, aqui, uma explicação de tal processo, que se precipitou na morte do Antenor. Deixarei essa história pra lá. Irei falar do Antenor, do que aconteceu com ele, de como ele era; melhor, de como eu acho que ele era. Direi aquilo que dele acredito ter conhecido durante o nosso curto relacionamento. Não trocamos muitas palavras. Ele falava pouco, quando falava. Era lacônico, e enervava-me. Os loquazes também não se dão a conhecer. A tagarelice deles, penumbra que os envolve, e visualizamos deles unicamente imagens difusas. Antenor não se abria com ninguém e nunca falava da própria vida. Se ele tivesse se aberto comigo, eu o conheceria? Todos que com ele travamos relações, conhecê-lo-íamos se ele falasse mais de si mesmo? Não escreverei o que dele outras pessoas disseram-me – se elas não se conhecem, quanto mais conhecer o Antenor. Se Antenor não se conhecia, e pouco dele conheci… Melhor, dele nada conheci. Não me conheço. Não considero, aqui, o que ouvi a respeito do Antenor; dele trato apenas do que conheci; melhor, do que acredito haver conhecido. Preencherei algumas linhas, que atrairão a atenção de alguém… Esta história é tão estranha, tão incrível, tão absurda… É real… Este relato não é uma história de Poe, nem de Stoker, nem de Shelley, nem de Stevenson. Ela não é minha! É do Antenor. Este relato, para meu desgosto, acumula digressões, e não sai do lugar. Como posso concentrar-me no que escrevo, com tantas imagens desconexas na cabeça? A minha mente está um caco. Tenho de concentrar-me, e tratar do Antenor, e dele apenas, sem citar Pitágoras, Poe, Shakespeare, Stoker, criaturas que não têm relação com a história dele. Por que as evoco? Meu Deus! E o Antenor? Ah! Sim. O Antenor. Antenor… Evoco-o. Invoco-o. Quero expurgar todas estas imagens que me atormentam. Antenor… Conheci o Antenor… Quem disse que eu o conheci? Não o conheci. Ninguém o conheceu. Ele não se conheceu. Como uma pessoa como o Antenor pode se conhecer? Quem se conhece e quem conhece outra pessoa? Não desejo resposta para esta pergunta. Por que eu a quereria? Ela de nada me serviria. Por que temos sede de saber, se do que sabemos fazemos mal uso? Destruímos o nosso mundo; dizem que ele é de Deus. Por que neste mundo ocorrem tragédias? Este mundo está um caos! Um caco! Deus, se Ele realmente existe, não estima Suas criações. Guerras. Terrorismo. Dengue. Febre amarela. Malária. Aids. Quantos flagelos nos infligem sofrimentos sem fim? Vulcões. Enchentes. Avalanches. Genocídios. Epidemias. Quantos flagelos? Rejeito as teorias místicas. Afinal, do que trato aqui? E o Antenor? Ah! O Antenor morreu. Não é da sua morte que desejo escrever; desejo escrever de um processo que se estendeu desde quando não sei e culminou na morte dele – e isso é incontestável. O Antenor morreu. Ele não vive mais entre nós. Suspeito que ele nunca viveu entre nós. Desconfio que ele nunca viveu. Como o Antenor dissipou-se? Tenho de tratar do Antenor? Tenho. Não posso me furtar a fazê-lo. Narrarei a história desde o início. Apresentarei, no relato, o dia em que o conheci; melhor, o dia em que nele esbarrei-me, em algum lugar, nesta cidade, não faz muito tempo. Não me recordo, mesmo que eu puxe pela memória, onde nele esbarrei, e quando. Nele esbarrei, em algum lugar, não sei onde. Sabendo isso, já se sabe muita coisa. O Antenor morreu de modo tão… Como direi? Singular. O que pretendo dizer com isso? Quero eliminar de mim as imagens que me atormentam. Acredito que, se eu as registrar, as esquecerei. Não quero me lembrar mais delas. Nunca mais. Como eu escrevia, esbarrei no Antenor. Esbarrei nele, e de leve. O contato, frio. O que quero dizer com isso? Provavelmente, nada. Estou apenas eliminando de mim o que me incomoda. Pois, não é que esbarrei no Antenor! Ainda não saí disso! Esbarrei no Antenor. Trocamos olhares o Antenor e eu; falamos de qualquer coisa. Do quê? Ora, como saberei? Já se passaram mais de dois anos. Ou mais de três anos? O Antenor pediu-me desculpas. Desculpas pelo quê? Antenor era, assim o interpretei: um sujeito tímido, acanhado, ensimesmado. Essas as impressões que ele me deixou logo de início. Curvado diante das pessoas, sempre a lamentar-se, a recolher-se em si mesmo. Antenor era assim, ou assim pensei que ele fosse. Antenor e eu tomamos conhecimento um do outro. Tomamos conhecimento um do outro? Quem disse tal sandice? Eu? Retiro o que eu disse. Não! Não retiro o que eu disse. Conservo o que eu disse. E o Antenor? Ah! Antenor. O Antenor era único e não era único. Era autêntico e não era autêntico. Confundia-se o tempo todo a respeito de si mesmo e não sabia quem era e ninguém o ajudou a se conhecer. As pessoas não se conhecem cada qual a si mesma. Se elas não se conhecem cada qual a si mesma, como ajudariam Antenor a se conhecer a si mesmo? Elas o impediram de se conhecer. O Antenor não se entendia com seu irmão, um sujeito que sempre ia de encontro a ele. O irmão do Antenor nunca ia ao encontro do Antenor – ia, sempre, de encontro a ele. Eles não se entendiam. Antenor não se entendia com seu pai, sua irmã, sua mãe e seu irmão. Eles o sufocavam. Eles o desprezavam. Antenor sempre recolhia-se, nunca protestava. Assim ele vivia a sua vida. Incomodava as pessoas; as pessoas o incomodavam. Eu fui uma das pessoas incômodas que ele incomodou. Vi como o irmão dele o tratava. “Maricas”, gritava-lhe, em público, e Antenor recolhia-se. Por que Antenor não revidava? Por que ele não protestava? Por que ele se resignava? Antenor era alvo de chacotas, na sua casa, na escola, nas ruas, aqui no escritório. Faziam dele gato sapato. Era um fracassado, na vida, no trabalho, no amor. Todos o desprezavam. Antenor sempre evitava o confronto. Conquanto ciente de que as pessoas tinham a intenção de derrubá-lo, ele não se protegia; deixava-se jogar quando não conseguia esquivar-se a tempo de evitar a colisão. “Ele não fez por mal. Ele não fez por mal”, dizia Antenor, acovardado. Ele recuava, sempre. Nunca protestava. A cada colisão, ia para o chão. E assim ele viveu a sua vida. Ele sempre caía. Aqueles que o jogavam para o chão e nele pisavam eram mais fortes do que ele. “Ele não fez por mal”, desculpava-se Antenor. “Ele não fez por mal”. Encolhia-se. Evitava o confronto. Quando as pessoas que o hostilizavam e por ele nutriam repulsa visceral – e a acídia de Antenor lhas insuflava – fitavam-no com olhos injetados de ódio, Antenor desculpava-se por ter-se deixado agredir. “Não foi de propósito”, defendia-se. Havia pessoas que o hostilizavam. Havia pessoas que, embora estranhando-o, buscavam entendê-lo. E uma dessas pessoas fui eu. Desde que o conheci – melhor: desde que penso tê-lo conhecido -, senti-me atraído pelo seu tipo calado, ensimesmado. Presumo que ele era inteligente, pois a sua aparência era a de uma pessoa inteligente. Ele era dotado de sensibilidade artística incomum – falava de literatura, em especial da italiana, com conhecimento. Ele não ostentava erudição que não possuía. Ele gostava de falar, além de literatura italiana, da pintura renascentista. Seus ídolos: Leonardo da Vinci e Miguelângelo. E que não se falasse dos modernistas para ele. “Os modernistas são vigaristas”, dizia ele. E tampouco dos cubistas. “Os cubistas são embusteiros”, dizia ele. Antenor era lacônico. E sensato, presumo. Não sei se ele ostentava sensatez. Possuía as suas palavras de efeito e as suas frases penetrantes. Gravei algumas delas fundo na memória: “Apenas os estúpidos ostentam sabedoria”, “Apenas os ignorantes ostentam erudição”. Pergunto-me se, ao dizê-las, ele não ostentava sabedoria. Muitas dentre as frases de sábios célebres não foram proferidas por sábios, mas, em algum lugar, por ilustres desconhecidos. Quantas frases ‘de sabedoria profunda’ foram ditas por ignorantes e estúpidos? Muitas frases correntes ditas por estúpidos e insensatos são atribuídas aos sábios; aliás, às pessoas às quais se atribui sabedoria. Não sei porque incluí estes pensamentos aqui. Não é de sabedoria que trato aqui. Aqui trato do Antenor. Antenor era um tipo inteligente e criativo – presumo -, recolhido em si, e dele ninguém se aproximava. Silencioso, persuadia-nos a não nos atrever a puxar conversa com ele, pois, se o fizéssemos, atrapalhá-lo-íamos em suas meditações. Antenor, na maior parte do tempo – presumo – apenas devaneava a respeito de qualquer coisa. Mas aquele olhar! Acreditávamos que ele pensava questões imprescindíveis ao entendimento das coisas deste mundo. Ele meditava? Ele devaneava? É impossível falar de Antenor sem presumir muitas coisas a respeito dele. Ele era dotado de sensibilidade literária e artística, mas não persistiu nos estudos de literatura e de arte (estudou literatura na Universidade *, por um ano, e artes, na Universidade Y, durante três meses). Ele nunca me disse o que o levou a abandonar os estudos. Ele vivia concentrado nos seus pensamentos. Ninguém desejava atrapalhá-lo. Mas ele realmente pensava a respeito de qualquer assunto, ou apenas devaneava? Não sei. Atiçados pela curiosidade, perguntávamo-nos os que acreditávamos conhecer o Antenor no que ele pensava. No escritório, alguns dentre nós o hostilizavam abertamente, e o humilhavam, e nele pisavam, sem pena nem dó. E Antenor não reagia. Ouvi pessoas a exortá-lo a mudar de comportamento. “O que você ganhará com os livros e com a arte?”, interrogavam-no reprovando-o. “O mundo pertence às pessoas de ação. Abandone os livros. Esqueça a Monalisa. Arte e literatura são ocupações de maricas”, e casquinavam. Antenor disse-me, certa vez, que todas as pessoas o desprezavam e que se sentia deslocado em nosso meio. Antenor gostava de pintura e de literatura. Era desastrado para as coisas práticas. Ninguém o respeitava. Quando ele expunha os seus gostos e as suas preferências o fazia sem energia e não as defendia das críticas acerbas que infalivelmente ouvia. Negava-se a apresentar argumentos favoráveis às suas idéias e às suas preferências artísticas; ia ao cúmulo de negar-se a si mesmo, rejeitar as próprias idéias e, para evitar atrito, a concordar com o que lhe diziam. Arrumava muitos pretextos para não se defender e para justificar as violências que sofria. Sempre que eu lhe dizia que ele tinha de se manifestar em sua defesa, erguer o tom de voz, ele desconversava, e justificava a sua prostração. Tenho de reconhecer: Antenor era muito persuasivo ao justificar a sua covardia. Ele recuava, sempre que o agrediam. Escondia-se dentro de si, numa concha impenetrável, e lá ficava, longe do mundo, caricatura patética de O Pensador. Mas ele pensava, ou devaneava? Como as aparências enganam! E eu tinha a impressão de que alguma coisa, nele, ia, com o passar do tempo, desaparecendo. De início, não atentei para o fenômeno, que não me chamou a atenção. Com o passar dos dias, passei a notar o que acontecia. Fiquei horrorizado ao ver Antenor, certo dia. A sua aparência, repulsiva. Ele foi um mistério para todas as pessoas. Antenor era um mistério para Antenor. E ele ficava diferente à medida que transcorriam os dias, as semanas, os meses. “O que está acontecendo com você, Antenor?”, perguntei-lhe, em algumas ocasiões. Ele não sabia ao que eu me referia. E era sincero; não se fazia de desentendido. Se ele não sabia o que lhe acontecia, o que eu poderia saber? Eu ignorava o que acontecia com ele, do mesmo modo que ele ignorava o que acontecia consigo. Transcorreram-se os dias. Transcorreram-se as semanas. Transcorreram-se os meses. Um dia, fitei Antenor, e notei que ele estava menor e faltava-lhe um pedaço do nariz e das orelhas, e os cabelos dele estavam mais curtos. Quanto aos cabelos, ele poderia tê-los cortado. E quanto às orelhas e ao nariz? Cortara-os também? Pareceu-me que ele estava uns dois centímetros mais baixo e uns dez quilos mais leve. E ele exalava um odor indefinível, que nos incomodou a todos nós. O que estava acontecendo com Antenor? Entreolhávamo-nos. Um dia, criei coragem e disse-lhe: “Antenor, o que se passa com você? Ultimamente de você está escapando um odor que nos dá engulhos”. “Explique-me o que você quer dizer”, pediu-me ele. Calei-me. O que eu lhe diria? Tentei desconversar, mas não pude. Ele me olhava com aquele olhar ao mesmo tempo penetrante e vago. Tive de me explicar para ele. Eu não desejava desentender-me com ele. Ele era meu amigo – assim eu o considerava. Não sei se ele me tinha na conta de seu amigo. É verdade: nós mal nos conhecíamos. Mas, e daí? Ele era meu amigo. O que ele pensava de mim eu nunca soube – ele nunca me disse o que pensava de mim, nem de si, nem de ninguém. Ele me ouviu, calado. Acabei com as dúvidas, presumo, que ele tinha a respeito do que eu pensava dele. Não sei se a minha peroração foi elucidativa. Acredito que o tenha sido. Antenor nada me disse depois que a encerrei. O que lhe sucedia? Antenor não sabia o que se passava com ele. Deduzi que ele iria verificar o que eu lhe dissera. Acredito que ele nunca notara o que se passava com ele. As pessoas à volta dele notávamos que ele modificava-se. E hoje ele chegou ao escritório quase sem cabelo! E ele notara a calvície; tentara disfarçá-la. De repente, ele começou a transformar-se à nossa frente. Partículas escapavam-lhe do corpo. Ele berrava. Debatia-se. Nós – quem eram as outras pessoas presentes? – testemunhamos o fenômeno. Antenor dissipava-se. Desfazia-se em partículas. Todos ficamos horrorizados. Foi horrível! Horrível! Que horror! Um homem a dissipar-se! Enfim, ele se dissipou. No chão, os vestígios de Antenor: a cueca, a calça, as meias, a camisa, os sapatos. E nada mais. Permaneci petrificado durante não sei quanto tempo. Até que me vi, aqui, a escrever este relato. E dou-o por encerrado.

A rua do terror

Noite alta. Não havia viv’alma naquela rua mal iluminada, deserta. Júlio vagava, devaneava. Ao dar-se conta de onde estava, ficou apavorado. Seu coração bateu descompassado. Ouvia as palpitações, tão intensas, que ele acreditava que o coração romper-lhe-ia o tórax. Olhou em redor. Que rua era aquela, perguntou-se. Obnubilou-se-lhe a consciência. Como ele foi parar naquela rua? Lembrava-se de que caminhava, tranquilamente, por uma avenida atulhada de gente, vibrante de vida, e agora via-se naquela rua lúgubre, apavorante.

Sem se dar conta, enveredara por aquela rua, que lhe inspirou o mais terrível pavor. Uma rua que, devido ao seu aspecto sinistro, excitou-lhe os instintos que a natureza conservou ao longo de milhares de anos de evolução. Humano numa sociedade científica, conservava, latente, os instintos dos seus antepassados nômades.

Que rua era aquela? Nos postes, as lâmpadas bruxuleavam. Cones de luz fraca mal iluminavam os pés dos postes. Além dessa luz, as trevas reinavam absolutas. O silêncio, ensurdecedor. Era impossível – pensou Júlio – a existência, numa metrópole de vinte milhões de habitantes, de uma rua tão extensa e tão larga deserta àquela hora da noite. De repente, ventos frios fenderam o ar; iguais lâminas, cortaram-lhe a pele; e assobios tenebrosos chegaram-lhe aos ouvidos. Júlio pensou ouvir vozes cavernosas. Assustado, procurou pela direção da qual chegaram-lhe os ventos e os assobios. Ouviu ruídos indistintos. Aceleraram-se-lhe as palpitações do coração. Seus nervos estavam à flor da pele.

Surpreendendo-o, chegou-lhe, pelas costas, um barulho, que lhe feriu os tímpanos. Seus instintos o alertaram para o perigo que se lhe avizinhava, mas não o definiram, não lhe informaram a origem. O mistério que envolvia fenômenos tão estranhos assustou-o sobremaneira. Júlio não sabia o que pensar; não sabia como agir. Petrificou-se. Que rumo tomaria? Olhou para um lado. Não viu, no horizonte, o final da rua. Olhou para o outro lado. Qual a extensão da rua? Dois quilômetros? Dez quilômetros? Não logrou mensurar-lhe a extensão. Não viu nenhuma interseção daquela rua com outras ruas. A rua era demasiadamente extensa; não tinham fim as quadras que a circunscreviam.

Como, pensava Júlio, chegara àquela rua? De qual direção chegara? E agora, o que faria? Ficaria, lá, parado, a olhar de um lado para o outro? Ladeavam a rua extensos muros de sete metros de altura. E os prédios, e as lanchonetes, e os bares, e as agências bancárias, e as discotecas, e os teatros, e as livrarias, e as farmácias, e as bancas de jornais, e as pizzarias, e as doçarias, e as padarias, e as joalherias, e os consultórios médicos, e as lotéricas?

Transcorreram minutos. O coração de Júlio vibrava, descompassado. Júlio mal podia respirar. Suava em demasia. Sentiu esvanecer-se-lhe a mente. Esmorecia-lhe o ânimo. Imobilizado, não dava um passo. Seus pés, pareceu-lhe, enraizaram-se no asfalto.

Chegou-lhe aos ouvidos, não soube dizer de qual direção, ruído sinistro, tenebroso.

Voltou-se para a direção da qual acreditava que o ruído lhe chegara.

Arregalou os olhos. Aguçou os ouvidos. Viu trevas no horizonte e além dos muros.

Estava amedrontado, terrivelmente assustado. Suas pernas não respondiam à sua vontade. Dava-lhes ordens, em pensamento: “Mexam-se, pernas. Mexam-se, pernas”. Elas não se mexiam. O medo fê-las insubordinadas. Se o medo que afligia Júlio se exacerbasse, e Júlio se prostrasse, as pernas correriam, e abandonariam Júlio, lá, naquela rua tétrica. O tempo passava. Júlio imergia num estado letárgico, transido de medo. Seu corpo assumia a constituição de uma rocha inquebrável. Júlio a anteviu a sua morte. Veio-lhe à mente a imagem de seu coração pulsando nas mãos de uma criatura monstruosa. De sobreaviso, sentiu a aproximação de perigo. Uma ameaça rondava-o, sentia. Atormentava-o tal situação.

Olhou em redor.

As luzes bruxuleantes das lâmpadas.

Os muros.

Pareceu-lhe que a rua estreitava-se; que os muros encontravam-se no horizonte, e cercavam-no.

Silêncio. Nenhum ruído tétrico. Nenhum assobio sinistro.

Assustado, olhou em redor.

A rua, os muros, os postes cujas lâmpadas bruxuleavam.

Nenhuma alma viva. Nem a de um rato, nem a de um cachorro vadio, nem a de um mendigo esfarrapado, nem a de um bêbado maltrapilho, nem a de um transeunte desempregado.

Intrigante! Não há, nas metrópoles, uma rua deserta. Júlio não pôde dizer para si que não estava em uma rua deserta.

Que mistério era esse?

Que enigma Júlio teria de decifrar?

Júlio deu um passo, olhou em redor, coração aos pulos. Deteve-se. Estudou, os ouvidos apurados, os olhos penetrantes, o trecho da rua que seus olhos abrangiam. Ouviu apenas a sua respiração ofegante e as palpitações de seu coração.

Deu um passo. Nenhum ruído ouviu, e nenhuma voz.

Deu um passo.

O intervalo de tempo entre o terceiro e o quarto passos foi consideravelmente menor do que o intervalo entre o segundo e o terceiro e o entre o primeiro e o segundo. Esquadrinhou a rua à procura de uma criatura à espreita. Manteve-se afastado dos muros. Uma aparição sobrenatural, um fantasma, um monstro de sete cabeças, um animal feroz, uma pessoa feroz, um inumano, um homicida frio e calculista, imaginou Júlio, saltaria, não sabia de onde, sobre ele, e o mataria, faria picadinho dele, e o devoraria.

Deu passos, confiante e inseguro.

Deteve-se ao ouvir ruídos sinistros. Sussurros. Vozes humanas, pensou. De várias pessoas. O que havia lá? O que acontecia? De onde lhe chegaram os sussurros? Eram vozes humanas? Paralisado, seus olhos fixaram-se num ponto à sua frente. Viu o vazio. A tensão acelerou-lhe os batimentos cardíacos. Os sussurros chegaram-lhe aos ouvidos, não sabia de qual direção. Pareceu-lhe que se originavam de detrás do muro. De qual? Do da direita, ou do da esquerda?

Não sabia que direção tomar. E se desse um passo, e as pessoas – pessoas? – o atacassem? Para onde correria? O que havia atrás do muro à sua direita? O que havia atrás do muro à sua esquerda? O que havia nos bueiros? Os bueiros! – nesse momento Júlio atentou para os bueiros. Os bueiros! Havia um bueiro diante dele, silencioso, escuro, tétrico. Do bueiro saíam os sussurros que ouvira? Vivia gente no subterrâneo da metrópole? Humanos? Inumanos? Entes sobrenaturais? Fantasmas? Monstros? Entes malignos? Quais criaturas sondavam-no? Seguiam-lhe os passos? Preparavam-lhe um ataque? Os ruídos – sussurros, vozes humanas, acreditava Júlio – desapareceram.

Silêncio tétrico reinou.

Viu-se às portas da morte, na iminência de se deparar com o agente que lhe suprimiria a vida. Vieram-lhe reminiscências de épocas felizes. Relembrou as suas conquistas, os desafios que enfrentou, estudante, no vestibular, a sua classificação, os primeiros dias de aula na faculdade de engenharia eletrônica. Evocou a sua namorada, Beatriz, belíssima loira de um metro e sessenta. Romperam o namoro quando ela se transferiu, com o pai, a mãe e a irmã, para Belo Horizonte. Tinham dezenove anos. Foi a sua primeira experiência amorosa; a sua primeira desilusão. Pensava casar com ela, e com ela constituir uma família. Amava-a. Trocaram juras de amor eterno durante um ano, por telefone e cartas. A distância física, no entanto, afastou-os. Beatriz conheceu outro rapaz, com quem namorou. Júlio conheceu Alice, apaixonou-se por ela, e eles namoraram durante três meses – a incompatibilidade de gênios fê-los romperem o namoro. No terceiro ano na faculdade, estagiário em uma empresa de informática, Júlio conheceu Margharete. Namoraram durante dois anos. O namoro, que havia começado com juras de amor eterno, degenerou em brigas intensas, até que, enfim, decidiram seguir cada um deles o seu rumo. Evocou as desavenças com seus irmãos, seu pai e sua mãe, e os desentendimentos com alguns dos seus amigos, e os dois anos que se manteve distante de sua família, após brigar com seu pai. Evocou a sua vida vadia de três anos, perdido, nos prostíbulos, nos botecos, embriagado, caindo pelas ruas escuras da cidade, e o dia em que jovens vadios o agrediram. Assomaram-lhe à mente, numa golfada avassaladora, reminiscências do dia em que foi hospitalizado por consumo excessivo de maconha e o da sua prisão. Recapitulou o seu regresso à família, os sucessivos desentendimentos com seu pai, sua mãe e seus irmãos. Irromperam-lhe à mente imagens do seu retorno aos estudos, da sua reconciliação com seus familiares e amigos, do seu novo emprego, do sucesso obtido, da fortuna amealhada, das novas amizades. Assomaram-lhe à mente a figura de Marco Antonio, filho seu e de Fátima, garoto bonito, saudável, vistoso, que, duas semanas antes, completara um ano de vida.

Olhou em torno. Fixou a sua atenção no bueiro à sua frente. Dos bueiros saíram os ruídos, os sussurros?

Deu um passo. Deu outro passo. Deteve-se. Deu um passo. Manteve-se no meio da rua. Andou três metros. No horizonte encontravam-se os dois muros. Assustou-a ilusão.

Olhou em redor.

Andou, lentamente, poucos metros. Fixou o olhar nos bueiros pelos quais passou. Deteve-se. Olhou para a frente; não viu o fim da rua, não viu o fim dos muros.

Reinava a escuridão.

Pensou em correr. Deu dois passos. Deteve-se. Olhou para a frente. A rua não tinha fim. Andou. Quantos metros? Decidiu correr. Deteve-se. Mais uma vez, tentou correr. Deu alguns passos, largos, sempre na mesma direção. Não imprimiu velocidade. Com esforço, percorreu vários metros. Aos poucos, adquiriu confiança. Não ouvia nem um som, nem um ruído, nem uma voz. Acelerou os passos. Não suava, não respirava com dificuldade, não se sentia estrangulado, nem afobado, nem sufocado. Comandava seu corpo. Andou, com passos lentos; depois, com passos acelerados.

Correu um metro… Correu dez metros… Correu vinte metros… Cem metros… Duzentos metros… Quinhentos metros… Mil metros.

Os muros não tinham fim. Não chegou ao fim da rua. Ficou tenso, apavorado. Expandiam-se os muros. Não via o fim da rua e dos muros. Seu coração pulsou mais forte. Sentiu-se estrangulado, sufocado. Afligiam-no fortes dores de cabeça. Doíam-lhe músculos. Deteve-se. Sentiu-se desfalecer. Exausto, ofegante, curvou-se, com a mão direita ao peito esquerdo. Encolheu-se. Dobrou os joelhos. Pôs a mão esquerda no asfalto. Cuspiu. Tossiu repetidas vezes. Arrastou-se. Cerrou as pálpebras. Deitou sobre o lado esquerdo do corpo. Não tinha forças para se levantar, nem para levantar a cabeça, pousada sobre o braço esquerdo. Encolheu as pernas. Anteviu a sua morte. Tremia da ponta dos dedos dos pés até o topo da cabeça. Doía-lhe o corpo.

Adormeceu.

Despertou.

Aos seus olhos revelou-se a rua sinistra. Confuso e cansado, perguntou-se o que lhe aconteceu. Permaneceu deitado. Cerrou as pálpebras. Respirou fundo. Ouviu um grito estridente de mulher terrivelmente assustada. Deu um pulo, e preparou-se para defender-se de um ataque iminente. De qual direção chegara-lhe o grito? Olhou em redor. Pensou ter visto um vulto. Do bueiro saía uma criatura rastejante, disforme. Não lhe deu uma feição. Seu coração vibrou, descompassado. Recuou, tenso, assustado. Que coisa era aquela mancha escura disforme terrivelmente assustadora que assumiu a figura de uma criatura encapuzada, arrastava as bordas das vestes no asfalto, emitia voz sinistra, e cujos pés não se viam, e ia na direção de Júlio, que, assustado, o coração a vibrar descompassado, andava para trás, olhos fixos nela? Júlio ofegava, suava em bicas, chorava; corrente de calafrio percorreu-lhe a espinha. Eriçaram-se-lhe os pêlos. Virou-se nos calcanhares. Correu, desembestado. Tropeçou nas pernas. Caiu. Escalavrou o joelho e o cotovelo esquerdos. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, e bateu com o queixo no asfalto. Levantou-se. Poucos metros depois, caiu, dobrou-se sobre o seu corpo, esfolou o braço direito e torceu o pulso direito. Levantou-se. Correu. Sentiu a respiração da criatura encapuzada, que ia no seu encalço. Caiu. Agarraram-no, pelos tornozelos, mãos de unhas enormes e grossas. Gritou. Sangue escorreu-lhe dos tornozelos. Afligiram-no dores pungentes. A criatura encapuzada arrastou-o para um bueiro, cuja tampa Júlio agarrou. Outra criatura encapuzada saiu de um bueiro, do outro lado da rua, foi até Júlio, e pisou-lhe nas mãos. Júlio soltou a tampa do bueiro, e caiu às profundezas.

De um bueiro, um homem foi arremessado para a rua: Júlio. Ele estava cadavérico, e mal pôde pôr-se de pé, mal pôde abrir os olhos. Ao dar-se conta de onde estava, viu-se à esquina de um cruzamento de duas avenidas iluminadas repletas de gente. Voltou-se para trás. Atrás de si, um muro de quatro metros de altura. Voltou-se para a avenida iluminada. Andou, cambaleando, em meio à multidão alvoroçada. Ombros caídos, braços pendendo pelas laterais do corpo, respirando com dificuldade, foi para a sua casa.

Obsessão

07 de janeiro de 2…. Uma linda moça, a morena cuja formosura encantou-me. Sua pele é de um tom claro que brilha à luz do sol. Seus lábios vermelhos, realçados pelo batom, e seu nariz, seus olhos, seu queixo, suas sobrancelhas e suas maçãs do rosto compõem um conjunto perfeito. Se Fídias a admirasse, esculpiria a mais bela de todas as estátuas. Infelizmente, nem ele, nem Michelângelo, a conheceram. Vênus Calipígia! Seus cabelos pretos brilham ao sol, deslizam-lhe pelas costas, espraiam-se-lhe pelos ombros. Seu busto, esplendoroso! Suas pernas, sublimes! Seu andar, suave. Ela caminhava sobre as nuvens. Trajava um longo vestido vermelho decotado, que lhe modelava o corpo bem feito. Dela não tirei os olhos até ela entrar em um carro de vidros escuros. Fugiram-me as palavras. Encantado com tão linda moça…

08 de janeiro. Pensando na linda moça que ontem me encantou, dormi. Sonhei com ela. No sonho, ela, vergando vestes diáfanas, passeava por um jardim edênico. Seu corpo esplendoroso brilhava, cegando-me, sempre que dela eu me aproximava. Na mesma hora em que, ontem, passei pela rua *, passei hoje. O meu propósito: cruzar o caminho da linda moça de vestido vermelho. Andei vagarosamente. Olhei, atentamente, de um lado para o outro, na esperança de vislumbrar a Vênus rediviva. Não a encontrei, para meu desgosto. Mas a encontrarei, se não hoje, amanhã, ou depois. Aquela moça celestial cuja beleza esplêndida transfigurou-se, aos meus olhos, num espectro divino… Olhei de um lado para o outro. Não encontrei a linda moça. Contrariado, exausto, regressei à minha casa, três horas depois. Ao me olhar ao espelho, deparei-me com um rosto irreconhecível, disforme, repulsivo.

09 de janeiro. Não consigo tirar de minha cabeça a imagem da linda moça de vestido vermelho. Pelo meu corpo correu indescritível sensação de prazer, à noite. Raras vezes senti tão prazerosa sensação! Na cama, virei-me de um lado para o outro. Acordado, imaginei fantasias lúbricas, concebi sensacionais aventuras amorosas com a linda moça cujo nome desconheço e cuja beleza fascinou-me.

15 de janeiro. Ao acordar, hoje de manhã, banhei-me, e fui à cozinha. Na prateleira, não havia pães; na geladeira, não havia leite. Peguei da carteira, a abri, vi que nela havia dinheiro, e fui ao supermercado. Não eram dez horas quando lá cheguei. Fazia muito calor. Para a minha felicidade, não havia muitas pessoas no supermercado. Ao passar por entre as estantes do setor com produtos de limpeza, vi, de relance, para minha surpresa e alegria, a linda moça, que, com uma cestinha pendurada à junta do cotovelo, olhava para os frascos de detergente. Meu coração vibrou, acelerado. Arregalei os olhos. Mordi o lábio inferior. Lambi o lábio superior. Fitei a linda moça. Estudei-lhe o porte. Embevecido, alumbrado, admirei-a, fascinado com tão deslumbrante beleza. Andei por aquele corredor, na direção da moça que há dias eu procurava. Ela trajava uma saia azul marinho translúcida, que lhe modelava as coxas e as nádegas estonteantes, e uma camisa branca decotada. Seus olhos, azuis; suas sobrancelhas, finas, acastanhadas, arqueadas; seus cílios, compridos; seus lábios, carnudos, escarlates; seus cabelos, compridíssimos, pretíssimos, volumosos, penteados para trás, emolduravam-lhe o rosto de traços perfeitos. Detive-me três metros à sua esquerda. Puxei da prateleira uma caixa de sabão em pó, cuja data de validade fingi procurar e cujo preço fingi avaliar. Devolvi a caixa de sabão em pó ao seu lugar de origem, e dei ou dois, ou três, passos na direção da linda moça. Eu dela distava uns dois metros quando ela se curvou para a frente, de frente para mim, exibiu-me o tesouro fabuloso que entrevi no decote, e, com a sedosa mão esquerda de dedos melindrosos adornados de unhas compridas de esmalte violeta, puxou os cabelos, que lhe haviam caído ao rosto, para trás, e acocorou-se. Meu coração vibrou, acelerado. Meu corpo pulsou de desejo. A linda moça, ignorando-me, puxou da prateleira um frasco de água sanitária, devolveu-o à prateleira, pouco depois, e retirou outro frasco de água sanitária o qual restituiu ao local de origem, e pousou a cestinha no chão, e de dentro da cestinha retirou uma tiara transparente, e ajeitou-a na cabeça, com a mão direita, enquanto ajeitava, com a mão esquerda, os cabelos para trás. Ato contínuo, ajeitou a saia, passando, suavemente, as mãos por ela, olhou para a prateleira, enquanto puxava, com a mão direita para cima, a alça direita da camisa, que lhe escorrera do ombro. Ela segurou as alças da cestinha, e ergueu-se. Desviei dela o olhar. Dois homens passaram pelo corredor, conversando; ao verem a linda moça, cessaram a conversa, e fitaram-na, maravilhados; passaram por ela, e voltaram-se para trás, e fitaram-na, devorando-a com os olhos. Enciumado, pensei em esmurrá-los. Que direito têm eles de olhar para moça tão linda, tão pura? Eles a enodoavam, ao admirá-la. Rilhei os dentes. Sujeitos atrevidos! Eles se afastaram, e retiraram-se daquele corredor, para sorte deles.

A linda moça, que ignorou os dois sujeitos repulsivos, andou até os frascos de sabão líquido. Andei na sua direção. Fingi interesse por detergentes, numa prateleira de um lado do corredor; ela, no outro lado do corredor, de costas para mim, distando de mim um pouco mais de um metro, curvou-se, e eu, involuntariamente, sem pensar no que fazia, agachei-me; acocorado, tirei da prateleira um frasco – do que, não sei – enquanto eu olhava, a ponto de perder a consciência, para a linda moça, cujas coxas eram estonteantes, e pude ver-lhe a parte inferior das nádegas. Senti-me desfalecer. O tempo parou. Suspendi a respiração. Eu iria me beliscar, para me despertar daquela realidade onírica. Era como se eu participasse de um conto de fadas, e interpretasse o papel do ogro, do monstro das profundezas do oceano, dos subterrâneos das montanhas, um habitante dos reinos infernais, à espreita, para me lançar sobre as fadas, as princesas, as dríades, as hamadríades, e a linda moça interpretasse a inocente, ingênua, bela, celestial, indefesa vítima dos meus caprichos hediondos, dos meus desejos lúbricos animalescos; ela era a princesa, que, expulsa, pela madrasta sórdida, repulsiva, de um castelo suntuoso, perambulava pela lúgubre floresta habitada por criaturas demoníacas, monstros asquerosos e ciclopes antropófagos. Contive-me. Não me lancei sobre a linda moça. Minha mente, entorpecida, inebriada, eliminou de meu cérebro a faculdade de pensar. Meu corpo não atendia aos meus desejos. Meus braços e mãos, minhas pernas e pés não me obedeciam.

Embora eu tenha admirado a beleza exuberante da linda moça durante uma fração de segundo, a sua imagem perpetuar-se-á, na minha mente, no meu espírito, na minha alma, pela eternidade. Ao pôr na cestinha um frasco de sabão líquido, ela se recompôs, e, de costas para mim, andou até o final do corredor. Despertei, quando ela, ao desaparecer atrás da prateleira, retirou-se do meu campo de visão.

Restitui à prateleira o frasco; levantei-me; passos acelerados, andei até o fim do corredor, receando perder de visa a linda moça. Eu a entrevi, de cabeça abaixada, no setor de doces, bolachas, chocolates, balas e chicletes, atrás de uma gorda desgraciosa que empurrava um carrinho-de-compras cheio de frascos, caixas e pacotes dos mais variados produtos. Desacelerei os passos. A linda moça andou por quatro setores – o de bebidas, o de produtos dietéticos, o de perfumaria e o de artigos para animais. Eu a segui, dela conservando distância de cinco metros.

Enfim, ela se dirigiu ao caixa. Acelerei os passos. Fui ao refrigerador, e peguei um litro de leite. Voltei-me. Olhei para o caixa. Na fila estava a linda moça. Ato contínuo, fui ao balcão da padaria, e pedi quatro pães à moça que me atendeu. No desejo de não perder de vista a linda moça, eu olhava, a cada dois segundos, para a fila na qual ela estava. Tão logo recebi o pacote com quatro pães, virei-me, e andei, a passos acelerados, até a fila na qual estava a linda moça. Duas mulheres, mãe e filha, entraram na fila, à minha frente. Pouco depois, a filha disse à mãe que haviam se esquecido de comprar açúcar e trigo, e ambas retiraram-se da fila. E me vi atrás da linda moça, inebriado com a fragrância sedutora que ela recendia e com a exuberância do seu talhe. O pacote com os quatro pães se me escapou das mãos. Agachei-me para pegá-lo, e olhei para as pernas esplendorosas da linda moça. Um homem fitou-me, e olhou para ela. Senti meu rosto ferver.

Uma lâmpada vermelha acendeu-se próximo da moça do caixa, e ouviu-se um apito estridente. A linda moça andou até a caixa, e ficou de frente para mim. Admirei-lhe, fascinado, o busto esplêndido. Ela curvou-se para pôr a cestinha, agora vazia, no chão, próximo de mim, e ofereceu-me aos olhos seus peitos fartos. A caixa passou as mercadorias pelo leitor de código de barras. A linda moça entregou-lhe uma nota de vinte reais, recebeu da caixa o troco, e andou um pouco para a frente. Ansioso, antes de a caixa premir um botão sob a caixa registradora, para acionar o apito estridente e acender a lâmpada vermelha, andei, e entreguei-lhe o pacote com os pães, e a caixa de leite. Ela os passou pelo leitor de código de barras. Paguei-lhe os R$ 3,25 que eu já havia separado.

A linda moça pegou as duas sacolinhas de plástico com os produtos que comprara, e retirou-se. Eu, rapidamente, pus o pacote com os pães, e a caixa de leite, numa sacolinha de plástico, e a segui, a certa distância. Ela se deteve, na esquina; esperou os carros e as motos passarem. Aproximei-me. Detive-me à sua direita. Começamos a travessia da rua.

Uma das sacolas que ela carregava rasgou-se nos fundos, e dela caíram um tablete de chocolate, uma lata de doce de leite, e um pacote de bolachas de maisena. Curvei-me, e peguei o tablete de chocolate, a lata de doce de leite e o pacote de bolachas. Ao erguer-me, eu os entreguei à linda moça, que me agradeceu. E ela andou até um carro prateado; para minha surpresa, pediu-me que eu segurasse os produtos. Eu a atendi, prontamente. Ela remexeu na bolsinha que trazia na mão, e dela tirou a chave do carro. Assim que abriu a porta do carro, pediu-me os produtos. Entreguei-lhos. Sorrindo, exibindo-me seus dentes brilhantes, agradeceu-me a ajuda, e despediu-se. Embasbacado, acompanhei-a entrar no carro, pôr a chave na ignição, e dar a partida. Andei, com as pernas bambas e o coração aos pinotes. Eu mal raciocinava. Dei-me um tapa na testa. Censurei-me: “Imbecil! Idiota! Por que você não perguntou o nome àquela beldade celestial? Imbecil! Tolo!”

Eu andava, cabisbaixo, quando ouvi buzina a estrondear. Olhei para a direção da qual chegaram-me as buzinadas. Ao meu lado, um carro prateado com o vidro abaixado. A linda moça, inclinada sobre o banco do carona, chamava-me. Curvei-me para poder vê-la. Sorri. Ela sorriu. Disse-me que iria ao bairro *, onde mora, e perguntou-me para onde eu iria. Eu lhe disse que moro no mesmo bairro. Ela me disse a rua em que se localiza a sua casa. Eu lhe dei a localização da minha casa – na verdade o endereço da casa de um amigo meu -, uns duzentos metros adiante. Ela me perguntou se eu desejava uma carona. Eu, controlando a ansiedade e a excitação que me atormentavam, agradeci, e disse-lhe que aceitaria a carona, se não fosse inconveniência aceitá-la. Ela me disse para entrar no carro. Não me fiz de rogado. Entrei no carro, e sentei-me no banco, um pouco sem jeito.

Ela dirigia bem. Para ser sincero, não posso avaliar a sua destreza ao volante – não atentei para isso. Eu dela admirava a beleza. Ela disse que sentia muito calor. Eu lhe disse que hoje, durante o dia, faria mais calor do que o calor de todos os outros dias do ano, até hoje. Ela me disse que, talvez, fosse ao litoral. Imaginei-a, na praia, de biquíni fio-dental, banhando-se ao sol. Em certo momento, ela puxou, com a mão direita, a alça do sutiã e a alça da camisa para cima, pôs a mão esquerda sob o peito direito, e empurrou-o para cima. Agiu com naturalidade, como se eu não estivesse ao seu lado.

Viramos uma esquina, e outra, e outra, e seguimos por uma rua sinuosa. Ao contornarmos à direita, e, em seguida, à esquerda, e à esquerda, chegamos à rua da sua casa. Com um controle, ela acionou o portão eletrônico da casa. Eu lhe disse que iria embora, agradeci-lhe pela carona, e sai do carro, mas não fui embora. Esperei a linda moça guardar o carro na garagem. Ela saiu do carro, e acenou para mim, pedindo-me que eu a esperasse. Esperei-a. Ela carregou a sacolinha de plástico com os produtos que comprara no supermercado até uma mesinha, no jardim, e andou, suavemente, em minha direção. Eu a admirava, embevecido. Ela, próxima do portão, curvou-se para a frente, e do chão apanhou um envelope. Arregalei os olhos, diante daquela esplendorosa maravilha que o decote revelou-me. Ao erguer-se, ela avaliou o envelope, e disse-me tratar-se de uma propaganda de uma empresa que ela detesta. Ao encerrar os comentários, sorrindo, perguntou-me qual é o meu nome. Disse-lho: Roberto. E ela me disse o dela: Júlia.

Conversamos durante um bom tempo. Para encerrar a conversa, ela me disse que teria de desincumbir-se de algumas tarefas.

Despedimo-nos.

Andei mais de cinco quilômetros até a minha casa.

29 de janeiro – Passei de bicicleta em frente à casa da Júlia.

Júlia, de short branco com estampas de flores vermelhas e amarelas, e uma camisa branca sem estampas, empunhando uma mangueira de borracha, espirrava água no chão da varanda. Detive-me. Atravessei a rua. Júlia olhou para mim. Sorriu. Ela, curvada para a frente, fechou a torneira. Admirei-lhe, maravilhado, os peitos cobertos por uma película. Júlia abriu a porta. Conversamos durante alguns minutos. Enfim, eu lhe disse que iria embora, que a visitaria em momento apropriado. Ela me pediu que não me fosse. E eu lhe disse que, para não ser inconveniente, eu a ajudaria a lavar a varanda. Ela aceitou a minha oferta de ajuda, e à varanda ofereceu-me acesso.

Enquanto lavávamos a varanda, conversávamos, animadamente.

Eu não sabia o que admirar na Júlia, mulher tão pródiga de atrativos! De repente, ouvimos um barulho. Era a mãe da Júlia, Lúcia, que chegava. Ela abriu a porta, saudou a filha, e cumprimentou-me. Aí eu soube de quem Júlia herdou a estonteante beleza. Mulher de uns quarenta anos, Lúcia está muito bem conservada, e é muito atraente. Linda, como a filha. Ela entrou na casa, após pedir licença para mim e para Júlia.

Encerrada a limpeza da varanda, Júlia convidou-me para um café. Não me fiz de rogado. Eu, ela e Lúcia conversamos durante muitas horas. Retirei-me antes de o sol se pôr. À porta, eu e Júlia cruzamos o caminho de Pedro, seu pai, homem tímido e simpático, que me saudou, sorridente. Dele Júlia herdou o sorriso espontâneo e os gestos suaves. Ele nos disse que estava com pressa, pois tinha de se arrumar para comparecer à uma reunião dali uma hora. Pediu-me compreensão, lamentou não poder conversar comigo por mais alguns minutos, e disse-me que, em outra ocasião, conversaríamos e conhecer-nos-íamos melhor, e entrou na casa. Simpatizei-me com ele. Educado, polido, de poucas palavras, cativou-me. Júlia e eu nos entreolhamos. Ela me disse que seu pai era um estudioso incansável, profissional rigoroso, trabalhador infatigável. Perguntei-lhe qual a profissão dele. Arquiteto, disse-me Júlia, que me perguntou, sorrindo, como se soubesse a resposta que eu lhe daria, qual era o prédio desta cidade cujo desenho arquitetônico mais me atrai a atenção. Eu lho disse. E Júlia, sorrindo, perguntou-me: “E tu, Roberto, sabes de quem é a assinatura do desenho arquitetônico?” Sorri, fitei-a. Seus olhos irradiavam felicidade. Seu sorriso transparecia orgulho. “Eu sempre me perguntei quem desenhou aquele prédio”, eu lhe disse. “Nunca imaginei que um dia o conheceria, tampouco que um dia eu conheceria a filha dele”. Júlia não cabia em si de felicidade. Seu sorriso ia de orelha à orelha. Exibia-me duas fileiras de dentes branquíssimos. Eu lhe ia perguntar o que ela faria à noite, mas a voz não me saiu nítida. Júlia, com um gracioso movimento das sobrancelhas, indicou-me que não me ouvira. Sorri. Levei, involuntariamente, a mão direita ao pescoço, como que para desentravar as palavras. Desviei o olhar. Pouco depois, eu, certo de que recuperara o governo dos meus pensamentos e da minha voz, fitei-a, para lhe falar, mas emudeci ao deparar-me com aquele sorriso gracioso. Ela me perguntou o que eu lhe desejava falar. Eu lhe disse que me faltava voz. Ela não suprimiu do rosto o sorriso, que me enfeitiçou, e perguntou-me, zombeteiramente graciosa: “Se te falta voz, como me disseste que te falta voz?” Encabulado, num tom de voz tímido – intimidado, eu diria – perguntei-lhe se ela iria ficar na casa dela, naquela noite, ou se iria sair com seu pai e sua mãe, ou com amigos e amigas. Ela me disse que não iria a nenhum lugar, naquela noite; aliás, ela me disse que não pretendia sair da sua casa, nem com seu pai, nem com sua mãe, nem com amigos e amigas, porque não tinha para onde ir – e deu-me a entender que, se alguém a convidasse para ir ou ao cinema, ou à pizzaria, ou ao restaurante, ela aceitaria o convite. Sorri. Perguntei-lhe se ela desejava ir ao cinema. Ela me perguntou quais filmes estão em cartaz. Eu lhos disse: Um filme de ação; um de terror; uma comédia romântica; dois filmes de aventuras; e um filme brasileiro. Ela aceitou o convite. De imediato, excluiu da lista o filme brasileiro, o de terror e a comédia romântica. Indecisa, não sabia se escolheria ou o de ação, ou um dos de aventuras. Eu lhe disse que o de ação, segundo comentários de amigos e de críticos de cinema, era péssimo, e eu não perderia o meu tempo assistindo-o, e tampouco desperdiçaria o meu dinheiro, e um dos filmes de aventura, misto de ficção científica e espionagem, era ótimo, e a respeito dele nenhum comentário negativo eu ouvira, apenas ressalvas quanto aos efeitos especiais e à interpretação de dois atores, aquém do exigido para um filme com aquela produção. Do outro filme – uma aventura com toques de comédia -, eu soubera que era uma aventura hilária de uma trupe atrapalhada, repleta de cenas de ação irrealizáveis em cenários fantásticos. Júlia disse-me que Samantha e Raquel, suas amigas, haviam assistido a este filme, e o elogiaram. Então, decidimos: iríamos assisti-lo. Combinamos a hora do encontro. Eu iria à sua casa, às dezenove horas. Assistiríamos ao filme da sessão das vinte horas. E despedimo-nos.

Eram dezenove horas e dez minutos quando premi a campainha da casa da Júlia. Ninguém atendeu à porta. Premi a campainha uma vez mais. Não transcorreu um minuto, Júlia apareceu na varanda. Ela trajava saia preta comprida e camisa multicolorida com decote discreto. Estava com os cabelos soltos. Seus lábios, realçados com batom vermelho framboesa. Nas orelhas, trazia brincos dourados de motivos angelicais. Eu a elogiei. Ela, envaidecida, fez um muxoxo, disse que sou bobo, e deu-me um tapa carinhoso no ombro. Entramos no carro. Rumamos para o cinema. O filme superou as nossas expectativas. Os atores, ótimos; o figurino, impecável; os efeitos especiais, primorosos; os personagens, cativantes; o roteiro, bem escrito; o desenrolar da história, no ritmo adequado, com cenas de ação espetaculares entremeadas de cenas cômicas irresistíveis, diálogos inteligentes e engraçadíssimos. Ao encerramento do filme, na lanchonete, enquanto comíamos, Júlia, um bauru, e eu, um beirute, e bebíamos, eu, refrigerante de uva, e Júlia, refrigerante de guaraná, conversavamos a respeito do filme. Elegemos a melhor personagem, a cena mais engraçada, a mais emocionante, a mais tensa. Não chegamos a um consenso. Satisfeitos com a refeição, retiramo-nos da lanchonete, e fomos à casa da Júlia. Despedimo-nos com um beijo no rosto. Ela abriu a porta, e entrou. Trancou-a por dentro, mandou-me um beijo com a mão direita, e virou-me às costas; na varanda, voltou-se para mim, sorriu, acenou, e entrou na casa. Suspirei. Enfiei as mãos nos bolsos da calça. Permaneci, imóvel, na frente da casa da Júlia. Rememorei o passeio, até que, enfim, andei até o carro, e vim pra casa.

15 de março – Enfim, eu e Júlia nos estreitamos num abraço caloroso. Unimos os lábios. Nossas línguas dançaram, lúbricas. Senti o calor do belo e irresistível corpo de Júlia. Passeei minhas mãos pelo seu belo corpo, e as desci pelo seu traseiro. Ela as ergueu. Ao sentir minha mão direita sobre seu peito esquerdo, ela dele a removeu, afastou-me de si, e disse-me: “Acalme-se, Roberto. Vamos com calma.” Sorri. Pedi-lhe desculpas. Disse-lhe que eu não pretendia desrespeitá-la. Ela aceitou os pedidos de desculpas.

22 de abril – Diante da minha insistência irrefreável, Júlia disse-me, sem meias palavras, num tom firme, que me inibiu (enquanto ela me falava, esbocei um sorriso; e ela me fitou com olhar severo; e suprimi, de imediato, o sorriso do rosto, e pedi-lhe desculpas), que iria se resguardar para o casamento; que as minhas investidas não surtiriam os efeitos que eu desejava, e exigiu-me respeito e compreensão. Confesso: Fiquei contrariado. Respeitei-a, todavia. Não desejo ferir-lhe suscetibilidades. Desejo a Júlia, com todo o ardor de meu corpo e de meu espírito.

07 de junho – Nos casamos, eu e Júlia, na Igreja Nossa Senhora de Aparecida.

09 de junho – A lua de mel, maravilhosa, apesar do início tenso. Eu e Júlia nos entendemos maravilhosamente bem. Desfrutamos de prazer inexprimível. Que corpo lindo, o da Júlia! Pródigo de encantos. Júlia, recatada, não admitiu participar das minhas fantasias lúbricas. Ficou horrorizada ao ouvir-me descrever as mais ousadas. Perguntou-me como pode haver pessoas, se há – ela duvidou do que eu lhe disse -, que fazem o que lhe propus. Repudiou as minhas propostas. Não insisti.

17 de outubro – De recatada e resguardada, que desejava conservar-se pura para o enlace matrimonial, Júlia tornou-se uma ninfomaníaca insaciável. Chego na nossa casa, e Júlia, voluptuosa, insinuante, provoca-me; com desenvoltura de uma felina, pula em cima de mim, agarra-me, desembaraça-me das roupas, e desembaraça-se das roupas (caso esteja vestida). E nos saciamos um com o corpo do outro. Deleitamo-nos até nos saciarmos, todos os dias.

22 de outubro – Minhas mãos lascivas avaliaram o corpo da Júlia, enquanto ela sonhava com os anjos.

29 de outubro – Durante o sexo, Júlia geme, sussurra palavras excitantes e obscenidades. Seu corpo é muito flexível. Ela se põe nas posições mais extravagantes, mais bizarras.

07 de novembro – Não posso acompanhar o ritmo da Júlia. Ela é insaciável. Para atenuar a tensão que a consome, e para não se privar da sua vontade, ela aplaca o desejo com brinquedinhos que comprou, sem o meu consentimento, em um sex-shop. Ela me disse, enraivecida, hoje, ao entardecer, durante uma discussão: “Tu não me satisfaz!” Berrou-me, fora de si: “Quero um homem!”. E deu-me um tapa, que suportei, resignado. Ela era tão doce! Tão meiga! O que se passa com ela? Uma metamorfose inexplicável, surpreendente! Seu corpo me atrai, agrada-me, mas a Júlia por quem me apaixonei, atraído pelo seu corpo esplêndido… O que está acontecendo com ela? Ouvi muitas ofensas. Júlia humilhou-me, nestes últimos dias.

12 de novembro – Júlia conversava, animadamente, com o Carlos, tocava-o nos braços, e gargalhava, hoje à tarde. Abordei-os. Carlos despediu-se de nós, e retirou-se. Em casa, eu e Júlia discutimos. Encerramos a discussão, de costas um para o outro.

20 de novembro – Surpreendi Júlia saciando-se com um brinquedinho fálico movido à pilha.

27 de novembro – Eu e Júlia tivemos um ótimo dia. Nos amamos três vezes. Nos reconciliamos da briga de ontem, quando dormi no sofá da sala.

04 de dezembro – Ciúme corrói-me a alma. Júlia almoçou com o Lúcio. Eu e Júlia discutimos. Brigamos. Nos reconciliamos, na cama.

14 de dezembro – Júlia, indiscreta, revelou a nossa intimidade para a Carla, sua amiga, que espalhou a notícia, dada por Júlia, de que não me encontro sempre disponível. Ouvi insinuações maldosas. Mateus, rindo, zombeteiro, perguntou-me se eu precisava de ajuda, na minha casa, e ofereceu-se para se encarregar das tarefas domésticas as quais Júlia exigia-me mas eu não as conseguia cumprir adequadamente. Se as tarefas, perguntou-me Mateus, me eram demasiadas, ele, disse-me, com sorriso escarninho estampado no rosto, encarregar-se-ia, e de muito boa-vontade, e sem remuneração, de uma parte delas, aliviando-me de tão exaustivo encargo. Esmaguei seu nariz com um soco. Se não me segurassem, não sei o que eu faria com ele. Matá-lo-ia com uma cadeira, ou com uma faca. Fatiá-lo-ia, e jogaria as fatias para os cães vadios que infestam a cidade.

02 de janeiro de 2…. – Segui a Júlia. Nada de comprometedor. Outra discussão. Ela me deu um tapa. Revidei.

07 de janeiro – Eu e Júlia nos reconciliamos, após dias durante os quais nem sequer nos olhamos um nos olhos do outro. Nos expandimos em excitantes modalidades sexuais. A imaginação, excitada pelo desejo, impeliu-nos a deixar o pudor de lado, e a extravasarmos. Uma das melhores noites que eu e Júlia passamos juntos. Realizei todas as minhas fantasias; e a Júlia, as dela. E como ela é criativa…

16 de janeiro – Ouvi comentários depreciativos sobre a reputação da Júlia. Perturbado, imaginei-a nos braços de Mateus, nos de Carlos, nos de Lúcio, nos de todos os homens.

22 de janeiro – Eu e Júlia passeamos pelo parque. Ela, com roupa provocante, atraía a atenção de todos os homens. Meu sangue ferveu ao deparar-me com um homem que, atrevido, encarava-a, lambia os beiços e babava de desejo. O seu olhar, tão lúbrico! A sua postura, tão lasciva! Pensei ter ouvido os seus pensamentos. Fui até ele, e o esmurrei. Rolamos pelo chão aos socos e pontapés. Ambos fomos conduzidos à delegacia. Na nossa casa, eu e Júlia discutimos durante duas horas. Ela me disse que não me aturaria mais, e iria embora. Retive-a. Disse-lhe que ela não podia ir-se embora, falei-lhe do meu medo de perdê-la, de ser privado da sua companhia. Eu a atraí, com voz suave, macia, arrependido. Dormimos, eu, na sala, ela, no quarto.

15 de fevereiro – Agredi a Júlia. Ela revidou. Rasguei a sua camisola. Júlia arranhou-me. Eu a quis possuir à força. Se era homem forte que Júlia desejava, ela me teria. “É um homem forte que você quer, Júlia? Eu sou o seu homem forte.” Agarrei-a pelos braços. Ela tentou se desvencilhar. Empurrei-a sobre a cama. Ela me deu pontapés, arranhou-me, deu-me tapas, em vão. Arranquei-lhe a camisola. Possuí Júlia à força. Eu a submeti à minha vontade. Ela gritou de dor. Com as mãos, abafei-lhe os berros. Ao recompor-se, ela ameaçou ir-se embora. Arrependido, pedi-lhe perdão. Ela não quis ouvir-me, e retirou-se. Cai no chão do corredor, encolhido, e chorei, sinceramente arrependido. Dormi. Despertei, hoje, na cama. Como fui até lá?

21 de fevereiro – Não posso viver sem a Júlia. Telefonei-lhe, todos os dias. Ela não retornou as ligações. Abordei-a, nas ruas, nas lojas, em todo lugar. Eu soube que o Mateus deseja namorar com ela. Pressionei-o contra a parede, e encostei-lhe o cano de um revólver na têmpora. “A Júlia é minha!”, eu lhe disse, “Atreva-se a encostar um dedo nela, que estourarei os seus miolos. Afaste-se dela! Afaste-se dela!”. Mateus obedeceu-me. Depois, ameacei o Carlos. Ele não me obedeceu.

08 de março – Matei o Carlos. Dois tiros, um entre os olhos, outro no peito esquerdo.

09 de março – Fui ao enterro do Carlos. A Júlia chorava aos cântaros. Ela me viu, e fingiu não me ver. À primeira oportunidade, aproximei-me dela. Abri os braços, para abraçá-la. Ela recuou, de frente para mim; ao afastar-se uns quatro metros, virou-se nos calcanhares, e correu.

22 de março – Encontrei-me com a Júlia. Abordei-a. Eu lhe disse que desejava me reconciliar com ela. Ela me pediu que eu me fosse embora. Não me movi. Ela me perguntou se eu sabia quem matou o Carlos. Fulminei-a com os olhos. Ela tremeu, aterrorizada. Empalideceu. Seus lábios, trêmulos. De seus olhos escorreram lágrimas em abundância.

09 de abril – Minha! A Júlia é minha. Minha! Ninguém mais a terá! Ninguém! Ela me pertence! Seu corpo me pertence! É meu! Meu! Pertence-me! Seu corpo existe para a satisfação dos meus desejos! Seu corpo é meu! Eu o terei sempre que o desejar! É meu! O corpo da Júlia é meu! Eu o adoro! Adoro a Júlia! A Júlia é a única mulher que adoro! Devoto-lhe minha vida! O corpo da Júlia é meu! Pertence-me! Só eu tenho a posse do corpo dela! Só eu! Eu! Eu!

As senhas

Os segredos mais bem guardados do universo.

Ricardo, aos vinte e seis anos, era um homem de um metro e oitenta, magro, de ombros largos. Era casado com Suzanne e tinha duas filhas, Márcia e Adriana. Eu o conheci na festa de aniversário de um amigo comum, Marco Antonio. Ricardo era um ótimo contador de histórias e humorista irrivalizado. As pessoas, na festa, acercavam-se dele para dele ouvirem as histórias mais hilárias das quais se têm notícia, algumas picarescas, outras bocaccianas (narradas com sutileza e requinte, para não ferir suscetibilidades, nem constranger alguém), algumas de puro nonsense, outras quixotescas. Hilárias, todas elas. Era impressionante. E ele não se limitava a narrar as suas histórias; ele as animava com gestos – era ele um mímico versátil –, que vinham com tantos pormenores, que me fazem evocar os personagens de Charles Dickens. Direi – e sou ousado ao dizer – que ele era o Charles Dickens redivivo, o avatar do melhor escritor da era vitoriana. Tinha o talento literário do autor de David Copperfield e Oliver Twist, não na escrita, mas na narrativa oral. Cativante, animado, entreteve o aniversariante e todos os seus convidados durante quatro horas daquele sábado de verão. Assim que ele anunciou que teria de ir-se, pedimos-lhe que ficasse um pouco mais, insistimos, mas ele tinha de ir à casa de seu pai, então acamado, em auxílio à sua mãe, que lhe dedicava cuidados.

Dias depois, encontrei-me com Ricardo, em uma fila de banco. Ele contou tantas histórias engraçadas, que não percebemos que havíamos nos conservado quarenta minutos na fila (desejo que nenhum banqueiro leia este relato, que pode vir a inspirar-lhe a contratação de contadores de histórias para entreter as pessoas que, durante horas, permanecem, nas filhas das agências bancárias, à espera de atendimento). Depois daquele dia, encontramo-nos eu e Ricardo, em cinco ocasiões, num prazo de um ano. Encontramo-nos, na casa de Marco Antonio, há dois anos, no casamento de Marco Antonio e Neide, a sua segunda esposa (a primeira esposa dele, Tereza, falecera dois anos antes, em um acidente de moto). E Ricardo falou-nos da sua viagem aos Estados Unidos, à Inglaterra, do seu trabalho em uma empresa de engenharia eletrônica, e de outros capítulos de sua vida atribulada. Já conhecíamos todas as histórias que ele contou-nos antes de ele no-las contar, naquele dia; delas ele havia publicado, no Facebook, fotos e vídeos, mas ouvi-lo narrá-las era muito melhor. Acercamo-nos dele, para ouvi-lo. E ele entremeava o relato com comentários jocosos, alguns sarcásticos, e descrevia-nos personagens com os quais conviveu, alguns grotescos, aparentados com o Quasímodo, outros, hilários, saídos dos filmes de Harold Lloyd e Buster Keaton. Rimos gostosamente. Gargalhamos. Choramos de tanto rir. Em um certo momento da conversa, assediaram Ricardo duas crianças, Marcelo e Eliane, ele, de sete anos, ela de seis, ele, filho de Vinicius, primo de Marco Antonio, e Fabíola, ela, filha de Tadeu e Larissa, vizinhos de Marco Antonio, que lhe perguntaram qual era a senha da conta do Facebook e a do e-mail dele. E Ricardo disse-lhes:

– Sei guardar segredos. Sou o guardador dos segredos mais bem guardados do universo. Não os revelo para ninguém. A minha senha do Facebook e a minha senha do e-mail são segredos secretos. Eu nunca, nunca, nunca, e nunca, contarei para vocês quais são as minhas senhas. Vocês nunca saberão que ornitorrinco é a senha da minha conta do Facebook. Vocês nunca saberão.

E todos rimos.

E Marcelo gargalhou. E cessada a gargalhada, dirigindo-se a Ricardo, disse-lhe:

– Você disse.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo, simulando não haver compreendido a declaração de Marcelo.

– Você disse a sua senha do Facebook – respondeu Marcelo, mal conseguindo proferir as palavras.

– Eu? – indagou Ricardo, simulando surpresa. – Eu disse a minha senha do Facebook!? Não disse, não. Eu, a dizer a minha senha!? Nunca. Jamais. Ninguém sabe qual é a minha senha do Facebook, e ninguém jamais saberá. Jamais!

– Eu sei qual é a sua senha do Facebook – declarou Eliane. – Você disse a senha.

– Você sabe qual é a minha senha? – perguntou Ricardo, “incrédulo”. – Não sabe, não. Eu não disse qual é.

– Disse, sim – afirmou Eliane.

– Eu não disse, não – retrucou Ricardo.

– Disse – afirmou Marcelo. – E eu também sei qual é a sua senha do Facebook.

– Vocês não sabem qual é a minha senha do Facebook – disse Ricardo, que prosseguiu, desafiador: – Se sabem, então digam qual é.

E Marcelo e Eliane disseram, ao mesmo tempo:

– Ornitorrinco.

E Ricardo, simulando espanto, disse, olhos arregalados:

– O quê!? Como vocês descobriram qual é a minha senha do Facebook?

– Você a disse – declararam, sorrindo, Marcelo e Eliane.

– Eu? – perguntou Ricardo, interpretando o seu papel. – Eu? Eu nunca disse para ninguém que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. Nunca.

– Você disse de novo – exclamaram Marcelo e Eliane, e gargalharam.

– O que eu disse? – perguntou Ricardo.

– A senha: ornitorrinco – disseram Marcelo e Eliane, e choraram de tanto rir da fisionomia, surpresa e assustadiça, de Ricardo, e da confusão dele.

– A senha? Eu disse a senha? – exclamou Ricardo, a simular espanto e incredulidade, arregalados os olhos, a passear as mãos pelo rosto, a fisionomia a exibir o horror que a revelação inspirara-lhe. – Vocês sabem a minha senha – e roeu as unhas. – Como vocês descobriram a minha senha? Vocês são espiões.

– Não somos espiões, não – defendeu-se Marcelo a si e a Eliane. Eliane não se agüentava de tanto rir, não conseguia falar, mal conseguia respirar; temiam que ela engasgasse com o pedaço de bolo que levara à boca.

– São espiões, sim – declarou Ricardo, alterando as suas expressões, fingindo olhá-los a Marcelo e a Eliane como a olhar para pessoas suspeitas, ar carrancudo, ferocidade estampada no olhar, sobrancelhas franzidas. – Vocês dois são espiões – e alterou o timbre da voz, fazendo-o áspero, cortante. – Espiões. Vocês são espiões. Vocês trabalham para o James Bond. Eu nunca disse que ornitorrinco é a minha senha do Facebook. E eu nunca direi que orangotango é a minha senha do e-mail. Vocês dois nunca saberão qual é a minha senha do e-mail. Nunca! Nunca!

– Orangotango! – gritaram, simultaneamente, Marcelo e Eliane, a gargalharem; e todos gargalhamos.

– O quê!? – gritou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Quem contou para vocês que orangotango é a minha senha do e-mail? Quem?

– Você – disseram, a chorarem de tanto rir, Marcelo e Eliane.

– Eu!? – exclamou Ricardo, simulando surpresa e espanto. – Eu!? Eu!? Vocês – e apontou para Marcelo e Eliane – são espiões. Vou telefonar para a polícia – e tirou do bolso posterior direito da calça o telefone celular, e “discou” para a delegacia de polícia, e encetou conversa com o delegado.

A brincadeira estendeu-se por trinta minutos. As gargalhadas, tão intensas, que abalaram a estrutura das casas do quarteirão.

Decorridas duas semanas, encontramo-nos eu e Ricardo, na festa de aniversário de Mariângela, nossa amiga em comum, e lá, na casa dela, Ricardo disse, durante animada conversa com Marcos e Rúbia, filhos de Mariângela e Gustavo, com Geraldo, filho de Carlos Roberto e Madalena, e com Cauã, filho de Isaías e Isis:

– Sou um homem esperto, atilado, mais esperto do que o mais esperto de todos os homens que já pisaram na face da Terra. Eu nunca direi para ninguém que orangotango é a minha senha do e-mail e ornitorrinco é a minha senha da conta do Facebook. Ninguém nunca saberá quais são as minhas senhas! Nunca!

E Rúbia, antecipando-se a Marcos, Geraldo e Cauã, disse, rindo:

– As senhas são orangotango e ornitorrinco.

– O quê!? – exclamou Ricardo, simulando espanto, surpresa, admiração. – Como você descobriu quais são as minhas senhas? Quem as disse para você? Vocês são espiões? Vocês são espiões. Vocês descobriram as minhas senhas. Vou telefonar para a polícia, e vou falar para o delegado prender vocês – e pegou o celular, e “telefonou” para a polícia, e seguiu-se a brincadeira.

As crianças não se agüentavam de tanto rir. E os adultos, sob influência das gargalhadas das crianças e da mímica histriônica de Ricardo, riam de orelha a orelha.

Um mês não havia transcorrido, encontramo-nos Ricardo e eu, no clube de campo ***, onde, na presença de crianças, Ricardo repetiu a Brincadeira das Senhas, como codnominaram a brincadeira, que, infalivelmente, Ricardo promovia sempre que encontrava-se com crianças. Não haviam decorrido dez dias, Ricardo veio a falecer, pouco depois de um assalto. O assassino disparou contra ele, a queima-roupa, três vezes. Morreu Ricardo, na ambulância, a caminho do hospital. Compareci ao sepultamento. Reinava a tristeza. Apresentei condolências à mãe e ao pai do Ricardo, à Suzanne, e às órfãs, Márcia e Adriana. Lágrimas escorreram-me dos olhos, em uma golfada. Não as removi. Das minhas lágrimas não me envergonho.

Nos dias seguintes, freqüentei a casa de Suzanne, e ajudei-a a ajeitar algumas coisas que Ricardo deixara para trás. Um dia, na casa dela, estávamos Suzanne, Márcia, Adriana, o pai de Suzanne, Cristóvão, a mãe dela, Maria da Conceição, e o tio dela, Rubens, e outros familiares e amigos da família, quando alguém – não me recordo quem -, lembrou-se de acessar o computador, à procura de documentos, projetos e relatórios de Ricardo. Suzanne, no escritório de Ricardo, ligou o notebook, e clicou no ícone do e-mail, e, na sequência, no do Facebook. Para acessar as duas contas digitou, no campo reservado às senhas, na conta do e-mail e na do Facebook, a data de nascimento de Ricardo. Acesso negado. E digitou a data de nascimento de Ricardo com os números alterados, primeiro o ano, depois o mês, e o dia. Acesso negado. Digitou a sua data de nascimento. Acesso negado. Digitou o seu nome. Acesso negado. Digitou o nome de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome das filhas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento delas. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Teófilo, pai de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dele. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Maria Amélia, mãe de Ricardo. Acesso negado. Digitou o nome dela. Acesso negado. Digitou o nome de Albert Einstein, o cientista que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou o nome de Fibbonacci. Acesso negado. Digitou a data de nascimento de Fibbonacci, o matemático que Ricardo mais admirava. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Albert Einstein. Acesso negado. Digitou a data de falecimento de Fibbonacci. Acesso negado. Após o Facebook e o e-mail negarem-lhe o acesso trinta e quatro vezes, Suzanne desligou o notebook e, acompanhada de todos nós, retirou-se do escritório de Ricardo, e rumou, irritada, a ponto de debulhar-se em lágrimas, que, parecia, subiam-lhe para os olhos, em torrente, e em uma enxurrada se lhe despencariam dos olhos, para a sala-de-visitas, onde nos reunimos, e Cristóvão e Maria da Conceição pediram-lhe paciência, que, depois, descobririam a senha da conta do e-mail e a da conta do Facebook de Ricardo. Ele, era certo, as havia anotado em algum papel. Em qual? E onde o deixou? Ou, sugeriu Cristóvão, em algum arquivo, no computador, ou, sugeri, para descontrairmos um pouco, em algum arquivo particular no Facebook, ou em um rascunho no e-mail.

Na sala-de-estar, a conversar permanecemos, em tom baixo, respeitoso, durante um bom tempo. Maria da Conceição, preocupada com a saúde de sua filha, à ela dedicou toda a sua atenção até o instante em que Cristóvão soltou uma gargalhada, tão repentinamente, que assustou-nos a todos nós – e a ele também, presumo -, e bateu as mãos, na cabeça, uma, duas, três vezes, como que a se punir por algum pecado. Suspendemos a respiração, de imediato, a fitarmo-lo, abismados. Enlouquecera o velho? Um parafuso desconectara-se-lhe da massa cinzenta? Desmiolhara-se-lhe a cabeça? Liquefizera-se-lhe o cérebro? Coitado do ancião! O que lhe sucedia? Doeu-lhe o ventre de tanto gargalhar. Esparramou-se no sofá, o matusalém. Enfim, ele cessou as gargalhadas, e removeu, com um lenço que tirara do bolso traseiro da calça, as lágrimas dos olhos, e acenou para nós, pedindo-nos que o acompanhássemos. Não lhe exigimos explicações. Entreolhamo-nos, e levantamo-nos, curiosos, do sofá, e seguimo-lo. E ele entrou no escritório que havia sido do seu falecido genro. E ligou o notebook. E digitou a senha da conta do Facebook do Ricardo e a da conta do e-mail dele: ornitorrinco e orangotango.

Testemunha ocular

Presenciei, não faz muito tempo, um acidente de trânsito.

Parado, no cruzamento das ruas João XXIII e Duque de Caxias, atento aos veículos, eu me preparava para atravessar a rua João XXIII. E diante de meus olhos sucedeu um acidente envolvendo dois carros, um, vermelho, tendo, ao volante, um homem barbudo, que desrespeitou o vermelho do semáforo, e um carro preto, cujo motorista, atento ao semáforo, verde para ele, atravessava o cruzamento, quando se deu a colisão, após a freada e os pneus dos dois carros cantarem no asfalto. Ensina-nos a lei da física: Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. À colisão, que não causou grandes estragos nos carros, seguiu-se forte estrondo. Além de mim, quem mais – desconsiderando o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho – testemunhou o acidente? Eu fui a sua única testemunha ocular. Olhei de um lado para o outro, à procura de outra pessoa que o testemunhara. Não havia, lá, além de mim, do motorista do carro vermelho e do motorista do carro preto, nenhuma outra alma viva, nenhum outro filho de Deus, nenhum outro descendente de Adão e Eva, que testemunhara a colisão entre os dois carros. Eu não era a única pessoa presente nas proximidades do cruzamento da João XXIII com a Duque de Caxias; era eu, no entanto, a única pessoa que estava de frente para os dois carros envolvidos no acidente no instante em que o acidente se deu. E eu lamentei tal privilégio. A exclusividade testemunhal não me agradava.

Várias pessoas, atraídas pelo barulho da colisão, voltaram-se para o entroncamento da João XXIII com a Duque de Caxias, e, açulados pela curiosidade, pousaram os olhares no homem barbudo que estava no carro vermelho e no motorista do carro preto. Todas aquelas pessoas, excitadas pela curiosidade agora, estavam, no instante da colisão dos dois carros (saliento este ponto, certo do que escrevo – e a atitude delas corroboram o que escrevo), de costas para a intersecção da João XXIII com a Duque de Caxias, e ninguém, estou ciente disso, encontrava-se em uma posição tão privilegiada quanto à minha, e ninguém, ninguém, repito uma vez mais, além de mim, poderia apresentar um depoimento fiel ao desenrolar dos eventos. Eu, e apenas eu, assisti à colisão, e com meus olhos, olhos que os vermes hão de comer após eu bater as botas, abotoar o paletó, deitar de pés juntos sete palmos abaixo da Terra. Aproximaram-se dezenas de pessoas, curiosas todas elas, dos dois carros parados no meio da rua. Eu, não. Conservei-me imóvel. Vi que o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho não se feriram no acidente. Não me preocupei com eles; aliás, com eles preocupei-me, mas não pelas razões comuns em casos tais; eu não queria que eles me vissem; eu queria invisibilizar-me – e assim que policiais chegassem ao local, que ninguém se lembrasse de mim, apontasse-me, e declarasse que vi o que ocorreu, e os policiais, então, me dirigissem a palavra, e pedissem o meu depoimento. Eu queria evitar-me transtornos.

O motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho apearam dos carros, então rodeados de multidão de curiosos. Ouvi as vozes dos motoristas, que praguejavam. Culpavam-se um ao outro pelo acidente. Se ninguém interviesse, eles se engalfinhariam, e proporcionariam um espetáculo inesquecível, comum entre pessoas civilizadas, aos curiosos. O motorista do carro preto levaria a pior. O motorista do carro vermelho, forte, começou a impor-se ao motorista do carro preto, que, por sua vez, não abaixou a crista – afinal, ele não desejava amargar prejuízo; além do mais, com ele estava a razão. O que mais me chamou a atenção não foi a conduta dos dois motoristas, que era compreensível; foi o testemunho dos supostos espectadores do acidente. Havia um flagrante contraste ente a realidade e a ficção apresentada pelos que diziam que testemunharam o acidente, e apenas eu o notava; afinal, fui a única testemunha ocular do acidente. A imprudência do homem barbudo culminou com a colisão, que não acabou em tragédia porque o motorista do carro preto ia em baixa velocidade. Algumas pessoas que rodearam os carros, os motoristas envolvidos no acidente e os dois policiais que compareceram ao local defenderam o motorista do carro vermelho, e outras defenderam o motorista do carro preto. Eu, que era a única testemunha ocular do acidente, e poderia oferecer um relato imparcial e objetivo do que ocorreu, calei-me, dei dois passos para trás, e permaneci, calado, braços para trás, dedos cruzados, a acompanhar, atento, as controvérsias. Eu já disse, e repito, mais uma vez, e não me cansarei de repetir quantas vezes forem necessárias: Fui a única testemunha ocular do acidente. Os dois policiais colheram testemunhos desencontrados. O motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho trocaram desaforos. A multidão aguçou a audição. Pressentiu que, à troca de ofensas verbais seguir-se-ia socos e pontapés, e a excitou a perspectiva de assistir à uma luta livre. O círculo fechou-se em redor dos motoristas. Os policiais intervieram, e amansaram o motorista do carro preto e o motorista do carro vermelho, desagradando ao público sedento de sangue.

Repito uma vez mais. Fui a única pessoa que testemunhou o acidente. E eu era, repito, a única pessoa que poderia prestar um depoimento detalhado, fiel aos eventos, e encerrar a confusão que os depoimentos daquelas pessoas que não testemunharam o acidente e o do motorista do carro preto e o do motorista do carro vermelho criaram, mas não atuei para encerrá-la. Tratei, antes que eu me revelasse aos motoristas envolvidos no acidente, de me retirar de lá, e de fininho. Eu não queria para mim dores de cabeça. E para evitá-las, fui-me embora, antes que Anselmo, o motorista do carro vermelho, e Dâmocles, o motorista do carro preto, ambos meus amigos, me vissem.

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