Em primeira mão

– Senhores, apresento-vos o popular e prestigiado homem que nos últimos sete anos engrandeceu o jornalismo brasileiro, alçando-o à altura do das nações ricas: Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço. Senhor Juvenal, recebas, da Academia dos Jornalistas do Brasil, o prêmio Melhor Jornalista do Ano.

Este foi o iniciou do evento ao qual compareceu a nata do jornalismo brasileiro. Juvenal, porte altivo, sorridente – seus dentes brancos refulgiam – ergueu-se. Acenou para os colegas, que, de pé, aplaudiram-no e ovacionavam-no estrondosamente.

Tranquilamente, abrindo passagem entre as mesas, abraçando os homens e estreitando, em abraços calorosos, as mulheres, todas encantadas, e beijando-as nas faces, Juvenal caminhou até o microfone.

A ovação e os aplausos estenderam-se por longos dez minutos.

Com acenos, Juvenal pediu silêncio – o público atendeu-o prontamente -, e deu início ao discurso:

– Esta egrégia instituição selecionou os mais talentosos nomes da literatura jornalística, os quais se rivalizam com os dos Estados Unidos e os da Inglaterra, nações cujos profissionais alçaram-se ao píncaro da genialidade, e, dentre todos os selecionados, todos merecedores de respeito e admiração, optou por me prestigiar com o prêmio Melhor Jornalista do Ano. Há nomes que, mais do que o meu, merecem recebê-lo. Preparei um discurso. Guardei-o no bolso… Estou tão emocionado, que temo gaguejar ao lê-lo. Embaçar-se-me-ia a visão, embargar-se-me-ia a voz… Constrangido… Eu, o centro das atenções… Para mim convergem os vossos olhares… Há, aqui, jornalistas de experiência profissional tão vasta que me constrangem a declarar que não sou o merecedor de tão prestigiado prêmio. Outros nomes se sobrepõem ao meu. O insigne senhor, meu mestre, Paulo Renato Friedmann, excelso jornalista brasileiro, merece, mais do que eu, o título Melhor Jornalista do Ano. Provecto, as suas vastas cãs não me desmentem, usufrui, aos seus noventa e quatro anos de idade, setenta e cinco deles consagrados ao jornalismo, de lucidez admirável. Os artigos de sua lavra, publicados nas últimas semanas, sustentam as minhas palavras. Ele é o guia infalível que nos mostra o melhor caminho, que é o mais árduo, ao correto exercício do jornalismo. O senhor Paulo Renato Friedmann, mais do que todos nós, merece receber, das mãos do presidente da Academia, este troféu que eu, um simples mortal, hoje tenho comigo. Proponho o título Jornalista Sênior ao senhor Paulo Renato Friedmann.

Ovações ensurdecedoras encheram todos os espaços do luxuoso templo, que tremia. As pessoas, emocionadas, expandiam-se em aplausos e assobios.

Juvenal regozijou-se.

Encerrados os aplausos febris e a ovação, Juvenal retomou o discurso:

– Iniciei, há sete anos, a minha promissora carreira jornalística. Neste curto tempo, conheci profissionais que me educaram no exercício de tão nobre profissão, que remonta aos excelsos gênios da Grécia, Tucidides e Heródoto; e de Roma, Plutarco. Eles foram, além de historiadores fabulosos, dotados de recursos literários extraordinários, jornalistas admiráveis. Trataram de inúmeros eventos, todos importantes para a história da civilização. Relataram, com maestria, conflitos entre o ocidente e o oriente, escreveram biografias dos imperadores romanos, e narraram guerras de ampla ressonância cultural e política. Devido aos registros que eles nos legaram, hoje podemos estudar os elementos que agitaram as antigas civilizações. Os relatos deles e, nos tempos modernos, os de Defoe, com o seu naufrágio, os de Swift, com as suas narrativas maravilhosas, os de Churchill, com o seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas, os de Lawrence, com os seus sete pilares da sabedoria, os de Reed, que abalou o mundo em dez dias, engrandecem o jornalismo. Não é atrevimento classificar as obras deles como obras jornalísticas. Atrevo-me a declarar, também, que Guerra e Paz, O Leopardo, A Cartuxa de Parma e Comédia Humana são obras de cunho jornalístico. Apenas pessoas dotadas de talento jornalístico retratam, com desenvoltura, lucidez, penetração psicológica, perícia cirúrgica, os eventos que testemunharam. Tolstoi, Lampedusa, Stendhal e Balzac, além de literatos geniais, criadores irrivalizados, foram jornalísticas formidáveis.

Aplausos retumbantes abafaram-lhe as palavras.

Cessados os aplausos, prosseguiu:

– Para dar a real dimensão da importância do jornalismo na formação da literatura de língua portuguesa e da sua contribuição para a formação de escritores, cito os nomes de Machado de Assis e Eça de Queirós. Ambos nos legaram magistrais peças jornalísticas.

Sucederam-se aplausos ensurdecedores. A ovação elevou-se a níveis inconcebíveis. Mais uma vez, Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço teve de interromper o discurso. Cessados os aplausos e a ovação, prosseguiu:

– Felicito-me ao ver as minhas palavras agradarem aos senhores. Aqui, entre os meus pares e os meus mestres, envaideço-me das minhas conquistas e, principalmente, dos meus fracassos, os quais me ensinaram a humildade e provaram-me que tenho muito a aprender. Agradeço ao querido mestre Paulo Renato Friedmann por todos os ensinamentos e pelo seu exemplo. Para mim, Paulo Renato Friedmann é o modelo perfeito de jornalista. O mestre dos mestres. Deus vos dê saúde e vos permita viver mais noventa e quatro anos. Obrigado.

O público aplaudiu, emocionado.

O advento de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço deu-se sete anos e quatro meses antes do evento que o prestigiou com o título Melhor Jornalista do Ano. Em sua primeira matéria tratou de um episódio medonho sucedido na cidade de ***. Crime abominável, envolvido em mistérios: assassinato de uma menina de nove anos. O assassino também era um necrófilo. Os munícipes ficaram aterrorizados. Quem era o assassino? Ninguém sabia. O cadáver da menina, cujo nome era Lucélia Maria Marques Moreira, ensangüentado e coberto de hematomas, sujo e eviscerado, foi encontrado, à margem de um córrego poluído, por um bêbado, cujo nome era Heriberto Roberto Florisberto Vitorino Trancoso Amoroso D’Escragnolle Neto, que nele tropeçou e, automaticamente, recuperou a lucidez. O corpo foi carregado ao necrotério e submetido à autópsia. Dados os motivos da morte e noticiadas as violações às quais o corpo foi submetido (Lucélia foi estuprada, eviscerada e degolada), logo a notícia espalhou-se por toda a cidade, e a população dirigiu-se, horrorizada, ao velório, a consolar o pai e a mãe – ambos inconsoláveis – de Lucélia Maria Marques Moreira. A mãe, Márcia Maria Marques Moreira, o rosto deformado pelo sofrimento, debulhava-se em lágrimas abundantes. Ela desmaiou; ao recompor-se, repeliu os conselhos de amigos e familiares, e conservou-se no velório a velar sua filha e a receber os votos de condolências de familiares e amigos.

Juvenal, de passagem pela cidade, tomara conhecimento do caso. E registrou, com uma pequena câmara digital, a agitação promovida pelo assassinato da pequena Lucélia Maria Marques Moreira. As imagens espalharam-se pelo mundo. Juvenal foi requisitado a fazer a cobertura dos eventos. Foi tão bem sucedido que a polícia desdobrou-se na investigação, e a pequena cidade converteu-se, da noite do dia 16 de * para a manhã de 17, no maior centro de concentração de jornalistas e curiosos. Para a pequena *** convergiram pessoas de todo o país, todas ávidas por notícias que esclarecessem os pontos obscuros do inominável episódio. E tiveram início as especulações de todos os gêneros. Multiplicaram-se as informações conflitantes. O caso assumiu dimensões fabulosas. As teorias mais extravagantes apontavam a participação de anjos, demônios, alienígenas e bruxos.

Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço ficou famoso no Brasil. Todos desejavam saber o que ele tinha para comentar a respeito da morte de Lucélia. O crime foi reconstituído em todas as suas minúcias. Trabalho modelar, o das emissoras de televisão, que, no emprego dos mais avançados recursos gráficos, reconstituíram o abominável crime.

O delegado responsável pelas investigações apontou Rui Francisco Moura, um homem de quarenta e quatro anos, como suspeito. A multidão, enraivecida, indignada, esqueceu-se, ou não tomou conhecimento, de que Rui Francisco Moura era suspeito de haver cometido o crime, e não havia prova que o incriminasse, e o enxovalhou. Os muros da sua casa foram pichados com ofensas, ameaças de morte, desenhos obscenos e alcunhas depreciativas. Seu nome foi associado ao que há de mais desprezível nos humanos. Alguns nobres cidadãos, que zelavam pela segurança das crianças da cidade, espancaram-no. Sofreu barbaridades até o dia em que o delegado encerrou as investigações, o inocentou e declarou, na entrevista coletiva, que ele era um cidadão exemplar.

Rui retirou-se da cidade, desgostoso. Viveu amargurado os seus últimos quatro anos de vida. Era apontado, em todas as cidades em que se instalava, como estuprador e assassino, e delas tinha de retirar-se antes que alguém o matasse. Viveu como um nômade, entrando e saindo de cidade após cidade. Para ele, a morte foi um lenitivo.

O episódio, que ficou conhecido, nos anais do jornalismo brasileiro, como o Caso Lucélia, foi a desgraça de Rui; em contrapartida, foi a fortuna de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço. Nunca se havia presenciado tal fenômeno midiático. Do Oiapoque ao Chuí não se tratou, durante dois meses, de outro assunto que não o Caso Lucélia. Juvenal, de um momento para o outro, do anonimato galgou, com um salto espetacular, o topo da notoriedade. Amealhou fortuna incalculável. Obteve acesso à alta sociedade brasileira. As suas aventuras amorosas com atrizes, modelos, atletas, cantoras, apresentadoras de programas de auditório e jornalistas estamparam as manchetes de todos os jornais e de todas as revistas do país. O seu site oficial, nos primeiros doze meses após o Caso Lucélia, teve duzentos milhões de acessos. No seu blog, que ele escrevia diariamente, com uma prolixidade ímpar, muitos internautas deixavam comentários favoráveis a seu respeito. Raras as vozes dissonantes. A sua fama ascendeu com o Caso Romualdo, que tratava da história de um garoto que, engolido por uma sucuri, conseguiu safar-se porque seu avô, Juscelino, esquartejou-a com uma picareta. O caso tornou-se evento de repercussão nacional. Dois grupos antagônicos digladiaram-se em ferrenhos debates, com direito a troca de insultos, insinuações maldosas e difamações de toda ordem. Eram, em um canto do ringue, o Amamos Sucuris, e, no outro, o Odiamos Sucuris. Astuto, Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço explorou o episódio em seu benefício. Explorou-o tão sabiamente que Romualdo foi reduzido a um coadjuvante que, acidentalmente, intrometeu-se na história da sucuri; esta, sim, a protagonista, para a qual todas as atenções convergiram. Todas as emissoras de televisão promoveram debates acalorados sobre a atitude da serpente colossal. Em um programa dominical, um psicólogo de serpentes exibiu toda a sua erudição ofídica. Uma emissora de televisão pagou cinquenta mil reais a Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço para ele participar de um debate cujo tema era “As serpentes personificam o mal”. As suas palavras foram repetidas em todas as esquinas, em todas as reuniões, e as suas frases de efeito, citadas como exemplos de sabedoria elevada, sensatez incomparável e penetração filosófica irrivalizada. Reverenciaram-no como a um taumaturgo, a um profeta.

Outro caso de grande repercussão no noticiário brasileiro foi o do serial-killer de **, que, com requintes de crueldade, matou vinte e duas mulheres. Juvenal foi o primeiro jornalista a escrever a respeito. O serial-killer foi alcunhado Dentinho devido aos seus dentes salientes e pontiagudos. Seu nome de batismo era William Washington Williams. Apesar do nome inglês, era brasileiro, filho de brasileiros, neto de brasileiros, e bisneto de um brasileiro, um português, uma brasileira, uma africana, uma espanhola – e são desconhecidas as nacionalidades dos seus outros bisavós, e mal se suspeita as dos seus ascendentes mais antigos. William Washington Williams (ou, como também era conhecido, Dábliu Dábliu Dábliu) era um sujeito tímido, pacato. Juvenal investigou a fundo a biografia de William Washington Williams (ou Dábliu Dábliu Dábliu, ou, simplesmente, WWW) e revelou detalhes que chamaram a atenção do público: WWW era o primeiro de três filhos; foi aluno medíocre, apático, negligente; trancado em si, vivia numa concha; era estranho, esquisito; na sua casa, não se envolvia em brigas com os irmãos; para sua mãe, era um anjinho; para seu pai, um bom filho. Aos vinte e seis anos, entrou para a história como o maior serial-killer do Brasil. Juvenal, no auge do seu prestígio, com a sua persuasão e o seu charme, foi bem sucedido na negociação de uma entrevista exclusiva com William Washington Williams. A entrevista foi ao ar, em um domingo, às oito horas da noite. O Brasil jamais havia assistido a fenômeno televisivo tão grandioso. Nem em copas do mundo, nem nos derradeiros capítulos das novelas, uma emissora de televisão concentrara e concentraria tanto a audiência. A atenção de dezenas de milhões de brasileiros se concentrou em Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço e WWW. A entrevista, um tsunami midiático, arrasou a concorrência. Juvenal, sabiamente, não negociara uma remuneração fixa com a emissora de televisão que transmitiu a entrevista, como habitualmente fazia, mas atrelou o seu salário ao índice de audiência, e amealhou uma fortuna incalculável, e converteu-se, em uma hora, no jornalista mais bem pago na história do Brasil.

As revelações de WWW, e a sua frieza e a sua crueldade, abominaram os brasileiros, mas exerceram fascínio em muita gente, e houve mulheres que se manifestaram favoravelmente a ele, e uma mulher fogosa provida de atrativos irresistíveis desejou dele ter um filho.

Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço, antes que o Caso Dos Três Dáblius, como ficou conhecida a história do maior serial-killer brasileiro, se esgotasse, noticiou, em primeira mão, o Caso do Estuprador do Viaduto, que lhe rendeu um milhão de reais, além de contratos milionários para escrever artigos semanais para os principais jornais e hebdomadários brasileiros. Prolixo, Juvenal escrevia, diariamente, no seu blog (com oitocentos mil acessos por dia), e, para quatro jornais, artigos de duas páginas, publicados nas edições dominicais, cujas tiragens aumentaram cento e quarenta por cento, e, para cinco revistas, um artigo exclusivo para cada uma. Admiravam-lhe a prolixidade. Pasmos, todos ficaram fascinados com a velocidade com que ele produzia textos de altíssima qualidade.

Juvenal era dotado de talento incomparável: investigar os casos mais ordinários, e os transformar em notícias populares. Ele convertia qualquer incidente e qualquer acidente em fenômeno jornalístico. Um exemplo: Um simples incidente, ocorrido em uma estrada federal, envolvendo um motorista que, ligeiramente embriagado, atropelou uma capivara, rendeu manchetes de capa nas principais revistas e nos mais importantes jornais do país. O título do primeiro artigo, de autoria de Juvenal, abordando o episódio, Capivara Etílica, foi reproduzido em todos os jornais, em todas as revistas e em milhares de sites. Num vídeo, Juvenal aparecia no exato local em que o motorista atropelou a desafortunada capivara; e o cadáver dela foi exposto e minuciosamente estudado. Ronaldo Magalhães, o motorista do carro que atropelou a capivara, concedeu a Juvenal uma entrevista de duas horas de duração, revelando o seu estado deplorável: rosto vermelho e inchado; mal conseguia manter-se em pé; engrolava as palavras, delas trocando a ordem das sílabas ou delas suprimindo sílabas. Juvenal, com a sua extraordinária simpatia pessoal, convenceu-o a ficar ‘de quatro’ e a andar sobre uma linha, riscada com giz, no asfalto. Milhões de internautas assistiram à cena, extraordinariamente hilária. Emissoras de televisão a exibiram exaustivamente. Ronaldo, que, a partir desse dia, passou a ser conhecido pela alcunha de Capivaresco, o assassino de capivaras, converteu-se em uma das personalidades mais populares do Brasil, e todos os programas de televisão requisitaram a sua presença. Suplantou, em popularidade, os galãs das novelas, os cantores sertanejos, os de forró, os de axé, os de rap, os de funk, os de pagode e os de outros gêneros musicais populares. Não havia dupla sertaneja, nem pagodeiro, nem mc, nem loira calipígia e nem mulata deslumbrante que se rivalizava com Ronaldo no que dizia respeito à carisma, simpatia e popularidade. Extraordinário! Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço converteu uma nulidade chamada Ronaldo Magalhães em um fenômeno da cultura popular. Ronaldo não existia mais; morreu, para o nascimento de Capivaresco. Jeca Tatu, Macunaíma, Peri, Policarpo Quaresma, enfim, conheceram um personagem que com eles se rivalizava em personificação da alma popular nacional. E o seu criador, Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço, amealhou fortuna impossível, diziam, de se amealhar em tão pouco tempo. Capivaresco tornou-se marca registrada. Apoiado por Juvenal, estreou na música popular, como mc Capivaresco, e lançou dois sucessos musicais: A Capivara Etílica e O Gargalo Roedor. Sucesso nas rádios. Sucesso nas emissoras de televisão. Sucesso na internet. Eram as duas músicas mais ouvidas no Brasil. Lideraram, durante oito meses, a lista das músicas mais tocadas nas rádios. O sucesso das músicas impulsionou a carreira de ator, humorista, poeta, trovador, romancista, de Ronaldo Magalhães, o Capivaresco, que, em pouco mais de um ano, além de amealhar fortuna de mais de quinze milhões de reais, conquistou uma centena de amantes, que não atentavam para a sua notória feiúra, que, aos olhos delas, assumia ares sedutores. E a sua inusitada figura estampou capas de cadernos, recipientes de sabão em pó, e desodorantes, e pijamas, cuecas, chinelos, roupas íntimas femininas, toalhas, artigos esportivos, e mais uma infinidade de outros produtos. E Capivaresco converteu-se em um simpático personagem de revistas em quadrinhos e de desenhos animados: Capivarinho, um garoto sorridente – ao contrário de Ronaldo, tinha todos os dentes -, protetor das florestas e das capivaras; atuava em todo o Brasil, e aventurava-se pelo Alasca, pela Sibéria, pelo Saara e pela Antártida, lugares, até onde se sabe, onde não há capivaras. E todos esqueceram que Ronaldo Magalhães, bêbado ao volante de um carro, havia atropelado uma capivara.

A carreira jornalística de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço ia de vento em popa. Previa-se que nada lhe frearia a ascensão meteórica rumo à estratosfera do mundo jornalístico. Restava-lhe o reconhecimento dos seus pares, e o título de melhor jornalista do ano, concedido pela Academia dos Jornalista do Brasil, lhe viria bem a calhar. Mas a comunidade jornalística, que lhe torcia o nariz, não o via com bons olhos e não o considerava digno de figurar no grupo dos profissionais da imprensa, lho negava, peremptoriamente.

Juvenal superou todos os obstáculos. Os seus opositores, os seus desafetos, todos os profissionais que o viam com maus olhos, não puderam, por mais que o desejassem, barrar-lhe a ascensão. Juvenal triunfou. Prestigiaram-no, em um evento luxuoso, com o título de Melhor Jornalista do Ano, conquanto houvessem muitas vozes dissonantes.

Com o título na mão, o renome em alta, Juvenal circulou pelas mais elevadas camadas sociais, e os homens mais poderosos abriram-lhe as portas e deram-lhe acesso aos seus escritórios. A sua influência nos meios de comunicação era inédita. Antes dele, nenhum outro jornalista granjeara tanto poder. O seu sucesso, previam, jamais teria fim. Juvenal tinha faro jornalístico, diziam, e sabia do nada produzir notícia, contestando, na prática, a lei de Lavoisier. Muitos jornalistas, numa confusão inextricável de sentimentos, admiravam-no e invejavam-no.

Não havia o que negar: Juvenal era dotado de vocação jornalística rara. Após a Academia dos Jornalistas do Brasil o laurear com o título Melhor Jornalista do Ano, Juvenal deu seqüência à sua carreira bem sucedida. Noticiou outros casos, que chegaram às manchetes de todos os jornais, revistas e noticiários de todas as emissoras de televisão: O do Et Caolho, narrado pelo casal Josenildo e Carlota, ambos abduzidos, na Dutra, por uma nave espacial pilotada por um alienígena caolho e sem orelhas; e, principalmente, o do deslizamento de terra que causou a morte, por soterramento, de uma vira-lata e seus cinco filhotes. Esta história comoveu os brasileiros. A prefeitura de * homenageou, com uma estátua, instalada na praça central da cidade, a cachorra, Belinha, e seus cinco filhotinhos. Ao evento compareceu multidão superior ao número de habitantes de * cujo serviço de fornecimento de água entrou em colapso – o departamento de limpeza pública, no dia seguinte ao concorrido evento ao qual compareceram políticos renomados, artistas consagrados, presidentes de organizações não-governamentais de defesa dos animais, removeu setenta e oito toneladas de lixo. * jamais havia conhecido tantos distúrbios como os que presenciou nos dias que precederam e sucederam à inauguração da estátua em homenagem à Belinha e seus cinco filhotinhos (Não é demais noticiar que o deslizamento de terra provocou a morte de dezesseis pessoas, sendo nove delas crianças).

E o Brasil conheceu a história do Surfista Desaparecido, a do Skatista Reaparecido, a da Mulher Com Celulite Na Testa (Como conseqüência da negligência de um cirurgião plástico, a vítima, Andressa, uma linda mulher até então, perdeu os cabelos que lhe adornavam a cabeça, e a sua testa assumiu a configuração de nádegas com celulite), a do Empacotador Empacotado, a do Segurança Inseguro, a do Canhoto Demoníaco, a do Motoqueiro de Botas de Aço e Luvas de Pelica, a da Jaqueta Assassina, a da Peruca Fantasmagórica, a do Fantasma Virtual, a do Software Devorador de Almas e a do Tintureiro Ressuscitado.

Esses foram os casos que Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço noticiou, em primeira mão. Todos ganharam as manchetes dos principais e mais importantes jornais e revistas do Brasil.

A carreira profissional de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço ia num crescendo ininterrupto. Por fim, estabilizou-se. O seu estilo jornalístico fez escola. Transformou assuntos, eventos, fatos irrelevantes em notícias bombásticas, e pessoas desconhecidas em personalidades populares, famosas e ricas.

Sabe-se, hoje, que o caso do Tintureiro Ressuscitado foi o seu último caso de sucesso. A partir do seguinte, os seus artigos atraíram pouca, ou nenhuma, atenção do público, e o nome de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço começou a ser menos evocado nas conversas e deixou de ser referência para os novos jornalistas que chegavam ao mercado. Juvenal, perdulário, via os seus recursos minguarem; e, para seu profundo descontentamento, outros jornalistas o substituíram no imaginário popular; e ele previu que, se continuasse a perder popularidade, ninguém se interessaria pelo seu trabalho, e o esqueceriam. Estava decidido a impedir que isso ocorresse.

– Nunca dei uma notícia interessante – monologava, só, no seu quarto, deitado na cama, fitando o teto. – Fiz com que as pessoas se interessassem pelo que me convinha e convinha aos que me agraciaram com cheques polpudos. Ninguém se interessa por questões importantes, pois para entendê-las têm de queimar as pestanas. Quem deseja queimá-las? Ninguém. Para que quebrar a cabeça com assuntos complicados? É mais interessante narrar a história de um garoto dentuço e espinhento que, ao manusear um estilingue com a exímia destreza de Davi, dispara uma pedra, que atinge um pombinho, quebrando-lhe a asa esquerda, do que tratar da instabilidade da economia mundial e das suas ressonâncias políticas nos miseráveis países africanos, assunto, este, que está fora do âmbito do interesse e das preocupações do público. A questão econômica é espinhosa; a do menino espinhento, não. Brincar com as emoções das pessoas, manipulá-las, mexê-las e remexê-las é sucesso garantido. Tiro e queda! Foi o que fiz até hoje. O resultado está aí. Montanhas de dinheiro. Sucesso. Mulheres. As mulheres mais desejáveis do mundo caem aos meus pés e entregam-se para mim. Sou uma celebridade. Mas minha fama está sofrendo uma reversão. Tenho de anulá-la antes que seja tarde demais. Preciso de uma notícia. Fracassaram as minhas últimas tentativas de transformar em notícias assuntos ordinários. Estou perdendo a mão. O que farei? Terei de fazer alguma coisa. O quê!? O quê!? Não jogarei a minha carreira na lata de lixo. Não sei se procedem as minhas suspeitas, mas, acho, estou perdendo a minha destreza jornalística. Ou eu recupero o espaço que perdi nos últimos meses, ou jovens imberbes, individualistas, agressivos, gananciosos, que não demonstram respeito pelas gerações precedentes, e só olham para o próprio umbigo, e olham-me de cima para baixo, superiores e soberbos, os basbaques!, os almofadinhas!, que mal abandonaram os cueiros e já querem contestar a teoria da gravidade!, me jogarão para escanteio. Na última sessão da Academia o meu nome não figurou entre os cinco jornalistas selecionados para o prêmio Melhor Jornalista do Ano. Provarei para todo o mundo quem é o melhor jornalista do Brasil.

Com esforço hercúleo, numa atividade fatigante e prodigiosa, atirou-se ao trabalho. Não era possível ocultar a sua decadência. Os seus artigos não eram mais lidos com paixão por leitores ávidos. Os acessos ao seu blog despencaram, em seis meses, noventa e cinco por cento. Vários jornais e revistas não renovaram o seu contrato, e os que o renovaram ofereceram-lhe dez por cento da remuneração anterior. Os seus recursos minguavam. O seu busto não estampava capas de revistas e tampouco a primeira página dos principais jornais do país. A sua marca não atraía público, não alavancava as vendas de nenhum produto. As mulheres afastaram-se dele. A sua feiúra destacou-se. Perdeu o charme, as mulheres, os amigos, os admiradores.

Antes, as suas notícias tinham êxito fenomenal; agora, eram ignoradas. O Caso Hermógenes, o orelhudo, e o Caso Salamandra Grelhada, dar-lhe-iam, em outra época, sucesso incomparável, e seriam destaques nos principais jornais e revistas do país. Mas os tempos eram outros, e os ventos assopravam para outra direção. E Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço continuava a rolar ladeira abaixo. Por maior que fosse, o seu esforço para recuperar a popularidade e a fortuna dos seus anos de glória era inútil. Ficou deprimido. Tornou-se alcoólatra. Desvairado, flagelado pela obsessão de reconquista da sua fama e aflito ao ver que outros jornalistas conquistavam o território no qual ele reinava como monarca absoluto, contratou um vigarista para dissimular tentativa de suicídio. O episódio renderia destaque em todas as publicações nacionais e o nome de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço retornaria às manchetes, se ele não incorresse em um erro imperdoável: Não pagou os cinquenta mil reais combinados com Rodolfo para que este simulasse o desejo de suicidar-se. Rodolfo, acometido de fúria irrefreável, pôs a boca no trombone, literalmente. O escândalo abalou os alicerces da república. Juvenal desmentiu as palavras de Rodolfo; este, astuto, apresentou um áudio comprometedor – que gravara, à revelia de Juvenal: o da negociação dos cinquenta mil reais. Juvenal disse que a gravação era uma montagem. Técnicos a examinaram. A gravação era autêntica. Esse foi o primeiro passo de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço na sua interminável via-crucis. O Caso do Suicida Vivo, como ficou conhecido o escândalo, suscitou muitas interrogações que acarretaram muitos dissabores a Juvenal.

– Os outros casos noticiados por Juvenal merecem investigação. Cabe a pergunta: Foram forjados? Juvenal adulterou provas e manipulou fatos? Quais outras mentiras ele nos contou? Quais notícias ele produziu por conta própria? Toda a carreira de Juvenal está sob suspeita.

Tais palavras foram repetidas diariamente. A honestidade de Juvenal foi questionada. Foi suprimido de Juvenal o direito de exercer o jornalismo. As investigações concluíram que ele manipulara inúmeros eventos, inclusive os que lhe conferiram fama e fortuna. Foi expulso da Academia dos Jornalistas do Brasil. Os seus títulos, anulados. O seu nome, sinônimo de manipulação, corrupção moral, foi associado ao que há de pior na conduta humana. Os seus desafetos, que antes não ousavam pôr-lhe o dedo em riste ao nariz e não o atacavam, agora o desancavam, verborrágicos, em artigos ferinos, recheados de acusações. Linchado moralmente, Juvenal caiu em desgraça. Perdeu a sua fortuna, despendida com advogados e rábulas. Juvenal disse, na sua derradeira entrevista, para uma revista dominical, que estava na véspera do seu regresso às manchetes de todos os jornais e de todas as revistas do Brasil.

No dia seguinte, as emissoras de televisão, em chamada de plantão, deram a notícia: Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço foi encontrado, na sua casa, morto, com um tiro na têmpora esquerda. O legista declarou a causa da morte: suicídio. E a carta, de punho de Juvenal, sustentava: “Regressei, para a eternidade.”

O trágico encerramento da vibrante vida de Juvenal foi destaque em todos os noticiários, jornais, revistas e blogs. No dia da sua morte, mais de cinquenta milhões de internautas visitaram o seu blog oficial. A tiragem das revistas semanais e dos jornais aumentou mais de duzentos por cento. E Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço, ou, simplesmente, Juvenal, tornou-se ícone popular, um mártir midiático. A morte o remiu de todos os pecados. A sua estampa suplantou, em popularidade, a de Che Guevara, a de Jimi Hendrix e a de John Lennon. Em um curto período, publicaram-se quatro biografias de Juvenal Ribeiro Santos da Silva Lourenço, cujos títulos eram: Juvenal, o tsunami jornalístico; O Neologismo Juvenalismo; Juvenal, uma biografia; e Juvenal, a lenda. De cada um deles foram vendidos milhões de exemplares, sendo que Juvenal, a lenda converteu-se no maior sucesso editorial do Brasil, rompendo a barreira dos quinze milhões de exemplares vendidos.

Como ele prometera, regressou às manchetes de todos os jornais e de todas as revistas.

Reverenciaram-no.

Desencavaram um manuscrito de Juvenal, enfurnado na gaveta da sua escrivaninha: a sua autobiografia.

Aventaram a possibilidade de o canonizarem.

O teor da autobiografia serviria de fonte para a sua hagiografia.

A notícia

– Ontem, encontrei-me com a Cláudia. Tu sabes o que ela me disse? Ela me disse que a Ludmila e o Carlos brigaram. A discussão estendeu-se por um século. O Carlos, disse-me a Cláudia… Palavras da Cláudia: “A Ludmila e o Carlos deram o maior escândalo de todos os tempos, no restaurante Bom Garfo, ontem à noite. Conversávamos, eu, a Ludmila e o Carlos. Num dado momento, o Carlos olhou para uma loira bonita, atraente, que passou ao seu lado. Ela se deteve, voltou-se para ele. O Carlos fitou-a. E o que aconteceu em seguida? A loira, atrevida, derrubou, no chão, de propósito, um molho de chaves, e agachou-se para pegá-lo. Tu tinhas de ver. A loira, linda, maravilhosa, usava um decote… O Carlos, com cara de bobo, arregalou os olhos, com os olhos devorou a loira. A Ludmila viu o que o Carlos viu, olhou para o Carlos, e, sem pensar duas vezes, e antes que ele entendesse o que se passava, furiosa, deu-lhe um tapa na cara, virando-o para o avesso. O Carlos deu um grito que na China podiam ouvir. A loira, ao levantar-se, olhou para o Carlos, que massageava o rosto e, com olhar apalermado, indagava da Ludmila a razão do tapa; Ludmila rilhava os dentes; dos olhos dela, fixos em Carlos, chispavam labaredas de ódio. A loira sorriu. Era evidente o seu ar malicioso, simultaneamente divertido e constrangido, de pudor e de malícia. Ela ajeitou o decote, e afastou-se. Não deixou de se voltar para o Carlos e a Ludmila, e sorrir, envaidecida. Envaidecida, sim, pois ela inspirou ciúme a Ludmila, a ponto de ela desferir um tapa no Carlos. Qual mulher não se envaidece de, simultaneamente, e sem esforço, excitar o desejo de um homem e o ciúme de uma mulher, usando, unicamente, as curvas do seu corpo? A Ludmila berrou, para que todo o mundo a ouvisse: ‘Safado!’, e desferiu um tapa na cara do Carlos. ‘O que… Ludmila!’, perguntou-lhe Carlos, surpreso, atoleimado. ‘Tu não podes ver um rabo-de-saia’, censurou-o Ludmila; ‘Eu nada fiz, Ludmila’; ‘Esqueça-me, imbecil! Vá atrás da loira oxigenada! Gostaste dela? Leve-a contigo, idiota’. O Carlos abanou a cabeça, moveu os braços, emudecido, e olhou em torno de si. Curiosos fitavam-no. Sorriam à socapa, uns; gargalhavam, outros, com todos os dentes à mostra, vergando-se para trás. Um escândalo! Que escândalo! Delícia de escândalo! Eu não sabia o que dizer. O que eu diria? Calei-me. Olhei para o Carlos. Olhei para a Ludmila. Olhei, constrangida, em torno. O que eu diria? O que eu diria, e para quem? Eu nada disse. Constrangedor! A Ludmila pegou a bolsa, levantou-se; batendo o pé, foi-se embora. Que escândalo! Que maravilha de escândalo!”.

*

– Sabes da nova? Hoje, no restaurante Comidas Típicas, almocei com a Rúbia. Ela me disse que o Carlos e a Ludmila brigaram. Disse-me a Rúbia… Acompanhes a história. É hilária, e do teu interesse: “Almoçávamos, no restaurante Bom de Garfo… O almoço ia às mil maravilhas. Conversávamos. Bebíamos. Comíamos. Estávamos, lá, eu, a Cláudia, o Carlos e a Ludmila. Nos levantamos. Iríamos embora. Iríamos, eu disse. Não fomos; não naquele momento. E sabes por quê? No restaurante entrou uma loira de parar o trânsito. Uma loira belíssima. Uma deusa grega. Ela usava decote e minissaia. Todos olhamos para ela. Era impossível ignorá-la. Ela, àquele calor, se trajasse blusa de lã e calça jeans folgada, chamaria a nossa atenção, mais, até, do que chamou. De um corpo perfeito, a loira. Sabes o que aconteceu? A loira, involuntariamente, acredito, deixou cair a carteira no chão, e curvou-se para pegá-la, ignorando-nos, como se não estivéssemos lá, como se não houvesse ninguém no restaurante, como se o restaurante estivesse às moscas. Minha nossa! Os eventos sucederam-se em ondas até a cena derradeira. O Carlos… Ah! O Carlos. Ele arregalou os olhos, e boquiabriu-se. O que ele viu… Ele, que mal havia se levantado, sentou-se, e não desviou da loira os olhos arregalados, a boca aberta, o queixo caído. A Ludmila… A Ludmila, sem pensar duas vezes, beliscou o Carlos, tirando-o do estado hipnótico no qual a loira o lançou. O Carlos fitou-a. Com um movimento brusco, levou a mão ao ponto no qual a Ludmila cravou-lhe as unhas. O berro seco do Carlos atraiu a atenção da loira, que, ao se levantar, voltou-se para ele, surpresa, curiosa, intrigada, viu-o massageando o braço, e voltou-se para a Ludmila, que, furiosa, esbravejou. O Carlos encolheu-se. Recuei uns dois passos. A loira esboçou reação, mas, constrangida, ruborizada, afastou-se, sob olhar dos curiosos, com passos firmes, fincando o salto dos sapatos no piso, e foi sentar-se, de costas para nós, à mesa, na outra extremidade do restaurante. Estou certa de uma coisa: o desejo da loira era o de esbofetear a Ludmila. A Ludmila, acredito, não a sobrepujaria numa luta corpo-a-corpo. As pessoas presentes adorariam assistir a tal espetáculo; imperdível, se se sucedesse. A Ludmila escapou de uma surra. O Carlos… Ah! O Carlos! Enquanto a Ludmila vituperava a loira, ele me fitava, abismado, na expectativa, certo de que a Ludmila o repreenderia, ao estilo dela; aos berros, o insultaria, e, ele previa, desferir-lhe-ia um bofetão que lhe deformaria o rosto. Coitado! Antes mesmo de encerrar às ofensas contra a loira, a Ludmila disse para o Carlos: ‘Tu és como todos os homens. Não podes ver um rabo-de-saia. Gostaste da loira oxigenada? Vistes a celulite? É de loiras oxigenadas que tu gostas? Vistes o silicone? Carlos, esqueça-me. Suma da minha frente, vagabundo’. O Carlos, coitado, abobalhado, emudecido, levantou-se, hesitante, enquanto massageava o braço, e afastou-se; antes de transpor o enquadramento da porta, olhou, por sobre o ombro esquerdo, para a Ludmila, que, à minha frente, olhava para a loira e resmungava obscenidades. Paguei pelo almoço, e nos retiramos.” Ouviste, atentamente, a narrativa? É do teu interesse, não é?

*

– A Ludmila, a namorada do Carlos, aquela morena… O Marcelo contou-me, há uns quatro dias… Quando? Não importa. Ele me disse que a Ludmila, o Carlos, a Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom… Sabes o que ele me disse? Imaginas? Não imaginas? Tu conheces aquela figurinha carimbada. Foi na lanchonete Bem Bom, ou no restaurante Comidas Tropicais. Tu conheces o restaurante Comidas Tropicais? Ótimo restaurante. O Marcelo disse-me que a Rúbia contou-lhe que a Ludmila e o Carlos saíram no tapa lá no… Comidas Tropicais, se não me engano. Não. Não foi no Comidas Tropicais. Foi na lanchonete Bem Bom. O Marcelo e a Rúbia almoçaram, dias atrás, no restaurante Bom de Garfo. Tu conheces a Rúbia e o Marcelo. O Marcelo, tu sabes, adora manter as pessoas bem informadas. Ele capta informações no ar, via respiratória. Ele é dotado de radar potentíssimo, e sabe, também, como espalhar as notícias. Não sonega nomes, nem as minúcias dos eventos. É incomparável a sua vocação para jornalista investigativo. Pergunto-me porque ele não envia o curriculum para um tablóide britânico. Faria sucesso estrondoso nas cercanias de Stonehenge; e, no outro lado do canal da Mancha, repetiria o sucesso obtido na ilha dos bretões. Ou não? Ora, os franceses têm reputação de sisudos e racionais. Porém… Conte-lhes, aos macambúzios germanos… gauleses descendentes de Asterix, uma boa aventura… Eles perderão a compostura. Os taciturnos revelarão a verdadeira face da alma gaulesa. Basta de embromação. Basta deste chove, chove, e não molha. Basta de blábláblá. Basta de lengalenga. Vamos ao que nos interessa. O Marcelo, gozando do prazer de relatar um episódio jocoso protagonizado por dois amigos, disse-me: “A Rúbia e o Cláudio, na lanchonete Bem Bom, comiam, a Rúbia, um pudim de laranja, e o Cláudio, um pudim de pêssego, e bebiam, o Cláudio, suco de uva, e a Rúbia, refrigerante de limão. Conversavam, animados. Falavam de trivialidades. Chamou-lhes a atenção a voz inconfundível da Ludmila. Sabemos que ela é discreta e sabe se comportar em público. A gargalhada… Ao sentir olhares cravando-se neles, o Carlos chamou a Ludmila à razão. Ela, com sorrisinho malicioso… aquele sorriso… O que ela e o Carlos conversavam? Não sei o que eles falavam… Mas posso imaginar do que se tratava… A Ludmila… O Carlos… Conheço-os como conheço as palmas das minhas mãos. A Ludmila viu a Rúbia e o Cláudio, acenou para eles, e foi, puxando o Carlos, até eles. Saudou-os. Puxaram, cada um, uma cadeira, e sentaram-se, o Carlos à direita da Ludmila, que se sentou à direita da Rúbia. A conversa ia animada. A Ludmila e a Rúbia falavam de vestidos e sapatos, e o Cláudio e o Carlos, de futebol, carros e motos, e insinuaram comentários a uma atriz americana, aludiram aos encantos dela; dariam sequência à conversa, mas o olhar de poucas amigas da Rúbia e da Ludmila os obrigou a retomarem a conversa sobre motos, carros e futebol, três das cinco maiores paixões dos homens. Assunto ia, assunto vinha, riam, gargalhavam, tranqüilos, até que… Música de suspense. Interrompo a narrativa, para criar expectativa. Suspense. Como se dará a sequência desta aventura? Não perca os próximos capítulos desta novela cuja trama intrigante enfeixa drama, comédia, tragédia, tragicomédia, capa-e-espada, cavalaria andante, sertão nordestino, praias cariocas, favelas, planaltos, metrópoles, periferia… O que deu por encerrada a animada conversa de Ludmila, Rúbia, Carlos e Cláudio? Uma loira. Uma loira? Sim, uma loira. Uma loiraça. Não foi uma loira qualquer. Foi uma loira de parar o trânsito e provocar engarrafamento quilométrico. Esqueça os engarrafamentos em São Paulo. Diante do congestionamento que a loira pode provocar, nada significam. Então, retomemos o relato. A loira, com vestido decotado, recendendo perfume irresistível… Ela era irresistível; com o perfume ia além do irresistível. Era o suprassumo da loirice. Um esplendor da natureza! Uma das sete maravilhas do mundo. Um petisco! Ela se aproximou do Carlos, sorrindo, e, exibindo os dentes lindíssimos, os olhos o irradiar felicidade contagiante, com voz maviosa, sedutora, disse-lhe: ‘Oi, lindo, lembra-se de mim?’, e reclinou-se, para beijá-lo, no rosto. Não o beijou, entretanto. Sabes quem a impediu de beijá-lo? A Ludmila. Quem mais poderia ser? A Ludmila deslocou-a com o cotovelo, avançou ao Carlos, e desferiu-lhe um tapa, que ecoou pelo restaurante, escapou para a rua, ganhou o bairro, foi ouvido em toda cidade, cujos limites territoriais venceu, e, em ondas incontíveis, espraiou-se, após atravessar o oceano Atlântico e o oceano Pacífico, pela Europa, pela Ásia e pela América do Norte. A loira arregalou os olhos e boquiabriu-se. Desequilibrada, quase caiu. O Carlos tratou de se afastar do alcance das mãos da Ludmila. Como ela é pacífica, serena, ele não ficou com o olho roxo, ou azulado, ou avermelhado, sei lá. Uma mescla de magenta, lilás, roxo, azul e vermelho alaranjado. Sortudo, o Carlos. Todavia, ele não escapou das broncas. E a Ludmila… Ah! Ela encarou a loira. Gritou para ela: ‘Vagabunda!’. ‘Ludmila, acalme-se’, solicitou-lhe, servil, Carlos. ‘Acalmar-me, Carlos. Tu e essa loira oxigenada são dois vagabundos!’ A loira retirou-se, com o rabo por entre as pernas. E que pernas! O Carlos e a Ludmila discutiram. Um escândalo! Tu tinhas de estar lá para ver.” Eu gostaria de estar lá para ver. Eu queria ser testemunha ocular da briga. Eu queria ver a Ludmila humilhando o Carlos! Foi divertido, imagino. A Ludmila é mulher corajosa, e não teme escândalos. Ela desancou a loira e o Carlos. Falou grosso com ele. Que grosserias ele ouviu! Disse-me o Marcelo que o Carlos, a Rúbia e o Cláudio ficaram ruborizados. O Carlos adquiriu as feições de um pimentão, a fisionomia de um tomate maduro. Eu queria assistir ao espetáculo. Ah! Esquecia-me: a Ludmila e o Carlos romperam o namoro. É a minha chance de abordar a Ludmila… Ora, abordá-la, abordei, e não foram poucas as vezes. Insinuei-me. Ela me rejeitou. Agora, o caminho está livre para mim. E não perderei o meu tempo… A Ludmila não me escapará. E manterei o Carlos afastado dela. Inventarei histórias cabeludas. Para o Carlos, pintarei a Ludmila com as cores mais escuras; para a Ludmila, direi cobras e lagartos do Carlos. Não serão cobras quaisquer, e tampouco quaisquer lagartos. O Carlos nunca mais irá olhar para a Ludmila, que nunca mais irá olhar para ele. Escrevas no teu diário: O Marcos namorará a Ludmila.

*

– O Marcos disse-me que tu e o Carlos brigaram, na lanchonete Bom Apetite, dias atrás.

– Eu e o Carlos nunca fomos à lanchonete Bom Apetite.

– Não?

– Não.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo que, dias atrás, tu e o Carlos brigaram.

– Há três meses eu e o Carlos não entramos no Bom de Garfo. Quando eu e ele entramos, lá, pela última vez? Não me recordo. Faz tanto tempo, que não conservo tal episódio na memória. Reminiscências trazem-me à mente um almoço, lá, no aniversário da Paula, há quatro meses. Quando foi o aniversário da Paula? Há muito tempo. Há um século. Eu e o Carlos brigamos… Eu gostaria que me dissessem quando isso aconteceu, porque eu não soube dessa briga. Não assisto aos telejornais…

– O Marcos disse-me que, na lanchonete…

– Tu acreditas no Marcos? Ele conta cada história da carochinha… Cada lorota! Ele inventa e reinventa as histórias que lhe contam. Pergunte-lhe o que ocorreu entre eu e o Carlos, na próxima vez que o encontrar, e ele dirá que nos viu eu e o Carlos, na praia, num quiosque, bebendo, eu, água de coco, e o Carlos, cerveja, vestindo, eu, biquíni fio-dental amarelo, e o Carlos, sunga azul, e eu, que nunca subi numa prancha de surfe, surfando, e o Carlos, que nunca chutou uma bola, jogando futvôlei…

– O Marcos não inventou nenhuma história. Ele me disse que o Marcelo disse-lhe que tu e o Carlos brigaram na lanchonete Bom Apetite.

– Eu e o Carlos nunca fomos lá.

– Então, foi no restaurante Bom de Garfo…

– Eu e o Carlos, há meses, não vamos lá, como eu já disse.

– Então, não sei. Foi em outra lanchonete, então. Ou em outro restaurante. O Marcos disse-me que, na sexta-feira, o Marcelo, a Rúbia, tu e o Carlos…

– O Marcelo e a Rúbia, comigo e com o Carlos, num restaurante? Há mais de um mês não vejo o Marcelo. A Rúbia… Conversei com ela, pela última vez, na véspera da minha viagem, para o Rio Grande do Sul, com meu pai e minha mãe, em visita ao meu avô, que completou o nonagésimo aniversário, há vinte dias. Hoje… Que dia é hoje? Vinte e sete. O aniversário de meu avô, no dia seis, foi num domingo. Eu, meu pai e minha mãe fomos ao aeroporto, no sábado, pela manhã; na sexta-feira, à tardezinha, nos encontrávamos, eu e a Rúbia, na livraria Assis, dia quatro, portanto, há mais de vinte dias. A tua história não está bem contada.

– O Marcos falou-me da briga…

– Eu e o Carlos não brigamos. Que eu me lembre, não. Briguei com o Carlos? Briguei… E não me informaram…

– Não sejas irônica… Esta história… Se é verdade… Tu me diz que não brigou com o Carlos… Acredito… Mas o Marcos narrou-me, com detalhes constrangedores, a tua briga com o Carlos. Falou-me, e não se furtou a tecer elogios, de uma loira oxigenada…

– Ah! Sei qual história o Marcos te contou… Quero dizer, não sei qual história ele te contou. Se ele narrou uma história que culminou numa briga… Ora, ele adulterou os eventos… Briga… Eu e o Carlos não brigamos. O que eu poderia dizer… Não sei o que ele te disse… Como se diz, quem conta um conto… O Marcos ouviu um conto; ao contá-lo, aumentou… Quantos pontos? Não briguei com o Carlos, Márcia.

– Não? Mas o Marcos…

– Ora, o Marcos! Esqueça-o. Diria minha avó: ele fala mais do que a negra do leite. Não a conheço. Vovó conheceu-a, e diz que ela falava demais. Dá, a taramela, com a língua nos dentes, e não sabe manter a língua dentro da boca.

– Ele me disse com tanta convicção…

– Esclarecer-te-ei o enigma. Contar-te-ei a história, exatamente como transcorreu. No encerramento, tu não ignoras, não se dá uma briga, tampouco uma discussão envolvendo eu e o Carlos. Não se ouviu insultos, nem palavras azedas, nem interjeições viperinas. Os contadores mal-intencionados de histórias são tão convictos… Querem acreditar no que dizem… Basta de tagarelice. Não percamos o nosso tempo… Eu e o Carlos não brigamos, estejas certa. Que eu me recorde, nunca brigamos. Discutimos de vez em quando… Isto é, todos os dias. Briguinhas de namorados. Bobagens. O Carlos, tu sabes, é um pouco ciumento. Se eu uso camisa decotada, ele me repreende; se uso minissaia, ele me reprova; se me atraso para um encontro, ele me censura, e me diz que me demoro, embelezando-me. Quanto a isso, é verdade. Gosto de me reproduzir. Adoro mirar-me ao espelho. Sou maravilhosa, eu sei. Não precisa me dizer isso. O Carlos gosta e, ao mesmo tempo, não gosta, principalmente quando outros homens olham para mim… Além das discussõezinhas, nada de sério. Nos entendemos. Ele é um namorado gentil e carinhoso. O homem com que sonhei. Um príncipe encantado. Um amor. Quanto ao que aconteceu… O que aconteceu? Esqueças o que o Marcos te disse. Ele não sabe o que aconteceu. Queres saber o que aconteceu? Tu te surpreenderás. Ao encerramento, irás rir à bandeiras despregadas, diria um vetusto senhor grisalho. Ouças: eu e o Carlos não brigamos, na lanchonete Bom Apetite. Brigamos, na sorveteria Palito de Ouro. Brigamos… Direi que eu e ele brigamos. Para todos os efeitos, brigamos. E eu e a loira oxigenada nos enrolamos num arranca-rabo que foi um escândalo. Na sorveteria Palito de Ouro, num sábado, eu, o Carlos e a Cláudia passamos bons e agradáveis momentos, conversando, chupando sorvetes. Falamos de todos os assuntos que nos vinham à mente. Falamos mal das vizinhas da Cláudia, do ex-namorado dela, o Rômulo, e do… Do que mais falamos? Não me recordo. O melhor momento ainda estava por vir, e foi uma loira lindíssima que no-lo proporcionou. Tu tinhas de ver. Era sábado. Calor de derreter o cérebro. Chupei sorvete de morango, de laranja, e napolitano, se não me engano. O Carlos, um de chocolate, e… Não sei. E a Cláudia… Sei lá. Atente para este detalhe: Estávamos na sorveteria Palito de Ouro. Esqueças a lanchonete Bom Apetite e todas as outras lanchonetes. Eram quatro horas da tarde. O calor nos rachava a cabeça. O Carlos suava em bicas. Derretia-se. Eu, ele e a Cláudia degustávamos sorvetes gelados quando, na sorveteria, entrou uma loira de parar o trânsito. Uma boneca. A Barbie, sem tirar nem pôr. Pensei, até, em pedir-lhe um autógrafo. Ela usava uma camisa decotada e uma minissaia. Tão bela. Tão linda. Todos olhamos para ela. Imagines uma loira lindíssima de minissaia, camisa decotada e sapatos de saltos altos. Ela passou pelo Carlos, esbarrou-lhe a mão no braço, e o Carlos derrubou o sorvete. E a loira… Sabes o que ela fez? Pediu desculpas para o Carlos, e se abaixou para pegar o sorvete. Imagines a cena. A loira usava camisa decotada. Imagines a cara do Carlos. Olhei para a Cláudia; a Cláudia olhou para mim. Sorrimos. O Carlos ficou vermelho. A loira pediu-lhe desculpas. Ela não percebeu, é certo, constrangida que estava, que o Carlos não tirava os olhos do decote.

– Tu não brigaste com o Carlos?

– Não. Por que eu brigaria com ele? A loira esbarrou-se nele, e ele derrubou o sorvete. Por que eu brigaria com ele? Por que ele olhou para a loira? Ora, o Carlos é um homem. A loira, bonita, linda, um pedaço de mal caminho. Além do mais, foi um acidente. Um acidente engraçado. O Carlos transformou-se num pimentão. A loira foi-se embora. Fingi que estava brava com o Carlos, e dei-lhe tapas na cara. Tapinhas que não doem, e disse-lhe que eu nada queria com ele, e que ele fosse procurar a loira oxigenada. Diverti-me com o episódio. O Carlos, constrangido, não sabia o que dizer, não sabia para onde olhar. E mais uma coisa: a loira não era oxigenada. Era uma loira autêntica, bonita e atraente. Ah! Eu, brigar com o Carlos! Ele é um amor. Eu e ele nos casaremos daqui um mês. O Marcos… Ele… Se vier ter comigo, lhe baterei a porta na cara.

Más notícias… Quem aguenta?

Ligo o telejornal (de qualquer emissora) e lá vem um tsunami de más notícias, todas desimportantes: bandido assaltou uma lojinha lá onde Judas perdeu as botas, e matou uma pessoa; um desbarrancamento, na cidade Tal, perto da cidade onde Judas perdeu as botas, matou uma pessoa; na cidade que fica perto do inferno um homem flagrou sua esposa com o Ricardão, aos beijos e amassos, mais amassos do que beijos, matou os dois, e matou-se em seguida com um tiro na testa; na cidade Qual, que fica nas proximidades de um lugar que não está no mapa, mulher matou, com três facadas, a amante do marido; e na cidade Talqual um homem, pra lá de Bagdá, matou, à pedradas, um cachorro vira-lata, que lhe tirou das mãos, com uma dentada, o pedaço de pão… E dá-lhe pormenores!!! Quem vive bem injetando, direto na veia, quero dizer, no cérebro, uma dose diária de más notícias?

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